TEORIAS ORGANIZACIONAIS E A NOVA ECONOMIA INSTITUCIONAL:
UMA DISCUSSÃO ACERCA DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS
ORGANIZAÇÕES
[email protected]
Apresentação Oral-Economia e Gestão no Agronegócio
RAQUEL BREITENBACH; JANAÍNA BALK BRANDÃO; RENATO SANTOS DE
SOUZA.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA, SANTA MARIA - RS - BRASIL.
Teorias Organizacionais e a Nova Economia Institucional: uma discussão
acerca dos elementos constitutivos das organizações
Grupo de Pesquisa: Economia e Gestão no Agronegócio.
Resumo
Além da complexidade em torno da definição de organizações, também se estabeleceu, ao
longo da história, diferentes perspectivas e paradigmas em teorias organizacionais, os quais
se somam num processo de construção histórica. Este artigo buscou resgatar parte dessa
história, destacando algumas das principais transformações e, posteriormente, focar na
perspectiva organizacional contemporânea denominada Nova Economia Institucional.
Também foram identificadas as principais limitações da NEI e da Economia dos Custos de
Transação e, a partir delas, buscou-se demais elementos constitutivos das organizações que
complementassem a teoria em questão. Os principais elementos discutidos foram a cultura,
o poder e o capital social. Estes se relacionam diretamente com o comportamento e a
subjetividade humana, permitindo considerar as organizações como processos sociais e/ou
socialmente construídas.
Palavras-chave: teorias organizacionais, pressupostos comportamentais, economia dos
custos de transação.
Organizational Theories and the New Institutional Economy: a discussion
about the constituents of the organizations
Abstract
Besides the complexity around the definition of organizations, also established, throughout
history, different perspectives and paradigms in organizational theories, which are added in
a historic building process. This article sought to redeem part of that history, highlighting
some of the major transformations and, subsequently, focused on contemporary
organizational perspective called New Institutional Economics. Also were identified the
main limitations of the NIS and of the Economy of Transaction Costs, and from them, it
were searched other components of organizations that complement the theory in question.
The main points discussed were the culture, the power and the social capital. Those are
relates directly to the behavior and human subjectivity, enabling organizations to consider
the social processes and / or socially constructed.
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Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009,
Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural
Keywords: organizational theories, behavioral assumptions, economy of transaction costs.
1- Introdução
O termo organizações apresenta-se como de difícil definição, recebendo, ao longo
da história, olhares e preocupações diferenciadas. Além disso, destaca-se a existência de
variados tipos de organizações, podendo ser sem fins lucrativos, públicas, privadas,
filantrópicas, ONG’s (organizações não-governamentais). Os tipos de organizações
diferenciam-se um dos outros, bem como se diferenciam as organizações pertencentes a
uma mesma categoria, visto que cada uma delas possui características específicas.
Clegg e Hardy (1999) chamam a atenção para a complexidade que envolve a
definição de organizações. São consideradas, por estes autores, objetos empíricos e que, ao
serem observadas, permitem que cada observador possa ver nelas algo diferente, ou seja, se
reconhece o individuo com suas subjetividades e não como um observador neutro. Nesse
caso, as organizações são vistas como processos sociais e como construídas socialmente,
suas características estão enraizadas na maneira de ser e de se organizar dos indivíduos que
as compõe.
Dentre as transformações históricas ocorridas nos estudos organizacionais,
destacam-se as mudanças nas delimitações das organizações. Estas ocorrem à medida que
as entidades se fundem, se descaracterizam, ocorrendo a formação de cadeias, redes,
conglomerados e alianças estratégicas, na busca de colaboração entre organizações para
resolver problemas empresariais. Essas mudanças abrem espaço para a necessidade de uma
mudança de foco (nível) das análises organizacionais (ex: agronegócio, cadeias produtivas,
cadeias de suprimentos).
No que se refere à teoria das organizações, constata-se que tem evoluído
consideravelmente desde os primeiros estudiosos de análise organizacional. De um modo
geral, a mudança mais significativa envolve a passagem do uso de métodos da ciência
normal (preocupada unicamente com a estrutura das organizações e utilizando métodos
comparados aos utilizados para estudar a natureza) para análises que consideram também
as variáveis humanas, traços de personalidade e comportamento, bem como consideram
questões culturais e de poder dentro das organizações.
Porém, esse período de transformação das teorias envolveu diferentes perspectivas1
e diversos paradigmas2. Também ocasionou uma aproximação de diferentes áreas para o
estudo organizacional, tais como a economia, administração, psicologia e demais ciências
sociais.
Dessa forma, percebe-se que as dicotomias entre diferentes áreas de estudo e
diferentes teorias vem sendo eliminadas aos poucos, principalmente ao observarmos a
associação destas na busca de entender as organizações e o porquê de serem de uma ou de
outra forma. Porém, esse processo de integração teórica aponta a necessidade de avanços,
seja a partir de construções teóricas e/ou aplicações em estudos empíricos.
A Nova Economia Institucional apresenta-se como uma perspectiva teórica
contemporânea em análise organizacional e tenta construir, internamente à teoria, uma
ponte entre as perspectivas econômicas e sociológicas. Afirma-se isso visto que ela
1
Perspectivas são aqui entendidas como a forma de enxergar as coisas.
Paradigma estabelece limites, tem um modo próprio de teorizar e é dependente de um grupo de perspectivas
comuns.
2
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considera, a partir de sua principal teoria (a Economia dos Custos de Transação - ECT), o
ambiente institucional como importante fator de contingência das organizações. Esse
ambiente institucional seria composto por regras informais como sanções, tabus, costumes,
tradições e códigos de conduta, e pelas regras formais, tendo como principais as
constituições, as leis e os direitos de propriedade.
Todavia, os estudos empíricos que visam a aplicação dessa teoria, especialmente
ligados ao agronegócio, cadeias produtivas, cadeias de suprimento3, apresentam algumas
limitações nas análises organizacionais, principalmente por não considerar fatores
importantes relacionados ao comportamento humano. Apesar de constarem no arcabouço
teórico, estas análises acabam limitando-se a racionalidade limitada e ao oportunismo
(pressupostos comportamentais da ECT) e não exploram outros elementos constitutivos e
condicionantes das organizações, como é o caso dos aspectos culturais e das questões de
poder.
O que este artigo se propõe é buscar estabelecer uma relação entre a Economia dos
Custos de Transação e demais condicionantes organizacionais relacionados ao
comportamento humano, especificamente as questões culturais, de poder e capital social,
indo além do oportunismo e da racionalidade limitada tratados pela ECT. Estes são
considerados como importantes fatores que interferem nas formas organizacionais, na
escolha de uma ou de outra organização ou governança.
O artigo organiza-se da seguinte forma: inicialmente descreve-se algumas questões
consideradas essenciais para o entendimento da evolução das teorias organizacionais,
tendo como base os trabalhos de Marsden e Townley (2001), Hatch e Cunliffe (2006),
Reed (1999) e Burrel e Morgan (2005); posteriormente, descreve-se os principais alicerces
da Nova Economia Institucional e da Economia dos Custos de Transação, bem como seus
objetivos e objetos de estudo. Nesse caso, os estudiosos de base e que deram forma à teoria
são Coase (1937) e Williamson (1975, 1981 e 1985). Por fim, a partir das principais
críticas à ECT, busca-se desenvolver uma discussão acerca de poder, cultura e capital
social, considerando esses fatores (além dos já trabalhados pela ECT), como elementos
constitutivos e condicionantes das organizações. Nesse caso, estes condicionantes são
apontados como fatores importantes a serem considerados pelos estudos empíricos que
utilizam como base de análise a ECT.
2 - Teorias Organizacionais (TO)
A evolução a seguir apresentada, busca demonstrar que as perspectivas atuais de
análises organizacionais são fruto de um processo de construção histórico e, por mais que
busquem novas formas de estudos empíricos, não se desprendem totalmente de
características de outras teorias (como características da ciência normal, por exemplo).
Muitas vezes têm nomes e caras novas, mas a essência permanece a mesma, reproduzindo
antigos modelos que não levam em conta, ou não de forma satisfatória, a subjetividade
humana, presente e condicionante das organizações.
A diferença básica entre a teoria do senso comum e a teoria dos estudiosos
organizacionais é que a este se adiciona a tarefa de especificar as suas práticas, corrigir os
seus erros e partilhar as suas teorias com os outros, contribuindo assim para os esforços de
construção de conhecimento sistemático. Hatch e Cunliffe (2006) entendem a teoria como
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Pode-se perceber essas limitações em Breitenbach (2008).
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uma explicação enraizada na especificação dos relacionamentos entre um conjunto de
conceitos. A partir disso, os autores fazem o alerta de que a teoria deve ser usada como
uma ferramenta para ajudar a razão através de situações complexas, mas não como uma
garantia de sucesso.
A Teoria das Organizações (TO) contribui para a análise de situações complexas
nas organizações, descobre ou inventa meios eficazes e criativos para lidar com elas, além
de abrir a mente para aspectos da vida, dentro e fora das organizações. Quando Hatch e
Cunliffe (2006a) se referem à teoria das organizações, destacam que esta sempre irá
abraçar múltiplas perspectivas, porque dá inspiração a uma ampla variedade de outras
áreas de estudo, e porque organizações sempre permanecerão complexas e flexíveis,
dificultando que sejam resumidas por uma única teoria.
Uma expressiva parte da riqueza dos estudos organizacionais é apresentada nos
trabalhos de Clegg e Hardy (1999), Marsden e Townley (2001), Hatch e Cunliffe (2006),
Reed (1999), Burrel e Morgan (2005), considerados, aqui, como importantes referenciais
teóricos. Clegg e Hardy (1999) relatam o predomínio das abordagens da ciência normal por
um grande período nos estudos organizacionais. Marsden e Townley (2001) desenvolvem
um debate acerca de diferentes abordagens das teorias das organizações. Destacam que
muitas das discussões existentes nesse meio foram baseadas na questão da possibilidade ou
não das organizações serem estudadas da mesma forma que a natureza. Já para Hatch e
Cunliffe (2006), a teoria organizacional tem sua evolução em quatro grandes perspectivas:
clássica, moderna, simbólica interpretativa e pós-moderna. Reed (1999) concentra suas
discussões em temas como racionalidade, integração, mercado, poder, conhecimento e
justiça. Por fim, Burrel e Morgan (2005) entendem a análise organizacional por meio de
quatro paradigmas: funcionalista, interpretativo, humanismo radical e estruturalismo
radical.
Na evolução histórica da Teoria Organizacional, as abordagens da ciência normal
predominaram por um longo período. Clegg e Hardy (1999) usam o termo protecionismo
e/ou isolacionismo para denominar as estratégias utilizadas pela maioria dos adeptos das
abordagens da “ciência normal”, na busca da “defesa das fronteiras” dos seus
conhecimentos. Nesse caso, os autores fazem analogia com os termos utilizados na
economia, como é o caso do protecionismo em oposição ao livre comércio. O
protecionismo ocorre a partir do momento que autores consagrados da área acabam criando
barreiras a entrada de novas idéias e/ou novos conhecimentos na “sua” comunidade
científica. Assim, nega-se a realidade e a legitimidade das aspirações dos demais
pesquisadores que são por eles considerados entrusos.
Para Marsden e Townley (2001) a ciência organizacional normal desenvolveu-se
na crença de que as organizações são coisas duras, empíricas e capazes de serem estudadas
usando-se técnicas científicas. Justificaria-se isso por uma história teológica e,
conjuntamente a ela, a noção de que as coisas simplesmente não poderiam ser diferentes.
Daí decorre a idéia de racionalização e a crença que a burocracia formal é um dos meios
mais eficazes de atingir os objetivos organizacionais. Por esse motivo, os métodos de
pesquisa semelhantes aos utilizados nas ciências naturais foram por muito tempo
empregados na teoria organizacional. O modelo da ciência natural era considerado como
exemplo de boa pesquisa.
Acerca do conceito positivista de ciência, institucionalizado pela Escola de Aston,
os autores destacam que acaba por cortar a conexão entre teoria e prática organizacional.
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Os motivos apontados por Marsden e Townley (2001) para que isso ocorra são: a ênfase
nos testes; leis gerais são deduzidas da manipulação estatística; os cientistas
organizacionais estão tão envolvidos na ciência de testes e hipóteses que, muitas vezes,
perdem de vista a utilidade prática da teorização.
Já a ciência organizacional contra-normal, desenvolvida durante a década de 70,
reduziu as forças da concepção positivista prevalecente na prática da ciência. A tentativa
era restabelecer o que a racionalização tentou remover de forma prática e o que a ciência
normal tenta obscurecer de forma teórica, que são as características humanas da
organização que escapam aos cálculos; ou seja, a afetividade humana. A abordagem da
ciência organizacional contra-normal está baseada na convicção de que as organizações
são distintas dos fenômenos naturais, são socialmente construídas e devem ser explicadas
pelo conhecimento das intenções que fazem as pessoas agirem. Para isso, é necessário um
conjunto de técnicas completamente diferentes das utilizadas pelos pesquisadores
organizacionais positivistas.
Marsden e Townley (2001), ao se referirem ao pós-modernismo, destacam que ele
questionou a validade da ciência moderna e a noção de conhecimento objetivo ou verdade.
Surgiu do reconhecimento da impossibilidade de uma observação teoricamente neutra, e
passou a enfatizar as diferenças, ambivalências, contradições internas e dependência
mútua.
A contribuição de Hatch e Cunliffe (2006) reside nas suas reflexões acerca do
conhecimento geral e do conhecimento em teorias organizacionais. Para os autores, o
conhecimento se baseia em diferentes paradigmas, cada um com seus próprios
pressupostos sobre a palavra. Paradigmas incentivam os pesquisadores a estudarem os
fenômenos em diferentes viézes. É com base nessa idéia, que os autores descrevem as três
perspectivas (moderno, simbólico-interpretativo e pós-moderno), baseadas em diferentes
pressupostos sobre o mundo organizacional.
Para os autores, a perspectiva modernista considera como conhecimento o que você
pode saber através de seus cinco sentidos; a perspectiva simbólica-interpretativa se dispõe
a alargar a definição da realidade empírica para incluir formas de experiências que estão
fora do alcance dos cinco sentidos, tal como acontece com as emoções e intuição. Já os
pós-modernistas parecem variar entre posições filosóficas. Muitas vezes recusam-se a
tomar uma posição porque acreditam que ao fazê-lo privilegiam algumas formas de
conhecimento em detrimento de outras. Cada conjunto de pressupostos ontológicos e
epistemológicos exercerá uma influência diferente sobre a maneira de conceber e gerir a
organização. Os autores destacam que seria um erro pensar que novas perspectivas têm
substituído as mais antigas. Nesse caso, as perspectivas acumulam-se na teoria da
organização ao longo do tempo e influenciam-se mutuamente.
Hatch e Cunliffe (2006) definem duas fontes principais de pensamento que deram
forma à pré-história da teoria da organização, uma sociológica e outra administrativa. A
fonte sociológica é representada por Emile Durkheim, Weber e Karl Marx, focada nas
formas, nos papéis e mudanças das organizações formais dentro da sociedade e nas
influências da industrialização na natureza do trabalho e dos seus trabalhadores. A teoria
da gerência clássica tomou forma com Frederick Taylor, Mary Parker Follett, Henri Fayol,
Luther Gulick, Chester Barnard, e por outros executivos/conselheiros em administração,
centrados sobre problemas práticos enfrentados por gerentes de organizações do setor
público e privado.
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Adam Smith foi o primeiro a articular uma teoria para explicar a produção eficiente
em práticas sistematicamente organizadas do trabalho. Muitos teóricos da organização dão
ao político-economista escocês Adam Smith o lugar de honra em suas histórias
intelectuais. Já a teoria de Karl Marx dizia que o trabalho vem ser definido como um
produto a ser comprado e vendido em um mercado de troca. Este conceito do trabalho dá
aos seres humanos um relacionamento puramente instrumental uns com os outros, baseado
no valor econômico de seu potencial de fazer o trabalho. Durkheim defendia a idéia que a
distinção entre a organização formal e informal expõe uma tensão entre o humanismo e os
aspetos econômicos da organização, sendo que estes desafiam gerentes. Durkheim ajudou
fundações metodológicas positivistas.
Weber propôs que a burocracia poderia racionalizar a ordem social numa maneira
similar à influência de racionalização da tecnologia na ordem econômica. Tais sentimentos
posicionam Weber perto daqueles que criticam a teoria da organização modernista e
tentam livrar a humanidade das práticas freqüentemente restritivas da gerência. Taylor é
considerado o fundador da ciência da gerência administrativa. Integrou elementos nos
sistemas de gestão com a filosofia de que, ao aplicar métodos científicos para trabalhar,
maximizaria os benefícios da fábrica à sociedade e conseguiria altos níveis de cooperação
entre a gerência e o trabalho. Lenin, Stalin, e Henry Ford executaram as idéias de Taylor,
cada um de sua própria maneira. A gerência científica foi considerada por muitos
trabalhadores e proprietários empresariais como perigosa e subversiva, gerando resistência.
Aqueles que resistem a gerência científica, consideram que o trabalho estrito aliena a
maioria dos trabalhadores, que perdem o controle sobre suas práticas.
Seguindo com o resgate histórico dos principais teóricos organizacionais, realizado
por Hatch e Cunliffe (2006), temos Mary Parker Follet. Follet desenvolveu a idéia de que
os mesmos princípios que contribuem para a fortificação de comunidades sociais poderiam
ser aplicados para a criação de organizações bem sucedidas. Já Fayol, após a sua
aposentadoria, estabeleceu um centro para o estudo de administração, em um esforço para
codificar e transmitir a sabedoria que ele tinha ganho. Os princípios que ele próprio
desenvolveu envolvem questões tais como: o número máximo de subordinados que podem
ser supervisionados por um gestor; exceções à rotina (subordinados devem lidar com
questões rotineiras, deixando livres gestores para lidar com exceções às regras e
procedimentos operacionais padrão); departamentalização (departamentos formados ao
redor do agrupamento de atividades similares); unidade de comando (cada relatório deve
estar subordinado a apenas um patrão), e hierarquia. Argumentou que sentimento de
unidade e harmonia contribui para o bom funcionamento de uma organização. Fayol
também especificou as responsabilidades do gerente como: planejamento, organização,
comando, coordenação e controle.
Luther Gulick considerava os técnicos especializados como cruciais para o bom
funcionamento do governo, e a eficiência como algo positivo para os homens, além de
tornar a vida mais rica e mais segura. Gulick concebeu a definição do trabalho do Chefe do
Executivo: Planejamento, Organização, Efetivos, Diretor , Coordenador, Relato,
Orçamentação. Por fim, Chester Barnard enfatizou as formas como os executivos podem
desenvolver as suas organizações cooperativas em sistemas sociais, incidindo sobre a
integração do trabalho através de esforços de comunicação e metas, a atenção para
trabalhar a motivação.
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As contribuições de Reed (1999) podem ser consideradas importantes no contexto
desse trabalho. Apesar de destacar algumas teorias e evoluções teóricas acerca das
organizações, o autor chama a atenção para a importância da rejeição a extremismos
teóricos, especialmente quando debate temas opostos como: atuação e estrutura;
construtivista e positivista; local e global; individualista e coletivista. O autor faz ainda
importante contribuição ao apontar temas que deveriam constar nas agendas das análises
organizacionais: a questão de gênero (reconhecimento que os processos organizacionais
são permeados por relações e práticas de poder baseadas no gênero); de raça e etnicidade
(conjunto de práticas e identidades, resultantes de interações entre geografia, história e
poder – não simplesmente terminologias biológicas); da tecnociência (interação entre
cultura e tecnologia, entre natural e artificial, ex: cibercultura citada no trabalho de
Escobar, 1994); e desenvolvimento global e subdesenvolvimento (práticas culturais e
formas políticas condicionadas pelo relacionamento de exploração e dependência entre
países).
Burrel e Morgan (2005) também contribuem para a delimitação de teorias
organizacionais. Apresentam o que consideram ser os quatro paradigmas na teoria social:
o Paradigma Funcionalista, o Interpretativo, o Humanista Radical e o Paradigma
Estruturalista Radical.
Partindo desse resgate dos paradigmas, destacam-se como perspectivas teóricas
contemporâneas em análise organizacional a Dependência de Recursos, Ecologia
populacional, Contingência Estrutural, Nova Economia Institucional e Novo
Institucionalismo.
Essas perspectivas utilizam diferentes variáveis, conforme seus respectivos
pressupostos e tradições metodológicas. A Dependência de Recursos trabalha no nível das
interações ambientais e dos controles interorganizacionais; a Ecologia das Populações foca
a população de organizações e os nichos ecológicos; a Contingência Estrutural dedica-se
aos fatores ambientais que condicionam a forma organizacional; a Nova Economia
Institucional salienta os custos de transação e as formas de governança; e o Novo
Institucionalismo trata de como as organizações surgem, tornam-se estáveis e como são
transformadas (Sacomano Neto e Truzzi, 2002).
Como o objetivo central desse trabalho é o foco na NEI, nas suas limitações e nas
supostas formas de superá-las, a seguir serão descritas as características e os objetivos da
Nova Economia Institucional e da Economia dos Custos de Transação. Também serão
apresentadas algumas de suas limitações e as possibilidades de superá-las, supostamente a
partir da consideração de outras variáveis contingenciais das organizações, como é o caso
da cultura, do poder e do capital social.
3 - A Nova Economia Institucional (NEI) e a Economia dos Custos de Transação
(ECT)
A Nova Economia Institucional teve as primeiras contribuições em The Nature of
the Firm de Coase (1937), e desenvolveu-se a partir de duas ciências complementares, a
sociologia econômica e a teoria econômica. A primeira aborda questões como contratos,
leis, normas, costumes, convenções, etc (denominado de ambiente institucional), enquanto
que a segunda trata dos mecanismos de governança (Willianson, 1995). Essa abordagem
vem sendo utilizada para explicar as organizações e as formas organizacionais.
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A consideração e preocupação com o ambiente institucional são um diferencial da
NEI e da ECT. O ambiente institucional é o conjunto dos direitos políticos, sociais e
jurídicos, e das regras que estabelecem a base para a produção, troca e distribuição (Davis
e North, 1971, apud Willianson, 1995). As instituições são constituídas das regras
informais (sanções, tabus, costumes, tradições e códigos de conduta) e das regras formais
(constituições, a lei, o direito de propriedade) (North, 1991 apud Willianson, 1995). São
compostas por um conjunto de restrições sobre o comportamento, na forma de regras e
regulamentos; um conjunto de questões para detectar desvios em relação às regras e
regulamentos; e, finalmente, um conjunto de moral, ética comportamental e normas que
definem os contornos e que condicionam a forma como as regras e regulamentos são
especificados e executados (North 1984 apud Willianson, 1995).
A Teoria dos Custos de Transação, a principal teoria da NEI, foi desenvolvida por
Williamson (1975, 1981 e 1985) a partir do trabalho pioneiro de Coase (1937). Essa
abordagem sugere que os formatos organizacionais ou estruturas de governança (firma,
mercado ou redes, por exemplo) são resultado da busca de minimização dos custos de
transação por parte dos agentes econômicos.
A teoria dos custos de transação tem como pressupostos comportamentais básicos a
racionalidade limitada e o oportunismo (busca do interesse próprio com malícia), ambos
presentes nas ações dos agentes econômicos. São estes pressupostos a respeito da
competência cognitiva dos agentes e das suas motivações que provocam o surgimento de
custos de transações. É devido à limitação de racionalidade que os agentes econômicos são
incapazes de prever de forma antecipada e estabelecer medidas corretivas para qualquer
evento que possa ocorrer acerca da futura realização da transação. Portanto, as partes
envolvidas devem levar em conta as dificuldades derivadas da compatibilização das suas
condutas futuras e de garantir que os compromissos sejam honrados dentro da continuidade
da sua interação.
Quando há presença de assimetria de informações - caracterizada por um agente
deter um conhecimento a respeito de informações não disponíveis para os outros
participantes da transação - surge a possibilidade de que não existam incentivos suficientes
para que a parte detentora da informação privilegiada se comporte de modo eficiente.
O oportunismo pré-contratual é outro problema associado à presença de assimetria
de informações. Surge como conseqüência do fato de alguns agentes econômicos deterem
informação privada antes de se decidirem pela realização de um contrato com um outro
agente, sendo que tal informação é do interesse desse agente. Neste contexto, a presença de
oportunismo e de racionalidade limitada pode gerar custos de transação. A ausência do
oportunismo determinaria que as condutas dos agentes fossem consideradas confiáveis a
partir da simples promessa de que a distribuição de ganhos prevista nos contratos seria
mantida no futuro diante do eventual surgimento de eventos inesperados.
Já a existência da racionalidade limitada provoca, conseqüentemente, a
incapacidade de coletar e processar todas as informações necessárias à elaboração de
contratos completos. Se os agentes tivessem a capacidade de prever os eventos futuros, os
contratos seriam desenvolvidos sempre perfeitamente. Isso demonstra que essas duas
implicações (oportunismo e racionalidade limitada) são condições necessárias para o
surgimento de custos de transação.
Nas transações, se um dos agentes possui um conhecimento a respeito de
informações que não estão disponíveis para os outros agentes participantes da transação,
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pode não existir incentivos suficientes para que a parte detentora da informação
privilegiada se comporte de modo eficiente. Essa ausência de incentivos dá origem ao
chamado moral hazard (risco moral).
O risco moral é observado nas situações em que um participante do mercado não
pode observar as ações do outro, de modo que esse último pode tentar maximizar sua
utilidade valendo-se de falhas ou omissões contratuais. Com a presença do risco moral,
uma das partes da transação pode adotar atitudes que afetam a avaliação do valor do
negócio por parte dos outros agentes envolvidos (Possas, Fagundes e Pondé, 1998).
Três atributos básicos, relatados por Azevedo (2000), definem a transação: a)
freqüência; b) incerteza; e c) especificidade dos ativos envolvidos, sendo este último o
principal elemento, na visão de Williamson, responsável pela determinação do tipo de
coordenação (mercado, firma, etc.) a ser realizada no ambiente econômico. Neste caso,
quanto maior for a especificidades do ativo mais provável será a opção de internalização da
transação dentro da firma, através da coordenação via hierarquia ou através de redes
(formas híbridas via contratos de longo prazo), ao invés do emprego do mercado como
meio de coordenação.
A teoria desenvolvida por Williamsom (1885) traz quatro fatores como
determinantes do surgimento de ativos específicos: a) especificidade de natureza
locacional; b) especificidades derivadas da presença de ativos dedicados; c) especificidades
de natureza física; d) e especificidades do capital humano.
A freqüência de ocorrência de um certo tipo de transação deve ser analisada, pois
pode determinar surgimento de instituições especificamente desenhadas para sua
coordenação e a sua gestão. Quanto maior for a freqüência de realização da transação,
maiores serão os incentivos para o desenvolvimento de instituições estruturadas com o
intuito de geri-las de modo eficaz.
A incerteza é uma propriedade das transações que exerce influência sobre as
características das organizações. Para Kupfer (1992), a incerteza, na economia neoclássica,
é considerada como informação incompleta ou imperfeita, o que faz com que os agentes se
comportem de forma racional. Na incerteza não existem bases válidas que permitam
calculá-la ou antecipá-la, pois não existem regras que façam o passado se repetir no futuro.
Esta questão dificulta agir com racionalidade frente ao futuro, pois os agentes econômicos
formam expectativas de longo prazo subordinados à vigência de um estado de confiança
que é subjetivo e volátil.
Além disso, Buckley e Chapman (1997) complementam que os custos de transação
são compostos de elementos difíceis de “colocar em figuras”, ou seja, geralmente descartase a possibilidade de quantificá-los, pois muitas vezes estão entrelaçados com custos
normais, enumerados como custos de produção.
Quanto menor a especificidade dos ativos, menor a incerteza e menor a freqüência
das transações, menores serão os custos associados à utilização do mercado como forma
organizacional que coordene as interações mercantis entre os agentes econômicos. Nestes
casos, a transação se refere à simples transferência da propriedade de um bem ou serviço
em troca de uma determinada quantia de moeda, acompanhada de uma negociação prévia
do preço e das condições de pagamento.
A questão, portanto, está na busca de formas de minimizar os custos de transação,
através da procura de mecanismos contratuais - formais ou não - que desestimulem
conflitos e, caso estes surjam, os resolvam rapidamente. Uma das alternativas é evitar a
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dependência de fontes externas de fornecimento do insumo ou serviço em questão,
realizando, por exemplo, movimentos de integração vertical (Loader, 1992).
Em outras palavras, para diminuir os custos de transação, busca- se criar "estruturas
de gestão" (governance structures) apropriadas, entendidas como estruturas contratuais explícitas ou implícitas - dentro das quais a transação é realizada: relações de compra e
venda simples (mercado), organizações internas às firmas ("hierarquias") e formas mistas
constituem exemplos de estruturas de gestão distintas.
As estruturas de governança e as formas organizacionais, segundo a ECT, são
condicionadas pelo ambiente institucional vigente, especificamente no que se refere às
regras formais e informais às quais estão sujeitos os agentes envolvidos em uma transação.
Estas regras influenciam na formação das estruturas de governança na medida em que
regulam e regem a interação entre os agentes, por meio de leis, regulamentações, regras de
conduta, hábitos culturais, entre outros. Com isso, busca-se a redução de incerteza entre os
agentes e, também, a limitação dos termos da negociação, tais como quantidade, preço e
forma de entrega do produto. Além disso, a confiança estabelecida entre as partes bem
como a assimetria de poder na relação, são importantes determinantes das estruturas de
governança (Zylbersztajn, 2005).
3.1 - Críticas e limitações da Economia dos Custos de Transação para Análise
Organizacional
A ECT é considerada como uma importante ferramenta para análise organizacional
e para explicar as formas organizacionais ou, como destacado por Barney e Hesterly
(2004), para responder a questão de “por que as organizações existem?”. A resposta para
essa questão estaria, segundo os autores, no trabalho de Coase (1937) “The Nature of the
Firm”, e é exposta a seguir: “...a razão de as organizações existirem é que, às vezes, o custo
de gerenciar transações econômicas por meio de mercado é maior do que o custo de
gerenciar as transações econômicas dentro dos limites de uma organização” (Barney e
Hesterly, 2004, p. 132).
Williamson (1989), o principal artífice da ECT, em um dos seus trabalhos (As
instituições econômicas do capitalismo), compara essa teoria com outros enfoques de
estudo organizacional e destaca que a ECT é mais microanalítica, está mais consciente de
seus supostos de conduta, introduz e desenvolve a importância econômica dos ativos
específicos, recorre mais a análises institucionais comparadas, considera a empresa como
uma estrutura de governança antes que uma função de produção e atribui um peso maior
para as instituições contratuais ex post, especialmente no ordenamento privado (em
oposição ao ordenamento judicial).
Porém, a ECT aplicada à análise organizacional possui algumas limitações, como
as destacadas por Reed (1999), Hall (1990), Barney e Hesterly (2004) e por Garcia e
Bronzo (2008), e descritas a seguir.
Para Reed (1999) a teoria dos custos de transação se preocupa com ajustes
adaptativos que as organizações realizam para enfrentar as pressões de maximização da
eficiência em suas transações (internas e externas). O autor critica essa abordagem
afirmando que trata a organização como constituída de uma “ordem social e moral na qual
os interesses e valores individuais e grupais são simplesmente derivados de uma estrutura
de ‘interesses e valores do sistema’, que não se contaminam por conflitos setoriais e lutas
de poder” (p. 74). Hall (1984) complementa essa crítica ao dizer que a perspectiva dos
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custos de transação não tem condições de dar respostas completas a todas as análises
organizacionais.
Já Barney e Hesterly (2004) desenvolvem de forma mais intensa as críticas a essa
abordagem. Segundo os autores as críticas são muitas, porém três são mais importantes: o
foco na minimização de custos; atenua os custos de organização; negligencia o papel das
relações sociais nas transações econômicas. Ao focar na minimização de custos como algo
imprescindível para as organizações, a ECT acaba considerando as estratégias como algo
secundário. Ao subestimar os custos de organizar as transações dentro da firma,
desconsidera, muitas vezes, longas e custosas negociações que tendem a ser mais difíceis
dentro da firma do que entre as firmas. Por fim, ao subestimar o papel das forças sociais e
culturais na atividade econômica, não as considera como fortes elementos condicionantes e
contingenciais das organizações.
Garcia e Bronzo (2008), após descrever os principais objetivos e métodos da ECT,
também apontam algumas limitações desta teoria quando utilizada isoladamente para
análise de organizações. Para esses autores, a decisão da firma em produzir ou mandar
fazer - o dilema mercado/hierarquia - depende não só da preocupação com os custos de
transação. A escolha por internalizar a produção, por exemplo, pode ser devida a
estratégias que buscam o aproveitamento de competências distintivas. “Fica claro,
portanto, que investigar o problema de coordenação das atividades econômicas tomando
como unidade básica de análise os custos de transação significa limitar a compreensão das
firmas à análise de suas transações, em uma perspectiva fundamentalmente de eficiência
estática” (Garcia e Bronzo, 2008, p. 13).
Diante dessas limitações, claramente apontadas pelos autores e aqui resgatadas, fica
evidente a necessidade de conversações teóricas entre a ECT e outras teorias econômicas
e/ou sociais, na busca de maior eficiência e eficácia nas análises organizacionais. Entendese que a Teoria dos Custos de Transação, que tem sua origem na Nova Economia
Institucional, leva em consideração o ambiente institucional e as questões subjetivas
relacionadas ao comportamento humano. Porém, a sua utilização para estudos empíricos
tem limitado sua análise para fatores de incerteza comportamental, mais especificamente o
oportunismo e racionalidade limitada dos agentes envolvidos na transação. Para uma maior
exploração das questões institucionais como condicionantes das organizações, buscou-se
elementos do Novo Institucionalismo, bem como o desenvolvimento de fatores
considerados contigenciais das organizações, como é o caso do poder, do capital social e
dos fatores culturais.
4 – Para além do oportunismo e da racionalidade limitada: poder, cultura e capital
social como elementos constitutivos da organização.
Os pressupostos comportamentais da Economia dos Custos de Transação
(racionalidade limitada e oportunismo) são, segundo Williamson (1995), os mais óbvios
exemplos de como a ECT foi moldada pela teoria das organizações. Porém, essa teoria
pode ser enriquecida se tiver uma maior interação com as teorias organizacionais. A seguir,
são desenvolvidos elementos considerados importantes para a análise organizacional e que
podem ser utilizados em concomitância com a ECT, na busca de torná-la mais eficaz para
estudos empíricos, aumentando sua capacidade analítica.
4.1 - O Novo Institucionalismo
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O Novo Institucionalismo (NI) tenta esclarecer por que as organizações surgem,
tornam-se estáveis ou são transformadas, além de discutir as formas como a ação e a
cultura são estruturadas nas organizações. Ou seja, o NI parte do princípio de que as
instituições interferem no comportamento dos atores sociais. Embora o Novo
Institucionalismo tenha influenciado a ECT, esta não utilizou-se de muitos de seus
pressupostos potencialmente contribuintes para análises organizacionais.
Cabe ressaltar que o Novo Institucionalismo é composto por diferentes perspectivas
analíticas, sendo elas o institucionalismo histórico, o institucionalismo da escolha racional
e o institucionalismo sociológico. Os institucionalistas históricos não consideram as
instituições como o único fator de influência, já que estas fazem parte de uma cadeia de
causas e efeitos, porém levam em consideração outros fatores, como a difusão de idéias e o
desenvolvimento sócio-econômico. Já os seguidores do institucionalismo da escolha
racional, da qual faz parte a ECT, advertem para a importância dos direitos de propriedade
e dos custos de transação para o desenvolvimento econômico, tendo como pressuposto que
os indivíduos se comportam de modo objetivo na maximização de suas preferências. Nesse
caso, as instituições servem para redução das incertezas, estabelecendo uma estrutura
estável para a interação dos agentes que, consequentemente, reduz os custos de transação,
influenciando o desempenho econômico. No que se refere aos institucionalistas
sociológicos, estes definem as instituições de maneira ampla, incluindo as regras,
procedimentos e normas, os símbolos, esquemas cognitivos e modelos morais que guiam a
ação humana. Dessa forma estabelecem uma relação sistêmica entre indivíduos e
instituições (Hall e Taylor, 1996 apud Sacomano Neto e Truzzi, 2002).
O argumento utilizado por Meyer e Rowan (1991) é que as regras institucionais
podem ter efeitos nas estruturas organizacionais. Sua implementação efetiva em trabalhos
técnicos pode ser muito diferente dos efeitos gerados pelas redes de relações sociais e do
comportamento que compõem uma determinada organização.
As estruturas organizacionais formais surgem em contextos altamente
institucionalizados. Produtos, serviços, técnicas, políticas e programas institucionalizados,
funcionam como poderosos mitos e muitas organizações os adotam de forma
“cerimoniosa”. Para tanto, as estruturas formais de muitas organizações na sociedade pósindustrial, refletem dramaticamente os mitos dos seus ambientes institucionais, em vez de
refletir as demandas das suas atividades (Meyer e Rowan, 1991).
Combinando as idéias acima com a teoria das organizações, fica evidente que as
sociedades modernas estão compostas por burocracias racionalizadas. Isso ocorre pela
complexidade das redes relacionais, as quais aumentam com a modernização, bem como
pelo fato de que as sociedades modernas estão cheias de regras institucionais que
funcionam como mitos, representando várias estruturas formais racionais como meio para
a consecução dos fins desejáveis. Uma vez institucionalizada, a racionalidade torna-se um
mito com alto potencial para “organizar” (Meyer e Rowan, 1991).
Instituição representa um padrão de ordem social ou que tenha atingido um
determinado estado ou propriedade; designa o processo de institucionalização dessa
realização. Uma instituição é, portanto, um modelo social que revela um determinado
processo de reprodução. Já o padrão institucionalizado se dá quando os desvios padrões
(socialmente construídos), por serem repetitivos, são regulamentados em uma moda e são
controlados por algum conjunto de sanções e recompensas. Ou seja, as instituições sociais
são os padrões que, quando cronicamente reproduzidas, devem a sua sobrevivência
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relativamente aos processos socialmente desenvolvidos (ativados). Todas as instituições
são programas ou quadros de identidades e de atividades que estabelecem regras para estes
(Jepperson, 1991).
Nesse sentido, as instituições utilizam-se de “ações programáticas” (Berger e
Luckmann 1967 apud Jepperson, 1991) ou de respostas para situações comuns. As pessoas
podem não compreender bem uma instituição, mas normalmente têm acesso fácil a algum
processo histórico que justifica a razão pela qual a prática existe.
Há uma série de tipos distintos e de processos de mudança institucional, sendo que
as instituições podem desenvolver contradições com o ambiente (como ilustrado no
pensamento ecológico), com outras instituições (como imaginado por Marx), ou com o
comportamento social elementar. Essas contradições ou “choques exógenos ambientais”
podem forçar a mudança institucional, bloqueando a ativação de processos reprodutivos ou
travando a conclusão bem sucedida destes, assim, pode modificar ou destruir a instituição.
Os autores Meyer e Rowan (1991) acrescentam a isso a idéia de que as
organizações estão estruturadas por fenômenos em seus ambientes e tendem a tornarem-se
isomórficas com eles. Assim, ao contrário do que advoga a ECT, que foca na busca de
eficiência organizacional (minimização de custos), independente de sua eficiência
produtiva, as organizações que existem em ambientes institucionais altamente elaborados
podem ser bem sucedidas ao se tornarem isomórficas, visto que com estes ambientes
ganham legitimidade e os recursos necessários para sobreviver.
Estes autores, assim como os demais pertencentes ao Novo Institucionalismo
Organizacional, entendem que as organizações moldam suas estruturas não apenas em
razão da eficiência, mas também da legitimidade. As organizações, desta forma, ao
buscarem conformidade com o ambiente institucional (isomorfismo), o fazem para obter
legitimidade e não eficiência. Assim, pode-se inferir que nem sempre a estrutura de
suprimento ou comercialização adotada por uma organização (coordenação a montante e a
jusante) deve-se à busca de eficiência (redução de custos de transação), pois pode sim
representar uma estratégia de legitimação, ou pode combinar as duas (como ocorre no setor
florestal brasileiro).
As mudanças estruturais nas organizações parecem cada vez menos impulsionadas
pela concorrência ou pela necessidade de eficiência. Ao invés disso, supõe-se que a
burocratização e outras formas de mudança organizacional ocorrem como resultado de
processos que tornam as organizações mais similares, sem necessariamente torná-las mais
eficientes (Dimaggio e Powell, 1991).
Campos organizacionais altamente estruturados proporcionam um contexto no qual
os esforços individuais, para lidar com a racionalidade e com a incerteza, muitas vezes
conduzem à homogeneidade na estrutura, cultura e resultados. Com isso, Dimaggio e
Powell (1991) afirmam que há uma homogeneidade de formas e práticas organizacionais.
Nas fases iniciais do seu ciclo de vida, os campos organizacionais exibem uma diversidade
considerável na abordagem e na forma. Depois que um campo torna-se bem estabelecido,
há um inexorável impulso à homogeneização.
Depois que organizações díspares, na mesma linha de negócios, são estruturadas
em um campo real (pela competição, o Estado, ou as profissões liberais), emergem forças
poderosas que as levam a se tornarem mais semelhantes umas às outras. As organizações
podem mudar suas metas ou desenvolver novas práticas, além de novas organizações
entrarem no campo. Mas, a longo prazo, atores organizacionais tomam decisões racionais
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em torno de um ambiente que limita a sua capacidade de alterar novamente nos anos
posteriores.
4.2 - Cultura
A cultura organizacional, além de envolver elementos complexos, recebeu e recebe
um amplo número de definições. Consideram-se aqui como essenciais para análise da
cultura organizacional os componentes culturais formais: missão, visão, políticas, regras e
normas e os componentes informais, que são manifestações tangíveis ou intangíveis de
valores compartilhados pelos membros da organização, como é o caso dos artefatos,
símbolos, cerimônias, histórias e mitos (Seldin; Rainho e Caulliraux, 2003).
Uma visão mais veemente da cultura nas organizações foi articulada pelo
antropólogo cultural americano Clifford Geertz, constatada no seu livro influente A
interpretação das Culturas, publicado em 1973. Geertz trouxe idéias acerca do contexto
das organizações e fez descrições, dedicadas a teóricos das organizações, de como aplicar
métodos de interpretação etnográfica nas organizações. Por fim, criticou aos gestores e
investigadores com o argumento de que eles agiram como colonizadores dentro de suas
próprias organizações (Hatch e Cunliffe, 2006).
Hatch e Cunliffe (2006) argumentam que em meio à euforia em torno da crise da
representação, a cultura passou a ser um tema de interesse quase universal. Em teoria das
organizações este debate abriu o caminho para estudar as culturas organizacionais, as teias
de significado socialmente construído pelos seus membros. Bryman (2004), ao descrever e
mapear a evolução dos estudos acerca de liderança nas organizações, chama atenção para
trabalhos que, na década de 1990, passaram a considerar os membros das organizações não
como meros receptáculos passivos, mas como consumidores imaginativos da visão e da
manipulação dos artefatos culturais por parte dos líderes. A visão dos líderes como
construtores de culturas e como impactantes no pensamento e no comportamento dos
membros da organização foi repensada.
Morgan (1996) destaca que a organização é, em si mesma, um fenômeno cultural e
varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da sociedade. Porém, a cultura muda de
uma sociedade para outra, e isso ajuda a compreender determinadas variações nas
organizações. Nesse caso, a cultura se desenvolve durante o curso da interação social e não
se trata de algo imposto. Pode estar representada por diferentes formas, seja o significado,
compreensão e sentidos compartilhados. Ou seja, é o processo de construção da realidade
que permite às pessoas ver e compreender eventos, ações, objetos, expressões e situações
particulares de maneiras distintas. Para o autor, devemos tentar compreender a cultura
como um processo contínuo e proativo da construção da realidade. Nesse caso, a cultura se
torna mais do que uma simples variável que as sociedades ou as organizações possuem,
passa a ser compreendida como um fenômeno ativo, vivo, através do qual as pessoas criam
e recriam os mundos dentro dos quais vivem.
Um fenômeno relacionado a isso é quando o aumento da produtividade não está
relacionado unicamente aos incentivos salariais, mas à satisfação das necessidades de
interação, de companheirismo, de participação e contribuição para a finalidade coletiva, ou
seja, as necessidades de sociabilidade dos seres humanos. Barbosa, ao fazer uma relação
entre modernidade, globalização e cultura, afirma que os efeitos específicos das forças
materiais da modernização e da globalização, dependerão da cultura analisada, ou seja, não
é um processo demográfico, social, econômico e político unilateral que conduz todas as
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nações a uma determinada direção. Nesse caso, esses processos afetarão as organizações de
formas distintas. A suposição inicial seria que estes conduziriam a uma cultura global,
porém, as tradições locais se mesclam à fluxos globais e estes se anulam mediante
metabolismos locais (Mayo apud Barbosa, 1999).
Martin e Frost (2001) abordam as pesquisas sobre cultura organizacional como
sendo uma luta pelo poder. Comparam a inserção do conceito de cultura nos estudos
organizacionais, a evolução desse conceito e suas disputas com o jogo “Rei da Montanha”.
Os autores ainda conceituam cultura organizacional em termos de: integração (conjunto de
elementos compartilhados pela totalidade da organização); diferenciação (conjunto de
elementos compartilhados por grupos que configuram subculturas organizacionais); e
fragmentação (conjunto de elementos transitoriamente compartilhados por indivíduos).
DiMaggio (2003), ao alertar para a ausência de questões acerca da cultura na teoria
econômica, reconhece que ela influencia a economia a nível organizacional e também a
nível de ação individual. Nesse sentido, destaca que muitos dos comportamentos das
empresas são irracionais por não responder aos incentivos dos mercados, mas aos
caprichos de executivos ou à moda organizacional. Além disso, os gostos das pessoas por
bens e serviços particulares são moldados por qualidades extrínsecas aos bens. Esses
gostos refletem relacionamentos entre pessoas e atributos simbólicos de objetos concretos,
sem uma relação necessária com as características técnicas dos próprios objetos.
A cultura organizacional interfere também na identidade da organização, que é
responsável por dar o eixo necessário à união dos membros dessa sociedade em torno de
objetivos, ações e comportamentos. Cada agrupamento social, inclusive aqueles presentes
nas organizações, tendem a superestimar seus padrões de comportamento e desprezar
outros, o que pode ser um elemento dificultador ou facilitador dos processos de mudança,
quando estes são vistos como ameaças ou como oportunidades respectivamente (Srour,
1998 apud Farias 2008).
Esta etapa do trabalho busca ressaltar que a consideração da cultura nas análises
organizacionais (regras e normais informais, artefatos, símbolos, cerimônias), como um
dos pressupostos comportamentis, pode promover uma melhor compreensão do que está
por trás do comportamento dos indivíduos. Nesse caso, considera-se que as organizações
também são condicionadas por aspectos culturais. Com isso, atenta-se ao fato que as
pessoas não agem apenas de forma racional, na busca de maximização de resultados e/ou
lucros, mas também por questões subjetivas e intrínsecas no seu íntimo, as quais os fazem
buscar outras satisfações. Julgam o certo e o errado das suas ações com base num conjunto
de valores e crenças, os quais são construídos historicamente e se diferenciam de uma
organização para outra, de um indivíduo a outro. Analisar organizações sem considerar a
cultura, ou as culturas envolvidas no processo, pode gerar conclusões parciais ou errôneas.
4.3 - Poder
O significado de poder pode ser: ter a faculdade de; ter a possibilidade de, dispor de
força, autoridade moral ou física, ter influência, valimento (Ferreira, 1986). Para
Blackbrum (1997), o poder é entendido como um instrumento social, em que o poder de
um indivíduo ou instituição se reflete na capacidade deste conseguir algo, o que pode ser
por direito, por controle ou por influência. O poder também se refere à capacidade de se
mobilizar forças econômicas, sociais ou políticas para obter um determinado resultado,
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pode ser mensurado pela probabilidade desse resultado ser obtido em face de diversos tipos
de obstáculos ou oposição enfrentada.
Foucault (2003) alerta que não é essencial à definição de poder que o resultado seja
conscientemente procurado pelo agente. Desse modo, o poder pode ser exercido na
ignorância de sua existência ou efeitos, embora seja constantemente exercido de forma
deliberada. Neste sentido, conclui que as relações sociais são sistemas de poder.
Ao abordar as organizações como sistemas políticos, Morgan (1996) atenta para a
importância de reconhecê-las como tal. Dessa forma facilitaria a criação de ordem e
direção entre as pessoas, as quais têm interesses potencialmente diversos e conflitantes,
facilitaria o aprendizado acerca dos problemas e da legitimidade da administração como
um processo de governo, bem como o aprendizado sobre a relação entre organização e
sociedade. A partir do contexto de diversidade de interesses é possível buscar o
entendimento de como essa diversidade origina manobras e negociações diversas, além de
condicionar a vida organizacional.
A política de uma organização se manifesta nos conflitos e jogos de poder e nas
intrigas interpessoais, as quais modificam as atividades organizacionais. Geralmente essa
política só é visível àqueles que estão diretamente envolvidos nos processos. Na busca de
sistematizar a política das organizações, Morgan (1996) destaca as relações entre conflito,
interesse e poder e, com isso, demonstra que ninguém é neutro na administração das
organizações, as quais são formadas por redes de pessoas independentes.
É nesse contexto que Reed (1999) insere a perspectiva do poder nas análises
organizacionais, considerando a organização como palco de interesses e valores
conflitantes e marcada pela luta de poder. O poder, quando tratado no seu sentido amplo,
também engloba o conhecimento como um de seus instrumentos. Ou seja, a produção,
codificação e uso dos conhecimentos relevantes para a regulação do comportamento social
tornam-se uma estratégia de poder.
Quando se começa a aceitar a asserção de que o poder está envolvido na criação de
conhecimentos, se começa a compreender e a preocupar-se com os usos do poder, por
exemplo, o poder do silêncio ou de eliminar um membro a partir do conhecimento de uma
comunidade (Hatch e Cunliffe, 2006). Foucault (2003) acredita que as ciências humanas
forjaram um elo entre poder e conhecimento. Por outro lado, o conhecimento oriundo de
disciplinas acadêmicas é usado para classificar, controlar e, em alguns casos, encarcerar os
membros menos poderosos da sociedade. Aqueles que exercem o poder permitem que
algumas coisas possam ser ditas, por escrito ou pensadas, mas não outras.
Hardy e Clegg (2001), ao fazer um mapeamento de importantes estudos que
abordam o tema poder, chamam a atenção para o poder que é exercido fora das estruturas
hierárquicas formais e dos canais que são ratificados por essas estruturas, chamado de
poder ilegítimo. Atentam que este não se limita a episódios sociais observáveis em suas
causas, mas se manifesta nas formas pelas quais, tanto indivíduos quanto grupos
coletivamente organizados, tornam-se socialmente inscritos e normalizados, por meio das
práticas de rotina das organizações. Dessa forma, o poder está presente nas bases da vida
cotidiana.
Ao serem consideradas as relações de poder nas análises organizacionais, poderiam
ser alcançadas importantes revelações e/ou explicações acerca do comportamento dos
indivíduos que as compõe. Nesse caso, o diferencial seria a identificação de como se
estabelecem os jogos de poder, se existe coação e como isso interfere nas organizações.
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Além disso, a análise das relações de poder não deveria se limitar a apreciação interna das
mesmas, visto que estas interagem com o meio, com a sociedade, podendo agir de forma a
exercer poder ou reagir a imposição de poder externo.
A complexidade desse tipo de análise fica evidente, especialmente quando
reconhecido que o poder pode ser exercido de forma consciente ou não. Intrigas
interpessoais podem ser difíceis de identificar, porém não se pode negar a importância que
estas têm para os arranjos, visto o reconhecimento da inexistência de neutralidade pessoal.
O fato do poder estar presente no cotidiano, faz com que seja indispensável o seu
reconhecimento e a sua análise, além da busca de codificação e identificação das principais
formas com que age. Assim como a cultura, o poder é um pressuposto comportamental que
pode justificar comportamentos organizacionais, bem como a constituição ou não de certas
organizações.
4.4 - Capital Social
O termo capital social vem sendo frequentemente utilizado em trabalhos
relacionados ao meio rural como um dos fatores que, quando presente ou não, condiciona
as formas organizacionais dos agricultores (por exemplo, a opção de formar cooperativas
por produto na busca de maior poder de barganha ou a individualidade sem cooperação).
Abramovay (2003, p.86) cita Coleman (1990) e Putnam (1993/1996), que
conceituam o termo capital social como “características de organização social, como
confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade,
facilitando as ações coordenadas”. Para Abramovay (2003, p.86), as estruturas sociais
devem ser consideradas como recursos, “como um ativo de capital que os indivíduos
devem dispor”. Portanto, a noção de capital social relaciona-se ao fato de que os indivíduos
não agem independentemente e seus objetivos não se formam isoladamente, surgindo
como instrumento para a solução de dilemas de ação coletiva. O autor acrescenta que a
acumulação de capital social é um processo de aquisição de poder (empoderamento) e
também de mudança na correlação de forças no plano local.
Para Bourdieu (apud Milani, 2008), o capital social é o conjunto de relações e redes
de ajuda mútua que podem ser mobilizadas efetivamente para beneficiar o indivíduo ou sua
classe social. Portanto, é propriedade do indivíduo e de um grupo, é simultaneamente
estoque e base de um processo de acumulação que permite às pessoas, inicialmente bem
dotadas e situadas, terem mais êxito na competição social. A idéia de capital social remete
aos recursos resultantes da participação em redes de relações mais ou menos
institucionalizadas, porém é considerada uma quase-propriedade do indivíduo,
principalmente por permitir benefícios de ordem privada e individual (Bourdieu apud
Milani, 2008).
Bordieu considera o capital social como um instrumento estratégico de classe,
utilizado por atores racionais com vistas a manter ou reforçar seu estatuto e seu poder na
sociedade. Putnam salienta que onde existe forte capital social, redes sociais de
compromisso cívico incitam a prática geral da reciprocidade e facilitam o surgimento da
confiança mútua (Putnam apud Milani, 2008). Capital social é capital porque ele se
acumula, pode produzir benefícios, tem estoques e uma série de valores. Além disso, é um
recurso que pode ser aglomerado, utilizado e/ou mantido para uso futuro.
Identificar a existência ou não de capital social, sua intensidade e, principalmente,
de que forma ele condiciona uma organização, é apontado aqui como uma etapa
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indispensável nos estudos empíricos organizacionais. Esse pressuposto comportamental
pode explicar, em parte, o sucesso ou fracasso de muitas organizações, especialmente por
condicionar os laços interpessoais e a intensidade destes. A falta de uma boa relação entre
os indivíduos, ou a indisponibilidade destes em formar arranjos organizacionais, pode estar
relacionado diretamente a inexistência ou escassez de capital social.
Destaca-se uma significativa relação entre os três fatores descritos (cultura, poder e
capital social), considerando que a busca da inserção desses pressupostos comportamentais
nas análises organizacionais que utilizam a ECT, objetiva, especialmente, explicar
comportamentos organizacionais e individuais, estruturas de governança e a própria
organização. Justifica-se isto visto que os pressupostos comportamentais utilizados pela
ECT (oportunismo e racionalidade limitada) não explicam muitas situações, como é o caso,
por exemplo, das ações organizacionais em busca de legitimação. Nesse caso, incluir
poder, cultura e capital social como condicionantes organizacionais, pode contribuir para a
compreensão de comportamentos que fogem a uma das leis da ECT que afirma que a busca
da eficiência e da redução de custos de transação guiam as ações organizacionais.
5 – Considerações Finais
A teoria das organizações passou por um processo de construção histórica, em que
novos elementos enriquecedores foram sendo adicionados à mesma. Nesse mesmo
processo, diferentes áreas da ciência foram sendo utilizadas para as análises
organizacionais, como sociologia, psicologia, economia e administração. Nesse caso,
consideram-se esses diferentes elementos e suas fusões como algo positivo, num processo
de construção e não substituição de teorias.
Dentre o processo de evolução da teoria das organizações, têm-se como marco
algumas perspectivas e paradigmas que estabeleceram lutas de poder dentro e entre os
estudiosos organizacionais. A Nova Economia Institucional com a Economia dos Custos
de Transação é o que se pode chamar de uma perspectiva contemporânea em estudos
organizacionais. Porém, utilizá-la isoladamente nas análises organizacionais não tem sido
suficiente para explicar certas formas e tipos de organizações.
Nesse sentido, optou-se nesse artigo por fazer uma aproximação da NEI com o
Novo Institucionalismo (também uma perspectiva contemporâneo) e demais elementos
considerados constitutivos das organizações, e não destacados pela NEI, como a cultura, o
poder e o capital social.
A ECT tem como nível de análise a transação, foco nos custos desta transação e nas
formas de governança. O Novo Institucionalismo trata de como as organizações surgem,
tornam-se estáveis e como são transformadas. As questões que envolvem a cultura, jogos
de poder e o capital social, contribuíram no sentido de acrescentar fatores que interferem
nas formas organizacionais e que deveriam ser considerados para análise das mesmas.
Destaca-se que os elementos aqui trabalhados não esgotam os fatores constitutivos das
organizações; outros poderiam ser acrescentados, bem como poderia existir uma maior
conversação entre diferentes teorias na busca de mais subsídios para o estudo
organizacional.
6 - Bibliografias
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