ESTRESSE OCUPACIONAL NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL DE DEFENSORES PÚBLICOS Andiara Loeffler Gezoni1 Resumo: A revisão teórica apresentada visa iniciar um debate quanto a possível incidência de estresse ocupacional em uma categoria profissional até então pouco estudada na literatura – a de defensor público. A prática profissional do defensor público possui diversas características semelhantes às profissões com maior possibilidade de adquirir estresse em decorrência do trabalho. Esta prática pode ser caracterizada pelo atendimento constante de indivíduos acometidos por demandas conflituosas, sobrecarga de trabalho, pouco controle sobre o resultado de seu labor e o amplo rol de competências que lhe é exigido, em razão da atuação nas diversas áreas: de família, civil e criminal. Para tanto, o artigo pretende apresentar uma breve caracterização desta instituição em determinado local, suas atribuições e características do trabalho, definições de estresse ocupacional, assim como também pretende elencar alguns dos fatores de risco para o desenvolvimento do estresse e, por fim, visa explicitar algumas sugestões para o manejo deste. O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa bibliográfica em artigos científicos, livros, sites, revistas e documentos institucionais publicizados, os quais tratam de uma demanda específica, todavia esta pode ser generalizada para vários outros locais de trabalho conforme relata o “III diagnóstico Defensoria Pública no Brasil”. Contudo, é possível indicar um conjunto de considerações a partir do estudo, entre elas, a de que há vários fatores que geradores de estresse no trabalho do defensor público e que há uma demanda reprimida para a área de gestão de pessoas da organização, no sentido de proporcionar a estes profissionais ações que oportunizem a compreensão sobre o processo do estresse e de que maneira ele pode ser manejado. Palavras-chave: estresse ocupacional, exercício profissional, defensor público. Abstract: The literature review presented aims to start a debate about the possible effect of occupational stress in a professional category hitherto little studied in the literature - the public defender. The professional practice of public defender has many features similar to those professions most likely to get stress due to work. This practice can be characterized by the constant care of individuals affected by conflicting demands, work overload, little control over the outcome of their work and the wide array of skills required of it by reason of performance in several areas: family, civil and criminal. To this end, the paper aims to present a brief characterization of this institution at a particular location, their duties and job characteristics, definitions of occupational stress, and also plans to list some of the risk factors for the development of stress and, ultimately, is to indicate some suggestions for handling this. The present study was characterized as a literature search of scientific articles, books, websites, magazines and publicized institutional 1 Psicóloga, especialista em Saúde Mental, concluindo MBA em Gestão de Pessoas, formação como Perita e examinadora de trânsito, mediadora familiar e atualmente integrante de equipe multidisciplinar do SUAS/CREAS no Estado do Tocantins/TO. documents, which deal with a specific demand, however this can be generalized to many other workplaces as reported in "Defender III diagnosis public in Brazil. "However, you can specify a number of considerations from the study, among them, that there are several factors that generate stress in the work of public defender and that there is an unmet demand for the area of personnel management of the organization in order professionals to provide these actions oportunizem understanding about the process of stress and how it can be handled. Key words: Occupational stress, professional, public defender. INTRODUÇÃO O artigo em tela trata do exercício profissional de defensores públicos e sua relação com o estresse gerado pelo tipo de trabalho desenvolvido no cotidiano. Visa iniciar e instigar um debate quanto à possível incidência de estresse ocupacional em uma categoria profissional recente e até então pouco estudada na literatura – a de defensor público. Desse modo, o estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica e documental, realizada através de um levantamento em artigos científicos, livros, sites, revistas e documentos institucionais publicizados. Estes, possibilitaram sinalizar/ compreender/ aprofundar o entendimento sobre a questão, constatar a lacuna teórica sobre a temática, discutir sob uma ótica crítica, bem como esperamos que esse ensaio contribua para suscitar diversas outras reflexões e problematizações sobre o assunto tratado. As características do trabalho do defensor público se assemelham ao de outras profissões com maior possibilidade de adquirir estresse em decorrência do trabalho, em razão das características deste. Entre estas características mencionadas podemos citar o atendimento constante às pessoas que experienciam demandas conflituosas, tensas e que se encontram apreensivas, nervosas, ansiosas e, muitas vezes, no limite da própria existência humana. Somando-se a isso, verifica-se um cotidiano de trabalho permeado por uma sobrecarga laboral extensa, pouco controle sobre o resultado do trabalho, amplo rol de competências exigidas em razão da atuação em diversas áreas, tais como na área de família, civil e criminal, etc. São diversos os estudos sobre o estresse e até extensa a literatura sobre esse assunto. Encontramos grandes referências na literatura, como Marilda Lipp, Idalberto Chiavenato, Ana Maria Rossi, Ana Cristina Limongi França, Pamela L. Perrewe, João Carlos Rocha, José Carlos Zanelli, entre outros. No entanto, essa discussão associada a categoria de defensores públicos, talvez por ser uma Instituição que ganhou destaque após a Constituição Federal de 1988, possui pouquíssima produção. Daí o desafio de percorrer essa revisão teórica e formatar esse estudo. O estresse, de maneira geral, pode levar a dois movimentos distintos: impulsionar levando a ação ou levar o indivíduo ao esgotamento físico, psicológico e trazer mudanças desagradáveis em seu comportamento. Portanto, em decorrência de seu aspecto negativo, ele deve ser conhecido e ser de fácil identificação para que os atores em cena possam então amenizar a sua parcela negativa. Deste modo, o artigo apresenta uma breve caracterização da instituição Defensoria Pública, suas atribuições, características do trabalho do defensor e uma discussão acerca das definições de estresse ocupacional. O estudo também elenca os principais fatores de risco para o desenvolvimento do estresse ocupacional nesta categoria profissional, bem como indica possíveis alternativas ao manejo dos fatores que contribuem para o surgimento do estresse ocupacional nesta categoria. O artigo divide-se em três partes. A primeira aborda a instituição Defensoria Pública após a Constituição Federal, e os aspectos que a circunscrevem, tanto os positivos quanto os negativos. A segunda parte conceitua e problematiza a definição de estresse a partir de estudiosos no assunto como Marilda Lipp, Idalberto Chiavenato e José Carlos Zanelli, bem como trata das características do trabalho do defensor e de sua relação com o estresse laboral. Já na terceira parte, o artigo explicita sobre o manejo do estresse, isto é, reconhece os desafios deste percurso, indicando alternativas e possibilidades, como o desenvolvimento de uma política institucional de gestão de pessoas de combate ao estresse negativo de maneira contínua e permanentemente. Vale destacar ainda que não houve a pretensão de esgotar o tema, ao contrário, objetivamos sim chamar a atenção para essa nova realidade, uma vez que as Defensorias enquanto instituição, ganharam seu formato a partir da CF de 88 e acenam como um campo vasto para estudos e reflexões. DESENVOLVIMENTO A instituição Defensoria Pública e a caracterização das condições de trabalho: o crescimento da instituição, seus aspectos positivos e negativos Neste item, faremos uma breve contextualização do processo de constituição da Defensoria Pública do Estado do Tocantins, seu desenvolvimento e crescimento enquanto instituição em defesa da garantia de acesso aos direitos fundamentais do cidadão, assim como se discorrerá sobre seus aspectos positivos, negativos e a incidência dessas relações nas condições de trabalho dos defensores. A instituição Defensoria Pública e seus fatores positivos A Defensoria Pública é uma instituição que tem como missão constitucional garantir o acesso à justiça e a efetivação de direitos dos economicamente hipossuficientes2. Entretanto, ressaltamos ainda que o conceito adotado aqui para hipossuficiente não se esgota em critérios de renda, apesar de ser amplamente adotado por algumas defensorias. Isso porque, quando um defensor atua em ações civis públicas ele abrange o direito de uma coletividade. De encontro a esta ideia temos o pensamento de Rocha (2006), que declara que direitos fundamentais não possuem classe social. Ainda sobre a pobreza, tem-se que ela vai além de critérios como renda, abarcando o indivíduo que se mantém privado de capacidades básicas para alcançar certos níveis minimamente aceitáveis de condições de vida ideal (SEN, 2001). No entanto, em ações de pleito individual o público alvo é em geral, àqueles que possuem seus direitos marginalizados/violados devido à falta de recurso financeiro para arcar com as despesas processuais, ou seja, a grande maioria da população, visto que no Brasil há uma grande má distribuição de renda. Já no pleito coletivo o resultado das ações pode se estender também a indivíduos com condições financeiras melhores. 2 Segundo o III diagnóstico Defensoria Pública no Brasil, os critérios utilizados para constatar a hipossuficiência do assistido é pautada, na maioria dos casos, por critérios abstratos como renda, patrimônio pessoal e/ou patrimônio familiar, valor da causa, natureza da causa. A grande maioria das defensorias utilizam o critério em salários mínimos, variando este percentual de 2 a 5 salários mínimos. Quadro 40 p. 180. No estado do Tocantins utiliza-se um termo de “Declaração de pobreza” do interessado como forma de ingresso aos atendimentos Como podemos perceber, a atuação da Defensoria é imprescindível para que haja o acesso igualitário a justiça. Ora, o acesso ao serviço jurisdicional tem um custo, que diga-se de passagem, é alto para a maioria dos brasileiros. Daí a dimensão da importância da Defensoria Pública no cenário brasileiro, atuando para devolver a cidadania ao indivíduo que, por ausência de recursos financeiros, a perdeu. É necessário que o triângulo da justiça (acusação, defesa e jurisdiçao) esteja equilibrado. Nesta perspectiva é fundamental que a Defensoria Pública seja uma instituição forte e estruturada para prestar um atendimento de qualidade a centenas de cidadãos brasileiros. “O enfraquecimento de qualquer delas implica desobediência constitucional e, por conseqüência, ineficiência das essenciais políticas públicas a elas incumbidas” (ROCHA, 2006, p. 1). Além de ser prevista na Constituição Federal em seu artigo 134, a atuação da defensoria pública possui normatização na lei complementar n 80, a qual declara: Art. 1º A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, assim considerados na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal (LEI COMPLEMENTAR 80, 1994, p. 1). O desenvolvimento institucional da Defensoria Pública no Brasil possui três marcos históricos fundamentais. Primeiro, a Constituição de 1988 estabelece as bases da instituição. Posteriormente a Emenda Constitucional 45 a fortalece ao garantir maior autonomia. Finalmente, a Lei Complementar 132 moderniza sua organização, reformando a lei orgânica (Lei Complementar 80). Somente com esta maior autonomia é que a Defensoria passa a ser forte, tornando real o sonho do constituinte de 1988, que desejava uma instituição robusta para cuidar dos pobres brasileiros. No Tocantins, segundo o primeiro relatório Gespública da Defensoria Pública do Estado, a organização foi criada em 1989, como uma diretoria da Secretaria de Justiça e Segurança Pública. Permaneceu neste patamar por um longo período e desta maneira ficou comprometida em sua autonomia e inviabilizada de gerir recursos. Desta forma, foi apenas ‘sobrevivendo’, sem condições estruturais e nem número adequado de defensores para oferecer a população um serviço de excelência de atendimento (RELATÓRIO GESPÚBLICA, 2010, p. 8). Antes da Defensoria Pública do Estado se constituir como órgão autônomo e independente ainda ocorreu longos trajetos de lutas e anseios por melhores condições de trabalho. As reivindicações tratavam de melhorias na estrutura física de trabalho e atendimento aos assistidos, aquisição de material de expediente, aumento de subsídio, aumento do número de profissionais, formação de equipes multidisciplinar de apoio, etc. Apesar de ter se constituído em 1989, a instituição só ganhou seu primeiro concurso público para o provimento do cargo de defensor em 1994, com a nomeação de 40 profissionais. Após este período permaneceu sem grandes evoluções até o ano de 2003, quando a classe se articula e inicia debates com o governo no sentido de alcançar o reconhecimento de instituição essencial ao equilíbrio da justiça, e como tal, merecedora de condições de trabalho. Em 2004, com a lei complementar n 41/2004 a Defensoria do Estado ganha então a autonomia administrativa e a garantia da iniciativa de proposta orçamentária tão esperada (RELATÓRIO GESPÚBLICA, 2010, p. 8). Em 2005 lança seu segundo concurso para o cargo de defensor público com 50 vagas, aumentando o número de 40 para 90. Com esta nova realidade, de um quadro de funcionários maior que o dobro, houve a possibilidade de um desafogamento no trabalho, e com isso a possibilidade de expansão do serviço para todas as comarcas, maior agilidade na atuação processual e melhoria da qualidade dos serviços prestados. Em 2006 ganhou o controle de seus recursos, importante aqui ressaltar apenas 17 anos depois de sua criação. Desde então, foi possível implantar melhorias contínuas na estrutura física e no provimento de recursos materiais para melhor atender as demandas de trabalho do defensor. Apesar das melhorias, consta no III Diagnóstico Defensoria Pública no Brasil que a Defensoria Pública do Estado conta com apenas “3 prédios próprios, 23 alugados e outros 16 instalados em fóruns e convênio com prefeitura” 3 Seguindo com o rol de melhorias conquistadas pela Defensoria Pública do Tocantins, através das leis complementares nº 66 e 67 de 2010 os defensores 3 Tabela 42 p. 186. públicos obtiveram um aumento no subsídio de maneira a equiparar o déficit em relação a outras carreiras jurídicas como magistratura e ministério público. Ainda em 2010, já com muitas das reivindicações atendidas, iniciou-se um trabalho voltado a melhoria do controle de qualidade dos serviços prestados ao cidadão através da implantação do Gespública (adesão ao pacto em 12 de novembro de 2009) e em junho de 2010 lança seu primeiro relatório voltado a qualificação dos serviços prestados pela instituição. Este projeto, segundo o Relatório Gespública (2010), ainda encontra-se em processo de implantação nos diversos núcleos que constituem a Defensoria. Constitui-se como um programa nacional de gestão pública e desburocratização do governo federal, e tem como objetivo ser uma política de gestão capaz de aumentar a eficiência e a efetividade das ações no serviço público brasileiro, oferecendo, através de constantes avaliações, uma melhoria na qualidade do atendimento. Este programa possui uma orientação para a consecução de resultados para a sociedade, com impactos na qualidade de vida do cidadão. Estima-se que este programa atente tanto para a qualidade de vida do consumidor dos serviços públicos como para de seus trabalhadores, visto que o Ministério da saúde tem demonstrado maior preocupação em oferecer ações integradas de prevenção e promoção da saúde do trabalhador. Consta neste Relatório todo o histórico da instituição, suas conquistas e seus anseios. Este documento define a missão da instituição como “assegurar o acesso à justiça integral e gratuito aos necessitados, garantindo-lhes cidadania e um atendimento de qualidade”. Sua visão e seus valores ainda não encontram-se definidos. Caracterização do trabalho do defensor público e seus aspectos negativos Conforme visto na caracterização da instituição, esta foi criada em 1989 como uma Diretoria da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Estado. No entanto, o primeiro concurso público para o cargo de defensor só ocorreu em 1994.4 Apesar de não se ter sido encontrado no buscador “Google” e no site da instituição nenhuma referência aos primeiros profissionais a exercerem o cargo de defensor público no estado, a falta desta informação leva-nos a crer que se tratava de 4 Fato este que faz constar no III Diagnóstico Defensoria Pública no Brasil a sua instalação apenas em 1994 (Quadro 4, p. 48). advogados nomeados, conforme prática comum em outras defensorias públicas espalhadas pelo Brasil. Como profissionais nomeados não possuíam vantagens como a estabilidade do serviço público e gozavam de menores direitos trabalhistas. Com o primeiro concurso foram nomeados cerca de 40 profissionais. Em 2005 a instituição ganha seu segundo concurso público com mais 50 vagas e conta hoje com cerca de 95 Defensores Públicos concursados. Desde então, expandiram sua atuação para as 42 comarcas espalhadas pelo Estado, em 48 unidades de atendimento. Todavia, com a expansão dos atendimentos para todas as comarcas do Estado, é gerada a necessidade no aumento do número de defensores públicos para garantir a qualidade no trabalho prestado. Apesar do aumento para mais que o dobro (de 40 para 90 defensores em final de 2009 e hoje com 95), o III Diagnóstico Defensoria Pública no Brasil (2009) coloca que o número ideal de defensores públicos no Tocantins seria de 150.5 Segundo este mesmo diagnóstico, entre os anos de 2006 a 2008 cresceu em apenas 4,48% o número de defensores na ativa, enquanto que o número de atendimentos das defensorias públicas do país cresceu cerca de 45,17%. Esta demanda de serviços é ainda mais extensa se levarmos em consideração que a quantidade atual de 95 defensores públicos está para aproximadamente 140 magistrados e 130 promotores de justiça espalhados pelo Estado do Tocantins. Fato este mais agravado levando-se em consideração que em muitos casos os dois litigantes são hipossuficientes e sendo assim, há a necessidade da atuação de 2 defensores públicos em um mesmo processo, necessidade que não ocorre nas outras duas carreiras. Como se pode notar, a grande maioria dos defensores públicos atua no interior do estado e com uma grande demanda de serviços. Em geral, a atuação da defensoria destina-se a população de baixa renda, conforme exposto anteriormente, o que torna o trabalho ainda mais extenso e complexo. Este pensamento vem de encontro com os dados de que o Estado do Tocantins possui cerca de 11,98% de analfabetos, ficando em décimo primeiro no ranking dos maiores índices de analfabetismo, segundo dados do senso 2010 e conta com um IDH de 0,756, na décima quinta posição segundo o site Wikipédia. Estes números nos dão um 5 Tabela 14, p. 114. parâmetro da quantidade de pessoas que necessitam do atendimento jurídico gratuito neste Estado. Outro fator que deve ser considerado é que o trabalho da defensoria não constitui-se apenas no atendimento da defesa técnica, sendo seu papel muito mais abrangente. O defensor público, segundo Rocha (2006), tem um papel de transformador social, na medida em que deve atuar na prevenção, reparação e promoção de direitos. Os defensores públicos do Estado do Tocantins prestam relevante serviço à população, não somente ajuizando ações para defesa de seus interesses, mas também fazendo a defesa administrativa e judicial dos que dela necessitam. O trabalho do defensor público envolve a prestação de orientações jurídicas, ajuizamento e acompanhamento de ações, defesas em processos judiciais ou administrativos, defesas nos tribunais do júri, proposição de ações civis públicas, conciliações e atendimentos especializados nas áreas da infância e juventude, proteção a mulher, ao idoso, ao consumidor, diversidade sexual, comunidade carcerária. Há também a participação dos defensores em ações e eventos como os mutirões e os atendimentos no projeto “Defensoria itinerante” (RELATÓRIO GESPÚBLICA, 2010). Como visto, atendem uma ampla gama de demandas e, no interior do Estado este trabalho torna-se ainda mais difícil em decorrência da impossibilidade de atuação/especialização6 em apenas uma temática. Então, exercem a atividade jurídica nas mais diversas áreas de atuação (civil, de família, penal, etc), visto que em muitos locais há apenas um defensor para o atendimento da comarca e de outras cidadezinhas/povoados que abrangem a comarca. Aqueles que mudam de cidade para atuar como defensor, em geral vão para o interior do estado e para comarcas de primeira entrância.7 Nestas pequenas comarcas tem-se que lidar com algumas dificuldades como: trabalho solitário e 6 A maioria dos defensores públicos do Tocantins atuam no interior do estado e são os únicos defensores da comarca, o que gera impossibilidade do mesmo atuar em apenas uma área do direito, como ocorre com os advogados, por exemplo – advogados criminal, civil, trabalhista, agrário, de família, etc; e/ou com os defensores que atuam em comarcas com mais de um profissional. 7 As comarcas de 1 entrância são aquelas que dentro da organização do poder judiciário possuem um menor número de processos por estarem localizadas em cidades com menor número de habitantes. As comarcas de 3 entrância (9 no estado e uma no distrito federal), são as maiores, com maior número de processos e destinada a defensores que já progrediram na carreira. Nestas, por serem maiores, em geral possuem dois ou mais defensores, oferecendo aos mesmos a possibilidade de atuação em áreas específicas. excesso de trabalho, atuação em todas as áreas, falta de profissional de apoio como contam outras carreiras, dificuldade de acesso a cidade, etc. Isto sem contar com as comarcas que não possuem um defensor exclusivo, onde o mesmo defensor muitas vezes acumula duas comarcas. De encontro com o pensamento de que há poucos profissionais, muito trabalho e que este processo gera desgaste, temos a fala do Defensor Público Geral do estado do Mato Grosso, o Dr André Luiz Prieto, que assinala "A acumulação é algo muito desgastante, principalmente nos locais mais distantes". Segundo Lipp (2002), há também questões de ordem pessoal no trabalho em pequenas comarcas, onde vivencia-se um processo solitário em que a experiência é dramatizada pelo seu desenraizamento de suas origens e pelo isolamento cultural e social. Percebeu-se em pesquisa pelo site da Defensoria Pública que os defensores públicos do Estado do Tocantins estão atuando muito além da garantia dos direitos de acesso a justiça, com atribuições voltadas a prevenção de problemas sociais e alerta para a sociedade, através do proferimento de palestras de prevenção ao uso de drogas, Lei Maria da Penha, violência e direitos humanos, violência nas escolas, importância da participação dos pais na vida escolar dos filhos, planejamento familiar, direitos do consumidor, alem da participação em programa de rádio através do programa intitulado: é seu direito, com transmissão para cerca de 50 emissoras no TO.8 Conforme explicitado no relatório Gespública, os avanços obtidos nos últimos anos na Defensoria Pública do Tocantins tiveram um resultado positivo com o reconhecimento da instituição como uma das melhores do país, com destaque no III Diagnóstico das Defensorias Públicas no Brasil (2009). No entanto, ainda há muitos ideais a serem conquistados. Como se não bastasse o grande número de atendimentos, a criação de núcleos para demandas específicas, a atuação em programas sociais e na realização de diagnósticos nas unidades socioeducativas9, em ações civis públicas, a acumulação de comarcas, a dificuldade em atuar em várias áreas do direito; ainda 8 FONTE: http://www.defensoria.to.gov.br/ Em 23/08/2011 a Ministra chefe da Secretaria de direitos humanos da Presidência da República parabenizou a Defensoria Pública do Estado do Tocantins pela atuação junto aos adolescentes infratores. Declarou ser de extrema importância a realização de diagnósticos tão qualificados como este sobre a realidade das unidades socioeducativas do Estado. Fonte: http://www.defensoria.to.gov.br/vizualizar_noticias.aspx.?Id=2190 9 há a falta de equipe de apoio, conflitos com o governo do estado e com colegas de outras instituições que atuam no âmbito da justiça, o que acaba por gerar um desgaste emocional adicional a estes defensores públicos. Em dezembro de 2010 a Defensoria Pública do Tocantins lançou concurso público para o provimento de cerca de 375 vagas para os mais diversos cargos (assessoria jurídica, assistente social, psicólogo, pedagogo, técnico em informática, motorista, oficial de diligência, entre outros), visando constituir uma equipe de apoio com vínculo efetivo e adequadas condições de trabalho. No entanto, mesmo tenho lei específica regulamentando a realização de concurso público e tendo sido aprovado na LDO o orçamento necessário para a realização do mesmo, ele não pôde ser realizado. Este fato deve-se a realidade de que no Estado do Tocantins o gasto com pessoal encontra-se no limite estabelecido pela lei de responsabilidade fiscal, não podendo haver novas contratações. Em 2011 os defensores públicos do Tocantins obtiveram um aumento no subsídio de maneira a equiparar o déficit em relação a outras carreiras jurídicas como magistratura e ministério público. No entanto, tiveram suas leis questionadas tanto por ação do Procurador de Justiça como por parte do Governo do Estado. Alegam a vinculação inconstitucional ao salário dos ministros, vinculação esta que a Magistratura e Ministério Público do Tocantins possuem a tempos, mas nunca foram questionadas. Em relação ao aumento dos salários este fator pode ser considerado como um fator positivo, responsável pela satisfação salarial de seus membros. A satisfação é importante pois, ela tende a acabar com a busca destes trabalhadores por melhores condições financeiras. Esta busca, muitas vezes, acaba interferindo na dedicação ao trabalho e na permanência na instituição, deixando de seguir sua identificação com a carreira para buscar melhores condições de renda e de trabalho. Os dados do III Diagnóstico Defensoria Pública no Brasil (2009) trazem uma ampla gama de insatisfação com as condições de trabalho e com o salário. Apesar dos defensores públicos valorizarem a função social de carreira e declararem possuir perfil para essas atividades, contraditoriamente, parte significativa está buscando outras carreiras e até se preparando para isso. Consta que cerca de 39,58% dos defensores públicos dos estados gostariam de exercer outras carreiras, sendo este um percentual muito elevado. Quanto aos motivos para a insatisfação citam em primeiro lugar com 27,57% os baixos salários, logo em seguida com 27,37%% a falta de estrutura para o trabalho e 19,48% citam a falta de prestígio da carreira. Entre as carreiras que estes defensores dos estados gostariam de exercer as três mais citadas foram: Magistratura Estadual, Magistratura Federal e Ministério Público Federal. Apesar de ser uma realidade nacional, o Tocantins está inserido nela. Espera-se que com o aumento de salário e com as melhorias conquistadas na instituição, esta insatisfação tenha-se modificado (III DIAGNÓSTICO DA DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL, 2009, p. 267). Cabe aqui ressaltar que as condições de salários constituem-se como um fator higiênico10, assim como o ambiente de trabalho, condições físicas, clima organizacional, políticas da organização, oportunidades existentes, entre outras, responsáveis apenas pela ausência de insatisfação no trabalho. Para a motivação propriamente dita faz-se necessárias outras variáveis, como sentimentos de realização, de crescimento e de reconhecimento, atividades que ofereçam desafio e que possuam significado para que o profissional tenha uma real satisfação no trabalho. Para o autor Herzberg, os fatores motivacionais são mais duradouros e capazes de trazer um aumento na produtividade com qualidade (CHIAVENATO, 2005). Estresse ocupacional Ante diversos estudos e pesquisas sabemos da centralidade do trabalho na vida das pessoas. Zanelli (2004) relata que a saúde mental de um indivíduo envolve sua capacidade de amar e de trabalhar. O autor relata que cada um dos fatores interfere diretamente no outro, sendo que quando estamos incapacitados para o trabalho, nossa capacidade de amar também deteriora-se. Para Caetano (2004), o trabalho constitui-se como uma condição para a saúde mental. Do mesmo modo como o não trabalho pode gerar doença mental, o trabalho também pode gerar desconforto e desprazer, estes fatores geram estresse e são responsáveis pelos agravos da saúde mental. 10 Trata-se da teoria dos dois fatores de Herzberg, o qual concluiu que os fatores responsáveis pela satisfação são distintos dos responsáveis pela insatisfação, desta forma, o contrário de satisfação não é insatisfação, mas sim nenhuma satisfação. Da mesma maneira, o contrário de insatisfação não seria satisfação e sim, nenhuma insatisfação. Contextualizando a palavra estresse para entender o que ora se considera como tal, temos que a palavra “stress” foi primeiramente utilizada na física, e hoje o termo é amplamente utilizado tanto na literatura como no conceito popular. Em pesquisas realizadas sobre a possível definição de estresse é possível constatar que não há uma definição que seja unânime. O dicionário Aurélio nos diz que o estresse é "o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras capazes de perturbar a homeostase". Hans Selye, grande pesquisador do estresse, relata que ele pode ser tanto uma resposta de adaptação normal como uma resposta patológica, podendo caracterizar a ocorrência de distúrbios transitórios ou mesmo levando a graves doenças. O autor desenvolveu uma teoria trifásica do estresse em 1956. As três fases descritas por ele são: fase de alerta – a qual caracteriza-se como uma fase essencial a vida humana, onde o indivíduo percebe a ameaça e se dispõem para a fuga, visando a preservação da vida; fase de resistência - ocorre quando o estressor perdura por um período muito prolongado de tempo, havendo um aumento da capacidade de resistência do organismo, que dá lugar a uma sensação de desgaste e cansaço; e a fase de exaustão ou esgotamento – seu próprio nome já a identifica, onde o organismo vê seus recursos exauridos e fica completamente suscetível a doença (LIPP, 2001). No entanto, segundo Lipp (2001), considerada também grande estudiosa do assunto na modernidade, relata que após 15 de estudos do estresse constatou a existência de uma quarta fase. Esta antecederia a fase de exaustão, denominada pela autora de “quase-exaustão”. A quarta fase é situada entre a fase de resistência e a de exaustão. Para a autora esta readequação da classificação foi necessária, devido à fase de resistência caracterizada por Selye, ser demasiadamente extensa. Devido a sua extensão, acredita-se apresentar dois momentos que se diferenciavam não por seus sintomas, mas pela quantidade e intensidade destes. Para a autora as primeiras duas fases do estresse podem ser vistas como positivas, sendo que na primeira há o que se chama de distresse, que caracterizase como uma fase que impulsiona o indivíduo a agir e na segunda o impulso permanece, mas é necessário lidar com os fatores estressores de modo a manter sua homeostase. Já na terceira fase, denominada pela autora de “quase-exaustão”, dá-se início há uma quebra nesta homeostase por um enfraquecimento da pessoa, que não está mais conseguindo adaptar-se ou resistir ao estressor. Neste período as doenças começam a surgir, porém, ainda não são tão graves como na fase da exaustão. Embora apresentando desgaste e outros sintomas, a pessoa ainda consegue trabalhar, ao contrário do que ocorre na fase de exaustão. A autora esclarece que nem todos passam pelas quatro fases, sendo que só chega-se a quarta quando o estressor é muito grande (LIPP, 2001). Quanto a definição do termo “estresse ocupacional”, encontramos em Kyriacow e Sutcliffe (1981, citado por Campos, 2008, p. 35) a definição de ser um “estado emocional desagradável gerado pela tensão, frustração, ansiedade e exaustão emocional em função de aspectos do trabalho definidos pelos indivíduos como ameaçadores”. Segundo Lipp (2002), o termo estresse ocupacional tem recebido atenção de vários pesquisadores. Ela relata que as pessoas que se dizem felizes relacionam esta felicidade a quatro áreas de suas vidas: social, afetiva, saúde e profissional. Para a autora, o estresse está inter-relacionado a questões referente a qualidade de vida. Couto (1987, citado por Lipp, 2002) diz que o estresse interfere diretamente na qualidade de vida no trabalho, interferindo no modo como o indivíduo interage nas diversas áreas de sua vida. Para Lipp (2001), o estresse ocupacional pode ser oriundo de fontes variadas decorrentes diretamente do ambiente e de condições do trabalho, ou de características pessoais e interpretações disfuncionais do indivíduo frente aos acontecimentos. Para ela, as reações fisiológicas ante um estressor ocupacional são as mesmas que em outras áreas, o que as diferencia são as formas de manifestação e as consequências. A autora divide as fontes em internas e externas. Como fatores internos caracterizam-se a maneira do indivíduo se relacionar com seu meio, seu tipo de personalidade e sua maneira de reagir à vida. Nesta perspectiva, o acontecimento em si não é capaz de proporcionar altos níveis de estresse, mas sim, a maneira como o evento é interpretado pelo indivíduo. A resistência aos desafios enfrentados é também influenciada consideravelmente pelas estratégias de enfrentamento, presentes no repertório da pessoa. Quanto aos fatores externos caracterizam-se como: as exigências do dia-adia, as dificuldades no trabalho, como mudanças de emprego, trabalho com excesso de tarefas a serem realizadas em curto espaço de tempo, pressão constante no trabalho, exigências ocupacionais. Entre as consequências do estresse ocupacional na organização temos a baixa produtividade, altos índices de erros, falta de motivação, alta rotatividade, absenteísmo ou mesmo presenteísmo, entre outros. Segundo Lipp (2002), “é comum ocorrer o cinismo em relação aos colegas ou a própria clientela e uma tendência a ignorar novas informações resolvendo os problemas de forma cada vez mais superficial” (LIPP, 2002, p. 538). As conseqüências do estresse podem ser divididas entre consequências para as empresas e para os empregados, conforme a tabela a seguir: CONSEQUÊNCIAS DO STRESS CONSEQUÊNCIAS DO STRESS NOS PARA AS E MPRESAS EMPREGADOS 1- Excesso de atrasos e de faltas 1- Depressão 2- Alta rotatividade 2- Falta de ânimo 3- Acidentes de trabalho 3- Falta de envolvimento com o 4- Problemas de relacionamento com a trabalho e a organização chefia e subordinados 4- Faltas e atrasos freqüentes 5- Queda na produtividade (qualidade e 5- Excesso de idas ao ambulatório quantidade) médico 6- Falta de originalidade nas idéias 6- Alcoolismo, tabagismo e uso de 7- Desempenho irregular outras drogas 8- Dificuldades interpessoais com colegas Fonte: CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: a dinâmica do sucesso das organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. p.434 As alterações mais freqüentemente observadas na conduta são: o absenteísmo ao trabalho, a conduta violenta, a incapacidade para relaxar, além do aumento do consumo de tabaco, álcool, fármacos, entre outros. Fatores do trabalho do defensor relacionados ao estresse ocupacional Para Malvezzi (2004), o trabalho é um agente de transformação da realidade, o que no trabalho do defensor não é diferente ante seu amplo rol de atuação na sociedade. O trabalhador se reconhece através do seu trabalho e de sua produção, obtém seu sustento, expressa sua dependência e seu poder sobre a natureza, vivencia relações de prazer e desprazer. Para o autor, o trabalho não é apenas uma transformação da matéria, mas é também um agente de mudanças da vida psíquica, econômica, social, cultural e política. Deste modo, o trabalho está intimamente interligado com outras dimensões da vida, como as relações sociais e familiares do indivíduo. Se pensarmos que o ser humano é um ser indivisível entre razão e emoção, e que o trabalho apresenta uma centralidade na sua vida, podemos facilmente interligar a relação de proximidade entre as experiências vivenciadas no trabalho e sua qualidade de vida em outras esferas da vida. Contextualizando este pensamento na carreira de defensor público, podemos dizer que o estresse tem início na sua vida profissional já na preparação para a prova, visto ser um concurso público concorrido, com várias fases de exames escritos e oral. Após a aprovação, segue sua jornada na maioria das vezes saindo de sua cidade natal para uma cidade no interior do estado. Conforme Malvezzi (2004), o trabalho é “uma aplicação de recursos pessoais”, e esta aplicação é intermediada por uma série de fatores como relações sociais, de poder, valores, entre outros. O autor ressalva que no trabalho é comum a vivência de situações de incerteza e de ambigüidade e seu principal desafio consiste em “um dos mais significativos desafios do trabalhador é o enfrentamento rotineiro das descontinuidades que o obrigam a um contínuo ajustamento, para o qual, muitas vezes lhe falta sensibilidade e apoio institucional” (MALVEZZI, 2004, p 15). Conforme o histórico da Defensoria Pública do Tocantins, podemos observar que houveram uma série de lutas, avanços e retrocessos em sua constituição. Em 1998 vê-se fora da Constituição Estadual, com a revogação de todos os artigos que tratavam da Instituição. A instituição fica a margem, excluída da tríade da justiça e a pergunta que fica aos seus membros é: que justiça é essa? Cadê o equilíbrio da balança? Eis que então volta a Constituição Estadual algum tempo depois. A instituição permaneceu estagnada até 2003, ganha um, dois concursos públicos, mas ainda ha a necessidade de mais defensores e da formação de seu quadro de pessoal, visto que segundo o Relatório Gespública (2010) há cerca de 76 servidores comissionados que fazem parte da estrutura operacional da Instituição, 227 servidores cedidos por outros órgãos públicos, e outros funcionários contratados, estagiários, etc. Estas características da instituição demonstram que ainda há muitas incertezas e avanços a serem conquistados pelos profissionais. Também é preciso ressaltar que a Defensoria Pública do Tocantins constitui-se como uma das melhores do país. Fica então na imaginação, a situação de estresse que habita outras defensorias espalhadas pelo país. Como vimos, fatores da organização e do contexto do trabalho estão entre os fatores externos que causam estresse no trabalho. Alves (2009) relata que os trabalhos desenvolvidos pela defensoria pública trazem um enorme ganho a população, no entanto, percebe-se o trabalho do defensor como uma atividade altamente estressante devido ao contato diário e freqüente com pessoas. Em geral, estas pessoas encontram-se em vulnerabilidade, com características comportamentais agressivas e apresentando desajustes emocionais, o que faz com que muitas vezes o defensor se envolva emocionalmente com seus assistidos, assim como a pressão por resultados e o pouco controle sobre o resultado de seu trabalho (já que lhe cabe apenas a propositura da ação e não sua decisão). Sendo assim, esta profissão pode ser equiparada com algumas das profissões mais suscetíveis ao estresse ocupacional. É sabido que fatores como a sobrecarga de trabalho devido a grande demanda de serviços, interrupções constantes, ambigüidade organizacional, incerteza quanto ao futuro, falta de estrutura física e o convívio com colegas insatisfeitos são fatores estressantes relacionados ao estresse ocupacional que interferem na qualidade de vida no trabalho. Assim como os fatores citados acima, ainda há uma série de outros fatores que podem causar estresse no trabalho como: necessidade de atualização constante, horário de trabalho prolongado, abarcando também eventos e interações com a comunidade, realização de mediação de acordos, relacionamento com outras carreiras jurídicas, incertezas institucionais, etc. Os defensores citam também a falta de estrutura para o trabalho e a falta de prestígio da carreira como fatores de desgaste da profissão (III DIAGNÓSTICO DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL, 2009). Torna-se visível então que o trabalho como defensor público pode gerar estresse excessivo e contínuo, o que em geral pode afetar a saúde, a qualidade de vida e seu desempenho na organização. As características do trabalho do defensor citadas, podem gerar todos os componentes de um estado de estresse ocupacional, ou seja, desgaste emocional, falta de ânimo, depressão, falta de envolvimento com o trabalho e com a organização, faltas e atrasos freqüentes, consumo de bebidas alcoólicas, entre outros. Desta maneira, assim como diversas outras profissões como professores, policiais, bombeiros, médicos, psicólogos, modelos, etc, a profissão de defensor público também está suscetível a este mal, assim como outras não citadas neste trabalho. Por este motivo, acredita-se que é de suma importância atuar na prevenção e no manejo do estresse destes profissionais, visando preservar a saúde do trabalhador e evitando gastos com licenças, faltas, atrasos, entre outros. Prevenção e manejo do estresse Assim como os fatores organizacionais interferem no trabalho, a vulnerabilidade dos indivíduos ao estresse e sua pouca habilidade para lidar com os eventos estressores também devem ser consideradas como fator agravante a saúde. Segundo Lipp (2001) o modo de reagir a estímulos é um produto da aprendizagem, e sendo assim, seu contrário também pode ocorrer, ou seja, é possível desaprender certas reações inadequadas e estressoras em potencial, através de determinadas ações de manejo de estresse. No entanto, para que tal aprendizagem ocorra, são necessárias ações planejadas e continuadas da organização pensando-se no bem estar e na qualidade de vida de seus funcionários. Segundo Lipp (2001) no trabalho de manejo do estresse é necessário identificar as fontes de estresse para que se possa planejar estratégias de enfrentamento adequadas a sua natureza. Como muitas vezes não se pode interferir rapidamente em questões ligadas a estrutura organizacional, faz-se importante então a identificação dos estressores internos (como valores e crenças inadequados, distorções cognitivas, padrões de comportamento disfuncionais agressivos, competitivos, não assertivos, dificuldades de expressão de afeto, ansiedade, depressão) para que haja a possibilidade de manejo nestas características. Este trabalho em geral pode ser realizado por um psicólogo, no entanto, na Defensoria Pública do Tocantins este profissional compõe apenas o quadro da capital do estado. Outra possibilidade é o oferecimento de ações como palestras, cursos e treinamentos através da área de gestão de pessoas, a qual na instituição, segundo o Relatório Gespública (2010) é responsável pelas atividades de capacitação e aprimoramento da força de trabalho. Esta área da organização está atualmente responsável pela implantação do programa Gespública, um programa que visa melhorar as condições de trabalho e prima, principalmente, pela qualidade dos serviços prestados aos cidadãos. O programa Gespública encontra-se, todavia, em fase de implantação na instituição. Este programa é um projeto do governo federal ao qual a Defensoria faz parte por adesão e visa propor uma política de gestão capaz de aumentar a eficiência e a efetividade das ações no serviço público brasileiro, oferecendo, através de constantes avaliações, uma melhoria na qualidade do atendimento. Todavia, acredita-se que para que haja uma efetiva melhoria na qualidade dos serviços prestados, é imperativo que seus membros encontrem-se em bom estado de saúde mental. Em pesquisa pela palavra palestra e projeto no site da instituição, através de sua ferramenta de busca, foram encontradas apenas duas ações voltadas ao trabalhador da instituição. A primeira palestra intitulada “motivação e auto-estima” foi proferida pelo médico Néviton O. Rocha em 2007. A outra “motivação e comportamento profissional” proferida por Paulo Bomfin em 2010. No entanto, a palestra como a própria matéria relata, “foi um momento de troca de conhecimento sobre a importância da qualidade do atendimento e compromisso com a instituição”, sendo esta uma ação de treinamento voltada mais para a questão do atendimento de demandas da organização, do que do próprio trabalhador. Não foi encontrada nenhuma referência ao trabalho de gestão de pessoas voltado para a melhoria da qualidade de vida dos funcionários da instituição, como projetos de qualidade de vida, redução do estresse laboral, prevenção a doenças ocupacionais, etc, ou algum projeto mais elaborado e prolongado, subentendendo que, ou este trabalho não existe, ou ele não está sendo divulgado, diferentemente de outras Defensorias Estaduais espalhadas pelo país, que apresentam trabalhos como: - as ações de prevenção desenvolvidas pela Defensoria Pública do Maranhão através do projeto “A Defensoria Pública do Estado do Maranhão exercitando Qualidade de Vida através da Ginástica Laboral e Espiritualidade”, que tem o objetivo de minimizar as tensões do dia a dia e prevenir problemas orgânicos e fisiológicos causados pelas posturas incorretas decorrentes da rotina de trabalho. Segundo matéria divulgada no site da instituição o projeto se integra às ações do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização (Gespública) no âmbito da Defensoria Pública do Estado; - ainda na Defensoria Pública do Estado do Maranhão que, por intermédio do Comitê Interno do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização (GesPública), cria o projeto Banco de Talentos, que visará a identificação dos talentos, dos perfis e afinidades profissionais dos servidores, levando ao melhor aproveitamento das qualidades profissionais de cada um; - palestra “Reprogramação das Emoções e Combate ao Stress Negativo”, realizada pela Defensoria Pública do Mato Grosso do Sul, com o intuito de proporcionar aos Defensores Públicos mecanismos para lidar com o stress diário da profissão, a fim de otimizar e melhorar o ambiente de trabalho nas Defensorias Públicas do Estado; - Festa de integração entre os funcionários do órgão, com o “Arraial Junino”, promovido pela Associação dos Defensores Públicos do Estado do Pará, que segundo um dos coordenadores do evento teve o objetivo de promover um momento de confraternização, de descontração e de integração entre Defensores, servidores e estagiários que atuam na instituição. A festa contou ainda com um momento de integração social, quando da participação do Grupo Folclórico do Centro de Recuperação Feminino, representado por 16 internas, que dançaram diversos ritmos, com a participação dos servidores da Defensoria. Sabe-se que o programa Gespública da Defensoria Pública no Estado do Tocantins ainda se encontra em fase de implantação, no entanto, cabe ressaltar a importância de se estabelecer desde o início propostas de ação voltada também ao público interno da organização. É importante ressaltar ainda que somente através da ação deste público interno, ou seja, dos funcionários, é que se alcançará a qualidade nos atendimentos e a visão externa de uma organização que presta serviço de qualidade a população que dela necessita. Foi possível perceber através da análise documental que a organização em pauta apresenta-se ainda muito voltada a questões objetivas do trabalho, como a eficiência no trabalho em si e a qualidade do serviço prestado. Deste modo, a atenção a apenas estes fatores desvincula-se do caminho necessário para alcançar a excelência, visto que fatores subjetivos, que provoquem motivação no trabalho (reconhecimento profissional, satisfação no trabalho e desenvolvimento pessoal) são fundamentais para a excelência organizacional. Estes fatores subjetivos podem ser alcançados em parte, através da criação de programas de gestão de pessoas voltados para a qualidade de vida de seus membros, articulando ações de treinamento e desenvolvimento de competências tanto técnicas como comportamentais para a lida com as questões de ordem emocional que o trabalho exige. No III Diagnóstico Defensoria Pública no Brasil também foram citadas pelos defensores públicos, algumas propostas de melhorias nas defensorias públicas do país. O Relatório destaca que é: ...difícil estabelecer propostas de melhorias que sejam iguais em todo o território nacional, no entanto, é necessário apresentar propostas que busquem diminuir as diferenças existentes entre as unidades da federação, garantindo dessa forma, a mesmas oportunidades de acesso à Justiça para o cidadão brasileiro em qualquer região do país (III DIAGNÓSTICO DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL, 2009, p. 266). Entre as ações citadas pelos próprios defensores públicos estão questões relacionados a estrutura organizacional como necessidade de estabelecimento de padrões salariais, parâmetros de produtividade e qualidade referenciais para todo o território nacional, assim como questões ligadas ao trabalho em si como: ...necessidade de criação de mecanismos públicos de valorização do Defensor Público, uma vez que o defensor valoriza o trabalho e declara possuir vocação para a atividade mas, juntamente com a questão da falta de infraestrutura e a questão salarial, aponta a falta de prestígio da carreira como motivo para buscar outra (III DIAGNÓSTICO DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL, 2009. p. 267). CONSIDERAÇÕES FINAIS Através da análise dos documentos citados, da literatura estudada sobre o tema do estresse ocupacional e da própria realidade das defensorias públicas no país, foi possível perceber que há vários fatores de risco para a saúde/doença ocupacional dos defensores públicos. Fatores estes tanto objetivos, como melhoria na estrutura de trabalho, nos salários, na falta de equipe de apoio, como fatores subjetivos, como falta de percepção de reconhecimento profissional e de prestígio da profissão. Esta realidade leva-nos a perceber a urgência do tema e a necessidade do desenvolvimento de projetos que envolvam esta categoria profissional e atentem a prevenção do estresse ocupacional e da promoção da saúde em geral, para que doenças sejam prevenidas e/ou evitadas. Foi possível constatar que muito tem sido feito nas diversas defensorias públicas espalhadas pelo país, acrescentando à literatura novas ideias e exemplos de boas práticas. No entanto, Sabe-se que ainda há muito que se avançar na questão de estruturar as defensorias públicas do país, através do aumento do número de defensores e consequente diminuição na carga de trabalho, estruturação do ambiente de trabalho, contratação de pessoal de apoio, aumento do prestígio da carreira e implantação de programas voltados ao manejo do estresse e de qualidade de vida no trabalho. Na defensoria pública do Tocantins ainda há muito a se planejar e agir, no sentido de criar projetos que envolvam os trabalhadores, através de ações que oportunizem a compreensão sobre o processo do estresse e de que maneira ele pode ser manejado. Sabe-se que o fator de vulnerabilidade pessoal é relevante para a prevenção, sendo até apontada em algumas literaturas tipos de personalidade mais suscetível ao estresse. Desta forma, percebe-se que é possível atuar na individualidade de cada profissional através de ações planejadas e sistemáticas, que oportunizem aos trabalhadores trocas de conhecimentos e de experiências na sua atividade profissional do cotidiano. Há inúmeras técnicas e possibilidades de manejo do estresse, principalmente no que se referem aos aspectos subjetivos que envolvem o trabalho como valores e crenças inadequados, padrões de comportamento disfuncionais, não assertivos ou com dificuldades de expressão. Cabe então, a área de gestão de pessoas, pensar em práticas voltadas a diminuição do estresse ocupacional e de projetos de qualidade de vida em geral, visto ser este o caminho mais curto para que seus trabalhadores atinjam a excelência organizacional que se espera. Através da realização deste trabalho não se pretendeu esgotar o tema do estresse na categoria profissional dos defensores públicos, mas sim, iniciar um debate sobre a categoria e sobre as conjunturas de seu exercício profissional. Espera-se que este artigo contribua principalmente na atuação dos profissionais que atuam na área de gestão de pessoas, despertando-os para uma realidade existente e para a demanda latente de trabalho nas questões relacionadas a qualidade de vida na organização . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, K. L. de. et al. Estresse ocupacional e Síndrome de Burnout no exercício profissional da psicologia. Psicol. Cienc. Prof., v.22. n. 2, p. 22-29, jun. 2002. Disponível em: <http://pepsic.bvs- psi.org.br/scielo.php?scrpt=sci_arttext&pid=S141498932002000200004&Ing=pt&nm=iso>. Acesso em: 9 set. 2011. ALVES, Rita de Cássia de Araújo. Estresse e saúde mental no ambiente de trabalho jurídico. Pesquisa Psicológica (Online), Maceió, ano 3, n. 1, jul./dez. de 2009. 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