INFLUÊNCIA DO ESTRESSE POR CALOR NO CICLO DE PRODUÇÃO DE OVOS DE CODORNA Roberto de Andrade Bordin, Carla Mattos, Fernanda Fernandes* Universidade São Marcos, Faculdade de Zootecnia, Rua Clóvis Bueno de Azevedo, 176, CEP 04262-100, São Paulo, SP, Brasil. Introdução Embora as condições de temperatura sejam limitantes para a proteção de codornas, nem todos os criadores avícolas, no caso os codornicultores, se destacam pelo controle ambiental de seu galpão. Em geral, a chave do êxito está em uma ventilação apropriada. Aqueles que a conseguem, obtém maior rendimento alimentar, crescimento mais rápido, mortalidade mais baixa, e menores problemas relacionados à produção de ovos. Um razoável número de aves vive em locais suscetíveis a estresses provocados por calor. O maior problema reside na redução do consumo alimentar durante períodos de temperatura elevada, embora possa haver também alterações metabólicas nas aves. Estas se refletem na produção e qualidade da casca. As codornas precisam de fonte extra de calor durante a fase inicial de vida, entretanto, sofrem com a presença do mesmo durante o período de crescimento e produção. As exigências de calor declinam com a idade, uma vez que a camada de penas isola a superfície externa da codorna e a área de superfície do corpo em relação ao peso corporal é rapidamente reduzida. O estresse de calor é freqüentemente usado para descrever o estado da ave em condições de altas temperaturas. Considerando que as aves utilizam a respiração ofegante para perder calor em altas temperaturas, a umidade do ar inalado torna-se crítica. Assim, condições de alta temperatura e alta umidade são mais estressantes para aves do que altas temperaturas somente. Outros fatores ambientais tais como velocidade e movimento do ar também são importantes. A principal preocupação, em condições de alta temperatura é a capacidade da codorna poedeira consumir ração. Conforme aumenta a temperatura dentro do aviário, menor quantidade de calor é necessária para manter a temperatura corporal e, assim, as aves consomem menos alimento. Nesta situação, a energia ambiental substitui a energia dos alimentos. Entretanto, a relação entre produção de calor corporal e temperatura ambiental não é linear, pois em certas temperaturas críticas, as demandas energéticas são aumentadas a fim de iniciar a perda de calor por evaporação. Resposta das aves ao estresse de calor *Graduanda em Zootecnia, Universidade São Marcos. 104 A produção mínima de calor e, portanto, a situação mais eficiente situa-se em torno de 23º C. Abaixo desta temperatura, as aves devem gerar mais calor a fim de manter o corpo aquecido. Entretanto, entre 19 e 27° C, a produção de calor é mínima. Acima de 27° C, as aves começam a usar mais energia na tentativa de resfriar o corpo. Por exemplo, as aves dilatam alguns vasos sangüíneos a fim de enviar que mais sangue para vá para a crista, patas, e zonas com alta irrigação sangüínea, na tentativa de aumentar a sua capacidade de resfriamento. É freqüentemente observado pelo produtor a respiração ofegante e a queda das asas que ocorrem em temperaturas levemente elevadas, e significam que a codorna apresenta uma aumentada demanda de energia. Naturalmente a situação não é tão clara como parece. Esta, talvez seja a razão da elevada variabilidade observada entre lotes submetidos a diferentes condições ambientais. A produção de calor pode flutuar em resposta a uma série de condições práticas que ocorrem no aviário como estes fatores: a) aumento no consumo alimentar; b) melhor empenamento; c) ou aumento da atividade da ave. A situação é complicada ainda mais pelo consumo energético da ave. Com o aumento da temperatura ambiental o consumo energético (alimentar) é reduzido. Acima de 27-28° C, a redução torna-se dramática, uma vez que a ave está sob estresse e atitudes como respiração ofegante afetam adversamente o centro da alimentação, no hipotálamo, e também reduzem o tempo disponível para o arraçoamento. Em temperaturas próximas ou superiores a 28° C, a energia disponível para a produção é dramaticamente reduzida e, em torno de 33º C, torna-se negativa. Se a energia disponível for contrastada com a temperatura, um claro padrão pode ser observado em relação à produção de ovos. Ao considerar que a quantidade de energia (kcal) contida em um ovo é derivada da energia consumida, para uma ave que apresenta 90% de produção, será necessário um conteúdo superior a 70% de energia consumida, para satisfazer suas necessidades de produção. Uma pequena parte do total de energia disponível será destinada ao crescimento ou aumento do peso corporal. Em temperaturas de 28° C, a energia disponível satisfaz somente as exigências de produção de ovos, não as de crescimento. Acima de 28° C, a energia disponível não satisfaz a demanda de 90% da produção de ovos. Assim, a produção de ovos diminuirá ou outra fonte de energia deverá ser usada. As reservas de gordura e proteína da ave poderiam ser usadas neste momento. Ao atingir 33° C, a ave encontrase em balanço negativo de energia em virtude de um acelerado processo metabólico. Energia A principal preocupação durante o estresse de calor é a energia disponível para a produção de ovos. A otimização de tal energia disponível pode ser obtida através de: 105 a) Aumento do nível energético na dieta Ao aumentar o nível energético da dieta, reduz o consumo alimentar. Isto ocorre porque a ave tenta manter um determinado consumo energético constante. A fim de aumentar o nível energético, o uso de gordura suplementar deve ser considerado. A gordura dietética tem a vantagem de aumentar a palatabilidade e ao mesmo tempo reduz o incremento de calor que é gerado durante a sua utilização no corpo. b) Estímulo ao consumo alimentar Vários métodos podem ser tentados para estimular o consumo alimentar. O arraçoamento mais freqüente durante o dia normalmente estimula o consumo alimentar nas horas de temperatura mais amena do dia. Outro método eficiente para aumentar o consumo de nutrientes e tornar a dieta mais palatável é a utilização de óleo vegetal diretamente na ração. Quando altos níveis dietéticos de gordura são usados, entretanto deve-se prevenir com antioxidantes contra uma possível rancificação, e cuidar para que não ocorra o empastamento da ração nos comedouros e silos. A textura da dieta também pode ser levada em consideração, pois a ração triturada tende a estimular o consumo, enquanto a troca repentina de partículas grandes para pequenas, apresenta efeito transitório no estímulo do consumo. É interessante observar que a troca repentina de partículas pequenas para grandes parece ter efeito negativo no consumo. c) Reservas energéticas corporais Um programa correto de alimentação para codornas jovens em crescimento é essencial para o ótimo retorno econômico em um aviário. Em geral, quanto maior o peso corporal na maturidade sexual, maior o peso do corpo durante o ciclo produtivo e, portanto, maior o potencial energético de reserva e maior o consumo. O objetivo não é a produção de aves gordas, mas aves de bom peso com boas reservas de gordura, que terão melhor desempenho em condições de estresse de calor. Proteína No passado era prática comum aumentar o nível protéico durante condições de estresse de calor. A proteína, entretanto, é um nutriente de difícil metabolização, e que durante esse processo, muitas vezes acarreta a geração de calor. Esta produção extra de calor pode sobrecarregar mecanismos de dissipação de calor (respiração ofegante, circulação sangüínea). A resposta para o problema pode ser, não aumentar o nível protéico, mas elevar o nível de aminoácidos essenciais. Ao fornecer aminoácidos sintéticos, é possível manter o consumo de aminoácidos essenciais sem sobrecarregar o organismo com excesso de proteína (N). Recomendações gerais são aumentar o nível de metionina e lisina para proporcionar um consumo razoável dos aminoácidos. Minerais e vitaminas Os níveis de cálcio devem ser ajustados de acordo com o nível antecipado de consumo alimentar, de forma que as aves consumam uma quantidade de 106 cálcio capaz de suprir as necessidades geradas pela produção de ovos. Em dietas altamente energéticas, deve-se distribuir partículas grandes de calcário e farinha de ostras na superfície da ração. Esta prática também apresenta a vantagem de estimular o consumo. Mudanças nos eletrólitos do plasma, tais como sódio, potássio e bicarbonato, são vistos com todas as classes de aves durante condições de altas temperaturas. Estas mudanças são particularmente importantes para a poedeira, uma vez que estes nutrientes estão envolvidos no processo de formação da casca. Mudanças em eletrólitos plasmáticos são provavelmente responsáveis pelo início da ofegação em aves submetidas ao estresse de calor. Quando o balanço eletrolítico favorece condições ácidas no sangue, ele estimula a freqüência respiratória na ave. A situação de interesse imediato para o nutricionista é o potencial para modificar o balanço eletrolítico das aves a fim de evitar o estresse ou evitar a perda na qualidade da casca. Durante a ofegação (gera a alcalose respiratória, o plasma torna-se alcalino), a ave passa a excretar grandes quantidades de bicarbonato na urina. Isto leva a uma competição direta entre os rins e a glândula calcífera por bicarbonato, que é o principal componente da casca, e como tal, influencia adversamente a qualidade da casca. Durante o estresse de calor a ave usa melhor as suas reservas medulares de cálcio, que se encontram na forma de fosfato de cálcio. Isto significa mais fósforo na circulação, que é outro fator que influencia negativamente a formação da casca. Parece haver algum efeito benéfico na adição de bicarbonato de sódio na dieta ou na água. Entretanto, isto deve ser feito com cuidado, para não impor uma carga alta de sódio para a ave para que o nível de sal possa ser alterado. Deve-se também ter cuidado com a quantidade de sal presente na água, que pode ser alto em períodos de estresse de calor. Existem evidências do efeito benéfico do aumento de potássio na dieta. Entretanto, cálculos devem ser feitos para que não ocorram problemas de desbalanceamento eletrolítico. Poucas evidências científicas existem com relação ao efeito benéfico da utilização de complexo de vitamina B durante o estresse de calor. Evidências contraditórias, entretanto existem em relação a vitaminas lipossolúveis. O aumento dos níveis de vitamina A, D3 e E tem mostrado vantagens. A utilização de vitamina C tem sido vantajosa durante o período de estresse de calor. A suplementação de vitamina C, entretanto, não deve ser feita em períodos que não sejam os de estresse de calor. Água Aves sob condições de temperaturas elevadas tomam mais água. Parece ser importante esfriar a água para poedeiras, onde, o esfriamento da água resultou em melhora no consumo alimentar e na produção de ovos. Ocasionalmente, a suplementação de nutrientes na água de beber durante o estresse de calor parece ter efeito negativo sobre o desempenho de poedeiras. Outro fator importante a considerar é o possível efeito deletério de minerais 107 e contaminantes dissolvidos, e a concentração de sólidos é normalmente o que causa mais problemas. Mudanças nas dietas Aparentemente, quando a ave é submetida à situação de estresse por calor agudo, a troca de dieta impõe outro estresse. Por exemplo, a adição de gordura causa uma elevação repentina na temperatura corporal, que pode ser prejudicial à ave. Assim, sugere-se que em extremos de temperatura ambiental (36-40° C) nenhuma troca seja feita uma vez que podem gerar prostração por calor que pode ser seguida de morte. Nestas condições, é interessante estimar os períodos em que ocorrerá o estresse de calor e proceder a troca de ração antecipadamente, quando a ave estiver ainda submetida a condições moderadas de estresse (28-35° C). Entretanto, mesmo em condições de curtos períodos de estresse de calor, não é aconselhável a troca de dieta. A mudança nos ingredientes da ração não ameniza o efeito do estresse de calor, por vezes até o pioram. Assim, em condições de curtos períodos de estresse de calor, a troca de ração resulta em estresse adicional para as aves. Recomendações gerais para amenizar o estresse de calor Em condições normais, as aves devem receber ração para satisfazer o consumo diário de nutrientes. Independente do ambiente, as decisões corretas não podem ser feitas sem o conhecimento do consumo alimentar, peso corporal e peso do ovo. Em condições de estresse de calor (28-40° C), os seguintes pontos devem ser considerados: 1) nunca transfira codornas jovens com peso abaixo do esperado como ideal para gaiolas de postura. Elas sempre permanecerão pequenas, e não terão reservas para manter uma produção ótima de ovos; 2) aumentar o nível energético dietético, preferivelmente com a incorporação de gordura. Limitar o uso de alimentos fibrosos; 3) reduzir o conteúdo de proteína bruta (21% no máximo), mas manter consumos diários de metionina e lisina; 4) aumentar o nível de premix vitamínico-mineral, de acordo com trocas antecipadas no consumo alimentar. Manter o consumo de cálcio e do fósforo disponível; 5) quando a qualidade da casca for um problema, considerar a adição de bicarbonato de sódio. Neste momento, controlar o consumo total de sódio; 6) usar vitamina C suplementar (100 g/tonelada) em casos de estresse de calor. Remover a vitamina C, em condições normais. Aumentar a freqüência de arraçoamentos diários e fazê-los nos períodos de temperaturas mais amenas do dia. 108