EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E MEDIAÇÃO: PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO Prof. Dr(ndo) Thiago Merlo Universidade Nacional de Rosário (ARG) [email protected] Resumo O artigo apresenta as bases fundamentais do processo de construção do conhecimento no contexto da Educação Física Escolar. A Resolução de Conflitos e a Mediação são os veículos da instrumentalização do processo. As legislações educacionais brasileiras, bem como as grandes obras provenientes da década de 1980, preconizam um modelo de Educação Física Escolar crítico, emancipador e autônomo. A correlação entre os princípios de educação mediada de Reuven Feuerstein e os estudos sobre moral, normas, princípios e valores apresentados por Angelo Vargas caracterizam o cerne dos conteúdos, explicitando a caracterização e apresentação da Mediação Cultural. Palavras-chaves: Educação; Educação Física; Mediação. Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013 Introdução A Educação Física Escolar está repleta de intenções que transcendem o utilitarismo e o funcionalismo das práticas físicas ligadas a jogos e esportes. Como parte integrante do currículo mínimo preconizado pela LDB - Lei de Diretrizes e Bases - e abalizado pelos PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais – a Educação Física aplicada no âmbito escolar valoriza seu caráter pedagógico no sentido da valorização da saúde, bem-estar e qualidade de vida. Associando as Ciências Educacionais e Ciências da Saúde, talvez a Educação Física Escolar seja a disciplina que detenha as maiores responsabilidades contemporâneas, cujos alunos devem ser observados sob uma ótica holística, privilegiando igualitariamente habilidades, competências, comportamentos e pró-eficiências cognitivas, sensoriais, motoras e afetivas. Isto posto, não é mais possível acreditar na Educação Física como mero expositor de ideias estanques, sejam elas cientificistas ou ideológicas. É necessário a conscientização do corpo escolar composto por alunado, direção e professorado, acerca das virtudes da área de conhecimento, bem como o desenvolvimento da emancipação, criticidade e autonomia. E para o desenvolvimento da tarefa cotidiana do aprender a aprender, precisamos de instrumentos eficazes que alternam diálogos e trocas de experiências comuns. É sabido que a construção do conhecimento se consolida das formas das mais diversas, não sendo possível considerar apenas um referencial teórico. A luz da Psicologia e segundo Piaget, os efeitos dos processos de maturação, crescimento e desenvolvimento infantil ocorrem de forma natural e subsidiada por estímulos contínuos. Apesar da forte crença nas condições inatistas, entende-se que a estimulação realizada por adultos e o reconhecimento das fases de desenvolvimento colaborem para a definição prévia de quais os conteúdos, bem como os níveis de complexidade, podem ser elencados. De acordo com Vygotsky, o processo de construção do conhecimento é fortemente tipado no estímulo e troca de experiências. Não há definições prévias de fases de desenvolvimento humano, porém é estabelecido modelos e sequencias de estimulação completas, permitindo que o conceito máximo de Zona de Desenvolvimento Proximal se consolide a partir relações entre o que já se conhece com aquilo que poderá ser aprendido. Podemos afirmar que o conhecimento estabelecido naturalmente pela criança e mensurado através dos princípios da Zona de Desenvolvimento Real seja um ponto de partida para o inicio de novos estímulos e novos conteúdos. Levy Vygotsky sinaliza o embate entre o detentor do conhecimento prévio e o interlocutor de ideias complementares. E como “novo” é dotado de artimanhas e medos, estatele-se aquilo na qual definimos como conflito. O processo de construção do conhecimento preconizado por Vygotsky caracteriza-se pela constante tarefa de apaziguar e solucionar conflitos. Conflitos estes oriundos da presença constante de estímulos advindos do pleno gozo natural da vida ou apresentados por elementos condutores, tais quais chamados de mediadores Um exemplo no contexto da Educação Física Escolar: quando uma criança ver uma bola de basquetebol pela primeira vez, tendo conhecido e contatado apenas uma bola de futebol, certamente ela dirá que a bola de basquetebol serve para o futebol, porém de cor laranja e maior volumetricamente. A partir do manuseio, a criança perceberá, inclusive, que a bola é mais pesada e apropriada ao drible. E por analogia, contraste e intermediação direta do interlocutor, talvez a criança perceba que não se trata de uma bola de futebol, mas um instrumento apropriado para outro tipo de prática física. É chegada a hora da presença do solucionador de conflitos: o professor que dispõem de qualidades ímpares. Acrescentando informações gradativamente em progressão pedagógica, o professor e solucionador de conflitos procede a iniciação esportiva do basquetebol, explicando e exemplificando o desporto. Não obstante ao caráter obrigatório de exposição de conteúdos proferidos pela figura do professor, o modus operandi poderia ser dos mais diversos no exemplo anterior. Inclusive pautado no modelo de professor expositor de uma educação tradicional (“Senhoras e Senhores! Apresento-lhes uma Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013 bola de basquetebol. O basquetebol é desporto praticando com mãos, cujo objetivo é acertar o lançamento do objeto esférico num alvo informado previamente(...)”). É necessário a caracterização do problema, a estruturação do conflito e adoção dos procedimentos de elucidação. O conjuntos de ações descritas chama-se Mediação. Desenvolvimento A Mediação é a instrumentalização da política através da resolução de conflitos. E como se configura, deve ser utilizada sob a condição de troca das experiências acumuladas do mediado e a crença plena nas condições de conhecimento prévio. Ou seja, ninguém é absolutamente desprovido de conhecimento, assim como ninguém é o detentor do saber absoluto. Mediar é, sobretudo, respeitar o próximo. Por isso: “Na aprendizagem por mediação, a criança não aprende apenas pela exposição direta ao estímulo, mas por intermédio de alguém que serve de mediador entre ela e o meio ambiente. A situação mediada consiste numa interação interpessoal que possui características estruturais especiais. Em vez de relações casuais com diversos componentes fragmentados no meio ambiente, na experiência de aprendizagem mediada existe um mediador, desempenhando o papel educacional de atuar sobre o estímulo. (...)”. (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004. Pág. 40) A Educação Física Escolar está permeada de oportunidades para adoção da mediação como um processo inequívoco de construção do conhecimento. Faz-se mister que o mediador adquira determinadas pró-eficiências técnicas, mas nada supera o conhecimento acerca dos processos de formação global do mediado, contemplando seus valores, princípios, normas e regras sob a luz da cultura, sociedade, política, economia e principalmente pela moral. Apresenta-se as ações do mediador: “(...)O mediador seleciona, assinala, organiza e planeja o aparecimento do estímulo, de acordo com a situação estabelecida por ele e com a meta de interação desejada. Pela mediação, o mediado adquire os pré-requisitos cognitivos necessários para aprender, beneficiar-se da experiência e conseguir modificar-se. (...)” (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004. Pág. 40) Uma das formas mais singulares da mediação educacional está na identificação dos signos sociais culturalmente acumulados pelos mediados, fazendo com que o processo de ensino-aprendizagem formal seja uma extensão das ocorrências cotidianas de retenção de conteúdos ordinários e nos mais diversos campos de pertencimento. Em última análise, conhecer os signos sociais dos mediados é compreender intimamente o processo de construção da identidade. E identidade é sinônimo de pertencimento. O mediado sabe de onde vem e o que é. E a obrigação do mediador é conhecer (e reconhecer) suas limitações e até onde pode avançar nas suas reflexões. Considerando os principais referenciais teóricos na área da Educação, o intelectual que mais avançou no campo do ensino e da aprendizagem através de processos de mediação foi Reuven Feuerstein. O psicólogo judeu e romeno desenvolveu a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE), a partir estudos avançados em crianças órfãs e ditas “incapazes de aprender” oriundas de diversas partes do mundo, vítimas da Segunda Guerra Mundial. A MCE se constitui a partir da crença filosófica de que todas as pessoas, em maior ou menor grau e independentemente de idade, quando mediadas, desenvolvem potenciais mesuráveis, alterando as estruturas que constituem a cognição e propiciando avanços de desenvolvimento cognitivo. (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004) A Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM) é a análise quantitativa e qualitativa das ações de mediação, avaliações dos mediados e processos de melhoria das ações do mediador. O Programa de Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013 Enriquecimento Instrumental (PEI) é um conjunto de ações pragmáticas no sentido de estabelecer a mediação dentro de um ambiente controlado e mensurável. Com o avanço da experiencia da mediação, a gradação das ações mediadoras são expandidas e aumentadas ao que tange os graus de dificuldades. Por fim, apresenta-se a Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem (LPAD) que verifica globalmente os avanços das ações mediadas correlacionando com critérios técnicos de desempenho cognitivo, desde a inteligencia reflexa até níveis avançados. (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004) Educação Física e Cultura: campos para promoção da mediação A Educação Física Escolar pode desenvolver, através dos mediadores antecipadamente qualificados, a mediação sob diversos prismas. Nas atividades lúdicas, a contemplação a um imaginado mundo irrealístico. No jogos, o respeito as regras e as indivíduos que o constituem a oposição ou sobreposição de interesses comuns. No esporte, a fusão de interesses entre performance, rendimento, resultados e espírito esportivo. Dentre as diversas possibilidades de construção de processos de mediação, elenca-se a mais intrigante e supracitada: a mediação cultural. A partir de apropriações do signos sociais pelo mediador, o professor de Educação Física Escolar poderá correlacionar as atividades motoras com os símbolos que agregam valor de pertencimento aos mediados. Entender como, quando, onde e por que o mediado se sente mais ou menos integrado ao lugar onde vive é primordial para agir propositivamente. “A possibilidade de lidar com vários códigos e viver diferentes papéis sociais, num processo de metamorfose, dá a indivíduos específicos a condição de mediadores quando implementam de modo sistemático essas práticas. O maior e o menor sucesso de seus desempenhos lhes dará os limites e o âmbito de sua atuação como mediadores”. (VELHO, 2001. Pág. 25) As habilidades, competências, comportamentos e pró-eficiências para mediar estão disponíveis nos mais diversos campos de estudos educacionais. Se por um lado, é necessário saber tecnicamente como agir para mediar, por outro somente a interação contínua e observação participativa ajudam na construção do entendimentos gerais acerca dos signos sociais dos mediados. O contexto psicológico envolvido em cada local onde os signos sociais são constituídos é, indiscutivelmente, o maior desafio do mediador. Mesmo usando os instrumentos desenvolvidos por Feuerstein, somente a interação de individuo à indivíduo em níveis atômicos garante o entendimento de cada símbolo permeado no corpo do mediado. “(...) Na ideia de mediação cultural, culturas diferentes produzem diversos modos de funcionamento psicológico. Assim, culturas baseadas no empirismo constroem conceitos espontâneos gerados em situações concretas e nas experiências pessoais. Essas culturas tem dificuldade de acesso a outras culturas mediadas num contexto de exposição sistemática ao conhecimento estruturado da ciência”. (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004. Pág. 145) Em última análise, mediação cultural é transcendência da própria mediação em busca da compreensão maximizada dos signos sociais que permeiam a existência de cada indivíduo, avaliando a importância que cada signo representa. A compreensão avançada da constituição dos signos sociais A compreensão dos signos sociais não se pauta apenas no bom-senso, tão pouco no mero vivenciamento do cotidiano dos mediados. É preciso conhecer os signos sociais, elementos fundamentais para mediação cultural, de modo estrutural. E a estrutura dos signos sociais é, inexoravelmente, constituída a partir dos valores, as normas, as regras, as condutas e os princípios. Em síntese, a ética do mediado. Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013 A ética é partícipe no processo de mediação desde o início até o fim. Quando fere-se algum ponto da moral do mediado, assim como o mediador não se conforta com os valores apresentados no âmbito do processo de ensino-aprendizagem, todo a mediação fica comprometida. Por isso é indispensável uma análise axiológica por parte do mediador para que nada se interrompido intempestivamente. “o sujeito da ética é o homem e os homens se distinguem pelos valores que vivem. Antes de assumir formas objetivas, a atividade humana é projetada subjetivamente por homens que vivem determinados valores. Ao objetivar-se realizam valores. Valorização do mundo através da criação intelectual, ética e estética (…) A ética dirige-se à vontade e à consciência do ser humano. Mais do que ciência, Ética é sabedoria. Cada sociedade tem sido caracterizada por seus conjuntos de normas, valores e regras”. (VARGAS, 2007. Pág. 2) Só é possível mediar, quando o mediador e mediado estão em “sintonia ética”, antes mesmo do término da configuração iniciada para o processo de mediação. Conclusão A Educação Física Escolar clama por sua legitimidade educacional desde sua formalização e reconhecimento institucional, político e governamental. Se na década de 1980, a Educação Física reivindicou sua idealização popular e progressista (GHIRALDELLI, 1987), certamente atentou-se para o respeito a saberes e conhecimentos prévios de educandos e educadores. E os estudos que se sucedem sobre mediação tem sido aliados de primeira hora. A criticidade constantemente proclamada pela Educação Física revisitada entre 1980 até 2000 pode anexar as suas ações práticas o processo da mediação. O objetivo da Educação é simples: evoluir o ser humano. O que muda na contemporaneidade são as formas pelas quais isso tem sido feito. A Mediação de Feuerstein é uma extensão aperfeiçoada de estudos mais antigos como de Piaget e Vygotsky, trazendo luz as ações metodológicas da mediação. Mediação cultural é a busca do entendimento humano a partir de seus hábitos dentro do tempo e do espaço. Mediar pela e para cultura é educar através do caminho para compreensão dos valores e da moral humana. A Educação Física Escolar, rica nos seus princípios e ações técnicas, ganha mais um dispositivo para abalizar os interesses pela busca de resultados. Cabe ressaltar que a mediação não tem fim em si próprio. Abaliza-se existencialmente na Educação e na Ética. “'Interpretar para compreender e edificar estratégias de transformação da realidade contextual. Essa parece ser a meta da educação. É oportuno salientar que esse homem com capacidades críticas e transformadoras só emergirá na medida em que lhes sejam oportunizadas as condições mínimas necessárias da compreensão de sua cultura e dos comportamento dos seus pares”. (VARGAS, 2011. Pág. 152) A Educação Física Escolar, detentor de direitos e deveres, garante ao currículo mínimo na LDB a presença de práticas motoras contextualizadas aos interesses políticos e pedagógicos das instituições de ensino. A mediação, especialmente a cultural, é a instrumentalização que agrega valor ao processo de ensino-aprendizagem da Educação Física Escolar. E sabido que esforços pontuais na promoção da mediação não se caracteriza pela notória facilidade na qual é aplicada, mas nos resultados apurados a médio e curto prazo. Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013 Referências Bibliográficas BRASIL. MEC – Ministério da Educação e Cultura. LDB – Lei de Diretrizes e Bases. Lei N: 9.304 de 1996. _________________________________________. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais – Educação Física. 1998. DE LA TAILLE, Y. (orgs.). Piaget, Vigótski; Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. FEUERSTEIN, R. 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