O APRENDIZADO DA LÍNGUA ESTRANGEIRA NA ADOLESCÊNCIAUM ESTUDO DE CASO HOFFMANN, Maria Cristina – FURB/PPGE mchoffmann2 @hotmail.com IMHOFF, Ana Maria Venâncio Gonçalves – FURB/PPGE anamaria.imhoff @gmail.com SCHROEDER, Edson – FURB/PPGE [email protected] Eixo Temático: Cultura, Currículo e Saberes Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Apresentamos uma pesquisa em desenvolvimento - um estudo de caso, com foco na aprendizagem em língua inglesa por um adolescente, estudante de escola pública, que não fez cursos particulares no idioma, entretanto, apresenta fluência na língua. A investigação tem como objetivo central compreender como esse adolescente de 15 anos de idade aprendeu a língua inglesa, considerando-se sua relação com adultos, as tecnologias e os diferentes contextos culturais, como a escola, bem como as questões motivacionais que o conduziram às quatro habilidades previstas na Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina (PCSC): escrever, ouvir, ler e falar. Desenvolvemos as discussões sobre adolescência em Palacios e Oliva (2004); sobre as hipóteses de aprendizagem da língua estrangeira em Krashen e Terrel (1993); Lightbown e Spada (1998) e Ferrari (2007) e sobre os processos de interação por meio da ZDP, em Vygotsky (2009), como uma zona assistida de construção de conhecimentos. Para a coleta de dados, utilizamos a aplicação de um questionário diagnóstico e duas entrevistas: uma narrativa e outra semiestruturada com o adolescente e seu pai, bem como as observações que aconteceram nas aulas de Língua Inglesa, em uma escola pública da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, registradas em um diário de campo. Como resultados parciais do nosso estudo, colocamos em evidência alguns indicadores que foram determinantes para o envolvimento do adolescente pesquisado com a língua inglesa e sua consequente aprendizagem: a função do pai como incentivador e apoiador e a função das tecnologias da informação, em nosso caso, o computador, elemento bastante presente no cotidiano do adolescente. Palavras-Chave: Aprendizagem. Adolescência. Língua Estrangeira. Idade e aprendizagem. 3266 Introdução O artigo apresenta um estudo de caso que tem como área de abrangência a aprendizagem em língua inglesa de um adolescente estudante de escola pública de Rio do Sul (SC). Nosso objetivo central é compreender como um adolescente de 15 anos de idade, aprendeu a língua inglesa, considerando-se diferentes amplificadores e contextos culturais, entre esses, a escola, bem como as questões motivacionais que o conduziram às quatro habilidades previstas: escrever, ouvir, ler e falar, conforme a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina (PCSC). Neste sentido, abordaremos, também, a adolescência e suas características e a Língua Inglesa, como área do conhecimento que faz parte dos currículos escolares. Sobre os aspectos relacionados à adolescência e suas etapas, apresentamos os estudos de Palacios e Oliva (2004). Além disto, apresentamos os estudos de Krashen e Terrel(1993) e Lightbown e Spada(1998) que abordam as diferentes hipóteses para o aprendizado de língua inglesa. Também utilizamos as contribuições de Vygotsky (2009) sobre o desenvolvimento dos conceitos científicos pela criança e pelo adolescente. Segundo Palacios e Oliva (2004) costumamos entender por adolescência a etapa que se estende desde os 12 ou 13 anos até, aproximadamente, 20 anos. Porém não podemos generalizar, uma vez que esta passagem de idade se dá de forma diferente de uma pessoa para outra, bem como de acordo com os contextos culturais em que estão inseridas. “A adolescência se inicia, fundamentalmente, na raiz das mudanças biológicas que ocorrem no organismo” (PALACIOS; OLIVA, 2004, p. 319), a chamada puberdade, um conjunto de mudanças físicas que transforma a criança para a fase reprodutora. Com as mudanças físicas surgem, também, profundas transformações psicológicas. Neste sentido, na adolescência, ocorre um novo processo de individuação, que leva o distanciamento emocional em relação aos pais e a aproximação aos iguais. O adolescente vive a angústia da transição - não é mais criança, porém ainda não tem a autonomia e maturidade para ser percebido como um adulto. É o que Erikson, (apud OLIVA, 2004) denomina como “moratória social”. Nesta fase, os jovens começam a ficar inquietos, questionam a autoridades de seus pais ou responsáveis e demonstram interesses sexuais. Caracterizam-se por terem os próprios hábitos e modelos de vida, adotam estilos diferentes de 3267 acordo com seus valores. A teoria da adolescência não determina a idade e o momento exatos em que o jovem entra na puberdade e se enquadra na adolescência, até porque depende do contexto histórico e social em que esse se encontra. Muitos pais acreditam que esta fase é sempre conturbada e problemática, denominando-a de “aborrecência”, como se isto fosse uma regra. A adolescência é uma experiência pessoal e as reações de cada um dependem de fatores individuais, culturais e sociais. Esta etapa não tem que ser necessariamente traumática, conforme afirma Oliva (2004), uma vez que, nesta fase, o adolescente tende a ficar mais assertivo, passa mais tempo fora de casa e as interações positivas com seus pais diminuem. Havighurst (apud PALACIOS; OLIVA, 2004) considera que a adolescência está marcada pela convergência entre as necessidades do jovem e as demandas sociais. Segundo a percepção vygotskyana é nesta fase que novas possibilidades são abertas pelo progresso intelectual e os jovens são capazes não só de enfrentar complexos conteúdos acadêmicos como definir planos de futuro baseado em sua realidade passada. O período da adolescência será a fase para a consolidação da personalidade destes jovens. É marcada por mudanças na autoestima que tende a cair durante este período. Junto com a consolidação da personalidade, busca-se uma identidade pessoal. A conquista da identidade, que está ligada ao autoconceito, permite as escolhas e decisões futuras. Não se pode esquecer que as relações familiares irão exercer fortes influências na conquista da identidade pelo adolescente. O final da adolescência supõe uma importante transição evolutiva e, para alguns jovens, este início de vida adulta pode ser precoce. Há a preocupação em terminar os estudos, procurar trabalho e buscar sua independência financeira. No contexto educativo, alguns pesquisadores consideram que, no ensino médio, o rendimento escolar cai pela falta de motivação dos jovens, gerando a não frequência às aulas. Neste sentido, muitos professores de ensino médio adotam uma postura mais rigorosa, cobrando maior disciplina, se comparados com os professores do ensino fundamental. Entretanto, ainda no contexto educacional, o adolescente transita por esta fase com maior facilidade quando apresenta alta autoestima e conta com o apoio dos familiares. O bom rendimento escolar no ensino fundamental também propicia um sentimento de competência pessoal, o que pode facilitar a passagem pelo ensino médio. 3268 Aprendizagem da língua inglesa Há uma fase no desenvolvimento humano quando o cérebro está predisposto para o sucesso na aprendizagem de línguas (LIGHTBOWN; SPADA apud CANTAROTTI; SIMÕES, 2006), os autores chamam este período de hipótese do período crítico ou sensível para a aprendizagem de uma língua estrangeira. De acordo com este ponto de vista, a aprendizagem de uma língua que acontecer depois do final do período crítico, não estará baseado em estruturas inatas, as quais contribuem para a aquisição da primeira ou segunda língua. Ao contrário, aprendizes mais velhos dependem de habilidades de aprendizagem gerais – as mesmas usadas para aprender outros tipos de habilidades ou informações. O período crítico, para estes autores, termina por volta da puberdade. Krashen e Terrell (1983) apresentam cinco hipóteses para o aprendizado de línguas, assim definidas: a primeira é a hipótese de aquisição e aprendizagem, entendendo aquisição como competência em desenvolvimento, ou seja, a aquisição é um processo subconsciente, usando a linguagem para comunicação real. Por outro lado a aprendizagem trata-se de algo consciente, que definem como "conhecer" ou "conhecimento formal" de uma língua. Os dois fenômenos são diferentes nas suas origens e finalidades, podem ocorrer simultaneamente, mas não tem nenhuma relação entre si. Esta hipótese é apresentada em grande parte como o senso comum: Krashen e Terrell se baseiam em apenas um conjunto de referências. Afirmam que, na aquisição da linguagem, por exemplo, primeiro os pais tendem a corrigir o conteúdo do discurso das crianças, ao invés de sua gramática. Não discordam com a distinção que vários outros autores fazem de aprendizagem "implícita" e "explícita", mas simplesmente informam que as constatações desse aprendizado (não baseado somente na gramática) serão apresentadas mais tarde, quando a criança já apresenta um vocabulário mais elaborado, quase completo podendo, então, se comunicar dentro da língua materna e da língua estrangeira aprendida. A segunda é a hipótese da ordem natural, que estabelece que a ordem de aquisição da segunda língua é semelhante, mas não é igual à da aquisição dessa mesma língua por falantes nativos. Trata-se de como as estruturas gramaticais são aprendidas em uma ordem previsível, ou seja, depois de já apresentar vocabulário suficiente, poder-se-á fazer as correções gramaticais. 3269 A terceira hipótese é a hipótese do monitor (professor) e a influência desse para o aprendizado. Para os autores, se este monitor não for um nativo na língua, pouco serão as chances de um “bom” aprendizado, pois quase todos os monitores baseiam-se, primeiramente, no ensino de gramática, e isso atrapalha o aprendiz no momento de uma real comunicação, pois irá se preocupar em montar uma frase correta e não uma real comunicação. A quarta hipótese é chamada de hipótese de entrada (input) que se refere à aquisição, defendendo a necessidade de compreensão das mensagens transmitidas por meio de formas linguísticas, ou seja, o indivíduo passa por um período silencioso. Disso dependerá a sua fluência na fala que não pode ser ensinada, pois o indivíduo só fala quando se sente apto a fazê-lo e, a partir daí, repensar suas falhas gramaticais. E, por último, a quinta hipótese é a hipótese do filtro afetivo, que atribui importância aos fatores externos à aquisição da língua. Há um monitor, um aprendiz e a relação de afetividade, motivação, ansiedade, autoconfiança, que podem facilitar ou impedir o recebimento do input, levando ao bloqueio da aquisição. O estudo desta hipótese é fundamental para o estudo da aquisição de língua estrangeira por adultos. Krashen e Terrell (1983) sugerem que todas estas hipóteses, ao longo da vida de um aprendiz, diminuem com a idade, percebendo-se uma “queda” principalmente na adolescência, fazendo aí um paralelo entre a aprendizagem de crianças e adultos e afirmam que as crianças são melhores no resultado final. Adultos são mais rápidos no início da aprendizagem, pois eles são capazes de obter um insumo mais compreensível. Assim, os adultos são mais aptos a reconhecer o insumo recebido, são melhores em gerenciar conversações ou em controlar o ensino a eles dirigido, mas de uma forma lenta, se comparada com crianças. Em um determinado ponto, este processo fica estabilizado alcançando níveis inferiores aos que começam o aprendizado quando criança ou adolescente. Para os neurocirurgiões Penfilde e Roberts (1959) a melhor idade para se aprender uma língua estrangeira são os primeiros dez anos de vida da criança, visto que ocorrem mudanças biológicas no cérebro no período da puberdade. Segundo os pesquisadores é nesse período que o cérebro apresenta seu ponto máximo de plasticidade. Conforme Ferrari (2007, p. 55), “quanto mais velhos forem os aprendizes de uma língua estrangeira, mais difícil para eles se libertarem dos padrões estabelecidos pela língua materna”. Para Elman (1993), o sucesso do aprendizado da língua estrangeira está em iniciá-lo na infância. Acrescenta, ainda, que os recursos que as crianças possuem para aprender uma língua estrangeira, não estão 3270 envolvidos com a resolução de problemas, tanto na produção quanto na compreensão da língua materna. Assim, as limitações cognitivas apresentadas pelas crianças, podem significar pontos que facilitam seu aprendizado. Quanto às hipóteses apresentadas, abordamos também considerações feitas por Vygotsky quando dedicou ao estudo do aprendizado da língua estrangeira, e como este se baseia na semântica da língua materna. Vygotsky (2009) definiu a aprendizagem dos conceitos científicos como resultados de uma relação dialética com os conceitos espontâneos, originados nas experiências da criança, ou seja, “um tecido conceitual já amplamente elaborado e desenvolvido por meio da atividade espontânea do pensamento infantil” (2009, p. 269). O autor ainda apresenta essas experiências divididas em quatro grupos. Abordaremos neste estudo apenas os dois grupos que trazem observações quanto ao aprendizado de língua estrangeira. No primeiro grupo estão os dados empíricos na relação de formação dos conceitos científicos e dos conceitos espontâneos, no processo de aprendizagem escolar que, conforme Vygotsky distinguem-se por alguns fatores como as motivações internas e as experiências diferenciadas em cada criança, ou seja, estas percorrem caminhos diferentes em seu desenvolvimento. No segundo grupo, Vygotsky discorre sobre o aprendizado da língua estrangeira na criança fazendo uma comparação ao desenvolvimento da língua materna. Para o autor, a criança aprende na escola a língua estrangeira em um plano bem diferente do aprendizado da língua materna. A criança, por exemplo, nunca aprende a língua materna, pelo ensino do alfabeto, pela leitura e escrita, pela definição verbal, pela gramática, mas tudo isso faz parte do início do aprendizado da língua estrangeira. A língua materna é aprendida de forma inconsciente, não intencional, ao passo que se começa a estudar a língua estrangeira pela tomada de consciência e a intenção. O desenvolvimento da língua estrangeira desenvolve-se então de cima para baixo. Ou seja, na língua materna surgem, primeiramente as propriedades elementares inferiores da fala, e só mais tarde a tomada de consciência das estruturas da língua. No aprendizado da língua estrangeira, desenvolvem-se antes as propriedades superiores e complexas da fala, ligadas à tomada de consciência e à intenção e só mais tarde o emprego livre e espontâneo da linguagem. Então, o desenvolvimento da linguagem decorre do aprendizado do princípio de que a língua está relacionada entre o signo e o significado. 3271 Assim, o ensino de uma língua estrangeira a um aluno se fundamenta no conhecimento da língua materna como sua própria base. Vygotsky (2009, p. 267) acrescenta que: o domínio de uma língua estrangeira, eleva a língua materna da criança ao nível superior quanto à tomada de consciência das formas linguísticas, da generalização dos fenômenos da linguagem, de um uso mais consciente e mais arbitrário da palavra como instrumento de pensamento e expressão de conceito. Este autor faz uma comparação entre o aprendizado de língua estrangeira e a álgebra, e explica que onde esta “libera o pensamento da criança da prisão das dependências numéricas concretas e o eleva a um nível de pensamento mais generalizado”, aquela, claro que por vias bem diferentes, libera o pensamento linguístico da criança das formas linguísticas e dos fenômenos concretos, podendo basear-se na língua materna para seu aprendizado, embora seu desenvolvimento percorra caminhos bem diferentes. Vygotsky apresenta, ainda, a interação pela linguagem, entendida não apenas como um código, mas como expressão do pensamento, sendo, portanto, construída socialmente, pela mediação do outro. O professor ou um amigo que tem maior experiência e domínio linguístico podem contribuir para a aprendizagem, abrindo espaço para que novos conhecimentos sejam aprendidos. Considerando-se a sala de aula, especificamente as aulas de língua estrangeira, entendemos que o professor pode transformar a aprendizagem de uma nova língua como algo que pode abrir novas expectativas por meio da mediação significativa e afetiva, ou seja, aproximando-se mais dos alunos, criando laços afetivos que podem vir a ajudar no aprendizado deste. A PCSC no capítulo “A Língua Estrangeira na Escola Pública Estadual: um relato inicial” apresenta a lei nº 9.394 de 20/12/1996, que, no seu artigo 26, parágrafo 5º, garante a obrigatoriedade do ensino de pelo menos uma LE a partir da 5ª série do Ensino Fundamental, deixando livre para a escola a escolha, a partir do seu Projeto Político Pedagógico (PPP), entre as línguas inglesa, alemã, espanhola e italiana. A partir desta lei, abriram-se maiores espaços para discussões do ensino e a aprendizagem das línguas estrangeiras. 3272 Metodologia Apresentamos um estudo de caso que, de acordo com Esteban (2010), constitui um método de pesquisa para a análise da realidade social de grande importância no desenvolvimento das Ciências Sociais e Humanas O estudo de caso representa uma investigação empírica e compreende um método abrangente, com a lógica do planejamento, da coleta e da análise de dados. Pode incluir abordagens quantitativas e qualitativas de pesquisa (YIN, 2001). Para Ventura (2007) o estudo de caso, geralmente, é organizado em torno de um pequeno número de questões que se referem ao como e o porquê da investigação, seguindo algumas recomendações específicas: a busca por casos atípicos ou casos extremos ao objeto que se apresenta como estudo. Na posição de Lüdke e André (1986, p. 23) o estudo de caso trata-se do: estudo de um caso específico, que difere dos outros e tem uma delimitação. Pode ser semelhante aos outros, mas é também distinto por algumas características, como por exemplo, de um interesse único, particular e representa um potencial na educação. Focaliza a realidade de modo complexo e contextualizado. Para a coleta de dados, utilizamos a aplicação de um questionário diagnóstico e duas entrevistas: uma narrativa e outra semiestruturada, posteriormente transcritas, além das observações que aconteceram nas aulas de Língua Inglesa, em uma escola pública da rede estadual de ensino, registradas em um diário de campo. No que se refere à entrevista semiestruturada, foi realizada com o aluno Marcos e seu pai. Esse procedimento, conforme Bauer e Gaskell têm como objetivo o de reconstruir acontecimentos sociais a partir das perspectivas dos informantes (BAUER; GASKELL 2002, p. 93). Resultados e análises Marcos é um menino de 15 anos de idade, estuda numa escola pública e vem sendo acompanhado pelas pesquisadoras há dois anos nas aulas de língua estrangeira - inglês. Marcos fala, escreve, lê e ouve muito bem na língua em questão, é um garoto muito sociável com os colegas e professores tanto dentro da sala de aula como fora desta. Muito questionador e reflexivo, é um participante ativo nas aulas, o que despertou o interesse das pesquisadoras, sendo uma delas, sua professora por certo período. 3273 Marcos contou sua história, sobre como desenvolveu um interesse maior pela língua estrangeira. Nunca fez cursos particulares na língua em questão, além das aulas de inglês em sua escola, mas contou que, desde muito pequeno, com cinco ou seis anos de idade, começou a aprender a língua com a ajuda de seu pai e também do computador. O objetivo central do trabalho foi compreender o processo de aprendizagem da língua inglesa pelo adolescente. Apresentamos as análises dos dados a partir de três categorias de análise, definidas a posteriori: a) acesso aos códigos linguísticos mediados por diferentes tecnologias; b) a língua inglesa na escola; c) interações e motivações para aprender língua inglesa. Acessos aos códigos linguísticos mediados por diferentes tecnologias Marcos é o primeiro filho de um casal de classe média, cujo pai, hoje com 37 anos, trabalha como técnico em informática. Sua mãe, com 41 anos, exerce a atividade de manicure e está cursando o primeiro ano de Pedagogia. Marcos quando estava com cinco anos, durante o dia, recebia os cuidados do pai, que exercia suas atividades como operário, no período noturno. Sua mãe trabalhava fora de casa, durante o dia, não havendo assim, a necessidade de colocá-lo em uma creche. O pai então cuidava de todas as necessidades do filho. Paralelamente, começou a manusear o computador e estudar inglês, pois queria ascender na empresa em que trabalhava. Para isso, fazia cursos online objetivando aperfeiçoar sua aprendizagem, acessando jogos em inglês e músicas para tocar no violão, um dos seus hobbies. Marcos o acompanhava em todas as atividades e, segundo seu pai: “sempre foi muito curioso em tudo”. Este fato o levou a busca de mais possibilidade, uma vez que Marcos sempre o questionava. Marcos conta: Comecei a estudar com meu pai que queria muito aprender inglês em casa, trazia CDs de cursos, colocava e ouvíamos juntos, isso funcionava como uma espécie de professor e aluno, ele me ensinava como pronunciar as palavras, ele me contou que eu repetia o que o cd dizia, [...]. Percebemos aqui, processos de interação entre pai e filho com o auxílio e apoio à aprendizagem de Marcos. Em sua essência, a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) possui uma natureza eminentemente interativa, com foco centrado nas aprendizagens que 3274 acontecem pelas relações entre sujeitos, em um determinado ambiente histórico-cultural. Foi nesta zona de desempenho assistido que identificamos o movimento inicial que conduziu Marcos em direção à aprendizagem da língua estrangeira. Podemos dizer que o pai e Marcos, no curso das interações, submeteram-se a contextos intersubjetivos, na medida em que iam compartilhando pressupostos e compreensões. A intersubjetividade, de acordo com Smolka, Góes e Sirgado (1998, p. 148) é percebida como “condição pré-existente para a comunicação e o pensamento compartilhado que dão lugar à apropriação individual”. Coube ao pai de Marcos, a formação de um espaço interativo em sua casa, além da apresentação de tarefas situadas e significativas, muito embora seu objetivo inicial fosse apenas ocupá-lo. A língua inglesa na escola Marcos aprendeu inglês bem mais cedo do que é definido pela PCSC - a partir da 5ª série e, de certa maneira, seu exemplo ilustra o que alguns autores discutem sobre a idade e o aprendizado de línguas: desde cedo Marcos foi apoiado pelo pai e, quando começou a entrar em contato com a língua estrangeira na escola, já tinha conhecimentos de inglês. Questionado a respeito da escola e sua contribuição para aprender mais, Marcos responde: “Nessa época eu devia ter de seis ou sete anos de idade. E na escola que eu estudava não tinha aula de nenhuma língua estrangeira, eu sentia falta. Não via a hora de chegar na 5ª pra ter aula de inglês”. Abordamos, aqui, sobre a PCSC (SANTA CATARINA, 1998), que não especifica a “idade” ideal para o início da aprendizagem de uma língua estrangeira. A partir da 5ª série (hoje 6º ano, pela nova nomenclatura), a criança está com onze anos, já adentrando na adolescência e, conforme a hipótese do período crítico (LIGHTBOWN; SPADA, 1998) há uma idade ideal para o aprendizado, que acontece na infância. Conforme tal hipótese há uma redução na possibilidade de aprendizagem de língua estrangeira entre as fases de infância e adolescência, fase esta em que a criança se encontra com 11 anos de idade. Outra observação a respeito da PCSC relaciona-se aos conteúdos para o ensino de língua estrangeira, quando considera ser difícil para os alunos desenvolverem as quatro habilidades linguísticas: fala/escuta, leitura/escritura com profundidade, uma vez que o número de alunos por turma é elevado e a carga horária para a disciplina de LE é reduzida. No 3275 entanto, apresenta sugestões para o professor poder viabilizar o aprendizado efetivo de, pelo menos, uma habilidade - a leitura, por meio de textos. Conforme a própria PCSC (SANTA CATARINA, 1998, p. 101) esclarece “no sentido de utilidade e informação”, pois a partir desses é possível articular discussões, que podem ser na língua materna, objetivando a busca de entendimento pelos alunos, para que consigam entender a gramática a partir das palavras já conhecidas. Cabe ao professor propor atividades adequadas ao grupo. Entretanto, conforme podemos perceber pela fala de Marcos há uma grande divergência entre o que a Proposta propõe e a realidade das escolas hoje: As aulas deveriam ser diferentes, não só verbo “To Be” , “PastPerfect” [...] “PresentContinuous” deveriam ter mais entusiasmo dos professores e dos alunos também...mas não sei como, eu não entendo muito essas coisas de aula, de como dar aulas...os profes tem que chegar e dizer...sei lá.... A PCSC, por sua vez, não elenca nenhuma lista de tópicos gramaticais, por exemplo, para serem desenvolvidos a cada bimestre ou a cada ano. Considera sim, a possibilidade de o professor trabalhar com diferentes gêneros textuais como canções, receitas, documentários, informes turísticos ou regionais, lendas ou outros textos típicos do país da língua estrangeira estudada, reforçando os cuidados “resguardar o aluno de uma alienação que poderia conduzilo a atitudes de submissão cultural” (SANTA CATARINA, 1998, p.101). Interações e motivações para aprender a língua inglesa Vários autores concordam que aprender/ensinar uma língua estrangeira é bem mais do que entender algumas regras gramaticais, pois a língua exige que possamos compreendê-la no dia-a-dia, ou seja, para além do ambiente sala de aula. Isso quer dizer que, diferente de outras disciplinas, a língua estrangeira atravessa os muros das salas de aula, para a vida diária de cada individuo, seja ela usada para ouvir uma música, ler uma propaganda, assistir a um filme, entender a linguagem do computador/internet, etc. Assim, entendemos que a interação e a motivação tanto do aluno, quanto do professor que coordena o processo de ensino, são fatores importantes e necessários para um aprendizado eficaz. Questionado sobre isto, Marcos tem sua opinião quanto à forma utilizada pela sua professora de inglês no dia-a-dia de sala de aula: 3276 Hoje as aulas não me ajudam muito, são sempre iguais, tiro minhas dúvidas sozinho, dando uma olhadinha em casa... Deveria ter mais falas... diálogos, a gente fica muito quieto na sala, não interagem em nada... nem com a “teacher”. E completa: [...] mas eu sei que os meus colegas são bem preguiçoso, tem que da aula pra eles também e eles não entendem muito da língua, então eu ajudo quando eles me pedem, mas tipo eu faço os trabalhos com quem sabe um pouco, por que assim é mais fácil pra nós... tipo o meu amigo Ricardo, ele também sabe, mas ele não fala , nós ‘mandamo’ bem nas coisas de sala, tudo certo sempre. Isso parece ter relação, principalmente, com a formação do professor e diz respeito ao fato de que a aprendizagem é um processo essencialmente social, mediado pela linguagem, ou seja, as bases da cognição são sociais. Como Vygotsky (1978) e estudiosos vygotskyanos com Lave e Wenger (1991), têm apontado, os processos intrapessoais (cognitivos) são gerados através de processos interpessoais (sociais), e estes processos são mediados pelo instrumental da linguagem através da interação. Dessa forma, a aprendizagem tem sido cada vez mais entendida como o resultado da coparticipação entre professores e alunos, mediada pela linguagem, isto é, todos engajados em uma prática discursiva: um aprendiz envolve-se, perifericamente, na resolução de uma tarefa até que sua participação nessa tarefa deixa de ser periférica e passa a ser completa, com a passagem da competência para o aprendiz (LOPES, 1994). Isso tem uma relação direta entre a motivação do aluno e do professor. Apoiados em Krashen (1987) e Vygotsky (1978) é possível dizer que a aprendizagem é uma atividade social, pois é por meio da interação que os alunos podem ser provocados à construção de um diálogo com vistas ao aperfeiçoamento da língua. Dessa forma, os professores de LE têm como desafio a necessidade de propor situações em que os alunos possam efetivar processos de comunicação, explorando o interesse e a motivação. Considerações finais Com base na análise dos dados apresentados para este estudo, percebemos alguns indicadores sobre a aprendizagem da língua inglesa que, do nosso ponto de vista, contribuíram para a aprendizagem. Nesse contexto, a família, na figura do pai, desempenhou um papel mediador fundamental, embora não planejado, como incentivador e companheiro no 3277 processo de aprendizagem de língua estrangeira por Marcos. Suas atitudes promoveram no adolescente a motivação, a curiosidade e o empenho, resultando em habilidades na língua. Marcos revela estar esperando o que o ensino da língua inglesa, na escola, tem a oferecer no sentido de aprimorar as etapas já alcançadas. Entretanto, apesar da pouca idade, reconhece que precisa melhorar em muitos aspectos, como por exemplo, sua fala e escuta. Entendemos que, no que diz respeito à PCSC, ainda há muito a ser feito, sobretudo nos aspectos relacionados à idade ideal para as crianças serem iniciadas em uma língua estrangeira. Outro aspecto importante diz respeito aos processos de formação inicial e continuada dos professores, que desempenham um papel crucial nos processo de aprendizagem dos alunos. A falta de informações e conhecimentos sobre como o aluno aprende uma língua estrangeira, levam os professores a agirem de forma nem sempre adequadas, o que contribui, muitas vezes, para que o professor e seus alunos utilizem estratégias de “sobrevivência” em sala de aula, comprometendo o real aprendizado da língua. Colocamos em evidência alguns indicadores que, a partir de nosso estudo, foram determinantes para o envolvimento de Marcos com a língua inglesa e sua consequente aprendizagem: a função do adulto como incentivador e apoiador, além da assistência intencional em diferentes situações. A função das tecnologias da informação, em nosso caso, o computador, elemento presente no cotidiano de Marcos. Lembramos que as tecnologias da informação e comunicação também podem ser utilizadas como mediadoras no processo de construção dos conhecimentos, mas, para que o aluno aprenda significativamente, as ações e decisões do professor serão fundamentais. Em nosso caso, este processo iniciou-se desde cedo com a presença do pai. As tecnologias, por si só, não promovem a aprendizagem; a utilização de qualquer meio depende da atitude coletiva dos responsáveis pelas práticas em sala de aula, no entanto, podem contribuir para agilizar, ampliar, transformar e incrementar processos de ensino e, por consequência, da aprendizagem. REFERÊNCIAS BAUER, W. M.; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som, manual prático. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. CANTAROTTI, A.; SIMÕES, L. C. O fator idade e o processo de aprendizagem de língua estrangeira. (Artigo) Entretextos, Londrina. n.6, p. 32-38, Jn/Dez, 2006. 3278 ELMAN, J. L. Learning and development in neural network: the importance of stating small: Cognition, v. 48 p. 195, 1993. ESTEBAN, M. Pesquisa Qualitativa em educação: fundamentos e tradições. Porto Alegre: Artmed, 2010. FERRARI, M. A hipótese do período crítico no aprendizado da língua estrangeira analisada à luz do paradigma conexionista (Tese de Doutorado) PUC- Rio Grande do Sul, 2007. KRASHEN, S.D.; TERREL, T.D. The natural Approach. Language Acquisition in the classroom. Oxford: Pergamon Press, 1993. KRASHEN, S.D. Second Language Acquisition. Prentice-Hall International. Oxford: Pergamon Press,1987. LAVE, J.; WENGER, E. Situated learning. Cambridge: Cambridge University Press, 1991. LIGHTBOWN, P.M; SPADA, N. How Languages are learned. Oxford. Oxford University Press, 1998. LOPES, L. P. Linguagem, Interação e Formação do Professor Pesquisador. Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 1994. LUDKE M; ANDRÉ, M. Pesquisa em Educação: Abordagem qualitativa. São Paulo: EPU, 1986. PALACIOS, J.; OLIVA, A. A adolescência e seu significado evolutivo. In: COLL, C.; MARCHESI, Á.; PALÁCIOS, J. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, p. 309-322, 2004. PENFILDE, W.; ROBERTS, L. Speech and brain mechanisms. New York: Atheneum, 1959. SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta Curricular de Santa Catarina: educação infantil, ensino fundamental e médio: disciplinas curriculares. Florianópolis: COGEN, 1998. SCHROEDER, E. A teoria histórico-cultural do desenvolvimento como referencial para análise de um processo de ensino: a construção dos conceitos científicos em aulas de ciências no estudo de sexualidade humana. 2008. 388 f. (Tese Doutorado em Educação Científica e Tecnológica) - UFSC, Florianópolis, 2008. SMOLKA, A. L. B.; GÓES, M. C. R. de; SIRGADO, A. P. A constituição do sujeito: uma questão recorrente? In: WERTSCH, J. V.; DEL-RÍO P. D.; ALVAREZ, A. Estudos socioculturais da mente. Porto Alegre: Artmed, p. 143-158, 1998. 3279 VENTURA, M. M. O Estudo de caso como modalidade de pesquisa. Revista Pedagogia Médica. (Artigo) Set., 2007. VYGOTSKY, L. S. Mind in society: the development of higher psychological processes. London: Harvard University Press, 1978. _______________A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009. YIN, R. Sobre o estudo de caso: planejamento e métodos. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2001.