UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL CURSO DE FÍSICA AMBIENTAL Wilker Solidade da Silva Aplicação da Espectroscopia Infravermelha para caracterização de suplementos energéticos usados na alimentação bovina Dourados – MS 2009 Wilker Solidade da Silva Aplicação da Espectroscopia Infravermelha para caracterização de suplementos energéticos usados na alimentação bovina Monografia apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), do curso de Física Ambiental da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciatura em Física. Orientador: Prof Dr. Armando Cirilo de Souza Dourados – MS 2009 7 S584a Silva, Wilker Solidade da Aplicação da Espectroscopia Infravermelha para caracterização de suplementos energéticos usados na alimentação bovina/ Wilker Solidade da Silva. Dourados, MS: UEMS, 2009. 37p. ; 30cm Monografia (Graduação) – Física Ambiental – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, 2009. Orientador: Prof. Dr Armando Cirilo de Souza 1. Espectroscopia infravermelha 2. Caracterização de suplementos 3. Alimentação bovina I. Título Cdd 20.ed. – 543.086 8 Dedico este trabalho a meus pais, Tobias e Raquel, e aos conselheiros, Madson e Meire Dayane. 9 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, e a todos meus amigos que, de alguma forma contribuíram para que eu alcançasse meu objetivo. Em especial, agradeço à Maryleide e Francylaine, por terem confiado em mim e auxiliado no desenvolvimento deste trabalho, assim como o professor Armando Cirilo por me proporcionar mais esta experiência à minha vida profissional. A coordenação do curso de Física Ambiental, Valéria, Simone e Profº Nilson, que mesmo em tempos difíceis sempre me auxiliaram nos anos que seguiram minha graduação, e a professora Karin, pelo apoio dado ao som de Kitaro. Gostaria de agradecer a alguns amigos em especial, dos quais sempre ouvi palavras de incentivo, para nunca desistir de acreditar no impossível: Elizangela (Eliz), por estar sempre ao meu lado; Osmar, por não se preocupar com as minhas preocupações; Vanuza, por me ensinar o significado da ironia; ao meu grande amigo Leandro Belo, por sempre estar ao meu lado, independente das situações; Matheus, Juka, Thiago, Gledson, Hitoshi, Ellen e Miro, pelas conversas sobre tudo e os caminhos trilhados para o conhecimento; aos meus irmãos, por fazer parte da minha vida, e por fim, à mim mesmo, por acreditar nos amigos, e lutar pelos objetivos traçados. 10 “Conhecer não é demonstrar nem explicar, é aceder à visão”. Antonie de Saint-Exupéry 11 SUMÁRIO Resumo................................................................................................................07 1. Introdução........................................................................................................09 2. Fundamentação Teórica...................................................................................10 2.1 Alimentação Animal..................................................................................11 2.2 Rebanho Leiteiro.......................................................................................13 2.3 Efeito Fotoacústico....................................................................................15 2.4 Espectroscopia no Infravermelho..............................................................19 3. Metodologia....................................................................................................23 4. Resultado e Discussões...................................................................................24 4.1 Espectroscopia de absorção na região do infravermelho........................27 4.2 caracterização das amostras....................................................................28 4.3 Importância Nutricional..........................................................................30 5. Conclusões.......................................................................................................32 6. Referência Bibliográfica..................................................................................33 12 Resumo A alimentação animal desempenha um papel crucial no melhor aproveitamento econômico do rebanho para o pecuarista, sendo indispensável o conhecimento dos valores nutritivos que compõem uma boa alimentação, para assim, oferecer ao animal as condições para seu maior rendimento. A análise de suplementos energéticos que compõem a composição alimentar animal tem por objetivo o conhecimento dos compostos que melhor se enquadram nos padrões nutricionais já conhecidos. Uma técnica que vem sendo cada vez mais utilizada em muitas áreas é a análise por espectroscopia no infravermelho com Transformada de Fourier aplicando a técnica Fotoacústica. A análise por FTIR-PAS fornece em pouco tempo a composição espectral dos elementos analisados, e com o auxilio de tabelas de correlação espectral pode-se conhecer o grupo funcional e a composição do produto analisados. A comparação dos espectros mostrou a presença de ácidos graxos, ésteres graxos, amidas, sais de ácidos graxos, sais de enxofre e alcanos, que foram quantitativamente identificados nas amostras. Os resultados obtidos mostram que a técnica FTIR-PAS pode ser utilizada para caracterização de outras substâncias, mesmo sem seu conhecimento prévio, apresentando assim uma ferramenta fundamental na caracterização de substâncias. Palavras Chave: Suplemento alimentar, Espectroscopia Fotoacústica, Ácidos Graxos. 13 Abstract The nutrition plays a crucial role in making better use of the flock can offer in the form of economic profits for the farmer, being indispensable the knowledge of nutritional values that compete a good nutrition, thus, give to the animal all the possible energy sources for its higher yield. The analysis of energy supplements that compose the animal feed composition aims at the knowledge of the compositions that better are framed in the nutritional standards known as extra source of energy. A technique that has been increasingly used in a lot of areas is the analysis by infrared spectroscopy with Fourier Transform applying the Photoacoustic technique. Presenting several positive factors, the analysis for FTIR-PAS provides in few time the spectral composition of the analyzed elements, and with the help of tables of spectral correlation can be known the functional group and the composition of the product analyzed. The comparison of the spectra showed the presence of fatty acids, fatty esters, amides, salts of fatty acids, salts of sulfur and alkanes, that were quantitatively identified in the samples. The obtained results show that the FTIR-PAS technique can be used as technique for characterization of other substances, even without previous knowledge, thereby presenting a fundamental tool in the composition of the characterization techniques of substances. Keywords: food supplement, Photoacoustic Spectroscopy, Fatty Acids. 14 1. Introdução A análise de uma amostra tem como objetivo conhecer sua composição. Os desenvolvimentos tecnológicos associados a descobertas científicas vêm aprimorando a qualidade dos alimentos e aumentando a capacidade de se utilizar informações que antes não eram percebidas ou não eram reconhecidas por causa da complexidade da amostra ou dos dados dela retirados. A interdisciplinaridade vem estabelecendo relações e normas para melhor interpretar as informações obtidas a partir de uma análise (Ferrarini, 2004). Muitas técnicas têm sido desenvolvidas para que os resultados destas análises sejam os mais acurados possíveis. Uma técnica que vem sendo cada vez mais utilizada em muitas áreas é a análise por espectroscopia no infravermelho. O preparo da amostra para este tipo de análise é simples e os espectros trazem muitas informações a respeito da natureza da amostra, além de ser um método não destrutivo. Espectroscopia é um método muito útil na determinação de estruturas de compostos orgânicos porque pode identificar muitos grupos funcionais a partir da interação da radiação eletromagnética com a matéria. A espectroscopia no infravermelho, em especial, mede a excitação vibracional dos átomos envolvidos em uma ligação química. As posições das linhas de absorção dependem do tipo de grupo funcional presente, e o espectro, como um todo, apresenta um padrão único para cada substância (Peter et al, 2004). A utilização de técnicas baseadas na Espectroscopia no Infravermelho correlacionadas ao uso do Efeito Fotoacústico (FTIR-PAS) vem acoplando o desenvolvimento de métodos de caracterização de substâncias líquidas, gasosas e sólidas, sendo assim uma ferramenta de grande utilidade para a caracterização de compostos orgânicos ou inorgânicos. 15 O presente trabalho tem como objetivo realizar a caracterização do suplemento energético alimentar Megalac-E, utilizando a técnica FTIR-PAS, de modo a identificar elementos presentes na composição do produto. 2. Fundamentação Teórica 2.1 Alimentação animal Na criação e exploração do gado, a alimentação tem um papel importante sobre a produção, e saúde do rebanho. A dieta nutricional bovina tem influência direta sobre a capacidade de produção individual e indireta sobre o desempenho do rebanho ou da raça (Andriguetto et al, 1984). A nutrição acompanha as exigências do mercado e consegue desenvolver formas de melhor aproveitamento criação-lucratividade. As pesquisas com produção animal resultaram em uma melhora na conversão alimentar, trazendo ao pecuarista inúmeras opções para a maior rentabilidade na criação bovina, buscando suprir as necessidades de outros nutrientes essenciais na alimentação para o desenvolvimento animal, como proteína, lipídeos, sais minerais e vitaminas. Com exclusão da água, restam dos alimentos a matéria seca (MS), que é composta por carboidratos, lipídeos, proteínas, vitaminas e sais minerais. Os carboidratos, à semelhança das graxas, funcionam como fontes de energia, pois ao serem metabolizados no organismo animal liberam calor e energia, usados para manutenção da temperatura do corpo do animal, formação de tecidos, produção de açúcar e gordura no leite, suprimento de energia para a atividade metabólica. No manejo do rebanho bovino, o conhecimento sobre a fermentação ruminal e a digestão intestinal dos alimentos é imprescindível para uma correta adequação da composição que a dieta deve apresentar, no intuito de atender às demandas do animal, 16 permitindo-o atingir o melhor desempenho (Costa, 2003). Unindo a utilização de métodos de identificação de elementos nutritivos com a técnica de melhoramento do crescimento animal, encontra-se um fator ímpar para o impulso desse crescimento: o suplemento alimentar. Suplemento alimentar exerce a função de repor as energias necessárias para que o animal continue a manter seu desenvolvimento padrão, e tanto em bovinos leiteiros como de corte, representa um auxilio importante na exploração do máximo potencial que ele pode responder. Suplementos lipídicos têm sido usados em dietas bovinas com os objetivos de aumentar a produção de leite e reduzir a mobilização corpórea, pois proporciona um aumento da capacidade de absorção de vitaminas lipossolúveis, além de fornecer ácidos graxos essenciais importantes para as membranas de tecidos e, principalmente, atuar como precursor para regulação do metabolismo, aumentando a deposição de gordura em seus produtos, como vacas em lactação (Palmquist & Matos, 2006). Para Henderson (1973) a adição de lipídeos (gorduras) à dietas de bovinos aumenta a densidade energética da dieta, porém pode causar um impacto negativo na fermentação ruminal em digestão das fibras, além de ocasionar problemas metabólicos. Estes alimentos inibem o crescimento e metabolismo dos microrganismos ruminais pela ação dos ácidos graxos de cadeia longa. A utilização de fontes de proteínas vinculadas ao custo da ração aumenta os gastos da criação bovina, tornando-se essencial o conhecimento do seu uso de maneira adequada para minimizar as perdas por fermentação ruminal (Barbosa, 2001). Essa perda ocorre pela desaminação de aminoácidos por bactérias e protozoários ruminais, causando acúmulo de amônia no rúmen e excreção de uréia na urina, o que causa perda energética e diminuição da eficiência da utilização do nitrogênio alimentar. 17 Para redução dessa perda energética, a manipulação da fermentação ruminal tem sido empregada para aumentar a produtividade animal e reduzir as perdas por fermentação indesejáveis. No caso do metabolismo das proteínas, isto pode ser feito com uso de fontes de proteínas com menor degradabilidade ruminal, mas de boa qualidade; uso de maior quantidade de proteína degradada em rações, quando há maior disponibilidade de carboidratos (Barbosa, 2001). No rúmen, se mantidas condições adequadas de temperatura, ocorrem anaerobiose, remoção de produtos da fermentação e crescimento microbiano intenso, além de muitos outros fatores importantes para o ecossistema ruminal. Os microrganismos ruminais principalmente as bactérias, representam a principal fonte de proteína para os ruminantes, podendo satisfazer de 50 a 100% das exigências diárias de proteína. Não obstante, esses microrganismos atuam sobre a proteína dietética, no intuito de produzir a proteína microbiana, alterando de forma considerável as características originais da proteína do alimento que adentra o rúmen (Costa, 2003). O uso de gorduras protegidas também conhecidas como inertes, contém entre 80 a 90% de lipídeos e podem escapar da fermentação ruminal e não atuarem de forma negativa na digestão das paredes celulares das forragens no rúmen, além de serem de fácil manuseio e possuírem um período de conservação maior do que as gorduras não protegidas (Chalupa & Ferguson, 1990). A proteção das gorduras é usualmente obtida através da formação de sais de cálcio de ácidos graxos de cadeia longa, pois os sais de cálcio de ácidos graxos são insolúveis no rúmen onde o pH é mais elevado e solúveis no abomaso onde o pH é ácido (Chalupa & Ferguson, 1990). Dessa forma, é necessária a busca por fontes lipídicas, visando a melhor contribuição energética para o animal, sem comprometer o ambiente ruminal. 18 Os cultivares de soja apresenta de 15 a 25% de lipídeos, e no aspecto da nutrição de ruminantes, a soja grão pode ser considerada suplemento lipídico parcialmente protegido da hidrogenação ruminal, visto que as gotículas de lipídios em sementes oleaginosas se encontram inseridas na matriz protéica dos grãos, conferindo-lhes proteção natural (Silva et al, 2007). Megalac-E é um produto feito a partir de óleo vegetal que passa por um processo de saponificação (sais de cálcio) para proteção dos ácidos graxos polinsaturados de cadeia longa, é um dos suplementos alimentares com maiores resultados na dieta animal, pois é capaz de suprir todas as necessidades energéticas não atendidas pelo restante da dieta, tendo, portanto influência positiva na produção de leite e gordura, na curva de lactação, e na condição corporal do animal (QGN, 2009). 2.2 Rebanho leiteiro Em rebanhos leiteiros, a reprodução é essencial para a produção de leite e para a reposição do plantel, e os ácidos graxos essenciais (AGE) são responsáveis por esta função (Bruckental et al, 1989). Os ácidos graxos são definidos como compostos que possuem cadeia longa de hidrocarbonetos e estrutura terminal com grupo carboxila, sendo que tal substância pode ser encontrada em grandes quantidades em sistemas biológicos, raramente em forma livre, sendo tipicamente identificado ligado a moléculas de glicerol ou outras estruturas que se unem ao carbono terminal (Lehninger, 2005). A fonte primária para síntese dos ácidos graxos é o acetato proveniente do rúmen, sendo que o tecido adiposo e a glândula mamária (tecido alveolar) constituem-se como os principais destinos para sua síntese (Gonzáles, 2003). 19 Apesar de ser extremamente importante para o metabolismo animal, os ácidos graxos essenciais poliinsaturados não são sintetizados pelas células do organismo, devendo ser adquiridos através da alimentação extra, pois têm capacidade de se transformar em substâncias biologicamente mais ativas, com funções especiais no equilíbrio homeostático, e como componente estrutural das membranas celulares. Existem duas classes de ácidos graxos essenciais, são eles ômega-3 (ácido linolênico) e ômega-6 (ácido linoléico). O ácido graxo ômega-3 é encontrado principalmente nos peixes e óleos de peixe (origem animal). Por outro lado, as melhores fontes alimentares de ácido graxo ômega-6 são os óleos vegetais (girassol, milho, soja, algodão)(Ribeiro & Seravalli, 2004). Na alimentação o valor da gordura como combustível fisiológico é de 9 Mcal/kg, equivalente a cerca de 2,25 vezes a energia fornecida por carboidratos e proteínas, mas isso, desde que seja absorvida e fique a disposição para ser metabolizada (energia metabolizável). Portanto, a obtenção da energia varia em função da digestibilidade de cada fonte de gordura (Freitas Junior, 2008), e o que mais interfere na digestibilidade dos ácidos graxos seria o grau de insaturação. Assim, quanto mais insaturado o ácido graxo, maior sua digestibilidade e, portanto, seu valor energético (Medeiros, 2008). Geralmente, os nutrientes utilizados na alimentação de vacas leiteiras não conseguem repor os ácidos graxos essenciais secretados no leite, pois, como os ácidos graxos insaturados (i.e. ácidos graxos com ligações duplas entre pelo menos dois carbonos) são os mais tóxicos a microbiota ruminal desenvolveu uma estratégia para reduzir a insaturação dos ácidos graxos com a colocação de hidrogênio (biohidrogenação) nestas duplas ligações, transformando-as em ligações simples ou saturadas (Mederios, 2008). 20 O suplemento mineral Megalac-E possui a concentração ideal dos ácidos graxos essenciais que, por estarem protegidos, tem alta absorção no intestino, repondo esta perda, apresentando assim um alto beneficio já que apenas 15-25% dos ácidos graxos poliinsaturados presentes nos alimentos convencionais (extrato etéreo dos grãos, sementes oleaginosas, sebos e óleos) alcançariam o intestino e seriam absorvidos, devido à essa alta bio-hidrogenação causada pelos microorganismos ruminais (Castaneda-Gutierrez et al, 2005). Megalac-E é obtido a partir de ácidos graxos de cadeia longa que ficam livres num processo de cisão das triglicérides de óleos vegetais. Esses ácidos graxos reagem com sais de cálcio, unidos na forma de sal do tipo R-COO-Ca, popularmente conhecido como sabão Cálcico (QGN, 2009), obtendo uma ação positiva sobre a digestão dos ruminantes, e compondo o plano dos nutrientes essenciais para produção leiteira e formação energética do animal. 2.3 Efeito Fotoacústico A geração de um sinal acústico num gás devido à absorção de radiação modulada por uma amostra, contida em uma câmara fechada, é conhecido como efeito fotoacústico. Quando a amostra absorve a radiação, os seus níveis internos de energia são excitados, e o decaimento na forma não radiativa causa um aquecimento local, que é transmitido ao gás ao redor da amostra através de uma onda térmica. A camada de gás sofre um aquecimento e se expande, gerando ondas acústicas no interior da câmara (Zerbetto, 1993). O efeito fotoacústico foi observado pela primeira vez por Alexandre Graham Bell, em seus estudos sobre o “photofone” (Skoog et al, 2002), onde notou que ao 21 incidir luz solar modulada em um sólido, dentro de uma câmara, gerava no ar a sua volta um som audível, que era escutado por meio de um tubo ligado à câmara. Os estudos iniciados por Bell instigaram pesquisas de outros cientistas da época sobre o assunto, porém, somente na década de 1930, com o surgimento do microfone, que as pesquisas sobre os efeitos fotoacústicos tiveram realmente um crescimento significativo. Com o surgimento do laser, no início dos anos 1970, foram desenvolvidas novas aplicações aos métodos fotoacústicos, bem como o trabalho de RosencwaigGersho (Rosencwaig et al, 1975 apud Velasco, 2006, p 02), que desenvolveu um modelo padrão de célula fotoacústica usada para obter espectros de amostras sólidas e liquidas fortemente absorvedora. Busse e Bellemer (Michaelian, 2003) obtiveram em 1978 o espectro de absorção infravermelho médio para o vapor de metanol, utilizando um espectrofotômetro infravermelho por Transformada de Fourier comercial, que foi considerado como o primeiro trabalho sobre Espectroscopia Fotoacústica. Toda a teoria que descreve o fenômeno foi desenvolvida desde então, e através dos experimentos demonstraram que o mecanismo básico responsável pelo surgimento do sinal fotoacústico era o fluxo periódico de calor entre a superfície da amostra e o gás contido na célula fotoacústica (Velasco, 2006). O modelo desenvolvido por Rosencwaig-Gersho na década de 1970 (Zerbetto, 1993) para o efeito fotoacústico em sólidos, explicava a maioria dos resultados experimentais obtidos, abrindo espaço para o desenvolvimento de muitas outras teorias para esta área. As inúmeras contribuições teóricas sobre a produção de ondas acústicas através de pulsos de calor ocorridos na amostra, são explicadas por basicamente quatro possíveis mecanismos (Zerbetto, 1993, p 11); 22 i) Difusão Térmica (figura 1); Tal mecanismo assume que o sinal fotoacústico é produzido pela condução de calor, gerado pela amostra, para o gás da célula. Figura 1. Difusão Térmica. ii) Expansão Térmica (Figura 2); O aquecimento causado pela incidência de luz modulada faz neste mecanismo com que amostra funcione como um pistão vibratório, iniciando ela mesma um processo de expansão e contração e originando a onda acústica no gás. Figura 2. Expansão Térmica. iii)Flexão Termoelástica (Figura 3); Faz-se presente quando há um gradiente de temperatura na amostra, devido à absorção da luz modulada perpendicular ao seu plano. Desta forma, a expansão da amostra depende da profundidade com relação à superfície iluminada, resultando em uma flexão periódica, produzindo assim o sinal fotoacústico. 23 Figura 3. Flexão Termoelástica. iv) Efeito Fotobárico (Figura 4); Tal efeito ocorre em amostras fotoquimicamente ativas, em troca gasosa entre amostra e o gás da célula fotoacústica. Figura 4. Efeito Fotobárico. Tais mecanismos mostram que o aquecimento da amostra após a incidência da radiação modulada não depende apenas da quantidade de calor que é gerado na amostra, e da eficiência da conversão de luz em calor, mas depende também de como esse calor se difunde pelo material. Sendo o sinal fotoacústico dependente de como o calor se difunde através do material, é permitido então realizar não só a caracterização térmica da amostra, como também permite fazer mapeamento do comportamento térmico de amostras, pois a geração de ondas térmicas, devido à absorção de pulsos de energia, pode sofrer reflexão e espalhamento ao encontrar defeitos ou impurezas dentro da amostra, afetando o sinal detectado (Velasco, 2006). Comumente, tais mecanismos estão simultaneamente presentes, no entanto existem situações experimentais que fazem com que um determinado mecanismo seja 24 dominante sobre os outros, e no caso da amostra estudada, o mecanismo para obtenção do sinal fotoacústico predominante é o processo de difusão térmica, onde o pulso de calor produzido pela amostra é transmitido para o gás, que se expande periodicamente e gera a onda acústica. 2.4 Espectroscopia Fotoacústica no Infravermelho (FTIR - PAS) A espectroscopia estuda a interação da matéria com a radiação eletromagnética. A absorção da energia da radiação eletromagnética pode ocorrer devido a transições eletrônicas entre orbitais atômicos ou moleculares ou a mudanças de estados rotacionais ou vibracionais das moléculas, estas por fim, características da região do infravermelho. Em uma molécula, suas ligações covalentes estão em constante vibração, e estes movimentos podem ser classificados em deformação axial (ou estiramento) e deformação angular, sendo ainda simétricos ou assimétricos. Uma vibração de deformação axial é um movimento rítmico ao longo do eixo da ligação que faz com que a distância inter-atômica aumente e diminua alternadamente. As vibrações de deformação angular correspondem a variações ritmadas de ligações que têm um átomo em comum ou o movimento de um grupo de átomos em relação ao resto da molécula sem que as posições relativas dos átomos do grupo se alterem (Silverstein et al, 2000). A radiação infravermelha estimula tais movimentos das moléculas. A quantidade de energia que uma molécula contém não é continuamente variável, mas sim quantizada, o que significa que a molécula pode se alterar ou se deformar apenas a uma freqüência específica, correspondendo um nível de energia específico (McMurry, 2005). Quando uma molécula é irradiada com radiação eletromagnética, a energia é absorvida se a freqüência da radiação corresponde à freqüência da vibração. O resultado dessa absorção de energia é um aumento da 25 amplitude para a vibração, e como cada freqüência absorvida pela molécula corresponde a um movimento molecular específico, podemos conhecer os tipos de movimentos que uma molécula possui, pela medida de seu espectro na região do infravermelho. Pela interpretação desses movimentos, podemos descobrir quais tipos de ligações estão presentes na molécula (McMurry, 2005). A radiação eletromagnética com números de ondas de 4.000 a 400 cm-1 (radiação infravermelha média) possui a energia exata correspondente às vibrações de deformações axial e angular de moléculas orgânicas. Um espectro na radiação infravermelha pode ser dividido em duas partes. Dois terços do lado esquerdo do espectro no infravermelho (4000 a 1400 cm-1), representam a região onde a maioria dos grupos funcionais apresenta suas bandas de absorção, essa região é chamada de região de grupo funcional. O terço do lado direito do espectro no infravermelho (1400 a 400 cm-1) é chamada região de impressão digital, porque é uma região característica da substância como um todo (Bruice, 2006). Como cada substância apresenta um único padrão de bandas nessa região, ela pode ser identificada ao se comparar sua região de impressão digital com região de impressão digital de espectros de amostras de substâncias conhecidas. A maioria dos compostos orgânicos apresenta numerosos picos de absorção na região do infravermelho médio (4.000 a 400 cm-1), sendo essa região a mais utilizada para determinação de estruturas de espécies orgânicas, porque nessa região que ocorrem as transições fundamentais, assim chamadas porque a molécula passa do estado fundamental (ou de maior energia) para o estado excitado imediatamente superior (Zerbetto, 1993). As medidas fotoacústicas na região do infravermelho médio mostramse de grande utilidade para a identificação quantitativa de componentes, principalmente em sólidos, orgânicos ou inorgânicos. Entretanto, para isso são necessários técnicas de 26 transformadas de Fourier para uma obtenção satisfatória de resultados, e devido a essa necessidade, células fotoacústicas são disponíveis como acessórios de Espectrofotômetros com transformada de Fourier (Skoog et al, 2002). A utilização da espectroscopia usando transformadas de Fourier foi inicialmente desenvolvida por astrônomos no início dos anos 50 para estudar os espectros infravermelhos das estrelas distantes, pois somente o uso dessa técnica poderia isolar do ruído ambiental os sinais muito fracos dessas fontes (Skoog et al., 2002). Esse método baseia-se no fato de que a relação entre a distribuição da radiação incidente no interferômetro são Transformadas de Fourier em função co-seno. Transformada de Fourier é um processo matemático pelo qual o interferograma (gerado pelo interferômetro) é analisado em seus componentes de freqüências com suas amplitudes correspondentes (Cienfuegos, 2000). A chave para a operação do interferômetro é o divisor de feixe, o qual é geralmente constituído por um espelho semiprateado similar aos espelhos “de um lado só” visto nas lojas e nas salas policiais de interrogatório. O divisor de feixe permite que uma fração do feixe que o atinge passe através do espelho enquanto outra fração é refletida. Esse dispositivo funciona nas duas direções, de forma que a luz que atinge qualquer um dos lados do divisor de feixe seja parcialmente refletida e parcialmente transmitida (Skoog et al, 2008), como mostra a figura 5. 27 Figura 5. Interferômetro de Michelson Os instrumentos com transformada de Fourier não apresentam nenhum elemento dispersivo e todos os comprimentos de onda são detectados e medidos simultaneamente. Em vez de um monocromador, o interferômetro é usado para produzir padrões de interferência que contêm a informação espectral do infravermelho (Skoog et al, 2008). As principais vantagens da Espectroscopia no Infravermelho com transformadas de Fourier sobre outros métodos dispersivos, incluem o fato de que o modelo FTIR apresenta poucos elementos ópticos e não necessita de fenda (vantagem de Jacquinot); a potência que chega ao detector é maior do que nos instrumentos dispersivos e maiores relações sinal/ruído são observadas; melhor precisão e exatidão em termos de comprimento de onda; todos os sinais da fonte alcançam o detector simultaneamente (vantagem de Fellgett ou multiplex), característica essa que torna possível a obtenção de todo o espectro de uma só vez e, com essa economia de tempo, é possível aumentar o número de varreduras (“scans”) para aumentar a razão sinal/ruído; o laser monitora a posição do espelho móvel durante a varredura e também é um padrão interno de calibração do comprimento de onda; elimina a luz espúria, como a freqüência é modulada no FTIR não há luz espúria, a relação linear entre absorbância medida e 28 concentração é válida mesmo para bandas que absorvem fortemente; provoca menor aquecimento na amostra, pois ela localiza-se afastada da fonte; bandas de emissão não aparecem no espectro, pois a radiação de freqüências IV emitidas pela amostra não é modulada e sendo assim, não detectada; resolução constante, ela é a mesma para todos os comprimentos de onda e continuidade do espectro por não existirem mudanças de redes ou filtros (Cienfuegos, 2000). 3. Metodologia A caracterização das amostras foi realizada usando o método FTIR – PAS (Espectrofotômetro Fotoacústico no infravermelho com transformadas de Fourier). Os espectros foram coletados em um Espectrofotômetro Thermo-Nocolet Nexus 670 combinado com um detector Fotoacústico (MTEC-300). Para melhorar os dados o espectrofotômetro será purgado com nitrogênio para eliminar o CO2 e o vapor de água durante o experimento. A célula fotoacústica será também purgada com Hélio durante toda a aquisição de espectros. Previamente à aquisição do espectro das amostras será utilizada uma amostra preta de carbono como referência, para subtrair o background (reproduz a emissão do corpo negro que a fonte representa) durante a medida. Assim quando utilizado, para normalizar os espectros coletados, eles devem ficam isentos dessas vibrações moleculares. Os espectros no infravermelho serão coletados na faixa do infravermelho médio, para cada amostra. Os dados serão processados com o Software Omnic fornecido pelo próprio fabricante do equipamento. As análises de infravermelho foram realizadas no laboratório de espectroscopia pertencente à UEMS na Unidade de Dourados. Todas as amostras foram fornecidas pela 29 Fazenda Prata localizada no km 443 da BR 163, próximo a Campo Grande, a qual trabalha com melhoramento genético de embrião bovino há vários anos. Para análise foram fornecidas duas amostras, sendo uma do suplemento Megalac-E e outra do suplemento Calcita. Nas duas amostras adicionou-se uma quantidade extra de ácidos graxos, essa contida em rações que são disponibilizadas aos animais. O espectro foi analisado com média de 12 picos selecionados para a amostra do suplemento Megalac-E, e 13 picos para a amostra de Calcita, ambos na banda entre 3.990 e 670 cm-1, proporcionando o estudo da composição do suplemento nas faixas características de cada elemento. 4. Resultados e Discussões Visando minimizar a possibilidade de erro quanto aos espectros coletados, foram feitas três leituras espectrométricas. Os números de onda correspondente a cada pico, assim como os grupos funcionais que vibram nessa região e a forma de vibração das moléculas podem ser visualizados nas tabelas que se seguem. 30 Figura 6 – Picos de absorção selecionados para os espectros da amostra de suplemento alimentar Megalac-E Pico 1. Número de Onda (cm-1) 3.391 Grupo Funcional O-H (Hidroxila) 2. 2.923 CH2 3. 2.853 CH2 4. 2.360 CO2 5. 1.670 1.651 1.634 1.622 1.557 1540 1.456 1.419 C=O NH2 C=O NH2 N–H N–H C – CH2 6. 7. COO- 8. 1.113 O–C–C 9. 1.055 S = O (sais) Forma de Vibração Estiramento Axial simétrica (νS) Estiramento Def. Axial assimétrica (νΑS) Estiramento Def. Axial simétrica (νS) D. Angular assimétrica (δAS) “In-Plane Bend” Estiramento Tesoura Estiramento Tesoura “In-Plane Bend” “In-Plane Bend” Tesoura Def. Angular simétrica (δAS) Axial simétrica (νS) Estiramento Axial simétrica (νS) Estiramento Axial assimétrico (ν) 31 10. 11. 12. 992,5 912 876 709 689 672 O–C–C C = H (Vinil) C = H (Vinil) C = H (Vinil) C – H A. Aromático O – H “Ring Bend” O – H “Ring Bend” Estiramento Angular (δ) Angular (δ) Angular (δ) Angular (δ) Angular (δ) Angular (δ) Tabela 1. Número de Onda, grupos funcionais e forma de vibração dos picos identificados nos espectros de absorção no infravermelho médio para o Megalac-E. Figura 8 – Picos de absorção selecionados para os espectros de amostra do suplemento Calcita. Pico 1. Número de Onda (cm-1) 3.390 e 3.321 Grupo Funcional O – H (Hidroxila) 2. 2.918 CH2 3. 2.850 CH2 4. 2.360 e 2.335 CO2 5. 1.650 1.635 NH2 C=O Forma de Vibração Estiramento D. Axial simétrica (νS) Estiramento D. Axial assimétrica(νΑS) Estiramento D. Axial simétrica (νS) D.Angular assimétrica(δAS) “In-Plane Bend” Tesoura (δ) 32 1.623 NH2 6. 1.575 COO- 7. 1.538 C=O 8. 1.458 C – CH2 9. 10. 11. 1.420 1.038 1.005 876 12. 768 O–H C–C–O C–O C=H (Aromáticos) C–H (Aromáticos) 13 668 O–H Estiramento (δ) Tesoura (δ) D.Angular assimétrica(δAS) “In-Plane Bend” Estiramento Angular Assimétrica (δAS) Tesoura Angular assimétrica (δAS) “(O – H) In-Plane Bend” Estiramento (ν) Estiramento (ν) Angular (δ) Angular (δ) “Bends” Angular (δ) Tabela 2. Número de Onda, grupos funcionais e forma de vibração dos picos identificados nos espectros de absorção no infravermelho médio para a Calcita. 4.1 Espectroscopia de Absorção na região do Infravermelho A energia da radiação infravermelha pode excitar transições vibracionais e rotacionais, porém é insuficiente para excitar transições eletrônicas. As variações nos níveis rotacionais podem dar origem a uma série de picos para cada estado vibracional, além de exibir bandas de absorção estreitas próximas umas das outras, resultantes das transições entre vários níveis quânticos vibracionais (Skoog et al, 2008). A obtenção de informações sobre a composição química de uma amostra, utilizando-se a espectroscopia no infravermelho, é feita por meio da comparação das bandas de absorção presentes no espectro da amostra com valores de referência tabelados, disponíveis em uma gama de livros e outras referências bibliográficas (Barbosa et al, 2005). Essa comparação torna-se bastante facilitada se os espectros de compostos possivelmente presentes nas amostras estiverem disponíveis, para que se possa estabelecer uma comparação direta. Para ilustrar a aplicabilidade da técnica FTIRPAS na caracterização de compostos orgânicos, será explanado os espectros de alguns 33 compostos presentes na composição do suplemento energético Megalac-E com seus respectivos picos identificados. Como em qualquer outro tipo de alimento os espectros no infravermelho evidenciam que a amostra é uma mistura bastante complexa, pois contém informações de vários grupos funcionais e muitos deles se sobrepõem, tornando difícil à atribuição de um determinado pico exclusivamente a uma única função química. As regiões entre 706 e 876 cm-1 apresenta uma banda muito larga, podendo estar relacionada ao fósforo ligado a uma hidroxila, entretanto amidas primárias e secundárias, aminas primárias e secundárias, compostos de halogênios e alquenos também absorvem nesta região. A região 1005 cm-1 está relacionada à compostos de fósforo, ácidos carboxílicos, alquenos e alcanos. A região 1113 cm-1 está relacionada com compostos de fósforo, halogênios, enxofre, aminas primárias e secundárias, ésteres aromáticos, compostos carbonilados, álcoois, fenóis livres e aromáticos e alcanos. A região 1458 e 1456 cm -1 estão relacionados à compostos de fósforo, enxofre, íon amônio, sais de aminas, ácidos carboxílicos e íon carboxilatos e aromáticos. As regiões 1575 e 1540 cm-1 estão relacionadas aos compostos de fósforo, enxofre, sais de aminas, aminas secundárias, amidas primárias, secundárias e aromáticos. As regiões de 1670 e 1622 cm-1 estão relacionadas à compostos de fósforo, compostos de halogênios, íon amônio, amidas primárias secundárias e terciárias, ésteres, ácidos carboxílicos, aromáticos e alquenos. As regiões 2923 e 2918 cm-1 estão relacionadas à íon amônio, sais de aminas, aminas primárias e secundárias, amidas primárias e secundárias, ácidos carboxílicos, álcoois, fenóis e alcanos. A região 33903320 cm-1 se relaciona a compostos de enxofre, íon amônio, sais de aminas e amidas primárias, porém álcoois apresentam uma larga banda nessa região. 34 4.2 Caracterização da Amostra A interpretação do espectro pode ser feita ponderando alguns picos que apresentaram absorções relativamente fortes e intensas, considerando ainda o que se conhece sobre a amostra. A banda que se estende de 3390 a 2850 cm-1 (ν (O – H e C – H)) associado à absorção entre 1670 e 1620 cm-1 (C = O e N – H), indica a presença de ácidos carboxílicos compreendendo às amidas primárias (NH2 ) e (C = O), que apresentam forte absorção nessa região. Os espectros de bandas de absorção apresentados na região entre 1575 e 1419 cm-1 caracteriza a presença de sal de ácidos carboxílicos na amostra. As absorções em 2923 cm-1 (“bend”), 2918 cm-1 e 2850 cm-1 são relativas aos estiramentos de ligações C – H de grupos metilênicos (CH2), comuns em várias classes de compostos alifáticos, como ácidos graxos e ésteres graxos e álcoois. O pico na região em torno de 2300 cm-1 para ambas as amostras corresponde, provavelmente, à vibração do CO2 que não pôde ser completamente eliminado durante a coleta, devido às especificidades do aparelho utilizado. A banda de absorção em 1113 cm-1 e 1038 cm-1 é devido ao estiramento da ligação (C = O) de grupo éster. É comum observar sobreposições das bandas relativas às absorções de grupos carboxila de ácidos graxos e ésteres. Nota-se que uma delas aparece como uma pequena inflexão (“bend”). A região entre 1113 e 1055 cm-1 apontam a presença de derivados de enxofre (sulfanatos) e ésteres de ácidos graxos. Observa-se no espectro a presença de uma ou duas bandas de absorção em torno de 876 e 768 cm-1, devidas a deformação angular do 35 grupo (C – H), que indicam a presença de compostos que contém cadeia alifática longa (Barbosa et al, 2005). A interpretação dos espectros definiu a amostra como sendo rica em compostos derivados de ácidos carboxílicos de cadeia longa, apresentando as mesmas características quanto a identificação substancial, para ambas as amostras. Em síntese, pode se dizer que o procedimento permitiu identificar a presença de ácidos graxos, ésteres, amidas, aminas, sais de ácidos graxos, derivados de fósforo e enxofre. Análogo a identificação dos picos está à verificação da semelhança entre os picos apresentados pelas amostras. Como observado na figura 9, ambos os espectros coletados mostram picos de absorção semelhantes, com pequenas variações devido a quantidade adicional de graxas, realçando assim a idéia de que, os compostos presentes na formação comercial do produto já apresentava uma quantidade grande de graxas e derivados, essa que somou-se a quantidade extra fornecida. 36 Figura 9 – Espectros Picos de absorção para os espectros das amostras de suplemento alimentar Megalac-E e Calcita. 4.3 Importância nutricional A avaliação do valor nutritivo dos alimentos fornecidos a ruminantes é um assunto de extrema importância. Sua determinação envolve o conhecimento do consumo e da digestibilidade desses alimentos (Oliveira & Prates, 2000). Com base nos espectros coletados, e a classificação orgânica das substâncias identificadas, realizou-se uma pequena revisão bibliográfica sobre alguns dos principais compostos identificados no suplemento energético e sua importância na alimentação bovina. As gorduras ou lipídeos (ésteres combinados ou não com outros tipos de moléculas) são macronutrientes, constituídos de diferentes compostos, que exercem funções estruturais, energéticas, coenzimáticas e hormonais no organismo, apresentando em sua formulação os ácidos graxos, gorduras neutras (triglicerídeos) e as ceras (Silva, 2005). Os alcanos, assim como ácidos graxos, ésteres de alto peso molecular e álcoois compõem grande parte da composição das ceras de plantas utilizadas na alimentação de animais ruminantes, mostrando-se ligada diretamente no desempenho do organismo do animal (Oliveira & Prates, 2000). As proteínas são compostos poliméricos complexos, formados por moléculas orgânicas, e estão presentes em toda matéria viva. Sua unidade estrutural são os aminoácidos ( - COOH (carboxílico) e – NH2 (amino)), sendo de extrema importância nos organismos animais (Ribeiro & Seravalli, 2004). 37 A adição de uma fonte de enxofre melhora a síntese de proteína microbiana no rúmen, aumentando o fluxo de proteína microbiana e suprimento de aminoácidos no intestino delgado, os quais levam o melhor desempenho animal (Torres & Costa, 2000). Na suplementação de bovinos o fósforo é essencial como componente estrutural dos tecidos, fluídos e ativador de processos enzimáticos. Para as vacas em início de lactação a elevada demanda por fósforo aumenta a absorção deste elemento no trato digestivo, ao mesmo tempo em que as exigências de cálcio repercutem na maior mobilização de fósforo a partir dos ossos. Com o objetivo de assegurar um consumo adequado de fósforo no início da lactação (o pico no consumo de MS é posterior ao pico na produção de leite), as recomendações de fósforo são maiores nesta fase (Oldoni, 2008). Os elementos que compõem a formação do suplemento mineral analisado, tal como a presença de aminas, amidas, ésteres de ácidos graxos, fósforo, enxofre, e alcanos de cadeia ramificada formulam a composição nutricional da amostra. Para expor a verdadeira importância de cada substância, e a análise minuciosa da composição em proporção no suplemento, seria necessário um outro estudo, esse partindo dos dados já obtidos com a análise espectrométrica fotoacústica, somando o uso de outras técnicas, tais como a Espectroscopia por RMN ou de Massa, que proporcionaria uma exatidão maior quanto a composição do suplemento. 5. Conclusão A espectroscopia no infravermelho, somada à técnica do efeito fotoacústico mostrou-se um método poderoso para a identificação de grupos funcionais presente no suplemento mineral energético Megalac-E. Através dela foi possível identificar picos 38 característicos de compostos alimentares orgânicos, que como esperado, compunham a formulação do suplemento analisado. Esse tipo de análise é de suma importância para diversos ramos da ciência, pois proporciona a identificação das substâncias de forma rápida, prática e sem danificar a amostra, o que reflete positivamente nos trabalhos em laboratório. No que se refere aos elementos identificados como componentes do suplemento mineral, pode-se dizer que foi frutífera a análise quantitativa, contudo verifica-se que um estudo detalhado sobre as substâncias identificadas pelos picos de absorção característicos, somado a estudos sobre nutrição animal, se faz necessário para que se possam utilizar na prática os resultados obtidos pela técnica FTIR-PAS. 6. Referências Bibliográficas AMBROSE, D.J., J.P. KASTELIC, R. CORBETT, P.A. PITNEY, H.V. PETIT, J.A. SMALL, AND P. ZALKOVIC. Lower pregnancy losses in lactating dairy cows fed a diet enriched in α-linolenic acid. J. Dairy Sci. 89:3066-3074, 2006. ANDRIGUETO, José Milton. Et al. Nutrição Animal. São Paulo: Nobel, 1984. BARBOSA, Luiz C.A. MALTHA, C.R.A. CRUZ,M.P. et al. O uso da espectroscopia no infravermelho para caracterização de depósitos de pitch e outros resíduos na indústria de celulose e papel. O Papel . Artigo Técnico, 2005. BARBOSA, Natalia Guarino Souza. et al. Consumo e Fermentação Ruminal de Proteínas em Função de Suplementação Alimentar Energética e Protéica em Novilhos. Revista Brasileira de Zootecnia. 30(5):1558-1565, 2001. BRUCKENTAL, I, D. DORI, M. KAIM, H. LEHRER, AND Y. FOLMAN. Effects of source and level of protein on milk yield and reproductive 39 performance of high-producing primiparous and multiparous dairy cows. Animal Production. 48, 319-329, 1989. BRUICE, P. Y. Química Orgânica. 4ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. CASTANEDA-GUTIERREZ, E., T.R. OVERTON, W.R. BUTLER, AND D.E. BAUMAN. Dietary supplements of two doses of calcium salts of conjugated linoleic acid during the transition period and early lactation. J. Dairy Sci. 88:1078-1089, 2005. CHALUPA, W.; FERGUSON, J.D. Basic aspects of feedinf fat to lactanting dairy cattle. Proceedings of N.W. Nutrition Conference, p. 43-60, 1990. CIENFUEGOS, Freddy; VAITSMAN, Delmo. Análise Instrumental. Editora Interciência Ltda, Rio de Janeiro – RJ, 2000. COSTA, Marcos Lana. Avaliação Protéica de Alimentos para Ruminantes. ReHAgro (Recursos Humanos no Agronegócio). Artigos Técnicos. Viçosa, 25 de jun. 2003. DEVRIES, A. Economic value of pregnancy in dairy cattle. J. Dairy Sci. 89:3763885. 2006. FAGUNDES, L. A. Ômega-3 & Ômega-6: o equilíbrio dos ácidos gordurosos essenciais na prevenção de doenças. Porto Alegre: Fundação de Radioterapia do Rio Grande do Sul, 2002. 111 p. FERRARINI, Hair. Determinação de teores nutricionais do milho por espectroscopia no infravermelho e calibração multivariada. UFP: Curitiba, 2004. (Tese de Mestrado) FREITAS JUNIOR, José Esler de. Utilização de fontes de gordura em rações de vacas leiteiras. São Paulo: USP, 2008. (Tese de Mestrado). 40 GONZÁLEZ, F.H.D.; SILVA, S.C. Introdução à bioquímica clínica veterinária. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003. HARRIS, Daniel C. Analise Química Quantitativa. 6ª ed.LTC editora; New York: 2003. HENDERSON, C. The effect of fatty acids on pure cultures of rumen bactéria. Journal os Agricultural Science, v. 81, p. 107-112, 1973. LEHNINGER, A.L. Princípios de bioquímica. 3ª ed. Barcelona: Saevier, 2005. MARQUEZINI, M. V.. Aplicação da Espectroscopia Fotoacústica ao Estudo “in vivo” da toxidade metálica em plantas. Tese de Mestrado apresentada ao Instituto de Física “Gleb Wataghin”, Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, 1990. MCMURRY, John. Química Orgânica 1. Rio de Janeiro: Thonson Pioneira, 2005. MEDEIROS, Sergio Raposo de. Uso de lipídeos em dietas de ruminantes. Campo Grande: Maçal Nutrição Animal, 2008. (Pesquisa Embrapa) MICHAELIAN, K. H.. Photoacoustic Infrared Spectroscopy. John Wiley & Sons Hoboken, New Jersey, 2003. OLIVEIRA, Dimas Estrasulas de. PRATES, Enio Rosa. Utilização dos componentes da cera das plantas, em especial os n-alcanos, em estudos de nutrição de ruminantes. Ciencia Rural, Santa Maria – RS, v.30, n.03,p.549-557: 2000. OLDONI, Solano Alex. Fósforo na dieta e na suplementação dos bovinos leiteiros. Paraná: COAMO, 2008. (Pesquisa científica) 41 PALMQUIST, D.L.; MATTOS, W.R.S. Metabolismo de Lipídeos. In BERCHIELI, T. R.; PIRES, A. V.; OLIVEIRA, S.G. (Eds). Nutrição de Ruminantes. Jaboticabal: Funep, 2006.p. 287-310. PETER,K. VOLLHARDDT, C. SCHORE, NEIL E. Química Orgânica: Estrutura e função. Trad. Ricardo Bicca de alencastro et al. 4ª edição. Porto Alegre: Bookman, 2004. QGN. Apostila Técnica Megalac-E:Gordura Protegida Animal. Arm & Hammer. Disponível em http://www.qgn.com.br/ , visitado em 18/06/2009 às 14:25 horas. RIBEIRO, Eliana Paula. SERAVALLI, Elisena A.G. Quimica de Alimentos. São Paulo: Edgar Blucher: Instituo Mauá de Tecnologia, 2004. ROSENWAIG, A.. Photoacoustic spectroscopy of solids. Opt. Commun. 7: 305308,1973. SALLA, Luciane Elisete. et al. Comportamento ingestivo de vacas Jersey alimentadas com dietas contendo diferentes fontes de gordura nos primeiros 100 dias de lactação. R. Bras. Zootec. vol.32 no.3 Viçosa May/June 2003. SILVA, Márcia Maria C. da. et al. Suplementação de lipídeos em dietas para cabras em lactação. Revista Brasileira de Zootecnia v.36 n.1 Viçosa jan./fev. 2007. SILVERSTEIN, Robert M. WEBSTER, Francis X. Identificação Espctométrica dos Compostos Orgânicos. 6ª ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2000. SKOOG, D.A.; HOLLER, F.J.; NIEMAN, T.A. Princípios de Análise Instrumental. 5ª edição. Porto Alegre: Bookman, 2002. SKOOG, Douglas. et al. Fundamentos de Quimica Analitica. Tradução Marco Grassi. São Paulo: Cengage Learning, 2008. 42 SMITH, Brian C. Infrared Spectral Interpretation: A systematic approach. CRC Press LLC: New York, 1999. TORRES, R.A; COSTA, J.L. Uso da cana-de-açúcar na alimentação animal. in: ii Simpósio de Forragicultura e Pastagens – Nefor - UFLA, Lavras – Minas Gerais,2001. VELASCO, Daniel Soares. Modelo Teórico para a técnica de dois feixes aplicado a amostras de duas camadas. Maringá: UEM, 2006. (Tese de Mestrado) ZERBETTO, Miriam. Aplicações da espectroscopia fotoacústica ao estudo de Sistemas biológicos. Campinas: Unicamp, 1993. (Tese de Mestrado) 43