Pró-Reitoria de Graduação Curso de Filosofia Trabalho de Conclusão de Curso A ALIENAÇÃO E A NECESSIDADE DE CONSUMO SEGUNDO A “INDÚSTRIA CULTURAL”: UMA LEITURA DE ADORNO E HORKHEIMER. Autor: Severino Lisboa Campos Filho Orientador: Professor Dr. Gilmário Guerreiro da Costa Brasília - DF 2011 SEVERINO LISBOA CAMPOS FILHO A ALIENAÇÃO E A NECESSIDADE DE CONSUMO SEGUNDO A “INDÚSTRIA CULTURAL”: UMA LEITURA DE ADORNO E HORKHEIMER. Monografia apresentada ao curso de graduação em Filosofia da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do Título de Licenciado em Filosofia. Orientador: Prof. Dr. Gilmário Guerreiro da Costa. Brasília 2011 Monografia de autoria de Severino Lisboa Campos Filho, intitulada A alienação e a necessidade de consumo segundo a “Indústria Cultural”: uma leitura de Adorno e Horkheimer, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de licenciado em filosofia da Universidade Católica de Brasília, em 22/11/2011 defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: __________________________________________________________ Prof. Dr. Gilmário Guerreiro da Costa Orientador Curso de Filosofia – UCB __________________________________________________________ Prof. MsC. Sérgio Gomes e Silva Curso de Filosofia – UCB Brasília 2011 Em memória de meu avô materno, Dirceu Ribeiro dos Santos e meus avos paterno, Maria das Mercês e João Salú Campos, que não puderam ver a conclusão deste trabalho. AGRADECIMENTO Agradeço a Deus em primeiro lugar, por estar sempre comigo e por repor minhas forças físicas e mentais tantas vezes desgastadas e perdidas. Agradeço aos meus confrades de Planaltina e do Guará que deram sua imprescindível contribuição e compreensão para que este projeto fosse realizado. Aos meus amados pais Severino e Maria das Dores, meus irmãos, irmãs, sobrinhas (o), cunhados (a), e a todos os meus familiares pelo imenso apoio, motivação e compreensão que me foi prestado principalmente durante este ano. Pelos meus colegas adquiridos na Católica nestes semestres de estudo. Ao professor MsC. Sérgio Gomes e Silva, por aceitar tão prontamente ser o leitor deste trabalho. Por todas as pessoas que me deram qualquer apoio durante os pesados momentos vividos este ano. “é próprio dos deuses não ter necessidade de nada, de quem é semelhante aos deuses, ter necessidade de pouco.” (Diógenes de Sinope) RESUMO FILHO, Severino Lisboa Campos. A alienação e a necessidade de consumo segundo a “Indústria Cultural”. 2011. 50 páginas. Corso de licenciatura de filosofia. Filosofia. Universidade Católica de Brasília. Brasília – DF, 2011. O presente trabalho tem por objetivo apresentar a crítica feita por Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno e Max Horkheimer sobre a indústria cultural mostrando algumas conseqüências negativas que a atuação da mesma tem realizado na vida racional do homem. A partir da indústria cultural a capacidade critica/reflexiva das massas são tomadas por ela. Desta forma o homem passa a viver alienado de sua própria capacidade intelectual em relação a sua decisão de optar conscientemente perante o consumo que lhe é imposto. Esta alienação consiste em introjetar na consciência do homem a necessidade de consumir tudo aquilo que indústria lança para a aquisição. Os meios de comunicação de massa são os mecanismos pelo qual a indústria difunde esta manobra. Em função disto é apresentado um breve histórico da escola de Frankfurt, da indústria cultural e dos meios de comunicação social. A indústria cultural forma massas para facilmente exercer sua manipulação e uma vez conseguido o seu controle as massas são levadas a sustentar a indústria por meio do consumo desenfreado. Neste sistema o homem acaba por se tornar mais um dos objetos que são produzidos pela indústria e ao se comportar como a indústria “ordena”, ou seja, adquirindo exageradamente os produtos do mercado, tanto a ação de produzir como de adquirir bens em alta escala, tem levado a uma destruição acelerada do planeta, pois este não tem conseguido renovar seus recursos naturais na mesma velocidade e medida que eles são extraídos. Palavras-chave: Indústria Cultural, Alienação, necessidade de consumo, Adorno, Horkheimer. ABSTRACT FILHO, Severino Lisboa Campos. The alienation and consumption needs under the "Cultural Industry". 2011. 50 pages. 2011. Degree in Philosophy Universidade Católica de Brasília. Brasília – DF, 2011. The present study aims to present the criticism made by Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno and Max Horkheimer to the cultural industry showing some negative consequences that have been performed by the same action in the rational life of man. From the cultural industry the critical / reflective capacity of the masses is taken by her. Thus man begins to live alienated from his own intellectual capacity in relation to their decision to choose consciously towards the consumption imposed upon him. This sale consists of internalizing the man’s consciousness to the need of consuming all that the industry throws for the acquisition. The mass media are the mechanisms by which the industry spreads this maneuver. Because of this we present a brief history of the Frankfurt School, the cultural industry and means of social communication. The cultural industry forms the masses for easy manipulation and pursue achieved since its control the masses are taken to sustain the industry through unbridled consumption. In this system the man ends up becoming another of the objects produced by industry and behaving as the industry "orders", i.e., acquiring excessively market products. Both the act of producing and purchasing goods on a large scale have led to an accelerated destruction of the planet, because it has failed to renew its natural resources as much as they are extracted. Keywords: Cultural Industry, Alienation, consumption needs, Adorno, Horkheimer. SUMÁRIO INTRODUÇÃO.......................................................................................................................10 CAPÍTULO I: A INDÚSTRIA CULTURAL SEGUNDO ADORNO E HORKHEIMER......................................................................................................................12 1.1. A ESCOLA DE FRANKFURT ..................................................................................12 1.2. A INDÚSTRIA CULTURAL ....................................................................................14 1.3. CULTURA DE MASSA ............................................................................................17 1.4. MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL ...................................................................20 CAPÍTULO II: INDÚSTRIA CULTURAL E ALIENAÇÃO ...........................................26 2.1. CONTROLE DA MASSA PELO MECANISMO DA ALIENAÇÃO ......................32 CAPÍTULO III: AS NECESSIDADES DE CONSUMO PELA INDÚSTRIA CULTURAL..........................................................................................................................................37 CONCLUSÃO ........................................................................................................................45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................48 INTRODUÇÃO...........................................................................................................10 CAPÍTULO I: A Indústria Cultural segundo Adorno e Horkheimer 1.1 . A Escola de Frankfurt....................................................................................12 1.2. A indústria cultural.........................................................................................14 1.3. Cultura de massa...........................................................................................17 1.4. Meios de comunicação social........................................................................20 CAPÍTULO II: Indústria cultural e alienação...............................................................26 2.1. Controle da massa pelo mecanismo da alienação.......................................32 CAPÍTULO III: As necessidades de consumo pela indústria cultural...................................37 CONCLUSÃO ............................................................................................................45 REFERÊNCIAS..........................................................................................................48 10 Introdução Os meios de comunicação social evoluíram muito até chegarem ao que se tem hoje em tempos atuais. Isto tem possibilitado a cada dia que mais pessoas tenham acesso a informações, notícias, arte, descontração entre outras coisas. A humanidade parece muito feliz por dispor de mecanismo tão forte, presente e disponível na sociedade. Tendo acesso a grandes massas, os meios de comunicação, em especial, a televisão, o rádio, as revistas e a internet desempenham um papel muito importante, pois eles nos colocam informados dos acontecimentos que muitas vezes se dão em tempo real. Assim, se pode do lar acompanhar o processo de eleição em um país além-mar, por exemplo. Também é possível ver o processo da queda de um governo ditador que perdurou em seu regime por décadas. Todavia, é preciso fazer uma reflexão sobre a atuação destes meios de comunicação de massa, pois eles são veiculadores da “cultura de massa”, ou melhor, “indústria cultural”. Esta indústria se dá a entender que se trata de uma cultura popular, que se origina naturalmente das massas, algo que brota dela. Isto é negado pelos filósofos Adorno e Horkheimer. Será que estes principais meios de comunicação de massas estão realmente preocupados com a transmissão da informação verdadeira, imparcial, e de modo comprometido com a vida e a dignidade humana, ou será que o noticiário é apenas uma forma de mascarar um sistema que movimenta toda a maquinaria do consumo? A questão é pertinente, porque a televisão, os jornais, as revistas, as emissoras de rádio e a internet, cada qual defende que o seu trabalho possui como princípio o compromisso ético com a verdade e a seriedade. Dentro deste contexto, o presente trabalho quer discutir sobre a alienação, na qual as pessoas são submetidas por estes veículos de comunicação de massa dominados pela indústria cultural. Alienação porque o sujeito acaba por perder sua capacidade de crítica diante do que é dado. Por possuir este domínio intelectual, a indústria consegue exercer sua manipulação. Uma das grandes questões do mundo industrial moderno é justamente o fato de ele reduzir as pessoas a serem úteis ou não, e o critério de avaliação está no poder de consumo que cada um possui, ou seja, o indivíduo só tem validade se 11 estiver ativamente no mercado. A indústria cultural abriga elementos que identificam o mundo industrial moderno, mas este mundo não conseguiria se desenvolver sem a poderosa contribuição dos meios de comunicação de massa. Diante disso, surge outra importante discussão que será desenvolvida neste trabalho. Trata-se da necessidade de consumo introjetada na consciência do cidadão. Isto acontece quando a indústria dita suas regras de consumo para a massa populacional, através dos meios de comunicação. Assolado por este acontecimento, o homem acaba abrindo mão de sua liberdade e de sua capacidade de escolha. Ele encontra-se, pois, preso a um sistema dominador. A proposta deste trabalho é fazer um estudo que busque mostrar e analisar o poder de dominação que possui a indústria cultural por difusão dos meios de comunicação de massa, se detendo especificamente na questão da alienação e da criação de necessidades de consumo, as quais o homem é constantemente submetido. O primeiro capítulo visa apresentar de modo breve a origem e história da escola de Frankfurt na Alemanha. O instituto foi criado para fins de desenvolver pesquisas sociais no ano de 1923. Após isso, um breve histórico da indústria cultural também é apresentado bem como a história dos principais meios de comunicação social. Os meios de comunicação de massa têm papel importante para a indústria cultural, pois é por meio deles que são apresentados os produtos a serem consumidos pelas massas. O segundo capítulo vem tratar a alienação que o homem é submetido segundo a indústria cultural. O capítulo aborda primeiro a origem da alienação segundo o filósofo Karl Heinrich Marx, e posteriormente é apresentado de que forma as massas são submetidas a um controle de comportamento a fim de que ajam de acordo com os objetivos da indústria. No terceiro capítulo é apresentado de que forma as necessidades de consumo segundo a indústria cultural são lançadas na consciência do homem para que se consiga levá-los ao consumo desenfreado dos produtos ofertados pelo mercado. Neste processo o homem é levado a se entregar completamente e sem medo a indústria, pois esta se autonomeia capaz de pensar as necessidades que o homem deve possuir e de que forma ele deve agir para satisfazê-las. 12 CAPÍTULO I: A Indústria Cultural segundo Adorno e Horkheimer 1.1. A Escola de Frankfurt Antes de adentrarmos no objetivo principal deste capítulo inicial, que é o conceito de indústria cultural, segundo os filósofos em questão, é necessário primeiro desviar a rota por um instante a fim de proporcionar brevemente o conhecimento do que foi a Escola de Frankfurt, uma vez que o termo “indústria cultural” surgiu dentro desta instituição. A origem da Escola de Frankfurt se dá a partir do propósito de alguns intelectuais que desejavam desenvolver uma teoria social específica. O principal idealizador foi Félix j. Weil1, que se preocupava com o desenvolvimento de uma teoria marxista verdadeira. Os demais que deram corpo ao instituto foram Friedrich Pollock e Max Horkheimer, que mais tarde veio a ser diretor do Instituto. O Instituto de Pesquisa Social foi criado no ano de 1923, com inauguração oficial no ano seguinte, ou seja, a idéia de uma “Escola Específica” segundo Assoun2, “só se desenvolveu depois que o Instituto foi obrigado a abandonar Frankfurt. Mais nos indica que a própria expressão Escola de Frankfurt só foi utilizada depois do regresso do Instituto à Alemanha, em 1950”. Com a ascensão de Hitler ao poder e início do regime nazista em 1933, os estudos do Instituto de Pesquisa Social ficaram bastante limitados e não demorou muito tempo para que o Instituto se obrigasse a ter que abandonar Frankfurt. 1 Filho de um negociante de cereais, que fizera fortuna na Argentina. Weil, doutor em ciências políticas, organizou a <<Primeira Semana de Trabalhos Maxistas>> (Erst Marxistische Arbeitswoche) durante o verão de 1922, em Ilmenau (Turinge), na qual participaram, nomeadamente, Lukacs, Korsch, Pollock, Wittfogel, e que devia lançar a noção de um maxismo <<verdadeiro>> ou <<puro>>.instituição permanente, sob a forma de um Instituto de Investigação independente [...]. ASSOUN, Paul-Laurent. A escola de Frankfurt. Trad. Helena Cardoso - Lisboa: Publicações Dom Quixote,1989 p.11 2 Ibid. p.12 13 Em fevereiro de 1933, um escritório com 21 elementos instalou-se em Genebra, tornando-se o centro administrativo do Instituto, que foi fechado pelos nazis. Paralelamente, duas outras dependências mais pequenas foram abertas em Paris, onde a revista do Instituto continuou a sair (Edições Alcan), e em Londres, com o apoio da Sociological Review. A partir de setembro de 1933, <<a Escola de Franfurt>> deixa de estar em Frankfurt, saindo a revista em França e sendo na Suíça o quartel-general. Esta expatriação durou até Agosto de 1950, data em que o Instituto retomou o seu trabalho nos locais do Kuratorium no Senckenberganlage e o no que restava do Instituto, e mais tarde, em novembro, num outro edifício, merecendo de novo, mas com dezessete anos de interrupção, a sua 3 qualificação de frankfurtiana . Como se pôde ver, o Instituto de Pesquisa Social foi obrigado a deixar seu local de origem Frankfurt, para se fixar em outras terras. Embora tenha acontecido esta arbitrariedade, uma vez fora de seu território a escola foi acolhida por outras instituições, o que possibilitou uma parceria mesmo depois do retorno à Alemanha, e ainda o mais importante, a escola de Frankfurt pôde continuar a desenvolver seu trabalho que foi interrompido pelo regime nazista. Entretanto, com efeito, o instituto ligara-se aos Estados Unidos: tendo o capital sido transferido para lá em 1941, o Instituto unira-se a Columbia University (n° 429 da rua 117 Oeste), sob proposta de Butler, em 1934. Mesmo após o regresso a Frankfurt, a dependência nova-iorquina do 4 Instituto manteve-se . Este é um resumo das origens da escola de Frankfurt, porém, apesar de curto é possível conduzir e informar o leitor ao conhecimento do que realmente desejavam os idealizadores do Instituto Para pesquisa Social, ou seja, o que era o desenvolvimento de uma teoria crítica da sociedade. Uma das vertentes que a teoria crítica proporcionou em seu desenvolvimento foi a pesquisa e crítica a respeito da indústria cultural ou cultura de massa. Dentre os importantes teóricos da escola de Frankfurt, destacam-se “Max Horkheirmer que nasceu em 1885 em Stuttgart e faleceu em 1973”5 e “Theodor Wiesengrund Adorno, 1903 – 1969.”6 3 ASSOUN, op. Cit., p.12 Ibid. p.12 5 OLGÁRIA, C.F Matos. A escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Moderna. São Paulo, 1993 p.73 6 Ibid. p.75 4 14 1.2 A indústria cultural A indústria cultural está presente na sociedade como um sistema que objetiva a comercialização de produtos ofertados pelo mercado. Porém, este mesmo sistema que tem desumanizado o homem se utiliza de uma presença que não mais necessita se camuflar, ou seja, estar escondida para que ninguém a veja ou reconheça todas as suas manobras executadas com êxito para manter a relação da oferta do mercado e consumo das massas uma ação necessária na vida do homem. A indústria cultural com suas conseqüências negativas está visível a todos. Adorno e Horkheimer dizem que “a racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”.7 Os filósofos também versam sobre o que foi feito do esquematismo apresentado pelo filósofo Immanuel kant. A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomada ao sujeito pela indústria. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ele ao cliente. Na alma devia atuar um mecanismo secreto destinado a preparar os dados imediatos de modo a se ajustarem ao sistema da razão pura. Mas o segredo está hoje decifrado. Muito embora o planejamento do mecanismo pelos organizadores dos dados, isto é, pela indústria cultural, seja imposto a esta pelo peso da sociedade que permanece irracional apesar de toda racionalização, essa tendência fatal é transformada em sua passagem pelas agências do capital do modo a 8 aparecer como o sábio designo dessas agências. Aquilo que a indústria cultural proporciona para a sociedade são mercadorias e atrações que foram desenvolvidas por ela para fazer do homem um ser dependente. Deste modo, tudo aquilo que a indústria lança para o consumo não encontra em momento algum qualquer aversão por parte das massas. Durante o processo, de preparar as massas e os produtos para o consumo, a indústria desencadeia diversas ações que passam por despercebidas pelas pessoas, como é o caso da a alienação ao qual o homem é submetido a fim de que se comporte exatamente como quer a indústria. Neste processo de alienação o homem é completamente manipulado ao ponto de “pensar” que o consumo 7 ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p.100 8 Ibid. 103 15 desenfreado que vem realizando é necessidade vital. Desta forma, a indústria também abriga vários outros elementos que por ela foi modificado. Estas transformações a identificam. São ações que a caracterizam, ou seja, que lhe dão um rosto ou uma identidade. A indústria cultural apresenta uma barbárie, mas seria ilusão pensar que “a barbárie da indústria cultural [...] é fruto do atraso da consciência norte-americana relativamente ao desenvolvimento da técnica”.9 É o que afirma Adorno e Horkheimer. Segundo os filósofos em questão a indústria na atualidade fez com que as obras de arte sejam “apresentadas como os slogans políticos e, como eles, inculcadas a um público relutante a preços reduzidos”.10 Elas foram reduzidas ao comércio. Os filósofos também afirmam “que o valor de uso da arte, seu ser, é considerado como um fetiche, o fetiche, a avaliação social que é erroneamente entendida como hierarquia das obras de arte – tornam-se seu único valor de uso, a única qualidade que elas desfrutam”.11 A hilaridade que é apresentada na forma de cartoons visa demonstrar a realidade da vida do homem sendo a cada dia massacrada. A idéia é fazer com que os indivíduos se acostumem e se divirtam com o que se vê, pois é assim a vida na sociedade. Isto é o que versa Adorno e Horkheimer. Na medida em que os filmes de animação fazem mais do que habituar os sentidos ao novo ritmo, eles inculcam em todas as cabeças a antiga verdade de que a condição de vida nesta sociedade é o desgaste contínuo, 12 o esmagamento de toda resistência individual A diversão que a indústria oferece está imbuída de más intenções, pois aquilo que ela apresenta para a diversão por meio do cinema, por exemplo, pretende ser uma forma de manter as massas realizando o desenvolvimento do mercado, por meio de seu trabalho e consumo contínuo. Assim o que deveria ser uma sessão de diversão, passa a se tornar uma extensão da atividade que é realizada nos diversos setores trabalhistas. Segundo Adorno e Horkheimer “divertir-se significa estar de 9 Ibid. p.109 Ibid. p.132 11 Ibid. p.131 12 Ibid. p.114 10 16 acordo”13 e mais ainda “a fusão atual da cultura e do entretenimento não se realiza apenas como depravação da cultura, mas igualmente como espiritualidade forçada da diversão.”14 Outra característica da indústria que é apresentada pelos filósofos, é que ela faz com que não exista diferença alguma entre aquilo que é planejado e o que se dá de modo inesperado. Tudo é perfeitamente planejado e o inesperado só existe como pensamento. Acaso e o planejado tornam-se idênticos porque, em face da igualdade dos homens, felicidade e infelicidade – da base ao topo da sociedade – perde toda significação econômica. O próprio acaso é planejado; não no sentido de atingir tal ou qual indivíduo determinado, mas no sentido, justamente, de 15 fazer crer que ele impere. A indústria tem se mostrado contraditória em relação à sua ideologia e suas ações práticas na sociedade, e isto levou Adorno e horkheimer a afirmarem o seguinte: “quanto menos promessas a indústria cultural tem a fazer, quanto menos ela consegue dar uma explicação da vida como algo dotado de sentido, mais vazia torna-se necessariamente a ideologia que ela defende.”16 Isto se dá porque as massas em todo momento são vistas apenas como consumidoras. Elas não possuem outra função para a indústria senão a de consumir. A indústria faz com que a cultura também seja comercializada, porém ao fazer isso o que se obtém é uma desvalorização. Em relação a isso Adorno e Horkheimer afirmam que “a cultura é uma mercadoria paradoxal. Ela está tão completamente submetida a lei da troca que não é mais trocada. Ela se confunde tão cegamente com o uso que não se pode mais usá-la.”17 Estas ações caracterizam de modo geral o “movimento” que é a indústria cultural segundo os filósofos Adorno e Horkheimer. 13 Ibid. p. 119 Ibid. p. 118 15 Ibid. p. 121 16 Ibid. p. 121 17 Ibid. p. 134 14 17 1.3 Cultura de massa Os filósofos Adorno e Horkheimer se caracterizam como grandes expositores da escola de Frankfurt, eles “forjaram a expressão indústria cultural e a empregaram pela primeira vez no contexto da crítica à razão moderna que propuseram no livro Dialética do Iluminismo.”18 A criação e utilização do termo “indústria cultural” foi elaborado em oposição ao termo vigente, “cultura de massa”. A intenção dos filósofos é tornar claro que a expressão cultura de massa leva a entender que há um movimento de baixo para cima, que vai das massas à indústria, e de cima para baixo, que se faz da indústria às massas. Com o próprio desenvolvimento da indústria cultural, que acontece de modo bastante acelerado, é possível perceber que o movimento que acontece não se dá exatamente ou próximo ao modo em que foi descrito acima. A indústria cultural como tal exerce na verdade uma força contra as massas e sua ação é de impor aquilo que deseja, obriga a massa a absorver o que lhe é apresentado por ela. É justamente por causa deste movimento autoritário e sem controle que ela se caracteriza como um fenômeno da modernidade. O conceito de indústria cultural tem a ver com a expansão das relações mercantis pelo conjunto da vida social, em condições de crescente monopolização, verificadas a partir das primeiras décadas do século XX. No princípio, o fenômeno consiste em produzir ou adaptar as obras de arte segundo um padrão de gosto bem-sucedido e desenvolver as técnicas para colocá-las no mercado. A colonização pela publicidade, pouco a pouco, tornou veículo da cultura de consumo: ele assume então um caráter sistêmico. O estágio final chega com sua conversão em mecanismo de mediação estética do conjunto da produção mercantil, momento este em que o mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural 19 [enquanto máquina de publicidade]. Adorno e Horkheimer não acreditavam que aquilo que a indústria apresentava podia ser algo genuíno das massas, que brotasse delas a partir de seus desejos ou necessidades espontâneas. Na opinião dos filósofos, o movimento que acontece é algo que vem só de cima, que desconsidera a opinião das massas, é algo dado a ela 18 RÜDIGER, Francisco. Theodor adorno e a crítica à industria cultural: Comunicação e teoria crítica da sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 288 p. 20 19 Ibid. p.23 18 com a intenção única de levar ao consumo. “Horkheimer e Adorno usam o termo indústria cultural para referirem-se, de maneira geral, às indústrias interessadas na produção em massa de bens culturais,” é o que afirma Rüdiguer20. Deste modo, adotando um termo correto ao fenômeno que se estabelecia, Adorno e Horkheimer passam a dispensar suas críticas à indústria cultural a partir da análise da sociedade presente. A modernidade coincide, como era, com o progresso do projeto de tornar o homem sujeito e construir uma sociedade capaz de permitir sua realização como indivíduo. Noutros termos, libertá-lo das autoridades míticas e das opressões do tradicionalismo. A realização desse projeto, todavia, revelouse problemática. O progresso da razão é gerador de um avanço que não pode ser separado da criação de novas sujeições e dependências, responsáveis pelo aparecimento de sintomas regressivos na cultura e de 21 uma silenciosa coisificação da humanidade. A modernidade trouxe o progresso, que possibilitou a criação e desenvolvimento do sistema econômico capitalista. É neste sistema que a indústria cultural encontrou forças para se desenvolver, e fez isso de tal forma que nem mesmo a própria especulação a respeito de seu crescimento podia ter esperado. A categoria da indústria cultural é uma expressão desse processo precipitado pela mudança estrutural da vida moderna que teve lugar na passagem do século XIX para o XX. O capitalismo passará então do estágio da livre iniciativa para o da competição corporativa. Paulatinamente, o Estado tornara-se intervencionista. A categoria reinante na sociedade, por sua vez, não era mais só o mercado; associara-se a ele um poderoso e 22 crescente sistema técnico administrativo. Aqueles que idealizaram e administram a indústria cultural, considerando tudo o que ela representa, sequer estão interessados em manter encoberto o que se passa em seus bastidores, ou seja, seu funcionamento e desenvolvimento manipulativo para gerar o consumo pelas massas. Isso faz ver que o enraizamento que a indústria conseguiu no seio da sociedade é maior do que se pode imaginar. Suas ações não são questionadas pela quase totalidade, simplesmente não são percebidas pela sociedade. As massas são formadas por milhões de pessoas nos diversos lugares do mundo. São co-participantes deste acontecimento, que tem a 20 .Ibid. p. 22 Ibid. p. 21 22 Ibid. p. 21 21 19 função de alavancar o crescimento da indústria. A massa pouco consegue refletir sobre a que tipo de aniquilação é constantemente submetida. Deixam de ser participantes ativas para serem se tornarem consumidores completamente passivos. Seguem regras que nem sequer conhecem. Este acontecimento ocorreu em etapas. A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das 23 diferentes estações. A indústria cultural se caracteriza como uma indústria da diversão. É essa a sua preocupação para com a sociedade consumista, que o é, não necessariamente por seu querer, mas feita consumista pela indústria, por seu jogo e artimanha quase perfeita. É justamente pela diversão que ela consegue manter o seu controle sobre os indivíduos. “A indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto àquilo que está continuamente a lhes prometer.”24 O que acontece é que a explicação materialista dos fatos sociais perdeu força à medida que as ideias passaram a ser industrializadas. Contudo, a indústria cultural não poderia se desenvolver de modo tão eficiente se não contasse com a colaboração de aliados tão poderosos como são os meios de comunicação social de massa, tão presentes na sociedade. 23 23 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.100 Ibid. p. 115 20 1.4 Meios de comunicação social A relação que existe entre meios de comunicação de massa e indústria cultural é bastante próxima, uma vez que a indústria cultural se manifesta através dos meios de comunicação social e estes, por sua vez, se desenvolvem a partir do desenvolvimento da indústria cultural. Há uma relação de crescimento mútuo. É bem verdade que os meios de comunicação de massa nos últimos anos evoluíram de modo significativo. Isto tem proporcionado uma infinidade de benefícios em caráter pessoal e global, como manter a sociedade informada sobre os diversos acontecimentos e realidades, tanto local como mundo afora. O lazer, entretenimento e espiritualidade também fazem parte do que é ofertado pelos diversos meios de comunicação social de massa. Não há como determinar até onde pode chegar o alcance da mass media, é o que afirma o reitor da PUC-PR Clemente Ivo Juliatto. É infinito o alcance dos meios de comunicação social. Eles abrem acessos à humanidade para atividades culturais e, ao mesmo tempo, apontam caminhos para abolir ou diminuir desigualdades econômicas, culturais, educacionais e sociais. São instrumentos que alavancam e proporcionam entretenimento e lazer, difundem valores, propagam a identidade cultural e 25 as tradições, melhoram o aproveitamento e a utilização do tempo. Em conjunto com a indústria cultural e de modo particular cada um dos principais meios de comunicação, como o rádio, jornal, televisão e internet desempenham sua contribuição para a formação e entretenimento da sociedade. O jornal ocupa uma posição de respeito uma vez que sua forma impressa perdura há muitos anos, assim como os livros que até pouco tempo eram os únicos meios de informação não oral de pesquisa. Também proporcionavam a muitos bons momentos de leituras de diversos temas. Valdez Maranhão, presidente da Associação dos Repórteres Fotográficos de Minas Gerais, ressaltou a importância dos jornais impressos. No Japão um exemplar somente vende mais que nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo por dia e juntos. Não possui a ideia de que vai acabar este seguimento jornalístico, o que terá é a divulgação pela internet que é 25 Disponível em: http://www2.pucpr.br/reol/index.php/REITOR?dd1=1712&dd99=view Acessado em: 23 set. 2011. 21 impossível de impedir. Com as mudanças, vemos muitos jornais na internet, 26 fabricação e distribuição do meio. Outro jornalista que comenta a importância do jornal é João Serralvo, e sobre isto ele afirma o seguinte: “É tão importante essa leitura diária que a maioria das pessoas a faz no café da manhã, complementando a alimentação do corpo com a ilustração do espírito. Faz parte da preparação matinal para um novo dia de trabalho.”27 Porém a prática de ler jornais diminuiu com a chegada do rádio. O rádio foi inserido na sociedade, de modo já bem desenvolvido, organizado e com fácil acesso à população em 1921. Este caracteriza-se como um poderoso instrumento de comunicação de massa. Mesmo com o passar dos anos, o rádio mantém patamar respeitável em relação a instrumento de comunicação neste século XXI, utilizado pelas pessoas, ainda que se tenha presente outros meios de comunicação social. O rádio é encontrado em lugares remotos, e muitas vezes é ele, a única forma de se obter informações. Entretanto, nem por isso aquilo que é apresentado diariamente por meio do rádio é algo necessariamente valioso, como aponta os filósofos Adorno e Horkheimer: “O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem”.28 Assim como o jornal, que teve que dividir espaço na comunicação com rádio, não diferentemente o radio por sua vez, também precisava se apaziguar com a nova invenção do homem, ou seja, a televisão. A televisão “apresentou-se de forma estruturada com seu acesso a população, a partir de 1937. Sua inserção na sociedade é marcada pela transmissão oficial da coroação de Jorge VI na Inglaterra.”29 Ela oferece hoje, por meio de muitos canais, suas mais variadas formas de entretenimento e informação. As pessoas lhe dedicam, se não por completo, pelo menos boa parte do seu tempo ócio diante dos programas ofertados por este meio de comunicação de massa. Os canais televisivos apresentam uma infinidade de entretenimentos que abarcam desde o lazer a um momento de espiritualidade. 26 Disponível em: http://www.patriciaaranha.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=87:a-importanciado-jornal-impresso&catid=2:ultimas-materias&Itemid=8 Acessado em: 22 Out. 2011. 27 http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a-importancia-da-leitura-de-jornal 28 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.100 29 Disponível em : http://www.tvgazeta.com.br/historia/comeco.php Acessado em 22/09/11. 22 Assim, é possível encontrar pelo menos um programa que parece ter sido criado especialmente para preencher as necessidades de cada um dos membros de uma determinada família. Os seriados se podem considerar que são para os filhos, as novelas e programas culinários chamam a atenção principalmente das esposas, o futebol e alguns filmes são para o marido, programas religiosos, de espiritualidade encontram maior parte de telespectadores entre o público com mais idade na família. Mas ainda se encontram programas que possuem a pretensão de juntar a todos os membros, como é o caso dos principais noticiários do dia. Estes passam sempre num momento em que todos os membros da família se encontram em casa. Existem várias outras programações que são apresentadas ao longo de todo o dia. São desenhos animados, mistura de noticiário com curiosidades, fofocas, minisséries e etc. Não se pode negar, e não é esta a proposta, que a televisão tem possibilitado a muitas pessoas o acesso a informações e o conhecimento de coisas que jamais elas poderiam imaginar que existissem. Favoreceu ainda, visualmente falando, ir a lugares distantes.30 Isto ocorre porque as empresas televisivas de um determinado país, por exemplo, têm buscado estar em todos os continentes tanto por meio de seus repórteres além-fronteiras, como também por meio de empresas televisivas filiadas no estrangeiro. A preocupação é de colocar o país bem informado sobre os diversos acontecimentos do mundo como a política, esporte, religião, guerras, conquistas científicas e de direitos humanos, ou seja, o que acontece é uma informação global das ações humanas transmitidas para um determinado povo e em sua própria língua, quase que instantaneamente, mesmo que tais informações possam estar imbuídas de intenções específicas, ou ponto de vista que levaram a escolha de determinada imagem e não de outra. Adorno tece uma crítica em relação televisão. Ele alerta sobre eventuais perigos deste meio de comunicação uma vez que ele pode ser utilizado para a disseminação em massa de um pensamento específico ou realizar manobras ideológicas. O filósofo comenta: “Entretanto, suspeito muito do uso que se faz em grande escala da televisão, na medida em que se apresenta, ela seguramente 30 É o caso de pessoas que mesmo possuindo acesso a televisão, no caso, por causa de sua condição paupérrima nascem, crescem e morrem em uma determinada e pequena localidade-região sem jamais terem saído deste local. Sua viagem é unicamente através da imaginação motivada pela imagem transmitida. 23 contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos expectadores”.31 Outro meio de comunicação social presente atualmente é a internet. Theodor Adorno e Max Horkheimer não puderam ver a ação da internet e tão pouco esboçar um comentário sobre a função da mesma na sociedade. A internet surgia por volta do mesmo ano em que Adorno veio a falecer e Horkheimer, apesar de estar vivo, também não pôde conhecê-la, pois este meio de comunicação só era usado secretamente pelo exército dos Estados Unidos. No sítio Brasil Escola é dado uma definição para o que a internet representa. A internet é um grande conjunto de redes de computadores interligadas pelo mundo inteiro; de forma integrada viabilizando a conectividade independentemente do tipo de máquina que seja utilizada, que para manter essa multi-compatibilidade se utiliza de um conjunto de protocolos e serviços em comum, podendo assim, os usuários a ela conectados usufruir 32 de serviços de informação de alcance mundial. Com sua origem para fins militares por volta de 1969, a internet ocupa cada vez mais lugar de destaque no que tange à comunicação já desenvolvida pelos homens, é o que afirma Kellen Cristina Bogo, graduada em Ciência da Computação. Foi desenvolvida nos tempos remotos da Guerra Fria com o nome de ArphaNet para manter a comunicação das bases militares dos Estados Unidos, mesmo que o Pentágono fosse riscado do mapa por um ataque nuclear.Quando a ameaça da Guerra Fria passou, ArphaNet tornou-se tão inútil que os militares já não a consideravam tão importante para mantê-la sob a sua guarda. Foi assim permitido o acesso aos cientistas que, mais tarde, cederam a rede para as universidades as quais, sucessivamente, passaram-na para as universidades de outros países, permitindo que pesquisadores domésticos a acessarem, até que mais de 5 milhões de pessoas já estavam conectadas com a rede e, para cada nascimento, mais 33 4 se conectavam com a imensa teia da comunicação mundial. A internet possibilita aos membros de uma sociedade, pelo menos aqueles que dela dispõem o acesso aos mais variados tipos de conteúdos escritos e audiovisuais. Varias empresas e pessoas civis a utilizam como meios de pesquisar, estudar, divulgar suas ideias bem como fazer publicações de produtos para a 31 ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar. 3. ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro: 1995. p.77 32 Disponível em: http://www.brasilescola.com/informatica/internet.htm Acessado em: 23 set. 2011. 33 Disponível em: http://www.kplus.com.br/materia.asp?co=11&rv=Vivencia Acessado em: 23 set. 2011. 24 comercialização. Este fato tornou a internet uma referência para pesquisas instantâneas e específicas. Outro benefício deste meio de comunicação é a possibilidade de manter contato com pessoas ainda que elas estejam bem distantes. Se dispuserem de aparelhos próprios e sinal, que é via satélite, então poderão conversar e verem uns aos outros por meio da tela do computador. A internet se difere dos outros meios de comunicação de massa. Ela caracteriza-se como instrumento de comunicação, mas não massiva, é o que afirma Adilson Cabral Professor da Universidade Estácio de Sá – RJ. Não se pode dizer que a INTERNET seja exatamente um meio de comunicação de massa, definição pela qual nos refirimos à mídia. A INTERNET não massifica, muito menos inibe a interatividade. Por um lado, ponto para ela, mas isso significa também que não podemos colocá-la como um avanço em relação aos veículos de comunicação massivos (rádio, televisão), nem mesmo podemos discutir a INTERNET a partir dos mesmos parâmetros que serviam para os meios de comunicação de massa 34 convencionais, pois falamos aqui sobre um veículo de outra natureza. Com esta apresentação geral dos meios de comunicação, que se encontram à disposição da sociedade atual, é possível observar com clareza que a presença destes veículos de informação fazem parte do dia a dia das pessoas, independentemente de sua idade, formação escolar, crença ou parte geográfica do mundo. Estes meios são companheiros diários. Considerando que é pelos meios de comunicação social que o desenvolvimento e os resultados que são obtidas pelas mais diversas pesquisas científicas são divulgadas, bem como novidades e descobertas religiosas, o homem fez destes instrumentos de comunicação sua própria referência, seu caderno de conteúdo, seu professor. Realmente as informações transmitidas pelos meios de comunicação social é em muitos casos a única maneira de se ter acesso ao conhecimento, como é o caso dos analfabetos descrentes de conseguirem aprender a ler. Estes, por exemplo, podem conhecer sobre os planetas sem precisarem ler uma única linha sequer. Tal empreendimento é proporcionado pela televisão ou pelo rádio, que são instrumentos transmissores de informação que quase sempre dispensam a leitura, ao contrário do jornal impresso e da internet que exigem das 34 Disponível em: http://www.comunicacao.pro.br/artcon/interneduc.htm Acessado em: 23 set.2011. 25 pessoas este domínio, para que se entenda por completo a notícia informada ou a localização exata daquilo que se pesquisa nos sítios da internet. É justamente por causa desta confiança inquestionável das massas aos meios de comunicação que a indústria cultural enxerga neles o caminho mais eficiente para desenvolver suas técnicas manipulativas para a necessidade de consumo. 26 CAPÍTULO II: Indústria cultural e alienação Presente nos lares, ambientes de trabalho, de educação, lazer e nas ruas os meios de comunicação têm desempenhado uma ação muito mais abrangente do que educar, informar, descontrair a sociedade. Este seu papel tem sido acompanhado de outro fenômeno, trata-se da alienação do homem, ação bem sucedida que é cuidadosamente pensada pela indústria cultural. O significado da palavra “alienação”, segundo consta no dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano,35 não é apenas um, na verdade este termo foi utilizado em contextos distintos, por isso seu significado apresenta variações. Em sentido geral e amplo, possui o significado de “perda de posse, de um afeto ou dos poderes mentais”, já entre os filósofos ou determinado tempo, o sentido que possui é diferente. Veja alguns exemplos. Primeiramente na idade média este termo foi empregado por são Ricardo de São Vítor a fim de “indicar um grau de ascensão mística em direção a Deus”. Ele considerava a alienação “como o terceiro grau da elevação da mente a Deus [...] ela consiste no abandono da lembrança de todas as coisas finitas e na transfiguração da mente em um estado que não tem nada mais de humano”, seria uma espécie de êxtase. Em Rousseau indica “a cessão dos direitos naturais à comunidade, efetuada com o contrato social.” Deste modo, "As cláusulas deste contrato reduzem-se a uma só: a alienação total de cada associado, com todos os seus direitos, a toda a comunidade". O filósofo alemão Hegel utilizou da palavra alienação a fim de indicar “o alhear-se a consciência de si mesma, pelo qual ela se considera como uma coisa. Este alhear-se é uma fase do processo que vai da consciência à autoconsciência.” Para Hegel a alienação tanto pode possuir um caráter negativo como também positivo. Karl Marx se utilizou deste termo para descrever “a situação do operário no regime capitalista”, ao seu modo de ver a alienação “é o processo pelo qual o homem se torna alheio a si, a ponto de não se reconhecer.” O filósofo Jean-Paul Sartre entende a alienação “como ‘um caráter constante da objetivação, seja ela qual for’: onde se entende por ‘objetivação’ qualquer relação do homem com as coisas e com os outros homens”. O pensador Marcuse “considerou a alienação como a característica do homem e da sociedade 35 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revisada: Alfredo Bosi. Martins fontes. São Paulo, 2007 p26 27 ‘numa só dimensão’”, o filósofo via “como a situação na qual não se distingue o dever ser do será, por isso, o pensamento negativo, ou a força crítica da Razão, é esquecida ou calada pela força onipresente da estrutura tecnológica da sociedade.” Como se pode ver, apesar das variações, o significado de alienação está relacionado diretamente a consciência racional. Dentre os filósofos que versam sobre a alienação é na visão de Karl Marx que este trabalho melhor encontra respaldo, uma vez que o filósofo em questão traça a origem histórica do surgimento da alienação. E sobre isto, a alienação é um fenômeno que remete suas origens a partir de três vertentes. A primeira e principal delas é a divisão social do trabalho, como afirma Leandro Konder: “De acordo com a concepção marxista, a alienação resulta da divisão do trabalho.”36 Na acepção marxista, por conseguinte, a alienação é um fenômeno que deve ser entendido a partir da atividade criadora do homem, nas condições em que ela se processa. Deve ser entendido, sobretudo, a partir daquela atividade que distingue o homem de todos os outros animais, isto é, daquela atividade através da qual o homem produz seus meios de vida e se cria a si 37 mesmo: o trabalho humano. A segunda vertente é a apropriação privada das fontes de produção, mediante as quais o homem é utilizado para produzir o objeto por meio do trabalho, seja na condição de escravo, como no passado ou como trabalhador remunerado na fábrica após a Revolução Industrial. O que Marx ressalta nestes dois momentos é o distanciamento ou a alienação existente entre o trabalhador e o resultado do trabalho desempenhado. Mais adiante Marx se pergunta por que o produto do trabalho se aliena do trabalhador e conclui que isso ocorre porque tal produto antes mesmo da realização do trabalho pertence a outrem que não o trabalhador. E é levado a considerar o sistema de propriedade que promove a desapropriação do 38 trabalhador em relação ao objeto produzido 36 KONDER,Leandro. Maxismo e alienação: contribuição para um estudo do conceito de alienação. 2ªEd. São Paulo: Expressão popular, 2009. p. 48 37 Ibid. p. 40 38 Ibid. p. 42 28 O próprio relacionamento entre os homens vem ser mediado pelos objetos que estão em poder daqueles que conseguem produzi-lo pela mão de obra do trabalhador que participa da produção por meio da venda de sua força de trabalho. As relações entre os homens são mediatizadas pelas coisas, daí provém à possibilidade de que o domínio de um pequeno grupo sobre extensas massas se exerça mediante a posse, por esse grupo, de objetos, por exemplo, as máquinas de produção industrial, que afetam vitalmente a 39 existência das massas. A terceira vertente que origina a alienação se refere ao aparecimento das classes sociais. As pessoas a partir da divisão do trabalho e da produção dos objetos passam a ser classificadas dentro da sociedade. A divisão da sociedade em classes sociais repercute em cada indivíduo. Já não é mais razoável esperar que cada indivíduo veja realmente no próximo um seu semelhante, isto é, um indivíduo potencialmente igual a ele, porque, com a diferenciação das condições sociais e a pertinência a diferentes classes, a semelhança entre os indivíduos sofre um esvaziamento de sentido. Como é que um aristocrata proprietário de escravos, desfrutando o ócio que lhe proporciona a exploração do trabalho alheio, poderia ver com 40 clareza e concretamente no escravo que lhe está subjugado um seu igual? Esta análise levou o filósofo Karl Marx a ter a certeza “de ter encontrado na alienação econômica a raiz do fenômeno global da alienação”.41 O filósofo tece uma crítica em relação às três etapas acima descritas que desenvolveram o pensamento do homem em relação à produção e a economia. A organização econômica possibilitou o desfrutar do acesso a produtos que venham a suprir algumas carências nos diversos âmbitos da vida como doméstica e profissional. Mas junto a isso veio a alienação. Leandro Konder apresenta algumas conseqüências negativas desses acontecimentos históricos. Mas a divisão social do trabalho, o aparecimento da propriedade privada e a formação das classes sociais (três aspectos de um mesmo processo) não tiveram apenas um efeito positivo, impulsionando um desenvolvimento econômico e promovendo - através da evidente desumanidade – um surto de progresso na evolução do homem. Coube-lhe outra conseqüência, além de terrivelmente trágica, historicamente negativa: a dilaceração do homem, 39 Apud. Ibid. p. 47 Ibid. p. 64 41 Ibid. p. 43 40 29 o fracionamento da humanidade, a ruptura da comunidade espontânea, a 42 destruição da unidade humana primitiva. Como se não bastasse às conseqüências celeradas já obtidas, a indústria cultural tem levado esta parte negativa adiante. Nos tempos atuais a alienação tem feito algo também digno de reflexão. Pela indústria cultural, a alienação tem diminuído a cada dia a capacidade critico/reflexiva do homem, sujeito pensante. A razão é uma característica peculiar do homem, isto o difere dos animais, o torna social e político como afirmava o filósofo Aristóteles. Pensando nisso, as ações do homem são orientadas ou guiadas pela razão, ou seja, as decisões que ele toma diariamente como, por exemplo, ir ou permanecer, pegar ou deixar algo no lugar, falar ou não expor o pensamento, estudar ou passear o dia todo, gastar ou aplicar o dinheiro, todas são ações que passam por uma avaliação prévia, independentemente de a avaliação acontecer em poucos segundos ou então levar vários dias, anos. Depois de julgar o que é melhor para aquele momento e, considerando as circunstâncias, o homem então coloca em prática sua decisão. Ao agir assim, o homem faz uso de sua livre escolha, se utiliza de sua liberdade. Nos tempos presentes o homem está sendo condicionado, de uma maneira muito mais abusiva e contínua, a pensar o “pensado”. Este “pensado” não se refere à repetição de ideias práticas, transmissão de teorias desenvolvidas com pesquisas científicas ou algo semelhante, mas se refere ao modo, ou o que deve ser pensado. Em outros termos, o “pensado” se refere ao fato de a indústria cultural ditar o que as massas devem pensar. Isto é possível porque a indústria está muito bem organizada de modo a não aparecer, ela não se revela com suas técnicas às massas. Porém, o fato dela estar “oculta”, não torna o seu poderio mais fraco. Antes o contrário, é justamente por não aparecer, que ela tem conseguido levar o homem a abandonar sua capacidade crítica diante daquilo que lhes é apresentado. A indústria cultural não apenas manipula os indivíduos; ela consegue esta manipulação porque os impede sistematicamente de criarem uma distância, um espaço imprescindível, por mínimo que seja, à eclosão de um olhar crítico. A vida banal e alienada é reafirmada pelo espetáculo mediático da sua repetição glamorosa, o status quo confirmado no falso brilho da 43 projeção. 42 43 Ibid. p. 63 GAGNEBIN Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Ed 34, 2006 p.93 30 Viver plenamente exige que o homem constantemente tome diversas decisões no transcorrer de sua vida. Isto é completamente natural e faz parte do processo de amadurecimento cognitivo e intelectual. Ele utiliza-se de critérios racionais para avaliar as diversas circunstancias que se lhe apresentam, que o cercam. Opta por seguir a alternativa que mais lhe parece conveniente, apropriada ao momento. Isto não quer dizer exatamente que a escolha feita será a mais fácil ao invés da mais difícil, a menos sofrida em relação a mais penosa, a muito simples do que a complexa, mas quer dizer apenas que uma escolha será tomada, tendo como base o seu pensamento avaliativo. Esta capacidade de pensar antes de agir torna o homem um ser racional, ou seja, que se utiliza da razão. As decisões que o homem toma, tem interferência direta em sua vida seja de imediato no presente ou ainda no futuro, isto enaltece a importância de refletir antes de agir. Mas saindo do âmbito do valor, da virtude, qualidade ou necessidade, pensar também se caracteriza como uma obrigação e, deste modo, não parece coerente ao homem tomar atitudes irracionais, ou seja, sem a devida reflexão. Exercer a capacidade/obrigação de pensar plenamente é uma ação que a indústria cultural presente e estruturada na sociedade não está disposta a conceder ao homem. Ela se dá a este trabalho de modo muito eficiente. O que se está querendo dizer é que a indústria cultural pretende fazer com que o homem acredite que pensar é algo penoso e desnecessário, não há porque exercer este trabalho uma vez que ela prontamente se oferece para aliviar este “fardo” pesado que é ter que ficar avaliando ou refletindo sobre muitas coisas e atitudes. Assim, a indústria transmite ao homem o que deve ser feito e o que se deve pensar, a fim de evitar que não se faça direito ou que se pense desnecessariamente. Adorno e Horkheimer afirmam que “inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo”.44 A televisão por sua vez tem sido o mecanismo pelo qual a indústria tem levado de modo mais eficiente esta sua postura, e por isso mesmo encontrou maior crítica dos filósofos Adorno e Horkheimer. São ideologias que levam o homem a um comportamento mecanizado. Estas ideologias são compreendidas como inexistentes, e mesmo que existam, a sociedade as vê como uma ação que não 44 ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p.105. 31 possui mais força alguma, ou seja, mesmo que exista, sua manifestação nas massas é nula. Adorno e Horkheimer discordam veemente desta afirmação. A ideologia assim reduzida a um discurso vago e descompromissado nem por isso se torna mais transparente e, tampouco, mais fraca. Justamente sua vagueza, a aversão quase científica a fixar-se em qualquer coisa que não se deixe verificar, funciona como instrumento da dominação. Ela se converte na proclamação enfática e sistemática do existente. A indústria cultural tem a tendência de se transformar num conjunto de proposições protocolares e, por isso mesmo, no profeta irrefutável da ordem existente. Ela se esgueira com maestria entre os escolhos da informação ostensivamente falsa e da verdade manifesta, reproduzindo com fidelidade 45 o fenômeno onipresente. A indústria cultural consegue se camuflar entre aquilo que ela oferece às massas, no caso, a arte e a cultura para comercialização. A propaganda direta, um dos melhores recursos utilizados pela indústria para oferecer o produto, recebe duras críticas de Horkheimer e Adorno Na obra humanismo e comunicação de massa46 os autores exclamam: “Propaganda para transformar o mundo, que absurdo! A propaganda faz da linguagem um instrumento, uma alavanca. Uma máquina”. Afirmam ainda que a propaganda não é ingênua, muito pelo contrário, ela é na verdade mais poderosa do que se pode imaginar. A propaganda manipula os homens; onde ela apregoa liberdade, contradizse a si mesma. A mentira apresenta-se inseparável dela. A comunicação da mentira é onde o chefe e o séquito se encontram pela propaganda, inclusive quando o conteúdo for verdadeiro. Até a verdade se torna, para ela, um mero instrumento para recrutar adeptos, adulterando a verdade no próprio 47 ato de pronunciá-la Ao adquirir o produto ofertado na propaganda as massas não se dão conta de que na verdade estão pagando muito mais do que o dinheiro, pois junto à moeda vai também sua racionalidade, uma vez que se crê na propaganda. Este acreditar deixa as massas vulneráveis, ou seja, manipuladas e prontas para seguirem ordens. Tornam-se escravas do sistema. 45 Ibid. p.122 MAX HORKHEIMER / THEODOR ADORNO “Excertos”. In AXELOS, BENJAMIM, CHACON, DAHRENDORF, HABERMAS,e HORKHEIMER. Humanismo e comunicação de massa. Tradução: Vamireh Chacon. Tempo Brasileiro Ltda. Rio de Janeiro, 1970. p.60 47 Ibid. p.60 46 32 2.1 Controle da massa pelo mecanismo da alienação O controle que as massas sofrem pela indústria cultural está justamente na castração de sua liberdade-obrigação de pensar. Alienados, sem conseguirem um discernimento simples em relação à sua postura de consumidores, as massas são levadas pelo movimento imposto pela indústria. Neste sistema não é possível pensar em desacordo com a indústria, e mais ainda, não é possível agir sem que a escolha das massas não tenha sido muito antes pensada pela mesma, pela indústria, aquela que se nomeou tutora do pensamento dos homens, que se diz preocupada com o bem estar social e que deseja que cada um se desenvolva economicamente. Os próprios empresários e criadores da indústria, por vezes, também precisam dançar conforme a canção é tocada, isto é, conforme a ordem estabelecida. Na obra Dialética do Esclarecimento48, é possível identificar o que se afirma. O convite, que na verdade mais se parece com uma convocação, é feita a eles recheada de uma boa motivação econômica, pois neste sistema “ainda é possível fazer fortuna, desde que não se seja demasiado inflexível e se mostre que é uma pessoa com quem se pode conversar”49 e para aqueles que não querem de modo algum fazer parte, saiba que não funciona bem assim, a proposta possui a força de não ser nem um pouco optativa, pois “quem resiste só pode sobreviver integrando-se”50. Uma das coisas mais perturbadoras é o fato de que toda e qualquer tentativa de resistência não trazem outra coisa senão mais lucros ainda a indústria, uma vez que “a rebeldia realista torna-se a marca registrada de quem tem uma nova idéia a trazer à atividade industrial”51. Em outras palavras, a resistência acaba por ser produto da indústria cultural, ela é comercializada como qualquer um de seus produtos. A favor ou contra, a própria indústria oferece meios para que se leve adiante a opinião adotada. Mais livros, filmes, documentários, debates e palestras gravadas serão vendidos e, deste modo, a indústria continua a se manter. Pela televisão as massas são submetidas a determinados tipos de pensamentos ou ideologias. Esta jogada quer formar uma mentalidade ou 48 ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 190 p. 49 Ibid. p.108 50 Ibid. p.108 51 Ibid. p.109 33 concepção do modo de se ver a vida e os caminhos que devem ser percorridos, para que o sujeito possa pertencer integralmente à sociedade. A ilusão, porém, é muito maior, pois existe uma perseguição a um objetivo ou meta que não é possível de se alcançar, é o que afirma em um de seus artigos, Simone Antoniaci Tuzzo.52 A fantasia é a ilusão de ter e poder aquilo que não se tem e não se pode, mas que seus personagens da televisão tem e são, cria uma outra forma de vida para milhares de pessoas, que passam a poder viver aquilo que não se vive e pensar sentir aquilo que não se sente, mas que, por fazer parte de seu dia-a-dia de forma tão presente através da TV se acredita estar vivendo 53 e sentindo. Manter a sociedade sob controle absoluto é tarefa que exige o perfeito conhecimento das massas por parte da indústria cultural. Por meio dos programas televisivos, filmes e novelas, a ideologia presente em cada capítulo quer informar às massas que aquilo que se vê com toda a emoção são situações que estão presentes corriqueiramente no cotidiano da vida. O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural. A velha experiência do espectador de cinema, que percebe a rua como um prolongamento do filme que acabou de ver, porque este pretende ele próprio reproduzir rigorosamente o mundo da percepção quotidiana, tornouse a norma da produção. Quanto maior a perfeição com que suas técnicas duplicam os objetos empíricos, mais fácil se torna hoje obter a ilusão de que o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se 54 descobre no filme. É a realidade da vida sem mentira ou fantasia alguma sendo televisionada. A indústria pretende preencher uma enorme lacuna presente no homem. Esta fissura acaba por ser algo que ela mesma artificialmente o provocou. E só é artificial por que tal necessidade não existe propriamente. Adorno e Horkheimer afirmam que “Se a maior parte das rádios e dos cinemas fossem fechados, provavelmente os consumidores não sentiriam tanta falta assim.”55 Mas ainda assim a indústria busca manter o homem sob o seu controle, para o trabalho e para o consumo. 52 Simone Antoniaci Tuzzo: Doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Universidade Tiradentes. 53 Disponível em: http://www.semiosfera.eco.ufrj.br/anteriores/semiosfera02/organizacao/frsoc3.htm Acessado em: 01 out. 2011. 54 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.118 55 Ibid. p.130 34 A verdade em tudo isso é que o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida, não da simples oposição a ela, mesmo que se tratasse de uma oposição entre onipotência e impotência. – A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se por de novo em condição de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação das mercadorias destinadas à diversão, que esta pessoa não pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo 56 de trabalho. Somente com a identificação das massas, com aquilo que vêem, é que elas conseguem dar continuidade ao fatigante trabalho do dia a dia, ou seja, por meio do que é apresentado nos filmes e novelas o lazer não passa de uma continuidade do trabalho. Só assim é que as massas executam tão prontamente o exercício da profissão. Não como direito que cada um possui de trabalhar, mas da necessidade criada do trabalho. As massas são levadas a acreditar que a vida se dá daquela maneira mesma. As partes dos filmes em que retratam as dificuldades do viver levam a acreditar que não há mentira alguma ali, e mais do que isso, leva a concluir que a vida só pode ser exatamente assim, deste modo difícil, penoso e que não há o que fazer senão se contentar, pois mesmo aquele ídolo querido, sofre também nas telas. Tudo isso é ainda encoberto pelos jornais. O repertório de informação é sempre o mesmo, muitas notícias de violência, corrupção, destruição e muitas outras coisas negativas. Só leva a registrar na cabeça das massas a confirmação de que aquilo que é transmitido é mesmo a realidade única da vida. As massas não conseguem enxergar os possíveis interesses presentes nos meios de comunicação, que justifique o fato deles optarem por relatar exatamente um tipo de informação e não outro. Assim a mídia informa partes de uma história, uma única face da verdade, um trecho apenas do ocorrido. No Brasil, o tempo de televisão comercial dedicado ao jornalismo é escasso, normalmente trazendo notícias fragmentadas, parciais e carentes de conteúdo explicativo. A maioria da população, contudo, não percebe que deixou de receber informações importantes, complementares e explicativas de determinado assunto. Isso porque já está habituada com uma 56 Ibid. p.128 35 quantidade mínima de informação a respeito de assuntos de seu 57 interesse. Os jornais televisivos por meio das notícias fazem uso de suas mais eficazes técnicas para manter as massas sob controle. A informação considera primeiro os interesses do mercado, da indústria, para posteriormente apresentar os conteúdos às massas. Deste modo, não é possível encontrar críticas maiores a este sistema, pelos meios de comunicação social. Os apresentadores não necessariamente os empresários donos da maquinaria, conhecem muito bem o poderio da indústria cultural, já aqueles a quem é destinada às informações, no caso as massas, elas ignoram completamente que possa haver interesses que não sejam a transmissão do conteúdo verdadeiro. Assim, facilmente e sem esforço algum a massa é submetida a uma castração intelectual. O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio, o produto prescreve toda reação: não por sua estrutura temática – que desmorona na medida em que exige o pensamento – mas através de sinais. Toda ligação lógica que pressupunha um esforço intelectual é 58 escrupulosamente evitada. Esta ação de controlar o pensar, ou seja, a manipulação do homem possibilita por meio do grau de alienação adquirida, criar um determinado grupo de indivíduos. Esta grande parcela da sociedade são pessoas que não tiveram acesso à educação. E os que tiveram não aprenderam a fazer a crítica necessária para conseguirem compreender a sociedade que compõem. São alheios a si mesmos. A responsabilidade disto não é das massas, isso está claro, antes pertence aos detentores da indústria cultural. “Fabricadores” de massas como comenta Rüdiger. A concentração do poder político e econômico transformou a ratio em meio de dominação. O conhecimento científico reduziu-se à tecnologia e passou a ser usado como meio de domínio não apenas da natureza mas, também, da vida social. Os serviços públicos, a escola, o hospital, a fábrica e outras instituições passaram, nesta época, a se dotar de técnicas cada vez mais eficientes para atingir seus objetivos. Os procedimentos instrumentais originados da economia penetraram nestes ambientes e ensejaram a criação de controles cujo sentido é fazer dos homens mônadas reificadas do 57 Disponível em: http://www.semiosfera.eco.ufrj.br/anteriores/semiosfera02/organizacao/txtsoc3.htm Acessado em 01 out. 2011. 58 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.128 36 sistema. Os indivíduos, paulatinamente vão sendo enquadrados em disciplinas, que fragmentam os processos vitais e, assim, os levam à 59 massificação. Os filósofos Adorno e Horkheimer declaram que nessa batalha da indústria cultural para dominar as massas, o triunfo pertence à indústria, pois “o inimigo que se combate é o inimigo que já está derrotado, o sujeito pensante”.60 A partir do momento em que a indústria cultural consegue colocar as massas nos seus moldes, isto é, fazendo-a pensar o que a indústria projetou e da forma em que o fez, nesse sentido com a massa formada, o domínio e a manipulação entram em cena. As massas sob controle são levadas a exercerem, a desempenharem o papel mais importante a favor da indústria cultural. Elas são condicionadas ao consumo de tudo aquilo que lhes é lançado. 59 RÜDIGER, Francisco. Theodor adorno e a crítica à industria cultural: Comunicação e teoria crítica da sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. p.49 60 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.123 37 CAPÍTULO III: As necessidades de consumo pela indústria cultural Adorno e Horkheimer indicaram a pretensão que a indústria cultural tinha ao desempenhar de modo contínuo a alienação das massas no que concerne à reflexão sobre a adesão de mercadorias. A indústria forma pessoas para o consumo independentemente da classe social a que pertençam, idade ou localização geográfica. O consumo tem sido utilizado para dar um falso status a quem possui uma quantidade a mais de dinheiro ou a quem pretenda dar a entender que possui maiores recursos financeiros. Estas pessoas são classificadas como pessoas de maior poder aquisitivo, que podem realizar maior aquisição de bens. A indústria por outro lado não está interessada só em quem possui maior poder de compra, sobre estes ela já possui domínio, sua função é não deixar ninguém de fora do mercado consumista e para realizar tal empreendimento disponibiliza a todos, a partir da já estabelecida divisão de classe 61 produtos destinados aos grupos de indivíduos que a compõe desde aquela classificada como última até a primeira, no caso a classe “A”. Na verdade apesar de se ter disponível um produto que é destinado, ou que esteja ao alcance de todas as classes, a questão a se considerar é a necessidade de consumo, esta necessidade não muda no geral de pessoa para pessoa, o que muda são os produtos. A necessidade criada é contínua e sempre alimentada pelos novos produtos do mercado. Segundo os filósofos Adorno e Horkheimer “O fato de que milhões de pessoas participam dessa 61 Classe social. Cada um dos grandes grupos diferenciados que compõem a sociedade. Os critérios para definir-se um grupo social como classe são motivo de divergências. De modo geral, nessa caracterização privilegiam-se fatores socioeconômicos tais como riqueza, apropriação dos meios de produção, posição no sistema de produção, profissão, nível de consumo e origem dos rendimentos, entre outros. Considera-se ainda que os membros de uma classe social, além de terem no conjunto os mesmos interesses, tendem a compartilhar valores semelhantes. Para Marx, o que caracteriza uma classe social é sua posição no processo de produção, sua relação com o sistema de propriedade. No capitalismo, ele identificou duas classes sociais principais: burguesia (proprietários dos meios de produção) e proletariado (trabalhadores que vivem de salário). Seria essa, também, a base objetiva dos conflitos político-sociais e das transformações históricas. Outros autores consideram que, atualmente, a hierarquização social se processa no âmbito das diferenças profissionais. Argumentam que a mobilidade social nas modernas sociedades industriais, em decorrência da ampliação das oportunidades, contribuiria para a expansão das camadas médias e para a atenuação dos conflitos de classe, mais próprios do capitalismo passado. Nas pesquisas de mercado, as classes são identificadas pura e simplesmente por estarem dentro de certas faixas (A, B, C, D etc.) construídas a partir dos níveis de renda e de consumo dos indivíduos. SANDRONI, Paulo. Dicionário de Economia. Editora Best Seller: São Paulo, 1999. Disponível em: http://introducaoaeconomia.files.wordpress.com/2010/03/dicionario-de-economia-sandroni.pdf Acessado em: 22 out. 2011. 38 indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais.”62 O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre a mesma coisa. [...] As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. [...] Até mesmo a diferença entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets, nos filmes o número de estrelas, à exuberância da técnica, do trabalho e do 63 equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. As necessidades para o consumo que a indústria lança no homem são todas artificiais e mecânicas, não pertencem ao homem como algo necessário e vital como as necessidades naturais intrínsecas a ele como se alimentar, reproduzir, etc. Aquilo que a indústria faz ideologicamente ser necessário, de modo algum abriga o risco de morte, extinção ou de sobrevivência caso o homem não escolha se deixar levar pelo movimento estipulado pela indústria cultural. Em relação a isto, a extinção, é a indústria que está propensa a este risco, ela só consegue se manter enquanto mantiver o homem sob seu domínio pois segundo os filósofos seu poder está relacionado à sua existência, assim o “poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida”.64 Adorno e Horkheimer mostram a dependência da indústria ao afirmarem que “os trabalhadores, que são na verdade aqueles que proveem a alimentação dos demais, são alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos chefes econômicos, que são na verdade os alimentados”.65 Os produtos oferecidos pela indústria, e esta a fim de conseguir abrigar ao máximo possível de consumidores têm se utilizado de momentos específicos para desempenhar uma manobra em que tem como escopo fazer de uma ocasião importante, ou seja, uma data comemorativa o melhor momento para que as pessoas saiam às compras. Isto é bem possível identificar em datas festivas mesmo as que envolvem religião. Deste modo, para indústria cultural não é importante fazer a comemoração estrita do que representa a data comemorativa em questão. No caso dos cristãos uma das datas mais importantes é a comemoração do nascimento 62 A ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 100 63 Ibid. p.102 64 Ibid. p 113 65 Ibid. p.124 39 de Cristo celebrado no dia 25 de dezembro e independentemente da igreja à qual se pertença, possuem um modo peculiar de se comemorar, um exemplo é a tradicional Missa do Galo realizada na noite antecedente ao Natal. Para a indústria, entretanto, o importante é a quantidade de presentes que serão vendidos nas lojas para posteriormente serem ofertados ou trocados entre as pessoas e unido a isso está presente a variedade de alimentos e bebidas que serão consumidos no decorrer da noite festiva. A mesma coisa se identifica em outras datas comemorativas, como é o caso do dia de Páscoa. A indústria não se mantém presa a datas relacionadas às festividades das religiões para disseminar a consciência do consumo, por isso a ela também está presente durante todos os dias do ano lembrando sempre a todas as pessoas que aniversário de verdade se faz quando se ganha ou se dá presentes, maldosamente já está presente na consciência das pessoas que a quantidade de presentes ganhos quer dizer o quanto se é bem quisto. Identifica-se uma atuação eficaz da indústria também em outras datas como o dia dos namorados, dia das mães, dos pais e dia das crianças. Muitas das datas ganharam destaques no calendário por honra e reconhecimento por um feito valioso e importante tanto ético quanto moral, algo de caráter virtuoso que mereça ser lembrado pela humanidade, não está ligado originariamente ao comércio. Esta concatenação quem a fez foi a indústria, que vê em tudo grandes oportunidades para levar o homem a consumir. A criação das necessidades de consumo pela indústria cultural é oriunda de uma preparação prévia, para se alcançar os objetivos pensados. Sobre isto Adorno e Horkheimer afirmam que “pois só a vitória universal do ritmo da produção e reprodução mecânica é a garantia de que nada surgirá que não se adapte”.66 A consciência da necessidade de consumo lançada ao homem é uma manobra utilizada pela indústria pelo mecanismo da propaganda específica ou publicidade, esta, por sua vez, é veiculada pelos meios de comunicação de massa e tem a função de afirmar continuamente o caráter imprescindível dos produtos do mercado. Seu objetivo é levar as massas à aquisição do que deve ser consumido. Segundo Adorno e Horkheimer a publicidade para a indústria cultural se tornou extremamente importante, pois “a publicidade é seu elixir da vida”.67 66 67 Ibid. p.111 Ibid. p.134 40 Na sociedade concorrencial a publicidade tinha por função orientar o comprador pelo mercado, ela facilitava a escolha e possibilitava ao fornecedor desconhecido e mais produtivo colocar sua mercadoria. Não apenas não custava tempo de trabalho, mas também o economizava. Hoje, quando o mercado livre vai acabando, os donos do sistema se entrincheiram nela. Ela consolida os grilhões que encadeiam os 68 consumidores às grandes corporações. A publicidade se tornou deste modo, dotada de um caráter negativo, acabou por se transformar em um recurso que não tem mais como objetivo primário facilitar o comércio. Pela indústria cultural ela se torna um mecanismo do mercado que, possuindo grande poder, cobra caro por seus serviços prestados limitando assim a participação de empresários. Não é um recurso que esteja na mão de todos, mas pelo contrário, é dominada apenas pelas grandes corporações da indústria. A publicidade tem sido utilizada pela indústria, para ditar normas de funcionamento do mercado. Os custos de publicidade, que acabam por retornar aos bolsos das corporações, poupam as dificuldades de eliminar pela concorrência os intrusos indesejáveis. Esses custos garantem que os detentores do poder de decisão ficarão entre si [...] A publicidade universal não é absolutamente necessária para que as pessoas conheçam os tipos de mercadoria, aos quais a oferta de qualquer modo está limitada. Só indiretamente ela serve à venda. O abandono de uma prática publicitária corrente por uma firma particular significa uma perda de prestígio, na verdade uma infração da 69 disciplina que a clique dominante impõe aos seus. A publicidade também faz uso de imagens de determinadas pessoas como atores do cinema, das novelas, do futebol e apresentadores de programas televisivos. Por ocuparem um lugar de destaque, uma vez que são vistos diariamente por meio das novelas, seriados, campeonatos e filmes acabam por se tornarem modelos, foram feitos modelos e com isso adquirem grande apreço e admiração por parte das massas. O fato de se tornarem artistas televisivos que despertam a admiração das massas com a sua atuação faz com que sua imagem seja valiosamente utilizada pela publicidade numa simbiose entre celebridade e produto. Adorno e Horkheimer afirmam que tanto os produtos quanto as próprias 68 69 Ibid. p.134 Ibid. p.134 41 celebridades possuem origem previamente pensada pelo sistema da indústria cultural. Os talentos já pertencem a indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente. A atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sistema da indústria 70 cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. Artista, produto, massa e consumo, segundo os filósofos, já foram “criados” pela indústria. A manipulação total para o comércio no sistema capitalista visa apenas o lucro. O caráter necessário dos produtos apresentados pela publicidade se torna artificial ainda mais ao se ter um produto substituído anualmente por outro com tecnologia mais avançada e cheio de novas funções. A indústria cultural mantém esta característica de previamente lançar algo para o consumo, já sabendo os setores diversificados pelo qual a mesma imagem permeará e possibilitará o consumo de produtos. Acontece, assim, que Batmam, por exemplo, é hoje menos um personagem de ficção do que uma linha de produtos, que começa com as histórias em quadrinhos, desenhos animados, brinquedos e filmes, passa pelo uso de suas figuras em lanches rápidos, camisetas bolas e outros produtos de consumo, e desemboca nas matérias editoriais em jornais e revistas, reportagens ilustradas e músicas populares, além do próprio negócio da 71 publicidade. O cinema norte-americano desempenhou, por meio da imagem, uma forma de ampliar as margens ao qual o produto venha estar no mercado. Um exemplo é a imagem criada e utilizada dos super-heróis, itens como Superman, Spiderman, Hulk, etc. foi justamente após sua aparição no cinema que estes super-heróis da ficção adquiriram maior popularidade. Além de promover a imagem de pessoas ou desenhos animados a fim de levar ao consumo, a indústria cultural tem desempenhado também outro papel, a partir do cinema. Ao ofertar os filmes para o público, junto com eles vai uma alienação de difícil percepção. Esta alienação foi criada para manter o homem sob controle a fim de possibilitar que em nada daquilo que foi pensado pela indústria em 70 Ibid. p.101 RÜDIGER, Francisco. Theodor adorno e a crítica à industria cultural: Comunicação e teoria crítica da sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. p. 24 71 42 relação ao mercado aconteça de outra forma. Ela oferece entretenimento e lazer, e por isso, a indústria ocupa também o campo da diversão. A indústria cultural também se apresenta como a indústria da diversão. Entretanto, aquilo que a indústria apresenta para sorrir, para divertir é a vida de cada um daqueles que compõem as massas. A publicidade presente nos cinemas tem por finalidade levar ao consumo e a trama, quer manter o homem satisfeito com sua vida consumista, vida que se tornou hilarizada. O que a indústria pretende é mostrar ao homem de modo divertido, espetacular o que acontece em sua própria vida a fim de que se chegue à conclusão que as coisas são do modo que aparecem. Os espectadores acabam por se identificar com aquilo que estão vendo. Toda via, a indústria cultural permanece a indústria da diversão. Seu controle sobre os consumidores é mediado pela diversão, e não é por um mero decreto que esta acaba por se destruir, mas pela hostilidade inerente ao princípio da diversão por tudo aquilo que seja mais do que ela própria. [...]. A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se por de novo em condições de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre a sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação das mercadorias destinadas a diversão, que esta pessoa não pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo 72 de trabalho. Esta é a forma que a indústria encontrou para divertir o homem, tornando-o dependente e lhe dando de forma fictícia por meio da trama cinematográfica o que lhe é real, em outras palavras, oferece ao homem sua própria vida espezinhada sendo agora interpretada por ator profissional “super-homem” nas telas. Adorno e Horkheimer dizem que é “ A velha experiência do espectador de cinema, que percebe a rua como um prolongamento do filme que acabou de ver, porque este pretende ele próprio reproduzir rigorosamente o mundo da percepção quotidiana, tornou-se a norma da produção”73 Dentro deste sistema em que a vida é apresentada de modo hilariante não há alternativa para as massas senão a de aceitar o que lhe é dado. Aceitar, inconscientemente, é a única forma de resistir ao acabrunhamento sofrido, pois “ao processo de trabalho na fábrica e nos escritórios 72 73 ADORNO e HORKHEIMER, op. Cit., p.113 Ibid. 104 43 só se pode escapar adaptando-se a ele durante o ócio. Eis aí a doença incurável de toda diversão”.74 É o que afirma Adorno e Horkheimer. A necessidade de consumo dispensada às massas é algo tão importante no funcionamento e existência da indústria cultural que o produto deve atingir a função de ser parte da consciência do homem. “O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio, o produto prescreve toda a reação [...] toda ligação lógica que pressupunha um esforço intelectual é escrupulosamente evitada.”75 Esta é a conclusão de Adorno e Horkheimer ao apresentar a que grau de importância o produto lançado pela indústria cultural deve alcançar na consciência do homem e como o homem deve se portar. É deixando-se levar pelo movimento da indústria cultural que o homem tem desempenhado de modo incontrolável o consumo. Os produtos que visam trazer conforto ao homem como veículos mais potentes e confortáveis proporcionam ir e vir ao trabalho e ao passeio sem ter que dividir um ônibus lotado e por vezes precário; os utensílios domésticos práticos têm proporcionado, no caso da cozinha, a criação e preparo de pratos em tempo mais hábil à vida de pessoas que “correm” o dia inteiro; encontram-se vestuários variados que podem ajudar a levantar o ego e a autoestima; há disponíveis equipamentos eletroeletrônicos que têm mudado completamente a vida das pessoas, e dos governos, com tecnologias de ponta. São grandes as ofertas de móveis, imóveis e ferramentas diversas. Fazer uma viagem do Brasil à Europa de navio só se quiser reviver como eram as viagens antes da criação das aeronaves de vôos comerciais. Tudo isso é um pouco das vantagens que os produtos da indústria cultural tem feito o homem perceber. As massas se entregam a quem ou ao que for, contanto que possam gozar do direito de ter acesso aos produtos oferecidos pela indústria, elas estão contentes com aquilo que lhe é oferecido. [As pessoas] manifestam a tendência a se submeter a qualquer autoridade, seja qual for o seu conteúdo, desde que ela ofereça proteção, satisfação narcisista, vantagens materiais e a possibilidade de descarregar sobre os outros o sadismo, em que a desorientação inconsciente e o desespero 76 encontram uma cobertura. 74 Ibid. 113 Ibid. 113 76 Apud. RÜDIGER, Francisco. Theodor adorno e a crítica à industria cultural: Comunicação e teoria crítica da sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 288 p. 75 44 De modo geral, o homem tem dado resposta satisfatória à indústria cultural e sua produção. Porém não é o homem e seus objetos tudo o que existe, eles são apenas duas pequeníssimas partes de um universo imensurável. 45 Conclusão Em relação à explicação dada sobre o funcionamento da indústria cultural, se pode dizer que Adorno e Horkheimer foram bastante felizes nesta crítica, uma vez que é possível identificar em tudo, ainda hoje, a análise que estes filósofos publicaram em 1947, ano em que foi escrita a obra Dialética do esclarecimento. A crítica abordava questões importantes, como a alienação e as necessidades de consumo que a indústria cultural e não cultura de massa lança no homem. Tanto a alienação quanto as necessidades artificiais após serem produzidas, são difundidas pelos meios de comunicação presentes na vida de quase todas as pessoas. Após verem testemunharem o surgimento, ideologias e atuação da indústria cultural, analisaram com calma e teceram uma crítica sobre a mesma. Denunciaram o que representa o homem dentro deste sistema e o que este sistema faz com o homem. Entretanto, estes filósofos não puderam visualizar de modo tão claro como estão presentes hoje, uma década após iniciar o século XXI, as conseqüências negativas que o consumo desenfreado realizado pelas massas por manobra de manipulação da indústria cultural tem acarretado no planeta. A poluição é uma conseqüência negativa da atuação da indústria cultural na sociedade. O que se identifica nos dias de hoje em relação ao meio ambiente são índices alarmantes de poluição do planeta. Isto está ligado diretamente à indústria, pois ela transformando e fazendo uso do homem como um de seus produtos manipuláveis, desempenhou de modo bem concatenado a consciência da necessidade de consumo nos homens. Na perspectiva da indústria cultural a produção excessiva sempre encontra respaldo, ou seja, sempre encontra massas consumidoras. Ultimamente o grande consumo tem feito com que a indústria, objetivando a venda e maiores lucros, se utilize técnicas para fabricar produtos com má qualidade, sem muita resistência. Como o escopo é que as massas façam a aquisição de produtos, estes têm sua superação rápida. As massas são levadas pela indústria a consumir o que há de mais novo no mercado, aquilo que foi adquirido anteriormente acaba por se tornar lixo. O lixo por sua vez, se pode considerar que é um primeiro problema ambiental de poluição que está relacionado à indústria. Muitos produtos que hoje são lançamentos dentro de pouco tempo se tornam superados em desuso, 46 se transformam em lixo. Com poucos lugares e condições próprias para serem depositados produtos, como celulares que utilizam baterias com os metais pesados níquel-cádmil, unido à outra infinidade de produtos descartáveis, acabam por serem depositados em locais impróprios como campos a céu aberto, rios, matas e até mesmo no mar. Mas a poluição abriga mais elementos que tem contribuído para a baixa qualidade ambiental da vida do homem no século XXI. Outro problema da poluição relacionado à indústria cultural é a poluição industrial que vai desde os resíduos líquidos que são lançados diretamente em rios sem serem submetidos a tratamentos específicos, até a enorme quantidade de gases que são lançados na atmosfera por milhares de fábricas localizadas pelo mundo todo durante a produção dos diversos objetos. A poluição também tem ocorrido por meio da emissão de dióxido de carbono CO2 emitido pelos veículos automotivos. O principal objetivo do automóvel é a locomoção. O veículo automotivo vem em tempos atuais nos centros urbanos, em substituição ao uso do animal, do cavalo, como meio de transporte. Assim, presente nas grandes cidades o carro tem se tornado um problema uma vez que as metrópoles não conseguem se adaptar ao crescente número de veículos em circulação. O que se identifica com isso é uma grande queima de combustíveis e muitos congestionamentos. Os veículos inventados para facilitarem a locomoção acabaram por se tornar um problema de locomoção em alguns casos. A poluição também tem trazido outras conseqüências sérias como o aquecimento global, onde a temperatura natural da terra sofre alteração por causa do efeito estufa, este efeito é gerado pelo acúmulo de gases poluentes não absorvidos na atmosfera. Também tem contribuído para o aumento do buraco na camada de ozônio o que faz com que maior quantidade de raios ultravioleta (UVB) passem diretamente sem serem filtrados pela camada protetora de gás ozônio que envolve o planeta. Deste modo, as manobras da indústria de alienar o homem a fim de conseguir mantê-lo num contínuo e desmedido consumo, tem levado a uma destruição acelerada do planeta. Porém, o homem sujeito pensante tem a possibilidade de perceber, não pela indústria, que é necessário um consumo que possibilite manter o planeta limpo, com sua capacidade de renovação respeitada, um planeta com toda a sua natureza bem cuidada. O grande desafio é fazer que os mantenedores da indústria cultural aceitem que esta ideologia do supérfluo, do descartável, do consumir exacerbado não tem 47 combinado com a existência do homem e da Terra. Explorar os recursos naturais do planeta extrapolando seus limites a ponto de destruí-lo com a justificativa de proporcionar melhor qualidade de vida para o homem é uma genuína contradição. 48 Referências Bibliográficas ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revisada: Alfredo Bosi. Martins fontes. São Paulo, 2007 ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar. 3. ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro: 1995. 190 p. ___________. Teoria estética. Trad. 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