Universidade do Vale do Paraíba
Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento
Laetitia Maria Maia Castilho
Orientação Profissional: uma prática preventiva de
estresse e promotora de saúde
São José dos Campos – SP
2006
Laetitia Maria Maia Castilho
“Orientação Profissional: uma prática preventiva de estresse e
promotora de saúde”
Dissertação
Programa
de
de
Mestrado
apresentada
Pós-Graduação
em
ao
Ciências
Biológicas como complementação dos créditos
necessários à obtenção do Título de Mestre em
Ciências Biológicas.
Orientadora: Profa. Dra. Viviane Santalucia Maximino
São José dos Campos – SP
2006
Dedico este trabalho:
Aos jovens que procuram se conscientizar, através do POP – Programa de
Orientação Profissional, a respeito do grande esforço que o próprio sistema sóciopolítico-econômico se encarrega de fazer para alienar as pessoas e torná- las quase tão
somente objetos de consumo.
Agradecimentos
A Deus, pelos momentos de ansiedade e de uma angústia produtiva que
sempre me impulsionam para a realização do meu trabalho.
À minha orientadora Profa. Dra Viviane Santalúcia Maximino, que sempre
me conferiu total liberdade para desenvolver minhas idéias, ajudando- me a torná- las
viáveis.
À Profa. Dra Marilu Diez Lisboa e à Profa. Dra Dulce Helena Penna Soares
(UFSC), pelas referências valiosas e inesquecíveis do Curso de Formação em
Orientação Profissional - A Facilitação da Escolha.
À Profa. Dra Maria Tereza Dejuste de Paula, por ter- me dado o prazer de
participar desta banca.
À minha família, pelo amor e pelos incalculáveis esforços para
proporcionar-me tudo que sou e tudo que tenho hoje.
Aos psicanalistas: Maria Alzira Galvão Nunes e Carlos Genaro Gauto
Hernandez, co-construtores do meu crescimento pessoal e profissional.
E a todos que contribuíram decisivamente para que este trabalho se
concretizasse: Profa. de inglês Eugênia Luiza Gonzaga de Azevedo Alves Cardoso,
Rosângela Regis Cavalcanti (coordenadora das Bibliotecas da Univap), Rúbia G.
Gomes (bibliotecária de Sistemas da Univap), D. Ivone Paranaíba Vilela Monteiro e
Valéria Maeda da Silva (secretárias do IP & D) e aos professores do curso de
mestrado em Ciências Biológicas da Universidade do Vale do Paraíba, meu mais
profundo muito obrigada.
[ ...] um homem se humilha
se castram seus sonhos
seu sonho é sua vida
sua vida é o trabalho
e sem o seu trabalho
um homem não tem honra
e sem a sua honra
se morre, se mata
não dá para ser feliz,
não dá para ser feliz.
Gonzaga Júnior
Orientação Profissional: uma prática preventiva de estresse e promotora de
saúde
Resumo
Este trabalho aborda o estresse vivido pelos jovens com relação à escolha
profissional. Esta escolha, geralmente, ocorre ao término do ensino médio, porém,
nem sempre coincide com a maturidade necessária para tal. Por isto, a
obrigatoriedade desta escolha, o desconhecimento do mundo do trabalho, das
profissões e de si mesmo, as expectativas familiares, o desejo de sucesso econômico
e as incertezas do mercado de trabalho, que exige pessoas psicologicamente muito
bem estruturadas, são algumas das pressões a que os jovens de hoje estão
submetidos. Este jovem sofre com seu sentimento de competência sempre posto a
prova, pois, as informações que acumulou não são suficientes neste momento que
exige maturidade. Descobrir os interesses e as aptidões, conhecer-se melhor,
aprender a selecionar criticamente as informações, procurar uma boa formação
acadêmica, ter um plano de carreira bem traçado e preparar-se para exercer diferentes
funções com bom desempenho, são tarefas importantes que fazem parte da
elaboração e da construção de um projeto de vida que deve começar já na
adolescência. Porém, o jovem ainda não tem maturidade para enxergar os ganhos do
seu crescimento, pelo contrário, ele só percebe o mundo adulto pautado por
superexigências e perdas. Portanto, o momento da escolha profissional pode se
caracterizar como um processo ansiogênico, que acarreta estresse e a Orientação
Profissional tem sido apontada como uma estratégia útil neste momento de decisão,
promovendo a reflexão e a análise dos diversos fatores que influenciam esta escolha.
O ISSL - Inventário de Sintomas de Stress de Lipp foi o instrumento utilizado nesta
pesquisa para averiguarmos a existência da sintomatologia do estresse em 78 jovens
nesta situação, avaliando o tipo de sintoma existente (se somático ou psicológico) e a
fase de estresse em que se encontram. Foi possível também compararmos os jovens
que fizeram orientação profissional e os jovens que não passaram por este processo.
Os resultados indicam que há diferenças estatisticamente significativas de nível de
estresse entre os dois grupos, indicando que a Orientação Profissional pode ser
preventiva de estresse e promotora de saúde.
Palavras–chave: Escolha Profissional, Estresse, Pressões, Juventude, Orientação
Profissional.
Professional Advisory: A Practice for preventing stress and promoting health
Abstract
This piece of work is about the stress young adults are suffering due to their
professional choice. This choice usually needs to be made at the end of high school,
but this period does not always correspond to the young’s necessary maturity.
Consequently, this mandatory choice, lack of knowledge about the world, about the
professions, about themselves, the family’s expectancy, the desire for economical
success and the uncertainties about the work market, which requires well
psychologically structured people, are some of the pressures these young adults are
under. They don’t feel comfortable with their competence being tested all the time,
once the information, they gathered for a lifetime, is not enough when their maturity
is demanded. Trying to find out their own interests, get to know themselves better,
learn how to critically select information, look for good education, have a well
defined career plan and get prepared to work in different positions are very important
tasks. These tasks are supposed to be part of a life project preparation, which must
start in the adolescence stage. However, the young aren’t mature enough to see how
much they can get with their growth. Instead, they just see the adults´ world
determined by lots of demands. Because of this, the period they have to make a
professional choice may be defined as an anxiety one, causing too much stress. The
Professional Advisory has been pointed out as a very helpful strategy in this decision
time, promoting reflection and analysis of the factors which influence this choice.
ISSL - Lipp Stress Symptoms Inventory – was the instrument used in this study,
carried out with 78 young adults in this situation, to check whether there is a stress
symptomalogy, assessing the kind of the existing symptom (whether it is somatic or
psychosomatic) and the stress stage in which the young adults are. It was also
possible to compare young adults who were taking professional advisory to those
who were not. Results show that there are statistically significant differences
between the two groups, indicating that Professional Advisory may prevent stress
and promote health.
Key-words: Professional Choice, Stress, Pressures, Youth, Professional Advisory.
Lista de Abreviaturas e Siglas
POP – Programa de Orientação Profissional
EM – Ensino Médio
OP – Orientação Profissional
ISSL – Inventário de Sintomas de Stress de Lipp
Sumário
1.
Introdução e Justificativas
13
1.1
O Estresse da Escolha Profissional
17
1.2
Estatísticas sobre a Evasão no Ensino Superior
24
1.3
O Contexto atual das dificuldades que o jovem apresenta de escolher
uma profissão: a Pós-Modernidade
26
2.
Adolescência e Escolha
28
2.1
A Síndrome de Peter Pan
28
2.2
As Expectativas Familiares
32
2.3
O Estresse do Vestibular
44
2.4
A Falta de Informação dos jovens sobre as Profissões e o
Mundo do Trabalho
52
2.5
A Adolescência, seus Lutos e os Lutos da Escolha Profissional
57
3.
Conceitos gerais sobre o “Stress” ou “Estresse”
64
3.1
Estressores
68
3.2
Sintomas e Fases do Estresse
69
3.3
Conseqüências Físicas do Estresse
73
3.4
Conseqüências Psicológicas do Estresse
74
3.5
Conseqüências Sociais do Estresse
74
3.6
Tipos de Estresse
75
3.6.1 O Estresse Ocupacional
75
3.6.2 O Estresse Familiar
78
3.6.3 O Estresse Social
79
4.
80
No que consiste a Orientação Profissional?
5.
Metodologia
84
6. Resultados
86
6.1 Resultados do grupo total de alunos
86
6.2 Comparação dos alunos considerando as diversas variáveis
86
6.3 Resultados referentes às questões abertas
91
7.
94
Discussão dos Resultados
8. Considerações Finais
100
Referências Bibliográficas
104
Anexos
108
13
1. Introdução e Justificativa
Este trabalho aborda o estresse vivido pelos jovens com relação à escolha
profissional, pois, os mesmos são obrigados a escolherem uma profissão
prematuramente, ou seja, aos dezessete ou dezoito anos, o que pode acarretar sérias
conseqüências para o futuro profissional como desistência do curso escolhido, prática
profissional diferente do diploma alcançado, insatisfação profissional, etc.
Segundo Lehman, mesmo nas universidades federais, cujos vestibulares são
muito disputados, a taxa de evasão chega a 40% dos matriculados. Esta mesma
autora nos diz que há uma legião de estudantes desorientados que abandonam o
ensino superior sem conhecerem seus verdadeiros talentos, suas vocações, em função
da imaturidade que acompanha a obrigatoriedade desta escolha.
Uma das características da adolescência é a imaturidade, diz Lehman, isto
é, existe uma vontade constante de experimentar coisas e pouca disposição para
assumir responsabilidades. Mas a escolha de uma profissão não combina com
imaturidade, pelo contrário, a escolha profissional é um ato de coragem (BOCK,
2002) e de maturidade (LEHMAN, 2005).
Para piorar esta situação, a todo momento novos cursos superiores são
oferecidos aos jovens e pode-se dizer também que as práticas educativas vigentes na
família e no sistema de ensino não os preparam para tomarem decisões, nem os
exercitam para examinarem os valores, as necessidades e os interesses que os
caracterizam individualmente. Elas também não oportunizam uma exploração
sistemática e reflexiva do mundo do trabalho e os jovens de hoje acabam fazendo
escolhas imediatistas devido à carência de um projeto de vida que fica baseado
apenas em suas fantasias e em um baixo senso da realidade, o que revela um
comportamento exploratório consideravelmente pobre.
Estes são alguns motivos que nos levam a dizer que a escolha profissional é
um processo ansiogênico que acarreta estresse e foi assim que este estudo começou
cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a prática da Orientação Profissional como
preventiva de estresse e promotora de saúde.
A estrutura deste trabalho ocorre da seguinte forma: primeiramente
queremos mostrar que estamos diante da era das incertezas (a pós- modernidade) e
14
vive-se a emergência de novos paradigmas: - valoriza-se o consumo, o prazer
imediato, o corpo, a individualidade, a informação e a mídia, o conforto tecnológico,
etc. Em seguida, percebemos que os jovens de hoje, de modo geral, têm conflitos
mais intensos do que em épocas anteriores, pois, eles estão sem referências para a
urgência que se faz, nesta fase, de um projeto de vida.
Segundo Levenfus (2002), os jovens de hoje cresceram plugados no mundo
globalizado. É a geração Zapping, isto é, jovens que têm acesso a informações jamais
obtidas em outras épocas, mas que não se aprofundam em nada. Simplesmente
zapeam as informações, as fontes de entretenimento, os parceiros, etc, sem deteremse em praticamente nada. Percebe-se também que se cansam facilmente, por
exemplo, se um canal de TV está ficando chato, eles vão zapeando enquanto
conversam ao telefone e enquanto ouvem suas músicas preferidas.
Ainda Levenfus nos diz que esta é a geração do entretenimento, jovens que
adoram o conforto tecnológico proporcionado pelos pais e consumir é a atividade
que mais gostam. Abdicaram de projetos coletivos, não apresentam a menor intenção
em romper com o sistema e desejam o sucesso econômico sem a menor culpa.
Estas atitudes podem gerar muitas angústias para o jovem do século XXI,
diz Levenfus (2002), porque junto ao sucesso financeiro almejado está implícito o
desejo de ser bem colocado profissionalmente no mercado de trabalho. Ora, sabe-se
que no mundo de hoje o conceito de “emprego” está desaparecendo, mas muitos
jovens ainda não perceberam isto e desejam uma profissão com garantia s de
estabilidade e boas perspectivas de futuro.
Observamos, então, que os jovens de hoje, de modo geral, são muito
imaturos e acomodados, pois, estão crescendo numa sociedade com modelos muito
permissivos, onde tudo pode, tudo é permitido e os pais não conseguem mais ficar no
papel daqueles que frustram, daqueles que estabelecem limites. Percebe-se que os
jovens de hoje namoram no quarto da (o) namorada (o), ficam, se beijam e se
abraçam com a maior liberdade em suas próprias casas, pois, a atual geração de pais
lhes permite um tipo de vida fácil, o que faz com que os jovens dos tempos atuais
não tenham pressa em crescer.
Para quê crescer (e assumir responsabilidades) se em casa tem tudo: liberdade, privacidade, conforto e até respeito?
15
Alguns pais já demonstram preocupação com isto e dizem: - com tantas
facilidades, será que os nossos filhos não estariam se tornando cada vez mais infantis
e sem objetivos na vida?
E assim, observamos que os jovens pós-modernos não conseguem
desenvolver a habilidade necessária para o investimento no futuro. Aprendem a viver
apenas em função do momento presente, numa espécie de presentificação do
momento e em função de alimentar suas próprias vaidades, tendo como ideal apenas
o culto à imagem e ao prazer imediato. Também aprendem a descartar as pessoas
com facilidade (ninguém é confiável) e correm o risco de se tornarem adultos
imaturos, que não sabem enfrentar as frustrações da vida, pois, rejeitam tudo que é
“custoso” de fazer, tudo que é demorado, tudo que dê trabalho ou que seja
ameaçador.
Enfim, a idéia inicial deste estudo é mostrar que os jovens de hoje estão
cada vez mais imaturos e sem referências para um verdadeiro projeto de vida, pois,
recebem a todo momento as influências de uma sociedade imediatista, ut ilitarista e
pragmática.
Isto nos leva a dizer que os jovens fazem escolhas profissionais também
imediatistas, apoiando-se em elementos pouco consistentes para estas escolhas como
informações distorcidas e idealizadas sobre as profissões pelas quais demonstram
interesse, além de desarticuladas do próprio perfil, o que ocasiona a evasão no ensino
superior.
Uma das pesquisadoras deste assunto, Lisboa (apud MELO-SILVA et al,
2003) nos diz que os jovens de hoje mostram-se mais ligados à retribuição financeira
da profissão do que a algum ideal ou ao desejo de contribuir socialmente, quer dizer,
se tiverem que escolher entre a profissão dos sonhos e uma outra que lhes ofereça
maiores chances de sucesso financeiro, eles escolhem a segunda opção. Vê-se que o
retorno financeiro para o jovem pós- moderno é mais importante do que trabalhar
naquilo que se gosta, fazendo o que se gosta.
E assim, então, podemos citar Aberastury e Knobel (1981): - a sociedade
projeta suas próprias falhas nos assim chamados excessos da juve ntude,
responsabilizando-os por vários problemas, como por exemplo, a delinqüência e as
16
drogas. E o adolescente, por sua vez, apresenta uma vulnerabilidade especial para
assumir os aspectos mais doentios do meio em que vive.
Queremos dizer, então, que nas circunstâncias atuais os jovens assumem o
individualismo competitivo e o imediatismo existentes na nossa sociedade e nos
sinalizam isto dando prioridade ao aspecto econômico da profissão que almejam.
Consequentemente, encontram mais dificuldades para elaborarem um projeto de
vida, pois, pensando desta forma não têm como distinguir as suas possibilidades, o
seu potencial e os seus limites.
Pode-se dizer, então, que o processo de escolha de uma profissão, no
mundo atual, é mais complexo, configurando-se como estressor e prejudicando a
capacidade de adaptação e qualidade de vida dos jovens, os quais ainda suportam
várias cobranças (pessoais, familiares e sociais) para um excelente desempenho nos
estudos e se submetem a diversos tipos de provas para o ingresso nas universidades.
Ressaltamos que, tantas pressões, associadas aos sentimentos de solidão e
de insegurança característicos da adolescência, geram um estado de ansiedade que
pode resultar em pânico, distress (ou estresse negativo) e sentimentos de
incompetência.
Por isto, tentando avaliar se os jovens de hoje apresentam sintomas de
estresse e se a Orientação Profissional pode ter algum efeito neste momento de
angústia e de indecisão, fizemos uma pesquisa e utilizamos o ISSL - Inventário de
Sintomas de Stress para pessoas acima de quinze anos, de Marilda Novaes Lipp.
Setenta e oito jovens do Ensino Médio de uma escola particular do
município de São José dos Campos, SP, responderam ao questionário (em anexo) e,
além dele, a duas perguntas abertas a respeito do processo de escolha profissional.
Devemos mencionar que esta pesquisa realizou-se num colégio tradicional
de São José dos Campos, SP, o qual sempre ofereceu formação integral a seus
alunos, ou seja, a equipe pedagógica e os professores deste colégio não apenas se
preocupam com o desenvolvimento do aspecto cognitivo dos seus alunos como
também com o desenvolvimento do aspecto emocional e espiritual.
Considerando a Orientação Profissional um campo de prevenção em saúde
mental, acreditamos que devemos ajudar nossos jovens a compreenderem o mundo
17
contemporâneo de maneira crítica e consciente. Apenas desta maneira farão escolhas
autônomas e amadurecidas.
Uma outra pesquisadora deste assunto, Levenfus (2002) nos diz que para
quem trabalha com o jovem do mundo pós- moderno este é o desafio: - ajudá- lo a
manter-se psicologicamente saudável a fim de que se desenvolva com autonomia e
criticidade num mundo cada vez mais incerto e sem fronteiras exatas entre o real e o
virtual.
Esta autora aponta a Orientação Profissional como um atendimento
profilático em saúde mental e nos mostra que o jovem emocionalmente são pode
apropriar-se de suas escolhas, e realizar-se, ainda que perante uma estrutura social
por vezes alienante.
1.1 O estresse da escolha profissional
Na terceira série do ensino médio, ou ainda na segunda, e no auge da
adolescência, os jovens já precisam decidir o seu futuro. Alguns até já decidiram,
mas a maioria não tem idéia do que fazer e busca em pessoas próximas tais como o
pai, que é um advogado bem sucedido ou no amigo que está fazendo engenharia,
uma identificação.
Segundo Soares (1997), a elaboração do projeto profissional do jovem
repousa no ideal de ego, isto é, na possibilidade de construir uma imagem ideal de si
mesmo como adulto no trabalho. Esta imagem vai servir de referência, de objetivo a
ser alcançado.
Soares ainda nos diz que uma das origens do ideal de ego é a idealização
dos pais. A criança se identifica aos pais idealizados e esta idealização fará parte da
constituição do ideal de ego.
Mediante o exposto, devemos nos perguntar se as famílias, de modo geral,
estão oferecendo modelos adequados de identificação ao jovem.
Sabe-se que o papel da família é significativo na formação da identidade
pessoal e vocacional/profissional dos jovens, uma vez que os pais vão servir de
modelo (LISBOA, 1997).
18
Porém, observa-se que os pais, de modo geral, estão cada vez mais
temerosos e perdidos no que diz respeito à educação dos filhos, sendo que eles
podem tanto facilitar como dificultar o modelo a ser adquirido pelos próprios filhos.
Há pais que conseguem ser compreensivos sem sair do papel de
frustradores, quer dizer, daqueles que estabelecem limites. Há outros que atrapalham
o processo de independentização dos filhos, conservando-os na dependênc ia deles.
Também podemos perceber que muitos jovens se acomodam a tais
situações (de dependência), pois, acabam encontrando vantagens nisto.
E assim, muitos psicólogos afirmam que o prazo de validade da
adolescência envelheceu, alargando-se até os trinta anos. Este período é conhecido
como “adultescência”.
Em outras palavras, queremos dizer que o jovem de hoje está cada vez mais
dependente de seus pais, infantil, apático e sem projetos, indo em busca de cursos
superiores pertencentes às áreas socialmente mais prestigiadas pela sociedade, sem
uma verdadeira conscientização do mundo do trabalho e do seu próprio potencial.
Observa-se que o jovem da pós- modernidade está sem referências, pois, cresceu num
mundo às avessas, sem respostas, sem ideais, mas com a percepção de que poderia
ter tudo.
Ocorre que os pais, no afã de não repetirem os erros das gerações passadas,
trocaram a figura de autoridade que possuíam, pela figura de “amigos” dos filhos,
não conseguindo mais estabelecer limites.
Ora, para estabelecer limites, os pais precisam ficar numa posição muito
incômoda e difícil: - precisam permanecer no papel daqueles que frustram.
Porém, com os vínculos fraternizados, o jovem não tem mais com quem
competir e/ou que lhe sirva de modelo, passando a estabelecer uma luta narcisista
com os pais, onde os mesmos fantasiam moldar os filhos à sua própria imagem, com
o objetivo de negar o tempo que passa. Assim, por ocasião da escolha profissional, a
“modelagem” pode aparecer como interferência direta (OLIVEIRA ; DIAS, 2001).
Ainda segundo a mesma fonte, a perda de autoridade da figura paterna é
responsável pela falência dos processos de educação e inversão dos ideais. Percebe-
19
se que o jovem de hoje não respeita o espaço dos outros e ainda pensa que o mundo
gira em torno de si1 .
Segundo Oliveira Neto (2005), tendo crescido em uma sociedade sem
regras e sem modelos, o jovem da pós-modernidade apresenta um superego frágil e
pouco resistente à frustração, o que lhe dificulta o investimento nas pessoas, mas
facilita- lhe o investimento maciço em si mesmo, em seu novo corpo e em suas novas
possibilidades.
Chamando- nos mais ainda a atenção, Lisboa (1998) vem nos dizer que o
jovem de hoje, de modo geral, se volta cada vez mais para sua individualidade,
possuindo pouca consciê ncia social, ou seja, ele não é capaz de relacionar um futuro
trabalho com o processo de construção de uma sociedade melhor e mais humana. É
como se conhecesse apenas a lógica do “pensar só em mim”.
Mello (2003), ao concordar com Lisboa acrescenta que, no decorrer da
nossa vida, um enorme sentimento de vazio pode ser vivenciado como resultante
desta falta de consciência social, o que poderá se transformar em um fator de estresse
que irá intervir em nossa saúde.
Ainda segundo esta autora, o jovem de hoje não é capaz de relacionar o
mundo do trabalho com as circunstâncias sócio-econômicas vigentes na nossa
sociedade, é como se a realidade social não tivesse nada a ver com o momento da sua
escolha profissional. Tampouco percebe que os valores que norteiam sua escolha
profissional resultam de aspectos sócio-políticos que caracterizam o sistema
capitalista do qual faz parte, expressos na expectativa familiar, escolar e de seu grupo
de amigos.
Afirmamos, portanto, que os jovens de hoje vivem as incertezas e as
inquietações frente ao futuro, sufocados por uma cultura cujos valores circulam em
torno de dinheiro, poder, prazer fácil e imediato, sucesso, status, etc.
Percebe-se, no contato diário com esta população, que estes valores são
cultuados com freqüência, transformando-se em códigos culturais, não havendo uma
distinção entre eles e a ética, a persistência, os afetos e as relações pessoais.
1
Cabe pontuar que estamos falando da maioria dos jovens, não de todos, pois, sabe-se que alguns
deles se encontram trabalhando em prol de diversos grupos comunitários, preocupados com a
conscientização das pessoas e com a transformação da nossa sociedade.
20
Em vista do exposto, acredita-se que com a inversão de valores da
sociedade atual, sem um pai para servir de modelo, as identificações não ocorrem de
forma satisfatória e o jovem de hoje não busca o que se poderia ser com uma
profissão, estando mais preocupado com aparência, status, salários e aquisições
materiais e não com o desenvolvimento dos seus ideais, uma vez que esta capacidade
fundamenta-se na identificação com os pais (OLIVEIRA; DIAS, 2001).
Em outras palavras, os filhos são os discípulos de seus pais, é com eles que
vão aprender e, para que este aprendizado ocorra, eles precisam admirá- los, seguir
seus exemplos, identificar-se com eles.
Se um jovem não puder admirar seus pais, como conseguirá identificar-se
com eles? Daí a necessidade de procurar outros modelos identificatórios de pessoas
que possam ser admiradas. Pais que se respeitam não precisam exigir respeito dos
filhos, pois, são modelos para eles. Por isto, valores como respeito, educação,
disciplina, etc, não se impõe, ensina-se pelo modelo, requerendo tempo, paciência,
confiança e coerência.
Coerência, sim, porque os jovens se queixam de que os adultos falam uma
coisa e mostram outra, por exemplo, no trabalho de Orientação Profissional, alguns
jovens chegam a dizer que seus pais não ligam para dinheiro, dando- lhes a entender
que a escolha da profissão não deve se guiar por este aspecto, mas reforçam, o tempo
todo, que a cultura atual recompensa empreendimentos tipicamente calcados em
valores narcísicos de sucesso financeiro, poder e competitividade (LEMOS, 2001).
Esta autora nos diz que os jovens de hoje aderem ao modelo narcísico de
trabalho baseado na image m, na auto-promoção e no acúmulo de bens materiais. Isto
se explica pelo fato de se encontrarem em uma sociedade capitalista, cujos desejos de
consumo são satisfeitos rapidamente e constante é a busca pelo prazer.
Sabe-se que estes modelos oferecem uma falsa liberdade e não possibilitam
a expressão do desejo, levando o jovem a se reconhecer como pessoa importante
apenas pelas coisas que possui e pela imagem que transmite.
Isto atrapalha,
consideravelmente, a qualidade das relações entre as pessoas em geral.
Por isto, neste estudo, perguntamos se a família dos tempos atuais, ou se os
adultos, de modo geral, estão oferecendo condições adequadas de reflexão sobre o
21
projeto de vida que os jovens devem ter, pois, observamos que a cada ano que passa
as dificuldades para encontrarem um papel profissional aumentam.
Pode-se dizer que está cada vez mais difícil para o jovem do século XXI
elaborar os lutos normais da adolescência, que são os lutos pelo corpo infantil
perdido, pelo papel e pela identidade infantis e pelos pais da infância, que o obrigam
a uma renúncia da dependência e a uma aceitação de responsabilidades que muitas
vezes desconhece (ABERASTURY, 1981).
Segundo Aberastury (1981), esta é a Síndrome Normal da Adolescência,
que é um produto da própria situação evolutiva do jovem, surgindo da interação do
mesmo com o meio. É um processo normal e necessário para que o jovem conquiste
seu objetivo principal, que é encontrar a sua identidade.
Tais lutos são considerados uma verdadeira invasão à personalidade do
jovem, ou ainda podem ser considerados como perdas de personalidade, que vão
caracterizar toda a instabilidade e o desequilíbrio do adolescente normal.
Sabe-se que o conceito de normalidade varia com relação ao meio sócioeconômico, político e cultural, porém, constata-se esta síndrome em diferentes
culturas, só que ela pode exteriorizar-se de maneiras diferentes, dependendo do tipo
de cultura (ABERASTURY, 1981). O jovem tenta reter persistentemente os pais da
infância na sua personalidade, o que equivale estar sempre buscando o refúgio e a
proteção que eles significam, situação esta que se complica pela própria atitude dos
pais, que também têm que aceitar o seu envelhecimento e o fato de que seus filhos já
não são mais crianças, mas adultos, ou estão em vias de sê- lo.
No mundo atual, percebemos, então, que a dificuldade para a elaboração
destes lutos é maior e pode ser observada no trabalho de Orientação Profissional
através do “não gostar de nada”, ou então através do “gostar de qualquer coisa”, sem
muitos compromissos (“se eu não gostar eu saio”), isto é, sem vínculos
significativos, conforme nos diz Oliveira e Dias (2001).
Por isto, os jovens inscrevem-se em várias instituições de Ensino Superior,
mas estas escolhas não têm relação umas com as outras e a qualquer momento eles
podem desistir da escolha realizada precipitadamente.
Dá para ficar zapeando vagas na universidade ? É o que Levenfus (2002)
nos sinaliza.
22
Segundo Oliveira e Dias (2001), tal diversidade de caminhos pode indicar
uma incapacidade de elaborar um projeto de vida.
Entende-se, neste estudo, que os jovens de hoje poderiam construir um
projeto de vida coerente se tivessem um maior preparo emocional e vivências
acumuladas.
Mas a hora da escolha profissional é determinada socioculturalmente e,
para completar esta angústia, conforme já dissemos, a cada ano, surgem novas
profissões. Sabe-se também que a cada ano meio milhão de jovens conseguem o
diploma nas universidades brasileiras e muitos deles chegam à depressão por conta
do monstro psicológico chamado “mercado de trabalho”.
Portanto, a pressão vem de todos os lados. Segundo Levenfus (2002), o
jovem de hoje sofre com seu sentimento de competência sempre posto a prova, uma
vez que arrebatar uma das pouquíssimas vagas disponíveis nas universidades
públicas pouco tem a ver com competência. Quem conclui o Ensino Médio tem (ou
deveria ter) competência para ingressar direto no Ensino Superior. Mas, além de não
ser culpa dos jovens a falta de vagas no Ensino Superior, eles estão completamente
sozinhos diante deste terrível dilema que é a escolha de uma profissão de que gostem
e que, ao mesmo tempo, lhes traga realização financeira, status, prazer, mercado de
trabalho promissor e que ainda corresponda às expectativas dos pais.
Por isto, o estresse de quem está escolhendo uma profissão, nos dias de
hoje, é grande e até já ganhou nome de síndrome.
“Burnout” é uma expressão em inglês que significa consumir-se, queimarse por completo, gastar-se, entrar em curto-circuito, decepcionar-se, etc.
Esta expressão passou a ser usada em nosso dia-a-dia para caracterizar o
estado de esgotamento emocional de quem lida com as dificuldades do trabalho
(HARNIK, 2005).
Para Codo e Vasques-Menezes (1999), “burnout” consiste na síndrome da
desistência, pois, o sujeito, nesta situação, encontra-se frustrado, deixando de investir
em determinada causa ou relacionamento que não correspondeu às expectativas.
Aparentemente, o sujeito com esta síndrome apresenta falta de energia, isto é,
qualquer esforço para tentar reverter a situação parece- lhe inútil.
23
Segundo Lehman (2005), os jovens de hoje se “queimam” cada vez mais
cedo, quer dizer, desistem, cada vez mais cedo, de suas metas e de seus objetivos,
porque estão sobrecarregados de pressões. A mídia é uma delas. Tudo é imposto pela
mídia: a moda, valores, conceitos, profissões de destaque, sexualidade, etc.
E o jovem está mais sujeito a esta influência, pois, na adolescência, a
relação com os pais não oferece respostas satisfatórias, é como se houvesse um
vazio, fazendo com que o jovem busque seguir outros modelos (ABERASTURY;
KNOBEL, 1981).
Em vista do exposto, o jovem de hoje passou a encontrar na mídia
(personagens de novelas e de filmes) as referências que lhe faltavam no mundo pósmoderno (OLIVEIRA NETO, 2005).
Queremos ressaltar que a escolha de um papel profissional é um fator de
estresse ainda mais para quem tem que escolher uma profissão aos dezessete anos.
Todas as teorias psicológicas mostram que o garoto (a) de dezessete anos está no
auge de sua explosão hormo nal, social e psíquica. Como exigir que ele (a) ainda
tenha energia para interessar-se por uma profissão e ao final escolhê- la?
O trabalho de Orientação Profissional tem como um dos seus objetivos
tornar a escolha profissional urgente para um jovem que, na verdade, ainda não
apresenta esta demanda (OLIVEIRA NETO, 2005).
Outras pressões do mundo contemporâneo a que os jovens estão mais
expostos são as dificuldades econômicas dos pais e a necessidade de fazer cursos
mais rápidos ou mais fáceis a fim de se começar a trabalhar mais depressa, ajudandoos financeiramente. Vale também lembrar dos preconceitos dos pais e da sociedade,
de modo geral, em relação a algumas profissões, e ainda da valorização excessiva de
outras, além das limitações físicas ou psicológicas que os jovens podem ter, como as
dificuldades no vestibular.
Porém, a maior pressão vem mesmo das expectativas familiares.
Segundo Soares (2002) existe sempre uma relação entre a escolha do jovem
e as expectativas familiares, que podem ser conscientes ou inconscientes, quer dizer,
relativas a desejos não realizados que os pais encarregam os filhos de realizarem nos
seus lugares. O filho torna-se, então, depositário das aspirações mais profundas que
24
os pais não conseguiram realizar, assumindo o papel de delegado ou responsável por
realizar uma profissão no lugar deles.
Portanto, a elaboração do projeto profissional dos jovens vai estar
fortemente submetida à influência exercida pela família.
Observa-se que uma das expressões mais pungentes sobre as dificuldades
que envolvem estas questões está nos altos índices de evasão escolar.
1.2 Estatísticas sobre a Evasão no Ensino Superior
A Universidade de São Paulo fez uma pesquisa sobre as causas da evasão
no Ensino Superior e constatou que metade dos estudantes que desistiram
da graduação tiveram problemas no momento da escolha (HARNIK, 2005).
POR QUE OS ALUNOS DESISTEM DOS CURSOS
Motivos da desistência
0,9 %
DESADAPTAÇÃO À CIDADE
30,7%
CURSO
-Decep ção das Disciplinas
-Universidades ou ambiente universitário
-Decepção com os Professores
-Motivos Vagos
-Fracassos em acompanhar disciplinas
44,5%
10,5%
PROCESSO DE ESCOLHA DO CURSO
Pessoais
-Influência dos pais,parentes e amigos
-Fracasso na primeira opção
-Influência do trabalho ou curso técnico
-Escolher curso de f ácil acesso
-Dificuldades financeiras
-Problemas de relacionamento e
emocionais
-Problemas de relacionamento com
colegas ou professores
13,4%
Profissão e Mercado
-Decepção com as atividades Profissionais
-Mercado de Trabalho
-Retorno Financeiro
-Não possui perfil da área
-Responsabilidade
-Desconhecimento da área
(Fonte: Levantamento de LEHMAN com 180 pacientes do serviço de Orientação
Profissional do Instituto de Psicologia da USP, de 1996 a 2002)
25
Para Lehman (2005), quando a desistência acontece no início do curso, está
relacionada diretamente à escolha. Também podem aparecer outros motivos para o
abandono da graduação logo no seu início, como a dificuldade de se adaptar às
exigências e aos professores e à mudança do ensino médio para o superior.
Mas quando a desistência ocorre por volta da metade do curso, a angústia é
maior, diz Lehman, porque já houve envolvimento com o curso, embora os jovens
estejam buscando ainda um “sentido” para terem escolhido aquela profissão.
Quando a angústia ocorre no final do curso, de acordo com a tese, as
questões são mais objetivas e se referem ao mercado de trabalho, à busca de
emprego, etc.
Embora a Universidade de São Paulo seja a universidade mais disputada do
país, ela também apresenta índices de evasão: 15% em média, com cursos que
chegam a 40%, como os de licenciatura em Matemática e Física.
Em 2004, 7,2% dos estudantes abandonaram seus cursos na USP. Foi o
maior índice desde 1999 (MORAES, 2005).
Pode-se notar que o problema é o mesmo nas outras universidades públicas,
por exemplo, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), segundo o
anuário estatístico, as porcentagens de evasão diminuíram de 7% para 5%, mas o
problema continua, isto é, dos 15.164 matriculados em 2004, 814 desistiram
(HARNIK, 2005).
Na Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) também há desistência e
o principal motivo é a escolha malfeita (HARNIK, 2005).
Ainda de acordo com a mesma fonte, o Ministério da Educação e Cultura
divulgou o índice de abandono de cursos no estado de São Paulo, o qual variou de
9,1% a 13% do total de alunos matriculados entre 2000 e 2003.
Sobre o índice de abandono dos cursos superiores particulares no estado de
São Paulo, Harnik (2005) nos diz que ele gira em torno de 14,5%. Em 2003,
alcançou o recorde dos últimos cinco anos, com 15,3%, ou seja, 135.849 estudantes
largaram as faculdades particulares no estado de São Paulo em 2003.
Outras informações vêm do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: apenas 5% dos estudantes demonstram segurança no momento da escolha
profissional e 85% abandonam o primeiro curso que escolhem.
26
Podemos observar também algumas situações cada vez mais comuns no
nível universitário, que são as trocas de cursos entre os estudantes e as disciplinas
pendentes ano após ano.
Contabilizar o número de alunos que deixam a graduação é sempre um
problema para as universidades, porque muitos dos que se desinteressam do curso,
não chegam a trancar a matrícula, outros trancam, mas depois voltam e completam a
graduação em mais tempo do que o previsto.
De acordo ainda com Harnik (2005), o Núcleo de Apoio aos Estudos de
Graduação da USP realizou um estudo com 27.789 alunos ingressantes na graduação
de 1995 a 1998. A pesquisa foi divulgada em 2005 e mostrou que, em média, 25%
dos estudantes abandonaram o curso, a maioria no primeiro semestre, ou seja,
segundo Lehman (2005), não havia significado para a escolha realizada.
O maior índice de desligamento foi nas áreas de Humanas (33%) e de
Exatas (25%), mas há cursos em que a evasão chega a 79%.
Lehman (2005) nos diz que os fatores que influenciam a desistência de um
curso envolvem aspectos institucionais, sociais e pessoais, os quais devem ser
clarificados para o jovem, para que ele possa superar este difícil momento criando
perspectivas pessoais mais sólidas para seu projeto profissional e pessoal.
Para isto, Lehman propõe a implantação de um Serviço de Orientação
Profissional e de Carreira nas Universidades que, pelo caráter altamente ansiógeno
da situação, requer um pronto atendimento emergencial.
Segundo ela, dos cento e oitenta alunos que passaram pelo serviço de
Orientação Profissional da USP entre 1996 e 2002, 73% conseguiram clarear os
motivos da crise e não desistiram do curso.
Concordamos com Lehman quando ela diz que é preciso tomar consciência
dos fatores que interferem no problema da desistência de um curso, porque isto pode
evitá- la. E ainda podemos dizer que dificilmente o jovem desistirá de um projeto
elaborado durante um bom trabalho de auto-conhecimento.
1.3 O contexto atual das dificuldades que o jovem apresenta de escolher
uma profissão: a Pós- modernidade
27
Pós-modernidade é o nome dado às mudanças ocorridas após os anos 50,
conforme nos diz Oliveira e Dias (2001), em função das críticas ao projeto da
modernidade, o qual estabelecia que o homem era o centro de tudo e criava seus
próprios valores.
A modernidade era a época das certezas, na qual predominava a Razão
Técnica (científica), que explicava tudo. Porém, com os movimentos filosóficos e
religiosos daquela época, entre outros, as certezas da modernidade foram por água
abaixo e a sociedade parou de viver sob o reinado dos ideais, o que foi caracterizado
como pós- moderno.
O pós-moderno mostra-se, então, na desestruturação dos saberes
estabelecidos e na ausência de paradigmas. Não há mais certeza de nada. Estamos na
era do descartável, dos valores temporários e os sentimentos que predominam na
nossa vida são de imediatismo, de fragmentação, de ausência de ideais e de
respostas, de vazio e, principalmente, de desamparo.
Segundo a mesma fonte, o homem deixou de ser o centro de tudo e passou a
reconhecer seus vínculos com as outras pessoas, mas os valores essenciais tais como
Deus, Ser, Família, etc, foram desacreditados.
Atualmente, valoriza-se o consumo, o prazer fácil e imediato, o corpo, a
individualidade (o “eu” é mais importante que o “nós”), a informação e a mídia.
O futuro perde a sua transcendência e o que importa é o momento presente
(o aqui e o agora). Também o que vale é a lei do mercado. O mestre contemporâneo
é o mercado e é preciso transmitir uma imagem de sucesso econômico, financeiro,
saber “vender o peixe”, ser desejável, invejável, ser o melhor.
Enfim, vive-se, atualmente, a insegurança frente à queda dos antigos
valores e todas as áreas do viver humano são invadidas pelas mudanças rápidas da
tecnologia. Sabe-se que tal sociedade tecnológica, consumista e individualista é
exigente e competitiva.
28
2. Adolescência e Escolha
2.1 A síndrome de Peter Pan
É neste contexto que encontramos situações opostas cada vez mais
freqüentes na vida dos jovens. São seus pais que ora lhes protegem demais das
situações difíceis da vida, ora se descuidam completamente deles, não lhes
oferecendo o cuidado e a atenção necessários.
Trata-se de reflexos de um movimento sócio-cultural: - os pais querem
viver como se não tivessem filhos (SAYÃO, 2005).
O que queremos ressaltar é que, nos dias de hoje, como resultado de um
mundo individualista e que cultua a juventude, os pais ficam tão absorvidos com a
própria vida que não encontram tempo para os filhos. Pensam mais em si do que na
sua responsabilidade educativa, uma vez que numa sociedade sem regras e sem
modelos, não significa mérito algum lhes oferecer exemplos de caráter, respeito,
educação e responsabilidade.
Consequentemente, os jovens têm medo de crescer. Assim como seus pais
mostram-se superficiais na busca de metas, acreditando que o “ter” é mais importante
que o “ser”. Há muito tempo, na nossa sociedade, o pensamento separou-se do afeto
e as pessoas passaram a valorizar mais o pensamento como atividade racional e
equilibrada, enquanto o afeto seria algo frágil, necessitando ser controlado e
censurado pela razão (LISBOA, 2000).
Em outras palavras, assim como os adultos, os jovens de hoje, de modo
geral, não sabem como estabelecer objetivos de longo prazo numa sociedade de curto
prazo como a nossa. Ouvem falar da falta de perspectiva no trabalho, na saúde, na
educação, na vida, e ficam paralisados, preferindo acreditar que não possam fazer a
diferença. Vêem também, principalmente pela televisão, o quanto o respeito ao
próximo é aviltado e ninguém é punido.
Deste modo, podemos observar que os jovens da pós- modernidade estão
valorizando apenas o dia de hoje, pois, não se sabe nada sobre o amanhã.
29
Então, que se tenha prazer hoje, agora! E por isto, dizem: - para quê se
esforçar (no estudo, no trabalho, etc) se as pessoas podem ser descartadas a qualquer
momento e se não tem trabalho para todo mundo?
Vive-se, atualmente, num mundo sem perspectivas, que prioriza o prazer e
esquiva-se das responsabilidades. Vive-se, atualmente, numa sociedade supérflua,
centrada no “eu”, onde tudo convida ao descompromisso e estas são as referências
que os jovens têm. São elas que os levam a pensar que têm a liberdade de não
encararem a vida com responsabilidade e ainda que este comportamento não terá
nenhuma conseqüência.
Pensando assim é que Lisboa (2000) vem nos dizer que o homem
contemporâneo é pressionado pelo individualismo competitivo e se preocupa cada
vez menos com o seu semelhante, mas quer receber cada vez mais.
Percebe-se que esta maneira de se comportar faz parte desta postura
hedonista e individualista que a nossa sociedade adotou e que se traduz pelo “prazer
a qualquer custo”, pelo “Senhor eu primeiro” ou pelo “Senhor eu estou pagando”.
Enfim, esta é a questão: nossos jovens relutam muito em crescer, não
querem fazer coisas difíceis, que exijam esforços e não assumem a responsabilidade
por suas escolhas. Desejam apenas o gozo, a satisfação completa, não tolerando a
falta, a castração, conforme nos dizem os psicanalistas Lacanianos.
Este é um dos aspectos sobre a urgência em serem aprovados no vestibular.
O vestibular é um dos poucos “nãos” que os jovens de hoje recebem, para o qua l não
estão preparados (ZAGURY, 1998).
De acordo com Freud, a experiência inconsciente da castração (vivida aos
cinco anos de idade) é incessantemente renovada ao longo de toda a nossa existência
e o aspecto essencial desta experiência consiste no fato de que devemos reconhecer
os próprios limites, ao preço da angústia (NASIO, 1997).
Ao jovem da pós-modernidade está faltando, portanto, segundo a nossa
experiência de trabalho, capacidade para administrar as angústias e as perdas do
crescimento.
E para que isto ocorra, o princípio hedonista que vigora na nossa sociedade
não funciona, pois, nele tudo é imediato e estamos falando de tempo, esforço e
paciência.
30
Em vista do exposto, há uma grande relação entre a evasão no ensino
superior e o desinteresse pelo futuro (ou a falta de capacidade para planejar o futuro)
demonstrado pelos jovens de hoje, uma vez que a faculdade exige mais foco em
poucos assuntos e uma postura de total responsabilidade, envolvimento, dedicação,
paciência e independência por parte do universitário.
Conforme nos diz Oliveira Neto (2005, p.70), “antigamente, escolher uma
profissão e formar-se simbolizava uma vitória, era a independência, a igualação à
figura parental. Hoje, formar-se significa quase uma perda da proteção familiar.
E pedir ao jovem que abra mão deste conforto, certamente, será um fator de
estresse para ele, gerador de ansiedade, que logo fará seu inconsciente boicotar esta
passagem, criando medos, brancos, escolhas erradas, abandono de cursos, etc”.
Estamos falando também do “curtir a vida”, do “viver sem dor”, que é
próprio dos adolescentes (e muito evidente na sociedade atual).
Perguntamos, então: - será que os adultos do séc. XXI conseguem viver
sem esta prescrição?
Calligaris (2000, p.74) afirma que “a adolescência é o ideal dos adultos, por
ser, supostamente, um tempo de férias permanentes – uma maneira de ser adulto
quanto aos prazeres, mas sem as obrigações relativas”.
Por isto, os jovens também se perguntam: - por que ser adulto (e
responsável) se os próprios adultos querem rejuvenescer?
E assim, chegamos à observação de Oliveira Neto (2005): - estamos diante
da conhecida “Síndrome de Peter Pan” (o menino que não queria crescer) e deve-se
perguntar: - “o menino que não quer crescer tem alguma relação com o índice de
40% de abandono de curso nas universidades?”
O problema não é mais “quando” se entra na adolescência, diz Calligaris
(2000), mas “como” se sai dela. Ouve-se falar da adolescência tardia ou
“adultescência”, como já dissemos linhas atrás. Jovens de 25 anos ou mais, já
formados, que não querem sair da casa dos pais. Estão confortavelmente instalados e
têm, de certa forma, a liberdade que desejam. São conhecidos como “Geração
Canguru”, ou seja, gostam das mordomias que têm, não contribuem em nada com as
despesas dos pais, gastam seus salários com viagens e cursos no exterior, não querem
constituir famílias, etc.
31
De acordo com Aberastury e Knobel (1981), o mundo dos adultos é, para os
jovens, tão desejado quanto temido, pois, significa a perda definitiva da condição de
ser criança. Em outras palavras, há um impulso para o desconhecido e, ao mesmo
tempo, um temor a isto.
E assim, então, podemos falar dos poucos jovens que realmente buscam as
informações que precisam para a elaboração do seu projeto de vida. São jovens que
não têm medo do desconhecido, do novo, são jovens que conseguem romper com a
situação de dependência dos pais para se implicarem na vida.
Na adolescência é chegado o momento de os filhos “castrarem” seus pais,
deixando claro que não querem mais o papel infantil, que estão buscando suas
próprias identidades e desvinculando-se daquela relação pais- filho, que antes era tão
fundamental, mas que agora se modifica, passando a acontecer em outros moldes.
Percebe-se aqui, então, a questão da singularidade do ser humano.
Estes jovens que demonstram mais independência e desprendimento
familiar são jovens que aceitam viver “separados”, de um mundo conhecido e
limitado para explorarem o mundo mais amplo da sociedade (MÜLLER, 1988).
Porém, mesmo para estes jovens um pouco mais conscientes da realidade,
as dificuldades para abandonarem o mundo do prazer são muitas, pois, deve-se ter
em mente que, em um universo cada vez mais hedonista, todas as pessoas são
resistentes ao crescimento psíquico.
Observa-se, portanto, famílias de níveis sócio-econômicos diferentes,
porém, com a mesma dificuldade de proporcionarem aos seus filhos a estrutura
emocional necessária ao desenvolvimento da capacidade de ser resiliente2 .
Enfim, a maioria das pessoas e, consequentemente, os jovens de hoje,
idealizam os prazeres do mundo contemporâneo e acabam obtendo uma frágil
autonomia psíquica, sem efeitos para levá- los à construção de papéis profissionais
verdadeiramente engajados.
2
Este termo, resiliência, pertence, originalmente, ao campo da física e significa a característica que define o fenômeno pelo
qual um corpo deformado por uma força externa restaura a energia que o deformou quando esta força se encerra – princípio de
conservação da energia (RUTTER, 1985, 1987, 1993).
Enquanto conceito psicológico, este termo tem sido utilizado para designar a capacidade de alguns indivíduos de enfrentarem
adversidades acumuladas e estresse sem prejuízos para seu desenvolvimento.
32
Calligaris (2000) ainda vem nos dizer que os adolescentes pedem
reconhecimento aos adultos, mas encontram, no âmago destes, um espelho para se
contemplarem, ou seja, “pedem uma palavra para crescerem e ganham um olhar que
admira, justamente, o casulo que eles queriam deixar” (p.74).
Acaba assim, a preocupação fundamental dos adolescentes de serem aceitos
e reconhecidos pelos adultos, tendo-os como modelo. Não precisam mais admirá- los
e nem tê-los como ideal, pois, a adolescência passou a ser um ideal para todas as
idades e o adolescente se tornou um ideal para si mesmo (CALLIGARIS, 2000).
Há um outro aspecto que também se relaciona a esta “Síndrome de Peter
Pan” e que gostaríamos de acrescentar: - são as novas relações que os jovens estão
estabelecendo.
Ouve-se dizer que nestes “namoros” virtuais os adolescentes se expõem
muito pouco e, assim, esquivam-se da rejeição, pois, são muito narcisistas para
suportarem as incertezas e as dúvidas de um relacionamento diário.
Sabe-se que a tecnologia virtual é uma possibilidade interessante para os
relacioname ntos, no entanto, quais serão as conseqüências de se conhecer pessoas
somente através das telas?.
Em vista de exposto, não nos faltam desafios para trabalharmos com os
jovens oferecendo a eles condições necessárias para o desenvolvimento de projetos
de vida mais consistentes e inovadores, ajudando também aos pais que se sentem
perdidos com a adolescência dos filhos numa sociedade hedonista como a nossa.
2.2 As expectativas familiares
De acordo com a Psicanálise, todas as escolhas que fazemos para um filho
são frutos inconscientes de nossos desejos. A começar pela escolha de um nome.
Neste momento, os pais estão colocando expectativas de como gostariam que eles
fossem. Vê-se, desta forma, que a família, desde muito cedo, projeta no outro suas
expectativas, determinando valores.
Oliveira Neto (2005), referindo-se a Freud, explica o conceito de projeção,
que é a operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza numa pessoa ou num
33
objeto as qualidades, sentimentos, desejos e mesmo defeitos que ele desconhece ou
recusa nele.
Vamos partir, então, do pressuposto de que o momento da escolha
profissional é um momento de crise, que envolve não só o jovem, mas também o
grupo familiar, pois, são inúmeras as dificuldades dos pais em facilitarem o processo
de individuação dos filhos e são também inúmeras as dificuldades dos filhos em se
separarem dos seus pais.
Vários autores chegam a afirmar que a separação entre pais e filhos é a
tarefa mais importante da adolescência (LEVENFUS, 2002).
Sabe-se que a principal tarefa dos pais é ajudar o filho a se tornar um adulto
gradativamente mais independente e responsável, capaz de tomar decisões e fazer
escolhas. Porém, segundo Levenfus (1997), esta tarefa é gratificante e assustadora ao
mesmo tempo, isto é, os pais vive nciam esta crescente autonomia dos filhos de modo
duplo: - por um lado sentem-se felizes e satisfeitos pelo gradual desprendimento do
filho, por outro, assustam-se com tanta independência e passam a senti- la como uma
perda ou como uma rejeição.
Quando este sentimento é muito intenso, pode-se dizer que há uma
dificuldade dos pais em perceberem que o filho já é um adulto, que ele já adquiriu a
capacidade de discernir o mundo à sua volta e que não há mais nada a fazer (game
over).
Em outras palavras, segundo Bohoslavsky (1987), estamos diante de uma
dificuldade dos pais em perceberem que o jovem já adquiriu a capacidade de
estabelecer vínculos diferenciais com os objetos.
Gostaríamos de dizer que esta dificuldade é mais comum do que se pensa,
pois, os pais assustam-se com a sensação de inutilidade e de solidão que
experimentam ao não se sentirem mais solicitados como antigamente e, temendo
perder a função de pais, abafam a autonomia que seus filhos demonstram ter ao
começarem, por exemplo, a exploração do mundo do trabalho e das profissões.
Outros pais, simplesmente, se omitem, neste momento, com medo de atrapalharem o
processo.
34
Conforme nos diz Aberastury (1981): - “Que conflitos conscientes ou
inconscientes fazem com que os pais ignorem ou não compreendam a evolução do
filho?”
Quanto aos jovens, pode-se dizer que eles vêm até nós em busca de uma
profissão que os realize, desde que preencha a expectativa dos pais.
Mostram-se bastante confusos e culpados diante da possibilidade de se
sentirem pessoas diferentes daquelas que seus pais esperavam.
Segundo Soares (2002), o jovem se identifica com aquilo que é esperado
dele, tendo medo de decepcionar os pais e de não ser mais amado por eles. É o caso
de um ótimo aluno que tem rendimentos inexpressivos no vestibular, porque é mais
fácil, para ele, acreditar que não seja capaz de passar em determinado curso do que
decepcionar seus pais mudando de idéia. Este jovem pode apresentar sintomas
psicossomáticos, como ansiedade, gastrite e alergias, além de dificuldades no
aprendizado.
Aberastury e Knobel (1981) nos dizem que a escolha profissional do
adolescente é o momento em que deverá ocorrer o desligamento com relação à
dependência dos pais, momento este em que o jovem terá que se firmar nesta
escolha.
Ainda segundo os autores citados anteriormente, a escolha de uma profissão
desperta muitas angústias e o que dificulta a decisão do jovem não é a sua falta de
capacidade, mas a sua dificuldade de renunciar, pois, a escolha profissional não tem
o significado de adquirir algo, mas de perder, no caso, os pais da infância, a
dependência dos pais.
Por outro lado, as modificações no corpo do adolescente levam- no à
estruturação de um novo ego corporal à procura de sua identidade e ao cumprimento
de novos papéis, ou seja, à procura de tudo que deixa de ser através dos pais para
chegar a ser ele mesmo.
Por isto, Muller (1988) nos diz que o jovem que está crescendo está
preparado para viver “separado” de sua família, ou seja, ele já não quer mais possuir
o papel infantil que possuía até então. Isto só levará a uma reestruturação de todo o
grupo familiar e, inclusive, dele mesmo.
35
Desta maneira, podemos observar que o adolescente também parte para o
confronto de idéias com a família, a fim de facilitar o processo discriminatório.
Observa-se muito este aspecto em algumas atividades do trabalho de
Orientação Profissional, quando os jovens rejeitam qualquer profissão que tenha sido
citada pelos pais e/ou quando se mostram preocupados frente à possibilidade de
terem sido influenciados por eles.
Sabe-se que, contrapondo-se aos desejos e às expectativas dos pais, o jovem
busca uma identidade ou um novo rumo para a sua história.
Levenfus (1997) nos diz que este mecanismo de oposição é próprio do
momento que o jovem vivencia, porém, muitas vezes, confunde-se esta idéia com a
de que o jovem está repudiando o sistema de valores de sua família e apresentando
uma quebra no processo identificatório com os mesmos.
Segundo esta autora (p.101), “é precisamente pelo fato do sistema de
valores parentais permanecer consideravelmente intacto e valorizado que o jovem
apresenta conflitos”.
Porém, Bohoslavsky (1987) vem nos dizer que “crescer” é motivo
suficiente para o jovem sentir-se culpado e, como conseqüência desta culpa, ele pode
desejar corresponder às expectativas dos seus pais escolhendo uma profissão que seja
do interesse deles, a fim de se desculpar pelas inúmeras discussões que tiveram
(conforme já dissemos, tais discussões são necessárias ao desprendimento da
dependência familiar).
Ocorre também que muitos pais se identificam excessivamente com seus
filhos e sobre eles projetam expectativas onipotentes. Alguns até desejam continuar
obtendo, através dos filhos, o desempenho excelente que sempre tiveram, ou então
procuram, através dos filhos, o sucesso que nunca tiveram, pois, sentem o filho como
uma extensão da sua própria pessoa, regulando a auto- imagem através do sucesso do
filho.
Soares (2002) ressalta, então, a interferência da família neste momento
importante de decisão e nos diz que a família incentiva ou reprime comportamentos e
atitudes que irão influenciar na vida profissional dos filhos.
Ainda segundo esta autora, os pais constroem muitos projetos para o futuro
de seus filhos e desejam que seus filhos correspondam a estas expectativas.
36
Porém, o projeto dos pais é contraditório (expressão de medos e de desejos
contraditórios) e esta contradição passará também para o projeto dos filhos.
Por um lado, o filho percebe que seus pais desejam que ele se torne aquilo
que eles são, que ele faça aquilo que eles fizeram, isto é, que os imite, que os repita.
Esta é a lógica da reprodução ou da indiferenciação.
Por outro lado, o jovem também percebe que seus pais querem que ele faça
tudo diferente deles, que tenha coragem para fazer apenas aquilo que sentir prazer e
felicidade, que se arrisque em um projeto próprio mostrando todo o potencial que
possui e que não se importe com dinheiro (coisa que eles não conseguiram). Esta é a
lógica da diferenciação.
E assim, no projeto dos pais há esta terrível ambivalência: - os pais colocam
objetivos e metas a serem cumpridas pelos seus filhos e, ao mesmo tempo, não
querem que seus filhos sigam modelos ou que perpetuem a sua história.
Soares ainda acrescenta que é no convívio da família que se formam os
conceitos que estruturam um projeto profissional, mas a internalização do projeto dos
pais pelos filhos é fruto de uma luta, seja ela aberta ou latente, mas sempre presente.
Lisboa (1997) também nos diz que no processo de formação da identidade a
família sempre aparece com um significado muito forte fazendo com que o ideal de
ego se estabeleça com base nas identificações com figuras significativas como os
pais, familiares, etc. São pessoas que representam o “querer ser” da criança, seus
modelos.
Portanto, na formação da identidade ocupacional, o mesmo deverá ocorrer
com pessoas que desempenham determinados papéis ocupacionais, ou seja, o “querer
ser” se repete no que tange ao campo profissional.
Enfim, Levenfus (1997) ressalta que, por meio da escolha profissional, o
jovem busca ocupar o seu lugar na filiação, fato que será reforçado ou não pelo
discurso familiar. Isto significa que a escolha profissional não é feita ao acaso. Ela
está ligada à história familiar, com seus mitos e conflitos internos, com os seus
sistemas de valores e, principalmente, com o papel que cada um deve desempenhar
na dinâmica familiar. Um exemplo: “Venho de uma família que só valoriza os
homens, eles, sim, devem ter uma profissão que lhes satisfaça em todos os sentidos.
37
Como eu sou mulher, tenho que me conformar com uma área mais humilde” (L.M,
professora).
Em vista do exposto, quando escolhemos uma profissão, estamos colocando
em funcionamento um jeito de ser construído e aprendido desde tempos muito
remotos e que é nossa referência para tudo. É sobre este primeiro jeito de ser que se
construirá a opção profissional. E sobre este primeiro jeito de ser, Bohoslavsky
(1987) nos diz que a família se apresenta como o grupo de referência fundamental.
É por isto que os valores deste grupo são significativos na Orientação
Profissional do adolescente, quer a família atue como referência positiva, quer opere
como referência negativa.
Em outras palavras, a estrutura familiar pode motivar ou impedir uma
escolha, seja de forma explícita, através das opiniões de seus membros sobre o jeito
de ser da pessoa que está escolhendo uma profissão, seja de forma sutil e disfarçada,
como, por exemplo, elogiando ou criticando os resultados financeiros de um
profissional.
O problema pode começar quando os pais não dizem claramente o que
desejam de seus filhos profissionalmente, mas com certeza lhes passam a própria
satisfação ou a própria insatisfação profissional e seus próprios valores como
dinheiro, bem-estar financeiro, status, etc, e ainda os associam a certas profissões ou
a certos profissionais.
Esta interferência é implícita ou indireta e é mais forte do que a outra, que é
direta, porque os jovens as assimilam sem críticas e sem questionamentos.
Andrade (apud LEVENFUS, 1997) também vem nos dizer que a ideologia
familiar gera uma imagem vocacional que se interpõe entre a pessoa que escolhe e
sua percepção, influenciando, sobremaneira, a idéia que a pessoa tem de uma
determinada profissão.
Ao optarem, então, os jovens estarão dando muita importância a estas
opiniões e a estes valores familiares, sendo muito comum o jovem sentir que, ao
escolher uma profissão, estará satisfazendo ou magoando algum familiar.
Nesta linha de pensamento, é fundamental reservar um espaço, nos
trabalhos de Orientação Profissional, para se pensar a relação do jovem com a sua
família e com as expectativas parentais. Pode-se dizer que todas as teorias de
38
Orientação Profissional ressaltam a importância de se estudar este dinamismo e sua
história, pois, segundo Dias (1995), quando um jovem procura Orientação
Profissional, ele está sofrendo as pressões da família.
Fiamengue e Whitaker (1999) fizeram um estudo sobre a influência das
mães na escolha profissional dos filhos e concluíram que quanto mais
profissionalizadas forem as mães, maior a tendência que elas têm de pressionarem os
filhos para as carreiras de maior prestígio social no momento da escolha profissional.
Levenfus (1997) nos diz, de outra forma, que o projeto para o futuro dos
filhos é parte integrante da família e precisa ser sempre considerado, ou seja, para
escolher uma profissão, o jovem precisa conhecer a “cultura” do seu grupo familiar,
pois ela estará ativa durante todo este momento, tanto concretamente quanto de modo
internalizado pelo jovem. E quanto mais o jovem estiver conscie nte destas
influências, melhor, sejam elas explícitas ou sutis, pois, a elaboração de um projeto
profissional depende muito mais do conhecimento das influências recebidas do que
da ausência delas.
Sabe-se que a expectativa dos pais também se dá em outras áreas do viver
humano, não apenas no aspecto profissional.
Voltolini (1999) explica que, antes mesmo de nascer, um certo lugar
discursivo já é construído para a pessoa que se aguarda e esta pessoa estará marcada
para o resto de sua vida por este discurso de um outro, ao qual terá que se identificar
para ser alguém.
Em outras palavras, para o filho, o lugar que ele ocupa na história dos pais é
sempre um fardo.
Vê-se, desta forma, que a família tem um papel fundamental na escolha
profissional de seus filhos e este fato se deve, entre outros fatores, ao longo período
em que somos dependentes de nossos pais.
O bebê humano nasce numa condição de quase completa dependência e, em
comparação com outras espécies, tem um período de amadurecimento e/ou
desenvolvimento muito prolongado. Este fato acarreta, para o adulto, a tentação de se
aproveitar deste período para controlar e manipular a criança satisfazendo suas
próprias necessidades.
39
Queremos ressaltar, com estas palavras, que nem sempre os pais favorecem
o desligamento dos filhos e isto pode se refletir no comportamento pouco
exploratório do jovem com relação à construção de um projeto de vida.
E assim, Levenfus (1997) vem nos dizer sobre o processo de separaçãoindividuação ou dessimbiotização, que é vivido, primeiramente, na infância, devendo
ocorrer a segunda etapa na adolescência, para que se alcance um estado de
autonomia e emancipação.
Em síntese, este dilema apresenta-se entre ser autônomo ou permanecer
ligado a fases infantis de dependência e submissão.
Poderíamos citar aqui uma série de simbioses que o jovem tem com sua
família e com o meio sociocultural das quais ele custa a tomar distância para situarse a partir de outro lugar, para passar a outra coisa, ou seja, de dentro (da família)
para fora (a sociedade mais ampla), ou do conhecido (seu passado) para o
desconhecido (seu futuro).
Para Müller (1988) este lento rompimento dos laços emocionais que o
jovem tem com sua família e a entrada receosa numa nova vida são as experiências
mais profundas da existência humana.
Conforme o que Levenfus (1997) ainda pode nos dizer o processo de
individuação adolescente apresenta mecanismos semelhantes aos das etapas mais
precoces do desenvolvimento e acreditamos que este tema possa se relacionar com
outros estudos ainda mais profundos....
Como já dissemos, o ser humano vem ao mundo absolutamente dependente
de outra pessoa por um longo período de tempo. Este período é conhecido como um
estágio primitivo de desenvolvimento humano, onde o bebê estabelece uma fase
simbiótica com a sua mãe (ou qualquer pessoa que desempenhe esta função).
Nesta etapa, o bebê e a mãe funcionam como um sistema único, como se
estivessem dentro de uma mesma membrana, portanto, sem diferenciação.
Aos poucos, o bebê percebe que suas tensões são aliviadas por algo vindo
do mundo externo, embora ainda demore um pouco para diferenciar os seus limites
dos limites do mundo exterior.
Bastos (2003), referindo-se a Lacan, nos diz que este momento da vida de
uma criança recebe o nome de estádio do espelho.
40
Apesar do nome, o estádio do espelho pode não se referir, necessariamente,
à experiência concreta da criança frente a um espelho. O que esta experiência
assinala é um tipo de relação da criança com seu semelhante através da qual se
constitui uma demarcação da totalidade do seu corpo por um processo de
identificação ao outro.
Anterior a esta fase, há uma vivência, por parte da criança, de corpo
fragmentado, porque a imagem corporal é uma conquista gradativa, que se inicia
com uma confusão entre si e o outro.
Portanto, é no outro que a criança se orienta até formar a imagem de seu
próprio corpo. Desse modo realiza-se a identificação primordial (BASTOS, 2003), na
qual a imagem do corpo, sua representação em uma totalidade, é estruturante para a
identidade do sujeito.
Em outras palavras, Bastos nos diz que esta fase pode ser definida como um
drama no qual o impulso interno vai precipitar-se da “insuficiência” para a
“antecipação”. Devemos entender esta “insuficiência” em relação à ausência de
representação do próprio corpo pela criança, como já foi dito, uma vez que, para
esboçar-se enquanto imagem, e imagem unificada, ela tem que passar por uma série
de discriminações.
Já a “antecipação” pressupõe um domínio do corpo no nível do simbólico,
das representações mentais, sendo que a imagem do outro é sua própria imagem
antecipada.
“O corpo despedaçado encontra sua unidade na imagem do outro, que é sua
própria imagem antecipada” (LACAN, 1985, p.74).
Ainda segundo Bastos (2003), trata-se de um drama porque, para Lacan,
não se trata da imagem do próprio corpo, da internalização da sua imagem, ou seja, a
criança não projeta no espelho a sua imagem, mas o que ela vai introjetar é a imagem
que a própria família construiu para ela.
Apesar da criança não ter acesso ainda à sua própria fala, ela é falada pelos
outros, por isto, a criança já surge num lugar marcado simbolicamente.
Com isto, Bastos quer dizer que o que vai ser determinante na imagem
especular é o seu caráter ilusório, falso, contornado pelos desejos e ideais alheios.
41
É esta identidade alienante que marcará o psiquismo da criança, na medida
em que ela vai ocupar o lugar do desejo dos pais e, ao introjetar a imagem especular,
ela passa a assumi- la como se fosse sua.
E então, a partir do jogo identificatório, o sujeito é captado de forma dupla,
pela imagem que lhe é estranha e, ao mesmo tempo, sua.
Porém, há uma verdadeira transformação do ser humano na medida em que
ele vai passando da relação dual, imediata e especular, à relação mediatizada do
registro simbólico. Esta transformação é necessária porque a subjetividade ou a
singularidade da criança não é construída dentro da relação dual primeira ou com a
mãe ou com sua imagem.
É preciso ultrapassar esta primeira relação para que a criança possa situarse a si mesma ou aos outros em seus respectivos lugares.
Em outras palavras, não é na fase do espelho que se dá a constituição do
sujeito, porque esta fase é ainda dominada pelo imaginário e o que nela se produz é
apenas um ego especular que, em sua identidade alienante, promoverá uma busca
incansável da identidade para o sujeito.
O sujeito será produzido, então, somente quando ocorrer a passagem do
imaginário para o simbólico, isto é, através da linguagem.
Porém, a referência imaginária é muito importante porque depois que a
criança a possui, ela se orientará em direção a uma série de novas identificações.
Em síntese, Bastos (2003) nos diz que Lacan ressalta a função primordial
do outro e da mediatização pelo desejo do outro uma vez que o sujeito aprende a
discriminar ou a reconhecer seu próprio corpo e seu desejo por intermédio do outro.
Mas é preciso que o Outro (a cultura) organize e ordene o mundo imaginário no qual
o sujeito se aliena para remetê- lo à ordem simbólica.
Através do Outro, da linguagem, se dará a identificação do sujeito e, pelo
efeito desta identificação, a criança ingressa na cultura, na ordem das trocas
simbólicas, rompendo o tipo de relação dual que mantinha com a mãe.
E assim, então, revendo as idéias de Bohoslavsky (1987) podemos dizer
que o momento da escolha profissional, que simboliza a entrada do jovem no mundo
adulto, exige que os pais não se sintam rejeitados, pois, quando o jovem busca a sua
independência, ele está adquirindo a capacidade de estabelecer vínculos diferenciais
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com os objetos, ou seja, a função (do ego) de discriminação dos objetos ou de
diferenciação deve se atualizar na adolescência. É necessário, portanto, discriminar
tanto os objetos internos quanto os objetos externos e o fracasso desta função, na
adolescência, compromete a capacidade de “poder ver” e de poder “se ver”.
É por isto que alguns jovens relutam muito em se desprenderem das
identificações profissionais realizadas anteriormente, porque isto significa perder
suas partes projetadas nestes objetos que agora precisa abandonar e com as quais
ainda se identifica. Bohoslavsky nos diz que quando o adolescente escolhe ser um
profissional ele está deixando de ser outros profissionais que também gostaria de ser
e, assim então, para elaborar este luto, o adolescente deve estar preparado para
perceber, discriminar, diferenciar e separar as partes de si mesmo depositadas nos
objetos que agora precisa abandonar.
Levenfus (1997) também nos traz o conceito de desidealização, que é o
processo pelo qual o jovem percebe os objetos de forma mais realista e menos
idealizada. Isto também supõe um luto que será bem elaborado se houver a tolerância
do sentimento de culpa em relação a si mesmo e experimentado em toda separação,
em todo desligamento.
O luto é a resposta genérica ao rompimento de um vínculo e desempenha
um papel central no desenvolvimento do ego. Um jovem pode sentir-se culpado
frente ao seu crescimento ou às conquistas que tiver, como já foi dito, pois, isto
significa “abandonar” os pais, além da possibilidade de ultrapassá-los. Mas se os
sentimentos de culpa forem tolerados, o luto será elaborado e isto significa que os
aspectos do “eu” ligados aos objetos podem ser discriminados (LEVENFUS, 1997).
Em outras palavras, esta autora também nos diz que o jovem que escolhe
crescer deve sentir-se apto a detectar, distinguir e separar as partes de si mesmo que
foram depositadas nos objetos que agora precisam ser abandonados em função de
outros. Se o adolescente tolerar o luto pela desidealização dos objetos, ele conseguirá
estabelecer ideais mais realísticos para si mesmo e reidentificar-se a partir de novos
objetos ou de modelos mais adequados à realidade.
Enfim, o momento da escolha profissional pressupõe o estabelecimento de
vínculos diferenciais com os objetos e capacidade para suportar a ambivalência
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diante deles. É a partir deste momento, então, que supomos que o jovem conseguirá
situar-se na vida, identificar-se.
Segundo Bastos, que nos explica sobre Lacan, é a partir da mediatização do
registro simbólico, que o jovem encontrará a sua singularidade.
Ainda Levenfus (1997) nos diz que as dificuldades dos jovens com a falta
desta função do ego (de discriminação) caracterizam-se, basicamente, por bloqueios
afetivos ou, pelo contrário, por “namoros” maníacos com somente uma ou outra
parte da realidade ocupacional.
Enfim, a individuação na adolescência ou processo de diferenciação
relaciona-se ao processo final de formação da identidade, o qual pode ser vivido com
muita angústia juntamente com sentimentos de agressividade, desamparo,
isolamento, confusão de papéis, etc, sentimentos que justificam as mudanças de
humor na adolescência e o estresse da escolha profissional.
Levisky (1998) também vem nos dizer que o processo de individuação na
adolescência é angustiante e representa o fim de um desejo inconsciente de recuperar
um estado de fusão com o outro frente à ameaça de separação e perda definitiva do
vínculo simbiótico inicial, ameaça esta provocada pela intensificação dos
mecanismos de diferenciação que agora ocorrem.
É por isto que os jovens se identificam maciçamente com seus ídolos,
demonstram ciúmes pelas suas amizades e supervalorizam o objeto amado. O jovem
está tentando, assim, restaurar a situação original (simbiose) com a adesão a
substitutos aleatórios dos primitivos objetos parentais.
Gostaríamos de finalizar este trecho dizendo que a escolha profissional é
uma tarefa evolutiva, resultado de um longo processo que se inicia na infância e vai
se transformando conforme o desenvolvimento da personalidade e a eleição de uma
profissão é resultado do desenvolvimento e da integração de todas as partes da
personalidade, lembrando que as mudanças ocorridas na passagem de uma etapa do
desenvolvimento humano para outra se dão de forma lenta, parcial e incompleta.
Desta forma, conclui- se que o processo de discriminação “eu-não-eu” não
ocorre repentinamente, e ainda, tal diferenciação, nunca se completará inteiramente,
deixando sempre certo grau de simbiotização mantendo-se por tempo indefinido
(LEVENFUS, 1997).
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Por isto, o conflito básico da crise pela qual o adolescente passa é a
elaboração do vínculo de dependência simbiótica. Jovens com histórias difíceis na
fase de separação-individuação têm mais conflitos e mais dúvidas em relação à
escolha profissional (LEVENFUS, 1997).
Diante disso podemos dizer, junto a Bastos (2003), que nos explica o
estádio do espelho de Lacan e ainda junto a Bohoslavsky (1987) e Levenfus (1997),
que a fase de separação-individuação é um longo processo, pressupondo a evolução
do ego da total indiscriminação à diferenciação entre o “eu e o não-eu”.
Para Müller (1988) este percurso realiza-se com acertos e erros, avanços e
retrocessos, rupturas e reconstituições ao longo de vários anos, o que ela considera
como a construção da identidade pessoal onde se inclui a identidade profissional.
Enfim, Levenfus (1997) nos diz que ao conseguir lidar internamente com a
segunda individuação, as figuras parentais estarão internalizadas e o jovem
conseguirá tolerar melhor a ansiedade e o estresse provocados pelo processo a que
está submetido.
2.3 O estresse do vestibular
Na adolescência, em meio ao processo de separação/individuação (segunda
individuação) e da busca por uma identidade, o jovem se depara com o vestibular.
Sabe-se que o vestibular funciona como um ritual de passagem, tendo o mesmo
efeito que todos os outros rituais, isto é, marca a passagem da pessoa de um status
para outro. No caso em questão, a aprovação no vestibular significa a transformação
do jovem em adulto, por isto, o jovem tem muita pressa em ultrapassar este estágio
(porque ele não quer mais viver o papel infantil) e, ao mesmo tempo, tem que
renunciar à dependência aos pais (fazer o luto pela infância perdida), o que se torna
ambivalente e doloroso. Portanto, é inexpressiva a reflexão que os jovens deveriam
ter, neste momento, sobre um futuro projeto de vida.
Segundo Soares (2002), esta “pressa” está associada a uma baixa autoestima, isto é, o jovem sente-se muito "por baixo" nesta fase e precisa dar provas de
sua competência.
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Quando se fala em auto-estima, faz-se referência ao amor próprio que o ser
humano tem ou deveria ter por si mesmo.
É um auto-conceito que vamos estruturando a partir das nossas percepções
sobre o que representamos para as outras pessoas, ou seja, como imaginamos que os
outros nos vêem ou como pensamos que os outros nos julgam (e não sobre quem
realmente somos).
E assim, ao mesmo tempo em que vamos traduzindo as mensagens (vagas e
sutis) que recebemos, vamos formando uma auto- imagem com elas.
Observa-se que a auto-estima tem suas raízes na relação do ser humano
com o mundo, ou seja, do respaldo, do acolhimento, do reconhecimento, do amparo,
da aceitação das pessoas e, principalmente, da aceitação dos pais, a criança vai
desenvolvendo um vínculo de confiança básica para acreditar cada vez mais em si
mesma e nos outros adultos. Estas são as bases para um auto-conceito positivo.
Porém, já na infância e, principalmente, na adolescência, de modo geral,
aparecem os rótulos e as expectativas, os preconceitos e muita falta de respeito da
sociedade para com as pessoas.
A mídia, por exemplo, desenvolve a imagem do magro, do esperto, do
bonito, um verdadeiro culto às marcas, à beleza, e o jovem (ou qualquer pessoa) que
não se enquadrar neste modelo, sentirá vergonha pelo desempenho que tiver e se
sentirá desprezível e indigno da confiança e da admiração dos outros.
Muitos jovens chegam a ouvir de sua própria família ou até de seus
professores que eles não serão capazes de exercerem uma determinada profissão ou
que não conseguirão passar no vestibular que tanto desejam.
É assim, então, que a auto-estima começa a definhar, fazendo com que as
pessoas se sintam incompetentes, não acreditando possuir as boas qualidades que os
outros possuem.
O que não é verdadeiro, pois, todas as pessoas são mais auto-confiantes em
um aspecto do que em outros. Além disto, a cada defeito que o ser humano se atribui,
existe uma qualidade correspondente, isto é, todas as características do ser humano
têm uma razão de ser e todas têm dois lados.
Para resolver as falhas na auto-estima, é preciso refazer o vínculo de
confiança básica (rompido na infância ou na adolescência) com alguém significativo.
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E assim, observamos que, na atualidade, muitos jovens de dezesseis ou de
dezessete anos, que ainda não completaram o ensino médio, já estudam para o
vestibular dentro dos cursinhos, cujos métodos de aprendizagem fazem de qualquer
estudante um perfeito robô.
Sabe-se que nestes cursinhos, a relação de concorrência com o vizinho de
carteira é maior que no ensino médio e ainda os alunos utilizam, conscientemente, a
nota do simulado como forma de desestabilizar o oponente. A nota do simulado gera
desgaste e tudo é questão de terrorismo, dizem os jovens, que não se ajudam nem na
hora dos exercícios. Para eles, os pretendentes ao mesmo curso são vistos como
inimigos. Em outras palavras, o vestibulando não estuda para aprender, mas para
competir, o que vem reforçar o individualismo e o egocentrismo existente no nosso
cotidiano e o que torna a tensão pré-vestibular assustadora.
Sabe-se também que o que está em jogo nesta situação é uma verdadeira
competição entre os próprios cursinhos, que são empresas especializadas na arte de
passar no vestibular, visando, é claro, cada vez mais lucros.
Enfim, Soares (2002) nos diz que o vestibular é um evento dissociado, sem
nenhuma relação com os estudos anteriores da escola, nem com o que acontecerá
depois. Os que são aprovados se despreocupam e é como se a caminhada da vida
terminasse, pois, o objetivo foi alcançado e nada mais faz sentido para muitos jovens
que eram, antes, tão concentrados na meta a alcançar. Para os reprovados, restará a
ansiedade e o terrível sentimento de derrota.
Whitaker (1997) nos diz que em relação ao vestibular, o estudante não sabe
o que deve estudar, sabe apenas que deve se classificar, mas não tem muita idéia do
que deve fazer para consegui- lo, já que está competindo com milhares de outros,
sobre os quais pouco ou nada sabe.
Segundo a mesma fonte (p.88), “a proclamada incapacidade do jovem
brasileiro que os resultados massacrantes dos vestibulares contribuem para confirmar
faz parte do conjunto de estereótipos a respeito de nossa falta de habilidade para isto
ou para aquilo que as ideologias da dominação difundiram entre nós (o trópico, a
miscigenação, a latinidade, etc)”.
Portanto, através desta autora entendemos melhor como o povo brasileiro
sofre, há muito tempo, de um enorme complexo de inferioridade por não produzir
47
tecnologia à altura de uma sociedade industrial, o que justifica a entrega do nosso
país às multinacionais pelos militares.
Ela ainda diz em seu livro (p.89): - “Que misteriosos mecanismos
ideológicos atuam no sentido de nos convencer de que somos incapazes de
estabelecer as fórmulas que produzem os equipamentos necessários (ou até
desnecessários) à nossa sobrevivência como sociedade industrial ? ”
Observa-se, portanto, que a baixa estima de todos nós tem raízes mais
profundas do que pensamos e ainda podemos ressaltar a enorme contradição da nossa
sociedade que nos estimula a estudar para que sejamos independentes, mas ao
mesmo tempo, não dá condições a todos de freqüentar uma universidade, exigindo
que nos submetamos a um exame que irá nos selecionar para a turma dos “sabidos”
ou para a turma dos “não-sabidos”.
Poucas experiências são tão dramáticas para o jovem brasileiro de classe
média como o vestibular. Quando se aproxima esta hora ele fica com os nervos
excitados porque dorme menos, concentra-se mais em assuntos pesados e deixa de
ter suas horas de lazer. Por isto, as primeiras pessoas com quem se indispõe são os
pais que também estão apreensivos com o resultado do filho no vestibular.
Observa-se que o aluno do ensino médio sabe que poderá ir mal numa
prova sem muitas conseqüências, pois, o que conta é a sua média anual. Com o
vestibular é diferente. Quem for mal sabe que só terá outra chance no ano seguinte.
Como se não bastasse, o teste resume os conhecimentos de uma vida inteira de
estudos num único dia, ou seja, os oito anos de ensino fundamental e os três de
ensino médio são aferidos num único domingo, o que gera muita ansiedade e medo
na maioria dos jovens. Eles dizem: - “A gente fica estressado, porque a gente estuda
o ano inteiro, para depois mostrarmos tudo o que sabemos em apenas cinco horas.
Vestibular é uma coisa injusta” (B.C. 18 anos).
Portanto, além da angústia de ser obrigado a escolher um papel profissional
sem ter maturidade suficiente para isto e além do fantasma de fracassar nos exames
seletivos, o jovem sabe, mesmo inconscientemente, que o vestibular é um primeiro
contato com a realidade nua e crua. Ele sabe que está diante do primeiro grande teste
de sua vida, um momento de vitória ou de derrota que não significa apenas um ano a
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mais de aulas no cursinho, pois, sente que será julgado pelas outras pessoas através
do desempenho que tiver nas provas e, ainda pior, por ele mesmo.
Por isto, Levenfus (1997) nos confirma que o vestibular cumpre uma
função extra: - além de selecionar os candidatos, ele é uma espécie de ritual de
passagem para a vida adulta indicando que o jovem abandonou a infância e entrou no
mundo dos adultos, sendo altamente gerador de ansiedade.
Outros autores também falam do vestibular como o maior vilão da
educação brasileira, com um enorme poder de aterrorizar e de intimidar os jovens e
suas famílias, pois, junto à reprovação vem a culpa pelas possíveis falhas cometidas,
tanto da parte dos pais quanto da parte dos filhos.
Queremos ressaltar, portanto, que o estresse do vestibular e o estresse da
escolha profissional muito se relacionam, ambos emitindo seus primeiros sinais já na
segunda série do ensino médio, embora possamos dizer que é cada vez mais comum,
nas famílias brasileiras, de maior poder aquisitivo, os jovens viverem numa espécie
de mundo da fantasia, longe das preocupações do cotidiano, exatamente até a
segunda série do ensino médio. Este comportamento é estimulado pelos pais que têm
a ilusão de protegê- los. Somente no começo da terceira série do ensino médio é que a
maioria dos jovens percebe que está deixando o mundo das certezas e da proteção
para entrar no mundo da incerteza. E eles se sentem bastante desprotegidos. Apenas
neste momento começam a acreditar que não há nada que os pais possam fazer com
relação a passarem ou não no vestibular.
Observa-se, então, a partir daí, alguns sintomas psicológicos do estresse,
como auto-cobrança, perda do senso de humor, apatia, depressão, insônia, cansaço
excessivo, irritabilidade, um mal estar generalizado (sem causa específica),
problemas dermatológicos, sensação de incompetência em todas as áreas, vontade de
fugir de tudo, raiva, etc. Alguns jovens chegam a ficar rebeldes, pensando que os
pais os traíram.
Segundo Soares (2002), já existem estudos que mostram os diversos
sintomas desta fase, por exemplo, Machado entrevistou 750 adolescentes em 5
estados brasileiros e constatou que 92% destes adolescentes transitavam
alternadamente pelos mais diversos estados de humor, enfrentando problemas de
estresse cognitivo e somático frente à organização dos estudos.
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Uma outra pesquisa foi realizada por um grupo de professores do curso de
psicologia da Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Assis (SP), da
Universidade Estadual Paulista/UNESP, com 921 jovens, de ambos os sexos,
candidatos às áreas de Humanas, Exatas e Biológicas. Nesta pesquisa verificou-se
como o estresse se manifesta nos adolescentes durante a fase da escolha profissional
e de preparação para os vestibulares.
Segundo os autores Motta, Frei e Silva Filho (1998), os sintomas do
estresse começam a ficar mais evidentes um mês antes das provas dos vestibulares,
mas é comum os jovens não perceberem que já se encontram em processo de estresse
muito antes disto, o que dificulta a tomada de medidas preventivas.
Em 46% dos casos, o adolescente sente vontade de fugir de tudo, sintoma
acompanhado pela sensação de angústia, ansiedade e medo sem causa aparente.
Cansaço constante e excessivo também tem alta incidência, atingindo 39,75% dos
jovens. Além disso, cerca de 25% dos adolescentes têm sono agitado, sentem-se
incompetentes e só pensam no mesmo assunto. Quando falta uma semana para a
realização das provas, o cansaço e a irritação aumentam. Neste período podem
aparecer os primeiros indícios do famoso “branco” ou problemas de memória.
Nas 24 horas que antecedem a prova do vestibular, os sintomas
psicossomáticos são mais intensos. Cerca de 40% dos entrevistados disseram que há
uma mudança brusca de apetite, tensão muscular, distúrbios do sono, mãos e pés
frios (16,34%) e nó no estômago (25,39%).
Todos estes sintomas, segundo a pesquisa, estão relacionados também à
pressão exercida pela família, pois, o jovem sempre se imagina sendo julgado pelos
outros, principalmente pela família, e ainda unicamente pelo seu desempenho no
vestibular. Esta preocupação é um dos grandes motores de estresse pré-vestibular.
Assim, percebemos que cada família elabora esta situação como pode.
Alguns pais tentam ajudar estudando com o filho, outros cobram muito desempenho
e outros preferem acompanhar a crise dos seus filhos à distância, com medo de
atrapalhar. Porém, nenhuma família toma estas decisões com segurança.
Conforme nos diz Soares (2002), o vestibular está inchado de ansiedade e
nem sempre é possível contar com o apoio da família. Raros são os pais que sabem
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dar atenção e conversar, pois, os jovens sempre têm a expectativa de que as pessoas
se importem com eles.
Um outro pesquisador, Bianchetti (1996), acompanhou, de perto, alguns
jovens em processo de escolha profissional e de vestibular. Ele observou que o
vestibular, como qualquer outro rito de passagem, traz um sentimento de perda muito
grande : - dos colegas, dos amigos, do lugar onde o jovem nasceu, da casa dos pais
com tudo à mão.
Este “sentimento de perda” lembra outras complicações da adolescência,
como a falta de interesse pelo estudo, a desorganização nos estudos e também uma
certa hostilidade demonstrada pelos adolescentes em relação ao colégio onde sempre
estudaram, ou seja, alguns jovens da terceira série do ensino médio chegam a dizer
que não vêem a hora de “se livrarem” do colégio.
Tais comportamentos podem ser decorrentes de um mecanismo de defesa,
de natureza inconsciente – é como se o adolescente tentasse negar o sofrimento desta
época, causado pela ansiedade de separação (MÜLLER, 1988).
O jovem sente, então, a perda do amor e da proteção das pessoas e do
colégio de tantos e tantos anos sem poder mudar nada.
A revista Veja (12/11/97, p. 82) também destaca este sentimento de
“perda”, típico do vestibular:
“O vestibular é uma das três grandes causas de estresse na sociedade. As
outras duas são a morte de um familiar e o desemprego”, diz o psiquiatra Henrique
Schützer Del Nero, do Instituto de Pesquisas Avançadas da Universidade de São
Paulo (USP).
Enfim, Levenfus (1997) quer nos dizer que o jovem que está enfrentando o
vestibular e se definindo por um papel profissional é uma “entidade no limiar”, ou
seja, ele ainda não se aceita como é, não sabe quem ele é realmente, nem o que
conseguirá ser. Suas escolhas são feitas de forma insegura e com muitas dúvidas. Em
outras palavras, o jovem está, neste momento da sua vida, sem identidade.
Por isto, em nossa cultura, não é tarefa fácil a passagem da identidade
infantil para a identidade adulta, pelo contrário, esta passagem é um verdadeiro
enigma. Observa-se que, por mais que os jovens se preparem para a batalha nestes
51
processos de seleção, muitos não têm esperança, mesmo os mais preparados em
conhecimentos sentem-se despreparados emocionalmente.
Para agravar a situação, eles lêem nos jornais e nas revistas e escutam pela
televisão várias pessoas falando sobre as características atuais exigidas pelo mundo
do trabalho, que são a posse de conhecimentos cada vez mais versáteis e amplos, o
que torna imprescindível a descoberta, pelos próprios adolescentes, das suas maiores
habilidades, dos seus principais talentos, da sua “vocação”.
Freqüentar uma universidade, atualmente, já não significa ascensão social
nem status, porém, ainda significa a principal porta de entrada para o mercado de
trabalho.
Ressaltamos, portanto, uma associação complexa entre estes três tópicos:
escolha profissional, vestibular e auto-estima.
Entende-se que, conforme a estrutura emocional e a história familiar, a
comparação com os outros pode fazer mal, por isto, há duas formas de passar pela
concorrência do vestibular: - uma delas é deixar afetar a auto-estima, isto é,
conforme a opinião sobre si mesmo criar-se-á uma pré-disposição para estruturar
uma baixa auto-estima e não conseguir a tão desejada aprovação. A outra forma de
passar pelo vestibular é utilizar a experiê ncia para crescer interiormente.
Abraçar um futuro envolve, inicialmente, ser selecionado através deste
exame estressante, portanto, é preciso auto-controle para enfrentar esta situação,
potencializando o próprio desempenho.
Soares (2000) nos diz que a situação do vestibular aproxima-se de uma
neurose, pois, o jovem sente-se dividido entre a vontade de aproveitar a vida e a
urgência de estudar para conseguir a vaga que tanto precisa. Resultado: - ele acaba
ficando mais ansioso.
Pode-se dizer, então, que nem sempre se consegue a tão desejada aprovação
no vestibular, o que pode levar o jovem a acreditar que existam grandes deficiências
em si mesmo, fazendo-o desistir, futuramente, de todo e qualquer empreendimento
que envolva desafios.
Enfim, o vestibular é a angústia dos estudantes, o que também mexe
conosco, pois, todos nós temos nossas cicatrizes.
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Só existe uma população livre deste terrorismo: - aquela que sabe que
jamais terá acesso a uma universidade.
2.4 A falta de informação dos jovens sobre as profissões e o mundo do
trabalho
A título de ilustração, citaremos algumas frases ouvidas durante o trabalho
de Orientação Profissional :
-“E se eu não passar no vestibular?...Eu tenho que passar!"
-
“Eu estou muito nervoso...parece que meu cabelo está caindo..”
-
“Fui muito mal.....deu branco na hora da prova”.
-
“Não consigo estudar para o vestibular....me dá um sono... .”
-
“Eu quero uma profissão que dê dinheiro”.
-
“Para que escolher uma profissão se vejo muitas pessoas não
exercendo a profissão que escolheram? ”
-
"Devo fazer um curso superior ou não?"
-
"Devo fazer Administração de Empresas ou Medicina?...acho que
quero os dois".
-
“Para mim, o que importa é passar no vestibular ainda este ano.”
-
“Minha mãe quer que eu faça Medicina porque sempre se encantou
com a profissão”.
-
" A universidade é muito difícil, não consigo me enxergar... "
-
"Tenho medo de errar...são muitas as opções... como vou escolher...? ”
-
"Não me sinto preparado para escolher uma profissão que é para toda
-
“Como escolher uma profissão se eu não sei se o seu Mercado de
a vida.”
Trabalho vai estar bom daqui a cinco anos ? "
-
“O que é vocação? ”
E ainda:
53
"Eu sempre gostei de matemática, tirava notas boas e fiz vestibular para
Engenharia. Cursei dois semestres e não suportei mais. Não conseguia me ver
trabalhando em obras".
Nota-se que este jovem achou que seria suficiente tomar a decisão
profissional com base apenas na continuidade do estudo das matérias escolares, nas
quais ele era bem sucedido.
“Não sei o que eu faço, minha mãe é médica e eu escutei a vida inteira que
eu seria médica, mas não me identifico com esta profissão”.
Vê-se, neste caso, que a jovem está preocupada com a expectativa familiar.
“Eu sempre gostei muito de praticar esportes, acho que vou fazer Educação
Física ”.
Neste caso, o contato direto com a atividade relacionada foi confundido
com a profissão.
Estes são alguns exemplos do problema vivido pelos jovens. E ainda podese dizer que as profissões são estereotipadas, quando não, caricaturadas, por
exemplo: a enfermeira é “boazinha”, o médico é um “sacerdote”, o sociólogo é um
“subversivo”, o psiquiatra e o psicólogo são “loucos”, etc. Tudo isto já faz parte do
folclore das profissões e compõe imagens que, inadvertidamente, contribuímos para
perpetuar.
Ouve-se também:
-
" Eu quero fazer Turismo porque eu adoro viajar".
-
“Você deve fazer Odontologia porque esta profissão é para mulher”.
-
“Arquiteto é o cara que não foi suficientemente macho para encarar a
Engenharia e nem mulher o suficiente para fazer decoração”.
-
“Eu vou fazer Gastronomia porque eu gosto de cozinhar”.
-
“Eu acho que vou fazer Medicina porque eu gosto do programa
Plantão Médico”.
-
" Eu quero fazer Psicologia porque eu adoro astrologia e mistérios".
-
" Eu quero fazer Publicidade porque esta vida é cheia de glamour".
54
-
" Eu acho que vou fazer Relações Públicas porque eu gosto de
organizar festas".
-
"Eu quero fazer Jornalismo porque eu adoro aventuras".
-
“Eu vou fazer Audio-Visual porque eu gosto de consertar televisão”.
Vê-se, portanto, que os jovens recebem muitas informações erradas a
respeito das profissões e estas informações se unem à imaturidade e ao
desconhecimento que o jovem tem dele mesmo e da realidade à sua volta.
Isto é o suficiente para causar muito estresse, que prejudica na adequação
da concentração, nas reflexões e nos insights limitando as possibilidades de sucesso
do jovem e dificultando a construção de um verdadeiro projeto de vida.
Por isso, é importante também que derrubemos certos mitos para os
adolescentes para que eles possam enxergar a realidade como ela realmente é,
procurando melhorá- la. Por exemplo, quem escolhe Direito, porque sonha em fazer
justiça, precisa se preparar para a frustração, porque o advogado tem que adaptar as
necessidades de seu cliente às leis.
Quem escolhe ser médico para cuidar dos outros, terá de fazê- lo naqueles
pequenos minutos de consulta que o plano de saúde paga, recebendo o que o
convênio paga.
Vida de publicitário não é nenhum glamour, pelo contrário, o publicitário
precisa ser um obstinado para sobreviver num mercado extremamente competitivo e
estressante, pois, num mundo globalizado como o nosso, a Publicidade é um ramo de
atividade muito concorrido.
E ainda, emoções e aventuras só acontecem para alguns profissionais de
Jornalismo, não para todos.
Em vista do exposto, é fundamental não se deixar impressionar pelo aspecto
formal das profissões (aparências), o qual pode obscurecer o conteúdo delas, isto é,
suas atividades essenciais, suas obrigações, suas responsabilidades, seu compromisso
social, seu ambiente de trabalho, etc, contribuindo para construir as imagens ilusórias
da carreira.
É preciso ter presente também que as profissões não ocorrem no vazio. Elas
estão inseridas num processo histórico, no qual atuam não só a infra-estrutura
econômica e as grandes linhas ideológicas, mas também o momento político.
55
Por exemplo, nos anos 60, período marcado por uma enorme repressão, era
muito complicado ser jornalista, educador, poeta, músico, cantor, compositor,
escritor, etc, porque estes profissionais, como formadores de opinião que são, só
conseguiam trabalhar se utilizassem metáforas, símbolos, etc, ou seja, era preciso
muita criatividade da parte deles para não serem exterminados (WHITAKER, 1997).
Atualmente, não por acaso, Design, Relações Internacionais, Engenharia de
Telecomunicações, Engenharia da Computação, Ciências da Computação, Robótica,
Nanotecnologia, Biotecnologia, Administração de Empresas, Economia, Publicidade,
Propaganda e Marketing, Gestão de Negócios (manutenção e controle da qualidade),
etc, são as profissões mais valorizadas no mercado de trabalho.
A escolha de uma profissão se torna mais estressante quando se sabe que a
realidade dos cursos e das profissões é intransmissível, ou melhor, o que pode ser
transmitido durante uma entrevista com um profissional é apenas e somente a
“realidade” dele, quer dizer, do profissional que pretende transmitir a “verdade”
sobre a sua profissão (VOLTOLINI, 1999).
Pergunta-se, então: - de que adianta o jovem pesquisar sobre as profissões e
sobre as possibilidades atuais do mercado de trabalho?
Respondemos que mesmo que se tente fornecer aos jovens uma informação
geral sobre as profissões, eles nos escutam de posições diferentes e jamais
conseguiremos passar a eles uma informação geral sobre as profissões.
Uma simples conversa feita com cada adolescente após uma entrevista com
um profissional mostra os diferentes recortes que eles fazem, ou seja, cada jovem
assimila o que lhe for possível assimilar.
É importante destacar que, apesar disso, não podemos desconsiderar tais
informações, pois elas auxiliam na quebra de muitos estereótipos das profissões.
Segundo Voltolini (1999), as informações dão consistência aos movimentos
do desejo e, quando se busca informações com um profissional, organiza-se as
identificações e, por isto, as informações são importantes.
Em termos psicanalíticos dizemos que as informações dão supremacia ao
princípio da realidade.
Pode-se observar também que os jovens recebem, a todo momento, através
da família, da escola, dos amigos, da igreja, dos meios de comunicação, etc, várias
56
informações a respeito de “mundo”, a respeito do que é “ser criança”, “ser
adolescente”, “ser adulto”, “ser homem ou ser mulher”, o que lhes influencia ainda
demasiadamente.
Sabe-se que é neste processo de relações diversificadas e variadas que o
jovem interioriza valores e constrói formas próprias de perceber e estar no mundo.
Ressalta-se,
então,
que
o
jovem
precisa
apropriar-se
dessas
multideterminações que o impelem para um projeto específico, quer dizer, ele precisa
posicionar-se, assumir-se, isto é, fazer uma escolha e, a partir disso, ter a certeza de
que está crescendo e não que saiu perdendo (LEHMAN, 2005).
Assim, a família e a escola - também vistas como espaços de cuidados e de
afetos - são indispensáveis nesta etapa “multideterminada” por escolhas e projetos,
porque elas podem questionar a ideologia dominante e criticar seus valores,
proporcionando outras reflexões aos jovens e sendo catalisadoras de projetos mais
autônomos.
Por outro lado, elas poderão ser também um elemento de pressão e de
reprodução desta ideologia ao determinar o que o jovem deve escolher para sua vida,
reforçando valores de competitividade em detrimento do grupo ou em detrimento do
não reconhecimento do outro, como sujeito digno de respeito.
Gostaríamos de dizer que reflexões desta natureza são cada vez mais
importantes no trabalho de Orientação Profissional para que o jovem esteja sempre
fazendo uma revisão do seu projeto de vida. Uma destas reflexões é sobre a história
da família. Falar sobre as pessoas da família, o que elas fazem, qual o passado da
família, de onde ela vem, onde ela ainda quer chegar, o que as pessoas desta família
já conquistaram, etc, são aspectos fundamentais do nosso trabalho para que o jovem
se conheça melhor e para que se sinta motivado a perseguir planos inovadores.
Percebe-se que o jovem tem necessidades de se enxergar como sujeito de
sua própria ação, necessidades de refletir sobre si mesmo, sobre a sua história, de
modo a ter cada vez mais consciência da realidade que o cerca, transformando-se e,
ao mesmo tempo, transformando as dificuldades que esta realidade lhe apresenta,
enfim, responsabilizando-se, cada vez mais, pela construção de um projeto próprio.
57
2.5 A Adolescência, seus Lutos e os Lutos da Escolha Profissional
Bohoslavsky (1987) destaca que a pessoa que escolhe uma profissão quase
sempre é um “adolescente”, o que equivale dizer que se está numa fase de
experimentar grandes mudanças, tendo que deixar algumas coisas para ganhar outras.
Este fato transforma este período da vida num período essencialmente crítico, pois, a
famosa pergunta “o que você vai ser quando crescer” deixa de ser tão simples e passa
a incluir questões que não faziam parte das preocupações do adolescente.
Constata-se, então, neste momento, uma crise de identidade, ou seja, o
adolescente percebe que é preciso pensar em que tipo de pessoa quer ser futuramente
(ou não), que estilo de vida gostaria (ou não) de levar, o que gostaria (ou não) de
realizar, em que teria mais habilidade, enfim, o que seria (ou não) possível fazer,
inclusive em termos financeiros.
E assim, o jovem pode perceber, muitas vezes, que o que ele gostaria de
fazer não é o que esperam dele. Outras vezes, ele pode não se sentir capaz de
trabalhar naquilo que gostaria, ou então, pode vir a descobrir que a liberdade que ele
supunha ter para escolher uma profissão é relativa.
Desta maneira, o adolescente vai formando sua identidade profissional à
medida que revisa seu projeto de vida, ou seja, à medida que consegue elaborar seus
lutos e reconstruir sua identidade pessoal (BOHOSLAVSKY, 1987).
É por isto que, na adolescência, segundo Aberastury e Knobel (1981),
costumam ocorrer problemas importantes de saúde mental, tais como anorexia,
esquizofrenia, depressão, etc, todos tendo como desencadeantes as dificuldades no
processo de elaboração de lutos.
Segundo Bohoslavsky (1987) o processo de constituição da identidade
profissional ocorre desde a infância, a partir de inúmeras identificações com adultos
significativos que desempenham papéis profissionais. Estas identificações vão sendo
incorporadas à personalidade tornando-se próprias.
É comum, então, que o adolescente admire um determinado profissional e,
a partir, então, das gratificações ou das frustrações com profissionais significativos,
se construirá o tipo de vínculo com o mundo adulto em termos profissionais.
58
Assim se formará o Ideal de Ego, isto é, a partir do que se admira e deseja e
a partir do que se rejeita é que surgirão as expectativas a respeito de si mesmo e as
aspirações do modo de ser que se quer alcançar (BOHOSLAVSKY, 1987).
Este conceito designa, em Freud, as representações culturais e sociais, os
imperativos éticos tais como são transmitidos pelos pais (NASIO, 1997), mas não
estamos falando do Superego, que é diferente.
Portanto, especificamente sobre a questão profissional, Bohoslavsky (1987)
nos diz que uma pessoa adquire sua identidade ocupacional quando integra suas
diferentes identificações e sabe o que quer fazer, de que modo fazer e em que
contexto. A identidade ocupacional incluirá, então, algo parecido com “à maneira de
quem”. Já a identidade vocacional se refere mais ao lugar do “sentido” da escolha
profissional (para que fazer ou por que fazer).
E assim, Vo ltolini (1999) vem nos dizer que será através do conceito de
“reparação” que Bohoslavsky buscará “sentido” para a resposta sobre o “sentido” da
escolha vocacional: -
“A escolha da carreira mostraria a escolha de um objeto
interior a ser reparado. Isto significa que a carreira seria uma resposta do ego - o
invocado - a um objeto interior danificado - o invocante” (BOHOSLAVSKY, 1987,
p. 73). Tal objeto interno seria a preservação de uma vida psíquica infantil no adulto
e o que se espera é que o adolescente seja capaz de fazer uma escolha de carreira
verdadeiramente reparatória, o que significa “se preparar” para se relacionar
sinceramente, genuinamente ou naturalmente (sem defesas) com a profissão
escolhida (VOLTOLINI, 1999).
Ainda podemos compreender que a concepção de reparação traz a idéia
psicanalítica de que o trabalho é uma manifestação do instinto de vida, pois, o que se
repara (ou o que se conserta) é algo que se acredita ter destruído, apesar de senti- lo
como bom (BOHOSLAVSKY, 1987).
Portanto, este vínculo com o objeto bom (que seria algo referente à vida
psíquica infantil) é ambivalente, quer dizer, além de ser amado, é odiado, pois, há
sempre culpa pela “destruição” deste objeto bom (destruição operada na fantasia),
mas que, agora, com a reparação, pode chegar ao fim.
É importante assinalar ainda que, de acordo com Bohoslavsky (1987), a
reparação nunca é total e absoluta, pois, uma restituição integral do objeto bom
59
corresponde a uma fantasia onipotente. Portanto, sempre se tratará de uma pseudoreparação que será motivada por mecanismos defensivos contra a ansiedade oriunda
da destruição ou do ódio pelo objeto bom.
Para se reparar “autênticamente” (lembrando que a reparação nunca é total)
torna-se necessário reconhecer a culpa pelo ódio ou pela destruição do objeto bom.
Já numa reparação maníaca, esta culpa é negada e, através do desprezo,
nega-se os aspectos bons do objeto. Podemos ver a reparação maníaca em muitos
adolescentes que negam as dificuldades da escolha profissional, ressaltando como é
fácil para eles tomarem a decisão.
Na reparação compulsiva, o adolescente se sente muito culpado pela
destruição do objeto bom (culpa persecutória) e, por causa disto, se cobra demais
(ego funcionando rigidamente), de modo a restringir a autonomia da escolha.
Por último, na reparação melancólica, o adolescente se sente mais culpado
ainda pela destruição do objeto bom e se ataca constantemente, como se a única
maneira de consertar o estrago fosse destruindo-se a si mesmo (VOLTOLINI, 1999).
A possibilidade de “reparar”, de acordo com Bohoslavsky (1987), é
totalmente pessoal e implica a presença de certas condições: - a) aceitar a realidade,
b) tolerar a dor, c) fazer-se responsável pelo ódio a respeito do objeto que
simultaneamente era amado e odiado, e d) desenvolver comportamentos, na fantasia
e na realidade, que procurem reconstruir esse objeto danificado.
Como consequência da reparação aparece, então, o conceito de luto, o qual
também é muito pessoal. Conforme já nos disse Bohoslavsky (1987), toda escolha
implica renúncias, portanto, é necessário se despedir daquilo a que se renunciou (as
dúvidas sobre seguir várias carreiras, geralmente, representam a presença de vários
objetos interiores danificados invocantes, o que leva o jovem a ter que renunciar à
satisfação de alguns).
E assim, quem escolhe uma profissão, não está escolhendo apenas uma
carreira, está escolhendo “quem ser”, “com quem” trabalhar, “com que” trabalhar,
“para quem”, “para que”, “como”, “quando”, “onde”, isto é, está escolhendo um
papel profissional adulto.
Embora confuso ainda este “quem ser” é uma síntese de várias
identificações e que até podem ser opostas e contraditórias, não importa, porém, na
60
medida em que escolhemos algo, perdemos algo também, ou seja, deixamos objetos
e formas de ser (colegas, professores, outros projetos, a onipotência, etc). Por isto,
Bohoslavsky (1987) nos diz que a escolha da carreira supõe sempre a elaboração de
lutos.
O que devemos entender é que o adolescente passa por muitas mudanças
(físicas e psicológicas) em busca de uma identidade (a sua verdade) e por isto ele é,
antes de tudo, um sujeito desafiador. Ele tem uma grande necessidade de se
diferenciar da família e de romper a relação fusional pais-criança da infância,
conquistando aos poucos sua independência psicológica.
Portanto, é nesta fase de escolha profissional que o adolescente precisa
encontrar outras referências para seguir no processo de construção de sua identidade,
o que implica buscar parâmetros fora dos modelos parentais, pois, os pais já estão
incorporados à subjetividade. Daqui para frente é preciso certo afastamento dessas
referências, donde vem a necessidade que os adolescentes sentem de buscarem seus
ídolos e amigos. É como se os pais deixassem de ser a referência e o grupo assumisse
esta função, adotando um outro modelo. Por isto, a conduta do jovem, assim como
suas roupas, seu jeito de se expressar, seus hábitos, etc, estarão sempre na contra mão
do tradicional.
Devemos nos lembrar que o ambiente em que o adolescente está inserido
contribui de forma decisiva para o processo de individuação e de independência e,
portanto, os pais devem entender que estão sendo “destruídos” apenas na fantasia do
filho adolescente, tornando-se imprescindível que eles continuem se vendo como
guias e representantes dos valores sociais, mesmo naqueles momentos em que estão
sendo “desprezados” ou “atacados”.
Segundo Knobel (1981) há uma confusão de papéis na adolescência, pois, o
jovem não deseja mais a dependência infantil, mas também não assume a
independência adulta, por isto ele está sofrendo um fracasso de personificação. No
grupo, o adolescente delega grande parte de seus atributos e, nos pais, a maioria das
obrigações e responsabilidades. Ou seja, é a irresponsabilidade típica do adolescente,
já que ele não tem nada a ver com nada e são os outros os que se encarregam do
princípio da realidade.
61
Como conseqüência deste fracasso de personificação aparece a falta de
caráter que, por sua vez, leva o jovem a confrontos com a realidade.
O adolescente, então, está vivenciando vários lutos: - o luto pelo corpo
infantil (que não existe mais), pelos pais da infância (que não existem mais) e pelo
paraíso perdido da infância, com todas as fantasias onipotentes que nela existiam
(ABERASTURY ; KNOBEL, 1981).
Segundo estes mesmos autores, são as mudanças corporais que levarão a
um sentimento de impotência frente à realidade concreta. O jovem se vê como um
espectador passivo diante delas, o que será compensado pelo manejo onipotente das
idéias. Nesta fase, então, o desenvolvimento do aspecto intelectual substituirá o
corpo infantil perdido, embora esteja ocorrendo um fenômeno de despersonificação,
que significa ainda possuir uma mente infantil num corpo que está mudando.
Segundo Lisboa (1997), a perda do corpo infantil é sentida como uma invasão, assim
como as cobranças do comportamento adulto que exigem, nada menos, do que o
assumir uma nova identidade. Como conseqüência, o adolescente apresentará
flutuações de identidade como nunca antes havia feito e elas serão tão surpreendentes
que, se perpetuadas, serão consideradas patológicas.
Este problema mostra, então, segundo Aberastury (1981), a outra face
escondida debaixo do disfarce da adolescência difícil: - é a de uma sociedade difícil,
incompreensiva e hostil, que não cede espaço a alguém que quer agir sobre o mundo
e modificá- lo sob a ação de suas próprias transformações.
Portanto, a tendência que caracteriza esta etapa é a necessidade do jovem de
fazer parte do mundo adulto, embora haja muitas dificuldades, da parte do jovem,
para ingressar neste mundo e, ao mesmo tempo, muitas dificuldades, da parte do
adulto, para dar passagem a esta nova geração que lhe imporá uma revisão crítica de
suas conquistas e do seu mundo de valores.
Em outras palavras, Aberastury e Knobel (1981) nos dizem que o
crescimento físico do adolescente e as modificações do seu corpo impõem- lhe uma
mudança de papel frente ao mundo exterior, mas, ao mesmo tempo, este mesmo
mundo externo cobra-lhe muitas coisas, como se ele fosse um adulto, caso ele não o
assuma. Tais cobranças, conforme já dissemos, são vividas como uma invasão à sua
personalidade levando-o a manter-se nas suas atitudes infantis para se proteger, para
62
se defender. É como se, primeiro, o adolescente precisasse reencontrar-se com os
aspectos do seu passado, tomando fôlego para depois enfrentar o futuro. Ou seja,
quando o jovem se afasta do mundo exterior e se refugia no seu mundo interno
infantil é para estar seguro, pois, em todo processo de crescimento existe um impulso
para o desconhecido e, ao mesmo tempo, um temor a ele.
Este refúgio ao mundo interno infantil deve-se ao fato de que lhe custa
fazer o luto pela infância e, ao mesmo tempo, deve-se também ao fato de que a
infância é ainda o único mundo que ele conhece, ou seja, seu papel frente ao
ambiente imediato (escola, colegas, etc), ainda é um papel de criança, ao qual ele já
estava adaptado há anos. Por este motivo o jovem tem uma atitude crítica frente aos
adultos em geral. Ele não quer ser como determinados adultos que rejeita, e então,
ele escolhe, em troca, um ideal. Mas é evidente que o mundo interno que se
desenvolveu através de toda a sua infância, levando- lhe a identificar-se com aspectos
de seus pais, professores, etc, servir- lhe-á de ponte para ligar-se novamente ao
mundo externo, que é novo para ele, em conseqüência da sua mudança de status.
O luto pela infância perdida e o luto pelos pais da infância mistura o ego e o
mundo exterior e é como se o jovem dissesse: - “Não sou mais uma criança, perdi
esta condição, meus pais são, agora, os pais de um adulto e eu tenho que me
comportar como tal, assim como o meu corpo, a minha mente e a sociedade em que
vivo exigem isto de mim”. É por isto que um dos problemas mais importantes do
adolescente é a busca de sua identidade.
Enfim, a característica da adolescência é que a criança, querendo ou não,
vê-se obrigada a entrar no mundo do adulto, primeiramente, através do crescimento
físico e das mudanças do seu corpo, mais tarde, através de suas capacidades e de seus
afetos. Por isto, é muito freqüente que aos 16, 17 ou 18 anos o jovem se mostre mais
amadurecido em um aspecto do que em outro. Segundo Aberastury (1981), suas
atitudes infantis se devem a um jogo de defesas frente à invasão das mudanças
corporais que levam a um no vo esquema corporal, o qual modifica sua posição frente
ao mundo externo obrigando- lhe a procurar um novo papel social, com novas pautas
de convivência, pois, o que aprendeu como criança não lhe serve mais.
Um pouco mais tarde, nas palavras de Bohoslavsky (1987), desaparecerá o
confronto com os pais e haverá a retomada do modelo adulto, juntamente com um
63
distanciamento progressivo do grupo de amigos. Esta será considerada a fase de
inserção progressiva no mundo adulto e o jovem se engajará à escolha profissional.
Ainda segundo o mesmo autor, para que o adolescente possa retomar o
modelo adulto familiar e aceitar o distanciamento do grupo de amigos, ele terá que
enfrentar a perda da identidade adolescente (o fim do ensino médio, o distanciamento
dos amigos, o abandono das formas de agir e de se vestir próprios da adolescência), a
perda da onipotência (característica da adolescência) e, em relação à questão
profissional, ele terá que fazer o luto das escolhas ao decidir-se por apenas uma
delas.
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3. Conceitos gerais sobre o “stress” ou “estresse”
O termo “stress”, em inglês, ou “estresse”, em português, foi desenvolvido
pelo médico vienense Hans Selye, em 1936. Porém, antes dele, segundo Lipp e
Malagris (2001), no século XVII, esta palavra já era utilizada pelos ingleses para
descrever o complexo fenômeno composto de tensão-angústia-desconforto,
referindo-se à opressão e à adversidade.
No século XVIII, o termo “stress” passou a ser utilizado para expressar uma
ação de força, uma pressão ou influência muito forte sobre uma pessoa, causando- lhe
uma deformação, tal como um peso que faz com que uma viga se dobre.
No século seguinte (XIX), algumas especulações foram realizadas a
respeito de uma possível relação entre eventos emocionalmente fortes e doenças
físicas e mentais, mas tal relação não atraiu a atenção dos pesquisadores.
Mais tarde, já no século XX, esta idéia da relação entre eventos
emocionalmente fortes e doenças físicas e mentais foi retomada pelo médico inglês
Sir William Osler, que igualou o termo “stress” (eventos estressantes) a “trabalho
excessivo” e a reação do organismo ao estresse (strain, em inglês) a “preocupação”.
Em outras palavras, em 1910, Sir Osler sugeriu que o excesso de trabalho e
de preocupação estavam ligados a doenças do coração. Suas observações foram
baseadas num estudo que ele fez de colegas médicos que se preocupavam
excessivamente com o trabalho e apresentavam angina pectoris. Mas ainda não foi
desta vez que a área médica se interessou pelo assunto.
Somente em 1926, com as observações do (ainda) estudante de medicina
Hans Selye, da Universidade de Praga, o termo “stress” começou a se desenvolver.
Hans Selye ficou fascinado pelas reações semelhantes observadas em
pacientes que sofriam patologias diferentes frente a situações tristes, angustiantes, e
passou a chamar este conjunto de reações de “síndrome geral de adaptação” ou
“síndrome do stress biológico”, a qual passou a ser conhecida como a “síndrome do
simplesmente estar doente”.
Em 1936, já médico e endocrinologista, Selye sugeriu o uso da palavra
“stress” para definir a síndrome produzida por vários agentes aversivos e foi assim
65
que a palavra “stress” ou “estresse” entrou para a literatura médica tal como a
conhecemos hoje.
Os trabalhos de Selye foram influenciados pelas descobertas do inglês
Walter Cannon que, em 1939, sugeriu o termo “homeostase” para designar o esforço
dos processos fisiológicos para manterem um estado de equilíbrio interno no
organismo. Selye utilizou este conceito (homeostase) para definir “stress” como algo
que quebra este equilíbrio interno (LIPP; MALAGRIS, 2001).
Segundo Mello (2003), a palavra “stress” ou “estresse” foi transportada da
engenharia civil para a fisiologia. Na engenharia ela era utilizada em estudos que
apontavam para a necessidade de se considerar as características das cargas na
escolha dos materiais para a construção das pontes.
A analogia com o ser humano foi ventilada, isto é, assim como nas pontes,
também o ser humano dispõe de uma capacidade específica para suportar
determinadas cargas emocionais.
Por isto, segundo vários autores, tudo que quebra o equilíbrio interno de um
ser humano pode ser entendido como um evento estressor.
Ainda conforme Lipp e Malagris (2001), a palavra “estresse” tem vários
significados. Por exemplo, quando uma pessoa diz “isto me estressa”, podemos
perceber, nesta situação, um estímulo capaz de causar desconforto. Ou então, na
frase, “vou estressar o sujeito da pesquisa”, podemos perceber que estamos diante de
uma ação. E ainda, “estou estressado” indica um estado. Na linguagem comum,
significa cansaço e preocupação.
Vê-se, então, que a palavra “estresse” é empregada para definir tanto o que
causa a tensão quanto seus efeitos, isto é, o termo “estresse” é utilizado tanto para
descrever os estímulos que geram uma quebra na homeostase do organismo quanto a
resposta comportamental criada por tal desequilíbrio (LIPP ; MALAGRIS, 2001).
E assim, o termo “estresse” (com seus vários significados), está presente em
muitos lugares, tanto nas publicações científicas quanto no linguajar do povo, sendo
útil para definir algo que todo mundo, um dia, já vivenciou.
O estresse é um processo psicofisiológico e não uma única reação (LIPP;
MALAGRIS, 2001), pois, no momento em que a pessoa se sujeita a uma fonte de
66
tensão (ou a um estímulo estressor), instala-se no organismo um longo processo
bioquímico, com alta produção de hormônios, entre eles, a adrenalina.
O início deste longo processo é igual para todas as pessoas, com o
aparecimento de taquicardia, sudorese excessiva, tensão muscular, boca seca, etc.
Por isto, o estresse sempre fez parte de um dos mais antigos mecanismos de
sobrevivência da espécie, quer dizer, considerando-se toda a história da humanidade
pode-se dizer que o estresse sempre existiu e não é um mal em si. Também não é
uma doença, nem uma invenção do mundo moderno.
O estresse produz um estado de alerta físico necessário na natureza
humana: - as ações ficam mais rápidas e assertivas, a química cerebral altera-se, os
músculos ficam tensos, a pressão arterial sobe, o pensamento fica mais ágil e a
atenção e a concentração aumentam. Estas reações se processam nas camadas mais
primitivas do cérebro. São, portanto, instintivas, animais.
O que queremos dizer é que, antes das civilizações modernas, as
manifestações relacionadas ao estresse eram destinadas à sobrevivência diante dos
perigos concretos. Nossos ancestrais lutavam contra os perigos da natureza
(alterações climáticas), guerras e animais selvagens.
O homem moderno continua lutando contra as ameaças, apesar destas se
apresentarem de forma mais abstrata, como a insegurança em relação ao trabalho, o
excesso de trabalho, riscos da violência urbana, falta de dinheiro, de respeito, a
ameaça de perder o emprego, etc. Estes pequenos desgastes do dia-a-dia vão se
acumulando e a sensação de cansaço é cada vez maior. Por causa da dificuldade de
se adaptar a estas situações e pressões diárias, a vida torna-se um fardo. Fica difícil
estabelecer prioridades e a auto-cobrança de um desempenho perfeito não dá folga.
Para se esquivar dessas pressões muitas pessoas começam a beber, comem
mais, tomam remédios, o sono fica prejudicado e tanta pressão prejudica o
raciocínio, a produtividade cai e a sensação de incompetência e insegurança cresce,
deixando a auto-estima deficiente.
Fisicamente, os sintomas mais comuns são a fadiga, pressão alta,
dificuldades para dormir, entre outras manifestações orgânicas. Tudo isto pode
culminar em depressão e em infarto, por exemplo.
67
Em outras palavras, durante toda a nossa vida, estamos submetidos a vários
estímulos estressores e a reação orgânica inicial é igual para todas as pessoas, ou
seja, o fígado libera açúcar para obter mais energia naquele momento difícil, as
pupilas se dilatam para que enxerguemos melhor na penumbra, o coração trabalha
mais acelerado e o sangue coagula mais rapidamente, indo dos vasos periféricos para
os músculos e para o cérebro a fim de facilitar uma ação, enquanto os glóbulos
brancos se preparam para as emergências.
O estresse é, na verdade, uma resposta complexa do organismo envolvendo
reações físicas, psicológicas, mentais e hormonais frente a qualquer evento que seja
interpretado pela pessoa como desafiante.
O enfoque deve ser na resposta do organismo ao estímulo mediado pela
interpretação que lhe foi dada. Este estímulo, interpretado como desafiador, provoca
uma quebra na homeostase do funcionamento interno do organismo que, por sua vez,
cria uma necessidade de adaptar-se para preservar o bem estar e a vida.
Cabe pontuar, mais uma vez, que o estresse não é uma doença a ser tratada
e sim um facilitador para que se desenvolvam doenças às quais o indivíduo esteja
predisposto. E não deve causar preocupação a ninguém a reação natural do estresse
que é necessária à nossa sobrevivência em situações de perigo, pois, o estresse não é
um distúrbio e sim a solução que o organismo tem para garantir sua manutenção e
equilíbrio.
Esta reação de estresse consiste em uma descarga hormonal que provoca a
dilatação das pupilas, aumenta a freqüência cardíaca, eleva a pressão arterial e eriça
os pêlos, tudo com a finalidade de preparar o organismo para enfrentar uma situação
fora do comum e, em geral, perigosa.
Passada a situação- limite, o corpo deve voltar ao seu estado normal, mas se
o perigo não se afasta, o estresse torna-se prejudicial.
O estresse também pode ser decorrente de características da própria pessoa,
dependendo muito da história de vida, o que faz com que haja uma grande variação
de uma pessoa para outra. Por exemplo, uma pessoa pode encarar um exame
qualquer como uma experiência de crescimento, enquanto outra pode sentir-se
amedrontada devido a expectativas negativas relacionadas a experiências anteriores
ou dificuldades de lidar com mudanças, baixa auto-estima, etc.
68
Em síntese, a reação do estresse apenas auxilia o ser humano e todos os
vertebrados a enfrentarem situações de perigo. Sem que tenhamos consciência, o
cérebro percebe riscos potenciais e, por meio de um mecanismo ancestral, do ponto
de vista filogenético, põe o corpo em estado de alerta numa fração de segundos: a
glândula supra-renal secreta os hormônios, o coração acelera e a pressão sobe. Tudo
pode terminar bem se a adrenalina e outros estimulantes orgânicos não
permanecerem na corrente sanguínea. Porém, se o hormônio cortisol atingir um alto
nível, conseqüências duradouras para o organismo estão pré-programadas, deixando
o sistema imunológico debilitado e o corpo sujeito às infecções.
Não há órgão no corpo humano que não fique marcado pelo estresse
crônico ou prolongado.
3.1 Estressores
Estressores são todos os estímulos (ou situações) geradores de um estado
emocional forte que quebram a homeostase interna, exigindo uma adaptação do
organismo como um todo (LIPP; MALAGRIS, 2001). Assim, a adaptação exigida de
alguém que va i casar ou de um jovem que vai prestar um exame qualquer gera
desgaste e pode ser considerado um processo de estresse. O agente, fato ou evento
que desencadeou tal processo é considerado um estressor, seja de natureza negativa
ou positiva, pois, o que importa é que houve um dispêndio de energia adaptativa para
poder lidar com o evento.
Os estressores podem ser classificados em internos e em externos.
Os externos são as condições externas que afetam o organismo, por
exemplo, mudanças políticas no país, acidentes, etc. Já os estressores internos se
caracterizam pelo modo de ser da pessoa, por exemplo, valores e crenças
inadequados,
distorções
cognitivas,
expectativas
infundadas,
padrões
de
comportamento competitivos e agressivos, falta de assertividade, dificuldades de
expressão de afeto, tendência à ansiedade ou à depressão, timidez, etc.
Existem situações e eventos que são naturalmente estressantes, como o frio,
a fome e a dor. Estes estressores são chamados “biogênicos” e não dependem tanto
69
de interpretação, atuando automaticamente no desenvolvimento do estresse, pois,
estão relacionados à sobrevivência humana.
Há também os estressores ocupacionais, os familiares, os interpessoais,
entre outros.
3.2 Sintomas e fases do estresse
Em 1956, Selye propôs três fases para o desenvolvimento do estresse. A
primeira foi chamada de fase de alerta, ocorrendo antes mesmo de uma avaliação do
córtex cerebral. Nesta primeira fase há uma mobilização geral do organismo, que se
caracteriza por uma intensa descarga de hormônios, os quais preparam o corpo para
uma possível ação. Selye denominou este processo de Síndrome de Adaptação Geral,
uma vez que esta reação do corpo foi considerada um comportamento adaptativo de
qualquer organismo vivo, normal e saudável. Se o estímulo é passageiro, a fase de
mobilização geral também o será, o nível de adrenalina voltará ao seu normal e o
corpo, ao seu estado de equilíbrio ou à sua homeostase, tendo fim a primeira fase do
estresse ou fase de alerta.
Se o estressor vem de longa duração, como por exemplo, excesso de
trabalho, o organismo tenta se adaptar a isto utilizando sua energia de reserva, devido
à sua tendência em procurar a homeostase interna.
Neste momento, em que o organismo tenta se adaptar ao estresse, ele estará
entrando na segunda fase do estresse, conhecida como fase de resistência ou de
adaptação ao estresse. Os sintomas desta fase são muito diferentes da primeira, pois,
o corpo já está sofrendo as conseqüências do cansaço.
Se a energia acumulada (reserva) for suficiente, a pessoa se recupera e sai
do processo de estresse. Porém, se a pessoa não possui estratégias para lidar com o
estresse, ou ainda, se existirem vários estressores ao mesmo tempo, como por
exemplo, além do excesso de estudo ou de trabalho, ainda a ameaça de fracassar ou
de perder o emprego, o organismo gastará toda a sua reserva de energia adaptativa e
o processo de estresse irá evoluir para a terceira fase do estresse, conhecida como
“exaustão”, que deixa o organismo vulnerável a doenças graves (físicas ou
psicológicas).
70
Na área emocional, por exemplo, podem aparecer a apatia, a depressão, a
sensação de desalento e a hipersensibilidade emotiva. Também podem aparecer
surtos psicóticos e crises neuróticas em pessoas predispostas a isto.
Na área física ou orgânica encontramos a hipertensão arterial, as úlceras, o
câncer, o vitiligo, a psoríase, a retração gengival, etc
Selye chamou esta situação de Distress ou mau estresse, pois, as
conseqüências para o organismo são trágicas.
Já dissemos linhas atrás que não é o estresse que provoca estas doenças, ele
é apenas um fator que agrava qualquer problema. E de acordo com a avaliação
cognitiva que fazemos dos problemas que nos acontecem, o processo de estresse será
deflagrado ou não (LIPP; MALAGRIS, 2001).
Entende-se melhor as alterações, as fases e os sintomas que ocorrem no
organismo estressado, quando se lembra que os principais sistemas de coordenação
do corpo são o sistema nervoso e o sistema hormonal. São eles os responsáveis pela
reação de “luta ou fuga” que ocorre no organismo em decorrência da presença de
uma situação de risco para o mesmo. São eles que se mobilizarão para uma ação à
medida que um determinado estímulo for sendo interpretado como um desafio.
Sabe-se, então, que o sistema nervoso divide-se em central e periférico,
sendo que o sistema central inclui o sistema nervoso autônomo e suas subdivisões –
o simpático e o parassimpático.
O sistema nervoso autônomo age de forma localizada, por meio de
hormônios, como a adrenalina (simpático) e a acetilcolina (parassimpático).
O ramo simpático e o ramo parassimpático trabalham de formas opostas,
isto é, quando um se encontra ativo e em movimento, o outro se encontra lento.
Porém, nem sempre ocorre desta forma e, por isto, deve-se enfatizar que os dois
ramos tentam se compensar para que a homeostase se mantenha.
Já o sistema hormonal age pela circulação sistêmica e está relacionado à
produção de adrenalina pela medula da supra-renal e à produção de hormônios
corticóides (pró- inflamatórios e antiinflamatórios) pelo córtex da supra-renal.
Os corticóides pró- inflamatórios (aldosterona e desoxicorticosterona) têm
ação inflamatória como uma reação de defesa dos tecidos a um estímulo e
71
influenciam o metabolismo mineral, retendo sódio e secretando potássio. São, por
isto, chamados mineralocorticóides.
Já os antiinflamatórios (cortisona e cortisol) agem sobre a inflamação
inibindo-a, sendo chamados de glicocorticóides, pois, além de inibirem a inflamação,
podem aumentar a taxa de açúcar no sangue.
Segundo Lipp e Malagris (2001), a ação dos corticóides pode ser
desencadeada pelo estresse e causar alterações no organismo, porém, esta ação é
necessária para que o organismo saiba lidar com situações de perigo, buscando o
reequilíbrio. No entanto, se o estresse for muito intenso ou prolongado, haverá
excesso de produção destes hormônios e prejuízos para o organismo como um todo.
Estas e outras alterações que ocorrem no organismo geram sintomas e
reações que definirão as fases do estresse de uma forma mais ou menos semelhante
em todas as pessoas.
O processo de estresse também foi dividido por Lipp (2000) em quatro
fases (uma a mais que Selye).
Na primeira fase do estresse ou fase de alerta, a pessoa fica vulnerável à
influência do estressor, como nos diz também Selye, havendo produção de
noradrenalina pelo sistema nervoso simpático e de adrenalina pela medula da suprarenal.
As células do córtex das supra-renais descarregam seus grânulos de
secreção hormonal na corrente sanguínea, ocorrendo, com isto, o gasto das reservas
de hormônio das glândulas. Ocorre também, nesta fase, a dilatação do córtex da
supra-renal e o sangue torna-se mais concentrado.
As mudanças hormonais que resultam desta fase contribuem para que haja
aumento de motivação e de energia, o que pode gerar maior produtividade no ser
humano (LIPP; MALAGRIS, 2001).
Na fase de resistência, ou segunda fase, o córtex das supra-renais acumula
grande quantidade de grânulos de secreção hormonal segregados e, assim, o sangue
apresenta-se diluído.
Lipp e Malagris (2001) enfatizam que, nesta segunda fase, ocorre uma
grande utilização de energia em função da busca de reequilíbrio, o que pode gerar a
72
sensação de desgaste generalizado sem causa aparente e dificuldades com a
memória, entre outras conseqüências.
Caso a tensão continue, o estresse evolui para a fase de quase-exaustão
(terceira fase), que é quando as defesas começam a ceder e o organismo já não
consegue restabelecer a homeostase interior. Nesta terceira fase, a pessoa oscila
bastante entre momentos de muito cansaço, desconforto, ansiedade e momentos em
que ela consegue resistir, sentindo-se bem. Mas, neste momento, algumas doenças já
começam a surgir, mostrando que a resistência da pessoa já não é tão eficaz assim.
Caso o processo de estresse não seja interrompido, a quarta fase ou fase de exaustão
instala-se e a resistência da pessoa é menor ainda.
Os sintomas desta quarta fase são semelhantes aos sintomas da primeira
fase ou fase de alerta, porém, sua magnitude é muito maior. Desenvolve-se, então,
um desgaste muito grande que leva a um envelhecimento prematuro.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco,
examinaram os glóbulos brancos de mães de crianças com doenças crônicas e
perceberam que o estresse psicológico a que foram submetidas durante anos fez com
que as células de defesa dessas mulheres envelhecessem rapidamente.
O parâmetro de medida foi o comprimento dos chamados telômeros (capas
protetoras dos cromossomos que encolhem a cada divisão celular até perderem a
função). Apesar da enzima telomerase adicionar constantemente novo material
genético aos cromossomos, este mecanismo se enferruja com o tempo.
De acordo com o comprimento dos telômeros, as células das mães
estressadas tinham envelhecido dez anos em comparação com as células das mães
menos solicitadas. E a telomerase também estava deficiente (SCIENTIFIC
AMERICAN, REVISTA VIVER, MENTE E CÉREBRO, ano XIII, número 148).
Lipp e Malagris (2001) também podem nos dizer que nem sempre as
pessoas passam pelas quatro fases do estresse, isto é, para que alguém chegue à fase
de exaustão é preciso um estressor muito grave. Geralmente, chega-se apenas à fase
de resistência, havendo depois uma adaptação.
Outros autores estudam o processo de estresse e deixam clara a importância
deste fenômeno tão complexo que ocorre com todos os seres humanos. Sem dúvida,
ainda há muito o que ser descoberto, mas a situação atual já é suficiente para que se
73
valorize o processo de estresse como algo muito útil à saúde, mas também como algo
que pode destruir a vida de uma pessoa.
3.3 Conseqüências Físicas do Estresse
A conseqüência física mais conhecida do processo de estresse são os
prejuízos causados ao sistema de defesa natural do nosso organismo, que é o sistema
imunológico. O estresse afeta diretamente este sistema, reduzindo a resistência física
da pessoa e tornando-a vulnerável ao desenvolvimento de infecções e doenças
contagiosas.
Mello (2003) nos diz que é o sistema imunológico que destrói as células
doentes do nosso corpo, ou melhor, é este sistema que destrói as células que ao se
dividirem e ao se multiplicarem num processo normal dentro do nosso corpo perdem
a ligação com o órgão respectivo, tornando-se células doentes. Isto acontece
constantemente dentro do nosso organismo, porém, quando o sistema imunológico
está fortalecido, estas células são eliminadas rapidamente por ele e o perigo passa.
No entanto, sob estresse pode acontecer o desencadeamento das doenças
que estavam em estado latente, como por exemplo, úlceras, hipertensão arterial,
diabetes, problemas dermatológicos, alergias, impotência sexual, obesidade, etc,
porque o organismo se encontra debilitado.
A eficiência do sistema imunológico é de natureza hereditária, mas ela pode
ser prejudicada por diversos fatores, como por exemplo, alguns tipos de produtos
derivados do carvão ou a radiação.
Um estresse emocional prolongado também pode diminuir sua força, como
é o caso de problemas familiares, financeiros, conflitos pessoais, doenças, mortes,
etc.
Segundo Mello (2003), o tipo de estresse que mais afeta o sistema
imunológico é a perda da esperança de jamais viver a vida conforme se deseja.
Isto pode significar muitas coisas, inclusive, o desejo de exercer o trabalho
que sempre sonhamos, mas que nunca tivemos coragem de levar em frente, quer por
pressões familiares, por dificuldades econômicas ou por medo de provocarmos
decepções.
74
Sabe-se que a ausência de esperança está relacionada com uma situação de
frustração e de perda em conseqüência de uma impossibilidade da pessoa de se
expressar ou da sua incapacidade de encontrar um substituto à altura.
3.4 Conseqüências psicológicas do estresse
As conseqüências psicológicas mais comuns do estresse são o cansaço
mental, as dificuldades de concentração, a apatia, a indiferença emocional e a perda
de memória imediata. A criatividade também fica prejudicada e a produtividade cai.
Começam a surgir dúvidas a respeito do desempenho insatisfatório, com crises de
ansiedade e depressão. A libido também diminui muito, deixando a qualidade de vida
comprometida.
3.5 Conseqüências sociais do estresse
Muitas pessoas pensam que “estresse” é “frescura”. Entretanto, vivemos em
um mundo que requer de nós cada vez mais e mais energia. E ainda, em um país em
desenvolvimento como o nosso, muitas mudanças passam a ocorrer em todas as áreas
e com muita rapidez.
Porém, a pessoa estressada não é capaz de enfrentar mudanças, pois, sua
habilidade de adaptação está envolvida inteiramente no combate ao estresse.
Segundo Lipp e Malagris (2001), o prejuízo que o estresse maladministrado pode acarretar para o ramo empresarial em termos de faltas ao
emprego, licença saúde, depressão, enfartes, câncer, etc, é incalculável.
Ainda segundo estas autoras, o sistema educacional deveria incluir em seu
currículo programas de profilaxia ao estresse de modo que as crianças aprendessem,
desde cedo, o combate ao estresse, a fim de se tornarem adultos fortes e capazes de
lidarem com os eventos estressantes da vida de um país em desenvolvimento.
3.6 Tipos de estresse
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O estresse pode ser construído a partir de estímulos, eventos ou situações
muito diferentes e, dependendo do que o gera, ele adquire nome específico, por
exemplo, a tensão excessiva ligada à atividade profissional de uma pessoa é
denominada de estresse ocupacional, enquanto que o estresse provocado pelos
contatos com outras pessoas é chamado de estresse interpessoal.
Assim, quando se fala em tipos de estresse, refere-se ao tipo de estressor
envolvido e também aos diferentes efeitos dos diferentes tipos de estresse.
Portanto, embora a reação inicial do estresse seja universal, alguns
estressores agem de modo diferente sobre o funcionamento humano, por exemplo, o
estresse interpessoal eleva a pressão arterial, mas não a freqüência cardíaca e o
estresse mental eleva as duas (LIPP ; MALAGRIS, 2001).
Outro fato importante, segundo a mesma fonte, é que não é só o tipo de
estressor que determina se o estresse será desenvolvido ou não, mas o tipo de
pensamento que a pessoa tem e que será usado por ela para interpretar os eventos
ambientais.
Chega-se à conclusão de que as condições em que as pessoas vivem
proporcionam uma base muito importante para as avaliações cognitivas que são
feitas a respeito das diferentes situações que se lhes apresentam na vida, o que faz
com que algumas pessoas sempre se sintam em situação de risco e outras que
conseguem ver as mudanças como acontecimentos que podem trazer ganhos.
Em outras palavras, segundo Lipp e Malagris (2001), os eventos adquirem a
capacidade de estressar ou não uma pessoa em função de sua história de vida, o que
faz com que haja uma grande variação de um indivíduo para outro.
3.6.1 O estresse ocupacional
O estresse ocupacional é também conhecido como síndrome de “burnout”.
Esta enfermidade deve o no me ao verbo inglês “to burn out”, que significa queimarse por completo, consumir-se, e ao psicanalista Herbert J. Freudenberger, de Nova
York.
76
No início dos anos setenta, Freudenberger constatou que sua atividade
profissional, que havia lhe dado tanto prazer no passado, só deixava- lhe cansado e
frustrado. Ao se voltar para pessoas que possuíam outras profissões, deparou-se com
os mesmos problemas: - oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldades de
concentração e até com problemas físicos, como dores estomacais ou dores de
cabeça, etc. Por isto, depois de fazer outras observações, ele chegou à conclusão de
que este estresse é gerado por fatores relacionados ao trabalho, como por exemplo,
pressão por resultados ou por produtividade, muito trabalho, atividade extenuante,
colegas de trabalho pouco colaborativos ou excessivamente competitivos, etc.
E assim, “burnout” foi se definindo por um estado de esgotamento físico e
mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional, pois, na vida
profis sional (principalmente na era da globalização), há pressão por todos os lados, o
que a torna mais rápida e mais agitada. Dito de outra forma, “burnout” é uma doença
que reflete um desenvolvimento crítico da nossa sociedade. Citando apenas alguns
exemplos básicos podemos dizer que no mundo do trabalho atual a comunicação
escrita e oral é a senha para a sobrevivência, porque os meios de comunicação e as
redes mundiais se encarregam de nos manter todos plugados e informados, portanto,
se faz necessário saber se comunicar, ter cultura geral, saber pesquisar, analisar
índices, consultar e utilizar os CD-ROMS, enfim, gostar de conhecer e não de repetir.
Tudo indica também que devemos trabalhar com projetos, pois, estamos na
era da “empreusa” e, mais do que nunca, cada pessoa tem que tomar as rédeas de sua
própria carreira. Porém, ótimos empregos continuarão a existir, mas em pequenos
números e ocupados por pessoas superqualificadas, nas quais estas empresas
investirão sempre mais, fazendo com que sejam mais qualificadas ainda e
inalcançáveis por seus concorrentes. Pode-se dizer, então, que as pessoas se definem,
no mundo de hoje, e cada vez mais, por sua capacidade de desempenho no trabalho,
pelo sucesso profissional conquistado e, cada vez menos, com base nas relações
interpessoais ou nas atividades sociais.
Enfim, a atitude das pessoas frente ao conhecimento resume esta questão.
Aprender a aprender para acompanhar as mudanças, preocupação com a qualidade,
capacidade de adaptar-se às novas situações de trabalho, flexibilidade no trato com as
pessoas, desenvolvimento da leitura crítica, etc. Estas são realmente as exigências do
77
mundo atual e nem sempre as pessoas têm facilidade para isto, sentem-se muito
cobradas e desenvolvem sintomas físicos ou psicológicos. Algumas desenvolvem
apenas sintomas psicológicos e a resposta que a psiquiatria ou a psicanálise e a
psicologia dão a esta questão é que, de uma maneira geral, cada pessoa tem seu ponto
fraco.
Ainda segundo Lipp e Malagris (2001), o estresse ocupacional pode gerar
impactos para o próprio trabalho da pessoa e também para as outras áreas de sua
vida, na medida em que há uma inter-relação entre todas a áreas (familiar, social,
etc).
Sabe-se que a sensação de incerteza e nervosismo decorrente de uma tensão
profissio nal interfere diretamente no próprio desempenho profissional e as reações
fisiológicas experimentadas na presença de um estressor ocupacional são,
basicamente, as mesmas experimentadas na presença de estressores de outras áreas,
porém, a forma de manifestação e as conseqüências são específicas.
O estresse no trabalho pode levar à irritabilidade, hipersensibilidade,
pressões do grupo, dificuldades de comunicação, baixa auto-estima e outros sintomas
que podem acentuar o estresse, pois, podem trazer prejuízos para o desempenho da
própria pessoa e se constituirão em mais fontes de estresse.
Muitas vezes a pessoa pode reagir ao estresse ocupacional com o uso
excessivo de álcool a fim de aliviar a ansiedade ou a fim de lidar melhor com a
sensação de incompetência decorrente. Tais atitudes só agravam o problema.
Além disso, as outras áreas da vida da pessoa também ficarão afetadas
negativamente, pois, o trabalho é um aspecto muito importante para a auto-estima de
uma pessoa. Sentindo-se incompetente profissionalmente e com a auto-estima baixa,
a pessoa também se sente insegura quanto ao seu papel familiar. Percebe-se, então,
que a irritabilidade ocasionada pelo estresse ocupacional pode se estender à família,
gerando relações tensas e conflituosas entre todos.
Tratando-se desta síndrome (“burnout”), a tendência ao recolhimento é a
regra, mas isto só piora a situação. Cedo ou tarde a pessoa também não consegue
mais se concentrar, deixa de ser criativa e a memória fica prejudicada.
Especialistas concordam que não é a quantidade de trabalho que pode
deixar uma pessoa estressada. Há pessoas que trabalham muito, mas não sofrem de
78
estresse. O diferencial está no fato de que as pessoas que conseguem driblar o
estresse são pessoas que aprenderam a valorizar outras coisas, além do trabalho, ou
seja, outras coisas podem trazer satisfação, além do sucesso profissional.
E os que já estão “estressados” também devem se abrir para outras fontes
capazes de nutrirem a auto-estima. O importante é ter diversos pontos de apoio, ou
seja, a regra principal para se proteger é buscar o equilíbrio entre tensão e
relaxamento, entre trabalho e vida particular.
Em vista do exposto, é importante nos lembrarmos de que a saúde geral de
uma pessoa é decorrente de uma série de variáveis que se relacionam sempre a três
áreas: - psicológica, orgânica e social. Tais áreas devem ser sempre consideradas
concomitantemente, sempre que se quiser compreender algo, conforme nos diz Lipp
e Malagris (2001).
3.6.2 O estresse familiar
O estresse familiar pode relacionar-se a aspectos do próprio ambiente da
pessoa ou pode ser decorrente de um estresse oriundo de outra área, mas que tem
repercussões na família, como por exemplo, o estresse ocupacional ou o estresse
escolar.
Considerando
relacionamentos
os
estressores
conturbados,
filhos
da
com
própria
família,
dificuldades
pode-se
emocionais
ou
citar
de
aprendizagem, pressões e exigências excessivas, sobrecarga com excesso de
responsabilidade, problemas de saúde, etc.
Sabe-se que o ambiente familiar é o lugar onde a pessoa costuma sentir-se
mais livre para expressar seus problemas, suas irritações, e este estresse, muitas
vezes, acaba atingindo pessoas que não se queria atingir, o que prejudica o equilíbrio
do próprio indivíduo e a harmonia da família. .
Enfim, como a família é o principal ponto de apoio de uma pessoa,
problemas nesta área podem desequilibrar o indivíduo, gerando conseqüências que
contaminarão outros contextos de sua vida.
3.6.3 O estresse social
79
O estresse que tem sua origem nas questões sociais traz muitos sofrimentos
para as pessoas, pois, pode trazer isolamento e outras conseqüências que afetam
todas as outras áreas da vida da pessoa.
Os estressores sociais se referem a sentimentos de rejeição (real ou
imaginária), falta de habilidade de comunicação e interação social, falta de
assertividade, discriminações, grupos hostis, etc. Os sintomas do estresse social
podem contribuir para mais estresse social e nem sempre a pessoa sente-se capaz de
manifestá- los, devido ao medo de mais rejeição.
Além disto, sabe-se que as pessoas estressadas ficam irritadas, impacientes
e mal- humoradas, contaminando seu ambiente social e reduzindo a sua qualidade de
vida.
80
4. No que consiste a Orientação Profissional?
A orientação profissional/vocacional como disciplina começou no Brasil a
partir da regulamentação do curso de Psicologia em 1962. Posteriormente passou a
fazer parte também do curso de Pedagogia, inserida na área de Orientação
Educacional. Mas a prática desta disciplina já vinha se desenvolvendo no Brasil há
mais tempo, como parte dos processos de seleção para o trabalho (LISBOA, 2000).
A Orientação Profissional também é entendida, desde 1975, como
transdisciplina, ou seja, ela percorre todas as áreas do conhecimento, sempre fazendo
da escolha profissional o seu objetivo.
Segundo Lisboa (2000), a Orientação Profissional aceita o desafio de ajudar
as pessoas a situarem-se diante de um enfoque integral, isto é, além de atuar dando
suporte ao auto-conhecimento, ela também conduz a uma maior consciência das
oportunidades, leva a uma maior reflexão sobre o papel dos trabalhadores e sobre a
organização das empresas, enfim, mostra que o desenvolvimento profissional deve
ser combinado com um projeto de vida geral.
A Orientação Profissiona l/Vocacional é um campo extenso e de várias
projeções, tanto no que se refere à prevenção (aprendizagens sistemáticas e
assistemáticas), como quanto à atenção clínica da problemática vocacional e à
investigação psicológica e pedagógica relacionada (MÜLLER, 1988).
Portanto,
é
como
uma
atenção
clínica
que
a
Orientação
Profissional/Vocacional é vista no POP – Programa de Orientação Profissional, cujo
objetivo é acompanhar a um ou a vários jovens na elaboração de suas reflexões, de
seus conflitos e de suas antecipações sobre o futuro. É o esclarecimento de quem se é
e aonde se deseja chegar para saber o que se quer ter como projeto de vida, incluindo
uma maior consciência da realidade sócio-econômica, cultural e ocupacional.
Müller (1988) nos diz também que a Orientação Profissional é um processo
abrangente, uma trajetória, uma evolução, mediante a qual os jovens refletem sobre
sua problemática e buscam caminhos para sua elaboração. Tudo o que se trabalhar
durante a Orientação Profissional tem por finalidade levar o jovem a pôr em prática
seu protagonismo quanto a conhecer-se, conhecer a realidade e tomar decisões
81
reflexivas e de maior autonomia, que levem em conta suas próprias determinações
psíquicas, assim como as circunstâncias sociais.
Ainda segundo a mesma fonte, quem escolhe uma profissão deveria fazê-lo
a partir de um encontro consigo mesmo, pois, a “vocação” não nasce conosco, ela é
construída subjetiva e historicamente, em interação com os outros, segundo as
oportunidades familiares, as disposições pessoais e o contexto sócio-cultural e
econômico.
Para escolher uma profissão, diz Levenfus (1997), é preciso saber de nós
mesmos e do mundo no qual cada um de nós ingressa como participante de uma
novela e do qual todos nós deveremos emergir para a construção da nossa própria
novela. Não somente ser protagonista, mas autor, não autor único, mas co-autor na
oportunidade de amar, conhecer e trabalhar. Ser com outros.
Levenfus (1997) nos diz que a dessimbiotização (processo de separaçãoindividuação) é hoje, mais do que nunca, relevante, no trabalho de Orientação
Profissional e, portanto, a Orientação Profissional, numa abordagem clínica, deve
priorizar os aspectos familiares, pois, emergir de relações dependentes é um processo
que implica culpa, dúvidas e confusão de papéis pelo desprendimento e morte dos
pais e da criança que está crescendo. Mas deve-se sempre levar em conta o desejo do
jovem de se comprometer com a necessidade de elaboração de sua própria
problemática.
Em vista do exposto, o Orientador Profissional deve ser capaz de
reconhecer os dinamismos particulares de cada jovem que ele recebe em orientação,
a fim de não perder a oportunidade de fazer um trabalho preventivo.
Isto significa que o papel do Orientador Profissional é ajudar o jovem a
escolher uma profissão em consonância com suas possibilidades psíquicas pessoais e
familiares, sem deixar conflitos mal resolvidos.
Outros pesquisadores, como Soares (1993), acreditam no jovem como
sujeito da sua própria vida, isto é, como ser capaz de realizar o seu projeto de vida,
determinando sua história social. Isto significa que ele pode escolher uma profissão
dentro de um leque de opções que lhe são oferecidas pela sua situação de vida (classe
social, tipo de família, época histórica e cultural, etc).
82
Existe, pois, uma liberdade que é limitada por esta própria realidade na qual
o jovem está inserido e a consciência destes limites pode dar ao jovem um grau
maior de autonomia para escolher sua profissão.
Assim, a Orientação Profissional, segundo Soares (1993), tem como
objetivo facilitar aos jovens a escolha de uma profissão a partir da consciência dos
inúmeros fatores que interferem na tomada desta decisão, sejam eles sociais,
educacionais, econômicos, familiares ou psicológicos.
Um outro pesquisador deste assunto, Bock (2002), nos mostra que a
Orientação Profissional procura entender o jovem em sua relação com a sociedade,
superando visões que o colocam como mero reflexo da sociedade ou como
totalmente autônomo em relação a ela.
Este autor, Bock (2002), interpreta a escolha profissional como a escolha de
como se vai atuar no mundo e pressupõe resolver um conflito assumindo os riscos.
Segundo ele, isto só será possível por meio de um ato de coragem. Com isto
ele quis dizer que qualquer momento de decisão gera angústia e deve-se assumir a
perda, pois, a escolha de um caminho significa o abandono de outros.
Esta idéia contesta várias concepções tradicionalmente consideradas como
paradigmas da escolha profissional. Uma delas é a noção de que haveria moldes
profissionais preestabelecidos nos quais a pessoa deveria se encaixar.
Mas a escolha profissional não se constitui num jogo de encaixe entre perfil
pessoal e perfil profissional.
Por isto, Bock (2002) nos diz que o ato de coragem é, na verdade, um pacto
que a pessoa faz consigo mesma de se comprometer com a escolha, de lutar para que
ela dê certo, porque não nascemos sabendo acertar, pelo contrário, temos que tentar
várias vezes antes de conseguirmos resultados “satisfatórios” e, se for preciso, temos
que recomeçar.
É assim que vamos construindo uma “vocação”, pois, não há receitas
garantidas de sucesso para ninguém e nem “bússolas” que possam nos guiar até a
felicidade.
Em vista do exposto, percebe-se que a Orientação Profissional possui várias
abordagens, mas em qualquer uma delas trabalha-se para o bem-estar psicossocial do
indivíduo, sendo considerado um trabalho de saúde mental.
83
Lisboa (2000) nos esclarece com precisão a postura do Orientador
Profissional diante do mundo do trabalho atual.
De acordo com ela, não é cabível, no mundo de hoje, trabalharmos em
Orientação Profissional sem considerarmos a questão da conscientização de jovens e
adultos para o que ocorre efetivamente na sociedade em suas várias dimensões: econômica, política, social e educacional. Já somos alienados o suficiente por conta
do próprio sistema capitalista que coisifica o ser humano tornando-o uma mercadoria
a serviço de quem detém os meios de produção e o domínio social.
Portanto, o trabalho, como ação humana, está diretamente comprometido
com o que ocorre na sociedade em seus vários âmbitos, reforçando ou rompendo o
sistema. Reforçar foi o que mais aprendemos, diz Lisboa, isto é, reproduzimos o que
nos foi dado, repetimos o que outras pessoas fizeram e deixamos de criar nosso
próprio jeito de sentir, de pensar e de fazer.
No trabalho de Orientação Profissional não tratamos, portanto, de apenas
facilitar a escolha de uma profissão que “satisfaça” os desejos de quem escolhe.
Muito mais do que isto, diz Lisboa (2000), trata-se de escolher uma profissão dentro
das possibilidades subjetivas e objetivas de cada um (escassas em nossos dias, digase de passagem), desempenhando um papel profissional criticamente, a partir de uma
visão global sobre a situação imediata do contexto próximo e o mais amplo possível,
procurando construir uma trajetória profissional que esteja em consonância com os
reais valores humanos.
Esta postura é básica e a orientação que devemos, então, fornecer aos
nossos jovens é que eles não sejam alienados desta realidade.
Temos de orientar para a desalienação e isto significa não reproduzir os
modelos de uma sociedade que não privilegia o humano, mas sim o capital
(LISBOA, 2000).
Desalienar-se significa comprometer-se com os outros, significa interagir,
compartilhar, demonstrar interesse e ajudar realmente, porque não há mais lugar para
o individualismo, para a acomodação, para a corrupção, para a falta de ética.
Sem este conhecimento como base, esta autora nos diz que não
conseguiremos orientar para o mundo do trabalho, muito menos ajudar o jovem a
encontrar, efetivamente, seu caminho.
84
5. Metodologia
A metodologia escolhida para averiguar os sintomas de estresse vividos por
jovens que se encontram tensos ou ansiosos em relação à escolha profissional foi a
aplicação do ISSL ou Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Marilda
Novaes Lipp.
Este instrumento é auto-aplicável e é composto de quadros que se referem
às quatro fases do estresse. Os sintomas listados são os típicos de cada fase.
No primeiro quadro (fase um), composto de 12 sintomas físicos e 3
psicológicos, o respondente assinala os sintomas físicos ou psicológicos que tenha
experimentado nas últimas 24 horas.
No segundo quadro (fase dois e fase três), composto de 10 sintomas físicos
e 5 psicológicos, marcam-se os sintomas experimentados na última semana.
A fase três é diagnosticada com base em uma freqüência maior de sintomas
listados no segundo quadro do inventário, portanto, no terceiro quadro (fase quatro),
composto de 12 sintomas físicos e 11 psicológicos, assinalam-se os sintomas
experimentados no último mês.
O número de sintomas físicos é maior do que os psicológicos e varia de fase
para fase porque a resposta de estresse é assim constituída e é por isto que não se
pode simplesmente utilizar o número total de sintomas assinalados para fazer o
diagnóstico de estresse, sendo necessário consultar as tabelas de avaliação.
No total, o ISSL inclui 37 itens de natureza somática e 19 de natureza
psicológica, sendo que os sintomas muitas vezes se repetem, diferindo somente em
sua intensidade e seriedade.
Este questionário foi escolhido porque é um instrumento validado para uso
no Brasil, sendo que até a época de aplicação do mesmo, ainda não havia um
instrumento, validado no Brasil, específico para testagem de estresse em jovens.
Conforme foi dito, o ISSL divide o processo de estresse em quatro fases e
permite realizar um diagnóstico preciso de estresse, determinar em que fase a pessoa
se encontra e se este estresse manifesta-se mais por meio de sintomas físicos ou
psicológicos, o que viabiliza uma atenção preventiva em momentos de maior tensão.
85
O ISSL foi aplicado a quatro grupos de onze alunos voluntários das
terceiras séries do Ensino Médio, totalizando quarenta e quatro pessoas e quatro
grupos de oito a nove alunos voluntários da segunda série do Ensino Médio,
totalizando trinta e quatro pessoas, de um colégio particular, classe média de São
José dos Campos, São Paulo, totalizando setenta e oito questionários. Para sua
aplicação foram necessários dez minutos com cada grupo.
Já dissemos, no início deste trabalho, que tal colégio recebe alunos de
várias regiões do Vale do Paraíba e oferece-lhes formação integral com aulas da
grade curricular normal e ainda com aulas obrigatórias de Ensino Re ligioso,
Relações Humanas e Artes. Outras atividades são oferecidas também como Teatro,
Poesia, Música e Orientação Profissional, mas elas fazem parte do módulo opcional.
Portanto, os alunos deste colégio procuram o trabalho de Orientação Profissional no
começo do ano letivo de forma espontânea e participam de várias atividades focadas
no auto-conhecimento e no conhecimento das profissões e do mundo do trabalho
durante o ano inteiro. Participam também, de forma espontânea, das feiras de
profissões de colégios de São Paulo (capital) e das visitas às universidades públicas
do Estado de São Paulo e Capital.
Devemos frisar que uma parte dos alunos que se prontificaram a fazer o
ISSL são estes mesmos alunos que procuraram espontaneamente a Orientação
Profissional no começo do ano letivo. A outra metade, conforme podemos ver nos
resultados da pesquisa realizada, não participaram da Orientação Profissional, mas se
ofereceram espontaneamente para fazer o teste de estresse.
Os resultados do ISSL foram analisados segundo as indicações do
instrumento.
Depois de responderem ao Inventário de Sintomas de Stress, de Marilda
Novaes Lipp, os jovens responderam às seguintes questões abertas:
1) Você se sente seguro com relação à sua escolha profissional?
2) Você sente a expectativa de sua família para que você escolha uma
determinada profissão?
As respostas a estas questões foram analisadas a partir da identificação e
reunião de temas semelhantes que foram confrontados com as referências teóricas
utilizadas nesta dissertação, a saber, a psicanálise.
86
6. Resultados
6.1 Resultados do grupo total de alunos
Primeiramente apresentaremos os resultados referentes ao grupo total de
jovens analisados sem considerarmos a série em que os mesmos se encontram
(segundas ou terceiras séries do Ensino Médio) ou se participaram ou não do POP –
Programa de Orientação Profissional :
a) 22% de alunos sem estresse.
b) Nenhum registro de alunos na fase positiva do processo de estresse ou de
alerta (primeira fase).
c) 62% de alunos na fase de resistência ou de adaptação (segunda fase).
d) 10% de alunos na fase de quase-exaustão (terceira fase - perigosa).
e) 6% de alunos na fase final do estresse ou fase de exaustão (patológica).
f)
Houve
predominância
de
sintomas
psicológicos,
tais
como
hipersensibilidade emotiva, perda do senso de humor, apatia, sensação de
incompetência em todas as áreas, vontade de fugir de tudo, pensamento constante em
um só assunto, irritabilidade excessiva, sem causa aparente, depressão ou raiva
prolongada, etc.
g) Com relação à primeira questão aberta sobre as expectativas familiares,
85% dos jovens reconheceram o desejo da família na sua escolha profissional e 15%
não.
h) Com relação à segunda e última questão aberta sobre a segurança da
escolha profissional, 53% dos alunos sentem-se seguros e 47% não.
6.2 Comparação dos alunos considerando as diversas variáveis
A seguir, apresentaremos os resultados que comparam alunos de séries
diferentes e o fato de terem ou não participado do processo de Orientação
Profissional (tabela 1)
87
•
Tabela 1 - ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL X FASES DE STRESS (segundas e
terceiras séries do EM)
3a série
Sem % Fase
stress
I
%
Fase
II
%
Fase
III
%
Fase
IV
%
Total
Não
fizeram
OP
2
9%
0
0%
16
70%
2
9%
3
13%
23
Fizeram
OP
4
19%
0
0%
15
71%
1
5%
1
5%
21
Total
6
14%
0
0%
31
70%
3
7%
4
9%
44
%
Fase
II
%
Fase
III
%
Fase
IV
%
Total
2a série
Sem % Fase
stress
I
Não
fizeram
OP
5
26%
0
0%
10
53%
3
16%
1
5%
19
Fizeram
OP
6
40%
0
0%
7
47%
2
13%
0
0%
15
Total
11
32%
0
0%
17
50%
5
15%
1
3%
34
88
a) Quem fez OP apresenta menos sintomas de estresse, tanto na segunda
quanto na terceira série do EM. Vejamos : na 3a série 19% (ou 4 alunos), do total
de 21 alunos, estão sem estresse e na 2a série 40% (ou 6 alunos), do total de 15, estão
sem estresse.
Comparando com quem não fez OP: na 3a série 9% (ou 2 alunos), do total
de 23, estão sem estresse e na 2a série 26% (ou 5 alunos), do total de 19, estão sem
estresse.
Isto mostra que quem fez OP apresenta menos sintomas de estresse tanto
nas segundas quanto nas terceiras séries do EM.
Dito de outra forma:
Dos 14 alunos da 2a série que não fizeram OP e estão com estresse, 10 (ou
53%) estão na Fase II, 3 (ou 16%) estão na Fase III e 1 (ou 5%) está na Fase IV.
Comparando com os 15 alunos da mesma série, que fizeram OP, 9 alunos
apresentam estresse da seguinte forma: 7 (ou 47%) estão na Fase II, 2 (ou 13%) na
Fase III e nenhum na Fase IV.
Isto mostra também que quem fez OP na 2a série tem menos estresse, ou
seja, manteve-se o mesmo perfil dos alunos da 3a série.
b) Quem fez OP concentra-se mais na segunda fase do estresse, que é a fase
de resistência. Isto significa que já existe produção de cortisol, que destrói as defesas
imunológicas do corpo, ou seja, o organismo encontra-se menos produtivo e com
acentuada vulnerabilidade a vírus e a bactérias, mas ainda está tentando resistir ou
adaptar-se aos estressores, quer dizer, o organismo está tentando restabelecer o
equilíbrio interior chamado “homeostase”.
Vejamos:
3a série: 71% (fase II) 5% (fase III) 5% (fase IV)
2a série: 47% (fase II) 13% (fase III) nenhum (fase IV)
Comparando com quem não fez OP:
3a série: 70% (fase II) 9% (fase III)
13% (fase IV)
89
2a série: 53% (fase II) 16% (fase III) 5% (fase IV)
(Observa-se que as porcentagens das fases III e IV, que são as fases mais
perigosas, são maiores para quem não fez OP).
c) Do total de alunos da terceira série (44), 21 alunos (ou 48%) fizeram OP
e 23 alunos (ou 52%) não fizeram OP. Segundo o tratamento estatístico dos dados
(ver à frente), o estresse é cerca de 35% menor para quem fez OP, pois, temos 19%
de alunos sem estresse, na terceira série, após participação no POP, contra 9% da
mesma série, que não fizeram OP.
Dito de outra forma, dos 23 alunos (52%) da 3a série que não fizeram OP,
21 apresentaram estresse e 2 (9%) não. Destes 21 alunos, 16 (70%) estão na Fase II
(resistência), 2 (9%) estão na Fase III (quase-exaustão) e 3 (13%) estão na Fase
IV (exaustão).
Comparando com os 21 alunos da mesma série (48%), que fizeram OP,
podemos dizer que 17 apresentaram estresse e 4 (19%) não - vê-se que 19% é maior
que 9%. Destes 17 alunos que apresentaram estresse, 15 ou 71% apresentaram
estresse na Fase II (resistência), 1 aluno (5%) apresentou estresse na Fase III (quaseexaustão) e 1 aluno (ou 5%) apresentou estresse na Fase IV (exaustão).
d) Foram encontrados 5 alunos da 3a série, que não fizeram OP, do total de
23, nas fases mais críticas do estresse (fase III e Fase IV), enquanto que só foram
encontrados 2 alunos da mesma série, do total de 21, que fizeram OP, nas mesmas
fases críticas do estresse.
Em relação à segunda série, do total de 19, foram encontrados 4 alunos que
não fizeram OP nas fases mais críticas do estresse (fase III e fase IV), enquanto que
foram encontrados somente 2 alunos, do total de 15, que fizeram OP, nas mesmas
condições.
e) Os alunos, de modo geral, se mostraram mais vulneráveis ao aspecto
emocional do que ao aspecto físico, isto é, apresentaram maiores dificuldades de
90
concentração, apatia, hipersensibilidade emotiva, irritabilidade sem causa aparente,
cansaço excessivo e vontade de fugir de tudo, mal-estar generalizado sem causa
específica, ansiedade diária, aumento súbito de motivação, insônia, perda do senso de
humor, diminuição da libido, tiques, depressão ou raiva prolongada, sensação de
incompetência em todas as áreas, pensamentos constantes em um só assunto, etc.
•
Tabela 2 - COMPARAÇÃO ENTRE AS FASES DE ESTRESSE EM ALUNOS
(segundas e terceiras séries do EM).
Sem %
stress
2a série
3a série
11
6
32%
14%
Total
17
22%
Fase I % Fase II
0
0
%
Fase
III
% Fase IV %
Total
0%
0%
17
31
50%
70%
5
3
15%
7%
1
4
3%
9%
34
44
0%
48
62%
8
10%
5
6%
78
e) Comparando as fases do estresse em alunos das segundas séries com as
fases do estresse em alunos das terceiras séries do Ensino Médio, podemos dizer que
há menos alunos estressados na segunda série. Vejamos: 11 alunos da segunda série
ou 32% sem estresse (total de alunos: 34).
Sobraram 23 alunos que apresentaram estresse da seguinte forma: 17
alunos (ou 50%) na Fase II (de resistência ou de adaptação ao estresse), 5 alunos (ou
15%) na Fase III (de quase-exaustão; perigosa), e 1 aluno (ou 3%) na fase IV (de
exaustão; patológica).
Nas terceiras séries temos apenas 6 alunos sem estresse ou 14%. Total de
alunos: 44
Sobraram 38 aluno s que apresentaram estresse da seguinte forma: 31
alunos (ou 70%) na Fase II (de resistência/ou de adaptação ao estresse), 3 alunos (ou
7%) na fase III (de quase-exaustão; perigosa) e 4 alunos (ou 9%) na Fase IV (de
exaustão; patológica)
91
Vê-se que o estresse é maior para os jovens da terceira série do Ensino
Médio.
6.3 Resultados referentes às questões abertas
Encontramos os seguintes resultados quanto à questão: - Você se sente
seguro com relação à sua escolha profissional?
2a série
Sim
Fez OP
6
Não fez OP 10
%
40%
Não
53%
9
%
60%
Total
15
9
47%
19
3a série
Sim
Não
13
%
62%
8
%
38%
Total
21
Não fez OP 12
58%
11
42%
23
Fez OP
92
Encontramos também os seguintes resultados com relação à questão: -
Você sente a expectativa da sua Família para
que você escolha uma determinada profissão ?
NÃO
15%
Total de Alunos
SIM
85%
Por Série
Fez OP
Não fez OPFez OP
2o Colegial
Não fez OP
3o Colegial
NÃO
0
3
3
6
SIM
15
16
18
17
Podemos observar que os resultados são muito parecidos, tanto para quem fez OP,
quanto para quem não fez OP, ou seja, a maioria dos alunos reconhece que a cultura
familiar privilegia uma ou outra profissão.
93
Tratamento Estatístico dos dados
Níveis de Stress Observado (2º Ano)
Com OP acumulado
Sem OP acumulado
Fase 4
Fase 3
5,00
Fase 2
6,00
Sem
Stress
Nível de Stress
7,00
2,00
Sem Orientação Profissional
Fase 3
3,00
Fase 2
Sem
Stress
4,00
1,00
Com Orientação Profissional
0,00
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10 11 12 13 14 15 16 17 18 19
Observações
Conclusões
Total fator Com OP = 3,6
15 observações
Média = 0,24
Total fator Sem OP = 6,2
19 observações
Média = 0,32
(i) O grupo que passou pela OP obteve 36 % menos Stress em
relação ao grupo que não passou pela OP.
(ii) O grupo que passou pela OP obteve uma quantidade maior de
indivíduos “Sem Stress”.
(iii) Não foi observado o nível 4 de stress no grupo que passou
pela OP.
(iv) Foi observado um indivíduo dentro do nível 4 de stress no
grupo que não passou pela OP
Níveis de Stress Observado (3º Ano)
Com OP
Sem OP
Fase 4
Fase 3
Fase 2
8
Sem
Stress
Sem Orientação Profissional
2
Fase 4
Fase 2
4
Fase 3
6
Sem
Stress
Nível de Stress
10
Com Orientação Profissional
0
-2
1 2
3 4
5 6
7 8
9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
Observações
Conclusões
Total fator Com OP = 6,2
21 observações
Média = 0,30
Total fator Sem OP = 9,2
23 observações
Média = 0,40
(i) O grupo que passou pela OP obteve 35 % menos Stress em
relação ao grupo que não passou pela OP.
(ii) O grupo que passou pela OP obteve uma quantidade maior de
indivíduos “Sem Stress” ( o dobro)
(iii) Foi observado apenas um indivíduo no nível 4 de stress
dentro do grupo que passou pela OP.
(iv) Foram observados quatro indivíduos no nível 4 de stress
dentro do grupo que não passou pela OP.
94
7. Discussão dos resultados
Os dados acima apresentados demonstram que o estresse é um fenômeno
também presente na juventude, o que nos leva a concordar com a Organização
Mundial de Saúde (OMS), que afirma que o estresse é uma “epidemia global”.
Encontramos 70% dos estudantes da terceira série do Ensino Médio na fase
II do processo de estresse ou fase de resistência e 16% nas fases mais críticas do
estresse, ou seja, fase III (quase-exaustão) e IV (exaustão). Encontramos também
50% de alunos da segunda série do Ensino Médio na mesma fase, ou seja, fase II ou
fase de resistência ao estresse e 18 % nas fases mais críticas, fase III (quaseexaustão) e IV (exaustão).
Diremos, então, que estes resultados são preocupantes, pois, esta situação
de resistir ou de se adaptar aos estressores do mundo pós- moderno pode trazer
inúmeros prejuízos para a saúde física e mental de qualquer pessoa. Sabemos
também que estes dados corroboram com a idéia de que o mundo contemporâneo
produz um impacto na juventude nos trazendo novas questões: - os jovens reagem às
pressões do mundo contemporâneo de forma semelhante aos adultos? Como isto
ocorre em outras classes sociais? Por um lado, o jovem deveria estar mais preparado
para o mundo contemporâneo, pois, apresenta maior plasticidade para adaptar-se às
mudanças e, assim como para as crianças, para ele, o tempo presente tem mais
existência do que o tempo futuro. Sendo assim, a escolha de um papel profissional,
expresso na escolha de um curso que o capacite para trabalhar, por si só, não explica
o estresse detectado nesta pesquisa. Pode-se dizer que os jovens deveriam considerar
este processo apenas como a continuação daquilo que vêm fazendo desde sempre, ou
seja, ir para a escola.
Devemos, então, levantar outras hipóteses e considerá- las como geradores
potenciais de estresse: a) a questão do vestibular como rito de passagem para a vida
adulta, indicando que o jovem abandonou a infância e entrou para o mundo dos
adultos, o que é altamente gerador de ansiedade (isto aplica-se, basicamente, aos
jovens da classe média) e b) o próprio processo do amadurecimento, pois,
confrontados com a possibilidade de uma frustração, que não diz respeito apenas à
escolha de uma carreira, mas sim à confirmação ou não de seu crescimento, estes
95
jovens, que tiveram poucas oportunidades de vivenciarem limites, podem ficar
estressados. Como não temos informações a respeito deste fenômeno em outras
épocas ou em outras classes sociais, não temos como afirmar esta suposição.
Sabemos apenas que a ansiedade acompanha toda a adolescência que é
repleta de conflitos em função dos lutos que o jovem precisa fazer, segundo a
Síndrome Normal da Adolescênc ia descrita por Aberastury (1981). Ainda segundo
Aberastury (1981), a adolescência é a idade mais apta para sofrer os impactos de uma
realidade frustrante que não oferece garantias suficientes de sobrevivência ou de
perspectivas de futuro.
O segundo resultado que queremos discutir é o fato de uma porcentagem de
jovens não apresentarem estresse, ou seja, 23 % da amostra (14% da terceira série e
32% da segunda série do EM).
Segundo Lipp (2000), o organismo precisa entrar em homeostase após uma
permanência em alerta para que se recupere. Após a recuperação, não há dano em
entrar de novo em alerta. Por isto, podemos supor que estes jovens estejam
aprendendo o manejo do estresse e conseguindo gerenciar a fase de alerta de modo
eficiente, isto é, alternando entre “estar em alerta” e “sair de alerta”, que é o estresse
ideal. Quem aprende a fazer isto, o “céu é o limite”, diz Lipp.
Porém, uma outra hipótese para este resultado é que estes jovens estariam
muito alienados de sua condição de quase adultos, em uma posição defensiva, com
tudo que isto implica, o que os tornaria quase anestesiados. Entretanto, de acordo
com a nossa experiência com estes jovens em situação de Orientação Profissional em
que solicitamos a participação ativa deles, queremos deixar claro que esta opção está
descartada e consideraremos a teoria de Bohoslavsky (1987) que nos diz que na
reparação maníaca nega-se as dificuldades da escolha profissional através do
desprezo, o que faz com que os jovens digam que não estão estressados e que está
sendo muito fácil, para eles, a escolha de uma profissão.
Um outro resultado nos diz que 62% do total de jovens também se
apresentaram na fase de resistência ou de adaptação ao estresse, o que nos leva a
dizer que eles estão procurando resistir aos estressores da situação em que se
encontram de busca de identidade ou de confusão de papéis. Conforme já dissemos,
na adolescência, o jovem tem que abandonar alguns aspectos de suas identificações
96
anteriores e fortalecer outros, desprendendo-se, cada vez mais, de seu mundo infantil,
no qual vivia cômoda e prazerosamente, em relação de dependência, com papéis
claramente estabelecidos e, finalmente, deverá encontrar-se. Ao definir sua
identidade, começa a considerar-se uma pessoa coerente, integrada e única, mas se
não se encontrar (se não tiver um objetivo na vida), diremos que sofreu difusão de
identidade.
Observamos também que o modo de vida contemporâneo está associado a
diversas sintomatologias, tais como transtornos alimentares e síndromes aditivas,
depressão, pânico e aumento das queixas de dor crônica, que afetam a todos,
independentemente da idade.
Portanto, o resultado desta pesquisa é bastante compreensível partindo do
que discutimos a respeito das exigências do mundo contemporâneo, da necessária
formação do jovem e da própria tarefa da adolescência que nos leva a supor que o
jovem de hoje enfrente mais dificuldades para se tornar adulto, resistindo aos seus
lutos ou tentando se adaptar, com mais dificuldades, às perdas que ele tem
necessidade de fazer para crescer.
Na verdade, acreditamos que o que se faz presente nesta situação de
resistência (estresse) detectada em nossa pesquisa são os sentimentos dos jovens
diante da entrada na vida adulta, ou seja, é o medo do crescimento, é o medo das
responsabilidades envolvidas no processo de busca por uma identidade que, no
mundo atual, são responsabilidades mais angustiantes e representadas inicialmente
pela escolha profissional.
Porém, conforme já nos disse Lipp (2000), há muitos riscos físicos e
psicológicos para quem resiste ao estresse por muito tempo, isto é, resistir ao estresse
por muito tempo significa entrar na fase perigosa do estresse (quase-exaustão), onde
os sintomas físicos ou psicológicos são mais intensos e o desgaste é maior,
começando a surgir doenças graves.
Por isto, afirmamos que é imprescindível criar estratégias de resistência aos
estressores, acreditando que as revoluções possíveis acontecem no cotidiano e são
revoluções do nosso desejo. Por exemplo, cuidar da auto-estima e não da
supervalorização da auto-estima, que é fruto do mundo individualista em que
vivemos, que não valoriza as pessoas e nem as relações e escolher a vida que se quer
97
ter, traçando um projeto de vida coerente com os próprios valores, dizendo “não” ao
engodo do capitalismo, que promete liberdade e escraviza, etc.
Portanto, podemos afirmar, com base em nossa experiência de trabalho e
ainda com o respaldo de diversos autores que no mundo pós- moderno, o sentido do
“ser” está intimamente associado ao sentido do “ter” e a menor incompatibilidade
entre estes sentidos gera o estresse, a desmotivação, a insatisfação consigo mesmo e
até a violência, a loucura, o suicídio.
Talvez por isto não tenhamos encontrado jovens na primeira fase do
estresse que é a fase positiva, onde o organismo produz adrenalina que dá ânimo,
vigor e energia para o jovem ser mais criativo em todo seu processo de crescimento.
Notamos ainda mais a importância deste tema quando constatamos 15% de
jovens na fase final e patológica do estresse, que é a fase de exaustão.
Estes jovens já ultrapassaram seus limites e a energia mental que
necessitam para desenvolverem atividades intelectuais é limitada, comprometendo
seus rendimentos. Para estes jovens, a Orientação Profissional não foi suficiente para
apoiá-los neste momento e, provavelmente, questões mais profundas mereceriam ser
abordadas.
O estresse é um fenômeno multifacetado, onde características pessoais
combinam-se com os estímulos da realidade. E assim, então, todas estas
considerações apontam para a necessidade de continuarmos pesquisando os diversos
aspectos deste tema tão complexo.
Entretanto, podemos supor que o trabalho que realizamos de orientar os
jovens em termos profissionais seja uma estratégia de prevenção e promoção de
saúde, pois, tanto os jovens da segunda série, quanto os jovens da terceira série do
Ensino Médio, apresentaram uma redução de 36% nos níveis de estresse após
participarem do processo. Eles dizem valorizar, antes de tudo, a reflexão que o
programa propicia, colocando as idéias que estavam difusas e pouco claras, no lugar.
Diante disto, defendemos a Orientação Profissional para todos os jovens,
mesmo para aqueles que já trabalham, porque precisam sobreviver, mas que ainda
têm muitas dúvidas sobre o seu projeto de vida.
No POP – Programa de Orientação Profissional, retomamos a história dos
jovens de forma organizada. Feita a discussão e o aprofundamento das idéias, o
98
jovem tem mais condições de se apropriar de tudo que o rodeia e sobre isto existe a
possibilidade de realizar projetos.
Desta forma, temos como tarefa a busca deste jovem na sua singularidade,
dando conta dos determinantes da sua escolha e, a partir deles, compreender as
decisões a serem tomadas, possibilitando a elaboração de projetos.
Utilizamos o termo “projeto” para firmar a possibilidade de transformação
ou de mudança do jovem e também, por que não, de toda a sociedade na qual ele está
inserido.
Finalmente, chegamos à análise das nossas questões abertas quanto à
segurança dos jovens em relação à escolha profissional e quanto à interferência dos
pais na mesma, após participarem de todo o processo de OP.
Com relação à primeira questão, podemos dizer que existem algumas
razões para o fato dos alunos das segundas séries do Ensino Médio, que fizeram OP,
não se sentirem tão seguros da escolha profissional quanto os alunos da mesma série,
que não fizeram OP.
Diremos, em primeiro lugar, que pelo fato destes jovens serem
considerados ainda “crianças” pelos seus pais, eles podem sentir, com mais
intensidade, a interferência dos mesmos nas suas escolhas e, particularmente, na sua
escolha profissional.
Este fato, portanto, pode ter se tornado mais consciente após a participação
no POP, o que os levou a serem mais cautelosos nesta questão, pois, ainda é visível,
para estes jovens, a situação de dependência aos pais e o desejo de agradá- los.
É possível dizermos também que estes jovens se mostraram mais inseguros
justamente porque estão assumindo a responsabilidade pela escolha profissional que
estão planejando, o que significa que podem estar ainda à procura de informações
mais consistentes (o que demora mesmo), uma vez que ainda estão na segunda série
do Ensino Médio e têm, de fato, algum tempo pela frente, enquanto os outros podem
ter feito a escolha mais depressa, porém, de forma precipitada (o que é muito
comum), com base apenas em suas fantasias e em suas idealizações.
Quanto à maior segurança emocional apresentada pelos alunos das terceiras
séries, que fizeram OP, podemos dizer, modestamente, que este fato se deve ao
trabalho de Orientação Profissional, que procura refletir a respeito da necessidade de
99
elaboração e de construção de um projeto de vida, que inclui um plano de carreira
bem traçado, visando as influências recebidas, o papel na família, na escola, na
sociedade e a respeito da necessidade de um desprendimento familiar e de um
posicionamento pessoal e consciente diante da própria ação, o que possibilita o
contato com as profissões de diversas áreas, permitindo adquirir informações mais
consistentes e acarretando maior equilíbrio emocional.
Com relação à interferência dos pais na escolha profissional, podemos
constatar que a maioria dos jovens reconhece o desejo dos pais na sua escolha
profissional, ou seja, 85% reconhecem a expectativa dos pais e a cultura familiar que
privilegia uma ou outra profissão. Ainda é possível dizer que este resultado se
relaciona tanto aos jovens que fizeram OP, quanto aos jovens que não fizeram OP.
Dissemos, linhas atrás, que muitos pais buscam realizar projetos não
realizados através dos filhos, por is to, agora podemos entender melhor como deve ser
difícil, para um jovem, conciliar sua insegurança, própria da idade, com o desejo, às
vezes inconsciente, de agradar e de ser aprovado pela família. A escolha profissional
pode também despertar mais ansiedade e angústia, quando, por muitas vezes, os pais
oferecem total liberdade de escolha profissional (o que pode ser interpretado, pelos
jovens, como abandono, já que o medo de falhar está sempre presente).
Gostaríamos de terminar com Soares (1997), que nos diz que a escolha de
uma profissão deixa sempre um lugar a outros projetos, projetados, frequentemente,
em nossos próprios filhos.
É assim que a história continua, se repete e se perpetua...
100
8. Considerações Finais
Vive-se um tempo de enormes exigências, onde as pessoas conseguem uma
adaptação difícil e nem sempre satisfatória às mais variadas situações e onde o jovem
é, particularmente e, constantemente, chamado a lidar com as novas informações.
Não basta a formação acadêmica, o mercado de trabalho procura um
diferencial que inclui, além do que é proporcionado pelo curso universitário
propriamente dito, conhecimentos de inglês, informática, nível cultural, potencial
intelectual (raciocínio lógico, abstrato e numérico) e as habilidades que abrangem
criatividade, espírito de equipe, flexibilidade, polivalência, iniciativa, etc.
E assim, entre as várias idéias que faziam parte do início deste estudo, uma
delas era mostrar que as exigências do mundo contemporâneo, relacionadas aos
avanços da tecnologia, produziram várias características para o homem pós- moderno,
as quais contribuíram, tanto para a sua criatividade e eficiência, quanto para o seu
egocentrismo, seu narcisismo, sua inconsequência e seu imediatismo. Tais
progressos acarretaram também estados de indiferença, passividade, ansiedade e
frustrações. Há autores que definem a era pós- moderna como a idade da Ansiedade e,
portanto, a simples participação do indivíduo na sociedade contemporânea já
preenche um requisito suficiente para o surgimento da ansiedade, isto é, viver
ansiosamente passou a ser considerado uma condição do homem pós- moderno ou um
destino comum, ao qual estamos todos atrelados.
Observamos, portanto, que um sentimento de vazio interior está presente
em muitos adultos, o que dizer, então, dos jovens que estão em busca de um modelo,
de uma identificação?
Todos estes problemas são mais graves ainda quando nos damos conta de
que vivemos num mundo onde os conflitos entre países (guerras) aumentam a cada
dia e representam uma ameaça perma nente para todos nós.
Sabemos que o equilíbrio emocional é fundamental para que um ser
humano se desenvolva normalmente, por isto, precisamos buscar todos os
conhecimentos e os meios mais adequados para resistirmos às ansiedades e às
101
tensões do mundo pós-moderno, que nos leva a ter medo de tudo, até do nosso
próprio crescimento.
E assim, nestas considerações finais, gostaríamos de dizer que temos
consciência de que nossa amostra é pequena e parcial, incluindo apenas jovens de
uma determinada classe social – a classe média. Inclusive, deixamos de perguntar a
eles como vêem o mundo contemporâneo e como sentem as pressões a que estão
submetidos.
Porém, apesar dessas deficiências, a nossa pesquisa detectou que o estresse
está presente nesta fase da vida que é marcada pela escolha profissional.
Tal escolha, como já dissemos, simboliza a entrada do jovem no mundo
adulto e, se insistimos repetidamente em certos pontos é porque os consideramos
básicos para entendermos certas idéias.
Por isto, o que aprendemos desta pesquisa foi que o comportamento cada
vez mais imaturo apresentado pela maioria dos jovens de hoje é um sinal de que as
exigências do mundo adulto contemporâneo estão criando mais dificuldades para o
desligamento familiar. Ou seja, o estresse apresentado pelos jovens da nossa pesquisa
revela-se como uma resistência ao crescimento, ou ainda como uma dificuldade do
jovem de hoje para se despedir da infância em função das restrições de uma
sociedade individualista, competitiva, imediatista e contraditória, que exige- lhe do
mesmo modo que exige de um adulto, caso ele não a assuma. Tais exigências
dificultam o processo de elaboração de lutos.
Ainda podemos fazer a seguinte observação: - o estresse detectado nesta
pesquisa diz respeito aos jovens que freqüentam uma escola religiosa, com
preocupações de caráter humanista cristão. Diante disto, resta- nos ainda uma dúvida:
- que nível de estresse obteríamos em jovens que freqüentam escolas conteudistas,
que priorizam o aspecto cognitivo?
Acreditamos, então, que o trabalho de Orientação Profissional é uma das
estratégias utilizadas para auxiliar o jovem neste momento de conflito e de indecisão,
pois, uma pessoa saudável, em desenvolvimento contínuo, será capaz de influenciar
seu próprio desenvolvimento e seu meio de forma equilibrada, auto-reguladora,
interativa e cooperativa, conforme nos diz Levenfus (2002).
102
Por isto, orientar não é oferecer respostas, nem aconselhar, muito menos
indicar caminhos, como nos diz Lisboa (1998).
Orientar, segundo esta autora, é oferecer possibilidades para que os jovens
saiam de uma posição individualista para uma postura criativa, de desalienação; mais
do que ver-se a si próprio, ver-se no outro, fazer para si e também para o outro; é a
possibilidade de interagir, de questionar, de compartilhar, de se responsabilizar.
Se conseguirmos isto, estaremos colaborando para que o jovem encontre a
sua singularidade, o seu modo de viver especial, aquele que lhe faz sentir vontade de
confiar nas pessoas e pular da cama cedo para trabalhar, fazendo o que mais gosta e
acreditando num amanhã mais justo e mais feliz, ou seja, estaremos promovendo
saúde.
Para finalizarmos esta apresentação, gostaríamos de dizer que, de certa
forma, esta pesquisa sobre o estresse da escolha profissional reflete um pouco
também da nossa ansiedade a respeito das exigências (mudanças) que estão
ocorrendo no mundo do trabalho. É comum nos depararmos com a preocupação
quanto ao emprego, afinal, é ele que viabiliza os nossos planos de vida.
Preocupa-nos também as mudanç as nas relações de trabalho, pois, sabemos
que o objetivo do profissional dos novos tempos não deve ser permanecer no
emprego, mas manter-se empregável e o nível das características do profissional com
excelente empregabilidade é alto. Isto significa que até para ficar no mesmo lugar é
preciso se mexer - quem quiser trabalho e remuneração tem de estar sempre
aprendendo.
Em vista do exposto, noventa por cento dos candidatos a um cargo qualquer
não têm a menor chance, pois, a disputa só acontece entre os bem preparados.
E nós, somos um destes?
Portanto, a angústia e o estresse dos jovens de hoje corresponde ao nosso
estresse ocupacional, ou seja, também há pressão por todos os lados em nosso
trabalho, quer dizer, estamos percebendo, junto aos jovens, que somos definidos,
atualmente, pela nossa capacidade de desempenho, pelos nossos resultados, pelo
sucesso profissional conquistado e, cada vez menos, com base em nossas relações
interpessoais ou em nossas atividades sociais.
103
Na verdade, nosso estresse ocupacional se deve ao fato de que nós ainda
não sabemos se estamos conseguindo ou não transformar tais exigências (mudanças)
do mundo do trabalho em oportunidades de construirmos carreiras flexíveis e
gratificantes para nós mesmos.
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