O Futuro da Indústria: Educação Corporativa – Reflexões e Práticas Coletânea de Artigos Presidência da República Luiz Inácio Lula da silva Presidente Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan Ministro Secretaria de Tecnologia Industrial Jairo Klepacz Secretário André Marcos Favero Chefe de Gabinete Manuel Fernando Lousada Soares Diretor de Política Tecnológica José Rincon Ferreira Diretor de Articulção Tecnológica Secretaria de Desenvolvimento da Produção Antônio Sérgio Martins Mello Secretário Nilton Sacenco Kornijezuk Diretor de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia Confederação Nacional da Indústria e Conselho Superior do IEL Armando Queiroz Monteiro Neto Presidente Instituto Euvaldo Lodi Carlos Roberto Rocha Cavalcante Superintendente Associação Brasileira de Educação Corporativa Ana Rosa Chopard Bonilauri Presidente Confederação Nacional da Indústria Instituto Euvaldo Lodi Núcleo Central O Futuro da Indústria: Educação Corporativa – Reflexões e Práticas Coletânea de Artigos Série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior – 13 Brasília, DF 2006 © 2006. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – MDIC Instituto Euvaldo Lodi – IEL/Núcleo Central Qualquer parte desta obra poderá ser reproduzida, desde que citada a fonte. Série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior 1 - O futuro da indústria de bens de capital: a perspectiva do Brasil 2 - O futuro da indústria de fármacos: a perspectiva do Brasil 3 - O futuro da indústria de semicondutores: a perspectiva do Brasil 4 - O futuro da indústria de software: a perspectiva do Brasil 5 - O futuro da indústria da construção civil: construção habitacional 6 - O futuro da indústria de transformados plásticos: embalagens plásticas para alimentos 7 - O futuro da indústria têxtil e de confecções: vestuário de malha 8 - O futuro da indústria: produtividade de capital 9 - O futuro da indústria: empreendedorismo 10 - O futuro da indústria: educação corporativa 11 - O futuro da indústria: tendências tecnológicas e a indústria brasileira 12 - O futuro da indústria: a importância da metrologia para o desenvolvimento industrial O futuro da indústria : educação corporativa – reflexões e práticas : coletânea de artigos/ coordenadores José Rincon Ferreira, Gilberto Benetti [et al.]. – Brasília: MDIC/STI : IEL, 2006. 213 p. : il. – (Série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, 13). ISBN 85-87257-23-4 1. Educação. 2. Política industrial. 3. Educação corporativa. 4. Capacitação profissional. I. Título. II. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. III. Instituto Euvaldo Lodi. IV. Série CDU 378 A pesquisa objeto desta publicação foi apoiada pelo CNPq, por meio do Projeto Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Secretaria de Tecnologia Industrial Departamento de Articulação Tecnológica Esplanada do Ministérios, bloco J, sobreloja 70053-900 – Brasília-DF, Brasil Tel.: 55 (61) 3425-7391 – Fax: 55 (61) 3425-7286 http://www.desenvolvimento.gov.br – e-mail: [email protected] Instituto Euvaldo Lodi – Núcleo Central SBN Quadra 1, bloco B, 9o andar, Ed. CNC 70040-902 – Brasília-DF, Brasil Tel.: 55 (61) 3317-9080 – Fax: 55 (61) 3317-9403 http://www.iel.cni.org.br – e-mail: [email protected] Agradecimentos Agradecemos a Amil Assistência Médica; Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica - Abipti; Associação Brasileira de Educação Corporativa - Abec; Banco do Brasil; Banco Itaú; Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES; Companhia Brasileira de Alumímio - Grupo Votorantin; Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia - Confea; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq; Datasul Educação Corporativa; Empresa Brasileira de Aeronáutica; Embraer; Guanabara Química Industrial – Getec; Isvor/Fiat; Motorola Brasil; Natura; Petrovina Sementes; Superintendência da Zona Franca de Manaus - Suframa, e, em especial, ao Grupo Gerdau, pela participação na edição das Coletâneas da Série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior. Apresentação A busca da eficiência coletiva tem sido a principal razão da realização das Oficinas de Educação Corporativa, colocadas em prática a partir de 2003. Em sua quarta edição, o evento debate, sobretudo, a avaliação das atividades de educação corporativa no País e o processo de certificação. A Educação não é mais um tema restrito à academia. Na economia atual o sucesso das empresas está diretamente vinculado à capacidade de gestão do conhecimento, de inovação e de educação continuada. Criar vínculos e sinergias entre projetos de desenvolvimento empresarial e tecnológico otimiza esforços tanto dos órgãos públicos quanto das empresas. Essa deve ser a meta de todos aqueles que se comprometem com o desenvolvimento empresarial brasileiro. Assim torna-se imperativo para os Fóruns de Competitividade e para a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior incorporar o compromisso com a educação continuada dos agentes. Ela não pode estar restrita apenas às grandes empresas, precisa alcançar, sobretudo, as pequenas e médias. É preciso lembrar que as MPEs são responsáveis por mais de 56% dos empregos formais do País. Para cumprir esse desafio, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC tem procurado articular ação de Governo integrada. A educação corporativa no Brasil tem sido debatida com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e os Ministérios da Educação, da Ciência e Tecnologia e do Trabalho e Emprego, além da Associação Brasileira de Educação Corporativa e da Confederação Nacional da Indústria. Temos estimulado a elaboração de literatura na área, propiciando a multiplicação dessa exitosa iniciativa. Essas são contribuições que ocuparão um espaço maior na agenda de desenvolvimento, principalmente nos próximos anos, quando se intensificarem as políticas de crescimento sustentável. O setor empresarial é agente importante desse desenvolvimento. Somente assim poderemos construir um Brasil mais justo e competitivo. Luiz Fernando Furlan Ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Sumário Notas dos coordenadores ....................................................................... 13 Parte I – Educação corporativa e ações de Governo ............................. 17 O “lock in” tecnológico e as ações de Governo .................................... 19 Sérgio Figueiredo Mestre em Desenvolvimento Sustentável, Gestor Público do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade .......................................................... 33 Ismar Ferreira da Costa Filho Assessor do Secretário do Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Coordenador do Fórum de Competitividade de Biotecnologia Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 .................... 43 Afrânio Carvalho Aguiar Pesquisador Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial e professor da Universidade FUMEC – Fundação Mineira de Educação e Cultura Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas ................................................................ 63 Mauro Arruda Economista William Andreotti Jr. Administrador de Empresas Educação corporativa, educação setorial e Fóruns de Competitividade: questões conceituais ........................................ 79 André Fábio de Souza Analista de Comércio Exterior no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Parte II – Reflexões e Competências ....................................................... 83 Educação corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites ............................................................................. 85 Ana Rosa Chopard Bonilauri Diretora de Recursos Humanos da Embratel Certificação profissional – uma tendência sem volta? ......................... 91 Julio Cunha Gerente de Aprendizagem e Conhecimento da Datasul Educação Corporativa Parte III – Educação corporativa e avaliação ......................................... 99 Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa ......................................... 101 Flavio Hourneaux Junior Doutorando em Administração de Empresas, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), professor e pesquisador Marisa Pereira Eboli Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Autora do livro Educação Corporativa no Brasil: Mitos e Verdades Sergio Mancini Doutorando em Ciência Ambiental – PROCAM da Universidade de São Paulo (USP) Avaliação em educação corporativa ..................................................... 117 Kira Tarapanoff Pesquisadora Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial, Universidade de Brasília Afrânio Carvalho Aguiar Pesquisador Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial, Universidade FUMEC Parte IV – Experiência de avaliação em educação corporativa .......... 131 O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil .......................... 133 Pedro Paulo Carbone Gerente Executivo da Diretoria Gestão de Pessoas do Banco do Brasil Edgard Rufatto Junior Gerente de Divisão da Diretoria Gestão de Pessoas do Banco do Brasil Académie Accor: estímulo à educação sustentável ............................ 151 Cristina Valiukenas Gerente de Educação Corporativa da Académie Accor Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT ....................................... 161 Maria Ednei da Silva Analista de RH Senior - MsC, Coordenadora do SAT/ GSE da Eletronorte TAM: Academia de serviços Cmte. Rolim A. Amaro ............................ 173 Kátia Carlini Gerente de Treinamento, Diretoria de Gestão de Pessoas da TAM Gleiva Rios de Araújo Félix Instrutora de Treinamento, Diretoria de Gestão de Pessoas da TAM A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas ................................. 185 Cláudia Motta Rocha Neves Coordenadora de Educação Corporativa da Fundação Unimed e Professora no Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil .................................................... 195 Luiz Cláudio Biagiotti Capitão-de-Fragata (T), Chefe do Departamento de Ensino a Distância Parte V – Resumos ................................................................................. 203 A experiência da Universidade Corporativa Amil Assistência Médica Ltda ............................................................. 205 Cláudia Danienne Marchi, Bruno Pereira de Castro Amil Assistência Médica Ltda. Criado pela vó: o dilema da plataforma ............................................... 207 Marcelo Larroyed Senado Federal Desenvolvimento e inovação na era do capitalismo cognitivo: o cenário da educação corporativa................................. 209 Herbert Gomes Martins UniGranRio A integração do conhecimento com a produção ................................ 211 Giancarlo Gerli Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (ABDIB) Notas dos Coordenadores A Coletânea que apresentamos reflete a contribuição do governo, da academia e da iniciativa privada em torno da temática educação corporativa. O escopo da coletânea dirige-se, em particular, à avaliação em educação corporativa, trazendo ainda, como complemento, contribuições focadas em competências e educação corporativa setorial. Todas as contribuições são inéditas, algumas delas resultado de levantamentos e pesquisa, outras, de reflexão e debate em torno dos eixos temáticos propostos. A obra estrutura-se em cinco Partes: I - Educação Corporativa e Ações do Governo; II - Reflexões e Competências; III - Educação Corporativa e Avaliação; IV - Experiências em Avaliação de Educação Corporativa; V - Resumos. A I Parte traz um conjunto de cinco artigos: o primeiro, de Sérgio Figueiredo, trata da questão tecnológica e a ação do governo em levá-la até o setor produtivo. Enfatiza que o fenômeno do desenvolvimento teve e tem, em todas as épocas, estreita ligação com a inovação tecnológica. Defende a tese de que o desenvolvimento tecnológico de um país ou de um setor depende da ruptura dos padrões tecnológicos vigentes. Coloca a educação corporativa como um importante elemento a ser considerado para preparar a ruptura. O segundo capítulo, de Ismar Ferreira da Costa Filho, analisa o conceito de educação corporativa sob o prisma das prioridades setoriais dos Fóruns de Competitividade. Contribui com uma reflexão sobre educação corporativa e desenvolvimento setorial, estendendo esse conceito à sua cadeia produtiva. O terceiro capítulo, assinado por Afrânio Carvalho Aguiar – Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, Situação em 2006 – traz o resultado do levantamento liderado pela Secretaria de Tecnologia Industrial, junto a 80 organizações sediadas no Brasil, envolvidas em atividades de educação corporativa. Os dados analisados perfazem 51,25% das organizações-alvo, e trazem um retrato do que se entende e caracteriza por educação corporativa no Brasil. Destacando apenas o aspecto de expectativas em relação às políticas públicas voltadas para o setor, mais da metade anseia por uma orientação e ação integradas, em especial no que tange à certificação acadêmica e à criação de legislação e regulamentação específicas. O quarto capítulo – Um Modelo de Universidade Corporativa para Micro e Pequenas Empresas, assinado por Mauro Arruda e William Andreotti Jr. – focaliza a educação corporativa voltada para microempresas e empresas de pequeno porte que, na opinião dos autores, deve voltar-se para os arranjos produtivos locais (APLs). Destaca a importância dos APLs e redes de cooperação para o desenvolvimento econômico regional e social do Brasil, assim como a valorização das MPE‘s como agentes de desenvolvimento. Conclui que, na 14 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas oferta da educação corporativa para as MPE‘s, será necessário formular uma visão estratégica comum às empresas do APL visando à construção de um planejamento de caráter estratégico para todo o Arranjo Produtivo. O quinto capítulo – Educação Corporativa, Educação Setorial e Fóruns de Competitividade , assinado por André Fábio de Souza, retoma a discussão dos aspectos conceituais da educação corporativa setorial para os arranjos produtivos locais (APL‘s). Destaca a possibilidade de que seja assumido um novo papel de liderança para os Fóruns de Competitividade, no sentido de agirem como espaço de contato de agentes co-participantes do desenvolvimento setorial, constituindo-se em um ambiente para que o tema educação corporativa seja disseminado. Alternativamente, sugere a criação de um grupo de trabalho, cujos objetivos seriam: a) verificar as experiências de educação corporativa já em prática em cada cadeia; b) analisar a possibilidade de educação corporativa setorial para a cadeia específica; c) apontar instrumentos públicos e privados que facilitem o uso da educação corporativa como mecanismo de inclusão social. A II Parte traz dois artigos. O primeiro deles – Educação Corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites – é assinado por Ana Rosa Chopard Bonilauri. A autora justifica a existência e a essencialidade da educação corporativa em função da formação das competências individuais e organizacionais, necessárias ao negócio da corporação. A atividade de aprendizado contínuo dentro da corporação também propicia o surgimento de uma cultura compartilhada, de acesso e troca de informações e conhecimentos, aumentando a capacidade de empreendimento, invenção, criação e aplicação no trabalho de novos métodos, soluções e ferramentas capazes de garantir maior produtividade e qualidade. O segundo artigo – Certificação profissional - uma tendência sem volta –, assinado por Júlio Cunha, analisa tendências de certificação em nível mundial. Descreve o modelo mais recorrente de certificação de competências e tece considerações sobre o impacto que pode ter no Brasil, em termos de competitividade. A III Parte traz dois artigos. O primeiro deles – Breve Panorama da educação corporativa no Brasil – é assinado por Marisa Pereira Éboli, Flávio Hourneau Jr e Sergio Mancini. Os autores defendem que um dos maiores desafios para as organizações com relação aos seus sistemas de educação corporativa é saber avaliar os resultados dos investimentos em educação, considerando seu impacto nos objetivos do negócio. Nos resultados da pesquisa é apontado que não há um posicionamento muito claro por parte dos respondentes (39 corporações) com relação ao processo de mensuração e avaliação do desempenho de suas atividades de Educação Corporativa. O modelo proposto por Kirkpatrick, continua representando o “estado da arte” quando o assunto é avaliação de programas de treinamento. Embora reconhecido por toda a atenção que tem recebido ao longo dos anos, a O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 15 utilização desse modelo é tímida, tendo em vista a dificuldade e custo de mensurar os níveis 3 e 4. O segundo artigo – Avaliação em Educação Corporativa – assinado por Kira Tarapanoff e Afrânio Carvalho Aguiar, foca especificamente a atividade de avaliação nas unidades de educação corporativa pesquisadas pelo levantamento realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por meio de sua Secretaria de Tecnologia Industrial. Os autores defendem a tese de que a educação corporativa deve estar a serviço da estratégia institucional, e que a avaliação de suas atividades também deve utilizar métricas que contemplem esse alinhamento. Nas conclusões do levantamento, de 41 instituições que responderam ao questionário, o modelo Kirpatrick e também o modelo ROI continuam sendo a regra para quase todas as corporações. Deduz-se que essa continuará a ser a prática por algum tempo ainda, em especial nas corporações onde há o entendimento de que a atividade educacional justifica-se como uma estratégia de aprimoramento institucional e não, principalmente, como uma estratégia de competitividade ou de “alavancagem” do negócio. Isso não exclui a possibilidade do aparecimento de outras abordagens, que estão começando a ser percebidas, desenvolvidas em instituições nacionais altamente competitivas como as do Banco do Brasil, Petrobrás, TAM, Natura, e outras, e que podem representar o futuro da avaliação corporativa no Brasil. A IV Parte traz seis artigos. O primeiro deles – O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão de competências do Banco do Brasil – é assinado por Pedro Paulo Carbone e Edgard Ruffato Jr. Os autores apresentam a metodologia de gerenciamento das competências profissionais, como atividade indispensável e insumo fundamental para o adequado alinhamento dos sistemas de capacitação às estratégias organizacionais. Seus indicadores de mensuração incluem os conjuntos referentes à mensuração da eficiência, eficácia e efetividade. O segundo diz respeito à experiência da Academia Accor – assinado por Cristina Valiukenas. Dentre outros questionamentos sobre mensuração dos resultados da educação corporativa, a autora foca a questão-chave do retorno financeiro para o acionista, proporcionado pela atividade de educação corporativa. O terceiro artigo referese ao Sistema de avaliação de treinamento da Eletronorte, assinado por Maria Ednei da Silva, que relata a implantação, em 2000, do sistema de avaliação de treinamento (SAT). Trata-se de um projeto que utiliza medidas de avaliação validadas cientificamente, tanto ao nível de reação (satisfação dos treinados com a qualidade do projeto instrucional e com o desempenho dos instrutores e auto-avaliação dos treinados), quanto ao nível de impacto do treinamento no trabalho (transferência das habilidades adquiridas para o trabalho, aumento do desempenho geral do treinado no trabalho e avaliação do suporte organizacional encontrado pelo treinado – gerencial, social e material). No nível de reação, também é avaliado o Centro de Treinamento da Empresa, nos seus aspectos logísticos e de atendimento ao cliente. Os resultados encontrados são encaminhados sistematicamente para as áreas-clientes da empresa (solicitantes dos treinamentos), instrutores internos e externos, treinados e empresas fornecedoras. O quarto capítulo, TAM: Academia de serviços, apresentado por Kátia Carlini e Gleiva Rios de Araújo Félix, descreve o treinamento em cascata da instituição. Nos aspectos de avaliação, o trabalho do gestor é avaliado pelo resultado de sua equipe. No segundo nível, são formados os multiplicadores que se tornam também responsáveis pela produtividade de suas equipes, sendo sua performance mensurada a partir desses resultados. Os indicadores de resultados incluem: avaliação de reação; avaliação de retenção; nível de eficiência operacional; turn-over de uma equipe. Com o cruzamento dos indicadores é medida a eficácia. O quinto capítulo – A transformação pela educação corporativa da Unimed – apresentada por Cláudia Motta Rocha Neves, lista, como indicadores de desempenho de sua educação corporativa, os seguintes itens: número de alunos a serem formados, índice médio de evasão admitido, produção científica, média de desempenho dos alunos, índice de satisfação média dos alunos, em relação aos cursos oferecidos por segmento, e outros. O sexto capítulo, referente à experiência da educação corporativa da Marinha, é assinado por Luiz Cláudio Biagiotti e foca a questão dos custos dos cursos a distância oferecidos pela instituição. Seu principal objetivo é verificar o custo x benefício dos programas, em comparação com os cursos presenciais. A V Parte traz resumos das contribuições da Amil, UniGranRio, Abdib e do Senado Federal, que estão disponíveis em sua íntegra no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – www.educor.desenvolvimento.gov.br. Parte I Educação Corporativa e Ações de Governo 1 O “lock in” tecnológico e as ações de Governo Sergio Figueiredo Mestre em Desenvolvimento Sustentável, Gestor Público do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial Resumo – Os fenômenos analisados pela Economia, além de uma natureza complexa, apresentam variáveis que decorrem de outras esferas de conhecimento. Este artigo se baseia numa revisão bibliográfica para reunir e apresentar alguns elementos do fenômeno do desenvolvimento e da inovação tecnológica. Da mesma forma que nos países desenvolvidos o processo ocorreu em seguida a uma ruptura política, o desenvolvimento tecnológico das empresas depende de uma ruptura com os padrões tecnológicos nela praticados. Tais padrões tecnológicos conduzem a uma situação de “lock in”, ou seja, de aprisionamento da empresa a uma determinada rota tecnológica, situação indesejável para a promoção do desenvolvimento por intermédio da inovação. Neste sentido, são examinadas as condições de formulação e implementação das políticas públicas por intermédio dos Fóruns de Competitividade, em especial com base na experiência do Grupo de Trabalho de Tecnologia do Fórum de Competitividade da Siderurgia, do qual o autor é coordenador desde 2003. São feitas algumas considerações sobre o papel da educação corporativa na liberação do “lock in” e a importância de que ela seja aplicada com base em determinadas referências “certificáveis” com relação a um conteúdo reconhecido oficialmente. Introdução Na linha de pensamento de alguns autores, em especial Schumpeter, Soete e Viotti, o processo de desenvolvimento pelo qual passaram os países do primeiro mundo é fundamentalmente diferente do processo que mantém os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos em seus atuais estágios. Esses autores atribuem ao fenômeno da inovação tecnológica a causa do desenvolvimento, por considerarem que a difusão de produtos inovadores no mercado oferece vantagens extraordinárias ao produtor, o que permite o surgimento de novos atores econômicos, alterando a distribuição de renda e gerando desenvolvimento sócio-econômico. De forma geral, uma ruptura política precedeu o processo de desenvolvimento dos atuais países desenvolvidos _ o que não ocorreu no Brasil. Essa ruptura política deve ser considerada tanto como referência para o desenvolvimento do processo de inovação nas empresas, quanto como elemento essencial ao desenvolvimento das nações, como o foi nos casos dos 20 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Estados Unidos e Inglaterra. Observar os principais fatos que antecederam o período de industrialização desses países ajuda a avaliar melhor o papel do governo para a promoção do desenvolvimento via inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, auxilia na implementação de políticas públicas voltadas à educação corporativa. 1. Amarras políticas A constatação da importância de fatores sociais, políticos, econômicos, históricos e internacionais tem o sentido de avaliar se a inovação schumpeteriana é causa ou conseqüência de tais mudanças. A análise demonstrará a presença de fatos históricos nos casos de industrialização da Inglaterra e dos Estados Unidos, principais expoentes do processo de industrialização, embora fatos similares certamente também façam parte da história de outros países, como França, Alemanha, Japão, Coréia do Sul e Taiwan. 1.1 A ruptura política na Inglaterra A história que precede a Revolução Industrial inglesa apresenta uma seqüência de eventos que transformam a nação e o Estado. Difícil tarefa identificar aquelas mudanças estruturais ou institucionais mais importantes. Podemos começar, contudo, pela estatização da Igreja, em 1534, a qual, motivada por razões particulares do Rei - embora que sem efeito imediato sobre a questão religiosa, que se arrastaria por mais de dois séculos - significava a primeira hierarquização do poder religioso ao secular. A derrubada de Carlos I (1645) e a subseqüente ditadura de Cromwell (até 1658), ainda que encerrada com a restauração da monarquia em 1660, propiciaram uma crucial discussão sobre o papel do Estado, seja pela inversão na percepção das relações entre soberano e súditos, tal como apresenta Hobbes, em “O Leviathan” (1651), seja pela criação do Commonwealth (1649), que viria dar a identidade burguesa ao Estado britânico. Decisões políticas como os “Enclosure Acts” do final do século XVIII, permitiram a segregação de mais de 7 milhões de acres para a agricultura, deslocaram pequenos proprietários sem acesso a recursos antes comuns e obrigaram a construção de vias entre as propriedades para o transporte de mercadorias. Ao mesmo tempo, os ganhos de produtividade em setores tais como a construção naval, a indústria metalúrgicas e de armas permitiram o acesso a mercados distantes e a especialização do cultivo com ganhos de produção e produtividade. O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 21 Assim, às vésperas do salto de produtividade e de produção da Revolução Industrial inglesa, que se situa aproximadamente em 1780, a Inglaterra contava com um Estado legal burguês, no qual a soberania era exercida em benefício de sua classe burguesa, motivada e dirigida pelo comércio. Uma reforma agrária havia sido conduzida, ao contrário dos demais estados europeus, a qual aumentou a produtividade e a produção de alimentos, liberou mão-de-obra para a produção industrial e facilitou o acúmulo do capital necessário à empreitada industrial (HOBSBAWN, 1996, p.47). Além disso, dominava as tecnologias de guerra, essenciais à sua sobrevivência em constantes tempos de conflito. 1.2 A ruptura política nos Estados Unidos Dependente do capital dos bancos dos estados do nordeste americano e da escravidão, as elites sulinas somente poderiam manter seu status quo através de representativa participação política no governo da União. O jogo de forças entre escravocratas e abolicionistas se apresentava no tênue equilíbrio de acordos, como o “Comprometimento de 1850” e a “Lei de Escravos Fugidos”, de 1853. A cultura de algodão no Sul, no entanto, representava 7/8 da produção mundial por volta de 1850. Mais importante do que a questão da escravidão era o distanciamento dos projetos nacionais. Os estados do nordeste defendiam o intervencionismo e o protecionismo da indústria nascente enquanto o Sul, exportador, defendia a abertura do mercado para a conversão de suas riquezas em consumo de luxo. Esses fatores levaram ao início da guerra da secessão em abril de 1861. A guerra terminou em 1864 e a escravidão foi abolida em 1865. A ruptura provocada pela eleição de Lincoln, não só provocou a guerra, como permitiu a remoção das lideranças políticas retrógradas sulistas do espaço do poder, abrindo caminho para o salto de industrialização e desenvolvimento que aconteceria a partir da segunda metade do século XIX, mesmo que o sul não o tenha acompanhado de imediato. Ao final da guerra, os Estados Unidos haviam consolidado a União e avançado sobre o território da América do Norte, constituindo uma potência continental e alcançando uma posição internacional com a Guerra Hispanoamericana de 1898. Ao mesmo tempo, se iniciou, em altíssima velocidade, um processo de produção e difusão de inovações encabeçado por Thomas Edson e Graham Bell, entre outros. 1.3 O Brasil: uma história sem rupturas Enquanto os Estados Unidos e a Inglaterra se tornaram países desenvolvidos, durante o século XIX, o Brasil amarga uma eterna condição de país em 22 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas desenvolvimento, situação para a qual não se vislumbra solução. Para a manutenção desse estado de coisas, contribuem as questões políticas decorrentes da própria formação do Estado. Bonfim (1931) apresenta o processo de formação do Estado brasileiro, tal como Faoro (2000), como uma reprodução do estado bragantino2. Em sua análise, todos os movimentos revolucionários da história brasileira _ a independência em 1822, a constituinte de 1823, a abdicação de 1831, o Ato Adicional de 1834 e a Proclamação da República de 1889 _ teriam sido sucedidos por um movimento de apaziguamento e de restauração das forças políticas, ainda que com roupagens mudadas, perpetrando um Estado oligárquico. Em 1931, segundo Bonfim (ibid, p.451), “[S]e há um gênio nacional-brasileiro, esse ainda não teve realização, pois a nação continua abafada, escravizada, pela classe dirigente, como o era antes pelo governo da metrópole, de quem são, os mesmos dirigentes, herdeiros diretos e continuadores imediatos”. Mais à frente (p.469), ele indaga: “Pode o brasileiro sentir-se em sua pátria, quando a nação em que se inclui é, apenas, o apanágio dos dirigentes que dela vivem como o pastor vive do rebanho?”. A não ser que acreditemos que a Revolução de 1930 ou o golpe de estado de 1964 produziram um deslocamento das forças políticas, o Brasil não teria ultrapassado a etapa de revolução no pensamento político, na qual se produziram as rupturas apontadas para os casos da Inglaterra e dos Estados Unidos. Sob esses aspectos e ponto de vista, o Brasil seria ainda um estado controlado pelos interesses de uma classe originalmente agrícola e vinculada à exploração colonial, classe cujos interesses viriam sendo adequadamente atendidos pelo “estamento político” durante toda a história brasileira (FAORO, 2000). O que se pergunta é o que pode o governo fazer para, apesar da falta de precedentes políticos, similares àqueles do desenvolvimento inglês e norte-americano, promover o desenvolvimento no Brasil, pela via da inovação tecnológica. Sem dúvida, a resposta a esta pergunta está na promoção da formação de trabalhadores voltados ao processo de inovação tecnológica, considerando as dificuldades que essa mão-de-obra carrega, por conta de um sistema de ensino fraco e desarticulado. 2. Evolução das necessidades de capacitação de trabalhadores A noção de que a maior produtividade do trabalho é fator para o aumento da mais valia e acumulação de capital se fundamenta em Smith e Marx, para falar apenas dos autores pilares. Smith (apud VIOTTI, 1997, p.10) já considerava que a divisão do trabalho promovia o aumento da produtividade por conta de três fatores: a maior destreza do operário como conseqüência da especialização, 2 O estado da aristocracia dos Orleans e Bragança, família de D. João VI e Pedro I e II. O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 23 a eliminação do desperdício de tempo com as mudanças entre distintas operações e a “invenção de um grande número de máquinas que facilitam e abreviam o trabalho”. Assim, foram citadas por Smith três questões tecnológicas: o treinamento da mão-de-obra, o desenvolvimento de novos métodos de produção e o desenvolvimento de máquinas para substituir a mãode-obra na maior extensão possível, tendo ficado de fora apenas a questão do uso de novos materiais. Tais questões são possibilidades de inovação consideradas por Schumpeter, das quais tratarei mais à frente. Marx (1848, p.16) relata a “sujeição das forças da natureza” pela burguesia, na busca da produtividade, da mais valia e da acumulação do capital. Os mecanismos dessa sujeição constituem inovações no seu sentido mais estrito. Entretanto, tanto a visão de Smith quanto a de Marx apresentam uma fixação ao papel fundamental do trabalho humano para a geração de riquezas. O século XX, todavia, tem como obra revolucionar os processos produtivos e produzir sucessivos e mais profundos distanciamentos do trabalhador da obra de seu trabalho até um ponto em que aquele possa se tornar, senão dispensável, requisitado apenas para operações e atividades que originam os processos automatizados. 2.1 A produção industrial sem o trabalho humano A evolução do trabalho humano, a partir da produção artesanal até os dias atuais, foi um processo de afastamento do homem do objeto de seu trabalho. Primeiro, o processo de produzir artefatos tinha a qualidade determinada e controlada pelo cliente nos momentos da encomenda e da aceitação (JURAN, 1995). Quando o modelo de administração científica de Taylor vinga nas mãos de Ford, através da padronização das partes e da divisão ostensiva do trabalho, criam-se condições para grandes ganhos de produtividade e para o deslocamento das profissões tradicionais (FREEMAN; SOETE, 2000). O trabalho despersonaliza-se: o operário perde a noção do efeito de sua tarefa sobre o produto final; a qualidade do produto passa a ser determinada por uma nova função industrial: o controle da qualidade; produtividade e qualidade são tratadas como variáveis independentes, já que se referem a objetos distintos em suas concepções tecnicistas. Aos problemas causados por operários cobrados por maior produtividade, o que resulta em aumento de defeitos, apresentam-se as primeiras soluções de mecanização, com seus efeitos negativos _ objeto de crítica do cinema de Fritz Lang (Metrópolis, 1926) e de Chaplin (Tempos Modernos, 1936). A II Guerra Mundial anuncia o uso de técnicas estatísticas de controle da qualidade e os primeiros ensaios de sistemas (de controle) da qualidade que são, após a Guerra, levados a sério pela indústria japonesa, sendo uma das causas de seu sucesso comercial a partir da década de 1970. As tecnologias 24 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas da informação e de telecomunicações vêem, nos anos 1980-1990, oferecer novas possibilidades de afastamento do trabalho humano da produção. Ao conhecimento das técnicas de repetição mecânica se acrescentaram sensores capazes de comandar a atuação e funcionamento das máquinas, garantindo, a priori, a qualidade3 do produto. Por outro lado, o uso de sensores sofisticados permitiu o alcance de especificações mais precisas do produto, a níveis inalcançáveis pelo ser humano, passando, agora, a ser uma interferência negativa na produção de produtos de maior valor agregado. Ao conhecimento explícito obtido pela descrição de responsabilidades, autoridades, controles e operações executadas pelos trabalhadores _ resultado da descrição do sistema da qualidade _ acrescentar-se-á, em breve, o domínio do conhecimento tácito pelas técnicas de gestão do conhecimento. Todo esse processo é coroado pela inutilização do trabalho humano, em graus crescentes, a partir das tarefas mais simples. Trata-se de um processo que está irrecusavelmente associado ao crescimento de capacidade das fábricas, até um nível de superação do mercado interno e sua viabilização apenas no mercado sem fronteiras. Segundo Mandel (1985, p. 223), o mercado doméstico da Suécia, por exemplo, absorveria apenas 50% e 70%, respectivamente, da capacidade mínima de produção de uma fábrica de geladeira e de cerveja. O Canadá, outro exemplo, não tem mercado que alcance a capacidade mínima de uma fábrica atual de geladeiras. Chegouse a uma concentração de capital, com aumento de produtividade e de produção, que dificilmente poderá refletir a distribuição de renda da população, visto que reduz catastroficamente o trabalho direto e não o transfere imediatamente para outros empregos de idêntica ou maior remuneração. A extrema especialização profissional decorrente do fordismo é agora um empecilho para a mobilidade do trabalhador nela especializado. Os novos empregos, por outro lado, exigem qualificação decorrente não mais de habilidades treináveis, mas de longo período de formação, de restrito acesso ao trabalhador, em países como o Brasil. Dentre os setores mais bem organizados no Brasil, o siderúrgico passa a exercer uma ação quase sempre coordenada dentro do governo federal, buscando dar conhecimento aos seus interesses e o atendimento dos mesmos pelas políticas públicas, no que constitui uma atividade legítima. 2.2 O novo papel dos recursos humanos A linha histórica da divisão do trabalho alcança, nos anos 1980/1990, dois caminhos que se antepõem e complementam. De um lado, o trabalho de 3 Qualidade: a conformidade com os requisitos do cliente; dentro de um processo industrial: a conformidade com as especificações técnicas. O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 25 escritório passa a incluir características daquele da indústria, pois com o aprofundamento do uso das tecnologias de informação todos passam obrigatoriamente a operar máquinas (computadores), ainda que os resultados dessa “operação” estejam longe de ser tão limitados quanto os das antigas máquinas industriais. Por outro lado, no ambiente da indústria promove-se a ruptura de um estilo de vida industrial iniciado no Brasil há pelo menos três gerações. Cai por terra a idéia de que bastava aprender uma profissão, tal como a de torneiro mecânico, e um trabalhador poderia sobreviver toda a sua vida ativa a partir desse conhecimento especializado. Nesse exemplo específico, enquanto um torneiro tradicional tem dificuldade de aprender os conceitos de física e mecânica vetorial envolvidos na programação eletrônica da máquina, um operador/ programador de tornos eletrônicos estará provavelmente capacitado a aprender com facilidade os segredos de programação de outras máquinas ferramentas. A especialização, portanto, deixa de garantir o emprego e as novas tecnologias, dados os elevados ganhos de produtividade e qualidade, não são jamais ameaçadas pelas tecnologias anteriores. Viotti (2001) analisa o papel do capital humano e da pesquisa e desenvolvimento para a inovação e apresenta o conceito de “sistema nacional de aprendizado”. Tal conceito está baseado na distinção entre as nações desenvolvidas e aquelas de desenvolvimento retardatário, posto que o processo de subdesenvolvimento não se constituiria num processo atrasado de desenvolvimento, apresentando características diferentes. Assim, a busca de inovações não deveria ser objeto imediato dos países em desenvolvimento, face às suas dificuldades em desenvolver inovações radicais e difundi-las, mas o desenvolvimento de um processo de mudança técnica visando ao aprendizado. Ainda segundo Viotti, há dois níveis de sistemas de aprendizado: o ativo e o passivo. O “ativo”, caso da Coréia do Sul, teria como característica principal a existência de um sistema promotor da imitação e utilizador da engenharia reversa de forma a, sucessivamente, ir ativando os subsistemas da sociedade e alcançando aperfeiçoamentos tecnológicos que vão se aproximando das inovações. No nível “passivo”, haveria apenas uma capacitação para a produção, com desenvolvimento superficial da tecnologia sem, contudo, alterar o comportamento de qualquer dos subsistemas. Nesse ponto, ofereço uma crítica à reflexão dos autores. Não ocorrendo uma interação consistente entre os subsistemas da sociedade, no caso dos países de aprendizado passivo, essa vertente “passiva” deveria ser chamada de “sistema”?4 4 Haveria, neste ponto, a necessidade de avaliar qual o papel do governo em promover esse Sistema de Aprendizado ou Inovação. Vários autores conduziram um levantamento de indicadores nacionais sobre pesquisa, ciência, desenvolvimento e tecnologia, que indicam diferentes padrões de participação do governo no fomento dessas atividades, assim como, diferentes resultados. Neste artigo, entretanto, estão sendo examinadas as questões mais abrangentes e conceituais sem que se busque alguma recomendação de ação do governo, para o que seria necessária uma análise da eficiência, eficácia e efetividade das políticas públicas brasileiras de P&D atuais e passadas. 26 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Dados comparativos entre a Coréia do Sul e o Brasil são apresentados por Viotti, dos quais selecionamos alguns, apresentados na Tabela 1, a seguir, de forma e evidenciar as diferenças entre os sistemas de aprendizado ativo (sul-coreano) e passivo (brasileiro). Tabela 1. Indicadores dos Sistemas Nacionais de Aprendizado. Fonte: VIOTTI, pp.666, 673 e 674, 2002. 2.3 O posicionamento estratégico da indústria A abertura dos mercados pelo fenômeno da globalização fragiliza a competitividade de setores tradicionais, que tentarão manter seu status-quo no mercado nacional por meio dos mecanismos de proteção que restaram, dentre eles a criação de barreiras de acesso por meio de obstáculos técnicos e comerciais. Embora legítimo, tal movimento, entretanto, gera obstáculos ao desenvolvimento de novos atores que, assumindo novos papéis econômicos, facilitariam o alcance do desenvolvimento sócio-econômico pela conseqüente ação sobre a repartição da riqueza. Em outras palavras, um outro componente da inovação e do desenvolvimento é a existência de empresários com perfil empreendedor, responsáveis por conduzir três oposições: primeiro, a oposição entre o equilíbrio O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 27 do processo circular, onde o capitalista se encontra investido, e o risco da mudança devido à inovação; segundo, a oposição de dois aparatos teóricos: o estático (do equilíbrio sobre a tecnologia já estabelecida) e o dinâmico (da mudança para a nova tecnologia); e, por último, pela oposição entre administrador e empresário. Schumpeter trata, também, da característica de liderança que seria necessária para enfrentar três dificuldades: a falta de dados e regras para a tomada de decisões fora dos canais circulares; a prisão do pensamento às referências e lógicas tradicionais; e a resistência à mudança da sociedade. Para o “empresário schumpeteriano”, descrito acima, haveria uma motivação intrínseca de criar um “reino privado”, um desejo de conquistar e a alegria de criar. Esse “empresário”, todavia, parece que não se cria, mas se desenvolve em ambientes que favorecem a competitividade. 3. Difusão da inovação tecnológica versus o “lock in” Denomina-se “lock in” a conseqüência do processo circular descrito por Kuhn (2003), que atua como uma prisão tecnológica na indústria já estabelecida. Exceto em indústrias e mercados altamente competitivos, haveria uma tendência de que as empresas estabelecidas inovem. Nas demais, haveria uma resistência à mudança tecnológica dados seus riscos e dada a cultura tecnológica da mão-de-obra. A ruptura desse processo para a promoção da inovação tecnológica e do desenvolvimento que interessa ao governo não pode ocorrer à margem das empresas. Um caso emblemático do processo de ruptura do “lock in”, o Tecnored,5 ocorreu no âmbito do Fórum de Competitividade da Cadeia Siderúrgica. 3.1 O Fórum de Competitividade da Siderúrgia e o GT Tecnologia O Grupo de Trabalho de Tecnologia (GT Tecnologia), do Fórum da Cadeia Siderúrgica, vem, desde 2003, discutindo e encaminhando aos órgãos de fomento propostas de apoio e criação de infra-estrutura tecnológica6. Dentre os encaminhamentos, merece especial destaque o encontro promovido pelo GT entre o BNDES e os responsáveis por uma nova tecnologia de produção de ferro-gusa, matéria prima do aço, denominada Tecnored. O processo de desenvolvimento e difusão dessa tecnologia é emblemático da dificuldade que o empresário schumpeteriano enfrenta no Brasil. Principalmente por se tratar 5 6 Processo desenvolvido por brasileiros baseado na “auto-redução” para a produção de ferro-gusa de matérias primas que são atualmente passivos ambientais. Dentre os projetos se encontram o levantamento de indicadores de competitividade nas cadeias siderúrgica e de fundição, além da criação de um portal sediado na Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais, onde constam diversas informações, como a identificação das capacidades da rede de laboratórios. 28 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas de uma tecnologia de produção revolucionária, foram necessários mais de 10 anos de tentativas de difusão para que se obtivesse o apoio de uma siderúrgica, a Villares, e do órgão de fomento, o BNDES. Contribuíram para essa dificuldade, tanto as restrições de acesso ao financiamento público7 quanto o “desinteresse” das siderúrgicas nacionais, por conta dos seus pesados investimentos em bens de capital, característica do setor e parte do “lock in” tecnológico. O aprisionamento tecnológico se expressa até mesmo na educação dos engenheiros metalúrgicos, com tecnologias tradicionais, como as do altoforno, ocupando os principais espaços nos cursos de formação, seminários e congressos. A opção tecnológica do Tecnored, ainda que contivesse o risco de fracasso, comum a toda inovação, era extremamente oportuna e vantajosa, pois permitia a redução do tempo de produção de cerca de 8 horas _ altofornos _, para cerca de 50 minutos. Outros aspectos positivos da tecnologia são o uso de resíduos de minério de ferro e de carvão mineral, além do próprio carvão vegetal obtido de fontes como o capim. As discussões sobre o Tecnored no GT nunca sofreram pressão contrária das siderúrgicas tradicionais; a falta de interesse delas, contudo, era suficiente para tornar o caminho da difusão da inovação ainda mais difícil. Ao formular e implementar políticas públicas de pesquisa, desenvolvimento e difusão da inovação tecnológica, o governo federal precisa enfrentar o desafio de olhar para além dos interesses manifestados pela indústria tradicional. Ainda que o ambiente do Fórum de Competitividade permita a livre representação de toda a sociedade, ela estará representada principalmente pelos atores de maior poder econômico e maior capacidade de articulação. No âmbito do GT Tecnologia, discute-se o processo de inovação tecnológica, observa-se o desenvolvimento das tecnologias industriais básicas (TIB) e recomenda-se aos órgãos de governo relacionados o apoio e o fomento a determinadas ações gerais de infra-estrutura. O espaço aberto à apresentação de novas tecnologias, como o Tecnored, portanto, foi uma concessão aos interesses demonstrados pela minoria do GT, em especial representada pela Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais, ABM. Com inauguração prevista para o último trimestre de 2006, a primeira planta Tecnored é simbólica quanto à dificuldade que o empresário brasileiro enfrenta em difundir a inovação tecnológica, mas, também, do aprisionamento tecnológico da indústria estabelecida, incluindo-se aí o pessoal que nela trabalha. Dessa experiência podem, contudo, ser aprendidas algumas lições. A primeira, é de que promover o desenvolvimento deve ser entendido pelo governo como “promover” novos atores econômicos, pois assim se estará 7 Apenas a partir de 2005 foram adotadas novas ferramentas de financiamento que consideram o risco de fracasso como parte irrecusável da promoção da inovação tecnológica. O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 29 desconcentrando a riqueza no Brasil; ao contrário, apoiar atores tradicionais significaria concentrar ainda mais a renda. A segunda, de que os novos atores econômicos enfrentam dificuldades de alcançar o governo e que, mesmo em ambientes democráticos, como o Fórum de Competitividade, é preciso ouvir atentamente todas as demandas e propostas e avaliar a posição dos atores tradicionais, considerando seu natural “lock in” tecnológico. A terceira, de que o papel do governo na promoção do desenvolvimento pode ser mais facilmente exercido por meio da articulação entre os órgãos de política _ o MDIC; de fomento _ a Finep; o Bndes; e a academia. 3.2 Os riscos do “lock in” na educação corporativa e a necessidade de certificação Não se propôs neste artigo apresentar a educação corporativa como instrumento ímpar de formação de trabalhadores, certo estamos de que haverá alguém mais capaz para tratar dela em especial. Nossa preocupação foi alertar para os riscos de que a educação corporativa possa estar sendo conduzida sem a perspectiva de estimular a inovação tecnológica nas empresas. Um aspecto da educação corporativa que tratamos em outra ocasião foi a importância de certificação do trabalhador por instituições de ensino, dando ao currículo dele um reconhecimento extra-companhia. A certificação de pessoal já é antiga e esteve atrelada às exigências das companhias de seguro, em especial as classificadoras de navios, que exigiam que os soldadores de casco tivessem sua habilidade e capacidade de soldagem plenamente certificadas, de forma que se garantisse a segurança e a qualidade do navio e, assim, se permitisse o seguro do mesmo e das cargas que transporta. No caso da educação corporativa, nos parece essencial que ela possa ser vacinada contra o “lock in” tecnológico, ou seja, que seus conteúdos possam ir além das competências atuais da organização e permitam que funcionários empreendedores desenvolvam um pensamento inovador sobre suas operações. Tal objetivo implica que se incluam no sistema de educação formal disciplinas aplicadas sobre inovação tecnológica em seus aspectos de criatividade e processo. Com base em conteúdos metodológicos voltados ao desenvolvimento da inovação é possível considerar a implementação de uma política pública de fomento da educação corporativa que considere a presença de determinadas disciplinas. Por um lado, o estabelecimento de um procedimento de certificação das disciplinas dos cursos de educação corporativa é uma garantia de que eles poderão contribuir para a redução do “lock in” tecnológico. Por outro lado, a concessão de certificados aos trabalhadores precisa ser de tal forma que signifiquem o alcance de um padrão de qualidade para que possam ser reconhecidos por outros empregadores. 30 4. O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Conclusão A percepção de Schumpeter do papel das inovações tecnológicas para o desenvolvimento deve ser entendida sob um ponto de vista histórico. A história da Inglaterra e dos Estados Unidos demonstra que ambos passaram por reformas políticas que antecederam a difusão de inovações e reformas, que marcaram a civilização ocidental. As inovações, nessa visão ampliada, somente teriam sido produzidas pela existência de um ambiente institucional e econômico propício a investimentos de risco, ambiente que já era conseqüência de um “desenvolvimento”. Essa constatação _ que demanda um aprofundamento do estudo a outros países e uma interpretação multidisciplinar dos fatos históricos libertadores das forças desenvolvimentistas _ não destrói a outra constatação de que apenas através da introdução de inovações aquelas nações puderam dar um salto. Salto que, na visão de Schumpeter (1982), Freeman (2002) e Viotti (2002), para citar apenas alguns autores, é representado nas novas ondas de Kondratieff,que seguem a introdução de inovações radicais e levam ao crescimento das nações que primeiro as difundem. A liberação das forças inovadoras dos empresários schumpeterianos precisa contar com o apoio e o fomento do governo, o qual não pode se deixar iludir pela oferta de um ambiente democrático de consultas, tal como ocorre nos Fóruns de Competitividade, e que precisa estar atento à presença do “lock in” nas defesas de posição da indústria já estabelecida. Por outro lado, a formação de pessoal é um elemento central para a promoção de um ambiente inovador nas empresas, mas somente a partir de conteúdos voltados à inovação, que merecem ser certificados, tanto para a garantia da redução do “lock in”, quanto para a oferecer ao trabalhador o reconhecimento do seu esforço de formação, dando-lhe uma melhor possibilidade de emprego no mercado. Romper o circuito vicioso das tecnologias estabelecidas não é apenas uma das escolhas, mas, provavelmente, a única que pode ser tomada pelos governos de países em desenvolvimento conscientes de seu papel para o futuro da nação. Referências BONFIM, Manoel. O Brasil nação: realidade da soberania nacional. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2000. FREEMAN, Chris. Continental: National and sub-national innovation systems complementarity and economic grow, in Research Policy. Brighton: Elsevier, p. 191-211, 2002. O “lock in” tecnológico e as ações de Governo 31 FREEMAN, Chris; SOETE, Luc. The economics of industrial innovation. 3. ed. Cambridge, Massachusetts: The MIT, 2000. GROVE, Noel. National Geographic Atlas of World History. Washington D.C.: The Book Division, 1997. HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. HOBSBAWN, Eric J. A era dos impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. JAMES, Lawrence. The rise and the fall of the British Empire. New York: St. Martin’s 1994. JURAN, Joseph. A history of managing for quality: the evolution, trends, and future. Milwaukee, Wisconsin: ASQC Quality, 1995. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2003. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto comunista. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. OCDE. Managing national innovation systems. Paris, 1999. SCHUMPETER, Joseph A. O fenômeno fundamental do desenvolvimento. 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In: Dimensão Econômica da Inovação, da coleção Curso de Especialização em Agentes de Difusão Tecnológica, Brasília: ABIPTI/SEBRAE/CNPq, p. 9-22, 1997. 2 Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade Ismar Ferreira da Costa Filho Assessor da Secretaria do Desenvolvimento da Produção, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e Coordenador do Fórum de Competitividade de Biotecnologia Resumo – Este artigo apresenta conceitos sobre Educação Corporativa e Educação Setorial e uma avaliação sobre sua aplicabilidade aos Fóruns de Competitividade coordenados pelo Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Primeiramente, são apresentados conceitos sobre Educação Corporativa e rápidas ilustrações sobre um, caso de sucesso: o Banco do Brasil. A seguir, apresenta-se o conceito de Educação Setorial e um questionamento sobre o sistema implantado pela Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB): Educação Corporativa ou Educação Setorial? Complementarmente, são apresentados alguns dados relacionados à metodologia dos Fóruns de Competitividade, para, enfim, concluir sobre a aplicabilidade de sistemas de Educação Corporativa ou Educação Setorial nesses ambientes de articulação coordenados pelo MDIC. Introdução As organizações da Nova Economia buscam aperfeiçoar suas competências como forma de assegurar sobrevivência no mercado. A implantação de um sistema de Educação Corporativa é uma das vias que tem sido adotada pelas empresas de alta performance, no sentido de capacitar seus funcionários, com foco na estratégia empresarial. Surge um novo conceito, embora com prática nem tão nova: Educação Setorial – um esforço integrado de um setor, com vistas a capacitar sua força de trabalho. Educação Corporativa ou Educação Setorial: duas iniciativas que possuem objetivos gerais semelhantes, com pequenas especificidades que os diferenciam. Em verdade, o que conta é a consciência de que somente por meio do aperfeiçoamento de suas competências é que se pode ser competitivo no mercado atual. Os Fóruns de Competitividade são um programa de Governo, por meio do qual se constituem ambientes de articulação entre todos os integrantes de uma cadeia produtiva, no sentido da obtenção de maior competitividade. 34 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Este trabalho tem por objetivo fazer uma reflexão sobre a aplicabilidade de sistemas de Educação Corporativa ou de Educação Setorial no âmbito dos Fóruns de Competitividade. 1. Educação Corporativa Segundo Débora Silva, Educação Corporativa pode ser definida como o conjunto de práticas educacionais planejadas para promover oportunidades de desenvolvimento do funcionário, com a finalidade de ajudá-lo a atuar mais efetiva e eficazmente na sua vida institucional. Os programas de educação corporativa destacam-se como um sistema de desenvolvimento de pessoas e talentos humanos alinhado às estratégias de negócio de uma empresa, conferindo-lhe uma poderosa fonte de vantagem competitiva. Já Marisa Éboli a define como o conjunto de ações integradas que possibilitam o desenvolvimento de pessoas com foco nas competências empresariais e humanas que são estratégicas para o sucesso do negócio. Podemos perceber que ambos os conceitos focalizam o desenvolvimento de pessoas, favorecendo sua inserção institucional, vinculando-o às estratégias empresariais. Simbolicamente podemos representar a Educação Corporativa como uma ponte que une o desenvolvimento das pessoas às estratégias de negócio da empresa, O apoio forte e visível da alta administração é o fator vital para o sucesso geral da Educação Corporativa. Envolve, ainda, comunicação constante, avaliação, tecnologia, parceiros de aprendizagem, produtos/serviços, partes interessadas, organização, fontes de receita, visão/missão e controle (AINLEY & BAILEY,1997; 44). Marisa Eboli afirma que as experiências mais bem-sucedidas de Educação Corporativa são aquelas que realizam parcerias com algumas universidades que têm a competência para agregar valor a estes programas das empresas, contribuindo assim para que elas realizem com mais competência e alcancem melhores resultados no processo de gestão dos conhecimentos considerados críticos para o sucesso do negócio. Seu maior desafio é criar um ambiente de aprendizagem no qual todo funcionário e todo elemento do sistema comercial da empresa compreenda a importância da aprendizagem contínua vinculada a metas empresariais. Podemos relacionar como papéis-chave de uma Educação Corporativa: • Identificar e priorizar as necessidades de aprendizagem atuais e futuras; Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade 35 • Vincular o treinamento a essas principais estratégias empresariais; • Assegurar projeto, desenvolvimento, apresentação e avaliação consistentes e • Oferecer orientação para o desenvolvimento de uma filosofia de aprendizagem. 2. Banco do Brasil – um caso de sucesso de Educação Corporativa1 O Sistema de Educação Corporativa do Banco do Brasil (BB) existe desde 1965. Ao longo desse tempo, o Banco do Brasil tem buscado a excelência em Educação Corporativa, propiciando condições de desenvolvimento pessoal e profissional a seus funcionários, extensivos a clientes, fornecedores e parceiros. Opera em constante interação com todos os segmentos do BB, com o meio acadêmico e com as mais variadas fontes de produção de conhecimento no Brasil e no Exterior. Orienta-se pelos seguintes propósitos: • Desenvolver a excelência humana e profissional de seus funcionários; • Prover soluções para problemas de desempenho profissional; • Aperfeiçoar a performance organizacional e • Formar sucessores para quadros técnicos e gerenciais do Banco do Brasil. Alinhamento com as estratégias do Banco do Brasil: As ações da Educação Corporativa alinham-se com o direcionamento estratégico do Banco do Brasil. Contribuem para a realização da missão do Banco, a concretização de sua visão de futuro e o desenvolvimento de suas crenças e valores, consolidando o compromisso da Organização com os acionistas, os clientes, a sociedade e os funcionários. Contribuições do Sistema de Educação Corporativa: • Contribui para o fortalecimento da imagem do Banco do Brasil; • Desenvolve a excelência humana e profissional de seus públicos; • Estimula a criatividade e a inovação; • Favorece o desenvolvimento da cultura empresarial; • Amplia as oportunidades de pesquisa; • Cria uma base corporativa de conhecimentos que assegura a competitividade do Banco; 1 http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/unv/edu/index.jsp 36 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas • Estimula a organização de espaços educativos em todas as unidades do Banco; • Amplia a comunidade de aprendizagem do Banco do Brasil; • Expande oportunidades educacionais ligadas à profissionalização, ao desenvolvimento da cidadania, da qualidade de vida e da cultura; • Democratiza o acesso ao conhecimento, por meio de recursos de educação à distância; • Valoriza o papel de gestores e executivos, que atuam como educadores; • Estabelece parcerias com instituições de ensino. Como se pode observar, o Sistema de Educação Corporativa do BB alinha-se perfeitamente com os conceitos anteriormente apresentados, dentre os quais se destacam: • Identificação e priorização das necessidades de aprendizagem, vinculadas ao direcionamento estratégico do Banco; • Orientação para o desenvolvimento de uma filosofia de aprendizagem e educação continuada; • Busca de parcerias com instituições de ensino; • Apoio forte e visível da alta administração. 3. Educação setorial – um novo conceito Os líderes empresariais brasileiros que se empenham em atingir e consolidar padrões superiores de competitividade verificam que treinamento, desenvolvimento e educação continuada ganharam força em relação às práticas de gestão empresarial. Constataram através de experiências bem-sucedidas que a educação gera competência, que se transforma em qualidade, que promove maior competitividade e que conseqüentemente resulta em maior lucro (EBOLI, 2004). Entretanto, formar e atualizar continuamente um empregado, além de ser uma atividade complexa, implica em custo elevado. Pequenas empresas enfrentam restrições e dificuldades para criar, implantar e manter uma estrutura que proporcione uma educação permanente. Para equacionar esse problema, Eboli identifica um movimento crescente no Brasil de experiências bem-sucedidas de projetos de educação para setores de atividades específicos ou para determinadas categorias profissionais. São associações, sindicatos ou organizações não governamentais, que estão realizando profícuas e revitalizadoras parcerias, muitas vezes envolvendo Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade 37 algumas universidades ou institutos que têm a competência de agregar valor a esses programas educacionais. O compromisso dessas novas parcerias é garantir o atendimento às demandas de formação da força de trabalho com a criação de programas conjuntos de educação que desenvolvam as competências necessárias para o sucesso numa determinada indústria ou setor produtivo. A esse movimento, Marisa Eboli deu o nome de Educação Setorial, conceituando-a como a união de empresas, concorrentes no mercado, mas parceiras no aprimoramento das pessoas e na formação do perfil de profissional demandado pelo setor. São associações, sindicatos ou organizações não governamentais, que estão realizando parcerias, com o objetivo de formar profissionais com o perfil de competências exigido pelo setor, e também de promover a gestão do conhecimento setorial, mediante a realização de pesquisas e prestação de serviços à comunidade. Algumas experiências de sucesso, identificadas por Eboli: • Educação corporativa do Senac – SP; • Rede estratégica das UCs criada pela Confederação Nacional das Indústrias; • UniDistribuição, uma iniciativa do ABGroup; • Universidade Virtual do SESI (UniSesi). • Universidade Abramge, da Associação Brasileira de Medicina em Grupo. • Universidade de Alimentos (UAL), no Paraná; • Universidade Secovi, promovida pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo; • Universidade Sebrae de Negócios (USEn), em Porto Alegre. De acordo com Eboli, essas experiências têm como objetivos comuns: • o desenvolvimento das competências críticas com o objetivo de aumentar o padrão de desempenho do setor de atividade; • a formação de profissionais competentes para gerar o sucesso do setor e das empresas componentes de toda a sua cadeia produtiva; • ser um pólo de irradiação de conhecimentos a empresas componentes de toda a sua cadeia produtiva; 38 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas • propagar crenças e valores do setor de atividade (cultura setorial) e de seu ambiente dos negócios; • aumentar o valor de mercado das categorias profissionais envolvidas. Quadro comparativo entre Educação Corporativa e Educação Setorial. 4. Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base – ABDIB: Educação Corporativa ou Educação Setorial?2 O desenvolvimento de competências para o setor de infra-estrutura de base assume o papel do investimento mais nobre para seu futuro e representa um dos pilares para o setor se transformar de fato na maior locomotiva do crescimento socioeconômico nacional. Com esse propósito, a ABDIB vem, de forma pioneira, desenvolvendo um trabalho, por ela denominado “Programa de Educação Corporativa”, em resposta às demandas de seus associados e do setor, contribuindo assim para o desenvolvimento sustentável do país. Essa iniciativa da ABDIB apóia-se: • • • • 2 na na na na o o delegação de seus associados, após pesquisa qualitativa; sua representatividade junto ao setor de infra-estrutura; sua capacidade de detectar demandas e formular estratégias; sua articulação com as empresas, obtendo: ganhos de escala coerência programática http://www.abdib.org.br/cursos_mba/default.cfm Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade o 39 otimização das parcerias educacionais Objetivos do Sistema: • Formar lideranças capacitadas a gerir a complexidade, integrando conhecimentos, propondo estratégias e formulando novas políticas setoriais. • Especializar profissionais em suas áreas de atuação, através de cursos “sob medida” e “sob encomenda”, constantemente atualizados. • Estimular a cidadania expressa na importância social da infra-estrutura, ampliando a dimensão ética e cultural de seus profissionais. • Desenvolver soluções orientadas aos alunos, às empresas, ao setor a ao País, com flexibilidade no processo e rigor na avaliação. Para atingir, com qualidade, esses objetivos, a ABDIB vem estabelecendo parcerias com universidades de excelência, responsáveis pela coordenação dos cursos de pós-graduação (“lato sensu”). Cursos coordenados pela ABDIB: • MBA em ENERGIA • MBA em INFRA-ESTRUTURA • MBA em GESTÃO SOCIOAMBIENTAL ESTRATÉGICA EM INFRAESTRUTURA • Curso de Extensão em PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA (PPP) Muito embora a ABDIB denomine a sua iniciativa como “Programa de Educação Corporativa”, julgamos mais apropriado classificá-la como um programa de Educação Setorial pelas razões que se seguem: • Vale-se de seu papel de articulação do setor; • Busca o aperfeiçoamento da força de trabalho do setor; • É voltado para o desenvolvimento do setor de infra-estrutura; • Busca soluções orientadas ao setor. 5. Fóruns de Competitividade O Programa Fóruns de Competitividade é constituído por ações que visam atuar sobre a capacidade competitiva do setor produtivo brasileiro através da interação entre empresários, trabalhadores, meio acadêmico e Governo em um processo de debates em busca da solução dos problemas de cada cadeia produtiva e do estabelecimento de ações e metas, configurando uma política para o desenvolvimento do setor produtivo. 40 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Constituem espaços de diálogo entre seus atores (Setor Produtivo, Comunidade Acadêmica e Governo) para, em primeiro lugar, promover a discussão e busca de consenso em relação aos gargalos, oportunidades e desafios de cada uma das cadeias produtivas que se entrelaçam na economia brasileira. Após a consensualização em torno de um diagnóstico, os debates são dirigidos para a definição de um conjunto de ações e metas desafiadoras para a solução dos problemas e aproveitamento das oportunidades, tendo em vista os objetivos do programa. O Programa Fórum de Competitividade é inovador por cinco razões: • usa o conceito de cadeia produtiva3, ao invés do conceito de setor; • busca a convergência para um só diagnóstico e o estabelecimento, de forma participativa e consensual, de metas e ações desafiadoras e exeqüíveis, vinculadas aos objetivos do Fórum e aos fatores e condicionantes da competitividade da dimensão empresarial (microeconômica), firmadas em compromissos entre o Governo e Setor Produtivo e Academia; • dá visibilidade ao conjunto das ações governamentais relativas a uma cadeia produtiva, com impactos no curto, médio e longo prazos, viabilizando a negociação das contrapartidas do setor produtivo; • estabelece a hierarquia e a priorização das ações, aumentando a eficiência e eficácia da ação política; • dá perspectiva temporal ao atendimento das demandas do setor produtivo, aumentando a previsibilidade do retorno dos investimentos. O uso do conceito de cadeia produtiva permite: • visualizar a cadeia de modo integral; • identificar debilidades e potencialidades nos elos; • motivar articulação solidária dos elos; • identificar gargalos, elos faltantes e estrangulamentos; • identificar os elos dinâmicos, em adição à compreensão dos mercados, que trazem movimento às transações na cadeia produtiva; • maximizar a eficácia político-administrativa do Fórum por meio do consenso em torno dos agentes envolvidos; • identificar fatores e condicionantes da competitividade em cada segmento; 3 Cadeia produtiva é o conjunto de atividades que se articulam progressivamente desde os insumos básicos até o produto final, incluindo distribuição e comercialização, constituindo-se em elos de uma corrente. Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade 41 Embora os Fóruns trabalhem mais no conceito de cadeias produtivas, e tendo presente o simbolismo dos elos de uma corrente, podemos concluir que a Educação Setorial é mais adequada à natureza do trabalho dos Fóruns, uma vez que o fortalecimento desses elos se traduz em maior consistência da cadeia como um todo. Naturalmente, a utilização de programas de Educação Corporativa em empresas que integram as cadeias produtivas que compõem os Fóruns de Competitividade é benéfica na medida que promove ganhos de competitividade, que irá se refletir no setor e na cadeia como um todo. Entretanto, o trabalho dos Fóruns não focaliza empresas. Os atores que participam de seus trabalhos o fazem em nome dos setores que compõem a cadeia produtiva considerada. O que pode ser feito, sujeito à avaliação de pertinência dos Coordenadores, em razão das especificidades de cada Fórum: • identificação dos elos mais críticos das cadeias de cada Fórum, os quais poderão se valer de sistemas de Educação Setorial para obtenção de ganhos de competitividade; • discussão do conceito de Educação Setorial em reuniões dos Fóruns, apresentando casos de sucesso já em andamento; • apresentação da proposta/metodologia da STI para os setores que se mostrarem interessados na implantação de um sistema integrado de educação setorial; • de qualquer forma, representará apenas uma sugestão para que as entidades representativas dos setores que se mostrarem interessadas busquem, com base no modelo apresentado, parcerias para a sua implementação. Conclusão Educação Corporativa e Educação Setorial são conceitos que muito mais têm similaridades do que distinções. A principal diferença refere-se ao foco de trabalho, onde a Educação Corporativa orienta seus esforços segunda a estratégia empresarial, ao passo que a Educação Setorial se preocupa com a melhor capacitação da força de trabalho de um setor. Entretanto, o aspecto mais importante é a conscientização, em ambos os conceitos, de que o conhecimento, seja individual, organizacional ou setorial, é o que irá proporcionar a competitividade necessária para se manter no mercado. As empresas deixam de valer pelo que possuem e passam a valer pelo que sabem, pela capacidade que têm de colocar, cada vez mais informação e conhecimento nos seus produtos e serviços. 42 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Igualmente relevante é ter presente que o compartilhamento de informações é a mola mestra que impulsiona o conhecimento organizacional, e que o comportamento sinérgico de todas as partes, sejam organizacionais ou setoriais, é o que proporcionará um desempenho superior. Os Fóruns de Competitividade são ambientes de articulação que possibilita essa consciência, ao mesmo tempo em que proporciona um espaço de discussão em torno de problemas comuns e compartilhamento de soluções e ações em benefício da cadeia produtiva considerada. Dessa forma, tendo presente a metodologia dos Fóruns, nos parece que um trabalho de sensibilização para implantar um sistema integrado de Educação Setorial nos setores que compõem cada cadeia seria mais apropriado. Ainda assim, qualquer iniciativa, seja Educação Corporativa ou Educação Setorial, voltada para o desenvolvimento de pessoas, organizações ou setores será muito bem-vinda ao ambiente dos Fóruns de Competitividade. Referências AINLEY, Patrick; BAILEY, Bill. The Business of Learning : Staff and student experiences of further education in the 1990s. 1.ed. Inglaterra: Cassell, 1997. EBOLI, M . Educação corporativa no Brasil: mitos e verdades. São Paulo: Gente 2004. FÓRUNS DE COMPETITIVIDADE. Disponível em <http:\\www.desenvolvimento.gov.br>. Acesso em 07 de novembro de 2006. SILVA, Deborah. Educação Corporativa. Revista do Estudante OnLine: FECAP, 2002. UNIVERSIDADE CORPORATIVA DO BANCO DO BRASIL. Disponível em <http:\\www.bb.com.br>. Acesso em 07 de novembro de 2006. UNIVERSIDADE CORPORATIVA DA ABDIB. Disponível em <http:\\www.abdib.org.br>. Acesso em 07 de novembro de 2006. Conceito de educação corporativa no âmbito dos Fóruns de Competitividade 3 43 Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 Afrânio Carvalho Aguiar Pesquisador Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial e professor da Universidade FUMEC – Fundação Mineira de Educação e Cultura. Resumo – Neste artigo, faz-se uma análise sintética dos principais resultados obtidos sobre as atividades de Educação Corporativa (EC) no Brasil, a partir de um levantamento conduzido pela Secretaria de Tecnologia Industrial – STI, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior –MDIC, no primeiro semestre de 2006. As conclusões são obtidas da análise dos dados de 41 instituições nacionais, de um universo presumido de cerca de 100 entidades, e guardam significativa proximidade com as obtidas de estudo similar realizado em 2004. O principal objetivo dessas atividades é favorecer a competitividade organizacional e destacar, em ordem de importância motivacional, a aquisição de competência técnica das equipes, a contribuição aos esforços de inovação, a capacitação para a implantação de novas práticas gerenciais e a viabilização da reorientação estratégica das atividades organizacionais. As unidades de EC, em grande parte, se encontram em fases distintas dos respectivos processos de consolidação, pois surgem de forma significativa no Brasil apenas a partir de 2000. O trabalho identifica dificuldades operacionais de natureza conceitual, metodológica e contextual, para cuja atenuação é sugerido um elenco de ações potencialmente relevantes. A maior parte das organizações reclama por maior integração das atividades de EC às políticas públicas, em especial à Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior. 1. Introdução São analisados aqui, em forma sintética, dados obtidos por pesquisa survey realizada pela Secretaria de Tecnologia Industrial do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior nos meses de abril e maio de 2006. As informações foram solicitadas a 80 organizações envolvidas, pelo menos presumivelmente, em atividades de Educação Corporativa (EC), das quais 51 (63,8 %) responderam ao questionário. Os dados analisados correspondem a 411 questionários, que perfazem 51,25% das organizações-alvo. 1 10 questionários, por motivos diversos, relacionados com a consistência das respostas, não puderam ser utilizados na análise. 44 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Convém ressaltar que não se dispunha – como de resto ainda não se dispõe – do número exato de organizações efetivamente engajadas em atividades de EC, mas que, por indicações diversas, deve girar em torno de 100 organizações. O levantamento empreendido dá prosseguimento e aperfeiçoa o diagnóstico realizado em 2004 pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Naquela ocasião, dados foram colhidos junto a 29 organizações, significando, pois, que em termos de abrangência, a presente pesquisa inclui um número 42% maior de organizações efetivamente engajadas em atividades de Educação Corporativa. Registre-se que o levantamento restringe-se a organizações cujas atividades de EC tenham como orientação fundamental contribuir para a consecução de seus objetivos estratégicos.(Ver Referências Bibliográficas). A amostra de 41 unidades, sem viés intencional de constituição, pode apontar tendências, mas não apresenta características de amostra probabilística (não se conhecia o universo) e, por essa razão, não tem, do ponto de vista estatístico, capacidade preditiva. O Relatório2 elaborado analisa as questões cujo número de respostas obtidas foi considerado suficiente para uma interpretação de tendências. Os principais aspectos da análise empreendida são trazidos nesta Síntese. 2. Caracterização das organizações respondentes Quanto à área principal de atuação, o enquadramento indicado pelas organizações revela que 39% dos respondentes vinculam-se ao Setor de Serviços, 27 % ao Setor Industrial, 5% ao Setor Comércio e 15% correspondem a órgãos governamentais. Quanto aos setores de atuação, predominam as organizações ligadas à concessão de serviços públicos (Energia Elétrica, Telecomunicações), serviços bancários e à Tecnologia de Informação. Outra característica identificada refere-se ao Tamanho da Organização. Este aspecto foi avaliado utilizando-se os critérios do SEBRAE. Os dados revelam que, das 41 empresas respondentes, 7% se classificam como de médio porte e 93 % são enquadradas como de grande porte. Esses dados eram esperados e coincidem com os padrões internacionais, justificados em parte pela complexidade e custos elevados da manutenção de Unidades de Educação Corporativa. 2 Disponível em http://www.educor.desenvolvimento.gov.br Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 45 Constatou-se, ainda, que 73% das entidades pesquisadas mantêm unidades funcionais de Pesquisa e Desenvolvimento, enquanto 51% afirmam manter estruturas formais de gestão do conhecimento. São dados apenas indicativos, exploratórios e inferências maiores deverão requerer estudos específicos, que procurem melhor caracterizar essas unidades. 3. Criação de Unidades de Educação Corporativa O Gráfico 1 mostra o número acumulado de unidades de EC, por ano de criação, no período de 1985 a 2006. A análise dos dados mostra que aproximadamente 50% das iniciativas registradas ocorrem no período 20002006, significando, portanto, que a estruturação de unidades de EC, nas organizações, é um fenômeno recente, pelo menos com as características de recurso estratégico das corporações, tal como acontece na maioria dos países do mundo. Resultados muito similares já haviam sido registrados quando do levantamento das características das Unidades de Educação Corporativa, empreendido em 2004. Oportuno lembrar que Tarapanoff (2004) registra que a literatura indica que, desde 1945, quando surge nos Estados Unidos a primeira “Universidade Corporativa”, têm sido criadas cerca de 400 novas unidades de EC anualmente. Trata-se, a bem da verdade, de fenômeno, nessa escala, essencialmente norte-americano, como mostram os trabalhos de Tarapanoff (2004) e Quoniam (2004), apresentados na II Oficina de Educação Corporativa – Oportunidades / Desafios, realizada em Brasília nos dias 18 e 19 de maio de 2004. Gráfico 1. Número acumulado de unidades de EC, por ano. 46 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Complementando os dados acima, procurou-se ainda conhecer o estágio de desenvolvimento dessas atividades no âmbito de cada organização. Por isso, perguntou-se no instrumento de coleta de dados sobre o estágio de desenvolvimento das atividades de EC em cada organização, dando-se aos respondentes seis alternativas de resposta. Os resultados são: – Fase de planejamento, para início efetivo das operações em futuro próximo: 7,3 % – Atividades iniciadas, em fase de estruturação e consolidação: 9,7 % – Atividades em andamento, voltadas mais para a capacitação dos colaboradores atuantes nos níveis operacionais. 2,4 % – Atividades em andamento, voltadas para a capacitação dos colaboradores atuantes, tanto nos níveis operacionais quanto nos de gerência média (nível tático): 9,7 % – Atividades em andamento, consolidadas, voltadas para a capacitação de toda a organização nos níveis operacional, tático e estratégico: 31,7 % – Atividades em andamento, consolidadas, voltadas para a capacitação de toda a organização nos níveis operacional, tático e estratégico. Desenvolve também atividades que têm como público-alvo fornecedores, clientes e comunidade externa: 39,0 % As informações recebidas dão conta de que 70% são consideradas consolidadas por seus gerentes. Levando em conta também as iniciativas que se encontram em fases mais iniciais de sua implantação, admite-se, em bases mais realistas que, do total de Unidades de EC descritas na pesquisa, aproximadamente 50% são unidades funcionais efetivamente consolidadas, enquanto as demais se encontram em estágios distintos do processo de consolidação. 4. Origem das Unidades de EC e Fatores de motivação para a sua criação A pesquisa esclareceu que 54% das Unidades de Educação Corporativa consideradas surgiram de uma evolução de estruturas tradicionais de Recursos Humanos pré-existentes e que 22% foram instituídas com objetivos e filosofia atuais. Algumas ainda afirmaram que foram criadas em consonância com estratégias corporativas de empresas globais e que adotavam modelos funcionais vigentes em suas matrizes. Os principais fatores motivadores da criação das Unidades de EC foram (nesta ordem): Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 47 – Viabilizar a capacitação interna dos funcionários para aquisição de competências específicas – Complementar e dar suporte à atividade de gestão do conhecimento dentro da organização – Possibilitar o desenvolvimento, entre os colaboradores, de posturas relacionadas com a cidadania corporativa (missão, visão, objetivos e valores institucionais). – Facilitar o cumprimento das metas de planejamento da empresa. – Viabilizar a reorientação estratégica no processo produtivo. – Facilitar os processos de inovação (de produto, de processo, de gestão). – Adquirir e/ou criar competência em áreas técnicas nas quais a empresa não tinha capacitação compatível com a demanda. – Realizar treinamentos de grupos de executivos para mudanças estratégicas. – Facilitar a promoção de treinamentos dos funcionários, sob demanda. – Facilitar a integração do trabalho de equipe. – Outros. No levantamento realizado em 2004, as respostas de 24 corporações (89% do total de respondentes, na época), o mais importante fator de motivação era o favorecimento da competitividade organizacional. Seguiam-lhe, em ordem de grande importância: a aquisição de competência técnica, a contribuição aos esforços de inovação, a capacitação para a implantação de novas práticas gerenciais e a viabilização da reorientação estratégica das atividades organizacionais. A despeito de ter havido algumas alterações na metodologia utilizada nas pesquisas de 2004 e de 2006, os resultados em ambas são razoavelmente similares, a menos de: a) As motivações relacionadas com a capacitação das equipes para adoção de novas práticas gerenciais tiveram grande importância (embora não nos mais elevados níveis) no primeiro levantamento e apenas pequena importância no atual levantamento; b) No atual levantamento, os respondentes consideraram de alta importância motivadora o desenvolvimento de posturas relacionadas com a cidadania corporativa (missão, visão, objetivos e valores institucionais) e, no primeiro levantamento, este fator não foi tão claramente explicitado. 48 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Esses fatores, considerados no seu conjunto, principalmente os avaliados de forma fortemente positiva como motivadores da decisão de implantação de atividades de EC nas organizações, corroboram o conceito teórico de Meister (1999) e Allen (2002). Digno de destaque, e reforçando a idéia de que as atividades de EC são, antes de tudo, mecanismos auxiliares à implementação dos objetivos estratégicos das organizações, e não mecanismos de promoção institucional, nota-se ainda que, no entendimento dos respondentes, no levantamento de 2004, o fator “Melhorar a imagem institucional. Marketing organizacional” não foi considerado de alta importância. No levantamento de 2006, o mesmo fator comparece no conjunto de fatores de baixa importância como motivador das decisões implantação e operação de Unidades de EC nas organizações. 5. Responsabilidade Social A pesquisa procurou ainda verificar em que grau a implantação e operação de Unidades de Educação Corporativa constituíam também um objetivo organizacional relacionado com as necessidades de desenvolvimento local e regional, dessa forma constituindo complementarmente uma manifestação da Responsabilidade Social da corporação. As organizações assinalaram os seguintes objetivos (por ordem de citação): a) Oferecer capacitações visando ao desenvolvimento das comunidades; b) Engajar funcionários em atividades educacionais para o desenvolvimento comunitário; c) Promover a inclusão digital e social da comunidade: citações. Espontaneamente, foram citados ainda os seguintes objetivos sociais individuais: – “Prover o resgate da cidadania com Programas de Engenharia Ambiental e Social”. – “Programas voltados para viabilização de grandes estratégias do negócio”. – “Focar a cidadania corporativa e a responsabilidade social”. – “Disseminar o conceito de Saúde e Prevenção através de projetos de responsabilidade social”. – “Desenvolvimento e capacitação das equipes que atuam na Rede e desenvolvimento de capacitação de menores, promovendo a inclusão social”. Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 49 6. Bases para o planejamento das atividades das Unidades de EC O levantamento colheu informações sobre a freqüência com que uma ou mais fontes selecionadas era tomada como base para a fundamentação do planejamento das atividades da Unidades de EC. O resultado esclarece que as mais importantes bases são, por ordem: – Planejamento Estratégico Organizacional; – Atendimento a demandas das áreas funcionais; – Elementos obtidos de estudos prospectivos; – Elementos obtidos junto ao mercado; – Elementos obtidos junto a empresas da cadeia produtiva; – Outros. Procurou-se, em seguida, verificar quais eram as finalidades que as Unidades de EC buscavam atender dentro das corporações. As finalidades mais freqüentemente indicadas foram, por ordem: – Atingir os objetivos estratégicos da organização; – Viabilizar a implementação de diretrizes táticas; – Capacitar pessoal para o nível operacional; – Constituir uma Unidade de Negócios para a Organização; – Outros. Os dados obtidos são ainda reveladores de alguns aspectos importantes: a) Tal qual no levantamento procedido em 2004, as informações mais uma vez mostram a forte conexão entre as atividades de EC e as orientações estratégicas da corporação. Com efeito, quase a totalidade dos respondentes informa que suas atividades em educação derivam predominantemente das suas diretrizes estratégicas organizacionais. b) Além do mais, a quase totalidade dos respondentes (88%) informa que a finalidade que efetivamente buscam atender com suas atividades de EC está relacionada com a consecução dos objetivos estratégicos da organização, também confirmando o próprio conceito de Educação Corporativa proposto por vários autores, como Meister (1999) e Allen (2002). c) Segue-se, em ordem de importância, como base para a formulação do planejamento das atividades de EC, o atendimento às demandas das áreas funcionais. 50 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas d) Não se percebe, ainda, grande destaque à programação de atividades estabelecida com base em elementos da cadeia produtiva. 7. Governança Como um indicador do grau de importância atribuído às atividades de EC dentro das corporações, buscou-se averiguar a quais níveis hierárquicos, dentro das organizações, estavam diretamente subordinadas as Unidades encarregadas dessas atividades, além da existência de eventuais participações de Conselhos Diretivos e de outras instâncias diretivas e de monitoramento. Os dados revelam que 49% das organizações mantêm suas Unidades de EC subordinadas à Alta Administração (Administração Superior/Presidência; Vice-Presidência de Recursos Humanos; Diretoria de Recursos Humanos; Diretoria Administrativa; Diretoria de Gestão Empresarial – Pessoas), enquanto 51% esclarecem que a subordinação direta se dá a níveis hierárquicos inferiores (Superintendência, Departamento, Gerência e Comitê). Esse registro talvez indique que, nas organizações respondentes, as atividades de EC, por estarem, em quase metade dos casos, subordinadas a níveis hierárquicos próximos da Alta Administração, têm condições efetivas de estar assumindo responsabilidades estratégicas, coerentemente com a própria conceituação dessas atividades definida por Meister (1999). O controle das atividades de EC na organização, por parte da Alta Administração parece, então, em todos os casos, firmemente mantido. 8. Operação das atividades de Educação Corporativa 8.1 Atendimento a áreas funcionais internas A pesquisa prosseguiu buscando levantar características operacionais das Unidades de Educação Corporativa. Foram, então, identificadas as áreas funcionais da organização, às quais têm sido predominantemente direcionadas das atividades dessas Unidades. Os dados, outra vez, permitem determinar três categorias de áreas funcionais quanto à freqüência com que têm, a elas direcionadas, as atividades de Educação Corporativa da organização: a) Área Funcional predominante: De forma nítida e distanciada das demais áreas funcionais, a área de Planejamento e Gestão surge como aquela em que se concentram as atividades de EC da organização. b) Áreas de média predominância: São, na ordem citada, as áreas de: – Processos; Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 51 – Vendas; – Produção; c) Áreas funcionais de baixa predominância: – Marketing; – Logística; Essas informações chamam a atenção pelo fato de que, no levantamento realizado em 2004, as áreas funcionais predominantes apareceram na seguinte seqüência: – Planejamento e Gestão; – Processos; – Marketing; – Vendas; – Produtos; – Logística. Como se verifica, é uma seqüência muito semelhante à resultante da pesquisa atual, com diferença significativa apenas para a área de Marketing. 8.2 Desenvolvimento de conteúdos para as atividades de EC A pesquisa procurou, na seqüência, identificar a origem predominante dos conteúdos utilizados nos cursos presenciais e nos cursos a distância. As principais conclusões dos dados obtidos são: a) Preponderam as situações em que os conteúdos são preparados pelos funcionários vinculados à própria organização; b) Aproximadamente se equivalem, em grau de importância como geradores dos conteúdos utilizados nas atividades presenciais e a distância, três outras alternativas. – Parcerias entre instituições de ensino contratadas e funcionários da organização; – Empresas de consultoria especializadas na geração de conteúdos específicos; – Instituições de ensino contratadas para geração de conteúdos específicos, em diversos níveis. c) A importância da contribuição de empresas especializadas em Educação a Distância é considerada média ou pequena. 52 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas 8.3 Modalidades de aprendizagem e Recursos Tecnológicos mais utilizados A questão da importância das diferentes modalidades de aprendizagem no contexto das atividades de Educação Corporativa foi ainda pesquisada, havendo possibilitado as seguintes conclusões: a) Maior importância atribuída à Educação presencial. b) Pequena importância conferida à Educação a distância e à Educação semi-presencial. Esses dados, por um lado, surpreendem, pois se esperava uma adoção mais significativa dos recursos da Educação a distância. Por outro lado, confirmam os dados obtidos, conforme item 8.2, que informavam que as Empresas especializadas em atividades de Educação a distância tinham pequena/média importância como geradoras de conteúdos para as atividades de EC. Pode-se interpretar que os recursos tecnológicos utilizados agrupam-se em três categorias de freqüência de uso (ordem de citação): a) Recursos de grande importância: – Mídia impressa: tal como livros, apostilhas, folhetos, etc. – Computador com apoio de recursos de multimídia b) Recursos de média importância/ média freqüência de uso: – Redes intranet. – Redes (internet) com apoio de ambientes virtuais de aprendizagem (AVA). c) Recursos de baixa importância/ baixa freqüência de uso – Um conjunto de diferentes mídias simultaneamente (ex: internet, videoconferência, CD). – Videoconferência e áudio-conferência. – Conteúdos e orientações disponibilizadas em CD Rom. – Conteúdos e orientações disponibilizadas em DVD. – Tele-aulas e tele-cursos. Esses dados são coerentes com os obtidos para a identificação das Modalidades de aprendizagem utilizadas. Os recursos tecnológicos mais freqüentemente utilizados são compatíveis com o predomínio da modalidade de aprendizagem presencial e com a reduzida importância das empresas especializadas em EAD como geradoras de conteúdos para as diferentes atividades no âmbito da Educação Corporativa. Há, pois, indiscutivelmente, Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 53 um uso ainda reduzido de recursos tecnológicos mais sofisticados e capazes de imprimir níveis mais elevados de eficiência no desenvolvimento das atividades de EC. 8.4 Recursos Humanos disponíveis para atividades de EC Conclui-se que há uma predominância muito significativa e recorrente da utilização de equipes próprias, alocadas nas próprias Unidades de EC, para implementação das atividades programadas. Em seguida, surgem duas alternativas que representariam freqüências médias de utilização de determinadas categorias de recursos humanos: – Consultoria Externa institucional. Especialistas da área acadêmica, por convênios ou Parcerias. – Equipe constituída por elementos alocados nas áreas funcionais da Organização. Consultorias Externas Individuais e Membros da Direção Superior têm participação muito limitada na EC. Os dados numéricos sugerem algumas considerações: a) A predominância, na implementação das atividades, de pessoal alocado nas próprias Unidades de EC pode ser sinal de comprometimento institucional com essas atividades, reforçando-lhes a conotação estratégica, pelo custo certamente elevado de manutenção de equipes permanentes nessas Unidades que, como demonstrado no correspondente Relatório da pesquisa, são ressarcidas financeiramente em percentuais muito baixos. b) Essa constatação pode ainda significar uma tendência de institucionalização das atividades de EC dentro da organização, que aloca, de seus quadros, pessoal específico para implementá-las. c) Não se pode descartar, ainda, o possível interesse corporativo em que, por razões estratégicas, possa ser conveniente que as atividades de capacitação de seu pessoal fiquem entregues predominantemente a especialistas internos. d) Merece ainda chamar a atenção para o fato de que, tal como registrado no levantamento realizado em 2004, os respondentes atribuíram alta importância às Consultorias Externas Institucionais e baixa importância às Consultorias Externas Individuais. O fato, outra vez, pode significar esforço de proteção de atividades estratégicas, possivelmente mais susceptíveis de extravasamento na situação de consultorias individuais. e) A participação efetiva na implementação das atividades de EC de membros da Alta Administração da organização se explica pela 54 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas natureza das funções diretivas, que freqüentemente não deixam tempo livre aos CEOs3 para outras atividades não específicas de seus cargos; 8.5 Parcerias A pesquisa revela que há uma forte interação com Instituições de Ensino Superior, e mediano grau de interação com Instituições de Pesquisa. As parcerias com órgãos como o SESI, SENAI, SENAC, o SEBRAE e o CEFET são muito frágeis e raras. A razão está, possivelmente, na própria missão e clientela preferencial desses órgãos. A questão que se levanta em seguida, quanto às parcerias, é sobre em quais atividades as instituições parceiras são mais freqüentemente chamadas a colaborar. Os dados revelam que apenas duas alternativas de atividades têm significância no que diz respeito às parcerias recebidas de instituições de ensino, de centros de pesquisa, assim como de empresas de consultorias pelas Unidades de EC. Correspondem a atividades de docência e de elaboração de metodologias e/ou material pedagógico. Outro registro importante é que, não tendo os respondentes atribuído grande importância ao recebimento de colaboração de terceiros para o fornecimento de infra-estrutura e apoio logístico, é lícito supor, então, que esses recursos existam e sejam próprios da organização, revelando tanto o grau de independência das Unidades de EC quanto o comprometimento institucional com a implementação das atividades, fornecendo-lhes os meios que se mostrem necessários. A avaliação feita da colaboração recebida através de parcerias mostra que em 38% dos casos é considerada excelente, 51% satisfatória e insatisfatória para 11% dos respondentes. 8.6 Clientela Efetiva Em seguida, a pesquisa procurou verificar qual a clientela efetiva das atividades desenvolvidas no contexto das Unidades de EC. Das 41 organizações que responderam à questão, 19% informam que não atendem a clientela externa e 71% restantes atendem somente a participantes vinculados a organizações da sua cadeia produtiva; as demais prestam serviços a qualquer interessado. Em qualquer das duas últimas situações, a organização provê essas atividades para a clientela externa, predominantemente, em bases gratuitas ou com ressarcimento apenas parcial dos custos. 3 Sigla em inglês: Chief Executive Officer. Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 55 A cobertura de custos dos serviços providos, para 66 % das organizações, é inexistente, ou seja, não há ressarcimento de qualquer forma. Apenas 7 % relatam obter um ressarcimento igual ou superior a 70% dos custos das operações; estas são organizações com características de cooperativas de serviços, que compartilham entre as unidades participantes as despesas com as atividades de EC. Ressalte-se que, ainda, que a participação de fontes externas no aporte de recursos às Unidades de EC ocorre também em número reduzido de casos, não tendo o levantamento efetuado dimensionado o volume dos recursos auferidos de fontes externas. Este fato reforça que as atividades de EC são assumidas com caráter estratégico nas organizações onde se desenvolvem porque, embora onerosas, são predominantemente mantidas com recursos não ressarcidos. 8.7 Avaliação de Desempenho Complementarmente, desejou-se avaliar se a participação em atividades de Educação Corporativa tem sido considerada na Avaliação de Desempenho e estimulada no Plano de Cargos e Salários/Plano de Carreira estabelecidos nas organizações, como uma Política de Gestão de Pessoal. Das organizações que compuseram a amostra de estudo, 44% responderam negativamente à questão e 56% afirmativamente. Dessas últimas, aproximadamente metade especificou a forma pela qual a participação em atividades de EC era levada em conta na Avaliação de Desempenho, enquanto as demais não o fizeram. 9. Resultados alcançados, procedimentos de avaliação e cessão de material instrucional Consultadas sobre se a organização dispunha de relatórios que apresentassem indicadores de impacto, eficiência, eficácia, etc. elaborados nos últimos três anos, relacionando-os à implementação de atividades de EC, foram obtidas respostas negativas em 25 % dos casos, enquanto 76 % das organizações afirmaram dispor de relatórios, das quais 69 % esclarecem haver utilizado indicadores próprios, desenvolvidos internamente na Unidade e 7 % afirmam que empregam indicadores obtidos de fontes externas. A questão da avaliação de resultados é central nesta Coletânea e foi tratada em outro artigo4, razão pela qual não será mais detalhadamente discutida nesta síntese. 4 TARAPANOFF, Kira; AGUIAR, Afranio C. Avaliação em Educação Corporativa 56 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas 10. Resultados efetivamente percebidos a partir da implantação da Educação Corporativa na organização Uma questão crítica para análise é a que busca levantar quais resultados já poderiam ser percebidos na organização a partir da implantação das atividades de EC. Os dados constam da TABELA 1 do anteriormente mencionado artigo de Tarapanoff & Aguiar (2006), nesta Coletânea. Por igual razão, não merecerá discussões complementares, a não ser registrar as seguintes constatações: a) No levantamento de 2004, questão semelhante foi respondida por 27 organizações. Delas, 74 % afirmam que, de forma plena, as atividades de EC facilitaram o cumprimento das metas de planejamento da empresa; 67 % afirmam que favoreceram a competitividade organizacional; 52 % afirmam que contribuíram para a aquisição de competências em áreas técnicas nas quais a empresa não tinha capacitação compatível com a demanda; 48 % afirmam que foi facilitada a integração do trabalho de equipe, inclusive aumentando o grau de satisfação dos funcionários. Registre-se que, pelo menos nesses itens, os resultados são coerentes com os obtidos na pesquisa atual. b) Três dos resultados mais significativamente percebidos são fortemente conexos com a consecução dos objetivos estratégicos da corporação. c) O resultado “Viabilizou a reorientação estratégica no processo produtivo” foi pouco percebido nas organizações respondentes. Isso, todavia, poderia também ser interpretado como decorrente do fato de que, no período, não tenha havido necessidade de reorientação estratégica do processo produtivo na corporação. d) A “melhoria da imagem institucional. Marketing organizacional” aparece nessa pesquisa entre os resultados medianamente percebidos. Na obtenção desse resultado, no levantamento efetuado em 2004, não foi considerado o fator motivador principal. De fato, foi considerado de pouca importância para 31% dos respondentes; de média importância para 42% e de grande importância apenas para 25% dos demais. A pesquisa atual, pois, confirma a informação obtida há dois anos. e) A obtenção, com destaque, do resultado “Equipes se tornaram capacitadas para atender às demandas decorrentes da adoção de novas práticas gerenciais” pode ser decorrente de eventual predominância, no período, de treinamentos ligados ao aprimoramento da capacitação gerencial dos respondentes. Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 11. 57 Dificuldades operacionais Esta questão foi respondida pelas 41 organizações, que atribuíram um grau de dificuldade a cada alternativa apresentada na questão, correspondendo a possíveis óbices ao adequado funcionamento das atividades no âmbito das Unidades de EC. As maiores dificuldades apontadas são, por ordem: – Ausência de uma política institucional consistente voltada para EC. – Ausência de legislação específica, no que tange à regulamentação das atividades de EC. – Ausência de uma postura institucional francamente favorável em relação ao custo benefício da EC. – Ausência/Deficiência de infra-estrutura (telecomunicações/softwares/ metodologias). – Ausência de fontes de recursos externos para atender às necessidades de financiamento. – Ausência de especialistas fora da instituição. – Ausência de especialistas na instituição. – Outros. Três citações espontâneas foram ainda fornecidas e referem-se a restrições orçamentárias. O dado coincide com a informação obtida em 2004, quando, para praticamente a metade das organizações respondentes, a maior dificuldade também se relacionava com a restrição orçamentária. Os valores médios agora obtidos em qualquer das alternativas listadas são todos valores consideravelmente baixos na escala adotada, o que significa que ou as Unidades de EC não percebem grandes dificuldades no exercício de suas atividades, ou então que as alternativas apresentadas na pesquisa não foram adequadas para captar os problemas reais que essas Unidades possam estar efetivamente vivenciando. Sabe-se, por exemplo, que há certamente dificuldades relacionadas com avaliação, metodologias, indicadores, mas tais questões não entraram no rol de alternativas da presente questão na coleta de dados efetuada, revelando uma falha no planejamento da pesquisa. 12. Expectativas de ação governamental As organizações respondentes informaram também quais seriam suas expectativas com relação à ação governamental no campo da Educação Corporativa. 58 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Verifica-se que 24 organizações reclamam por maior integração das atividades de EC às políticas públicas, em especial à Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior. Praticamente 50% dos respondentes anseiam que o processo de certificação acadêmica associado às ações corporativas em Educação seja aperfeiçoado e agilizado. Um número significativo de Unidades demanda a criação de legislação e regulamentação específicas para o setor. Interessante registrar que os dados atuais são muito semelhantes aos que foram obtidos com o levantamento realizado em 2004. Naquela ocasião, quase 70% das organizações pediam maior integração das atividades de EC às políticas públicas e, também, praticamente 50% dos respondentes desejavam adequação do processo de certificação acadêmica. 13. Sugestões para ampliação dos estudos e implementação de novas iniciativas As expectativas dos respondentes, explicitadas no item anterior, e as carências implícitas em diversos outros pontos deste estudo dão conta de que as organizações têm necessidades internas, de natureza técnica, política e financeira, relacionadas com suas atividades de Educação Corporativa, muitas das quais não suficientemente compreendidas. Para isso, entre outras providências, estudos e diagnósticos relativos às atividades de Educação Corporativa precisam ter continuidade. Almeja-se o aperfeiçoamento dos mecanismos existentes e um maior engajamento de especialistas da academia para a análise de questões já identificadas e para clarificar aspectos não plenamente identificados no estudo atual. Tratando-se de carências e demandas dinâmicas, é fundamental que se disponha de informações adequadas para subsidiar processos decisórios, nas esferas governamental e privada, que objetivem contribuir para o desenvolvimento e consolidação das atividades de EC no País. Na interpretação dos autores desta Síntese, os dados obtidos indicam que ainda faltam estudos e iniciativas, em caráter complementar às ações que buscariam atenuar as dificuldades apontadas pelos respondentes, tais como os a seguir indicados: A) De natureza conceitual – Definição clara de um conceito de Educação Corporativa, para facilitar o entendimento geral, sem fugir da realidade de que essas atividades têm larga diversidade entre as organizações que as executam. Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 59 B) De natureza metodológica e) Um aspecto marcante desta análise de dados é que as informações tratadas e interpretadas representam, predominantemente, o ponto de vista dos gestores das Unidades de EC nas organizações, os quais se responsabilizaram pelo preenchimento do Formulário de Coleta de Dados. Nessas condições, os dados obtidos e a interpretação que se faz deles podem, assim, trazer o viés de representarem os resultados e características “desejados” e “convenientes” das atividades de EC. O estudo precisa ser aprofundado, buscando aferir a visão de funcionários participantes das atividades, assim como de eventuais clientelas externas, como elementos da cadeia produtiva, fornecedores e clientes. Igualmente a perspectiva mais estratégica dos resultados dessas atividades deveria ser procurada junto à Alta Administração da organização, que poderá ter outros ângulos de análise diferentes dos que emanam dos dados analisados. f) Desenvolvimento de metodologias e de indicadores de avaliação de resultados (impacto, eficácia, eficiência) das atividades de EC no aumento da produtividade, da competitividade e da estabilidade, e do retorno sobre o investimento nas organizações que as mantêm. C) De natureza contextual a) Verificação, em cada caso, da questão de como efetivamente surgiram, ou evoluíram, de estruturas tradicionais de RH as atuais Unidades de EC. Identificar, quando aplicável, possíveis conexões entre políticas, nessas áreas, entre matrizes e subsidiárias, no caso das empresas globais. b) Entendimento da razão da relativamente baixa utilização atual dos recursos de Educação a distância por parte das Unidades de EC em operação. c) Aprofundamento da compreensão sobre a natureza e as características das parcerias no campo da Educação Corporativa, já que os resultados da pesquisa surpreenderam mostrando baixos níveis de colaboração com organizações aptas à prestação desses serviços. d) Detalhamento das características dos Centros de Pesquisa, nas organizações que declararam possuí-los, tal como: quadro de pesquisadores e titulação de seus componentes; afiliações; Linhas de Pesquisa que integram; existência de laboratórios; estrutura; etc. 60 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas e) Detalhamento das características das Unidades de Gestão do Conhecimento, nas organizações que declaram possuí-los: estrutura, filosofia de atuação, portais corporativos, procedimentos de socialização do conhecimento; processos de gestão, etc. f) Definição dos elementos característicos dos Documentos-base de atuação das Unidades de EC que declaram possuí-los: missão, diretrizes de atuação, governança; elaboração dos planos de ação anuais (periódicos); métodos adotados de avaliação, etc. g) Detalhamento dos procedimentos de avaliação das atividades desenvolvidas nas Unidades de EC, inclusive explicitando os indicadores de desempenho considerados. h) Explicitação dos níveis funcionais dos participantes das atividades de EC, a fim de se compreender a quais categorias funcionais (Alta administração, Gerência Superior, Média Gerência, Supervisores; Auxiliares de Administração, Pessoal de Operação Técnica, etc.) têm sido predominantemente dirigidos os esforços das Unidades de EC. D) Ações Políticas, de Apoio e de Fomento. a) Criação de estímulo, por meio de órgãos governamentais com interesses na área de Educação Corporativa, à realização de trabalhos acadêmicos, como pesquisas, dissertações e teses que abordem aspectos essenciais das atividades de EC, como são os relativos às questões de avaliação, de aferição de impacto das atividades de EC nos resultados operacionais das organizações, efeitos na imagem organizacional, etc. Estes trabalhos poderiam ser, em vários casos, realizados em decorrência de parcerias entre as Unidades de EC e as instituições acadêmicas. b) Apoio a missões técnicas no exterior de grupos de lideranças nacionais capazes de multiplicar, nas Unidades de EC brasileiras, possíveis conhecimentos novos que venham a adquirir em função dessas visitas. 14. Conclusões A despeito de manter as características de uma pesquisa exploratória, os resultados obtidos clarificam vários aspectos relacionados com a questão da Educação Corporativa no Brasil. Conforme Malhotra (2001) “o objetivo da pesquisa exploratória é explorar um problema ou uma situação para prover critérios e compreensão” e, geralmente, é empreendida para viabilizar a formulação de um problema ou para permitir sua melhor definição, contribuindo para a obtenção de critérios para desenvolver uma abordagem a esse problema. Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior: Situação em 2006 61 Como indicado no Relatório que este documento procura sintetizar, especula-se que devam estar em funcionamento cerca de 100 unidades de Educação Corporativa no Brasil hoje. Dessa forma, a amostra, sem viés intencional, de 41 unidades é capaz de fornecer indicações úteis para a identificação de problemas associados ao foco do estudo, razão pela qual é justo atribuir grande importância ao apontamento de diversas questões para novos estudos e pesquisas, assim como sugerir iniciativas que venham a contribuir para a consolidação das atividades de EC no Brasil. Com efeito, a abrangência do campo abre oportunidade para contínuos e aprofundados estudos de suas características, dinâmica e resultados. Referências ALLEN, MARK (ed.). Corporate university handbook:designing, managing and growing a successful program. New York: Amacon. 2002. MALHOTRA, Naresh K. Pesquisa de Marketing: uma orientação aplicada. Porto Alegre: Bookman, 3.ed. 2001. MEISTER, JEANNE C. Educação corporativa: a gestão do capital intelectual através das universidades corporativas. São Paulo: Makron Books, 1999 TARAPANOFF, KIRA. Panorama da educação corporativa no contexto internacional. In: Educação Corporativa – Contribuição para a Competitividade. (Coletânea de Artigos). Brasília: MDIC, 2004 p. 12-84. 4 Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas Mauro Arruda Economista William Andreotti Jr. Administrador Resumo – A universidade corporativa é instrumento cada vez mais usual entre as grandes empresas. Foi a forma encontrada para organizar a capacitação de seus empregados, a partir das suas reais necessidades, ciente de que o crescimento da produtividade da mão de obra é fundamental para o aumento da competitividade e, assim, poderem enfrentar melhor suas concorrentes no mercado internacional. Todavia, as universidades corporativas não estão ao alcance das micro e pequenas empresas (MPEs). A literatura a respeito do assunto não fala dessas empresas, como se essas universidades não pudessem estar ao alcance delas. Na realidade, a literatura limita-se a falar das grandes empresas; das micro e pequenas, o faz apenas indiretamente, quando explicita o conceito de universidade corporativa. Em geral, o conceito é que a educação não deve ficar restrita à própria empresa, mas extensiva aos seus fornecedores e clientes. Talvez, as micro e pequenas empresas estejam numa dessas pontas, porém, seja como for, nunca serão elas que decidirão se precisam ou não de educação corporativa, de acordo com as suas reais necessidades. O presente artigo objetiva mostrar uma solução para as micro e pequenas empresas, no sentido de também elas poderem ter suas universidades corporativas. Visando a otimizar essa solução, o objetivo central deve ser o de atender as MPEs de um mesmo arranjo produtivo local (APL) e, observando o conceito de universidade corporativa, atender seus fornecedores e seus clientes. Importância e Características das Micro e Pequenas Empresas As micro e pequenas empresas (MPEs) têm uma importância econômica e social significativa. Além de serem responsáveis por cerca de 57% do total de empregos do País, são um caminho efetivo para a ascensão social e melhoria das condições de renda da população. As empresas de pequeno porte caracterizam-se por apresentar deficiências em todas as áreas: tecnologia, finanças, mercado, recursos humanos, produção, gerenciamento em geral, comercialização, entre outras. Diante disso, para superarem seus problemas estruturais, as pequenas empresas necessitam de soluções sistêmicas que promovam a evolução do seu patamar operacional como um todo. Soluções pontuais, apenas focadas em gargalos emergenciais em uma das áreas citadas não modificam suas condições de competitividade. 64 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas As condições competitivas existentes até o início dos anos noventa do século passado permitiam que as empresas fossem demandadas pelo mercado, garantindo condições favoráveis de faturamento, que encobriam as deficiências e os desperdícios. No presente, todavia, as condições de mercado exigem uma postura mais efetiva e competitiva, pois a concorrência obrigou ao achatamento das margens. Com isto, desperdícios e deficiências podem provocar a quebra dessas empresas. É preciso considerar que as ausências de conhecimento e de sistemas gerenciais consistentes impedem a análise crítica das operações. Se as MPEs contassem com eles, conseguiriam identificar seus problemas e corrigi-los a tempo. A ausência de gestão empresarial prejudica a visão de mercado, o desenvolvimento de produtos, o aperfeiçoamento de processos, a gestão e capacitação de recursos humanos, a análise de concorrência, a organização da produção, a gestão de caixa, entre outros aspectos. Em especial, prejudica a visão do empreendimento a longo prazo. Como ressaltado, as deficiências são de toda a ordem, mas, na raiz, o problema é essencialmente de falta de conhecimento Não é uma deficiência apenas do empresário: a mão de obra da MPE é carente de conhecimentos aplicáveis à sua realidade. Concretamente, existe distanciamento considerável entre a oferta de conhecimento, pelas instituições formais de ensino, e o conjunto de necessidades empresariais. Parte da responsabilidade está nessas instituições, que desconhecem a realidade empresarial e mantêm esse distanciamento, ao fazerem uso de currículos alheios às reais capacidades exigidas pelas empresas e ao não realizarem pesquisas aplicadas direcionadas às necessidades de mercado. Outra parte da responsabilidade é do MEC, que não estimula a proximidade entre escola e negócios. Um dos fatores que mais agrava essa distância é o “timing” do negócio educacional. Para se criar um curso ou adaptar uma grade curricular é necessário aproximadamente cinco anos entre a idéia e a execução, tempo suficiente para que ocorra, em alguns setores, uma ou duas grandes mudanças (de mercado, gerencial ou tecnológica). Na realidade, a inadequação de conteúdos e a morosidade do sistema educacional em desenvolver produtos compatíveis são os principais motivadores da criação da educação chamada corporativa. Segundo informações das pesquisas desenvolvidas pelo SEBRAE, a proporção de MPEs que capacitam seus empregados é elevada, mas é ainda bem menor que as médias e as grande empresas. O percentual de MPEs que treinaram seus empregados ampliou-se de 49,4%, em 1999, para 66,7%, em 2003. Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 65 A maioria das MPEs que oferece treinamento provê, em média, menos de oito horas anuais por empregado; cerca de metade das MPEs que investem em capacitação realizou, em média, até oito horas de treinamento por empregado, em 2003. Apenas 21% das MPEs dedicaram mais de 25 horas anuais de treinamento por empregado. Acreditamos que tais resultados provenham dos esforços desenvolvidos principalmente pelas entidades do Sistema “S” (SENAI, SENAC, SEBRAE e outros), acrescentando demais instituições como universidades federais, estaduais e privadas, associações e sindicatos. Entretanto, não existe um movimento coordenado para maximizar o aproveitamento destes esforços para as MPEs. Mesmo quando existe, é grave o descompasso da proposta educacional com as necessidades de mercado. Um aspecto importante a ser considerado – essencial para viabilizar projeto voltado para atender o maior número de MPEs possível - é a concentração de pequenas indústrias em Arranjos Produtivos Locais (clusters). Os APLs têm sido objeto de trabalho de vários projetos importantes, com experiências mundiais de alta relevância e com excelentes resultados já alcançados no Brasil. Conceito de Arranjos Produtivos (APL) Segundo autores como Porter (1998), Courlet (1993), Lastres e Cassiolato (2003) entre outros, os Clusters ou Arranjos Produtivos Locais são aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais com foco em um determinado segmento de produção; que apresentam algum tipo de vínculo, englobando uma gama de empresas e outras entidades importantes para a competição, incluindo fornecedores de matéria-prima, maquinaria, serviços e instituições voltadas para o setor; são conjuntos de empresas e entidades que interagem, gerando e capturando sinergias, com potencial para atingir crescimento competitivo; ou uma configuração de empresas concentradas em um espaço de proximidade, em torno de um ou vários setores industriais, sendo que essas relações não são apenas mercantis, mas também informais e geram externalidades positivas para o conjunto das empresas. A partir dos conceitos dos diversos autores, é possível traçar as principais características dos APL: a) aglomerações formadas por micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) em uma mesma atividade econômica, em torno de objetivos comuns, porém mantendo a independência e a individualidade de cada participante, e com utilização de mão-de-obra qualificada, sem hierarquia rígida das relações de trabalho; b) intensa troca de informações entre as empresas e forte cooperação horizontal (subdivisão do trabalho entre empresas); c) existência de cultura comum e uma relação de confiança entre as empresas participantes, o que facilita o processo de cooperação; d) apoio 66 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas de instituições locais públicas e privadas que atuam, em conjunto, para dar suporte ao desenvolvimento dos APL (treinamento conjunto de mão-de-obra, concessão de crédito, incentivos à inovação, promoções de eventos em conjunto, compartilhamento de despesas de marketing), sem o qual o sucesso do negócio estaria comprometido. A relevância de cada uma dessas características em cada APL e os esforços para potencializá-las, podem indicar o grau de sucesso das empresas e de todo o APL. O conceito-chave para se entender um arranjo produtivo é o de eficiência coletiva (collective efficiency), desenvolvido por Schmitz (1992) para caracterizar o sucesso das empresas industriais de pequeno porte, o qual decorre da sinergia resultante da divisão de trabalho entre empresas com capacidade técnica e competitiva. Ainda de acordo com o autor, a eficiência coletiva pressupõe: a) divisão do trabalho e especialização entre os pequenos produtores; b) pronta provisão de seus produtos ou serviços especializados; c) presença de mercado fornecedor de matérias-primas e componentes, de equipamentos novos e usados, bem como de peças de reposição; d) presença de agentes comerciais que efetuam vendas para mercados distantes, nacionais e internacionais; e) presença de fornecedor de serviços especializados em assuntos técnicos, financeiros e contábeis; f) existência de trabalhadores portadores de habilidades específicas do setor; g) formação de consórcio para execução de tarefas especializadas e de associações que tenham por objetivo fornecer serviços e realizar lobbies. Uma das características de um arranjo produtivo é a cooperação entre as empresas como elemento primordial do próprio conceito. De acordo com Carrão (2001), a cooperação empresarial é um fator de fortalecimento por promover a atuação conjunta na busca de resultados coletivos. Essa cooperação constitui-se no elemento comum do sucesso alcançado pelo Japão, pela chamada Terceira Itália (regiões de Veneto, Lombardia e Emilia-Romagna), por Baden-Württemberg (Alemanha), pela península de Jutland (Dinamarca), e por algumas regiões da França, Espanha e dos Estados Unidos, conforme relatados por Amato Neto (2000), Fleury e Fleury (2001), e Casarotto Filho e Pires (1999), entre outros. Em especial, as experiências da Alemanha e da Dinamarca são exemplos significativos do papel que tem o modelo educacional para o desenvolvimento de um APL. A experiência alemã de Baden-Württemberg começou em meados do século XIX, mas tornou-se realidade, isto é, agente do desenvolvimento das empresas, somente a partir da criação dos cursos voltados para a solução de problemas locais. Houve um esforço conjunto de diferentes instituições de apoio a empresas de pequeno porte que deu origem ao desenvolvimento da região; Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 67 e as universidades foram envolvidas em programas de transferência de tecnologia às pequenas unidades industriais. De fato, a valorização do ensino permitiu ao estado contar com uma sólida infra-estrutura científica, composta de centros de tecnologia em áreas universitárias, mantidos com o objetivo de oferecer serviços subsidiados a empresas de alta tecnologia em seu estágio inicial de funcionamento. Não só o distrito industrial de Baden-Württemberg, mas toda a Alemanha é um exemplo de como o incentivo à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à qualificação da mão-de-obra é essencial ao desenvolvimento das empresas. A experiência dinamarquesa começou no campo, a partir do contexto histórico-cultural de uma nação voltada para o cooperativismo. Como se tratava de exportação de produtos agrícolas, todos os esforços para o atendimento do mercado estavam concentrados no aprimoramento contínuo do processo de produção, estocagem, distribuição, logística, de modo que estavam envolvidas diversas instituições de apoio que participavam de pelo menos um estágio do processo. A província de Jutland, por exemplo, contou com uma rede de instituições de ensino e de treinamento que objetivava a formação e a qualificação de mão-de-obra voltada para o atendimento das necessidades empresariais, facilitando, assim, o uso de equipamentos sofisticados pelas pequenas empresas. O estudo das diferentes experiências vividas nos países mencionados mostra aspectos que devem ser destacados. De acordo com Carrão (2001), a experiência de Baden-Würtenberg e a da Dinamarca destacam-se pela existência de redes multi-direcionadas, enquanto a de Emilia-Romagna caracteriza-se pelo desenvolvimento de redes horizontais. A ênfase na qualificação da mão-de-obra foi o elemento aglutinador entre as empresas e os institutos de pesquisa voltados para o desenvolvimento tecnológico em Baden-Würtenberg, enquanto na Emilia-Romagna o acesso das empresas a instituições técnicas, desenvolvidas pelas próprias redes, explica o sucesso da cooperação empresarial. Na Dinamarca, as instituições de ensino são as bases do desempenho das empresas de pequeno porte. Conclui Carrão que, em todos os casos internacionais, o desempenho da esfera pública despontou como variável determinante do sucesso das políticas; a participação do governo, como agente multiplicador de energias, mostrou-se eficaz quando, uma vez descentralizado, permitiu maior autonomia aos governos locais na definição de políticas adequadas às necessidades de suas respectivas aglomerações, e forneceu apoio para a implementação. A Experiência Brasileira em APLs O que se pode chamar de “experiência brasileira” é quase que uma transposição das experiências internacionais bem sucedidas para as pequenas 68 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas empresas. As primeiras experiências datam do início da década de 1990, com a implantação de pólos industriais, com o objetivo de aumentar a competitividade por meio da cooperação entre micro e pequenas empresas. Desde então, vários trabalhos têm sido desenvolvidos em APL, principalmente pela atuação do SEBRAE em parceria com diversas instituições ou esferas de governo, como o próprio MDIC. No caso das experiências nacionais, os APL nasceram espontaneamente e sobrevivem graças à sua própria dinâmica. O setor público tem feito pouco para estimular a cooperação entre as empresas. Na maioria destas concentrações, seu surgimento tem origem na competência de artesãos imigrantes, cujos conhecimentos foram herdados das gerações anteriores. A atividade exercida em um determinado momento cresce, o conhecimento é compartilhado e ex-funcionários acabam montando seus próprios empreendimentos. Na maioria dos casos, não existe uma participação atuante das instituições de ensino e centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico como elemento de apoio às empresas. Grande número de estudos acadêmicos feitos até o presente constatam a importância das APL e redes de cooperação para o desenvolvimento econômico regional e social do Brasil, assim como a valorização das MPE’s como agentes de desenvolvimento. Os pólos e distritos industriais têm buscado contribuir para a propagação da cultura de cooperação, a fim de fortalecer as entidades filiadas e desenvolver os municípios e os estados. Estudos de pesquisadores mostram, sobretudo, que os resultados serão mais significativos quando e se as empresas puderem contar com a intervenção de órgãos públicos, não só com o subsídio financeiro e tributário, mas com a facilidade de acesso e transferência de novas tecnologias e conhecimentos. Estudos conduzidos por pesquisadores têm mostrado que cada arranjo produtivo tem seu perfil de atuação diferente de outro, mesmo sendo do mesmo ramo, e não é por causa da questão geográfica, mas por uma série de fatores, entre eles, a forma de organização e de gestão. Assim, o arranjo produtivo do setor de calçados em Franca difere daquele do Vale do Rio dos Sinos. Entretanto, as experiências práticas de ações de estímulo ao desenvolvimento de APLs têm demonstrado que existem ações que podem ser compartilhadas, entre APLs de mesmo setor empresarial, ou até mesmo entre setores diferenciados. Podemos afirmar que o perfil ideal de um determinado profissional para a área de confecção é o mesmo para uma indústria de confecção do Sul, do Sudeste ou do Nordeste do Brasil. Não existem mais barreiras, geográficas ou não, entre os mercados consumidores. O perfil de consumo é cada vez mais uniforme, independente da região onde se localiza o consumidor. Com isto, as necessidades e obrigações das empresas para com seus produtos e consumidores, são praticamente as mesmas. Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 69 As MPEs são muitas vezes caracterizadas pela presença de famílias no comando, pois sob a ótica dos proprietários, só eles têm condições ótimas de dirigir a empresa. Nessas empresas, muitas das funções administrativas são comumente desempenhadas de forma precária, sem delegação de funções, demonstrando que necessitam de capacitação gerencial e administrativa. Os projetos de APL em curso tratam, em sua maioria, este problema de forma pontual, aplicando cursos rápidos de capacitação gerencial, contábil e administrativa. Em alguns casos, estes cursos são apoiados por consultorias especializadas, que ajudam a solucionar os problemas de curto prazo. Estas ações são legítimas e absolutamente necessárias. Entretanto, não resolvem os problemas estruturais. Em outros termos, embora ajudem na sobrevivência das empresas e do APL, não conseguem equacionar as necessidades presentes e futuras com soluções de continuidade efetiva. O Conceito de Universidade Corporativa As Universidades Corporativas (UC) vem sendo implementadas há, pelo menos, 40 anos desde o lançamento da Crotonville, em 1955, pela General Eletric. Entretanto, a partir do final da década de oitenta cresce o interesse na criação delas, como complemento estratégico de gerenciamento, aprendizado e desenvolvimento dos funcionários de uma organização. Nos Estados Unidos, eram 400, em 1988; em 2005, eram mais de 1500. Algumas empresas começaram a perceber que não podiam mais depender das Instituições de Ensino Superior, para qualificar seus qaudros. Decidiram pela criação de suas próprias universidades, com o objetivo de obter um controle mais rígido sobre o processo de aprendizagem, vinculando de maneira mais estreita os seus programas de ensino às metas aos seus resultados estratégicos. Conceitualmente, a Universidade Corporativa é o guarda-chuva estratégico para o desenvolvimento e educação de funcionários, clientes e fornecedores, com o objetivo de atender as estratégias empresariais de uma organização, visa também formar e desenvolver os talentos humanos em pról dos negócios e promover a gestão do conhecimento organizacional (geração, assimilação, difusão e aplicação), por meio de um processo de aprendizagem ativa e contínua. (MEISTER e EBOLI). Segundo alguns autores, a UC é viável em uma empresa de grande porte: número de empregados superior a 1000; faturamento total superior a US$ 200 milhões; orçamento de 5% a 10% da folha de pagamento na manutenção da UC (média nos EUA de US$ 12 milhões por ano e de 2,2% da folha de pagamento). 70 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas O conceito de Universidade Corporativa (UC) começou a ser aplicado no Brasil no início da década de 90. A partir de 2000 ocorreu um crescimento acentuado. Atualmente, mais de 100 organizações brasileiras ou multinacionais, públicas ou privadas, já desenvolveram sistemas educacionais estruturados pelos princípios de universidade corporativa. Os principais objetivos de uma empresa ao decidir pela criação de uma UC são: • Desejo de vincular o aprendizado e o desenvolvimento às principais metas empresariais; • Criar uma abordagem sistemática ao aprendizado e ao desenvolvimento; • Difundir cultura e valores comuns em toda a organização; • Desenvolver a empregabilidade dos funcionários. Para que a experiência de uma UC seja positiva, é necessário conciliar os interesses do público-alvo com a estratégia da empresa. Ou seja, o principal foco da UC deve estar no desenvolvimento das competências profissionais, técnicas e gerenciais, que sejam essenciais para o sucesso das estratégias empresariais. De forma geral, as experiências das Universidades Corporativas têm enfatizado os seguintes objetivos globais (EBOLI). • Difundir a idéia que o capital intelectual será o fator de diferenciação das empresas no próximo milênio; • Despertar nos talentos humanos a vocação para o aprendizado; • Incentivar e estruturar atividades de auto-desenvolvimento; • Motivar e reter os melhores talentos contribuindo para o aumento da felicidade pessoal, dentro de um clima organizacional saudável. Pode-se dizer que o objetivo principal é o de desenvolver as competências críticas em vez de habilidades. É necessário, portanto, que a formulação da UC vincule as principais estratégias empresariais ao projeto e desenvolvimento das soluções de aprendizagem. Estas soluções devem contemplar, essencialmente, as necessidades do negócio, tornando o escopo estratégico. Múltiplas formas de aprendizagem devem ser buscadas, migrando do modelo tradicional de sala de aula. Por fim, sistemas efetivos de avaliação dos resultados obtidos são necessários para o sucesso da iniciativa. Níveis de uma Universidade Corporativa (Mark Allen) 1. Somente treinamento: há as universidades que são simplesmente departamentos de treinamento (T&D). Existem para oferecer treinamento para os seus empregados. Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 71 2. Treinamento mais desenvolvimento gerencial e/ou executivo: prevê cursos de desenvolvimento para gerentes e executivos, além de treinamento. Enquanto treinamento foca as habilidades que são necessárias para uma tarefa específica, desenvolvimento refere-se à educação que visa modificar aspectos no comportamento dos executivos. 3. Oferta de cursos com crédito acadêmico: as universidades corporativas oferecem cursos que poderiam, por meio de parcerias acadêmicas, solicitar equivalência em disciplinas universitárias formais. 4. Oferta de cursos que proporcionam efetivamente ao grau acadêmico: as universidades corporativas oferecem programas de Bacharelado ou Mestrado. Para poder atuar, a universidade corporativa deve receber credenciamento dos órgãos públicos competentes (no Brasil, do Ministério da Educação e da CAPES). No mundo, poucas são as universidades corporativas que estão aptas a atuar no último nível. Uma organização não precisa outorgar graus para ter uma universidade corporativa. No entanto, as entidades que apenas oferecem treinamento, mesmo que esse treinamento tenha muitas frentes e seja extensivo a todos os empregados na organização, também não são universidades corporativas. Na opinião de Mark Allen, para qualificar uma ação educativa como Universidade Corporativa, além do treinamento, uma organização deve ao menos ter um programa de desenvolvimento. Esses são os requisitos mínimos, para uma organização pleitear que tem uma universidade corporativa. Mesmo assim, o autor afirma que ainda faltaria algo. Para se ter uma universidade corporativa as atividades educacionais devem ter uma ligação clara com a estratégia corporativa. As melhores universidades corporativas são aquelas que existem para ajudar as corporações a atingir os seus objetivos. Ter uma universidade corporativa deve ser visto não como um objetivo organizacional, mas como um meio para ajudar a organização a atingir os seus objetivos. Vista desta forma, a universidade corporativa é um instrumento poderoso para ajudar a organização a chegar onde deve chegar. Uma característica importante e diferencial das UC é o uso extensivo de tecnologias de comunicação da informação, que tem possibilitado a proliferação de um grande número de universidades corporativas virtuais. Estas também se desenvolveram como decorrência da tecnologia específica relacionada ao ensino à distância e à sua rápida integração aos locais de trabalho. Outro fator igualmente importante foi o desenvolvimento de softwares gerenciais de treinamento, facilmente gerenciados pelas Intranets e pela Internet. 72 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Universidade Corporativa e a Estratégia Empresarial Nas empresas que utilizam a UC é comum a visão de que a estratégia depende da aprendizagem e esta depende do desenvolvimento das capacidades. Segundo Prahalad & Hamel (1990), esta abordagem tende a considerar a administração estratégica como um processo de “aprendizado coletivo”, que visa desenvolver e explorar as competências distintas, difíceis de serem imitadas, propiciando vantagem competitiva para as organizações. Esta parece ser também a opinião de Tom McCarty, da Motorola, que se refere às universidades corporativas como sendo “alavancas estratégicas”, subentendendo a necessidade da empresa de alavancar a sua base de recursos, de forma a desenvolver as suas competências centrais, para chegar à sua “intenção estratégica”. Existem três papéis estratégicos distintos que as universidades corporativas podem desempenhar: 1. Reforçar e perpetuar o comportamento - oferecer cursos e experiências de treinamento que reflitam e reforcem a cultura e os valores que balizam a organização. 2. Gerenciar a mudança - introduzir e promover as iniciativas da mudança organizacional. Os programas e atividades são desenhados para facilitar a formulação e implantação da mudança estratégica. 3. Direcionar e moldar a organização - os líderes organizacionais utilizam a universidade corporativa como a força motriz para moldar as direções empresariais futuras. Muitas conceituações e definições de universidade corporativa, a relacionam de uma maneira ou outra à estratégia de sua organização mantenedora. É enfatizado, que o que torna uma universidade corporativa de fato corporativa é a sua ligação com a estratégia. Segundo alguns levantamentos, cerca de 83% das atividades educacionais de uma Universidade Corporativa derivam das diretrizes estratégicas da empresa. Desta forma, a UC pode gerar vantagem competitiva, combinando e disseminando o conhecimento corporativo e gerando conhecimento novo. Neste último estágio, ela pode ser realmente chamada de universidade corporativa. As Empresas e as Necessidades de Educação de seus Colaboradores O mercado competitivo atual é marcado pela exigência de diferenciação dos concorrentes. As empresas vivem uma intensa necessidade de inovação e agilidade operacional, onde a prática de uma gestão competitiva, de caráter Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 73 estratégico, é fundamental. O conhecimento necessário está em constante e acelerada evolução, o que implica na obrigatoriedade de geração, disseminação, aplicação e comprovação de conhecimentos focados na estratégia do negócio. Os programas tradicionais de Treinamento não conseguem atender a esta demanda, por adotarem modelos reativos de definição de conteúdo através de métodos de aprendizagem tradicionais. As melhores experiências de Universidades Corporativas se opõem ao modelo tradicional de áreas de Treinamento: São pró-ativas, com suas ações completamente voltadas ao ambiente de negócio de cada organização; Atuam no desenvolvimento de competências essenciais; São inovadoras nas formas de entrega do conhecimento; Têm como premissa a disseminação do conhecimento “em qualquer momento, em qualquer lugar”; Atuam no desenvolvimento e gerenciamento de ferramentas que propiciem de forma intensa a captação do conhecimento presente na organização (através de seus profissionais, clientes, fornecedores e comunidade) e sua adequada disseminação para fácil utilização sempre que necessário; Têm público alvo amplo, não se restringindo ao público interno, mas entendendo que o conhecimento é desenvolvido e utilizado por toda a rede de profissionais que envolvem cada organização; Procuram acompanhar a utilização prática do conhecimento, ou seja, a transformação do conhecimento em vantagem competitiva, gerando capital intelectual para as organizações. As Universidades Corporativas são complementares às Universidades Tradicionais. A universidade tradicional fornece toda a formação conceitual e metodológica aos profissionais, enquanto a corporativa oportuniza formação focada no ambiente de negócios, desenvolvendo o aprimoramento nas competências essenciais ou críticas de cada organização. Existem vários casos de sucesso de alianças estabelecidas entre as universidades corporativas e as universidades tradicionais, visando à formação da rede de trabalho da organização. Desenvolvendo um Modelo de Universidade Corporativa para MPEs Frente ao exposto, nosso objetivo é fornecer subsídios para a criação de ações que visem desenvolver um modelo de Universidade Corporativa, aplicável à realidade das MPEs do Brasil. 74 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Existem três pontos centrais que deverão ser trabalhados, visando o alcance dos objetivos propostos: Escala Foco Alinhamento Estratégico Escala Como demonstrado, a Universidade Corporativa é um modelo viável para grandes organizações. Para alcançar a escala necessária de custos e a massa crítica de demandas, propomos que seja desenvolvido um modelo para Arranjos Produtivos Locais, que concentrem uma quantidade significativa de empresas. O texto já abordou uma série de características dos APL, de forma a orientar projetos neste sentido. Em função das peculiaridades das micro e pequenas empresas e das características dos diversos APL do Brasil, uma abordagem efetiva pode ser desenvolvida a partir de experiências piloto, em alguns APLs que já tem sido alvo de trabalhos de estímulo ao desenvolvimento local. Foco Definido o setor empresarial através da identificação do APL, a próxima etapa é mapear as características dos negócios, suas especificidades, necessidades e exigências. Embora fundamental, a análise não deve ser restrita às questões de mão de obra. As empresas deverão ser analisadas de acordo com uma visão sistêmica, que envolva a produção, tecnologia, gestão, esforços comerciais, relacionamento na cadeia produtiva, relacionamento com Instituições de apoio e fomento, etc. Em paralelo, deverão ser levantadas as condições de preparação da mão de obra local: quais as instituições existentes, condições de infra-estrutura, modelo conceitual, seus cursos, currículos e metodologias de ensino; volume de formandos, qualificações, etc. O terceiro alvo de investigação é a prospecção do futuro de curto (3 anos), médio (5 anos) e longo (10 anos) prazo, dos setores empresariais. Qual o futuro deste negócio e suas exigências de qualificação técnica, gerencial e comportamental. Esta prospecção deve considerar os aspectos de mercado local, nacional e de exportação. Deste conjunto de levantamentos, a análise crítica poderá definir o foco de atuação da Universidade Corporativa de cada APL. Um modelo de universidade corporativa para Micro e Pequenas Empresas 75 Alinhamento Estratégico Talvez este seja o principal fator de sucesso à constituição de uma Universidade Corporativa voltada à micro e pequenas empresas em Arranjos Produtivos Locais. Em primeiro lugar, é necessário formular uma visão estratégica comum às empresas do APL, visando à construção de um planejamento de caráter estratégico para todo o Arranjo Produtivo. A prospecção de futuro descrita no item anterior, somado a uma análise de mercados concorrentes, sobretudo em locais onde as empresas já tenham um grau avançado de evolução (APLs internacionais, por exemplo), pode subsidiar a construção de uma estratégia consolidada. Definida a estratégia, esta será um componente fundamental na definição do escopo de atuação da Universidade Corporativa. Desta forma, a UC pode gerar vantagem competitiva, combinando e disseminando o conhecimento corporativo e gerando conhecimento novo. Operacionalização O modelo operacional a ser adotado dependerá das condições existentes em cada Arranjo Produtivo Local. Sua essência é composta por um órgão central, local, capaz de concentrar os vários esforços a serem desenvolvidos. Este órgão deverá concretizar as parcerias locais e junto à instituições e órgãos de governo, como o MCT por exemplo. A operacionalização das atividades de ensino deverá contemplar todo o rol de possibilidades existentes: • Parcerias com instituições formais de ensino visando à adequação de cursos básicos, com conteúdos capazes de serem aplicáveis às necessidades das empresas; • Desenvolvimento de modelos de ensino que contemplem novos mecanismos de interação: ensino à distância, internet, etc.; e que considerem novos modelos de aprendizagem, utilizando técnicas como “hands on” e laboratórios reais nas empresas locais; • Várias outras possibilidades de articulação com Instituições externas ao APL, visando o aperfeiçoamento de modelos e conteúdos de ensino. Não pretendemos esgotar as possibilidades de concretização de um modelo de Universidade Corporativa para micro e pequenas empresas. Isto exige um trabalho aprofundado, com várias linhas de pesquisa e desenvolvimento de conceitos e metodologias. 76 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A intenção é demonstrar que as micro e pequenas empresas são relevantes no cenário brasileiro e apresentam necessidades que as colocam em difíceis condições de competitividade no cenário nacional e, ainda mais, em mercados sujeitos à competição internacional. A proposta de desenvolvimento de um modelo de Universidade, aplicada à solução de necessidades estruturais de falta de conhecimento para essas empresas, pretende avançar na consolidação de estruturas efetivas de apoio. Estruturas capazes de induzir condições de maior competitividade às micro e pequenas empresas e, consequentemente, melhorar as condições de competitividade do Brasil. Com isto, o País terá condições de gerar mais e melhores empregos, e de dar melhores condições de desenvolvimento social. Referências APL: AMATO NETO, J. 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The New Corporate University Review, Nov./Dec.2000 5 Educação corporativa, educação setorial e Fóruns de Competitividade: questões conceituais André Fábio de Souza Analista de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Resumo – A educação representa, ao mesmo tempo, um elemento de reprodução e de criação de conhecimento, o reconhecimento das estruturas existentes e a possibilidade de modificá-las. No mundo do trabalho isso não é diferente. Entretanto, nos primórdios da educação para o trabalho, a idéia central era apenas municiar o operário de elementos mínimos que possibilitassem o manuseio dos instrumentos de produção e, conseqüentemente, a criação de mais-valia a ser apropriada pelo empresário. Introdução Somente com a evolução do próprio capitalismo (do primitivismo agrário à economia digital), a constatação da importância do ser humano nas organizações (da escola das relações humanas à gestão por competência), o reconhecimento da importância da inovação como elemento de vantagem competitiva em um mercado cada vez mais mundializado, e o fato de que essa inovação é produto da consciência humana, é que as empresas passaram a repensar o valor econômico do hiato entre a educação formal e a educação necessária para o trabalho. Cobrir esse hiato deixou de ser uma tarefa só do Estado e foi assumida pelas próprias organizações empresariais como forma de garantir a sua própria sobrevivência no mercado. Essa foi a maneira encontrada de moldar o perfil do trabalhador às necessidades de cada empresa e, mais do que isso, de incentivar esses trabalhadores a se aperfeiçoarem, não só em conteúdos e procedimentos industriais, mas em competências específicas. É nesse contexto que a educação corporativa se coloca: surge da necessidade de cobrir um hiato entre a educação formal dada pelo Estado e as novas necessidades empresariais, mas numa visão mais ampla que a do simples treinamento ford-taylorista. A idéia de moldagem do trabalhador não é nova. A diferença fundamental entre a moldagem clássica, característica do treinamento e desenvolvimento (T&D) e educação corporativa é que nesta, a educação do trabalhador é vista de forma integrada à gestão estratégica da empresa. Ademais há um novo elemento filosófico que permeia o mecanismo. Esse elemento é o reconhecimento explícito do valor econômico do conhecimento e que esse conhecimento se dá por meio de pessoas. 80 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A educação na empresa deixa de ser apenas reprodução, para passar a ser criação. Deixa de ser somente o reconhecimento das estruturas existentes, passando a tornar o trabalhador mais participativo no processo de construção desse conhecimento (ainda que limitado pela propriedade dos bens de produção – o que não se constitui em condição sine qua non para o desenvolvimento de suas potencialidades). A educação corporativa significa, então, paradoxalmente, uma mudança de visão, tanto filosófica quanto pragmática, de qual é a função da aprendizagem dentro das organizações. Ao contrário do que defendem alguns autores, educação corporativa não equivale à universidade corporativa. Esta seria a máxima expressão (no momento) desse tipo de educação. Em outras palavras, a universidade representa uma espécie, onde o gênero é a educação corporativa. Os modelos mais simples de educação corporativa estariam representados em pequenas ações articuladas de aprendizagem cuja visão maior está na melhoria das condições de trabalho e da produtividade e criatividade dos membros da organização, sejam esses chefes ou não. Somente nessa concepção de educação corporativa poderíamos falar em educação corporativa nas micro, pequenas e médias empresas. Educação corporativa setorial O conceito mais difundido de educação corporativa associa educação à missão da empresa e, de certa forma, traz a idéia de que o “corporativo” é relativo a uma única corporação (conforme conceito corporação de Peter Drucker). Entretanto, a expressão já se emancipou de sua origem. O “corporativo” pode ser visto dentro de um contexto mais amplo. Podemos, hoje, falar em educação corporativa para Micro e Pequenas Empresas (MPEs), sem nos preocuparmos em definir essas organizações como sendo ou não corporações. Podemos indicar a existência de uma educação corporativa setorial sem a necessidade de definir o setor como corporação. Isso ocorre exatamente porque o termo se emancipou. A ampliação do conceito para um setor é possível na medida em que o setor esteja relativamente organizado e institucionalmente representado. Essas são condições necessárias, mas não suficientes. A existência de uma visão conjunta do setor (ou de uma missão setorial) e a decisão política de seus dirigentes em torná-la realidade são as condições agregadoras para a educação corporativa setorial. Também seria importante distinguir, nesse momento, educação setorial e educação corporativa setorial. A primeira é, por analogia, a pré-fase da educação corporativa. São os treinamentos ad doc e com objetivos pontuais. Educação corporativa, educação setorial e Fóruns de Competitividade: questões conceituais 81 A segunda, corresponde à articulação da educação com a visão estratégica setorial. Essa distinção será importante para diferenciar as práticas de T&D, dos anos 60 e 70, empreendidas por entidades de aglomeração empresarial e as experiências mais recentes. Educação setorial e instituições Podemos, em uma perspectiva mais ampla, vislumbrar dois conjuntos de ações de educação setorial (seja ela tradicional ou corporativa); • Educação setorial pensada para o setor, mas instituída por entes públicos. Como exemplos, teríamos as ações educacionais do Sistema S (SENAI, SENAC e SENAR) e do Sebrae. • Educação setorial pensada para o setor e instituída por entes privados. Como exemplos, teríamos as ações educacionais das Confederações e Federações de comércio, indústria, serviços e agricultura; e as das Associações e Institutos setoriais (ABDIB, Abimaq, Abinee, IBS, etc.). Educação setorial e Fórum de competitividade Os Fóruns de Competitividade se constituem em ferramenta estratégica no contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior. Integram o Plano Brasil de Todos/ PPA 2004-2007 e são coordenados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e gerenciado pela Secretaria de Desenvolvimento da Produção (SDP). Ao contrário das câmaras setoriais, os fóruns utilizam o conceito de cadeia produtiva. Esse conceito decorre de uma visão mais ampla dos processos de produção e, conforme afirma CASTRO, esse novo enfoque provou sua utilidade, para organizar a análise e aumentar a compreensão dos complexos macroprocessos de produção e para se examinar desempenho desses sistemas, determinar gargalos ao desempenho, oportunidades não exploradas, processos produtivos, gerenciais e tecnológicos. (s.p.). Atualmente, existem mais de dez fóruns instalados, dentre os quais os da construção civil, de bens de capital, de biotecnologia, de couro e calçados, de siderurgia e do setor farmacêutico. Neles estão reunidos diferentes agentes públicos e privados relacionados às respectivas cadeias. Funcionam como um espaço de discussão e elaboração de alternativas de políticas públicas e de solução para entraves ao desenvolvimento da cadeia como um todo. Os fóruns, entendidos como espaço de contato de agentes coparticipantes do desenvolvimento setorial, podem se constituir em um ambiente para que o tema educação corporativa seja disseminado. Alternativamente, a 82 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas criação de um grupo de trabalho (GT) no seu âmbito pode dar maior dinamicidade ao assunto. Os objetivos desses GTs seriam a priori: a) verificar as experiências de educação corporativa já em prática em cada cadeia; b) analisar a possibilidade de educação corporativa setorial para a cadeia específica; c) apontar instrumentos públicos e privados que facilitem o uso da educação corporativa como mecanismo de inclusão social. Conclusão O tema educação corporativa é bastante recente no Brasil e necessita de reflexões que possibilitem o entendimento sobre seu funcionamento, conseqüências macro e microeconômicas e desafios. O compartilhamento de experiências empresariais, no âmbito de um fórum, possibilitaria uma divulgação do conceito e da prática de educação corporativa e, não de forma excludente, da própria gênese de uma educação corporativa setorial. Tornam-se importantes nessa fase, debates, tanto conceituais quanto pragmáticos sobre o tema, de modo a criar uma sinergia entre academia, setor empresarial e setor público. Essa sinergia fará com que se maximizem as potencialidades de educação corporativa no País. Referência CASTRO, Antonio Maria Gomes de. Cadeia produtiva e a prospecção tecnológica como ferramenta para a gestão da competitividade. Disponível em http:// www.desenvolvimento.gov.br/arquivo/sti/publicacoes/futAmaDilOportunidades/ futIndustria_2_01.pdf Educação corporativa, educação setorial e Fóruns de Competitividade: questões conceituais Parte II Reflexões e Competências 83 6 Educação corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites Ana Rosa Chopard Bonilauri Diretora de Recursos Humanos da Embratel “Embora uma arquitetura estratégica identifique competências amplas a serem desenvolvidas – as possíveis estradas para o futuro – os méritos das rotas específicas só emergem quando se segue adiante. Deve-se empenhar todos os esforços em como se chegar ao futuro, e não na atratividade do destino.” Gary Hamel & C. K. Prahalad-1995 Resumo – A vida, nas organizações vai, pouco a pouco, rivalizando com o ambiente educacional formal. É nas organizações, onde eventos não previsíveis ocorrem continuamente, que a aprendizagem vai acontecer de forma acelerada. Este artigo apresenta algumas reflexões acerca da importância que a educação corporativa desempenha no dia a dia das organizações, como espaço para ensinar e aprender. Introdução A IV Oficina de Educação Corporativa, capitaneada pelo Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio, constitui-se em evento de grande importância. Afinal, dá continuidade à reflexão sobre um tema relevante para o País, incentivando a discussão sobre o que se faz e o que se pensa sobre Educação Corporativa no Brasil. O evento, que abre a oportunidade para a fixação de uma política especialmente voltada à educação (ou treinamento) que se implementa no ambiente das organizações, tem um papel relevante, não só pela melhoria do desempenho individual dos empregados e, por conseqüência, dos resultados das organizações, como também - e mais importante - pela colocação do país em condições mais favoráveis para competir, tanto interna quanto externamente. O tema ainda não está presente, com esse espírito, nas discussões mais acadêmicas e nem nas discussões sobre gestão, ou mesmo na literatura de “auto-ajuda” administrativa. Talvez, por pertencer mais à dimensão econômica da sociedade e por sua pequena visibilidade como “valor isolado” nas estratégias de gestão empresarial, o assunto permanece restrito a um pequeno grupo de estudiosos e profissionais, que conferem resultados dos efeitos em investimento na educação que faz intramuros nas empresas. É possível supor que o pouco interesse despertado nas academias e no setor público dedicado à Educação e ao Trabalho - o valor pragmático da 86 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas educação corporativa, valendo para um tempo e um lugar - não suscite o interesse que temas muito mais vitais e impactantes para a sociedade, como a educação escolar e as relações econômicas de trabalho o fazem. A razão, provavelmente, está no fato de que a educação corporativa serve ao negócio em primeiro lugar. Na maioria das vezes, criando uma vantagem para o empresário – a contabilidade entre manter um corpo funcional capaz (capacitado) para responder adequadamente no exercício do trabalho, em vez de implementar o desgastante processo de recrutar e selecionar profissionais para dispensá-los e iniciar novos ciclos intermitentemente. O custo, nesse segundo caso, em se tratando de mão-de-obra mais qualificada, é muito alto, não só pelos valores diretos, mas, principalmente, pelos indiretos: integração, adaptação e motivação do grupo que fica. Em segundo lugar, é possível, do lado das organizações, atribuir à educação corporativa valor relativo, que oscila em função de prioridades estratégicas e importância relativa no processo de gestão de pessoas de uma organização. Valores e modelos de gestão, planos estratégicos e personalidade (biografia) dos executivos podem alterar significativamente o lugar e, portanto, os investimentos em educação corporativa. Vislumbra-se aí um bom “imbróglio” que só se desfaz por mediação ou fatos e dados que vão, indiretamente, lançando um pouco de luz e atenção ao mundo fechado das empresas, na sua tarefa de educar (“re-educar”) pessoas, conforme sua razão de existir, produzir e crescer. Por último, não fosse o “mundo plano” (FRIEDMAN, 2005), talvez não estivéssemos nem mesmo tendo a oportunidade de refletir sobre o tema que aqui e ali desponta, ainda que timidamente, ao lado das crises e críticas à educação formal e seu impacto substancial no progresso das nações. 1. O Porquê do Interesse em Educação Corporativa Achamos que o interesse em educação corporativa está naturalmente associado à grande mudança que está ocorrendo na geografia da produção e do consumo, em relação ao valor do conhecimento na sociedade pós-industrial. Para nós, que atuamos no ambiente pragmático da organização, obviamente esse tema vai parecer pouco aprofundado e, talvez, negligenciado. O que se apreende, todavia, pelo olhar focado através da lente do empreendimento e das políticas mundiais de desenvolvimento econômico – que afetam, sobretudo, países como o Brasil – é que há uma imensa oportunidade de agregar mais e mais pessoas ao mundo das trocas simbólicas de bens (valores) por meio da oportunidade de se lançar esse contingente imenso da população mundial na produção e no consumo. Educação corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites 87 Por um lado, um mercado potencial e carente de acesso a bens e produtos está à espera, obrigando as nações e as empresas, que objetivam fazer parte desse jogo global, a ele se adaptarem. Destacam-se, nesse sentido, as teses defendidas por Prahalad (1995), que, desde sua obra mais clássica – Competindo pelo Futuro –, já destacava a necessidade de, em vias da globalização dos mercados, não descurar dos mercados /necessidades locais. Se, por um lado, há essa tremenda oportunidade de crescimento das indústrias e dos serviços nas nações, por outro lado, observa-se a evolução, também muito significativa, do “saber” e do “conhecimento”, como fatores novos na clássica equação matéria prima X meio de produção X trabalho (CAVALCANTI; GOMES PEREIRA, 2001). Cada vez mais se fala na grande diferença entre o valor de mercado de uma empresa de capital aberto e o seu valor líquido, em suas demonstrações contábeis, sendo que essa diferença se denomina “valor dos ativos intangíveis”. É nessa dimensão, aparentemente “invisível”, que se incluem outras características capitais, tais como: o humano – representado pela competência técnica instalada pelo corpo de empregados; o estrutural – modelos e sistemas de gestão, patentes, documentação de processos e procedimentos, estruturas, etc.; e, ainda, outros capitais intangíveis – como os modos de relacionamento com clientes, fornecedores e sociedade e a imagem da organização (SVEIB, 1998). Nesse novo contexto, com a rapidez da resposta exigida, é óbvio que se espera que o trabalhador detenha competências necessárias para fazer frente a esse desafio. Assim, o trabalhador é chamado a ocupar um espaço de produção em que, velozmente, se exige mais capacidade intelectual para lidar e ir além dos sistemas, das máquinas inteligentes, dos meios de acesso e da troca de informações e conhecimentos. Do mesmo modo, é chamado a desenvolver a capacidade de empreender, inventar, criar e aplicar, no trabalho, métodos e ferramentas capazes de racionalizar a produção e garantir maior produtividade e qualidade. É isso que se vende embutido nos produtos e serviços e que diferencia as empresas entre si. Assim, a escolarização vale tanto pelo conhecimento de técnicas, métodos, teorias e conteúdos, como – ou mais – pelas estruturas de pensar, resolver problemas e inventar, produzidas pelo desenvolvimento da capacidade intelectual. É esse novo trabalhador que os países emergentes ainda têm dificuldade de formar, seja pela dificuldade de reter esse contingente escolarizado, seja porque, mesmo aqueles que permanecem na escola não conseguem desenvolver os requisitos mínimos para atuar em um mundo com novas características relacionais e lógicas. O que as empresas fazem, então, é preencher lacunas nessa formação, tomando para si a tarefa de treinar, estimular a complementação dos níveis de escolaridade e, em alguns casos, de promover atividades de P&D, bem como trocar, com o mundo acadêmico, saberes, técnicas e pessoas. 88 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A vida, nas organizações vai, pouco a pouco, rivalizando com o ambiente educacional formal. É nas organizações, onde eventos não previsíveis ocorrem continuamente, que a aprendizagem vai acontecer de forma acelerada. Autonomia, identidade, compartilhamento de metas e estratégias, sistemas meritocráticos baseados em competências convergem para fazer do dia-adia, nas organizações, um bom espaço para ensinar e aprender. Eis um primeiro ponto, natural, se não fundamental, para que as empresas se preocupem com a educação: a que a sociedade oferece e aquela que se incumbe de dispor aos seus empregados. Além da tarefa de suprir lacunas de formação, desenvolvimento intelectual e conteúdos para o bom desempenho no trabalho, as organizações educam pela cultura compartilhada, ou seja, pelo “jeito de fazer”, pelos valores, mitos e ritos que apregoa e pratica, pelos métodos de liderar, premiar, punir e de fazer as coisas. Assim, as organizações estão, continuamente, às voltas com formação/conformação. 2. Onde Estarão os Limites da Educação Corporativa? Responder a essa pergunta é uma questão difícil. Difícil, pelas limitações da abordagem, pois é impossível separar a educação corporativa como objeto ímpar de estudo. Difícil, também, porque não se configura como o elemento mais fundamental na gestão de pessoas. É fato que a educação corporativa responde aos direcionamentos das empresas, ficando atrelada à estratégia de resultados. Por sua vez, a estratégia de resultados é muito mais sensível às tensões e conflitos nas relações de trabalho, advindos, sobretudo da remuneração. Tudo o mais fica a critério das organizações, respondendo mais ou menos a anseios de bem estar, crescimento e satisfação no trabalho. Tais demandas são fruto de anseios que se encontram socialmente valorizados e assumidos. Assim, a educação corporativa atende a um projeto e a um significado patrocinados, sobretudo, pela organização, que oscilam conforme modelos de gestão adotados, formulação de estratégias e a algum tipo de resposta ao desejo legítimo dos empregados, e correspondem à visão de sobrevivência e auto-realização construídos no relacionamento com seu próprio ambiente social. Percebe-se que a educação corporativa toma significativo impulso, quando intimamente ligada às estratégias corporativas, que vão inclusive tomar emprestado da literatura mais relacionada às pessoas, a visão da competência organizacional diferenciadora e capaz, tal como a competência humana (provida de complexidade, de evolução e adaptabilidade – tempo X espaço) de alavancar resultados. Nesse cenário, o que empresta novo sentido e reconhecimento à educação corporativa não está naquilo que seu arsenal de ferramentas, técnicas Educação corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites 89 e filosofia garantem à prática e aos indivíduos, mas naquilo que lhe é conferido pelo projeto empresarial de sucesso e sustentabilidade. Ler esse novo espaço da educação corporativa, sob essa ótica, não é desmerecê-la, minimizando seu impacto real na vida das pessoas, das organizações e da sociedade. Há uma vontade imensa de respeitar uma ação, sem o romantismo do educador, que crê no poder de superação do homem pelo acesso ao conhecimento, ou que descrê da educação que não se faz crítica, pela base ideológica que carrega, e, tal como visgo, impossível de ser abstraída do ato de ensinar (e de aprender). Hei-nos no eixo do mais fundamental que é o de atribuir à educação corporativa o valor que ajuda uma organização a construir. E aí, ela vale, porque vale às organizações, porque vale a uma sociedade que luta por crescer e abrir novas possibilidades aos seus cidadãos. Vale, porque imprime, em sua ação, também valores e crenças que constroem a cidadania. Desta forma, conclui-se que o limite da educação corporativa está no intramuro das organizações. Está na percepção da sua importância para o negócio – desde a construção de sua identidade, até a capacidade de inovarse e de expandir seu valor pelos intangíveis que acumula. Está em seu comprometimento com a sociedade, seja ajudando a desenvolver pessoas da melhor qualidade ética e competência, seja rompendo barreiras externas, pela capacidade de se fazer presente e competitiva em outros mercados e regiões. Está em se apresentar como modelo de tecnologia aplicada ou de modelos de gerenciamento empresarial eficazes às demandas do mais promissor mercado de consumo atual a ser constituído pela base da pirâmide social, nos números, casos e palavras entusiasmadas de C. K. Prahalad1 Por último, mais uma palavra àqueles que fazem educação corporativa: os métodos, as práticas e as ações não terão valor se não estiverem claramente comprometidos com o entendimento incondicional do segmento e do negócio da organização que a abriga. Mesmo que esteja disponível o melhor contingente de profissionais para ser absorvido pelas empresas, sempre haverá a possibilidade (e a necessidade) de seu aprimoramento e capacitação. Desse modo, seja para a própria empresa, seja para o mercado de trabalho, empresa e escola têm papéis complementares e sinérgicos na preparação das pessoas. Seja na preparação para a cidadania, na convivência social; seja para fazer aportar ao país os dividendos econômicos a que faz jus pela qualidade de seus produtos e serviços; seja, simplesmente, para garantir, nesse mundo extremamente explosivo das sucessivas transformações, as condições objetivas para cada homem ou mulher continuar ativo na busca da sobrevivência e da auto-realização. 1 Revista Exame, n. 873, 02/08/2006, p. 32. 90 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Referências FRIEDMAN, Thomas L. O Mundo é Plano: uma breve história do século XXI. Rio de Janeiro: Objetiva. 2005. HAMEL, Gary; PRAHALAD, C. K. Competindo pelo futuro: estratégias inovadoras para obter o controle do seu setor e criar os mercados de amanhã. (tradução Outras Palavras), Rio de Janeiro: Campus. 1995. CAVALCANTI, Marcos; GOMES, Elisabeth; PEREIRA, André. Gestão de Empresas na Sociedade do Conhecimento. Rio de Janeiro: Campus. 2001. SVEIB, Karl Erik. A Nova Riqueza das Organizações. Rio de Janeiro: Campus. 1998. Revista Exame, n. 873, 02/08/2006, p. 32. 91 Educação corporativa: reflexões sobre sua razão de ser e seus limites 7 Certificação profissional – uma tendência sem volta? Julio Cunha Gerente de Aprendizagem e Conhecimento da Datasul Educação Corporativa Resumo – Existe em curso, no mercado de educação profissional brasileiro e mundial, uma revolução em termos de reconhecimento da proficiência dos trabalhadores em vários segmentos. A certificação profissional, que teve uma curva de adoção mais intensa a partir da década de 80 dentro da então promissora indústria de TI, hoje se consolidou como um requisito para profissionais que querem se destacar, bem como um item comum nas descrições de cargos de organizações que buscam a garantia de conhecimentos atualizados. Considerando as tendências mundiais, o artigo descreve o modelo mais recorrente de certificação e o impacto que pode ter no Brasil em termos de competitividade. Abstract – There is a silent revolution going on inside both Brazilian and worldwide professional education marketplaces. The angle from which workforce proficiency is evaluated has changed significantly. The professional certification, heavily adopted since the 80’s, by the then promising IT industry is now consolidated as a basic requirement to professionals who want to excel, as well as a mandatory item in job descriptions from companies that need to have up-to-date knowledge. Considering worldwide trends, the article describes the most recurring certification model and the impact it may have to Brazil competitiveness. 1. Introdução Para exercer algumas profissões, além de ter a formação específica, é necessária uma avaliação, um credenciamento ou certificação específicos. No Brasil, por exemplo, só é possível para um bacharel em direito exercer a profissão de advogado caso preste um exame e seja aprovado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Por outro lado, médicos precisam complementar sua formação acadêmica com uma residência - um período onde estarão sob supervisão e sua performance será avaliada, como forma de avaliação final. Em nosso País, muitas profissões são regulamentadas por conselhos federais e regionais, como forma de assegurar que os serviços prestados por determinadas categorias profissionais não ameacem a segurança da sociedade. A novidade é que em algumas áreas de conhecimento específicas, o aumento 92 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas da complexidade de algumas tecnologias e a necessidade de reconhecer a performance adequada de um grupo de profissionais, criou um fenômeno conhecido como “certificação profissional”. A certificação obtida em cursos onde o único pré-requisito eram notas e freqüência com praticamente toda a turma recebendo os certificados de participação ao final já não é mais suficiente. A certificação profissional credencia um indivíduo a desempenhar determinada atividade, com base em padrões e normas pré-estabelecidos por agências, associações ou empresas. O credenciamento é obtido com a aprovação do candidato numa prova elaborada de tal forma que comprove a competência do candidato. 2. Origem da certificação profissional como prática de reconhecimento de proficiência A tendência para a certificação profissional teve sua origem ainda na década de 80, quando uma empresa que fornecia equipamentos de rede constatou que parte integrante de seu produto era o conhecimento. Ou seja, não era suficiente o cliente comprar seus equipamentos para obter os resultados esperados. Alguém junto ao cliente precisava ter conhecimentos específicos, com profundidade suficiente para configurar e utilizar corretamente os equipamentos. Em outras palavras, o fabricante só garantiria o funcionamento de seus equipamentos, se o administrador da rede fosse certificado por ele. Assim, a qualidade percebida pelo cliente depende do produto e do usuário desse produto. A garantia de qualidade passa, então, pela conformidade do produto e pela certificação dos usuários para causar uma ótima experiência de uso pelo cliente. Figura 1. A equação da certificação. No início, era simples certificar um profissional nessa área. Numa sala fechada, jogavam-se todos os equipamentos necessários para montar uma rede de computadores. Os candidatos tinham como desafio configurar e montar os equipamentos num determinado espaço de tempo. Seu comportamento era avaliado o tempo todo por uma banca de engenheiros especialistas do fabricante. Ao final, a banca emitia o parecer de acordo com o que havia observado. Resumindo, os que demonstravam sua competência na prática eram certificados. Quando o fabricante ganhou escala mundial, não conseguiu replicar esse modelo de certificação porque os custos inviabilizavam o processo. Além disso, Certificação profissional: uma tendência sem volta? 93 os engenheiros da banca não conseguiriam estar em todos os países com a velocidade e agilidade necessárias. Surgiu então a idéia de transpor os itens avaliados na prática para uma prova automatizada, que poderia ser aplicada em qualquer lugar do mundo. Através de centros de prova, os candidatos poderiam, então, prestar os exames com segurança e credibilidade. Esse modelo se consolidou e hoje é a alternativa mais utilizada por associações, empresas e conselhos que precisam garantir a proficiência de um grupo de profissionais de acordo com certos parâmetros pré-estabelecidos. Desde a década de 80 até hoje, esse modelo extrapolou o mundo de TI e hoje é utilizado para certificar conteúdos de negócio (APICS1, PMI2), idiomas (TOEFL3) e, mais recentemente, conteúdos internos das empresas. 3. Não basta capacitar, é preciso certificar O grande desafio de muitas organizações é criar meios para garantir que as competências de seus profissionais estejam desenvolvidas em níveis suficientes para encantar seus clientes. Esse desafio se torna mais complexo quando, na cadeia de valor de uma empresa, temos profissionais que não são funcionários. A terceirização de algumas atividades é um desses desafios. Por exemplo, muitas companhias telefônicas terceirizaram a instalação de equipamentos nas residências de clientes com empresas especializadas. Como garantir que o profissional terceirizado que entra numa residência para habilitar uma banda larga, por exemplo, tenha conhecimento, habilidades e atitudes de acordo com os valores da empresa? Um outro exemplo são as empresas automotivas, que possuem redes de concessionários. Como garantir que todos os vendedores terão a postura desejada pelo fabricante ao abordar um cliente? Como garantir que todos irão ressaltar os atributos mais importantes do modelo recém-lançado? Ao criar um programa de certificação, uma empresa define de forma clara os comportamentos esperados de seus profissionais. Além de provocar uma revisão constante nos modelos e conteúdos de treinamento, essa abordagem de certificação concede mais credibilidade aos programas de educação interna de colaboradores. Se os profissionais que passam por programas de treinamento sabem que serão avaliados formalmente, por meio de uma prova de certificação, têm 1 2 3 APICS - The Association for Operations Management. PMI - Project Management Institute. TOEFL - Test of English as a Foreign Language. 94 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas outra postura em relação aos treinamentos fornecidos pela empresa. São os primeiros a cobrar qualidade e consistência do conteúdo, postura profissional dos instrutores e assim por diante. Essa pró-atividade aumenta consideravelmente caso a organização opte por alinhar a certificação aos programas de remuneração, comissionamento e acordos de nível de serviço. O importante é alinhar os programas de aprendizagem (sejam presenciais ou a distância) com o processo de certificação e planos de carreira. Assim, de uma forma clara, os profissionais sabem onde precisam se desenvolver e como fazer para chegar lá. 4. Quais os atores de um processo de certificação profissional? Independentemente de uma certificação ser interna e obrigatória – quando uma montadora, por exemplo, exige que todos os vendedores da sua rede de concessionários sejam certificados em suas provas; ou voluntária – quando um profissional é certificado como gerente de projetos pelo Project Management Institute (Instituto de Gerenciamento de Projeto, PMI, na sigla em inglês) para aumentar sua empregabilidade, sempre haverá alguns papéis que serão desempenhados num processo de certificação: – O patrocinador do programa de certificação: É quem cria o programa de certificação, estabelecendo regras e políticas que serão aplicadas. Geralmente a marca da certificação é a mesma do patrocinador. – Os candidatos São os profissionais que vão se submeter às provas para cumprir um requisito ou obter um diferencial de mercado. – O certificador É quem aplica as provas de certificação, cuidando da logística e zelando pela credibilidade do processo junto aos candidatos. – O autor das provas É o profissional que reconhecidamente detém a competência que será avaliada. – O psicométrico Surge aqui uma especialidade pouco conhecida no Brasil, que une a ciência e a tecnologia da avaliação mental, incluindo psicologia, ciências do comportamento, educação, estatística e tecnologia da informação. Esse é o profissional que assegura cientificamente que uma prova está medindo a proficiência de uma pessoa numa determinada competência. Certificação profissional: uma tendência sem volta? 95 Figura 2. A interação dos atores de um programa de certificação 5. Definições e descrições de alguns tipos de credenciamento existentes Credenciamento é o termo guarda-chuva que inclui os conceitos de acreditação, licenciamento, registro e certificação profissional. O credenciamento pode estabelecer critérios para qualidade, competência e/ou segurança na prestação de serviços profissionais fornecidos por indivíduos autorizados. O credenciamento é o processo pelo qual uma entidade autorizada e qualificada fornece reconhecimento formal a profissionais, organizações, instituições, programas, processos, serviços ou produtos que atendem a determinados critérios normatizados. O processo de credenciamento é essencialmente um método para manter padrões de qualidade de conhecimento e performance e, em alguns casos, para estimular o autodesenvolvimento. Acreditação é o processo voluntário pelo qual uma agência não governamental fornece um reconhecimento temporário para uma instituição, negócio ou outra entidade, após verificar que essa organização atendeu a critérios pré-estabelecidos. Certificação profissional é o processo voluntário pelo qual uma entidade não-governamental fornece uma credencial a um indivíduo depois de verificar que ele atendeu a critérios pré-determinados. É o veículo pelo qual uma profissão (ou ocupação) diferencia seus membros, utilizando padrões geralmente definidos num processo consensual. Licenciamento é o processo mandatório pelo qual uma agência governamental fornece uma permissão temporária a um indivíduo para que ele exerça uma função depois de verificar que esse atendeu a requisitos pré- 96 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas determinados. O licenciamento é acompanhado de proteção legal garantido pela agência governamental. Registro tem no mínimo três significados: a) Processo pelo qual uma agência governamental fornece um registro temporário para um profissional, de acordo com critérios préestabelecidos (ex.: experiência, educação, exames) autorizando assim estes indivíduos a praticarem suas atividades, de forma similar ao licenciamento. O propósito é manter o registro da situação passada e atual do profissional, mantendo assim a proteção da profissão. – O segundo significado é simplesmente uma lista de praticantes mantida por uma entidade governamental, sem requisitos de competências, escolaridade, etc, somente para fins documentais. – Um terceiro significado pode ser atribuído ao reconhecimento que uma entidade governamental dá a uma determinada classe profissional, mas sem manter registro dos indivíduos que a compõe. 6. Casos de certificação no Brasil Veja algumas organizações que já utilizam a certificação no Brasil. Certificação profissional: uma tendência sem volta? 7. 97 A competitividade de um país e a certificação profissional A partir das experiências internacionais, é fácil apontar o impacto positivo que a adoção massiva de programas de certificação profissional pode trazer ao país: Um atestado de competência com isenção Devido ao modelo da maioria dos programas de certificação, onde o patrocinador geralmente é uma associação, é praticamente impossível manipular resultados ou certificar profissionais com base em critérios diferentes. Para ilustrar bem essa diferença, basta voltarmos ao exemplo do exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Independentemente do nível ou qualidade da Instituição de Ensino Superior que formou o bacharel em direito, ele terá que demonstrar o mesmo nível de conhecimento mínimo em qualquer lugar do país. Esse fator tem trazido muita credibilidade para os programas de certificação profissional, em alguns casos até mesmo complementando o reconhecimento formal acadêmico. Um mecanismo de comprovação formal da capacidade intelectual Com o aumento das exportações, ainda na década de 70, os países tratavam de proteger seus interesses (tanto de produtores como consumidores) através da certificação de produtos. Ou seja, para vender um artefato eletroeletrônico na Alemanha era necessário atestar a segurança e a qualidade do produto, submetendo o mesmo a vários testes realizados em laboratórios. Mas isso não era suficiente. Com o início da globalização, nosso país foi varrido pelas certificações dos Sistemas de Gestão da Qualidade (SGQs) – a ISO 9000 é um bom exemplo. Os países, agora organizados em blocos econômicos, exigiam um mínimo de organização do fabricante ou prestador de serviços. Vivemos agora a necessidade de provar formalmente para o mundo, nossa capacidade intelectual. Precisamos agora certificar as pessoas que vão prestar serviços que impactam na qualidade percebida pelo cliente. Um bom exemplo dessa tendência pode ser observado nos exportadores de software, que já possuem contratos com clientes americanos e europeus, os quais exigem contratualmente a certificação mínima dos profissionais que os atendem O reconhecimento da aprendizagem como um processo e não um evento O país que coloca em sua agenda o estímulo formal para que associações de classe, entidades que congregam profissionais de todas as áreas, criem seus programas de certificação, demonstra que reconhece a dinâmica da era do conhecimento com data de validade. Diferentemente da certificação acadêmica, a certificação profissional costuma ter prazo de validade. Isto demonstra para a sociedade a necessidade da educação continuada, a vantagem 98 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas de pertencer a uma comunidade profissional e a garantia de continuidade da credibilidade de uma certificação. Essa credibilidade chega aos mercados compradores embutida na qualidade dos produtos ou serviços comprados ou, mais explicitamente, na forma de indicadores quantitativos sobre a quantidade de mão-de-obra certificada em determinada área. 8. Conclusão Com a complexidade crescente de produtos e serviços que são oferecidos atualmente e com a competitividade dos mercados aumentando, a certificação profissional torna-se essencial. Tanto para fabricantes, que precisam que seus produtos sejam bem utilizados por clientes, como para entidades e associações, que desejam fornecer reconhecimento e credibilidade para seus associados, ter condições de diferenciar os que detêm conhecimento e proficiência passa a ser uma meta estratégica. Quanto mais bem utilizado um produto, maior o potencial de recompra e referência por parte do cliente. Quanto mais associados certificados e reconhecidos pela sociedade, maior a credibilidade de uma associação de profissionais. Do ponto de vista institucional, criar e adaptar políticas que estimulem associações e entidades de classe a se organizarem e a formularem seus próprios programas de certificação pode trazer para o Brasil um diferencial competitivo. Atualmente nos encontramos em processos de concorrência com Rússia, China, Índia (para ficarmos nos maiores). Em tais mercados, não basta parecer o melhor, é preciso ter certeza de que se é o melhor. Isso se faz certificando profissionais. Bibliografia consultada 1. Certification: A NOCA Handbook, Browning, A., Bugbee, A., and Mullins, M., Editors. National Organization for Competency Assurance, Washington, DC, 1996. 2. NCCA Standards for the Accreditation of Certification Programs, National Organization for Competency Assurance’s National Commission for Certifying Agencies, 2003. 3. Principles of Fairness: An Examining Guide for Credentialing Boards, Council on Licensure, Enforcement, and Regulation, National Organization for Competency Assurance, Revised 2002. 99 Certificação profissional: uma tendência sem volta? Parte III Educação Corporativa e Avaliação 8 Breve panorama da educação corporativa no Brasil: apresentação de resultados de pesquisa Flavio Hourneaux Junior Doutorando em Administração de Empresas, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), professor e pesquisador Marisa Pereira Eboli Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Autora do livro Educação Corporativa no Brasil: Mitos e Verdades Sergio Mancini Doutorando em Ciência Ambiental – PROCAM da Universidade de São Paulo (USP) Resumo – O artigo pretende apresentar, um panorama conciso a respeito das atividades relacionadas à Educação Corporativa nas organizações de diferentes setores atuantes no Brasil. Serão apresentados os principais resultados obtidos através de uma pesquisa realizada pelos autores, no que se refere à Educação Corporativa de modo geral, buscando-se, principalmente, uma clarificação no que diz respeito às características de um sistema de educação corporativa e quais os resultados advindos de sua implantação percebidos pelas respectivas organizações. Além disso, procura-se, através de uma revisão da literatura sobre o tema, fazer considerações sobre a efetividade de tais atividades e acrescentar ainda conclusões e recomendações que sucedem das análises realizadas, com o propósito de enriquecer as discussões sobre o tema. 1. Introdução Na sua incessante busca pela perpetuidade do negócio e aumento de competitividade no mercado, muitas empresas têm buscado novas formas para o aprendizado e desenvolvimento dos seus trabalhadores e, muitas vezes, também de seus públicos interessados externos. Como uma alternativa para incrementar a capacitação individual e, conseqüentemente, gerar níveis mais altos de competência para toda a organização, surgiu o conceito de Educação Corporativa, que se consolidou na década de 1990 nos Estados Unidos e que vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil. De cerca de dez casos estabelecidos durante a década de 1990, atualmente já são mais de uma centena de iniciativas consolidadas em organizações atuantes no país (EBOLI, 2004, p. 63). Além de ser uma das formas de promover a gestão do conhecimento (VON KROGH, 2000, p. 262), a Educação Corporativa tem se tornado um forte instrumento para a administração das organizações em dois sentidos amplos: ela reconhece o desenvolvimento da administração (e dos administradores) como um processo complexo e que carece de cuidado e de uma customização acurada e também atua como reforço para o conceito de autodesenvolvimento dos trabalhadores (MINTZBERG, 2003, p. 229), além de desenvolver as pessoas 102 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas para atender a estratégia das empresas (MEISTER, 1999, p. 251-252; EBOLI, 2004, p. 114) e atuar como complemento no processo educacional da população, tanto intra como extra-muros organizacionais, trazendo uma contribuição à sociedade (EBOLI, 2004, p. 261-267) A finalidade básica de um Sistema de Educação Corporativa (SEC) é, no entender de Marisa Eboli, fomentar “o desenvolvimento e a instalação das competências empresariais e humanas consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócios” (EBOLI, 2004, p. 48), de uma forma sistemática, estratégica e contínua. Percebe-se, assim, o poder e a importância deste conceito em um cenário de extrema competitividade, como o atual, na criação de valor real agregado às pessoas envolvidas e ao negócio em si. O processo de evolução da Educação Corporativa no Brasil tem sido muito dinâmico, o que requer um mapeamento mais acurado de como está sendo tratado o assunto pelas organizações brasileiras. Assim, torna-se relevante um conhecimento mais aprofundado da realidade brasileira em termos de Educação Corporativa, apontando-se resultados e análises das práticas das organizações brasileiras, em função do assunto ainda ser alvo de reduzido volume de publicações. A partir desta contextualização, o objetivo deste artigo é, baseando-se em um referencial teórico das boas práticas de um Sistema de Educação Corporativa e da apresentação dos dados de pesquisa realizada pelos autores, fazer uma avaliação dos aspectos relevantes e dos resultados obtidos pelos SEC’s de organizações pertencentes a vários setores econômicos, e verificar como, e se, estas organizações estão organizadas para estas atividades. Busca-se, ainda, acrescentar conclusões e recomendações que decorrem das análises realizadas, com o propósito de enriquecer as discussões sobre o tema. O artigo se inicia com a descrição da metodologia utilizada; em seguida, é feita uma revisão dos principais tópicos relacionados ao tema, apresentados pela literatura administrativa; após, são apresentados os principais resultados obtidos na pesquisa realizada pelos autores; e finalmente, há as principais considerações feitas a partir da análise global do trabalho. 2. Metodologia O presente artigo apresenta características, tanto de pesquisas exploratórias, como descritivas. Triviños (1987, p. 109), assim descreve tipo de estudo exploratório: Os estudos exploratórios permitem ao investigador aumentar sua experiência em torno de determinado problema. O pesquisador parte de uma hipótese e aprofunda seu estudo nos limites de uma realidade específica, buscando antecedentes, maior conhecimentos para, em seguida, planejar uma pesquisa descritiva ou de tipo Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 103 experimental. Outras vezes, deseja delimitar ou manejar com maior segurança uma teoria cujo enunciado resulta demasiado amplo para os objetivos da pesquisa que tem em mente realizar. (...) Um estudo exploratório, por outro lado, pode servir para levantar possíveis problemas de pesquisa (TRIVIÑOS, 1987, p. 109). Sampieri, Collado e Lucio (1994, p. 59), justificam o uso do estudo exploratório quando o objetivo é examinar um determinado tema que tenha sido pouco ou nada estudado anteriormente, permitindo que se obtenha um maior grau e familiaridade com os fenômenos envolvidos no estudo. O segundo tipo de estudo relacionado, o descritivo, tem como foco central o desejo de “conhecer a comunidade, seus traços característicos, suas gentes, seus problemas, suas escolas, seus professores, sua educação, sua preparação para o trabalho, seus valores...” (Triviños, 1987, p. 110). Sampieri et al (1994, p. 61), enfatizam o poder de mensuração do estudo descritivo. Para Triviños, os estudos descritivos exigem do pesquisador uma série de informações sobre o que deseja pesquisar. (...) O estudo descritivo pretende descrever ‘com exatidão’ os fatos e fenômenos de determinada realidade. (...) Quando se estabelecem relações entre variáveis, o estudo se denomina estudo descritivo e correlacional. Outros estudos descritivos se denominam estudos de casos. Estes estudos têm por objetivo aprofundarem a descrição de determinada realidade. (TRIVIÑOS, 1987, p. 110). Dessa forma, o método da pesquisa se justifica em função da necessidade de se adquirir um painel das práticas organizacionais relacionadas. Os dados e as análises apresentadas baseiam-se na pesquisa “Mensuração de Resultados em Educação Corporativa no Brasil”, realizada pelos autores, com o propósito de se obter um panorama mais acurado de como está sendo tratado o assunto pelas organizações brasileiras. Foram enviados instrumentos de coleta de dados a 164 organizações que atuam no Brasil e que, sabidamente, apresentavam alguma iniciativa de Educação Corporativa, caracterizando uma amostragem intencional, por conveniência. Trinta e nove empresas responderam o questionário. O instrumento de pesquisa era constituído por questões qualificadoras, fechadas (com a utilização de uma escala Likert de 6 pontos) e abertas, em um total de 64 questões e era dividido em três partes: Caracterização da empresa e do respondente; Caracterização do Sistema de Educação Corporativa (SEC); Resultados do SEC da empresa. A terceira parte da pesquisa, Resultados do SEC da empresa, levou em conta cinco blocos temáticos, que foram considerados suficientes para que se atingisse o seu objetivo, e que eram relacionados aos sete princípios de sucesso de um Sistema de Educação Corporativa (cf. item 3 a seguir). São eles: 104 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Quadro 1. Temas para avaliação dos resultados de um SEC x princípios de sucesso. Os resultados apresentados provêm de análises estatísticas descritivas, por se tratar de uma amostra não-probabilística, e que apesar das limitações do método, possibilitam atender aos objetivos gerais dos pesquisadores (COOPER; SCHINDLER, 2003, p. 167-168). 3. Referencial Teórico 3.1. Principais Conceitos de Educação Corporativa O conceito de Universidade Corporativa, ou Educação Corporativa, surge no final do século XX como uma atividade de intenso crescimento no campo do ensino superior. Para compreender sua importância tanto como novo padrão para a educação superior quanto, num sentido amplo, como instrumento-chave de mudança cultural, é importante compreender as forças que sustentaram o aparecimento desse fenômeno (MEISTER, 1999). Em essência, essas forças são cinco: a. Organizações flexíveis: a emergência da organização não-hierárquica, enxuta e flexível, com capacidade de dar respostas rápidas ao turbulento ambiente empresarial; b. Era do Conhecimento: o advento e a consolidação da economia do conhecimento, na qual conhecimento é a nova base para a formação de riqueza nos níveis individual, empresarial ou nacional; c. Rápida obsolescência do conhecimento: a redução do prazo de validade do conhecimento associado ao sentido de urgência; d. Empregabilidade: o novo foco na capacidade de empregabilidade/ ocupacionalidade para a vida toda em lugar do emprego para toda a vida; Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 105 e. Educação para estratégia global: uma mudança fundamental no mercado da educação global, evidenciando-se a necessidade de formar pessoas com visão global e perspectiva internacional dos negócios. (MEISTER, 1999, p. 1-12) A finalidade básica de um Sistema de Educação Corporativa (SEC) em uma organização é, no entender de Eboli (2004, p. 48), fomentar “o desenvolvimento e a instalação das competências empresariais e humanas consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócios”, de uma forma sistemática, estratégica e contínua. Percebe-se, assim, o poder e a importância deste conceito em um cenário de extrema competitividade, como o atual, na criação de valor real agregado às pessoas envolvidas e ao negócio em si. Os Sistemas de Educação Corporativa apresentam, na visão de Eboli (2004, p. 57-61) sete princípios de sucesso, que, dão um enfoque conceitual e metodológico para a concepção, a implementação e a análise de projetos de educação corporativa realizados nas organizações de modo geral. Estes princípios são: 1. Competitividade: valorizar a educação como forma de desenvolver o capital intelectual dos colaboradores transformando-os efetivamente em fator de diferenciação da empresa frente aos concorrentes, para ampliar e consolidar sua capacidade de competir, aumentando assim seu valor de mercado por meio do aumento do valor das pessoas. Significa buscar continuamente elevar o patamar de competitividade empresarial através da instalação, desenvolvimento e consolidação das competências críticas - empresariais e humanas. 2. Perpetuidade: entender a educação não apenas como um processo de desenvolvimento e realização do potencial intelectual, físico, espiritual, estético e afetivo existente em cada colaborador mas também como um processo de transmissão da herança cultural, que exerce influência intencional e sistemática com o propósito de formação de um modelo mental, a fim de conservar, transmitir, disseminar, reproduzir ou até mesmo transformar as crenças e valores organizacionais, para perpetuar a existência da empresa. 3. Conectividade: privilegiar a construção social do conhecimento estabelecendo conexões, intensificando a comunicação empresarial e favorecendo a interação de forma dinâmica para ampliar a quantidade e qualidade da rede de relacionamentos com o público interno e externo (fornecedores, distribuidores, clientes, comunidade etc.) da organização que propiciem gerar, compartilhar e transferir os conhecimentos organizacionais considerados críticos para o negócio. 106 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas 4. Disponibilidade: oferecer e disponibilizar atividades e recursos educacionais de fácil uso e acesso, propiciando condições favoráveis e concretas para que os colaboradores realizem a aprendizagem “a qualquer hora e em qualquer lugar”, estimulando-os assim a se responsabilizarem pelo processo de aprendizado contínuo e autodesenvolvimento. 5. Cidadania: estimular o exercício da cidadania individual e corporativa e da construção social do conhecimento organizacional, através da formação de atores sociais, ou seja, sujeitos capazes de refletirem criticamente sobre a realidade organizacional, de construí-la e modificá-la continuamente, e de atuarem pautados por postura ética e socialmente responsável, imprimindo assim qualidade superior na relação de aprendizagem entre colaboradores, empresa e sua cadeia de agregação de valor. 6. Parceria: entender que desenvolver continuamente as competências críticas dos colaboradores, no intenso ritmo requerido atualmente no mundo dos negócios, é uma tarefa muito complexa e audaciosa, exigindo que se estabeleçam relações de parceria no âmbito interno e externo, com ideal e interesse comum na educação desses colaboradores. 6.1. Parcerias Internas: estabelecer relações de parceria com líderes e gestores, para que estes se envolvam e se responsabilizem pela educação e aprendizagem de suas equipes, e desempenhem plenamente o papel de educador, formador e orientador no cotidiano de trabalho para que sejam percebidos como lideranças educadoras, cujo modelo de comportamento deve ser seguido e buscado pelos demais colaboradores da empresa. 6.2. Parcerias Externas: realizar parcerias com universidades, instituições de nível superior ou até mesmo clientes e fornecedores que tenham competência para agregar valor às ações e aos programas educacionais corporativos, ancoradas numa concepção comum sobre as necessidades de qualificação da força de trabalho. 7. Sustentabilidade: ser um centro gerador de resultados para e empresa, buscando agregar sempre valor ao negócio. Significa também buscar fontes alternativas de recursos que permitam um orçamento próprio e autosustentável, diminuindo assim as vulnerabilidades do projeto de Educação Corporativa, a fim de viabilizar um sistema de educação realmente contínuo, permanente e estratégico. Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 107 Na tentativa de se estabelecer um modo de mensurar os efeitos decorrentes dos programas de treinamento utilizados nas organizações, Donald Kirkpatrick (KIRKPATRICK, 1998, p. ix), sugere a adoção de um método de avaliação dos programas de treinamento que leva o seu nome. Tal método distingue quatro níveis de avaliação dos programas de treinamento: – Reação: medida de como os participantes se sentem sobre os vários aspectos do programa de treinamento. É basicamente uma medida de “satisfação do consumidor”; – Aprendizado: medida do conhecimento adquirido, habilidades melhoradas e atitudes mudadas devido ao treinamento; – Comportamento: medida da extensão da mudança de comportamento no trabalho dos participantes devido ao treinamento; – Resultados: medida dos resultados que ocorreram devido ao treinamento, incluindo aumento de vendas, produtividade, redução de custos etc. (KIRKPATRICK, 1998, p. 4-5) Avaliar os resultados obtidos com treinamento, considerando-se esses quatro níveis, implica planejar e integrar todo processo de avaliação para que se tenha clareza da informação (o que?) que se pretende levantar, em qual fonte (onde?), por meio de qual método (como?) e em que momento (quando?). O autor justifica o uso do método de avaliação, na medida em que ele permitiria verificar: a necessidade de manutenção do programa de treinamento; aperfeiçoamentos para programas futuros; e a validação da função dos responsáveis pelos programas de treinamento (KIRKPATRICK, 1998, p. 5). Este parece ser um dos maiores desafios para as organizações com relação aos seus Sistemas de Educação Corporativa: avaliar os resultados dos investimentos em educação considerando seu impacto nos objetivos do negócio. A partir deste cenário, são apresentados, na seção a seguir, resultados da pesquisa sobre Educação Corporativa no Brasil e seus resultados, realizada pelos autores. 4. Resultados da Pesquisa 4.1. Qualificação dos respondentes Trinta e nove das cento e sessenta e quatro organizações às quais foram enviados os questionários responderam às questões solicitadas. Estas empresas foram classificadas da seguinte maneira, de acordo com o seu setor de atividade: 28% são do setor financeiro, 10% da indústria primária; 108 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas 21% da indústria secundária; 13% da indústria de infraestrutura; e 28% do setor de serviços. As principais variáveis descritivas do público respondente apresentamse na tabela 1. Tabela 1. Principais variáveis de qualificação dos respondentes da pesquisa. Notadamente há uma maior participação na pesquisa de empresas privadas com faturamento superior a R$ 1 bilhão, com número de funcionários maior que 10.000 e com abrangência de atuação internacional. Justifica-se este perfil, em função das grandes empresas adotarem práticas em uso no exterior e terem maior volume de investimentos em desenvolvimento das Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 109 pessoas. Houve praticamente um empate em termos da origem de capital das empresas, demonstrando que as empresas nacionais estão no mesmo patamar em termos de Educação Corporativa que as estrangeiras. 4.2. Caracterização dos Sistemas de Educação Corporativa A segunda parte do instrumento de pesquisa se referia às principais características e aspectos dos Sistemas de Educação Corporativa (SECs) das organizações respondentes, que estão apresentados na tabela 2. Tabela 2. Características dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. 110 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Desta parte pode-se destacar que a maioria dos SECs são ligados a área de Gestão de Pessoas, ressaltando a importância da área na condução das atividades educacionais; situam-se entre o primeiro nível ou no segundo nível hierárquico após o principal executivo; utilizam-se fortemente de programas de e-learning e tiveram o início de suas atividades marcadas com um lançamento oficial de sua universidade corporativa. 4.3. Resultados decorrentes dos Sistemas de Educação Corporativa A terceira parte do instrumento de pesquisa visava a obtenção da opinião dos respondentes no que tange aos resultados dos Sistemas de Educação Corporativa e estão dispostos de acordo com os cinco agrupamento das questões fechadas (cf. item 2), como segue: 4.3.1. Alinhamento estratégico e mapeamento das competências Este grupo de afirmações procurava verificar se: (a) os programas educacionais implantados estão alinhados às estratégias do negócio; (b) os programas educacionais implantados são concebidos a partir do mapeamento das competências críticas da empresa; (c) na concepção dos programas educacionais é considerada prioritária a identificação das necessidades do negócio; e (d) na concepção dos programas educacionais é considerada prioritária a definição da estratégia do SEC. Verificou-se, conforme apresentado na tabela 3, uma grande concordância dos respondentes sobre o alinhamento estratégico, enfatizando que os SECs apresentam um alinhamento com a estratégia da organização como um todo, tendo sua importância aumentada em relação ao Treinamento & Desenvolvimento tradicional. Tabela 3. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Alinhamento estratégico e mapeamento das competências. Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 111 4.3.2. Inserção da Educação Corporativa na cultura organizacional Este grupo de afirmações procurava verificar se: (a) a alta cúpula da empresa se envolve com o SEC; e (b) a cultura de educação corporativa permeia a empresa como um todo. De modo geral, pôde-se verificar que há uma grande concordância dos respondentes de que a cultura da educação corporativa passou a fazer parte do cotidiano da organização. É relevante ressaltar a necessidade da participação da alta administração para o sucesso das atividades educacionais nas organizações, principalmente quando da sua concepção. Os resultados estão apresentados na tabela 4. Tabela 4. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Inserção da Educação Corporativa na cultura organizacional. 4.3.3. Intervenção dos stakeholders na formulação dos programas educacionais Este grupo de afirmações procurava verificar se, na formulação dos programas educacionais, os seguintes stakeholders - ou partes interessadas no negócio - teriam um papel representativo na formulação dos SECs: (a) as lideranças da empresa; (b) as áreas de negócios da empresa; (c) os colaboradores; (d) a cadeia produtiva (com fornecedores e clientes); (e) a comunidade local; (f) as organizações não governamentais e (f) os órgãos públicos. Verificou-se que as demandas da cadeia produtiva e da comunidade local não são consideradas tão prioritárias na concepção dos programas educacionais dos SECs. Mas já pode-se depreender que a visão que as empresas pesquisadas tem do seu negócio não está apenas voltada para atender demandas internas mas também para demandas de outras partes interessadas, conforme apresentado na tabela 5. 112 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Tabela 5. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Intervenção dos stakeholders na formulação dos programas educacionais. 4.3.4. Avaliação dos programas educacionais Este grupo de afirmações procurava verificar se, na formulação dos programas educacionais: (a) são definidos de forma mensurável os resultados esperados.pelas lideranças da empresa; (b) o sistema de mensuração existente permite avaliar os resultados obtidos com os investimentos em programas educacionais; (c) todos os programas educacionais são avaliados; (d) Apenas os principais programas educacionais são avaliados; (e) é utilizado o modelo de Kirkpatrick no Primeiro Nível (Reação); (f) é utilizado o modelo de Kirkpatrick no Segundo Nível (Aprendizado); (g) é utilizado o modelo de Kirkpatrick no Terceiro Nível (Aplicação); (h) é utilizado o modelo de Kirkpatrick no Quarto Nível (Resultados). A tabela 6 mostra que não há um posicionamento muito claro por parte dos respondentes com relação ao processo de mensuração e avaliação do desempenho de suas atividades de Educação Corporativa. O modelo proposto Tabela 6. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Avaliação dos programas educacionais. Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 113 por Kirkpatrick, apesar de ter sido proposto em 1959, continua representando o “estado da arte” quando o assunto é avaliação de programas de treinamento. Embora reconhecido por toda a atenção que tem recebido ao longo dos anos, a utilização deste modelo é tímida, tendo em vista a dificuldade e custo de mensurar os níveis 3 e 4. 4.3.5. Indicadores resultados internos Este grupo de afirmações procurava verificar se são observados como indicadores de resultados, decorrentes dos sistemas de educação corporativa, os seguintes elementos internos à organização: (a) a melhoria dos resultados financeiros; (b) a melhoria da qualidade dos processos da empresa; (c) a melhoria no desempenho das pessoas; (d) a melhoria no desempenho das áreas; (e) o aumento do orgulho das pessoas em pertencer à empresa; (f) o aumento da satisfação dos colaboradores; (g) a maior retenção dos talentos. Verificou-se, conforme apresentado na tabela 7, que os SEC’s têm contribuído de maneira substancial para melhoria dos resultados das organizações, principalmente no que diz respeito aos processos internos, resultados financeiros e também ao clima organizacional. Tabela 7. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Indicadores resultados internos. 4.3.5. Indicadores resultados externos Este grupo de afirmações procurava verificar se são observados como indicadores de resultados, decorrentes dos sistemas de educação corporativa, os seguintes elementos internos à organização: (a) o aumento da participação de mercado; (b) a melhoria na qualidade dos produtos, serviços e atendimento; (c) a melhoria da imagem institucional; (d) foi a quantidade de prêmios recebidos pela empresa; (e) a expansão dos negócios da empresa; (f) ele ter se tornado uma referência no mercado. 114 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A tabela 8 demonstra que os esforços realizados em Educação Corporativa representam um considerável reforço na imagem institucional das organizações. As respondentes afirmam que há uma tendência na melhoria da imagem da organização e da qualidade de seus produtos e serviços como desdobramento das atividades dos SEC’s. Tabela 8. Resultados dos Sistemas de Educação Corporativa pesquisados. Indicadores resultados externos. 4.4. Resultados gerais da pesquisa Primeiramente, a análise realizada permitiu que se depreendessem diferenças significativas nas características dos sistemas de educação corporativa de cada setor. Verificou-se que o setor financeiro é aquele que mais investe em e-learning em termos absolutos e é aquele que atende o maior número de usuários. Ou seja, por terem uma atuação em âmbito nacional (às vezes internacional) e um grande contingente de colaboradores (há casos de mais de 80.000 envolvidos), os bancos utilizam a Educação Corporativa, principalmente através de seus formatos de educação à distância, para equacionar a questão de sua dispersão geográfica, além de que parecem ter percebido as vantagens de se utilizar o e-learning como ferramenta de ensino eficiente, devido às características do setor (dinamismo, principalmente em termos de legislação, novos produtos e variáveis macroeconômicas; distâncias entre as filiais; e grande quantidade de pessoas envolvidas nos processos; dentre outras), tem utilizado esta ferramenta de forma mais agressiva que os demais setores dentro dessa perspectiva de ensino. Isto é confirmado pelo fato de ser o único setor em que se aponta o motivo “realizar cursos” como mais importante que os demais (intensificar comunicação, propiciar gestão da informação e estimular integração de pessoas e áreas) para o uso do e-learning. Como colocado no item 4.3.3, que trata da intervenção dos stakeholders na formulação dos programas educacionais, a educação corporativa e a utilização de ferramentas de aprendizagem à distância podem vir a ter um Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 115 papel importante na chamada inclusão digital. Como colocam Mascarenhas e Vasconcelos (2004, p. 157-158), a área de gestão de pessoas pode promover, através do uso da tecnologia da informação, serviços às comunidades extramuros organizacionais, proporcionando benefícios estratégicos para a própria organização. Outro fato relevante é com relação à Gestão do Conhecimento. No que se refere aos motivos para promoção do e-learning, quatro das cinco áreas avaliadas apontaram principalmente o motivo “propiciar gestão do conhecimento”. Isto parece se justificar por uma forte demanda nas empresas pela busca da Gestão do Conhecimento, apesar de o conceito ainda estar em definição e em grandes discussões, principalmente acadêmicas. Daí pode-se levantar uma hipótese de que há uma tendência em não se querer “ficar para trás” com relação à concorrência. Por outro lado, é absolutamente insofismável a necessidade de se compartilhar a informação e o conhecimento de uma maneira muito mais eficaz do que no passado e isso seria alcançado através de práticas eficientes de gestão do conhecimento, possibilitadas também pelo uso da Educação Corporativa, como apontado por Von Krogh (2000, p. 262). Com relação aos princípios de sucessos citados (EBOLI, 2004), o que se verifica é que há um forte reconhecimento daqueles princípios que tratam da competitividade, da conectividade e da disponibilidade; não se percebe uma tendência clara com relação ao uso da cidadania e da parceria; e que a questão da sustentabilidade das iniciativas de Educação Corporativa carecem de mais atenção, possivelmente com a introdução de indicadores de desempenho mais eficazes e que melhor retratem a realidade das organizações. 5. Considerações finais De modo geral, algumas considerações podem ser feitas com relação a aspectos relevantes captados pela pesquisa descrita. A partir da interpretação dos resultados apresentados, ainda que realizada de forma sucinta, percebe-se que as contribuições geradas pela Educação Corporativa no Brasil podem ser consideradas expressivas e que as ações voltadas às competências humanas e empresariais – que vão além das fronteiras da própria organização – têm sido efetivas e evidenciadas, apesar da atividade ser recente no cenário empresarial brasileiro. A partir desses resultados, ainda que pontuais e sem caracterizar uma tendência (tarefa esta destinada a novas pesquisas), percebe-se que as contribuições geradas pela Educação Corporativa no Brasil são expressivas e que as ações voltadas às competências humanas e empresariais – que vão além das fronteiras da própria organização – têm sido efetivas e evidenciadas, apesar da atividade ser recente no cenário empresarial brasileiro. 116 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Referências COOPER, D.R.; SCHINDLER, P.S. Métodos de Pesquisa em Administração. 7. ed. São Paulo: Bookman, 2003. EBOLI, M. Educação Corporativa no Brasil: Mitos e Verdades. São Paulo: Revista Gente, 2004. ________. Educação Corporativa. Revista T&D – Inteligência Corporativa. São Paulo, ed. 137, n. 12. nov. 2004 KIRKPATRICK, D. L. Another look at evaluating training programs. Alexandria: ASTD, 1998 KIRKPATRICK, D.L. Evaluating Training Programs – The Four Levels. San Francisco: Berrett - Koehler 1998. MASCARENHAS, A.O.; VASCONCELOS, F.C. Tecnologia na gestão de pessoas: estratégias de auto-atendimento para o novo RH. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004. MEISTER, J. Educação Corporativa: a gestão do capital intelectual através das universidades corporativas. São Paulo: Makron Books, 1999. MINTZBERG, H. Managers, not MBA´s. San Francisco: Berrett-Koehler, 2003. SAMPIERI, R.H.; COLLADO C.F. ; LUCIO, P.B. Metodología de la Investigación. México: McGraw Hill, 1994. TRIVIÑOS, A.N.S. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987. VON KROGH, G.; ICHIJO, K. ; NONAKA, I. Enabling Knowledge Creation: How to unlock the mystery of tacit knowledge and release the power of innovation. New York: Oxford Universtity, 2000. Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 9 117 Avaliação em educação corporativa Kira Tarapanoff Pesquisadora Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial, Universidade de Brasília Afrânio Carvalho Aguiar Pesquisador Visitante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior/ Secretaria de Tecnologia Industrial, Universidade FUMEC Resumo – A educação corporativa deve estar a serviço da estratégia institucional. Conseqüentemente, a avaliação de suas atividades também deve utilizar métricas que contemplem esse alinhamento. Neste trabalho são apresentados os métodos mais utilizados na avaliação de atividades de educação corporativa, o Modelo Kirpatrick e o modelo de retorno sobre o investimento (ROI), de Jack Phillips. É apontado que outros métodos também têm surgido em atendimento a necessidades específicas institucionais, mas, de uma maneira geral, esses dois métodos são os mais utilizados, inclusive no Brasil. 1. Estratégia e Competências O que torna a educação corporativa, corporativa, é a sua ligação com a estratégia institucional. É consensual entre as médias e grandes corporações a visão de que a estratégia depende da aprendizagem e esta depende do desenvolvimento de competências organizacionais e individuais específicas. As competências individuais devem ser consideradas no seu alinhamento com as competências essenciais da organização. Ao definir sua estratégia competitiva, a empresa identifica as competências essenciais do negócio e as competências necessárias a cada função. A existência dessas competências possibilita as escolhas estratégicas gerando um “círculo virtuoso” (FLEURY; FLEURY, 2001, p.23-25). A competência organizacional pode ser vista como a capacidade de combinar, misturar e integrar recursos em produtos e serviços. O seu desenvolvimento tem como objetivo melhorar o desempenho organizacional conferindo diferenciação e competitividade às empresas. Definidas como “combinação sinérgica de conhecimentos1, habilidades2 e atitudes3 expressas pelo desempenho profissional dentro de determinado contexto organizacional que agrega valor a pessoas e organizações”, as competências organizacionais são as competências necessárias para que a 1 2 3 Saber; Saber fazer Saber-ser-agir 118 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas organização e as equipes de trabalho realizem os objetivos organizacionais (CARBONE et al., 2005, p.76). A educação corporativa oferecida pela instituição deve servir à missão, ao negócio, aos objetivos e às estratégias organizacionais, de forma pró-ativa. Dessa forma, a abordagem de avaliação de desempenho das universidades corporativas e, de uma maneira geral, toda a atividade de educação corporativa, deve pautar-se por essas diretivas. Suas avaliações, métricas e índices de desempenho devem basear-se: no entendimento claro dos objetivos institucionais; no conhecimento sobre as competências institucionais disponíveis; no conhecimento sobre as falhas e novas necessidades de competências críticas; e realizando os treinamentos necessários. Ao término dos mesmos, com as equipes já atuando em seus locais de trabalho, é necessário medir e entender o porquê da melhora (ou não) do desempenho profissional e o cumprimento (ou não) das estratégias e objetivos institucionais. Em todo o mundo, as avaliações tradicionalmente realizadas pelas universidades corporativas e a educação corporativa em geral têm sofrido críticas. Afirma-se que as mesmas quase nunca levam em conta o cumprimento dos objetivos institucionais e de suas estratégias, e que o retorno sobre o investimento (ROI) quase nunca é medido. Sugere-se também que, até hoje, as medidas de desempenho da educação corporativa têm dado ênfase apenas ao nível de satisfação da classe e ao volume de horas e cursos oferecidos. Desafortunadamente, essas medidas não predizem se o profissional treinado irá desempenhar melhor a sua tarefa, ou se vai ajudar a empresa a cumprir com os objetivos institucionais. Desempenho, e não satisfação, deve ser o objetivo fundamental da moderna educação corporativa (ALLEN, 2002, p.198). 2. Propostas de Avaliação de Treinamento Corporativo Os dois métodos mais conhecidos sobre mensuração dos resultados da educação corporativa foram desenvolvidos por Donald Kirpatrick e por Jack Phillips. Modelo Kirpatrick Em 1959, Donald Kirpatrick propôs um sistema para medir o valor específico do treinamento ofertado por uma instituição, ou negócio, aos seus empregados. O famoso “modelo Kirpatrick” sugere que o treinamento pode e deve ser medido em quatro níveis: Avaliação em educação corporativa 119 Quadro 1. Modelo Kirpatrick. Nível 1: Reação – Os participantes gostaram do programa oferecido? Nível 2: Aprendizado – Que conhecimentos, habilidades e outras [atitudes] os participantes adquiriram? Nível 3: Como resultado do programa de treinamento, os participantes passaram a se comportar de forma diferente? Nível 4: Resultados – O programa afetou os resultados tais como custos, qualidade do trabalho, produção, e outros? Adelsberg e Trolley (1999, p.15) observam que o modelo proposto por Kirpatrick é elegantemente lógico e sem dúvida útil. De fato, ele continua a ser, até hoje, o referencial mais aceito para medir o impacto do treinamento. No entanto, mesmo nos Estados Unidos, berço da educação corporativa, ainda parece ser difícil para a maioria das universidades corporativas isolar o benefício sobre os resultados institucionais. Na verdade, como observam Cleveland & Schultz (1990) a maioria dos treinamentos continua a ser feito somente ao nível de reação. Para superar essa falha, é sugerido por Adelsberg e Trolley (1999) que as universidades corporativas sejam administradas como um negócio. Um negócio centrado nas necessidades de seus clientes, e que essas fossem consistentemente traduzidas em soluções de aprendizado, nitidamente alinhadas com as estratégias institucionais. A avaliação de desempenho deve traduzir esse alinhamento para que os usuários percebam de forma incontestável que a atividade de treinamento adiciona valor ao negócio (ADELSBERG; TROLLEY, 1999, p.18). Na universidade corporativa, concebida como uma unidade de negócio, a justificativa de seu valor, ou custo-benefício, necessita de métricas de desempenho pautadas pelo retorno sobre o investimento, Return on Investment. (ROI, na sigla inglesa). Em português convencionou-se utilizar a sigla RIEC Retorno do Investimento em Educação Corporativa. Modelo ROI Concebido no final da década de 1970, o modelo ROI sofreu mudanças, acréscimos e desenvolvimentos. Talvez a proposta de avaliação sobre o retorno do investimento mais bem aceita seja aquela apresentada por Jack Phillips (2003). Em tal proposta, o autor sugere inicialmente que o modelo seja montado como um quebra-cabeça composto de cinco blocos: 120 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Quadro 2. Elementos da Metodologia ROI. Bloco 1: Referencial de avaliação – o desenvolvimento deste bloco básico consiste na caracterização de como os dados devem ser coletados. É sugerido que seja usado o processo do balanced scorecard4 de Kaplan e Norton (1996) ou o modelo em quatro níveis de avaliação de Kirpatrick (1975). O modelo sugerido por Phillips é o mesmo desenvolvido por Kirpatrick acrescido de mais um nível – retorno sobre o investimento. Bloco 2: O Modelo Processual – revela como os dados devem ser coletados, processados, analisados e relatados para as partes interessadas. O modelo processual engloba a escolha das técnicas e procedimentos adequados a cada situação. Bloco 3: Desenvolvimento de Padrões – desenvolve padrões que servem como diretrizes para que os resultados dos estudos sejam consistentes e confiáveis. Os padrões permitem a réplica dos procedimentos, com os mesmos resultados e são essenciais para a credibilidade do processo de avaliação. Bloco 4: Implementação – trata de vários aspectos a serem considerados nesta fase: habilidades, comunicação, papéis, responsabilidades, planos e estratégias. Bloco 5: Aplicação e Prática – descreve a implementação do processo dentro da organização, o valor adicionado a atividades, produtos e serviços desenvolvidos pelos empregados, revelados pelo processo de métrica e avaliação para a organização, e o impacto que a avaliação de um programa específico tem sobre a organização. Fonte: Phillips, 2003, p. 33. O conceito de diferentes níveis, a ser desenvolvido no primeiro bloco, ajuda a entender como o retorno sobre o investimento é calculado. Serve como referencial para a avaliação, definindo os diferentes tipos de dados a serem coletados, o seu seqüenciamento e a estimativa de tempo. 4 É um sistema de gerenciamento estratégico, complementar ao controle financeiro tradicional, que monitora as estratégias da organização de longo prazo, por meio de mecanismos de mensuração, transformando a visão e a estratégia em um conjunto de objetivos agregados em perspectivas, o que permite visualizar passo a passo a estratégia em andamento. Os mecanismos de mensuração são traduzidos em indicadores coletados, por sistemas de informação corporativa, diretamente nas transações do dia-a-dia. Alguns dos objetivos do balanced scorecard são: implementação de uma estrutura para alinhar e focar de alto a baixo a organização na execução de estratégias; alinhar objetivos individuais e operacionais (de cada unidade) às estratégias; medir o desempenho e a contribuição individual e coletiva para a empresa; e conduzir revisões periódicas de desempenho para aprimoramento das estratégias (MIRANDA, 2001, p.227-230). Avaliação em educação corporativa 121 Quadro 3. Características do Modelo de Avaliação. Nível 1: Reação, Satisfação, e Planejamento da Ação – mede o grau de satisfação dos participantes do treinamento, seus planos para aplicar as competências adquiridas e o que aprenderam. Nível 2: Aprendizado – focaliza o que os participantes aprenderam durante o programa, utilizando testes, role plays, simulações, avaliação de grupos e outras ferramentas de avaliação. No entanto, este tipo de mensuração não oferece garantia de que o que se aprendeu seja efetivamente aplicado nas atividades “in service”. Nível 3: Aplicação e Implementação – uma variedade de métodos de acompanhamento são usados para determinar se os participantes aplicaram o que aprenderam no trabalho. A freqüência e a utilização das habilidades adquiridas são medidas importantes neste nível. No entanto, mesmo que a avaliação neste nível seja importante para aferir o sucesso da aplicação do treinamento, ela não garante que haverá um impacto positivo sobre o negócio. Nível 4: Impacto sobre o Negócio – a mensuração focaliza nos resultados reais atingidos pelos participantes do treinamento na aplicação das competências adquiridas no seu local de trabalho. A este nível podem ser medidos: resultados; qualidade; custo; tempo despendido; e satisfação do cliente. No entanto, embora o programa de mensuração possa produzir índices reais de impacto sobre o desenvolvimento do negócio, ainda permanece a preocupação com o seu custo-benefício. Nível 5: Retorno sobre o Investimento – o último nível da avaliação, compara os benefícios monetários do programa com os custos despendidos com o programa. Embora o ROI possa ser expresso de várias formas, ele geralmente é representado em termos de porcentagem ou relação de custo-benefício. A cadeia de avaliação de impacto só está completa no momento que se efetiva a aferição do investimento efetuado. Fonte: Phillips, 2003, p.34-35. É importante observar que as medidas dos níveis 1 – medir a satisfação; e 2 – medir o aprendizado devem ser feitas durante o treinamento. A coleta de dados relacionados aos níveis 3 e 4 deve ser feita após o treinamento Os autores concluem que, se as medidas não forem aferidas em cada um dos níveis, em especial a partir do nível 2, será difícil inferir que os resultados conseguidos o foram devido à aplicação do programa de treinamento. Também, do ponto de vista do cliente, o valor da informação aumenta na medida em que ela é apresentada como um resultado em cadeia, demonstrando a 122 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas representatividade do efeito do treinamento a cada novo elo do processo. A metodologia ROI é um processo centrado no cliente, vindo ao encontro das necessidades informacionais dos indivíduos que iniciam, aprovam e patrocinam o programa. Finalmente Phillips, em obra conjunta com Stone (PHILLIPS; STONE, 2002), acrescenta mais um elo no processo de mensuração do custo–benefício de um programa de treinamento: a identificação dos benefícios intangíveis! Os autores consideram que os benefícios intangíveis devem ser medidos e relatados. Eles podem ser utilizados como uma evidência adicional para o sucesso do programa de treinamento e ser apresentados em forma de dados qualitativos. Em algumas situações, efeitos intangíveis sobre grupos treinados, tais como satisfação no trabalho, melhoria da comunicação, aumento de cooperação, maior comprometimento institucional, menor taxa de reclamações são resultados tão ou mais importantes do que as medidas quantitativas, tangíveis. Os autores sugerem que esses resultados sejam acoplados às medidas do nível 3 _ os intangíveis do tipo comportamental, bem como às medidas do nível 4 _os intangíveis que possam ter impacto sobre o negócio, como, por exemplo, a satisfação do cliente e a redução da evasão (turnover) de empregados (Phillips; Stone, 2002, p.223). Abordagem da gestão de pessoas como ativos humanos A seqüência de passos, proposta por Kirpatrick e Phillips, para efetuar o processo de avaliação das atividades de educação corporativa e sua efetividade para a organização, também é questionada. Matt Barney (2002, p.198) da universidade corporativa Motorola sugeriu uma inversão dessa seqüência. O autor informa que, em sua corporação, os passos do seqüenciamento de mensuração dos resultados de treinamento pelos autores acima mencionados foram invertidos, e que o processo do treinamento corporativo deve começar pela justificativa de seu custo-benefício. Em sua opinião, os fundamentos da métrica da educação corporativa de hoje devem basear-se no entendimento dos objetivos e na detecção e conhecimento dos pontos fracos da organização. Para justificar o valor de negócio da educação corporativa na empresa e destacar a sua importância no processo de aprendizado institucional, essa deve examinar questões como: em que negócio a empresa se saiu mal? O que causou tais resultados? O desempenho dos funcionários é parte da explicação desse problema? Onde devem ser feitos investimentos em capital humano para reduzir falhas? A resposta a essas questões pode ajudar os executivos a diagnosticar e resolver problemas críticos ao negócio da empresa. Avaliação em educação corporativa 123 O autor propõe uma métrica sobre o capital humano que recebeu a denominação de “Modelo de Análise de Falhas de Desempenho” (Performance Gap Analysis Model). O primeiro passo desse modelo é dado com a identificação do tipo das falhas do negócio da empresa e a sua possível perda financeira devido a elas. Para esse diagnóstico são utilizadas pesquisas de mercado e outras pesquisas de caráter financeiro, inferindo-se, também, o percentual que cabe às falhas humanas. Nem sempre a causa das falhas no negócio tem raízes no desempenho dos empregados. No entanto, caso tenham, esse modelo permite determinar o tipo de competências novas que devem ser adquiridas e/ou aperfeiçoadas. A oferta de novos treinamentos e cursos baseia-se nesse diagnóstico. Dessa forma, o desenvolvimento de novas competências específicas (individuais e organizacionais) é proposto, alinhado com as necessidades e objetivos do negócio. Isso justifica a relevância dos treinamentos oferecidos para a corporação e estabelece de saída o seu valor de negócio. Indicadores de desempenho aplicados durante o processo de treinamento (lead indicators), permitirão verificar se o treinamento administrado está surtindo efeito. Um motivador importante para que ocorra a transferência do aprendizado para as tarefas empreendidas no local do trabalho é o estímulo à criação do clima para a transferência de competências adquiridas. Os alunos são estimulados a realizar a transferência do aprendizado por meio do desenvolvimento de objetivos de aprendizado, práticas “in loco”, escalas instrucionais que vão construindo, passo a passo, essa possibilidade. Naturalmente que o treinamento deverá ser acompanhado durante a sua aplicação efetiva no desempenho das tarefas organizacionais. Apenas no contexto do desenvolvimento das atividades organizacionais é possível aferir o efetivo retorno sobre o investimento na educação corporativa (RIEC). Essa abordagem é inspirada em novas idéias de como gerenciar pessoas ou capital humano, este último visto como ativo (BOUDREAU; RAMSTAD, 1997). 3. Avaliação da Educação Corporativa no Brasil O projeto desenvolvido pela Secretaria de Tecnologia Industrial, sob a esfera do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), sobre Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior coletou dados no primeiro semestre de 2006, por meio de questionário desenvolvido com a finalidade de realizar um levantamento e diagnóstico sobre as atividades de educação corporativa no Brasil. O instrumento de coleta de dados contemplou também alguns aspectos na área de avaliação5. 5 Disponível em: http://www.educor.desenvolvimento.gov.br 124 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Avaliação Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Secretaria de Tecnologia Industrial, 2006. Avaliação em educação corporativa 125 Quarenta e uma instituições brasileiras responderam a essas questões, sendo 16 organizações pertencentes ao setor de Serviços; 11 ao de Indústria, 6 correspondendo a órgãos governamentais, 2 ao setor de Comércio, 2 ao Terceiro Setor e 4 dedicadas a outras atividades. Em relação à primeira pergunta do conjunto de questões sobre Avaliação, os resultados estão indicados entre parênteses em cada opção, e foram os seguintes: a) A empresa já elaborou algum relatório de avaliação que apresente indicadores de impacto, eficiência, eficácia, etc., das ações de Educação Corporativa? (período: últimos três anos) (10) Não Sim. Quais? (28) Indicadores próprios, desenvolvidos pela Unidade. (4) Indicadores desenvolvidos externamente. Especifique: (Não houve especificação) (4) Ambas as alternativas Qual o período de abrangência temporal do relatório? (Número irrisório de respondentes e respostas inconsistentes). Algumas instituições que utilizam indicadores próprios desenvolvidos pela unidade de E.C. são: Amil Assistência Médica Internacional Ltda; Banco do Brasil; Datasul; Elektro Eletricidade e Serviços S.A; Embratel; Globo Comunicação e Participações S/A; Motorola; Petrobrás; TAM Linhas Aéreas S/ A; Unisys Brasil Ltda. Em relação à segunda pergunta, os resultados foram os seguintes: b) A Educação Corporativa realiza avaliação dos cursos oferecidos, inclusive dos conteúdos gerados? (2) Não (39) Sim. Indicar o método de avaliação utilizado. Os métodos citados foram: Questionários padrão de avaliação de reação e APEA - Avaliação do Processo de Ensino Aprendizagem e Avaliação de Impacto (Ex.: Banco do Brasil); Pesquisas qualitativas e quantitativas de reação e de nível de aprendizagem (Ex.: Itaú); Avaliação de reação (Ex.: Uniprev, Itaipu Bi-Nacional); 126 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Avaliação de reação e retenção (Ex.: Carrefour); Avaliação de reação e de aplicação (Ex.: McDonald’s); Avaliação de reação e de conhecimento (principalmente nos programas técnicos) (Ex.: Nestlé); Reação, Aprendizagem e Efetividade (Ex.: Klabin); Avaliação de reação e avaliação de performance (Ex.: Amil); Avaliação de reação, de conhecimento e de impacto em alguns casos (Ex.: Elektro); Avaliação de reação e de retenção do conhecimento para profissionais (Ex.: Datasul); Avaliação de reação, de aprendizagem e de impacto (Ex.: SEFAZ – Bahia); Avaliação piloto, avaliação de reação, avaliação de conhecimento (Ex. Petrobrás); Avaliação de reação, de resultado e de impacto (Ex.: Embasa); Avaliação de reação e eficácia (Ex.: Souza Cruz); Avaliação de reação, de corpo docente e de eficácia (Ex.: Marcopolo); Questionário/ Pesquisa/ Focus Group (Ex.: CVRD); Avaliação de reação, de aprendizagem e eficácia (Ex.: Light); Avaliação de reação, pré e pós-teste de conhecimento (Ex.: Fiat). Os resultados mostram que 80% das instituições fazem avaliação de reação; 30% fazem avaliação de retenção; 10% fazem avaliação de aprendizagem; e 1% faz avaliação de resultado (Natura). A título ilustrativo, tomemos o caso da Eletronorte, que utiliza sistematicamente a avaliação de reação (eficiência) dos treinamentos realizados na empresa (presenciais ou a distância) aplicada imediatamente após a conclusão da ação educacional. Essa avaliação indica a satisfação dos treinados com o treinamento (primeiro nível de avaliação de Kirpatrick e de Phillips). A avaliação de aprendizagem é realizada de acordo com os conteúdos desenvolvidos e é aplicada em alguns treinamentos (segundo nível de avaliação de Kirpatrick e de Phillips). A avaliação de impacto mede a transferência para o trabalho das habilidades adquiridas no treinamento (impacto em profundidade), além de medir o impacto na gestão do trabalho do empregado (impacto de amplitude), bem como avalia o suporte organizacional encontrado (terceiro nível de avaliação de Kirpatrick e Phillips). Essa avaliação é aplicada três meses após a conclusão da ação educacional. Avaliação em educação corporativa 127 A última pergunta relativa ao impacto da educação corporativa sobre os resultados da empresa apresentou os resultados indicados na Tabela a seguir, ordenados segundo ordem decrescente das médias registradas para cada um: Tabela 1 As convergências mais significativas relacionadas aos resultados efetivos apontam, em primeiro lugar, o treinamento a serviço de novas práticas gerenciais; em segundo lugar, o cumprimento dos objetivos institucionais; como conseqüência deste, o terceiro item mais assinalado é o aumento da competitividade organizacional. A soma desses componentes certamente resulta num retorno sobre o investimento. Também de grande valor é a percepção de que o treinamento facilita a integração do trabalho em equipe, aumentando o grau de satisfação dos funcionários, um ativo intangível que tem impacto positivo sobre os negócios da organização. 128 4. O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Conclusões Os modelos propostos por Kirpatrick (1994) e Phillips (2003) continuam a ter a sua utilidade e valor, mesmo sendo questionados e até obsoletos para empresas (multinacionais) mais dinâmicas e competitivas, onde a justificativa para a continuidade de ações educacionais deva se dar em termos de valor de negócio e o capital humano tenha que ser avaliado como ativo. No Brasil, embora a coleta de dados levantada pelo questionário sobre avaliação nas unidades de educação corporativa tenha sido singela e necessite de maior aprofundamento e cruzamento com outras variáveis para aferir de forma mais completa o impacto do treinamento sobre os objetivos e estratégia corporativa, pode-se deduzir que o modelo Kirpatrick e também o modelo ROI continuam sendo a regra para quase todas as corporações. Acreditamos que essa continuará a ser a prática por algum tempo ainda, em especial nas corporações onde há o entendimento de que a atividade educacional justifica-se como uma estratégia de aprimoramento institucional e não, principalmente, como uma estratégia de competitividade ou de “alavancagem” do negócio. Isso não exclui a possibilidade do aparecimento de outras abordagens, que estão começando a ser percebidas, desenvolvidas em instituições nacionais altamente competitivas, como as do Banco do Brasil, Petrobrás, TAM, Natura, entre outras, que podem representar o futuro da avaliação corporativa no Brasil. Referências ADELSBERG; David van; TROLLEY, Edward A. Running training like business: delievering unmistakable value. San Francisco: Berrett-Koehler, 1999. ALLEN, M., (Ed.) Corporate University Handbook: designing, managing, and growing a sucessful program. New York: Amacon, 2002. BARNEY, Matt. 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Parte IV Experiência de Avaliação em Educação Corporativa 10 O Sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil Pedro Paulo Carbone Gerente-Executivo da Diretoria de Gestão de Pessoas do Banco do Brasil Edgard Rufatto Junior Gerente de Divisão da Diretoria Gestão de Pessoas do Banco do Brasil Resumo – O foco principal das atividades da UniBB é o desenvolvimento de competências profissionais. Para tanto, foi desenvolvido um modelo de gestão e mensuração de competências profissionais que oferece insumos para o planejamento das ações de orientação profissional, de capacitação corporativa, de recrutamento e seleção e avaliação de desempenho profissional. Este artigo apresenta o modelo de gestão por competências do BB e seus indicadores de acompanhamento e gestão, bem como a lógica do sistema de capacitação corporativa e seus mecanismos de gestão. A Universidade Corporativa do Banco do Brasil A Universidade Corporativa do Banco do Brasil (UniBB) é responsável pela identificação, mapeamento e desenvolvimento de competências do BB. Para tanto, está estruturada em quatro grandes áreas, responsáveis pelos processos educacionais e formas de entrega dos programas de desenvolvimento: 1. Identificação de competências (recrutamento, seleção e ascensão profissional); 2. Parcerias para o desenvolvimento de competências; 3. Desenho instrucional de programas de capacitação; 4. Educação a distância A UniBB possui, aproximadamente, 80 funcionários, gerentes e analistas de desenvolvimento profissional em Brasília e nos órgãos regionais de Gestão de Pessoas, além de 1500 educadores, 350 selecionadores, 350 orientadores profissionais e 300 mapeadores de competências formados pela própria UniBB, atuando nas diversas dependências do Banco e prestando serviço eventual ao sistema de educação interno. O foco principal das atividades da UniBB é o desenvolvimento de competências profissionais. Para tanto, foi desenvolvido um modelo de gestão e mensuração de competências profissionais que oferece insumos para o planejamento das ações de orientação profissional, de capacitação corporativa, de recrutamento e seleção e avaliação de desempenho profissional. Este artigo 134 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas apresenta o modelo de gestão por competências do BB e seus indicadores de acompanhamento e gestão, bem como a lógica do sistema de capacitação corporativa e seus mecanismos de gestão. A gestão por competências A Gestão por Competências surgiu para responder a questões particulares do cenário empresarial. Essa metodologia de gestão é resultado de diversas tentativas de respostas para questões inéditas e surpreendentes que surgem a cada dia no contexto organizacional. Respostas para: a necessidade de superação da concorrência num mercado globalizado; as exigências por agilidade, diferenciação e inovação contínua; as demandas de aprendizagem e de criação do conhecimento. Seu foco principal está orientado para o desenvolvimento de competências e novos conhecimentos, fontes por excelência para a conquista de vantagem competitiva sustentável. O modelo pressupõe que a posse de recursos raros, valiosos e de difícil imitação confere à organização vantagem competitiva. Tais recursos, por sua vez, são representados, sobretudo pelos conhecimentos e pelas competências das pessoas que trabalham na organização1. Pode-se, então, definir a gestão por competências como uma metodologia de orientação empresarial para o mercado e para o cliente, voltada para o desenvolvimento sistemático das competências profissionais das equipes e dos funcionários. Ou seja, a gestão por competência representa um importante sistema de informação estratégica que orienta as ações de desenvolvimento profissional e organizacional na direção correta. A proposta da Gestão por Competências é compreender quais são as competências organizacionais críticas para o sucesso empresarial, desdobrálas em termos de competências profissionais e desenvolvê-las junto ao quadro de funcionários internos. Trata-se de uma metodologia de gestão moderna, focada nos negócios, no mercado e no desenvolvimento profissional permanente. Trabalha com o pressuposto que o maior patrimônio das organizações são as competências dos seus funcionários (DAVENPORT, 2001, EDVINSSON E MALONE, 1998, SVEIBY, 1998). Uma empresa só se mantém viva se consegue alinhar as competências de seus funcionários às reais necessidades do mercado. Ao implantar um modelo de gestão por competência, a empresa induz todo o quadro de funcionários a discutir e focar suas ações no que é fundamental para a qualidade no trabalho e para o crescimento sustentável da empresa. 1 Sobre o assunto ver principalmente as obras de Prahalad e Hamel (1990), Davenport e Prusak (1998), Nonaka e Takeushi (1997) e Le Boterf (1999). O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 135 A Gestão por Competências direciona sua ação prioritariamente para o gerenciamento do gap ou lacuna de competências eventualmente existente na organização ou na equipe, procurando eliminá-lo ou minimizá-lo. A idéia é aproximar ao máximo as competências existentes na organização daquelas necessárias para a consecução dos objetivos organizacionais. Sob essa perspectiva, minimizar eventuais lacunas de competências significa orientar e estimular os profissionais a eliminar as discrepâncias entre o que eles são capazes de fazer (competências atuais) e o que a organização espera que eles façam (competências necessárias). A área de gestão de pessoas possui um papel fundamental nesse processo, na medida em que seus diversos subsistemas (identificação e alocação de talentos, capacitação corporativa, avaliação de desempenho profissional, remuneração e benefícios, entre outros) podem promover ou induzir o desenvolvimento profissional e, por conseguinte, a eliminação de gaps ou lacunas de competências. Dessa forma, ela pode orientar suas políticas, planos táticos e ações, integrando todos os seus subsistemas em torno da aquisição das competências necessárias à consecução dos objetivos organizacionais. Dimensões da competência humana no trabalho Pode-se afirmar que a competência está vinculada à capacidade de realizar algo. Para isso, é necessário possuir recursos e utilizá-los em determinada situação, com o objetivo de obter resultados. Esses recursos são os conhecimentos, as habilidades e as atitudes, adquiridos via formação e experiências de vida. O conhecimento está relacionado àquilo que se sabe. As habilidades àquilo que se sabe fazer. E as atitudes, àquilo que se quer fazer. O quadro 1, abaixo, explica essa correlação e exemplifica os conceitos. Quadro 1. Dimensões da competência. Dimensões da competência Exemplificação Conhecimento → Saber Conhece os produtos, os serviços e os clientes da empresa (tomar conhecimento de uma realidade) Habilidade → Saber fazer saber negociar com a clientela os produtos e serviços da empresa (aprender a exercer determinada atividade) Atitude → Querer fazer Vender os produtos e serviços de forma competente, ouvindo as necessidades do cliente e solucionando os seus problemas (exercer a atividade de forma plena) 136 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas As competências humanas são reveladas quando as pessoas agem frente às situações profissionais com as quais se deparam (ZARIFIAN, 1999) e servem como ligação entre as condutas individuais e a estratégia da Organização. Assim, agregam valor econômico e valor social a indivíduos e a organizações, na medida em que contribuem para a consecução de objetivos organizacionais e expressam o reconhecimento social sobre a capacidade das pessoas (CARBONE, et al., 2006). A competência resulta da mobilização, por parte do indivíduo, de uma combinação de recursos ou insumos. E a pessoa expressa a competência quando gera um resultado no trabalho, decorrente da aplicação conjunta de conhecimentos, habilidades e atitudes – os três recursos ou dimensões da competência. No dizer de Carbone et al. (2006, p.45), O conhecimento corresponde a informações que, ao serem reconhecidas e integradas pelo indivíduo em sua memória, causam impacto sobre seu julgamento ou comportamento. Refere-se ao saber que a pessoa acumulou ao longo de sua vida, algo relacionado à lembrança de conceitos, idéias ou fenômenos (BLOOM et al., 1979; DAVIS e BOTKIN, 1994). A habilidade está relacionada à aplicação produtiva do conhecimento, ou seja, à capacidade da pessoa de instaurar conhecimentos armazenados em sua memória e utilizá-los em uma ação. Gagné e colaboradores (1988) destacam que as habilidades podem ser classificadas como intelectuais, quando abrangerem essencialmente processos mentais de organização e reorganização de informações, e como motoras ou manipulativas, quando exigirem fundamentalmente uma coordenação neuromuscular. A atitude, por sua vez, refere-se a aspectos sociais e afetivos relacionados ao trabalho (DURAND, 2000). Diz respeito a um sentimento ou à predisposição da pessoa, que determina a sua conduta em relação aos outros, ao trabalho ou a situações. O método de implantação da gestão por competência Tecnicamente, a gestão por competência é implantada a partir de um processo de mapeamento das competências organizacionais (das equipes) e profissionais (das funções ou dos cargos) necessárias e das competências pessoais (dos funcionários) existentes. As competências organizacionais e profissionais são referenciais. A empresa precisa determinar, com clareza, quais as competências que a organização precisa desenvolver e quais as competências que cada função ou cargo exigem. Feito isso, fica mais fácil estabelecer as competências necessárias para cada equipe e cada funcionário. O Quadro 2, abaixo, retrata os três tipos de competência de uma organização. O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 137 Quadro 2. Três tipos de competências de uma organização. Competências organizacionais Competências profissionais Competências pessoais São as competências neces- São as competências necesSão as competências que os sárias para que a organização sárias para o exercício de cada funcionários detêm e as equipes de trabalho cargo, função ou profissão realizem seus objetivos De posse do inventário de competências a empresa pode selecionar pessoas com mais clareza, pois conhece quais competências devem ser atraídas para a organização; desenvolvê-las com mais precisão, porque sabe de quais competências a empresa necessita; avaliá-las de forma mais precisa, pois existe clareza sobre o objeto de desempenho e, por fim, remunerá-las com mais justiça, uma vez que a recompensa deve ser dirigida àqueles que se orientaram com base nos objetivos e metas organizacionais. O levantamento das competências organizacionais é o primeiro passo desse processo de mapeamento e se dá através da avaliação dos fatores críticos de sucesso do mercado de atuação. Olhando-se para o mercado de atuação e para o cliente pode-se avaliar quais competências a organização e suas equipes precisam desenvolver para que realizem os trabalhos e projetos necessários. O segundo passo é descrever as competências profissionais. No Banco do Brasil essa descrição foi minuciosa e exigiu a avaliação de cada função ou espaço ocupacional, bem como a análise dos processos de trabalho. O terceiro passo diz respeito ao inventário das competências pessoais. O objetivo é conhecer em profundidade as competências de cada funcionário da empresa. As competências pessoais são aquelas detidas pelo funcionário e foram avaliadas através da seguinte metodologia abaixo resumida: Quadro 3. avaliação das competências pessoais. Dimensões da competência Formas de avaliação das competências pessoais Taxonomia utilizada para formação dos bancos de dados Conhecimento Conhecimentos acadêmicos (saber) certificados e não-certificados Árvore do conhecimento (espaciais/ hiperbólicas) Habilidade (saber fazer) Experiências profissionais comprovadas Catálogo de profissões e lista de atividades/funções Atitude Habilidades básicas, gerenciais e Descrição das habilidades a partir técnicas; atestadas via sistema inter- dos cargos ou de espaços no de avaliação de desempenho ocupacionais Produção/produtividade apresentada Índices de produção e produtividade (metas definidas nos acordos por equipe e per capita internos de trabalho) 138 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas O Quadro 4, abaixo, representa o modelo conceitual de mensuração de competências dos funcionários utilizado pela UniBB. O registro da competência torna-se mais útil e preciso quanto mais ele se aproxima do foco do trabalho, do negócio e dos resultados desejados pela organização. Quadro 4. Universo das Competências Profissionais. Dimensões de mensuração das competências profissionais Foco • Conhecimentos em torno da profissão (certificados e Conhecimento acadêmico • Experiências Profissionais (comprovadas) Mercado de atuação profissional • Habilidades básicas, gerenciais e técnicas (atestadas por avaliação laboral) Negócio da empresa • Produção Acordo e metas de trabalho O sistema de mensuração objetiva conhecer o que o funcionário domina sobre conhecimentos e habilidades que possam estar correlacionados aos negócios e atividades da empresa ou ao projeto em andamento. Este modelo, adotado pelo BB, propõe uma base de registro que cataloga conhecimentos, experiências e habilidades dos funcionários, determinantes para a competente realização dos trabalhos2. Conhecimentos em torno da profissão – são registrados em dois bancos de dados, estruturados com base na taxonomia da árvore de conhecimentos. O primeiro contém os conhecimentos auto-adquiridos, fruto de autodesenvolvimento, registrados em escala pré-definida pela empresa (conhecimento básico, intermediário ou avançado, por exemplo). No segundo banco de dados foram registrados os conhecimentos adquiridos em eventos oficiais e certificados, tais como treinamentos empresariais, cursos de formação (graduação, pós, mestrado e doutorado), certificações de idiomas e outras certificações de conhecimentos existentes no mercado. Com essas informações podem-se definir áreas críticas em que a organização deva incentivar a capacitação e o desenvolvimento, ou mesmo estruturar planos de transferência de conhecimentos entre funcionários e equipes. Indicadores que este banco oferecerá: • Índice e níveis de conhecimento “per capita” • Índice e níveis de conhecimento por equipe ou área • Índice e níveis de conhecimento da organização 2 Sobre modelos de mensuração de competências, ver principalmente, Sveiby (1998), Davenport (2001), Edvinsson e Malone (1998) e Carbone et al. (2006). O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 139 • Distribuição dos conhecimentos por área, departamento, agência ou região. Experiências Profissionais – Esta dimensão tem por finalidade registrar a experiência e a trajetória profissional do funcionário. Pode-se dizer que existe boa correlação entre cargos ou funções ocupados e a competência no trabalho. Assim, este banco de dados receberá o histórico profissional de todos os funcionários dentro e fora da empresa, tais como cargos e funções ocupados, participação em projetos, estágios, entre outras experiências, além do tempo de exercício em cada atividade, o que poderá dar uma idéia da senioridade ou experiência do indivíduo na profissão. Conhecer a fundo a experiência profissional dos funcionários é passo primário para a otimização de potencial. Pode-se, com eles, aprimorar os sistemas internos de provimento, nomeação e movimentação, orientar o desenvolvimento das carreiras, facilitar caminhos de desenvolvimento. Em síntese, municiar a direção da área de Gestão de Pessoas para decisões muito mais precisas em termos de gestão de carreira. Indicadores que este banco de dados poderá oferecer3: • Índice de profundidade nos cargos ocupados (aprofundamento vertical na profissão) • Índice de visão sistêmica (horizontalidade na atuação profissional) • Índice de senioridade (tempo de exercício na função/cargo) • Tipos de competências exercidas nas profissões/cargos Habilidades dos funcionários – Esta dimensão preocupa-se em conhecer as habilidades fundamentadoras dos processos da organização. Trata-se da mais importante informação sobre a competência do funcionário no processo de trabalho. É a partir desta informação que a empresa passa, de um lado, a conhecer o quanto os funcionários dominam as habilidades críticas para o sucesso dos projetos e do negócio, e de outro, a acompanhar o seu desenvolvimento e a sua transferência entre funcionários e equipes. As habilidades dos funcionários foram divididas em três dimensões: a) Habilidades básicas – são habilidades vinculadas aos valores maiores da organização, negócio ou projeto, que a empresa espera que estejam presentes nas atitudes e no comportamento cotidiano de todos os funcionários. b) Habilidades gerenciais – valores, atitudes e comportamentos desejados do segmento gerencial da organização. c) Habilidades técnicas ou específicas – habilidades diretamente vinculadas aos processos de trabalho. 3 Estes indicadores estão em desenvolvimento no BB. 140 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Neste caso, o sistema de avaliação 360 graus foi escolhido. São quatro as dimensões de avaliação. De baixo para cima (subordinado-gerente), de cima para baixo (gerente-subordinado), lateral (entre pares da equipe) e autoavaliação. O sistema permite que o funcionário tenha suas habilidades avaliadas semestralmente no trabalho. Indicadores que este banco de dados poderá oferecer: • Índice e níveis de habilidades per capita • Índice e níveis de habilidades por equipe ou área • Índice e níveis de habilidades da organização • Distribuição das habilidades por área, agência ou região. Produção – o quarto banco de dados diz respeito à produção do funcionário. Este banco de dados é quantitativo e, no Banco do Brasil, reúne as informações referentes ao desempenho alcançado pelas equipes de trabalho e funcionários, frutos de um acordo de trabalho e metas previamente estabelecido. Indicadores que este banco de dados pode oferecer: • Índice de produção individual e por equipe • Índice de produtividade individual e por equipe Mapeamento de competências profissionais A construção de um modelo de desenvolvimento profissional referenciado em competências pressupõe uma integração entre as estratégias, os objetivos e as metas organizacionais com a ação dos indivíduos e equipes através do conhecimento, habilidades e atitudes. No Banco do Brasil, optou-se por adotar as dimensões do Balanced Scorecard (KAPLAN, 1997), chamados de Perspectivas Organizacionais, para orientar o desenvolvimento das competências organizacionais e profissionais. São elas: perspectiva financeira, que orienta a ação relativa à busca de resultados para o Banco; perspectiva clientes, que orienta a relação do Banco com sua clientela; a perspectiva comportamento organizacional, que reflete a atuação do capital humano dentro dos balizadores estabelecidos na estratégia; perspectiva processos internos, que demonstra a atuação no acompanhamento, avaliação e melhoria constante dos procedimentos que garantem a atuação da empresa; e perspectiva sociedade, que indica o valor da empresa perante o contexto social em que está inserida. As competências profissionais são mapeadas e descritas tomando por base a ação das pessoas e equipes no contexto em que sua função e o seu local de trabalho estão inseridos. Essa metodologia busca dar clareza aos participantes do processo com relação à expectativa de sua atuação. As competências mapeadas são classificadas nesses cinco grupamentos, dando também O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 141 uma noção do equilíbrio do mapeamento com relação à estratégia da organização. Ou seja, os mapeadores de competências são orientados a propiciar um equilíbrio na referência profissional / laboral com relação às definições estratégicas do BB. Uma outra parte do processo é a inter-relação das competências mapeadas com uma taxonomia de conhecimentos baseada em classificação oficial. Essa classificação permite que se faça um vínculo matricial com as várias ações de desenvolvimento existentes (cursos internos e externos, programas de leitura apoiados em bibliografia validada, filmografia, estágios etc) de modo a propiciar aos participantes do sistema (funcionários), a condição de buscar, no âmbito do conhecimento, opções para garantir a diminuição nos gaps de competências que lhes garantam um melhor desempenho, uma análise para a ascensão profissional ou o atendimento de interesses de aprimoramento pessoal. Outros vínculos pretendidos são o de promover a relação entre as competências e as áreas de negócio e de apoio ao negócio, e também à vocação das diversas unidades da empresa, de modo a possibilitar a identificação de talentos que possam contribuir de modo imediato com sua atuação para as necessidades das diversas áreas, possibilitando movimentações verticais (ascensão) e horizontais (movimentações) de maior qualidade para a organização. Resumindo, as competências profissionais são mapeadas levando-se em consideração a estratégia (perspectivas do balanced scorecard-BSC), a vocação das unidades, ou seja, um olhar mais atendo ao trabalho e às especificidades do serviço das áreas e os conhecimentos em torno da profissão. A Figura abaixo retrata a lógica do mapeamento e esse modelo de inter-relação. Figura 1. Modelo de inter-relação. 142 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas O estabelecimento desta inter-relação possibilita uma melhor leitura da dinâmica das competências pelos atores organizacionais e uma melhor utilização do modelo e dos indicativos gerados para sua compreensão. A gestão por competências e o sistema de desenvolvimento profissional do BB O sistema de desenvolvimento profissional do Banco do Brasil utiliza, portanto, as informações do sistema de gestão por competências para orientar as suas ações. Assim, pode-se afirmar que o modelo de desenvolvimento profissional do BB está estruturado a partir de três grandes perspectivas: 1. Competências mapeadas e avaliadas, que estabelece os eixos de atuação profissional e as necessidades de desenvolvimento de competências dos funcionários; 2. Orientação profissional, que orienta o processo de capacitação e gestão de carreira dos funcionários; 3. Capacitação corporativa, que disponibiliza os produtos e ações de capacitação e desenvolvimento dos conhecimentos, das habilidades e das atitudes dos funcionários. O sistema de mapeamento de competências, como explicado anteriormente, identifica as competências indispensáveis para o exercício do trabalho em cada função ou espaço ocupacional. No caso do BB, chegou-se a 3 mil competências profissionais mapeadas. O sistema de avaliação por competências, por sua vez, identifica os funcionários com plenitude para o trabalho e aqueles que necessitam de aprimoramento das suas competências pessoais, retroalimentando o sistema. No caso do Banco do Brasil, como já informado, implantou-se um sistema de avaliação de desempenho por competências, 360 graus, com periodicidade semestral. O sistema de orientação profissional objetiva apoiar o funcionário no seu trajeto profissional, orientando-o no desenvolvimento contínuo das suas competências. Pode ser compreendido como um guia que orienta o caminhar do desenvolvimento profissional. O BB oferta programas de orientação profissional e gestão de carreira por segmento de atuação funcional (operacional, gerencial e executivo). O sistema de capacitação corporativa oferece um conjunto de ações de desenvolvimento (cursos internos e externos, presenciais e a distância, programas de leitura, filmografia de apoio, programas de estágio, certificações de conhecimento), que permite ao funcionário escolher as melhores e mais adequadas ações de capacitação dirigidas para as competências profissionais que necessita desenvolver. Mais de duas centenas de diferentes programas de capacitação e desenvolvimento estão à disposição dos funcionários do BB, nas modalidades a distância e presencial. O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 143 Sistema de acompanhamento e monitoramento Para acompanhamento do sistema de desenvolvimento profissional, a UniBB desenvolveu um conjunto de indicadores vinculados. O primeiro conjunto diz respeito aos indicadores de acompanhamento do sistema de capacitação. São indicadores que medem, principalmente, a eficiência do processo de entrega de produtos de capacitação e desenvolvimento profissional da UniBB. Abaixo relacionamos os indicadores atualmente utilizados, bem como algumas estatísticas sobre a performance do Sistema UniBB nos últimos anos. • Percentual de utilização de verba de treinamento alocada • Quantidade de bolsas de graduação e pós-graduação concedidas • Quantidade total de horas de treinamento na Empresa • Média de horas de treinamento “per capita” • Média de horas de treinamento a distância • Média de horas de treinamentos para negócios e processos • Índices de satisfação dos funcionários com os treinamentos • Indicadores de custos com treinamento e capacitação • Quantidade de teses de pós-graduação (mestrado e doutorado) • Volume de empréstimos de livros, artigos e revistas na Biblioteca da UniBB • Quantidade de funcionários que participam de treinamentos por ano • Quantidade média de horas de treinamento por Adolescente Trabalhador • Índices de atuação dos educadores corporativos • Quantidade de funcionários voluntários capacitados pela UniBB • Quantidade de adolescentes e jovens participantes do Programa de Orientação Profissional e “Inclusão Social” Quadro 5. Empréstimos de livros. 144 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Quadro 6. Bolsas – graduação. Quadro 7. Bolsas – Lato Sensu. Quadro 8. BBMBA. O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil Quadro 9. Bolsas Stricto Sensu. Quadro 10. Bolsas Idiomas Estrangeiros. Quadro 11. Participantes do Programa Extraordinário. 145 146 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Quadro 12. Horas totais e horas médias por funcionário. Quadro 13. Quantidade de treinandos e quantidade de horas por modalidade. Outro importante conjunto de indicadores de acompanhamento, atualmente em desenvolvimento, diz respeito à eficácia do sistema de capacitação. São indicadores extraídos do sistema de gestão por competências da empresa e revelam o grau de conhecimento do corpo funcional, as habilidades de que a empresa pode lançar mão para a consecução de seus objetivos e a relação entre as atitudes dos funcionários e o atingimento ou não das metas organizacionais. Enquanto os indicadores de eficiência olham para a disseminação do treinamento, os indicadores de eficácia olham para a competência profissional do funcionário. Entre eles, podemos citar, além daqueles já listados nas páginas 7 e 8, os seguintes: O sistema de desenvolvimento profissional e de gestão por competências do Banco do Brasil 147 • Indicadores de domínio de conhecimentos estratégicos • Quantidade de certificados nos processos de certificação legais e de conhecimentos ocupacionais • Percentual de funcionários certificados sobre o total de funcionários treinados • Percentual de funcionários certificados em idiomas estrangeiros • Indicadores do nível de escolaridade dos funcionários • Índices de domínio em competências estratégicas • Indicadores referentes a certificações externas • Indicadores relativos à quantidade de funcionários graduados, com aperfeiçoamentos, pós-graduados, mestres e doutores. Outro conjunto de indicadores diz respeito à efetividade. Assim que os indicadores de eficácia (competências) estiverem operacionais, estudos de correlação com os resultados organizacionais (receitas, retorno sobre patrimônio líquido, lucratividade, entre outros) poderão ser desenvolvidos no BB. Em torno dessa perspectiva, o banco desenvolve atualmente pesquisas periódicas de avaliação de impacto do treinamento que permitem avaliar alguns aspectos de resultado da aprendizagem no ambiente de trabalho. Semestralmente, relevantes programas de capacitação da UniBB são escolhidos para a avaliação de impacto do treinamento do posto de trabalho. Essa escolha é feita a partir de critérios que levam em consideração o volume de pessoas beneficiadas com o treinamento, a importância estratégica do treinamento (se vinculado a prioridades, por exemplo), o volume de investimento, etc. Após a escolha dos treinamentos, é passada uma orientação para resposta de uma avaliação de impacto envolvendo: • O funcionário participante do curso • Os pares do funcionário participante – funcionários que trabalham na mesma equipe do participante do curso • Os subordinados do participante do curso, quando houver • O superior hierárquico do participante do curso Com essa avaliação, o Banco busca conhecer o impacto que aquele treinamento causou no ambiente de trabalho: por exemplo, um curso sobre produtos: se houve melhoria nas vendas e negociações, se aumentou a qualidade das argumentações de negócio, se houve multiplicação do conhecimento com a equipe, etc. 148 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Considerações finais Procurou-se neste artigo demonstrar a importância da gestão por competências para o desenvolvimento dos sistemas de educação corporativa das organizações. É notório que o país passa por um desenvolvimento importante do sistema de educação empresarial, momento oportuno para a introdução de novas metodologias de gestão e acompanhamento da educação nas empresas. O BB tem a convicção que o gerenciamento das competências profissionais é atividade indispensável e insumo fundamental para o adequado alinhamento dos sistemas de capacitação às estratégias organizacionais. O diagnóstico e a avaliação de competências oferece a oportunidade de convergência entre funcionários e empresa, tendo como pano de fundo o crescimento continuado do capital humano e o alcance dos objetivos institucionais. Referências BLOOM, Benjamim S.; KRATHWOHL, David R.; MASIA, Bertram B. Taxonomia de objetivos educacionais: domínio afetivo. Porto Alegre: Globo, 1973. BLOOM, Benjamim S. et al. Taxonomia de objetivos educacionais: domínio cognitivo. Porto Alegre: Globo, 1979. BRANDÃO, Hugo Pena; GUIMARÃES, Tomás de Aquino. 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Valoriza as pessoas, focaliza as necessidades dos clientes e responde às demandas dos acionistas. Três dimensões se complementam neste projeto: People: “Um ótimo lugar para trabalhar!” Service: “O jeito Accor de servir!” Profit: “Ganhando junto com a Accor!” A Académie® A Académie® no Brasil é a primeira universidade corporativa do grupo fora da França. Foi inaugurada em 18 de novembro de 1992, como um empreendimento pioneiro no Brasil. Um sonho nascido dois anos antes, que para a época era extremamente inovador, pois o conceito era pouco difundido no Brasil. Gestão da Educação A Accor® prosperou e se desenvolveu acreditando na valorização das pessoas e que todo comportamento humano é resultante de processos de aprendizagem. Esse espírito se mantém até os dias atuais. Para assegurar sua exeqüibilidade, possuímos um Conselho de Educação, responsável pela Política de Educação Corporativa e orientação sobre o funcionamento da Académie®. Integram o Conselho o Presidente, os Diretores Corporativos de RH e Finanças e os Diretores das Unidades Estratégicas de Negócios. A missão da Académie® Difundir os Valores e Cultura da organização; apoiar o desenvolvimento das Competências-Chave, por meio da Educação Permanente e Gestão do 152 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Conhecimento, contribuindo para reforçar a Imagem e o Diferencial Competitivo da empresa.” Está intrínseco em nossa missão “Ensinar a Ensinar” e “Aprender a Aprender”. Educação Sustentável A disseminação da cultura de educação expressa pelo “ensinar a ensinar e aprender a aprender” estimulou os colaboradores da Accor a compreenderem a importância da educação em permanência. Para tanto, a atuação da Académie® se expandiu por meio da parceria com a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), iniciada em 2004 e que disponibilizou aos colaboradores da empresa cursos, de Pós-Graduação em Gestão de Negócios em Serviços, desenvolvidos em conjunto.. Em 2005, lançamos a graduação de curta duração em Administração com ênfase em Serviços, cuja primeira turma iniciou em 2006. Ainda dentro deste escopo, disponibilizamos aos colaboradores a possibilidade de concluírem seus estudos no ensino fundamental e médio. Para facilitar a aprendizagem junto aos diferentes públicos para os quais provê soluções, a Académie® utiliza métodos de ensino baseados na antropagogia, ou seja, a educação contínua que ocorre ao longo de toda a vida do ser humano, sempre alinhando as características de seu público-alvo. Objetivos da Académie® – Aumento da competitividade e Gestão por Competências: O Conselho de Educação é composto pela liderança estratégica da empresa. Dessa forma, está alinhado à estratégia dos negócios, permitindo estabelecer planos de desenvolvimento considerando as competências duráveis necessárias à implantação dessa estratégia. A seleção, a avaliação de desempenho e as promoções são realizadas em conformidade com a política de Recursos Humanos das diferentes unidades de negócio. – Disseminação das crenças e valores organizacionais: A Missão da Académie repousa sobre os conceitos “Ensinar a Ensinar” e “Aprender a Aprender”. Os programas e recursos disponibilizados aos colaboradores visam assegurar a concretização desses conceitos, além da continuidade da cultura e valores da organização. – Gestão do Conhecimento e integração da Académie®: A preparação dos líderes da Accor como formadores de sua equipe está diretamente relacionada à prática da socialização como principal meio para difusão e solidificação do conhecimento. Para tanto, os líderes dispõem de: Académie Accor: estímulo à educação sustentável 153 • Programas preparados para multiplicação pela liderança; • Preparação do líder para treinamento “on the job”; • Grupos de implantação de procedimentos • Estímulo à tutoria como parte da preparação dos colaboradores. • Multiplicação de cursos com equipes internas. Além desses meios presenciais, a Académie® ainda dispõe de cursos on-line com utilização de fórum e ambiente de Comunidade Virtual. – Programas preparados pela Académi®e para Multiplicadores: São programas destinados à formação das equipes e podem ser aplicados por multiplicadores internos ou externos. Nesses programas, o multiplicador recebe um kit completo, contendo materiais para apresentação, dinâmicas e registros da aplicação. – Conexão entre a Académie® e Desenvolvimento Sustentável: Considerando que o grupo é reconhecido internacionalmente por sua atividade em hotelaria e turismo, a atuação responsável é intrínseca aos nossos negócios. Esse segmento de negócios necessita da preservação do meio ambiente, da história e da cultura dos povos para prosperar. Assim, o grupo está engajado em diversos projetos e é papel da Académie o desenvolvimento de programas que suportem as práticas requeridas pela aplicação da política internacional para desenvolvimento sócio-ambiental. Exemplos são os programas relacionados ao Projeto Ecologia, Turismo Responsável, Projeto Compartilhar, etc. – Educação Formal e Profissional na Académie® Considerando a importância da educação para a prosperidade de uma nação e, em especial, para o fortalecimento da implantação de projetos relacionados ao turismo, a Académie® tem promovido ações objetivando viabilizar aos colaboradores, familiares e parceiros acesso ao ensino fundamental, médio, graduação e pós-graduação. Mensuração dos resultados em Educação Sustentável Abordar a questão da mensuração dos resultados de educação, dentro das organizações, tem como questão-chave: em quanto aumentamos a riqueza do acionista com este recurso que utilizamos? Em quanto tempo isto acontecerá? Podemos, ainda, compreender que este é um tema que integra a investigação da correlação da gestão de recursos humanos com o desempenho organizacional. É possível pesquisar em diversas fontes e constatar que nosso conhecimento acumulado identificou que há vínculos, mas precisar essas correlações, tendo como referência o racionalismo com objetividade numérica, 154 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas é objeto de pesquisa de muitos mestrandos, doutorandos e executivos de Recursos Humanos em diferentes países, inclusive Brasil. Os motivos para investir em educação corporativa Penso que todos temos diversas questões sobre este assunto e escolho como primeira delas: quais são os motivos que levam uma organização a colocar recursos em atividades de educação corporativa? Algumas possibilidades são: ¾ Dinâmica de mudanças no negócio: O segmento de mercado em que a empresa atua impõe a necessidade de investir em tecnologias, produtos e gestão. Isso provoca um ritmo de mudanças dentro da organização fazendo com que os trabalhadores precisem de preparo e adequação. ¾ Natureza da atividade: Ramos de atividade baseados no contato humano como meio de entrega de seu serviço requerem intensa preparação da equipe. Atividades industriais de produtos agrícolas em commodities apresentam outra dinâmica. No caso da Accor a atividade hoteleira se estabelece pelo contato humano, independentemente do segmento econômico dessa atuação. ¾ Desenvolvimento do negócio: O momento da empresa é um importante aspecto a ser considerado, ou seja, fase de crescimento, de expansão, de manutenção e consolidação de suas atividades. A marca Íbis® (Accor® Hotels) é um empreendimento que há dez anos era inexpressivo no Brasil, hoje já conta com mais de 30 hotéis, logo, seu investimento em educação é diferente de um hotel da marca Novotel®, por exemplo, que se posiciona em outro segmento de mercado. ¾ Perfil do trabalhador: Refere-se ao perfil predominante do conjunto de trabalhadores: jovens, recém-formados, pessoas maduras, grau de instrução, etc. Ø Competitividade do setor. Refere-se à competição comercial do mercado que a empresa atua. ¾ Margens de contribuição: Empresas que operam em atividades caracterizadas por elevados volumes de negócios e baixas margens de contribuição requerem soluções criativas e de menor custo. ¾ Turnover: Para interpretar o turnover é necessário considerar se é planejado e integra a arquitetura do negócio ou se é indesejado. Esta diferença interfere nas soluções utilizadas e torna o investimento em treinamento permanente. Académie Accor: estímulo à educação sustentável 155 ¾ Preservação do conhecimento tácito Normalmente aplicado em processos de mudança, aquisição ou incorporação, quando a empresa necessita manter um conjunto de pessoas que detém um conhecimento e é necessária a adaptação das pessoas ao novo ambiente. ¾ Fortalecimento da cultura empresarial Desejo da organização em difundir e preservar sua cultura e valores, em função da compreensão de que essa cultura é determinante para o sucesso de sua estratégia. ¾ Equipes com elevado nível de formação: Quanto mais elevada a formação de uma pessoa ou equipe maior o custo que as soluções requeridas normalmente impõem. A intenção aqui não foi expor um conjunto exaustivo de motivos, mas tratar aqueles que a Académie® tem se deparado ao longo de sua existência. Consideramos relevante que estes pontos sejam verificados em cada empresa, pois são determinantes na alocação dos recursos, tornando-os variáveis ao longo dos anos, ou seja, fundamentam a não utilização de um percentual uniforme para definição dos recursos que a empresa planeja para suas ações em educação ao longo dos anos. Reconhecemos que há períodos de maior necessidade de investimento e outros não. Retorno do Investimento em Educação Corporativa –RIEC São diversas as medições que buscam ampliar o valor entregue ao acionista. Dentre elas, temos: EP: economic profit – lucro econômico CVA: cash value added – valor de caixa adicionado NPV: net present value – valor líquido presente IRR: internal return rate – taxa interna de retorno CFROI: cash flow return on investment – retorno sobre o investimento de fluxo de caixa ITSR: internal total shareholder return – retorno interno total do acionista EVA: economic value added – valor econômico agregado EE: economic earnings – ganhos econômicos Não temos a intenção de esgotar os instrumentos, ou ainda abordar modelos, porém, antes precisamos perguntar se poderíamos comparar investimentos em educação com investimentos no processo produtivo, como por exemplo, quando uma nova tecnologia é adquirida para a produção ou ainda, quando a empresa opta por comprar outro negócio. O método para 156 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas transformar esse investimento numa linguagem executiva e compreensível para os acionistas vem sendo aperfeiçoado ao longo dos anos. Quando lidamos com o tangível, a natureza das dúvidas e risco associado é diferente daquela que temos quando lidamos com o intangível. As variáveis das fórmulas desses instrumentos pressupõem a tradução em valores monetários. Logo, estaríamos falando que a utilização de um certo valor em educação corporativa teria um retorno de quanto e em que período de tempo. Interessante notar, neste momento, que a maior parte de nós não teria dificuldade em fazer uma afirmação dessa natureza para investimentos no treinamento de sua equipe comercial ou mesmo para o treinamento da equipe contábil em uma nova ferramenta. Nessas situações, podemos calcular o desempenho esperado com a iniciativa e inferir numericamente sobre o retorno desejado, já que existe uma relação direta de causa e efeito. Nossa questão é, portanto, a garantia da utilização do conhecimento sócio-cultural adquirido, agregando valor para o acionista, ou seja, a certeza de que da germinação daquele conhecimento brotarão idéias que reverterão em resultados mensuráveis. Aparentemente essa questão mobiliza inclusive os analistas financeiros, pois eles também lidam com a subjetividade em suas recomendações de investimento. Segundo Low e Seisfield (2001, p.24), são dez os fatores não financeiros mais importantes para analistas de investimentos nos EUA: Fonte: (Low; Seisfield, 2001, p. 24). Académie Accor: estímulo à educação sustentável 157 Interessante observar o segundo, o quinto e o sétimo itens deste ranking como parte de uma análise de financeiros para recomendações de investimento. Percebemos nitidamente o efeito das práticas de Recursos Humanos e de educação corporativa nas análises financeiras. Logo, estamos diante de algo que, analogamente, podemos dizer que tempera a comida, mas sua ausência ou exagero pode conduzir ao descarte do prato – feijoada sem sal ou salgada! Educação, estratégia e competitividade implicam em falar sobre competências individuais e organizacionais. Novamente entramos em um tema que tem sido objeto de trabalho de muitos pesquisadores em que há muitas questões em aberto, em especial no desdobramento das competências organizacionais em individuais, o balanceamento do conjunto de competências individuais que garantem a manutenção de determinadas competências organizacionais e sua consolidação no tempo. Todo esse conhecimento acumulado mostra-se insuficiente para controlar o desempenho da empresa dentro de seu mercado de atuação, interagindo com diferentes stakeholders que modificam o desempenho da própria organização. Em uma cadeia de reações químicas, como e quais variáveis devem ser modificadas para provocar determinadas reações, garantindo, assim, que determinadas somas de investimento possam ser alocadas em lugares específicos com garantia de retorno, ou seja, risco controlado ou inexistente. Mas, se entendermos as empresas como sistemas sociais, será que continuaríamos buscando correlações perfeitas? Passamos a perceber porque os três déficits sociais apontados por Sennett (2006, p.62), não podem ser desprezados por aqueles que entendem o papel estratégico da educação corporativa: “baixo nível de lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do conhecimento institucional”. Estes déficits têm agido diretamente sobre a produtividade das organizações e seu desempenho competitivo. A linguagem empresarial está repleta de signos e símbolos para serem interpretados, que não podem ser traduzidos por números apenas, pois este idioma é insuficiente para dar conta da realidade da relação das pessoas com seu trabalho, empresa, família e sociedade. A lealdade pressupõe um julgamento do individuo, que se sente importante e demonstra isto por meio de uma atitude. Exemplo extremo são os soldados que dedicam sua vida em favor da representação da nação ou do ideal do exército. A lealdade dos trabalhadores sempre foi importante para o cumprimento dos objetivos organizacionais, pois dessa lealdade advém o comprometimento com a organização, ou como se falava antigamente, “vestir a camisa”. A diminuição da confiança informal entre os trabalhadores afeta o trabalho em equipe e, em especial, a sinergia que pode ser obtida pela atuação conjunta. Particularmente em situações de crise, esse déficit faz as pessoas se sentirem 158 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas mais estressadas, pois se sentem desconfortáveis para compartilhar suas ansiedades, o que pode reduzir sua performance e produtividade no trabalho. A redução do conhecimento institucional instalou-se a partir das práticas de downsizing, reengenharia, simples redução de despesas ou mesmo a informatização das áreas. As regras foram parametrizadas e colocadas nas máquinas, aquilo que era explicito foi registrado. Grande parte do conhecimento tácito partiu com as pessoas e junto aquele jeito que era utilizado para lidar com situações excepcionais, ou seja, “calibrar” as informações para que o impacto não fosse desastroso. A cultura empresarial se propaga pelo exemplo, por práticas cotidianas; o jeito de ser está na prática da cultura, os registros contribuem na manutenção da cultura, mas são insuficientes. Sennett (2006, p. 69) afirma “Como qualquer cultura, a cultura de uma firma depende da maneira como as pessoas comuns entendem a instituição, e não da explicação determinada pelos que estão no topo”. Esta é uma importante razão para que a educação corporativa lidere o processo de transmissão cultural, difundindo valores e cultura junto às equipes, tornando os elementos conhecidos dentro da organização. Ao assumir essa responsabilidade, é possível fortalecer os aspectos da cultura que tornam a organização competitiva. Atrevo-me a falar de medição e sociologia industrial no mesmo bloco por entender que essas questões estão no âmago da vida empresarial na atualidade. Esses déficits podem afetar a competitividade do negócio? Será que a educação corporativa poderá ajudar os trabalhadores neste processo? Será que as organizações podem e têm interesse em auxiliar os trabalhadores a lidarem com estes déficits? Como os trabalhadores evoluirão a partir desses déficits? Baitello Junior (2005, p.76) afirma que: “Uma das crenças mais sólidas e crescentes, a princípio, nas culturas ocidentais e depois também no oriente, tem sido a crença na medição, nos sistemas de medida e em sua exatidão. Isto traz como conseqüência a crença na universalização de parâmetros e o inevitável esquecimento da diversidade. Afinal, as medidas são unidades abstratas constituídas a partir de dimensões humanas. ... O dedo desde sempre foi uma unidade de medida. O que devemos evitar é transformá-lo em unidade de pensamento, ou seja, medir com os dedos, sim, mas não pensar com eles”. Temos percebido que diversos fatores interferem decisivamente nos resultados advindos da educação. Esta, dentro da empresa, é parte integrante de uma estratégia que se alinha com a compreensão de competências individuais e do negócio e que está refletida no desempenho organizacional. Becker et al (2001, p. 29), quando fazem uma síntese das Leis do Pensamento Sistêmico propostas por Peter M. Senge, apresentam como último item “Cortar um elefante pela metade não resulta em dois elefantes menores; o produto é Académie Accor: estímulo à educação sustentável 159 uma grande confusão”. As atividades de educação corporativa não acontecem unicamente no momento formal. Interações entre colaboradores, líderes e equipes estimulam permanentemente o processo de aprendizagem. Quanto estas interações contribuem na consolidação e uso prático daquilo que foi ensinado? Se medirmos os resultados da Educação corporativa a partir dos recursos concentrados por uma área haverá melhoria da cultura de educação que deve ser incentivada e difundida na empresa? Essa é uma importante questão, pois para chegar na medição do Retorno do Investimento em Educação Corporativa, percebemos que muitos outros processos dentro da empresa precisam estar correlacionados e integrados, de forma a se obter uma resposta confiável, caso contrário estaremos adaptando uma medição com os dedos, que terá consumido recurso em sua apuração, porém seu resultado não será confiável o suficiente para amparar e reorientar decisões estratégicas. Prática da Académie® na avaliação dos resultados A avaliação do resultado em educação corporativa está, conforme o caso, relacionada ao processo ou avaliação de desempenho dos colaboradores. Um exemplo de resultado é o Programa de Abertura de Hotéis desenvolvido e aplicado pela Académie® desde 1998, ou ainda, a utilização dos resultados de pesquisas junto aos clientes para planejamento e avaliação dos programas desenvolvidos. ¾ Contrato de Gestão Trata-se de um instrumento de gestão que busca o compromisso de trabalho entre a empresa e o colaborador. É o documento que concretiza de forma muito simples e clara os principais objetivos, metas e resultados que o colaborador se propõe a fazer e registra os apoios e recursos que serão necessários para essas realizações, inclusive formação. O feedback passa a ser o principal instrumento dessa ferramenta de gestão. Ao realizar a avaliação do colaborador, o gestor estará verificando os resultados alcançados e a educação tem a função de suportar as iniciativas que o colaborador deverá empreender. A proposta fundamental é aprender, evitar erros e melhorar continuamente. A história da Académie® se fez ao longo desses anos, desafiando o ambiente e buscando construir o aprendizado. A cultura Accor® tem beneficiado sobremaneira as atividades de educação, pois, em algumas circunstâncias a realidade da competitividade empresarial nos impôs alguns desafios para os quais tivemos que propor soluções arrojadas e inovadoras. Neste ano, em que a Accor® completa 30 anos de atuação no Brasil, eleita por 9 vezes um dos melhores lugares para se trabalhar, os colaboradores reconheceram e valorizaram as soluções de educação, o que nos permitiu a 8ª posição no ranking “As melhores em Educação”, elaborado pela Revista Exame. 160 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Fonte: Académie Accor Latin America, 2006. Além desse reconhecimento interno há também premiações externas associadas às marcas e ao estimulo ao turismo no Brasil. http://academie.accorbrasil.com.br/ Referências BAITELLO Jr., Norval. A era da iconofagia. São Paulo: Hacker, 2005. BECKER, Brian E.; HUSELID, Mark A.; ULRICH, Dave. Gestão Estratégica de Pessoas com “Scorecard”. Rio de Janeiro: Campus, 2001. HAVE, Steven Ten et al. Modelos de gestão: o que são e quando devem ser usados. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2003. LOW, J.; SEISFIELD, T. Measures that Matter. Boston: Ernst & Young, 1998. In: BECKER, Brian E.; HUSELID, Mark A.; ULRICH, Dave. Gestão Estratégica de Pessoas com “Scorecard”. Rio de Janeiro: Campus, 2001. SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. 161 Académie Accor: estímulo à educação sustentável 12 Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT Maria Ednei da Silva Analista de RH Senior – MsC, Coordenadora do SAT/ GSE da Eletronorte RESUMO – A Universidade Corporativa da Eletronorte (UCEL), vem desenvolvendo programas intensivos de Educação Corporativa nos últimos anos, em função da competitividade exigida pelas empresas do setor elétrico. Um Sistema de Avaliação de Treinamento capaz de monitorar a eficiência e eficácia desses programas tornou-se imperioso na empresa. Com esse foco, a empresa implantou o Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT: um projeto de ponta que utiliza medidas de avaliação validadas cientificamente, tanto ao nível de reação, quanto ao nível de impacto do treinamento no trabalho. No SAT também é avaliado o Centro de Treinamento da Empresa, localizado na sede, “Bem-TeVi Desenvolvimento e Educação Empresarial”. Os resultados encontrados são encaminhados sistematicamente para as áreas clientes da empresa, instrutores, treinados e empresas fornecedoras desses programas. O SAT tem sido efetivo para a empresa, pois com base nos resultados encontrados nas avaliações de reação e de impacto do treinamento no trabalho, a UCEL reformula e introduz novas estratégias para a gestão da educação corporativa na Eletronorte. Palavras-chave: Educação Corporativa; Avaliação de Treinamento; Avaliação do Impacto do Treinamento no Trabalho. Introdução A Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A (Eletronorte) é uma concessionária de serviço público de energia elétrica, sociedade anônima de economia mista, subsidiária das Centrais Elétricas Brasileiras S.A. – Eletrobrás, criada em 20 de junho de 1973, com sede no Distrito Federal e com Unidades Descentralizadas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Tem como finalidade principal a realização de estudos, projetos, construção e operação de usinas geradoras e de sistemas de transmissão e distribuição de energia elétrica, diretamente ou por meio de suas subsidiárias integrais Boa Vista Energia S/A e Manaus Energia S/A, bem como a celebração de atos de comércio decorrentes dessas atividades. A Eletronorte tem investido substancialmente em Educação Corporativa, desde a sua criação, tendo em vista o fomento de uma cultura empresarial de excelência, nos moldes do Prêmio Nacional de Gestão Pública (PQGF), Prêmio 162 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Nacional da Qualidade (PNQ) e Total Productive Maintenance (TPM). A Universidade Corporativa da Eletronorte (UCEL), criada em 2002, vem intensificando programas de Treinamento, Desenvolvimento e Educação Empresarial, fortalecendo o capital humano da empresa, em função da competitividade exigida atualmente pelas empresas do setor elétrico. Esses programas compreendem ações educacionais presenciais e a distância, como também por meio da TV-Educativa Digital, que oferta programas de educação continuada “On line”. Um Sistema de Avaliação de Treinamento capaz de monitorar a eficiência e eficácia dos programas desenvolvidos tornou-se imperioso na empresa, sobretudo, em função dos altos custos envolvidos nessas ações. O Sistema de Avaliação de Treinamento (SAT) foi implantado na Eletronorte em 2000, com o objetivo de estabelecer medidas de avaliação fidedignas, científicas e sistematizadas das ações de educação adotadas na empresa. O SAT vem se consolidando na empresa, desde então, como estratégia eficaz para a monitoração da educação corporativa na Eletronorte. 1. Modelo do Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT O Sistema de Avaliação de Treinamento (SAT), da Eletronorte, foi baseado no modelo de avaliação de Hamblin (1978), que preconiza a avaliação de treinamento em cinco níveis: Reação, Aprendizagem, Mudança de Comportamento no Cargo (Avaliação de Impacto), Organização (Mudanças Organizacionais) e Valor Final (Retorno Financeiro). A Figura 1, a seguir, apresenta os níveis de avaliação, conforme preconizado por Hamblin (1978): Figura 1. Níveis de Avaliação de Treinamento (HAMBLIN, 1978). FONTE: SILVA, M.E. Gestão da Educação Corporativa na Eletronorte: estratégias visando à consolidação da Universidade Corporativa Eletronorte. Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT 163 Para Hamblin (1978) avaliação “é o ato de julgar se o treinamento valeu a pena ou não em termos de algum critério de valor à luz da informação disponível”. O SAT tem, portanto, o objetivo geral de fornecer informações contínuas e fidedignas à Eletronorte sobre a eficiência e eficácia das ações educacionais realizadas e/ou patrocinadas pela empresa. Tem os seguintes objetivos específicos: ¾ Avaliar a eficiência dos treinamentos realizados e/ou patrocinados pela Eletronorte, pela avaliação de reação; ¾ Avaliar a aprendizagem das competências adquiridas (conhecimentos, habilidades e atitudes) pela avaliação de aprendizagem; ¾ Avaliar o impacto do treinamento no trabalho, que tem como objetivo averiguar a transferência para o trabalho dos conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridas na ação educacional, a melhoria do desempenho no trabalho, bem como o suporte organizacional encontrado pelo treinado (gerencial, social e material); ¾ Avaliar as mudanças ocorridas na organização em função das ações educacionais realizadas. Essas mudanças vinculam-se diretamente ao alcance dos objetivos organizacionais e as mudanças comportamentais esperadas na força de trabalho; ¾ Avaliar o retorno financeiro dos treinamentos realizados. Refere-se à relação entre a avaliação das mudanças na organização e o retorno financeiro. Os dois últimos níveis ainda se encontram em fase de projeto com vistas à implantação futura na Eletronorte. Porém, sabe-se que as habilidades adquiridas, quando transferidas para o trabalho, aumentam o desempenho do indivíduo e, por conseqüência, o da organização. Muitos têm procurado fórmulas de avaliar o retorno financeiro do treinamento para a empresa; contudo, esse retorno pode ser percebido pelo aumento do ativo intangível da organização, como a sua performance no mercado. A Eletronorte é prova disso, face aos inúmeros prêmios de qualidade que vem recebendo nos últimos anos, o que naturalmente provocou aumento do seu ativo intangível. 2. Modelo Teórico Utilizado na Construção dos Instrumentos de Avaliação do SAT Em função das especificidades da Eletronorte – cultura, suporte organizacional para a transferência do treinamento, política de recursos humanos e características dos colaboradores, foram estabelecidos objetivos de avaliação específicos para a empresa. A elaboração dos Questionários de Avaliação de Reação e de Avaliação de Impacto foi baseada nos conceitos de 164 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Hamblin (1978) e nos pressupostos teóricos do modelo MAIS (Borges-Andrade, 1982), conforme se apresenta a seguir (Figura 2): Figura 2. Modelo para elaboração dos questionários de reação e avaliação de impacto. Insumo: refere-se aos fatores sociais e físicos, e aos estados comportamentais da clientela, anteriores ao processo de treinamento; Procedimentos: refere-se aos procedimentos instrucionais e outras ocorrências adotadas na situação de ensino/aprendizagem; Processos: mudanças ocorridas no comportamento dos treinandos durante o treinamento; Resultados: indicam o sucesso imediato ou fracasso dos treinamentos, que são os indicadores de aprendizagem; Ambiente: refere-se ao contexto do treinamento que influencia os seus resultados. Este componente é subdividido em quatro sub-componentes: avaliação de necessidades – identifica as lacunas entre o que é ideal e o que é real, em termos de desempenho do futuro treinando; apoio ou suporte organizacional – refere-se às variáveis do ambiente em que o treinando está inserido, que podem afetar os resultados instrucionais; disseminação – diz respeito às estratégias de divulgação do treinamento; resultados a longo prazo – refere-se ao impacto do treinamento no trabalho. 2.1 Processo de Construção e Validação dos Questionários Para a construção dos questionários utilizados no SAT, os técnicos da área de educação empresarial da Eletronorte foram capacitados nos pressupostos teóricos relatados anteriormente, a partir dos quais foram formulados os itens dos Questionários de Avaliação de Reação e de Impacto. Os questionários passaram por dois processos demorados e intensos de validação: Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT 165 validação semântica e validação psicométrica, o que lhes garantiu bons índices de precisão e consistência. A Avaliação de Reação de Treinamento Interno abrange as seguintes categorias de avaliação: Desempenho do Instrutor; Desempenho dos Treinandos e Programação. A Avaliação de Reação de Treinamento Externo convergiu os seus itens em duas categorias de avaliação: Qualidade Instrucional e Apoio. A Avaliação de Reação de Treinamentos a Distância (Com Tutor) contempla as categorias: Desempenho do Tutor; Desempenho do Aluno; Quanto ao Curso. A Avaliação de Reação de Treinamentos a Distância (Sem Tutor) contempla as seguintes categorias: Processo de Aprendizagem do Aluno; Quanto ao Curso; Utilidade do Curso e Suporte Organizacional. A Avaliação de Reação de Treinamento Interno é aplicada nas atividades educacionais no último dia da ação, de forma presencial e a Avaliação de Reação de Treinamento Externo é enviada por e-mail ao participante, quando do retorno da atividade de educação. Os questionários de Avaliação de Reação de Treinamentos a Distância são disponibilizados para preenchimento no software que faz o gerenciamento da Universidade Corporativa da Eletronorte (UCEL) e os participantes são orientados pela coordenação para o seu preenchimento. A Avaliação de Aprendizagem é definida pelo respectivo instrutor, portanto, é elaborada e aplicada por ele nos cursos presenciais e pelo tutor/ conteudista no caso do treinamento a distância. A Avaliação de Impacto do Treinamento no Trabalho também sofreu as análises estatísticas semântica e psicométrica e compreende três conjuntos de categorias: Objetivos Específicos do Treinamento; Suporte Organizacional e Impacto em Amplitude que avalia o impacto sobre os indicadores do TPM – Manutenção Produtiva Total (Total Productive Maintenance) na Eletronorte. A Avaliação de Impacto do Treinamento no Trabalho é realizada tanto pelo colaborador treinado, quanto pelo seu gerente imediato e é aplicada, no mínimo, três meses após o término da ação educacional. 2.2 Análise dos Resultados e Emissão dos Relatórios O processo da avaliação de treinamento e emissão de relatórios é realizado por uma equipe específica na Sede e pelos Coordenadores de Treinamento nas Unidades Descentralizadas. Qualquer processo de avaliação envolve, em algum grau, variadas fontes de erro ou viés, como a subjetividade do avaliador, diferenças metodológicas e de estilo. Para minimizar a fonte de viés, a equipe da sede sistematiza e padroniza a coleta de dados, análise e redação dos relatórios das avaliações de reação e de impacto de treinamento no trabalho. 166 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Os questionários preenchidos pelos treinados e respectivos gerentes são digitados no programa estatístico Statistical Package for the Social Science (SPSS), que gera tabelas descritivas de freqüências das médias gerais e desvios padrão, obtidas em cada uma das categorias dos instrumentos. A partir dos resultados obtidos, as informações são analisadas e é emitido o respectivo relatório. Os relatórios são encaminhados aos gerentes envolvidos na empresa, instrutores e treinados, gerencias da área de Educação Empresarial e empresas fornecedoras. Os dados encontrados também dão origem a relatórios gerenciais para a Eletronorte sobre o ranking das melhores empresas fornecedoras, de acordo com as médias encontradas nas avaliações de reação. Esse ranking é encaminhado para todas as gerências da empresa. Na sede, avalia-se, ainda, a qualidade do Centro de Treinamento da Eletronorte: “BEM-TE-VI DESENVOLVIMENTO E EDUCAÇÃO EMPRESARIAL”. 3. Participação do SAT no Planejamento Estratégico da Empresa Os dados do SAT mantêm perfeita interação com o Planejamento Estratégico da Eletronorte, uma vez que os resultados das avaliações das ações de educação desenvolvidas e/ou patrocinadas pela empresa retratam os indicadores de excelência da área de educação empresarial: Satisfação dos Treinados com as Ações Educacionais (STAE) e Impacto do Treinamento no Trabalho (ITT). Dentre os indicadores de desempenho empresariais contidos no Plano Estratégico da Empresa, encontra-se o Impacto do Treinamento no Trabalho (ITT), com a meta de 70%, para 2006. O quadro 1 a seguir apresenta a matriz desse indicador, conforme as metas do Desempenho Empresarial para 20052007: Tabela 1. Indicador e Meta para 2006. * ITT – Impacto do Treinamento no Trabalho. No Plano Estratégico da Eletronorte, ciclo 2006, o objetivo “Aperfeiçoar Continuamente a Gestão Empresarial”, indica a necessidade da otimização Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT 167 dos processos empresariais, pela certificação dos processos críticos segundo a norma ISO 9001:2000, a qual exige avaliações sistematizadas e documentadas dos produtos fornecidos aos clientes. Os resultados das avaliações de reação contribuíram e têm sido essenciais para a manutenção da certificação ISO 9001:2000, no processo denominado “Projeto e Implementação de Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas” da Superintendência de Desenvolvimento e Educação Empresarial (GSE), por meio do indicador Satisfação dos Treinados com as Ações Educacionais (STAE). Na Eletronorte, o processo de educação corporativa contempla três etapas fundamentais e interdependentes (Figura 3), cada uma fornecendo informações importantes para a outra. Figura 3. Processo de Educação Empresarial na Eletronorte. Os programas de educação corporativa são definidos em função dos objetivos estratégicos da Eletronorte, dos gaps encontrados na avaliação de desempenho dos empregados e das competências organizacionais. Espera-se que sejam eficientes e eficazes, ou seja, os treinados fiquem satisfeitos, adquiram as habilidades e as transfiram para o trabalho, apresentando impacto desses programas no trabalho e na organização, redundando, portanto, em resultados empresariais consistentes. O processo de educação corporativa da Eletronorte foi totalmente revolucionado após a implantação do Sistema de Avaliação de Treinamento (SAT). Os relatórios de avaliação de reação têm subsidiado constantes reformulações no projeto do treinamento, na performance do instrutor, na 168 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas qualidade do material instrucional e na definição das características da clientela indicada para as atividades. As reformulações têm sido assimiladas e adotadas na área de educação empresarial, nas áreas clientes e demais áreas envolvidas na empresa. Também, tem-se estendido às empresas fornecedoras de treinamento. A Avaliação de Impacto do Treinamento no trabalho tem mostrado, sistematicamente, a importância da avaliação da necessidade do treinamento e do perfil da clientela envolvida, bem como do suporte gerencial existente na empresa para a transferência das habilidades adquiridas, sugerindo aos gestores da empresa maior critério nas indicações para treinamento e suporte organizacional. Atualmente, percebe-se uma nova cultura gerencial na empresa em relação ao processo de educação corporativa, tanto por parte da área gestora do processo _ havendo um significativo aumento da competência técnica para a negociação e planejamento dos treinamentos _, bem como por parte dos gerentes, os quais ganham maior conscientização para o cumprimento dos critérios na indicação para treinamento. A Eletronorte dispõe de um Sistema de Avaliação de Treinamento capaz de fomentar uma cultura corporativa de alto desempenho, pela obtenção de critérios científicos de avaliação, consolidando informações-chave sobre a educação corporativa que é desenvolvida na empresa. 4. Processo de Comunicação para o Público Interno Um Sistema de Avaliação de Treinamento dessa natureza requer que os segmentos organizacionais tenham seus papéis bem definidos e que uma nova cultura de avaliação seja fomentada na Empresa. Em função disso, a Eletronorte elaborou uma estratégia de disseminação e sensibilização para a colaboração desses segmentos no processo de avaliação, a fim de valorizarem o SAT. A sensibilização dos membros da organização como um todo é fundamental para esse processo. Inicialmente, apresentou-se o projeto para a empresa através do jornal Norte/News, no qual se detalhou todo o processo do SAT. Por ocasião da capacitação dos Coordenadores de Treinamento, foi entregue o Manual do SAT, com os conceitos, metodologias, instrumentos e procedimentos do projeto, inclusive nos aspectos técnico-científicos, a fim de servir como guia na implantação local do sistema. Além disso, foi distribuída, na empresa, uma cartilha ilustrada que explicava o SAT, cujo teor, além de apresentar os objetivos de avaliação, níveis adotados, instrumentos e procedimentos utilizados, também sensibilizava os leitores para a adesão ao projeto, respondendo às avaliações e lendo os relatórios de reação e de impacto. Essas Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT 169 estratégias de endomarketing tiveram sucesso, pois hoje o corpo funcional, na maioria, responde às avaliações que são encaminhadas. 5. Resultados Obtidos na Eletronorte com o SAT Os resultados obtidos com o SAT são robustos e mostram que produzem dados comparativos relevantes para a efetividade do processo de gestão da educação empresarial, fazendo parte da matriz de indicadores da Eletronorte. Os gráficos 1 e 2, a seguir, apresentam o resultado do indicador “Satisfação dos Treinandos com as Ações Educacionais” (STAE) e do “Impacto do Treinamento no Trabalho” (ITT) obtido na empresa no período de entre 2001 e 2006. Figura 1. Evolução do STAE – Satisfação dos treinandos com as ações educacionais (em percentuais). Figura 2. Evolução do STAE – Educação a distância (em percentuais). 170 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas O indicador STAE tem se apresentado alto na Eletronorte, sobretudo com ações de educação a distância, indicando que a maioria dos treinados estão muito satisfeitos com as ações de educação realizadas, seja com relação ao projeto instrucional, ao desempenho do instrutor e ao desempenho dos treinandos. Sabe-se, entretanto, que reações favoráveis sobre a ação educacional não garantem a transferência das competências adquiridas. É preciso medir o impacto posterior que a ação educacional provoca no trabalho do treinado e também na organização. O Impacto do Treinamento no Trabalho (ITT) é um indicador de educação estratégico para a Eletronorte, pois demonstra a eficácia do treinamento para o trabalho do treinado. O Gráfico 3, a seguir, mostra a evolução desse indicador. Figura 3. Evolução do ITT – Impacto do treinamento no trabalho na Eletronorte (em percentuais). Percebe-se que os resultados do ITT não se apresentam em um padrão crescente, como ocorre com os resultados da avaliação de reação. Entretanto, vale lembrar que o impacto _ compreendido como a transferência das habilidades ensinadas no treinamento para o trabalho, o suporte organizacional encontrado e o impacto sobre as metas de trabalho do TPM _ não depende apenas da qualidade do projeto instrucional ou do desempenho do instrutor, mas, sobretudo, do suporte gerencial e dos pares encontrado pelo treinado, bem como das características da clientela indicada. O Suporte Organizacional tem sido relatado na literatura como crucial para a transferência de treinamento. Conforme Freitas, Borges-Andrade, Abbad e Pilati (2006, p.490) o impacto de treinamento no trabalho é avaliado em termos da transferência de treinamento e pela influência dessa estratégia sobre o desempenho posterior do treinado. Segundo esses autores, transferência de treinamento “é a aplicação correta, no ambiente de trabalho, de conhecimentos, habilidades e atitudes (CHAs) adquiridos nesses eventos instrucionais” (ib. id. p. 490). Segundo Abbad et al. (2001, p. 2), Impacto do Treinamento no Trabalho é a influência da ação sobre o desempenho, motivação e atitudes do treinado. É classificado em dois tipos: avaliação de impacto em amplitude ou em largura, Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT 171 que mede os efeitos gerais do treinamento sobre o desempenho do treinado e avaliação de impacto em profundidade, que mede o efeito do treinamento em tarefa estritamente relacionada ao conteúdo específico do curso. Entretanto, para Kozlowski et al. (2000, p.159), transferência de treinamento tem apenas duas distinções: transferências horizontais, que ocorrem por meio de diferentes rumos ou contextos, no mesmo nível da tarefa executada pelo indivíduo; e as transferências verticais, que se referem ao link entre os resultados do treinamento no indivíduo e na organização. A Avaliação de Impacto utilizada na Eletronorte é a de profundidade e de amplitude, uma vez que avaliam a transferência das competências adquiridas para o trabalho dos treinados, o suporte organizacional encontrado e o impacto sobre os indicadores específicos do TPM. Os resultados encontrados nas Avaliações de Impacto apontam para a necessidade de a Eletronorte prover maior suporte gerencial e social à transferência de treinamento, a fim de aumentar o impacto das ações de educação na empresa, uma vez que esse impacto tem sido mediano, na maioria dos eventos. 6. Conclusão Um sistema de avaliação de treinamento dessa natureza está apoiado em uma mudança de longo prazo nos valores empresariais, de forma a incluir na organização a cultura da mensuração contínua e objetiva dos processos e dos resultados das ações de educação empresarial. Os dados produzidos pelas avaliações de treinamento fornecem feedback contínuo ao sistema de gestão da educação corporativa na Empresa. A Eletronorte monitora a qualidade do projeto instrucional das ações de educação, assim como o impacto percebido no trabalho dos indivíduos treinados. Nas avaliações de impacto, a categoria pior avaliada pelos treinados tem sido o suporte organizacional, mais especificamente, o suporte psicossocial (gerencial e dos pares). Embora a Eletronorte tenha desenvolvido inúmeros Programas de Desenvolvimento Gerencial, ainda é percebido, pelos treinados, que falta encorajamento, acompanhamento e orientações dos gestores para a transferência das habilidades adquiridas em ações de educação. A empresa necessita investigar em que extensão o suporte organizacional é percebido pelos empregados, ou seja, o quanto ela valoriza a transferência das habilidades adquiridas em treinamento. Hoje, a cultura da empresa está consolidada no que se refere à avaliação de reação e de impacto, pois a maioria dos treinados e respectivos gestores colabora espontaneamente com o Sistema de Avaliação da organização. 172 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Na economia do conhecimento, informações precisas, fornecidas por análises científicas, são fatores-chave para as empresas alcançarem sucesso. Os dados encontrados nas avaliações são capazes de agregar valor ao processo de gestão da educação na Eletronorte. Referências ABBAD, G; SALLORENZO, L. H. Desenvolvimento e validação de escalas de suporte à transferência de treinamento. Revista de Administração da USP, São Paulo, v. 36, n. 2, p. 33-45, abr./jun. 2001. BORGES-ANDRADE, J. E. Avaliação Somativa de Sistemas Instrucionais. Tecnologia Educacional,. v..XI, n.46, p. 29-39,1982. CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL S/A - ELETRONORTE. Manual do Sistema de Avaliação de Treinamento – SAT. Brasília, 2006. 84 p. CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL S/A – ELETRONORTE. Plano Estratégico da Eletronorte. Brasília, 2006. FREITAS, I.A. de et al. Medidas de impacto de TD&E no trabalho e nas organizações. In: BORGES-ANDRADE, J. B.; ABBAD, G.; MOURÃO, L. Treinamento, Desenvolvimento e Educação em Organizações e Trabalho. Porto Alegre: Artmed Editora S.A.,2006. cap. 24, p. 489-504. HAMBLIN, A. C. Avaliação e controle de treinamento. São Paulo: McGraw-Hill, 1978. KOZLOWSKI, S. W. J. et al. A Multilevel approach to training effectiveness: enhancing horizontal and vertical transfer. In: KOZLOWSKI, S.W.J. Multilevel Theory: research and methods in organizations. San Francisco: Jossey-Bass, 2000. cap. 4, p. 157-210. SILVA, M. E. Gestão da Educação Corporativa na Eletronorte: estratégias visando à consolidação da Universidade Corporativa Eletronorte – UCEL. In: RICARDO E. J. (Org.) Gestão da Educação Corporativa. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007, cap. 10, p. 109-121. 173 Breve panorama da educação corporativa no Brasil; apresentação de resultados de pesquisa 13 TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro Kátia Carlini Gerente de Treinamento, Diretoria de Gestão de Pessoas da TAM Gleiva Rios de Araújo Félix Instrutora de Treinamento, Diretoria de Gestão de Pessoas da TAM As empresas, visando otimizar sua produtividade, bem como tornar-se competitivas no mercado, procuraram capacitar e desenvolver seus funcionários para que estes pudessem pôr em prática as competências específicas para suas áreas de trabalho. Tal situação das organizações exigiu a abordagem da educação corporativa, a qual contempla a gestão da educação no ambiente macroorganizacional, situação presente em diversos segmentos empresariais, com o foco em resultados para a empresa e funcionários. Os programas de educação corporativa se destacam como um sistema de desenvolvimento de pessoas e talentos humanos alinhados às estratégias dos negócios. As empresas passam a ter parceiros fundamentais no processo de mudança dentro das organizações, a educação voltada para a empresa é evidenciada como poderosa fonte de vantagem competitiva. A busca pelo autodesenvolvimento das pessoas e a conscientização da necessidade de aprendizagem contínua, leva as organizações a se comprometerem com a educação de seus funcionários, implantando sistemas educacionais que privilegiam o desenvolvimento de atitudes, postura e habilidades. As empresas buscam alinhar as pessoas às estratégias organizacionais por meio da educação corporativa. (ÉBOLI, 1999, p. 125) O desafio da educação corporativa em desenvolver o conhecimento humano parte, sobretudo, de esforços da administração da empresa e, mais especificamente, da Diretoria de Gestão de pessoas que, orientada aos objetivos da corporação, busca alcançar os melhores níveis de produtividade de seus funcionários, gerenciando as necessidades de aprendizagem, o desenvolvimento de soluções e o conhecimento na empresa. Atualmente, os profissionais estão em uma fase de obtenção de um número elevado de informações que precisam ser transformadas em conhecimento e em competências essenciais para o desenvolvimento humano na organização. Essa busca constante pelo aprimoramento como forma de atingir a eficácia empresarial trouxe o Treinamento em cascata. Trata-se de uma forma de identificar deficiências, corrigi-las imediatamente, reciclar equipes e garantir a qualidade dos serviços com pouco investimento e ganho de escala. O processo de mudança e constante profissionalização envolvida num mercado competitivo como é o setor turístico também foi evidenciado. A busca das empresas aéreas brasileiras para se manterem no mercado, assim como a demandante expansão, causou uma busca contínua pela capacitação 174 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas profissional dos colaboradores. Sem dúvida, é uma das funções da educação corporativa garantir o funcionamento do processo, evitando, ao mesmo tempo ser transformada em uma bela edificação que não atinge os resultados necessários à eficácia e sucesso da empresa. Conforme Mundim e Ricardo (2004, p. 96) afirmam: Por não possuir uma estratégia de educação corporativa definida, muitas empresas investem tempo e dinheiro em programas miraculosos que prometem ser a panacéia para todos os problemas de aprendizado da firma. “Isso” faz com que a educação continuada pareça ao empregado uma seqüência de modismos, sem propósitos evolutivos ou fio de continuidade. “Isso” também explica o fracasso de muitos projetos, o desperdício de investimento e trabalho, e a descontinuidade de propósitos. Ao contrário do contexto citado por Mundim e Ricardo, a idéia principal do treinamento em cascata é evitar modismos e inovar com algo básico e efetivo. Dessa forma, “treinar o treinador” implica uma mudança cultural significativa, principalmente porque não faz parte da cultura ocidental, e muito menos sul-americana, esse tipo de abordagem. No entanto, segundo Meister (1999, p. 15), os funcionários de todos os níveis precisam desenvolver meios de visualizar uma melhoria ou uma nova direção e buscar o comprometimento ativo dos outros para tornar realidade a visão compartilhada. Costuma-se treinar o empregado e exigir que este chegue em seu posto de trabalho com capacidade de aplicar, na prática, todo o conhecimento teórico adquirido em sala de aula. Assim, a proposta é treinar os Gestores, que deverão ser responsáveis pelos treinamentos e pela garantia da capacitação dos demais dentro da cadeia hierárquica. A qualidade do trabalho de cada nível hierárquico é mensurada pelos resultados que seus subordinados estão apresentando. Sob a responsabilidade da Universidade Corporativa (Academia) estão os treinamentos iniciais, a capacitação e comunicação com Gestores, a capacitação dos multiplicadores, bem como o fornecimento de assuntos e materiais para que cada um desenvolva o seu trabalho como treinador. Dessa forma, será possível observar uma grande melhora nessa cadeia de serviços, pois cada empregado fica responsável pela capacitação e qualidade de trabalho de seu subordinado, e a ação de treinamento torna-se uma constante, não terminando ao final de cada aula. 1. Definição O treinamento em cascata consiste em ações de treinamento, primeiramente com o topo da cadeia hierárquica. Acreditamos que se o gestor fizer parte do processo de capacitação de alguma forma, os resultados que podem ser obtidos com a efetividade dos treinamentos dos subordinados serão muito mais eficazes. TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro 175 Após o envolvimento do topo da cadeia hierárquica, os treinamentos do segundo nível são iniciados. Esta etapa envolve os treinadores ou multiplicadores, que serão responsáveis por transmitir os conhecimentos propostos aos seus subordinados. Dessa forma, eles tornam-se responsáveis pela produtividade da equipe, sendo sua performance mensurada a partir desses resultados. 2. Objetivos do Treinamento em cascata – Diminuição da carga horária e dos custos com treinamento, aumentando o número de colaboradores capacitados e ganho de escala; – Desenvolvimento e reciclagem contínuos das equipes, melhorando a eficiência operacional devido ao currículo estar em forma de Educação Continuada; – Otimização do trabalho dos líderes, agindo mais como educadores do que operacionalmente; – Comprometimento de todos nas ações de treinamento e nos resultados; – Melhoria do fluxo de comunicação de novos produtos, procedimentos e promoções; – Aumento do conhecimento, motivação e retenção de empregados; – Agilidade em mensurar os resultados das ações de treinamento. 3. Aplicação Para descrever a aplicação dessa proposta de treinamento, tomaremos como exemplo um currículo de treinamento inicial (necessário para que um empregado possa começar a realizar suas atividades). Iniciamos o trabalho com o envolvimento do topo da cadeia hierárquica. Como? O processo educativo na empresa pertence a um ciclo de desenvolvimento contínuo, o qual se inicia por meio do levantamento de necessidades de melhorias e prossegue para o planejamento do treinamento. Este deve ser exeqüível e avaliado continamente, conforme segue na Figura 1. A proposta é consultar o gestor a respeito das necessidades de treinamento e desenvolvimento de seus liderados, apresentar soluções, metodologias e materiais para serem validados. Dessa forma, esse gestor passa a ser parte do processo de capacitação, tornando-se também responsável pelo sucesso do mesmo. 176 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Figura 1. Ciclo de desenvolvimento. Fonte: FELIX, Gleiva. Educação Corporativa: um estudo de caso em uma empresa de transporte aéreo. São Paulo: UAM, 2006. O gestor é, então, informado em relação aos resultados que devem ser esperados dessa ação de treinamento e orientado a respeito da verificação em relação à sua equipe. Ele será responsável por verificar se a equipe está aplicando corretamente os conhecimentos adquiridos. O trabalho do gestor é avaliado pelos resultados de sua equipe. Após essa ação, são iniciados os treinamentos do segundo nível da cadeia hierárquica, ou seja, os treinadores ou “multiplicadores”, como os chamamos na Academia da TAM. Os multiplicadores normalmente são líderes de grupos de empregados e responsáveis pelo andamento desse grupo. O que ocorre é que esses líderes realizam atividades muito operacionais, elaborando escalas de trabalho, orientando a respeito de situações adversas que podem ocorrer durante o trabalho ou substituindo empregados em diversos postos, pois costumam ter um conhecimento grande da operação. Na verdade o trabalho desse líder acaba não sendo o de liderar pessoas, mas, sim, o de manter a ordem disciplinar e de apoiar o help-desk. TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro 177 Com essa proposta de líder-treinador, podemos aproveitar o grande conhecimento operacional desses empregados, transformndo-os em educadores, coaches e, posteriormente, em gestores de pessoas. Eles serão responsáveis por dar continuidade aos treinamentos ministrados na Academia, reforçando informações, monitorando a aplicação prática, garantindo que seu liderado tenha absorvido os conhecimentos e exigindo que estes cumpram com todos os procedimentos, de acordo com os treinamentos ministrados. Dessa forma, o líder passa a ser responsável, não somente pelas pessoas, mas pela capacitação da equipe e, conseqüentemente, pelos níveis de eficiência operacional desta. Afinal, os resultados de seu trabalho serão medidos também através desses indicadores. O novo empregado recebe seu treinamento inicial básico na Academia de Serviços (ministrado pela equipe de treinamento). Esse treinamento é continuado “in-loco”, ministrado pelo líder. Dessa forma, o empregado é capaz de absorver um percentual muito superior de conhecimentos, pois tem a oportunidade de praticá-los logo após tenha recebido a teoria. Tal procedimento visa a evitar a situação na qual apenas 30% dos conhecimentos são absorvidos quando a prática não se segue à teoria. 4. Análise SWOT A seguir, será apresentada a análise dos pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças previstos no Treinamento em Cascata. Conforme a definição da wikipedia: análise SWOT é uma ferramenta utilizada para fazer análise de Cenário (ou Análise de Ambiente), sendo usado como base para gestão e planejamento estratégico de uma corporação ou empresa. É, verdadeiramente, um sistema simples para posicionar ou verificar a posição estratégica da empresa no ambiente em questão. Aqui, foi utilizada com o objetivo de tornar a prática do Treinamento em Cascata algo claro, simples e eficaz. Pontos Fortes – Envolvimento de vários níveis da cadeia hierárquica nos processos de capacitação; – Redução de tempo com atividades de treinamento em sala de aula; – Agilidade e ganho de escala; – Otimização dos investimentos; – Possibilidade de aplicar rapidamente na prática, os treinamentos teóricos; 178 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas – Maior absorção e retenção dos conhecimentos; – Reciclagens contínuas e desenvolvimento das equipes; – Educação continuada; – Desenvolvimento de líderes; – Oportunidade de feedbacks contínuos e imediatos; – Visualização imediata de qualquer falha no processo de capacitação; – Otimização nas ações de levantamento de necessidades de Treinamento. Pontos Fracos – Contato por período de tempo menor dos últimos níveis da cadeia hierárquica com as equipes da Academia; – Início das atividades sem que os empregados disponham de todos os conhecimentos necessários _o que não é bem aceito por nossa cultura sul-americana; – Dificuldade em controlar os treinamentos ministrados pelos líderes; – Dificuldades em verificar, em curto prazo, se as informações transmitidas pelos líderes estão conforme os procedimentos ditados pela Academia. Oportunidades – Comprometimento dos vários níveis hierárquicos com os resultados dos treinamentos; – Diminuição da carga-horária de treinamento na Academia; – Diminuição da disponibilidade dos empregados para a escala em menor espaço de tempo, pois podem iniciar suas atividades antes; – Possibilidade de investimentos com mais atividades de capacitação; – Melhoria nos processos de comunicação; – Aumento da motivação; – Diminuição do turnover; – Melhoria nos níveis de eficiência operacional; – Melhoria na qualidade dos serviços prestados; – Facilidade em mensurar os resultados das ações de treinamento; TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro 179 – Ganho de espaço na Academia, devido à menor necessidade de utilização de salas de aula. Ameaças: – Envolvimento insuficiente do Gestor (topo da cadeia hierárquica) no processo; – Comprometimento insuficiente dos líderes-multiplicadores no processo de capacitação de seus liderados; – Não cumprimento das orientações e procedimentos fornecidos pela Universidade corporativa aos líderes; – Não realização dos feedbacks necessários por algum degrau da cadeia hierárquica; – Dificuldade em controlar a quantidade de treinados e a veracidade destas informações; – Dificuldade em controlar imediatamente a qualidade dos treinamentos ministrados pelos multiplicadores; – Líderes com informações desatualizadas em relação às ministradas nos treinamentos; – Falta de tempo devido à rotina aeroportuária. 5. Responsabilidades Dos Gestores (primeiro nível da cadeia hierárquica): 180 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Dos líderes (multiplicadores): Da Academia: – Ministrar os treinamentos iniciais; – Elaborar o processo de levantamento de necessidades de treinamento com os gestores; apresentar as soluções, metodologias e materiais; – Prover treinamentos aos multiplicadores; – Fornecer materiais para que os multiplicadores possam treinar seus empregados; – Propor temas para mini-treinamentos semanais; – Aplicar mensalmente testes nas equipes para garantir que os treinamentos sejam ministrados corretamente e que os conhecimentos sejam absorvidos por todos; – Informar gaps de conhecimento aos líderes; – Cruzar os dados de eficiência operacional das equipes com os resultados das avaliações de conhecimento. Dessa forma, é possível mensurar qualitativa e quantitativamente a eficácia das ações de treinamento; – Informar todos os níveis hierárquicos dos resultados obtidos. TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro 6. 181 Indicadores de resultados Podemos considerar os seguintes indicadores de resultados dessa metodologia de treinamento: – Avaliação de reação dos alunos em relação aos: i. Treinamentos ministrados pela Academia; ii. Treinamentos ministrados pelos líderes; iii. Suporte fornecido pelos líderes; – Avaliação de retenção após o término do treinamento teórico na Academia; – Avaliação de retenção após o período de treinamento in-loco; – Nível de eficiência operacional individual; – Nível de eficiência operacional de uma equipe; – Turnover de uma equipe (este indicador deve ser utilizado em médio prazo) Cruzando esses dados, seremos capazes de medir: – A eficácia dos treinamentos ministrados pela Academia; – A eficácia do treinamento e suporte fornecido pelo líder. Conclusão As novas exigências de mercado provocaram diferenças entre o departamento de treinamento convencional e a implantação da premissa de educação corporativa da empresa, conforme apresentadas na tabela a seguir. Durante o programa desenvolvido pela educação corporativa, a estratégia da empresa deve ser bastante trabalhada e a cultura organizacional que foi apresentada no momento da integração do funcionário à empresa não pode estar desvinculada do dia-a-dia do funcionário. É importante considerar que toda a aprendizagem do novo funcionário é um processo contínuo que será ampliado e desenvolvido com o envolvimento do funcionário e com o apoio continuo dos líderes nos aeroportos/áreas. As novas ações educacionais existentes hoje nas empresas são frutos de um mercado altamente competitivo. A busca pela antecipação aos problemas precisa ser evidenciada para que essa área da empresa não trabalhe apenas com as dificuldades já ocorridas. Os funcionários precisam se sentir integrados ao processo para que possam contribuir para o êxito da empresa. 182 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Quadro 1. Treinamento convencional x Educação corporativa. Fonte: FELIX (2006). O sistema educacional, aliado às necessidades organizacionais, promove um elevado nível de aprendizagem para os funcionários e o conseqüente desenvolvimento da empresa por meio da contribuição das equipes comprometidas com os resultados empresariais. Isso, sem dúvida, torna-se um real e vital diferencial mercadológico que deverá ser almejado por uma parcela cada vez mais significativa de empresas dos mais diversos setores, sobretudo de serviços. A partir dessa análise, podemos concluir que os pontos fortes e as oportunidades predominam nessa proposta. Da mesma forma, podemos perceber que as ameaças são contornáveis em médio prazo, pois, à medida que os resultados dessa ação começam a ser percebidos, o comprometimento de cada degrau da cadeia hierárquica passa a ser maior. Assim, pode-se concluir que vale a pena investir na proposta de Treinamento em Cascata. Referências EBOLI, Marisa. Universidades corporativas: educação para as empresas do século XXI. São Paulo: USP, 1999. FELIX, Gleiva. Educação Corporativa: um estudo de caso em uma empresa de transporte aéreo. Dissertação (Mestrado em Hospitalidade). São Paulo: UAM, 2006. TAM: Academia de Serviços Cmte. Rolim A. Amaro 183 MEISTER, Jeanne. Educação Corporativa. São Paulo: Makron Books, 1999. MUNDIM, Ana Paula Freitas; RICARDO, Eleonora Jorge. (Orgs.) Educação corporativa: Fundamentos e práticas. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2004. Sites consultados: Conceito de análise SWOT. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/SWOT>. Acesso em: 12/09/2006. 14 A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas Cláudia Motta da Rocha Naves Coordenadora de Educação Corporativa da Fundação Unimed Professora no Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) Resumo – O presente artigo tem como objetivo apresentar o intenso processo de transformação pelo qual a Fundação Unimed vem passando, reconhecendose enquanto instituição propulsora de evolução pessoal e profissional, e corporativa, responsável e pela vanguarda do Sistema Unimed em toda sua área de abrangência, por meio da Gestão do Conhecimento e Responsabilidade Social. Acreditamos que só é capaz de provocar mudanças quem efetivamente está aberto a elas, dentro de um processo consistente, aberto e flexível. 1. Introdução – Sistema Unimed O Sistema Unimed possui características muito próprias, composto por instituições dos segmentos de saúde, seguros, administração e serviços, dentre outros, sempre organizados em sistema de cooperativas autônomas. Os quais, em conjunto, oferecem à sociedade uma gama de produtos e serviços de qualidade, alinhados com as necessidades do seu público. A base da organização deste sistema, para uma melhor compreensão de sua estrutura, é a Singular – Cooperativa de trabalho médico, constituída por um mínimo de 20 médicos graduados, de diferentes especialidades, e admitida no sistema após criterioso processo de inserção. As Singulares são organizadas em Federações, as quais dão suporte e orientação às ações dessas, que por sua vez são vinculadas à Unimed do Brasil, instituição responsável pela definição de diretrizes e políticas em nível macro-institucional. Atualmente o Sistema Unimed conta com um total de 378 Singulares, 21 Federações, o que nos dá um quantitativo de 98.000 (noventa e oito mil) médicos cooperados, 16.000 (dezesseis mil) colaboradores diretos e 30.000 (trinta mil) colaboradores indiretos. Um universo composto por profissionais que requerem equivalente grau de qualidade, quando o assunto se refere ao investimento em seus processos formativos e atualização profissional. A formação continuada dessa diversidade de públicos: médicos cooperados, dirigentes, e colaboradores de todo esse complexo, é uma necessidade premente e um desafio para todo o Sistema, face ao galopante avanço tecnológico, às rápidas transformações do mundo corporativo e ao nível de exigência cada vez mais verticalizado da sociedade pós-moderna. 186 2. O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A Fundação Unimed A fim de atender às demandas e especificidades de formação desses diferentes públicos, a Unimed do Brasil, criou há 11 anos a Fundação Unimed, à qual passou por um histórico de alterações no posicionamento da sua identidade. A última delas foi a criação da Universidade Unimed, voltado para a consolidação do perfil corporativo, tal qual adotado por dezenas de empresas no país, porém os dirigentes consideraram que os públicos estavam confundindo as identidades da Fundação Unimed com a Universidade Unimed, optando pela extinção da marca Universidade Unimed e fortalecimento da marca da Fundação. A Fundação Unimed é a responsável pela promoção da Gestão do Conhecimento e da Responsabilidade Social no Sistema Unimed, de forma a pesquisar, desenvolver e implementar, permanentemente, soluções de qualidade em educação, visando o aprimoramento contínuo das competências individuais e organizacionais nos segmentos de atuação do Sistema, analisando, estrategicamente, as mudanças e oscilações do mercado, com o intuito de disponibilizar produtos que se adequem às suas necessidades e demandas. Desta forma o corpo de dirigentes da instituição vem propor a elevação do nível de atuação da Fundação Unimed para agente de Transformação Social, através de ações educacionais, soluções tecnológicas e estratégicas, de forma a torná-la construtora de referencial crítico e formativo para o desenvolvimento científico, humano e social do ambiente corporativo do Sistema Unimed e de seus diferentes públicos: médico cooperado, dirigentes, colaboradores, fornecedores, clientes e sociedade brasileira. Com esta finalidade, a Fundação Unimed atua em três grandes eixos: – Gestão do Conhecimento, através da realização de cursos de pógraduação, aperfeiçoamento, curta duração, seminários e palestras, em nível de atualização médica, gestão e consolidação do perfil corporativo; – Desenvolvimento da Política Nacional de Responsabilidade Social, por meio do apoio e instrumentos para a realização de programas sociais e ambientais fundamentados na ética cooperativista e nos direitos humanos; – Política Nacional de Desenvolvimento Humano – Trabalho este, focado no processo de conscientização e compreensão da formação cooperativista do médico cooperado, os diferentes trabalhos que desempenha dentro do complexo Unimed e a importância do resgate de uma atuação voltada para uma prática cada vez mais humanizada da medicina. A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas 187 A Fundação Unimed é composta por profissionais comprometidos e envolvidos com o aprimoramento contínuo da oferta dos serviços e produtos que oferece ao Sistema. Para tanto, realiza projetos e programas internos de formação continuada, define metas e diretrizes estrategicamente planejadas e alinhadas com as necessidades do Sistema Unimed. Ações e Serviços Atualmente a Fundação Unimed oferece cursos de pós-graduação em: Auditoria em Saúde; Perícia Médica; Terapia Intensiva; Gestão Estratégica Empresarial; Gestão de Negócios em Saúde; Gestão de Risco em Saúde e Sexologia. Sempre em parceria com instituições de ensino superior, devidamente credenciadas pelos organismos competentes, e atendendo às prerrogativas legais para funcionamento e certificação. Oferece cursos de curta-duração distribuídos em dez áreas de conhecimento organizadas da seguinte forma: Comunicação - Marketing – Vendas; Contabilidade – Finanças; Cooperativismo; Crédito; Gestão Estratégica; Gestão de Pessoas; Jurídica; Medicina – Saúde; Provimento de Saúde - Recursos Próprios; Responsabilidade Social; e outros que se fizerem necessários por diagnóstico ou por demanda. Oferece também serviços de Assessoria de Gestão voltados para Planejamento Estratégico; Gestão de Risco/Gestão de Custos Assistenciais; Estudo de Viabilidade Econômica/Financeira; Recursos Próprios; Gerenciamento da Melhoria de Processos; Custos Hospitalares; Comercial e Marketing; dentre outros que tenham sido detectados em diagnóstico ou solicitados por demanda específica de determinada Singular. Educação Corporativa A Educação Corporativa é a ferramenta que propicia a melhoria contínua dos processos internos de cada instituição de forma que cada uma possa alcançar seus princípios organizacionais de forma coerente e consistente. É ela que efetivamente provoca a evolução da instituição em todos os seus aspectos, pois contempla as características de cada um, observa os talentos, as necessidades de formação, e a adequação das atividades. O Compromisso e a seriedade dos profissionais que estão à frente deste processo, em sistemas onde realmente haja este investimento, são fundamentais para que esta possa alcançar resultados cada vez mais positivos. Tanto para o crescimento pessoal, quanto para o profissional de todos os envolvidos em algum momento do processo. 188 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas 2.1 Princípios Educativos da Fundação Unimed A Fundação Unimed vem passando por intenso processo de realinhamento interno e reposicionamento conceitual no mercado, investindo em todo um conjunto de ações que levem à profissionalização contínua de sua atuação, pois acreditamos que só é capaz de provocar e conduzir a transformação aqueles que efetivamente estão abertos a ela. Essa postura vem gerando profunda reflexão e revisão dos valores e culturas internos. Acreditando, ainda, que esta nova estruturação favorece um ambiente colaborativo e de movimentos rápidos, onde a agilidade nas decisões permite maior abrangência e capacidade de inserção em suas áreas de atuação. Para tanto, percebe-se, tal qual expresso por Jeanne Meister “a instituição precisa abraçar a mudança de maneira proativa. A capacidade de ajustar e aperfeiçoar sistemas e processos passa a ser uma questão de sobrevivência.” A fim de garantir maior coerência e consistência em seus processos formativos a Fundação Unimed trabalhou a fundamentação de sua ação educativa, definindo profundamente seus princípios educacionais, em conformidade com as necessidades do Sistema e exigências apresentadas pela própria sociedade. Há que se destacar que a informação, na atualidade, é veiculada de forma ampla e acessível à todos que dela quiserem fazer algum uso, porém, a grande diferença se fará realmente no tratamento que será dado à ela, através da consistência da argumentação, e clareza de objetivos dos condutores e mediadores educacionais, de forma a possibilitar ao aluno da Fundação Unimed, a sistematização e construção de processos cognitivos dificilmente adquiríveis em outro local, tendo em vista a formação, experiência e competência dos seus professores, instrutores, e consultores, e o conhecimento acerca do próprio Sistema e suas particularidades. A figura a seguir procura ilustrar de maneira sistêmica os fundamentos da sua proposta educativa. Os pilares: Cooperativismo e Gestão do Conhecimento sustentam os 5º e 7º princípios cooperativistas, respectivamente: “Educação, Informação e Formação” e “Interesse pela Comunidade”, os quais se alinham com os pilares da educação apresentado por Jaques D’elors no relatório da Unesco de 1999: Aprender a APRENDER, aprender a FAZER, aprender a SER, e aprender a CONVIVER. Desta forma, todo o conteúdo curricular dos cursos oferecidos pela Fundação, darão sustentabilidade a esses princípios, a fim de garantir coerência educacional e estabelecer a unidade de linguagem educativa da instituição e no Sistema. Professores, consultores, e instrutores, que de alguma forma contribuem com a instituição, deverão estar alinhados a esses princípios enquanto porta-vozes da Fundação Unimed junto aos seus diferentes públicos A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas 189 dentro do Sistema Unimed, enquanto co-responsáveis pelo desenvolvimento da consciência e consistência corporativa. É desta forma que acreditamos que o Sistema se tornará cada vez mais fortalecido, por capital intelectualmente preparado para lidar com o inusitado, e que saibam fazer a correta leitura dos sinais e códigos dos seus contextos de atuação. Analisemos cada um dos princípios: 1. promover a aprendizagem contínua – é desta forma que a Fundação propõe a transformação social e contribui efetivamente com a sociedade; 2. viabilizar a disseminação do conhecimento, para seu correto fazer – enquanto gestora do conhecimento, este princípio faz parte da missão da Fundação Unimed; 3. promover o desenvolvimento cognitivo do SER autônomo e socialmente responsável – é um princípio que congrega a essência da Fundação Unimed; 4. promover a convivência pacífica e o desenvolvimento saudável da sociedade brasileira – conscientizar as pessoas da importância e do efeito das suas ações é contribuir verdadeiramente para uma sociedade melhor. Em seguida, definimos indicadores de desempenho, os quais serão sistematicamente monitorados: número de alunos a serem formados, índice médio de evasão admitido, produção científica, média de desempenho dos alunos, índice de satisfação média dos alunos dos cursos oferecidos pela Fundação, por segmento, e outros. Pretendemos também elaborar relatório circunstanciado, de forma a permitir a análise real quanto à qualidade de seus programas, sua contribuição para o desenvolvimento econômico, social, e educacional em sua área de influência, abordando aspectos, dentre os quais destacamos: número de alunos formados por ano; percentual médio de desistência; número de monografias aprovadas com nota acima de 95(noventa e cinco), número de trabalhos publicados pelos discentes e docentes por instituições especializadas; registrar as reformulações feitas no conteúdo programático, corpo docente, organização de carga horária e outros, relatar ações e informações acerca da atuação do egresso no mundo do trabalho, e outras informações que forem consideradas relevantes. Intempéries do cotidiano A Fundação Unimed atua hoje com um quantitativo médio de 45 turmas de pós-graduação, em processo formativo simultâneo, o que gera uma média de 1350 (hum mil trezentos e cinquenta) alunos por ano, em todo o território 190 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas nacional, suscetíveis à toda a sua diversidade e complexidades locais e/ou regionais. Um exemplo de uma situação inusitada que podemos relatar, recentemente vivenciada, ocorreu durante a viagem que um de nossos professores fazia para chegar à localidade onde o curso estava sendo realizado, quando há 90 km do local de acesso, a Polícia Rodoviária Federal bloqueou o trânsito da rodovia em função da manifestação de membros do MST – Movimento dos Sem Terra. A situação foi brevemente resolvida pelas autoridades competentes, e as aulas tiveram início com algumas horas de atraso, com a turma ainda incompleta. O que consideramos interessante destacar foi a forma como a instituição rapidamente se mobilizou para contribuir de forma positiva para a resolução do problema posto. Fosse através de contatos telefônicos para a Unimed mais próxima, para saber de mais detalhes acerca do evento, quanto providências de logística de hotelaria e translado do professor na possibilidade de cancelamento do módulo, além de buscar junto às autoridades locais o devido amparo à segurança do docente. Analisando a situação após o ocorrido, refletimos sobre a necessidade de monitoramento constante, e estudos da realidade onde estão sendo realizados os cursos. Desta forma demais medidas preventivas, com o objetivo de minimizar as possíveis intervenientes locais/regionais, possam ser tomadas para oferecer o suporte necessário ao professor, de modo que este possa conduzir sua mediação didática da melhor maneira possível, bem como preparar o aluno para situações imprevistas, sistematizando as informações e fazendo registro à parte para constituir o relatório final do histórico de realização da turma, procurando sempre retirar o melhor aprendizado. Os imprevistos fazem parte do cotidiano da Secretaria Acadêmica, tendo em vista que muitas vezes nossas ações estão diretamente vinculadas a posicionamentos de terceiros, em diversas partes do país. A preparação e disponibilidade da equipe de trabalho são fundamentais para a realização do melhor serviço, independente do tamanho do desafio. E quando nos referimos à preparação, queremos dizer que o grupo possui profundo conhecimento técnico operacional, visão do negócio da instituição, habilidade e agilidade para contornar os problemas que surgem. O que consideramos ser fruto de um trabalho contínuo de formação, troca de idéias, abertura para o diálogo e gestão do conhecimento dentro da própria instituição. Conceitual , procedimental, atitudinal Acreditamos que só é capaz de acender o processo de mudança quem a vivencia e reflete este posicionamento em suas ações. Uma instituição como A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas 191 a Fundação Unimed, responsável por conduzir este processo em todo um Sistema, cujas peculiaridades são imensas, tem que ter muita clareza de seus objetivos, bem como elevada capacidade para definir os graus de flexibilização de cada processo. Pois, acreditamos que quando se lida com o incentivo e oferta de formação continuada em diversas modalidades, para diferentes segmentos e níveis de qualificação dos públicos com os quais se atua, cada atendimento deve ser acompanhado observando-se toda sua singularidade e especificidades contextuais. O primeiro passo para a transformação institucional é conceitual – A Fundação Unimed vem vivenciando este processo de ruptura de paradigmas de maneira muito forte quando se propõe a transformar-se, efetivamente, de uma Instituição Comercial em uma Instituição Educacional, e o que isso significa verdadeiramente, no que se refere à mudanças de atitudes e concepções que se refletem nas suas relações internas e externas, nas posturas e mudanças de processos anteriormente sistematizados. A discussão coletiva e participativa acerca dessa definição e sua conclusão, constitui-se em premissa básica para se ampliar o significado da Fundação Unimed, sua realidade e perspectivas dentro do Sistema. O segundo passo é processual – é preciso construir o caminho a ser seguido – como chegaremos lá? O grupo deve ser responsável pelo ritmo das suas mudanças. Nesse ambiente, as técnicas de aprendizagem adquirem muita importância porque as chances de uma organização transformar-se com sucesso dependem diretamente da capacidade de seus colaboradores de aprender novos papéis, e habilidades, provocando a evolução da instituição, ativando a inteligência corporativa, e a criatividade. Neste processo evolutivo a energia do colaborador é fundamental para a economia do conhecimento. E o terceiro passo é a mudança atitudinal – É o resultado propriamente dito do trabalho. Onde os participantes demonstram sua consciência e clareza quanto a natureza do trabalho educacional da Fundação Unimed. De que forma cada núcleo de serviços deverá atuar em suas ações específicas, observando os aspectos educacionais, compreendendo de que forma que estes mesmos aspectos permeiem seu cotidiano, suas práticas, a forma de relacionamento e posicionamento da instituição no Sistema e junto ao seu público, fortalecendo sua imagem e mais do que isso, sua credibilidade. Provocando transformações de vanguarda Paulo Freire nos apresenta, em suas Cartas Pedagógicas (1997), o seguinte posicionamento: O que não é, porém, possível é sequer pensar em transformar o mundo sem sonho, sem utopia, ou sem projeto. A transformação do mundo necessita tanto do sonho quanto a indispensável autenticidade deste depende de quem sonha às 192 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas condições históricas, materiais, aos níveis de desenvolvimento tecnológico, científico do contexto do sonhador. Os sonhos são projetos pelos quais se luta. Num cenário onde as relações de prestação de serviços passa pelo valor agregado de cada serviço realizado com sucesso, numa economia onde impera a força do conhecimento, a mudança conceitual trata de novos questionamentos até então não pensados. Dentre os quais podemos destacar: Como formar professores efetivamente alinhados com a ação educativa da Fundação Unimed, tendo em vista a diversidade geográfica de suas residências? Podemos utilizar da Educação à Distância, e fazemos isso, pois sabemos que ela leva a informação, provoca formação, mas até que ponto define a mudança de postura dos mediadores educacionais dentro do interior da sala de aula? O que define claramente a qualidade de uma apostila, ou de uma apresentação em Power-Point, amplamente utilizada por professores das mais diversas instituições de ensino? Como definir com clareza as expectativas de determinada turma sem perder o foco de formação proposto pela Instituição, a bem do Sistema, sua sustentação, competitividade e evolução? Cabe à Fundação Unimed encontrar as respostas para estas e outras tantas questões que hoje fazem parte do nosso cotidiano dentro de um sistema tão complexo e diverso. Onde a peculiaridade é a regra e não somente a exceção. Trazendo à tona questões como: a necessidade de fontes de financiamento previamente definidas para o desenvolvimento de cada projeto e pesquisas, investimento contínuo no futuro e no posicionamento da instituição que traz consigo a diferença entre a excelência e o status mediano. É pensando nisso que estamos propondo o investimento em pesquisas de cenários para algumas especialidades médicas, num trabalho piloto, a fim de nos posicionarmos à frente e na vanguarda dos acontecimentos, pois, enquanto condutores e responsáveis pelo processo contínuo de transformação do Sistema em que nos inserimos e da sociedade, nos compete aprimorar o conhecimento do médico cooperado, dirigentes, e colaboradores do Sistema Unimed quanto às diferentes facetas e necessidades para sua evolução profissional e pessoal, bem como o desenvolvimento da atitude socialmente responsável e cidadania planetária. Portanto, há que se promover o desenvolvimento contínuo do pensamento e compreensão da potencialidade e dimensão formativa da Fundação Unimed, a partir da ação coesa de seus dirigentes e colaboradores, num esforço coletivo para o fortalecimento cada vez maior da sua identidade, e referência para o Sistema. A transformação pela educação corporativa provocando transformações internas, intensas e sistêmicas 193 Investimento em Tecnologia Atenta às demandas da modernidade a Fundação Unimed vem fazendo alto investimento em pesquisas tecnológicas no mercado que proporcionem a melhor solução para a oferta de Educação a Distância (EAD), de qualidade. Nesta perspectiva a Fundação Unimed contatou várias instituições que oferecem e atuam com LMS (Learning Manegement Sistem), a fim de avaliar suas propostas de prestação de serviços, levantando custos fixos e variáveis, para que possamos realizar um trabalho de qualidade que atenda às expectativas do Sistema Unimed neste novo formato educacional. A Fundação Unimed vem se preparando para atuar maciçamente na oferta de treinamentos corporativos sob demanda na modalidade à distância, transformação de conteúdo presencial para treinamento corporativos semipresenciais e à distância, e estabelecimento de parcerias para a oferta de cursos de pós-graduação na referida modalidade, que permitam interação, provoquem a mudança de postura do participante e possam romper com a cultura da formação estritamente presencial. A EAD é mais uma possibilidade, e muito mais do que mediação pedagógica, é a concretização do encontro entre o sujeito e o seu objeto de desejo: o conhecimento. A Educação à Distância é a realidade e o futuro, através da conectividade, interatividade, ampliação da visão de mundo, sistematização coerente do conhecimento adquirido para o conhecimento transformador, num processo de mudança de valores, que requer do aluno empenho e disciplina, aplicação e lucidez quanto ao alcance de seus objetivos. Enfim a maturidade A Fundação Unimed está em permanente processo de evolução, sua lapidação, tal qual diamante, vem sendo feita pouco a pouco mas consistentemente, ora mais profunda, ora mais exigente, o que difere muito de revoluções vazias. Atualmente, suas contribuições vem sendo cada vez mais maduras, sustentadas pela experiência, por conhecimento reflexivo acerca do Sistema em que se insere, procurando garantir a dimensão educacional e o posicionamento estratégico do Sistema Unimed na sociedade, como eixos definidores de planos e projetos de ação. Referências MEISTER, Jeanne C. Educação Corporativa: a gestão do capital intelectual através das Universidades Corporativas. São Paulo: Makron Books, 1999. 194 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000. EDUCAÇÃO: um tesouro a descobrir . 3. ed. São Paulo: Cortez: Brasília, DF: MEC: UNESCO. Relatório para a UNESCO da comissão internacional para o século XXI. 1999. Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil 15 195 Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil Luiz Claudio Medeiros Biagiotti Capitão-de-Fragata (T), Chefe do Departamento de Ensino a Distância Resumo – A questão dos custos envolvidos com a implementação e o desenvolvimento de programas de Educação a Distância em uma corporação é bastante importante e significativa. O principal objetivo em se efetuar um acompanhamento de custo é verificar o custo x benefício dos programas. Cada corporação, em função de suas características, cria os seus indicadores e sua sistemática de acompanhamento. No caso da Marinha do Brasil, por se tratar de uma instituição que não visa fins lucrativos, a preocupação com os custos envolvidos se dá mais pela necessidade de se verificar a economia de recursos obtida, ao se comparar o custo oferecido pela modalidade de EAD e efetuar a comparação com o mesmo curso se oferecido de maneira presencial. Palavras Chave: Custos, Educação a Distância (EAD), Educação Coorporativa (EC). 1. Introdução A Marinha do Brasil é uma das instituições pioneiras no País a utilizar a modalidade educação à distância. Seu uso data de dezembro de 1939, ocasião em que a Escola de Guerra Naval começou a se utilizar de material didático impresso para os militares do posto de Capitão-Tenente, que estavam na faixa de antigüidade para cursar um Preparatório de Comando para Oficiais. Um fato importante a se ressaltar, é que a Marinha instituiu esse curso apenas em dois meses após, a primeira escola de cursos preparatórios por correspondência (o Instituto Monitor) inicia suas atividades, demonstrando com isso que a Marinha desponta na frente de diversas corporações, com o que havia de mais moderno. A utilização do material impresso e o seu envio por correspondência, a chamada primeira geração do ensino a distância, funcionou a contento, tanto que continua a ser utilizada nos dias atuais. Atualmente nos encontramos na terceira geração do ensino a distância, a geração digital, e a Marinha desde o ano 2000, desenvolve algumas de suas atividades da Educação Corporativa, por meio de programas de Educação a Distância via web. 196 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas A passagem da primeira para terceira do ensino a distância, foi direta, sem que tivessem sido realizadas algumas ações da chamada segunda geração, a geração analógica, onde eram desenvolvidas as atividades de EAD, por meio de mídias, como rádio, cassetes, televisão, etc. 2. Desenvolvimento 2.1 Como se deu a Implementação Ao iniciar as atividades de Educação Corporativa pela modalidade da Educação a Distância, no ano de 1939, a Marinha passou a enviar via correios o material didático impresso, o qual seria lido pelos alunos, para que posteriormente fossem submetidos a uma prova. Tal material tratava-se de publicações elaboradas na própria Marinha, e que eram restituídas ao final do curso, para serem reaproveitadas na turma seguinte. Durante sessenta anos os cursos à distância continuaram a ser realizados desta maneira. Outros modos de Educação Corporativa desenvolvidos foram os cursos e os treinamentos presenciais realizados nos Centros de Instrução, nos Centros de Adestramento e nas Escolas de Marinha. A partir do ano de 1999, iniciaram-se os esforços no sentido de oferecer cursos a distância via web. Tal ação era bastante viável, uma vez que o principal fator que encarece tal iniciativa, a infra-estrutura de rede, já existe na Marinha. Começou-se a estudar, como que, partindo da infra-estrutura existente, poderia se implantar um curso via computadores. Nessa ocasião foi feita uma pesquisa junto às Universidades conveniadas com a Marinha do Brasil, onde foi constatada a necessidade de se utilizar um software que atuasse como uma sala de aula, ou sala, um ambiente virtual de aprendizagem, e também a preparação do material adequado, de modo que fosse bastante atraente e interativo. Para continuar com a implementação da educação via web, foi necessária a contratação de uma empresa de consultoria, que além de fornecer o ambiente virtual de aprendizagem, prepararia o material didático e qualificaria uma equipe da Marinha do Brasil na realização de tais atividades. Pode-se dizer que essa iniciativa, em termos de educação a distância via web, foi a mais onerosa até os dias atuais, porém o custo benefício foi válido, uma vez que a partir desse momento passamos a adquirir as competências necessárias para desenvolver os próximos cursos. O resultado dessa iniciativa foi o oferecimento de um curso de Organização & Métodos, no ano de 2000, para 17 alunos. Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil 197 No ano seguinte, a equipe que adquiriu competências para atuar no segmento da Educação a Distância, começou a se aprimorar nos estudos, sendo que alguns foram fazer curso de Mestrado em Educação a Distância, e outros Especialização em Educação a Distância. A exceção de um militar, cujo curso, foi feito às expensas da Marinha do Brasil, os demais realizaram seus cursos por conta própria, devido ao interesse que o assunto despertou nessas pessoas. A partir de suas formações, estas pessoas passaram a atuar como multiplicadoras, fazendo isto de forma oficial, por meio da criação de um Curso de Capacitação para Autores e Tutores em EAD. A partir da criação deste curso, a formação de todo o pessoal das equipes multidisciplinares que desenvolvem cursos, foi realizada dentro da própria Marinha do Brasil, a custo baixo. Os cursos voltaram a ser oferecidos a partir do ano de 2002, desta feita, dois cursos foram oferecidos, através do Ambiente Virtual de Aprendizagem e-Proinfo, ambiente gratuito, cedido através de um convênio firmado entre o Ministério da Educação e a Marinha do Brasil. No ano de 2003, foram oferecidos cinco cursos nessa modalidade, sendo que desta vez, o ambiente utilizado foi o Teleduc, desenvolvido pela Universidade de Campinas. A mudança de ambiente virtual deu-se em função da possibilidade do seu servidor ser instalado fisicamente na Diretoria de Ensino, o que aumentava os requisitos de confiança, de segurança, de rapidez e de flexibilidade. Tal fato gerou um custo de aquisição de um microcomputador para servir como servidor dedicado. Desde então, os cursos vêm aumentando de uma forma exponencial e continuam a ser oferecidos sem nenhum custo para a marinha, visto que as atualizações de versão são gratuitas e disponibilizadas pela Universidade de Campinas. 2.2 O Quadro Atual Atualmente a Marinha do Brasil possui 36 cursos sendo ofertados na modalidade de educação a distância, para os seus servidores, e neste ano a previsão é de 1500 alunos virtuais. No espectro de cursos, já existem alguns destinados à comunidade dos marítimos, podendo esses cursos serem realizados via internet.. Os cursos a distância da Marinha do Brasil, são desenvolvidos em oito instituições distintas, sendo que nessas instituições existem equipes multidisciplinares, que foram capacitadas por meio do Curso de Capacitação de Autores e Tutores em EAD, e outros capacitados em Webdesign. 198 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas O curso de webdesign é realizado anualmente para cerca de dez servidores, “in-house”, por meio de uma empresa terceirizada, vencedora do processo de licitação realizado, onde normalmente, se consegue valores bem abaixo dos praticados no mercado. Para permitir que os servidores tenham um local de acesso adequado, nos pólos com grande concentração de militares existem as “Salas de EAD”, que são compartimentos em local de fácil acesso em uma instituição militar dentro desses pólos, equipados com cerca de dez micro-computadores, com a finalidade principal de realizar os cursos a distância e secundária de inclusão digital. Atualmente existem 8 “Salas de EAD” espalhadas pelo território Nacional. Cada sala custou em média R$ 25.000,00 para os cofres da Marinha do Brasil. É constante a preocupação com a manutenção da capacitação do pessoal envolvido com o ensino a distância. Para tal é destinada certa quantia em recursos para a realização de cursos de atualização e para a participação em seminários, congressos, workshops, etc. 2.3 O Quadro Futuro Analisando a situação presente e tomando como base os questionários de final de curso recebidos, constata-se que ainda é necessário efetuar algumas ações visando aprimorar o ensino a distância. Dentre as ações futuras, podemos citar a continuação da implantação de “Salas de EAD” em novos pólos de concentração de militares, fora e dentro da sede da Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro. Pensa-se na implementação de um sistema de vídeo-conferência, o que consequentemente, gera a necessidade do aumento da largura de banda de telecomunicações. Estão sendo analisadas diversas soluções, algumas delas, não dedicadas 24 horas por dia, o que torna mais viável o custo de implementação. Estuda-se também, a aquisição de uma ferramenta de autoria. Esta ferramenta agilizaria a produção do material dos cursos, uma vez que permite ao conteudista elaborar o seu próprio material em uma versão mais próxima da versão final, reduzindo sobremaneira o trabalho do webdesigner. Dessa feita, o investimento realizado na aquisição do software e suas licenças de uso, em pouco tempo compensa, visto reduzir o investimento feito no treinamento em webdesigner. É feito um planejamento de participação dos militares da equipe multidisciplinar em cursos, congressos, seminários, etc., e reservado recursos para tal finalidade. No corrente ano, os recursos foram da monta de R$ 4.000,00. Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil 199 2.4 O Ensino a Distância na Educação Corporativa Segundo RUMBLE (2003), a metodologia de ensino a distância pode igualmente, ser utilizada por empresas para o tipo de formação que elas mesmas determinam. Para o empregador, o ensino a distância apresenta as seguintes vantagens: • A participação no curso não implica a ausência do funcionário do seu trabalho. Uma parte da formação pode ser realizada durante o tempo livre. No segundo caso, o custo da formação recai sobre o próprio empregado; • O empregador se libera dos custos de enviar o empregado para os cursos de formação. Levando-se em conta que as taxas de transporte e de alojamento podem ser muito altas, isto pode representar uma economia real; • O ensino a distância pode resolver problemas, como a hesitação do funcionário em se ausentar de sua casa para freqüentar cursos de formação; • Um número reduzido de professores pode alcançar numerosos estudantes; • Os empregadores podem formar mais rapidamente um número muito maior de funcionários do que seria possível nos cursos tradicionais; e • Os empregadores podem formar mão de obra geograficamente dispersa. Por se tratar de cursos de âmbito interno da Marinha do Brasil, não existe o gasto com propaganda e marketing, visto que os veículos de comunicação internos de divulgação de ordens, notícias e periódicos institucionais, se encarregam de disseminar os dados dos cursos. 2.5 Os Custos Envolvidos A Marinha do Brasil, em se tratando de uma instituição sem fins lucrativos, não se preocupa com os custos envolvidos com a realização do curso, em termos de lucros, porém, manifesta a preocupação em saber o custo do curso por aluno para manter o registro e uma possível cobrança em caso de indenização (DGPM 101), tanto que, para cada curso realizado, ao final, é emitida uma Ordem de Serviço contendo o custo do curso por aluno, e uma planilha de custos do curso. Um indicador importante é o de economia de recursos, obtido da comparação dos valores gastos com um curso a distância e o mesmo curso, caso este tenha sido realizado presencialmente. 200 O futuro da indústria: educação corporativa – reflexões e práticas Tem sido observado que a economia de recursos é bem superior aos gastos para elaboração e condução dos cursos. A diferença de valores possibilita o investimento em novos hardwares, softwares e peopleware (treinamento, especialização, participação em conclaves, etc.). Se listados os gastos realizados desde a implementação do ensino a distância na Marinha, em 1999, até o dia de hoje, constatamos que eles foram pequenos em função dos benefícios adquiridos. Os principais gastos realizados com a implementação do ensino a distância via web na Marinha do Brasil foram: • Contratação de uma empresa de assessoria para desenhar, preparar material didático, ceder espaço em ambiente virtual e capacitação da equipe multidisciplinar da Marinha do Brasil; • Aquisição de mobiliários e computadores para os setores que conduzem o ensino a distância na Marinha do Brasil; • Formação em webdesigner para alguns militares; • Pró-labore para pessoas de renome na área de estudo, que vieram ministrar palestras na Diretoria de Ensino da Marinha, visando a conscientização das pessoas da Marinha do Brasil envolvidas com o assunto; • Aquisição de uma bibliografia básica; • Participação em conclaves e cursos de atualização; e • Aluguel de canal para vídeo conferência. RUMBLE (2003) considera custo total o seguinte: CT = F + (DC/A) + MC + VE Onde: CT é o custo total, F o custo fixo (de infra-estrutura), C o número de cursos, D o custo médio de elaboração de um curso, M o custo anual para manter o curso em funcionamento, A o número de duração de um curso, V o custo variável por aluno e E o número de alunos. De fato, os custos de elaboração de um curso são amortizados durante a duração do mesmo. A amortização dos custos fixos de elaboração de um curso pode então ser diminuída se for aumentada a duração de um curso. Ao inserirmos na equação os parâmetros conforme a nossa realidade, chegaremos a um custo baixo, haja vista que o custo de elaboração tende a zero, pois o pessoal envolvido na elaboração do material e na tutoria, é da instituição (militares ou servidores civis), e, portanto, já possui seu salário mensal computado em outra rubrica da instituição. Educação corporativa: os custos dos cursos a distância oferecidos pela Marinha do Brasil 201 Por sua vez o custo de funcionamento do sistema é quase nulo, visto possuir um servidor dedicado, funcionando diariamente durante o ano todo. Esse servidor localiza-se no Centro de Processamento de Dados da Diretoria de Ensino da Marinha, e é monitorado pelo próprio pessoal daquele setor. Sendo a preparação do material, tutoria e administração do sistema realizada pelo pessoal da Marinha, a contratação extra-Marinha do Brasil inexiste. Tal fato colabora para manter o baixo custo de um curso. Como fatores de economia são computados os gastos com diárias e passagens dos militares e servidores civis fora da sede, em relação ao Rio de Janeiro, local onde estão situados os Centros de Instrução, Adestramento e Escolas, o custo de uma sala de aula presencial, a alimentação fornecida durante o período de realização do curso e despesas com publicações. 3. Conclusão Cada instituição estabelece os critérios próprios para efetuar o controle dos custos com a sua educação corporativa. Existem instituições que possuem um setor específico para tal finalidade, e consequentemente recursos destinados para a condução das atividades, e outras instituições na qual a educação corporativa está ligada diretamente ao setor de recursos humanos, nesse caso, o enfoque dado é bastante diferente do aqui abordado. A Marinha do Brasil, a estrutura é descentralizada, havendo um órgão normativo e controlador, inclusive dos recursos financeiros – Diretoria de Ensino da Marinha – e órgãos de execução, que são os diversos Centros de Instrução, Centros de Adestramento e Escolas. Existe uma norma interna da Marinha (DGPM-101) que possui um capítulo específico voltado para custos e indenizações de cursos e estágios. Como se pode ver é feito o levantamento dos custos dos cursos, porém, no caso dos cursos realizados a distância, o objetivo maior de tê-los, é o de verificar a economia de recursos obtida, e ainda verificar que essa economia consegue custear todos os gastos necessários com a educação a distância. Tal fato faz-nos constatar que a educação a distância, não só traz os benefícios de possibilitar a educação continuada, como também, é econômica para a instituição. Portanto, a medida adotada na marinha do Brasil com relação a redução dos custos, e a manutenção da oferta dos cursos e a realização dos cursos com qualidade foi acertada e tem trazido frutos positivos à instituição. Referências BRASIL. Marinha do Brasil. Diretoria Geral do Pessoal da Marinha. DGPM-101. 5ª ver. De 21/08/2006. Normas para Cursos e Estágios do Sistema de Ensino Naval. Rio de Janeiro, 2006. RUMBLE, G. A Gestão dos Sistemas de Ensino a Distância. Brasília: Editora Universidade de Brasília: UNESCO, 2003. Parte V Resumos A experiência da Universidade Corporativa Amil Assistência Médica Ltda. Cláudia Danienne Marchi, Bruno Pereira de Castro Amil Assistência Médica Ltda. A Universidade Corporativa Amil foi idealizada na década de 80 e iniciou suas operações na década de 90 com o objetivo de multiplicar o conhecimento e contribuir na formação e no desenvolvimento de competências técnicas e humanas. Atua, principalmente, em quatro segmentos na Educação Corporativa, acreditando que estes sejam diferenciais importantes para gerar sustentabilidade através do capital intelectual e emocional, e incentivando um movimento de educação continuada na empresa. Os segmentos são: Treinamento e Desenvolvimento; Endomarketing; Qualidade de Vida; e Responsabilidade Social. Desde a origem, impulsionada pela convicção de que o conhecimento é o alicerce para a construção de um mundo melhor, a Universidade Corporativa Amil tem trabalhado incansavelmente, perseguindo a excelência em qualidade e promovendo a educação preventiva, o aprendizado compartilhado, o relacionamento e a troca de informações. Nossa Metodologia A busca pela excelência, que sempre pautou nossas atividades, levanos a desenvolver, a cada dia, novas didáticas e processos metodológicos criativos. Dessa forma, temos seguido de modo ousado, estabelecendo novos patamares no mercado. Além disso, nossa seleção criteriosa na identificação de parceiros éticos e qualificados tem assegurado uma total credibilidade aos nossos projetos. Nossa Responsabilidade Estimular o indivíduo à constante busca pelo aprendizado, proporcionando, assim, o seu desenvolvimento pessoal e profissional; Valorizar as relações, contribuindo para um mundo mais humano e socialmente responsável; Difundir o conhecimento, estendendo ao maior número possível de pessoas a possibilidade de compreender e transformar a realidade à sua volta. Criado pela vó: o dilema da plataforma Marcelo Larroyed Senado Federal As organizações públicas e privadas, no Brasil e no mundo, ainda estão em processo experimental no campo da Educação a Distância, notadamente quanto à utilização das chamadas plataformas ou ambientes educacionais eletrônicos. Desenvolver a partir do zero, baseando-se na experiência, conhecimento, equipe e demandas da própria instituição? Utilizar, no todo ou em parte, programas de código livre e gratuito? Contratar empresa especializada para desenvolver ambiente sob demanda? Ou simplesmente assinar, mediante pagamento periódico, um dos vários softwares-proprietários já desenvolvidos por grandes empresas do setor? Basicamente, portanto, trabalha-se com uma das seguintes hipóteses quanto à inserção de uma plataforma eletrônica para a disponibilização de cursos e gerenciamento educacional: 1. comprar uma plataforma; 2. alugar; 3. encomendar; 4. construir. Embora reconhecendo que existem muitas variáveis e particularidades envolvidas nessa escolha, este artigo apresenta algumas tabelas para coleta de dados que auxiliarão as organizações para a tomada de decisão quanto ao modo de adoção/desenvolvimento de um ambiente eletrônico educacional. Desenvolvimento e inovação na era do capitalismo cognitivo: o cenário da educação corporativa Herbert Gomes Martins UniGranRio Com as demandas crescentes por inovação e desenvolvimento, emerge um novo padrão de acumulação, chamado de capitalismo cognitivo, o qual requer o uso intensivo de redes de conhecimento dentro e fora das empresas. O artigo propõe situar as estruturas existentes de educação corporativa no contexto desse novo ciclo evolutivo, dando destaque para as Universidades Corporativas como representação em potencial das ações de produção e difusão de conhecimento, a partir de uma ação coordenada, formulada ao final do trabalho. A integração do conhecimento com a produção Giancarlo Gerli Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (ABDIB) A Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (ABDIB), há quase 50 anos, está engajada no contínuo desenvolvimento do setor brasileiro da infra-estrutura e das indústrias de base, e no seu fortalecimento em padrões de competitividade internacional. Nessa longa jornada, o desenvolvimento de competências para o setor assume o papel do investimento mais nobre para seu futuro, e representa um dos pilares para que o setor, de fato, se transforme na maior locomotiva do crescimento socioeconômico nacional. O Programa de Educação Corporativa, já em andamento, é uma iniciativa pioneira da ABDIB, em resposta às demandas de seus associados e do setor, contribuindo, assim, para o desenvolvimento sustentável do País. Para atingir, com qualidade, esse objetivo, a ABDIB vem estabelecendo parcerias com universidades de excelência, responsáveis pela coordenação dos cursos de pós-graduação lato sensu. Resumidamente, essas são as questões a serem respondidas: Por que Educação Corporativa? Considerando que a velocidade dos conhecimentos ultrapassa o alcance da escola tradicional, a Educação Corporativa é indispensável para a formação de novos perfis de Competência Profissional. Como faremos? Integrando universidades e corporações, construindo uma ponte capaz de ligar educação e trabalho, escolarizando as empresas e empresariando as escolas. O que fazer quanto à Infra-estrutura? Considerando que, sem investimentos na infra-estrutura, não há desenvolvimento econômico, optamos pelo investimento na formação de profissionais para garantir a retomada do crescimento que o País requer, com empresas produtivas e competitivas. Coordenação da Coletânea José Rincon Ferreira Diretor de Articulação Tecnológica - STI/MDIC Gilberto Benetti Gerente Executivo de Educação Empresarial e Corporativa do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) Afrânio Carvalho Aguiar Especialista Visitante STI/MDIC - Projeto Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial Tecnológica e Comércio Exterior Ana Rosa Chopard Bonilauri Presidente da Associação Brasileira de Educação Corporativa - ABEC Kira Tarapanoff Especialista Visitante STI/MDIC - Projeto Educação Corporativa no Contexto da Política Industrial Tecnológica e Comércio Exterior Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC Comitê Editorial Carmen Moreira de Castro Neves Eleonora Jorge Ricardo Juliana Costa Araujo Lillian Alvares Sara Oliveira Normalização das Referências Venauria da Silva Batista Confederação Nacional da Indústria - CNI Instituto Euvaldo Lodi/ Núcleo Central - IEL/NC Gerente Executivo de Competitividade Empresarial Júlio Miranda Eliane Menezes dos Santos - Gerência de Promoção da Inovação e do Empreendedorismo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - Senai Assessor da Diretoria Marcos Maciel Formiga Superintendência Corporativa - Sucorp Unidade de Comunicação Social - UNICOM Design Capa