REPRESENTAÇÃO SOCIAL DE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE NOS PROGRAMAS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA Carolina de Castro Nadaf Leal Universidade Estácio de Sá – [email protected] INTRODUÇÃO A formação de professores é um tema que vem sendo discutido com muita ênfase pela comunidade científica e as discussões sobre o período de iniciação profissional do professor têm sido alvo de abordagens diferenciadas. Uma delas é o projeto referente à Residência Pedagógica, através do Projeto de Lei n. 284, datado de 2012, de autoria do Senador Blairo Maggi. A proposta de uma Residência Pedagógica enquanto política pública inspira-se na Residência Médica, conforme se pode constatar no texto do Projeto de Lei apresentado ao Congresso Nacional. A relação de proximidade entre esse Projeto e a formação específica para o professor iniciante se dá na medida em que ele prevê um período de formação, na escola, ulterior à Formação Inicial, a ser regulamentado pelos Conselhos de Educação e pelos Sistemas de Ensino. Esse período tem a perspectiva de melhorar a prática pedagógica do professor, tendo em vista a necessidade apontada no projeto, de avanços na qualidade do processo educacional. Pela sua aproximação com a concepção de residência médica, o Projeto da Residência Pedagógica prevê o acompanhamento do professor iniciante por um professor experiente, sendo que este, possivelmente orientará seu trabalho na instituição de ensino, o que difere de muitas propostas de formação continuada. Este projeto tem em sua essência o objetivo de superar a tradicional distância entre a teoria e a prática na formação dos estudantes, prevendo uma ação compartilhada de formação entre a Universidade, os estudantes em formação e as escolas públicas parceiras. Nessa direção, diferentes universidades promoveram a criação de programas de residência pedagógica. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) criou o Programa de Residência Pedagógica para o curso de Pedagogia, onde os principais desafios foram a adequação do curso à escola, o discurso de incompreensão dos professores e a revisão do modelo de aprendizagem na formação inicial. Um vínculo entre formação inicial e continuada foi estabelecido por meio da imersão dos residentes em vivências sistemáticas e temporárias nas práticas pedagógicas de docentes e gestores escolares, acompanhadas pela orientação do docente da universidade e de professores e gestores das escolas-campo (GIGLIO, 2010). A Universidade Estácio de Sá (Unesa) ofereceu o Programa de Residência Pedagógica aos alunos do último ano do curso de Pedagogia com o objetivo de consolidar a formação iniciada no exercício da profissão em ambiente de trabalho. São oferecidas áreas em Pedagogia Escolar (Gestão Administrativa e Pedagógica), Pedagogia Social (ONG, Igrejas, Projetos Sociais), Pedagogia na Saúde (Hospitalar, Postos de Saúde, Secretarias de Saúde, Clínicas Interdisciplinares) e Pedagogia Empresarial (Planejamento Estratégico, Avaliação Institucional, Desenvolvimento de Pessoas). O Programa de Residência Pedagógica do Colégio Pedro II é destinado prioritariamente aos professores da rede pública, licenciados, com até três anos de conclusão do curso, em quaisquer disciplinas oferecidas pelo Colégio na Educação Básica, do 1º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio. O objetivo é aperfeiçoar a formação do professor, disponibilizando um programa de formação continuada, por meio de competências docentes in loco, tendo em vista a complementação da educação recebida na Instituição de Ensino Superior de origem com a vivência em ambiente escolar de excelência e cooperar para elevar o padrão de qualidade da Educação Básica. O programa tem duração de um ano, com um mínimo de 500 horas. Ao final do programa, o residente receberá um certificado de “Especialista em Docência do Ensino Básico” referente a sua área específica. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ/FFP) também realizou um projeto de Residência Pedagógica com egressos do curso de Pedagogia. O objetivo era pesquisar o processo de parceria entre a escola básica e a faculdade de formação de professores em São Gonçalo. Os encontros ocorrem mensalmente e os professores relatam suas experiências e aprendizagens de início de carreira (FONTOURA, 2011). Essas iniciativas nos instigaram a investigar como está representada a formação e o trabalho docente nesses programas de residência pedagógica e, para tanto, faremos uso da Teoria das Representações Sociais, na perspectiva moscoviciana, articulada à análise argumentativa. A Teoria das Representações Sociais se refere a um modelo teórico que visa conhecer e explicar a construção de um conhecimento que só pode ser entendido a partir da compreensão do contexto onde foi produzido (MOSCOVICI, 2010). Introduzida por Serge Moscovici, em 1961, tem sido cada vez mais explorada no âmbito da educação, especialmente em estudos nos quais importe ter acesso ao conhecimento social que orienta as práticas de uma dada população, ou seja, o conhecimento que tal população utiliza para interpretar seus problemas e justificar suas práticas sociais. Para Sousa et al. (2004, p. 7), os estudos que associam questões da educação e Teoria das Representações Sociais têm sido expressivos na literatura científica brasileira, “uma vez que a análise do campo representacional, pelo qual se compreende a dinâmica e o conteúdo de se pensar a escola e a educação, sugere uma rica possibilidade de exploração da dimensão simbólica e de aspectos da cultura escolar”. Entendemos que o professor é um sujeito que pertence a um grupo social de referência e que constrói conhecimento profissional ao longo da carreira, conferindo-lhe significados e teorizando a realidade social, constituindo-se individual e socialmente de forma dinâmica e conjunta, bem como constitui o contexto em que vive (CASTRO; MAIA; ALVES-MAZZOTTI, 2013). “Os processos que engendram representações sociais estão embebidos na comunicação e nas práticas sociais: diálogo, discurso, rituais, padrões de trabalho e produção, arte, em suma, cultura” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 79) estão presentes no trabalho do profissional do magistério. Acordos e escolhas coletivas são negociados por meio das conversações, pois é na comunicação social que os grupos expõem suas ideias, fazem circular as opiniões e negociam os significados acerca dos objetos de seu interesse. Nessas conversações são negociados os significados que possibilitam estabelecer, no contexto dos grupos, consensos sobre os objetos sociais que lhes parecem relevantes. Representações sociais são elaboradas coletivamente e novas representações passam a fazer parte do repertório desses grupos como construções esquemáticas que condensam significados, tendo por finalidade facilitar a comunicação, orientar e justificar condutas (MOSCOVICI, 2012; JODELET, 2001). Portanto, identificar, analisar e comparar as possíveis representações sociais de formação e trabalho docente constantes nos programas de Residência Pedagógica ajudará a compreender os significados atribuídos a ela, uma vez que conceitos, políticas, diretrizes e normas afetos a estes objetos são interpretados e ressignificados por um grupo, regendo suas condutas sociais e profissionais. METODOLOGIA A pesquisa será feita através da coleta de documentos que versam sobre a residência pedagógica como, Projeto de Lei, n. 284, Portaria que estabelece os Programas de Residência Pedagógica nas quatro instituições e demais documentos em que estas se baseiam para implementar seus programas como projetos, ementas, atas de reunião, relatórios. Serão também aplicadas entrevistas semi-estruturadas aos participantes dos programas de residência pedagógica. Nestes documentos, os princípios que fundamentam a residência pedagógica são apresentados pelos especialistas que discutem tal implementação. Além dessas informações que expressam o que é de comum acordo, pretendemos localizar os discursos de oposição. Os dados coletados serão analisados segundo o Modelo da Estratégia Argumentativa (MEA), proposto por Castro e Bolite-Frant (2000) e fundamentado na teoria da argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958]1996), centrado na busca das estratégias utilizadas para convencer o outro através de argumentos. Este tipo de análise é pertinente porque é no discurso, nas conversas que as representações sociais se formam, se modificam e se revelam e é a relação retórica que integra orador, discurso e auditório - três elementos centrais do discurso - permitindo que a comunicação aconteça. RESULTADOS E DISCUSSÃO Inicialmente, cabe registrar que a análise dos documentos mostrou que os programas de residência pedagógica são bastante diferenciados. No Colégio Pedro II, há a preocupação em proporcionar ao residente uma vivência profissional orientada, oferecendo uma formação complementar em questões de ensino e aprendizagem da área ou disciplina. Também tem como proposta o desenvolvimento da autonomia na produção e na aplicação de estratégias didáticas. Na Uerj, o que predomina nos encontros é o compartilhamento de experiências dos egressos em seus ambientes de trabalho (escolas). Também são selecionadas algumas leituras que estejam diretamente ligadas à prática dos alunos para que seja discutido em grupo. Na Unesa, a disciplina a disciplina residência pedagógica é oferecida no último semestre do curso tendo como foco a implementação de um plano de ação no local onde o aluno realiza sua residência. Por fim, na Unifesp, a residência pedagógica é oferecida nos 5º, 6º e 7º períodos como uma modalidade inovadora de estágio baseada na participação sistemática dos residentes, por tempo determinado, nas práticas pedagógicas de escolas públicas de Educação Básica. As atividades foram direcionadas para constituir uma ação de formação inicial dos futuros profissionais e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação continuada dos profissionais de ensino das escolas envolvidas. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Neste estudo, procura-se organizar um espaço de interlocução entre os atores sociais, destinado a produzir e a mobilizar recursos dialógicos em torno da formação docente. Castro (2012) atesta que o principal instrumento de trabalho do educador é a sua fala, que pode ser compreendida como ação pedagógica. Esta, por conseguinte, tem a finalidade de provocar mudanças no sujeito, o que supõe o propósito de persuadir, de convencer o outro. Então, pode-se dizer, que o discurso dos professores são práticas sociais que implicam processos argumentativos. Esses processos, por seu caráter persuasivo, são capazes de assimilar os significados que os sujeitos atribuem aos objetos sociais, nesse caso, as representações sociais sobre formação e trabalho docente Até o momento, verificou-se que a residência pedagógica, entendida como algo novo, desconhecido, iniciando sua implementação com modelos diferenciados, possivelmente ainda não foi apropriada pelos envolvidos. Repousa aí a relevância dessa pesquisa, que focalizará o processo de construção da representação social desse objeto no momento em que estão sendo gestadas, visto que professores em situação de interação, em suas conversas, elaboram conceitos, socializam crenças e valores sobre a temática de estudo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTRO, M. R. Análise argumentativa das representações sociais do trabalho docente: uma reflexão sobre ferramentas de análise de dados. In: CAVALCANTE, M. A. S.; FUMES, N.L. F.; FREITAS, M. L. Q. (Org.). Trabalho docente: tensões e perspectivas. 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