A NOTÍCIA E A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE: GÊNERO TEXTUAL E “FATOS” SOCIAIS Monique Alves Vitorino (UFPE) [email protected] Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro (UFPE) [email protected] “Direcionado para o acontecimento, o jornalista é também seu prisioneiro [...]” (NEVEU, 2006, p. 87) 1. Introdução O jornalismo tornou-se hoje uma empresa de âmbito corporativo. Guiada principalmente – mas não só – por imperativos políticos e econômicos, produz a informação em escala industrial, abundante, visando o seu consumo. Ora, não alimentamo-nos apenas de comida, peças de vestiário, tecnologia: o boletim meteorológico, o discurso do presidente, a fofoca da novela, o impacto ambiental, os avanços da medicina, as propostas de políticas de saúde pública, enfim, tudo é consumido por nós e, raramente – em virtude do famoso mote “não há tempo” –, digerido com cuidado e atenção. Contudo, devido à grande oferta de meios de comunicação e a competição acirrada pela audiência, poucas são as vezes que nos pomos a refletir sobre o caráter e o tratamento dado a informação. A presença maciça dos meios de comunicação social em nossas vidas não trata aleatoriamente os “fatos” que pretende divulgar. Nem poderia, já que somos seres únicos, singulares, responsivos, dialógicos (BAKHTIN, 2005), constituídos por discursos que carregam axiologias, valores. Segundo Bakhtin (1993, p. 100), “a linguagem não é um meio neutro que se torne fácil e livremente a propriedade intencional do falante, ela está povoada ou superpovoada de intenções de outrem”. Logo, como uma notícia, por exemplo, poderá, então, ser neutra, se o ser humano é, antes de qualquer profissional, formado por discursos de outrem com diferentes ideologias? Na contramão a essas ideias, o jornalismo define a notícia como “o relato [...] de cada ‘fato’, a partir do aspecto mais importante ou interessante” (LAGE, 2006a, p. 17, grifo nosso). Contudo, essa definição não reflete o caráter dinâmico desse gênero. Se observarmos a linguagem como forma de prática social (FAIRCLOUGH, 2001), a qual é ideológica, que constitui o mundo e é constituída por ele, e a língua como forma de ação sobre os outros (AUSTIN, 1990), a notícia se caracteriza como um texto que constrói os “fatos” sociais. Estes não são simplesmente narrados como algo a priori, com uma verdade e/ou essência única1. Ao contrário: em função dos objetivos do jornalista/jornal, alguns aspectos terão destaque, outros serão omitidos; recortes serão feitos e, ao fim, teremos notícias de diferente(s) objeto(s) do(s) discurso(s). A partir dessas ideias, este artigo tem por objetivo analisar como o gênero textual “notícia” – instituído como portador de uma linguagem que se diz padronizada, a qual pressupõe uma objetividade do sujeito ao narrar, cujo “fato” é tornado o objeto da verdade – cria “fatos” sociais, influenciando o dia a dia das pessoas, estimulando-lhes reflexões diversas e mantendo ou mudando comportamentos e atitudes. Para isso, fundamentamo-nos principalmente na teoria dos gêneros textuais como ação social, defendida por Miller (2009) e Bazerman (2006), segundo a qual os gêneros criam 1 Não se trata de discutir acerca de uma verdade sobre um “fato”, já que podem existir numerosas “verdades” em função dos diversos pontos de vista assumidos pelos sujeitos. “fatos” sociais que influenciam o cotidiano das pessoas e a forma de como elas agem no mundo; na perspectiva dialógica do discurso de Bakhtin (1993, 2005) e Bakhtin/Volochinov (2006), teóricos que destacam o papel intersubjetivo da linguagem e o discurso como sempre retomando discursos outros e antecipando discursos em porvir; em algumas ideias sobre o ato de nominar de Siblot (1998), processo baseado na memória e alteridade; e, para contextualizar a sociedade e o funcionamento da mídia, baseamo-nos em teóricos como Giddens (1991), Debord (2003), Hall (2005), Neveu (2006), dentre outros, os quais trazem uma visão crítica e sociológica dos meios de comunicação. Considerando o que foi exposto, analisamos duas notícias veiculadas pela Folha de S. Paulo sobre o caso Paula Oliveira que, segundo foi divulgado, uma advogada brasileira grávida disse ter sido atacada na Suíça por três homens que pareciam skinheads; e duas do mesmo periódico sobre a Gripe A, em que se relata o surgimento de um novo vírus da gripe no México. Para essas análises, nos detivemos basicamente nos termos empregados pelos jornalistas para se referir ao objeto do discurso, nas formas de construção das narrativas sobre os “fatos” – lide e sublide – e nos interdiscursos manifestados e/ou convocados para se referir ao tema tratado. Dentre os resultados, observamos que, embora proponha enunciados mais precisos – como a hora e o espaço exatos de um “fato” (LAGE, 2006b) – e o uso de determinados recursos linguísticos, o que se observa no cotidiano da prática jornalística é a existência de diversos “efeitos de realidade” (LAGE, 2006b) na comunicação dos “fatos”. 2. O contexto da sociedade midiática A partir da segunda metade do século XX, o mundo tem se deparado com um sujeito deslocado dos contextos de tempo e espaço (HALL, 2005). As crises de tradições e paradigmas (GIDDENS, 1991); a crescente influência do capitalismo nas interações humanas; efervescência tecnológica; abundância de novos suportes midiáticos; enfim, tudo isso tem provocado uma reestruturação das práticas sociais, interferindo no modo de como o sujeito vê a si mesmo e ao outro. Esses aspectos trouxeram e ainda trazem impactos para o homem moderno e/ou pós-moderno2: impelido ao consumismo universal (DEBORD, 2003), ele é motivado a buscar indiscriminadamente a satisfação dos seus desejos e das suas necessidades mais íntimas. Inserida nesse panorama, a mídia transforma, sintetiza, compacta culturas, sentimentos, produtos, assuntos, etc., em objetos de consumo. E, claro, a informação não fica de fora: com o objetivo de gerar rentabilidade e audiência, os veículos de comunicação constroem os “fatos” a serem divulgados como produtos de rápida difusão. Definindo alguns acontecimentos como representativos da “ordem do dia”, dando-lhes relevância simplesmente por terem o privilégio de ocupar a primeira página dos jornais, a informação é hoje um dos principais objetos de consumo dos sujeitos, e, portanto, uma importante fonte de lucro das empresas de comunicação. Sob a égide do apelo ao virtual, aos modelos de vida globais, padrões de consumo homogeneizados, à satisfação máxima das nossas necessidades, os veículos de comunicação passaram a demonstrar uma maior inclinação para abordar temas imponentes, polêmicos, e até “banais”, já que o objetivo é bater recordes de audiência e/ou vendagem. Alimentando-se do avanço de imagens espetaculares (DEBORD, 2003), nutrindo-se dos escândalos e das misérias (BAUDRILLARD, 2005), a mídia ganhou status, onipresença social e credibilidade (LAZARSFELD; MERTON, 2000) 2 Não nos deteremos em uma terminologia específica para caracterizar a sociedade e o sujeito atual, haja vista que essa discussão foge da nossa proposta. diante do público, permitindo-lhe desempenhar o “famoso” papel de mediadora da realidade. Contudo, os meios de comunicação operam fazendo recortes desse “real”. Noticia-se o que é de interesse ou, pelo menos, os “fatos” que agregam valores próximos ao da empresa. Desse modo, o jornalismo não garante um livre acesso a tudo aquilo que ocorre no mundo (NEVEU, 2006). Ao divulgar conteúdos, seleciona os mais importantes, atribui prestígios a alguns, desqualifica outros, produz informações – transformando-as em acontecimentos dignos de serem noticiados – põe certos “fatos” em circulação, promove uma explosão informacional de alguns. Qual seja a forma que esse “fato” chegará até nós, ele nunca será isento de ideologias: ele passará por um longo processo de filtragens – as fontes, os repórteres e os editores (NEVEU, 2006) – que, ao final, pode resultar em um objeto de discurso completamente diferente. Logo, as notícias não podem ser lidas como simples narrativas que se atêm à descrição dos eventos; elas estão constituídas de discursos carregados de valores, de sujeitos que se posicionam diante dos acontecimentos e das vozes sociais em circulação. Assim, o jornalista emprega estratégias para noticiar a informação, construindo-a segundo princípios e valores da empresa em que trabalha. Durante esse processo de “mediação” do mundo, através da veiculação do que “ocorre nele”, a mídia torna-se a grande responsável por legitimar instituições e pessoas; participar ativamente na constituição de imaginários sociais; atuar na forma como os indivíduos percebem-se em relação a si mesmos e aos outros; criticar a sociedade, levantando discussões; condenar o que é tido como o “erro”; e, não menos importante, por construir os “fatos” por meio da linguagem, pois esta nos dá condições de refletir e refratar o mundo. Destacamos o uso por nós de “construir” diferente do de “divulgar”: o primeiro pressupõe uma ativa participação desses veículos, enquanto o segundo, um trabalho passivo de simples reprodução do que seria esse “fato”; e, este último, simplesmente é impossível de ocorrer. O universo das notícias é o das aparências do mundo. O noticiário não permite o conhecimento essencial das coisas, objeto do estudo científico, da prática teórica, a não ser por eventuais aplicações a fatos concretos. Por detrás das notícias corre uma trama infinita de relações dialéticas e percursos subjetivos que elas, por definição, não abarcam (LAGE, 2006a, p. 24). Portanto, inserido na instância maior do jornal, o jornalista é um dos grandes responsáveis por construir os mais variados tipos de acontecimentos na vida das pessoas. Sendo assim, os “fatos” noticiados vão sendo constituídos de diferentes pontos de vista, alguns inclusive divergentes, responsáveis por construir numerosas imagens dos “fatos” – pode-se ler aqui “versões”, por exemplo – e dos sujeitos neles envolvidos. Isso só é possível porque a linguagem é estratificada internamente (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2006), isto é, os sujeitos heterogêneos por natureza se constituem em uma multiplicidade de discursos, o qual permite, por sua vez, que nos posicionemos diante do mundo, do outro, de nós mesmos. Esse caráter intersubjetivo e dialógico da linguagem nos oferece reflexões esclarecedoras da notícia como “engenheira” dos “fatos” e não uma simples divulgadora dos mesmos. Sobre esse papel da linguagem, relacionado ao fenômeno dialógico do discurso, iremos tratar mais adiante. Todavia, é necessário, primeiramente, discutirmos sobre o gênero textual “notícia” como ação social para compreendermos melhor o funcionamento dessa atividade. 3. “Fatos” sociais, atos de fala, sistemas de gêneros e de atividades Em seus estudos, Bazerman (2006a) afirma que as características dos gêneros são, na sua maioria, reconhecíveis. O autor afirma que os gêneros são o que as pessoas reconhecem como tal em qualquer tempo, seja por nomeação, por institucionalização ou por regularização explícita. Essas características reconhecíveis, juntamente com as funções ou atividades principais exercidas pelo gênero, formam a sua estrutura. A esse respeito, Bazerman (2006a) nos oferece conceitos básicos para o exame do texto na sociedade, os quais sugerem como este é usado pelas pessoas na organização de suas atividades. São eles: gêneros, “fatos” sociais, atos de fala, sistemas de gêneros e sistemas de atividades. Para o autor, o gênero textual é elemento importante na estrutura comunicativa da sociedade, configurando a ação social e refletindo as relações de poder dentro das instituições; sendo que, cada texto, encaixado em atividades sociais estruturadas, é dependente de textos anteriores que “influenciam a atividade e a organização social” (BAZERMAN, 2006a, p. 20). Não por acaso, o gênero é o mediador entre o particular e o público, ou seja, entre o indivíduo e a sociedade. Ele tem, por isso, um potencial estruturador da ação social. Tal compreensão do gênero textual ajuda a explicar de como interpretamos, encontramos, reagimos e criamos certos textos. Em outras palavras, na noção de gênero como ação social, o texto não é apenas entidade linguística, “é ação que reflete características de situações retóricas recorrentes” (CARVALHO, 2005, p. 140). Em seguida, Bazerman (2006a) define os “fatos” sociais como produzidos por meio da criação de textos pelas pessoas em seu cotidiano, afetando suas ações, seus direitos e deveres. Esses “fatos” são o que as pessoas julgam como verdades, as quais definem o modo como participam de uma situação. Nesse sentido, Bazerman (2006a, p. 23) afirma que, “frequentemente, os “fatos” sociais afetam as palavras que as pessoas falam ou escrevem, bem como a força que tais enunciados possuem”. Logo, o autor defende que cada texto bem-sucedido deve criar um “fato” social para seus leitores. Dos “fatos” sociais resultam os atos de fala. Para Bazerman (2006a), os gêneros, caracterizados como “formas textuais padronizadas, típicas e, portanto, inteligíveis” (BAZERMAN, 2006a, p. 22), realizam os atos de fala, porque, “quando ditas pela pessoa certa, na situação certa, com o conjunto certo de compreensões [...] palavras não apenas significam, mas fazem coisas” (BAZERMAN, 2006a, p. 25-6), a fim de modificar uma situação. A teoria austiniana dos atos de fala3, a qual Bazerman (2006a) se baseia, está pautada no uso da língua e tem como base a concepção de que linguagem é ação. Assim, quando agimos pela linguagem nós não transmitimos apenas uma mensagem, nós ordenamos, sugerimos, atacamos, defendemos, prometemos, entre outros atos que visam modificar uma situação. Tais atos se apresentam em três níveis distintos, que podem se realizar ao mesmo tempo num proferimento: o ato locucionário, o ato ilocucionário e o ato perlocucionário. O ato locucionário é o sentido restrito da sentença, ou seja, é o que literalmente é dito. Exibe, portanto, uma estrutura sintática pertencente a uma determinada língua, pronunciada com entonação específica e veiculando sentido e referência de acordo com 3 A Teoria dos Atos de Fala, em que linguagem é ação, foi desenvolvida por John L. Austin ([1962] 1990). Abandonando a análise da sentença para analisar o ato de linguagem, o filósofo procura formular e responder perguntas sobre a capacidade humana de, pela linguagem, comunicar, dizer coisas, fazer perguntas, dar ordens, prometer, pedir desculpas; se relacionando com o mundo através de enunciados verdadeiros, falsos ou sem significação, etc. (AUSTIN, 1990). o contexto e a intenção do locutor. Quanto ao ato ilocucionário, Bazerman (2006a, p. 26), usando como exemplo a sentença “está um pouco frio nesta sala”, complementa: Ao falar indiretamente, eu pretendia que minhas palavras fossem dotadas de uma força ilocucionária específica, que acreditava seria reconhecida pelos outros, em função das circunstâncias imediatas e do modo como a sentença foi expressa. O ato que pretendo que meu ouvinte reconheça é o ato ilocucionário (BAZERMAN, 2006a, p. 27, grifo do autor). Nesse sentido, referimo-nos à intenção do falante quando falamos em ato ilocucionário. De acordo com Almeida (1986), os atos ilocucionários podem ser explicitados por um verbo performativo, o qual possui uma força ilocucionária, ou seja, “a que equivale proferir tais palavras” (p. 23). Já o ato perlocucionário está ligado ao que se obtém com nosso ato de fala: assustamos, desagradamos, convencemos, etc. Assim, “o modo como as pessoas recebem os atos e determinam as consequências deste ato para futuras interações é chamado de efeito perlocucionário” (BAZERMAN, 2006a, p. 27, grifo do autor). Em resumo, alguém profere ou escreve uma sentença com determinado significado (ato locucionário) que tem determinada intenção ou força (ato ilocucionário), a qual irá produzir determinado efeito sobre o sujeito “receptor” da mensagem (ato perlocucionário). Quanto aos conceitos de sistemas de gêneros e sistemas de atividades, estes estão ligados na medida em que focalizam o que as pessoas fazem e como os textos agem nesse fazer. Um sistema de gêneros envolve todos os conjuntos de gêneros (textos que uma pessoa produz ao assumir determinado papel social) utilizados pelas pessoas que trabalham juntas, de forma organizada, que resultam em relações padronizadas de produção, circulação e usos desses textos. Enfim, para Bazerman (2006a), os textos organizam as nossas ações diariamente, criam significações e “fatos” sociais em um processo interativo tipificado em um sistema de atividades que encadeia ações discursivas, estando, portanto, inseridos em práticas sociais. Essa perspectiva que Bazerman (2006a) desenvolve para a identificação e análise de gêneros nos ajuda nesta empreitada, na medida em que permite que superemos a intuição de falantes nativos e a visão naturalizada de usuários da língua e de sistemas de gêneros e de atividades nos quais estamos imersos, oferecendo uma abordagem analítica baseada nos “fatos” sociais e nos atos de fala. Para a corrente sociorretórica, ao se considerar o gênero como ação tipificada é importante que se conheça e se compreenda a natureza genérica de um texto e as implicações em torno de tal natureza na produção dos sentidos. Considerando o que Bazerman (2006a) apresenta sobre gênero e ação social, os conceitos até aqui expostos nos fazem refletir sobre a percepção necessária para uma análise válida do gênero textual, concebido como ação social tipificada. De acordo com Silva e Ramalho (2008), é possível ver o gênero como ação social a partir de uma perspectiva segundo a qual tais ações são “modos recorrentes não só de ‘agir e se relacionar com os outros’, mas, sobretudo, de ‘agir sobre os outros’, o que pressupõe relações de poder” (p. 19, grifo dos autores). Assim, um aspecto central dos estudos do gênero e do discurso é “representado pela noção de que aquilo que é senso comum, em certa cultura, em determinado momento histórico, reflete e constrói os valores de grupos sociais dominantes naquela cultura” (BALOCCO, 2005, p. 68), o que nós, analistas do discurso, procuramos desvelar. Passaremos a tratar agora sobre o papel intersubjetivo da linguagem na construção dos “fatos” sociais na notícia. Esse aspecto, associado à visão do gênero como ação social oferecida por Bazerman (2006a), nos auxiliará a entender as numerosas implicações que existem na construção da ordem do texto, no emprego de certas expressões, etc., para tratar um “fato”, elementos que muitas vezes fogem ao nosso alcance quando não ocupamos o papel crítico diante do que é noticiado pelos meios de comunicação. 4. O papel da linguagem na construção da notícia Como se sabe, existem regras que ordenam as diversas práticas sociais. O jornalismo, assim como outros campos do conhecimento, também não poderia fugir da ordenação das suas atividades. Há, no entanto, alguns valores que deveriam ser considerados na elaboração da notícia, por exemplo, para que os profissionais de comunicação tenham mais consciência do funcionamento do gênero. A esse respeito, destacaremos inicialmente três aspectos que caracterizam esse gênero para depois refletirmos sobre a sua pertinência no âmbito da visão de linguagem definida por Bakhtin (1993, 2005) e Bakhtin/Volochinov (2006). Em primeiro lugar, caracteriza-se, em termos gerais, a estrutura da notícia como “o relato de uma série de ‘fatos’, a partir do ‘fato’ mais importante ou interessante; e, de cada ‘fato’, a partir do aspecto mais importante ou interessante” (LAGE, 2006a, p.17, grifo nosso). No entanto, esse gênero nem sempre apresenta os acontecimentos na mesma ordem em que ocorreram na realidade; o jornalista, após apurar um “fato”, faz um recorte nele, excluindo algumas circunstâncias temporais ou espaciais consideradas pouco relevantes, e escreve a notícia partindo do que julga mais importante (para esse “fato” ter se transformado em notícia). Em segundo lugar, como o jornalista escreve para um grande número de leitores – embora boa parte seja “detectável” pelas pesquisas de recepção –, ele é guiado pelos manuais de jornalismo, os quais padronizam a linguagem, regulando os usos linguísticos e mostrando quais são considerados “adequados” para o seu público-alvo (LAGE, 2006b). Dispondo teoricamente de um código lingüístico limitado, já que tem um número menor de expressões para comunicar uma “mensagem”, ele usará uma linguagem objetiva e comum (coloquial), possibilitando a maioria de seu público compreender a notícia. A situação corrente em jornalismo é a de um emissor falando a grande número de receptores. Tais receptores formam conjunto disperso e não-identificado, que só pode ser conhecido por amostragem estatística. Por isso, os adjetivos testemunhais e as aferições subjetivas devem ser eliminados (LAGE, 2006b, p. 52, grifo do autor). Por último, ao compor uma matéria, o jornalista deverá atingir a objetividade (isso é uma regra geral, na maioria das vezes, para os jornais), não trabalhando com conceitos que expressam subjetividade. Nesse sentido, a notícia não é produzida a partir do que alguém pensou, sonhou ou imaginou, mas do que alguém disse ou relatou. Além disso, caracteriza-se por ser axiomática: não argumenta, nem conclui; afirma-se, a priori, como verdadeira. Ou, pelo menos, deverá parecer ser verdadeira, verossímil (LAGE, 2006a). Por isso, os jornalistas são orientados, ao escreverem as notícias, a usarem referências específicas – inclusive citações –, indicando que houve uma boa apuração do “fato”, criando, segundo o autor supracitado (2006a), um “efeito de realidade”. Embora esses aspectos tenham a sua relevância para ordenar e regular a prática jornalística na elaboração de alguns gêneros, como a notícia, é importante considerar o papel da linguagem: vista como interação sócio-histórica (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2006), esta nos permite refletir e refratar o mundo a nossa volta. Segundo Bakhtin (1993), a linguagem só existe entre os indivíduos, os quais a utilizam para se posicionar diante dos objetos do mundo, do outro e de si mesmo. Optando por empregar “linguagens” no plural ao invés do termo no singular, Bakhtin/Volochinov (2006) consideram que as linguagens são essencialmente dialógicas, pois elas fundam a alteridade, isto é, a relação do homem com o outro. Em cada momento dado coexistem línguas de diversas épocas e períodos da vida sócioideológica. Existem até mesmo [as] linguagens dos dias: com efeito, o dia sócioideológico e político de “ontem” e o de hoje não têm a mesma linguagem comum (BAKHTIN, 1993, p. 98, grifo do autor). Seja nas relações profissionais e/ou nas mais cotidianas, como nas conversas entre os vizinhos, os indivíduos estão sempre se posicionando, com tons de polêmica, ironia, pena, etc., contaminando axiologicamente as linguagens usadas. Conforme Bakhtin (1993, p. 100), as linguagens não se constituem como um “um meio neutro que se torne fácil e livremente a propriedade intencional do falante [...] [estão] povoada[s] ou superpovoada[s] de intenções de outrem.” Nessa perspectiva, cada palavra que empregamos é um embate de forças axiológicas que representa uma ou mais visão de mundo. Dessa forma, como um texto poderá seguir princípios de linearidade da narrativa, neutralidade e objetividade da linguagem? Assim, para Bakhtin (1993), a existência das múltiplas “linguagens” na nossa vida torna-nos participantes ativos, capazes de produzir discursos que refletem e refratam os valores da sociedade. Logo, os discursos que os jornalistas usarão para compor as notícias estão sempre remetendo a outros que englobam a nossa memória social. Esse movimento dialógico deve ser considerado, pois ele é fundamental a toda atividade humana. Os princípios acima apontados, portanto, não levando em conta a realidade da(s) linguagem(s) e o dialogismo, não representam com clareza o funcionamento do gênero e a capacidade que temos de, diante de um “fato”, (re)contá-lo segundo outros interesses axiológicos, empregando palavras que não são isentas de posicionamentos. É sobre esse ato de referir-se ao outro que trataremos agora. 4.1. O ato de nominar o outro Baseado na concepção dialógica de Bakhtin (1993), o teórico francês Siblot (1998) afirma que toda nominação do outro tem por particularidade evidenciar por parte daquele que nomeia uma posição sobre o que é nominado; e esta tomada de posição provoca a seu turno uma expressão e definição de si. O outro está, desse modo, impregnado nesse processo, de modo exibido ou velado, como objeto do discurso, como imagem de referência. Logo, a dinâmica desse processo se caracteriza a partir de um duplo movimento “do eu em direção ao outro” (SIBLOT, 1998): quando nos reportamos a um objeto de uma forma, nominando-o, nós estamos, ao mesmo tempo, aderindo a uma ou mais vozes para inscrever os termos que vamos usar. Quando nominamos os objetos, não só dizemos o “mundo”, mas também definimos os lugares que ocupam os enunciadores nas trocas verbais. Esse processo também leva os sujeitos a atualizar os sentidos das palavras, ratificar imagens, sobrepor outras, comunicar axiologias. Contudo, esse ato não corresponde a um processo automático, de etiquetagem racional, como uma simples categorização lexical mecânica. Acerca disso, Siblot (1998) destaca a diferença entre “denominar” e “nominar”: “denominar” alguma coisa é isolar o sentido, extraí-lo do discurso, tornando-o um mero conceito contido na palavra. Já na nominação, o sentido é um valor em potencial; por isso, considerar a atualização discursiva das palavras plenas – nomes, adjetivos, verbos e advérbios – realiza o ato de nominação por outra problemática, pois os seres, as qualidades e os atos que as práticas linguísticas categorizam, partem de necessidades, com finalidades concretas que são as mais variáveis. Dessa forma, para dar conta dos aspectos vivos e dinâmicos dos discursos, devemos considerar também os aspectos externos que “colorem” axiologicamente, de formas distintas, a materialidade da língua. Sejam as palavras empregadas, os discursos recorrentes que aparecem nas notícias, assim como a ordem da construção da narrativa, os atos de fala, tudo isso deverá ser considerado para compreendermos como se dá a construção de um “fato” pela mídia. Esses aspectos serão agora ilustrados nos trechos das análises sobre o caso Paula Oliveira e, logo em seguida, sobre o objeto do discurso designado como Gripe A, nominado pela imprensa principalmente como “gripe suína”. 5. Notícia e “fato” social: análise A partir do que foi exposto, apresentaremos em seguida alguns trechos das nossas análises. É importante, contudo, fazer uma breve referência ao contexto do “fato” social, para compreendermos como este foi construído em função da abordagem axiológica feita pela mídia. 5.1. Caso Paula Oliveira O caso Paula Oliveira surgiu na mídia no dia 12 fevereiro de 2009, sendo veiculado até 13 de março de 2010. Inicialmente, noticiou-se que uma advogada brasileira grávida foi atacada na Suíça por três homens que pareciam skinheads. Posteriormente, surge a possibilidade de automutilação e ocorre uma reviravolta no caso que passa a ser noticiado como um ataque forjado pela própria Paula. Para as nossas análises, contudo, selecionamos duas notícias sobre o tema, referentes a dois dias de cobertura sobre o caso: 12 de fevereiro de 2009 e 17 de outubro do mesmo ano, respectivamente. Na primeira notícia, a Folha de S. Paulo relata o caso apenas segundo a versão de Paula, a vítima do acontecimento: o destaque na narrativa recai no “quem”, isto é, na pessoa que sofreu o ataque: Brasileira é atacada na Suíça [...] (1) Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada e teve boa parte do corpo retalhado por estilete [...] (2) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de fevereiro de 2009, grifo nosso). Como a ordem de construção da notícia oferece pistas dos aspectos que foram considerados mais relevantes, a atribuição no lide – o primeiro parágrafo desse gênero – de mais relevância ao “quem” sofreu a agressão, indica que o acontecimento não se resume a qualquer fait-divers4. Em geral, esse tipo de notícia acentua a violência do crime, inserindo em segundo/terceiro plano os atores envolvidos. Observamos também que há um destaque para aspectos como profissão, nacionalidade, idade, cor, etc., que 4 Essa expressão francesa é usada para designar matérias de caráter policial e sensacionalista. caracterizam a protagonista. Isso significa que a pessoa nele envolvida tem um papel essencial. Aliás, essa importância atribuída a Paula, também se reflete nas várias formas de nominação: Brasileira é atacada na Suíça [...] (3) Paula Oliveira estava grávida de gêmeas [...] (4) Cortes a estilete feitos nas pernas da advogada [...] (5) Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada [...] (6) Grávida de três meses de gêmeas, Paula Oliveira [...] (7) Quando foi abordada, a advogada, que é branca [...] (8) Paula é noiva de um suíço, que soube da agressão por telefone [...] (9) Segundo o Itamaraty, ela mora no país legalmente [...] (10) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de fevereiro de 2009, grifo nosso). Entre as nominações atribuídas a Paula, observamos que o jornal atribui relevância ao fato dela ser advogada, branca, jovem, funcionária de uma empresa multinacional, residente de forma legal no exterior, etc., palavras que lhe comunicam valores positivos. Esta não é vista como qualquer imigrante, ilegal, pobre, negra, sem emprego e qualificações que reside no exterior, como ocorre com muitos brasileiros. Paula Oliveira, construída como uma moça rica, de classe média, é vista a partir de uma imagem favorável, em consonância com os valores partilhados pelo jornal: se observarmos as descrições/os atributos e as expressões nominais que lhe foram atribuídas, notaremos que a imprensa revela seu posicionamento sobre o imigrante que merece ser bem tratado, que é bem vindo a ser relatado. Interessa-nos também apontar o discurso veiculado por trás do relato do caso: no trecho (11), Paula é apresentada como uma jovem que não é simplesmente uma imigrante ilegal que trabalha em um “subemprego”, aspecto que remete a casos de muitos brasileiros que saem do país em busca de melhores condições de vida, passando a trabalhar muitas vezes em setores menos valorizados pela sociedade: De acordo com informações do Itamaraty, Paula é funcionária do grupo controlador dinamarquês A. P. Moller - Maersk. O ataque aconteceu quando ela estava na estação de trem de Dubendorf, pequena cidade a cerca de cinco quilômetros de Zurique, onde trabalha. (11) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de fevereiro de 2009, grifo nosso). Enfatizamos ainda outro aspecto interessante: o jornal, ao abordar o outro, o “agressor”, não reporta a voz dele para se posicionar sobre o ocorrido. Desse modo, assim como as vozes que sustentam a versão de Paula – o Itamaraty e o pai dela –, os agressores e a Suíça – construídos como os culpados pelo que aconteceu, não têm espaço para se reportar sobre o assunto. De fato, o que se relata sobre esse grupo é feito a partir da posição enunciativa do jornalista sobre a versão de Paula, isto é, da imagem que se constrói sobre o partido SVP. Isso pode ser notado pela maneira de como os agressores são nominados: Brasileira é atacada na Suíça por skinheads (12) Cortes a estilete feitos nas pernas da advogada formam a sigla do SVP, partido suíço que apoia política anti-imigrante (13) Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada e teve boa parte do corpo retalhado por estilete na Suíça por três homens brancos e carecas que pareciam skinheads [...] (14) [...] o grupo que a atacou é composto por simpatizantes nazistas [...] (15) Um dos agressores tinha uma suástica na cabeça [...] (16) [...] SVP, do Partido do Povo Suíço, que defende políticas antiimigrantes consideradas, muitas vezes, racistas pela oposição [...] (17) [...] simpatizantes da oposição social-democrata picharam peças de propaganda do SVP com suásticas e imagens de Adolf Hitler [...] (18) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de fevereiro de 2009, grifo nosso). A partir das formas de nominação dos agressores, seja pelas descrições visuais (14), pelas crenças sociais (17), pela aproximação com grupos outrora xenófobos (18), como o de Hitler, observamos que o jornalista reporta o SVP a partir de discursos que englobam opiniões negativas sobre o partido, o que permite ao jornalista revelar sua posição. No enunciado (13), por exemplo, o jornalista opta por nominar o partido não a partir da definição da sigla, mas por meio de uma explicação do que esse grupo significa na Suíça. Além disso, as palavras “suásticas” (16) e “Adolf Hitler” (18) funcionam como lembranças de um passado marcado por guerra e extermínio de grupos étnicos e sociais, que é trazido à tona quando associado ao ato cometido pelo grupo. Assim, as palavras empregadas e os discursos comunicados pelo jornalista (ato locucionário) apontam para as possíveis intenções de noticiar esse caso (ato ilocucionário) como um ataque contra uma brasileira por integrantes de grupos ideologicamente próximos a Hitler. Ora, acentua-se, por meio das expressões nominais, a presença de simpatizantes nazistas em pleno século XXI, em um país desenvolvido, dito de “primeiro mundo”. Um dos efeitos perlocucionários que observamos nessa notícia é a ampla repercussão que atribui ao “fato” – de caráter nacional e internacional –, tornando-se cobertura “obrigatória” de diversos veículos de comunicação. Na outra notícia analisada, o caso encontra-se em um contexto completamente diferente: Paula Oliveira forjou o ataque e passou a ser nominada como a “culpada” pelo ocorrido. Nesse momento, muitas das nominações atribuídas a Paula e aos agressores mudam, assim como a própria forma de se reportar ao “fato” e a maneira de relatá-lo. O periódico nomina Paula, por exemplo, por meio de orações que atribuem a ela o relato do acontecimento ((19) e (21)), eximindo-se também da culpa do que foi noticiado anteriormente sobre o “fato”, e por meio da expressão “pernambucana” (21): A brasileira Paula Oliveira, que disse ter sido agredida por xenófobos na Suíça e depois teve sua versão desmantelada [...] (19) Paula, que teve o passaporte apreendido em fevereiro e não pode deixar o país, vai contestar a acusação. (20) A advogada pernambucana, então com 26 anos, ganhou as manchetes em fevereiro ao dizer que fora agredida por jovens neonazistas em uma estação de trem em Zurique, cidade onde vivia com o namorado suíço [...] (21) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”, 17 de outubro de 2009, grifo nosso). A FSP, ao empregar “pernambucana” (21), passa nesse momento a acentuar a naturalidade de Paula Oliveira antes silenciada. Contudo, “pernambucana” é uma palavra que carrega uma ampla memória negativa atrelada ao estereótipo do nordestino, em geral mal visto pelos brasileiros do sul e sudeste. Quanto aos agressores, esses também são referidos de forma diferente: embora seja observado ainda o emprego de “xenófobos” (19) e “jovens neonazistas (21), não se faz uma correlação dos agressores com integrantes do Partido SVP. Ademais, o jornalista/jornal traz a voz de fontes legítimas para comentar sobre as novidades do caso, como a Procuradoria de Zurique (22) e o advogado de defesa de Paula Oliveira (23), em uma tentativa de não levantar discursos tendenciosos sobre o “fato”. Ontem, a Procuradoria de Zurique emitiu comunicado informando que denunciara a jovem na quarta-feira por falso testemunho, com base no artigo 304 do Código Penal suíço ("conduzir a Justiça a procedimentos errôneos"). (22) Em comunicado a jornalistas, a defesa de Paula afirmou ontem que levará novas provas ao processo, reiterando que ela não reconhece a acusação e questionando as investigações conduzidas até então. "A apuração dos fatos pelos órgãos de investigação é passível de controvérsias por conter ainda lacunas", afirma o texto do escritório de advocacia Roger Müller, de Zurique. (23) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”, 17 de outubro de 2009, grifo nosso). Observamos também que as informações anteriores são inseridas na notícia através de índices de narrativização ((24) e (25)), como uma forma de retomar o que já foi dito e passando o caráter de um texto mais “impessoal” (25), sem as marcas do jornalista; além disso, o uso do futuro do pretérito “confessaria” contribui para passar a ideia de insegurança sobre o relato: A advogada pernambucana, então com 26 anos, ganhou as manchetes em fevereiro ao dizer que fora agredida por jovens neonazistas em uma estação de trem em Zurique, cidade onde vivia com o namorado suíço. Na época, ela afirmou que perdera bebês gêmeas que gestava por causa da agressão. (24) Dias depois, ela confessaria ter inventado a história. O depoimento informal foi colhido enquanto a brasileira convalescia no hospital e sem a presença de seus advogados, o que provoca dúvidas sobre a possibilidade de ser usado como prova. (25) (Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia “Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”, 17 de outubro de 2009, grifo nosso). Assim, diferentemente da notícia anterior, evidenciamos que o cuidado com o emprego de algumas palavras para se referir aos agressores e ao ocorrido (ato locucionário) assinalam o “fato” como completamente divergente do que foi noticiado anteriormente (ato ilocucionário). É evidente que existem informações da investigação que trazem outras “conclusões” para o ocorrido; contudo nominar Paula também como “pernambucana” permite-nos associar a imagem da protagonista com estereótipos e valores sócioculturais omitidos no início da cobertura do caso. Logo, um dos efeitos perlocucionários que observamos é a desvalorização do jornal para com o nordestino, já que essa referência é trazida à tona na nova forma de nominar Paula Oliveira. 5.2. Gripe A No dia 13 de abril de 2009, surgiu na mídia um novo “fato” social. Devido à polêmica e controvérsia sobre o assunto, até os dias de hoje o tema é retomado pelos veículos de comunicação. A partir da análise que fizemos de duas notícias, uma publicada no dia 25 de abril de 2009 e a outra no dia 27 do mesmo mês e ano, observamos que, na primeira notícia que analisamos, a gripe A é nominada a partir de palavras que comunicam a ideia de uma doença nova e intensa, dando grande visibilidade ao tema: Vírus inédito (26) Surto é "até agora controlável” (27) Jornaleira usa máscara para se proteger do surto de uma gripe desconhecida, na Cidade do México (28) Um surto de gripe suína que atinge o México [...] (29) [...] trata-se de uma mistura nunca antes vista [...] (30) [...] as autoridades daquele país perceberam uma ocorrência de gripe incomum no fim de março e em abril [...] (31) (Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso) Essas nominações, todas de caráter polêmico, são corroboradas pelos discursos convocados pelo jornalista para tratar do assunto; ou seja, os discursos reportados na notícia – da OMS (32), do ministro da Saúde do México (33), do CDC (34), etc. – corroboram a imagem de uma possível epidemia, contribuindo para construir o “fato” como uma catástrofe iminente na saúde pública do México, cujos outros países estão sujeitos: A OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou que convocará uma reunião emergencial para debater o assunto [...] (32) “Estamos lidando com um vírus novo que provocou uma epidemia respiratória até agora controlável", disse o ministro da Saúde do México, José Ángel Córdova, depois de uma reunião sobre o assunto com outros integrantes do governo [...] (33) Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, trata-se de uma mistura nunca antes vista [...] (34) A porta-voz da OMS Fadela Chaib disse ontem que as autoridades daquele país perceberam uma ocorrência de gripe incomum no fim de março e em abril [...] (35) (Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso) Dessa forma, a partir dos termos empregados para nominar a nova doença (ato locutório), o jornal causa aflição e desespero (ato ilocucionário), principalmente quando a compara com a “Gripe Espanhola” (36), ocorrida em 1918, palavra que carrega a imagem de uma epidemia avassaladora, memória compartilhada entre a grande maioria dos sujeitos: O fato é preocupante para as autoridades sanitárias porque tradicionalmente surtos simples de gripe, sazonais, têm nos idosos e crianças suas principais vítimas, enquanto grandes epidemias como a da Gripe Espanhola, em 1918, provocam mortes na faixa de população geralmente menos suscetível. (36) (Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso) Um dos efeitos perlocucionários provocados pelo que está sendo dito na notícia reside principalmente na construção da Gripe A como um “fato” social concreto, evidente, embora até hoje não saibamos ao certo o que caracterizou esse surto. As pessoas começaram a se prevenir comprando produtos de higiene pessoal, como álcool em gel, e a usar máscaras. Números de mortes ou de possíveis doentes são divulgados como parte do “alarme” da prevenção. Isso é ratificado, inclusive, pelas imagens divulgadas nessa notícia e na próxima que analisamos: na primeira, é mostrada uma jornaleira e, na segunda, uma família. Todos estão utilizando uma máscara. Na notícia do dia 27 de abril, observamos esse efeito perlocucionário pelo título inserido (36) e pelas novas nominações atribuídas ao vírus, entre elas “pandemia” (37) e “vírus H1N1” (38): EUA decretam emergência por gripe suína (37) Países de Oriente Médio, Oceania e Europa também registram casos suspeitos da doença, aumentando temores de uma pandemia (38) [...] agentes de saúde disseram esperar encontrar inúmeros outros à medida em que se investiga a rota do vírus H1N1, causador da doença. (39) (Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “EUA decretam emergência por gripe suína”, 27 de abril de 2009, grifo nosso) Como não é nosso interesse fazermos uma análise exaustiva, enfatizamos nessa notícia apenas um aspecto que acentua a construção da Gripe A como um “fato” social: a declaração do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (40), órgão que regula e vigia as doenças. No enunciado, é trazida a informação que o vírus, nominado como “inédito” anteriormente, já havia causado a morte de algumas pessoas nos Estados Unidos: Entre 2005 e janeiro de 2009, 12 casos humanos da gripe suína foram detectados nos EUA, nenhum fatal. No passado, houve duas mortes relacionadas ao vírus no país, em 1988 e em 1976, segundo o CDC. (40) (Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “EUA decretam emergência por gripe suína”, 27 de abril de 2009, grifo nosso) Então, mesmo que a Gripe A se caracterize cientificamente como uma mistura de diferentes vírus, observamos que as notícias construíram esse objeto discursivo a partir de um “pseudoineditismo”. Como consequência, as pessoas mudaram alguns comportamentos (um maior cuidado na higienização das mãos) e passaram a adquirir novos hábitos (alguns deixaram de comer carne de porco, quando o vírus passa a ser associado a esse animal). Isso ratifica a ideia do gênero como ação social, visto que a notícia sobre esse “fato” provocou modificações na rotina de algumas pessoas. 6. Considerações Finais Com as análises, observamos que o uso de determinados recursos lingüísticos, como o emprego de determinadas palavras para nominar o outro, e a inserção de certos discursos nas notícias evidenciam a existência de “efeitos de realidade” (LAGE, 2006b) na comunicação dos “fatos”. Logo, os acontecimentos não são dados a priori – como se isso possível! – porque a própria forma de organização da sequência narrativa do “fato” e a convocação de outros discursos (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2006) para comentar um assunto mostra-nos o acento dado a alguns valores e o posicionamento do jornalista/jornal. Assim, os “fatos” estão sendo, a todo o momento, construídos discursivamente pela mídia, já que qualquer ato de fala que realizamos engloba uma avaliação sobre o discurso do outro, o outro, nós mesmos. Neste artigo, estudamos alguns aspectos responsáveis pela construção do “fato”, como a nominação, os discursos e os atos de fala, e refletimos sobre alguns conceitos que subjazem a prática jornalística. Há, contudo, numerosos aspectos que influenciam a construção de um acontecimento, como a representação das vozes, a legitimação dada a alguns sujeitos para se posicionar sobre o assunto, etc. Dessa maneira, esperamos que este trabalho sirva de estímulo para outros pesquisadores da área se aprofundarem nos estudos linguísticos do campo da mídia e/ou do jornalismo. 7. Referências Bibliográficas ALMEIDA, Guido Antonio. Aspectos da filosofia da linguagem: contribuição para um confronto e uma aproximação entre filosofia e ciência da linguagem. In: SOUZA FILHO, Danilo Marcondes (Org.). Significado, verdade e ação: ensaios de filosofia analítica da linguagem. Niterói: UFF-EDUFF, 1986. AUSTIN, John Langshaw. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: Artes médicas, [1962] 1990. 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