A NOTÍCIA E A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE: GÊNERO
TEXTUAL E “FATOS” SOCIAIS
Monique Alves Vitorino (UFPE)
[email protected]
Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro (UFPE)
[email protected]
“Direcionado para o acontecimento, o jornalista é também seu
prisioneiro [...]” (NEVEU, 2006, p. 87)
1. Introdução
O jornalismo tornou-se hoje uma empresa de âmbito corporativo. Guiada
principalmente – mas não só – por imperativos políticos e econômicos, produz a
informação em escala industrial, abundante, visando o seu consumo. Ora, não
alimentamo-nos apenas de comida, peças de vestiário, tecnologia: o boletim
meteorológico, o discurso do presidente, a fofoca da novela, o impacto ambiental, os
avanços da medicina, as propostas de políticas de saúde pública, enfim, tudo é
consumido por nós e, raramente – em virtude do famoso mote “não há tempo” –,
digerido com cuidado e atenção. Contudo, devido à grande oferta de meios de
comunicação e a competição acirrada pela audiência, poucas são as vezes que nos
pomos a refletir sobre o caráter e o tratamento dado a informação.
A presença maciça dos meios de comunicação social em nossas vidas não trata
aleatoriamente os “fatos” que pretende divulgar. Nem poderia, já que somos seres
únicos, singulares, responsivos, dialógicos (BAKHTIN, 2005), constituídos por
discursos que carregam axiologias, valores. Segundo Bakhtin (1993, p. 100), “a
linguagem não é um meio neutro que se torne fácil e livremente a propriedade
intencional do falante, ela está povoada ou superpovoada de intenções de outrem”.
Logo, como uma notícia, por exemplo, poderá, então, ser neutra, se o ser humano é,
antes de qualquer profissional, formado por discursos de outrem com diferentes
ideologias?
Na contramão a essas ideias, o jornalismo define a notícia como “o relato [...]
de cada ‘fato’, a partir do aspecto mais importante ou interessante” (LAGE, 2006a, p.
17, grifo nosso). Contudo, essa definição não reflete o caráter dinâmico desse gênero.
Se observarmos a linguagem como forma de prática social (FAIRCLOUGH, 2001), a
qual é ideológica, que constitui o mundo e é constituída por ele, e a língua como forma
de ação sobre os outros (AUSTIN, 1990), a notícia se caracteriza como um texto que
constrói os “fatos” sociais. Estes não são simplesmente narrados como algo a priori,
com uma verdade e/ou essência única1. Ao contrário: em função dos objetivos do
jornalista/jornal, alguns aspectos terão destaque, outros serão omitidos; recortes serão
feitos e, ao fim, teremos notícias de diferente(s) objeto(s) do(s) discurso(s).
A partir dessas ideias, este artigo tem por objetivo analisar como o gênero
textual “notícia” – instituído como portador de uma linguagem que se diz padronizada, a
qual pressupõe uma objetividade do sujeito ao narrar, cujo “fato” é tornado o objeto da
verdade – cria “fatos” sociais, influenciando o dia a dia das pessoas, estimulando-lhes
reflexões diversas e mantendo ou mudando comportamentos e atitudes. Para isso,
fundamentamo-nos principalmente na teoria dos gêneros textuais como ação social,
defendida por Miller (2009) e Bazerman (2006), segundo a qual os gêneros criam
1
Não se trata de discutir acerca de uma verdade sobre um “fato”, já que podem existir numerosas
“verdades” em função dos diversos pontos de vista assumidos pelos sujeitos.
“fatos” sociais que influenciam o cotidiano das pessoas e a forma de como elas agem no
mundo; na perspectiva dialógica do discurso de Bakhtin (1993, 2005) e
Bakhtin/Volochinov (2006), teóricos que destacam o papel intersubjetivo da linguagem
e o discurso como sempre retomando discursos outros e antecipando discursos em
porvir; em algumas ideias sobre o ato de nominar de Siblot (1998), processo baseado na
memória e alteridade; e, para contextualizar a sociedade e o funcionamento da mídia,
baseamo-nos em teóricos como Giddens (1991), Debord (2003), Hall (2005), Neveu
(2006), dentre outros, os quais trazem uma visão crítica e sociológica dos meios de
comunicação.
Considerando o que foi exposto, analisamos duas notícias veiculadas pela
Folha de S. Paulo sobre o caso Paula Oliveira que, segundo foi divulgado, uma
advogada brasileira grávida disse ter sido atacada na Suíça por três homens que
pareciam skinheads; e duas do mesmo periódico sobre a Gripe A, em que se relata o
surgimento de um novo vírus da gripe no México. Para essas análises, nos detivemos
basicamente nos termos empregados pelos jornalistas para se referir ao objeto do
discurso, nas formas de construção das narrativas sobre os “fatos” – lide e sublide – e
nos interdiscursos manifestados e/ou convocados para se referir ao tema tratado. Dentre
os resultados, observamos que, embora proponha enunciados mais precisos – como a
hora e o espaço exatos de um “fato” (LAGE, 2006b) – e o uso de determinados recursos
linguísticos, o que se observa no cotidiano da prática jornalística é a existência de
diversos “efeitos de realidade” (LAGE, 2006b) na comunicação dos “fatos”.
2. O contexto da sociedade midiática
A partir da segunda metade do século XX, o mundo tem se deparado com um
sujeito deslocado dos contextos de tempo e espaço (HALL, 2005). As crises de
tradições e paradigmas (GIDDENS, 1991); a crescente influência do capitalismo nas
interações humanas; efervescência tecnológica; abundância de novos suportes
midiáticos; enfim, tudo isso tem provocado uma reestruturação das práticas sociais,
interferindo no modo de como o sujeito vê a si mesmo e ao outro. Esses aspectos
trouxeram e ainda trazem impactos para o homem moderno e/ou pós-moderno2:
impelido ao consumismo universal (DEBORD, 2003), ele é motivado a buscar
indiscriminadamente a satisfação dos seus desejos e das suas necessidades mais íntimas.
Inserida nesse panorama, a mídia transforma, sintetiza, compacta culturas,
sentimentos, produtos, assuntos, etc., em objetos de consumo. E, claro, a informação
não fica de fora: com o objetivo de gerar rentabilidade e audiência, os veículos de
comunicação constroem os “fatos” a serem divulgados como produtos de rápida
difusão. Definindo alguns acontecimentos como representativos da “ordem do dia”,
dando-lhes relevância simplesmente por terem o privilégio de ocupar a primeira página
dos jornais, a informação é hoje um dos principais objetos de consumo dos sujeitos, e,
portanto, uma importante fonte de lucro das empresas de comunicação.
Sob a égide do apelo ao virtual, aos modelos de vida globais, padrões de
consumo homogeneizados, à satisfação máxima das nossas necessidades, os veículos de
comunicação passaram a demonstrar uma maior inclinação para abordar temas
imponentes, polêmicos, e até “banais”, já que o objetivo é bater recordes de audiência
e/ou vendagem. Alimentando-se do avanço de imagens espetaculares (DEBORD,
2003), nutrindo-se dos escândalos e das misérias (BAUDRILLARD, 2005), a mídia
ganhou status, onipresença social e credibilidade (LAZARSFELD; MERTON, 2000)
2
Não nos deteremos em uma terminologia específica para caracterizar a sociedade e o sujeito atual, haja
vista que essa discussão foge da nossa proposta.
diante do público, permitindo-lhe desempenhar o “famoso” papel de mediadora da
realidade.
Contudo, os meios de comunicação operam fazendo recortes desse “real”.
Noticia-se o que é de interesse ou, pelo menos, os “fatos” que agregam valores
próximos ao da empresa. Desse modo, o jornalismo não garante um livre acesso a tudo
aquilo que ocorre no mundo (NEVEU, 2006). Ao divulgar conteúdos, seleciona os mais
importantes, atribui prestígios a alguns, desqualifica outros, produz informações –
transformando-as em acontecimentos dignos de serem noticiados – põe certos “fatos”
em circulação, promove uma explosão informacional de alguns. Qual seja a forma que
esse “fato” chegará até nós, ele nunca será isento de ideologias: ele passará por um
longo processo de filtragens – as fontes, os repórteres e os editores (NEVEU, 2006) –
que, ao final, pode resultar em um objeto de discurso completamente diferente. Logo, as
notícias não podem ser lidas como simples narrativas que se atêm à descrição dos
eventos; elas estão constituídas de discursos carregados de valores, de sujeitos que se
posicionam diante dos acontecimentos e das vozes sociais em circulação.
Assim, o jornalista emprega estratégias para noticiar a informação,
construindo-a segundo princípios e valores da empresa em que trabalha. Durante esse
processo de “mediação” do mundo, através da veiculação do que “ocorre nele”, a mídia
torna-se a grande responsável por legitimar instituições e pessoas; participar ativamente
na constituição de imaginários sociais; atuar na forma como os indivíduos percebem-se
em relação a si mesmos e aos outros; criticar a sociedade, levantando discussões;
condenar o que é tido como o “erro”; e, não menos importante, por construir os “fatos”
por meio da linguagem, pois esta nos dá condições de refletir e refratar o mundo.
Destacamos o uso por nós de “construir” diferente do de “divulgar”: o primeiro
pressupõe uma ativa participação desses veículos, enquanto o segundo, um trabalho
passivo de simples reprodução do que seria esse “fato”; e, este último, simplesmente é
impossível de ocorrer.
O universo das notícias é o das aparências do mundo. O noticiário não
permite o conhecimento essencial das coisas, objeto do estudo
científico, da prática teórica, a não ser por eventuais aplicações a fatos
concretos. Por detrás das notícias corre uma trama infinita de relações
dialéticas e percursos subjetivos que elas, por definição, não abarcam
(LAGE, 2006a, p. 24).
Portanto, inserido na instância maior do jornal, o jornalista é um dos grandes
responsáveis por construir os mais variados tipos de acontecimentos na vida das
pessoas. Sendo assim, os “fatos” noticiados vão sendo constituídos de diferentes pontos
de vista, alguns inclusive divergentes, responsáveis por construir numerosas imagens
dos “fatos” – pode-se ler aqui “versões”, por exemplo – e dos sujeitos neles envolvidos.
Isso só é possível porque a linguagem é estratificada internamente (BAKHTIN;
VOLOCHINOV, 2006), isto é, os sujeitos heterogêneos por natureza se constituem em
uma multiplicidade de discursos, o qual permite, por sua vez, que nos posicionemos
diante do mundo, do outro, de nós mesmos. Esse caráter intersubjetivo e dialógico da
linguagem nos oferece reflexões esclarecedoras da notícia como “engenheira” dos
“fatos” e não uma simples divulgadora dos mesmos. Sobre esse papel da linguagem,
relacionado ao fenômeno dialógico do discurso, iremos tratar mais adiante. Todavia, é
necessário, primeiramente, discutirmos sobre o gênero textual “notícia” como ação
social para compreendermos melhor o funcionamento dessa atividade.
3. “Fatos” sociais, atos de fala, sistemas de gêneros e de atividades
Em seus estudos, Bazerman (2006a) afirma que as características dos gêneros
são, na sua maioria, reconhecíveis. O autor afirma que os gêneros são o que as pessoas
reconhecem como tal em qualquer tempo, seja por nomeação, por institucionalização ou
por regularização explícita. Essas características reconhecíveis, juntamente com as
funções ou atividades principais exercidas pelo gênero, formam a sua estrutura. A esse
respeito, Bazerman (2006a) nos oferece conceitos básicos para o exame do texto na
sociedade, os quais sugerem como este é usado pelas pessoas na organização de suas
atividades. São eles: gêneros, “fatos” sociais, atos de fala, sistemas de gêneros e
sistemas de atividades.
Para o autor, o gênero textual é elemento importante na estrutura comunicativa
da sociedade, configurando a ação social e refletindo as relações de poder dentro das
instituições; sendo que, cada texto, encaixado em atividades sociais estruturadas, é
dependente de textos anteriores que “influenciam a atividade e a organização social”
(BAZERMAN, 2006a, p. 20). Não por acaso, o gênero é o mediador entre o particular e
o público, ou seja, entre o indivíduo e a sociedade. Ele tem, por isso, um potencial
estruturador da ação social. Tal compreensão do gênero textual ajuda a explicar de
como interpretamos, encontramos, reagimos e criamos certos textos. Em outras
palavras, na noção de gênero como ação social, o texto não é apenas entidade
linguística, “é ação que reflete características de situações retóricas recorrentes”
(CARVALHO, 2005, p. 140).
Em seguida, Bazerman (2006a) define os “fatos” sociais como produzidos por
meio da criação de textos pelas pessoas em seu cotidiano, afetando suas ações, seus
direitos e deveres. Esses “fatos” são o que as pessoas julgam como verdades, as quais
definem o modo como participam de uma situação. Nesse sentido, Bazerman (2006a, p.
23) afirma que, “frequentemente, os “fatos” sociais afetam as palavras que as pessoas
falam ou escrevem, bem como a força que tais enunciados possuem”. Logo, o autor
defende que cada texto bem-sucedido deve criar um “fato” social para seus leitores.
Dos “fatos” sociais resultam os atos de fala. Para Bazerman (2006a), os
gêneros, caracterizados como “formas textuais padronizadas, típicas e, portanto,
inteligíveis” (BAZERMAN, 2006a, p. 22), realizam os atos de fala, porque, “quando
ditas pela pessoa certa, na situação certa, com o conjunto certo de compreensões [...]
palavras não apenas significam, mas fazem coisas” (BAZERMAN, 2006a, p. 25-6), a
fim de modificar uma situação.
A teoria austiniana dos atos de fala3, a qual Bazerman (2006a) se baseia, está
pautada no uso da língua e tem como base a concepção de que linguagem é ação.
Assim, quando agimos pela linguagem nós não transmitimos apenas uma mensagem,
nós ordenamos, sugerimos, atacamos, defendemos, prometemos, entre outros atos que
visam modificar uma situação. Tais atos se apresentam em três níveis distintos, que
podem se realizar ao mesmo tempo num proferimento: o ato locucionário, o ato
ilocucionário e o ato perlocucionário.
O ato locucionário é o sentido restrito da sentença, ou seja, é o que literalmente
é dito. Exibe, portanto, uma estrutura sintática pertencente a uma determinada língua,
pronunciada com entonação específica e veiculando sentido e referência de acordo com
3
A Teoria dos Atos de Fala, em que linguagem é ação, foi desenvolvida por John L. Austin ([1962]
1990). Abandonando a análise da sentença para analisar o ato de linguagem, o filósofo procura formular e
responder perguntas sobre a capacidade humana de, pela linguagem, comunicar, dizer coisas, fazer
perguntas, dar ordens, prometer, pedir desculpas; se relacionando com o mundo através de enunciados
verdadeiros, falsos ou sem significação, etc. (AUSTIN, 1990).
o contexto e a intenção do locutor. Quanto ao ato ilocucionário, Bazerman (2006a, p.
26), usando como exemplo a sentença “está um pouco frio nesta sala”, complementa:
Ao falar indiretamente, eu pretendia que minhas palavras fossem
dotadas de uma força ilocucionária específica, que acreditava seria
reconhecida pelos outros, em função das circunstâncias imediatas e do
modo como a sentença foi expressa. O ato que pretendo que meu
ouvinte reconheça é o ato ilocucionário (BAZERMAN, 2006a, p. 27,
grifo do autor).
Nesse sentido, referimo-nos à intenção do falante quando falamos em ato
ilocucionário. De acordo com Almeida (1986), os atos ilocucionários podem ser
explicitados por um verbo performativo, o qual possui uma força ilocucionária, ou seja,
“a que equivale proferir tais palavras” (p. 23). Já o ato perlocucionário está ligado ao
que se obtém com nosso ato de fala: assustamos, desagradamos, convencemos, etc.
Assim, “o modo como as pessoas recebem os atos e determinam as consequências deste
ato para futuras interações é chamado de efeito perlocucionário” (BAZERMAN, 2006a,
p. 27, grifo do autor). Em resumo, alguém profere ou escreve uma sentença com
determinado significado (ato locucionário) que tem determinada intenção ou força (ato
ilocucionário), a qual irá produzir determinado efeito sobre o sujeito “receptor” da
mensagem (ato perlocucionário).
Quanto aos conceitos de sistemas de gêneros e sistemas de atividades, estes
estão ligados na medida em que focalizam o que as pessoas fazem e como os textos
agem nesse fazer. Um sistema de gêneros envolve todos os conjuntos de gêneros (textos
que uma pessoa produz ao assumir determinado papel social) utilizados pelas pessoas
que trabalham juntas, de forma organizada, que resultam em relações padronizadas de
produção, circulação e usos desses textos. Enfim, para Bazerman (2006a), os textos
organizam as nossas ações diariamente, criam significações e “fatos” sociais em um
processo interativo tipificado em um sistema de atividades que encadeia ações
discursivas, estando, portanto, inseridos em práticas sociais.
Essa perspectiva que Bazerman (2006a) desenvolve para a identificação e
análise de gêneros nos ajuda nesta empreitada, na medida em que permite que
superemos a intuição de falantes nativos e a visão naturalizada de usuários da língua e
de sistemas de gêneros e de atividades nos quais estamos imersos, oferecendo uma
abordagem analítica baseada nos “fatos” sociais e nos atos de fala. Para a corrente
sociorretórica, ao se considerar o gênero como ação tipificada é importante que se
conheça e se compreenda a natureza genérica de um texto e as implicações em torno de
tal natureza na produção dos sentidos.
Considerando o que Bazerman (2006a) apresenta sobre gênero e ação social, os
conceitos até aqui expostos nos fazem refletir sobre a percepção necessária para uma
análise válida do gênero textual, concebido como ação social tipificada. De acordo com
Silva e Ramalho (2008), é possível ver o gênero como ação social a partir de uma
perspectiva segundo a qual tais ações são “modos recorrentes não só de ‘agir e se
relacionar com os outros’, mas, sobretudo, de ‘agir sobre os outros’, o que pressupõe
relações de poder” (p. 19, grifo dos autores). Assim, um aspecto central dos estudos do
gênero e do discurso é “representado pela noção de que aquilo que é senso comum, em
certa cultura, em determinado momento histórico, reflete e constrói os valores de grupos
sociais dominantes naquela cultura” (BALOCCO, 2005, p. 68), o que nós, analistas do
discurso, procuramos desvelar.
Passaremos a tratar agora sobre o papel intersubjetivo da linguagem na
construção dos “fatos” sociais na notícia. Esse aspecto, associado à visão do gênero
como ação social oferecida por Bazerman (2006a), nos auxiliará a entender as
numerosas implicações que existem na construção da ordem do texto, no emprego de
certas expressões, etc., para tratar um “fato”, elementos que muitas vezes fogem ao
nosso alcance quando não ocupamos o papel crítico diante do que é noticiado pelos
meios de comunicação.
4. O papel da linguagem na construção da notícia
Como se sabe, existem regras que ordenam as diversas práticas sociais. O
jornalismo, assim como outros campos do conhecimento, também não poderia fugir da
ordenação das suas atividades. Há, no entanto, alguns valores que deveriam ser
considerados na elaboração da notícia, por exemplo, para que os profissionais de
comunicação tenham mais consciência do funcionamento do gênero. A esse respeito,
destacaremos inicialmente três aspectos que caracterizam esse gênero para depois
refletirmos sobre a sua pertinência no âmbito da visão de linguagem definida por
Bakhtin (1993, 2005) e Bakhtin/Volochinov (2006).
Em primeiro lugar, caracteriza-se, em termos gerais, a estrutura da notícia
como “o relato de uma série de ‘fatos’, a partir do ‘fato’ mais importante ou
interessante; e, de cada ‘fato’, a partir do aspecto mais importante ou interessante”
(LAGE, 2006a, p.17, grifo nosso). No entanto, esse gênero nem sempre apresenta os
acontecimentos na mesma ordem em que ocorreram na realidade; o jornalista, após
apurar um “fato”, faz um recorte nele, excluindo algumas circunstâncias temporais ou
espaciais consideradas pouco relevantes, e escreve a notícia partindo do que julga mais
importante (para esse “fato” ter se transformado em notícia).
Em segundo lugar, como o jornalista escreve para um grande número de
leitores – embora boa parte seja “detectável” pelas pesquisas de recepção –, ele é guiado
pelos manuais de jornalismo, os quais padronizam a linguagem, regulando os usos
linguísticos e mostrando quais são considerados “adequados” para o seu público-alvo
(LAGE, 2006b). Dispondo teoricamente de um código lingüístico limitado, já que tem
um número menor de expressões para comunicar uma “mensagem”, ele usará uma
linguagem objetiva e comum (coloquial), possibilitando a maioria de seu público
compreender a notícia.
A situação corrente em jornalismo é a de um emissor falando a grande
número de receptores. Tais receptores formam conjunto disperso e
não-identificado, que só pode ser conhecido por amostragem
estatística. Por isso, os adjetivos testemunhais e as aferições
subjetivas devem ser eliminados (LAGE, 2006b, p. 52, grifo do autor).
Por último, ao compor uma matéria, o jornalista deverá atingir a objetividade
(isso é uma regra geral, na maioria das vezes, para os jornais), não trabalhando com
conceitos que expressam subjetividade. Nesse sentido, a notícia não é produzida a partir
do que alguém pensou, sonhou ou imaginou, mas do que alguém disse ou relatou. Além
disso, caracteriza-se por ser axiomática: não argumenta, nem conclui; afirma-se, a
priori, como verdadeira. Ou, pelo menos, deverá parecer ser verdadeira, verossímil
(LAGE, 2006a). Por isso, os jornalistas são orientados, ao escreverem as notícias, a
usarem referências específicas – inclusive citações –, indicando que houve uma boa
apuração do “fato”, criando, segundo o autor supracitado (2006a), um “efeito de
realidade”.
Embora esses aspectos tenham a sua relevância para ordenar e regular a prática
jornalística na elaboração de alguns gêneros, como a notícia, é importante considerar o
papel da linguagem: vista como interação sócio-histórica (BAKHTIN; VOLOCHINOV,
2006), esta nos permite refletir e refratar o mundo a nossa volta. Segundo Bakhtin
(1993), a linguagem só existe entre os indivíduos, os quais a utilizam para se posicionar
diante dos objetos do mundo, do outro e de si mesmo. Optando por empregar
“linguagens” no plural ao invés do termo no singular, Bakhtin/Volochinov (2006)
consideram que as linguagens são essencialmente dialógicas, pois elas fundam a
alteridade, isto é, a relação do homem com o outro.
Em cada momento dado coexistem línguas de diversas épocas e
períodos da vida sócioideológica. Existem até mesmo [as] linguagens
dos dias: com efeito, o dia sócioideológico e político de “ontem” e o
de hoje não têm a mesma linguagem comum (BAKHTIN, 1993, p. 98,
grifo do autor).
Seja nas relações profissionais e/ou nas mais cotidianas, como nas conversas
entre os vizinhos, os indivíduos estão sempre se posicionando, com tons de polêmica,
ironia, pena, etc., contaminando axiologicamente as linguagens usadas. Conforme
Bakhtin (1993, p. 100), as linguagens não se constituem como um “um meio neutro que
se torne fácil e livremente a propriedade intencional do falante [...] [estão] povoada[s]
ou superpovoada[s] de intenções de outrem.” Nessa perspectiva, cada palavra que
empregamos é um embate de forças axiológicas que representa uma ou mais visão de
mundo. Dessa forma, como um texto poderá seguir princípios de linearidade da
narrativa, neutralidade e objetividade da linguagem?
Assim, para Bakhtin (1993), a existência das múltiplas “linguagens” na nossa
vida torna-nos participantes ativos, capazes de produzir discursos que refletem e
refratam os valores da sociedade. Logo, os discursos que os jornalistas usarão para
compor as notícias estão sempre remetendo a outros que englobam a nossa memória
social. Esse movimento dialógico deve ser considerado, pois ele é fundamental a toda
atividade humana. Os princípios acima apontados, portanto, não levando em conta a
realidade da(s) linguagem(s) e o dialogismo, não representam com clareza o
funcionamento do gênero e a capacidade que temos de, diante de um “fato”, (re)contá-lo
segundo outros interesses axiológicos, empregando palavras que não são isentas de
posicionamentos. É sobre esse ato de referir-se ao outro que trataremos agora.
4.1.
O ato de nominar o outro
Baseado na concepção dialógica de Bakhtin (1993), o teórico francês Siblot
(1998) afirma que toda nominação do outro tem por particularidade evidenciar por parte
daquele que nomeia uma posição sobre o que é nominado; e esta tomada de posição
provoca a seu turno uma expressão e definição de si. O outro está, desse modo,
impregnado nesse processo, de modo exibido ou velado, como objeto do discurso, como
imagem de referência. Logo, a dinâmica desse processo se caracteriza a partir de um
duplo movimento “do eu em direção ao outro” (SIBLOT, 1998): quando nos reportamos
a um objeto de uma forma, nominando-o, nós estamos, ao mesmo tempo, aderindo a
uma ou mais vozes para inscrever os termos que vamos usar.
Quando nominamos os objetos, não só dizemos o “mundo”, mas também
definimos os lugares que ocupam os enunciadores nas trocas verbais. Esse processo
também leva os sujeitos a atualizar os sentidos das palavras, ratificar imagens, sobrepor
outras, comunicar axiologias. Contudo, esse ato não corresponde a um processo
automático, de etiquetagem racional, como uma simples categorização lexical mecânica.
Acerca disso, Siblot (1998) destaca a diferença entre “denominar” e “nominar”:
“denominar” alguma coisa é isolar o sentido, extraí-lo do discurso, tornando-o um mero
conceito contido na palavra. Já na nominação, o sentido é um valor em potencial; por
isso, considerar a atualização discursiva das palavras plenas – nomes, adjetivos, verbos
e advérbios – realiza o ato de nominação por outra problemática, pois os seres, as
qualidades e os atos que as práticas linguísticas categorizam, partem de necessidades,
com finalidades concretas que são as mais variáveis.
Dessa forma, para dar conta dos aspectos vivos e dinâmicos dos discursos,
devemos considerar também os aspectos externos que “colorem” axiologicamente, de
formas distintas, a materialidade da língua. Sejam as palavras empregadas, os discursos
recorrentes que aparecem nas notícias, assim como a ordem da construção da narrativa,
os atos de fala, tudo isso deverá ser considerado para compreendermos como se dá a
construção de um “fato” pela mídia. Esses aspectos serão agora ilustrados nos trechos
das análises sobre o caso Paula Oliveira e, logo em seguida, sobre o objeto do discurso
designado como Gripe A, nominado pela imprensa principalmente como “gripe suína”.
5. Notícia e “fato” social: análise
A partir do que foi exposto, apresentaremos em seguida alguns trechos das
nossas análises. É importante, contudo, fazer uma breve referência ao contexto do
“fato” social, para compreendermos como este foi construído em função da abordagem
axiológica feita pela mídia.
5.1.
Caso Paula Oliveira
O caso Paula Oliveira surgiu na mídia no dia 12 fevereiro de 2009, sendo
veiculado até 13 de março de 2010. Inicialmente, noticiou-se que uma advogada
brasileira grávida foi atacada na Suíça por três homens que pareciam skinheads.
Posteriormente, surge a possibilidade de automutilação e ocorre uma reviravolta no caso
que passa a ser noticiado como um ataque forjado pela própria Paula. Para as nossas
análises, contudo, selecionamos duas notícias sobre o tema, referentes a dois dias de
cobertura sobre o caso: 12 de fevereiro de 2009 e 17 de outubro do mesmo ano,
respectivamente.
Na primeira notícia, a Folha de S. Paulo relata o caso apenas segundo a versão
de Paula, a vítima do acontecimento: o destaque na narrativa recai no “quem”, isto é, na
pessoa que sofreu o ataque:
Brasileira é atacada na Suíça [...] (1)
Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada e teve boa parte
do corpo retalhado por estilete [...] (2)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de
fevereiro de 2009, grifo nosso).
Como a ordem de construção da notícia oferece pistas dos aspectos que foram
considerados mais relevantes, a atribuição no lide – o primeiro parágrafo desse gênero –
de mais relevância ao “quem” sofreu a agressão, indica que o acontecimento não se
resume a qualquer fait-divers4. Em geral, esse tipo de notícia acentua a violência do
crime, inserindo em segundo/terceiro plano os atores envolvidos. Observamos também
que há um destaque para aspectos como profissão, nacionalidade, idade, cor, etc., que
4
Essa expressão francesa é usada para designar matérias de caráter policial e sensacionalista.
caracterizam a protagonista. Isso significa que a pessoa nele envolvida tem um papel
essencial. Aliás, essa importância atribuída a Paula, também se reflete nas várias formas
de nominação:
Brasileira é atacada na Suíça [...] (3)
Paula Oliveira estava grávida de gêmeas [...] (4)
Cortes a estilete feitos nas pernas da advogada [...] (5)
Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada [...] (6)
Grávida de três meses de gêmeas, Paula Oliveira [...] (7)
Quando foi abordada, a advogada, que é branca [...] (8)
Paula é noiva de um suíço, que soube da agressão por telefone [...] (9)
Segundo o Itamaraty, ela mora no país legalmente [...] (10)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de
fevereiro de 2009, grifo nosso).
Entre as nominações atribuídas a Paula, observamos que o jornal atribui
relevância ao fato dela ser advogada, branca, jovem, funcionária de uma empresa
multinacional, residente de forma legal no exterior, etc., palavras que lhe comunicam
valores positivos. Esta não é vista como qualquer imigrante, ilegal, pobre, negra, sem
emprego e qualificações que reside no exterior, como ocorre com muitos brasileiros.
Paula Oliveira, construída como uma moça rica, de classe média, é vista a partir de uma
imagem favorável, em consonância com os valores partilhados pelo jornal: se
observarmos as descrições/os atributos e as expressões nominais que lhe foram
atribuídas, notaremos que a imprensa revela seu posicionamento sobre o imigrante que
merece ser bem tratado, que é bem vindo a ser relatado.
Interessa-nos também apontar o discurso veiculado por trás do relato do caso:
no trecho (11), Paula é apresentada como uma jovem que não é simplesmente uma
imigrante ilegal que trabalha em um “subemprego”, aspecto que remete a casos de
muitos brasileiros que saem do país em busca de melhores condições de vida, passando
a trabalhar muitas vezes em setores menos valorizados pela sociedade:
De acordo com informações do Itamaraty, Paula é funcionária do
grupo controlador dinamarquês A. P. Moller - Maersk. O ataque
aconteceu quando ela estava na estação de trem de Dubendorf,
pequena cidade a cerca de cinco quilômetros de Zurique, onde
trabalha. (11)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de
fevereiro de 2009, grifo nosso).
Enfatizamos ainda outro aspecto interessante: o jornal, ao abordar o outro, o
“agressor”, não reporta a voz dele para se posicionar sobre o ocorrido. Desse modo,
assim como as vozes que sustentam a versão de Paula – o Itamaraty e o pai dela –, os
agressores e a Suíça – construídos como os culpados pelo que aconteceu, não têm
espaço para se reportar sobre o assunto. De fato, o que se relata sobre esse grupo é feito
a partir da posição enunciativa do jornalista sobre a versão de Paula, isto é, da imagem
que se constrói sobre o partido SVP. Isso pode ser notado pela maneira de como os
agressores são nominados:
Brasileira é atacada na Suíça por skinheads (12)
Cortes a estilete feitos nas pernas da advogada formam a sigla do
SVP, partido suíço que apoia política anti-imigrante (13)
Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada e teve boa parte do
corpo retalhado por estilete na Suíça por três homens brancos e
carecas que pareciam skinheads [...] (14)
[...] o grupo que a atacou é composto por simpatizantes nazistas [...]
(15)
Um dos agressores tinha uma suástica na cabeça [...] (16)
[...] SVP, do Partido do Povo Suíço, que defende políticas antiimigrantes consideradas, muitas vezes, racistas pela oposição [...] (17)
[...] simpatizantes da oposição social-democrata picharam peças de
propaganda do SVP com suásticas e imagens de Adolf Hitler [...] (18)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Brasileira é atacada na Suíça por skinheads e perde bebês”, 12 de
fevereiro de 2009, grifo nosso).
A partir das formas de nominação dos agressores, seja pelas descrições visuais
(14), pelas crenças sociais (17), pela aproximação com grupos outrora xenófobos (18),
como o de Hitler, observamos que o jornalista reporta o SVP a partir de discursos que
englobam opiniões negativas sobre o partido, o que permite ao jornalista revelar sua
posição. No enunciado (13), por exemplo, o jornalista opta por nominar o partido não a
partir da definição da sigla, mas por meio de uma explicação do que esse grupo significa
na Suíça. Além disso, as palavras “suásticas” (16) e “Adolf Hitler” (18) funcionam
como lembranças de um passado marcado por guerra e extermínio de grupos étnicos e
sociais, que é trazido à tona quando associado ao ato cometido pelo grupo.
Assim, as palavras empregadas e os discursos comunicados pelo jornalista (ato
locucionário) apontam para as possíveis intenções de noticiar esse caso (ato
ilocucionário) como um ataque contra uma brasileira por integrantes de grupos
ideologicamente próximos a Hitler. Ora, acentua-se, por meio das expressões nominais,
a presença de simpatizantes nazistas em pleno século XXI, em um país desenvolvido,
dito de “primeiro mundo”. Um dos efeitos perlocucionários que observamos nessa
notícia é a ampla repercussão que atribui ao “fato” – de caráter nacional e internacional
–, tornando-se cobertura “obrigatória” de diversos veículos de comunicação.
Na outra notícia analisada, o caso encontra-se em um contexto completamente
diferente: Paula Oliveira forjou o ataque e passou a ser nominada como a “culpada”
pelo ocorrido. Nesse momento, muitas das nominações atribuídas a Paula e aos
agressores mudam, assim como a própria forma de se reportar ao “fato” e a maneira de
relatá-lo. O periódico nomina Paula, por exemplo, por meio de orações que atribuem a
ela o relato do acontecimento ((19) e (21)), eximindo-se também da culpa do que foi
noticiado anteriormente sobre o “fato”, e por meio da expressão “pernambucana” (21):
A brasileira Paula Oliveira, que disse ter sido agredida por
xenófobos na Suíça e depois teve sua versão desmantelada [...] (19)
Paula, que teve o passaporte apreendido em fevereiro e não pode
deixar o país, vai contestar a acusação. (20)
A advogada pernambucana, então com 26 anos, ganhou as manchetes
em fevereiro ao dizer que fora agredida por jovens neonazistas em
uma estação de trem em Zurique, cidade onde vivia com o namorado
suíço [...] (21)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”,
17 de outubro de 2009, grifo nosso).
A FSP, ao empregar “pernambucana” (21), passa nesse momento a acentuar a
naturalidade de Paula Oliveira antes silenciada. Contudo, “pernambucana” é uma
palavra que carrega uma ampla memória negativa atrelada ao estereótipo do nordestino,
em geral mal visto pelos brasileiros do sul e sudeste. Quanto aos agressores, esses
também são referidos de forma diferente: embora seja observado ainda o emprego de
“xenófobos” (19) e “jovens neonazistas (21), não se faz uma correlação dos agressores
com integrantes do Partido SVP. Ademais, o jornalista/jornal traz a voz de fontes
legítimas para comentar sobre as novidades do caso, como a Procuradoria de Zurique
(22) e o advogado de defesa de Paula Oliveira (23), em uma tentativa de não levantar
discursos tendenciosos sobre o “fato”.
Ontem, a Procuradoria de Zurique emitiu comunicado informando
que denunciara a jovem na quarta-feira por falso testemunho, com
base no artigo 304 do Código Penal suíço ("conduzir a Justiça a
procedimentos errôneos"). (22)
Em comunicado a jornalistas, a defesa de Paula afirmou ontem que
levará novas provas ao processo, reiterando que ela não reconhece a
acusação e questionando as investigações conduzidas até então.
"A apuração dos fatos pelos órgãos de investigação é passível de
controvérsias por conter ainda lacunas", afirma o texto do escritório de
advocacia Roger Müller, de Zurique. (23)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”,
17 de outubro de 2009, grifo nosso).
Observamos também que as informações anteriores são inseridas na notícia
através de índices de narrativização ((24) e (25)), como uma forma de retomar o que já
foi dito e passando o caráter de um texto mais “impessoal” (25), sem as marcas do
jornalista; além disso, o uso do futuro do pretérito “confessaria” contribui para passar a
ideia de insegurança sobre o relato:
A advogada pernambucana, então com 26 anos, ganhou as manchetes
em fevereiro ao dizer que fora agredida por jovens neonazistas em
uma estação de trem em Zurique, cidade onde vivia com o namorado
suíço. Na época, ela afirmou que perdera bebês gêmeas que gestava
por causa da agressão. (24)
Dias depois, ela confessaria ter inventado a história. O depoimento
informal foi colhido enquanto a brasileira convalescia no hospital e
sem a presença de seus advogados, o que provoca dúvidas sobre a
possibilidade de ser usado como prova. (25)
(Fonte: Folha de S. Paulo, São Paulo, editoria Cotidiano, notícia
“Procuradoria suíça denuncia brasileira por falso testemunho”,
17 de outubro de 2009, grifo nosso).
Assim, diferentemente da notícia anterior, evidenciamos que o cuidado com o
emprego de algumas palavras para se referir aos agressores e ao ocorrido (ato
locucionário) assinalam o “fato” como completamente divergente do que foi noticiado
anteriormente (ato ilocucionário). É evidente que existem informações da investigação
que trazem outras “conclusões” para o ocorrido; contudo nominar Paula também como
“pernambucana” permite-nos associar a imagem da protagonista com estereótipos e
valores sócioculturais omitidos no início da cobertura do caso. Logo, um dos efeitos
perlocucionários que observamos é a desvalorização do jornal para com o nordestino, já
que essa referência é trazida à tona na nova forma de nominar Paula Oliveira.
5.2.
Gripe A
No dia 13 de abril de 2009, surgiu na mídia um novo “fato” social. Devido à
polêmica e controvérsia sobre o assunto, até os dias de hoje o tema é retomado pelos
veículos de comunicação. A partir da análise que fizemos de duas notícias, uma
publicada no dia 25 de abril de 2009 e a outra no dia 27 do mesmo mês e ano,
observamos que, na primeira notícia que analisamos, a gripe A é nominada a partir de
palavras que comunicam a ideia de uma doença nova e intensa, dando grande
visibilidade ao tema:
Vírus inédito (26)
Surto é "até agora controlável” (27)
Jornaleira usa máscara para se proteger do surto de uma gripe
desconhecida, na Cidade do México (28)
Um surto de gripe suína que atinge o México [...] (29)
[...] trata-se de uma mistura nunca antes vista [...] (30)
[...] as autoridades daquele país perceberam uma ocorrência de gripe
incomum no fim de março e em abril [...] (31)
(Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína
desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso)
Essas nominações, todas de caráter polêmico, são corroboradas pelos discursos
convocados pelo jornalista para tratar do assunto; ou seja, os discursos reportados na
notícia – da OMS (32), do ministro da Saúde do México (33), do CDC (34), etc. –
corroboram a imagem de uma possível epidemia, contribuindo para construir o “fato”
como uma catástrofe iminente na saúde pública do México, cujos outros países estão
sujeitos:
A OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou que convocará
uma reunião emergencial para debater o assunto [...] (32)
“Estamos lidando com um vírus novo que provocou uma epidemia
respiratória até agora controlável", disse o ministro da Saúde do
México, José Ángel Córdova, depois de uma reunião sobre o assunto
com outros integrantes do governo [...] (33)
Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos
Estados Unidos, trata-se de uma mistura nunca antes vista [...] (34)
A porta-voz da OMS Fadela Chaib disse ontem que as autoridades
daquele país perceberam uma ocorrência de gripe incomum no fim de
março e em abril [...] (35)
(Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína
desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso)
Dessa forma, a partir dos termos empregados para nominar a nova doença (ato
locutório), o jornal causa aflição e desespero (ato ilocucionário), principalmente quando
a compara com a “Gripe Espanhola” (36), ocorrida em 1918, palavra que carrega a
imagem de uma epidemia avassaladora, memória compartilhada entre a grande maioria
dos sujeitos:
O fato é preocupante para as autoridades sanitárias porque
tradicionalmente surtos simples de gripe, sazonais, têm nos idosos e
crianças suas principais vítimas, enquanto grandes epidemias como a
da Gripe Espanhola, em 1918, provocam mortes na faixa de população
geralmente menos suscetível. (36)
(Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “Gripe suína
desconhecida alarma México”, 25 de abril de 2009, grifo nosso)
Um dos efeitos perlocucionários provocados pelo que está sendo dito na notícia
reside principalmente na construção da Gripe A como um “fato” social concreto,
evidente, embora até hoje não saibamos ao certo o que caracterizou esse surto. As
pessoas começaram a se prevenir comprando produtos de higiene pessoal, como álcool
em gel, e a usar máscaras. Números de mortes ou de possíveis doentes são divulgados
como parte do “alarme” da prevenção. Isso é ratificado, inclusive, pelas imagens
divulgadas nessa notícia e na próxima que analisamos: na primeira, é mostrada uma
jornaleira e, na segunda, uma família. Todos estão utilizando uma máscara. Na notícia
do dia 27 de abril, observamos esse efeito perlocucionário pelo título inserido (36) e
pelas novas nominações atribuídas ao vírus, entre elas “pandemia” (37) e “vírus H1N1”
(38):
EUA decretam emergência por gripe suína (37)
Países de Oriente Médio, Oceania e Europa também registram casos
suspeitos da doença, aumentando temores de uma pandemia (38)
[...] agentes de saúde disseram esperar encontrar inúmeros outros à
medida em que se investiga a rota do vírus H1N1, causador da doença.
(39)
(Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “EUA decretam
emergência por gripe suína”, 27 de abril de 2009, grifo nosso)
Como não é nosso interesse fazermos uma análise exaustiva, enfatizamos nessa
notícia apenas um aspecto que acentua a construção da Gripe A como um “fato” social:
a declaração do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (40), órgão que regula e
vigia as doenças. No enunciado, é trazida a informação que o vírus, nominado como
“inédito” anteriormente, já havia causado a morte de algumas pessoas nos Estados
Unidos:
Entre 2005 e janeiro de 2009, 12 casos humanos da gripe suína foram
detectados nos EUA, nenhum fatal. No passado, houve duas mortes
relacionadas ao vírus no país, em 1988 e em 1976, segundo o CDC.
(40)
(Fonte: FSP, São Paulo, editoria Mundo, notícia “EUA decretam
emergência por gripe suína”, 27 de abril de 2009, grifo nosso)
Então, mesmo que a Gripe A se caracterize cientificamente como uma mistura
de diferentes vírus, observamos que as notícias construíram esse objeto discursivo a
partir de um “pseudoineditismo”. Como consequência, as pessoas mudaram alguns
comportamentos (um maior cuidado na higienização das mãos) e passaram a adquirir
novos hábitos (alguns deixaram de comer carne de porco, quando o vírus passa a ser
associado a esse animal). Isso ratifica a ideia do gênero como ação social, visto que a
notícia sobre esse “fato” provocou modificações na rotina de algumas pessoas.
6. Considerações Finais
Com as análises, observamos que o uso de determinados recursos lingüísticos,
como o emprego de determinadas palavras para nominar o outro, e a inserção de certos
discursos nas notícias evidenciam a existência de “efeitos de realidade” (LAGE, 2006b)
na comunicação dos “fatos”. Logo, os acontecimentos não são dados a priori – como se
isso possível! – porque a própria forma de organização da sequência narrativa do “fato”
e a convocação de outros discursos (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2006) para comentar
um assunto mostra-nos o acento dado a alguns valores e o posicionamento do
jornalista/jornal. Assim, os “fatos” estão sendo, a todo o momento, construídos
discursivamente pela mídia, já que qualquer ato de fala que realizamos engloba uma
avaliação sobre o discurso do outro, o outro, nós mesmos.
Neste artigo, estudamos alguns aspectos responsáveis pela construção do
“fato”, como a nominação, os discursos e os atos de fala, e refletimos sobre alguns
conceitos que subjazem a prática jornalística. Há, contudo, numerosos aspectos que
influenciam a construção de um acontecimento, como a representação das vozes, a
legitimação dada a alguns sujeitos para se posicionar sobre o assunto, etc. Dessa
maneira, esperamos que este trabalho sirva de estímulo para outros pesquisadores da
área se aprofundarem nos estudos linguísticos do campo da mídia e/ou do jornalismo.
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Monique Alves Vitorino