Gestão Democrática: Implicações da Participação da comunidade para
a Melhoria da Organização da Escola.
Alice Miriam Happ Botler1
Melania Santos de Lima2
Wiviane Alves Dias 3
Resumo: O presente artigo analisa a participação da comunidade na consolidação da
gestão democrática. Para tanto realizamos um estudo de caso em uma escola estadual de
Recife que apresenta alto Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), e
aplicamos entrevistas a pais de alunos/responsáveis, docentes como instrumento
principal de coleta de dados. A análise de conteúdo nos permitiu considerar que o alto
IDEB obtido como resultado do trabalho escolar independe do processo de participação
da comunidade na gestão escolar, uma vez que vem sendo incorporado de maneira
limitada e não crítica por parte dos indivíduos que a compõe a escola.
Palavras chaves: Gestão Escolar; Participação; Qualidade da Educação; Comunidade.
Introdução
A gestão democrática e, particularmente a participação da comunidade na
organização da escola despertaram nosso interesse a partir das observações e reflexões
sobre a gestão escolar em nossa experiência nas disciplinas de Pesquisa e Prática
Pedagógica vivenciada ao longo do Curso de Pedagogia na UFPE. Nelas observamos
que existem escolas com bons indicadores de qualidade e gestores atuantes, orientados
por planos de ações baseados no projeto coletivo da escola, em contraponto com escolas
com baixos indicadores de qualidade.
Em nosso entendimento, as formas de organização e gestão escolar hoje são
resultado de uma transição na qual houve mudança de paradigmas. O modelo anterior
de gerir a escola a colocava como uma empresa onde o gestor desempenhava papel
fundamental em atividades administrativas e financeiras. Estudos e debates em torno da
administração da educação no contexto das ciências sociais a partir dos anos 1980
adotaram o enfoque de ciência social ao estudo e prática da administração.
A gestão escolar passou a incorporar atividades de planejamento, coordenação,
controle e avaliação, bem como valorização das relações humanas que se dão neste
1
Doutora em Sociologia pela UFPE, professora do Departamento de Administração Escolar e
Planejamento Educacional e do Programa de Pós-graduação em Educação da UFPE.
[email protected]
2
Estudante do Curso de Pedagogia da [email protected]
3
Estudante do Curso de Pedagogia da UFPE. [email protected]
espaço numa perspectiva mais abrangente, mobilizando a dimensão pedagógica como
atividade-fim da própria administração escolar, que passou a gerir o planejamento tendo
em vista o pedagógico, para além do administrativo e do financeiro. Além disso, um
aspecto que foi inserido nesta perspectiva foi o de que a atividade gestora deveria ser
realizada pelo coletivo da escola, incluindo não apenas professores, gestores e corpo
técnico-pedagógico, mas os pais de alunos também. Há então uma mudança na
concepção de organização da escola em que a comunidade escolar tem importante
papel.
Estes aspectos nos motivaram a buscar analisar a participação da comunidade e
dos professores na gestão escolar e as concepções de participação presentes na escola,
bem como conhecer a relação entre a gestão e os resultados educacionais. Para tanto,
encontramos na literatura alguns conceitos que entendemos ser necessários para
construir nosso objeto de estudo, conforme o que se segue.
A participação
A história da educação brasileira tem demonstrado que o debate a respeito da
gestão da escola foi influenciado pelas diversas correntes das teorias administrativas.
Embora haja a troca de conhecimentos entre administração/organização da escola e
teoria administrativa, a administração empresarial e a da educação diferem de suas
finalidades porque almejam fins diferentes, ora visando à lucratividade individual, ora o
benefício social mais amplo.
Queremos enfatizar que a educação não se reduz a relação entre capital e
trabalho, já que o pensamento educativo e sua aplicação têm o compromisso de
transformar, transmitir o saber, formar e preparar o homem para a cidadania, objetivo
social mais amplo. A este respeito, Luck (citada em DRABACH e MOUSQUIER 2009,
p.276) afirma: “O conceito de gestão supera o de administração, pois se assenta na
mobilização do elemento humano, coletivamente organizado, como condição básica e
fundamental da qualidade do ensino e da transformação da própria identidade das
escolas”.
A transição da lógica da administração de empresas aplicada à organização
escolar foi paulatinamente sendo transformada e teve seu marco divisor com a
intensificação das idéias democratizantes ocorrida na década de 1980.
A gestão escolar democrática pressupõe autonomia escolar, descentralização do
poder, representatividade social dos Conselhos e Colegiados, controle social da gestão
educacional, escolha dos dirigentes escolares por processo de eleição e a abrangência da
participação dos que nela atuam ou interferem.
Neste sentido o objeto de estudo desta pesquisa é a gestão escolar, buscando
uma melhor compreensão sobre as ações dos gestores das escolas públicas e suas
implicações na participação da comunidade para melhoria da qualidade de ensino.
Martins (1997, p.42) esclarece que:
A escola é o lugar de entrecruzamento do projeto coletivo da sociedade com
projetos existenciais de alunos e professores, é ela que torna educacionais as
ações pedagógicas, à proporção que as impregna com as finalidades políticas
da cidadania, aonde a construção de cidadania envolve um processo
ideológico de formação de consciência e de reconhecimento desse processo
em termos de direitos e deveres.
O autor nos auxilia a compreender que o projeto coletivo desenha o projeto
político-pedagógico da escola. Assim, acreditamos que a participação da comunidade é
parte importante no processo de desenvolvimento da cidadania e pode trazer
contribuições para a melhoria da qualidade do ensino e da escola, conforme o que se
segue.
Qualidade de ensino
Avaliação da qualidade do ensino é uma das estratégias atualmente em uso para
analisar os resultados do trabalho educacional, e vem sendo examinada pelo Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), criado pelo Instituto Nacional de
Estudos em Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em 2007. O IDEB utiliza
uma escala de zero a dez e compreende dois conceitos importantes para a educação:
aprovação e média de desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática.
O indicador é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos nos Censos
Escolares, bem como das médias de desempenho nas avaliações do Sistema de
Avaliação da Educação Básica (SAEB) e da Prova Brasil. O resultado do IDEB é
acompanhado pelos gestores educacionais, pelas secretarias municipais e estaduais de
educação, pelas escolas e, supostamente, pela comunidade que utiliza seus serviços.
Compreendemos que o IDEB não pode servir como medida única para avaliar o
desempenho dos estudantes, mas pode ser considerado como mais um instrumento de
análise da realidade escolar, por meio do qual se tem um ponto de partida para uma
mudança nos rumos da escola, ou seja, como instrumento de gestão.
Embora saibamos que o conceito de qualidade envolve muitas variáveis e
definições, concordamos com a definição apresentada pela Unesco :
A qualidade se transformou em um conceito dinâmico que deve se adaptar
permanentemente a um mundo que experimenta profundas transformações
sociais e econômicas. É cada vez mais importante estimular a capacidade de
previsão e de antecipação. Os antigos critérios de qualidade já não são
suficientes. Apesar das diferenças de contexto, existem muitos elementos
comuns na busca de uma educação de qualidade que deveria capacitar a
todos, mulheres e homens, para participarem plenamente da vida comunitária
e para serem também cidadãos do mundo (UNESCO, 2001, p.01).
Nesse sentido, a educação, deve ser tratada como uma política social, que tem
como compromisso fundamental a garantia dos direitos do cidadão. Desta maneira
entendemos que uma educação de qualidade seja capaz de formar seus sujeitos para
uma ação política comprometida com os interesses coletivos. A educação deve ser vista
não apenas como um processo de formação de mão-de-obra para ser absorvida pelo
mercado de trabalho, mas como um processo de formação da cidadania plena, que
prepare sujeitos para participar ativamente de todos os espaços políticos, o que inclui
também entender a escola como um lugar de práticas sociais democráticas. Para isso
acreditamos que a participação de sujeitos é fundamental, para atingimos essa educação
de qualidade. Dourado (2007, p. 11) afirma:
As pesquisas e os estudos sobre a Qualidade da Educação revelam, também,
que uma educação de qualidade, ou melhor, uma escola eficaz é resultado de
uma construção de sujeitos engajados pedagógica, técnica e politicamente no
processo educativo, em que pesem, muitas vezes, as condições objetivas de
ensino, as desigualdades socioeconômicas e culturais dos alunos, a
desvalorização profissional e a possibilidade limitada de atualização
permanente dos profissionais da educação. Isso significa dizer que não só os
fatores e os insumos indispensáveis sejam determinantes, mas que os
trabalhadores em educação (juntamente com os alunos e pais), quando
participantes ativos, são de fundamental importância para a produção de uma
escola de qualidade ou que apresente resultados positivos em termos de
aprendizagem.
O autor nos auxilia a compreender que a participação da comunidade escolar por
meio da atuação em conselhos escolares ou equivalentes, gere benefícios a própria
escola, além de estabelecer a relação de respeito e confiança com a escola e promover
sua valorização junto à sociedade, melhorando desta maneira também seus indicadores
de qualidade. Como nos afirma Cury (2006, p. 9)
A qualidade do ensino supõe, então, a busca do melhor, de um padrão
científico e fundamentado dos conteúdos acumulados e transmitidos. Mas ela
é também uma forma de responsividade face aos desafios da sociedade
contemporânea. Essa exige um conjunto de conhecimentos e habilidades
capazes de possibilitar a todos o acesso a formas de ser e de se comunicar
como um participante do mundo.
Desta maneira entendemos que escola com qualidade, é aquela capaz de formar
cidadãos aptos a se apropriem do saber historicamente acumulado, preparando também
o aluno para a participação plena na vida social, cultural e política na sociedade.
Acrescentamos que entendemos que a qualidade da escola e da educação nesta
perspectiva depende não apenas do empenho dos profissionais da escola, mas também
da iniciativa dos pais de alunos e responsáveis, uma vez que a escola é uma extensão da
casa onde o aluno passa apenas pequena parcela do dia e também porque serão os pais e
responsáveis os exemplos vivos da experiência de participação nos diversos âmbitos da
vida em sociedade.
Gestão Democrática e a participação na gestão escolar
Os aspectos relacionados a qualidade da educação vem sendo abordados com
maior freqüência especialmente a partir dos anos 1980 e teve alguns marcos legais
consolidados seja no âmbito estadual, seja federal, com a proposta Pedagógica da
Secretaria Estadual de Educação do Estado de Pernambuco, baseada na atual Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - Lei Federal nº 9394/96, que defende a
gestão democrática do ensino público fundamental. Nos artigos 12 a 15 da mesma Lei é
amparada a autonomia pedagógica e administrativa das escolas, e a importância da
elaboração de ações na escola por todos os membros envolvido, incluídas práticas
sociais que possam contribuir para a consciência democrática e a participação popular
no interior da escola. A gestão democrática vai planejar suas ações na área educativa
propriamente dita da escola, definindo as linhas de atuação em função dos objetivos das
comunidades e dos alunos, propondo metas a serem atingidas, onde o diretor é auxiliado
nessa tarefa pela comunidade escolar.
Nesses termos, ao assumir esse papel, o gestor democrático deverá buscar a
articulaçao das diferentes pessoas que fazem a escola em torno de uma educação de
qualidade, o que implica uma liderança democrática, capaz de interagir com todos os
segmentos da comunidade escolar:
Democracia também quer dizer liberdade na escolha dos dirigentes, do líder,
por isso é fundamental que tal escolha seja feita por via de eleições e com a
participação de todos. Nesse sentido, uma postura democrática leva a um
melhor desempenho das atividades do processo educacional, envolvendo-se
numa luta pela conquista dos direitos da cidadania e pela transformação
social, persegue também a garantia do saber básico de qualidade para todos
(BOTLER 2007, p. 155).
Neste sentido democracia também se dá através da efetivação de novos
processos de organização e gestão baseados em uma dinâmica que favoreça os
processos coletivos e participativos de decisão. Desta maneira a participação constitui
uma das bandeiras fundamentais a serem implementadas pelos diferentes atores que
constroem o cotidiano escolar:
A gestão democrática é aqui compreendida, então, como um processo
político no qual as pessoas que atuam na/sobre a escola identificam
problemas, discutem, deliberam e planejam, encaminham, acompanham,
controlam e avaliam o conjunto das ações voltadas ao desenvolvimento da
própria escola na busca da solução daqueles problemas. Esse processo,
sustentado no diálogo, na alteridade e no reconhecimento às especificidades
técnicas das diversas funções presentes na escola, tem como base a
participação efetiva de todos os segmentos da comunidade escolar, o respeito
às normas coletivamente construídas para os processos de tomada de decisões
e a garantia de amplo acesso às informações aos sujeitos da escola. (SOUZA
2009, p. 125).
Nesse sentido, o objetivo é construir uma verdadeira educação com o máximo
de contribuição e participação dos membros da comunidade, o que nos leva a perceber
que uma gestão de qualidade implica em um trabalho coletivo. Então, toda ação
planejada pela escola deverá ser pensada de modo que todos os envolvidos na
comunidade escolar juntamente com a comunidade extra-escolar devam se envolver
para tornar o serviço ofertado pela escola suficiente e satisfatório a todos os membros
envolvidos no processo. A este respeito HORA esclarece que:
A necessidade de promover a articulação entre a escola e a comunidade a que
serve é fundamental. O entendimento de que a escola não é um órgão isolado
do contexto global de que faz parte, deve estar presente no processo de
organização de modo que as ações a serem desenvolvidas estejam voltadas
para as necessidades comunitárias. (2002, p.59)
Essa participação será efetiva na medida em que os indivíduos se tornarem
conscientes sobre a importância da suas opiniões para os rumos das escolas porque a
escola não é apenas um local de reprodução das relações sociais, mas sim um espaço
onde estão presentes valores e concepções de mundo. Entendemos que a participação é
inerente às práticas da escola onde participação significa segundo Ferreira (citada em
SANTOS (S/N 2010) “participar significa estar inserido nos processos sociais de forma
efetiva e coletiva, opinando e decidindo sobre planejamento e execução”.
Então se a participação está atrelada a decidir e opinar compreendemos que, para
a escola desenvolver um ensino de qualidade é importante que se tenha a participação
de todos através de discussões. Motta (1994, p. 200) conceitua participação como “todas
as formas e meios pelos quais os membros de uma organização, como indivíduo ou
coletividade, podem influenciar os destinos dessa organização”
Nessa perspectiva de organização e gestão escolar, todos os membros da
comunidade escolar e extra-escolar são considerados como sujeitos ativos do processo,
de forma que sua participação deva acontecer de maneira aberta e com
responsabilidade.
Entendemos que a participação é fundamental na gestão democrática, pois
implica na abertura da escola para a comunidade valorizando-a, assim como é parte
importante na formação da particularidade de sua clientela e a valorização de seus ideais
na melhoria da qualidade do ensino ofertado. É preciso pensar junto com a comunidade
os problemas de acesso e permanência, com sucesso, dos alunos e ajudar a encontrar
soluções que venham a favorecer o conjunto deles, o que torna sua contribuição
imprescindível.
Refletindo a este respeito observamos que algumas escolas têm melhorado seus
índices de qualidade e outras não apesar da gestão da escola afirmar a busca da
qualidade do ensino, tomamos como hipótese a idéia de que a comunidade escolar
poderá ser fundamental para a melhora da qualidade da educação na gestão
democrática, na medida em que atua no debate a respeito dos rumos da escola e de sua
organização. Como nos afirma Abranches (2003, p. 77). “os resultados têm sido vistos
com otimismo pelos participantes dos colegiados, que arriscam garantir que a escola
realmente tem melhorado em vários aspectos: resolubilidade, relacionamento e
produção”.
A autora nos ajuda a compreender que a participação da comunidade é
fundamental para a melhoria da qualidade da escola que, através da participação efetiva
da comunidade escolar (pais, alunos, professores, servidores e direção) e da comunidade
local, através das discussões e das ações realizadas dentro das escolas é possível
construir uma escola de melhor qualidade. Conforme afirma:
Para os planejadores democráticos, pela participação garante-se o controle
das autoridades pelo povo. A idéia é a de que a participação da população na
fiscalização dos serviços públicos, além de dificultar a corrupção e a
malversação de fundos, promove a melhoria desses serviços em qualidade e
em oportunidade. (SILVA, 2006 p. 22)
Nesse modelo de gestão participativa, a comunidade escolar tem uma
participação ativa na definição e no desenvolvimento da escola, por meio da atuação em
conselhos escolares ou equivalentes, prevendo, portanto, uma abertura maior para a
participação da comunidade externa. O estreitamento de laços entre escola e
comunidade gera benefícios aos moradores e à própria comunidade escolar, além de
restabelecer a relação de respeito e confiança com a escola e promover sua valorização
junto à sociedade.
Entendemos então que a comunidade escolar e os pais podem coletivamente
fazer exigências por melhores condições educativas, humanas, físicas, financeiras, bem
como buscar sua autonomia, o que leva a consciência crítica e, consequentemente, a
melhoria da qualidade do ensino, tornando a escola verdadeiramente pública e
democrática. Compreendemos que uma escola distante da realidade dos alunos e alheia
às pretensões da população não faz sentido para os que a freqüentam, podendo se dar
por meio de sugestão de idéias, em um diálogo educativo, nas reuniões do conselho de
classe com a participação de todos os membros assim compreendemos que é favorável a
participação da família no âmbito escolar.
Participação, portanto, é aqui compreendida como busca de diálogo, através de
circulação de idéias levando em consideração as discussões de prioridades com a
intenção consciente do beneficio coletivo, assumindo responsabilidades com as
mudanças para que cada um fale se posicione e participe como sujeito ativo.
A partir dos conceitos acima expostos, compreendemos que um dos princípios
da gestão escolar democrática é o da participação e, neste trabalho supomos que quando
as ações da escola mobilizam a comunidade para participar, a escola vive plenamente os
objetivos de todos (professores e comunidade), conduzindo a um melhor trabalho
pedagógico e a melhores resultados educacional.
Nossa pesquisa buscou, então, como objetivo geral, investigar as concepções de
professores e pais/responsáveis de alunos a respeito da participação dos sujeitos na
escola. Definimos como objetivos específicos, analisar as concepções de gestão
democrática presentes na comunidade escolar e; analisar a participação da comunidade
na gestão escolar democrática.
Procedimentos Metodológicos
Para alcançarmos os objetivos propostos, realizamos uma leitura exploratória no
primeiro momento para aprofundamento da bibliografia específica a respeito do objeto
em questão. Assim, realizamos uma pesquisa de caráter qualitativo que, segundo
Liebscher (citado por DIAS, 2000, p.3), “Os métodos qualitativos são apropriados
quando o fenômeno em estudo é complexo, de natureza social e não tende à
quantificação e, por isso, são normalmente usados quando o entendimento do contexto
social e cultural é um elemento importante para a pesquisa”. Este aspecto nos leva a
refletir a respeito da mudança de comportamentos a partir do paradigma da gestão
escolar democrática, o que, supomos, deve ser entendido com base nos valores sociais
que permeiam a comunidade escolar e suas relações com a prática das ações da escola.
Nesta pesquisa de campo, escolhemos trabalhar com estudo de caso que, de
acordo André e Ludke (1986, p. 18), “Os estudos de casos visam à descoberta, mesmo
que o investigador parta de alguns pressupostos teóricos iniciais, ele procurará se
manter constantemente atento a novos elementos que podem emergir como importantes
durante o estudo”. Desta maneira a nossa pesquisa foi realizada, buscando compreender
as concepções de participação em uma escola pública Estadual de Pernambuco,
delimitada para estudar como se materializa a participação da comunidade escolar no
cotidiano da escola.
A escola selecionada faz parte da rede estadual de ensino e atende crianças do 6º ao
9º anos, localizada no bairro da Várzea, sendo composta por 16 professores, uma
gestora e uma vice- gestora, coordenadora e secretaria e atende a um total 427 alunos
em três horários (manhã, tarde e noite), e foi por nós escolhida em função de seu alto
IDEB (4,9), em consideração à média apresentada pelas escolas estaduais no ano de
2009 (3,4). (INEP, 2011)
Examinamos os dados conforme a proposição da análise de conteúdo que,
segundo Bardin (1977, p. 37) “[...] é um conjunto de técnicas de análise das
comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do
conteúdo das mensagens”.
Realizamos entrevistas semi-estruturadas com 13 professores (de um total de 16) e
28 responsáveisbem como conversas informais com os alunos por alunos e 22 alunos,
pautadas nas seguintes categorias teóricas: Gestão Democrática, Participação e
Qualidade da Educação. Para facilitar a identificação dos sujeitos neste artigo,
utilizaremos as iniciais de cada segmento: responsáveis (R), professores (P) e estudantes
(E). Entendemos que a comunidade escolar inclui ainda funcionários e equipe gestora.
No entanto, não tivemos condições de entrevistar estes segmentos em função da
intensidade da dinâmica escolar.
Na primeira etapa, foi examinado o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola
selecionada, onde foi visto quais os princípios subjacentes à proposição filosóficopolítico-pedagógica da escola e qual o papel da comunidade, proposto neste documento.
Na segunda etapa utilizamos um roteiro de entrevista previamente elaborado, que
foi aplicado aos sujeitos (pais e professores) com o objetivo de entender a participação e
o desenvolvimento de ação da gestão democrática, e se esta satisfazendo ambas as
partes. Este roteiro tomou como referencia as categorias anteriormente citadas: gestão
democrática, participação e qualidade da educação. Considerando os preceitos éticos,
não aplicamos entrevistas formais com alunos, mas buscamos desenvolver conversas
informais com grupos de alunos em horários de intervalos, que nos forneceram
interessantes elementos para reflexão.
Na terceira etapa, foi feita uma leitura exploratória do material coletado com base na
analise de conteúdos baseada em Bardin (1977, p.19) que, conforme a autora: “... é uma
técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e
quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”.
O que revelam os dados investigados
Projeto Político Pedagógico
Analisamos a Projeto Político Pedagógico da escola a partir da atuação e
participação dos pais nesse contexto educativo que é gestão participativa, contemplando
o que a escola espera da comunidade para que seus integrantes se sintam
comprometidos e integrantes do projeto coletivo da escola.
Na análise do Projeto Político Pedagógico (PPP), procuramos destacar aspectos
relativos a atuação e participação dos pais na escola, bem como a expectativa que esta
tem a respeito da comunidade, com foco no comprometimento e integração ao seu
projeto coletivo. Verificamos que a escola tem como objetivo proporcionar a construção
do conhecimento e a experiência de valores, propondo-se a utilizar para isso uma
metodologia crítica, tornando o processo educativo um meio de reflexão e
transformação de seu contexto social. Conforme nos indica o objetivo geral do PPP
(2011):
Objetivo Geral – Educar para vivência dos principais aspectos morais e
éticos fazendo com que o sujeito histórico possa atuar com suas
potencialidades e compromissos permitindo um envolvimento com o mundo
concreto, real, conflituoso, dinâmico conduzindo para o bem estar de cada
ser humano e de justaposição com a natureza. Permitindo de forma mais
elucidada a construção de um ser que seja capaz de Aprender a Conhecer,
Aprender a Ser, Aprender Conviver, Aprender Fazer.
O extrato do documento denota a preocupação da escola com a dimensão
pedagógica e a convivência na escola e com a formação valorativa, criando como
objetivo geral situações que permitam aos alunos pensar e aprender.
Além desse objetivo, no PPP da escola pode-se perceber também a menção a
participação e a preocupação com a falta de interesse dos pais na vida escolar do filho,
conforme nos indica o trecho abaixo:
Acredita-se que só uma escola consciente e responsável será capaz de
reconduzir a escola à sua verdadeira vocação. Para tanto, é necessário investir
na gestão participativa, a fim de que se tenha um corpo de profissionais
verdadeiramente engajados em seu trabalho e acionadores de uma nova
proposta de educação.
A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria
natureza do ato pedagógico. A gestão democrática é uma exigência de seu
projeto político-pedagógico. A participação efetiva e ativa dos diferentes
segmentos sociais na tomada de decisões conscientiza a todos de que são
atores da história que se faz no dia-a-dia da escola.
Buscamos manter um relacionamento com a comunidade de parceria, sendo
muitas vezes dificultado pela falta de interesse e disponibilidade de alguns
responsáveis de comparecerem quando são convocados para reuniões,
palestras e tratar de assuntos relacionados a seu filho (a).
Este foi um dado interessante porque, durante a nossa pesquisa, tivemos a
oportunidade de presenciar um plantão pedagógico e uma reunião com a comunidade,
onde percebemos uma presença significativa de pais na escola.
Na escola pesquisada, a participação não se efetiva, pois de acordo com a
observação realizada, percebeu-se na escola, na verdade, um desconhecimento do PPP,
visto que não há articulação entre a teoria indicada no documento e a prática
desempenhada na escola.
Nesse sentido é fundamental que os profissionais que atuem na escola, saibam
da importância da participação de todos na construção coletiva do Projeto Político
pedagógico, bem como, saibam a importância de colocar em ação os objetivos
propostos no documento.
Para facilitar a compreensão, subdividimos a análise em três eixos, a saber: A
Participação, Qualidade da educação e a Participação da comunidade na gestão escolar.
Em cada eixo apresentamos dados coletados a partir das entrevistas com os sujeitos,
bem como dos documentos analisados e ainda registro de observação, conforme o que
se segue.
Participação
A participação como eixo de análise foi por nós investigada a partir dos aspectos
teóricos acima elucidados e considerada em seus diversos âmbitos, tais como nas
reuniões de pais, na escuta e ingerência nas decisões, na tomada coletiva de decisões a
respeito de assuntos de interesse, como questões pedagógicas.
Quando questionamos a comunidade se participavam das reuniões que a escola
realiza e qual o assunto discutido nestas reuniões, obtivemos como respostas que 17 dos
responsáveis vem com freqüência na escola e 2 afirmaram que estavam vindo a ela pela
primeira. Os demais 9 não costumam freqüentar nenhum evento, apesar de neste
momento estarem presentes na escola. A respeito do assunto discutido nas reuniões, 15
responsáveis explicaram que era para saber das notas e falar a respeito das faltas e das
dificuldades no aprendizado, conforme indica o extrato a seguir: “Sim quando tem
(reunião) eu venho, é mais para falar sobre comportamento e notas, sobre
comportamento e como o aluno ta se saindo na escola”. ( R2)
Questionamos também se a comunidade já havia participando de reuniões fora
as da escola, como a Conferência Municipal de Educação (COMUDE), por exemplo, e
obtivemos como respostas que 15 responsáveis nunca foram para esse tipo de reunião, 4
já participaram dessa reunião e 9 não sabiam nem o que seria esta reunião.
Entendemos que a participação da comunidade representa um meio de grande
importância para a escola. Esta deve envolver as famílias dos alunos, promovendo a
integração desses pais não apenas nas reuniões (que avaliam o comportamento e o
desenvolvimento dos seus filhos), mas na construção de uma proposta pedagógica que
esteja de acordo com a cultura da comunidade. A este respeito, Luck, (2006, p. 30)
reflete sobre a participação:
A participação em sentido pleno é caracterizada pela mobilização efetiva dos
esforços individuais para a superação de atitudes de acomodação, de
alienação, de marginalização, e reversão desses aspectos pela eliminação de
comportamentos individualistas, pela construção de espírito de equipe,
visando a efetivação de objetivos sociais e institucionais que são
adequadamente entendidos e assumidos por todos.
Desta maneira a participação da comunidade, professores, alunos e funcionários
da escola, pressupõem também conscientização da comunidade para a importância da
participação. Nesse sentido, compreendemos que a participação constitui uma das
pretensões fundamentais a serem praticadas pelos diversos atores que trabalham na
escola.
Perguntamos também aos professores a respeito da freqüência dos pais na escola
quando há reuniões e eventos e em que outros momentos eles se fazem presentes. Todos
docentes entrevistados afirmaram que os pais freqüentam pouco a escola conforme
destacado nos extratos abaixo:
P 11-Sim são sempre os mesmos pais, há pais que só vem por causa da Bolsa
Escola, têm outros que estão sempre participando.
P2-São pouquíssimos os pais que freqüentam a escola, são geralmente
aqueles em que os filhos, nem precisam de participação dos pais, mas é
pouquíssima a participação dos pais na escola.
Destacamos na fala de P2 a idéia de que alguns pais nem precisariam vir a
escola, sugerindo que pais só o fariam caso seus filhos tivessem algum problema de
comportamento ou desempenho! Este dado nos leva a indagar a concepção que os
professores tem da participação de pais, bem como se os alunos referidos nesta fala não
teriam seus bons resultados relacionados à frequencia de seus pais a escola!
Em seguida, perguntamos aos professores quais as principais reivindicações dos
pais e fomos surpreendidas com a constatação de que a maioria (11 professores) relata
reivindicações diversas por partes dos pais como: 4 professores indicaram que os
responsáveis cobram comportamento melhor dentro da escola, 4 apontaram que cobram
os livros que ainda faltam chegar à escola, 1 especificou que escola integral é
reivindicada e 2 apontaram que os pais querem saber das notas dos filhos. Esperávamos
obter como respostas que nada seria reivindicado, já que os docentes entendem que há
pouca participação na escola, mas apenas 2 docentes afirmaram que os pais não
reivindicam nada!
Percebemos desta maneira que há cobrança da comunidade sobre a escola no
sentido da melhoria da qualidade do trabalho, tanto no aspecto físico, pedagógico ou
como um espaço para melhor convivência.
Questionamos os professores se nas reuniões pedagógicas eles têm as opiniões
ouvidas, ao que mais da metade dos docentes (7) afirmou que a opinião da gestora é a
que sempre prevalece, conforme indicamos nas falas abaixo:
P-4: é escutada nossa opinião, mas sempre sobressai o que a gestora acha,
mais conveniente a ela.
P-5-: sim, somos ouvidos, mas nem sempre atendidos, a opinião da gestora
tem um peso a mais na resolução dos problemas.
Ainda a respeito da escuta de suas opiniões, 5 professores não opinam conforme
indicado: P-6 “eu só fui para uma reunião e como sou nova aqui na escola eu preferi
escutar a opinião dos professores mais antigos aqui na escola, e não dar nenhuma
opinião”. A este respeito, concordamos com Luck (2006, p. 39) quando afirma que:
É muito freqüente interpretar o envolvimento de pessoas na discussão de
idéias, como um indicador de sua participação em relação á questão em
causa. A oportunidade que é dada ás pessoas de expressarem suas opiniões,
de falarem, de debaterem, de discutirem sobre idéias e pontos de vista enfim, o uso da liberdade de expressão – é considerada como espaço
democrático de participação e, portanto, a grande evidencia de participação.
Porém, a atenta observação do que acontece no contexto educacional pode
demonstrar um espírito totalmente diverso. Isso porque não é incomum
perceber, como já indicado anteriormente, escolas em que as decisões
tomadas por sua direção têm no espaço de reuniões de professores o objetivo
de referendar decisões tomadas, constituindo-se, desse modo, em processo de
falsa democracia e participação.
Desta maneira, em uma gestão democrática com ênfase na participação de todos
os envolvidos, se faz necessário entender como se dá participação e qual o sentido
atribuído da participação pelos atores que fazem o cotidiano da escola. Nessa direção, é
fundamental observar que a participação não se determina e não se impõe: se
desenvolve na medida das oportunidades e possibilidades de comunicação e diálogo.
A participação também pode ser analisada do ponto de vista de conversas
informais com alunos em que perguntamos se eles gostam da escola e obtivemos como
respostas de 18 alunos que afirmam gostar da escola e apenas 4 não gostam. A
expressão gostar para nós traz sentido de afinidade, identidade, o que estimularia para o
envolvimento. Questionamos se os seus pais costumam vir à escola e em quais situações
eles se fazem presentes: 21 alunos afirmaram que os pais vêm para a escola quando
solicitados para reuniões e apenas 1 estudante relatou que o pais não vêm. Percebemos
também, de acordo com os depoimentos dos alunos que os pais vêm a escola para saber
do comportamento e das notas.
Indagamos aos alunos o que eles gostariam de
melhorar na escola, ao que 14 alunos responderam estrutura física, 4 estudo mais
eficiente, 3 alunos declaram que poderia haver mais respeito entre os alunos e 1 aluno
afirmou que deveria haver mais normas para melhorar a convivência dentro da escola.
Observamos que, apesar de a maioria trazer referências a questões materiais, 8
apresentam aspirações relativas ao ambiente de aprendizagem, o que inclui ensino,
relações interpessoais e normatização para a melhoria do próprio aprendizado e da
convivência.
Para que a participação seja realidade, são necessários meios e condições
favoráveis, dentre os quais destacamos a importância de se garantir infra-estrutura
adequada, quadro de pessoal qualificado e apoio estudantil, bem como o estímulo a
perceber-se participante da escola. Neste sentido Dourado nos alerta (2007, p. 16) que:
A educação de qualidade tem se tornado uma exigência da sociedade atual,
assim como a ampliação do tempo de escolarização, o que, de certa forma,
tem contribuído para o entendimento da educação como bem público e
direito social, colocando-a, sobretudo, na esfera das obrigações e deveres do
estado. Tal situação vem se configurando no panorama internacional a partir
de acordos, planos e metas comuns voltados á garantia de acesso e
permanência com qualidade social.
Embora compreendamos que não depende apenas da escola atender todas as
reivindicações dos alunos, é importante entender a participação através destas
reivindicações mais imediatas dos educandos, como seus anseios pela melhoria da
qualidade da educação e também como ferramenta para despertar a participação de uma
forma mais crítica.
Qualidade da educação
A qualidade da educação foi analisada a partir da participação de pais e
membros da comunidade nas decisões da escola, e como esta participação é entendida
para os diversos atores que constroem o cotidiano escolar levando em consideração a
percepção da comunidade em relação à participação na escola e as sugestões para se
conseguir uma melhor qualidade da educação na instituição de ensino.
Perguntamos aos pais/responsáveis se eles opinam a respeito dos assuntos que
seus filhos estudam na escola. Boa parte (13) afirmou que não opina como enfatizamos
abaixo:
R-7. Não opino não. Eu tenho pouco estudo, como é que vou falar sobre isso?
R-2 Não, nem nunca me perguntaram; E a pessoa opina, é?
Ainda assim, 6 pais afirmaram que opinam sobre os assuntos que o filho estuda,
conforme destacamos nos extratos abaixo:
R- 9 Sim, com a professora, opino na feira de ciências.
R-11 Sim, quando os professorem perguntam, sobre eventos como, por
exemplo, o tema do dia dos pais.
Acreditamos que a gestão da escola pode, além de incentivar as famílias a
participarem das festas, discutir e refletir junto à comunidade a buscar soluções para
seus problemas. Mas, para tanto, é preciso dar oportunidade de participação aos pais e
esclarecê-los sobre a real importância desta participação, pois, apesar de alguns pais
emitirem suas opiniões sobre aspectos educativos, a maioria denota que não vem sendo
preparada para uma participação mais ativa e reflexiva.
Ainda questionamos aos responsáveis se eles consideram a gestão da escola
democrática, dos quais 8 (responsáveis) consideram
a escola democrática: R-3:
“Escola que a gente opina, não é? Acho que sim. R- 14: É aquela que todos decidem,
participam que aceita opiniões, eu acho que é sim”. Outros 7 pais não sabem o que é
uma escola democrática por isso não opinaram: R-5: “não sei o que é isso.; R-10: Eu
não sei bem o que é isso”.
Ressaltamos que a idéia de que a democratização da gestão da educação
contribui para preencher as necessidades de mudanças no funcionamento da escola, bem
como tem o intuito de englobar todos nos processos de tomada de decisões. Para isso se
faz necessário, através da prática dos profissionais que ali atuam esclarecer a
comunidade a respeito das possibilidades desta participação e realizar ações focadas
com este objetivo. A este respeito, Botler (2009, p. 50) nos esclarece a respeito da
entrada e permanecia da comunidade junto à escola:
Para pensar a participação da comunidade na escola, primeiramente é
necessário possibilitar-lhe sua entrada e permanecia na escola. O que se
percebe muito é a participação como colaboração, fazendo crer junto à
comunidade que sua participação está restrita ao apoio à realização das ações
definidas pela escola
Enfim, admitir a participação da comunidade e o esclarecimento sobre a
importância da sua atuação significa respeitar a especificidade local e desenvolver uma
relação de conscientização com a comunidade para que a escola seja um fator de
transformação social com o objetivo de mudança de consciência da clientela a que
atende.
Perguntamos aos responsáveis o que eles gostariam que melhorasse na escola e
obtivemos de 7 deles que a escola precisa melhorar o comportamento dos alunos, como
destacamos na seguinte fala: R-3: “(Não precisa melhorar) Nada, quer dizer, colocar
policia para melhorar o comportamento dos alunos, principalmente a noite, porque os
alunos ficam com medo ai se comportam mais”.
Através das entrevistas foi possível observar que maioria dos pais chama atenção
para os problemas de comportamento no ambiente de convivência na escola, denotando
ocorrência de insegurança/violências dentro escola, o que a nosso ver é uma barreira
para uma aprendizagem efetiva, pois em um ambiente violento dificilmente as crianças
conseguem aprender.
Outros 6 responsáveis gostariam que a escola tivesse ensino integral, como
destacamos na fala de R -8: “Que o ensino fosse integral, o dia todo era melhor esses
meninos ficam em casa sem fazer nada e só aprendem besteira”. Esta fala demonstra a
demanda por mais tempo na escola, haja vista a necessidade dos pais de terem seus
filhos ocupados durante o dia para não caírem no ócio, ou seja, na marginalidade.
Ainda 4 responsáveis afirmaram que gostariam que houvesse professores de
línguas e informática. Como exemplificamos na fala de R-10: “Que tivesse aulas de
informática, que eu acho importante”. Outros 3 responsáveis relatam que precisa
melhorar a estrutura física, 2 limpeza da escola,1 alimentação.
Fica claro através das entrevistas com os pais que a qualidade da escola e anseio
dos pais é definida pelo trabalho pedagógico e relações que traduzam mais respeito
pelos alunos e entra em consonância com o que Mezomo (apud SANTOS, 2009, p. 81)
define como princípio de qualidade pelas ações da escola: Que ela saiba (conheça)
quem são os seus clientes (os clientes que ela se propõe a atender) e que ela conheça
(efetivamente) as necessidades deles.
Desta maneira através das questões definidas como anseios dos pais em relação
à escola, fica claro que a consolidação da gestão democrática e conseqüentemente a
melhoria da qualidade da escola, se dará também através das aspirações dos pais, apesar
de termos a clareza que a gestão democrática da escola não resolva todos os problemas,
mas possa contribuir para uma melhora na qualidade da participação e da escola.
.
Perguntamos ao corpo docente se eles costumam conversar com os pais a
respeito de atividades que a escola realiza e tivemos as seguintes respostas, 12
professores afirmaram que sim, como destacamos abaixo:
P-2 Sim, eu converso, eu chamo pra assistir as aulas para ver como anda o
comportamento dos filhos, eu já dei aula na sala com uma mãe assistindo,
porque apenas dessa maneira, o aluno assistia também. Mas sempre estou
convidando os pais a participarem mais ativamente da escola.
P-6 sim quando eles comparecem, mas só aparecem os mesmos pais sempre,
que são os daquelas crianças que são participativas nas aulas; os outros, a
secretária tem que mandar um convite para poder eles comparecer na escola.
Apenas 1 um professor afirmou não conversar com os pais P-1 “Não, eu não
costumo conversar não, eu ensino em três escolas fica complicado parar para fazer
isso”.
Outro aspecto que questionamos aos professores foi se os pais, no decorrer das
reuniões, opinam sobre as propostas pedagógicas e quais os principais assuntos ali
discutidos, tivemos a seguintes respostas: 12 professores mencionaram que as reuniões
eram para deixar os pais dos alunos cientes a respeito das notas, comportamentos e
normas escolares:
P-3 não, eles vêm mesmo para saber como esta seu filho, para saber das
notas e assinar o boletim e no turno da noite para falarmos da evasão
escolar.
P-11 Sobre a proposta pedagógica a gente nunca pergunta, porque as
escolas se atem sobre os fardamentos, notas e comportamento.
Fica claro através das entrevistas com professores que os pais não são solicitados
para discussões além de comportamentos e notas, e entendemos que na escola deveria se
sobressair uma atitude que viabilizasse uma formação mais consciente e crítica, já que a
escola tem essa finalidade, como ressalta Gracindo (2005 p. 43):
Se a finalidade última da educação é a formação de cidadãos, então, a
qualidade da educação precisa estar voltada para esse fim e necessita
sustentar-se em um tipo de gestão que propicie o exercício da cidadania,
promovendo a participação de todos os segmentos que compõe a escola, além
da comunidade local: a gestão democrática.
Reforçamos, mais uma vez, os diversos formatos que a participação pode ter e a
importância da conscientização da participação ativa que pode levar a cidadãos
conscientes para interferir no meio em que atuam.
Outro aspecto questionado foi se os professores vêem alguma relação entre a
participação dos pais e da comunidade na escola e a melhoria dos resultados
educacionais ou melhoria da organização da escola e obtivemos como respostas que 9
docentes acreditam na melhora dos indicadores da escola, conforme indicamos:
P-1 Se a escola e a comunidade andassem juntas, tudo mudaria na escola,
mas hoje há um descomprometimento muito grande dos pais com a escola.
P-2 Com participação dos pais, toda escola iria mudar e muito, toda escola de
qualidade tem pais presentes, é fundamental essa ação para os pais
participarem ativamente da escola.
Desta maneira, nas falas dos docentes, a participação dos pais é entendida como
uma das contribuições decisivas para a melhoria dos resultados educacionais e, como
sabemos, é por meio do processo de conscientização e inclusão dos pais no processo de
decisões da escola que poderá haver um maior envolvimento na participação dos
mesmos.
Dos docentes entrevistados 3 não acreditam na melhora da organização escolar
porque a escola já realizou ações e eles não sentiram diferença na escola como
demonstra a fala de P-9 “Não, nenhuma relação eu vejo não. Porque os meninos de hoje não
gostam de estuda”. Apenas 1 docente afirmou não saber opinar a este respeito.
Para os entrevistados a questão da participação é inerente a qualidade dos
resultados educacionais. Desta maneira, os professores precisariam compreender melhor
os mecanismos de participação e definir melhores estratégias para esta finalidade
conhecendo com mais profundidade os anseios de sua clientela, já que a mesma é
solicitada apenas com o intuito de aviso de notas e comportamento.
Acreditamos que a qualidade da educação apenas virá na medida em que forem
desenvolvidas estratégias de participação e comprometimentos de todos que fazem parte
do cotidiano escolar.
Sobre esta questão 2 professores acreditam que o governo deveria se
responsabilizar pela conscientização dos pais a respeito da participação no cotidiano
escolar, como destacamos na entrevista de P-2: “Olhe alguns pais até que vem para a
escola, mas, além disso, eu acho que o governo deveria dar mais atenção a escola,
porque apenas os pais participando, sem verba, feito esta escola que é pequena, é difícil
ter qualidade”. Dois professores afirmaram não acreditar em nenhuma melhora.
Ainda investigamos a respeito do que é educação de qualidade para os
professores, e 10 deles relacionam com aprendizagem efetiva:
P-11: É uma educação que seja efetiva, preparando o aluno para o trabalho e
para a sociedade.
P-13: É aquela em que o professor consegue ensinar e o aluno consegue
aprender.
Apenas um professor afirmou que é quando o aluno gosta de aprender e outro
diz que o melhor seria uma educação integral.
Fica evidente nas falas acima que os professores associam a educação de
qualidade aquela voltada para a vida social e para aprendizagem efetiva. Santos (2009
p.74) nos esclarecem a respeito destes dois tipos de qualidade:
Vale ressaltar, também, que existem dois tipos de qualidade. Uma é a
qualidade objetiva, sendo entendida como inerente como a idéia de
finalidade, podendo-se dizer tantos alunos foram aprovados, promovidos
formados no final de um ciclo, sendo uma qualidade que se identifica e
quantifica. A outra é a qualidade subjetiva, entendida como inerente ao ser
humano e é nesse direcionamento que a educação deve investir
concomitantemente, sendo essa ação prioritária de professores e gestores
escolares.
Neste sentido percebe-se que os professores tem a concepção de que não cabe a
eles somente transmitir conteúdos, mas também abranger a função de uma educação
mais ampla com finalidade de educação voltada para o social, o que inclui também que
a gestão seja mais democrática, para promover mudanças mais profundas na
organização da escola.
Perguntamos aos alunos se eles achavam que com a participação dos pais nas
reuniões da escola, esta ficaria melhor e pedimos para mencionar, em caso afirmativo,
que tipo de melhoria. Obtivemos como resposta de 12 alunos que a escola fica igual, a
exemplo de A-13: “Não faz diferença nenhuma, os alunos ficam do mesmo jeito,
perturbando”. Dentre estes alunos, 5 acreditam que a escola fica pior após reuniões de
pais e mestres, conforme destacamos na fala de A-1: Não ajudam; os pais chegam em
casa e ficam chateados por conta de escutar o comportamento da gente; ai no outro dia
a gente faz mais bagunça.
No total 17, alunos afirmaram que a escola não apresenta mudanças ou melhoras
relatando até mesmo piora no comportamento dos estudantes, atribuída justamente por
conta de punições sofridas devido aos assuntos tratados nestas reuniões, o que entra em
consonância com o que os professores também afirmou, referindo-se ao comportamento
e notas. Isso nos leva a pensar que deva haver mais diálogo entre todos que constroem o
cotidiano da escola, levando em consideração as condições destes alunos no seu
contexto, o que nos remete ao princípio da participação inerente a gestão democrática,
que deve incluir também a opinião dos alunos nos rumos da escola. Neste sentido, se o
aluno apanha em casa após as reuniões por conta de seu baixo desempenho, sua resposta
aparece como piora em seu comportamento na escola (revanche).
Entre os alunos entrevistados, apenas 5 afirmaram que há uma melhora em algo
após reuniões em que seus pais participam, como relata A-2: “Ajudam sim, a escola fica
melhor, o comportamento dos alunos também. Todo mundo fica mais calmo sem
brigar”. Chama-nos atenção a fala do aluno que denota a presença de um ambiente
nocivo, reforçando o argumento dos pais que também constatam que a escola apresenta
um ambiente de convivência hostil.
Perguntamos aos alunos se eles discutem com a escola o que gostariam de
estudar, o que gostariam de trabalhar em eventos ou no cotidiano e obtivemos as
seguintes respostas: 18 afirmam que não opinam durante o semestre, mas apenas no
evento na feira de ciências.
A-6: Na feira de ciências a gente decide, o ano passado foi sobre o bairro da
Várzea e meu tema foi a praça da Várzea. Mas nas aulas eles chegam e dão o
assunto.
A-8: Não, os professores chegam e colocam o que a gente vai estudar no
quadro; na feira de ciências a gente decide, eu falei o ano passado sobre o
colégio Magalhães Bastos.
Os extratos acima revelam que a participação dos alunos é limitada, e
reforçamos a idéia de que uma prática mais participativa poderia ser um dos subsídios
decisivos para uma efetivação de uma gestão mais democrática na escola e conseqüente
melhoria nos resultados do trabalho pedagógico.
Em contrapartida, 4 alunos afirmaram que já opinaram sobre o que vão estudar
nas aulas: A- 3: “Na feira de ciências a gente decide, e alguns professores também
perguntam o que a gente quer estudar. Não todos os professores, mas o de história
sempre pergunta”. Apesar de presente, notamos ser uma minoria e observarmos que a
consulta ocorre de forma isolada por parte de alguns professores que abrem
possibilidades à participação dos alunos nos assuntos pedagógicos. Reconhecemos que
existem limitações na atuação dos professores no sentido da efetivação de práticas mais
democráticas no ensino, o que poderia ser um objetivo comum à dinâmica pedagógica e
à gestão escolar.
Considerações finais
Este estudo analisou a participação da comunidade na consolidação da gestão
democrática através de um estudo de caso em uma escola estadual de Recife,
Pernambuco, de alto IDEB, em que buscou conhecer as concepções de pais de
alunos/responsáveis, alunos e docentes a respeito da qualidade da educação, da gestão
escolar e da participação da comunidade na gestão.
A concepção de qualidade da educação é entendida pelos pais como acesso a
escolarização, em que os filhos saiam preparados para o trabalho e almejam o ensino
mais eficiente. Do ponto de vista dos professores a educação é entendida como espaço
para a formação para a cidadania, o que seria garantido pelo ensino mais eficiente, de
forma crítica. Os alunos compreendem a escola de qualidade como aquela que
corresponda à sua realidade, suas necessidades e expectativas mais imediatas.
A análise dos dados coletados na realidade escolar nos levou ainda a
compreender que a participação é vista tanto por pais e alunos como por professores
apenas com a finalidade de informação a respeito de notas e comportamento, o que
restringe o entendimento do valor da interação deste momento do seu verdadeiro
objetivo, qual seja, a busca pela formação global do aluno através de uma educação de
qualidade via participação plena dos envolvidos no processo escolar.
A participação da comunidade na gestão escolar vem sendo colocada pelos
sujeitos da pesquisa de maneira também limitada já que deveria propiciar a participação
mais efetiva da população nas atividades da escola, mas, ao que parece não esta
servindo satisfatoriamente a essa função, em parte realizando apenas atividades de
caráter formalista e informativo, já que os pais/responsáveis demonstram não apenas
não participar de outros tipos de atividades, mas de desempenhar participação restrita a
presença em reuniões de forma passiva. Esta conduta é vista por docentes como
negativa. O que se observa é a opinião generalizada de que os pais e responsáveis pelos
alunos são pessoas que não vem para a escola, ou seja, não são presentes.
De fato, ao longo do período em que estivemos na escola, diversas vezes
escutamos comentários reforçando a idéia de que há pouca participação da comunidade
do tipo a gente já fez de tudo dando a entender que a escola tentou estimular, mas os
pais não participam. Em nossa análise, no entanto, percebemos que as falas denotam
que os professores não tem clareza a respeito de que os docentes têm importante papel
no sentido da conscientização da comunidade de que participação é mais do que vir às
reuniões e participar de festas. Nestes termos, acreditamos que a efetivação da gestão
democrática esteja atrelada à mudança na concepção a respeito das finalidades da
educação, e não somente em alguns processos. Reforçamos que, a partir do momento
em que seus objetivos estejam atrelados aos da comunidade escolar e que a mesma
compreenda a importância de sua opinião e sugestões nas tomadas de decisão da escola,
ela poderá participar mais e melhor, ou seja, com efetivo poder de decisão na gestão.
Finalmente, a análise nos permitiu considerar que o alto IDEB obtido como
resultado do trabalho escolar independe do processo de participação da comunidade na
gestão escolar, uma vez que este vem sendo incorporado de maneira limitada e não
crítica por parte dos indivíduos que a compõe a escola
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