REFORÇO DE VIGAS DE CONCRETO À FLEXÃO E AO CISALHAMENTO COM TECIDOS DE FIBRA DE CARBONO Caroline Maia Araújo TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DE PÓS GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS EM ENGENHARIA CIVIL. Aprovada por: ________________________________________________ Prof. Ibrahim A. E. M. Shehata, Ph.D. ________________________________________________ Profª. Lídia C. D. Shehata, Ph.D. ________________________________________________ Prof. Ronaldo Barros Gomes, Ph.D. ________________________________________________ Profª. Regina Helena F. de Souza, D.Sc. RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL MARÇO DE 2002 ARAÚJO, CAROLINE MAIA Reforço à Flexão e ao Cisalhamento de Vigas de Concreto com Tecidos de fibra de Carbono [Rio de Janeiro] 2002 XIII, 140 p. 29,7 cm (COPPE/UFRJ, M.Sc., Engenharia Civil, 2002) Tese - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE 1. Reforço Estrutural 2. Fibras de Carbono 3. Flexão e Cisalhamento I. COPPE/UFRJ ii II. Título ( série ) Agradecimentos Desejo expressar o meu reconhecimento a todas as pessoas e entidades que contribuíram, direta e indiretamente, para a realização e conclusão deste trabalho. Aos meus pais pelo apoio e dedicação e por despertar em mim o gosto pela engenharia. Ao professor Ibrahim pelos ensinamentos, rigor científico, revisão crítica, disponibilidade permanente e ajuda na condução dos ensaios. À professora Lídia pelos importantes ensinamentos, dedicação às revisões e sugestões indispensáveis para a melhoria deste trabalho. Aos professores da UFRN, Joaci, Márcio, Robinson, Roberto e Olavo pelos ensinamentos fundamentais na minha formação e pelo incentivo. A Ítalo, pelo incentivo e compreensão e pelas idéias para a melhoria dos gráficos, tabelas e apresentação deste trabalho. À minha família, pelos inúmeros exemplos de perseverança e sucesso e em especial a Neidinha, Josué, Laura e Luíza por me proporcionarem tempo, espaço, apoio moral e inspiração. Aos amigos da COPPE, pela convivência e companheirismo e em especial aos colegas Sérgio e Emílio, pela grande ajuda em toda a parte experimental deste trabalho. Aos funcionários do laboratório de estruturas da COPPE/UFRJ, pelos serviços prestados na execução dos ensaios. Aos funcionários do laboratório de micros da COPPE/UFRJ, pela ajuda, paciência e atenção. Ao CNPq e à Capes pelo apoio financeiro concedido. À SIKA S.A., pelo fornecimento de material e pessoal para a realização do programa experimental. iii Resumo da Tese apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de Mestre em Ciências (M.Sc.) REFORÇO DE VIGAS DE CONCRETO À FLEXÃO E AO CISALHAMENTO COM TECIDOS DE FIBRA DE CARBONO Caroline Maia Araújo Março/2002 Orientador: Ibrahim A. E. M. Shehata Programa: Engenharia Civil Este trabalho visou o estudo do comportamento estrutural de vigas de concreto armado reforçadas à flexão, ao cisalhamento, e à flexão e ao cisalhamento simultaneamente, com tecido de fibra de carbono colado com resina epóxica. O programa experimental consistiu no ensaio de quatro vigas, uma destas vigas foi reforçada à flexão com cinco camadas de tecido de fibra de carbono coladas na parte tracionada da viga, enquanto outra viga foi reforçada apenas ao cisalhamento por meio de colagem de três camadas de tecido de fibra de carbono nas suas faces inferior e laterais na forma de U. A terceira viga foi reforçada simultaneamente à flexão e ao cisalhamento, com cinco camadas de tecido de fibra de carbono tendo dimensões iguais às dos respectivos reforços feitos nas vigas mencionadas anteriormente. A quarta viga não foi reforçada e serviu como referência. O comportamento estrutural dessas vigas foi avaliado em termos de flecha, deformação do concreto e das armaduras internas e de reforço, e carga de ruptura. Os resultados experimentais mostraram o aumento da resistência e da rigidez das vigas e tornaram possível estabelecer critérios de ruptura para as vigas reforçadas e propor métodos de cálculo, baseados na teoria de flexão simples e no modelo de treliça, que apresentam bons resultados quando comparados aos resultados experimentais. iv Abstract of Thesis presented to COPPE/UFRJ as a partial fulfillment of the requirements for the degree of Master of Science (M.Sc.) SHEAR AND FLEXURAL STRENGTHENING OF CONCRETE BEAMS USING BONDED CFRP SHEETS Caroline Maia araújo March/2002 Advisor: Ibrahim A. E. M. Shehata Department: Civil Engineering This work aimed to study the structural behavior of strengthened reinforced concrete beams either in bending, in shear, and in both bending and shear with bonded CFRP sheets. The experimental program comprised tests of four beams, one strengthened in bending with five layers of CFRP sheet bonded on the tension side, while the other beam was strengthened in shear with three layers of CFRP sheet “U” stirrups bonded on the web. The third beam was strengthened in both bending and shear, with five layers of CFRP sheet. The forth beam was not strengthened and served as a reference beam. The structural behavior of the beams was evaluated in terms of deflection, concrete, steel and CFRP strain, and ultimate load. The tests results showed increase in resistance and stiffness of the beams and made it possible to establish failure criteria for the strengthened beams and propose calculation models based on the flexural theory and the truss model, that gave good results when compared to the experimental ones. v Índice 1. Introdução 1 2. Revisão Bibliográfica 2.1. Introdução 2.2. Polímeros reforçados com fibra de carbono (PRFC) 2.2.1. Composição 2.2.2. Sistemas de reforço 2.2.3. Execução do reforço 2.2.4. Mecanismos de ligação 2.2.4.1. Modos de Ruína 2.2.4.2. Resistência da Ligação 2.3. Alguns estudos experimentais sobre reforço com tecido de fibra de carbono 2.3.1. Norris et al (1997) 2.3.2. Souza et al (1998) 2.3.3. Brosens et al (2000) 2.3.4. Silva e Moreno (2000) 2.3.5. Beber et al (2000) 2.3.6. Khalifa e Nanni (2000) 2.3.7. Matthys (2000) 2.3.7.1. Vigas reforçadas à flexão 2.3.7.2. Vigas reforçadas ao cisalhamento 2.4. Estudos experimentais sobre vigas com reforços colados externamente realizados na COPPE 2.4.1. Morais (1997) 2.4.2. Carneiro (1998) 2.4.3. Pinto (2000) e Cerqueira (2000) 2.5. Considerações finais 3 3 4 4 9 11 12 12 14 3. Resultados Experimentais 3.1. Introdução 3.2. Materiais 3.2.1. Concreto 3.3.2. Aço 3.2.3. Fibras 3.3. Projeto estrutural 3.3.1. Vigas 3.3.2. Reforço 3.3.2.1. Dimensionamento 3.4. Confecção das vigas 3.4.1. Fôrmas 3.4.2. Concretagem 3.4.3. Instrumentação 3.4.3.1. Extensômetros elétricos de resistência (EER) 3.4.3.2. Extensômetro mecânico 3.4.3.3. Deflectômetros elétricos 52 52 52 52 54 57 59 59 62 62 66 66 66 67 67 67 68 vi 19 19 24 27 29 31 33 36 36 38 40 40 44 47 50 3.4.4. Execução do reforço 3.5. Descrição dos ensaios 3.5.1. Montagem 3.5.2. Execução 3.6. Resultados dos ensaios 3.6.1. VC-1R 3.6.2. VC-1 3.6.3. VC-2 3.6.3. VC-3 69 70 70 70 74 74 78 83 87 4. Análise dos Resultados 4.1. Introdução 4.2. Resistência teórica das vigas antes do reforço 4.2.1. Resistência à flexão 4.2.2. Resistência ao cisalhamento 4.3. Resistência teórica das vigas depois do reforço 4.3.1. Resistência à flexão 4.3.2. Resistência ao cisalhamento 4.4. Análise das grandezas medidas 4.4.1. Flechas 4.4.2. Deformação da seção transversal do meio do vão 4.4.3. Deformação das armaduras longitudinais internas e de reforço 4.4.4. Resistência à flexão das vigas reforçadas 4.4.5. Deformação das armaduras transversais internas e de reforço 4.4.6. Resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas 4.5 Considerações finais 93 93 93 93 95 96 96 97 99 99 101 101 5. Conclusões e sugestões 113 Referências Bibliográficas 115 Anexo A - Fotografias 120 Anexo B – Tabelas de Resultados 133 vii 104 106 108 110 Índice de figuras Capítulo 2 – Revisão Bibliográfica 2.1 Diagrama tensão-deformação dos principais tipos de fibra (MATTHYS, 2000) 2.2 Modos de ruptura para reforço à flexão sugeridos por Triantafillou (1998a) 2.3 Esquema de reforço ao cisalhamento referente às equações 2.10 e 2.11 2.4 Comprimento df w usado na equação 2.13 2.5 Detalhamento das vigas ensaiadas por Norris et al (1997) 2.6 Orientação das fibras e disposição do reforço das vigas de Norris et al (1997) 2.7 Detalhamento da armadura das vigas de Souza et al (1998) 2.8 Detalhamento do reforço das vigas de Souza et al (1998) 2.9 Detalhamento da armadura e reforço das vigas de Brosens et al (2000) 2.10 Detalhamento das armaduras e dos reforços das vigas de Silva e Moreno (2000) 2.11 Detalhamento das vigas ensaiadas por Beber et al (2000) 2.12 Esquematização das vigas de Khalifa e Nanni (2000) 2.13 Geometria das vigas de Matthys (2000) 2.14 Detalhamento da armação e do reforço das vigas de Matthys (2000) reforçadas à flexão 2.15 Detalhamento do reforço das vigas de Matthys (2000) reforçadas ao cisalhamento 2.16 Geometria e carregamento das vigas de Morais (1997) 2.17 Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Morais (1997) 2.18 Geometria e carregamento das vigas de Carneiro (1998) 2.19 Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Carneiro (1998) 2.20 Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Pinto(2000) e Cerqueira (2000) 6 13 18 19 20 21 24 25 28 29 32 34 36 37 39 41 42 44 45 48 Capítulo 3 – Programa Experimental 3.1 Diagrama tensão-deformação das barras lisas de diâmetro 5,0 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1 e VC-3. 3.2 Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 6,3 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3. 3.3 Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 8 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3 3.4 Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 16 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3 3.5 Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 20 mm usadas na viga VC1 3.6 Diagrama tensão-deformação do corpo de prova de tecido de fibra de carbono 3.7 Geometria, carregamento e diagramas de esforços solicitantes das vigas ensaiadas 3.8 Detalhamento da armadura interna de VC-1R e VC-3 viii 54 55 55 56 56 59 60 61 3.9 Detalhamento do reforço das vigas 3.10 Esquema das fôrmas 3.11 Posicionamento dos extensômetros elétricos nas armaduras internas das vigas 3.12 Posicionamento dos extensômetros elétricos no reforço das vigas 3.13 Posicionamento das placas de cobre para medição da deformação do concreto 3.14 Posicionamento dos deflectômetros para medição das flechas das seções do meio e de aplicação de uma das cargas 3.15 Esquema de ensaio das vigas 3.16 Esquema do tirante usado para manter a viga sob carga durante a execução do reforço 3.17 Diagrama triangular de deformações e de tensões para a fase elástica de uma viga fletida 3.18 Esquema de forças e diagrama de momento fletor para a viga ancorada pelo tirante 3.19 Diagrama carga-deformação dos estribos 1, 2 e 3 da viga VC-1R 3.20 Diagrama carga-deformação dos estribos 4, 5 e 6 da viga VC-1R 3.21 Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-1R 3.22 Diagrama carga-flecha da viga VC-1R 3.23 Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-1R 3.24 Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-1 3.25 Diagrama carga-deformação dos estribos externos 1r,2r e 3r da viga VC-1 3.26 Diagrama carga-deformação dos estribos 4,5 e 6 da viga VC-1 3.27 Diagrama carga-deformação dos estribos externos 4r,5r e 6r da viga VC-1 3.28 Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-1 3.29 Diagrama carga-flecha da viga VC-1 3.30 Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-1 3.31 Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-2 3.32 Diagrama carga-deformação dos estribos 4,5 e 6 da viga VC-2 3.33 Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-2 3.34 Diagrama carga-deformação do reforço de flexão da viga VC-2 3.35 Diagrama carga-flecha da viga VC-2 3.36 Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-2 3.37 Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-3 3.38 Diagrama carga-deformação dos estribos externos 1r,2r e 3r da viga VC-3 3.39 Diagrama carga-deformação dos estribos 4,5 e 6 da viga VC-3 3.40 Diagrama carga-deformação dos estribos externos 4r,5r e 6r da viga VC-3 3.41 Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-3 3.42 Diagrama carga-deformação do reforço de flexão da viga VC-3 3.43 Diagrama carga-flecha da viga VC-3 3.44 Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-3 ix 65 66 67 68 69 69 71 72 72 73 75 75 76 76 79 79 79 80 80 81 81 82 84 84 85 85 86 86 89 89 90 90 91 91 92 92 Capítulo 4 – Análise dos Resultados 4.1 Diagrama retangular simplificado de tensões e diagrama de deformações da seção da viga 4.2 Diagrama retangular simplificado de tensões e diagrama de deformações da seção da viga reforçada 4.3 Diagrama carga-flecha das vigas em todos os ciclos de carregamento 4.4 Diagrama de deformação da armadura longitudinal na seção do meio do vão 4.5 Diagrama de deformação da armadura longitudinal e da armadura de reforço na seção do meio do vão da viga VC-2 4.6 Diagrama de deformação da armadura longitudinal e da armadura de reforço na seção do meio do vão da viga VC-3 4.7 Comprimento do reforço de flexão considerado na equação 4.18 e 4.19 4.8 Diagrama de deformação da armadura transversal interna e de reforço mais solicitadas da viga VC-1 4.9 Diagrama de deformação da armadura transversal interna e de reforço mais solicitadas da viga VC-3 4.10 Detalhe do reforço de cisalhamento considerado na equação 4.20 4.11 Fluxograma do modelo de dimensionamento proposto para reforço à flexão x 94 97 100 102 103 103 105 107 107 109 112 Índice de tabelas Capítulo 2 – Revisão Bibliográfica 2.1 Propriedades típicas dos principais tipos de fibras (MATTHYS, 2000) 2.2 Propriedades típicas das resinas mais usadas segundo Taerwe et al (1997) 2.3 Descrição dos sistemas de PRFC curados “in situ” (JUVANDES, 1999) 2.4 Dados das vigas de Norris et al (1997) 2.5 Dados das vigas de Souza et al (1998) 2.6 Dados das vigas de Brosens et al (2000) 2.7 Dados das vigas de Silva e Moreno (2000) 2.8 Dados das vigas de Beber et al (2000) 2.9 Dados das vigas de Khalifa e Nanni (2000) 2.10 Dados das vigas de Matthys (2000)reforçadas à flexão 2.11 Dados das vigas de Matthys (2000) reforçadas ao cisalhamento 2.12 Armadura e carregamento durante o reforço das vigas de Morais (1997) 2.13 Dados das vigas de Morais (1997) 2.14 Dados das vigas de Carneiro (1998) 2.15 Dados das vigas de Pinto e Cerqueira (2000) 6 8 10 23 26 28 31 33 35 37 40 41 43 46 49 Capítulo 3 – Programa Experimental 3.1 3.2 3.3 3.4 3.5 3.6 Quantidade de material por m 3 de concreto Valores médios de resistência do concreto à tração e à compressão Características das barras de aço usadas na armação das vigas Armaduras de flexão e cisalhamento das vigas Reforço usado nas vigas Força nos tirantes usados na ancoragem das vigas 53 54 57 60 64 74 Capítulo 4 – Análise dos Resultados 4.1 4.2 4.3 4.4 4.5 Resistência teórica à flexão das vigas sem o reforço Resistência teórica ao cisalhamento das vigas sem o reforço Resultados teóricos da resistência à flexão das vigas reforçadas Resultados teóricos da resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas Cargas de serviço, de escoamento do aço interno e de ruptura das vigas reforçadas 4.6 Relação x/d das vigas obtida nos ensaios 4.7 Valores da tensão de cisalhamento limite do concreto sugeridos por diversos autores 4.8 Resultados teóricos da resistência à flexão das vigas reforçadas, com limitação da deformação do reforço 4.9 Taxa de variação da carga em relação à deformação das armaduras interna e de reforço mais solicitadas 4.10 Resultados teóricos da resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas, com limitação da deformação do reforço xi 95 96 98 99 100 101 104 106 108 110 Lista de símbolos Letras latinas a Af As As ’ Asw b bf br d df Ec Ef Ef t Es fc fck fcm ft fct,dir fctm fctm,dir fst fy fy,exp fy k Feq Fo hf L Lf Lr Lt M Mu N Plim,fl Pserviço,ELS Pu Pu,exp Py s sf sr tf Vão de cisalhamento Área da seção transversal do reforço Área da seção transversal da armadura longitudinal de tração Área da seção transversal da armadura longitudinal de compressão Área da seção transversal da armadura de cisalhamento Largura da seção transversal da viga Largura do PRF (Polímero Reforçado com Fibras) Largura do reforço Altura útil da seção Altura útil da seção em relação ao PRF Módulo de elasticidade secante do concreto Módulo de elasticidade longitudinal do PRF Módulo de elasticidade transversal do PRF Módulo de elasticidade do aço Resistência à compressão do concreto Resistência à compressão do concreto característica Resistência à compressão do concreto média Resistência à tração Resistência à tração direta do concreto Resistência à tração do concreto média Resistência média à tração direta do concreto Resistência à tração do aço Tensão de escoamento do aço Tensão de escoamento do aço experimental Tensão de escoamento do aço característica Força equivalente a um dos macacos hidráulicos Força de pré-tração por tirante/estribo Altura do reforço de cisalhamento na lateral da viga Comprimento do reforço de flexão entre a sua extremidade e a extremidade da placa de aplicação de carga Comprimento do PRF Comprimento do reforço Distância da seção do meio da viga à seção de ancoragem do tirante Momento fletor Momento fletor último Número de camadas do PRF Carga correspondente à flecha limite do estado limite de serviço Carga de serviço Carga última Carga última experimental Carga correspondente ao escoamento da armadura longitudinal de tração Espaçamento da armadura de cisalhamento Espaçamento dos estribos de PRF Espaçamento do reforço de cisalhamento Espessura do PRF xii tr T Vc Vf Vg VR VR,exp Vs Vu x xe xp Espessura do reforço Força de tração em cada perna do tirante Parcela de contribuição “do concreto” na força cortante resistente da viga Parcela de contribuição do reforço de cisalhamento na força cortante resistente da viga Força cortante quando da realização do reforço Força cortante resistente da viga Força cortante resistente experimental da viga Parcela de contribuição da armadura de aço na força cortante resistente da viga Força cortante última Altura da linha neutra Altura da linha neutra elástica Altura da linha neutra plástica Letras gregas δ δy εfe εu εf ε f,lim εfu εs ε s,g ε sw ε sw,g εy εy* µd ρf ρL ρT σf σs ’ τlim φ φ ef γg Flecha Flecha medida quando do escoamento da armadura longitudinal de tração Deformação específica efetiva do PRF Deformação específica última Deformação específica do PRF Deformação específica limite do PRF Deformação específica última do PRF Deformação específica do aço da armadura longitudinal de tração Deformação específica do aço da armadura longitudinal de tração quando da execução do reforço Deformação específica do aço da armadura transversal Deformação específica do aço transversal durante a execução do reforço Deformação específica de escoamento do aço Deformação específica de escoamento do aço para o diagrama bilinear de tensões Índice de ductilidade Taxa geométrica da armadura longitudinal de tração de PRF Taxa geométrica do aço da armadura longitudinal de tração Taxa geométrica do aço da armadura transversal Tensão no PRF Tensão no aço da armadura longitudinal de compressão Tensão cisalhante limite do concreto Diâmetro Diâmetro efetivo Coeficiente de segurança global xiii CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO O concreto armado foi o material de construção mais utilizado no século vinte (MEHTA e MONTEIRO, 1994) e continua sendo um dos materiais mais importantes da construção civil. No entanto, a deterioração das estruturas, muitas vezes prematura e fruto do descaso com aspectos relativos à durabilidade, a inviabilidade de reconstrução em tempo hábil de estruturas vitais, os acidentes naturais e falhas de projeto, de detalhamento e de execução vêm aumentando a prática do reparo e reforço das estruturas de concreto. Há uma constante evolução buscando praticidade na execução, aumento da vida útil e barateamento, além do aumento da capacidade resistente das estruturas. Dentre as técnicas de reparo e reforço de estruturas de concreto armado, a de aplicação de reforços colados tem as vantagens de ser eficiente, de fácil execução e de não aumentar significativamente o peso e dimensões do elemento. Os polímeros reforçados com fibras de carbono reúnem um conjunto de propriedades que lhes garante um lugar de destaque entre as técnicas de reparo e reforço por colagem externa: têm alta resistência à tração e alto módulo de elasticidade e são leves e resistentes à corrosão. Para acompanhar o desenvolvimento destes novos materiais e ter-se métodos de cálculos seguros fundamentados em expressivo número de resultados experimentais, existe uma grande necessidade de pesquisas sistemáticas nesta área. Este trabalho teve como objetivo analisar o comportamento estrutural de vigas reforçadas à flexão, ao cisalhamento, e à flexão e cisalhamento simultaneamente, com a utilização de tecido unidirecional de fibra de carbono colado 1 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO com adesivo epóxico, e verificar a eficiência do reforço e a adequação de modelos de cálculo convencionais para o seu dimensionamento. Foram confeccionadas quatro vigas de concreto armado, uma foi carregada continuamente até a ruína, não tendo sido reforçada para servir de referência e as outras três foram submetidas a dois ciclos de carregamento antes de serem forçadas sob carga constante e carregadas até a ruína. Além destas, também foi tomada como referência uma viga ensaiada por Morais (1997). O segundo capítulo faz uma breve apresentação dos polímeros reforçados com fibra de carbono e resume alguns estudos experimentais da literatura técnica sobre vigas de concreto armado reforçadas por colagem desses materiais. O detalhamento e os resultados do programa experimental desenvolvido neste trabalho são descritos no terceiro capítulo. No quarto capítulo são apresentadas as capacidades resistentes das vigas à flexão e ao cisalhamento teóricas, antes e depois da execução do reforço, e feita comparação destas com as obtidas no programa experimental. É feita também uma análise dos resultados experimentais através de flechas, deformações e cargas últimas. As conclusões gerais do trabalho e sugestões para trabalhos futuros são apresentadas no quinto capítulo. As tabelas com os resultados dos ensaios de cada viga podem ser vistas no anexo A e as fotografias dos ensaios no anexo B. 2 CAPÍTULO 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 INTRODUÇÃO As primeiras pesquisas sobre reforço de vigas de concreto armado com adição de chapas metálicas coladas com resina epóxica foram realizadas na década de 60 (THOMAS et al, 1998). Esta técnica, eficiente e de custo relativamente baixo, tem as desvantagens da corrosão do aço, da baixa resistência ao fogo e, em função do peso e tamanhos comerciais das chapas, da necessidade de escoras e dificuldade de manipulação. Nas últimas décadas, tem havido grande mobilização de esforços para a procura de novos materiais mais duráveis, resistentes e leves para serem utilizados no reforço estrutural. Os materiais compósitos reforçados com fibra surgiram como alternativa para os casos em que emprego dos materiais tradicionais, aço e concreto, não é adequado. Diversas indústrias já utilizavam os materiais compósitos com êxito, e propriedades como elevada resistência à tração, leveza, resistência à corrosão e à fadiga, amortecimento ao choque e isolamento eletromagnético atraíram o interesse da indústria da construção civil. Este capítulo faz uma breve apresentação dos polímeros reforçados com fibra de carbono e resume alguns estudos experimentais sobre vigas de concreto armado reforçadas por colagem desses materiais e outros estudos sobre reforço realizados na COPPE. 3 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.2 POLÍMEROS REFORÇADOS COM FIBRA DE CARBONO (PRFC) Inicialmente utilizados para o reforço de pilares submetidos a ações sísmicas, os polímeros reforçados com fibra de carbono ou “carbon fiber reinforced polymers” (CFRP) já se encontram em aplicações práticas no reforço de lajes, vigas, pilares e paredes, em estruturas como edifícios e pontes. Uma vez garantida a boa qualidade do concreto e a ausência de corrosão nas armaduras, tais reforços possibilitam a limitação das fissuras e redução das flechas, além de aumento da resistência à flexão e ao cisalhamento. A durabilidade, a leveza e o alto módulo de elasticidade (podendo chegar a 800 GPa) dos PRFC são as características responsáveis pela sua boa aceitação. O custo do compósito, que chega a ser dez vezes maior que o do aço, representa apenas 20% do custo total da obra de reforço e pode ser compensado pela economia gerada na execução mais rápida, fácil e limpa. Os PRFC possuem baixa condutividade térmica transversal (MEIER, 1997) e a sua resistência ao fogo é limitada pela instabilidade da resina exposta a elevadas temperaturas. No entanto, as conseqüências de danos ao reforço são levadas em consideração pelos coeficientes de segurança, admitindo-se que a estrutura resista às ações permanentes e a uma po rcentagem das ações variáveis. 2.2.1 Composição Compósito é a combinação de dois ou mais materiais, que atuam em conjunto e mantêm suas identidades. Os polímeros são materiais compósitos não homogêneos, anisotrópicos e de comportamento perfeitamente elástico até a ruína. Os polímeros reforçados com fibra (PRF) ou “fiber reinforced polymers” (FRP) são constituídos por um componente estrutural (as fibras) e por um componente matricial (a resina polimérica e, normalmente, alguns “fillers” e aditivos). O desempenho de um PRF é determinado pelas propriedades e características dos materiais que o constituem, pela interação desses materiais e pelas condições da execução do reforço, daí a sua grande versatilidade. 4 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA a) Fibras As fibras são responsáveis pela resistência e rigidez do compósito, que varia em função do tipo, tamanho, grau de concentração e disposição das mesmas na matriz. A direção principal das fibras leva ao valor máximo da resistência e rigidez do compósito, e esses valores vão diminuindo ao se afastar da direção principal até o mínimo que corresponde à direção perpendicular àquela. Vários tipos de fibra, e com grande variedade de propriedades, estão disponíveis comercialmente. As fibras longas (contínuas) e de pequeno diâmetro são as mais adequadas para o reforço de estruturas de concreto pela ótima capacidade de transferência de carga e de aproveitamento de suas propriedades. As fibras contínuas mais utilizadas atualmente são as de vidro, as de aramida (ou Kevlar) e as de carbono. As propriedades físicas e mecânicas variam consideravelmente entre os diferentes tipos de fibra e podem variar significativamente também para o mesmo tipo de fibra. A tabela 2.1 mostra a variação das propriedades físicas e mecânicas de diversas fibras e a figura 2.1 faz uma comparação do diagrama tensão x deformação das mesmas com o do aço. As fibras de carbono são as mais rígidas e resistentes dentre as fibras utilizadas para o reforço de polímeros. Segundo Ripper e Scherer (1999), destacamse principalmente pela extraordinária rigidez e leveza, ótimo comportamento relativo à fadiga e à atuação de cargas cíclicas, estabilidade térmica e reológica e excepcional resistência aos vários tipos de ataques químicos. Por outro lado, em função de sua boa condutividade elétrica, as fibras de carbono podem possibilitar corrosão do tipo galvânica quando em contato com metais (RIPPER, 1998). 5 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.1 - Propriedades típicas dos principais tipos de fibra (MATTHYS, 2000) Resistência à tração (MPa) Módulo de elasticidade (MPa) Deformação última (%) Peso específico 3 (kg/m ) Diâmetro da fibra (µm) tipo PAN* com alta resistência (HS) 3500 - 5000 200 - 260 1.2 - 1.8 1700 - 1800 5-8 tipo PAN* com alto módulo de elasticidade (HM) 2500 - 4000 350 - 700 0.4 - 0.8 1800 - 2000 5-8 tipo Pitch** com alto módulo de elasticidade (HM) 3000 - 3500 400 - 800 0.4 - 1.5 1900 - 2100 9 - 18 2700 - 4500 60 - 80 4.0 - 4.8 1400 - 1450 12 - 15 2700 - 4500 115 - 130 2.5 - 3.5 1400 - 1450 12 - 15 1800 - 2700 70 - 75 3.0 - 4.5 2550 - 2600 5 - 25 3400 - 4800 85 - 100 4.5 - 5.5 2550 - 2600 5 - 25 Tipo de Fibras Carbono (C) com módulo de elasticidade Aramida intermediário (IM) (A) com alto módulo de elasticidade (HM) aluminoborosilicato de cálcio (E) Vidro (G) aluminosilicato de magnésio (S) *PAN = fibras obtidas por pirólise e oxidação de fibras sintéticas de Poliacrilonitrila **Pitch = fibras obtidas pela pirólise do petróleo destilado ou do piche convertido em cristal líquido Figura 2.1 – Diagrama tensão-deformação dos principais tipos de fibra (MATTHYS, 2000) 6 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA b) Matriz A matriz polimérica de um PRF envolve completamente as fibras dando proteção mecânica e contra agentes agressivos e promovendo a transferência de tensões. A seleção da matriz influencia diretamente a fabricação e o custo final do PRF. As matrizes poliméricas podem ser baseadas em resinas termoplásticas (thermoplastic resins) ou em resinas termoendurecíveis (thermosetting resins). As resinas termoplásticas são caracterizadas por macromoléculas mais lineares e podem ser repetidamente fundidas quando aquecidas e endurecidas quando resfriadas. Por terem mais ductilidade e tenacidade, são mais resistentes a impactos e micro-fissuração que as resinas termoendurecíveis. No entanto, sua alta viscosidade dificulta a incorporação de fibras longas e, por conseqüência, a fabricação de compósitos com tais fibras. Uma vez curadas, as resinas termoendurecíveis são caracterizadas por um alto grau de polimerização das moléculas e endurecimento irreversível, se aquecidas depois de endurecidas não fundem e se decompõem se expostas a altas temperaturas. Essas resinas impregnam facilmente as fibras sem necessidade de condições especiais, como altas temperaturas ou grandes pressões, e, comparadas às resinas termoplásticas, oferecem melhor estabilidade térmica e química, além de menor retração e relaxação. As resinas mais utilizadas nos PRF são as termoendurecíveis da classe dos poliésteres insaturados, dos vinilésteres e dos epóxidos. As resinas epóxi são bastante usadas nos compósitos de alta performance pela extensa gama de propriedades físicas e mecânicas, apesar do alto custo. A tabela 2.2 traz as propriedades típicas das resinas termoendurecíveis mais usadas segundo Taerwe et al (1997). 7 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.2 - Propriedades típicas das resinas mais usadas segundo Taerwe et al (1997) Tipo de resina Resistência à tração (MPa) Módulo de elasticidade (GPa) Peso específico (kg/m3) Retração na cura (%) Poliéster 35 - 104 2.1 - 3.5 1100 - 1400 5 - 12 Vinil éster 73 - 81 3.0 - 3.5 1100 - 1300 5 - 10 Epóxi 55 - 130 2.8 - 4.1 1200 - 1300 1-5 As maiores vantagens das resinas epóxicas são a excelente resistência à tração, boa resistência à fluência, boa resistência química e a solventes, forte adesão com as fibras e baixa retração durante a cura. O preço e o longo período de cura são as desvantagens. Ainda, elevadas temperaturas comprometem a resina epóxica, que se torna elastomérica e sofre reduções consideráveis de resistência. A temperatura que representa a passagem de um estado vítreo para um estado elástico e dúctil é chamada temperatura de transição vítrea e a aproximação desta temperatura faz com que as propriedades mecânicas como resistência e rigidez da resina diminuam acentuadamente. Esse problema pode ser amenizado com o uso de sprinklers e/ou de pintura especial no acabamento do reforço para aumentar a resistência ao fogo. Enquanto não endurecida, são importantes as noções dos tempos de utilização e de endurecimento da resina epóxica. O período em que a resina mantém suas características de aderência e pode ser manipulada sem dificuldade é chamado de tempo de utilização (“pot life"). Quanto maior a temperatura e quantidade de material a ser preparado, menor o tempo de utilização. Isto ocorre em função da maior quantidade de calor e conseqüente aceleração das reações. O tempo de endurecimento (“open time”) é o tempo que a resina leva para endurecer e é o intervalo no qual o compósito deve ser colado para que suas propriedades se desenvolvam satisfatoriamente. Este tempo é influenciado pelas temperaturas do ambiente, do compósito e da superfície a ser reforçada. Afora a resina, “fillers” e aditivos comumente também compõem a matriz. Os “fillers” têm a função de diminuir o custo e melhorar as propriedades da matriz 8 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA (controlar a retração, melhorar a capacidade de transferência de tensões e controlar a tixotropia da resina). Para aumentar a resistência da matriz e facilitar a fabricação do compósito, vários tipos de aditivos podem ser usados. Os mais comuns são os inibidores da ação de raios ultravioleta, os antioxidantes, os catalisadores e os desmoldantes. c) Adesivo O adesivo é o material responsável pela colagem do PRF na superfície do concreto e pela transferência de tensões, possibilitando a ação conjunta dos dois materiais. A transferência de tensão é feita no plano da interface concreto-adesivocompósito, nele ocorrendo tensões predominantemente cisalhantes, embora tensões normais a essa interface também possam ocorrer. A escolha do adesivo depende do tipo de performance desejada, do substrato e das condições do ambiente e de aplicação do compósito na execução. Os adesivos estruturais mais usados e aceitos são as resinas epóxicas. 2.2.2 Sistemas de Reforço Os compósitos de fibra de carbono para utilização em concreto armado são comercializados em duas categorias: como barras e grelhas para armadura em substituição ao aço e como tecidos e laminados para reforço. A segunda categoria é dividida em dois grupos: os sistemas pré-fabricados (laminados) e os sistemas curados “in situ”. Os sistemas pré-fabricados (lâminas) se apresentam na forma de compósitos totalmente curados, com forma, tamanho e rigidez definidas, prontos para serem colados no elemento a ser reforçado. Tipicamente, possuem um teor de fibras em torno de 70% e espessura entre 1,0 e 1,5 mm. Em relação aos sistemas curados “in situ”, têm a vantagem do maior controle de qualidade, uma vez que só as propriedades do adesivo são afetadas pela execução. Contudo, são menos flexíveis. A aplicação de feixes de fibras contínuas na forma de fios, em estado seco ou pré-impregnado, sobre um adesivo epóxico previamente espalhado na superfície a ser reforçada constitui os chamados sistemas curados “in situ”. O adesivo, ao 9 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA impregnar as fibras, transforma o conjunto em um PRF e faz a ligação deste com o substrato. Os sistemas curados “in situ” ainda não têm terminologia padronizada e neste trabalho serão designados por mantas e tecidos, de acordo com a disposição das fibras no plano, e estão resumidos na tabela 2.3 (JUVANDES, 1999), que é baseada em designações citadas no “EUROCOMP Design Code and Handbook”, no JCI TC952 (comitê técnico em concreto reforçado com fibras contínuas do Japan Concrete Institute) e na versão provisória do ACI Committee 440F. A espessura final de um compósito curado “in situ” é inferior à espessura de um compósito pré-fabricado e difícil de ser determinada. Para a fibra em estado seco, essa espessura varia entre 0,1 a 0,5 mm. Tabela 2.3 - Descrição dos sistemas de PRFC curados "in situ" (JUVANDES, 1999) Designação Descrição Orientação das fibras TECIDOS "sheets" * Disposição em faixas contínuas e paralelas de fibras sobre uma rede de proteção 2 (200 - 300 g/ m ) unidirecionais Entrelaçamento direcionado de dois fios ou faixa de fibras ( 600 - 800 g / m2 ) bidirecionais: 0/90º 0/45º 0/-45º "mat" * Espalhamento aleatório das fibras num tapete rolante que, depois, é pulverizado com resina para adquirir consistência multidirecional "cloth" * Fios contínuos tecidos por um processo têxtil convencional ( 150 - 400 g / m2 ) unidirecional ou bidirecional ou multidirecional "woven * roving" MANTAS * designação internacional 10 Estado secos préimpregnados secas préimpregnadas CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.2.3 Execução do Reforço O funcionamento apropriado do reforço depende de sua colagem contínua ao substrato. Antes da execução do reforço, o concreto deteriorado deve ser removido e as barras com corrosão devem ser substituídas. Quinas e cantos angulosos na superfície do concreto devem ser arredondados para evitar a delaminação do compósito. Para o concreto, a resistência à compressão mínima recomendada pelo ACI Committee 440 (2001) é de 17 MPa e a mínima resistência à tração direta (fct,dir,determinada pelo teste de pull-off) é de 1,4 MPa. Ainda, nos manuais do CEBFIP (2001) e da SIKA (2000), o valor mínimo recomendado para fct,dir é igual a 1 MPa. As áreas que vão receber o reforço devem ser apicoadas ou lixadas para remover a camada superficial de concreto. Uma vez limpa e seca, a superfície do concreto pode ser melhorada com a aplicação de um primer especificado pelo fabricante. O primer é um produto que penetra no concreto por capilaridade com a função de melhorar a capacidade adesiva da superfície para a recepção da resina de saturação ou do adesivo. Quando necessário, a superfície deve ser regularizada com a aplicação de “putty”, uma argamassa que deve ser compatível com o primer utilizado. A colagem do compósito na superfície do concreto difere para cada tipo de PRF. Para a colagem dos PRF curados “in situ” (tecidos e mantas) um adesivo/resina saturante com alta viscosidade é usado tanto para colar quanto para impregnar o compósito. Os reforços que estarão sujeitos à radiação solar ou a ataques químicos devem ter acabamento apropriado. A temperatura, a umidade relativa do ar e a umidade da superfície durante a execução do reforço têm grande influência na performance do compósito. Embora altas temperaturas não são indicadas durante a execução do reforço por apressarem a cura da resina, baixas temperaturas e dias chuvosos também prejudicam o serviço, pois tornam a resina muito viscosa e a cura bastante lenta, a temperatura deve estar acima de 5ºC de acordo com Thomas e Thomas (1996) e pelo menos 3ºC acima do ponto de orvalho (SIKA, 2000) para possibilitar a adesão da resina na superfície do concreto. 11 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Ripper e Scherer (1999) recomendam que a umidade do substrato, quando da aplicação do reforço, deve ser inferior a 4% e o controle feito por equipamento adequado. Segundo Matthys (2000), a adesão obtida é insuficiente quando a umidade relativa do ar é maior que 80%. 2.2.4 Mecanismos de Ligação A eficiência dos compósitos de fibra de carbono e o estabelecimento de critérios de dimensionamento requerem uma maior compreensão dos mecanismos de ligação que envolvem esse tipo de reforço. O dimensionamento do reforço e a resistência da ligação concreto-adesivo-compósito são definidores do comportamento estrutural do elemento a ser reforçado. 2.2.4.1 Modos de Ruína A opinião de pesquisadores do assunto ainda diverge em relação ao comportamento estrutural na ruína de vigas reforçadas com PRFC, principalmente no que concerne à ruptura na interface concreto -resina-compósito. Dentre as classificações encontradas (ARDUINI E NANNI, 1997, JUVANDES, 1999), a de Triantafillou (1998a) é a mais representativa dos modos de ruptura para reforços à flexão e reforços ao cisalhamento. Os sete modos de ruptura em estruturas reforçadas à flexão são mostrados na figura 2.2. Os três primeiros modos listados, (a), (b) e (c), podem ser caracterizados como clássicos, uma vez que sua análise pode ser feita pelos métodos convencionais: hipótese das seções planas, compatibilidade de deformações e equilíbrio das forças. O escoamento da armadura seguido de ruptura do reforço (a) pode acontecer quando as taxas de aço e de reforço forem excepcionalmente baixas, assim como a deformação de ruptura do compósito, ou ainda devido a uma elevada resistência à compressão do concreto. O esmagamento do concreto (c), ao contrário, ocorre quando as taxas de reforço e de aço são elevadas. O modo (b) seria o alvo do dimensionamento ótimo do reforço, onde a ruína é governada pelo escoamento do aço, seguida de esmagamento do concreto 12 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA enquanto o reforço permanece intacto. Os demais modos, (d), (e), (f) e (g), representam ruínas prematuras que ocorrem de maneira frágil e brusca. O destacamento do compósito nas extremidades da zona de ancoragem (d) é o modo mais crítico no dimensionamento do reforço. Pode ser decorrente de fissuras de cisalhamento do concreto junto à interface concreto -adesivo nas extremidades do compósito. Nos locais próximos às demais fissuras de cisalhamento, é menos provável a ocorrência de destacamento do compósito (e), pela própria continuidade do reforço de flexão. Quando há uma deformação relativamente alta do compósito junto às fissuras de flexão, pode ocorrer o descolamento do reforço, que é o modo (f) de ruptura. (a) Escoamento da armadura interna seguido de ruptura do reforço (b) Escoamento da armadura interna seguido de esmagamento do concreto (c) Esmagamento do concreto (d) Destacamento do compósito nas extremidades da zona de ancoragem (e) Descolamento do compósito próximo às fissuras inclinadas (f) Descolamento do compósito provocado por fissuras de flexão (g) Descolamento do compósito provocado por irregularidades na superfície do concreto e falha na concretagem. Figura 2.2 – Modos de ruptura para reforço à flexão segundo Triantafillou (1998a) O modo de ruptura (g), causado por descolamento do reforço em função de irregularidades na superfície do concreto, má concretagem e espalhamento incorreto da resina, pode ser prevenido se forem seguidos os cuidados na execução do reforço já mencionados no item anterior. 13 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Os modos de ruptura para reforço ao cisalhamento variam bastante com o tipo de PRF (laminado, manta ou tecido), com a disposição nas faces (orientação das fibras, largura e afastamento entre faixas de PRF coladas) e com o tipo de ancoragem das extremidades. Os modos sugeridos por Triantafillou (1998a) são destacamento do concreto próximo à interface concreto -adesivo e ruptura do compósito. A ruptura do compósito pode ocorrer com tensões de tração inferiores à sua resistência à tração causada por concentração de tensões ou áreas d e descolamento do compósito. A protensão do compósito representa uma opção para uma maior utilização de sua capacidade resistente à tração. Alguns estudos experimentais (TRIANTAFILLOU et al, 1992) feitos com tecidos unidirecionais protendidos reforçando vigas de concreto armado mostram que o aumento no confinamento do concreto gerado é benéfico no controle da fissuração e no aumento da capacidade resistente ao cisalhamento, levando a uma diminuição na área de compósito necessária para o reforço. No entanto, a adaptação deste método de reforço para estruturas reais ainda apresenta dificuldades práticas. 2.2.4.2 Resistência da Ligação A compatibilidade de deformações entre os materiais, admitida no cálculo do reforço, é imprescindível para assegurar a aderência e promover o ganho de resistência, rigidez ou ductilidade previstas. O comportamento geral da interface da ligação concreto-adesivo-compósito é fundamental na prevenção dos modos indesejados de ruínas prematuras. Esse comportamento é condicionado pelo menor dos valores das resistências à tração e ao cisalhamento dos três materiais envolvidos: a camada superficial do concreto, a resina e o compósito. Nos casos mais comuns tem-se que a superfície do concreto é quem limita o desempenho da ligação. A tensão cisalhante máxima a ser resistida pelo concreto, evitando o destacamento do reforço, é influenciada pelas condições iniciais da estrutura: a classe e o estado de deterioração do concreto e o padrão de fissuração da camada mais externa e pelo tipo de preparação do substrato. 14 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tendo por base o modelo de Mohr-Coulomb modificado, pode-se estabelecer que a tensão de cisalhamento limite para o concreto é dada por: ôlim = k ⋅ f ct,dir (2.1) O fator k leva em consideração o estado pré-fissurado em que se encontra o concreto quando é executado o reforço. Alguns trabalhos encontrados na literatura sugerem os seguintes valores para esse τlim : • Triantafillou (1998b): ôlim = 0,25 ⋅ f ctk γc (2.2) γ c = 1,5 • Beber (1999) ôlim = 0,28 ⋅ f c • (2.3) 1/ 2 Pinto (2000) e Cerqueira (2000) ô lim 0,3 ⋅ f ct,dir para o concretodo fundoda viga = 0,5 ⋅ f ct,dir para o concretodas laterais da viga (2.4) sendo fct,dir a resistência do concreto à tração direta. • Adhikary e Mutsuyoshi (2001): ôlim = 0,25 ⋅ f c • 2/3 (2.5) CEB-FIP (2001): f ctk ãc e ã c = 1,5 ôlim = f cbd = 1.8 ⋅ f ctk = 0,21 ⋅ f ctm (2.6) sendo fctk = resistência à tração do concreto característica; 15 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA fctm = resistência à tração do concreto média; A escolha do tipo adequado de resina, que deve ter resistências à tração e ao cisalhamento superiores às do concreto, assim como seus espalhamento e espessura adequados são importantes para evitar o descolamento do reforço. Devese, ainda, limitar a deformação máxima do compósito para garantir a ação conjunta com a armadura interna. Para reforço de flexão, a deformação específica do mesmo no estado último não deve ser maior que a deformação específica efetiva (ε f e), que é definida de diferentes maneiras na literatura: • Neubauer et al (1997) 5 ⋅ å s a 6 ⋅ å s = 0,8% 0,5 ⋅ å fu å fe • (2.7) CEB-FIP (2001) 0,65% ≤ å fe ≤ 0,85% • (2.8) ACI Committee 440 (2001) å fe = k m ⋅ å fu km (2.9) 1 N ⋅ Ef ⋅ t f 1 − ≤ 0.90 para N ⋅ E f ⋅ t f ≤ 180000 360000 60 ⋅ å fu (unidades SI) = 1 90000 ≤ 0.90 para N ⋅ E f ⋅ t f > 180000 60 ⋅ å fu N ⋅ E f ⋅ t f sendo N = número de camadas do PRF; Ef = módulo de elasticidade do PRF; tf = espessura de cada camada do PRF; ε s = deformação específica do aço da armadura longitudinal de tração; 16 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ε f u = deformação específica última do PRF. Para o reforço de cisalhamento, as definições de ε f e são as seguintes: • CEB-FIP (2001) para reforço de PRFC mostrado na figura 2.3 (a) å fe f cm 2/3 0,30 = 0,17 ⋅ ( ) ⋅ å fu Ef ⋅ ñf (2.10) Para reforço de PRFC mostrado na figura 2.3 (b) å fe 2/3 f cm ) 0,56 ⋅ 10 − 3 0,65 ⋅ ( Ef ⋅ ñ f = 2/3 0,17 ⋅ ( f cm ) 0,30 ⋅ å fu Ef ⋅ñf (2.11) com valores de fcm em MPa e Ef em GPa. 17 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.3 – Esquema de reforços ao cisalhamento referentes às equações 2.10 e 2.11. • ACI Committee 440 (2001) k ⋅ å å fe = v fu 0.4% para ( em unidades SI), k ⋅k ⋅L 23300 k v = 1 2 e ≤ 0,75 e L e = 11900 ⋅ å fu (N ⋅ t f ⋅ E f ) 0,58 d fw − L e para reforço em " U" f c 2/3 d fw k1 = ( ) ;k2 = d − 2L e 27 fw para reforço colado só nas laterais d fw sendo fc = resistência à compressão do concreto; ρ f = taxa geométrica do PRF; df w = comprimento mostrado na figura 2.4; 18 (2.12) (2.13) CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.4 – Comprimento df w usado na equação 2.13. 2.3 ALGUNS ESTUDOS EXPERIMENTAIS SOBRE REFORÇO COM TECIDOS DE FIBRA DE CARBONO Um resumo de alguns trabalhos que utilizaram tecidos de fibra de carbono como reforço e suas principais contribuições e conclusões são apresentados neste item. 2.3.1 Norris et al (1997) Neste estudo foram ensaiadas 19 vigas de concreto armado com o objetivo de investigar o comportamento de vigas reforçadas com mantas e tecidos de fibra de carbono, de forma e disposição variadas, à flexão ou ao cisalhamento. As vigas tinham seção retangular de 127mm x 203 mm, eram simplesmente apoiadas e foram divididas em dois grupos, com armaduras distintas, para estudar o comportamento à flexão ou ao cisalhamento (ver figura 2.5). As 13 vigas que foram utilizadas na investigação do comportamento à flexão (vigas de flexão) mediam 2440 mm de comprimento, tinham taxa de armadura transversal para o trecho entre cargas igual a 0,27% e para os demais trechos 0,87%. A taxa de armadura longitudinal era de 1,1%. As seis vigas restantes foram utilizadas na investigação do comportamento ao cisalhamento (vigas de cisalhamento), mediam 1220 mm de comprimento, tinham taxa de armadura transversal igual a 0,22% e taxa de armadura longitudinal igual a 1,93%. Todas as vigas foram pré-fissuradas, ou seja, foram submetidas a um carregamento correspondente à deformação de escoamento da armadura 19 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA longitudinal de tração e conseqüente aberturas de fissuras antes da realização do reforço, com exceção das vigas de controle tanto de flexão quanto de cisalhamento. Figura 2.5 – Detalhamento das vigas ensaiadas por Norris et al (1997). As barras de aço utilizadas tinham tensão de escoamento (fy ) igual a 420 MPa e o concreto utilizado tinha resistência média à compressão de 36,5 MPa. Foi estudado também o efeito de dois tipos de adesivos epóxicos designados por epóxi A (ft = 28,9 MPa e ε u = 15,5%) e epóxi B (ft = 28,3 MPa e ε u = 10,2%), sendo ft a resistência à tração e ε u a deformação específica última. Os três tipos de reforço utilizados foram denominados de tipo I, tipo II e tipo III. O reforço tipo I era formado por duas camadas de tecido unidirecional de fibra de carbono e resina epóxi A. Os reforços tipo II e tipo III utilizaram resina epóxi B sendo que o primeiro era formado por duas camadas de manta unidirecional de fibra de carbono e o segundo por uma camada de manta bidirecional de fibras de carbono perpendiculares entre si. Seis sistemas de reforço com diferentes formas de orientação das fibras de carbono foram utilizados (ver figura 2.6). 20 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.6 – Orientação das fibras e disposição do reforço das vigas de Norris et al (1997). O sistema (A) consistia de duas camadas de fibras longitudinais coladas no fundo e laterais da viga. O sistema (B) era formado por duas camadas unidirecionais com orientação paralela (1ª camada) e perpendicular (2ª camada) ao eixo da viga , coladas no fundo e laterais da viga. O sistema (C) era constituído por duas camadas de fibras orientadas em ângulos de ± 45º. O sistema (D) era idêntico ao sistema (C) exceto pela porção central da viga que não recebeu reforço nas laterais. O sistema (E) era formado por fibras coladas perpendicularmente ao eixo da viga. O sistema (F) era idêntico ao sistema (C) sendo que o reforço cobria toda a altura da lateral da viga. Todos os sistemas de reforço possuíam a mesma quantidade de fibra de carbono por área. A tabela 2.4 traz os dados das vigas, sendo Ef t o módulo de elasticidade transversal do reforço e Pu a carga última. Segundo o autor, os resultados foram apresentados apenas para as vigas cujo comportamento foi considerado representativo para uma mesma orientação das fibras do reforço. Todas as vigas reforçadas exibiram aumento na carga de ruptura resistida, sendo que a magnitude desse aumento e o modo de ruptura estavam relacionados à orientação das fibras do reforço. 21 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Os extensômetros adicionais das vigas IBi e IIBi foram dispostos ao longo da face inferior e lateral e indicaram a formação de novas fissuras de flexão nas extremidades do reforço. Não houve grande diferença de comportamento entre o tecido e a manta de CFRP utilizados. As diferenças mais significativas ocorreram em função da orientação das fibras e disposição do reforço utilizadas. Foram observados aumentos de resistência e rigidez de todas as vigas reforçadas, sendo a magnitude do ganho de resistência inversamente proporcional à ductilidad e na ruptura. As vigas que tiveram as fibras do reforço direcionadas perpendicularmente às fissuras, tanto de flexão quando de cisalhamento, tiveram grande acréscimo de rigidez e capacidade de carga, mas a ruptura foi brusca e ocorreu pelo destacamento do concreto nas extremidades do reforço. Quando as fibras do PRFC foram dispostas obliquamente em relação às fissuras o modo de ruptura foi mais dúctil, embora o aumento na rigidez e capacidade de carga tenha sido menor que o das vigas mencionadas anteriormente. 22 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.4 - Dados das vigas de Norris et al (1997) compósito Viga Tipo de investigação C96 Flexão C48 Cisalhamento IA Tipo do reforço - IB Ef Eft tf (MPa) (GPa) (GPa) (mm) 389.7 - - - 0º-389.7 90º-11.3 IBu IBi IC ft 67.8 Flexão 2 camadas de tecido de fibra de carbono 34.1 4.6 Pu (kN) Modo de ruptura 50 flexão 100 cisalhamento 138 escoamento do aço de 119 flexão e destacamento do reforço na face inferior e laterais 80 escoamento do aço de flexão e descolamento do reforço na parte superior das laterais da viga escoamento do aço de flexão e decolamento e ruptura do reforço na face inferior da viga 1.0 ID 67.8 62 IE 11.3 escoamento do aço de 148 flexão e esmagamento do concreto Cisalhamento 67.8 395.3 IF IIA IIB IIBu IIBi IIE IIIC IIID IIIF escoamento do aço de flexão e destacamento do reforço na face inferior e laterais Flexão 2 camadas 0º-395.3 de manta 90º-13.8 unidirecional 33.4 de fibra de carbono Cisalhamento 13.8 2.8 1.0 escoamento do aço de 148 flexão e esmagamento do concreto Flexão 1 camada de manta bidirecional Cisalhamento de fibra de IIIFu carbono 104.7 28.3 28.3 1.5 200 u indica que a viga não foi pré-fissurada antes da aplicação do reforço i indica que foram colocados strain-gages adicionais na viga Os espaços em branco são dados não fornecidos pelo autor 23 destacamento do reforço na extremidade superior das laterais CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.3.2 Souza et al (1998) A análise do comportamento de vigas de concreto armado reforçadas com tecidos de fibra de carbono, com diversos tipos de carregamento e sistemas de reforço, foi o objetivo deste trabalho. O estudo foi constituído por sete vigas de concreto armado com seção transversal retangular de 120 mm x 200 mm e vão de 2100 mm. A armadura das vigas é detalhada na fig. 2.7. Figura 2.7 – Detalhamento da armadura das vigas de Souza et al (1998) Cinco vigas foram reforçadas com tecido bidirecional de fibra de carbono com 70% das fibras no sentido principal e 30% das fibras no sentido transversal e medindo 75 mm de largura. O compósito foi ensaiado à tração e a deformação específica na ruptura foi igual a 0,66%. Os detalhes das vigas reforçadas podem ser encontrados na fig. 2.8 e na tabela 2.5. Apenas a viga F3 foi pré-fissurada com uma carga correspondente ao escoamento da armadura longitudinal, as demais vigas foram ensaiadas apenas uma vez. Duas vigas foram utilizadas como controle. A viga FRD, com a mesma armadura das demais, foi ensaiada até a ruptura sem receber reforço. A viga FRR foi executada com uma barra de aço adicional de modo que a área de aço total fosse equivalente à área de aço mais a área da fibra da s demais vigas reforçadas. A viga F3 foi a única viga a ser pré-fissurada. 24 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA *1 Ponto de descolamento *2 Ruptura à tração da fibra *3 Esmagamento do concreto Figura 2.8 - Detalhamento do reforço das vigas de Souza et al (1998) O tipo de carregamento utilizado, concentrado ou distribuído, não diferenciou o comportamento das vigas F1 e F2, reforçadas da mesma forma, salvo o rompimento do compósito na viga F2. A capacidade resistente à flexão foi acrescida em até 70% em relação à viga de referência FRD, embora em serviço não tenha havido grande diferença, sendo sugerido pelos autores ensaios de modelos com maiores dimensões e mais próximos da realidade de estruturas reais. Comparando as vigas com uma camada e a viga com duas camadas de reforço de flexão tem-se que a inclusão de mais uma camada aumentou capacidade 25 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA resistente à flexão da viga em até 65%, com a ruptura ocorrendo por descolamento do reforço. As aberturas de fissuras mostraram-se relacionadas com o descolamento do reforço, já que as bandas de amarração levaram a uma melhora do comportamento da viga F3 em relação à viga F1. Tabela 2.5 - Dados das Vigas de Souza et al (1998) Viga Reforço FRD - FRR - F1 1 camada de reforço na face inferior F2 F3 F4 F5 1 camada de reforço na face inferior + 5 bandas transversais de amarração Carregamento f cm fy (MPa) (MPa) 2 cargas concentradas nos terços dos vãos Compósito Ef ft (GPa) (MPa) - - 8,8 - - 13,7 simulação de carga distribuída 33 Mu (kN.m) 14,7 descolamento do reforço de flexão e esmagamento do concreto 15,4 descolamento e ruptura do reforço de flexão 17,5 descolamento e ruptura do reforço de flexão e esmagamento do concreto 33,6 ruptura do reforço na face lateral e esmagamento do concreto 24,2 descolamento do reforço de flexão e esmagamento do concreto 486 138 2 cargas concentradas 1 camada de reforço na face nos terços dos vãos inferior e outra nas laterais 2 camadas de reforço na face inferior 1425 M u = momento último e f y = tensão de escoamento do aço * O esquema mostrando a localização da ruptura nas vigas encontra-se na figura 2.6 26 Modo de ruptura* CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.3.3 Brosens et al (2000) Neste trabalho é sugerido um método de reforço combinando chapas de aço e tecidos de fibra de carbono com a finalidade de estudar o comportamento das vigas assim reforçadas. Foi feita uma série de quatro vigas de concreto armado com 1700 mm de comprimento, simplesmente apoiadas e com seção transversal retangular de 125 mm x 225 mm. Nenhuma armadura interna de combate ao cisalhamento foi utilizada nas vigas e as não foram pré-fissuradas. A viga de referência foi denominada viga A e não foi reforçada. A viga B recebeu como reforço de cisalhamento duas camadas de tecido de PRFC (0,167 mm cada camada) nas laterais da viga em toda a extensão dos vãos de cisalhamento, sendo a primeira camada com as fibras orientadas verticalmente e a segunda camada com as fibras orientadas horizontalmente. A viga C recebeu o mesmo reforço da viga B, mas apenas em uma das laterais. A viga D recebeu o mesmo reforço da viga C juntamente com uma chapa metálica (1400 mm x 75 mm x 2 mm) no fundo da viga como reforço de flexão e dois estribos de manta de PRFC (100 mm de largura) como ancoragem nas extremidades da chapa. Os detalhes são mostrados na figura 2.9 e os resultados das vigas ensaiadas encontram-se na tabela 2.6. As investigações experimentais mostraram que as mantas de PRFC aumentaram a capacidade resistente da viga em torno de 50%. Não houve diferença substancial entre a viga reforçada em uma única lateral (viga C) e a viga reforçada nas duas laterais (viga B); o ganho de resistência aumentou de 48% para 55%. A chapa de aço utilizada na viga D evitou o escoamento da armadura interna e aumentou a rigidez da viga, mas a utilização de materiais compósitos em contato com metais não seja recomendável devido à possibilidade de corrosão galvânica gerada pela diferença de potencial entre esses materiais. A ancoragem com os estribos de PRFC preveniu o arrancamento da chapa de aço, levando a um aumento da capacidade resistente à flexão de 80%. 27 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.9 – Detalhamento da armadura e reforço das vigas de Brosens et al (2000). Tabela 2.6 - Dados das vigas de Brosens et al (2000) Compósito Viga Reforço Ef ft (GPa) (MPa) - - f cm Pu δy (MPa) (kN) (mm) 54 71 5.5 cisalhamento escoamento da armadura seguido de ruptura do reforço de cisalhamento e falha por cisalhamento A - B 2 camadas de tecido de PRFC nas laterais 110 6.8 C 2 camadas de tecido de PRFC em uma lateral 105 6.6 235 D 2450 2 camadas de manta de PRFC em uma lateral + chapa metálica no fundo + ancoragem com manta de PRFC 54 130 δy = flecha medida antes do escoamento da armadura interna 28 Modo de ruptura 7.6 ruptura do reforço de cisalhamento seguida de falha da viga por cisalhamento CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.3.4 Silva e Moreno (2000) Este estudo teve como objetivo investigar o comportamento de vigas de concreto de alta resistência reforçadas à flexão com tecidos de PRFC. As vigas tinham seção transversal retangular de 150 mm x 200 mm, 1560 mm de vão livre, eram simplesmente apoiadas e foram armadas da mesma forma. As vigas não foram pré-fissuradas e armadura interna e a disposição dos tecidos podem ser vistas na figura 2.10. Fig. 2.10 – Detalhamento das armaduras e dos reforços das vigas de Silva e Moreno (2000) Devido à pouca porosidade do concreto, a aderência do tecido ficou prejudicada de início. Visando certificar-se dos resultados, duas das vigas foram reforçadas da mesma forma (VRC1a e VRC1b). Os dados experimentais das vigas ensaiadas encontram-se na tabela 2.7, onde 29 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA bf = largura do PRF; ε f = deformação específica do PRF; As = área da seção transversal da armadura longitudinal de tração. A análise dos resultados mostrou que: § o reforço com tecidos de PRFC aumentou a rigidez das vigas de CAR e retardou o escoamento das armaduras, sendo que esse retardamento foi maior na viga com ancoragem do reforço; § as vigas que não tiveram sistema de ancoragem (VR1Ca e VR1Cb) tiveram ruptura por descolamento prematuro do tecido, iniciado em uma das extremidades e que se propagou em toda a extensão da face inferior da viga; § o sistema de ancoragem utilizado na viga VR1C/X foi de grande eficiência e fez com que a ruptura da viga fosse retardada até o instante da ruptura do reforço, § o aumento de capacidade resistente à flexão foi de 56% na viga com melhor desempenho (VR1C/X). 30 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.7 - Dados das vigas de Silva e Moreno (2000) compósito Viga VT bf tf Ef εf (mm) (mm) (MPa) (%) Reforço - - - - 1 camada VR1Ca de manta de PRFC no fundo da VR1Cb viga 1 camada 120 0.117 de manta de PRFC no VR1C/X fundo da viga + ancoragem 2.3.5 - fcm As (MPa) (mm 2) fy Mu (MPa) (kN.m) 89.1 100.5 514.5 0.559 91.8 9.83 Modo de ruptura Flexão por escoamento da armadura interna 14.50 descolamento da manta 0.297 89.1 240 13.05 100.5 514.5 0.800 91.8 16.00 ruptura da manta Beber et al (2000) O programa experimental objetivou investigar o comportamento de dez vigas de concreto armado reforçadas com diversas camadas de tecido unidirecional de PRFC. As vigas tinham seção retangular de 120 mm x 250 mm e 2350 mm de vão livre, eram simplesmente apoiadas e foram carregadas como mostrado na figura 2.11. A taxa de armadura longitudinal das vigas era igual a 0,52% e a armadura transversal era formada por estribos de 6 mm de diâmetro e espaçamento uniforme de 110 mm. Todas as vigas foram submetidas a um único ensaio até a ruptura (não foram pré-fissuradas). 31 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.11 – Detalhamento das vigas ensaiadas por Beber et al (2000) Foram utilizadas uma, quatro, sete e dez camadas de tecido pré-impregnado unidirecional de fibra de carbono como reforço e as vigas cujo reforço tinha sete e dez camadas receberam bandas de ancoragem em forma de “U” nas extremidades do reforço de flexão. Os resultados experimentais são mostrados na tabela 2.8. O reforço com tecidos de fibra de carbono teve desempenho bastante satisfatório tanto quanto ao aumento da capacidade de carga (aumentos de até 182%) quanto ao aumento da rigidez, sendo limitado pela carga de ruptura associada ao destacamento do mesmo. Foi comprovada também a ação do reforço antes e depois do escoamento do aço, evitando grandes deformações plásticas na armadura. Segundo o autor, a deformação específica de ruptura fornecida pelo fabricante não foi alcançada pelo compósito nos ensaios das vigas reforçadas, e o valor obtido era cerca de 28% inferior. 32 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.8 - Dados das vigas de Beber et al (2000) Viga tipo de reforço compósito f cm Ef ft (MPa) (MPa) (GPa) fy (MPa) Py (kN) εs* (‰) P u (kN) Modo de ruptura VT1 - 44.0 2.634 47.4 VT2 - 44.0 2.688 47.0 VR3 1 camada de tecido de PRFC 47.9 2.447 65.2 48.0 2.295 62.0 60.0 1.907 102.2 60.1 1.840 100.6 7 camadas de tecido de PRFC ** 80.1 1.350 124.2 85.1 1.275 124.0 10 camadas de tecido de PRFC** 90.0 1.096 129.6 95.0 1.052 137.0 VR4 VR5 VR6 VR7 VR8 VR9 VR10 4 camadas de tecido de PRFC 230 3400 33.6 escoamento da armadura principal e esmagamento do concreto ruptura do reforço 565 destacamento do reforço P y = carga referente ao escoamento da armadura longitudinal de tração * Deformação específica da armadura principal na carga de 44 kN ** ancoradas com bandas de amarração nas extremidades 2.3.6 Khalifa e Nanni (2000) Este programa experimental teve como objetivo investigar o comportamento ao cisalhamento e os modos de ruptura de vigas com seção “T” deficientes ao cisalhamento e reforçadas com tecido de PRFC. Seis vigas com seção “T” medindo 2340 mm de comprimento, bi-apoiadas, carregadas e armadas como mostra a figura 2.12 foram ensaiadas. Todas as vigas foram pré-fissuradas e carregadas em 2 ou três ciclos até a ruptura. A viga BT1 serviu como referência e foi armada da mesma forma que as demais. A Viga BT2 foi reforçada com tecido de fibra de carbono, em forma de “U” e colado nas faces laterais e inferior, com as fibras perpendiculares ao eixo da viga. A viga BT3 teve o mesmo reforço que a viga BT2 mais uma segunda camada de tecido aplicada apenas nas laterais e com as fibras orientadas longitudinalmente em relação ao eixo da viga. 33 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.12 – Esquematização das vigas de Khalifa e Nanni (2000) A viga BT4 foi reforçada com tiras de tecido de PFRC unidirecional e com as fibras orientadas perpendicularmente ao eixo da viga, medindo 50 mm de espessura e espaçadas de 125 mm de centro a centro. O reforço da viga BT5 foi similar ao da viga BT4 sendo que as tiras de tecido de PRFC foram coladas somente nas laterais da viga. A viga BT6 foi reforçada como a viga BT2, mas teve as extremidades do reforço no encontro da mesa com a alma utilizando uma barra de PRFV (polímero reforçado com fibra de vidro). A ancoragem da viga BT6 evitou o destacamento do compósito e aumentou a carga de ruptura em cerca de 40% (ver tabela 2.9) em relação à sua similar sem ancoragem (BT3), sugerindo que os reforços externos com tecidos de PRFC podem ser melhorados substancialmente quando providos de ancoragem adequada. Ainda assim, a deformação específica medida no reforço da viga BT6 ficou em torno de, apenas, 40% da deformação de ruptura do compósito. A maior deformação específica foi medida no reforço da viga BT4 e ficou em torno de 62% da deformação de ruptura do compósito. 34 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Todas as vigas reforçadas obtiveram acréscimo de capacidade de carga, chegando este a 145%. Não houve diferença em relação ao modo de ruptura das vigas com reforço em “U” e a viga com reforço somente nas laterais, mas a contribuição para a resistência ao cisalhamento foi 25% menor para este último. Comparando-se os resultados das vigas BT2 e BT4 (quantidade de reforço 40% menor) verifica-se não houve grande aumento na capacidade resistente ao cisalhamento, confirmando que existe uma quantidade ótima de PRFC para reforço de cisalhamento e ao ultrapassá-la não há acréscimo de resistência ao cisalhamento da viga. Tabela 2.9 - Dados das vigas de Khalifa e Nanni (2000) Compósito Viga Reforço tf Ef ft (mm) (GPa) (MPa) - - - εf (%) fcm fy Pu (MPa) (MPa) (kN) BT1 - - 180 BT2 tecido contínuo em forma de "U" 0.45 310 BT3 2 camadas (0º/90º) de tecido contínuo em forma de "U" BT4 tiras de tecido em 0.165 forma de "U" BT5 tiras de tecido apenas nas laterais * 243 BT6 tecido contínuo em forma de "U" + ancoragem "U-anchor" 0.63 442 * 228 3790 1.00 * Dados perdidos pelo autor 35 315 35 470 324 Modo de ruptura Cisalhamento Destacamento do reforço nas laterais da viga nas proximidades da maior fissura de cisalhamento e ruptura por cisalhamento Flexão CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.3.7 Matthys (2000) O autor ensaiou duas séries de vigas com o objetivo de estudar separadamente o comportamento das vigas reforçadas à flexão e ao cisalhamento, utilizando lâminas e tecidos pré-impregnados de PRFC como reforço. Foram ensaiadas 16 vigas com dimensões 200 mm x 450 mm x 4000 mm, biapoiadas e com duas cargas concentradas aproximadamente nos terços do vão (ver fig. 2.13). Figura 2.13 – Geometria e carregamento das vigas de Matthys 2.3.7.1 Vigas reforçadas à flexão A primeira série consistia de nove vigas, sendo duas usadas como referência (BF1 e BF7) e as restantes reforçadas à flexão. As vigas só foram carregadas depois de reforçadas, com exceção das vigas BF4 e BF5 que foram pré-carregadas com 110 kN e fissuradas, sendo que, antes da execução do reforço, BF4 foi descarregada e BF5 foi reforçada sob carregamento. Os detalhes da armação e do reforço são mostrados na figura 2.14 e na tabela 2.10, sendo ρ L a taxa geométrica de armadura longitudinal de tração. Nessa primeira série de vigas foram obtidos acréscimos de resistência à flexão entre 20% e 40%. Todas as vigas reforçadas tiveram ruína brusca por descolamento do compósito. A pré-fissuração não diminuiu significativamente o ganho de resistência da viga BF4, assim como a manutenção do carregamento durante o reforço (viga BF5) resultou em carga de ruptura apenas 4% inferior à da sua similar que não foi inicialmente carregada. Os compósitos de PRFC aumentaram a rigidez das vigas reforçadas e tornaram o padrão de fissuração mais denso, com menores aberturas de fissuras, influenciando positivamente o estado limite de serviço. No entanto, sua influência foi 36 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA maior no estado limite último. A ductilidade das vigas reforçadas diminuiu consideravelmente (entre 25% e 68%), mas se manteve aceitável segundo o autor. Figura 2.14 – Detalhamento da armadura interna e do reforço das vigas reforçadas à flexão de Matthys (2000) Tabela 2.10 - Dados das vigas de Matthys (2000) reforçadas à flexão Viga BF1 tipo - reforço ft Ef ρf (MPa) (GPa) (%) - - - fcm fy ρL Pu (MPa) (MPa) (%) (kN) Modo de ruptura 33,7 144,2 EA/EC 36,5 185 34,9 186 BF2 BF3 Lâmina de (1) PRFC BF4 BF5 BF6 BF7 BF8 BF9 (1) 3200 Lâmina de PRFC (1)+ ancoragem com tecido de PRFC (2) Lâmina de (1) PRFC tecido de PRFC (3) 159 30,8 37,4 0,14 0,96 184,2 177 DC(EA)/EC 590 35,9 183 80,7 EA/EC 111,3 DC(EA) 95,8 DC(EA)/EC - - - 38,5 3200 159 0,14 39,4 3500 233 0,026 33,7 (2) 0,48 (3) CarboDur 100 mm x 1.2 mm Replark 330 mm x 0.111 mm 2 camadas de Replak 100mm EA/EC escoamento do aço seguido de esmagamento do concreto DC(EA) Descolamento do compósito (depois do escoamento do aço) 37 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.3.7.2 Vigas reforçadas ao cisalhamento Na segunda série foram ensaiadas sete vigas, sendo duas tomadas como referência (BS1 e BS3) e as restantes reforçadas ao cisalhamento. A armadura interna de combate ao cisalhamento, utilizada apenas nos vãos de cisalhamento, consistia de estribos de 6 mm espaçados de 200 mm nas vigas BS1 e BS2 e espaçados de 400 mm nas demais vigas. A armadura de flexão foi de seis barras de 20mm para todas as vigas. As vigas foram pré-fissuradas antes da execução do reforço. Com exceção das vigas de referência, as vigas foram reforçadas ao cisalhamento com tecidos de PRFC (Replark) como mostrado na figura 2.15. Os resultados experimentais obtidos podem ser vistos na tabela 2.11. Baseando-se nos resultados experimentais obtidos, chegou-se às seguintes conclusões: • O uso de tecidos de PRFC como reforço ao cisalhamento aumentou consideravelmente a resistência ao cortante das vigas ensaiadas. Dependendo da quantidade de reforço, pode-se prevenir a ruptura por cisalhamento de modo a se obter uma ruptura por flexão. A configuração do reforço é de grande influência na efetividade do reforço ao cisalhamento. • A utilização de tiras em forma de U e tiras fechadas conseguiu retardar e até eliminar os mecanismos de descolamento do compósito, aumentando a eficiência do reforço. • A contribuição do compósito está relacionada à sua deformação, que deve ser inferior à sua deformação última, refletindo aspectos como abertura de fissur as de cisalhamento, descolamento localizado do compósito junto às fissuras e capacidade de ancoragem disponível. 38 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.15 – Detalhamento do reforço das vigas de Matthys (2000) reforçadas ao cisalhamento 39 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Tabela 2.11 - Dados da vigas de Matthys (2000) reforçadas ao cisalhamento reforço Viga BS1 BS2 BS3 BS4 BS5 tipo - ft Ef bf (MPa) (GPa) (mm) - - - 2 tiras em U e 2 3500 tiras em I 2 bandas em U cobrindo os vãos de cisalhamento 6 tiras em U - - estribos fy Pu (mm) (MPa) (kN) Modo de ruptura 206,3 C (TD) 247,5 C (DC/TD) 35,0 50/100 (1) 33,8 φ 6 c. 200 - 37,5 136,6 C (TD) 1070 38,4 252,0 F (EA/EC) 560 3500 BS6 233 fcm (MPa) 50 36,0 50 35,8 166,7 C (DC/TD) 50/100 (1) 34,7 235,5 C (TD) 233 2 tiras em U e 2 tiras em I BS7 3 tiras fechadas φ 6 c. 400 170,0 (1) Larguras diferentes nos dois vãos de cisalhamento C: ruptura por cisalhamento F: ruptura por flexão TD: Tração diagonal (fissura de cisalhamento) DC/TD: Descolamento do compósito seguido de tração diagonal EA/EC: Escoamento do aço seguido de esmagamento do concreto 2.4 ESTUDOS EXPERIMENTAI S SOBRE VIGAS COM REFORÇOS COLADOS REALIZADOS NA COPPE Este item se propõe a abordar uma série de estudos sobre e reforço de elementos de concreto armado realizados nos últimos anos na COPPE, sendo o presente trabalho uma continuidade dos mesmos. 2.4.4 Morais (1997) Este trabalho objetivou estudar a eficiência do uso de chapas de aço coladas e tirantes externos pré-tracionados como reforço à flexão e o uso de chapas de aço coladas em tiras e estribos externos pré-tracionados como reforço ao cisalhamento de vigas de concreto armado. 40 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Foram confeccionadas 4 vigas com 4500 mm de comprimento, sendo 4000mm de vão livre, e seção transversal retangular de 150 mm x 450 mm. As vigas foram bi-apoiadas e carregadas como mostrado na figura 2.16. Figura 2.16 – Geometria e carregamento das vigas de Morais (1997) A armadura das vigas e a carga mantida durante o reforço são mostradas na tabela 2.12. Tabela 2.12 - Armadura e carregamento durante o reforço das vigas de Morais (1997) Armadura transversal (nos vãos de cisalhamento) Carga durante o reforço (kN) 2 φ 16 mm + 3 φ 20 mm φ 8 mm c.100 mm - VM-1A 2 φ 16 mm + 1 φ 20 mm φ 6.3 mm c.200 mm 40 VM-1B 2 φ 16 mm + 1 φ 20 mm φ 6.3 mm c.200 mm 40 VM-2A 3 φ 16 mm φ 5 mm c.250 mm 50 Viga Armadura longitudinal VM-1R Todas as vigas foram submetidas a dois ciclos de carregamento, sendo o primeiro ciclo para fissurar as vigas e o segundo ciclo até a ruptura. No intervalo entre os dois ciclos as vigas foram mantidas sob carregamento e reforçadas à flexão e ao cisalhamento (ver figura 2.17) com exceção da viga VM-1R, que foi tomada como referência e não foi reforçada. 41 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.17 – Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Morais (1997). A tabela 2.13 traz um resumo dos tipos de reforços utilizados e os resultados obtidos experimentalmente, sendo Lr, tr, br e s r, respectivamente, o comprimento, a espessura, a largura e o espaçamento do reforço e Fo a força de pré-tração no tirante/estribo. Os reforços de flexão utilizados aumentaram a capacidade portante das vigas em até 106% em relação à capacidade portante t eórica obtida utilizando o diagrama retangular de tensões no concreto. A resistência ao esforço cortante foi aumentada em mais de 30%, nos casos das vigas VM-1A e VM-1B e 110% no caso da viga VM2A, em relação à resistência teórica calculada com base na tr eliça de Mörsch. O reforço de cisalhamento utilizando estribos externos pré-tracionados reduziu a abertura de fissuras de cisalhamento e a deformação dos estribos internos. Todos os reforços de cisalhamento utilizados permitiram a visualização da fissuração e mostraram-se eficientes também como dispositivos de ancoragem, evitando o descolamento e o arrancamento da chapa de reforço de flexão. 42 fy Pu 34.4 34.4 33.5 34.4 VM-1A VM-1B VM-2A 43 511 547 547 chapa colada - tipo tirantes externos prétracionados ligados a 190 blocos de concreto colados na viga 175 200 (MPa) (MPa) (kN) fcm VM-1R Viga br φ Lr Fo - 4.76 - - 150 - 20 - - 3800 - 88 - - (mm) (mm) (mm) (mm) (kN) tr Reforço de flexão 547 333 - (MPa) fy estribos externos prétracionados - 1 - estribos externos prétracionados estribos em "U" colados - tr (mm) - tipo - 90 - - (mm) br 12.5 - 12.5 - (mm) φ 250 - (mm) Lr Reforço de cisalhamento Tabela 2.13 - Dados das vigas de Morais (1997) 49 - 49 - (kN) Fo 688 333 668 - (MPa) fy Esmagamento de canto do bloco de ancoragem seguido de esmagamento do concreto na região de momento fletor máximo Escoamento da armadura interna e da chapa colada seguido de esmagamento do concreto na região de momento fletor máximo Escoamento da armadura interna seguido de esmagamento do concreto na região de momento fletor máximo Modo de ruptura CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.4.5 Carneiro (1998) Neste trabalho foi estudada a técnica de reforço usando vergalhões longitudinais colados como reforço de flexão, combinada com as técnicas de estribos externos pré-tracionados, de vergalhões colados em sulcos feitos no cobrimento e de chapas de aço em tiras coladas como reforço de cisalhamento. Foram ensaiadas 3 vigas com 4500 mm de comprimento, sendo 4000 mm de vão livre, e seção transversal de 150 mm x 450 mm. As vigas foram bi-apoiadas e carregadas como mostrado na figura 2.18. A armadura das vigas aparece na tabela 2.14. Figura 2.18 – Geometria e carregamento das vigas de Carneiro (1998) e das vigas de Pinto (2000) e Cerqueira (2000) De forma similar aos ensaios de Morais (1997) todas as vigas foram submetidas a dois ciclos de carregamento. Sob um carregamento de 50 kN, as vigas foram reforçadas à flexão e ao ci salhamento (ver figura 2.19). Os resultados obtidos (ver tabela 2.14) foram comparados com os da viga VM-1R ensaiada por Morais (1997), tomada como referência e que possuía a mesma geometria, além de dimensões e capacidade resistente à flexão teórica próximas às das vigas VL1, VL -2 e VL-3. A análise dos resultados levou às seguintes conclusões: • todas as vigas reforçadas apresentaram aumento de rigidez e capacidade resistente, ação conjunta das armaduras externa e interna e redução das aberturas de fissuras de flexão e cisalhamento. 44 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA • o reforço de flexão com vergalhões longitudinais colados aumentou a carga de ruptura de 45% a 95% em relação à resistência à flexão teórica da viga sem reforço. • o reforço de cisalhamento aumentou a carga de ruptura, em relação à resistência ao cisalhamento teórica da viga sem reforço, em torno de 30% para a viga reforçada com estribos de vergalhões colados (VL-2) e 80% tanto para a viga reforçada com estribos pré-tracionados (VL-1) quanto para a viga reforçada com estribos de tiras de chapas de aço coladas (VL-3). Os estribos de vergalhões colados funcionaram bem como reforço ao cisalhamento, mas não conseguiram evitar o deslizamento do reforço de flexão (vergalhões longitudinais colados) antes que a viga alcançasse sua resistência à flexão. Figura 2.19 – Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Carneiro (1998). 45 (%) (MPa) 46 40.2 VL-3 0.14 0.95 Pu 510 547 175 130 170 200 (MPa) (kN) fy ρ T = taxa geométrica de armadura transversal 39.8 34.1 VL-2 VL-1 (%) ρL 0.67 2.19 ρT fcm VM-1R 34.4 Viga Vergalhões longitudinais externos colados - tipo 20 - (mm) φ 3800 - L (mm) Reforço de flexão 545 - (MPa) fy tr Estribos externos de chapa de aço em tiras colados 1 - - estribos externos prétracionados estribos externos de vergalhão colados - (mm) - tipo φ 90 - - - - 20 12.5 - (mm) (mm) br 250 150 250 - (mm) sr Reforço de cisalhamento Tabela 2.14 - Dados das vigas de Carneiro (1998) Fo - - 36 - (kN) fy 670 - (MPa) Fendilhamento do concreto ao longo da armadura longitudinal interna e escoamento das armaduras longitudinal interna e de reforço Escoamento das armaduras longitudinal interna e de reforço Esmagamento do concreto e escoamento das armaduras longitudinal interna e de reforço Esmagamento do concreto e escoamento da armadura longitudinal Modo de ruptura CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.4.5 Pinto (2000) e Cerqueira (2000) Estes trabalhos foram realizados simultaneamente e visaram investigar o comportamento de vigas de concreto armado reforçadas à flexão, ao cisalhamento e ao cisalhamento e à flexão com adição externa de lâminas de fibra de carbono coladas com resina epóxica. Foram confeccionadas cinco vigas de concreto armado, V1 e V3 foram ensaiadas por Pinto (2000), V2 e V4 foram ensaiadas por Cerqueira (2000) e V5 foi comum aos dois trabalhos. As vigas tinham seção retangular de 150 mm x 450 mm, comprimento de 4500 mm, sendo 4000 mm de vão livre, e foram carregadas e biapoiadas como mostra a figura 2.18. A armadura das vigas é mostrada na tabela 2.15. As vigas foram submetidas a dois ciclos de carregamento antes de serem reforçadas e, por intermédio de um sistema de tirantes, foram mantidas cargas de 40kN durante o reforço. O reforço das vigas constituía-se de lâminas de fibra de carbono Sika Carbodur S512 coladas com adesivo epóxico SIKADUR-30 e os detalhes são mostrados na figura 2.20. Após os sete dias de cura da resina epóxica, as vigas foram submetidas a um terceiro ciclo de carga até a ruptura. Os resultados experimentais obtidos (ver tabela 2.15) foram comparados aos resultados da viga VM-1R ensaiada por Morais (1997), tomada como referência e que possuía a mesma geometria, além de dimensões e capacidade resistente à flexão teórica próximas às das cinco v igas. O reforço com lâminas de fibra de carbono foi de fácil execução em virtude da leveza das lâminas e da ausência de complicações no preparo e aplicação da resina. Segundo os autores, os ensaios mostraram que os reforços ao cortante e à flexão com lâminas de carbono são capazes de aumentar consideravelmente a capacidade resistente das vigas e reduzir a deformação da armadura interna. O reforço à flexão proporcionou, também, um aumento na rigidez da viga. A locação e colocação das lâminas inclinadas na superfície do concreto são mais complicadas e não apresentaram vantagem significativa em relação ao uso de lâminas verticais. 47 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Figura 2.20 – Reforços de flexão e cisalhamento das vigas de Pinto (2000) e Cerqueira (2000). O sistema de ancoragem utilizado nas vigas com bandas de amarração foi eficaz no combate às tensões cisalhantes nas extremidades da lâmina, evitando o destacamento do concreto. Na viga V5 essas bandas auxiliaram, também, na diminuição de deformações nas lâminas do fundo da viga e evitaram o descolamento e destacamento das mesmas, resultando em aumento de resistência e ductilidade. O descolamento pode ser evitado com a limitação da deformação das lâminas de fibra de carbono em 5‰ no dimensionamento à flexão e ao cisalhament o de vigas reforçadas com lâminas de fibra de carbono sem sistemas especiais de ancoragem. 48 34.4 34.8 36.6 38.3 39.2 34.7 V1 V2 V3 V4 V5 (MPa) VM-1R nome f cm 49 0.13 0.13 0,67 0.13 0.67 0.67 0.96 2.22 0,96 2.22 0.96 2.19 ρT (%) ρL (%) viga 165 180 150 182 140 200 (kN) Pu bf Ef 1.2 - 50 - 165 - (mm) (mm) (MPa) tf - 3800 3 lâminas na face tracionada e 1 lâmina na parte inferior de cada face lateral da viga 3800 3 lâminas na face tracionada da viga - - 3800 2 lâminas na face tracionada da viga - - Lf (mm) - Reforço de flexão 5 lâminas coladas verticalmente e 5 lâminas coladas inclinadas de 45º em cada face lateral da viga + bandas de amarração nas extremidades das lâminas 400 400 - 400 5 lâminas coladas verticalmente e 5 lâminas coladas inclinadas de 45º em cada face lateral da viga - - - Lf (mm) - - Reforço de Cisalhamento Laminados de fibra de carbono Tabela 2.15 - Dados das vigas de Pinto (2000) e Cerqueira (2000). escoamento da armadura longitudinal e esmagamento do concreto escoamento da armadura longitudinal e esmagamento do concreto escoamento da armadura longitudinal interna e destacamento da lâmina escoamento da armadura longitudinal e esmagamento do concreto escoamento da armadura longitudinal interna e destacamento da lâmina escoamento da armadura longitudinal e esmagamento do concreto Modo de ruptura CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.5 Considerações Finais Tendo em vista a grande necessidade de reparos e reforços de estruturas de concreto armado em todo o mundo, os materiais compósitos de fibra de carbono representam uma inovação tecnológica de grande potencial nessa área em função de suas características e propriedades. Os resultados dos estudos experimentais revisados confirmam sua eficiência. De uma maneira geral, pode-se dizer que o modo de ruptura está relacionado ao dimensionamento e detalhamento do reforço e às condições de colagem deste. Deles dependem os aumentos de resistência, rigidez e/ou ductilidade da viga reforçada. Constatou-se que o valor da deformação do compósito obtido nos ensaios das vigas era sempre inferior ao valor da deformação de ruptura do mesmo, sendo fundamental para o dimensionamento a limitação da deformação do compósito. Esse valor limite para a deformação do compósito foi proposto em vários trabalhos na literatura, assim como o valor para a tensão cisalhante limite a ser suportada pelo concreto da superfície a receber o reforço e serão analisados no quarto capítulo. A região mais crítica para o descolamento do compósito está relacionada com as maiores aberturas de fissuras. Dentre os reforços revisados, todos os sistemas de ancoragem utilizados possibilitaram o melhor aproveitamento das características mecânicas dos compósitos, exercendo papel fundamental tanto no aumento da capacidade de carga quanto no modo de ruptura. No entanto, os que evitaram a ruptura por descolamento foram: Reforço de cisalhamento: • cobrindo todo o vão de cisalhamento (NORRIS et al, 1997, SOUZA et al, 1998, BROSENS et al, 2000, KHALIFA e NANNI, 2000 e MATTHYS, 2000) • em tiras fechadas dispostas nos vãos de cisalhamento (MATTHYS, 2000) • em “U” ancorado pelo sistema U-anchor (KHALIFA E NANNI, 2000) Reforço de Flexão: • o sistema de ancoragem em “X” (SILVA E MORENO, 2000) A maioria dos trabalhos fugiu à representação de estru turas reais, pois suas vigas possuíam dimensões reduzidas (NORRIS et al, 1997, SOUZA et al, 1998, 50 CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA BROSENS et al, 2000, SILVA e MORENO, 2000, BEBER et al, 2000) e/ou não foram fissuradas antes do reforço (BROSENS et al, 2000, SILVA e MORENO, 2000, BEBER et al, 2000), o que afetou a distribuição e propagação de fissuras, fatores que influenciam a ruptura das mesmas. Tendo em vista os aspectos supra citados, este trabalho visa contribuir com o aumento do conhecimento disponível sobre vigas reforçadas com tecidos de fibra de carbono, investigando as lacunas deixadas por trabalhos anteriores, como a deformação limite dos reforços de flexão e cisalhamento para evitar o descolamento dos mesmos. 51 CAPÍTULO 3 PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.1 INTRODUÇÃO Dando continuidade a uma série de estudos sobre reparo e reforço de vigas de concreto armado utilizando elementos externos colados, neste trabalho fez-se um estudo sobre o comportamento de vigas reforçadas à flexão, ao cisalhamento, e à flexão e ao cisalhamento simultaneamente usando tecido unidirecional de fibra de carbono colado com adesivo epóxico. Foram ensaiadas quatro vigas de seção retangular, denominadas VC-1R, VC-1, VC-2 e VC-3. Essas vigas foram bi-apoiadas e carregadas com duas cargas eqüidistantes dos apoios, mantendo uma relação a/d igual a 3,2, sendo “a” o vão de cisalhamento e “d” a altura útil da seção. A viga VC-1 foi reforçada ao cisalhamento, a viga VC-2 foi reforçada à flexão e a viga VC-3 foi reforçada tanto à flexão quanto ao cisalhamento. A viga VC-1R não recebeu reforço e, assim como a viga VM-1R ensaiada por Morais (1997), serviu de referência para as demais vigas ensaiadas. 3.2 MATERIAIS 3.2.1 Concreto O concreto utilizado na confecção das vigas tinha traço, em peso, 1 : 2,25 : 3,25 (cimento : areia : brita) e fator água/cimento de 0,56. A tabela 3.1 apresenta os quantitativos dos materiais usados. 52 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Tabela 3.1 - Quantidade de material por m 3 de concreto Composição por m3 cimento 329 kg areia 740 kg brita 1069 kg água 184 l O cimento empregado no preparo do concreto foi do tipo CPII-E-32, (MAUÁ). A areia era de rio e lavada e o agregado graúdo era de gnaisse britado com dimensão máxima de 19 mm. O concreto foi misturado mecanicamente em betoneira e foram moldados seis corpos de prova cilíndricos de 150 mm x 300 mm para cada viga ensaiada, sendo retirados corpos de prova de cada betonada segundo recomendações da NBR-5738 (1993). Os corpos de prova foram desformados vinte e quatro horas depois da concretagem e imersos em tanque com água saturada de cal durante sete dias, sendo depois retirados e mantidos no ambiente do laboratório. O rompimento dos corpos de prova foi feito na data do primeiro ensaio de cada viga. Foram executados ensaios de compressão e tração por compressão diametral em prensa AMSLER com capacidade de 3000 kN do Laboratório de Materiais de Construção da UFRJ (LAMAC), de acordo com as normas NBR-5739 (1994) e NBR-7222 (1994). Foram feitos também ensaios de tração direta do concreto nas vigas reforçadas. Em cada viga foram colados 4 discos de metal com a mesma resina epóxica utilizada na colagem do reforço. Depois de 7 dias (tempo de cura da resina), foi feito o ensaio de arrancamento dos discos (pull-off). A tabela 3.2 apresenta os valores médios da resistência do concreto à tração direta, tração indireta e compressão obtidos nos ensaios. 53 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Tabela 3.2 - Valores médios de resistência do concreto à tração e à compressão Viga VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R Idade f cm fctm f ctm,dir (dias) (MPa) (MPa) (MPa) 49 111 107 51 90 30.4 28.5 33.8 31.3 34.4 3.1 2.9 3.0 3.1 - 2.4 2.4 2.6 - - fctm = resistência média à tração do concreto fctm,dir = resistência média à tração direta do concreto 3.2.2 Aço Foram usadas nas vigas barras de aço CA-50 e CA-60, com diâmetro 5,0 mm e 6,3 mm para a armadura transversal, 8 mm para armadura longitudinal de compressão e 16 mm e 20 mm para armadura longitudinal de tração. Os ensaios dessas barras foram feitos, à luz da norma NBR -6152 (1980), no Laboratório de Estruturas da UFRJ em prensa universal AMSLER com capacidade para 1000 kN. As figuras 3.1 a 3.5 mostram os diagramas tensão-deformação das barras citadas e os resultados obtidos encontram-se reunidos na tabela 3.3. 900 800 Tensão (MPa) 700 600 500 400 300 εy*= 3,9 ‰ εy = 6 ‰ 200 f y = 785 MPa Es = 201 GPa 100 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 Deformação (‰) Figura 3.1 – Diagrama tensão-deformação das barras lisas de diâmetro 5,0 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1 e VC-3. 54 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 700 600 Tensão (MPa) 500 400 300 εy*= 2,9 ‰ εy = 4,9 ‰ 200 f y = 540 MPa Es = 186 GPa 100 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 Deformação (‰) Figura 3.2 – Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 6,3 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3. 800 700 Tensão (MPa) 600 500 400 300 εy*= 3,2 ‰ εy = 5,2 ‰ 200 f y = 603 MPa Es = 188 GPa 100 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 Deformação (‰) Figura 3.3 – Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 8 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3. 55 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 700 600 Tensão (MPa) 500 400 300 εy = 3,0 ‰ fy = 580 MPa 200 Es = 189 GPa 100 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 Deformação (‰) Figura 3.4 – Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 16 mm usadas nas vigas VC-1R, VC1, VC-2 e VC-3. 800 700 Tensão (MPa) 600 500 400 εy*= 3,0 ‰ εy = 5,0 ‰ fy = 574 MPa 300 200 Es = 194 GPa 100 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Deformação (‰) Figura 3.5 – Diagrama tensão-deformação das barras nervuradas de diâmetro 20 mm usadas na viga VC1. 56 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Tabela 3.3 - Características das barras de aço usadas na armadura das vigas φ (mm) φef (mm) fy (MPa) f st (MPa) 5,0 6,3 8,0 16,0 20,0 4,9 6,3 7,9 16,0 20,0 785 540 603 567 574 810 730 791 720 872 ε y* (‰) 3,9 2,9 3,2 3,0 3,0 εy (‰) 6,0 4,9 5,2 3,0 5,0 Es (GPa) 201 186 188 189 194 φef = diâmetro efetivo f st = resistência à tração do aço εy* = deformação específica de escoamento do aço para o diagrama tensão-deformação bilinear εy = deformação específica de escoamento do aço Es = módulo de elasticidade do aço 3.2.3 Fibras O Sistema utilizado para reforçar as vigas VC-1, VC-2 e VC-3 foi o SikaWrap Hex-230C com resina epóxica Sikadur-330 (ver foto A.1). O tecido SikaWrap Hex-230C é formado por fibras de carbono unidirecionais orientadas na direção longitudinal, com massa igual a 225 g/m 2 e fornecimento em rolos de 47,5 m. As outras propriedades das fibras fornecidas pelo fabricante (Sika, 2000) são: • Módulo de elasticidade: 230 GPa • Resistência à tração: 3500 MPa • Deformação específica na ruptura: 1,5% A resina SikaDur-330, utilizada na impregnação e colagem do tecido, possui as seguintes características (Sika, 2000): • Aspecto Componente A: branco Componente B: cinzento • Proporção da Mistura A+B: A:B=4:1 em peso • Massa específica da mistura: 1,31 kg/l • Duração prática da mistura (“pot life”): 90 min a 15º (5 kg) 30 min a 35º (5 kg) • de 15º a 35º (base e ambiente) Temperatura de aplicação 57 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL e as seguintes propriedades mecânicas: • 3800 MPa Módulo de elasticidade à flexão (DIN 53452) • Resistência à tração (DIN 53455) 30 MPa (curado a 7 dias a 23º) • Temperatura de deflexão por calor Curado por 7 dias a 5º : 41º a 23º : 47º (ASTM D648) a 35º : 53º O compósito curado formado pelo tecido e pela resina supra-citados possui as seguintes propriedades mecânicas, por camada (Sika, 2000): • Módulo de elasticidade 73,1 GPa • Resistência à tração 960 MPa • Deformação específica na ruptura: 1,33% • Espessura do tecido: 0,33 mm Foi ensaiada à tração no laboratório de Estruturas da UF RJ uma amostra de reforço de fibra de carbono em prensa universal AMSLER com capacidade para 1000 kN. Esta amostra tinha 700 mm de comprimento e 100 mm de largura e era formada por duas camadas de tecido de fibra de carbono coladas com resina epóxi segundo o mesmo procedimento adotado na colagem do reforço nas vigas. Foram utilizadas como reforço nas extremidades da amostra duas placas de madeira de cada lado coladas com a mesma resina epóxi. As deformações foram lidas com o auxílio de dois extensômetros elétricos de resistência colados no eixo longitudinal simetricamente a 5cm do eixo transversal do corpo de prova. Os valores experimentais obtidos foram maiores que os fornecidos pelo fabricante: módulo de elasticidade igual a 92 GPa, resistência à tração ig ual a 1153 MPa e deformação última igual a 1,67%. O diagrama tensão x deformação obtido é mostrado na figura 3.6, juntamente com o diagrama fornecido pelo fabricante SIKA (2000). 58 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 1400 1200 Tensão (MPa) 1000 800 600 400 200 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Deformação (‰) Experimental Sika Figura 3.6 – Diagrama tensão-deformação do corpo de prova de compósito de fibra de carbono. 3.3 PROJETO ESTRUTURAL 3.3.1 Vigas As quatro vigas do programa experimental possuíam seção transversal retangular de 150 mm x 450 mm e comprimento total de 4500 mm. As vigas foram bi-apoiadas em um apoio do 1º gênero e outro do 2º gênero e carregadas conforme mostrado na figura 3.7. A armadura das vigas foi baseada na de duas vigas de referência. A viga de referência VM-1R, ensaiada por Morais (1997), tinha armadura de flexão próxima à armadura balanceada e armadura transversal suficiente para que a mesma tivesse ruptura por flexão. A viga de referência, VC-1R, tinha armadura de flexão aproximadamente igual à metade da armadura de flexão de VM -1R e quantidade de estribos suficientes para que a resistência ao cisalhamento fosse aproximadamente igual à resistência à flexão. A viga reforçada ao cisalhamento (VC-1) tinha a mesma armadura transversal que VC-1R e armadura longitudinal igual à da VM -1R. A armadura 59 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL longitudinal da viga reforçada à flexão (VC -2) era igual à da VC -1R, enquanto que sua armadura transversal era igual à da VM -1R. A viga reforçada simultaneamente à flexão e ao cisalhamento (VC-3) tinha a mesma armadura transversal e longitudinal que a viga VC-1R. A tabela 3.4 resume as armaduras de flexão e cisalhamento das vigas. Figura 3.7 – Geometria, carregamento e diagramas de esforços solicitantes das vigas ensaiadas Tabela 3.4 - Armaduras de flexão e de cisalhamento das vigas Armaduras Viga VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R 2 As (mm ) Asw/s (mm2 /mm) 603,19 1344,60 603,19 603,19 1344,60 0,20 0,20 1,01 0,20 1,01 As w = área da seção transversal da armadura de cisalhamento s = espaçamento da armadura de cisalhamento 60 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL O detalhamento da armadura interna das vigas é mostrado na figura 3.8. O detalhamento da viga VM-1R pode ser visto no item 2.4.1 do capítulo 2. Figura 3.8 – Detalhamento da armadura interna das vigas 61 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.3.2 Reforço 3.3.2.1 Dimensionamento As vigas VC-1, VC-2 e VC-3 foram reforçadas de forma a suprir suas deficiências de armadura interna (em relação a VM-1R) pela armadura externa com tecido de fibra de carbono. A área de reforço de flexão (Af ) necessária foi calculada de forma aproximada, ignorando as diferenças entre os braços de alavanca das armaduras interna e externa, tomando a diferença entre a armadura longitudinal de VM-1R e a armadura longitudinal de VC-1R (igual à armadura das vigas reforçadas à flexão VC 2 e VC-3), como mostrado na equação 3.1: [(A s ) VM −1R − (A s )VC −1R ] ⋅ f y = A f ⋅ å fe ⋅ E f (3.1) Pelo ACI Committee 440 (2001), a deformação específica do reforço de flexão na ruína da seção (ε f e) deve ser menor ou igual a 8‰ (calculado pelas fórmulas apresentadas no item 2.2.4.2). Foi considerada uma deformação de 8‰ para o reforço e o valor nominal da tensão de escoamento (500 MPa). Portanto, [1344.60 − 603.19] ⋅ 500 = A f ⋅ 8 ⋅ 73100 ∴ 1000 A f = 633,9 mm 2 O número de camadas necessárias para o reforço fica sendo então: N = Af bf ⋅ tf ∴ N = 633,9 250 ⋅ 0,33 ∴ N = 7,68 camadas Foi adotado o valor de 5 camadas para o reforço de flexão por ser este o número máximo de camadas recomendado pelo CEB-FIP (2001). O procedimento para obtenção da área de reforço de cisalhamento (Af ) foi análogo ao do reforço de flexão. Adotando-se o modelo de treliça com ângulo das diagonais comprimidas em relação ao eixo longitudinal θ=45º tem-se: A sw Af A − sw ⋅ å fe ⋅ E f ⋅ fy = sf s VM −1R s VC −1R (3.2) Pelo ACI Committee 440 (2001), a deformação específica do reforço de cisalhamento na ruína da seção (ε f e) deverá ser igual a 4‰, pelo CEB-FIP (2001) a 62 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL mesma deformação deverá ser 5,6‰ (calculados pelas fórmulas expostas no item 2.2.4.2). Tomando-se o valor nominal da tensão de escoamento (600 MPa) e considerando uma deformação (ε f e) de 4‰, tem-se [1.01 − 0.2] ⋅ 600 = A f sf ⋅ 4 ⋅ 73100 1000 ∴ Af = 1.68mm 2 /mm sf O número de camadas (N) necessárias para o reforço, considerando um espaçamento de 200mm, fica sendo então: N= A fw 2 ⋅ bf ⋅ t f ∴ N= 1.68 ⋅ 200 ∴ 2 ⋅ 100 ⋅ 0.33 N = 5 camadas e considerando uma deformação (ε f e) de 5,6‰, tem-se: [1.01 − 0.2] ⋅ 600 = A fw sf ⋅ 5,6 ⋅ 73100 1000 A fw = 1.20mm 2 /mm sf ∴ O número de camadas necessárias para o reforço, considerando um espaçamento de 200mm, fica sendo então: N= Af 2 ⋅ bf ⋅ t f ∴ N= 1.20 ⋅ 200 2 ⋅ 100 ⋅ 0.33 ∴ N = 3,6 camadas Para fins de comparação, foram utilizados estribos com 5 camadas na viga VC-3 e 3 camadas na viga VC-1. A tabela 3.5 e a figura 3.9 fornecem a disposição, número de camadas e dimensões dos reforços utilizados. 63 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Tabela 3.5 - Reforço usado nas vigas Reforço Viga cisalhamento bf Lf (mm) (mm) 5 estribos em U, com 3 camadas de SikaWrap VC-1 100 950 Hex 230-C cada, em cada vão de cisalhamento VC-2 - - - ancoragem Flexão - bf Lf (mm) (mm) - - tipo bf 1 tira com 2 camadas de SikaWrap Hex230-C na extremidade 50 superior do reforço de cisalhamento, em cada vão de cisalhamento reforço de 150 mm no 2 estribos em U, fundo da viga + com 3 camadas reforço de 50 mm em de SikaWrap cada lateral inferior da 3800 Hex230-C 100 viga, todos com 5 cada, nas camadas de SikaWrap extremidades do Hex 230-C reforço de flexão 5 estribos em U, reforço em U, com 5 camadas de com 5 camadas SikaWrap de SikaWrap VC-3 100 950 250 Hex230-C cada, Hex 230-C, no em ambos os vãos fundo e laterais de cisalhamento inferiores da viga 64 Lf (mm) (mm) 1 tira com 2 camadas de SikaWrap Hex230-C na extremidade 3800 50 superior do reforço de cisalhamento, em cada vão de cisalhamento 1100 950 1100 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Figura 3.9 – Detalhamento do reforço das vigas 65 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.4 CONFECÇÃO DAS VIGAS 3.4.1 Fôrmas A montagem das fôrmas foi feita com placas de compensado plastificado de 20 mm de espessura. Para apoiar a fôrma e impedir sua abertura durante o lançamento e vibração do concreto foram utilizadas gravatas de pinho aparafusadas a cada 50 cm. A desmoldagem foi facilitada pela aplicação de uma camada de óleo mineral. O esquema das fôrmas é mostrado na figura 3.10. Figura 3.10 – Esquema das fôrmas 3.4.2 Concretagem Utilizou-se uma betoneira de 320 l de capacidade para preparar o concreto, observando o tempo de homogeneização dos materiais, que foi, aproximadamente, 7 minutos. Durante e imediatamente após o lançamento manual do concreto foi feito seu adensamento utilizando vibradores de imersão de 25 mm (ver foto A.2). A cura das vigas durante os sete dias seguintes à concretagem foi assegurada pelo emprego de mantas umedecidas colocadas sobre a superfície livre 66 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL das vigas. Após o período de cura as vigas foram desformadas e permaneceram nas condições do ambiente do laboratório até a data do ensaio. 3.4.3 Instrumentação O comportamento estrutural das vigas foi acompanhado durante os ensaios por medições das deformações das armaduras longitudinal de tração e transversal, das deformações das armaduras de reforço, das deformações do concreto e das flechas no meio do vão e numa das seções de aplicação de carga. 3.4.3.1 Extensômetros elétricos de resistência (EER) Extensômetros elétricos, com base de medição de 5 mm, foram utilizados para medir as deformações das armaduras longitudinal de tração e transversal (vigas VC-1R, VC-1, VC-2, VC-3) e das deformações da armadura de reforço (vigas VC-1, VC-2 e VC-3). Nas quatro vigas, foram instrumentados seis estribos da armadura transversal interna (três em cada vão de cisalhamento) e em cada estribo, em uma das pernas, foram posicionados a meia altura dois extensômetros diametralmente opostos. A barra de aço central da camada inferior da armadura longitudinal de tração de cada uma das vigas foi instrumentada com dois extensômetros diametralmente opostos em duas seções: no meio do vão e na seção de aplicação de uma das cargas. A figura 3.11 mostra o posicionamento dos extensômetros elétricos na armadura interna das vigas. Figura 3.11 – Posicionamento dos extensômetros elétricos nas armaduras internas das vigas Algumas tiras de tecido de fibra de carbono usadas como reforço das vigas também receberam extensômetros elétricos. As vigas VC-1 e VC-3 receberam 6 67 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL extensômetros nos estribos externos (reforço ao cisalhamento), sendo 3 em cada vão de cisalhamento, localizados a meia altura e em apenas uma das pernas. As vigas VC-2 e VC-3 receberam 3 extensômetros nas tiras de reforço à flexão: 2 extensômetros no meio da largura da tira inferior (um na seção do meio do vão e o outro na seção de aplicação de uma das cargas) e 1 extensômetro no meio da largura da tira lateral inferior, na seção de aplicação de uma das cargas. O esquema que mostra a posição dos extensômetros da armadura de reforço pode ser visto na figura 3.12. Figura 3.12 – Posicionamento dos extensômetros elétricos no reforço das vigas 3.4.3.2 Extensômetro mecânico A medição das deformações do concreto na seção do meio do vão foi feita com um extensômetro mecânico com base de medida de 100 mm e precisão de 0,001 mm. A figura 3.13 mostra a posição das placas de cobre coladas na superfície do concreto que serviram de base de medição. 3.4.3.3 Deflectômetros elétricos As flechas da viga no meio do vão e em uma das seções de aplicação de carga foram medidas através de dois deflectômetros elétricos com curso de 100 mm e calculadas multiplicando-se o valor medido pelas constantes de calibração dos respectivos deflectômetros (0,0320 mm/10-6 e 0,0316 mm/10-6). A posição dos deflectômetros é mostrada na figura 3.14. 68 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Figura 3.13 – Posicionamento das placas de cobre para medição da deformação do concreto Figura 3.14 – Posicionamento dos deflectômetros para medição das flechas das seções do meio e de aplicação de uma das cargas. 3.4.4 Execução do reforço Algumas regiões que apresentaram pequenas falhas na superfície das vigas onde seria colado o reforço foram regularizadas com nata de cimento e, depois de curadas, lixadas suavemente com escova de aço. As partículas soltas e poeira foram removidas com o auxílio de uma escova macia e de um pano úmido passado no dia anterior à colagem. As arestas das vigas que receberiam reforço em “U” foram arredondadas com raio aproximado de 1 cm. O reforço das vigas foi executado segundo as especificações do fabricante (Sika, 2000), sendo a primeira viga reforçada com a ajuda de pessoal especializado da Sika e as demais com a ajuda de outros alunos do mestrado. O tecido foi previamente cortado com tesoura comum e os componentes da resina foram homogeneizados em separado, pesados em balança digital com precisão de 5 g e misturados manualmente. 69 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL A base de resina epóxica, com consumo de 1,0 kg/m 2, foi aplicada com trincha sobre a superfície do concreto preparada. Em seguida foi colocada a primeira camada de tecido SikaWrap Hex-230 C sobre a resina fresca, passando um rolo de metal para fazer a resina refluir através dos fios da tela. As camadas seguintes foram coladas com consumo de 0,5 kg/m 2, dentro de 60 minutos após a aplicação da camada anterior ou no dia seguinte, seguindo o mesmo procedimento utilizado na primeira camada. Como finalização, por cima da última camada, foi aplicada resina com um consumo de 0,5 kg/m 2. As fotos A.3 até A.6 ilustram as etapas da execução do reforço. 3.5 DESCRIÇÃO DOS ENSAIOS 3.5.1 Montagem As vigas foram colocadas sob um pórtico fixado à laje de reação do laboratório de estruturas da UFRJ, posicionadas sobre dois aparelhos de apoio, sendo um do 1º e outro do 2º gênero (ver a foto A.7). As cargas foram aplicadas por meio de dois macacos hidráulicos com capacidade de 500 kN, fixados no pórtico e ligados ao sistema de controle de carga e deslocamento MTS. O esquema do pórtico utilizado nos ensaios das vigas pode ser visto na figura 3.15. Depois de posicionada no pórtico, a viga a ser ensaiada recebeu as placas de cobre mencionadas no item 3.4.3.2. Foi feita, então, uma pintura com cal para facilitar a visualização das fissuras e as regiões das vigas que iriam ser reforçadas posteriormente foram levemente lixadas e limpas. Na seqüência, foi feita a conexão dos fios dos extensômetros e deflectômetros ao sistema de aquisição de dados, composto por um “data logger” HP 3497A, um notebook Toshiba e uma impressora HP660. 3.5.2 Execução A viga de referência VC-1R foi ensaiada em um único ciclo de carregamento até a sua ruína. 70 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Figura 3.15 – Esquema de ensaio das vigas As demais vigas foram ensaiadas duas vezes: um primeiro ensaio, com dois ciclos de carregamento, com o objetivo de fissurá-las e um segundo ensaio, depois de 7 dias da data do reforço (tempo de cura da resina), com o terceiro ciclo de carregamento, levado até a ruína da viga. No primeiro ciclo de carregamento, as vigas foram carregadas com incrementos de 10kN até o carregamento correspondente a uma deformação específica da armadura interna de cerca de 2‰ (na armadura de flexão e/ou na de cisalhamento, dependendo da viga). As vigas foram, então, descarregadas e iniciouse o segundo ciclo de carregamento. Para simular uma situação real de reforço, no fim do segundo ciclo de carregamento, as vigas foram atirantadas à laje de reação (ver figura 3.16 e foto A.8), mantendo as vigas carregadas durante a realização do reforço. A carga mantida durante a execução do reforço foi escolhida de forma que a deformação específica da armadura interna de flexão ou dos estribos estivesse em torno de metade da sua deformação específica nominal de escoamento. Isto representa a deformação atingida na prática pela armadura de vigas submetidas à carga de serviço para um coeficiente de segurança global igual a 2. 71 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Figura 3.16 – Esquema do tirante usado para manter a viga sob carga durante a execução do reforço A força no tirante foi controlada pela medição da deformação da armadura longitudinal de tração na seção do meio do vão. O cálculo dessa força foi feito a partir da deformação do aço e da distribuição linear de tensões (ver figura 3.17) conforme mostrado a seguir: Figura 3.17 – Diagrama triangular de deformações e de tensões para a fase elástica de uma viga fletida. A altura da linha neutra elástica é dada por: x e = d ⋅ (n ⋅ ñ L ) 2 + 2 ⋅ n ⋅ ñ L − n ⋅ ñ L sendo n = (3.3) ES e o módulo secante do concreto Ec proposto pela NBR-6118 (2000), EC E c = 0,85 ⋅ (5600 ⋅ f ck ) (3.4) 72 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL fCK (resistência característica à compressão do concreto) e EC em MPa. Tem-se o momento fletor: M = E S ⋅ å S ⋅ A S (d − xe ) 3 (3.5) e, portanto, a força de tração em cada perna do tirante, fica sendo: T= M 2000 − L t (3.6) onde Lt é a distância do meio da viga ao ponto de ancoragem do tirante (ver figura 3.18). Figura 3.18 – Esquema de forças e diagrama de momento fletor para a viga ancorada pelo tirante. A força equivalente de um dos macacos hidráulicos é, então: Feq = T ⋅ (2000 - L t ) = 1, 21 ⋅ T 1380 (3.7) Os resultados obtidos para a força nos tirantes das vigas ancoradas podem ser vistos na tabela 3.6. 73 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL Tabela 3.6 - Força nos tirantes usados na ancoragem das vigas As Es Ec ρL d Xe (%) (mm) (mm) (Gpa) (Gpa) (mm2) VC-1 192 25 1345 0,02182 411 178 εs,g (‰) 0,8242 Lt (mm) VC-2 VC-3 1,4724 1,3147 330 Viga 189 189 28 27 603 603 0,00948 0,00955 424 421 128 129 T (kN) Feq (kN) 45 54 46 41 38 34 es,g = deformação específica da armadura longitudinal de tração quando da execução do reforço 3.6 RESULTADOS DOS ENSAI OS Os resultados das medições feitas durante os ensaios encontram-se nas tabelas B.1 a B.12 do anexo B. Os gráficos apresentados a seguir são representativos desses resultados. 3.6.1 VC-1R A viga de referência VC-1R foi ensaiada com apenas um ciclo de carregamento até a sua ruína (foto A.9), que ocorreu por flexão com escoamento da armadura longitudinal e início do escoamento da armadura transversal seguidos de esmagamento do concreto na região de momento máximo. Os valores das deformações dos estribos internos podem ser vistos nas figuras 3.19 e 3.20. O estribo da posição 3 chegou a uma deformação de aproximadamente 3‰ na ruptura (110 kN). A armadura longitudinal de tração chegou a uma deformação superior a 17‰ na seção sob a carga mais próxima do apoio de 1º gênero, antes da ruptura. Essas deformações dessa armadura podem ser vistas na figura 3.21. O gráfico da evolução das flechas com o carregamento é mostrado na figura 3.22. A flecha máxima obtida para esta viga foi próxima de 55 mm, sendo observada uma queda abrupta da rigidez próximo ao colapso. O diagrama de distribuição da deformação longitudinal da seção do meio do vão para algumas etapas do carregamento encontra-se na figura 3.23. 74 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 110 100 90 Carga (kN) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 2.0 2.2 2.4 2.6 2.8 3.0 3.2 Deformação (‰) 1 2 3 Figura 3.19 - Diagrama carga-deformação dos estribos 1, 2 e 3 da viga VC-1R 110 100 90 Carga (kN) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 2,8 3,0 3,2 Deformação (‰) 4 5 6 Figura 3.20 - Diagrama carga-deformação dos estribos 4, 5 e 6 da viga VC-1R 75 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 110 100 90 Carga (kN) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Deformação (‰) 7 8 Figura 3.21 - Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-1R 110 100 90 Carga (kN) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 Flecha (mm) meio sob a carga Figura 3.22 - Diagrama carga-flecha da viga VC-1R 76 45 50 55 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 450 400 350 Altura (mm) 300 250 200 150 100 50 0 -1.5 -1.2 -0.9 -0.6 -0.3 0.0 0.3 0.6 0.9 1.2 1.5 1.8 2.1 2.4 2.7 Deformação (‰) 40 kN 60 kN 80 kN 100 kN Figura 3.23- Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-1R 77 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.6.2 VC-1 Os valores das deformações dos estribos podem ser vistos nas figuras 3.24 e 3.26. O estribo da posição 2 limitou o 1º ciclo de carregamento a 110 kN, quando apresentou a deformação de 1,96‰. Para a execução do reforço, a viga foi atirantada à laje de reação com uma força cortante de aproximadamente 45 kN. Após o reforço e ao fim do 3º ciclo de carga, a deformação do estribo da posição 2 era de 2,2‰, quando a viga rompeu à flexão (180 kN) por escoamento da armadura longitudinal de tração seguido de esmagamento do concreto (foto A.10). A foto A.11 mostra o aspecto dos estribos de tecido de fibra de carbono após a ruína, quando não apresentaram sinais de descolamento ou destacamento. Na carga última do 3º ciclo de carregamento, o estribo externo mais solicitado era o da posição 4, com 2‰ de deformação. As figuras 3.25 e 3.27 mostram o diagrama carga-deformação dos estribos externos. Pode-se notar nas curvas tensão-deformação de todos os estribos um aumento da inclinação no terceiro ciclo de carga indicando a ação conjunta da armadura interna e externa. A armadura longitudinal chegou a uma deformação máxima de 3,30‰ na ruína (180 kN). Os valores das deformações da armadura longitudinal encontram-se na figura 3.28. No 1º ciclo de carregamento a flecha máxima foi de 13,81 mm e no 3º ciclo foi de 27,18 mm (180kN). As flechas da viga durante os três ciclos de carregamento são apresentadas na figura 3.29. A distribuição da deformação longitudinal da seção do meio do vão foi representada em algumas etapas do carregamento, podendo ser vista na figura 3.30. 78 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 Deformação (‰) 1 2 3 Carga (kN) Fig.3.24 - Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-1 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 Deformação (‰) 1r 2r 3r Fig.3.25 - Diagrama carga-deformação dos estribos externos 1r, 2r e 3r da viga VC-1 79 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 Deformação (‰) 4 5 6 Carga (kN) Figura 3.26 - Diagrama carga-deformação dos estribos 4, 5 e 6 da viga VC-1 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 Deformação (‰) 4r 5r 6r Figura 3.27 - Diagrama carga-deformação dos estribos externos 4r, 5r e 6r da viga VC-1 80 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 2,8 3,0 3,2 3,4 3,6 3,8 4,0 Deformação (‰) 7 8 Carga (kN) Figura 3.28 - Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-1 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 20 25 30 Flecha (mm) meio carga Figura 3.29 - Diagrama carga-flecha da viga VC-1 81 35 40 45 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 450 400 350 Altura (mm) 300 250 200 150 100 50 0 -2.5 -2.0 -1.5 -1.0 -0.5 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 Deformação (‰) 40 kN 80 kN 80 kN (reforçada) 160 kN (reforçada) Figura 3.30 - Diagrama de distribuição da deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-1 82 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.6.3 VC-2 Os estribos dessa viga não chegaram ao escoamento, sendo o estribo da posição 5 o mais solicitado. Este estribo teve uma deformação máxima de 0,53‰ (90kN) no 1º ciclo de carregamento e de 1,75‰ (170kN) no 3º ciclo de carregamento, próximo a ruína. Os gráficos carga-deformação dos estribos são mostrados nas figuras 3.31 e 3.32. A figura 3.33 mostra a deformação da armadura interna de flexão. O 1º ciclo de carregamento foi limitado à carga de 90 kN quando a deformação máxima da armadura de flexão era 2,35‰. Antes da execução do reforço, a viga foi ancorada com uma força equivalente de aproximadamente 46 kN. O terceiro ciclo de carregamento foi levado até a carga de 175 kN, quando a deformação máxima da armadura interna de flexão era de 10,15‰ e houve esmagamento do concreto. Na ruína pode-se notar o descolamento ao longo do reforço de flexão e da sua ancoragem (fotos A.12 até A.15). A partir da carga de 140 kN começou-se a ouvir pequenos estalos decorrentes do início do descolamento do reforço de flexão. Até esta etapa de carregamento, a deformação máxima do reforço era de 3,86‰ (reforço inferior na seção do meio do vão) e a armadura interna já estava em escoamento. As figuras 3.33 e 3.34 (diagrama de deformações do reforço de flexão) mostram que, devido ao descolamento do reforço, a inclinação das curvas carga-deformação do mesmo diminuiu, sendo a sua parte lateral ligeiramente mais solicitada, com uma deformação máxima de 6,5‰ (170 kN). A deformação do reforço para 175 kN não pôde ser obtida pois houve descolamento dos extensômetros. A figura 3.35 mostra as flechas da viga durante os três ciclos de carregamento, a flecha máxima foi de 59,32 mm (175 kN). A mudança de comportamento das curvas no terceiro ciclo de carga através de maiores inclinações mostra a ação positiva do reforço. A figura 3.36 ilustra o diagrama de distribuição da deformação longitudinal da seção do meio do vão em algumas etapas do carregamento. 83 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 Deformação (‰) 1 2 3 Carga (kN) Figura 3.31 - Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-2 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 Deformação (‰) 4 5 6 Figura 3.32 - Diagrama carga-deformação dos estribos 4,5 e 6 da viga VC-2 84 1.8 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 6.0 7.0 8.0 9.0 10.0 Deformação (‰) 7 8 Carga (kN) Figura 3.33 - Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-2 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 6.0 7.0 8.0 9.0 Deformação (‰) 7r 8r 9r Figura 3.34 - Diagrama carga-deformação do reforço de flexão da viga VC-2 85 10.0 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 Flecha (mm) meio carga Figura 3.35 - Diagrama carga-flecha da viga VC-2 450 400 350 Altura (mm) 300 250 200 150 100 50 0 -4.0 -3.0 -2.0 -1.0 0.0 1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 6.0 7.0 8.0 9.0 Deformação (‰) 40 kN 60 kN 60 kN (reforçada) 120 kN (reforçada) 170 kN (reforçada) Figura 3.36 - Diagrama de deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-2 86 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 3.6.4 VC-3 Os gráficos carga-deformação dos estribos são mostrados nas figuras 3.37 e 3.39. O estribo interno da posição 3 foi o mais solicitado no 1º ciclo de carregamento, alcançando uma deformação de 1,51‰ (90 kN). A viga foi atirantada à laje de reação com uma força equivalente de aproximadamente 41 kN por tirante. As fotos A.16 a A.21 mostram detalhes do descolamento do reforço de flexão e da ruptura da viga. No 3º ciclo de carregamento, a partir da carga de 130 kN, começaram os estalos que, posteriormente, verificaram-se decorrentes de descolamento na primeira camada e entre as camadas seguintes do reforço de flexão (fotos A.20 e A.21) e, ainda, de descolamento do reforço de cisalhamento (foto A.18) e entre este e o reforço de flexão. Esses estalos foram se tornando mais freqüentes com o aumento da carga. A ação conjunta da armadura interna e externa pode ser notada nas curvas tensão-deformação de todos os estribos pelo aumento da inclinação no terceiro ciclo de carga (ver figuras 3.37 e 3.39). O estribo interno mais solicitado passou a ser o estribo da posição 4, a partir da carga de 170 kN, com uma deformação máxima de 2,32‰ (180 kN) A deformação dos estribos externos de reforço ao cisalhamento encontramse nas figuras 3.38 e 3.40. Este reforço sofreu influência do reforço de flexão, sendo mais acentuada a partir da carga de 170kN. O estribo externo de reforço mais solicitado até a carga de 170kN foi o da posição 4r, com uma deformação máxima de 0,8‰ (175 kN). Depois desta carga, o estribo de reforço mais solicitado passou a ser o da posição 1r, com uma deformação máxima de 1,28‰ (175 kN). A armadura longitudinal interna limitou o 1º ciclo de carregamento em 90 kN por apresentar uma deformação máxima de 2,27‰. No 3º ciclo de carregamento, chegou a uma deformação máxima de 13,16‰. A figura 3.41 mostra o diagrama carga-deformação da armadura longitudinal. A partir da carga de 130 kN, foi notada uma mudança brusca na inclinação das curvas da carga-deformação da armadura longitudinal interna provavelmente devido ao descolamento de seus extensômetros. 87 CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL A armadura externa de reforço à flexão tev e deformação máxima de 7,60‰ (180 kN), quando houve deslizamento entre suas camadas em um dos lados da viga, resultando em uma concentração de esforços no outro lado da viga e consequente ruptura do reforço. Na figura 3.42 é ilustrado o diagrama cargadeformação do reforço à flexão. O aumento de rigidez proporcionado pelo reforço é notado pela mudança de comportamento das curvas carga-flecha no terceiro ciclo de carga, através de maiores inclinações. As flechas da viga são encontradas na figura 3.43. A flecha máxima foi de 51,79 mm (180 kN) na seção de aplicação de carga mais próxima do apoio de 1º gênero. Isto pode ter ocorrido pelo rompimento do reforço de flexão próximo a esta carga, ocasionando uma perda de rigidez da viga e essa pequena diferença entre a flecha na seção de aplicação de carga e a flecha no meio do vão. A figura 3.44 ilustra o diagrama de distribuição da deformação longitudinal da seção do meio do vão em algumas etapas do carregamento. 88 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 2.0 2.2 2.4 Deformação (‰) 1 2 3 Carga (kN) Figura 3.37 - Diagrama carga-deformação dos estribos 1,2 e 3 da viga VC-3 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 2.0 2.2 Deformação (‰) 1r 2r 3r Figura 3.38 - Diagrama carga-deformação dos estribos externos 1r, 2r e 3r da viga VC-3 89 2.4 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 2.0 2.2 2.4 Deformação (‰) 4 5 6 Carga (kN) Figura 3.39 - Diagrama carga-deformação dos estribos 4,5 e 6 da viga VC-3 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 2.0 2.2 Deformação (‰) 4r 5r 6r Figura 3.40 - Diagrama carga-deformação dos estribos externos 4r, 5r e 6r da viga VC-3 90 2.4 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Deformação (‰) 7 8 Figura 3.41 - Diagrama carga-deformação da barra longitudinal da viga VC-3 Carga (kN) Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Deformação (‰) 7r 8r 9r Figura 3.42 - Diagrama carga-deformação do reforço de flexão da viga VC-3 91 14 Carga (kN) CAPÍTULO 3 – PROGRAMA EXPERIMENTAL 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 Flecha (mm) meio carga Figura 3.43 - Diagrama carga-flecha da viga VC-3 450 400 350 Altura (mm) 300 250 200 150 100 50 0 -3 -2 -1 40 kN 0 1 2 80 kN 3 4 5 6 7 Deformação (‰) 120 kN (reforçada) 8 9 10 11 12 170 kN (reforçada) Figura 3.44 - Diagrama de deformação da seção transversal do meio do vão da viga VC-3 92 CAPÍTULO 4 ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.1 INTRODUÇÃO Neste capítulo são feitos cálculos das capacidades resistentes teóricas das vigas à flexão e ao cisalhamento, antes e depois da execução do reforço, e comparação entre estas e as obtidas experimentalmente. São também realizadas análises dos resultados experimentais em termos de flecha, de deformação do concreto, de deformação das armaduras interna e de reforço e de carga de ruptura, e uma comparação destes com os resultados das duas vigas de referência (VC-1R e VM-1R) 4.2 RESISTÊNCIA TEÓRICA DAS VIGAS ANTES DO REFORÇO 4.2.1 Resistência à flexão A resistência à flexão das vigas foi calculada a partir do diagrama retangular simplificado de tensões de compressão no concreto (figura 4.1) dado pela NBR6118 (2001). A partir da hipótese das seções planas de condições de equilíbrio, tem-se: Pu = onde Mu a ( (4.1) ) M u = A s ⋅ f y − A 's ⋅ ó 's (d − 0.4 ⋅ x ) + A 's ⋅ ó 's ⋅ z ' 93 (4.2) CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS x= A s ⋅ f y − A 's ⋅ ó 's (4.3) 0.85 ⋅ f c ⋅ 0.8 ⋅ b (x - d ) ⋅ å = ' å ' s c (4.4) x ó 's = å 's ⋅ E s (4.5) sendo a = comprimento do vão de cisalhamento (1380 mm); As ’ = área da seção transversal da armadura longitudinal de compressão; σs ’ = tensão na armadura longitudinal de compressão; x = altura da linha neutra; Figura 4.1 – Diagrama retangular simplificado de tensões e diagrama de deformações da seção da viga. Os valores da resistência teórica à flexão das vigas obtidos pelas expressões acima e pelo programa CONSEC95 de análise não-linear de vigas de concreto armado elaborado pelo prof. Ibrahim Shehata. Esses valores são resumidos na tabela 4.1. 94 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Tabela 4.1 - Resistência teórica à flexão das vigas sem o reforço f cm viga As As' 2 b d d' 2 (MPa) (mm ) (mm ) (mm) (mm) (mm) VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R 30.4 603 28.5 1345 33.8 603 31.3 603 34.4 1345 101 101 101 101 101 150 150 150 150 150 424 411 424 421 410 VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R 30.4 603 28.5 1345 33.8 603 31.3 603 34.4 1345 101 101 101 101 101 150 150 150 150 150 424 411 424 421 410 ρL (%) x* (mm) (1) NBR-6118/2001 22 0.948 81 24 2.181 210 22 0.948 73 25 0.955 79 25 2.186 174 CONSEC95 22 0.948 102 24 2.181 218 22 0.948 98 25 0.955 101 25 2.186 185 Mu * (kN.m) Pu (kN) (2) (1) (2) (1) (2) 94 243 85 92 188 119 224 119 118 231 134 255 135 133 246 86 162 87 85 182 97 185 98 97 193 98 234 89 97 193 117 222 117 116 229 133 253 133 131 244 84 161 85 84 180 96 183 96 95 191 (1) Baseado na tensão de escoamento nominal ( fy=500 MPa ) (2) Baseado na tensão de escoamento experimental (ver tabela 3.3) *γ C=γ S =1 4.2.2 Resistência ao cisalhamento A resistência ao cisalhamento teórica das vigas foi calculada pela equação VR = Vc + Vs (4.6) onde VR = força cortante resistente da viga; VC = parcela de contribuição do concreto na força cortante resistente; VS = parcela de contribuição dos estribos na força cortante resistente. A NBR-6118 (2001), pelo método I, estabelece que a parcela Vc seja calculada pela equação 4.7, Vc = 0.6 ⋅ f ctd ⋅ b ⋅ d (4.7) onde: f ctd = 0.7 ⋅ 0.3 ⋅ 3 f ck 2 ãc (4.8) A parcela VS é obtida por analogia à treliça de Mörsch que, para a biela de compressão a 45º e estribos perpendiculares ao eixo da viga, é dada por: 95 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Vs = A sw ⋅ f yk ⋅ z (4.9) ãs ⋅s A tabela 4.2 traz os valores da resistência ao cortante das vigas (VR ) para γc =γs =1. Tabela 4.2 - Resistência teórica ao cisalhamento das vigas sem o reforço Viga VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R fcm s d Asw (MPa) (mm) (mm) (mm ) (MPa) 30.4 28.5 33.8 31.3 34.4 200 200 100 200 100 424 411 424 421 410 39.3 39.3 100.5 39.3 100.5 785 785 603 785 684 2 fy,exp z (mm) (1) (2) 392 386 327 314 395 390 389 384 340 335 Vc** (kN) 78.1 72.5 83.8 79.0 82.0 Vs (kN) (1) 46 39 198 46 171 (2) 60 48 236 59 233 VR (kN) (1) 124 111 282 125 253 (2) 138 121 320 138 315 (1) Baseando-se na tensão de escoamento nominal (VC-2 e VM-1R: fy =500 MPa ; demais vigas: fy =600MPa) (2) Baseando-se na tensão de escoamento experimental (f y,exp ) **valores calculados pela NBR-6118 (2001) 4.3 RESISTÊNCIA TEÓRICA DAS VIGAS DEPOIS DO REFORÇO 4.3.1 Resistência à flexão A resistência à flexão das vigas reforçadas com compósito de fibra de carbono pode ser calculada a partir do diagrama retangular simplificado para distribuição de tensões de compressão no concreto (figura 4.2), quando tem-se: ( ) M u = A s ⋅ f y − A 's ⋅ ó 's (d − 0.4 ⋅ x p ) + A 's ⋅ ó 's ⋅ z ' + A f ⋅ ó f (d f − 0.4 ⋅ x p ) (4.10) sendo, xp = å ' s A s ⋅ f y − A 's ⋅ ó 's + A f ⋅ ó f (x = (4.11) 0.85 ⋅ f c ⋅ 0.8 ⋅ b p ) - d' ⋅ å c (4.12) xp ó 's = å 's ⋅ E s (4.13) 96 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS å s =å f ⋅ (d - x ) (d - x ) + å p f (4.14) s, g p ó f = å f ⋅ Ef (4.15) Figura 4.2 – Diagrama retangular simplificado de tensões e diagrama de deformações da seção da viga reforçada. A maior deformação do reforço medida foi em torno de 7‰ (180 kN) e, como o registro das deformações não era contínuo, não pôde ser obtida a deformação do reforço no exato momento da ruptura. Foram, então, calculados valores teóricos da resistência à flexão das vigas reforçadas para a deformação da fibra igual a 6‰, 7‰ e 10‰ (tabela 4.3). A deformação de 10‰ da fibra forneceu a melhor relação Pu,exp/Pu e assegura uma boa aproximação dos resultados obtidos experimentalmente com os obtidos pelo modelo teórico dadas as limitações da medição realizada nos ensaios. 4.3.2 Resistência ao cisalhamento A resistência ao cortante teórica das vigas reforçadas com tecido de fibra de carbono foi calculada pela expressão (4.18), adotando, para cálculo de Vc , Vs e Vf (parcela de contribuição do PRF na força cortante resistente), γc =γs =γf =1. VR = Vc + Vs + Vf (4.16) 97 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS A parcela Vf foi obtida a partir da treliça de Mörsch, para a biela de compressão a 45º e estribos verticais: Vf = Af ó f ⋅ ⋅z s f ãf (4.17) Tabela 4.3 - Resultados teóricos da resistência à flexão das vigas reforçadas εf=6‰ viga Af df 2 (mm ) (mm) 165 VC-2 248 165 VC-3 248 viga Af viga df (mm ) (mm) Af εc εs (mm) (‰) (‰) (‰) (1) (2) df (1) 5,53 6,00 5,51 6,00 xp (mm) (1) (2) 425 130 140 451 425 139 150 451 2 (mm ) (mm) 165 248 165 VC-3 248 VC-2 εf 425 124 135 451 425 133 145 451 2 165 VC-2 248 165 VC-3 248 xp (2) (1) (2) 5,51 2,9 3,3 6,00 5,49 3,1 3,5 6,00 εf=7‰ εf εc (‰) (1) 6,44 7,00 6,42 7,00 (1) (1) 7,0 7,0 132 142 1,32 1,23 6,7 6,7 131 140 1,38 1,29 εs (‰) (2) (kN) (2) (2) Pu (kN) Pu,exp/Pu (1) (2) (1) 7,9 7,9 140 150 1,25 1,17 7,6 7,6 138 147 1,30 1,22 xp εf εc εs (‰) (‰) (‰) (2) (kN) (1) (mm) (1) Pu,exp/Pu (1) (‰) (2) (1) (2) 6,41 3,5 3,9 7,00 6,39 3,8 4,2 7,00 εf =10‰ Pu (kN) Pu (kN) (2) Pu,exp/Pu (kN) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) 425 9,15 9,12 145 155 5,5 6,1 10,6 10,5 163 172 1,07 1,01 451 10,00 10,00 425 9,12 9,08 154 165 5,9 6,6 10,3 10,2 161 170 1,12 1,06 451 10,00 10,00 (1) valores calculados a partir da tensão de escoamento nominal do aço (2) valores calculados a partir da tensão de escoamento experimental do aço P u,exp = carga última experimental A tabela 4.4 mostra a resistência ao cisalhamento teórica das vigas reforçadas calculada com os valores experimentais da deformação do reforço. 98 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Tabela 4.4 - Resultados teóricos da resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas Viga VC-1 VC-3 ftd bf hf tf Af sf εf 2 (MPa) (mm) (mm) (mm ) (mm ) (mm) (MPa) 2.4 2.6 100 100 400 400 0.99 1.65 198 330 200 200 2.12 1.27 Vc Vs* Vf VR (kN) (kN) (kN) (kN) Pu,exp /VR 72 79 48 59 48 54 169 192 1.07 0.94 *baseado na tensão de escoamento experimental (ver tabela 3.3) A resistência ao cisalhamento teórica das vigas está subestimada devido a consideração do angulo das bielas igual a 45º (valor reconhecidamente conservador) e também pela pequena deformação do reforço obtida uma vez que as vigas tiveram ruptura por flexão. 4.4 ANÁLISE DAS GRANDEZAS MEDIDAS 4.4.1 Flechas A figura 4.3 mostra os diagramas carga-flecha das vigas VC-1R, VC-1, VC-2, VC-3 E VM-1R nos três ciclos de carregamento. As vigas VC-2 e VC-3, que possuíam a mesma taxa de armadura longitudinal (interna e externa), apresentaram comportamento semelhante. Suas curvas ficaram situadas entre os limites superior e inferior dados pelas curvas das vigas não reforçadas de referência: VC-1R (mesma taxa de armadura longitudinal interna) e VM-1R (taxa de armadura longitudinal interna aproximadamente igual ao dobro). Pode-se observar o aumento de rigidez das vigas VC-2 e VC-3 depois da execução do reforço pelo aumento na inclinação das curvas carga-flecha das mesmas. 99 Carga (kN) CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS 220 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 Flecha sob a carga (mm) VC-1R VC-2 VC-3 VM-1R Figura 4.3 – Diagrama carga-flecha das vigas em todos os ciclos de carregamento A tabela 4.5 mostra as cargas de serviço das vigas, considerando o coeficiente de segurança global (γg) igual a 2 e a flecha limite de 13.33mm (vão/300), e as cargas correspondentes ao escoamento do aço longitudinal de tração e à ruptura Tabela 4.5 - Cargas de serviço, de escoamento do aço interno e de ruptura das vigas Viga Py (kN) Pu (kN) Pu /γ g Plim,flecha Pserviço,ELS (kN) (kN) (kN) VC-1R 100 110 55 80 55 VC-2 120 175 87,5 85 85 VC-3 112 180 90 90 90 Plim,fecha = carga correspondente a flecha limite Pserviço,ELS = carga de serviço no estado limite de serviço A ação conjunta do reforço com o aço interno é verificada pelo aumento da carga correspondente ao escoamento deste último. A carga de serviço e a 100 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS capacidade resistente à flexão das vigas aumentaram em torno de 64% em relação à viga de referência VC -1R. 4.4.2 Deformação da seção transversal do meio do vão A tabela 4.6 mostra a variação da altura da linha neutra com o aumento do carregamento, antes e depois da execução do reforço. Foi observado um aumento em torno de 35% na relação x/d das vigas reforçadas à flexão em relação à viga de referência. A viga VC-1, que possuía taxa de armadura longitudinal aproximadamente igual a duas vezes a das demais e foi reforçada somente ao cisalhamento, apresentou a maior relação x/d. As vigas VC-2 e VC-3 apresentaram inicialmente um aumento na relação x/d depois do reforço, tendo oscilado um pouco em função da redistribuição dos esforços. Tabela 4.6 - Relação x/d das vigas obtida nos ensaios carga VC-1 VC-2 VC-3 90 kN (1º ciclo) 90 kN (reforçada) 120 kN (reforçada) 140 kN (reforçada) 160 kN (reforçada) 170 kN (reforçada) 0.46 0.48 0.49 0.50 0.52 0.53 0.35 0.40 0.38 0.34 0.34 0.35 0.34 0.36 0.32 0.30 0.30 0.32 Obs.: a referência VC-1R apresentou uma relação x/d igual a 0,24 próximo ao colapso (valor calculado pelo CONSEC95) 4.4.3 Deformação das armaduras longitudinais Internas e de reforço Os diagramas carga-deformação da armadura longitudinal interna na seção do meio do vão para todas as vigas são mostrados na figura 4.4. O comportamento das armaduras longitudinais das vigas VC-2 e VC-3 também se mostrou limitado pelo comportamento da armadura longitudinal das vigas de referência VC-1R (menor resistência) e VM-1R (maior resistência). O comportamento da armadura longitudinal de VC-1 foi similar ao da armadura da 101 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS referência VM-1R, como esperado, uma vez que possuíam a mesma taxa de armadura longitudinal. Na viga VC-2 pode-se observar que a deformação do reforço acompanha a deformação do aço longitudinal até uma carga próxima da ruptura, quando houve o descolamento do reforço de flexão (deformação superior a 6‰) e descolamento total do reforço de ancoragem (ver figura 4.5). Na viga VC-3, pela maior taxa de estribos de reforço, que proporcionaram melhor desempenho do reforço a flexão, a deformação do reforço foi superior a 7‰ (figura 4.6). 200 180 160 Carga (kN) 140 120 100 80 60 40 20 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Deformação (‰) VC-1R VC-1 VC-2 VC-3 VM-1R Figura 4.4 – Diagrama de deformação da armadura longitudinal na seção do meio do vão 102 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS 200 180 160 Carga (kN) 140 120 100 80 60 40 20 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Deformação (‰) Aço VC-2 CFRP VC-2 Figura 4.5 – Diagrama de deformação da armadura longitudinal interna e da armadura de reforço na seção do meio do vão da viga VC-2 200 180 160 Carga (kN) 140 120 100 80 60 40 20 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Deformação (‰) Aço VC-3 CFRP VC-3 Figura 4.6 – Diagrama de deformação da armadura longitudinal interna e da armadura de reforço na seção do meio do vão da viga VC-3 103 14 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.4.4 Resistência à fle xão das vigas reforçadas A deformação máxima do reforço de flexão para evitar o descolamento do reforço pôde ser estimada a partir dos valores obtidos para as vigas VC-2 e VC-3. Na viga VC-3, cujos estribos externos de reforço serviram de ancoragem ao longo dos vãos de cisalhamento, a deformação do reforço foi superior a 7‰. A deformação para a viga VC-2 foi superior a 6‰, sendo que os estribos em U foram utilizados apenas nas extremidades do reforço de flexão, regiões mais críticas em função da descontinuidade estrutural. Tanto VC-2 quanto VC-3 tiveram ruptura por escoamento da armadura longitudinal seguido de descolamento do reforço e esmagamento do concreto, e em VC-3 houve ainda a ruptura do reforço. Tendo em vista as considerações feitas acima, pode-se utilizar, para o reforço a flexão com tecido de fibra de carbono e ancoragem nas extremidades, uma deformação limite do reforço de 6‰. Para evitar a ruptura da viga reforçada à flexão por destacamento do reforço, a tensão cisalhante máxima na ligação reforço-concreto não pode ser superior à tensão cisalhante suportada pelo concreto do fundo da viga (τlim ). A tabela 4.7 traz os valores de τlim calculados pelas expressões sugeridas pelos trabalhos revisados no capítulo 2 (2.2.4.2), considerando um coeficiente de segurança do concreto unitário (γc =1). Tabela 4.7 - Valores da tensão de cisalhamento limite do concreto sugeridos por diversos autores viga fc fctm τ lim (MPa) fct,dir (MPa) (MPa) (MPa) (1) (2) (3) Fundo Lateral (4) (5) VC-1 28,5 2,9 2,4 0,7 2,6 0,7 1,2 1,3 1,1 VC-2 33,8 3,0 2,4 0,8 2,9 0,7 1,2 1,5 1,1 VC-3 31,3 3,1 2,6 0,8 2,8 0,8 1,3 1,4 1,2 (1) Triantafillou (1998b) (2) Beber (1999) (3) Pinto (2000) e Cerqueira (2000) (4) Adhikary e Mutsuyoshi (2001) (5) CEB-FIP (2001) 104 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Os valores propostos por Triantafillou (1998b) e Pinto (2000) ficaram bastante próximos e optou-se por este último em função de ter sido estimado para vigas em condições semelhantes às deste trabalho e por levar em consideração as condições de fissuração do fundo da viga. Os demais autores sugeriram valores altos em comparação com aqueles. Sendo assim, tem-se: ôlim = å f ⋅ Ef ⋅ t f ⋅ bf å f ⋅ Ef ⋅ t f = L ⋅ bf L (4.18) Baseando-se nas duas limitações propostas anteriormente, para evitar o descolamento e para evitar o destacamento do reforço, tem-se: εf, lim ôlim ⋅ L t ⋅E f f ≤ 6‰ (4.19) onde: L=comprimento do reforço de flexão entre a sua extremidade e a extremidade da placa de aplicação de carga, 1205 mm (ver figura 4.7) ε f,lim = deformação específica limite do PRF Figura 4.7 – Comprimento do reforço de flexão considerado na equação 4.18 e 4.19 105 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Os valores das resistências teóricas à flexão calculadas com base na limitação acima estão na tabela 4.8. Nota-se que a resistência calculada é inferior à obtida experimentalmente em virtude da adoção de um valor a favor da segurança para a deformação limite na fibra (6‰). Tabela 4.8 - Valores teóricos da resistência à flexão das vigas reforçadas, com limitação da deformação do reforço viga Af df 2 (mm ) (mm) xp εf* εc εs (mm) (‰) (‰) (‰) (1) Pu (kN) Pu,exp/P u (kN) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) (1) (2) 165 425 5.53 5.51 VC-2 124 135 2.9 3.2 7.0 7.0 132 142 1.32 1.23 248 451 6.00 6.00 165 425 5.51 5.49 VC-3 133 145 3.1 3.4 6.8 6.8 131 140 1.38 1.29 248 451 6.00 6.00 *deformação calculada pelo menor limite estabelecido pela equação 4.19 (1) valores calculados apartir da tensão de escoamento nominal do aço (2) valores calculados apartir da tensão de escoamento experimental do aço 4.4.5 Deformação das armaduras transversais internas e de reforço As figuras 4.8 e 4.9 mostram os diagramas carga-deformação, nos três ciclos de carregamento, dos estribos internos e de reforço que tiveram maior deformação das vigas VC-1 e VC-3. No 1º ciclo de carregamento, as curvas dos estribos mais solicitados das vigas VC-1 e VC-3 ficaram bastante próximas das curvas dos estribos correspondentes da viga de referência VC-1R. Nota-se que no início do carregamento praticamente não há deformação dos estribos internos, mas à medida que se inicia a abertura de fissuras (em torno de 30 kN) os estribos passam a se deformar. A eficiência do uso do tecido de fibra de carbono como reforço de cisalhamento pode ser comprovada pelo aumento da inclinação das curvas dos estribos internos no 3º ciclo (depois da execução do reforço) em relação às curvas destes durante o 2º ciclo de carregamento. O reforço de cisalhamento mais solicitado da viga VC-3 (5 camadas de tecido de fibra de carbono) chegou a uma deformação maior quando comparada à deformação referente a viga VC -1 (3 camadas de tecido de fibra de carbono). 106 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS 200 180 160 Carga (kN) 140 120 100 80 60 40 20 0 0.00 0.50 1.00 1.50 2.00 2.50 Deformação (‰) estribo2 VC-1R estribo2 VC-1 CFRP 2r VC-1 Figura 4.8 – Diagrama de deformação da armadura transversal interna e de reforço mais solicitadas da viga VC-1 200 180 160 Carga (kN) 140 120 100 80 60 40 20 0 0.00 0.50 1.00 1.50 2.00 2.50 3.00 Deformação (‰) estribo3 VC-1R estribo3 VC- 3 CFRP1r VC-3 Figura 4.9 – Diagrama de deformação da armadura transversal interna e de reforço mais solicitadas da viga VC-3 107 3.50 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS A utilização do modelo de treliça no dimensionamento do reforço torna-se possível pela constatação de que as taxas de variação de carga em relação à deformação das armaduras interna e externa no 3º ciclo de carregamento para as vigas VC-1 e VC-3 (tabela 4.9) são da mesma ordem de grandeza. Tabela 4.9 - Taxa de Variação da Carga em Relação as Deformação nas Armaduras de cisalhamento Interna e de reforço mais solicitadas Viga VC-1 VC-3 Vu Vg (kN) (kN) 180 180 45 34 εsw Interno εsw,g (‰) (‰) 2,20 2,02 0,88 1,26 Externo ∆i 1,02E+05 1,93E+05 εf (‰) 2,12 1,14 ∆e 0,64E+05 1,28E+05 ∆ e/ ∆i 0,62 0,66 Vg =esforço cortante quando da realização do reforço εs w = deformação específica dos estribos internos (para V u) εsw,g = deformação específica dos estribos internos quando da realização do reforço 4.4.6 Resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas Como as vigas reforçadas ao cisalhamento tiveram ruptura por flexão, as armaduras de cisalhamento não chegaram ao escoamento e não foi possível fazer uma comparação dos resultados obtidos pelo método de treliça com os resultados obtidos experimentalmente. No entanto, como explanado no item anterior, pode-se dizer que o modelo de treliça é satisfatório para a determinação da resistência ao cisalhamento das vigas reforçadas uma vez que a adição do reforço externo reduz a deformação da armadura interna, trabalhando em conjunto com esta. Como no caso de reforço à flexão, para evitar destacamento e descolamento do reforço de cortante, deve-se limitar a tensão cisalhante no concreto junto à ligação reforço-concreto e a deformação no reforço. Adotou-se a proposta de CERQUEIRA (2000) em função de ter valores estimados para vigas em condições semelhantes às deste trabalho e por ter sido a única, dentre as propostas estudadas (ver tabela 4.7), levar em consideração as condições de fissuração para o concreto das laterais das vigas. 108 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Levando em conta a contribuição do dispositivo especial de ancoragem do reforço num comprimento efetivo admitido como sendo igual a bf para cada lado dos estribos de reforço (ver figura 4.10), tem-se: ôlim = å f ⋅ Ef ⋅ t f ⋅ bf å ⋅ Ef ⋅ t f = f h b h ( f ⋅ b f ) + (2 ⋅ f ⋅ b f ) ( f + b f ) 2 2 2 (4.20) Figura 4.10 – Detalhe do reforço de cisalhamento considerado na equação 4.20 Baseando-se na limitação proposta acima, para evitar o destacamento do reforço, e no valor da deformação limite proposto para evitar o descolamento do reforço de flexão de 6‰, uma vez que não foi possível obter os dados experimentais referentes à deformação máxima d o compósito para evitar o descolamento do reforço de cisalhamento, tem-se: hf ô lim ⋅ ( 2 + b f ) tf ⋅Ef ε f, lim ≤ 6‰ (4.21) Onde hf = a altura do reforço na lateral da viga (ver figura 4.10) 109 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Os valores da resistência ao cortante das vigas reforçadas (VR ), partindo das considerações acima e adotando coeficientes de segurança unitários (γc =γs =γf c =1) são apresentados na tabela 4.10. Tabela 4.10 - Resistência ao cisalhamento teórica das vigas reforçadas, com limitação da deformação do reforço Viga VC-1 VC-3 ftd τlim bf hf 2 tf 2 Af 2 sf εf* 2 (MPa) (MPa) (mm ) (mm ) (mm ) (mm ) (mm) (MPa) 2.4 2.6 1.20 1.30 100 100 400 400 0.99 1.65 198 330 200 200 4.97 3.23 Vc Vs** Vf VR (kN) (kN) (kN) (kN) 72 79 48 55 127 143 247 276 Pu,exp /V R (kN) 0.73 0.65 *deformação calculada pelo menor limite estabelecido na equação 4.20 **baseado na tensão de escoamento experimental (ver tabela 3.3) A relação Pu,exp/VR mostra que a limitação sugerida para a deformação leva a resultados experimentais menores pois as vigas tiveram ruptura à flexão enquanto o reforço de cisalhamento permaneceu intacto. 4.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das análises feitas neste capítulo pode-se propor os modelos de dimensionamento ao cortante e à flexão mostrados a seguir, baseados no modelo de treliça e na teoria da flexão simples. O roteiro para dimensionamento para reforço ao cortante com estribos de tecido de fibra de carbono consiste em: • Avaliar a resistência do projeto original (VR ); • Definir o espaçamento dos estribos externos, com sistema de ancoragem nas extremidades. O CEB-FIP(2001) estabelece que o valor máximo do espaçamento deverá ser o menor dentre os seguintes valores: um quinto do vão, metade da altura da seção ou 0,4 do vão do balanço (se houver). • Determinar a tensão cisalhante limite que o concreto resiste sem destacar: τ lim = 0,5 ⋅ f ct,dir (CERQUEIRA, 2000) • Calcular a tensão cisalhanete atuante no reforço (estribo), que é a menor dentre os valores: 110 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS óf = ôlim ⋅ ( hf + bf ) 2 tf ó f = 0.006 ⋅ E f • Calcular a contribuição do reforço pelo modelo de treliça Vf = • Af ó f ⋅ ⋅z sf ãf Calcular a resistência ao cortante da viga reforçada: VRf = VR + Vf Para o pré-dimensionamento do reforço de flexão com tecidos de fibra de carbono pode-se adotar o procedimento representado pelo fluxograma mostrado na figura 4.11, considerando que haja sistema de ancoragem nas extremidades do reforço. 111 CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS Figura 4.11 – Fluxograma do modelo de dimensionamento proposto para reforço à flexão 112 CAPÍTULO 5 CONCLUSÕES E SUGESTÕES Neste trabalho confirmou-se o excelente desempenho dos reforços de flexão e de cisalhamento com tecido de fibra de carbono. A execução não apresentou maiores dificuldades. O preparo do adesivo e a colagem das fibras exigiram apenas o uso de luvas e máscara protetora. A colagem do reforço de flexão na superfície exigiu duas pessoas em função da sua extensão, o que não foi necessário para a colagem do reforço de cisalhamento. Foi verificado nos ensaios que: 1. a execução das camadas do reforço respeitando apenas o intervalo máximo de uma hora entre a colagem das camadas promoveu uma melhor integração entre as mesmas, evitando o descolamento entre as camadas do reforço. 2. a utilização de cinco camadas do tecido não prejudicou o comportamento do reforço, apesar da recomendação do fabricante indicar um número máximo de três camadas de tecido para o reforço. 3. a capacidade resistente das vigas foi aumentada em até 64% pela adição dos reforços de flexão e de cisalhamento, embora o destacamento e o descolamento do reforço faça com que as vigas tenham ruptura com o reforço apresentando deformação bem menor que a correspondente deformação de ruptura; 4. as vigas reforçadas à flexão tiveram aumento de rigidez; 5. houve diminuição da deformação da armadura interna pela ação conjunta das armaduras interna e externa; no caso das armaduras de flexão a ação conjunta se limitou ao momento em que o reforço começou a descolar; 113 CAPÍTULO 5 – CONCLUSÕES E SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS 6. a limitação da deformação do reforço em 6‰ no dimensionamento de vigas reforçadas com tecido de fibra de carbono parece aceitável para evitar o descolamento do reforço; 7. a teoria da flexão simples e o modelo de treliça podem ser utilizados para avaliar a capacidade resistente da viga reforçada, desde que se estabeleçam limites adequados para deformação do reforço, levando em conta todos os possíveis modos de ruptura das vigas. Os materiais compósitos reforçados com fibra, pelas suas características e propriedades, têm potencial para impulsionar o mercado do reparo e reforço. No entanto é essencial investir em pesquisa para investigar e fornecer mais dados para o entendimento de alguns aspectos do comportamento a curto e longo prazo esses reforços, entre eles: 1. a caracterização da resistência da interface concreto-resina-compósito, com a investigação da resistência à tração do concreto nas faces laterais e inferior da viga e a influência na ligação de diferentes tipos de cola; 2. o desenvolvimento de mecanismos de ancoragem mais eficientes para evitar a ruptura frágil e aumentar o aproveitamento do compósito que sejam de fácil realização na prática. Desta forma, será possível confirmar as inúmeras vantagens dos materiais compósitos e consolidar as normas para reforço estrutural, ampliando seu uso e barateando a técnica. 114 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS L ACI Committee 440, 2001, Guide for the Design and Construction of Externally Bonded FRP Systems for Strengthening Concrete Structures. ADHIKARY, B. MUTSUYOSHI, H. “Study on the Bond between Concrete and Externally Bonded CFRP Sheet”. In: Proceedings of the Fibre reinforced Plastics for Reinforced Concrete Structures, FRPFCS-5, v. 1, pp. 371-378, Cambridge, England, july,2001. ARDUINNI, M., NANNI A., 1997, “Parametric Study of Beams with Externally Bonded FRP Reinforcement”, ACI Structural Journal, v.94, n. 5 (setembro-outubro), pp. 493-501. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT), NBR-5738, 1993, Moldagem e Cura de Corpos-de-prova de Concreto Cilíndricos ou Prismáticos – Método de ensaio. Brasil, pp. 14. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT), NBR-5739, 1994, Concreto - Ensaio de Compressão de Corpos-de-prova Cilíndricos. Brasil, pp. 4. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT), NBR-6118, 2001, Projeto de Estruturas de Concreto (Projeto de revisão da NBR 6118). Brasil, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT), NBR-7222, 1994, Argamassa e Concreto – Determinação da Resistência à Tração por 115 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Compressão Diametral de Corpos-de-prova Cilíndricos - Método de ensaio. Brasil, pp. 3. BEBER, A., CAMPOS, A., CAMPAGNOLO, J., 2000, “Estudo Teórico-experimental de Vigas de Concreto Reforçadas com Tecidos de Fibra de Carbono”. In: Anais do IV Simpósio sobre Estruturas de Concreto - USP, São paulo, Brasil. BROSENS, K., AHMED, O., GEMERT, D. et al, 2000, “Performance of Hybrid CFRP/Steel Strengthening of RC Constructions”, In: Anais do 2º Congresso Internacional sobre o Comportamento de Estruturas Danificadas (DAMSTRUC’2000), junho, Rio de Janeiro, Brasil. CARNEIRO, L.., 1998, Reforço à Flexão e ao Cisalhamento de Vigas de Concreto Armado. Tese de M.Sc., COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil. CEB-FIP, 2001, Technical Report on the design and Use of Externally Bonded Fibre Reinforced Polymer Reinforcement (FRP EBR) for Reinforced Concrete Structures. CERQUEIRA, E., 2000, Reforço ao Cisalhamento de Vigas de Concreto Armado com Fibras de Carbono. Tese de M.Sc., COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil. EMMONS, P., et al, 1998, ”Strengthening Concrete Structures, Part I”, Concrete International, v.20, n.3 (Mar.), pp. 53-58. EUROCOMP,1996, Structural Design of Polymer Composites – EUROCOMP Design and Code Handbook. Ed. E& FN Spon, London, England. 116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS JCI TC952,1998, “Continuous Fiber Reinforced Concrete”. Relatório Técnico do JCI, Comitê Técnico de Concreto Reforçado com Fibras Contínuas (TC952), Tóquio, Japão. JUVANDES, L., 1999, Reforço e Reabilitação de Estruturas de Betão Usando Materiais Compósitos de “CFRP”. Tese de D.Sc., Universidade do Porto, Porto, Portugal. KHALIFA, A., NANNI, A., 2000, “Improving Shear Capacity of Existing RC T-section Beams Using CFRP Composites”. Cement & Concrete Composites, n.22, pp.165-174. MATTHYS, S., 2000, Structural Behavior and Design of Concrete Members Strengthened with externally bonded FRP Reinforcement. D.Sc. Thesis, Ghent University, Belgium. MEHTA, P., MONTEIRO, P. 1994, “Introdução ao Concreto”. In: Passos, M. (ed), Concreto: Estrutura, Propriedades e Materiais, 1 ed., capítulo 1, São Paulo, Brasil, Editora PINI. MEIER, U., “Post Strengthening by Continuous Fiber Laminates in Europe”. In: Proceedings of the Third International Symposium of Non-metallic (FRP) Reinforcement for Concrete Structures, v. 1, pp. 41-56, Japan, october, 1997. MORAIS, M., 1997, Reforço de Vigas de Concreto. Tese de M.Sc., COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil. NEUBAUER, U., ROSTASY, F.S., 1997, “Design Aspects of Concrete Structures Strengthened with Externally bonded CFRP-plates”, In: Proceedings of the International Conference on Structural Faults & Repair-97, Vol.2, Pp. 109-118, Edinburgh, England. 117 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS NORRIS T., SAADATMANESH H., EHSANI M., 1997, “Shear and Flexural Strengthening of R/C Beams with Carbon Fiber Sheets”, Journal of Structural Engineering, v.123, n. 7 (Jul.), pp. 903-911. PINTO, C., 2000, Reforço à Flexão de Vigas de Concreto Armado com Fibras de Carbono. Tese de M.Sc., COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil. RIPPER, T., 1998, “Plásticos Armados com Fibras como Solução para o Reforço de Estruturas”. Seminário sobre Estruturas Reforçadas com Fibras - UFF, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. RIPPER, T., SCHERER, J., 1999, “Avaliação do Desempenho de Plásticos Armados com Folhas Unidirecionais de Fibras de Carbono como Elementp de Reforço de Vigas de Betão Armado”. 41º Congresso Brasileiro do Concreto , Salvador, Brasil. SIKA S.A.., 2000, SIKA CARBODUR – Reforzamiento con Sistemas de Fibras de Carbono (CFRP) y Fibras de Vidrio (GFRP) para Estructuras de Concreto y Madera, Guias de Diseño e Istalación Tejidos SikaWrap, Bogotá, Colombia. SILVA, A., MORENO, A., 2000, “Reforço à Flexão em Vigas de Concreto de Alta Resistência através de Colagem Externa de Manta de PRFC”, In: Anais do 2º Congresso Internacional sobre o Comportamento de Estruturas Danificadas (DAMSTRUC’2000), junho, Rio de Janeiro, Brasil. SOUZA, R. et al, 1998, “Avaliação do Desempenho de Compósitos Armados com Tecido de Fibras de Carbono como Elemento de Reforço de Vigas de Betão Armado”. In: Simpósio sobre Manutenção e Recuperação de Obras de Arte especiais, Lisboa, Portugal. 118 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS TAERWE, L. et al, “Behavior of RC Beams Strengthened in Shear by External CFRP Sheets”. In: Proceedings of the Third International Symposium of Non-metallic (FRP) Reinforcement for Concrete Structures, v. 2, pp. 559-566, Japan, october,1997. THOMAS, J., THOMAS, K., 1996, ”Strengthening Concrete with Carbon-Fiber Reinforcement”, Concrete Repair Digest, v.7, n.2 (Apr.-may). TRIANTAFILLOU, T., et al, 1992, ”Strengthening of Concrete Structures with Prestressed Fiber Reinforced Plastic Sheets”, Journal of Structural Engineering, v.89, n. 3 (May-jun.), pp. 235-244. TRIANTAFILLOU, T.,1998a, ”Strengthening of Structures with Advanced FRPs”, In: Progress in Structural Engineering and Materials, v.1, pp.126-134. TRIANTAFILLOU, T.,1998b, ”Shear Strengthening of Reinforced concrete Beams using Epoxy-bonded FRP Composites”, ACI Structural Journal, v.95, n. 2, pp. 107-122. 119 ANEXO A FOTOGRAFIAS 49 Foto A.1 – Tecido de fibra de carbono SikaWrap Hex-230C e componentes da resina epóxica Sikadur-330 Foto A.2 – Adensamento do concreto das vigas 121 Foto A.3 – Arredondamento das arestas das vigas com reforço em U Foto A.4 – Aplicação da resina sobre a superfície do concreto 122 Foto A.5 – Impregnação do tecido pela resina utilizando rolo de metal Foto A.6 – Aplicação da resina sobre o tecido de fibra de carbono 123 Foto A.7 – Esquema do ensaio Foto A.8 – Esquema do tirante utilizado para manter o carregamento durante a execução do reforço 124 Foto A.9 – Detalhe da ruptura da viga VC-1R Foto A.10 – Detalhe da ruptura da viga VC-1 125 Foto A.11 – Estribos de tecido de fibra de carbono após a ruptura da viga VC-1 Foto A.12 – Aspecto geral da lateral da viga VC-2 após a ruptura, mostrando o descolamento e alguns pontos de destacamento do reforço de flexão e de ancoragem 126 Foto A.13 – Detalhe do descolamento da ancoragem da viga VC-2 Foto A.14 – Detalhe do destacamento do reforço de flexão da viga VC-2 127 Foto A.15 – Aspecto geral da outra lateral da viga VC-2 mostrando o destacamento do reforço de flexão e de ancoragem após a ruptura Foto A.16 – Lateral da viga VC-3 mostrando o destacamento do reforço de flexão e esmagamento do concreto 128 Foto A.17 – Detalhe do destacamento do reforço de cisalhamento da viga VC-3 Foto A.18 – Detalhe do destacamento do reforço de flexão no meio do vão da viga VC-3 129 Foto A.19 – Detalhe do destacamento do reforço de flexão da viga VC-3 próximo ao apoio Foto A.20 – Aspecto geral da outra lateral da viga VC-3 mostrando o destacamento e o descolamento entre algumas camadas do reforço de flexão 130 Foto A.21 – Detalhe da outra lateral da viga VC-3 mostrando o destacamento e o descolamento entre algumas camadas do reforço de flexão 131 ANEXO B TABELAS DE RESULTADOS 133 134 135 136 137 138 139 140