A POÉTICA DESCONFIADA EM TODOS OS VENTOS, DE ANTONIO CARLOS SECCHIN Rodrigo Carvalho da Silveira Dissertação de Mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção de título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) Orientador: Professor Doutor Godofredo de Oliveira Neto. Universidade Federal do Rio de Janeiro Fevereiro de 2010 II A POÉTICA DESCONFIADA EM TODOS OS VENTOS, DE ANTONIO CARLOS SECCHIN Rodrigo Carvalho da Silveira Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Examinada por: _____________________________________________________________________________ Presidente, Professor Doutor Godofredo de Oliveira Neto _____________________________________________________________________________ Professor Doutor Sérgio Martagão Gesteira _____________________________________________________________________________ Professora Doutora Angélica Maria Santos Soares _____________________________________________________________________________ Professora Doutora Vera Lúcia de Oliveira Lins (Suplente) ______________________________________________________________________________ Professor Doutor Ronaldes de Melo e Souza (Suplente) Rio de Janeiro Fevereiro de 2010 III Silveira, Rodrigo Carvalho da. A poética desconfiada em Todos os ventos, de Antonio Carlos Secchin/ Rodrigo Carvalho da Silveira. - Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2010. xi,94 f; 30cm. Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Dissertação (Mestrado) – UFRJ/ Faculdade de Letras/ Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, Área: Literatura Brasileira, 2010. Referências Bibliográficas: f. 88-93 1- A poética desconfiada 2- Estrutura arquitetônica de Todos os ventos 3- A intertextualidade de “Artes” 4- O tempo em “Dez sonetos da circunstância” 5- As artes de amar em “Variações para um corpo” 6- O poeta ator de “Primeiras pessoas” . I. Neto, Godofredo de Oliveira. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, Área: Literatura Brasileira. III. Título. IV RESUMO A POÉTICA DESCONFIADA EM TODOS OS VENTOS, DE ANTONIO CARLOS SECCHIN Rodrigo Carvalho da Silveira Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, Literatura Brasileira, da Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Literatura Brasileira. Antonio Carlos Secchin, objeto de estudo dessa investigação, estrutura o livro Todos os ventos em uma poética que se debruça criticamente sobre si mesma, ri seriamente das formas literárias compostas de uma visão unanimamente eufórica da arte e questiona a busca de um único ponto de vista soberano, vencedor e aniquilador da poética contrária. O Romantismo alemão sacralizou a ironia como um princípio de construção da obra de arte. Em uma obra regida pelo princípio formador da ironia romântica, há a união incessante entre a experiência emocional e a consciência racional, tendo uma expressão continuamente voltada sobre si mesma. Este trabalho pretende demonstrar a forma secchiniana de expressão da ironia romântica formadora da arte. Caminharemos por Todos os ventos, observando a composição de um livro possuidor de um arcabouço extremamente irônico. Mostraremos poemas multifacetados de uma obra composta por fragmentos particulares, completos em si, compositores da unidade denominada Todos os ventos. Dessa forma, pretende-se unir o livro Todos os ventos a uma tradição literária regida pela ironia como principio estrutural de composição da obra de arte e demonstrar através da análise do livro a poética que convencionei chamar de desconfiada e que compõe a obra de Antonio Carlos Secchin. Palavras-chave: Antonio Carlos Secchin, poesia, Todos os ventos, poética desconfiada, ironia, Romantismo alemão Rio de Janeiro Fevereiro de 2010 5 ABSTRACT THE SUSPICIUOS POETIC IN TODOS OS VENTOS BY ANTONIO CARLOS SECCHIN Rodrigo Carvalho da Silveira Advisor: Godofredo de Oliveira Neto Dissertation Abstract of Masterdegree submitted to the postgraduate program in Brazilian Language, Brazilian Literature, Languages College from Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (Federal University of Rio de Janeiro) as part of indispensable quality to receive the title of Master of Brazilian Literature. Antonio Carlos Secchin, is the object of study of this research, frames the book Todos os Ventos on a poetical that leans over on a critical way on itself, seriously laughs at literary compound forms of an euphoric unique sight of art and requests the search of a point of view that be sovereign, winner and destroyer to the adverse poetical. German Romanticism consolidated irony as a principle to build a work of art. In a work conducted by the principle maker of the Romanticism irony, there is the strong union between emotional experience and rational awareness. It has an expression continuously turned to itself. This work intends to demonstrate the Secchinian way to express the Romantic irony as an art maker. We can travel for Todos os Ventos watching the composition of a book that has a structure extremely ironic.We will present multifaceted poems of a work compounds by particular fragments that complete themselves and become themselves composers of the oneness called Todos os Ventos. In such wise, the intention is to connect the book Todos os Ventos to a literary tradition, orchestrated by irony as structural principle of composition of the work of art. Also demonstrate through book analysis, the poetical that I have arbitrated to call diffident and that compose the work of Antonio Carlos Secchin. Key-words: Antonio Carlos Secchin, poetry, Todos os Ventos, suspicious poetical, irony, German Romanticism. Rio de Janeiro February 2010 6 DEDICATÓRIAS Para: As pessoas que tornaram o trabalho possível me incentivando e participando, moral e intelectualmente, de meu crescimento como ser humano: Carina, amor de minha vida, sem a qual não estaria onde estou. Sua força, seu amor, sua dedicação e seu companheirismo me fizeram chegar até aqui. Conquisto e divido com você este trabalho. Rogério, pai, amigo, conselheiro e mestre. Tudo o que sou, como ser humano, devo a ti. Mesmo à distância, sempre esteve comigo porque te carrego em cada lição e em cada sentimento. Tine, minha mãe, que com amor lutou para eu sempre ter o melhor. Pela herança artística familiar que nos une. Yasmim, minha filha, que com sorriso, carinho e alegria me fez assumir a maturidade que batia à porta. 7 AGRADECIMENTOS: Agradeço ao orientador Godofredo de Oliveira Neto pelo incentivo contínuo à busca pelo conhecimento, por palavras instigantes na empreitada da independência intelectual e pelo companheirismo e apoio nos momentos mais difíceis. Agradeço ao poeta e professor Antonio Carlos Secchin por meus passos primários dados na graduação em análise poética, pela disponibilidade e afabilidade mesmo diante de momentos críticos e pela obra poética que me sensibilizou profundamente. À Flavia Vieira da Silva do Amparo pelo apoio sempre solicito, pelas importantes fontes de pesquisa, pela orientação formal do trabalho e por apontamentos imprescindíveis à formação da pesquisa. Agradeço ao professor Ronaldes de Melo e Souza por transformar meu modo de ver a literatura, pelas aulas instigantes e por criar em mim um desejo de investigação dos pormenores da obra literária. À Carina Ferreira Lessa, minha esposa, por participar de cada momento como conselheira, por nossos diálogos e por cada um dos apontamentos que tornaram possível tanto o estudar no mestrado, quanto o escrever desta dissertação. Agradeço a Deus e ao Mestre Jesus por todos os ensinamentos morais e por todas as virtudes e recompensas que tornaram possível a minha vida e o meu estudo. 8 SINOPSE Leitura da obra poética de Antonio Carlos Secchin, focando os poemas de “Todos os ventos”, capítulo homônimo ao livro. Estudo da poética secchiniana como fio condutor de um pensamento irônico e como uma obra filiada à tradição literária irônica do Romantismo Alemão. 9 Com as lágrimas do tempo E a cal do meu dia Eu fiz o cimento Da minha poesia. (Vinicius de Moraes, Poética(II)) Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseja por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil as modas e compromisso. (Carlos Drummond de Andrade). 10 Sumário Introdução................................................................................................................. 12 1. Poética Desconfiada ........................................................................................... 14 2. Estrutura arquitetônica de Todos os ventos......................................................... 18 3. A intertextualidade de “Artes”............................................................................ 24 3.1 Cisne............................................................................................................. 26 3.2 Trio............................................................................................................... 31 3.3 Colóquio....................................................................................................... 35 4. O tempo em “Dez Sonetos da Circunstância” ................................................... 41 4.1 “O menino se admira...” .............................................................................. 43 4.2 “Repara como a tarde é traiçoeira” ............................................................. 47 4.3 Poema para 2002 ......................................................................................... 51 5. As artes de amar em “Variações para um corpo” .............................................. 54 5.1 À noite ......................................................................................................... 56 5.2 Artes de amar ............................................................................................... 60 5.3 Noturno ........................................................................................................ 63 6. O poeta ator de “Primeiras pessoas” .................................................................. 69 6.1 Reunião ........................................................................................................ 71 6.2 Autoria ......................................................................................................... 75 6.3 O Banquete .................................................................................................. 79 7. Conclusão ........................................................................................................... 85 8. Referências Bibliográficas ................................................................................. 88 11 Introdução Este trabalho pretende estudar a poética de Antonio Carlos Secchin, mais diretamente o livro Todos os ventos, que reúne sua obra literária revista e ampliada. Dentro desta obra, há uma parte inédita homônima ao livro, dividida em quatro capítulos diferentes que serão alvo direto deste estudo, almejando demonstrar as características da poética de Antonio Carlos Secchin. O Romantismo alemão sacralizou a ironia como formadora da arte, um princípio de construção. Em uma obra de arte regida pelo princípio formador da ironia poética, há a união incessante entre a experiência emocional e a experiência racional, tendo uma expressão continuamente voltada sobre si mesma. Nesta expressão, o poema se transmuta constantemente em metapoema num movimento contínuo do eu de desdobrar-se em autor e crítico. F. Schlegel definiu a ironia como uma parábase permanente. Parábase é o momento da comédia grega em que o coro se desliga do contexto das ações e insere um contraponto crítico das questões encenadas. Este movimento do coro divide a encenação teatral em duas partes iguais implantando uma metalinguagem crítica na trama. Diante da teoria de Schlegel, o poeta executaria o poema de modo vário, sendo apenas um. A contradição é consentida em uma dialética peculiar composta de dois em um e de um em dois, na substituição da oposição antagônica pela oposição complementar. O autor é ator por excelência desvelando a pluralidade do ser humano. Ronaldes de Melo e Souza comenta sobre a característica camaleônica do escritor irônico: “o artista dialeticamente irônico ri continuamente de si mesmo, personificando vários eus, mas não se identificando com nenhum deles”. (Souza, 2006, p.44). A ironia poética deságua em Antonio Carlos Secchin, objeto de estudo dessa investigação, e estrutura o livro Todos os ventos, em uma poética que se debruça criticamente sobre si mesma, ri seriamente das formas literárias compostas de uma visão unanimamente eufórica da arte e questiona a busca de um único ponto de vista soberano, vencedor e aniquilador da poética contrária. O poeta Antonio Carlos Secchin é um quebra-cabeça formado por peças plenas. Crítico, professor, bibliófilo, tradutor (vozes que poderiam ser confundidas com a biografia do autor) são algumas das máscaras vestidas por uma primeira pessoa múltipla na essência e mediadora de diversas formas. 12 O título do livro, Todos os ventos, já é um segredo a ser desvendado. Naturalmente plural, é formado por elementos semânticos compostos pela diversidade. A palavra “todos” é um pronome indefinido caracterizado pela plenitude, um vocábulo que abrange possibilidades várias do substantivo a que está ligado. “Vento” é definido como o ar em movimento ocasionado por diferenças de temperatura, e ao caminhar por muitos ares congrega em si um multiperspectivismo. Antonio Carlos Secchin, ao nomear o livro, aceita a pluralidade inerente à sua poética, e que chamarei, desconfiada. Tal poética é desvendada pelo próprio poeta nos “Aforismos”: Contrariando o axioma do velho São Tomé, cabe à arte ver para descrer, isto é, recusar os esquemas confortavelmente explicativos da realidade e injetar o vírus da desconfiança em meio a toda unanimidade eufórica. (Secchin, 2002, p. 81) O autor trabalha com “um espaço diversificado, soprado e vivificado por múltiplas correntes de ar (...) [Secchin] recolhe todos esses ventos, esses intermináveis caprichos meteorológicos, e os põe superiormente a serviço da palavra e do presságio” (Portella, 2002, p. 11 e 12). O poeta aceita a diversidade e ironicamente compõe um livro plural formado por uma dialética que reúne os contrários, pois seus poemas são “pombo de pluma e granito”. A partir destes aspectos pretende-se apontar a forma secchiniana de expressão da ironia poética formadora da arte. Caminharemos por Todos os ventos, observando a composição de um livro possuidor de um arcabouço extremamente irônico. Mostraremos poemas multifacetados de uma obra composta por fragmentos particulares, completos em si, formadores da unidade denominada Todos os ventos. Desta forma, inserir Todos os ventos em uma tradição literária regida pela ironia poética como principio estrutural de composição da obra de arte e demonstrar através da análise do livro a poética desconfiada que compõe a obra de Antonio Carlos Secchin. 13 1. A Poética Desconfiada Se enunciará o que deveria ser fingindo-se acreditar ser precisamente o que é. (Henri Bergson, O Riso) O poeta Antonio Carlos Secchin tece, em Todos os ventos, uma obra que relativiza a si mesma em um processo contínuo de autoquestionamento e retraimento diante de uma tradição literária embriagada nas leis de estilo. O autor irá melindrar-se com qualquer unilateralidade aparente através de uma dinâmica de adentramento-distanciamento do processo poético, de uma autoconsciência do processo criador que não permite se envolver completamente em idealizações, mas sim manter-se sóbrio por meio da dialética entre o eu (envolvido nas emoções) e o crítico (distanciado através do pensar-se enquanto forma). Este duplo movimento se identifica com a percepção irônica da arte, com a ironia romântica. Concepção documentada em fragmento de Ludwick Tieck em livro sobre o Romantismo alemão: Ela [a ironia] representa no poeta a faculdade de dominar a matéria; a ironia o impede de nela perder-se e o preserva de uma concepção unilateral das coisas, de uma tendência vã a idealizá-las. (Tieck, 1956, p. 191) Em Todos os ventos, Secchin constrói, em um único capítulo denominado “Artes”, o ápice do movimento de adentramento-distanciamento do processo poético. Através da autoconsciência, o poeta se envolve formalmente com as escolas literárias, mas se distancia com um sorriso no rosto questionador e irônico em relação às leis de estilo. Este capítulo dialoga com toda a obra e principalmente com um dos aforismos secchinianos: “O grande artista relativiza as leis do estilo em que se inscreve; cabe aos menores acreditar demais em tudo aquilo” (Secchin, 2002, p. 78). Marcus Vinicius Quiroga, em palestra denominada “A poética do diálogo na obra de Antonio Carlos Secchin”, foca esta característica de aproximação-afastamento da tradição literária: Escolhemos hoje abordar a obra de Antonio Carlos Secchin como aquela que estabelece relações com as estéticas anteriores e 14 contemporâneas, mantendo, desta forma, um diálogo que, ao mesmo tempo, reconhece a série literária na qual se insere, reutilizando-se de suas realizações, e dá passos à frente pela paródia ou pela incorporação das questões de outros autores, amalgamando-as às conquistas próprias. (Quiroga, 2009). A interação dialética entre inspiração e raciocínio crítico é destacada por Ronaldes de Melo e Souza como base estrutural da poética irônica, que terá contribuição decisiva de Friedrich Schlegel através de fragmento selecionado por Souza em “Introdução à poética da ironia”: “a ironia é uma parábase permanente” (Souza, pp.28, 2000). O crítico irá definir a parábase de Aristófanes como o momento: Quando o coro momentaneamente se desliga do contexto das ações e, sozinho em cena, transmite ao público o apelo do dramaturgo. Disponível, na estrutura da comédia ática, para as múltiplas reflexões e polêmicas que são inseridas no próprio texto das peças, a parábase é o contraponto crítico das questões relativas à representação teatral. (Souza, 2000, p. 29) O poeta Antonio Carlos Secchin desdobra-se incessantemente em autor e crítico, demonstrando uma autoconsciência literária que desvela de forma constante a ilusão da realidade construída através da instância da enunciação. Marlene de Castro Correia destaca este fator como princípio estruturador da narrativa de Sterne, ressaltando-a como pré-requisito da ironia romântica e: Enfatizando o grau de consciência de si mesmo, o alto teor de elaboração teórica e a riqueza de implicações, algumas de caráter filosófico, que ele [antiilusionismo] adquiriu no Romantismo alemão, quando a crítica o valorizou no passado e o aconselhou no presente, e os criadores dele fizeram uso mais sistemático. A ironia romântica integrou tão medularmente a ruptura da ilusão artística ao seu espaço semântico, que a equação entre as duas se impôs ao discurso metaliterário. (Correia, 2002, p. 119) A cisão do eu literário em ator e espectador de si mesmo demonstra a consciência de um fracionamento do ser que Secchin instala em Todos os ventos. O eu fragmentado expõe a necessidade de uma pluralidade de expressões como tentativa de reconstrução da unidade. Os múltiplos pontos de vista irão reconstruir a unidade poética em uma polifonia de vozes representada pelo poeta-ator. Em Conversa sobre poesia, F.Schlegel demonstra esta característica da poética irônica: 15 Confrontar visões completamente diferentes, cada qual podendo mostrar, de seu ponto de vista, o espírito infinito da poesia numa nova luz, e todos eles se esforçando mais ou menos, por um lado ou por outro, para penetrar no verdadeiro âmago. (Schlegel, 1984, p. 30) Em Todos os ventos, o escritor radicalizará a expressão de várias visões diferentes diante de uma unidade ao nomear um dos capítulos de “Variações para um corpo”. O poeta confronta cinco pontos de vista distintos em relação à temática amorosa, construindo poemas com forma e conteúdo diversos, todos em busca da verdadeira essência da poesia e do tema do amor. Em capítulo futuro deste trabalho, irá ser exemplificada, através da análise de três poemas, este atributo em “Variações para um corpo” e presente em toda a obra. Márcio Suzuki em “A gênese do fragmento” expõe a qualidade de fragmentos da ironia romântica: O romantismo pode ser esquematicamente caracterizado como uma trajetória que toma por ponto de partida a forma primordial, se desenvolve por múltiplas formas particulares e busca novamente, pela combinação destas, a unidade da forma. (Suzuki, 1997, p. 17) A ironia romântica foi elevada como categoria das mais importantes na configuração da expressão literária e artística, por teóricos e críticos literários de diferentes gerações e formações. Construída por seus pensadores, como forma adequada de expressão da divisão da consciência moderna, a ironia romântica atua diretamente na crise instaurada pela era contemporânea. Marlene de Castro Correia aponta o século XX como concretizador do projeto de modernidade pensado pelos românticos alemães: O contexto ideológico do século XX radicaliza a crise, extremiza o processo de fragmentação interior e separação ontológica, assegurandolhe [a ironia romântica], mais que condições de permanência, condições de desenvolvimento pleno. (Correia, 2002, p. 113) No quadro poético brasileiro, é possível observar qualidades da ironia romântica em Álvares de Azevedo e em Augusto dos Anjos. Nos aspectos da autoconsciência literária de uma obra voltada sobre si mesma e da valorização lúcida da contradição temos a expressão de Carlos Drummond de Andrade, também em traços metalingüísticos reveste grande parte da obra de João Cabral de Melo Neto. Além dos 16 poetas, em estudo recente de Ronaldes de Melo e Souza sobre a obra machadiana, o crítico localizou Machado de Assis envolvido em uma tradição irônica que converte opostos antagônicos em complementares, sem perder de vista a constante atuação do escritor como crítico da própria obra num movimento contínuo de aproximação e afastamento do texto literário. Na proposição de questionamento crítico da própria obra e na percepção da arte e suas contradições, a ironia romântica descobre em Antonio Carlos Secchin rara expressão poética contemporânea. Este a transformará em atitude essencial convertendo-a em princípio estruturador do livro Todos os ventos. A prática secchiniana da ironia romântica envolve múltiplas formas, um arcabouço estrutural, um contínuo processo de atuação, uma fragmentação do ser e uma “busca de reunificação de todos os gêneros numa nova síntese de poesia e prosa, poesia e filosofia, criação poética e crítica” (Suzuki, 1997, p. 16). É importante precaver que não há pretensões em estabelecer uma linha de influências dos poetas citados a presença da ironia romântica na obra de Antonio Carlos Secchin, mas sim valorizar a dicção única do autor. Não se deseja em momento algum trabalhar através de influências, até mesmo porque já há uma tentativa timidamente empreendida por Eduardo Portella de relacionar alguns convivas de Secchin no prefácio de Todos os ventos: Se tivesse de mencionar três convivas do poeta de todos os ventos, apontaria certamente Bandeira, Vinicius e João Cabral. Mas não esqueceria nem Cecília nem Gullar. (...) A infiltração de Bandeira abre passagem para a sábia expressão da cotidianidade, para o hibridismo convincente. A lira subjetiva de Vinicius aí se cruza com a antilira de João. A circulação de Cecília não reforça necessariamente o apreço pelo absoluto – o pleno. Mas a companhia de Gullar apóia a destituição do sublime, alarga o espaço do saber poético socialmente plantado, denegando igualmente as dicotomias estressadas de puro ou impuro, ou sujo, e belo e feio, conforme demarcações mais ou menos institucionalizadas. (Portella, 2002, p. 11-12). Apagadas quaisquer dúvidas relacionadas à influência, a análise aspirada enxerga os poemas secchinianos enquanto produção cultural revestida de individualidade vigorosa, inacessível a qualquer classificação depreciativa e redutora, e é somente a harmonia com o seu tempo que estabelece em Todos os ventos a marca da ironia romântica. 17 2. Estrutura arquitetônica de Todos os ventos Mas que na forma se disfarce o emprego Do esforço: e a trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua Rica mas sóbria, como um templo grego (Olavo Bilac, A um poeta) O livro Todos os ventos de Antonio Carlos Secchin reúne toda a poesia do autor. É uma obra dividida em uma parte inédita (homônima ao título do livro) e uma parte formada pelos livros anteriores, revistos e diminuídos. A parte inédita possui o mesmo título do livro e é dividida em quatro capítulos: “Artes”, “Dez sonetos da circunstância”, “Variações para um corpo” e “Primeiras pessoas”. Os poemas já publicados em obras anteriores são apresentados em forma temporal decrescente, ou seja, do mais novo para o mais antigo; e se dividem também em quatro capítulos: “Diga-se de passagem”, “Elementos”, “Dispersos” e “Ária da estação”. No centro do livro, há um capítulo denominado “Aforismos” que une as duas pontas da obra, misturando o novo e o antigo, pois os textos que compõem “Aforismos” foram extraídos dos livros críticos Poesia e desordem e Escritos sobre poesia & alguma ficção. Apesar de já terem sido publicados, os textos ganham novos significados ao se distanciarem do contexto que os envolviam anteriormente, e desta forma misturam novo e antigo em sua essência. Secchin ainda combina prosa e poema nos aforismos ao dar ao texto crítico uma poeticidade normalmente não encontrada em trabalhos acadêmicos. O poeta trabalha em Todos os ventos com uma estrutura arquitetônica, projetada em pequenos detalhes. Não publica um grupo de poemas simplesmente, mas sim constrói uma obra planejada, como fica claro ao se estudar a organização do livro: “Aforismos” liga duas partes iguais formadas cada uma por quatro capítulos, ou seja: 4 capítulos inéditos + Aforismos + 4 capítulos revistos. O capítulo “Ária de Estação”, nome do primeiro livro de Secchin, revela que o poeta utilizava a intertextualidade e a sensibilidade crítica para compor a sua poética já aos vinte anos de idade. O poema “A João Cabral” tece um diálogo tanto com a forma do poeta engenheiro quanto com o capítulo „Artes‟ da parte inédita “Todos os ventos”, Secchin homenageia Cabral utilizando a própria composição cabralina - a sintaxe, as quadras e a metrificação quase regular - para configurar o poema: 18 O engenheiro debruçado sobre as arestas do concreto soletra o fio de seus rios entre as sílabas do deserto. A rima entre os versos pares é toante, como aprovava a antimusicalidade cabralina, a metrificação varia entre sete sílabas e oito sílabas métricas, aproximando-se da regularidade, porém não se identificando nem com a métrica regular nem com o verso livre, mesma forma encontrada em versos de João Cabral de Melo Neto. Assim, o tema se faz forma e a forma exalta o tema como irá acontecer em “A um poeta” do capítulo „Artes‟. No prefácio de Ária de estação, Marlene de Castro Correia aponta que o estreante escritor recebe o impacto de grandes escritores, no entanto caracteriza a individualidade através: de um verso seu „geometria despenteada‟ – que representaria metaforicamente a tensão entre duas forças e a busca de equilíbrio entre elas. De um lado, o ímpeto desgarrado, „fúria e flama‟, dele gerando-se e autoconfigurando a expressão em fluxo irreprimível. De outro, o domínio lúcido do poeta a disciplinar a sua linguagem, impondo-lhe economia e vigor. (Correia, 1972, p.11) Esta união, que Marlene de Castro Correia destaca, atravessa cada livro e desemboca em Todos os ventos, transformando-se em uma das forças que compõem a poética de Secchin, reunindo seiva lírica e crítica em uma escrita constantemente debruçada sobre si mesma. O capítulo denominado “Dispersos” guarda quatro poemas com grande qualidade em poucas páginas. Versos que revelam muito das faces de Antonio Carlos Secchin: precisão, ritmo sintático, musicalidade, intertextualidade, humor e magistério. Em “Soneto das luzes”, Secchin ironiza os “erros” cometidos por parnasianos e árcades, e utilizando o soneto e os versos alexandrinos (formas nobres valorizadas por ambas escolas), o poeta desmonta os artifícios com um riso vestido de seriedade. Tal estratégia intertextual crítica se repetirá no poema “Trio”, demonstrando aspectos da poética desconfiada secchiniana: Uma palavra, outra palavra, e vai um verso, eis dozes sílabas dizendo coisa alguma. Trabalho, teimo, limo, sofro e não impeço que este quarteto seja inútil como a espuma 19 Em “Linguagens”, o professor aparece em um poema que ensina poeticamente as figuras de linguagem nomeando e utilizando-as em cada verso do soneto, e a intertextualidade, tão presente, ainda aparece velada através da escolha dos exemplos que aparecem como paradigmas nas gramáticas: Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, se não fora a enálage, e mais voara, se não fosse a anáfora. O professor e o crítico se unem nos dois últimos versos do soneto, pois além de ensinar as figuras de linguagem, há a presença de um humor metalingüístico que expõe um pensamento sobre poemas e poetas, que define ambos com um sorriso no rosto e um mosquito ao pé da orelha: Vai-se um expletivo, outro e outro mais... os poetas, nós somos muito silépticos; mas os poemas, elípticos demais. Em “Elementos”, a metalinguagem é tema e forma que compõe cada poema do livro. Os versos primeiros aparecem como prólogo em forma de parábase que revela a luta com a palavra em sua insuficiência expressiva: O real é miragem consentida, engrenagem da voragem, língua iludida da linguagem contra o espaço que não peço. O real é meu excesso. Esta luta, tratada no prólogo, se estenderá pelas quatro partes em que o capítulo “Elementos” se divide: ar, fogo, terra e água. Neste capítulo, a metalinguagem ratifica o poeta-crítico irônico e consciente do seu ofício que Marlene já revelava em Ária de estação, e aponta para um dos futuros aforismos: Contrariando o axioma do velho São Tomé, cabe à arte ver para descrer, isto é recusar os esquemas confortavelmente explicativos da realidade e injetar o vírus da desconfiança em meio a toda unanimidade eufórica. 20 Este poeta irônico que está inserido em um incessante questionamento sobre a arte transpassa toda a obra secchiniana, e traz a metalinguagem como uma das linhas mestras, fato que é bem observado por Marcus Vinicius Quiroga em seu ensaio: A metalinguagem está presente em vários momentos da trajetória poética de Secchin (...) e se nota também nas relações intertextuais estabelecidas em inúmeros textos, configurando-se como uma das marcas de seu estilo. (Quiroga, 2006, p. 67). Outro ponto importante de “Elementos” é a maestria de composição que faz com que cada elemento se torne tema e forma. Um exemplo é o grupo de poemas da parte “Ar” no qual todos os versos do poema inicial são soprados pelo vento e recolhidos separadamente nos cinco poemas seguintes. O ar ancora no vazio. Como preencher seu signo precário? Palavra, nave da navalha, gume da gaiola, invente em mim o avesso do neutro - o não-assinalado, o lado além do outro lado. Os versos – “palavra”, “nave da navalha”, “invente em mim”, “o avesso do neutro” – são carregados pelo vento até o terceiro poema: Palavra, nave da navalha, invente em mim o avesso do neutro. Preparo para o dia a fala, curva do finito num silêncio de âncora. Atalho onde me calo e colho, como a um galo, o intervalo do azul. Os versos ganham novos sentidos, e neste processo, são discutidos os limites das palavras, o paradoxo infinito de significado e finito de expressão, afinal “o real é meu excesso”. 21 Em “Diga-se de Passagem”, há oito poemas que realçam a diversidade do poeta Secchin, pluralidade de tons, de formas e de pessoas. Há dois poemas que se aproximam da notícia de jornal, “Remorso” e “Notícia do poeta”, alguns mais líricos e pessoais e o metapoema “Biografia” com uma poética dos contrários e do questionamento. Em “Biografia”, a união de contrários para definir o poema, é reafirmada pela forma: há rima entre os versos pares e entre os ímpares não há; nas duas primeiras estrofes a métrica é regular, já nas duas últimas, o pé se quebra; e na última estrofe, é importante observar a repetição do verso “o poema vai nascendo” enquanto na verdade está morrendo: O poema vai nascendo num passo que desafia: numa hora eu já o levo, outra vez ele me guia. O poema vai nascendo, mas seu corpo é prematuro, letra lenta que incendeia com carícia de um murro. O poema vai nascendo sem mão ou mãe que o sustente, e perverso me contradiz insuportavelmente. Jorro que engole e segura o pedaço duro do grito, o poema vai nascendo, pombo de pluma e granito O poema de abertura de “Diga-se de Passagem” lê toda a obra anterior de Secchin e prevê o caminho que se traçará em “Todos os ventos”, percurso de muitas máscaras e formas concatenadas em uma só poética desconfiada, pois conversando com Fernando Pessoa, o poeta já dizia: “Ser é corrigir o que se foi”. E para completar o percurso até “Todos os ventos”, chega-se aos “Aforismos”, retirados de Poesia e desordem e Escritos sobre poesia & alguma ficção. Tais trechos necessitam de uma leitura nova, pois a perspectiva modifica-se com o distanciamento do original. Ganha-se ainda mais em poeticidade e diminui-se a distinção entre crítico e poeta. 22 O capítulo “Aforismos” encadeia poeta e crítico, une intertextualidade, humor e metalinguagem para compor uma poética irônica. Ironia romântica, do questionamento, da metamorfose, das muitas faces de Todos os ventos. Neste momento, após compreendermos a estrutura do livro de Antonio Carlos Secchin e caminharmos por capítulos que compreendem a parte não inédita de Todos os ventos, iremos estudar os diversos aspectos da poética desconfiada nos capítulos que compõem a parte inédita homônima ao livro: “Artes”, “Dez sonetos da circunstância”, “Variações para um corpo” e “Primeiras pessoas”. 23 3. A intertextualidade de “Artes”. Trabalho com as palavras Como o carpinteiro, o ourives, Com a madeira e o metal. Algum sonho, muito barro. Paixão, é imprescindível. Não a devastadora, Que te priva dos sentidos, Da inteligência (...) (Thiago de Mello, Paixão e liberdade) O 1º capítulo da parte “Todos os ventos” chama-se “Artes”. O título vem do diálogo direto que mantém com os cânones literários e com a música através de três tipos distintos de poema: poema homenagem (“Cisne” e “A um poeta”), o metapoema (“Um poeta”, “Cinco”, “Colóquio” e “Arte”) e o poema de intertextualidade com duas modalidades – conversa com escolas literárias (“É ele!”, “Noite na taverna”, “Trio” e “Mulheres”) e conversa com a música (“Aire”). Focaremos, neste capítulo, a ironia poética formadora da obra Todos os ventos no campo da intertextualidade: os passos secchinianos em uma parábase permanente, dialética incessante entre autor e crítico. O eu-poético veste-se da voz do outro para se identificar com ele, mas ao mesmo tempo se distancia através do humor, da ironia questionadora. Secchin passeia por múltiplas linguagens associadas às escolas literárias, se aproximando e simultaneamente se afastando delas, impondo uma forma impregnada de estilos, mas pessoal (no sentido de autêntico). O eu - poético utiliza máscaras de autores canônicos da Literatura Brasileira, como Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, para homenageá-los ou para desconstruir o discurso dos poetas. O eu – poético é um ator interpretando personagens, mas ao mesmo tempo um coro criticando a própria atuação. Ele se debruça de maneira constante sobre a obra, transformando-se incessantemente em crítico literário. No capítulo “Artes”, Secchin bebe na tradição literária, mas mantém-se sóbrio através do questionamento irônico. A poética de Secchin é uma mistura contínua de vertentes estilísticas, é constituída de uma busca sem fim pela expressão adequada ao tema proposto. A procura é infinita, porque não há uma fórmula unânime, e em qualquer unanimidade, o poeta 24 injeta a desconfiança formadora de sua poética, seja através do riso ou da seriedade, há sempre uma voz a sussurrar no ouvido o grito da suspeita. Assim, através da intertextualidade e da ironia romântica, pretende-se demonstrar a dialética entre autor e crítico, o multiperspectivismo do eu – lírico e a metamorfose contínua do poeta, exemplificando tais características a partir de três poemas constituintes de “Artes”: “Cisne”, “Colóquio” e “Trio”. 25 3.1 Cisne “Cisne” é um poema-homenagem feito para o poeta simbolista catarinense Cruz e Sousa. Mostra com um simbolismo delicado e bem estruturado a luta do poeta contra o Parnasianismo, escola literária oficial daquele momento. Simbolismo e Parnasianismo conviveram juntas no painel artístico brasileiro, porém o Parnasianismo era a escola oficial, o modelo, já o Simbolismo foi a poesia feita à margem. Este poema é repleto de referências a ambas as escolas literárias: o cisne está relacionado a Cruz e Souza, mas também aos parnasianos, pois faz referência ao soneto de Júlio Salusse “Cisnes”. O animal parnasiano é branco e puro, “de alvacentas plumas”, como os cisnes de Salusse. Já o simbolista, é negro como Cruz e Sousa, sofre do racismo literário e social, da mesma forma que o poeta homenageado foi vítima em vida. Lembrando que Cruz e Sousa é também chamado de “Dante negro” e “Cisne negro”. É importante ressaltar as dedicatórias dos poemas de Todos os ventos, pois elas carregam significados e exemplificam um dos pontos constituintes do multiperspectivismo do eu – lírico. Este poema é dedicado a Iaponan Soares, divulgador do simbolismo de Santa Catarina. Como homenageiam um dos maiores escritores catarinenses, os versos de “Cisne” carregam a voz de Iaponan em sua essência, se inflam de seu ponto de vista. O poema aparenta ser escrito por ele, como se fosse um heterônimo de Secchin. O eu – poético de Secchin, como um excelente ator, faz de sua dicção cruz e sousiana. Utiliza, para compor “Cisne”, o soneto, uma das formas poéticas fixas e com versos decassílabos. O poema possui grande rigor formal e traz na construção diversas técnicas de versificação. Em “Cisne”, os três decassílabos se entrelaçam, dos catorze versos são sete heróicos, cinco sáficos e dois provençais. Em relação à rima, há versos brancos no 1º quarteto, versos soantes no 2º quarteto, e versos toantes nos tercetos. Mais uma vez todas as possibilidades se concatenam no interior do soneto, Secchin une todos os ventos na estrutura de “Cisne”. Além do ritmo métrico e da musicalidade das rimas, o soneto é regido por uma estrutura que se repete e se desdobra. Todo o poema é formado por verbos na 3ª pessoa no presente do indicativo através de ações do cisne, tudo é desdobrado a partir delas. São seis ações: vagueia, ondula, caminha, encontra, naufraga e indaga. Essas ações que 26 regem o soneto constroem o poema a partir de uma relação paradigmática, ou seja, a repetição de uma mesma estrutura, de formas funcionalmente iguais. O primeiro verso do soneto começa com o verbo “vagar” na terceira pessoa singular do presente. Este verbo agrega dois significados que encaixam com o poema: caminha sem destino e entrega-se a devaneios, sonhos. Logo em seguida há mais um verbo, “ondular”, ou seja, o cisne que irá surgir no segundo verso, anda perdido de forma sinuosa e entregue a sonhos. Já neste verso, o eu – poético se identifica com o homenageado, o tema vira forma e o poeta-ator faz uso de uma dicção cruz e sousiana: “Vagueia, ondula, incontrolado e belo”, verso filho de Antonio Carlos e neto de Cruz e Sousa. Há em um poema do catarinense, chamado “Tristeza do infinito”, um verso muito similar: “Ondula, vagueia, oscila”. Os dois primeiros versos do quarteto inicial contém duas das seis ações do soneto. Há também uma profusão de adjetivos, são quatro no total, todos vinculados direta ou indiretamente ao cisne. Essa grande quantidade de adjetivos é justificada pelo atributo de definição e caracterização predominante neste quarteto. Ele que caminha perdido em devaneios, está também incontrolado e belo. Um cisne poeta que não dorme e canta solitário. Cisne insone por seu amor à noite, mas também pela profusão poética que o inflama sem permitir o sono até que produza: Vagueia, ondula, incontrolado e belo, um cisne insone em solitário canto. O terceiro e quarto versos complementam a definição do cisne: caminha à margem rodeado de pombas confusas, espantadas pela distinta beleza negra e por não compreenderem a forma de ele caminhar. As pombas representam o Parnasianismo, em referência direta ao poema “As pombas” de Raimundo Correia. É interessante também, a brincadeira sonora entre “pombas atônitas” e “bombas atômicas”, que pode trazer um significado a mais ao confronto de Parnasianos e Simbolistas: Caminha à margem com a plumagem negra em meio a um bando de pombas atônitas O primeiro quarteto define Cruz e Sousa. O cisne negro representa o poeta catarinense que através da poesia incontrolada e bela, vagueia por entre a regularidade alva das pombas parnasianas. A paixão pela noite, pelo vago, pelo desconhecido; a 27 solidão, por ser praticamente o único poeta simbolista; a linguagem poética; tudo caracteriza o poeta Cruz e Sousa e está resumido no quarteto inicial de “Cisne”. No segundo quarteto, a caracterização ainda prevalece. Em um desdobrar dos versos finais, irá ser descrita a relação entre o Simbolismo e o Parnasianismo, um desenvolvimento da relação marginal do cisne negro com as pombas atônitas. O primeiro verso do 2º quarteto se inicia com “encontra”, mais uma das ações que constroem as relações paradigmáticas do poema. O cisne negro se depara com outro branco, que é “sagrado no monte Parnaso”, monte dos poetas localizado na Grécia e que deu nome ao movimento literário. Ou seja, o alvo cisne é divinamente inspirado pelos deuses gregos. A grande ironia secchiniana na construção dos quartetos localiza-se na cesura dos versos na qual há o aparecimento dos parnasianos, ambos provençais, decassílabos repudiados pela pureza estética do Parnasianismo: Encontra um outro, de alvacentas plumas, um ser sagrado no monte Parnaso. No terceiro verso, há a definição do cenário literário da época, o branco parnasiano vence o nevoeiro simbolista, se torna a escola oficial, enquanto o Simbolismo continua a margem. No quarto verso mais um verbo - “naufraga”. Pois enquanto a poética simbolista é vencida, o cisne se entrega atordoado aos mistérios do espaço. Cruz e Sousa produz e acredita na bruma, mesmo embaçado pela claridade parnasiana: e enquanto o branco vai vencendo a bruma ele naufraga, bêbado de espaço. Os tercetos complementam a relação de Cruz e Sousa com o Parnasianismo, constroem a conclusão de todo o drama narrado pelos quartetos. Isto pode ser exemplificado pela quantidade de ações do cisne nas duas primeiras estrofes comparadas com as dos tercetos, enquanto há cinco ações nos quartetos, há somente uma ação nos versos finais. Novamente para haver o desdobramento paradigmático, a terceira estrofe se inicia com uma ação, “indaga”. Pergunta inútil, porque o seu olhar está preso pela forte claridade do Sol, ou seja, está aprisionado pela pureza, pela alvura grega, em que o deus do Sol rege as artes, um deus parnasiano. 28 O questionamento une os dois tercetos e surge em discurso direto, uma fala do cisne, uma fala simbolista: “Se em torno tudo é treva, tudo é nada / como sonhar azul em outra esfera?”: Em vão indaga, o olhar emparedado na vertigem de luz que o sol encerra: “Se em torno tudo é treva, tudo é nada, Secchin, neste momento, insere delicadamente mais uma referência a Cruz e Sousa, Desta vez, ao texto “Emparedado”. Um poema em prosa, uma autobiografia ficcional do poeta. A forma de inserção da referência no texto secchiniano é feita para que o leitor, mesmo sem conhecer as alusões literárias, consiga compreender o poema. Apesar da grande importância significativa, o leitor alcança o entendimento dos versos sem o conhecimento prévio dos textos a que Secchin faz referência. Os últimos versos finalizam o drama com uma imagem: o cisne negro Cruz e Sousa está sangrando em frente a um poço. A coincidência sonora “sagrado/sangrando” reforça a diferença da situação dos cisnes: enquanto um cisne está sangrando o outro é sagrado. Um ecoa no outro, pois há uma relação de causa e efeito entre ambos. O cisne negro só sangra por não ser sagrado como o cisne branco. Mas é importante ressaltar que ele não cai no poço, nem ao menos está morto, está apenas ferido e isto mostra que a obra está viva, mesmo ferida. O último verso sintetiza e conclui a vida do poeta catarinense, ferido e humilhado por um deus que cospe em seu rosto. O artigo indefinido “um” mostra que não é o deus católico, mas sim um dos deuses gregos, que do alto do monte Olimpo cospe no rosto abatido. como sonhar azul em outra esfera?” Negro cisne sangrando em frente a um poço. Do alto, um Deus cruel cospe em seu rosto. Todos os versos dos tercetos são heróicos e valorizam o drama do cisne negro que, por mais que fosse “emparedado na vertigem de luz”, irá brilhar no futuro “belo e incontrolado”. Assim o soneto “Cisne” homenageia Cruz e Sousa, inicialmente caracterizando a poesia e a arte à margem, e depois tecendo o ato heróico do patinho feio, humilhado e 29 ferido, que sobrevive, e como é possível inferir, brilha sendo cisne e ganha o valor que merece no futuro. 30 3.2 Trio “Trio” é um poema de forte intertextualidade com a escola literária denominada Parnasianismo. O eu - poético caracteriza a tríade parnasiana formada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia; e ironicamente questiona a unanimidade poética construída por estes poetas. Secchin recusa os esquemas confortáveis e explicativos da arte, por isso simultaneamente homenageia e recusa o Parnasianismo. O eu - poético ator entra em cena no poema. Veste os versos com a forma poética parnasiana, utiliza o soneto e os versos alexandrinos para o duplo movimento de construção e desconstrução das características impostas pela escola literária. O Parnasianismo cultuava o metro nobre (decassílabo ou alexandrino), o soneto, a linguagem rebuscada e as rimas ricas (entre vocábulos de classes gramaticais distintas). Secchin emprega as regras do parnaso para criticamente questioná-las como respostas únicas à poesia. “Trio” é um soneto de versos alexandrinos (doze sílabas métricas), que ironicamente aprisiona os poetas da tríade parnasiana em uma prisão métrica alexandrina. Pode ser dividido em duas partes: uma composta pelos quartetos e outra pelos tercetos. A 1ª parte é descritiva, enquanto a 2ª parte é crítica: o eu – poético se veste de autor e depois de crítico literário. O 1º verso do poema é composto do nome completo do principal poeta do Parnasianismo, Olavo Bilac. O verso seguinte caracteriza-o como maior nome no monte Parnaso, local sagrado na Grécia, onde as musas inspiravam os poetas, e que deu nome ao movimento: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, que no Parnaso ecoa como voz primeira Os dois últimos versos do quarteto introduzem o nome que irá surgir no quarteto seguinte: já sabe que bem cabe em verso alexandrino o poeta que logrou vestir-se de palmeira: Os versos demonstram um conhecimento de Bilac sobre a adequação métrica do nome de outro poeta parnasiano, caracterizado como aquele que se vestiu de palmeira: referência ao poema “Aspiração” de Alberto de Oliveira. Versos onde o eu - poético demonstra um desejo em ser a árvore: 31 Ser palmeira! existir num píncaro azulado, Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando; Dar ao sopro do mar o seio perfumado, Ora os leques abrindo, ora os leques fechando (OLIVEIRA, 1978, p. 36) No 1º verso do 2º quarteto, surge o nome completo de Alberto de Oliveira aprisionado na métrica alexandrina. É importante ressaltar a rima entre “oliveira” e “primeira” do 2º verso do quarteto anterior. A voz de Bilac ecoa pelos outros poetas não só semanticamente, mas também sonoramente através da rima, que se alonga até o sobrenome do poeta seguinte. O eu - poético descreve Alberto de Oliveira como um escritor estreitamente unido à natureza, a qual o envolve por ambos os lados: pela “palmeira” do poema “Aspiração” e pela “colméia” humana de “Ode ao Sol”: Antônio Mariano Alberto de Oliveira que esculpe passo a passo exótica colméia. Para finalizar a composição da tríade parnasiana, o eu – poético convoca o nome completo de Raimundo Correia para encaixar, sem julgamento métrico, nos alexandrinos. Secchin utiliza o vocábulo “inapelavelmente” para demonstrar em um sussurro o “equivoco” alexandrino de Raimundo Correia, pois a tonicidade do verso de seu nome não está adequada aos parâmetros do verso de doze sílabas: inapelavelmente encaixa em doze sílabas Raimundo da Mota de Azevedo Correia. Nos tercetos, o eu – poético ator transmuta-se de autor para crítico, modifica o ponto de vista: passando da descrição para o questionamento. Após localizar e caracterizar o trio do Parnasianismo, o eu – poético sinalizará a fragilidade da unicidade formal imposta pela escola literária. O sorriso disfarçado surge já no 1º verso dos tercetos, onde o eu – poético através do adjetivo “jubiloso” ironiza a escolha formal dos poetas da tríade parnasiana, apontando como razão para tal opção o metro dos próprios nomes. No verso seguinte, Secchin faz referência a poemas parnasianos: “As pombas” de Raimundo Correia e “Ouvir estrelas” de Olavo Bilac. Evidencia a tentativa dos 32 poetas de envolver os temas do mundo em forma única, a ponto de se ter uma produção industrial de poesia em uma embalagem monológica: Jubilosos na métrica do próprio nome, aprisionam em seus versos as pombas e estrelas, apostando que em jaula firme e alexandrina não haverá qualquer perigo de perdê-las. Os poetas parnasianos apostam em uma redoma, para conter as palavras, buscando no modelo o encaixe perfeito que não permita a fuga precipitada do tema a ser tratado. Não há nestes escritores uma pesquisa da técnica formal mais adequada para tratar dos temas escolhidos. Mesmo que o tema peça uma técnica de versificação distinta da prescrição normativa dos parnasianos, não haverá, por parte destes, flexibilidade para modificar a técnica usual dos decassílabos e dos alexandrinos. O eu - poético irônico questiona se uma jaula será o suficiente para aprisionar a fera da poesia, ou será que como se fosse um líquido ela irá vazar por todos os lados da prisão? Os dois últimos versos de “Trio” reúnem a oposição exposta pela ironia questionadora de Secchin. O desejo pelo claro e luminoso faz os parnasianos utilizarem o adestramento da palavra à luz do dia, porém no difuso da noite, na escuridão, ruge o desejo da poesia: Adestram a voz do verso em plena luz do dia. À noite a fera rosna a fome da poesia. Secchin em entrevista ao livro Papos contemporâneos comenta o ponto de vista crítico de “Trio” sobre o Parnasianismo: “Essa perspectiva decorativa, domesticada e autojubilosa sintetiza o pior do Parnasianismo” (Bastos, 2007, p.24). Em “Trio”, o eu – poético ironiza a escola literária utilizando a própria forma parnasiana de fazer poético, porém perspectivando o “pior” desta escola. O poeta camaleônico faz uma dupla mediação dentro do poema ao descrever e ao criticar o Parnasianismo. Como um ator toma posse de títulos, nomes e temas dando-lhes novos significados, bebe a literatura parnasiana através da intertextualidade, mas, sóbrio, se distancia criticamente em um movimento dialógico de aproximação e afastamento da herança literária. 33 A poética secchiniana melindra-se da resposta única para arte, busca na multiplicidade o caminho para a literatura. Com isso “Trio” exemplifica a poética desconfiada de Secchin, pois o eu do poema ironicamente foca o “pior” do Parnasianismo para explicar os “erros” da ditadura estética da escola literária. Assim, “Trio” é um poema bem humorado e crítico, no qual o eu – poético transforma a linguagem formal em tema e questiona as fórmulas únicas para a arte literária. 34 3.3 Colóquio “Colóquio” é um poema significante na estrutura de Todos os ventos, porque dá voz a uma crítica contrária à própria maneira de fazer poesia de Antonio Carlos Secchin. É um contraponto a Todos os ventos, mas através dele o eu - poético demonstra a pluralidade de vozes que compõe o livro, dando espaço até para o oposto dos versos secchinianos. Friedrich Schlegel sentencia: uma obra de arte só será completa se contradizer a si mesma (Souza, p.32, 2000). A poética de Secchin apresenta semelhanças com os preceitos do filósofo ao incorporar “Colóquio” ao livro. É uma das múltiplas formas da ironia romântica, pois a ironia, como arcabouço estrutural da obra de arte, desconstrói qualquer unanimidade e trabalha diretamente com as contradições, com o multiperspectivismo do discurso poético. Desta vez, o eu - poético de Secchin se transforma em um narrador multiforme. O narrador estrutura o palco das ações, dá voz direta aos personagens e questiona, como um coro, o ponto de vista das falas constituintes do poema. É importante ressaltar a constante transformação do eu – poético nas três vozes, reunindo em si o autor, o ator e o crítico. “Colóquio” é um metapoema construído através da união de dois pontos de vista distintos. Isto aparece na escolha formal do poema, pois é concebido por dísticos distribuídos em doze estrofes. Os dísticos representam a ligação dialógica para a constituição do uno. Os versos não são isométricos, mas são rimados, quase todos são regidos por rima soante, apenas uma rima é toante. Tais opções se justificam pela temática da contradição: os versos não podem ter uma única medida, pois trazem na essência a dualidade, necessitando um diferir do outro. As rimas soam musicais e regulares ao longo do poema, entretanto a menor musicalidade da rima toante ressoa no decorrer dos versos como um contraponto sonoro de “Colóquio”. Na 1ª estrofe, o eu - poético entra como um simples narrador que irá localizar a cena, estruturando o palco para as ações. Encontramos apenas o sussurro da ironia na última palavra da estrofe, “infeliz”. O vocábulo rima com “país” do 1º verso, e mesmo surgindo no fim, envolve toda a estrofe através de seu significado. Uma estrofe aparentemente ingênua ganha um olhar crítico através desta palavra, pois uma 35 Academia de um poeta infeliz irá carregar um recalque poético, tornando infeliz o próprio discurso: Em certo lugar do país se reúne a Academia do Poeta Infeliz. Na 2ª estrofe, antes de dar voz aos membros da tal “Academia”, o narrador irônico toma por completo a cena e desmancha antecipadamente os comentários que virão a seguir no poema. No 1º verso, o narrador caracteriza os membros como severos, mas que não possuem peso na medida: rigorosos com os outros, sem exigências para si mesmos. O julgamento se estende pelo 2º verso, deságua na fala dos “severos juízes”: orgulhosos e pretensiosos comentam sobre o que não conhecem, impondo maquiagem de especialistas: Severos juízes da lira alheia, sabem falar vazio de boca cheia. O eu - poético se transforma em personagem a partir da 3ª estrofe, em que o narrador se ausenta e aparecem os julgamentos na fala direta dos membros da “Academia do Poeta Infeliz”. Neste momento, surgem sentenças contrárias aos versos de Secchin: Este não vale. A obra não fica. Faz soneto, e metrifica. O poeta de Todos os ventos possui uma parte do livro chamada “Dez sonetos da circunstância”. Utiliza regularmente o soneto e versos com métrica regular, assim os juízes expõem um pensamento contrário aos poemas de Secchin, para eles “a obra não fica”. A opinião contrária da “Academia” não cessa nestes versos, segue durante todo o poema, pinçando cada ponto da obra secchiniana. Na 4ª estrofe, é negado o entendimento da poesia: o leitor não pode compreender os versos: E esse aqui o que pretende? Faz poesia, e o leitor entende! 36 A pergunta do 1º verso demonstra a perplexidade dos “acadêmicos” diante de um poema compreensível. O choque não se contém apenas neste verso, se estende para o 2º, através de uma exclamação final, um grito de indignação. A repulsa ao entendimento dos “juízes” de “Colóquio” atinge a obra de Secchin, pois seus poemas são acessíveis a um leitor que deseje se aproximar dos versos, mesmo apontando para múltiplas leituras, os versos de Secchin possibilitam uma aproximação do leitor comum que se afine com a poesia. Na 5ª estrofe, há a apologia à seriedade. O riso é um crime, como se a tristeza fosse fazer um poema melhor e a alegria um pior. O 1º verso nega o paraíso àquele que faz versos com riso. O humor é crucificado na “Academia do Poeta Infeliz”, claro, ali só há lugar para a infelicidade: Aquele jamais atingirá o paraíso. Seu verso contém a blasfêmia e o riso. Secchin abre o livro Todos os ventos com um poema de humor: “É ele!”, que trata sorridente de uma suspeita da opção sexual do poeta romântico Álvares de Azevedo, invertendo já no título um famoso poema do autor “É ela! É ela! É ela!”. O fenômeno do riso se espalha por muitos versos da obra de Secchin, inclusive em “Colóquio”, o poeta irônico está constantemente rindo, e assim condenado pelos “infelizes”. A fala seguinte condena poemas longos, como se fosse prolixidade passar das três linhas. Ao poeta não é permitido se estender, em pouquíssimas palavras deve conter o mundo, toda a arte em menos de três linhas. Os juízes utilizam-se do vocábulo “heresia”, vestindo a si mesmos como um tribunal da inquisição. Combatem, nesta 6ª estrofe, não só os versos de Secchin, mas todo o cânone literário, pois os grandes escritores não versam somente em menos de três linhas: Mais de três linhas é grave heresia, pois há de ser breve a tal poesia. Na 7ª estrofe, retorna à pauta do tribunal o entendimento dos poemas. Agora, não pode haver nexo, deve-se fugir do alcance de sentido, pois é a complexidade, mesmo vazia, que faz dos versos poesia: 37 E o poema, casto e complexo, não deve exibir cenas de nexo. Na 8ª estrofe, o eu – poético se transforma novamente, cede voz ao narrador irônico. Aparentemente descrevendo a cena, o narrador critica silenciosamente os membros da “Academia”. A ironia fica concentrada em um verbo, “rosna”. Apesar de significar a irritação com algo, o verbo “rosnar” soa animalesco: uma alusão aos cachorros, cães de guarda. Os juízes são cães de guarda do poema, porém como animais não raciocinam bem sobre aquilo que protegem. O narrador, pelo canto da boca, ri do tribunal: Em coro a turma toda rosna contra a mistura de poesia e prosa. Na 9ª estrofe, a voz retorna aos membros da “Academia do Poeta Infeliz”. A coincidência sonora é o alvo: não se pode aproximar sonoramente palavras de significados distantes: Cachaça e chalaça, onde se viu? Poesia é matéria de fino esmeril. O exemplo dado nos versos é “cachaça/chalaça”. A indignação ressoa ampla na interrogação do 1º verso. A poesia necessita de grande trabalho, não simplesmente uma sonoridade, dizem os juízes condenando mais uma vez os versos de Secchin. No poema “Cisne”, por exemplo, o poeta reúne sonoramente “sagrado/sangrando”, brinca com a semelhança fônica de “pombas atônitas” e de “bombas atômicas”, mesmo a 2ª expressão não comparecendo no poema. A sonoridade é “matéria de fino esmeril” em Todos os ventos, mesmo com a voz contrária dos juízes de “Colóquio”. O ápice do tema da contradição de “Colóquio” aparece na sentença da 10ª estrofe, onde os juízes decretam o não à mistura de poesia e prosa. Esta crítica é a única que se estende à estrofe seguinte, e logo após o bater do martelo contra a união de prosa e poesia, a voz dos juízes acaba. A negação da mistura repele o próprio poema “Colóquio”, pois ele apresenta características da prosa: o narrador, a fala, a sequência de eventos. O 1º verso do poema, “Em certo lugar do país”, se assemelha com o início de uma narrativa, e decreta a 38 presença de um narrador. É importante lembrar que os personagens possuem voz direta, como se houvessem travessões antes de cada estrofe. “Colóquio” é um conto em versos, inclusive pela culminância narrativa da última estrofe. Quando os membros da “Academia do Poeta Infeliz” dizem não à prosa e à poesia unidas, negam o próprio poema do qual fazem parte: Poesia é coisa pura. Com prosa ela emperra e não dura. A 11ª estrofe dialoga com a anterior. É composta por uma metáfora culinária da mistura de prosa e poesia: a combinação causa indigestão e agride os olhos. Há um humor irônico nesta metáfora: a própria fala dos juízes é impregnada do riso, tão execrado na 5ª estrofe: É como pimenta em doce de castanha. Agride a vista e queima a entranha. Os membros da “Academia do Poeta Infeliz” se calam, na 12ª estrofe. O narrador irônico sobe a cena descontruindo a fala dos juízes. No 1º verso da estrofe, descreve a euforia dos membros da “Academia” com o “Poeta Infeliz”, mas no verso seguinte a língua mordaz do narrador, aparentemente ingênua, demonstra a queda do “Poeta”: E em meio a gritos de gênio e de bis cai no sono e do trono o Poeta Infeliz. Em um final inesperado, o narrador evidencia a negação literária do “Poeta Infeliz”, através dos gritos dos juízes e do tombo do “Poeta” do trono e no sono (que representa o esquecimento). A exaltação dos membros da “Academia” é ao mesmo tempo um elogio e uma depreciação da obra do “Poeta”. Secchin reúne na última estrofe as duas opiniões presentes no poema: em um verso a genialidade e no seguinte a ignorância; a fala dos juízes e a voz do narrador. A contradição se arrasta por cada espaço do poema, formando-se no arcabouço estrutural dos versos como o tema de “Colóquio”. “Colóquio” não é apenas um voltar crítico a si mesmo na obra de Secchin, mas um poema de concatenação harmônica de contrários. Aqui, não há voz maior, mas a 39 convivência entre uma apreciação contrária aos versos de Secchin e um julgamento irônico de tal apreciação. A opinião dos juízes não caminha solitária dentro do poema, está sempre acompanhada do riso irônico do narrador. O eu - poético cede voz direta aos juízes, mas também dá voz ao narrador, não negando em momento algum nenhuma das vozes. Há uma convivência harmônica de opiniões dentro do poema. Assim, o poema é um importante componente da poética desconfiada, pois traz o vírus da desconfiança para o fazer poético de Secchin. É um receio da própria forma de poesia, um espaço de descrença em si mesmo. 40 4. O tempo em “Dez Sonetos da Circunstância” A doença deforma a quem padece; mas logo que a doença faz seu termo, torna, Marília, a ser quem era d'antes o definhado enfermo (Tomás Antonio Gonzaga, Lira IV) O segundo capítulo da parte “Todos os ventos” chama-se “Dez Sonetos da Circunstância”. É formado por dez sonetos que questionam a efemeridade do tempo e se relacionam diretamente com a perda em vida, com a morte através da transformação. Os poemas se inserem de modo desconfiado na chamada poesia de circunstância, pois abalam os alicerces desta poesia se aproximando e se afastando mutuamente dela. O movimento de aproximação é feito pelo próprio autor ao nomear os sonetos e através de um comentário feito em entrevista publicada em Papos Contemporâneos por Dau Bastos: No ano 2000 constatei, com certo pesar, que era mortal (...) De repente, contraí uma toxoplasmose. (...) Todavia, não creio que a doença tenha agregado um tom fúnebre ou melancólico à minha poesia. Ao contrário, tratei da morte até com certo humor, e há muitos textos irônicos, leves e solares desse período. Se você observar, a seção mais densa e meditativa da obra – os “Dez sonetos da Circunstância” - não fala propriamente da morte, mas, quase sempre, da perda em vida: evocação de situações e objetos perdidos, não porque morreram, mas porque se transformaram. (Secchin, In: Bastos, 2007, p. 22-23). O poeta Antonio Carlos Secchin demonstra claramente a ligação dos sonetos a uma circunstância biográfica, o artigo definido “a”, utilizado no título da parte para definir diretamente a circunstância, ratifica a ligação com o momento de doença vivido pelo autor. Esta definição já difere os sonetos da poesia de circunstância, pois envolve uma especificidade não expressada pela categoria. Ao inserir na constituição dos sonetos um exame acerca da efemeridade do tempo, o poeta já desconfia da presentificação, implanta um tema próprio do ser humano e diminui o valor da circunstância impondo uma atemporalidade aos sonetos criados inicialmente a partir de um momento crítico da vida, um período de doença. Eucanaã Ferraz em Simples, invulgar define o que seria a poesia de circunstância: “Breve retratos (ou não tão breves) que se esgotariam no tempo do 41 acontecimento ou no estreito circuito da relação interpessoal que o poema põe em foco” (Ferraz, 2008, p. 168). Em “Dez Sonetos da Circunstância”, Secchin utiliza o soneto, forma fixa nobre, para tratar de um caminho poético julgado menor, ou seja, modifica a sentença da circunstância inscrevendo nela alto valor métrico e formal, quebrando a expectativa de um crítico com parâmetros fixos, o qual provavelmente não acharia lugar para encaixar tal poesia secchiniana. No momento que opta pelo soneto, o poeta infla sua poesia com uma perspectiva crítica, elaborando um questionamento ao preconceito em relação à poesia de circunstância, demonstrando que mesmo ao utilizar características próprias àquela poesia, os sonetos podem ser permanentes e abrangentes, sem se esgotarem no tempo. O poeta relativiza o momento no qual estão inscritos os poemas a partir do afastamento irônico da circunstância, transformando algo pessoal e estreito em um drama humano, universal e eterno. Neste momento, serão analisados três dos dez sonetos que compõem “Dez Sonetos da Circunstância”, para através do conhecimento íntimo destes poemas, serem exemplificadas características críticas que compõem a poética desconfiada de Secchin. Os sonetos analisados são “O menino se admira...”, “Repara como a tarde é traiçoeira” e “Poema para 2002”. 42 4.1. “O menino se admira...” No soneto “O menino se admira...”, o eu - lírico tratará da finitude do ser humano frente à infinitude do tempo. Enquanto o homem cresce, envelhece e morre, o tempo segue seu fluxo permanente, sem nenhuma modificação, a mudança provocada por ele acontece somente no interior de cada homem. Secchin demonstra que a circunstância da doença é relativizada através de um tema inerente ao ser humano, o que aparentemente estaria preso à efemeridade do momento, a um presente que se transmutaria em passado, se desdobra a partir da abordagem secchiniana em algo imortalizado e de contínua atualização. A relação entre a finitude e a infinitude atravessa o questionamento contido no capítulo “Dez sonetos da circunstância”, pois o poeta através de uma relação dialógica transforma o que seria uma oposição antagônica em uma forma complementar por meio da transformação de uma circunstância em um tema de relevância humana, e desta forma, um tema eterno. A poética desconfiada de Secchin não admite que o poeta se embriague nas leis que o envolvem, trabalha com um modo de aproximação-afastamento. Ao mesmo tempo em que faz parte da chamada poesia de circunstância, o poeta coloca a forma em cheque ao utilizar o soneto – forma fixa clássica - e ao relativizar a circunstância em que se inscreve. O soneto “O menino se admira” pode ser dividido em duas partes: uma formada pelos quartetos e outra pelos tercetos. Na primeira parte, a situação é apresentada através de um personagem, um modo de exemplificação da teoria sobre o tempo que percorre o poema. Na segunda parte, há uma explicação e um aprofundamento da situação anterior, nos tercetos, o tempo é soberano e aniquilador, vencedor perpétuo de todo ser humano. No primeiro quarteto, o eu - lírico em 3ª pessoa apresenta o personagem do poema sem rosto e sem nome. O personagem não possui rosto, nome ou feição, porque é um retrato com possibilidades de encaixar qualquer homem ou mulher que se veja rendido diante de semelhante situação apresentada no poema. A universalidade temática do soneto já desconcerta a circunstância prévia revelada pelo próprio autor em entrevista: o enfrentamento com a mortalidade. 43 Este personagem, nomeado apenas como menino, se vê diante de um portaretrato com uma foto do passado. Ao se deparar com a imagem, o menino enxerga a si mesmo de forma envelhecida: O menino se admira no retrato E vê-se velho ao ver se novo na moldura: É que o tempo, com seu fio mais delgado, No rosto em branco já bordou sua nervura. A partir do terceiro verso, o eu - lírico introduz uma explicação sobre o sentimento do personagem diante do retrato. Há uma razão para tal sentimento, o tempo já deixou marcas no rosto imaculado da foto. É interessante perceber a personificação do tempo ao realizar a ação de envelhecer o menino e ao caracterizar o rosto como “em branco”. Tal referência ao rosto encontra a indeterminação do menino, celebrando o encaixe de todo e qualquer ser humano àquela realidade. No segundo quarteto, o momento delineado nos dois primeiros versos se desdobra, apontando a efemeridade do tempo, a metamorfose incessante do ser humano, pois como o relógio não para, o menino se verá ainda mais velho ao se deparar novamente com o retrato em um futuro próximo: E por mais que aquele outro não perdure, Quase sombra no relâmpago desse ato, Ele há de ver-se mais antigo no futuro, Vendo ver-se no menino do retrato. O segundo verso do quarteto evidencia claramente a instabilidade do presente, a velocidade em que ele se torna passado. “Quase sombra no relâmpago desse ato”, esta é a imagem do menino ao se olhar no retrato. A imagem presente não chega nem mesmo a se tornar carne, é apenas sombra inserida na alta velocidade de um relâmpago. A imagem é altamente volúvel, perdida na rapidez construtora dos labirintos do tempo. A repetição do verbo “ver”, no último verso do quarteto, carrega uma intensificação semântica em relação ao ato de contemplar a si mesmo no retrato. “Vendo ver-se” expõe, na repetição verbal, o círculo da ação executada pelo menino, que em uma rotina temporal retorna a mirar a foto do seu passado e a se enxergar ainda mais velho do que da primeira vez que efetuou a ação de olhar-se. Os tercetos são introduzidos de maneira explicativa através da junção do verbo ser e do pronome relativo: “é que”. O eu - lírico aprofunda o quadro anterior a partir da 44 aproximação do drama do menino a um drama do ser humano, caracterizando o tempo como subjetivo, há um tempo interior que se transforma na percepção íntima de cada um: É que o tempo, de tocaia em cada corpo, abastece a manhã com voz serena, que pouco a pouco se transmuda em voz de corvo, O primeiro verso do terceto demonstra a característica camaleônica do tempo que fragmenta a si mesmo para estar presente “em cada corpo”, transmutando-se de acordo com o ponto de vista daquele ao qual habita. A referência à manhã expõe a comparação que o poeta faz da vida ao progresso de um dia: a voz ainda é serena, porque a manhã representa o início da vida na qual o fim aparenta ser ainda distante. Porém, quando a noite chega, o término apresenta-se cada vez mais aterrorizador, por estar mais próximo, com isso, a voz é escura e macabra como a voz de um corvo, representante da escuridão e da morte. O primeiro terceto se estende ao segundo continuando os atributos da “voz de corvo”. O verso inicial através da repetição fonética “gu” em “gula aguda” exibe a profunda fome do tempo em se alimentar do homem, a voz deseja arduamente a soberania que explicite a força do solitário sobrevivente: Na gula aguda de ficar sozinho em cena. A moldura vazia denuncia o intervalo: Sobra o tempo e nada ou ninguém para habitá-lo. Os dois versos finais retomam a cena do menino frente ao retrato, porém, diante da imortalidade do tempo e da finitude do homem, a moldura está vazia, pois em sua “gula aguda” de corvo o tempo devorou o menino e a memória. É interessante perceber o uso do vocábulo “intervalo”, já que em uma peça teatral o intervalo acontece quando os atores saem de cena e toda a ação se encerra a espera do retorno dos atores. Em um movimento circular, o tempo está sempre à espera de novas pessoas para habitá-lo, quando irá se repetir a seqüência do dia: a manhã, a tarde e a noite; o homem nasce, cresce, envelhece e morre. Apesar do aparente pessimismo do poema, a rima entre “intervalo” e “habitá-lo” expõe uma ligação semântica entre os dois vocábulos: não há ninguém que habite o intervalo, porém quando o intervalo acabar logo novos atores surgirão em cena. O 45 pessimismo é desconstruído pela rima que denuncia a circularidade da vida, na qual o tempo é eterno e continuamente é renovado por novos fluxos de vida do qual se alimenta. Desta forma, foi possível perceber que o poeta aproxima-se da circunstância da doença que o liga à morte, mas relativiza a situação no qual está envolvido através da inserção de um tema inerente ao ser humano, universal e presente a todo e qualquer tempo, possibilitando ao leitor desconhecer a circunstância que motiva a feitura dos versos. Antonio Carlos Secchin injeta o vírus da desconfiança dentro de sua obra, faz com que o leitor duvide do título do capítulo “Dez sonetos da circunstância”, afastando e aproximando os poemas da poesia de circunstância e da biografia do autor. No soneto seguinte, a ser analisado, o poeta trará novamente o tempo e a morte como temas, porém a metáfora da vida em um único dia trará uma nova abordagem e uma solução bastante distinta de “O menino se admira ...”. 46 4.2 “Repara como a tarde é traiçoeira” Em “Repara como a tarde é traiçoeira”, o eu - lírico construirá uma metáfora que confronta a duração de um dia e os períodos de uma vida. Da mesma forma como o dia nasce na manhã, amadurece durante a tarde e falece no período da noite, a vida possui momentos representados pela manhã (infância e juventude), pela tarde (maturidade) e pela noite (velhice). A partir desta comparação, o poeta demonstrará a efemeridade do tempo e a imprevisibilidade da vida. Como tratamos de um soneto, formado por dois quartetos e dois tercetos, o poema pode ser dividido em duas partes representadas por cada uma das duplas: a 1ª parte formada pelos quartetos e a 2ª parte pelos tercetos. Há uma ligação de complementariedade entre as partes, enquanto os quartetos trazem a situação do eu lírico, os tercetos propõem uma solução para o drama apresentado. É importante assinalar a presença da rima entre os versos pares dos quartetos e entre alguns versos dos tercetos, pois a coincidência sonora trará um reforço semântico aos vocábulos envolvidos e uma concordância harmônica com a solução final, que ficará evidente ao ser analisado o último terceto. A primeira estrofe nos insere ao tema do poema, principalmente porque logo após o primeiro verso há o sinal de dois pontos, neste caso, introdutor de uma explicação, que se desdobrará até o fim do segundo quarteto. Os versos definirão o motivo do adjetivo qualificador da “tarde”, a razão de ela ser traiçoeira. Tarde é, como foi dito anteriormente, a maturidade da vida do ser humano e também o auge do dia, no entanto, como o tempo é efêmero, o imprevisível pode surgir quando nos achamos imortais e no ápice de nossas vidas: Repara como a tarde é traiçoeira: dentro dela se abriga o desengano de um dia que acabou sendo somente um resto de boneco, arame e pano. Nos três versos finais do quarteto, o eu - lírico demonstra como o tempo é ardiloso e pode vetar o dia ou a vida antes dos projetos e das realizações se concretizarem. A tarde tem o poder do anti-ilusionismo, de desfazer o nosso engano da imortalidade, tão poderoso na infância e na juventude. A imprevisibilidade da morte 47 pode causar a não-conclusão de um plano, fazendo com que o boneco projetado fique apenas no material que o comporia não conquistando vida e forma. Faz-se necessário para ratificar a desconstrução da circunstância, dentro da arquitetura construtora de “Dez sonetos da circunstância”, uma fala do poeta Antonio Carlos Secchin em entrevista sobre um evento de sua vida que dialoga diretamente com o tema de “Repara como a tarde é traiçoeira”: No ano 2000 constatei, com certo pesar, que era mortal... até então, a idéia da morte era algo que me soava tão longínquo quanto um pôr-dosol em Netuno. De repente, contrai uma toxoplasmose (...) A poesia, represada há tanto tempo, retornou com intensidade.(Secchin, In: Bastos, 2007, p. 22). É possível enxergar a ligação entre a circunstância da vida do autor e o poema em análise. Contrair a doença foi o desengano, o anti-ilusionismo de uma maturidade aparentemente plena e segura, mas na verdade traiçoeira. É importante enfatizar que essa leitura não é biográfica, no entanto utiliza-se ironicamente da biografia do autor para afastá-la da obra literária. É um caminho para ratificar a desconstrução da circunstância feita por Secchin através da poética desconfiada, do movimento de aproximação-afastamento do poema. O poeta transforma um fato de sua vida em um tema universal inerente a todo ser humano, esfumaça a circunstância e impessoaliza a discussão sobre o tempo e a perda em vida. O segundo quarteto é iniciado com um advérbio de tempo que evidencia a antecipação do fim ou a diminuição do tempo do dia (vida) do eu - lírico. Esta redução enfatizada pelo advérbio faz com que o eu do poema perca muitas possibilidades não concretizadas, transforma projetos e sonhos em fotografias amareladas sobre a mesa: Previamente me abraçam a noite e o dano de tudo que não foi compartilhado senão feito um pão velho sobre a mesa na espera seca e vã do inesperado. A noite evidencia a escuridão e, com isso, o não viver, que pode ser ligado tanto a uma vida medíocre quanto à morte. O substantivo seguinte “dano” demonstra a ferida causada pela não concretização de planos, e a rima entre os vocábulos “compartilhado” e “inesperado” corrobora para concluir a frustração do eu - lírico frente ao baixo aproveitamento da vida, a falta de emoções e de ligações em uma existência vazia. 48 No primeiro terceto, o eu - lírico inicia a busca por uma solução para a efemeridade do tempo e para o sofrimento que “o dano de tudo que não foi compartilhado” pode causar. Ao iniciar o verso com o advérbio de negação “não”, o poeta destaca o movimento de saída da situação apresentada nos quartetos, este processo de negação mantém-se até o primeiro verso do terceto seguinte, antecedendo o recurso dos versos finais: Não me consola a música do mundo, nada espero que acene em meu socorro; se a imagem do presente paralisa, O eu - lírico evidencia, neste terceto, a incapacidade de solucionar a situação no qual se encontra, estado de prisão que o paralisa e “opõe-se” aos dois versos finais no qual o eu escolhe um rumo a ser tomado. É interessante ressaltar que a saída buscada não soluciona o “presente” que “paralisa”, aparentemente apenas exalta o não preocupar-se com a condição a qual está submetido. A rima, entre o segundo verso e o primeiro verso do terceto seguinte, expressa um aspecto relevante no tecer poético do soneto. O vocábulo “socorro” e o sintagma “não morro” expressam unidos uma rejeição ao passado tanto do eu - lírico quanto do poema, apregoam um individualismo bastante forte na psique da voz que fala: não há esperança no outro, mas apenas em si mesmo. O socorro não vem de ninguém, surge nas entranhas do eu em busca por modificar o presente: de passado é bem certo que eu não morro. Indiferente à sorte ou ao inferno, Não tenho tempo para ser eterno. O poeta constrói mais uma rima significante, nos dois versos finais, entre “inferno” e “eterno”. Se pensarmos em “eterno” como adjetivo de “inferno”, há uma ênfase no não desejo de prolongar o momento doloroso, porque “não há tempo para ser eterno”; mas se focarmos apenas na harmonia sonora, é possível perceber o desejo de mudança e também a tomada de consciência do eu - lírico diante da mortalidade a qual possibilita a modificação de uma vida tranqüila em um viver o agora intensamente. A voz do poema inicia o segundo verso através do adjetivo “indiferente”, reforçando a importância do presente em oposição ao passado (que não mata) e ao 49 futuro (incerto e traiçoeiro), evidenciando a solução de insensibilidade alcançada, sobre a circunstância pouco favorável delineada nestes versos. No último verso, há novamente o advérbio de negação “não” trazendo a saída para o momento tecido pelos quartetos e coroando a presentificação da vida, o preocupar-se com o momento presente e o esquecer de qualquer preocupação futura, pois diante da inconfiabilidade do tempo não é possível prever quando um sonho terminará em “um resto de boneco, arame e pano”. Desta forma, o poeta Antonio Carlos Secchin constrói uma circunstância cinicamente subjetiva pois através de um adentramento-distanciamento emocional com os versos, o poeta transforma um problema interior do eu - lírico em um enigma universal do ser humano: como reagir frente aos olhos da escuridão? Qual decisão tomar diante da efemeridade do tempo? Qual caminho seguir perante a certeza da incerteza do amanhã? A ironia da poética desconfiada sorri ante a mutação da circunstância pessoal em um sentimento inerente a humanidade, melindra-se da datação do poema através dos fios manipulados pelo poeta para a construção de versos que sensibilizam com o episódio, mas que também se expandem a um drama ainda maior, um drama humano. Mais ainda, ironicamente faz com que o autor, por meio dos versos, tenha tempo de ser imortalizado. No capítulo seguinte será analisado o soneto “Poema para 2002”, o qual irá se embrenhar mais profundamente nas areias biográficas e trará de forma contundente o riso irônico frente aos problemas tão comuns ao ser humano. 50 4.3 Poema para 2002 Em “Poema para 2002”, o eu - lírico trará um riso irônico em relação à passagem do tempo, à idade alcançada por um ser humano. Algo que deveria ser comemorado, através das conquistas trazidas pela experiência, é desconstruído e coroado pelos danos, por coisas ruins que arquitetaram uma vida. O soneto é formado basicamente por substantivos e adjetivos relacionados diretamente ao eu – lírico, apenas no último quarteto aparece a chave que reunirá todo o poema em volta da comemoração ou da realização dos cinqüenta anos de quem escreve. O poema se relaciona de forma irônica com a biografia de Antonio Carlos Secchin, já que o poeta comemorou cinqüenta anos em 2002. Não há como discernir claramente a ficção da realidade dentro dos versos, o poema de circunstância ganha aspectos literários, as características listadas dentro do soneto estão atreladas à incerteza artística empregada. A pessoa e o poeta Secchin se unem num lúdico jogo entre riso e choro, entre piada e realidade, onde o leitor não consegue escolher entre um dos dois caminhos. A ironia questionadora aparece em cada uma das estrofes do soneto modificando valores de palavras: Caxumba, catapora, amigdalite, miopia, nevralgia, crise asmática. dor de dente, dor de corno, hepatite, diabete, arritmia e matemática. Em um quarteto onde são listadas doenças físicas do corpo humano, o eu - lírico desmonta ironicamente “dor de corno” e “matemática”, modificando os valores destas palavras: “dor de corno” que é algo psicológico se transforma em físico e “matemática”, uma ciência, uma matéria escolar, se transforma em uma doença que faz sofrer como uma “caxumba” ou uma “catapora”. No segundo quarteto, a listagem se modifica, não serão doenças listadas, mas sim, medos psicológicos e, nesta lista, o riso se espalha com várias modificações de valores semânticos: Helenas, Marianas e Marcelos, tomate, hipocondrias e chicória, 51 sacerdotes, baratas, pesadelos, calvície, dentadura e desmemória. Os medos se arrastam por todo o quarteto, no entanto, os temores a pessoas, a sacerdotes e à velhice, que já chegou, trazem um alto grau de humor aos versos. É importante ressaltar o humor autocrítico do eu - lírico que permite graça com os seus problemas e se protege de deboches alheios. O primeiro terceto mantém o tom dos quartetos anteriores, porém, desta vez, a autocrítica explicitada no parágrafo anterior aparecerá mais contundente, já que o eu – lírico listará características próprias, mantendo o jogo continuo entre realidade e ficção: Pé quebrado, verso torto, ruim de bola, nervoso, nariz grande, cu de ferro. Desastrado, imprudente e noves fora. O riso contínuo do poema esconde um choro compulsivo em relação aos problemas listados durante a vida que constroem a personalidade que escreve. Apesar do humor, não há como se desvencilhar do lamento nas entrelinhas. O último quarteto traz a conclusão, a chave para a interpretação e o entendimento do poema, através de seus versos pode-se perceber a razão das listagens feitas anteriormente, a união de fatos e características contrárias à felicidade que construíram os cinqüenta anos do eu - lírico: Muita prosa pr‟um gozo quase zero. E para coroar todos os danos Bem-vindos sejam os meus cinqüenta anos. O poeta enxerga os cinqüenta anos como mais um dos danos de sua vida, por isso, ao completá-los, coroa “todos os danos” listados nas estrofes anteriores. Não há nada de positivo nos problemas do inventário, feito nos quartetos e no primeiro terceto, a tristeza se esconde ligeiramente atrás de cada uma das palavras empregadas no soneto, mas se disfarça como um camaleão se transmutando em riso, em humor, em piada. O eu - lírico une os dois sentimentos durante toda a construção do soneto, a mesma dor encontrada nos outros sonetos da circunstância aparece dissimulada através do deboche irônico. “Poema para 2002” se insere ainda mais fortemente dentro do jogo biográfico de “Dez sonetos da circunstância”, porém não permite a separação entre o ponto de vista 52 ficcional e o ponto de vista biográfico no interior de seus versos. Não é possível para o leitor perceber nitidamente onde começa o eu - lírico do “Poema para 2002” e onde termina a pessoa Antonio Carlos Secchin, ficção e realidade se interpenetram em um questionamento irônico dos danos de uma vida e das possibilidades de se fazer literatura diante de uma circunstância ou de um dado biográfico. O soneto em jogo lúdico humorístico descontrói pré-conceitos da crítica literária em relação à circunstância e à biografia e desmonta simultaneamente opiniões fixas sobre a poesia de circunstância. “Poema para 2002” faz com que o poeta se envolva emocionalmente com o eu, mas permite que ele se afaste através da critica e do humor, mantendo um jogo de ambigüidades contínuas durante todo o soneto. 53 5. As artes de amar em “Variações para um corpo” Amor – pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva Amor guie o meu verso, e enquanto guia, reúna alma e desejo, membro e vulva. (Carlos Drummond de Andrade) O 3º capítulo da parte “Todos os ventos” chama-se “Variações para um corpo”. É formado por cinco poemas amorosos: “Três toques”, “Tela”, “À noite”, “Artes de amar” e “Noturno”. O capítulo possui este nome, porque Secchin através de um único tema (o amor) criará poemas distintos, construirá “variações para um corpo”, ou seja, versos diferentes para um só tema. Focar-se-á, neste capítulo, a diversidade artística que um único tema pode compor; como o poeta trata as diversas formas de amar, transformando-as em múltiplos poemas; e o questionamento da unanimidade estética. O eu - poético mantém e reforça mais uma vez a sua capacidade camaleônica, o dom de atuação inerente à sua poesia. O poeta irônico, como foi dito anteriormente, se transmuta de maneira contínua, adquirindo diversas máscaras com as quais não se identifica por completo, apenas de forma momentânea. Secchin é o poeta ator por excelência, veste-se de um personagem a cada peça encenada, modifica-se sucessivamente em cada poema, aproximando-se e se afastando criticamente da máscara vestida. Literatura não é apenas tema, e o poeta demonstra isto neste capítulo de “Todos os ventos”, impondo diversas formas a um único tema amoroso. O tema é revestido de artes de amar, e através dessa multiplicidade, Secchin aborda em cada um dos cinco poemas uma forma amorosa distinta. O humor, por exemplo, aparece em “Três toques”, onde o eu - poético ri dos problemas amorosos encontrando na arte a solução dialética: “Tiro você da vida / e boto você no poema”. As crises amorosas que poderiam construir um poema de dor e sofrimento, em Todos os ventos, erguem versos bem humorados e risonhos. O eu - poético demonstra o círculo de percepção variante em cada um de nós. Um modelo, em muitas ocasiões, é o mesmo para diversos artistas, todavia cada individualidade fixará no poema a seu modo. O poeta, neste capítulo, veste o eu poético em torno de cinco pontos de vista, filtra por focos múltiplos o tema amoroso: o amor à natureza, ao humor, à homossexualidade, às ciências e à noite. Assim, a partir das múltiplas perspectivas diante de um tema, pretende-se analisar três poemas 54 constituintes do capítulo “Variações para um corpo”: “À noite”, “Artes de amar” e “Noturno”. 55 5.1 À noite À noite todas as palavras são pretas todos os gatos são tardos todos os sonhos são póstumos todos os barcos são gélidos à noite são os passos todos trôpegos os músculos são sôfregos e as máscaras, anêmicas todos pálidos, os versos todos os medos são pânicos todas as frutas são pêssegos e são pássaros todos os planos todos os ritmos são lúbricos são tônicos todos os gritos todos os gozos são santos “À noite” é um poema formado por 14 versos sem metrificação regular e sem rima, entretanto é regido por um ritmo sintático constante em cada um dos versos. O eixo paradigmático envolve o poema através do adjunto adverbial “À noite”, produzindo construções equivalentes a cada verso, além da repetição de “todos” e “são”, que em alguns momentos se invertem em “são” “todos”. Neste poema, o eu - poético transmuta-se em luz para revelar as transformações de componentes do mundo diante da penumbra e das paixões. Na escuridão, o erotismo natural esconde a timidez moral, metamorfoseando o rubor da face tímida em vermelho das paixões ardentes. Aqui o tema amoroso toma forma de um erotismo inerente a todas as coisas, um Eros construtor de mundo. O Eros cosmogônico que Souza trata nas três últimas sagas de Corpo de baile de Guimarães Rosa: Realiza a hierogamia de Gaia e Ouranos ou as núpcias da terra e do céu, de que decorrem os pares contrários femininos e masculinos, que se acasalam e perpetuam a sacralidade cósmica do ato genesíaco. Como propiciador da tensão harmônica da cópula dos contrários, Eros atua como instituidor de uma diacosmese, de um ordenamento cósmico inteiramente impregnado de poder erótico. (Souza, 2008, p.223) Gradativamente, os versos ganham em sensualidade e, no ápice do poema, o último verso une sacro e devasso, claridade e escuridão, exemplificando a reunião de 56 contrários própria da poética irônica e do Eros cosmogônico: “a unidade poética da ironia compõe-se de dois em um ou de um em dois”. (Souza, 2006, p. 40). No primeiro verso, a palavra é revista sob a luz da noite. A palavra, símbolo da comunicação, abstém-se da clareza e do entendimento. Busca o silêncio ou ruído, pois à noite “todas as palavras são pretas”, são escuras, revestem-se do segredo, do sigilo de atos não revelados na lucidez do dia. O segundo verso revela a lentidão da astúcia, tranqüila ao estar protegida pelo manto denso da escuridão. Os gatos, símbolos da agilidade, à noite “são tardos”. Os felinos, na madrugada, com costumes fugitivos, se enroscam nas entranhas da paixão, deixando-se serem tocados e enlaçados. A luz erótica secchiniana abre os braços para a furtividade secreta dos deleites noturnos. Os insones não sonham nas trevas, habituam-se a existir, a dar vida à noite. Por isso, “todos os sonhos são póstumos”, os que vivem na noite só nascem para o sonhar, no momento em que o dia vive e a noite morre. Os sonhos só nascem após a morte da noite, assim são póstumos. No quarto verso, o eu - poético paralisa as embarcações durante a noite. “Todos os barcos são gélidos”, são congelados, pois, aqueles que comandariam a viagem, estão entorpecidos em sono ou hipnotizados por encantos furtivos revelados pela claridade das sombras. Desta forma, o erotismo gradativamente vai tomando posse dos versos. O adjetivo “trôpegos” constrói a forma do quinto verso, ao somar o adjunto adverbial “à noite” ao verso, o eu - poético faz do anterior ritmo ligeiro mais arrastado. O tema vira forma através de uma simples modificação métrica. “À noite são todos os passos trôpegos”, se arrastam inertes pelo gozo. As pernas bambas, as câimbras, embriagam todo o corpo em um torpor de ameno néctar amoroso. No sexto verso, a sexualidade é representada pelo vocábulo “músculo”. Os órgãos sexuais e os membros, constituídos por músculos, durante a noite estão ávidos, sedentos de satisfação. Na claridade, a fome sexual corrói o corpo e, na escuridão, “os músculos são sôfregos”, apressados e famintos pelo alimento. Nas trevas, os disfarces sociais anulam-se sem necessidade de dissimulação. Tudo o que escondemos do mundo se revela em atitudes promíscuas aos olhos do dia, mas naturais às vistas da noite. Por isso, “as máscaras, anêmicas”. As máscaras sociais são frágeis, se quebram com facilidade nas torpezas da escuridão. No emaranhado trevoso deixa-se a maquiagem social de lado e libertam-se os verdadeiros desejos do corpo. 57 Em uma simbologia comum, poesia está intimamente relacionada a versos de amor, castos e românticos. Partindo deste ponto de vista, o oitavo verso demonstra a pouca expressividade de poemas castos durante a noite. A concretude noturna de atos subversivos desautoriza a pureza angélica de amores platônicos e inocentes, com isso, “todos pálidos, os versos”. Palidez relacionada ao branco cândido, palidez que não possui vida nos becos escusos da noite. O nono verso relaciona-se diretamente com o sétimo verso, ao libertar o corpo das algemas sociais, a noite tonifica o que compõe o homem. O que escondemos se revela camuflado pelas sombras, assim, “todos os medos são pânicos”, todas as paixões gritam. O que estava contido pelo arcabouço solar se emancipa grandioso, fortalecido e vigoroso. Um amor contido à noite se transmuta em paixão sedenta, assim, como um medo oculto, torna-se uma fobia. À noite as paixões se inflam e cegam os sentidos, fazendo de “todas as frutas”, “pêssegos”. Ou seja, os gostos diversos são transmutados em paladares sexuais, a fruta é símbolo sexual, principalmente pela maciez e pela natureza pubescente, que se assemelham ao órgão sexual feminino. À noite, todos são amantes. No 11º verso, os desígnios, os intentos voam esquecidos em uma busca pela presentificação do prazer. À noite é importante viver o momento intensamente, liberto de todas as coerções morais, por isso, o eu – poético ilumina o esquecimento do futuro no instante do prazer: “e são pássaros todos os planos”. Os projetos futuros ganham asas mnemônicas, passam a ser memórias distantes na escuridão que busca o prazer imediato. “Todos os ritmos são lúbricos” com o afastamento de luzes da moralidade. A transgressão erótica revela-se à noite através da sensualidade inerente a todas as coisas, a erotização derrama-se através do brilho da penumbra que distancia a moral. Com isso, cada componente da noite torna-se sensual, úmido, inclusive o ritmo que compõe o próprio poema: uma repetição contínua com leves variações que nos proporciona o gozo final. Relacionando o 13º verso ao 9º, podemos novamente compreender a intensificação dos elementos durante a noite. Lembrando ainda que o poema começa tratando de palavras negras, ou seja, vocábulos silenciados na escuridão. Assim, é possível compreender a razão de serem “tônicos todos os gritos”. Em um lugar composto por silêncio, um mero som ressoa intenso, deste modo, nas trevas, o grito é 58 sempre tônico, ainda mais se tratando de brados de prazer simbolizando a libertação das paixões. No último verso, o eu - poético coroa a erotização da noite e suas paixões através da união do sacro e do devasso, reveste de elevação as paixões terrestres, liga céu e terra sacralizando o prazer: “todos os gozos são santos”. Em “À noite”, Secchin trata o tema amoroso à luz das paixões humanas, compondo através de cada verso a erotização do mundo que ocorre a partir da camuflagem das sombras, na qual a desconstrução da moralidade social ocorre naturalmente. Deste modo, apresentou-se uma das abordagens do tema amoroso feita por Secchin. Agora, será analisado o poema “Artes de amar”, que trata de maneira singela, e bastante distinta, o tema central da parte “Variações para um corpo”. 59 5.2 Artes de amar O poema “Artes de amar” é composto por três estrofes, o primeiro verso funciona como um pequeno subtítulo a ser explorado pelos versos seguintes da mesma estrofe. Não há metrificação regular e a rima aparece em todas as estrofes. O eu poético reúne a paixão e o amor a algumas ciências, construindo a partir delas a definição das “artes de amar” de cada estrofe: “paixão e alpinismo”, “paixão e astronomia” e “amor antigo e matemática”. Secchin, neste poema, torna a conversar com a tradição literária, sendo desta vez, o poeta latino Ovídio e o livro Arte de amar os alvos do diálogo. Em Arte de amar, Ovídio aconselha aos amantes, nos jogos de sedução, com uma linguagem simples e direta em forma de versos, aparentando uma conversa de um tutor com seus discípulos: Não basta que, pela força dos meus versos, ao teu encontro tenha vindo a amada; pela minha arte foi ela conquistada, pela minha arte a hás de conservar. Menor engenho não precisas Para manter as conquistas, do que aquele que usaste para as realizar. na conquista o acaso toma parte. A conservá-la te ensinará a minha arte. (Ovídio, 1992, II, 11 – 14) Secchin utilizará a linguagem como Ovídio em Arte de amar: os versos do poema “Artes de amar” empregam uma dicção simples e direta tratando de maneira lúdica as formas de amar. O eu - poético veste a máscara de Ovídio não para aconselhar os leitores, mas para definir algumas das artes de amar através da luz de outras ciências. È importante ressaltar a utilização do plural do substantivo “arte” no título do poema, diferenciando-o do singular empregado pelo poeta latino. Ovídio demonstra apenas uma forma de amar, enquanto Secchin explora uma multiplicidade de aplicações para o sentimento, reunindo ao amar três ciências distintas que proporcionam, aos envolvidos, sensações diversas. Na primeira estrofe, a ciência empregada é o alpinismo. A partir do verso “paixão e alpinismo”, que funciona como um subtítulo, se desenrolará o conteúdo da estrofe. O eu -poético utiliza o esporte de escalada para definir a sensação interna dos 60 envolvidos com esse tipo de paixão. Através da comparação, dos sentimentos de um alpinista aos sentidos dos amantes, será definida a primeira arte de amar: paixão e alpinismo sensação simultânea de céu e abismo A arte de amar nomeada “paixão e alpinismo” carrega em si dois sentimentos unidos, o de paraíso e o de inferno, em uma verticalidade constantemente temerosa. É importante ressaltar a rima da estrofe entre as palavras “alpinismo e abismo”, porque a harmonia sonora dos vocábulos demonstra qual das sensações é soberana sobre aqueles indivíduos a mercê dos laços da paixão. Como o eu - poético secchiniano está em constante desconfiança, neste momento, ele desconfia de uma paixão paradisíaca e reúne o inferno, representado pelo abismo, a esse sentimento. Na segunda estrofe, a ciência aplicada é a astronomia. Será a única forma de amar do poema a revelar apenas um lado positivo do sentimento. Nesta arte não há mazelas, apenas felicidades: paixão e astronomia mais do que contar estrelas vê-las à luz do dia O eu - poético demonstra que esta arte de amar mantém o sonho do belo sentimento, mesmo na distância dos amantes. É um sentido que permanece durante todo o círculo do dia, não exclusivamente no instante de amor. As estrelas avistadas pelo casal, enquanto o encontro ocorria, ficam fixadas nos olhos dos amantes, revivendo constantemente aquele sentimento de felicidade. É importante destacar as rimas desta estrofe, pois é a única estrofe onde todos os versos rimam, estão todos envolvidos inteiramente na plenitude desta arte de amar. Os vocábulos “astronomia” e “dia” exemplificam a ideia desta paixão, abrindo e fechando a estrofe. Aqui, os amantes estão no céu em todos os momentos. Na terceira estrofe, a ciência empregada será a matemática, mas desta vez, não unida à paixão, mas sim ao amor antigo. O humor, tão presente nos versos de Secchin, retorna à cena, utilizando ironicamente a disciplina escolar tão amarga à maioria dos alunos para uni-la a um sentimento tão almejado, ligando a lógica a uma emoção fortemente ilógica: 61 amor antigo e matemática equação rigorosa: um centímetro de poesia dez quilômetros de prosa Nesta quadra, a união de sentimentos opostos retorna, mas de forma desproporcional, não dividida igualmente como na primeira arte de amar. A felicidade é dez milhões de vezes menor do que os aborrecimentos. O vocábulo “prosa” é símbolo de discussões longas, conversas compridas, enquanto que a “poesia” representa o instante sublime de deleite. Para o eu - poético, o amor antigo é uma “equação rigorosa”, não permite soluções diferentes da que foi apresentada, assim os momentos de céu são escassos nesta arte de amar, a mais depreciada entre as três formas do poema. A voz ovídica do poema dá ênfase às paixões, principalmente àquela que permiti um distanciamento entre os amantes, pois a única arte de amar sem lado negativo é a “paixão e astronomia” que revela no poema o desligamento temporário entre o casal. “Paixão e alpinismo” demonstra um enlaçar constante: a necessidade de firmeza, já “amor antigo e matemática”, expõe a temporalidade anciã entre os envolvidos em um amor distante da paixão e de relação permanente. Desta forma, Secchin em “Artes de amar” trata o tema amoroso à luz do diálogo com o poeta latino Ovídio, definindo maneiras de amar através de uma dicção simples. Aborda o tema amoroso em um feitio completamente distinto de “À noite”, direcionando um novo ponto de vista ao modelo central da parte “Variações para um corpo”. Agora, será analisado o poema “Noturno”, que traz veladamente a homossexualidade como mais uma das artes de amar, mais uma das paixões humanas. 62 4.3 Noturno “Noturno” é um poema narrativo composto por 40 versos sem metrificação regular. O eu - poético se metamorfoseia em narrador de um retrato da vida de uma “prostituta” das areias de Copacabana. O tema amoroso se infla de paixões noturnas em volta da homossexualidade. Secchin através de jogos de palavras e metáforas lúdicas constrói veladamente o romance sexual entre um policial e uma “prostituta”. O poema é dedicado a Ricardo Thomé, ficcionista e poeta, centrado no homoerotismo, e a voz poética se veste do homenageado tomando o tema amoroso de seu ponto de vista. Secchin, como poeta irônico, compõe sua poética de múltiplas concepções, trazendo uma pluralidade de percepções em relação a um único assunto. A parte “Variações para um corpo” coroa essa característica da poética desconfiada, pois, ao se transformar em diversas vozes, o poeta injeta a descrença na unanimidade, apostando em peças distintas para arquitetar o quebra-cabeça. O modelo se fragmenta e se constrói a partir dos estilhaços representados pelas diversas sensibilidades diante de si. Cada câmera foca uma parte erguendo, através da união de câmeras, um todo multifocal. Com isso, Secchin, por meio de cinco poemas, concebe o tema amoroso de cinco pontos diferentes trazendo uma multiperspectivação do tema e da forma dos versos que compõem “Variações para um corpo”. Em “Noturno”, a perspectiva é homoerótica, o personagem principal do poema é um travesti, profissional do sexo. A erotização e o desejo reúnem, em um único ser, homem e mulher. Concatenam contrários na sexualidade vendida do travesti. O poema pode ser dividido em quatro partes: descrição geral, descrição da personagem, 1ª ação e ação final. Cada uma das partes é formada por 10 versos. Na 1ª parte do poema, o eu - poético transfigurado em narrador descreve os profissionais do sexo localizados na praia de Copacabana. Delineia já reunindo o masculino e o feminino que farão parte da personagem principal. Os quatro primeiros versos revelam a essência masculina dos desejos e dos profissionais à beira mar. É importante perceber o jogo de palavras que inicia o poema. Já no 1º verso, o eu - lírico brinca com os naipes do baralho e com o nome do lugar. Neste jogo erótico, as cartas são dadas aos reis por damas sedentas de poder e dinheiro: Os reis de Copa ostentam eretas 63 espadas mestras em frente ao mar O naipe escolhido para caracterizar os reis é representado por um coração, símbolo do amor. Entretanto, aqui, o amor é a paixão, é o emblema da sexualidade: os homens expostos “em frente ao mar” são doutores no amor, mestres no sexo. Há referência no terceiro verso a outro naipe do baralho, espadas. Neste caso, o naipe constituirá o órgão sexual masculino, símbolo de poder e força. É relevante perceber a rima entre “mestras” e “eretas”, tal semelhança sonora reforça a habilidade dos reis em manipular as espadas quando levantadas. O verso seguinte revela mais uma astúcia vocabular de Secchin. Utiliza-se da palavra “transatlântico” para caracterizar o desejo, dando um duplo significado ao sentimento - desejo de transa e desejo de viagens, conquistas: Transatlânticos desejos encalhados na areia Os desejos, além de carregarem o duplo significado de “transatlântico”, estão presos na areia, amarrados àqueles expostos “em frente ao mar”. “Encalhados” tanto no interior de cada “rei” como na rotina de trabalho atrelada às areias de Copacabana. Nos versos seguintes, o eu - lírico mistura o masculino e o feminino, da essência do personagem principal, novamente através de uma astúcia vocabular com os naipes do baralho. O poeta une poesia e jogo, aposta amorosa e apostas financeiras de um jogo de azar, das cartas noturnas: Damas de paus e valentes seios expostos à carícia de dólares e brisas. O verso “damas de paus” demonstra claramente a ambigüidade do sintagma preposicionado, apontando tanto para o naipe do baralho quanto para o órgão sexual masculino. Há também no verso seguinte uma finura sonora que segue o mesmo padrão do anterior, unindo o masculino e o feminino: “valentes” lembra “valete”, representante masculino do baralho, normalmente de valor mais baixo que as damas e os reis. A coincidência sonora destaca ainda mais a união entre masculino e feminino: “valentes seios” soa como mais uma cartada de mescla entre os sexos. 64 Lembremos ainda que os corpos estão “expostos à carícia de dólares”, porque estão sendo vendidos para a utilização amorosa sexual em uma aposta na qual quem der mais ganha mais, quem aposta o dinheiro nos naipes descritos anteriormente recebe a recompensa e a satisfação sexual. O verso seguinte inicia a segunda parte do poema que nos apresentará o personagem principal da narrativa construída. Tal figura encaixa-se no perfil geral da classe descrita na primeira parte do poema, ou seja, é um profissional do sexo masculino travestido em mulher: Eis Lisbeth, ou João Batista, ouro puro do subúrbio, ex-ás do cais do porto, atual contorcionista do pescoço de pilotos à procura de conquistas A hibridez do personagem surge já no primeiro verso, o eu - lírico apresenta-o em uma duplicidade representada por dois nomes, “Lisbeth”, o estado presente da prostituta, e “João Batista”, o passado masculino de um trabalho no porto. A soma da dupla personalidade que irá definir a figura principal do poema. Os versos seguintes seguem um padrão de adjetivo, caracterizando Lisbeth. “Ouro puro do subúrbio” é a primeira qualidade apresentada pelo eu - lírico ao personagem, e irá definir a intensidade dos atributos consecutivos, um ligado ao passado e outro ao presente. Lisbeth ou João Batista é “ouro puro”, ou seja, executa perfeitamente suas funções: quando trabalhava no porto era um ás, assim, um exímio executor do trabalho a que se propunha, agora é “contorcionista do pescoço de pilotos”, desta forma, perito na arte de seduzir, atrair e proporcionar prazer aos clientes “à procura de conquistas”. Seja Lisbeth ou João Batista, a personagem é especialista na arte e no trabalho que efetua. Os quatro versos finais da segunda parte continuam a caracterizar o personagem, mas desta vez, focando-se no físico, mais especificamente no rosto, expondo a necessidade de modificação da face de João Batista para ser convincente como a mulher Lisbeth: O seu rosto é reformado Por algum cirurgião-artista Pois queixo, nariz e olhos 65 Revelam influência cubista. O rosto foi “reformado”, ganhou nova forma para poder haver a metamorfose do homem em mulher. É interessante ressaltar a qualidade do cirurgião, que por ser artista transformou a face de Lisbeth em um quadro cubista. Na primeira impressão, o rosto deve ser um tanto estranho, porém, por ser arte, é admirado e exaltado, criando um número grande de admiradores. Após a descrição, surge a terceira parte do poema caracterizada pela ação inicial do trabalho sexual de Lisbeth. Os dois versos primeiros irão descrever e nos introduzir no cenário onde ocorre o ato: Passeiam pares de bicicletas Sob um céu abotoado de estrelas. Percebe-se a natureza e o ser humano juntos diante de um céu cheio de belezas. As bicicletas exemplificam o cenário da praia onde as pessoas passeiam durante a noite e, ainda, demonstram os casais amorosos por estar destacado o substantivo “pares”. O eu - lírico cria um pano de fundo, mas logo depois nos desloca para os desvios furtivos ocultos aos olhares comuns. Troca o plano geral por um foco que nos posiciona diante de uma vida noturna encoberta pela névoa dos olhos inocentes: Na luz plástica dos postes passam famintas pombas pretas. Fome de tudo, em meio à neblina: saliva, esperma, cocaína. O poeta enquadra um novo cenário através da “luz plástica dos postes”. Neste local, a fome corrói os organismos, mas não é uma fome qualquer, e sim de “saliva, esperma, cocaína”. É importante perceber o uso da palavra “neblina”, para caracterizar o lugar, pois tal modo demonstra a qualidade furtiva dos atos interpretados ali. O vocábulo “neblina” rima com “cocaína” ressaltando através desta coincidência sonora, a necessidade de camuflagem da ação desempenhada e representada pelo verso “saliva, esperma, cocaína”. Este último verso une o cenário à ação desenvolvida a seguir na qual esbarramos novamente com Lisbeth desempenhando o papel de profissional do sexo: O bigode roça a nuca sôfrega. E enquanto o corpo exala e treme 66 Passa, ácida, a patrulha De um insone PM. O roçar na nuca demonstra a atividade homossexual evidenciada no poema. Haverá o encontro da lei com movimentos ilícitos, enquanto o ato sexual ocorre nos becos furtivos “passa (...) a patrulha”. A rima entre “treme” e “PM” corrobora para uma ambigüidade semântica em relação ao verbo “tremer”, já que ele pode estar relacionado à tremura sexual, ao prazer, mas também pode relacionar-se com o medo do policial, uma vez que o comércio sexual não é uma atividade “regularizada”. Após a primeira ação, há o início da última parte do poema representada pelo ato final no qual a polícia e Lisbeth relativizam a lei através de um acordo benéfico a ambos: O amor é de lei Ou desviado? Pouco importa; A polícia, na maior parte, Só sabe celebrar Os rituais de Marte No questionamento inicial desta parte, há um jogo sonoro de palavras que nos permite enxergar mais de um significado a pergunta: “o amor é de lei ou desviado?”. O primeiro verso liga o amor ao policial e a uma generalização da necessidade humana de amar, se o amor é lei, todos devem segui-lo. No verso seguinte, há a segunda parte da pergunta: “o amor é desviado?”. Esse questionamento faz uma aliança do amor com Lisbeth de duas formas distintas: a primeira é por Lisbeth trabalhar com o “amor” ilegalmente, vendendo o corpo em um comércio sexual não permitido pela lei; a segunda é através do jogo sonoro “desviado” igual a “de viado”, ou seja, como o personagem é um homossexual, um travesti, o amor para ele é gay ou chulamente “de viado”. No entanto, o eu - lírico relativiza o valor da resposta a esta pergunta, o amor não importa para homens acostumados à guerra. É importante perceber a exceção incluída discretamente nos versos, já que o poeta, ao caracterizar a polícia como seres de Marte, do Deus da guerra, ele coloca entre vírgulas a expressão “na maior parte”, destacando desta maneira uma advertência à generalização, que será de suma importância para a conclusão do poema. Inclusive há uma rima entre “parte” e “Marte” para evidenciar ainda mais claramente a exceção, encarnada nos versos pelo “insone PM”. 67 O verso seguinte é iniciado pela conjunção adversativa “mas”, demonstrando uma oposição ao conteúdo anterior representado pela sentença: “a polícia só sabe celebrar os rituais de Marte”. Afasta-se, desta maneira, da batalha, da guerra e da punição e aproxima-se do amor: Mas frente a ímã tão terreno Caos e lei se entredevoram Em cabine ao abrigo do sereno. Ao guarda rapaz apraz, ao menos, A ronda noturna no planeta Vênus. A beleza e perícia de Lisbeth seduzem o guarda, que esquece o dever e a lei, e faminto devora o travesti dentro da cabine policial. O “insone PM” joga as cartas na mesa escolhendo ser o rei de copas, alimentando-se de “saliva e esperma” provindos da “dama de paus” Lisbeth, “ex-ás do cais do porto, atual contorcionista do pescoço” de guardas insones entregues “a ronda noturna no planeta Vênus”. Desta forma, “Noturno” insere em “Variações para um corpo” um ponto de vista distinto diante do amor, representado pelo amor desviado e pelo amor homossexual. O poeta dá luz à neblina, que encobre a furtividade dos profissionais do sexo, e foca de um novo ângulo o tema amoroso que prevalece no capítulo estudado, exercendo assim um multiperspectivismo frente a um único objeto. 68 6. O poeta ator de “Primeiras pessoas” Tudo o que de mim se perde Acrescenta-se ao que sou. Contudo, me desconheço. Pelas minhas cercanias Passeio – não me freqüento. (Thiago de Mello, Narciso cego) A poesia de Antonio Carlos Secchin trabalha com a poética irônica questionadora da unanimidade eufórica, unanimidade essa representada principalmente pelas fórmulas das escolas literárias. O questionamento do ponto de vista monológico traz o multiperspectivismo como forma artística de modificação contínua: o poeta deixa de ser único e passa a ser múltiplo, trabalhando como um ator. No capítulo final da parte “Todos os ventos”, denominado “Primeiras pessoas”, o poeta alcança o ápice da pluralidade do eu - lírico, demonstrando a diversidade do poeta ator que veste a cada poema uma nova máscara, questionando a unicidade do ser. Na arte, é preciso “ver para descrer” como diz um dos aforismos, “é corrigir o que se foi” em verso do poema “A Fernando Pessoa”. Secchin carregará esses conceitos ao construir sua poética, e isso se revelará ainda mais contundente em “Primeiras pessoas”. O título deste capítulo de “Todos os ventos” carrega em si a pluralidade, ao nomear “Primeiras pessoas”, o poeta faz perceber o dom de atuação do eu - lírico. Não é uma primeira pessoa única, mas uma primeira pessoa que se multiplica ao formar cada um dos nove poemas do capítulo. Em diálogo com Fernando Pessoa, pode-se dizer que Secchin traz o conceito dos heterônimos, entretanto sem modificar o nome, sem tomar oficialmente outra personalidade, mas sim fragmentando o eu - lírico e demonstrando que ele possui em si diversas personalidades e múltiplos pontos de vista. Em artigo sobre a poética de Secchin, Flávia Amparo comenta a particularidade plural do poeta: Frente ao espelho, o escritor compõe o “Auto-retrato”, que não particulariza a questão da inspiração criativa, mas mostra que seu rosto e sua dúvida retratam a angústia de todos os poetas: “O poeta nunca sabe/ onde sua voz termina/ se é dele de fato a voz/ que no seu nome se assina”. (Amparo, 2008) 69 Assim, a partir da poética irônica que transforma o poeta em ator de transmutação contínua, pretende-se analisar três faces constituintes do capítulo “Primeiras pessoas”, exemplificando, desta forma, a poética desconfiada de Secchin que está em permanente estado de corrigir a si mesma, metamorfoseando-se incessantemente em múltiplos pontos de vista. Os poemas analisados serão: “Reunião”, “Autoria” e “O Banquete”. 70 6.1 Reunião O poema “Reunião” é formado por 25 versos livres que rimam ocasionalmente reforçando significados impressos no poema. Os versos não são separados em estrofe para ressaltar a união familiar representada no poema. “Reunião” trata de um encontro da família Secchin, registrado em 13 de novembro de 1999, no qual o eu - lírico toma a voz da herança sanguínea. Deixa de ser apenas Antonio Carlos Secchin e veste-se de toda a tradição da família. O eu - lírico, neste poema, não é uma voz individual, mas uma voz coletiva construída através do tempo e da árvore genealógica. O poema pode ser dividido em quatro partes: introdução, herança, reunião e futuro. Cada uma das partes conversa na atemporalidade da união do passado, do presente e do futuro, enfatizando a herança familiar tão cara àquela reunião de membros da família Secchin. O tempo é muito importante para a construção deste poema. Através da cronologia construída pelo eu - lírico viajamos entre o passado, o presente e o futuro, concatenando na parte reunião as três possibilidades temporais e simbolizando os laços fraternos da genealogia familiar. Na introdução, o eu - lírico enfatiza a ligação sanguínea dos presentes na reunião, e principalmente, a herança familiar que possibilitou aquele encontro. Neste momento, Secchin já funde as possibilidades temporais, introduzindo a ligação cronológica construtora do poema. Nos três primeiros versos, há o local e a definição da reunião encenada. Naquele lugar, há o grupo de pessoas unidas pelos laços familiares, mas separadas por caminhos tortuosos da vida. O motivo por estarem ali é a certeza da herança que os formou, do chamado ancestral a homenagear o sangue, entretanto nenhum dos presentes conhece o futuro que os separa. Em um paralelismo, o segundo verso conversa com o quarto, enquanto o terceiro verso ressoa sonoramente no quinto através da rima. O primeiro par constrói o passado, enquanto o segundo par desvela a incerteza do futuro: Aqui estamos nós unidos pelo sangue e dispersos pela vida. Sabemos de onde viemos, mas não sabemos a saída 71 Na 2ª parte, herança, o eu - poético remonta o passado em um caminho para construir o presente. No sexto verso do poema é decretada a fonte da herança familiar, os bisavós paternos de Antonio Carlos Secchin, Antônio e Catarina. A partir da formação de uma família pelo casal foi possível a reunião presente, o legado de ambos construiu moral e físico daqueles reunidos em nome da família Secchin: De Antônio e Catarina Herdamos gestos, sonhos, corpo e voz. Muito sabemos deles, E pouco sabemos de nós. É importante ressaltar a repetição do verbo “saber” aplicado ao contexto de conhecimento do passado, mas também de desconhecimento do momento atual e do porvir. O verbo demonstra a valorização da História, de um passado educador que possibilitou a formação do presente. Secchin em “Reunião” reforça a vocação de diálogo com o passado de sua poesia. O valor de reverência ao passado é ainda mantido na 3ª parte, reunião. O advérbio “aqui”, que inicia o poema, é retomado para localizar o presente. O lugar da reunião congrega toda a família, “tios, sobrinhos, primos, avós”, criando uma ligação com o passado vivo na estrutura de cada um ali reunido. Por mais que “Antônio e Catarina” não estejam mais entre os seus filhos, permanecem vivos nos “gestos, sonhos, corpo e voz” de seus descendentes. O vocábulo “corrente” reforça a energia que flui entre o ontem e o hoje, só há “corrente” se houver permanência de fluxo contínuo tanto em um rio quanto na eletricidade: Aqui estamos todos - tios, sobrinhos, primos, avós -, corrente entre um ontem vivo e um amanhã apressado, Nos quatro versos seguintes, há uma estrutura rítmica a partir da repetição do mesmo paradigma sintático em forma inversa denominado quiasmo. Esta repetição estrutural funde a cronologia anterior e posterior no momento presente: frente a frente com o futuro que nos chama, cara a cara com a chama de um passado. 72 A partir de “frente a frente” e “cara a cara”, que são sinônimos, os versos se iniciam através da preposição “com” e em uma alternância sintática do vocábulo “chama”, primeiro como verbo e depois como substantivo, une-se pretérito e futuro no estado atual dos envolvidos na reunião. O porvir clama pela chama do passado constituinte dos membros da família Secchin. Em seguida, o eu - poético faz uma viagem ligando a herança italiana e o local brasileiro: Cachoeiro de Itapemirim. O poeta modifica o nome da cidade onde ocorre a reunião para uni-la semântica e morfologicamente a família ali reunida: Agora atravessamos juntos Cachoeiro de ItapeSecchin, esta estrada tropical da Itália que desemboca em você e em mim. É importante o uso da palavra “desemboca”, porque faz referência ao nome da cidade, “Cachoeiro”, lembrando o fluxo da água, e também a “corrente” que une o presente ao “ontem vivo”. O poeta expõe a ligação entre a família Secchin e a cidade, onde “Antônio e Catarina” estabeleceram moradia ao imigrarem da pátria italiana, local em que se desenvolveu toda a árvore genealógica ali reunida. “Cachoeiro de ItapeSecchin” é uma estrada que liga Brasil e Itália, passado, presente e futuro em um fluxo incessante de vida. Na última parte, conclusão, o eu - poético desvenda a única certeza que o futuro revela àqueles membros da família Secchin. O porvir, que durante todo o poema era desconhecido, torna-se seguro na certeza da herança familiar, da corrente permanente de vida, no coletivo que borbulha na individualidade de todos os presentes: E se recompondo o que nós fomos Este instante cintilar dentro de nós Num sopro que a vida não apaga Mesmo sozinho não estaremos sós. Agora, há a coroação da reverência a herança familiar. Em quatro versos, o poeta resume o conteúdo de todo o poema. O primeiro verso retoma o passado ligandoo ao momento presente da reunião representada no segundo verso: “este instante cintilar”. O terceiro verso ressalta a imortalidade do sangue, nem a morte nem a vida terão o poder de apagar a “estrada tropical da Itália que desemboca” em cada um dos “tios, 73 sobrinhos, primos, avós” ali reunidos. O último verso exemplifica o poder familiar ressaltado durante o poema: a herança é tão poderosa que “mesmo sozinho não estaremos sós”. A corrente sanguínea de “Antônio e Catarina” borbulha nos descendentes, construindo a coletividade familiar em cada indivíduo, assim “mesmo sozinho” estará reunido permanentemente através do sangue com cada um dos membros da família Secchin. Deste modo, o eu - poético veste a máscara da família Secchin para retratar a reunião em Cachoeiro de Itapemirim. O poeta deixa de ser indivíduo e passa a ter uma voz coletiva concatenando todos os membros familiares dentro da expressão poética de “Reunião”. Mesmo podendo interpretar a si mesmo, o eu - poético irônico e ator decide anular a sua voz e transformá-la em sentimento coletivo inerente a cada um dos presentes na reunião. 74 6.2 Autoria Agora, uma segunda face das “Primeiras pessoas” será tratada. O poeta irônico se transforma em autor e crítico de si mesmo, dividindo-se em parte sentimental e parte técnica, em uma dialética contínua entre os dois pontos de vista. O poema “Autoria” é formado por oito dísticos. Há rima soante entre o último verso da estrofe ímpar com o último verso da estrofe par, o que aparenta uma estruturação em quadras. A aparência gera a impressão que a escolha por dísticos é proposital para ganho significativo. Os versos não possuem uma metrificação regular, entretanto o ritmo é marcado de maneiras diversas dentro do poema, mais uma vez Secchin revela a poética da diversidade. De acordo com os ritmos poéticos, o poema pode ser dividido em duas partes distintas. A primeira parte é formada pelas quatro estrofes iniciais, que são compostas por um ritmo estrutural paradigmático desenvolvido a partir do adjunto adverbial concessivo “por mais que” que inicia os versos ímpares; e por um ritmo tônico: a quinta sílaba é tônica nos três primeiros versos, somente no quarto verso a sílaba passa para a quarta sílaba do verso, ou seja, uma anterior. Essa estrutura se repete, a sexta sílaba dos três versos seguintes é tônica, e no último verso da quarta estrofe a quinta sílaba é tônica, novamente uma anterior. A segunda parte, formada pelas quatro estrofes finais, possui um ritmo paradigmático que se desdobra através do verbo na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, “sei, aposto e apago”. Há também na segunda parte um ritmo feito com uma metrificação próxima da regular, os versos variam entre 7, 8 e 9, sempre bem próximos. Esta forma métrica é muito utilizada por João Cabral de Melo Neto, uma antimétrica e ao mesmo tempo um antiverso livre. Há ainda uma relação gramatical e semântica entre as duas primeiras estrofes com as duas últimas: o segundo verso da sétima estrofe se inicia com “aposto”, que é a oração principal do adjunto adverbial concessivo que inicia o poema, “por mais que”: afinal, por mais que se escoem coisas pro lixo, aposto na linha anônima do verso. Essa relação gramatical e semântica ocorre também entre a terceira e quarta estrofes com a quinta e sexta estrofes: “por mais que a mesa imponha / o frio irrevogável do aço”, “sei que um murmúrio clandestino / circula entre o rio de meus ossos”. 75 Secchin em “Autoria” trabalha incansavelmente com o número dois, o número da relação amorosa fiel, da entrega completa entre um e outro. O poema possui uma tensão incessante entre a metalinguagem e a lírica amorosa, é formado por estrofes de dois versos, por duas partes que se dividem em dois para se relacionar entre si. O próprio título do poema nos traz uma dupla pergunta: quem escreveu o texto anônimo? Quem causou o murmúrio clandestino? O poema se inicia com a locução conjuntiva concessiva “por mais que” que irá reger a 1ª parte. A locução necessita de uma oração principal a qual irá se opor. Esta oração só irá aparecer na sétima estrofe. A primeira e a segunda estrofe estão relacionadas como se fossem únicas, e ambas tratam de um teor metalingüístico, do trabalho do escritor com o poema, a autoria da obra literária: Por mais que se escoem coisas para lata do lixo clipes, cãibras, suores restos do dia prolixo O texto é formado por um trabalho árduo do poeta, é constituído a partir de “clipes, cãibras, suores”, é feito de mais que uma transpiração, mas uma respiração do poeta. Olavo Bilac em famoso soneto já dizia – “trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua” -; essas duas estrofes versam sobre a minúcia da busca da palavra. Por isso que mesmo tendo ido “coisas para lata do lixo”, “restos do dia prolixo”, ele irá apostar no verso, pois a linha foi construída com muito suor e cãibra. É importante ressaltar o jogo fonético exercido pelas escolhas de Secchin, a palavra “prolixo” aproxima-se de “pro lixo”, e as rimas entre os versos pares se complementam semanticamente, o lixo é feito a partir dos excessos, do demasiado. Ou seja, o que é “prolixo” necessita ir pro lixo. A terceira e a quarta estrofes tratam do sentimento, trazem ao “Autoria” a parte amorosa do murmúrio clandestino: por mais que a mesa imponha o frio irrevogável do aço, combatendo o que em mim contenha a linha flexível de um abraço 76 Mais uma vez a estrofe é iniciada pela locução conjuntiva “por mais que”, e a resposta para essa oposição irá vir em seguida na 5ª estrofe. Ainda que o sentimento seja combatido, não há como vencê-lo, e é disso que tratam estas partes. A mesa em que se escreve impõe a frieza do aço que não se pode anular, combate o calor inerente ao abraço, a junção de dois corpos que se aquecem. Na quarta estrofe surge pela primeira vez a palavra “linha” que irá unir semanticamente tanto o sentimento amoroso do abraço quanto a estética anônima do verso. A rima entre “aço” e “abraço” traz um reforço semântico a ambos os vocábulos. O abraço combatido é forte sentimentalmente como o aço, porém é tão distante de se realizar que é frio como o aço. Agora o verbo na 1ª pessoa introduz a oração principal de “por mais que a mesa imponha”, traz a resposta ao sentimento adversativo: sei que um murmúrio clandestino circula entre o rio de meus ossos: janelas para um mar-abrigo de marasmos e destroços. Ainda que haja um combate ao desejo de aproximação com o outro, há no interior um “murmúrio clandestino” que circula pelas veias. Murmúrio ilegal e ilegítimo. O segundo verso da quinta estrofe termina com dois pontos, o que faz com que a estrofe seguinte dê uma explicação ou uma definição da clandestinidade do sentimento que é janela para a tristeza e para a ruína. Não há como alcançar o sucesso da interlocução com o outro, é apenas um precipício de melancolia, por isso que é ilegítimo, por essa razão é combatido e ilegal. É curioso o jogo fonético entre “mar-abrigo” e “marasmos”, ambos iniciados pela palavra “mar”. Um eco que abriga dor e destroços. A rima também possui uma relação de causa e conseqüência: o murmúrio que circula entre os ossos origina os destroços. Na sétima estrofe aparece a oração principal do primeiro “por mais que”. O segundo verso “aposto no oposto de meu sim” é essa oração, que mostra que mesmo com todo esforço de “clipes, cãibras, suores”, para escrever o verso, há a crença do não ao sentimento, mas é provável que haja um sim à poesia. No primeiro verso da sétima estrofe, aparece pela segunda vez o vocábulo “linha”, agora com o significado de verso. Antes era a linha carinhosa do abraço, agora 77 a linha estética da literatura. A palavra concatena em si, a tensão constante do poema entre o sentimento e a escrita, a mistura da metalinguagem com o lirismo. Na linha anônima do verso, aposto no oposto de meu sim, apago o nome e a memória num Antônio antônimo de mim. Na última estrofe, o primeiro verso dialoga diretamente com o questionamento dado pelo título do poema, quando ele apaga o nome e a memória, não sabemos mais a autoria da linha do verso, nem da linha do abraço. Apaga o nome do amor e a memória da poesia. O último verso começa com a junção da preposição “em” com o artigo “um”. A preposição é utilizada com o significado “a maneira de”, ou seja, “apago o nome e a memória” a maneira de um “Antonio antônimo de mim”. O apagar é uma ação contrária ao Antonio, que durante todo o poema fez ações contrárias ao que era imposto, e agora quando há a imposição do anônimo age inversamente de como agiu durante o poema e apaga o nome e a memória. Há novamente um jogo fonético entre “aposto” e “oposto” e “Antonio” e “antônimo”. Há apenas a mudança de um único fonema para modificar o significado das palavras. A beleza imposta pelo verso “num Antonio antônimo de mim” está toda relacionada à força fonética-semântica do par “Antonio-antônimo”, na busca dos signos adequados que se transformam em símbolos literários. Assim o poema “Autoria” traz uma relação constante entre a escrita do poema e o sentimento, uma tensão que não cessa entre a metalinguagem e o lirismo, entre o homem e o poeta, autor e obra. Um entrelaçamento perfeito que funde o murmúrio clandestino na linha anônima do verso. 78 5.3 O Banquete Em “O banquete”, o poeta ator cede voz a um homem frente à morte. O eu poético transmuta-se em narrador em primeira pessoa numa cena teatral de conversa entre a Morte e o narrador. A morte é o garçom que serve ao cliente seus serviços de maneiras múltiplas, sopradas como sugestões de um cardápio indigesto. O poema é formado por dezenove dísticos, representantes do diálogo entre as duas personagens. A rima é regularmente empregada nas estrofes, atuando como harmonização sonora entre a sugestão da morte e os desejos do cliente. O poema pode ser dividido em três partes: o diálogo, o fluxo de consciência e o pedido. A primeira parte é formada pelas oito estrofes iniciais, demonstrando o diálogo sugestivo entre a morte e o narrador. A segunda parte é formada pelas quatro estrofes seguintes, nas quais o personagem-narrador intimiza-se com seus pensamentos, saindo do plano do restaurante e entrando em comparações empregatícias na relação vida e morte. A terceira parte é formada pelas sete estrofes finais em que o eu - poético efetiva o pedido ao garçom. Na primeira estrofe, o eu - poético transfigurado em narrador situa o local da cena, já unindo a morte ao garçom. As cortinas do espetáculo se abrem e os espectadores enxergam um homem à mesa sendo servido cheio de finuras e delicadezas: Entre mesuras, talheres e finezas, Um garçom serve a morte sobre a mesa A primeira fala surge dos lábios daquele que serve, a especialidade da casa (a morte) pode ser servida para diversos paladares e de muitas maneiras, com isso as sugestões se iniciam, ainda interceptadas pelo narrador- personagem, para em seguida serem apenas falas do garçom: “Quente ou fria?”, indaga-me sereno, e seu olhar tem a doçura de um veneno É interessante lembrar as características antagônicas do garçom frente ao cliente. Ele é calmo, os olhos agradam ao paladar como um doce sugestivo, porém a azia corrói àquele que se entregar ingênuo as tentações gustativas. As insinuações culinárias prosseguem na voz do garçom listando o cardápio do restaurante. Agora, irão ser 79 sugeridas bebidas com referências diretas à morte: primeiro uma cachaça bem forte e depois uma cerveja um tanto suspeita: “Para começo, o que quer? A que matou o guarda? Frango à La bière? Na estrofe seguinte, a massa al dente surge como opção saborosa a quem deseja arder em um caldeirão. As duas faces da comida saborosa e assassina continuam escorrendo tentadoras pela língua ofídica do garçom: A massa, se preferir algo bem quente, vai logo arder, em caldeirão, al dente A ambigüidade permanece na voz do garçom, tendo em nova pergunta um questionamento irônico refletido no cliente. Pergunta feita a si mesmo direcionada ao faminto degustador: Como planeja arrematar a refeição? Numa bala? Presunto com melão? A referência à comida e à morte em uma única sentença aparece novamente no segundo verso da estrofe. Bala, além de ser um doce e remeter à velocidade, também traz consigo o tiro do revólver; presunto com melão é um aperitivo delicado, mas que carrega em sua carga semântica o corpo morto chamado vulgarmente de presunto. Neste caso, a refeição pronunciada pelo garçom tanto pode ser a comida, como pode ser o corpo do homem (arrematado por uma bala e feito presunto). Para finalizar as sugestões ambíguas do afável garçom, há a delicada fatia do nada, generosamente sem sentido, sem gosto, rápida e indolor: Caso queira coisa rápida e gelada, sugiro uma fina fatia do nada. As falas cessam e o eu - lírico, transmutado em narrador, descreve uma ação contrária a do garçom frente às delicadezas anteriores, agora o garçom é firme e doloroso, a ação é comparada a uma brutalidade, uma agressão oposta às “mesuras, talheres e finezas” anteriores: 80 E num gesto incisivo e severo - como se marca um boi a ferro – Na estrofe seguinte, há a descrição do ato do garçom em uma última sugestão das especialidades da casa. A última hipótese é ríspida, agressiva, por esta razão a impressão de severidade sentida pelo eu - lírico: adoçou a insípida vida: pôs no prato O Prazer do Suicida É interessante a forma de tentar dar sentido ao o que não tem sabor: aniquilando a vida através do suicídio. O garçom torna doce o viver a partir do alívio causado pela morte: o suicídio gera um prazer àquele que se suicida, adoça, dá sabor ao sem gosto. Após o término da primeira parte do poema, construída a partir das sugestões do garçom, o eu - lírico passa a uma excursão em sua consciência. Nas quatro estrofes seguintes o fluxo de pensamento do narrador-personagem é exposto ao leitor em uma comparação entre a relação patrão-operário e a relação homem-morte: Pensar na morte é provar o necessário destempero entre patrão e operário: Fica clara nestes versos a diferença de interesses entre o patrão e o operário, entre o homem e a morte. Enquanto um deseja um salário digno, o outro quer explorar para ganhar mais, enquanto um não concede um maior tempo de vida, o outro luta por um aumento, uma hora extra. “Pensar na morte” é uma tentativa frustrada de um acordo conciliador: um deseja macarronada à mesa, outro inclui até o vento na despesa. O eu - lírico descreve o relacionamento do homem com a morte tanto em relação à culinária quanto em relação ao patrão, há uma mistura entre o pensamento do narrador-personagem e a situação em que está envolvido e suscetível: Ela morte nos expulsa porta afora: o contrato já passou da hora. 81 A rima entre “apeteça” e “hora extra” exemplifica essa relação dual do eu lírico, envolvido entre o garçom e os seus pensamentos, entre a morte e o patrão: E como nada tenho que lhe apeteça não me concede aumento ou hora extra. Na 3ª parte, o narrador efetivará a solicitação ao garçom, porém as duas estrofes iniciais surgem como uma introdução ao pedido: O garçom mal anota o que lhe digo: Tudo que peço vai entrando no olvido. É importante perceber a irrelevância do discurso do personagem-narrador frente à Morte, as palavras são deixadas no esquecimento, pois a única ação relevante é o imutável fim ao qual o personagem está ligado. Na estrofe seguinte, o garçom sabe que seu serviço é inevitável e mesmo ignorando os pedidos do cliente, sendo um “mal” servidor, deseja recompensa pelo trabalho prestado: Ao contemplar a carteira magra e preta, Com 10% da voz insinua uma gorjeta. As características da carteira estão ambas relacionadas a uma imagem cultural da morte, formada por um esqueleto com foice nas mãos, capuz e manto negro. Apesar de não haver um pagamento, pois o cliente não tem possibilidades de pagar, morto por um serviço, a Morte fundindo-se com o garçom e com o empregador anseia por uma recompensa. Após a estrofe mencionada, o tom do poema modifica-se: o personagem se ausenta como narrador e aparece apenas como eu, com voz direta, concretizando um pedido que se harmonize com o seu interlocutor: Faço agora o meu pedido? Não morrer: desnascer – nunca ter sido. O personagem supera o garçom (morte) com o seu pedido, se não existe um início não há como ocorrer o fim, “desnascer” é eliminar a vida e com isto a morte, 82 afinal só há morte porque há vida. O 2º verso é enfático, direto e preciso: “não morrer”, vencer morte e vida, voltar ao nada, ao não existir: Apagar de mim a memória inteira, regressar à árvore de que fui cadeira, sentir um bico de bem-te-vi esfomeado, mas jamais mofar no almoxarifado. No verso seguinte, o narrador-personagem mantém o tom enfático: “Apagar de mim a memória inteira”. Não há simplesmente um desejo de morte, mas sim um anseio por morrer tão completamente que espera esquecer tudo o que se foi, eliminar toda a existência. A pretensão é explicada por ele mesmo através do verso “mas jamais mofar no almoxarifado”, pois a vida foi tão vazia, que algo sem função, sem serventia não deveria existir, nem morrer, deveria ser apagado. A cadeira só possui existência quando exerce o papel para o que foi criada, como o eu - lírico não tem função na vida prefere ser eliminado por completo, nem mesmo ter existido: Assim de modo bem pouco alto-falante A vida se esgarçaria como a ponta de um barbante. Acabar então, canoa seca sem direito a porto. E partir de mim, confortavelmente morto. O narrador-personagem conclui o desejo retomando o primeiro verso da fala final: “não morrer: desnascer – nunca ter sido”. Todo o discurso foi desdobrado a partir deste verso, já que não tem uma funcionalidade no mundo, prefere ser apagado, discretamente, afinal sem uma importância na vida, sem um cargo para servir não fará falta, partirá “confortavelmente morto” “de modo bem pouco alto-falante”. Em “O Banquete” ficou claro o poder de transformação do poeta Antonio Carlos Secchin ao se transmutar em um homem frente ao fim que desafia, provocadoramente, tanto a vida quanto a morte, questionando ambos de maneira irônica em um diálogo teatral entre garçom e cliente que mistura culinária e morte num jogo saboroso, no qual o cliente (que tem sempre razão) vence aquela que não “concede aumento ou hora extra” através do desejo de não existir, de “desnascer”. 83 Antonio Carlos Secchin une a diversidade de máscaras de sua poesia ao questionamento irônico, interligando duas características da obra em um único poema, o que faz com que “O Banquete” seja uma perfeita construção lírica da poética desconfiada, já que se melindra com conceitos normatizantes, questionando-os (vida e morte), transmuta a si mesmo em múltiplos pontos de vista, fazendo com que o eu lírico passeie entre narrador, crítico e personagens. 84 7. Conclusão A poética desconfiada de Antonio Carlos Secchin evidencia um eu astuto diante dos aprisionamentos normativos de estéticas literárias ditadoras, de um manual de regras pré-escritos, que julgam um poema pela adequação aos preceitos, e não por uma qualidade ou criatividade diante do material e da construção dos versos. O poeta de Todos os ventos distancia-se até das próprias certezas multiplicandose em vários eus, o que nos foi possível perceber, principalmente e de forma expansiva, em dois capítulos do livro “Variações para um corpo” e “Primeiras pessoas”.O autor é de tal maneira metamorfo que desdobra a característica múltipla dos diversos pontos de vista e máscaras do poeta, em duas partes de focos distintos. Em “Variações para um corpo”, a perspectiva é refletida por linhas que tecem unidas a trama temática do capítulo. A unidade é construída através do movimento dialético de fragmentação de si mesma em cinco aspectos e da reunião das diferentes perspectivas para a edificação do objeto. Em um diálogo com a ironia romântica é o conceito de Schlegel disseminado em Conversa sobre a poesia: Confrontar visões completamente diferentes, cada qual podendo mostrar, de seu ponto de vista, o espírito infinito da poesia numa nova luz,e todos eles se esforçando mais ou menos, por um lado ou por outro, para penetrar no verdadeiro âmago”. (Schlegel, 1984, p. 30). Em “Primeiras pessoas”, o poeta transforma-se em múltiplas vozes e em personalidades, fazendo de si mesmo um ator diante do poema, um representante de vários papéis e pontos de vista, unificados em uma única poética. Há inclusive o possível diálogo entre o poeta de Todos os ventos e Fernando Pessoa, através do conceito de heterônimos, pois Secchin transmuta-se em diversos personagens, mantendo apenas o nome único diante da escritura de cada poema, diferenciando-se, desta forma, do autor de Mensagem, que modifica inclusive o próprio nome. Secchin se liberta de preceitos previamente estabelecidos, questionando ironicamente através de um movimento de aproximação-afastamento das escolas literárias e dos conceitos de construção poética. Estas duas formas de questionamento formam medularmente dois capítulos da parte inédita de Todos os ventos: “Artes” e “Dez sonetos da circunstância”. 85 Em “Artes”, o poeta se impregna de conceitos das escolas literárias, como o Parnasianismo, o Simbolismo e o Romantismo, para construir os poemas ao modo de Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Álvares de Azevedo, se aproximando e bebendo arduamente destes poetas. Porém lúcido e lúdico, como utiliza Marlene de Castro Correia em livro sobre Drummond, Secchin não se permite embriagar por tais influências e se distancia criticamente de toda esta maquiagem, criada por ele mesmo, para descontruir, questionar e criticar as leis de estilo, injetando o vírus da desconfiança na unanimidade representada pelas escolas literárias. Em “Dez sonetos da circunstância”, Secchin discute os conceitos críticoliterários que envolvem os poemas de circunstância. O poeta envolve os sonetos com uma carga temporal extremamente forte, porém desmonta biografia e momento criando poemas que relativizam e questionam o tempo, ao trazer questões universais. Versos que vestem a roupa de subjetivos tornam-se gerais ao tratarem de temas humanos vivenciados por cada um de nós. Secchin utiliza-se também de uma forma clássica, os sonetos, para atemporalizar poemas aparentemente ligados a um momento específico da vida do autor. Relativiza-se, assim, os conceitos pré-moldados para os poemas de circunstância, aproximando-se e afastando-se criticamente deles, o poeta se envolve emocionalmente e se distancia criticamente construindo sonetos universais que tratam de questões humanas de todos os tempos. Desta forma, é possível perceber de maneira abrangente, em cada capítulo do livro Todos os ventos, características da poética desconfiada de Antonio Carlos Secchin. Mesmo as formas mencionadas podendo ser destacadas como símbolo maior de cada capítulo, todas aparecem na construção dos quatro capítulos estudados no trabalho. Assim, seguindo os conceitos da poética desconfiada, encontrados no seguinte aforismo: Contrariando o axioma do velho são Tomé, cabe à arte ver para descrer, isto é, recusar os esquemas confortavelmente explicativos da realidade e injetar o vírus da desconfiança em meio a toda unanimidade eufórica. (Secchin, 2002, p.81) Este trabalho procurou demonstrar as características desta poética em quatro capítulos da parte homônima do livro Todos os ventos, ligando tais características à 86 ironia romântica de Schlegel estudada por Marlene de Castro Correia em Carlos Drummond de Andrade e por Ronaldes de Melo e Souza em Machado de Assis. Portanto, evidenciou-se a construção do livro Todos os ventos, do poeta Antonio Carlos Secchin, a partir da poética desconfiada cunhada para expor a individualidade do poeta, que não permite reduzi-lo a conceitos críticos literários pré-moldados, mas apenas a exibir e estudar a união do eu (envolvido nas emoções) e do crítico (distanciado através do pensar-se enquanto forma) dentro da obra literária. 87 8. Referências Bibliográficas AMPARO, Flávia Vieira da Silva. “As oito faces de um poeta errante”. In: Melhores poemas, de Fagundes Varela. 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