Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Ciências Sociais Faculdade de Serviço Social Jorge Alberto Saboya Pereira Ações afirmativas nas universidades públicas: aportes necessários ao debate da Política de Cotas Rio de Janeiro 2009 Jorge Alberto Saboya Pereira Ações afirmativas nas universidades públicas: aportes necessários ao debate da Política de Cotas Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor ao Programa de PósGraduação da Faculdade de Serviço Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: Área de concentração: Trabalho e Política Social. Orientadora: Profa. Dra. Silene de Moraes Freire Rio de Janeiro 2009 CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/ CCS/A P436 Pereira, Jorge Alberto Saboya. Ações afirmativas nas universidades públicas: aportes necessários ao debate da política de cotas/ Jorge Alberto Saboya Pereira. - 2009. 400 f. Orientadora: Silene de Moraes Freire. Tese (doutorado) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Serviço Social. Bibliografia. 1. Serviço social – Teses. 2. Ensino superior – Aspectos sociais – Teses. 3. Programas de ação afirmativa - Teses. I. Freire, Silene de Moares . II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Serviço Social. III. Título. CDU36 Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese. _____________________________________ Assinatura ___________________________ Data Jorge Alberto Saboya Pereira Ações afirmativas nas universidades públicas: aportes necessários ao debate da Política de Cotas Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor, ao Programa de PósGraduação da Faculdade de Serviço Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: Área de concentração: Trabalho e Serviço Social. Aprovada em 07 de dezembro de 2009. Banca Examinadora: __________________________________________ Profª Drª Silene de Moraes Freire (Orientadora) Faculdade de Serviço Social da UERJ __________________________________________ Profª Drª Lena Medeiros de Menezes Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ __________________________________________ Profª Drª Maria Cristina Leal Universidade Federal do Rio de Janeiro __________________________________________ Profª Drª Tânia Maria de Carvalho Netto Faculdade de Educação da UERJ __________________________________________ Prof. Dr. Cezar Teixeira Honorato Universidade Federal Fluminense __________________________________________ Prof. Dr. José Henrique Carvalho Organista Universidade Federal Fluminense Rio de Janeiro 2009 DEDICATÓRIA Dedico esta tese à Silene por todo o apoio e companheirismo nesses anos recentes de minha história. Palco da vida Fernando Pessoa Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. E você pode evitar que ela vá a falência. Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você. Gostaria que você sempre se lembrasse de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem desilusões. Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza. Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de nós. É ter maturidade para falar “eu errei”. É ter ousadia para dizer “me perdoe”. É ter sensibilidade para expressar “eu preciso de você”. É ter capacidade de dizer “eu te amo”. É ter humildade da receptividade. Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para você ser feliz… E, quando você errar o caminho, recomece. Pois assim você descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência. Jamais desista de si mesmo. Jamais desista das pessoas que você ama. Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um obstáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de fatores a demonstrarem o contrário. “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…” AGRADECIMENTOS Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade. Paulo Freire No ano de 2005 decidi me enveredar por novos caminhos do conhecimento para abordar o tema que havia escolhido para estudar num curso de doutorado. Desta forma, decidi abandonar a proposta de cursar doutorado em direito (área em que realizei o meu mestrado) e busquei um curso que me ampliasse os horizontes acadêmicos através de um conhecimento mais ampliado da esfera pública e da sociedade brasileira. Foi assim que escolhi o Curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Serviço Social da UERJ, cuja área de concentração (Trabalho e Política Social) e formação reconhecidamente crítica poderia responder muitas das minhas inquietações como professor da UERJ (há mais de duas décadas) e como advogado em pleno exercício profissional. Ao ingressar no curso, dois desafios se evidenciaram em minha vida: compatibilizar uma agenda de trabalho que não me permitiu nenhuma licença para maior dedicação às exigências de estudo de um doutorado, e tentar compreender num curto espaço de tempo todo um universo teórico e metodológico diferente da minha formação como professor de química e advogado. Enfim, após jornadas de trabalho e estudo abissais, estresses e ansiedades abundantes, consegui concluir a minha tese de doutorado, tendo aprendido muito mais do que o esperado neste curso que não apenas me proporcionou novos conhecimentos como mudou minha concepção de mundo. Hoje considero que minha formação humana se ampliou significativamente após o doutorado e tenho certeza que ela não se encerra com a defesa da tese. Considero que a elaboração de uma tese de doutorado é um produto coletivo embora sua redação, responsabilidade e stress sejam predominantemente individuais. Várias pessoas contribuíram para que este trabalho chegasse a bom termo. A todas elas registro minha gratidão. À Profª. Dra. Silene de Moraes Freire, que tive a oportunidade de conhecer na academia e descobrir que pautamos nossas vidas por trabalho, estudo, afetos, sonhos e muito companheirismo. Creio ter sido esta experiência de vida que a levou ser extremamente generosa comigo em função dos stop and go que ocorreram ao longo da construção desta tese de doutorado. A sua disponibilidade irrestrita, sua forma exigente, crítica e criativa de argüir as idéias apresentadas, creio que deram norte a este trabalho, facilitando o alcance de seus objetivos. À Silene meus irrestritos agradecimentos. Aos professores do curso de doutorado o meu obrigado pelos imensos ensinamentos e contribuições diretas e indiretas a minha pesquisa de tese. À todas as coordenadoras e funcionárias do PPG que desde 2005 passaram por esses cargos oferecendo aos estudantes os suportes necessários para a melhor adequação ao curso e vice-versa. Aos Professores Doutores Lená Medeiros de Menezes, Tania Maria de Castro Carvalho Netto e Cezar Teixeira Honorato que participaram da minha banca do Exame de Qualificação do doutorado, pelas suas reflexões criativas sobre o meu objeto de estudo, as quais muito me ajudaram a melhor compreendê-lo e a realizar uma análise critica sobre o mesmo, meus sinceros agradecimentos. Aos professores doutores que compõem a banca de defesa da tese meus agradecimentos pela disponibilidade para leitura e contribuições que certamente serão importantes ao meu estudo. Ao meu irmão Paulo Saboya por dividir comigo as responsabilidades dos cuidados da nossa mãe e todas as lutas desta vida, meu afetivo obrigado. Aos meus alunos do Instituto de Aplicação da UERJ que mesmo sem saberem me estimulam cotidianamente a refletir sobre os rumos da educação em nosso país. Aos meus pais Lauriza e Emir (in memoriam), pela sólida formação dada até minha juventude, que me proporcionou a continuidade nos estudos até a chegada a este doutorado, meus eternos agradecimentos RESUMO PEREIRA, Jorge Alberto Saboya. Ações afirmativas nas universidades públicas: aportes necessários ao debate da política de cotas. 2009. 400 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Faculdade de Serviço Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. O presente estudo apresenta diversos dados estatísticos, mas dá especial atenção ao caráter teórico-interpretativo das fontes selecionadas, tendo como objetivo contribuir para a ampliação dos horizontes do debate sobre a política de cotas nas universidades públicas brasileiras com base em reflexões a respeito das questões das desigualdades, dos direitos e do significado da esfera pública para a democracia em nosso país. O estudo tem como princípio que somente uma perspectiva que incorpore esses elementos é capaz de ultrapassar o minimalismo conceitual presente na maioria das reflexões sobre o tema. O debate sobre a política de cotas é recente no Brasil, mas não é esse o motivo de sua grande fragilidade. Entendemos que anulação histórica do verdadeiro sentido, do significado da política social, bem como da esfera pública e da questão de acesso aos direitos na sociedade brasileira, engendra incompreensões que acabam sendo favoráveis a manutenção de processos elitistas/discriminatórios em nossa sociedade. Processos estes que acabam negando possibilidades históricas conquistadas pelas lutas das próprias classes subalternas. A política de cotas é entendida na tese como política de Estado e não se limita a um debate de apoio ou oposição às ações afirmativas, pois as mesmas já existem de modo significativo e necessitam ser pensada, tanto é que estavam presentes no projeto de reforma universitária e, posteriormente em projetos específicos no Congresso Nacional, gerando grandes polêmicas. Elaborada a partir de preocupações profissionais voltadas para desvelar o sentido dos principais eixos do debate e o cenário histórico de sua emergência e desenvolvimento, este trabalho propõe-se também oferecer aos que trabalham, estudam e vivenciam na prática o tema, um suporte para compreensão inclusiva deste cenário. O interesse deste estudo, dados o seu objeto e o tratamento que se lhe conferiu, ultrapassa o âmbito dos educadores, tornando-o pertinente a assistentes sociais, historiadores, sociólogos, advogados, teóricos políticos e analistas das identidades brasileiras. Palavras chave: Ação afirmativa. Política de cotas. Universidade pública. ABSTRACT The present study, besides offering a varied number of statistical data, emphasizes the theory and interpretation found in selected sources, aiming at a contribution for a comprehensive debate on the theme of the quota policy in Brazilian public universities, based on reflections about the issues of inequality, human rights, and the significance of the public sphere for democracy in our country. This study is based on the idea that only having these elements in perspective it is possible to transcend the conceptual minimalism that pervades the majority of the reflections upon this theme. The debate on the quota policy is a recent one in Brazil, however, this is not the reason for its increased fragility. We understand that the historical annihilation of the true sense, of the meaning of the social course of action, as well as the public sphere and the issue of having access to rights in the Brazilian society, originate the sort of misunderstandings that end up being favorable to the upkeep of elitist/discriminatory ways in our society. These ways finally deny historical possibilities conquered by the lower classes in their fights. The quota policy is defined here as State policy, not limited to a debate of supporting or opposing affirmative actions, which already exist significantly and need to be considered, as they were part of the project of reform in universities and later in specific projects at the National Congress, generating a great deal of controversy. This study comes from professional concern and aims at revealing the significance of the main points in this debate and the historical background of its origins and development; it offers those who work, study, and experience this situation, the kind of support they need in order to have a comprehensive understanding of this scenario. The main interest in this study, according to its object and the method used to build it, transcends the scope of educators, making it relevant to social workers, historians, sociologists, attorneys at law, political scientists and analysts of Brazilian collective characteristics. Keywords: Affirmative action. Quota policy. Public universities. LISTA DE SIGLAS ADPF Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental ALERJ Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ANDES Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior ADIN Ação Declaratória de Inconstitucionalidade ANDIFES Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior ANPOCS Associação Nacional de Pesquisa em Ciências Sociais BID Banco Interamericano de Desenvolvimento BIRD Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento BM Banco Mundial BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CBPF Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas CEE Conselho Estadual de Educação CEFET Centro Federal de Educação Tecnológica CRFB Constituição da República Federativa do Brasil CF Constituição Federal CSEPE Conselho Superior de Ensino e Pesquisa COFINS Contribuição Para Fins Sociais CONAES Comissão Nacional de Avaliação do Ensino Superior CONFENEN Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino CONSUNI Conselho Universitário CNE Conselho Nacional de Educação DEM Partido dos Democratas DESEA Departamento de Seleção Acadêmica - UERJ DIEESE Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos SócioEconômicos DIJUR Diretoria Jurídica da UERJ EAD Expansão da Educação a Distância EDUCAFRO Organização Não Governamental ENADE Exame Nacional de Desempenho de Estudantes ENEM Exame Nacional do Ensino Médio FGV Fundação Getúlio Vargas FIES Programa de Financiamento Estudantil FMI Fundo Monetário Internacional FUVEST Fundação Universitária para o Vestibular IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDEB Índice de Desenvolvimento da Educação Básica IDH Índice de Desenvolvimento Humano INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Professor Anísio Teixeira INPC Índice Nacional de Preço ao Consumidor IPEA Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação LAESER Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais LPP Laboratório de Políticas Públicas MEC Ministério da Educação e Cultura MNU Movimento Negro Unificado OMC Organização Mundial do Comércio ONGs Organização Não Governamentais ONU Organização das Nações Unidas PEA População Economicamente Ativa PIA População em Idade Ativa PIB Produto Interno Bruto PIS Programa de Integração Social PNAD Programa Nacional de Amostragens por Domicílios PDE Plano de Desenvolvimento da Educação PNDH Programa Nacional de Direitos Humanos PNE Plano Nacional de Educação PPC Programa de Política de Cor na Educação Brasileira PPP Parceria Público Privado PROER Programa de Ajuda Financeira aos Bancos PROINICIAR Programa de Apoio ao Estudante Cotista PROUNI Programa Universidades Para Todos REUNI Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais SAEB Sistema de Avaliação da Educação Básica SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SEMESP Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Estado de São Paulo SEPE Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação SEPEP Sistema Público de Educação Profissional SEPPIR Secretaria da Igualdade Racial SINAES Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior STJ Superior Tribunal de Justiça STF Supremo Tribunal Federal PROUNI Programa Universidade Para Todos UENF Universidade Estadual do Norte Fluminense UEMG Universidade Estadual de Minas Gerais UEMS Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul UENF Universidade Estadual Norte-Fluminense UFSM Universidade de Santa Maria UNIMONTES Universidade de Montes Claros UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro UFBA Universidade Federal da Bahia UFF Universidade Federal Fluminense UFSC Universidade de Santa Catarina UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UFPR Universidade Federal do Paraná UNEB Universidade do Estado da Bahia UnB Universidade de Brasília UNESCO United Nation Educational, Scientific and Cultural Organization UNICEF Fundo das Nações Unidas para Infância UNIMONTE Universidade de Montes Claros SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................... 14 A DIALÉTICA DA CIDADANIA NA CONSTRUÇÃO DAS DESIGUALDADES PERSISTENTES NO BRASIL ............................. 45 1.1 Brasil um País Historicamente Desigual ......................................... 47 1.2 O Mito da Democracia Racial e a Superação das Desigualdades Persistentes ....................................................................................... 60 A Questão da Pobreza no Brasil Contemporâneo: Expressão das Graves Desigualdades Nacionais ..................................................... 76 A POLÍTICA DE COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS NO CONTEXTO NEOLIBERAL ................................................................. 90 A “Questão Social” Expressa na Educação Brasileira ................... 92 2.1.1 Educação e Desigualdade Social na Contemporaneidade .................. 114 1 1.3 2 2.1 2.2 Público e Privado: Tensões Históricas de Significações Importantes para a Política de Cotas .............................................. 124 Dilemas da Educação Frente a Precarização da Esfera Pública: a “Reforma” Universitária do Neoliberalismo em Questão ............... 141 POLÍTICAS DE COTAS: AS (IN)VISIBILIDADES DOS DISCURSOS SOBRE O TEMA .................................................................................. 194 Principais Abordagens sobre a Política de Cotas nas Universidades ..................................................................................... 197 3.1.1 A Perspectiva da Igualdade Legal ........................................................ 199 3.1.2 A Perspectiva da Igualdade Racial ....................................................... 248 3.1.3 A Perspectiva da Centralidade da Luta de Classes ............................. 284 3.2 A Influência da Mídia na Construção do Consenso Anti-Cotas 309 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................. 345 REFERÊNCIAS .................................................................................... 349 2.3 3 3.1 14 INTRODUÇÃO Todo esforço de democratização, de criação de uma esfera pública, de fazer política, enfim, no Brasil, decorreu, quase por inteiro, da ação das classes dominadas. Francisco de Oliveira A presente tese de doutorado busca analisar as ações afirmativas1 no Brasil, tendo como base à realidade introduzida no início do século XXI com o chamado sistema de cotas nas universidades públicas brasileiras que a partir do ano de 2008 já existia em 51% delas em nosso país. Acreditamos que tais ações, apesar de se apresentarem como meras ações afirmativas, fazem parte de um quadro clássico de enfrentamento da questão social2, através do que se convencionou definir como políticas sociais compensatórias. Assim sendo, é um elemento que remete diretamente à esfera pública, uma vez que é papel do Estado possibilitar direitos iguais para todos, de forma indiscriminada. Cabe ressaltar que o tema em questão também despertou o nosso interesse enquanto professor do Instituto de Aplicação da UERJ desde 1987, trabalhando com turmas de 3ª série do ensino médio. Experiência que nos permitiu perceber a preocupação dos alunos com o tema, uns achando justo outros injusto o sistema, frente ao vestibular que iriam enfrentar. Também 1 “O termo ”ação afirmativa” foi criado pelo presidente americano, John F. Kennnedy, quando, em 1961, instalou a Comissão por Oportunidades Iguais de Emprego. Porém, somente quando os princípios dessa idéia foram incorporados pelo movimento de defesa dos direitos civis dos negros, liderado por Martin Luther King, alguns anos mais tarde, é que medidas concretas foram adotadas. Segundo o professor Gary Orfield, da Universidade de Harvard (EUA), as políticas de ação afirmativa se inserem no quadro das políticas concedidas nas décadas de 1960 e 1970, que “buscavam resultados concretos para melhorar as condições de vida das minorias”, não visando apenas a igualdade individual”. (Folha de S. Paulo, p. A13, 25 ago. 2001. In: BRANDÃO, Carlos da Fonseca, 2005,p.6).”A primeira iniciativa oficial (governamental) de política de ação afirmativa ocorreu em 1972, quando o então presidente Richard Nixon incorporou essa idéia na forma da Lei da Oportunidade Igual no Emprego, sancionada como emenda à Lei dos Direitos Civis, de 1964. (Folha de S. Paulo, pp. 1-14, 03 nov. 1996. In: BRANDÃO,idem) 2 A questão social neste estudo é definida como o conjunto de expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista madura, impensáveis sem a intermediação do Estado, ou seja, constitui-se como expressão das desigualdades sociais produzidas e reproduzidas na dinâmica contraditória das relações sociais, no conflito entre “o Capital e o Trabalho” (IAMAMOTO,2001,p.16). Com esta definição da questão social que trabalharemos ao abordar suas múltiplas expressões no contexto do capital financeiro. 15 como advogado atuante fui procurado por vários pais de jovens que foram preteridos pelo sistema de cotas e queriam uma medida jurídica capaz de garantir o ingresso de seus filhos, passando por cima do sistema de cotas. Achavam o sistema injusto, por acreditarem que o mesmo fere o princípio constitucional da igualdade. Por causa deste debate nas duas áreas foi ampliada a afinidade à temática, além de ter participado de várias discussões com Organizações Não Governamentais (ONGs) sobre a questão das cotas raciais. O interesse central em abordar este tema é fruto do reconhecimento da necessidade de se compreender os rumos da universidade pública na contemporaneidade, bem como o sentido das polêmicas causadas pela implementação da política de cotas na sociedade brasileira. A ênfase que daremos em nossa investigação é a política de cotas para negros, por ser essa a primeira e mais polêmica experiência nas universidades de nosso país. Em suma, a escolha de nosso tema é acima de tudo fruto da compreensão de que essa questão das cotas nas universidades públicas é de política educacional pública, ou seja, política de Estado, que não pode ser banalizada através de reflexões simplificadas sobre o assunto. Achamos extremamente complicado o fato de que as controvérsias advindas dessa polêmica questão não diferem muito das controvérsias produzidas pelos “debates sobre religião, aborto e outros assuntos polêmicos”, por envolverem “convicções pessoais profundamente enraizadas”, o que faz com que, muitas vezes, os debates sejam “parciais e passionais”. (HERINGER, 1999, p. 51. In: BRANDÃO, 2005,p.2) O objetivo da presente tese é colaborar no debate dessa importante questão de política pública de educação na contemporaneidade brasileira, especialmente porque a mesma está diretamente relacionada com uma questão muito mais importante: os riscos e conseqüências gerados pela efetivação tardia da cidadania presentes na reprodução das desigualdades historicamente persistentes em nosso país, no caso em foco, especialmente através da educação3. 3 Dados do IPEA publicados no site da ONG Crioula, que analisaremos no desenvolvimento da tese, revelam que o acesso à educação no Brasil, durante quase uma década de acompanhamento (1992 – 2001) evidenciam a posição inferior dos negros: 16 O significativo número de artigos, livros e notícias na mídia sobre o tema comprova o interesse do debate levantado pelas cotas, sobretudo no que se refere à questão racial. Segundo o encarte especial Jornal UERJ Em Dia 401, de novembro de 2007, esse foi o assunto com maior número de reportagens na imprensa ao abordar temas relacionados à Universidade4. Para efetivação da pesquisa de nossa tese, realizamos um levantamento de centenas de artigos de livros, dissertações, teses, notícias de jornais e revistas acadêmicas e não acadêmicas (Revistas Veja e Época) referentes à temática das cotas. Buscamos sistematizar esse significativo conjunto com o objetivo de mapear os principais eixos do debate que vem sendo utilizados nas argumentações a favor e contra a política de cotas raciais nas universidades5. Com relação ao expressivo contingente de publicações, podemos adiantar, com base nas sistematizações já realizadas que, o expressivo número não evidenciou nenhum consenso à cerca do tema, ao contrário, foi e continua sendo, palco de batalhas ideológicas que revelam a necessidade de IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 4 Segundo a coordenadora de imprensa da UERJ Ana Cláudia Theme, “uma instituição como a UERJ possui grande capacidade de gerar notícias. É presença constante na Mídia, seja por pesquisas, seja pela participação de seus especialistas no debate de temas locais e nacionais. Desde 2003, um tema afirmouse com destaque na pauta de comunicação da UERJ: as cotas do vestibular. Hoje é raro o noticiário sobre a UERJ transcorrer mais de 10 dias sem o assunto. De janeiro a novembro deste ano, a coordenadoria de imprensa da Diretoria de Comunicação da Universidade (Comuns) recebeu 57 solicitações, e repórteres brasileiros e estrangeiros, referentes às cotas. Pesquisadores de todo país também nos procuram para buscar informações”, tais dados podem ser verificados no site: www.uerj.br- “ UERJ na mídia”. Encarte do Jornal UERJ em dia 401, novembro de 2007. 5 a maioria da produção se concentra nos últimos três anos, ou seja, a partir de 2006, em consonância com o próprio percurso da experiência, que nesse período já se encontrava com dados mais precisos. 17 estudos mais aprofundados. Desde o início, era possível perceber que enquanto alguns grupos pressionavam a favor da implantação do sistema de cotas 6 , outros setores fizeram e continuam fazendo críticas violentas, sobretudo através da alegação de ferir os princípios da igualdade legal e do mérito, além de provocar uma queda na qualidade de ensino e também estimular ainda mais as tensões raciais no interior das Universidades. Dentre as várias fundamentações em que se sustentaram as negações da política de cotas encontram-se desde perspectivas conservadoras até perspectivas críticas do campo marxista ou não7. No campo de defesa da implementação das cotas também é possível detectar abordagens diferenciadas que incluem perspectivas teóricas distintas. Em suma, o fato de já fazer parte da realidade universitária brasileira há algum tempo, não retira da política de cotas raciais o caráter polêmico que acompanha esta discussão desde o início de sua implementação. Isso porque a Universidade sempre será um lócus em que se revelam tensões. Como Marilena Chauí elucida: A universidade é uma instituição social diferenciada e definida por sua autonomia intelectual e por causa disso pode relacionar-se tanto com a sociedade como com o Estado de maneira conflituosa, dividindo-se internamente entre os que são favoráveis e os que são contrários à maneira como a sociedade de classe e o Estado reforçam a divisão e a exclusão social e impedem a concretização republicana da instituição universitária e suas possibilidades democráticas (CHAUÍ, 2003, p.37) Vale ressaltar que a análise pretendida em nossa tese não pode se abster do conhecimento sobre a Universidade, sobre seus processos, características, história, papel social, objetivos e outros aspectos da instituição, 6 Conforme analisaremos em nossa tese, a reserva de cotas para estudantes negros não foi um movimento isolado. Desde novembro de 1995 quando ocorreu a marcha de comemoração da passagem dos 300 anos da chamada “imortalidade de Zumbi”, realizada em Brasília, promovida pelo movimento negro, fica inegável a organização política do movimento e a necessidade dos governos atentarem para a questão racial através de políticas sociais. A Marcha Zumbi dos Palmares – Contra o Racismo, pela Igualdade e a Vida, que reuniu entre militantes do movimento negro e de outros movimentos sociais cerca de trinta mil pessoas foi um marco de mobilização que gerou várias ações do governo. Observamos assim que as organizações do movimento negro, ao pressionarem o Estado por medidas específicas, geraram diferentes graus de respostas a estas demandas, em alguns setores resultando em medidas tais como reservas de vagas na seleção de cargos públicos – como aconteceu a partir de 2001 nos Ministérios da Agricultura e da Justiça, por exemplo – e em outros programas que visavam cumprir legislação preexistente, como é o caso da titulação de comunidades remanescentes de quilombos.” (HERINGER, 2005) 7 basta lembrar o excelente artigo de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: “ Sobre as Artimanhas da razão Imperialista”, publicado na Revista Estudos Afro-asiáticos v.24 n.1, Rio de Janeiro 2002 18 bem como do contexto histórico em que se insere. Concordamos com Ernesto Leyendecker quando observa que : A Universidade não está fora da história de um país, tampouco é toda a história, mas por ela 'passa' a história, da vida; neste sentido é aspiração humana, tentativa, ensaio, verificação, drama e desenlace, tarefa comunitária.(...) é uma realidade que fala. (LEYENDECKER, 1974, p.5) Cabe mencionar que para entender os programas de ação afirmativa, desenvolvidos através da implementação de cotas raciais, faz-se necessário compreender sua trajetória histórica. O reconhecimento da mesma evidencia que seu vínculo com as chamadas políticas compensatórias não é uma particularidade dos governos brasileiros, possuem já uma longa história que remete a sua origem nos EUA. Entretanto, Segundo Valter Roberto Silvério, nas políticas de ação afirmativas implementadas pelos EUA, entendidas como políticas compensatórias, é possível observar nitidamente duas matrizes, “uma preocupada com a inserção mais igualitária no mercado de trabalho”, por meio de combate “às discriminações de qualquer espécie que se antepunham como obstáculos ao desenvolvimento profissional e à conquista de um emprego”, e a outra direcionada para uma melhor qualificação profissional dos negros, por meio da criação de “uma condição especial de acesso às universidades, a partir do reconhecimento dos impedimentos legais e extralegais” que ainda existiam. (BRANDÃO, idem,p.51) Nos dias atuais, as cotas de acesso às Universidades Públicas como política de Estado, continuam sendo adotadas como políticas compensatórias, entretanto, como Brandão (idem) revelou em seu estudo, elas “têm ocorrido de duas formas distintas: por meio das chamadas políticas de ação afirmativa8 e das reparações” (SILVÉRIO, 2002, p.91, In: BRANDÃO, loc.cit., p.52). Além desse aspecto, as cotas na atualidade são incentivadas por organismos internacionais, como é o caso do Banco Mundial, em consonância com os interesses da hegemonia contemporânea do capital financeiro, que abordaremos no decorrer da presente tese (Cf. Cap.II). As formas de inclusão de forma excludente9 fazem parte deste processo, cuja complexidade necessita ser enfrentada. 8 Cabe ressaltar que “o estabelecimento de cotas, seja para acesso à universidade ou para qualquer outra finalidade, não se configura como a essência das políticas de ação afirmativa, mas sim como decorrência dessas políticas. (RIBEIRO,1996, pp-5-12 In: BRANDÃO,loc.cit,p. 53) 9 A esse respeito consultar o excelente estudo de José de Souza Martins. A Sociedade vista do Abismo. Novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais.Vozes, Petrópolis, 2002 19 Segundo Roberto Leher, a relação do Banco Mundial com a efetivação das propostas promovidas pelo Governo Lula na educação é muito importante para entendermos o atual cenário do Ensino Superior no Brasil. A presença do Banco Mundial enquanto protagonista da reforma educacional do governo de Lula da Silva é evidente nos documentos da área econômica. Não apenas na agenda macroeconômica, mas também no apreço às políticas de “responsabilidade social”, de “atenuação” da pobreza e de focalização das políticas sociais. Compartilham, igualmente, as mesmas convicções sobre a reduzida eficácia dos gastos sociais e a crença nas ações resultantes de parcerias Públicas-privadas . Recente “pacote” que vem sendo operacionalizado entre o Banco e o governo brasileiro tem como condicionalidade o fim da gratuidade do ensino superior, uma posição encontrada também no documento do Ministério da Fazenda “Gasto Social do Governo Central: 2001 e 2002” que, em conformidade com o teórico da direita da Escola de Chicago, Gary Becker, postula que o ensino superior gratuito é o principal obstáculo à concretização da justiça social no país, sugerindo empréstimos aos estudantes para que estudem nas escolas privadas. (LEHER,2004, site: Gramsci e o Brasil) Vale mencionar que as alternativas as “novas” expressões da questão social tem sido um conjunto de intervenções que constituem as políticas compensatórias contemporâneas, sem dúvida necessárias nessa circunstância, por meio das quais se procura atenuar os efeitos danosos do modelo econômico. Entretanto, tais políticas apenas confirmam e legitimam a subalternatização de vastos segmentos por meio de benefícios que não constituem legítima apropriação dos resultados da economia. “São apenas débito a fundo perdido, preço a pagar pela sustentação de uma economia cuja dinâmica bane e descarta parcelas da população” (FREIRE,2006,p.27). Concordamos com Maria Carmelita Yazbek quando menciona que, Frente a essa conjuntura de crise e mudanças, as políticas públicas na área social deverão acentuar seus traços de improvisação e inoperância [...] Permanecerão políticas ad hoc, casuísticas, fragmentadas, sem regras estáveis e operando em redes obsoletas e deterioradas. Corremos um risco de grave regressão de direitos sociais. (YAZBEK, 2001,p.37). Neste estudo pretendemos oferecer um conjunto de análises a fim de contribuir no aprofundamento deste debate, contextualizando o significado dessa experiência num cenário de declínio da esfera pública e contra-reforma universitária, no sentido abordado pelo educador Roberto Leher10. 10 A expressão contra-reforma vem sendo utilizada como denúncia do conjunto de propostas apresentadas pelo governo federal como Reforma Universitária. A esse respeito consultar : A contrareforma universitária do Governo Lula. Roberto Leher - 2004, site: Gramsci e o Brasil. (http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=39). Esse debate será aprofundado no capítulo II desta tese. 20 Sem dúvida muito se fala sobre cotas para negros nas Universidades Públicas, porém o debate possui abordagens que se repetem sem grandes aprofundamentos, naturalizando reflexões construídas por minimalismos conceituais que acabam limitando à discussão do tema a questões como, por exemplo: legalismo constitucional, meritocracia, desigualdade racial, dentre outras temáticas que serão discutidas no presente estudo através das abordagens que influenciaram as centralidades destes temas. Nesta direção, é visível o limite do debate que por falta de aprofundamento muitas vezes recorre a exemplos que não se aplicam ao Brasil, inclusive citando experiências em outros países, principalmente a norte americana11. Tais tendências aprofundam os limites que o tema é discutido, pois o Brasil tem uma história completamente diferente destes países, bastando observar nesta direção que o Brasil foi o último país americano a abolir a escravidão. Como é amplamente sabido, o Brasil se formou como nação a partir do chamado escravismo colonial. Essa marca de exploração, que combinou o trabalho forçado com a divisão e a dominação racial e étnica, acabou por caracterizar fortemente toda a nossa história, desde o descobrimento até o presente. “O peso do escravismo na sociedade brasileira, marcou de forma deletéria a cultura, os valores, as idéias, a ética e os ritmos de mudança” (BEHRING e BOSCHETTI, 2008, p.72) O Brasil é um país cuja organização das relações sociais sempre teve a marca da apartação social, um verdadeiro apartheid se quisermos utilizar a expressão aplicada ao exemplo da África do Sul. A apartação social traduz-se no regime econômico e seus efeitos político culturais que excluem e oprimem grupos e classes sociais, sustentando um capitalismo com barreiras de cor, de sexo e de idade. As grandes maiorias brasileiras de origem negra, indígena e as populações miscigenadas, nascidas dos cruzamentos entre as raças, sofrem uma divisão social que é ao mesmo 11 Ahyas Siss (2003) observa que na análise das políticas de ação afirmativa e de seus resultados há de se levar em consideração o contexto das relações sociais em que tais políticas estão inseridas, sob a pena de se operar reducionismos drásticos, tornando-se simplistas ou superficiais tais análises. Não desconsideramos também aqui o fato de que as realidades social, política, cultural e econômica de Brasil e Estados Unidos apresentam singularidades significativas, quando comparadas por contraste. 21 tempo discriminatória. A sociedade de classes no Brasil se desenvolveu sob a marca dessa separação ou apartação social. Conforme observou Octavio Ianni (2004, p.103), a história da sociedade brasileira está permeada de situações nas quais um ou mais aspectos da questão social estão presentes. Reflete disparidades econômicas, políticas e culturais, envolvendo classes sociais, grupos raciais e formação regional. Sempre põe em causa as relações entre amplos segmentos da sociedade civil e o poder estatal. Ao longo das várias repúblicas a questão social passou a ser um elemento essencial das formas e movimentos da sociedade nacional. As controvérsias sobre pacto social, a tomada de terras, a reforma agrária, as migrações internas, o problema indígena, o movimento negro, a liberdade sindical, o protesto popular, o saque ou a expropriação, a ocupação de habitações, a legalidade ou ilegalidade dos movimentos sociais, as revoltas populares e outros temas de realidade nacional, essas controvérsias sempre suscitam aspectos mais ou menos urgentes da questão. Nesse contexto, um dos temas citados por Ianni (2004) é a questão do negro e do índio que vem sendo debatido através do sistema de cotas adotado por diversas universidades públicas do país. Tais questões, sumariamente elencadas, evidenciam que o debate deve ser enfrentado dentro da complexidade que envolve a formação econômica, política e social do nosso país e deve ser discutido numa perspectiva que permita compreender o monopólio dos meios de produção e a sociedade construída em classes que gera exploração, desigualdade, alienação, miséria e insatisfação das camadas subalternas. Portanto a temática desta tese reatualiza questões históricas que vem sendo incluídas na pauta nacional de discussões. Não há dúvida que as cotas já fazem parte do cenário contemporâneo e da educação brasileira no início deste século, tendo sido as mesmas acionadas como estratégia de intervenção de políticas públicas, que foram sendo implantadas de modo cada vez mais ampliado12. Não podemos nos furtar de estar pensando em tais políticas, que é uma das maiores inflexões da nossa 12 Segundo notícia publicada no Jornal Folha Dirigida, de 25/03/2008, p.5 a Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro (UFF) introduziu cotas para professores da rede pública em 2007 para os cursos de licenciatura e a instituição já pensa em criar reserva de vagas para o curso de pedagogia. 22 educação superior, ainda não suficientemente aclarada, com limites e desafios já visíveis. Dentre as hipóteses que ajudaram a construir nossa proposta de estudo, destacamos nosso reconhecimento de que esse debate também tem interface com a questão da fragilidade das construções de identidades no mundo contemporâneo onde a pouca visibilidade das classes sociais diminuiu sensivelmente com as metamorfoses oriundas do mundo do trabalho e as identidades particulares foram impulsionadas em substituição ao declínio da centralidade da luta de classe nas reflexões teóricas13. O debate sobre a política de cotas é recente no Brasil, mas não é esse o motivo de sua grande fragilidade. Entendemos que a anulação histórica do verdadeiro sentido, do significado da política social, bem como da esfera pública e dos direitos na sociedade brasileira engendram incompreensões que acabam sendo favoráveis a manutenção de processos elitistas/discriminatórios que historicamente atravessam as relações sociais em nossa sociedade. Processos esses que acabam negando possibilidades históricas conquistadas pelas lutas da própria classe subalterna. Nas lições do Jurista Joaquim Barbosa Gomes (2003, p.46), justifica-se a adoção das medidas de ação afirmativa com o argumento de que esse tipo de política social seria apta a atingir uma série de objetivos que restariam normalmente inalcançados caso a estratégia de combate à discriminação se limitasse à adoção, no campo normativo, de regras meramente proibitivas de discriminação. Em suma, não basta proibir, é preciso também promover, tornando rotineira a observância dos princípios da diversidade e do pluralismo, de tal sorte que se opere uma transformação no comportamento e na mentalidade coletiva, que são, como se sabe, moldados pela tradição, pelos costumes, ou seja, pela história. Além disto, o resultado da conjugação do §1º, §2º do art. 5º do texto constitucional, nos conduz à constatação de que estamos diante de normas de mais alta relevância para a proteção dos direitos 13 As mudanças no mundo do trabalho e a redefinição do papel do Estado geram uma complexificação da questão social e impedem que se perceba a centralidade da classe e da luta de classes na sociedade contemporânea. Com base nas reflexões de Antonio Gramsci, pode-se afirmar que a sociedade civil é arena privilegiada da luta de classes, onde se dá uma intensa luta pela hegemonia – e não campo da filantropia e ação despolitizada – e, por isso, não é oposta ao Estado, mas articulada a ele (MATTOS, Marcelo Badaró, 2006, p.32). 23 humanos (e, conseqüentemente, dos direitos das minorias) no Brasil, quais sejam: os tratados internacionais de Direitos Humanos, que deveriam ter aplicação imediata no território brasileiro. Nesta investigação discutiremos a política de cotas como política pública e não nos limitaremos a um mero debate de apoio ou oposição a essas ações afirmativas, pois as mesmas já existem de modo significativo e necessitam ser pensada, tanto é que estavam presentes no projeto de Reforma Universitária, e posteriormente em projeto específico no Congresso Nacional, gerando grandes polêmicas14. Não estamos defendendo que uma política compensatória possua caráter permanente, mas quando as estatísticas mostram que negros, índios, e estudantes, oriundos de escolas públicas, não conseguem chegar até a Universidade Pública, é sinal que alguma coisa precisa ser alterada no complexo processo educacional brasileiro em sua totalidade. No inicio de nosso curso de doutorado, no segundo semestre do ano de 2005, a política de cotas também já existia para portadores de necessidades especiais e para a participação de mulheres em partidos políticos, pois havia dados apontando para uma discriminação absurda. No presente ano de 2009, ou seja, mais de cinco anos após a sua implantação na UERJ, a política de cotas nas universidades estaduais ainda tem fôlego para polêmica. Sem chamar atenção, o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou no mês em 17 de julho de 2007 a LEI Nº 5074 (aditiva à Lei 4.151)15 de autoria do deputado e ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins (PMDB), que inclui os filhos de policiais civis e militares, bombeiros, inspetores de segurança e agentes de administração penitenciária mortos em serviço ou incapacitados permanentemente entre os beneficiados pela reserva de vagas (consultar LEI em ANEXO). A mudança valeu, por exemplo, para o vestibular de 2008 e 2009 da UERJ. 14 Na primeira versão, proposto pelo governo Fernando Henrique Cardoso e posteriormente alterado pelo governo Lula e denominado Contra-Reforma Universitária pelos analistas mais críticos. 15 A lei altera um trecho do texto original de cotas, que estabelecia 5% das vagas para minorias étnicas e portadores de deficiência. Nesta porcentagem, foram incluídos os filhos de policiais civis e militares, bombeiros, inspetores de segurança e agentes de administração penitenciária. Continuam valendo os 20% das vagas para os alunos da rede pública e os outros 20% para os negros. 24 De acordo com o deputado Álvaro Lins, a origem da nova lei baseou-se em um fato histórico. "Os filhos dos soldados que participaram da 2ª Guerra Mundial tinham preferência em escolas e universidades. Achei esta atitude muito interessante, e quis adaptá-la para o Rio. Cerca de 1,3 mil policiais militares morreram nos últimos dez anos somente no Rio. Por isso, pensei em ajudar os filhos destes heróis", explicou em entrevista ao Jornal o Globo de 4 de agosto de 2007. A inclusão desses novos segmentos em 2007 evidencia o alto grau de complexidade na utilização das cotas como política pública, entretanto diferentemente do que ocorreu na efetivação das cotas raciais não foi movida nenhuma Ação Declaratória de Inconstitucionalidade (ADIN) até o momento, ou seja, quase um ano após a lei ser sancionada. Existiram reações à mesma, mas foram expressas de modo isolado, como a declarada pelo professor Ricardo Vieiralves ao Jornal da Ciência publicado no site da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 15 de janeiro de 2008, uma semana antes de sua posse como Reitor da UERJ. Ao responder a pergunta: O senhor é a favor das cotas para filhos de policiais e bombeiros mortos em serviço? O mesmo respondeu: Eu acho que já chega. A experiência é suficiente. Não podemos fazer uma idéia de sociedade estratificada por segmento corporativo. A questão da desigualdade passa por sinais sociais, cor e renda familiar são cortes de desigualdade, que, por isso, traduzem efeitos de preconceitos e situações discriminatórias. Ao fazer uma divisão corporativa na sociedade, com privilégios para filhos de profissionais específicos, vamos transformar um programa de redução de desigualdade em cartório de interesses. Eu me rebelarei. (notícia JC 3430, de 15 de Janeiro de 2008 site:http://www. jornaldaciencia. org.br) Na mesma entrevista, o atual reitor observa que : A população universitária, o sistema de ensino como um todo, reproduz a exclusão existente na sociedade. A universidade pública tem uma população com uma renda salarial que a coloca no lugar da classe média para cima. A entrada do sistema de cotas trouxe uma população que não entrava antes na universidade pública. Ela está mais negra; era mais branca. E com gente mais pobre, que antes não tinha acesso ao ensino superior. (idem) Na mesma ocasião Vieiralves respondeu a pergunta se a Uerj estava preparando uma análise a respeito do efeito das cotas desde que o sistema foi implantado. 25 - Vieiralves: Não foi feito ainda. Nós iremos construir indicadores sobre todo o sistema, que ainda estão poucos constituídos, com base de dados sobre a performance, a situação de renda, perfil, quem permanece, qual curso tem mais evasão, por qual motivo. Espero até agosto 2008 estar com essa base consolidada (ibdem) Não por acaso também é no presente ano de 2008 que, começamos a ter acesso a dados mais concretos (embora ainda muito embrionários) sobre o impacto das cotas na experiência pioneira da UERJ16, um dos estímulos iniciais para pensarmos o tema dessa tese, conforme mencionado anteriormente. Tem sido esse ainda incipiente acesso que nos estimula ainda mais para o reconhecimento da importância da reflexão que pretendemos desenvolver. Basta observar por exemplo a recente reportagem publicada em 11 de abril de 2008 no Jornal O Dia, intitulada: “Vestibular: Procuram-se cotistas”. Na mesma as jornalistas Daniela Dariano e Maria Luisa Barros registram que as “Universidades saem à caça de estudantes do Ensino Médio que se adaptem aos critérios do benefício. Houve redução de 75,5% nas inscrições na Uerj e Uenf, onde sobraram 1.335 vagas”. Lembram ainda que Há cinco anos, o sistema de cotas abriu as portas do ensino superior para estudantes carentes. Hoje eles estão deixando de bater à porta das universidades. Desde o início da lei, em 2003, o número de candidatos caiu 75,5% na Uerj e na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Como eles não estão indo até as faculdades, elas decidiram ir ao encontro dos alunos do Ensino Médio. As universidades estaduais têm ido às salas de aula para convencê-los a usar um direito que é deles.(O DIA,11/04/2008,p.17) A matéria, com base em dados quantitativos, menciona que no vestibular 2008 das duas instituições analisadas, foram oferecidas 2.632 vagas para estudantes negros, oriundos da rede pública, portadores de deficiência, indígenas e filhos de policiais e bombeiros. Entretanto, ainda “sobraram 1.335 vagas para cotistas. E, mesmo que todos os inscritos no exame tivessem sido aprovados, ainda assim o número seria insuficiente para ocupar todas as carteiras reservadas: restariam 535 lugares. As vagas não preenchidas são ocupadas por não-cotistas” (O DIA, idem). A reportagem atribui ao fato a adjetivação de fenômeno e diz que o mesmo tem intrigado reitores, pesquisadores e o Estado. Entendemos que 16 Desde 2005 estamos tentando ter acesso a dados mais concretos dessa experiência sem sucesso, inclusive requerendo através de petição protocolada da reitoria da UERJ no ano de 2007. 26 mais curioso que a revelação dos dados é estarmos diante de uma política pública que já vem sendo efetivada há meia década se surpreender com essa questão definida como fenômeno, o que revela que a mesma ao ser oficialmente implementada e no seu processo de efetivação não buscou uma vinculação com a realidade do ensino médio em nosso país. Como se a Universidade Pública fosse um espaço autônomo, com vida própria, no contexto da política de educação. A quebra da totalidade na compreensão de uma política pública ajuda a entender a questão17. A idéia de ações públicas afirmativas chegou ao Brasil carregada de sentidos diversos, que normalmente refletem a diversidade de debates e experiências históricas dos países que lhes deram origem. Mesmo se encontrando presente em todos os países democráticos modernos, sem exceção, pois todos praticam algum tipo de compensação ou de proteção às populações desfavorecidas, ainda pouco conhecida é sua definição. Suas características surgem da ideologia do Estado de Bem-estar Social 18 , onde a população reivindica ações públicas intervencionistas, que participem da realidade, através da concessão de direitos e distribuição igualitária dos mesmos. Podemos definir políticas de ações afirmativas como definiu Bárbara Bergmann (1996, p.17): “ação afirmativa é planejar e atuar no sentido de promover a representação de certos tipos de pessoas - aquelas pertencentes a grupos que têm sido subordinados ou excluídos - em determinados empregos ou escolas”. 17 Segundo a mesma reportagem mencionada, “preocupada com a sobra de vagas para cotistas, a Uerj iniciou estudo para identificar as causas do problema. "Este ano [2008], aniversário de 5 anos da lei de cotas, teremos que trabalhar para dar essa resposta", afirma a pró-reitora interina de Graduação da Uerj, Hilda Maria Montes Ribeiro de Souza. Uma das hipóteses levantadas pelas universidades e por pesquisadores é a de que havia uma demanda reprimida que já teria sido sanada. Nesse caso, a solução seria recalcular, diminuindo o percentual de reserva de vagas, que hoje é de 45% (20% para negros, 20% rede pública e 5% para os demais). Outra possibilidade, ressaltada também nesse jornal é que os estudantes estejam migrando para faculdades particulares, atraídos pela bolsa-auxílio do Programa Universidade para Todos (ProUni) e com a vantagem de cursar a faculdade mais perto de sua casa, em que o custo com transporte é menor. O ProUni financia as mensalidades até o fim do curso. A Lei de Cotas dá ajuda de custo — de R$ 193 na Uerj e de R$ 214 na Uenf — para alunos do primeiro ano. Aluna da primeira turma de cotistas da Uerj, Rachel Cabral da Silva, 22 anos, aponta outra razão para a sobra de vagas. "Não há divulgação nas escolas sobre as cotas raciais e ações afirmativas", queixa-se a estudante de Geografia. Em 2003, ela concorreu com 8.533 candidatos pela reserva de vagas. No último vestibular, a disputa foi mais fácil: apenas 2.097 inscritos. 18 O curioso na experiência Brasileira é que a associação entre as cotas e o Estado de Bem Estar Social é ignorada, tanto que as mesmas começam a ser efetivada em pelo neoliberalismo, o que impossibilitou a tardia construção de um Estado de Bem Estar prevista na Constituição de 1988. 27 Ao ampliarmos os horizontes dessas análises podemos verificar que em nossa sociedade as ações afirmativas surgiram historicamente, no que se refere ao componente étnico-racial, em função das tensões provocadas através das denúncias da pouca presença de estudantes negros nas Universidades brasileiras. A pressão de movimentos sociais, principalmente o de defesa dos negros, conforme mencionamos em nota anterior, chamou a atenção da sociedade para o debate sobre os efeitos da discriminação racial de origem e social. Esse movimento se ergueu e desenvolveu no Brasil no final do século XX e não tardou a receber respostas do governo19. Conforme já mencionado até o ano de 2008, as ações afirmativas haviam sido implantadas através de cotas em 51% das Universidades Públicas Brasileiras 20 . A implementação teve início em 2003 de modos distintos, resultantes da ação dos poderes, executivo e ou legislativo de unidades da federação como, por exemplo, o Rio de Janeiro, onde a partir desse mesmo ano temos o ingresso de estudantes através de cotas na Universidade do 19 Analisando a atuação do governo federal podemos destacar a realização do Seminário Internacional sobre Multiculturalismo e Racismo ocorrido em 1996 promovido pelo Ministério da Justiça com intuito de debater políticas do tipo de ação afirmativa. A partir deste Seminário o então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso criou o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH, que recomendava objetivos de curto, médio e longo prazo para mulheres, pessoas com deficiências físicas, povos indígenas e pessoas negras. No que se refere a ações em benefício da população negra; a curto prazo, foi indicada a necessidade do estudo de políticas públicas que valorizassem os negros; a médio prazo, aparecia a necessidade de ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta e; a longo prazo, os objetivos eram de cancelar todas as leis discriminatórias, desenvolver políticas e regulamentações que buscassem combater a discriminação racial e formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra. (TELLES,2003). Entretanto, apesar do intento lançado em 1996 até o final do segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso nada se havia concretizado do que foi proposto no Seminário. Telles (2003, p.79) argumenta que apesar interesse demonstrado por parte do Presidente FHC, ele ainda dependeria de sua equipe de governo e estes como descreve: “Embora reconhecessem a existência de racismo na sociedade brasileira, os acadêmicos brasileiros, cuja opinião importava mais ao Presidente e seus administradores, reforçam a crença de que a democracia racial é profundamente valorizada no Brasil... Além disso, para eles, a cultura popular brasileira celebra ambigüidade e a miscigenação ao invés da separação conceitual de grupos, necessária para identificar os beneficiários de ações afirmativas”. 20 Em matéria publicada por Antônio Góis pela Folha de São Paulo em 8 de janeiro de 2008, no Rio mais da metade das universidades estaduais e 42% das federais adotam algum tipo de ação afirmativa no Brasil. Um levantamento feito pelo Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) mostra que 51 instituições públicas oferecem, por meio de cotas ou de bonificação no vestibular, vantagens a alunos negros, pobres, de escola pública, deficientes ou indígenas. Das 51 instituições, 18 são universidades estaduais. Elas representam 51% do total de 35 mantidas por Estados no Brasil. Das 53 universidades federais, 22 têm ações afirmativas. Além de universidades (instituições com mais autonomia e exigência de investimento em pesquisa), há também na lista faculdades, centros universitários e Cefets. O Mapa das Ações Afirmativas mostra ainda que as cotas onde determinado percentual de vagas é reservado a um grupo- são a ação mais comum. Só sete instituições públicas adotam a bonificação-- em que um candidato recebe pontos adicionais em relação aos demais, sem percentual de vagas preestabelecidas. No caso dos negros (somatório dos autodeclarados pretos e pardos), 33 instituições têm políticas voltadas para eles; 18, não. O critério mais utilizado é o da autodeclaração, ou seja, a cor da pele ou etnia é definida pelo próprio estudante. 28 Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), seguido pelo estado de Minas Gerais na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e na Universidade de Montes Claros (UNIMONTES) e no Estado de Mato Grosso do Sul na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). Cabe mencionar que a implementação de políticas de ação afirmativa no Estado do Rio de Janeiro se inicia a partir da reserva de vagas para estudantes da rede pública de ensino do Estado com a implementação da Lei nº 3524 de 28 de dezembro de 2000 que declara os critérios de seleção e admissão de estudantes da rede pública estadual de ensino em universidades públicas estaduais como dispõe os artigos da Legislação Estadual do Rio de Janeiro que reserva 50% das vagas para estudantes da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Um ano após a instituição da Lei de cotas para rede pública no Estado do Rio de Janeiro o então Governador Anthony Garotinho decretou a Lei Estadual nº 3708 de 09 de novembro de 2001 que reserva 40% das vagas relativas aos cursos de graduação oferecidos pela UERJ para negros e pardos não fazendo distinção entre estes. A implementação destas leis foi o ponto de partida para o início do polêmico debate sobre as políticas de ação afirmativa, mais especificamente a política de cotas. Sendo também por esse motivo nosso interesse específico por esse campo de análise e reflexão sobre as cotas. Entendemos que esse é o ponto nevrálgico de tensionamento sobre essa política. Foram tais leis que resultaram num grande debate da sociedade carioca que criticava as normas por questão de mérito, acreditando que a adoção das cotas feria o princípio da isonomia formal. A partir daí foi aprovada a Lei Estadual nº 1.151/03 que se encontra em vigor até hoje, reservando 20% para alunos de escolas públicas, 20% para negros e pardos e 5% para portadores de necessidades especiais.21 A introdução do sistema foi realizada na verdade em 2003. A implementação do sistema de cotas estabelecido pelo Poder 21 Vale ressaltar que a Lei Estadual n.º 5.074, de 17de julho de 2007, ampliou o rol de beneficiados da lei de cotas nas universidades estaduais, incluindo os filhos de policiais civis e militares, bombeiros, inspetores de segurança e agentes de administração penitenciária mortos em serviço ou incapacitados permanentes 29 Executivo e Legislativo gerou um forte impacto na comunidade da UERJ, pois a Universidade em momento algum foi ouvida. Como o vestibular de 2003 já estava em andamento, foi preciso desmembrá-lo em dois concursos simultâneos, com ou sem vagas reservadas para alunos da rede pública e para negros. Nesta ocasião os debates se firmaram no sentido da autonomia universitária (que fora ferido já que a Lei Estadual determinava que a UERJ reservasse vagas, sem ouvir a comunidade acadêmica); da discriminação racial versus legalidade e mérito e na questão do acesso. O conflito ocorria pelas reivindicações de um segmento do movimento negro de liderança católica (Frei David) e a resistência no Conselho Superior de Ensino e Pesquisa (CSEP) da UERJ alegando queda na qualidade da seleção. Na gestão em que ocorriam os debates, ocupava o cargo de reitora a professora Nilcea Freire e o vice-reitor professor Celso Sá. Nesse momento a reitoria assumiu a pressão do Governador Garotinho, da Assembléia Legislativa e do movimento negro, principalmente da ONG EDUCAFRO (que chegou até a convocar os estudantes negros para se acorrentarem nas grades da UERJ), tal processo aumentou a necessidade de se aprofundar o debate na própria instituição, entretanto o mesmo não ocorreu. A discussão sobre acesso via cotas na UERJ possui particularidades, com relação ao contexto nacional, que ajudam a entender seu pioneirismo. A discussão surgiu nos Conselhos da instituição, quando no final da década de 1980 a universidade se desvincula da Fundação Cesgranrio e começa a pensar o seu próprio vestibular. A discussão era no conteúdo e na forma e não se falava em cotas. Aproveitando tal debate, entra em cena o movimento negro que inicia um processo de pressão dentro e fora da UERJ. Como no interior da UERJ, pelos Conselhos não encontrava espaço, buscou um projeto de Lei do Deputado Fernando Gusmão (Ex-dirigente da UNE) e o apoio de um governo que pudesse trazer o sistema de cotas raciais de fora para dentro, através de Lei Estadual. Foi o que ocorreu com o apoio do Governador do Estado do Rio de Janeiro Anthony Garotinho e de sua bancada na Assembléia Legislativa, aprovou a primeira lei sobre cotas. Posteriormente foram promulgadas duas leis que buscaram aprimorar as 30 anteriores. No primeiro vestibular com cotas raciais da UERJ em 2003 se autodeclararam negros/pardos 915 estudantes pelo SADE e 1.058 brancos oriundos de escolas públicas. Outro dado importante divulgado pelo Programa de Apoio ao Estudante Cotista (PROINICIAR) 22 refere-se a implementação tardia das bolsas de estudos que só ocorreu em 2004, ou seja, após um ano do ingresso dos estudantes oriundos de cotas, confirmando o caráter inicial da política como de simples acesso à Universidade, sem a preocupação com a permanência do estudante. A relevância do tema é inegável, não apenas por fazer despontar as tensões existentes entre diversas questões que envolvem os rumos do acesso à educação e os grupos étnicos-raciais organizados. Além disto, o sistema adotado, fez despertar setores mais conservadores que sempre acharam que a Universidade é um local para poucos, não podendo haver universalização neste espaço da educação. A questão das ações afirmativas relacionadas às cotas de acesso à Universidade engendra um conjunto de questões que só podem ser verdadeiramente discutidas se analisarmos a história da educação em nosso país. A universidade não é um “lócus” isolado desta história e Chauí enfatiza esse pensamento ao afirmar que: a instituição social se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempos particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições e sim vencer a competição com seus supostos iguais. (CHAUÍ, 2003, p. 75) A história da educação no Brasil revela que a apresentação de propostas para a educação pública, a partir de uma perspectiva crítica, ligada aos interesses das classes subalternas, ocorre somente durante a década de 80 do século passado, quando tem início a redemocratização do país, no final 22 Conforme veremos no Cap. II desta tese, o PRONICIAR foi criado em 2004 por meio da Deliberação 043/2004, com vistas a oferecer suporte ao estudante oriundo do sistema de reserva de vagas (cotas). Compreende a destinação da Bolsa Iniciação Acadêmica e o oferecimento de disciplinas instrumentais, oficinas e atividades culturais que supram as demandas educacionais e sócio-culturais dos alunos cotistas e dêem base para que estes obtenham êxito nas disciplinas específicas de seu curso. Esse fato reforça, por conseguinte, o caráter acadêmico da bolsa, em uníssono com a questão de uma política interna de ações afirmativas, garantindo o acesso, a permanência e o sucesso acadêmico de seus alunos. 31 de uma ditadura militar que durou mais de vinte anos. Elas começaram a surgir em confronto com a noção de Louis Althusser (1974, p.126), segundo a qual a escola é um aparelho ideológico do Estado burguês. Suas idéias não encorajavam (e nem poderiam) a formulação de um projeto socialista para a escola pública. Ao contrário, esta passou a ser profundamente atacada, como se fosse um instrumento par excellence de dominação absoluta do capital. Foram as reflexões de Antonio Gramsci (1978, p.76), mais difundidas nos anos de 1980, que contribuíram para formular projetos em defesa da educação pública e de qualidade para todos. Nesse período, enquanto o referencial gramsciano passou a orientar projetos para a escola pública e pesquisas em educação, as teorias da escola como aparelho de reprodução, inspiradas na perspectiva de Althusser 23 entraram em declínio. Cabe salientar que o interesse de Gramsci pela educação e pela escola desenvolve-se no mesmo passo em que ele amplia seu estudo sobre o Estado capitalista e rompe com as teorias dominantes no movimento socialista, segundo as quais as ideologias não tinham importância, sendo apenas um produto do domínio do capital. Desse modo, faz-se necessário ressaltar que nossa tese será desenvolvida tendo como um dos pressupostos teóricos principais o pensamento gramsciano24. 23 O filósofo francês Louis Althusser construiu posições teóricas que permaneceram muito influentes na filosofia marxista. Utilizou o conceito de superdeterminação, oriundo da psicanálise, a fim de substituir a idéia de "contradição" por um modelo mais complexo de casualidade múltipla, em situações políticas (uma idéia muito próxima do conceito de hegemonia de Antonio Gramsci). É muito conhecido como um teórico das ideologias, e seu ensaio mais conhecido é Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. O ensaio estabelece seu conceito de ideologia, que relaciona o marxismo com a psicanálise. A teoria dos Aparelhos Ideológicos de Estado constrói uma visão monolítica e acabada de organização social, onde tudo é rigidamente organizado, planejado e definido pelo Estado, de tal sorte que não sobra mais nada para os cidadãos. 24 Na acepção gramsciana de direção política e cultural de um grupo ou classe social sobre as demais, o conceito de hegemonia tem assumido um importante papel nos estudos sobre educação nas sociedades capitalistas contemporâneas. Nestas sociedades mais complexas, o consenso parece dominar, não sendo a força e sim o consentimento, a base da ordem social. Ora, a estratégia de uma classe subalterna que se pretende a alçar como dominante não pode desprezar tais fatos, pois eles são centrais na estratégia do inimigo. Algumas implicações desta concepção devem ser apontadas, além da necessidade de uma nova concepção de Estado como campo de luta de classes e de democracia como valor estratégico: i) reconhecimento da diversidade de sujeitos e de interesses nos processos de transformação social; ii) assunção do papel fundamental, nos conflitos sociais, desempenhado pela cultura e o papel dos intelectuais em sua organização; iii) necessidade de compreender, como a hegemonia é construída e mantida, incluindo aqui a existência, a diversidade e a reprodução do consenso através dos aparelhos privados de hegemonia (GRAMSCI, 1999, p. 97). 32 A elaboração de um projeto contra-hegemônico na educação é um elemento fundamental da ‘guerra de posição’ no pensamento de Gramsci. Desse modo, pensar as estratégias contra-hegemônicas é tarefa de todo educador comprometido com a luta pela emancipação humana. Entendemos que todas as políticas públicas constituem processos contraditórios que precisam ser pensados no bojo das possibilidades que engendram. Diante disso cabe mencionar que de acordo com Gramsci (idem), a hegemonia significa que o Estado capitalista não baseia o seu poder apenas na força, na pura repressão aos seus adversários, embora a repressão não seja extinta. Para que os grupos dominantes obtenham o consenso na sociedade, eles permitem que os grupos subalternos se organizem e expressem seus projetos sociais e políticos. Com isso, vão se constituindo mediações entre a economia e o Estado, que se expressam na sociedade civil: o partido político, o sindicato, a imprensa, a escola. É um movimento próximo daquilo que Gramsci, certamente inspirado na reflexão de Hegel, entendeu como "trama privada", chamando a sociedade civil de "aparelho 'privado' de hegemonia". O autor observa ainda que se o surgimento da sociedade civil mostra o intenso trabalho educativo da classe dominante para garantir o consenso ao seu governo, ele também pode indicar formas de organização das classes subalternas para a conquista da hegemonia. Segundo Gramsci (idem, p.79), um "grupo social pode e mesmo deve ser dirigente antes de conquistar o poder governativo (essa é uma das condições principais para a própria conquista do poder); depois, quando exerce o poder e ainda que o empunhe fortemente, torna-se dominante, mas deve continuar também a ser 'dirigente'". A sociedade civil é o lugar no qual se dá a luta entre projetos sociais e políticos que são contraditórios entre si, no quadro da disputa pela hegemonia entre as classes sociais fundamentais. O poder dos grupos dominantes é exercido de forma repressora, mas também de forma "humana", porque ele busca e educa o consenso das classes subalternas. Com o objetivo de tornar o "centro de cultura" hegemônico, Gramsci (idem) propõe duas linhas "principais" de ação: uma concepção geral de vida e um programa escolar. A concepção de vida tem como referência o marxismo, que deveria ser aprofundado e desenvolvido; já o programa escolar diz respeito 33 a "um princípio educativo e pedagógico original que interesse e dê uma atividade própria, no seu campo técnico, àquela fração dos intelectuais que é a mais homogênea e a mais numerosa (os professores, do ensino elementar aos professores de Universidades)". Entendemos que o pensamento de Gramsci contribui significativamente para aprofundar o debate sobre as ações afirmativas efetivadas através das cotas nas universidades Públicas e os rumos da educação brasileira. O referido autor, ao desenvolver o princípio educativo, acaba formulando a noção de escola unitária. O "princípio unitário", segundo o autor, ultrapassa a escola como instituição e se relaciona à luta pela igualdade social, para superar as divisões de classe, que se expressam na separação entre trabalho industrial e trabalho intelectual e dividem a sociedade entre governantes e governados. Salienta ainda que, a "escola unitária" é esboçada como "um esquema de organização do trabalho cultural". Com base nesse pressuposto Gramsci permite uma reflexão da educação dentro de uma totalidade, inserindo-a num processo histórico que lhe confere sentido e possibilidade de construir propostas contra-hegemônicas. Cabe ressaltar que segundo Gramsci (idem, p. 87), apesar de todas as dificuldades percebidas e vistas de perto e do longo caminho, muito mais longo do que o imaginado, que será preciso percorrer com "paciência histórica", ele elege o Estado como alvo privilegiado para os movimentos sociais com potencial revolucionário. A sociedade civil é também Estado, porque instância de consenso, em alguns momentos antagonizando ou dialogando consigo mesma ou com uma de suas muitas faces. Nessa perspectiva, importa conferir importância à dimensão da conquista de posições no bloco histórico e a ocupação de "trincheiras" estatais. Pois é ainda fundamental conhecer o perfil individual, mas construído socialmente, daqueles que ocupam posições na estrutura de poder, além de suas referências teórico-práticas, para que se possa avaliar a pertinência e o alcance de políticas sociais implementadas e outras que devem ser propostas. A reserva de cotas possui um potencial ainda não suficientemente aclarado, no sentido da possibilidade que ela engendra de denúncia, dos limites da esfera pública, da pouca publicização da educação no país, dos 34 limites de universalização da universidade e da permanência de graves desigualdades que anulam a possibilidade de construção da cidadania de imensos contingentes da nossa população, em pleno século XXI. Assim sendo, temos como hipótese principal desse estudo o fato de que a centralidade da política de cotas, sustentada apenas em aspectos do senso comum, independente das relações sociais, ou seja, sem as devidas intermediações com a história brasileira e a necessidade da universalização da educação em sua totalidade acaba fragilizando o debate sobre tal política 25 , promovendo um reducionismo das suas possibilidades. É justamente com base no reconhecimento dessa questão, que construímos o eixo de nossa investigação. Possuímos como preocupação imediata (objetivo central) ter um entendimento adequado das bases de fundamentação das produções destinadas ao tema, buscando evidenciar os principais argumentos presentes na batalha de idéias que guia a implementação das cotas raciais nas Universidades Públicas brasileiras. Temos como pressuposto que a frágil implementação da Política de Cotas de acesso às vagas na Universidade e sua precária relação com a totalidade dos rumos da Educação em nosso país, encontram-se relacionada ao minimalismo conceitual que vem prevalecendo no debate da mesma. Melhor dizendo, temos como objeto de tese a construção de aportes capazes de guiarem a reconstrução do sentido histórico das políticas de cotas nas universidades públicas brasileiras no atual contexto histórico nacional a partir do resgate/organização das perspectivas/abordagens teóricas que guiam os diferentes argumentos em defesa ou contrários a essa política pública. Entendemos que esse esforço de reflexão é capaz de nos ajudar a compreender os diferentes projetos de educação em presença em nosso país e conseqüentemente aclarar a compreensão dos rumos da Universidade Pública 25 A Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) instituiu a política de cotas no estado em 2003 com o intuito de diminuir as desigualdades sociais, que emperram o desenvolvimento do País. Ao admitir que as pessoas que não tiveram acesso à educação de qualidade e que não puderam comprar bons livros nunca irão concorrer em melhores condições para o acesso à educação superior, o estado busca promover a justiça social e abandona sua tradicional posição de neutralidade e de mero espectador, passando a atuar ativamente para atingir a tão esperada igualdade propalada pela Constituição de 1988. Entretanto, ainda não é o bastante, visto que a burguesia não tem interesse em acabar com a desigualdade e sim administrar a mesma. 35 na contemporaneidade. Tal proposta revelou ao longo de seu desenvolvimento que as condições objetivas também condicionam o recorte do objeto de pesquisa. Não almejamos oferecer através de nossa investigação uma interpretação da "singularidade" histórica do desenvolvimento dessa política na UERJ, mas exatamente o contrário: o objetivo é mostrar como a complexidade e a singularidade de uma experiência pode ser abordada por meio de uma perspectiva genérica, que articulada com determinações particulares, permite um delineamento totalizante, evidenciado nos seus vínculos com políticas mais amplas e suas semelhanças não circunstanciais com outras experiências desenvolvidas no país26. Assim sendo, ao considerarmos a particularidade e complexidade de nosso objeto, estamos enfatizando que o mesmo faz parte de uma totalidade, em movimento, repleta de contradições. Num plano mais concreto e operacional, partimos da premissa de que uma compreensão desse objeto impõe aprofundar a Educação no Ensino Superior em nosso país, particularmente na Universidade Pública. Todas as vertentes dos debates existentes não podem deixar de (re)conhecer que as políticas inclusivas, políticas de ação afirmativa têm desencadeado não só estudos e debates teóricos, como também, produzido ações concretas oriundas de instâncias públicas, privadas ou por meio da sociedade civil organizada, apesar da gama de contradições que muitas vezes possam representar. Com base no exposto, objetivamos ultrapassar o minimalismo conceitual com o qual é tratada a política de cotas, normalmente centrada na questão racial, na isonomia e na meritocracia, visando contribuir para a construção de abordagens historicamente centrais, capazes de revelarem o significado da permanência das desigualdades sociais, dos rumos da universidade pública, da luta de classes, da hegemonia, da democracia, da cidadania e dos efeitos perversos provocados pelo neoliberalismo na esfera pública. 26 Durante a tese usaremos dados de outras universidades, além da UERJ, para melhor analisar a implantação do sistema de cotas, bem como fazer um paralelo entre elas. 36 A investigação visa trazer mais uma contribuição para a discussão com relação às ações afirmativas, no campo da educação. Procuramos refletir com base na contribuição das concepções de Gramsci acerca da relação Estado, educação e sociedade. Também enquanto particular contrastante aos casos clássicos a constituição do capitalismo brasileiro - lenta, gradual, conciliatória e reformista - nos permite utilizar como referência teórica as elaborações de Antonio Gramsci - notadamente do seu conceito de “Revolução Passiva” 27 sobre as análises aqui empreendidas. Objetiva-se também aclarar o sentido, o significado das ações afirmativas de cotas em nosso país, analisando seus dilemas, limites e possibilidades, historicamente situados. Como objetivos específicos visamos: - Contribuir para a ultrapassagem do minimalismo conceitual presente nos estudos sobre as ações afirmativas em diferentes abordagens; - Relacionar o debate das ações afirmativas com o sucateamento das universidades públicas por parte dos governos que vem universalizando a precarização; - Reconhecer as cotas como uma política social compensatória, que faz parte do quadro de enfrentamento da questão social; - Aprofundar o debate das cotas no contexto do declínio da esfera pública e Reforma universitária; Todos os objetivos da tese só serão alcançados se formos capazes de arrumar o que Milton Santos chamou de ambiente de confusão dos espíritos (SANTOS 1999, apud BEHRING e BOSCHETTI, 2006,p.9), no qual a ressemantificação dos termos como cidadania e reforma passaram a ser preposições concretas de programas e políticas focalizadas à esquerda e à direita, nos desafiando a contribuir para colocar as idéias sobre esse tema em outro lugar: o da política social pública num contexto social específico. Por isso, entendemos que os objetivos só serão atingidos se tiverem ancoragem na compreensão do atual 27 Não obstante, vale dizer que o próprio Gramsci assinalou que a categoria de “Revolução Passiva” em sua exata denominação indicava seu parentesco com a “Revolução pelo alto” de Bismarck. (Ver: POULANTZAS, 1971: 27 e 233) 37 contexto de hegemonia do capital financeiro, ou seja, no entendimento das novas configurações da luta de classes28 no mundo contemporâneo. O alcance dos objetivos vai exigir um detalhamento das formas de privatização do Estado29. Por isso, esta tese será desenvolvida no contexto da universalidade, em substituição à noção de gasto público que guiou o argumento das privatizações. Vale ressaltar que Gramsci faz uma análise dialética da ideologia – definida como “uma concepção de mundo que se manifesta implicitamente na arte, do direito, na atividade econômica, em todas as manifestações da vida intelectual e coletiva” (GRAMSCI,1978, p.16)– é neste momento que alcança seu maior desenvolvimento. Ao conceber a sociedade como produto de uma interação de relações de força “estreitamente ligada à estrutura objetiva, independente da vontade dos homens (já que os agrupamentos sociais se estruturam) à base do grau de desenvolvimento das forças materiais de produção”, Gramsci (idem, p.17) adverte para o risco do voluntarismo. E, ao referir-se ao fato de que as leis do desenvolvimento histórico são uma tendência geral e, portanto, não “tão intangíveis quanto se possa pensar”, adverte para o perigo do economicismo, lembrando que o pensamento marxista “coloca sempre como fator determinante da história não os fatos brutos da economia, mas o homem, a sociedade dos homens, daqueles que afirmam uma vontade social, coletiva, compreendem os fatos econômicos, julgam-nos e dobram-nos conforme a sua vontade, até fazer desta última a força motriz da economia, moldando a realidade objetiva, viva, móvel e que adquire a consistência de uma lava em 28 A luta de classes não é esquecida formalmente, mas aparece circunscrita às determinações objetivas de algumas contradições entre o estágio das forças produtivas avançadas e as relações sociais arcaicas, nos momentos de crise do modo de produção. Trata-se, como todos os demais fenômenos da vida social de um “fenômeno natural e inevitável” (MATTOS, Marcelo Badaró. Classes Sociais e Luta de Classes: a atualidade de um debate conceitual. In. Revista Em Pauta:teoria social e realidade contemporânea,Rio de Janeiro, REVAN,nº 20, 2007,p.33-56) 29 A mercantilização dos serviços sociais, mesmo os essenciais como Educação, também é vista como “natural”: as pessoas devem pagar pelos serviços para que estes sejam “valorizados”. As pessoas que não puderem pagar devem “comprovar” sua pobreza. A filantropia substitui o direito social. Os pobres substituem os cidadãos. A ajuda individual substitui a responsabilidade coletiva. O emergencial e o provisório substituem o permanente. As micro-soluções “ad hoc” substituem as políticas públicas. O local substitui o regional e o nacional. É o reinado do minimalismo no social para enfrentar a globalização no econômico. Estamos diante de uma enorme fragmentação do social em contraposição a uma brutal “globalização” do econômico. As soluções econômicas sempre dependem do “macro”, enquanto que as soluções para o social se restringem ao “micro”. (SOARES, Laura Tavares, 2000) 38 fusão, suscetível de ser canalizada no sentido que a vontade desejar, e da maneira como ela o desejar”. Gramsci (loc. cit,p.19) se preocupou com a ênfase na necessidade de articulação entre ambas as instâncias que formam a totalidade social, na explicação da dinâmica de diferentes instituições, dado que a infra-estrutura e a superestrutura formam um bloco histórico, isto é, o conjunto complexo – contraditório e discordante – do conjunto das relações sociais de produção, por isso com base em suas conclusões guiamos nossa investigação. Na sociedade civil, a hegemonia é assegurada predominantemente por meio de difusão das representações e valores da classe ou fração de classe que lidera o bloco histórico e que, transmutando-se em representações e valores de toda a sociedade, dificultam a identificação daquela classe ou fração de classe, facilitando, com isso, sua reprodução (e, portanto, a reprodução do próprio bloco histórico). Os chamados “aparelhos de hegemonia” (a Igreja, os sindicatos, as escolas, os meios de comunicação da mídia -como os jornais e revistas aqui pesquisados-, etc.) encarregam-se, dessa forma, de transformar valores específicos de classe em normas sociais: é por sua mediação que o Estado “penetra no interior da formulação dos interesses de cada grupo, tentando desarticular uma visão de mundo autônoma e orgânica a cada um dos grupos e classes sociais potencialmente adversários e procurar articulá-la sob a égide de uma visão de mundo proposta como universal” (GRAMSCI, idem). Embora segundo Gramsci (idem, p. 20), a transformação social somente se concretize se “o grau de desenvolvimento das forças materiais de produção (que) proporciona a base para a emergência das várias classes sociais” alcançar o nível em que essa transformação seja historicamente possível (condições objetivas maduras), a direção imprimida pelo intelectual orgânico do proletariado – ainda quando não alcançada a função de domínio – põe em risco o esquema de dominação existente em um dado momento. É nesse sentido que Gramsci fala da possibilidade de uma classe “vir a ser” Estado. A concepção gramsciana acima explanada dá margem, então, a que se pense de modo articulado a contraposição entre a infra e a superestrutura, oferecendo material teórico importante para a compreensão das crises 39 permanentes entre as classes e frações internas a cada classe. Originadas das contradições entre as classes fundamentais, tais crises se efetivam, em formas e graus diversos, como crises de hegemonia. Como tal implicam o enfraquecimento da capacidade do grupo fundamental dominante de manter normas vigentes de exclusão política e, portanto, afetam a estrutura institucional que viabiliza sua posição hegemônica, abrindo espaço para a renovação dos aparelhos de hegemonia, renovação que atinge, de volta, a sociedade como um todo. Levando em conta que esse processo é intermediado pelos intelectuais e que é o interior do aparelho escolar que provém cada vez mais aqueles que exercem funções de organização na sociedade, a problemática da conservação ou da transformação social – embora ultrapasse o aparelho escolar – aponta para a importância de sua atuação em situações de crise de hegemonia no Estado. A contribuição gramsciana oferece margem a que se pense a atuação do aparelho educacional numa direção diferente daquela voltada para a reprodução das relações de produção. A importância dessa abordagem do fenômeno educacional ganha relevo não apenas pelo que vem já representando para a reflexão teórica acerca dos usos do saber pelo capital, mas para que se valorize, nesse mesmo ato, a prática pedagógica como fonte potencial de questionamentos voltados para sua transformação. Com base na referência teórico-metodológica da tradição marxista, construímos a proposta metodológica de nosso estudo. Entendemos que os processos sociais devem ser percebidos nas suas determinações, complexidades, ideologias e transformações dadas pelos sujeitos. Assim, percebemos a necessidade de trabalharmos com as complexidades, especificidades e diferenciações existentes acerca da questão educacional no Brasil para melhor compreensão da política de cotas. Não podemos perder de vista que toda essa totalidade de processos foi, na nossa opinião e de acordo com a teoria dialética marxista, “determinadas pelas condições de existência de classes sociais numa sociedade capitalista” (GOMES, 1994). Temos como pressuposto que a metodologia é fruto da relação entre o sujeito que investiga e o objeto investigado, não sendo mero aspecto formal de uma investigação. 40 Como Minayo (1994) entendemos que os resultados de uma pesquisa em ciências sociais constituem-se sempre de uma aproximação da realidade social, que não pode ser reduzida a um conjunto de dados construídos no decorrer da investigação. Conforme Minayo (2001, p.16) afirma, a metodologia é mais do que uma descrição formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica opções e a leitura operacional que o pesquisador fez do quadro teórico. A metodologia não só contempla a fase de exploração como a definição de instrumentos e procedimentos para análise dos dados. Buscaremos desenvolver estudos de natureza teórico-interpretativo, sem negar os dados quantitativos 30 , ao contrário articulando os mesmos as questões abordadas na tese, para evidenciar as diferentes questões que envolvem o sistema de cotas nas universidades públicas como política pública alternativa para o ingresso de estudantes, pertencentes às chamadas minorias, a estas instituições. Concordamos com Minayo (loc.cit.,p.17) quando menciona que na pesquisa social, não há uma metodologia rígida. Toda prática científica, que é uma forma de abordar a realidade, pode ir ao encontro de quem nela investe ou não. Historicamente, esse tipo de pesquisa tanto pode ser pura (sem aplicação prática) quanto aplicada (com aplicação prática). Por isso, salienta-se que esta investigação contará com uma metodologia qualitativa, utilizando um embasamento teórico e dados empíricos para melhor sustentarem os conceitos e reflexões. Cabe salientar que os dados empíricos terão caráter complementar, não se sobrepondo ao embasamento teórico. Para tanto, serão utilizadas as técnicas de estudo bibliográficos, levantamento e análise de informações em documentos escritos, depoimentos e rede eletrônica; observação participante em seminários, conferências e encontros. Também fizemos um uso reiterado de dados oficiais divulgados pelas pesquisas realizadas pelo IPEA, IBGE, FGV, UNICEF e algumas ONGs dedicadas ao tema, para melhor elucidar a questão. 30 No que se refere à articulação entre os dados qualitativos e quantitativos, concordamos com Thiollent (1984), ao criticar o radicalismo entre as duas correntes, lembrando que não se justifica a pretensão estritamente quantitativa do positivismo e que a metodologia de pesquisa científica não se resume apenas ao qualitativo. 41 Buscaremos através do levantamento de dados em documentos, depoimentos e observações da realidade mostrar que o sistema de cotas nas universidades públicas foi criado sem um debate amplo da sociedade e muito menos com a preocupação de aprofundar a questão da educação na sociedade brasileira. Além disto, procurou-se debater o sistema de cotas na sua totalidade, não dissociando o tema do papel da universidade na sociedade como possível agente de mudanças. Vale ressaltar que a maioria das obras sobre “universidade” na atualidade fala em sua decadência, ruína, destruição, gastos excessivos, pouca produtividade etc. Aspectos que revelam os rumos destas instituições na contemporaneidade31. Cabe mencionar que no desenvolvimento da pesquisa da tese analisamos um vasto conjunto do material publicado sobre o tema em jornais e revistas, bem como selecionamos os livros e artigos acadêmicos mais relevantes sobre a questão em tela. Com base na análise deste vasto material buscamos construir um eixo de análise capaz de revelar os nexos, os sentidos das argumentações da produção sobre o tema. As citações das obras utilizadas podem, no entender de certos leitores, parecer demasiado abundantes. Neste sentido, gostaríamos de ressaltar a importância das mesmas, através de uma observação de Georg Lukács: “Toda citação é, ao mesmo tempo, uma interpretação” (LUKÁCS,1989, p.9 - grifos nossos). Também é importante destacar que apresentaremos os caminhos metodológicos percorridos através da leitura e sistematização das fontes de pesquisa no capítulo dedicado a essa discussão já que a mesma aparece de modo mais específico no capítulo três especialmente construído nesta direção. A pesquisa procurará evidenciar as tensões e pressões entre público e privado na reatualização e renovação do Estado perante as formas de enfrentamento da questão social. As contradições e as ambigüidades sobre o sistema de cotas serão abordados no desenvolvimento da tese. 31 Como observou Sousa Santos: “Os títulos dos livros recentes sobre as universidades são elucidativos: Universidade em ruínas, Universidades na penumbra, O naufrágio da universidade, A universidade sitiada, etc. As causas de um diagnóstico tão negativo têm a ver com a aplicação das políticas do Banco Mundial as quais, aliás, têm vindo a ter uma aplicação universal. Consoante os contextos, essas políticas são impostas como parte de pacotes financeiros ou são adotadas por elites locais, técnicos de educação prestigiados e com poder político”. Fala retirada da entrevista com Boaventura de Sousa Santos sobre a privatização da universidade. Artigo originalmente publicado na revista Visão em 29 de novembro de 2001. 42 Temos como pressuposto que a investigação do sistema de cotas está inserida nas práticas sociais decorrentes da questão social na vida capitalista, principalmente no que se refere ao acirramento da luta de classes em favor da acumulação e também na tão sonhada universalização do ensino superior. Quando se estabelece como meta a transformação do Estado, e com ele a superação de uma sociedade historicamente ancorada na desigualdade, o problema reside na crença de que o processo de construção de uma contraideologia possa fazer-se sem contradições, contrariando o movimento histórico. Preocupante é que esse movimento parece estar sendo negligenciado ou pouco compreendido, mesmo entre aqueles que partilham a mesma linha teórica e que se arvoram comprometidos com a transformação supra citada. Com base no exposto, construímos os capítulos da tese através de uma preocupação pedagógica e didática de organização dos conteúdos. Nesse sentido, consideramos importante iniciar nosso estudo através de um capítulo capaz de alicerçar as reflexões posteriores. Assim, o primeiro capítulo aborda A Dialética da Cidadania na Construção das Desigualdades Persistentes no Brasil, cujo objetivo é evidenciar aspectos da realidade brasileira capazes de contribuir para o aprofundamento do debate acerca do sentido da igualdade em nossa sociedade. Desse modo, foi dada especial atenção para a questão histórica da desigualdade com ênfase na questão racial e a sua relação com a construção da cidadania em nosso país. No Capítulo 2 procuramos dar seqüência ao debate através do resgate de dados fundamentais para compreensão das expressões da questão social que se relacionam diretamente com a problemática da educação no Brasil no contexto neoliberal. Ainda neste capítulo, procuramos explicitar alguns elementos centrais da relação entre público e privado na educação superior, objetivando concretizar, sobretudo, a seguinte tarefa: refletir sobre o significado do público e privado na política para a educação superior brasileira, sua relação com a crise do Estado e conseqüências para as universidades públicas. Consideramos a compreensão desse cenário como fundamental para o entendimento da política de cotas. Já que muitas vezes, o debate sobre tal política torna-se fortemente descritivo, com um volume excessivo de dados técnicos, os quais evidentemente não falam por si: requisitam a análise 43 exaustiva de suas causas e inter-relações, e das razões econômicas-políticas subjacentes aos dados. Com base no debate apresentado no capítulo resgatamos a trajetória da experiência das cotas no contexto de um ambiente de “reforma” universitária. Procuramos expressar seus nexos, não circunstanciais com os rumos da política de educação no nosso país. Neste capítulo pretendemos aprofundar a relação entre a política de cotas implementadas, nas universidades públicas no século XXI, com os rumos da cidadania e democracia na sociedade brasileira atual. Adotaremos como ponto de partida a idéia de que a crise conjuntural que afeta a educação pública superior está interligada ao movimento de (contra) reforma do Estado, implementado pelo governo brasileiro, como parte da estratégia mundializada de enfrentamento da crise de acumulação do capital, orientado por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. No Terceiro e Último Capítulo, buscamos analisar criticamente os diferentes paradigmas que permeiam os estudos da política de cotas raciais. Esse já é um campo de produção bastante significativo, com expressivo crescimento a partir de 2005 no Brasil, que ainda não foi suficientemente estudado. Existe hoje um impressionante número de publicações sobre o assunto e esse vasto e recente contingente possui particularidades relevantes que precisam ser explicitadas para entendermos os rumos presentes e o próprio futuro do debate. Esse vasto conjunto de trabalhos, conforme demonstramos neste capítulo, foi organizado com objetivo de proporcionar o melhor entendimento sobre o debate, evitando compreensões parciais e buscando proporcionar um amplo conhecimento dos nexos, dos sentidos, dessa política na contemporaneidade. Assim sendo, esse capítulo é dedicado ao estudo das principais abordagens sobre a política de cotas nas universidades. O estudo que empreendemos nesse capítulo filia-se a tradição da construção de modelos teóricos empregados no estudo das políticas sociais (no plano nacional e internacional) com o objetivo de familiarizar os leitores com as principais 44 questões teóricas sobre a política de cotas que estão disponíveis atualmente na literatura, ainda que o objetivo seja fazê-lo apenas de maneira introdutória. Pretendemos apresentar uma visão resumida das principais abordagens, procurando destacar os autores e grupos de autores que representam cada uma delas e fornecer indicações para leituras adicionais. No início do capítulo buscamos elucidar o caminho a partir do qual construímos nossas análises e reflexões. Finalizando este capítulo buscamos indicar as armadilhas do senso comum presentes nos discursos sobre cotas. Desta forma, fizemos um estudo sobre o papel da mídia no debate sobre essa política no Brasil, evidenciando como a mesma contribui para as (in)visibilidades sobre o tema. Embora estejamos apresentando um estudo razoavelmente amplo sobre o que intentamos focalizar, temos consciência de que nossa contribuição neste particular, ainda é modesta frente aos desafios impostos pelo tema (re)conhecidos durante a investigação. Entretanto, podemos afirmar, conforme indicamos no título desta tese, que alguns aportes são imprescindíveis para a compreensão das ações afirmativas, implementadas através das políticas de cotas, nas Universidades Públicas contemporâneas. Desta constatação, todos aqueles envolvidos com os rumos da educação em nosso país não podem mais se furtar. 45 1 A DIALÉTICA DA CIDADANIA NA CONSTRUÇÃO DAS DESIGUALDADES PERSISTENTES NO BRASIL Este é um tempo de divisas, tempo de gente cortada. Carlos Drummond de Andrade O objetivo nesse capítulo é evidenciar aspectos da realidade brasileira capazes de contribuir para o aprofundamento do debate acerca do sentido da igualdade em nossa sociedade. Desse modo, foi dada especial atenção para a questão histórica da desigualdade e a sua relação com a esfera pública e a construção da cidadania em nosso país. A perspectiva de uma cidadania ampliada e a generalização dos direitos no Brasil possui uma história recente. Não por acaso, no final do século XX fez parte da agenda política das reivindicações que caracterizaram os anos 80. De um lado, era uma perspectiva que articulava um campo político comum de movimentos e reivindicações diversas, do que é registro o amplo debate, articulações e mobilizações que desaguaram na Constituição Federal de 1988. Por outro lado, é preciso também considerar que, nesses anos de construção democrática, cidadania e direitos se constituíram como referência de valor e perspectiva que organiza um modo de descrever a sociedade brasileira colocando em pauta as obstruções e também as possibilidades de uma modernidade pretendida como projeto. Como observou Murilo de Carvalho, O esforço de reconstrução, melhor dito, de construção da democracia no Brasil ganhou ímpeto após o fim da ditadura militar, em 1985. Uma das marcas desse esforço é a voga que assumiu a palavra cidadania. Políticos, jornalistas, intelectuais, líderes sindicais, dirigentes de associações, simples cidadãos, todos a adotaram. A cidadania, literalmente caiu na boca do povo. Mais ainda ela substituiu o próprio povo na retórica política [...] No auge do entusiasmo cívico, chamamos a Constituição de 1988 de Constituição Cidadã. (CARVALHO, 2001,p.7) Não tardou muito e a década de 90 do século passado revelou que a cidadania no Brasil, ainda estava longe de se universalizar, mesmo no patamar liberal. O objetivo das discussões enfrentadas nesse capítulo é evitar os equívocos que as análises prisioneiras da aparência dos fenômenos acabam gerando. Nossa intenção é ampliar os horizontes do debate sobre a política de 46 cotas nas universidades públicas brasileiras com base nas reflexões sobre a questão da igualdade em nosso país. Entendemos que somente abordagens que apontem o cerne histórico da desigualdade na sociedade brasileira são capazes de ultrapassar o minimalismo conceitual das reflexões acerca das reais possibilidades de redução/superação das desigualdades, e/ou da conquista da igualdade que envolve esse tema. Temos como pressuposto que o lastro pós-moderno, que permeia grande parte do debate contemporâneo sobre cotas, ao anular a luta de classes como ancoragem necessária das análises, acaba fundando assimetrias que geram a fragmentação dos sujeitos sociais isolando-os das vinculações de classe. A conseqüência é a fragilização das verdadeiras possibilidades de mudanças, ou melhor, dos processos verdadeiramente emancipatórios dos sujeitos sociais pertencentes as classes e camadas subalternizadas pelo capital. Vale ressaltar que a desigualdade e a pobreza, persistem e crescem no modo de produção capitalista (neoliberal) devido a própria dinâmica deste sistema, cuja expansão produz um exército industrial de reserva que podemos denominar de subcidadão32. Sustentamos aqui que este se constitui também num produto do sistema capitalista, enquanto população marginalizada economicamente, socialmente e politicamente, destituída de seus direitos básicos. De forma resumida uma transformação na condição dessa pobreza estrutural implica em mudanças estruturais que superem a condição de subcidadãos desses grupos excluídos ao crescimento do investimento externo, que extraem o excedente dos setores e classes não capitalistas, consolidando o sistema imperialista (dependência) e também pela superexploração dos trabalhadores por meio de extração crescente de mais valia (intensificando o trabalho e diminuindo os salários com relação ao valor da força de trabalho. 32 Como é amplamente sabido o conceito de cidadania está intimamente vinculado à titularidade de direitos. Independentemente da aceitação desta ou daquela definição do conceito, só podemos falar em cidadania se houver concretização das normas constitucionais referentes aos direitos fundamentais (individuais e coletivos), implicando direitos civis, políticos e sociais, tendo na igualdade o pressuposto inerente e o arcabouço ético do conceito em relevo. O caso do Brasil é emblemático na negação dos pressupostos desse conceito. A maior parcela da sua população é constituída basicamente por subcidadãos, que não estão escusados de cumprir com as responsabilidades e deveres que o Direito lhes impõe, mas também este não lhes dá as condições de exercer seus direitos fundamentais dispostos no texto constitucional e tão aclamados durante as últimas décadas. É importante mencionar que há ainda divergências quanto ao termo "subcidadania", no que tange ao tempo de seu aparecimento conforme observou Marcelo Neves em ‘Entre Subintegração e Sobreintegração: A Cidadania Inexistente” (1992, pp. 77-97). Entretanto, apesar das observações realizadas por esse autor, para Jessé Souza não há dúvidas de que a construção do conceito de subcidadãos e seu uso corrente no Brasil deve-se a Marcelo Neves (ver: SOUZA, Jessé. 2001. p. 326). 47 As transformações de ordem social interagem com as reformas estruturais que visam à emancipação popular (democratização do Estado, da sociedade e da economia e a expansão/universalização da cidadania). 1.1 Brasil: um país historicamente desigual O Brasil, nas últimas décadas, vem confirmando, uma tendência enorme de manutenção das várias expressões, inclusive racial, da desigualdade. Seja através da distribuição de renda/riqueza revelada, sobretudo pelos elevados níveis de pobreza, seja através da fragilidade da universalização da cidadania que permanece em pleno século XXI. Um país desigual, exposto ao desafio histórico de enfrentar uma herança de injustiça social, que excluiu parte significativa de sua população do acesso a condições mínimas de dignidade e cidadania não pode enfrentar esse debate sem balizar as inter-relações causais dessas dimensões. Concordamos com José de Souza Martins (2002, p.54) que não é possível falar sobre os rumos da prática de intervenção na realidade social problemática, se há uma barreira que dificulta, que é a barreira do conhecimento insuficiente ou limitado sobre a sociedade brasileira. Para enfrentar essa dificuldade, segundo o autor, é essencial reconhecer os artifícios do mundo contemporâneo e os obscurecimentos dos quais ele se reveste. É necessário compreender a nossa incompreensão sobre a sociedade brasileira e buscar apreendê-las de modo cada vez mais amplo. As políticas que estamos analisando fazem parte de um país ainda pouco estudado. Para melhor entendimento dos limites e possibilidades das políticas públicas implementadas para redução da desigualdade devemos perceber que o Brasil, do final século XX e início do século XXI, ainda é um país que não rompe com seus traços históricos de manutenção de uma abissal desigualdade. Não por acaso adquiriu nas últimas décadas a triste reputação de ser o país mais desigual da região mais desigual do mundo, que é a América Latina. Tal constatação foi publicada com riqueza de dados no final do 48 século passado por ocasião da elaboração do mapa da desigualdade social33. Os dados dos institutos de pesquisa (IBGE, IPEA, FGV) que serão mostrados nas seções seguintes da presente tese tem revelado a concentração de renda, da riqueza e de outras distribuições, como o da educação34, que será o ponto central de nosso estudo. Essas desigualdades vêm demonstrando uma grande persistência, tendo atravessado, sem alterações perceptíveis, períodos de crescimento acelerado e de estagnação, de inflação galopante e de completa estabilidade de preços, bem como de rápidas e profundas mudanças demográficas e tecnológicas. A preservação de um verdadeiro abismo social gerado pela manutenção histórica de uma desigualdade extremada fica mais fácil de entender quando percebemos a lógica de construção/reprodução do capitalismo brasileiro. Não por acaso os dados apresentados na publicação Estatísticas do Século 20, lançada em 2003 pelo IBGE, deixam claro que o crescimento econômico, em nosso país, não está diretamente relacionado à redução da desigualdade social. A desigualdade histórica brasileira se expressa pela concentração da propriedade privada e por conseqüência uma extrema concentração de renda. A partir desta constatação podemos perceber a importância do resgate da raiz da construção da dominação burguesa no Brasil, para compreensão do modo como se conformou a reprodução das relações sociais em nosso país. A classe burguesa exerce um papel imprescindível para a existência da desigualdade social, visto que não é de interesse de tal classe fazer a sua extinção, e sim administrá-la. Para tanto, é importante resgatar as análises realizadas por Florestan Fernandes (1975), sociólogo marxista que elaborou uma teoria do desenvolvimento na periferia da “economia-mundo” capitalista. Para Silene Freire (2002, p.152) com base nas reflexões de Fernandes (1975) podemos dizer que, “foi a oligarquia – e não as classes médias ou os industriais – que decidiu, na realidade, o que deveria ser a dominação burguesa em nosso país, senão idealmente, pelo menos na prática”. Conforme 33 Todos os dados mencionados foram baseados em informações do IBGE (2007) e PNAD (2006) publicadas nos sites: http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article. php? storyid= 381 e http://oglobo.globo.com/pais /mat /2007/ 12/21/327716442.asp, 34 Em matéria publicada em 23/08/2009 no Jornal o Globo, intitulada ‘Menos pobre e tão desigual’: “o sociólogo do Iuperj, Adalberto Cardoso, que acabou de concluir livro sobre a concentração de renda no Brasil, a desigualdade se mantém a mesma há 200 anos: — O Brasil é assim há 200 anos. E a concentração é maior no topo da pirâmide de renda. Se tirássemos os 20% mais ricos, teríamos um Índice de Gini sueco, o país mais igualitário”. 49 mencionou Fernandes “o conflito emergia, mas através de discórdias circunscritas, principalmente vinculadas a estreitos interesses materiais, ditados pela necessidade de expandir os negócios” (idem, p.205) e essa situação fez com que a burguesia se modernizasse muito mais no plano econômico do que no plano político. Isso remonta para Fernandes (1975) a compreensão do fato da burguesia brasileira não assumir o papel de paladina da civilização ou de instrumento da modernidade, pelo menos de forma universal e como decorrência imperiosa de seus interesses de classe. Ela se compromete, por igual, com tudo que lhe fosse vantajoso, a fim de tirar proveito dos tempos desiguais e da heterogeneidade da sociedade brasileira, mobilizando as vantagens que decorriam tanto do ‘atraso’ quanto do ‘adiantamento’ das populações. Por isso, não era apenas a hegemonia oligárquica que diluía o impacto da dominação burguesa. A própria burguesia como um todo (incluindo-se nela as oligarquias), se ajustara à situação segundo uma linha de múltiplos interesses e de adaptações ambíguas, preferindo a mudança gradual e a composição a uma modernização impetuosa, intransigente e avassaladora (FERNANDES, 1975, p. 205-206). A expressão “revolução burguesa no Brasil”, para Fernandes (idem, p. 203), em realidade significa o processo de consolidação do capitalismo no país, com uma autonomia parcial com fortes tendências à integração nacional, ao menos neste momento específico da análise. O que importa realmente para o autor é a compreensão não das possibilidades que poderiam ter acontecido, mas, o que realmente ocorreu, ou seja, as diferentes etapas da consolidação do capitalismo no Brasil, com as devidas transformações que estas proporcionaram. A história da burguesia brasileira, para Florestan Fernandes (idem, p.203), não surge com a colonização, ou melhor, dizendo, o Brasil não é capitalista desde o seu descobrimento. Esta tem um aparecimento tardio e dependente, optando por assimilar formas econômicas, sociais e políticas do mundo ocidental moderno. Por este motivo é explicado o frágil caráter revolucionário da burguesia, estritamente brasileira, que pode ser vista como tal, mas com particularidades, diferente das revoluções burguesas que aconteceram em outros países35. O Brasil, para Fernandes (idem, p.207), passou a ser burguês e capitalista 35 A interpretação que Fernandes faz sobre o Brasil permeia questões como a escravidão e revolução burguesa. A primeira dispõe um conhecimento histórico da sociedade do período colonial até o século XIX. Já a segunda, mostra a forma com que a burguesia brasileira se concretizou, desmascarando-a. 50 bem posterior ao seu descobrimento. Quando esta transformação ocorre, tem a significação de modernização econômica, política, cultural e social. É um momento de transição da época dos senhores, sob a hegemonia das oligarquias agrárias, para a era burguesa, quando a hegemonia foi compartilhada entre aquela oligarquia e o novo grupo social que surgia. É importante entender que no Brasil, não houve um confronto de estrutura entre a antiga e a nova ordem. Desse modo, a opção da revolução brasileira configura uma modernização conservadora36 ou revolução passiva no sentido gramsciano37. A burguesia não entrou em conflito com a aristocracia agrária, foi uma espécie de oposição dentro da ordem, se comprometendo com tudo o que lhe fosse vantajoso. Ajustou-se à tradição, preferindo a mudança gradual e a composição a uma modernização vigorosa. Os grupos oligárquicos também por sua vez, baseados em acordos e compromissos, modernizaram-se e também criaram seus aspectos de burguesia. Luiz Werneck Vianna (2004) reconhece no tratamento que Gramsci concedeu ao Risorgimento italiano38 uma dimensão teórica, e não apenas descritiva, considerando-a como um caso exemplar de um conceito de validade geral: o de “revolução sem revolução” ou “revolução passiva”. Sob esse aspecto Gramsci formalizou a situação em que “mudanças moleculares são deflagradas em uma dada formação social – assim como as formações patrimoniais européias atingidas pela ”exportação” dos efeitos da Revolução Francesa, no período da Restauração” (loc.cit.,p.9). Melhor dizendo, no processo desencadeado pela revolução passiva, pode acontecer que 36 A modernização conservadora no Brasil teve seu auge no golpe militar de 1964. Conforme observou FREIRE (1998,p.34) “Gramsci fez questão de esclarecer que o seu conceito de revolução passiva não é para ser aplicado restritivamente, sendo válido por extensão, a “toda época complexa de transformações históricas” (GRAMSCI,1986,p. 188 apud FREIRE, idem). Devido à sua universalidade, esse conceito pode igualmente nos proporcionar instrumentos analíticos capazes de indicar traços decisivos de nossa formação histórica. Não estamos com isso esquecendo que a universalidade do conceito ao sublinhar e precisar traços comuns, não pode deixar de lado o fato de que “esse caráter geral, ou este elemento comum, que se destaca através de comparação, é ele próprio um conjunto complexo, um conjunto de determinações diferentes e divergentes”. (MARX, 1972: 110 apud FREIRE, idem).Em realidade, em se tratando de um país cujos momentos decisivos da sua história foram sempre manobras “pelo alto”, o conceito de “revolução passiva” (ou revolução “pelo alto”) é extremamente significativo para a compreensão, como observa Coutinho, “não só [de] episódios capitais da história brasileira, mas também, de modo mais geral, de todo o processo de transição do nosso país à modernidade capitalista”. (COUTINHO, 1998,p. 143 apud FREIRE, idem) 37 38 GRAMSCI,Antonio , Cadernos do Cárcere – vol. 5: O Risorgimento. Notas sobre a história da Itália. Edição de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. 51 As mudanças sejam assimiladas localmente pelas forças da tradição, por condensações culturais e políticas anacrônicas, ou, alternativamente, interpeladas por intelectuais de novo tipo, homólogos às transformações estruturais em curso. Em ambos os cenários, afirma Gramsci, a “revolução” prosseguiria, ainda que na hipótese de vir a ser assimilada pela tradição, não produzisse impacto visível nas relações sociais, e sua extrema lentidão conferisse à sociedade a aparência de imobilidade (VIANNA,2004 p. 7-8) Para Werneck Vianna (Ibidem), no primeiro caso supra citado, o império dos fatos39, no outro o do ator, mediante a avaliação adequada das circunstâncias que bloqueiam o triunfo imediato da novidade histórica de que é portador, se torna capaz de disputar a hegemonia do processo de mudança, em uma longa “guerra de posições”. O fenômeno da revolução passiva compreenderia, portanto, duas possibilidades: aquelas em que as mudanças avançam de modo bem mais lento e, em larga medida, arbitrário, e aquela em que o ator, buscando o consenso, imprime direção e maior velocidade às transformações em curso. Segundo Werneck Vianna (ibidem), no Brasil nunca houve, de fato, uma revolução e, no entanto, a propósito de tudo, fala-se dela, como se sua simples invocação viesse a emprestar animação a processos que seriam mais bem designados de modo mais corriqueiro. Sobretudo, aqui, qualificam-se como revolução movimentos políticos que somente encontrariam sua razão de ser na firme intenção de evitá-la , e assim se fala na Revolução da Independência, na Revolução de 1930, Revolução de 1964, todos acostumados a uma linguagem de paradoxos em que a conservação para bem cumprir o seu papel, necessita reivindicar o que deveria consistir no seu contrário – a revolução. Como lembra o autor nessa dialética brasileira em que a tese parece estar sempre se autonomeando como representação da antítese, evitar a revolução tem consistido, de algum modo, na sua realização. Assim, neste país que desconhece a “revolução” no seu real sentido e, que provavelmente jamais a conhecerá, ela não é uma idéia fora do lugar, como não o foi o liberalismo que inspirou a criação de seu Estado-nação. Com efeito, o Brasil, mais que qualquer outro país da América Ibérica, esta vasta 39 Sobre o “protagonismo dos fatos”, a observação de Gramsci é a seguinte: Revolução passiva – Protagonistas os “fatos”, por assim dizer, e não os “homens individuais”. Como, sob um determinado invólucro político, necessariamente se modificam as relações sociais fundamentais e novas forças políticas efetivas surgem e se desenvolvem, as quais, influenciam diretamente, com pressão lenta, mas incoercível, as forças oficiais, que elas próprias, se modificam sem se dar conta, ou quase” (GRAMSCI, Antonio , “Caderno miscelêneo”, n. 15§56. In: Cadernos do Cárcere – vol. 5, ed. op. cit. p. 328). 52 região do continente americano que chega à modernização em compromisso com o seu passado, pode ser caracterizado como o lugar por excelência da revolução passiva. Embora Florestan Fernandes não use essa terminologia, tudo nos leva a crer da semelhança desta com a modernização trabalhada em suas obras. A burguesia brasileira produziu, no seu entendimento, a revolução em uma economia colonial, periférica, dependente. O capitalismo brasileiro é dependente, conseqüentemente a sua burguesia também. Fernandes (idem, p.207) constata que no Brasil não havia condições e processos econômicos que sustentassem o pleno funcionamento dos modelos econômicos trazidos dos grandes centros mundiais, desse modo a intenção burguesa era a de, nada mais nada menos, manter e até intensificar a incorporação dependente da economia brasileira. Octávio Ianni (2004, p. 431) concorda com Fernandes na interpretação da evolução da dominação burguesa brasileira tratada sob dois pontos que se destacam na análise sociológica: o primeiro concerne ao “significado dessa dimensão autocrática da dominação burguesa”; o segundo, “ao progressivo aparecimento de uma ‘efetiva oposição dentro da ordem’ e a ‘a partir de cima”. Quanto à primeira questão, analisa-se que, entre as elites dominantes, havia um acordo por “manter e reforçar o caráter autocrático da dominação burguesa”; as concepções liberais e republicanas converteram essa autocracia em social, pois “entrava em contradição com os valores ideais e com os requisitos formais da ordem existente”. As racionalizações atenuavam, porém não extinguiam a contradição resultante do conflito de valores. Conseqüentemente, este conflito “concorria poderosamente para minar a dominação burguesa e, principalmente, para impedir que ela se instaurasse como um todo monolítico e vulnerável” (FERNANDES, loc. cit, p. 431). Quanto à segunda questão, diz respeito à oposição que, na época escravocrata, a aristocracia tinha o poder de conter. O que não ocorre na sociedade de classes, assim, “pulverizando os interesses das classes dominantes” (idem). Todavia, tornou viável uma oposição ‘de baixo para cima’ que, conforme Fernandes, “difícil de controlar e fácil de converter-se em ‘oposição contra a ordem” (loc. cit, p. 432). Fernandes (idem) assenta no segundo elemento da revolução burguesa, 53 o conflito de interesses, o que ele chama de “consolidação conservadora da dominação burguesa no Brasil”. A oligarquia defendeu seus interesses (tanto os “tradicionais” como os “modernos”) bem como modelou a mentalidade da burguesia, ditando o que seria, ou o que deveria ser, a revolução burguesa. Selecionou a luta de classes e a repressão da classe proletária como o centro desta revolução. Deste modo, não havendo oposição entre a burguesia brasileira com a aristocracia; na realidade, conforme Fernandes menciona, houve uma fusão entre o “velho” e o “novo”, característica da modernização conservadora mencionada pelo autor, ou, como visto anteriormente, da revolução passiva descrita por Gramsci. A revolução burguesa no Brasil não foi uma revolução nacional e democrática (como nos moldes franceses). A dominação burguesa se dá como uma conexão histórica do capitalismo dependente. Para Florestan Fernandes (idem, p.433), o capitalismo dependente é um “capitalismo difícil”, o que acaba por reduzir o campo de atuação burguesa. Mas, apesar de difícil, este autor afirma ser necessária, pois possibilita o desenvolvimento do capitalismo e consolida a dominação burguesa. Também cabe mencionar que o problema da investigação sociológica da revolução burguesa se encontra na “crise do poder burguês”, conseqüentemente na transição do capitalismo competitivo para o capitalismo monopolista. Após a década de 1930, a burguesia se viu triplamente pressionada. Primeiro a pressão externa, pelo capitalismo monopolista mundial que precisava de garantias ao capital estrangeiro. As outras duas são pressões internas: uma proveniente do proletariado e das massas populares que “expunha a burguesia à iminência de aceitar um novo ‘pacto social”, limitada à ‘revolução dentro da ordem’. Quanto à outra pressão interna, concerne às proporções da intervenção estatal na economia que acabou por assustar a iniciativa privada tanto interna como externa. As classes dominantes, para se defenderem destas três pressões, uniram-se por uma contra-revolução, modificando a forma e as funções da dominação burguesa. Nas palavras de Fernandes, [...] a burguesia brasileira conquistou uma posição de poder que lhe facultava ir além. Pois, ao mudar seu relacionamento com o poder político estatal e o funcionamento do Estado, também mudou sua capacidade de 54 relacionamento com o capital financeiro internacional e com a intervenção do Estado na vida econômica, ganhando maior controle da situação interna e maior flexibilidade na fixação de uma política econômica destinada a acelerar o desenvolvimento capitalista. (FERNANDES, idem, p..445). O poder burguês resolveu e saiu de sua crise na esfera política devido ao reordenamento estatal, a concentração do poder político do Estado e sua militarização e, também, à reorientação, sob a égide do Estado, da política econômica. Porém, como salienta o autor, esta não foi uma passagem independente como também não houve rupturas nas relações de dependência. A contra-revolução se deu no sentido contrário de uma verdadeira democracia burguesa e da construção de alternativas para um desenvolvimento autônomo. Ela se direcionou para a possibilidade da centralização do poder no Estado para que permanecessem os aspectos pré-capitalistas de desigualdades. A exaltada capacidade brasileira de resolver os conflitos através de acordos, como observou Emir Sader (1990), tem um preço que é a nãoresolução dos problemas de fundo do país, cujas vítimas são a maioria esmagadora da população, excluída dos direitos básicos de cidadania. Segundo Sader, “a falta de rupturas implica a falta de identidade. Falta de identidade nacional, das classes sociais e dos atores políticos – já que a identidade, de um indivíduo ou de uma nação, surge de processos de ruptura de contraposição ao outro” (loc. cit, p.1). A história brasileira para Sader, revela constantes alinhavamentos de pactos ‘pelo alto’, que frustraram as aspirações populares e “as substituíram por processos gattopardistas, em que “tudo muda para que tudo siga igual” “(idem). Conforme enfatizou Fernandes (loc. cit, p. 209), a burguesia brasileira atuava em condições muito adversas em vista do passado e do presente serem de dependência estrutural capitalista, portanto não se poderia ir contra eles e criar um futuro novo. Tal aspecto ajuda a compreender a ausência de rupturas mencionadas anteriormente. Segundo o autor, o capitalismo dependente é um capitalismo difícil, que deixa pouca alternativa à burguesia. A dominação burguesa no Brasil fugirá do modelo clássico, não será nacional e democrática, mas dependente e autoritária. Porém, esta se faz necessária para possibilitar o desenvolvimento capitalista e a consolidação da dominação burguesa, que por sinal sempre teve vínculos frágeis com a democracia e cidadania. 55 Levando em consideração os estreitos limites em que atuava, cercada internamente pela oligarquia exportadora e pelos interesses internacionais, externos e também internamente, a burguesia brasileira foi até hábil, teve sua eficácia histórica, ao ceder em relação ao passado e ao aceitar a associação dependente, em uma posição menor, com o imperialismo. Dadas às circunstâncias, não poderia ter sido diferente. Faltou ao Brasil um agente transformador ousado, uma burguesia capaz de desempenhar o seu papel modernizador em uma sociedade capitalista. A sociedade brasileira se organizou de forma capitalista muito mais de fora para dentro; aqui faltou um agente capaz de levar a fundo a mudança, com mais audácia. Para Fernandes (loc. cit., p.211) é importante ressaltar que não há repetição, no Brasil, do que ele chamou de “modelo democrático burguês de transformação capitalista”, para o autor a existência de “determinantes universais” nesse processo constitui um equívoco, tendo em vista que a classe burguesa nunca almejou a universalização de direitos. Não por acaso a expansão da ordem social democrática constitui até os dias atuais o requisito sine qua non de qualquer alteração estrutural ou organizatória da sociedade brasileira. Se não conseguirmos fortalecer a ordem democrática, eliminando os principais fatores de suas inconsistências econômicas, morais e políticas, não conquistaremos nenhum êxito apreciável no crescimento econômico, no desenvolvimento social e no progresso cultural. Estaremos, como agora, camuflando pura e simplesmente uma realidade triste, que faz da insegurança social, da miséria material e da degradação moral o estado normal de parcela significativa da população. Da constatação acima, observa-se que a desigualdade no Brasil não constitui uma novidade na história brasileira. O Brasil é um país que fez da desigualdade histórica um caminho de construção e avanço da modernidade. Nas próximas seções abordaremos as conseqüências dessas desigualdades persistentes na manutenção de pobreza e de miséria. De acordo com o pensamento de Fernandes (1974, p.62), ”a história é obra dos homens...” é falsa a idéia de que a história se faz, que ela se determina automaticamente. A história é feita coletivamente pelos homens e, sob o capitalismo, através de conflitos de classe de alcance local, regional, nacional e mundial.” 56 Fernandes (1986, p. 80) analisa as perspectivas objetivas e subjetivas de transformação radical da sociedade brasileira e engendra um cenário que pretende, isto é, não fique restrito a “uma sociologia construtiva ou de uma teoria dogmática da luta de classes”. Refere-se a “uma potencialidade de conflito que nasce nos confins de todo o universo dos humilhados e oprimidos — e que transcende os limites do regime de classes”. Nesta direção o autor é claro ao observar a instrumentalidade da discriminação racial no processo mencionado. Com a introdução da luta de classes no debate sobre raça Florestan Fernandes torna claro que o modo de produção capitalista se apropria do conceito de racismo, para desvalorizar o trabalho do negro e do mulato com a finalidade clara de obter maiores lucro. Em relação à modernização da economia brasileira é importante analisar como esta se processou, com ciclos, crises ou fluxos e refluxos. Octavio Ianni (2004, p. 118), descreve o pensamento mencionado, da seguinte forma, Vista em perspectiva histórica ampla, a economia brasileira moderniza-se de modo mais ou menos contínuo, crescente. A despeito dos “ciclos”, crises ou fluxos ou refluxos, o sistema econômico amplia-se e diversifica-se. De quando em quando, imagina-se que o país alcança os padrões de nações desenvolvidas, que o Brasil se torna potência econômica mundial. (IANNI, 2004, p. 118) Nesta perspectiva histórica o autor mencionado ressalta a forte aliança entre o grande capital financeiro nacional e estrangeiro com o Estado nacional.40 Observa-se uma contradição no processo de modernização no Brasil, pois enquanto diversos setores da indústria se desenvolvem, o mesmo não acontece com as relações sociais e políticas. Segundo Ianni, a própria sociedade moderniza-se pouco. As relações sociais e políticas desenvolvem-se com dificuldade, deparando-se com obstáculos diversos. Além das heranças oligárquicas e patrimoniais, emergem os interesses dominantes aglutinados em diretrizes governamentais. Os movimentos sociais, as organizações sindicais, os partidos políticos e outros espaços de atividades sociais, políticas e culturais sofrem injunções de interesses identificados com a “moderna sociedade industrial. (IANNI, 2002, p. 120) Pelo que podemos observar há uma relação direta entre questão social 40 Aos poucos, forma-se uma poderosa aliança entre o grande capital financeiro nacional e estrangeiro com o Estado nacional. Sob vários aspectos, a revolução econômica realiza-se plenamente. Ou a modernização da economia brasileira alcança pleno êxito. (IANNI, Octávio. idem, 2004, p. 119) 57 e desigualdade social. A primeira se apresenta sob os aspectos — econômicos, políticos e culturais —, a segunda se faz presente nas reivindicações dos movimentos sociais na história das várias repúblicas. Ianni (idem, 2004, p. 120) afirma que “as desigualdades sociais não se reduzem; ao contrário, reiteram-se ou agravam-se. Vários itens da questão social atravessam a história das várias repúblicas como, por exemplo”, a reivindicação do movimento negro e o acesso a educação” (idem). Pode-se dizer que o trabalhador é explorado de duas formas: a primeira no que se refere a garantia dos interesses dos setores dominantes da sociedade brasileira e a segunda são expropriados de forma a garantir os interesses dos setores estrangeiros. Segundo Ianni (idem, 2004, p. 120) “tudo isso é garantido por um aparato bastante modernizado e altamente repressivo, no qual as forças policiais e militares são essenciais para a garantia da lei e da ordem”. Neste contexto observa-se que o processo de modernização da economia e do aparelho estatal é perverso, bastando verificar a seguinte citação de Ianni, Modernizam-se a economia e o aparelho estatal. Simultaneamente, os problemas sociais e as conquistas políticas revelam-se defasados. A própria cultura, em sentido lato, também se mostra bloqueada, ou pouco estimulada. A mesma nação industrializada, moderna, conta com situações sociais, políticas e culturais desencontradas. (IANNI, 2004, p. 120) Em suma: a mesma sociedade que fabrica a prosperidade econômica também produz as grandes desigualdades sociais. A obra de Ianni (2004) denominada ‘Pensamento Social no Brasil’ traduz fielmente as conseqüências da expansão do capitalismo, conforme relato a seguir, talvez se possa dizer que esse desencontro entre a sociedade e a economia seja um dos segredos da prosperidade dos negócios. As expansões do capital beneficiam-se das condições adversas sob as quais os trabalhadores são obrigados a produzir, no campo e na cidade. Os mesmos “indicadores econômicos” da modernização alimentam-se dos “indicadores sociais” da “sociedade primitiva”. Os setores sociais “participantes” têm uma base na exploração dos “excluídos”. (IANNI, idem, p. 121) Para Ianni as desigualdades sociais brasileiras exigem que se entenda a articulação entre questão social, classe social e preconceito e discriminação racial. A particularidade da obra de Ianni, neste campo temático sobre a 58 questão social, é fundamentada nessa fértil articulação do debate sobre a relação intrínseca entre classe social e questão racial. Partindo das reflexões de Ianni, conforme observou Nívia Silva (2009, p.192), é possível afirmar que “a história da formação social brasileira registra a desigualdade enquanto uma realidade concreta do Brasil Colônia até os dias atuais. O desenvolvimento desigual e combinado é uma característica fundante dessa história e, por isso, permanece atual”. Segundo a autora, de acordo com Ianni: “o Brasil moderno parece um calidoscópio de muitas épocas, formas de vida e trabalho, modos de ser e pensar.(IANNI,1984, p.85 apud SILVA, idem). Em Ianni, a questão social é de todos os tempos e lugares (idem). Por isso é possível afirmar que para Ianni, A questão social atravessa a história da formação da sociedade brasileira como fruto das desigualdades econômicas, políticas e culturais, cujas expressões mais latentes são a questão de classe, a questão racial e as desigualdades regionais sempre tencionando a relação entre sociedade civil e o poder estatal. (SILVA, idem, p.193) Segundo Ianni, [...] a raça e a classe são constituídas simultânea e reciprocamente na dinâmica das relações sociais, nos jogos das forças sociais. Essa é a fábrica da dominação e alienação que pode romper-se, quando uns e outros, assalariados de todas as categorias, simultaneamente negros e brancos, em suas múltiplas variações, compreendem que a sua emancipação implica a transformação da sociedade: desde a sociedade de castas à de classes, desde a sociedade de classes à sociedade sem classes. Na sociedade sem classes, todos podem realizar-se como pessoas, indivíduos e coletividades. As diversidades não se transformam em desigualdades, distintas modalidades de alienação. Os distintos traços fenotípicos não se transformam em estigmas. Ao contrário, as diversidades de todos os tipos participam de formação, conformação e transformação policrônica e polifônica da sociedade (IANNI,2004,p.147). Apesar da constituição simultânea entre classe e raça antes mencionada, Ianni observou no texto “Marxismo e questão racial” (1988) que as classes sociais não esgotam a riqueza da realidade das sociedades nacionais e as contradições da história. Se essas contradições são historicamente necessárias, também “as contradições éticas, raciais, culturais e regionais são muito importantes para compreendermos o movimento da sociedade tanto na luta pela conquista da cidadania como na luta para transformar a sociedade, pela raiz, no sentido do socialismo” (IANNI, 1988,p.189, apud SILVA,idem) No contexto atual, Silene Freire (2007, p. 147) afirma que “os rumos das políticas sociais no Brasil nos obriga a lembrar que a modernidade construiu uma profunda articulação entre cidadania e democracia”. Assim sendo, a 59 política de cotas nas universidades públicas deve ser pensada e repensada no intuito de aumentar o acesso das classes e camadas subalternas ao ensino superior, tendo como base a distribuição cada vez menos desigual de oportunidades aos cidadãos. Essa possibilidade é inerente ao próprio curso da democracia e reflete conquistas oriundas das próprias classes e camadas subalternas na luta de classes. Quando se luta contra discriminações, quando se busca eliminar injustiças sociais, e outras desigualdades que se expressam de diferentes formas, estamos contribuindo com que “a questão social, o preconceito de classe e o preconceito racial ganhem um caráter político e crítico, acionando resistências e estratégias de luta coletiva no processo de transformação social” (SILVA, 2009, p.192), essas são lições que Florestan Fernandes e Octávio Ianni nos deixam como legado. Um país que em mais da metade de sua história conviveu com a escravidão demonstra facilmente sua pouca vocação para a cidadania. Os estudos de Florestan Fernandes e Ianni em diferentes momentos nos ajudam compreender que a vocação do Brasil para democracia também não foi algo que fizesse parte de nossa formação social, política e econômica. Assim sendo, queremos deixar claro nas breves reflexões realizadas nesta seção de nossa tese que a discussão sobre o processo de modernização e expansão do capitalismo no Brasil também passa pelo reconhecimento da continuidade de diferentes elementos presentes no seio da cultura política brasileira. Uma análise que pretenda avançar além das trivialidades menos satisfatórias, concluirá que a cultura política, no Brasil, contou com um conjunto persistente de elementos de estrutura, cultura e, comportamento político historicamente acumulado e integrado ao processo político brasileiro (FREIRE e PEREIRA, 2009). Tais elementos foram sendo cristalizados ao longo do extenso fluxo da revolução passiva no Brasil. É essa cultura política que faz com que o Brasil tenha convivido com uma desigualdade naturalizada durante todo o seu processo de modernização, o qual já duram dois séculos, condenando 1/3 da população à subcidadania e a uma vida que não merece esse nome. Sem debate refletido e maduro estaremos condenados a continuar achando que políticas compensatórias, por exemplo, são capazes de solucionar a questão da desigualdade no Brasil. Conforme observou Freire (2007) não é coincidência que estejamos assistindo a implementação de políticas públicas voltadas para 60 o combate a pobreza e conseqüente “resolução” da desigualdade social que efetivamente não possuem capacidade de promover elementos que alterem as regras do jogo; ou seja, não são capazes de acirrar o debate, de trazer novos elementos para reflexão, de mostrar a desigualdade como um ponto fundamental na disputa política e, por conseguinte, garantir e universalizar a cidadania. 1.2 O Mito da Democracia Racial e a Superação das Desigualdades Persistentes O objetivo desta seção é salientar a forma como o conceito de raça é apropriado pela classe dominante no capitalismo com a finalidade de discriminar determinados grupos étnicos e obter maiores lucros e permanência de privilégios e regalias em detrimento das expropriações das classes subalternas. Vale ressaltar, conforme observou Márcio Mucedula Aguiar (2008), que apesar da riqueza do debate não existe um consenso entre os pesquisadores sobre o papel da “raça” na estruturação da desigualdade social no Brasil. Por isso continua sendo fundamental demonstrar a diversidade de visões sobre a questão racial brasileira. A literatura brasileira produzida sobre essa temática é imensa, não sendo nosso objetivo resgatar o mesmo nesta tese. Entretanto, para fins de nosso estudo buscamos centrar nossa exposição no autor que consideramos mais representativo dessa temática: Gilberto Freyre. Procurando destacar questões importantes de sua obra e as conseqüências e influências da mesma para o debate sobre raça no Brasil. Como mencionou Octávio Ianni, em matéria publicada em site41, em 10/11/2003, a questão racial parece um desafio do presente, mas tem sido permanente. Modifica-se ao acaso das situações, das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais, mas reitera-se continuamente, modificada, mas persistente. Esse é o enigma com o qual defrontam-se uns e outros, intolerantes e tolerantes, discriminados e preconceituosos, segregados e arrogantes, subordinados e dominantes, em todo o mundo. Mais do que tudo isso, a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e 41 A respeito consultar: <http://www.comciencia.br/reportagens/negros> 61 estridente, como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e alteridade, diversidade e desigualdade, cooperação e hierarquização, dominação e alienação. É justamente a complexidade dessa questão mencionada por Ianni (idem) que nos obriga a entender com maior profundidade esse debate e perceber como a dialética da cidadania se expressa nestes movimentos de negação e superação das situações vigentes. Alguns traçam o surgimento da idéia de democracia racial no Brasil para épocas bem passadas. Elide Rugai Bastos, por exemplo, afirma que "o mito da democracia racial [...foi] germinado longamente na história do Brasil através de afirmações que apontavam o tratamento concedido ao escravo como ‘suave’, ‘cristão’ e ‘humano’ e [que] só vai ganhar sentido e objetivar-se com a Abolição e a implantação da República" (BASTOS, 1987, p.147). Já para Andrews, o conceito de democracia racial "foi claramente tomando forma já nas primeiras décadas do século XX, e suas raízes remontam ao século passado XIX, quando as restrições datadas do domínio colonial português eram explicitamente declaradas ilegais ou simplesmente caíam em desuso" (ANDREWS, 1991, p. 203). Segundo Guimarães, "o [mito] da democracia racial, [foi] desenvolvido [...] nos anos de 1920 e 1930, quando se tenta superar o trauma da escravidão negra incorporando, de modo positivo, os afrodescendentes ao imaginário nacional" (GUIMARÃES, 2002, p. 398). Para Guimarães, com a existência dos regimes autocráticos de Vargas e Salazar, ao explicar a realidade brasileira, Freyre “procura demonstrar que a cultura lusobrasileira não é apenas mestiça, mas recusa qualquer tipo de pureza étnica, característica dos regimes fascistas e nazistas da Itália e Alemanha. Do ponto de vista “social”, tanto o regime de Vargas como o de Salazar seriam democráticos na medida em que promovem a mobilidade social de pessoas de diferentes raças e culturas”. (GUIMARÃES, 2002, p.152 Apud AGUIAR, idem) Segundo Aguiar, Apesar de Gilberto Freyre ser o autor mais significativo para a popularização deste ideário da democracia racial, o primeiro a utilizar este termo foi Roger Bastide a partir de, provavelmente, uma livre interpretação das idéias de Freyre. O termo teria sido utilizado em um artigo publicado no Diário de São Paulo, em março de 1944, no qual Bastide reporta-se a uma visita a Gilberto Freyre. Apesar de Freyre ser o inspirador do termo, Guimarães (2002) ressalta que ele o evitou muitas vezes, tendo para o autor um significado peculiar. (2008, p117, grifos nossos) 62 Apesar das constatações mencionadas por Guimarães (2002), a idéia de democracia racial é atribuída por não poucos a Gilberto Freyre 42 . Muitos apenas o mencionam como autor da idéia e usuário da expressão. Mas outros vão mais além e afirmam haver o escritor pernambucano dedicado um tratamento especial à questão. Sem dúvidas, as concepções de Gilberto Freyre marcam profundamente a reflexão sobre a escravidão e as relações entre brancos e negros no Brasil. Em Casa Grande & Senzala, ao refletir sobre a formação da família brasileira sob o regime escravocrata Freyre constrói um caminho de explicação que passa a ser reconhecido por muitos outros interpretes da formação social brasileira. A importância de seu estudo reside no fato de ser a primeira tentativa de se fazer uma análise baseada na distinção entre “raça” e “cultura”. Como mencionou Aguiar (2008) sua obra sistematizou um projeto de identidade nacional de um povo miscigenado e que, por isso mesmo, não desenvolveu formas de discriminação e racismo como as existentes nos Estados Unidos. O eixo desta argumentação fundamentava teoricamente o chamado mito da democracia racial. Tal mito parte do pressuposto de que a grande miscigenação entre brancos, negros e índios produziu uma sociedade híbrida. “A miscigenação teria levado à formação de uma sociedade em que os extremos (senhores e escravos) aproximaram-se, corrigindo a grande distância social entre eles” (AGUIAR , idem,p.2). Desse modo, podemos dizer que o paradigma de análise para o entendimento da temática é sem dúvida a obra do sociólogo Gilberto Freyre, A partir da idéia do mito da democracia racial que se permite o exagero de certos traços que possibilitam a criação de um tipo, desenvolvendo uma análise expressionista sempre opondo tipo aparentemente inconciliáveis: Casa-Grande & Senzala, Ordem & Progresso, Sobrados & Mocambos. Desse modo, processa a transfiguração de tipo em símbolo: a Casa-Grande representaria a dominação: a Senzala, a subordinação, a submissão. Porém, o que o seu pensamento quer demonstrar é que o tipo criado ao nível da análise assume traços específicos em sua concreção; o & que liga 42 Segundo as sínteses de Aguiar (idem) sobre as reflexões de Guimarães, “Freyre só utilizará o termo “democracia racial” em 1962, em sua defesa do colonialismo português na África e na construção teórica do seu luso-tropicalismo, quando acredita ser necessário atacar a influência estrangeira sobre os negros brasileiros, particularmente o conceito de “negritude”. (GUIMARÃES, 2002, p.152) Para Guimarães (2002, p.139), a concepção que predominava era a de que o Brasil era uma sociedade sem “linha de cor”, uma sociedade sem barreiras legais que impedissem a ascensão social de pessoas de cor a cargos oficiais ou as posições de riqueza ou prestígio. Essa idéia era bastante difundida tanto na Europa como nos Estados Unidos. Além disso, Guimarães ressalta que, para muitos abolicionistas a escravidão no Brasil era vista como mais humana e suportável”. 63 Casa a Senzala significa interpenetração de tipos. No exemplo citado, interpenetração dominação/submissão concorre para a estabilidade da sociedade brasileira. (BASTOS, p. 68. In: MORAES; ANTUNES; FERRANTE (Orgs.), 1986.) Conforme Elide Rugai Bastos (loc.cit, p.73) ressalta que, em vários momentos da obra de Gilberto Freyre, constatamos um confronto de idéias mostrando duas tendências concomitantemente presentes no pensamento sobre o social: uma modernizadora e outra conservadora. Nestas sociedades marcadas por dois traços antagônicos (dois climas, dois tipos de solos e de vegetação, duas raças, duas culturas, duas concepções de vida, dois complexos ecológicos), “a busca do equilíbrio entre dois pólos não se faz sem conflito, sempre vencendo, porém, a fusão, a acomodação e a assimilação” (idem). É por isso que o complexo casa-grande/senzala é símbolo de relações sociais, observa Bastos. A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater famílias, culto dos mortos); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa (o ‘tigre’, a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés); de política (o compadrismo)”. (BASTOS, loc.cit. p.52 ) Sua proposta é o estabelecimento de peso idêntico de influência entre a casa-grande e a senzala na formação da sociedade brasileira. Mas, na verdade, podemos perceber que sua visão privilegia a força da casa-grande em detrimento da senzala. O escravo é visto por Gilberto Freyre principalmente na sua condição de trabalhador doméstico e não na de trabalhador da lavoura, portanto, como habitante da casa-grande. É principalmente essa razão que permite ao autor a abordagem de uma dimensão das relações sociais inusitada: tenta mostrar que o negro é colonizador. É por este motivo que sempre busca separar a condição do negro da condição de escravo. É a partir dessa separação que pretende reabilitar a condição do negro. Para Gilberto Freyre, é ancorada na senzala que a casa grande ganha força social, o que permitirá ao patriarcalismo o triunfo face ao Estado e à Igreja. Elide Rugai Bastos enfatiza, portanto, que 64 a chave da interpretação do desenvolvimento de um ethos brasileiro reside na tentativa de compreensão de toda a realidade nacional através dos complexos casa-grande & senzala, sobrados & mocambos, ordem & progresso. Esses complexos são marcados – como o é nosso ethos nacional – por normas nem sempre ortodoxas. Isso exige, segundo Gilberto Freyre, um arcabouço teórico de interpretação e uma metodologia de investigação sui generis. Isto porque, embora os elementos do complexo como tipo ideais sugiram antagonismos, na realidade tais antagonismos não se dão, pois os elementos interpenetram-se através da cultura compartilhada. É por isso que as relações sociais não são marcadas pelos antagonismos de classe. As relações entre casa-grande e senzala e entre sobrados e mocambos não foram, no Brasil, relações em que predominassem antagonismos de classe contra classe, embora esses tenham colorido fortemente episódios nada desprezíveis do passado quer pré-nacional, quer nacional, do nosso país. (BASTOS, loc.cit, p. 53) Assim sendo, essa interpretação fornece uma visão de conflito social marcada pelo equilíbrio, o que é bem característico da obra gilbertiana. A mistura de raças é que permite a convivência pacífica de elementos contraditórios; é ainda a miscigenação que constitui os elementos fundamentais da nossa nacionalidade. É a partir da discussão sobre a família que Gilberto Freyre propõe a articulação do velho e do novo. É, ainda, a partir da família que coloca a questão do tradicionalismo e do modernismo, forma pela qual aponta a debilidade política e social da burguesia industrial que, para impor seu projeto, uma nova ordem social, necessita do apoio dos setores tradicionais, só eles capazes de compreensão de manutenção da velha ordem da sociedade. A presença da modernização conservadora na obra de Gilberto Freyre é mostrada pela não ruptura do novo com o antigo. Bastos (1986, p. 57) constata esse fato na seguinte passagem: “esse papel exercido pelo seu pensamento permite que vejamos em Gilberto Freyre o intelectual orgânico do pacto de 1930 na medida que seus trabalhos expressam as possibilidades de as oligarquias agrárias estarem presentes na “nova ordem” em curso, sem que para isso fossem necessárias mudanças estruturais”. A tão falada “democracia racial” atribuída, sobretudo a obra de Gilberto Freyre43, para muitos (Cf. cap III) esconde a invisibilidade do racismo presente na sociedade brasileira e a desigualdade engendrada pelo mesmo. Afirmar que não há discriminação e preconceito em face do negro é não reconhecer o 43 Segundo Ribeiro (1995, p. 264) observe-se que as concepções freyrianas possuem uma certa similaridade com as idéias de Darcy Ribeiro sob a especificidade de nossa nacionalidade: Apesar de tudo, somos uma província da civilização ocidental. Uma nova Roma, uma matriz ativa da civilização neolatina. Melhor que as outras, porque lavada em sangue negro e em sangue índio, cujo papel, doravante, menos que absorver europeidades, será ensinar o mundo a viver mais alegre e mais feliz. 65 nosso cotidiano, a nossa história. Apesar de no Brasil “existir” legislação contra a discriminação racial, as estatísticas mostram exatamente o contrário, isto é, os negros (grande parcela da população) não têm as mesmas oportunidades que os brancos, ocupando assim a base da pirâmide social, marcada pelo desnível social, econômico e cultural. As desigualdades ainda persistentes no nosso século, não podem ser entendidas distanciadas da compreensão do capitalismo que gera a exploração de significativas parcelas da população. O debate sobre raça no Brasil é tão antigo quanto multifacetado. Apesar de se constituir como campo de reflexão bastante abrangente das ciências sociais, não são poucas as vezes que nos deparamos com reflexões que abordam esse tema isolando-o das particularidades da formação social, política e econômica brasileira, ou seja, o modo como se construiu e se conformou a luta de classes no Brasil. Tendo como base as idéias de Marx, constata-se a existência da discriminação nas suas múltiplas determinações, o que nos permite afirmar que o ambiente de desigualdade é a forma lógica da reprodução social do capitalismo, sendo através da mesma que se expressa a luta de classes. Desse modo, entendemos que se faz mister compreender que a criação e manutenção da discriminação e do preconceito fazem parte do modo de produção capitalista nacional, à medida que desqualificando parcela da população, o mercado terá mão de obra farta e de baixo custo para os detentores dos meios de produção, além do consenso, resultante da construção hegemônica burguesa, que amplia a margem da subalternização de camadas e grupos sociais aos interesses do capital. Analisar de que forma uma determinada política pública (por exemplo, a política de cotas) ajuda a fragmentar a realidade é importante, pois não podemos cair na armadilha do senso-comum ao afirmar que podemos fazer uma grande revolução (mudança), com fragmentos, com focalizações da questão, sem entender a totalidade do processo. No modo de produção capitalista a classe dominante se antecipa às tensões sociais, criando políticas públicas que beneficiam as classes subalternas. Ocorre que, são políticas frágeis e fragmentadas apenas para redução de conflitos sociais e manutenção dos privilégios e regalias dos detentores do poder. Ao buscarmos análises ancoradas nas reflexões de Florestan 66 Fernandes, devemos evidenciar as armadilhas e/ou complexidade das questões que envolvem o mito da democracia racial. Afinal, numa sociedade marcada pela fragilidade democrática, não se pode falar em cidadania plena, resumindo a democracia, ao pleito eleitoral. Contrapondo-se a Gilberto Freyre, Florestan Fernandes e toda uma geração de pesquisadores marcou profundamente a reflexão sobre as relações raciais no Brasil. A tese fundamental de Fernandes pode ser resumida da seguinte forma: a sociedade pós-Abolição não criou as condições necessárias para a absorção do elemento negro. O negro não estava preparado social e psicologicamente para se tornar um trabalhador livre. Como Maria Arminda Arruda (1996, p.195) destaca, Florestan Fernandes dirigiu as suas indagações na caracterização dos dilemas presentes na constituição da ordem capitalista no Brasil, evidentes na marginalização dos negros e mulatos, desembocando na realização parcial dos requisitos inerentes à sociedade moderna. Situando a problemática na passagem da sociedade tradicional para a sociedade de classes, o sociólogo investiga a situação dos negros no prisma das formas sociais excludentes e das possibilidades de integração geradas pelo próprio capitalismo brasileiro. Deslocados da seara da competição por ocupações, os negros não conseguiriam enfrentar os imigrantes, por estarem infensos às normas intrínsecas da sociedade em emergência. Marcados pela pauperização e desorganização, viveram dentro da cidade, mas não progrediram com ela e através dela. A situação dos negros e mulatos é explicitada na passagem abaixo, a exclusão dos negros e mulatos desse processo corroeu os fundamentos jurídicos e morais das relações contratuais. O centro dinâmico da sociedade em formação girará em torno das personagens centrais do fazendeiro e do imigrante, aguçando as dificuldades de ajustamento dos negros, vedandolhes o acesso aos princípios da socialização emergente. Na base de tal processo, encontram-se o “desajustamento estrutural” e a “desorganização social” típicos da condição de negros e mulatos, não se operando a reclassificação no âmbito da sociedade. Relegados após a escravidão, produziram, no momento seguinte, situação aberrante nos quadros da nova sociedade, por perpetuarem princípios passadistas de formação das posições e papéis sociais. (ARRUDA 1996, p.197) Arruda (idem, p.199) observa que os obstáculos enfrentados pelos negros e mulatos na sociedade brasileira da época estavam em consonância 67 com o contexto histórico de então, assim sendo a emergência plena dos direitos [...] enfrentava as barreiras de uma sociedade pouco permeável aos movimentos de integração, visíveis na rejeição à participação coletiva, mantendo o desequilíbrio entre ordem social e sistema racial dominante. Impôs-se formas individuais de ajustamento que ultrapassavam, com atraso considerável, certos entraves à classificação, mesmo que as posições auferidas se situassem no nível inferior da estratificação. Ainda mencionando o estudo de Arruda, a autora citando Florestan Fernandes destaca que: a desocupação e a semi-ocupação perdem intensidade, o que não significa ipso-facto a eliminação de atitudes discriminatórias. A via individualizada de ascensão social faz dos descendentes dos escravos presas do preconceito, visto que buscam, muitas vezes, se livrar da “condição de negro”. A luta por uma situação de classe travada pelos negros delineia possibilidades de instituir um novo destino social, de absorver as “oportunidades potenciais de uma sociedade aberta (FERNANDES,1965,p.278. Apud ARRUDA,1996, p. 199.) Para Florestan Fernandes a mudança social progressiva afetou o antigo sistema de relações raciais, sem, contudo abalá-lo profundamente ou substituílo por algo mais ajustado aos requisitos materiais e morais da ordem social competitiva. Em conseqüência, as técnicas de controle social, que canalizam, disciplinam e orientam os mecanismos de reação societária ao ‘preconceito de cor’, ou são obsoletas e anacrônicas (como expressão direta de um estado extremo de demora cultural), ou são inconsistentes e débeis, estando longe de responder às exigências de uma ordem social competitiva (e, por isso mesmo, aberta e democrática pelo menos em alguns níveis da organização social). (ARRUDA, loc.cit., p. 200) Assim como outros autores já mencionados nesta tese, Arruda (idem) concorda que “não se construiu no Brasil uma ordem burguesa aberta e democrática, como ocorreu em outros países, mas uma ordem burguesa enrijecida e tendente ao autoritarismo”. Na gênese da sociedade de classes no Brasil imiscuem-se os traços do passado, dificultando a plena constituição da ordem social competitiva, apesar do paulatino movimento de integração. No interior dessa realidade contraditória, o encaminhamento da questão do negro é decisivo para fundamentar uma sociedade moderna e democrática. O dilema racial brasileiro, tal como caracterizado por Florestan Fernandes (idem), espelha o drama de uma história singular, por não 68 desenvolver as possibilidades mais avançadas contidas na dinâmica da sua transformação. E o avanço identifica-se com as formas democráticas e de participação igualitária, configurando uma análise lastreada na perspectiva das classes populares. Com a introdução da luta de classes, como critério fundamental para a compreensão do racismo no Brasil, Florestan Fernandes torna claro que o modo de produção capitalista se apropria do conceito de racismo, para desvalorizar o trabalho do negro e do chamado mulato com a finalidade clara de obter maiores lucros. Fernandes (1985) demonstra na citação abaixo uma herança de humilhação sofrida pelos escravos, libertos, pobres e imigrantes, Pondo-se todas as coisas no seu lugar (histórico e específico), o que se descobre é uma situação revolucionária complexa. Os proletários industriais e urbanos não passam de uma vanguarda das classes perenementes subalternizadas, oprimidas e exploradas... Herdam a humilhação secular dos escravos, dos libertos, dos homens livres pobres, dos imigrantes ‘que não tiveram vez’ e do imenso exército dos ‘miseráveis da terra’, dos que foram massacrados socialmente no campo e nas cidades pela forma monstruosa de exploração capitalista ‘periférica’ [...] Esse acúmulo de sentimentos negativos e da compulsão à emancipação coletiva não gera ódios simples, à vontade de estabelecer a ‘normalidade das coisas’ [...] Para eles, a ‘normalidade das coisas’ está em aberto, resta a ser criada e só pode surgir por suas mãos... O ódio não se formou como uma objetivação coletiva. Mas existe como coisa palpável, pesadamente no ar [...] (FERNANDES,1985, pp. 78-79) A iniqüidade da ordem social engendrada pelo capitalismo selvagem — com o privilégio da reduzida minoria dominante, com a sobre exploração e a sobre expropriação dos trabalhadores e dos despossuídos, com a tirania da opressão e da exclusão — oferece, segundo Fernandes (1985. p. 79), “uma base social fértil à fermentação e amadurecimento desse equivalente histórico do ódio” Os grupos racialmente dominantes e subordinados têm sido tratados como se fossem categorias socialmente homogêneas. No entanto, visto que ambos os grupos encontram-se internamente estratificados dentro de sociedades divididas em classes, exploramos agora as relações de raça e racismo com a estrutura de classe pós-escravista e o sistema de estratificação social. Achamos extremamente importante a forma com que o sociólogo Florestan Fernandes analisa a situação social pós-abolição dos negros em São Paulo, do ponto de vista da sociedade de classes em desenvolvimento. 69 Hasenbalg (2005, p. 79) no livro Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil faz uma análise das teses de Florestan Fernandes tendo como base as relações raciais como arcaísmo do passado. O autor mencionado destaca, baseado nos textos de Florestan Fernandes que a abolição da escravatura não refletiu uma modificação na posição social dos negros e mulatos. Hasenbalg descreve: A desintegração do regime escravista, segundo Fernandes, a mudança no status legal de negros e mulatos não se refletiu numa modificação substancial de sua posição social. À falta de preparo para o papel de trabalhadores livres e ao limitado volume de habilidades sociais acrescentou-se a exclusão de oportunidades sociais e econômicas, resultantes da ordem social competitiva emergente. Os ex-escravos e homens livres de cor foram relegados à margem inferior do sistema produtivo, dentro de formas econômicas précapitalistas e áreas marginais da economia urbana. (HASENBALG, 2005, p. 79-80) Hasenbalg (idem, p. 80) constata que a estrutura da sociedade de classes aliada à pobreza e a anomia social, conduziu a um padrão de isolamento econômico e sócio-cultural de negros e mulatos. O modelo arcaico de relações raciais destinados a regular as relações entre senhores, escravos e libertos manteve-se quase totalmente. Como observou o autor a análise históricosociológico patenteia, porém, que esses mecanismos possuem outra função: a de manter a distância social e o padrão correspondente de isolamento sóciocultural conservada em bloco pelas simples perpetuação indefinida de estruturas parciais arcaicas. Como afirma Fernandes (apud HASENBALG ,idem) as manifestações de preconceito e discriminação raciais nada tem a ver com a competição ou rivalidade entre negros e brancos, nem com o agravamento real ou possível de tensões raciais. Elas são a expressão de mecanismos que, de fato, perpetuam o passado no presente. Elas representam a continuação da desigualdade racial tal como se dava no antigo sistema de casta”. (p. 81) Observa-se assim que traços arcaicos de nossa formação servem como pilares de construção da modernidade nacional, isto e, o arcaico permanece no moderno, pois é uma marca da nossa revolução burguesa, conforme visto na seção anterior.. Fernandes (idem) no mesmo sentido destaca que o desaparecimento do modelo arcaico “só ocorrerá quando a ordem social competitiva se libertar das distorções que resultam da concentração racial de renda, privilégio e poder. 70 Assim, uma democracia racial autentica implica que negros e mulatos devam alcançar posições de classe equivalentes àquelas ocupadas por brancos” (Apud HASENBALG, loc.cit. p. 81). Mesmo com a dinâmica da sociedade de classe emergente não houve a eliminação das estruturas pré-existentes de relações raciais. A competição dos ex-escravos sem qualificação com imigrantes europeus excluiu ainda mais negros e mulatos do mercado de trabalho capitalista. Após 1930, surgiu a crise no modelo tradicional de relações raciais, fazendo com que uma parte (minoria) dessa população excluída adquirisse posições de classe típicas. “No entanto, negros e mulatos estão longe de terem atingido uma completa igualdade social e econômica com relação aos brancos”. (HASENBALG, 2005, p. 81). Para Hasenbalg (idem) a análise das relações raciais realizadas por Florestan Fernandes estabelece que a preocupação central do autor são os aspectos objetivos da estratificação “sua análise das relações raciais é historicamente concreta e decorre de uma análise global da mudança na estrutura social, principalmente as mudanças resultantes da generalização do trabalho livre e da expansão das relações de trabalho capitalista”. No mesmo sentido Hasenbalg observa que Florestan Fernandes traduz, o modelo tradicional e assimétrico das relações raciais, perpetuados pelo preconceito e pela discriminação é considerado uma anomalia da ordem social competitiva, em conseqüência, o desenvolvimento ulterior da sociedade de classe levará ao desaparecimento do preconceito e discriminação raciais. A raça perderá sua eficácia como critério de seleção social e os não-brancos serão incorporados às posições típicas da estrutura de classes. (FERNANDES, Apud HASENBALG, 2004, p. 83) Hasenbalg (2004) concebe “as relações raciais pós-abolição como relíquias do passado”; bastando verificar a realidade racial do Brasil e outras sociedades multirraciais capitalistas. O autor constata uma oposição sensível a análise de Fernandes da ideologia racial brasileira como fonte para mudança no sistema de relações raciais. A maioria dos problemas conceituais parece resultar duma concepção unívoca e idealizada da ordem social competitiva — uma sociedade competitiva, aberta e democrática, cujas bases econômicas, morais e políticas são incompatíveis com a perpetuação e estruturas segmentarias arcaicas — e sua suposta potencialidade de transformação social. (HASENBALG, 2004, p. 83) 71 No entendimento de Hasenbalg (idem) a persistência de uma estratificação racial está relacionada aos ganhos materiais e simbólicos que cabem ao grupo superior. O autor descreve tais ganhos na seguinte citação Como em qualquer sistema de estratificação social, a persistência de uma estratificação racial deve ser funcionalmente relacionada aos ganhos materiais e simbólicos que cabem ao grupo superior. Nas palavras de Stanislav Andreski: “Uma vez que uma superposição bem definida de raças passa a existir, cria-se uma situação em que é bastante racional para seus beneficiários tentar perpetuá-la. Assim, independentemente do conteúdo irracional das crenças e ideologia raciais, as práticas racistas podem ser racionais em termos da preservação da estrutura de privilégio e dominação dos brancos. (HASENBALG,idem) Hasenbalg (2004, p. 83) destaca que “as peculiaridades de cada processo de abolição e a subseqüente diferenciação da estrutura de classes podem produzir uma reordenação dos grupos brancos que se beneficiam mais com a subordinação dos negros”. No entendimento de Hasenbalg (2004), a luta de classes não é eliminada da interpretação, pois é estruturalista, sendo que “a sociedade capitalista transforma o significado da raça com dimensão descritiva, dentro de um sistema de estratificação e mobilidade social”. O autor destaca também, na sua obra, a nova função que a sociedade de classe confere ao preconceito e discriminação raciais. Outrossim, os componentes tradicionais das relações raciais não permanecem intactos após a destruição do escravismo. As “sobrevivências” do antigo regime são elaboradas e transformadas dentro da estrutura social modificada. A sociedade capitalista transforma o significado da raça como dimensão adscritiva, dentro de um sistema de estratificação e mobilidade social em que a competição e atributos adquiridos são enfatizados. A sociedade de classes confere uma nova função ao preconceito e discriminação raciais: as práticas racistas, sejam ou não legalmente sancionadas, tendem a desqualificar os não-brancos da competição pelas posições mais almejadas, que resultam do desenvolvimento capitalista e da diferenciação da estrutura de classes. (HASENBALG, 2004, p. 84) Hasenbalg (1979, 1996, 2004, 2005) ao discutir nos seus livros as teses de Florestan Fernandes, também destacou a comparação feita por Fernando Henrique Cardoso sobre as funções entre preconceito e discriminação raciais antes e após a abolição da escravidão. Vale ressaltar que Hasenbalg buscou na obra Capitalismo e Escravidão no Brasil, do autor citado, as características intrínsecas do sistema escravagista. A questão da raça e das minorias raciais na sociedade pode ser 72 abordada sob diversas perspectivas teóricas. Hasenbalg (2004), exemplifica essa possibilidade ao ressaltar elementos centrais do marxismo e estruturalismo. Desse modo lembra que, Na tradição marxista, as classes sociais são elementos fundamentais de certos modos de produção em que existe a propriedade privada dos meios de produção e onde as relações sociais se organizam em torno de um mecanismo básico de exploração. Cada modo de produção implica duas classes fundamentais, relacionadas antagonicamente. Assim, as classes sociais são posições estruturais as quais os indivíduos são locados pelo sistema. Já a segunda perspectiva refere-se às formas, funções e conseqüências de sistemas de desigualdades sociais estruturadas. No sentido estático, a estratificação social refere-se à distribuição diferenciada de recompensas e privilégios. No sentido dinâmico, a estratificação social implica o processo individual de obtenção de status, bem como a transmissão intergeneracional de desigualdade social. (HASENBALG, 2004, p. 97) Para Hanselbag (Idem) as teses de Florestan Fernandes baseadas na teoria das classes são as mais profundas nessa direção, embora ele ressalte a sua opção pela teoria da estratificação social. Embora nos filiemos à teoria marxista das classes defendida de forma veemente pelo sociólogo paulista, como temos citado anteriormente, achamos fundamental mencionar as bases dos argumentos das outras vertentes para melhor compreensão do debate. Nesta direção, achamos fundamental destacar as reflexões de Telles. Para Telles (2003, p.301-302) o racismo e a discriminação existem em todas as sociedades multirraciais. A especificidade do racismo brasileiro se deve às condições históricas, demográficas, culturais, políticas e econômicas de nossa formação. O entendimento de nossas relações raciais acabou gerando duas escolas de pensamento que na sua opinião não podem ser vistas opostas, mas complementares. A primeira geração de pesquisadores, dos 30 aos anos 60, buscou enfatizar as maravilhas da miscigenação e subestimou as desigualdades raciais e o racismo. A segunda geração que se inicia nos anos 50 enfocou o problema do racismo e da desigualdade racial e ignorou o papel da miscigenação. A primeira geração era otimista, e formada principalmente por norte americanos, embora incluísse sociólogos brasileiros como Gilberto Freyre, e examinou as regiões norte e nordeste; já a segunda geração era formada exclusivamente por brasileiros, que pouco conhecia sobre os Estados Unidos e pesquisou basicamente as regiões Sul e Sudeste. (Apud , Aguiar, idem- grifos nossos) Segundo Telles (2003, p.303), Além das especificidades regionais a diferença de conclusões entre as duas gerações de pesquisadores talvez se deva à ênfase que cada escola deu ora às relações horizontais ora às verticais. Para Telles, as relações horizontais são caracterizadas por uma sociabilidade inter-racial especialmente entre pessoas da mesma classe social, enquanto as relações verticais são aquelas entre diferentes classes sociais e que implicam relações de poder 73 socioeconômico. Quando a primeira geração limitou suas análises à dimensão horizontal da sociabilidade, acabou concluindo que as relações raciais no Brasil eram bem melhores do que nos Estados Unidos. Os grandes índices de uniões inter-racial e baixos de segregação residencial levaram à conclusão de que os negros eram aceitos e assimilados pelos brancos. A segunda, ao enfatizar a dimensão vertical da desigualdade e estudando a região mais desenvolvida do país, constatou a pouca mobilidade entre negros e pardos em detrimento dos imigrantes europeus. Portanto, a especificidade de nossas relações raciais deve-se a convivência de uma integração ou assimilação horizontal com um alto nível de racismo e desigualdade racial vertical. (Apud , Aguiar, idem) Segundo Aguiar, os estudos de Telles (2003, p.312) revelam que a alta incidência de miscigenação indica a existência de fronteiras relativamente fracas entre pessoas de cores diferentes. Tal fenômeno, segundo a autora, é extremamente verdadeiro principalmente entre os pobres e entre pessoas de cores semelhantes no Brasil. Portanto, a miscigenação não pode ser vista apenas como uma ideologia, mas uma variável importante no entendimento de nossas relações raciais. No plano horizontal, as fronteiras raciais no Brasil são muito mais permeáveis, enquanto na dimensão vertical as barreiras raciais são impostas fortemente. Talvez, na sua visão, até de forma mais forte que nos Estados Unidos. (AGUIAR, 2008,p.122) Em estudo publicado no ano de 2003, Sansone ressaltou uma visão diferenciada sobre o chamado mito da democracia racial. Para o autor, o mesmo não pode ser tratado apenas sob aspecto negativo ou falseador da realidade, pois em certos segmentos sociais, principalmente nas classes sociais mais baixas, ele tem um alto significado, assim sendo a democracia racial: “não pode ser tratada como se fosse uma farsa imposta de cima para baixo a fim de ocultar o racismo, ou uma espécie de falsa consciência (étnica) – tal como tem sido abordado com enorme freqüência pelos cientistas sociais [...] . (SANSONE, 2003, p.11) Segundo Aguiar (2008, p.123) Souza (1996, p.31) também ressalta que as soluções para a problemática da discriminação e do racismo no Brasil deveriam levar em consideração a questão do mito da democracia racial: Todas as noções que os brasileiros associam positivamente a si próprios são representadas nesse mito: sensualidade, afetividade, tolerância, cordialidade etc. Souza (1996) comenta que, em uma de suas pesquisas realizadas no Distrito Federal, constatou-se que em todos os preconceitos (contra mulher, homossexual, o pobre ou o nordestino), existe uma linha demarcatória entre as camadas populares e classe média: as médias possuem um alto preconceito se comparadas às primeiras. Apenas o racismo foi um preconceito rejeitado por todas as classes sem distinção. (2008, p.123) Ainda dentro deste complexo debate Costa (2002, p.40) adverte que a 74 centralidade da categoria raça nos estudos sobre desigualdades pode ofuscar outras dimensões de um fenômeno que é multifacetado. Segundo esta autora a categoria “raça” poderia levar à relação de subordinação da cultura à política. Outras clivagens, como o gênero, a classe e a de origem precisam ser adequadamente estudadas, na reprodução estrutural das desigualdades. Todas as polêmicas que cercam esse debate nos obrigam reconhecer que não podemos perder de vista que raça é uma construção histórica-social como observa Lilian Moritz Schwarcz (2001), Raça é, assim uma construção histórica e social, matéria-prima para o discurso das nacionalidades; ou então, antes de um conceito biológico é uma realidade social, uma das formas de identificar pessoas em nossas próprias cabeças, dessa forma, não existe bons nem maus racismos, é preciso pensar nas especificidades dessa história brasileira, que fez da desigualdade uma etiqueta e da discriminação um espaço não-formalizado. Os destinos dos países fazem parte de uma orquestração global, mas suas características mais particulares são cunhadas e esculpidas pela história, que, no limite, é mesmo de cada um. (SCHWARCZ, 2001. p. 35-36) O debate sobre as desigualdades sociais e políticas, tem sido tradicionalmente realizado sob uma perspectiva que desconsidera as assimetrias raciais contidas no interior de nossa sociedade. Esta prática tem por objetivo contribuir para perpetuação do quadro de extremas injustiças sociais, étnicas e raciais, para diminuir a eficácia das políticas públicas na área social. Os indicadores demográficos apontam para existência de abismos sociais que separam grupos raciais e étnicos no país. Assuntos que envolvem a população negra e demais grupos étnicos são tratados de forma subordinada, mediante uma política social mais ampla. Desta forma, reconhece-se que o sucesso de políticas distributivas, de caráter social e racial, depende de um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico, acarretando que a democratização social ocorra no interior do crescimento da renda nacional. Ciente da complexidade da questão, Marcelo Paixão (2005) buscou ampliar o debate sobre raça analisando as relações raciais no Brasil da seguinte forma: As relações raciais no Brasil não devem ser entendidas como tema de interesse exclusivo de parcelas restritas da população. Na verdade esse assunto não pode ser considerado nem um problema negro e nem como um exclusivo problema do negro. O mesmo entendimento aplica-se quando pensamos nas demandas sociais dos indígenas. O tema das relações raciais e, mais especificamente, da promoção da igualdade racial deve ser 75 compreendido no interior de um marco holístico em que todos os contingentes da população estão convocados a dar seu testemunho. Os problemas que afetam negros e negras são produzidos por meio da ação daqueles que são, ou julgam que são, brancos e que adotam práticas discriminatórias. Mesmo as práticas de discriminação de afro-descendentes contra pessoas de seu mesmo grupo devem ser pensadas como produto de uma sociedade pautada pelos valores culturais, morais e estéticos portados por pessoas de pele clara e de ascendência européia. As pronunciadas desigualdades raciais existentes no Brasil não formam um problema único dos grupos desfavorecidos, pois essas disparidades representam uma perda para toda a nação, mesmo para os integrantes do grupo discriminador, que se tornam limitados do ponto de vista humanístico, moral, cultural e sob certa perspectiva, até mesmo econômico. (PAIXÃO, 2006. p. 15) Para Paixão (2007, p. 19) “o fato de, no Brasil, abrigarem-se formas de relacionamento racial distintas das verificadas em outros países nem implica que estas sejam melhores ou mais harmônicas — o mito da democracia racial parte da formulação, apriorística, da coexistência pacífica de distintos grupos raciais no Brasil”. As questões que derivam das relações étnicas e raciais estão entre os maiores desafios da humanidade no século XXI.44 Segundo Paixão (2007), não podemos esquecer jamais que a instituição da abolição não veio acompanhada de mudanças no poder político e econômico que continuava nas mãos da velha elite senhorial, como mostra na citação abaixo O fim do sistema escravista no Brasil impôs a alteração do regime jurídico dos antigos escravizados, abrindo caminho para construção do reconhecimento da sua igualdade formal diante dos demais cidadãos. Entretanto, a abolição da escravatura no Brasil foi um verdadeiro golpe às aspirações da população afrodescendente. Foi instituída mediante um medida, cujo conteúdo, resumido a dois parágrafos simplesmente decretava extinta a escravidão, revogando as disposições em contrário. A instituição da abolição não foi acompanhada de uma profunda no poder político e econômico totalmente hegemonizado pelos interesses da velha elite senhorial. Do mesmo modo a abolição não trouxe consigo a perspectiva da plena incorporação dos descendentes de escravos ao mercado de trabalho, ao sistema educacional, ào acesso a moradia digna e à posse da terra. Essa medida acabou sendo um inverso de uma revolução democrática. Nesse 44 É importante caracterizar a diferença das terminologias “raça” e “etnia”. PAIXÃO (2007) descreve tal dificuldade como sendo uma questão que merece uma reflexão detida por todos aqueles que as empregam. O debate em torno da superação das desigualdades raciais devem envolver tanto o Estado quanto a sociedade brasileira. Essa temática obriga-nos a esclarecer o que queremos expressar com os termos “etnia” e “raça”. Este foi criado pela elite européia no período das grandes navegações e seu uso intensificou com o processo da expansão imperialista ao longo do século XIX, possuindo desde sua origem um caráter francamente retrógrado. Assim, a palavra “raça” aponta para a antiga questão da natureza das distinções físicas e culturais encontradas entre os seres humanos e os vetores explicativos mobilizados para explicá-las. Nas lutas pelos direitos civis e pela libertação nacional esse termo voltaria a ser empregado, com outro sentido, pelos setores sociais progressistas, visando a reforçar as identidades daquelas pessoas encajadas nesse movimentos. Por isso, o uso das terminilogias “raça” e “etnia” não é uma questão simples e merece melhor reflexão por todos aqueles que às empregam. (idem, p. 18-19). O conceito de raça não existe entre os seres humanos como a realidade biológica não significa que esse termo não esteja presente no plano social. Neste sentido é comum, no Brasil, “que a origem de um indivíduo, sua aparência física, sua cultura e demais traços identificadores, sejam utilizados como um modo de estabelecimento de relações de hierarquia entre as distintas pessoas e coletividade”. (PAIXÃO, idem, p. 24) 76 sentido, o movimento negro está laureado de razão quando qualifica a Lei Áurea tal qual assinada pela Princesa Isabel, como uma farsa. (idem, p. 37) Isto posto, podemos perceber a necessidade de aprofundarmos um tema fundamental para a efetivação das políticas de cotas raciais no Brasil. Somente uma análise dos dilemas, dificuldades e possibilidades deste debate pode nos fornecer elementos para enfrentar os “fantasmas” que a questão racial desperta nos brasileiros. “Fantasmas” esses, que segundo Aguiar (2008) ainda justificam a indiferença e/ou falta de apoio a políticas públicas específicas. 1.3 A Questão da Pobreza no Brasil Contemporâneo: Expressão das Graves Desigualdades Nacionais Conforme observou Freire (2007) os rumos atuais das políticas sociais no Brasil tem atribuído especial ênfase à gestão da pobreza, tal aspecto nos obriga a lembrar que a modernidade construiu uma profunda articulação entre cidadania e democracia e que a situação de pobreza é a negação da cidadania. Democracia é sinônimo de soberania popular. Por isso, como menciona Coutinho (1997, p.145), “podemos defini-la como a presença efetiva das condições sociais e institucionais que possibilitam ao conjunto dos cidadãos a participação ativa na formação do governo e, em conseqüência, no controle da vida social”. Freire (idem) acha importante destacar o que adverte Coutinho, pois é fundamental destacar que a cidadania é fruto da capacidade conquistada por alguns indivíduos, em caso de uma verdadeira efetivação da mesma por todos os indivíduos, “de apropriarem-se dos bens socialmente criados, de atualizarem em cada contexto histórico as mais amplas potencialidades de realizações humanas abertas pela vida social” (1997, p.145grifos nossos). Por isso, como adverte Coutinho (apud FREIRE, idem) ao falarmos de cidadania não podemos ignorar a necessidade de sublinharmos a expressão historicamente para destacar o fato de que soberania popular, democracia e cidadania (expressões que, em última instância, designam a mesma coisa) devem sempre ser pensadas como processos históricos aos quais são atribuídos permanentemente novas e mais complexas 77 determinações.45 Como mencionou Maria Lúcia Werneck Vianna (2007), a política social em voga no Brasil reduziu-se à administração da pobreza, ao assistencialismo, à filantropia, esvaziando a atividade pública de sua rica significação original. A glorificação das recomendações dos organismos internacionais naturalizam e banalizam aspectos fundamentais da garantia dos direitos. Nesse cenário, as políticas sociais são apresentadas como algo caro, que desperdiça recurso, penaliza investimentos e não alcançam os pobres. Assim, como menciona Werneck Vianna, inovadoras são “as ações que se dirigem a indivíduos, a grupos específicos, a segmentos da população pobre que devem ser tratados de modo diverso em respeito às diferenças que guardam entre si” (idem). A premissa dessas políticas define, de modo reducionista, a questão social como pobreza, que é entendida como ausência de dotes (escolaridade, cuidados com a própria saúde e capacidade para administrar renda) que uma vez adquiridos permitem superá-la. (FREIRE 2007, p. 146-grifos nossos) Nos últimos anos, a implementação das agendas neoliberais fez com que o Estado brasileiro se ocupasse, sobretudo com a assistencialização da pobreza, já que gerenciar a pobreza no atual contexto tornou-se uma forma de negar a necessidade de superação da mesma. Assim sendo, como lembra Freire (2007) não é coincidência que as organizações estimuladas pelas agências multilaterais estejam voltadas para a ação social, mas que efetivamente não possuam capacidade de promover elementos que alterem as regras do jogo; ou seja, não são capazes de acirrar o debate, de trazer novos elementos para reflexão, de mostrar a desigualdade como um ponto fundamental na disputa política e, por conseguinte, garantir e universalizar a cidadania. Essas organizações, em sua grande maioria nãogovernamentais (ONGs), parecem atuar apenas como uma espécie de mediação que remedia situações limite da pobreza. Com a oficialização desse debate na contemporaneidade, o que temos assistido no Brasil são “políticas pobres para pobres”. Desse modo: O Estado não funciona como regulador, o mercado funciona segundo sua própria lógica e o espaço dos direitos acaba erodindo, porque é justamente a regulação entre a ação de mercado e as necessidades de cidadania, sendo essa regulação provida pelo Estado, que define qual é a arena da política de 45 Como lembrou FREIRE (2007) ao resgatar as palavras de Coutinho: “Cidadania não é dádiva, tampouco é algo definitivo, ela não vem de cima para baixo, mas é fruto de batalhas permanentes, travadas quase sempre a partir de baixo, das classes subalternas. Por isso, sua conquista e ampliação implicam processos históricos de longa duração. Assim, não é casual que a ideologia hoje assumida pela burguesia propugne tão enfaticamente o fim dos direitos sociais, o desmonte do Welfare State” (COUTINHO, 1997). 78 disputa de recursos. (FREIRE 2007, p. 147) A população pobre no Brasil é, em sua maioria, constituída de mulheres e homens negros46, mesmo assim a pobreza é enfrentada, em consonância com os princípios antes mencionados, sem relacionar a sua expressão com as desigualdades persistentes em nosso país, gerando uma perda da totalidade da questão social, que, aliás, é vista de forma isolada do próprio capital que a engendrou. Luis Estenssoro (2003) em sua tese de doutorado em sociologia pela USP denominada “Capitalismo, Desigualdade e Pobreza na América Latina” afirmou: a pobreza e a desigualdade não são exclusivas do capitalismo, mas persistem e crescem no modo de produção hegemônico devido a dois processos: o crescimento econômico capitalista e a superexploração do trabalhadores por meio da extração crescente de mais valia, bem como a inclusão marginal dos pobres que trabalham. (Idem, p. 9) Não temos como deixar de compartilhar desse pensamento uma vez que o sistema capitalista além de reproduzir a miséria já existente acaba por criar mais precariedade nos empregos e mais desemprego entre os trabalhadores. Estenssoro (loc.cit, p.10) deixa claro que “uma transformação na condição dessa pobreza estrutural implica numa mudança estrutural do capitalismo”. Enfatiza ainda que o modelo da coalização neoliberal que acabou por impor o ajuste estrutural, também se encontra em crise. O autor Acredita que exista a possibilidade da erradicação da pobreza com uma mudança estrutural capaz de dar um mínimo de cidadania a população, além de criar condições para futuras transformações. Entretanto o seu gerenciamento atual não coloca a idéia de superação, como mencionamos anteriormente. As hipóteses concebidas por Estenssoro (loc.cit, p.11) são de que a desigualdade existente verificada e comprovada entre as classes sociais e os países, só tende a aumentar devido à própria dinâmica sócio-econômica do sistema capitalista monopolista globalizado. Além disso, acredita que a gestão neoliberal da globalização tende a agravar a situação, promovendo a ampliação da chamada exclusão social e por último, sentencia a possível inviabilidade da erradicação da pobreza no atual contexto, tornando evidente a falência da gestão neoliberal da globalização. Vale ressaltar que os dados numéricos que serão apresentados neste 46 Enquanto a população branca representa 35.95%, a negra representa 63,63%. De acordo com a mesma fonte o IBGE/PNAD de 2006, os cidadãos negros, pardos, amarelos e indígenas representam 50,3% da população em 2006 e a parcela que mais cresceu foi a de negros em 1,345 milhão de pessoas. 79 estudo foram retirados das pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), em diferentes anos com destaque no início do século XXI, disponíveis nos respectivos sites e publicações em diversos jornais do Rio de Janeiro mencionados nas referências deste estudo. Não podemos deixar de mencionar que a estrutura econômica é uma realidade unitária, que se caracteriza por estar integrada por diversos elementos e propriedades dependentes entre si, sem deixar de ser constitutiva da realidade que formam. Cabe aqui um questionamento: qual é o tamanho real da pobreza no Brasil contemporâneo? A evolução, ao longo das duas últimas décadas, da pobreza e da indigência no Brasil pode ser reconstruída a partir da análise das Pesquisas PNADs do IBGE. É com base nestes dados de desigualdade e na sua análise que vamos concluir que a questão de maior expressão da desigualdade é a pobreza. Não por acaso os dados evidenciam, como demonstrado em nota anterior, que os negros são ao mesmo tempo discriminados e formam o maior contingente da base da pirâmide da desigualdade social. De acordo com Ricardo Paes de Barros (2006, p.53), essas pesquisas permitem construir uma diversidade de indicadores sociais que retratam, entre outros, a evolução da estrutura da distribuição dos padrões de vida e da apropriação de renda dos indivíduos e das famílias brasileiras. A pobreza, evidentemente, não pode ser definida de forma única e universal, contudo, podemos afirmar que a pobreza refere-se a situações de carência em que os indivíduos não conseguem manter um padrão mínimo de vida condizente com as referências socialmente estabelecidas em cada contexto histórico. Desse modo, a abordagem conceitual da pobreza requer que possamos, inicialmente, construir uma medida invariante no tempo das condições de vida dos indivíduos em uma sociedade e articular esse debate as diferentes expressões históricas da luta de classes em cada país. A magnitude da pobreza apresentada nos discursos oficiais está diretamente relacionada ao número de pessoas vivendo em famílias com renda per capita abaixo da linha de pobreza e à distância da renda per capita de cada família pobre em relação à essa linha de pobreza. Vale ressaltar as diversas 80 críticas de autores sobre o conceito de linha de pobreza, dentre eles Laura Tavares Soares nos estudos construídos em 1998, 2000, e 2003 que fazem parte de nossas referências nesta tese. A PNAD47 (2006) revela que temos desigualdades entre regiões, entre as áreas urbanas e rurais, entre brancos e negros, entre moradores de centro e de periferias o que contribui para que se reproduzam às disparidades e as grandes iniqüidades presentes na distribuição pessoal de renda no Brasil. Ao compararmos com anos anteriores veremos que os resultados da PNAD de 2004 já tinham revelado aspectos bem positivos, na medida em que indicaram duas tendências importantes que alteram a natureza da evolução verificada nos últimos anos: a) tendência do crescimento do emprego, principalmente do emprego formal, o que rompe com a peculiaridade do crescimento da economia sem geração de emprego, como se observou durante a década passada; e b) tendência a uma redução sustentada da desigualdade de renda no Brasil, o que interrompe a impressionante estabilidade dos índices de desigualdade observados desde, pelo menos, os anos 1970. Adicionalmente, a PNAD apresenta a consolidação da tendência já observada de queda da fecundidade, agora a níveis abaixo do nível de reposição, o que mostra que a população brasileira deverá diminuir em algum momento no futuro — e, em termos de mercado de trabalho, que a pressão da oferta sobre a necessidade de geração de empregos deverá diminuir progressiva e expressivamente já nos próximos anos. Há duas décadas o comportamento do emprego, especialmente o formal, em relação ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), é decepcionante. A partir da abertura comercial do início dos anos 1990, o cenário piorou e o emprego formal esteve essencialmente estagnado, enquanto que tanto o PIB como a PEA cresciam, indicando um comportamento excludente do mercado de trabalho, com reflexos negativos sobre a taxa de desemprego, que aumentou sobremaneira. Os dados dos últimos anos, 47 A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) é a mais importante fonte anual de informações sobre a realidade social brasileira. Trata-se da única pesquisa com abrangência nacional e periodicidade anual contendo informações sobre o bem-estar da população brasileira. A pesquisa coleta informações de cerca de 400 mil indivíduos em 100 mil domicílios sobre as áreas de população, fecundidade, migração, educação, trabalho e rendimento. Dado o porte da pesquisa e o esmero do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em fornecer dados acurados, estes tornam-se disponíveis apenas um ano após sua coleta. 81 principalmente o ano de 2004, parecem indicar uma mudança nessa tendência. De 199248 a 2004 houve um crescimento de 2,2% tanto da População em Idade Ativa (PIA) como da PEA. No período, o crescimento de todas as categorias de ocupação, salvo a de trabalhador doméstico, tem sido decepcionante e o mercado de trabalho chegou a 2003 com taxas de desemprego e informalidade acima das de 1992. A PNAD (2004) constatou que os dados da ocupação de emprego por grau de escolaridade indicam um maior grau de exigência e seletividade no mercado de trabalho. A parcela da população ocupada com pelo menos 11 anos completos de estudo foi a que mais cresceu de 1992 a 2004 (137,3%), atingindo o nível de 28,2 milhões de pessoas. Em especial, o ano de 2004 foi o de maior crescimento absoluto desse contingente, na comparação com anos anteriores, com a criação de 2,3 milhões de ocupações. Em contrapartida, os menos escolarizados vêm perdendo espaço na ocupação ano após ano: em 1992 a participação desse grupo de pessoas era de 35,6%, reduzindo-se para 19,9% em 2004. Apenas no ano de 2004, esse grupo perdeu 399 mil vagas de trabalho, tendo sido o único a experimentar uma redução em termos absolutos. Em relação à evolução da ocupação por grupos de idade, a pesquisa mostra que as faixas mais novas confirmaram a tendência de perda de participação no total. O IBGE ao fazer um comparativo levando em consideração os dados do PNAD de 1996 a 2006, verificou que o valor médio do rendimento familiar per capita, segundo os dados da PNAD 2006, ficou em torno de R$ 596,00. Em metade das famílias, porém, o rendimento ficou abaixo de R$ 350,00 (IBGE, 2007). 48 A PNAD de 1992 foi a primeira a ir a campo depois das profundas alterações metodológicas introduzidas na pesquisa, que dificultam, e em alguns casos até invalidam, as comparações com a versão anterior. 82 Gráfico 1 – Rendimento médio mensal familiar per capita, em salários mínimos, dos 40% mais pobres e dos 10% mais ricos – Brasil – 1996/200649 Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1996/2006 No caso do rendimento das famílias situadas nos quatro primeiros décimos da distribuição de renda (as 40% mais pobres), o valor médio era R$ 147,00, ou pouco menos de ½ salário mínimo daquele ano. No último décimo, o rendimento alcançou quase R$ 2.678,00, ou seja, 18 vezes mais. Considerando o conjunto de cerca de 565 mil famílias correspondente ao 1% mais rico, o rendimento médio era de R$ 7.688,00 per capita. Tais resultados evidenciam o alto nível de desigualdade de renda no País. A FGV (2007) realizou um estudo50 e verificou que houve uma maior redução da pobreza no Governo Lula se comparada ao governo de Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o estudo da FGV (2007) o crescimento generalizado de renda em todos os estratos da população foi superior à redução da desigualdade no ano passado, ou seja, os ganhos de renda não foram significativos nos estratos mais pobres. Esses dados nos remetem ao fato de que a experiência histórica atual evidencia de modo cruel como o capitalismo se revitaliza com a manutenção da desigualdade social, que traz como conseqüência a pobreza relativa e/ou absoluta51, não tendo a intenção de erradicá-la. Assim, mesmo que por interesses políticos e/ou econômicos se propague à intenção de erradicar a 49 Valores inflacionados pelo INPC de setembro de 2006 Este estudo foi realizado com base na PNAD/2006 51 A questão da pobreza sempre esteve presente nas obras de Marx desde os Manuscritos até O Capital. É óbvio que a pobreza analisada por Marx na época do capitalismo concorrencial não é a mesma pobreza que vivenciamos na contemporaneidade, que vem carregada de novas dimensões, afloradas com o processo de reestruturação produtiva gerido no âmbito da hegemonia do capital financeiro (FREIRE, 2006). 50 83 pobreza, essa jamais será extinta na sociedade capitalista, até porque esta questão não está na agenda do capital. O tema da repartição de renda, para o economista Márcio Pochmann (2007), desde a década de 1960, tem fundamental importância. Segundo ele, Naquela época, quando predominava o regime militar, a divulgação de dados referentes ao perfil distributivo era acompanhada de intensos estudos debatendo a gravidade da distribuição pessoal da renda do país. Atualmente, a questão distributiva não perdeu importância nas discussões, especialmente em relação à condição da desigualdade. Apesar disso, o tema encontra-se cada vez mais focado na avaliação das políticas governamentais, especialmente nos programas de transferência de renda à população extremamente pobre. Não que isso não seja importante, mas se corre o risco de ficar prisioneiro da aparência, mais do que a essência dos determinantes distributivos, toda vez que não se contempla o tema do modelo econômico em curso. Está clara a reversão mais recente da tendência de aumento da desigualdade no interior do rendimento do trabalho, a partir da queda no índice de Gini. No ano de 2006, por exemplo, esse indicador da desigualdade na distribuição pessoal da renda foi ainda significativamente alto (0,54), porém 8,5% inferior ao constatado em 1980 (0,59). Uma das principais razões disso encontra-se diretamente relacionada ao que vem ocorrendo nos estratos superior e inferior da distribuição na renda do trabalho no Brasil. (POCHMANN, 2007,p.46) Ainda segundo Pochmann (idem), podemos observar que a participação do decil de maior rendimento (acima de 1,6 mil reais mensais) perde posição relativa durante os últimos quinze anos. Pochmann, acha importante registrar que no ano de 2006, os 10% de maior remuneração absorveram 44,9% do total da renda do trabalho, enquanto em 1990 capturavam 48,1%. Com a queda de 6,6% acumulada nestes quinze anos (redução de 0,4%, em média ao ano), o Brasil tenderia a levar mais de seis décadas para alcançar o estágio atualmente verificado nas economias avançadas (POCHMANN,idem- grifos nossos) Os estudos que se dedicam à análise da pobreza partem do princípio que o Brasil, no século XXI, não é um país pobre, mas um país extremamente injusto e desigual, com muitos pobres. A desigualdade encontra-se na origem da pobreza e combatê-la torna-se um imperativo. Imperativo de um projeto de sociedade que deve enfrentar o desafio de combinar democracia com justiça social. Desafio clássico da era moderna, mas que toma contornos de urgência no Brasil contemporâneo. Como podemos observar, a pobreza - diferente daquela manifestada como carência de bens materiais nas sociedades pré-capitalistas, no sistema capitalista, se tornou manifestação do processo de exploração desse tipo de 84 sociedade, porém apresentando formas diferenciadas em cada fase do capital52. As desigualdades também são verificadas no que tange ao acesso a educação53, visto que se trata de um componente básico na determinação de várias características socioeconômicas da população. Os atributos educacionais dos indivíduos definem, em grande medida, suas oportunidades de emprego e de renda, e afetam decisivamente suas condições de bem estar e sua inserção econômica, social e política. Não existe sociedade democrática sem que haja redução da chamada exclusão e com grandes disparidades educacionais, assim como não existe sociedade desigual em que elas não estejam fortemente presentes. Assim, pelo seu papel estratégico como determinante da distribuição de outras variáveis, o sistema educacional pode, em qualquer sociedade, se constituir em um poderoso agente de inclusão e de promoção de alguns tipos igualdade, como pode, ao contrário, atuar no sentido de gerar, de manter, ou de ampliar as desigualdades. A percepção da pobreza como componente estrutural do sistema capitalista, deixa claro que se deve conceber a mesma não como um elemento individual, separado da história e da coletividade, mas sim como um elemento comunitário, de enorme projeção social. No mesmo sentido, faz-se mister reconhecer que a pobreza é parte integrante do aparato capitalista e que para entendermos a realidade dela, devemos estudá-la dentro do sistema em que aparece construída, ou seja, o capitalista, no caso em foco, no contexto neoliberal. Em realidade a história do capital é a história da consolidação e ampliação da desigualdade. Tais constatações nos obrigam reconhecer que apesar do Brasil do século XXI sentir os efeitos oriundos do crescimento de um país adulto, ainda existem problemas de um país jovem, isto é, abertura de escolas, criação de mais empregos, construção de mais casas para a população em constante 52 SALAMA, Pierre ; DESTREMAU, Blandine (1999 p.51) enfatizam que a pobreza pode ser encarada como absoluta e relativa. Para ele, a pobreza absoluta é aquela com a qual qualquer indivíduo viveria, se não possuísse renda suficiente para se reproduzir. Já a pobreza relativa situa o indivíduo na sociedade, ou seja, são aqueles pobres cujo nível de renda fosse aquém da metade do rendimento mediano. 53 Assunto a ser mais bem embasado nos itens posteriores do cap. II dessa tese. 85 crescimento. A demanda mais visível é a da educação, pois, até recentemente, ainda se insistia na prioridade em abrir cada vez mais escolas em detrimento de políticas educacionais efetivas que mantivessem motivados professores e alunos. Não adianta abertura de muitas escolas se a qualidade do ensino é precária, pois os baixos salários pagos aos professores combinados com uma metodologia arcaica, não tornam a mesma atrativa. Os adolescentes na maior faixa etária dada as condições de vida acabam indo em busca de trabalho ao invés de concluírem os seus estudos. Nesta direção também é importante ressaltar que muitas destas transformações, ainda ignoradas pelas políticas de educação, vieram acompanhadas com a mudança na vida familiar. Atualmente já encontramos vários domicílios brasileiros chefiados por mulheres. De acordo com pesquisa do Pnad-1992, 22% dos domicílios brasileiros eram chefiados por mulheres, atualmente este índice é bem maior. Tal fenômeno revela uma das características da pobreza atual, qual seja, a feminização da pobreza, nos moldes destacados por Laura Tavares Soares (2003, p.73). Cabe mencionar que durante os últimos anos esse fenômeno vem sendo constatado amplamente no Brasil, o que não é algo específico de nosso país. Segundo a IV Conferência Mundial sobre a Mulher realizada em Beijing 1995, na China, mais de um bilhão de pessoas em todo mundo, em sua maioria mulheres, viviam em condições inaceitáveis de pobreza. Segundo Soares, Durante o último decênio, o número de mulheres em condições de pobreza aumentou de forma desproporcional ao número de homens, particularmente nos países em desenvolvimento. A chamada feminização da pobreza começou também recentemente a ser um problema sério nos países com economias em transição. Além de fatores de caráter econômico, a rigidez das funções que a sociedade designa ás mulheres e seu limitado acesso ao poder, á educação, à capacitação e aos recursos produtivos, bem como novos fatores que ocasionam insegurança apara as famílias, também contribuem para essa feminização. (SOARES, 2003,p.73). A classe dominante no Brasil jamais teve a preocupação de eliminar a pobreza como previsto, inclusive, no texto constitucional de 1988. Como já observamos a pobreza é parte integrante do sistema capitalista que necessita de um exército de reserva disponível para impor salários e condições de vida miseráveis e obter lucros cada vez maiores. A administração da pobreza é realizada através de políticas sociais assistencialistas, que não geram emancipação humana, fazendo assim com que os menos favorecidos permaneçam numa condição de inferioridade e dependência em relação aos 86 mais favorecidos. O que se observa no Brasil contemporâneo, como já dissemos é a construção de políticas ‘pobres para pobres’, reproduzindo a lógica do capital e aliviando as tensões sociais existentes. Tais políticas normalmente são precárias e não buscam erradicar a pobreza. Segundo Simon Schwartzman (2004), dos fatores que mais afetam a renda a educação é sem sombra de dúvida a mais importante, como citado abaixo Apesar da pequena melhoria, o avanço foi claramente insatisfatório, em especial para a população de menor renda. A desigualdade de renda no Brasil é considerada uma das mais alta do mundo, evocando a imagem de um país dividido entre uma pequena elite, de altos rendimentos, e uma grande população vivendo miseravelmente. Esta interpretação não é correta, porque os dados se referem a diferenças de rendimentos monetários, e não riqueza enquanto tal. Eles excluem, assim, tanto as transferências e os rendimentos não-monetários, que podem ser significativos para as famílias mais pobres, sobretudo na área rural, quanto os recursos provenientes da riqueza acumulada, que podem ser importantes para os mais ricos. Estudos econométricos mostram que, dos diversos fatores que afetam a renda — região, idade, sexo, raça, tipo de ocupação, educação etc. —, o mais importante de longe é a educação. (SCHWARTZMAN, 2004. p. 78-grifos nossos) O Brasil está longe de uma situação de indigência e miserabilidade generalizada. O país não tem problemas de falta de produção de alimentos, o que falta, é simplesmente, dinheiro, o que justifica a importância de renda mínima que tem sido formulada. A primeira geração de políticas sociais no Brasil foi iniciada em 1930 com a criação das primeiras leis de proteção ao trabalhador e as primeiras instituições de previdência social, e culmina com a Constituição Cidadã de 1988, que consagra os direitos sociais na área da educação, saúde, proteção ao trabalhador, entre outras. Em seguida surgiram as reformas de segunda geração, nos governos FHC e Lula. Tais reformas procuraram racionalizar e redistribuir os recursos gastos na área social, não sendo consenso entre os vários estudiosos de política social. Este procedimento beneficiou ainda mais as classes médias e altas, em detrimento dos mais pobres. Posteriormente vieram as reformas denominadas de “terceira geração”, buscando alterar tanto as distribuições dos gastos sociais quanto a qualidade dos serviços prestados. Várias propostas desse tipo foram reunidas no documento sobre a “agenda perdida” brasileira, subscritas por um conjunto de economistas, através de 87 documento publicado pelo Ministério da Fazenda.54 No início de 2003 surgiu na imprensa brasileira um debate que coloca uma alternativa entre políticas universais e políticas de focalização, como se ambas fossem excludentes. Entretanto se o debate foi extremamente frágil , o mesmo revelou que existem grandes diferenças entre os que propõem políticas de mobilização social e os que dão prioridade a políticas de metas sociais. As primeiras são aquelas que partem do princípio de que só através da participação e do envolvimento das comunidades afetadas é que políticas sociais podem ser efetivamente implementadas. Essas políticas podem ser observadas em documentos e pela ação de pessoas envolvidas com a área de saúde, educação, segurança, ação afirmativa e outras. Já as políticas de metas são aquelas definidas através de diagnósticos globais implementadas pela ação e iniciativa dos governos. Na verdade, são políticas de cima para baixo, em contraste com as de mobilização, que pretendem ser de baixo para cima. Vale ressaltar que a política de metas e de mobilização não são excludentes, um exemplo claro são as políticas de cotas raciais implementadas a partir de demandas de movimentos organizados ou não da sociedade. Esse aspecto foi totalmente ignorado, sobretudo pelos governos. Para que a pobreza seja vencida, é necessário que se acabe com as desigualdades sociais — frutos/produtos dessa relação contraditória — que se manifesta na forma de apropriação e dominação, ou, em outras palavras, num sistema de organização social no qual uma classe produz e outra se apropria do produto desse trabalho. Tal situação torna evidente a contradição entre as duas classes fundamentais do modo de produção capitalista e garante a dominação política por parte da classe burguesa. A vida social produz e reproduz a todo instante e em todos os níveis, não apenas econômicos mais também políticos e culturais, uma multiplicidade de relações contraditórias que, por sua vez, são responsáveis pela manutenção das desigualdades sociais. Assim, Marx vai interrogar, questionar e refletir para apanhar os nexos internos que compõem a sociedade burguesa. Dessa maneira, sua reflexão sobre a desigualdade social não se restringe aos aspectos jurídicos. Ele a considera 54 A respeito consultar: LISBOA, Marcos B. (Org) A agenda perdida: diagnósticos e propostas para retomada do crescimento com maior justiça social. 2002. disponível em <www.iets.inf.br/>, acesso em 9/01/2003. 88 como produto de um conjunto de relações pautado na propriedade como um fato jurídico, mas também como político. Em suma a questão da dominação, que garante a manutenção e a reprodução dessas condições desiguais, embasa suas reflexões. O entendimento da pobreza no Brasil está ligado diretamente a compreensão do capitalismo, da dinâmica de classes e dos interesses que conduzem a ação do Estado nesta latitude. A questão difícil é como interferir no presente sem reconhecer as resistências sociais ao alargamento da desigualdade. Para a maioria dos autores é impossível. Um projeto que envolva um correto tratamento histórico e analítico de fenômenos relevantes, dirigidos aos sujeitos da prática transformadora e os comprometidos com a implementação de políticas sociais redistributivas e solidárias é a única forma de explicar fenômenos complexos como a pobreza.55 Sem dúvida, muitos instrumentos didáticos omitem a complexidade ou reduzem o intuito de formação como indica as notas críticas de Gramsci à tentativa de superar o senso comum sem que existam as condições para que ocorra essa superação. Gramsci indaga: por que se contentar com um livro em que a série de problemas essenciais da doutrina seja exposta monograficamente e não buscar a raiz da questão ? (GRAMSCI, 1974, p. 189). Ribeiro (2005) destaca ser necessário para o entendimento do aumento da pobreza na experiência brasileira que se conheça o capitalismo, a dinâmica de classes e os interesses do Estado.56 55 Um projeto dessa natureza envolve o diagnóstico de tendências conjunturais que impedem o alcance da justiça social e a conquista da cidadania aqui e agora. Entretanto, esse diagnóstico, envolve, também, determinações que ultrapassam a conjuntura. O reconhecimento dessas determinações exige análise histórica do capitalismo. Desta análise depende a compreensão da atual hegemonia conquistada pelo mercado e, ainda, da influência alcançada por discursos que defendem a dinâmica extrovertida da riqueza e a forma concentrada de sua apropriação na sociedade brasileira. Os diálogos com os sujeitos da transformação constituem um objetivo raramente assumido nos estudos da pobreza. Esses estudos se afastam da análise histórica, das relações sociais de produção e, também, da reflexão de contextos sociais onde tornam-se nítidas as singularidades da sociedade brasileira. A inversão dessa tendência exige domínio da análise histórica e um enfretamento de abordagens que, ao homogeneizarem a pobreza, não correspondem ao conhecimento necessário aos sujeitos das lutas sociais do presente. (RIBEIRO, Ana Clara Torres. A resistência do compromisso. In. VALLA, Victor Vincent; STOTZ, Eduardo Navarro; ALGEBAILE, Eveline Bertino. Para compreender a pobreza no Brasil. Rio de Janeiro. Contraponto: Escola Nacional de Saúde Pública, 2005. p. 15-16). 56 Contra a analise tecnocrática das necessidades sociais, o livro Para compreender a pobreza no Brasil oferece, por meios de sérios estudos monográficos, aporte teóricos indispensáveis à compreensão da pobreza. Como entender o aumento da pobreza na experiência brasileira sem compreender o capitalismo, a dinâmica de classes e os interesses que conduzem ao interesse do Estado? Como interferir no presente sem reconhecer as resistências sociais ao alargamento da desigualdade? A dinâmica do capitalismo periférico emerge em diversos ângulos das condições de vida da classe trabalhadora, submetida a violento aprofundamento das distâncias sociais. Com essa escolha analítica, se apresenta uma leitura 89 A pobreza deve ser reconhecida além de um dado ou fato. Devemos realizar uma análise rigorosa da questão social. Segundo Robert Castel (2006) a pobreza está relacionada a noções de classe social, desigualdade social e de exclusão social. O cerne da questão é o conflito que opõe grupos sociais em luta pela repartição dos benefícios do crescimento. A noção de exclusão social impõe-se mais tardiamente, a partir da crise dessa representação da questão social. Os “excluídos” não constituem, propriamente um grupo homogêneo. São mais precisamente conjunto de indivíduos separados de seus atributos coletivos, entregues a si próprios, e que acumulam a maioria das desvantagens sociais: pobreza, falta de trabalho, sociabilidade restrita, condições precárias de moradias, grandes exposições a todos os riscos da existência, etc. É momento de nos interrogarmos sobre a pertinência num quadro mais amplo da “mundialização” das questões sociais e, mais especificamente, a situação do Brasil. (CASTEL In: BALSA; BONETI; SOULET, 2006, p. 63-64). Para Ribeiro (2005, p. 29) a mediação construída entre o sistema capitalista e a pobreza torna clara a produção histórica da questão social, atualmente em profunda transformação, agora é mais necessário do que nunca realizar uma leitura dessas mediações, que formam a esfera pública, em direção à disputa dos valores que determinaram o presente-futuro. Entendemos que esse é mais um dos aportes que falta ao debate sobre as políticas de cotas em nosso país. historicamente informada das conseqüências sociais dos ajustes, do país, à acumulação realizada na escala mundial, o que permite desvendar a natureza, que é efetivamente política dos conflitos de interesse que define a condução das políticas sociais no Brasil, incluindo seus limites e abordagens técnicas. (RIBEIRO, 2005, p. 17), 90 2 A POLÍTICA DE COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS NO CONTEXTO NEOLIBERAL Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra [...] Esse é tempo de divisas Tempo de gente cortada [...] Carlos Drummond de Andrade Conforme mencionamos no capítulo anterior a questão das desigualdades no Brasil não constitui fenômeno recente, ao contrário, trata-se de um traço persistente da história do país que pode ser percebido em diferentes esferas da sociedade brasileira. Aqui, a preocupação central é analisar como na educação este fenômeno tem se reproduzido historicamente e especificar os limites da Universidade Pública no cenário atual do contexto neoliberal. Consideramos ser esse debate um dos aportes fundamentais para a compreensão da política de cotas. Temos como pressuposto pelos dados pesquisados que a educação constitui um lócus privilegiado da reprodução da desigualdade no nosso país. Não por acaso a busca da universalização do sistema educacional tem sido uma constante nos discursos que versam sobre políticas públicas em diferentes governos, sobretudo após a Constituição Federal de 1988. Embora a Carta Constitucional de 1988 tivesse como princípio fundamental a universalização da cidadania, o que também implica diretamente a ampliação do acesso aos direitos sociais, os limites impostos pelo contexto internacional já anunciavam as dificuldades de sua implementação, que mais tarde iria se confirmar plenamente em nossa sociedade. Não são poucos os estudos que se ocupam em discutir os custos sociais 91 do ajuste neoliberal57, por isso, é desnecessário resgatar todo debate aqui. Em nosso estudo faz-se importante analisar apenas alguns traços dessas reflexões no campo da educação nacional, lembrando que os ajustes neoliberais, conforme demonstrou Laura Tavares Soares (2000, p.3) são incompatíveis com uma política social universal que objetiva a realização de níveis mais ampliados de igualdade social. Em realidade “esse novo modelo de acumulação implica que: os direitos sociais perdem identidade e a concepção de cidadania se restringe; aprofunda-se a separação público-privado e a reprodução é inteiramente devolvida para este último âmbito” (idem, p. 13). Nesse sentido temos que ter clareza que o ajuste neoliberal não é apenas de natureza econômica faz parte de uma redefinição do campo político-institucional e das relações sociais. Assim sendo, concordamos com a tese central dos estudos de Soares “de que as possibilidades de uma mudança no perfil das políticas sociais, no sentido da sua maior universalização e progressividade, são incompatíveis com as atuais políticas de ajuste neoliberal” (SOARES, 2001. p. 13). Tal concordância com essa tese nos obriga a discutir os impactos desses redirecionamentos neoliberais na esfera pública, particularmente na universidade pública como caminho obrigatório para a real compreensão da política social de cotas, tendo em vista que a mesma não é histórica, nem possui autonomia frente ao cenário que se insere, ao contrário faz parte de um contexto extremamente complexo e não suficientemente aclarado. Dentre as ações que precisamos empreender para a defesa da universalização da universidade pública, sem dúvida a maior delas é o conhecimento dos desafios que a mesma se defronta no atual contexto. Faz-se mister registrar para o maior aprofundamento do nosso debate que as reflexões aqui apresentadas têm como eixo fundamental a distinção entre universidade pública e ensino superior, sobretudo, quando reconhecemos a banalização desta distinção que vem sendo promovida pelas visões mercadológicas da educação58. 57 A esse respeito consultar os excelentes estudos de: SOARES, Laura Tavares (2000 e 2001); ANTUNES, Ricardo (2004) ; SADER, Emir; GENTILI, Pablo, (1995) dentre outros. 58 As reformas democráticas defendidas por Boaventura de Sousa Santos, necessárias às Universidades Públicas, devem partir do pressuposto que no século XXI só há universidade quando há formação graduada e pós-graduada, pesquisa e extensão. Sem qualquer destes, há ensino superior, não há universidade. Isto significa que, em muitos países, a esmagadora maioria das universidades privadas e mesmo parte das universidades públicas não são universidades porque lhes falta a pesquisa ou a 92 Não por acaso, Boaventura de Sousa Santos (2005) ao discutir A universidade no século XXI registrou: o grande problema da universidade neste domínio tem sido o fato de passar facilmente por universidade aquilo que não o é. Isto foi possível devido à acumulação indiscriminada de funções atribuídas à universidade ao longo do século XX. Como elas foram adicionadas sem articulação lógica, o mercado do ensino superior pôde auto-designar que o seu produto como universidade sem ter de assumir todas as funções desta, selecionando as que se lhe afiguraram fonte de lucro e concentrando-se nelas (SOUSA SANTOS, loc.cit., p. 64). Deste modo queremos deixar cada vez mais claro que a nossa tese privilegia a questão da universidade pública, não sendo sua preocupação direta discutir o papel do ensino superior não universitário. Concordamos com Sousa Santos que esta distinção é fundamental “para que o ensino superior não universitário não caia na tentação de dedicar energias e tentar passar por aquilo que não é” (loc. cit., p. 65). As afirmações acerca da visibilidade das desigualdades na área educacional são facilmente percebidas através dos dados apresentados pelo IPEA e IBGE sobre a temática nas últimas décadas. Em pleno século XXI parece ainda necessário ressaltar que a educação deve ser entendida como um direito básico do cidadão e não um privilégio de uma parcela elitizada da população. Conforme descrito anteriormente existe hoje em nosso país uma manifesta universalização precária das políticas adotadas pelo Estado desde a educação fundamental até o chamado ensino superior que se prolifera assustadoramente no Brasil. O capítulo em tela objetiva trazer elementos capazes de desvendar essa antiga e ainda pouco conhecida realidade. 2.1 A “Questão Social” Expressa na Educação Brasileira Como abordado anteriormente, o Brasil é o retrato das desigualdades persistentes e como tal, a educação acaba sendo um espaço onde se evidencia a reprodução da mesma. Melhor dizendo, a educação expressa claramente a problemática da questão social59 onde está inserida. pós-graduação. A reforma deve, pois, distinguir, mais claramente do que até aqui, entre universidade e ensino superior. (SOUSA SANTOS, 2001, p. 65) 59 A noção de questão social que embasa o presente trabalho se encontra na introdução deste estudo. 93 Como há muito se sabe, uma das armas mais brandidas e utilizadas no combate à desigualdade social é a expansão das oportunidades educacionais, já que esta tem com aquela uma das correlações mais clássicas da sociedade brasileira. Embora seja comum a idéia desta correlação nortear políticas de expansão das oportunidades educacionais, muitas vezes o resultado não é a tão esperada atenuação das desigualdades, mas ao contrário as reproduções das mesmas. Isso porque a gênese da desigualdade social no capitalismo, conforme mencionada no capítulo anterior desta tese, só pode ser desvelada e superada tendo a frente os interesses dos sujeitos políticos das classes subalternas. A configuração da desigualdade, — que tem relação com a exploração dos trabalhadores, e as respostas engendradas pelas classes sociais e seus segmentos, a exemplo das política sociais — se apresenta na realidade de forma multifacetada através da questão social. Como observou Francisco Buey (2004, p. 165) No manifesto comunista Marx identificou a elevação do proletariado à classe dominante com a conquista da “democracia”. Se adotássemos a linguagem de hoje seria fundamental registrar que as medidas propostas por Marx para a conquista da democracia não se poderia furtar da educação geral, pública e gratuita. Isto significa dizer que a proposta radical de Marx já considerava a importância dessa esfera educacional para a efetivação do socialismo. (BUEY, 2004. p. 165) A educação, segundo estabelece a Constituição Federal de 1988, é um direito público subjetivo que deve ser assegurado a todos, através de ações desenvolvidas pelo Estado e pela família, com a colaboração da sociedade. Na verdade, é um direito que deveria ser compartilhado por todos. A lei e a realidade são bem diferentes: de um lado a lei, estabelecendo que toda criança deve freqüentar a escola; ‘educação direito de todos e dever do Estado e da Família’. A educação aparece como direito fundamental a ser assegurado com prioridade absoluta à criança e ao adolescente; direito público subjetivo. De outro lado, a realidade que conduz à lógica das políticas dramáticas; políticas públicas direcionadas a conveniências e oportunidades; famílias desestruturadas; escolas inertes frente aos fracassos repetidos quase que de forma programada. Para resolver este problema e garantir a todos este direito fundamental é necessário o Estado intervir. Esta intervenção deve ser compartilhada, visto 94 que a simples atuação de um órgão ou instituição apenas, não garante o sucesso do regresso ou permanência do aluno na escola. Segundo o IBGE (2007), a síntese dos indicadores sociais tendo como base a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad/2007) mostra que 77,6% das crianças de quatro a seis anos estão na escola. A meta é incluir 80% delas. Mas o cenário muda radicalmente de 0 a 3 anos: apenas 17,1% são atendidas por creches, enquanto a meta é de 50% até 2010. Embora tenha ocorrido aumento da taxa de escolarização, que estava em 8,1% em 1997, estamos longe de alcançar a meta estipulada pelo MEC para esse período. Ainda tendo como base a pesquisa mencionada a sua coordenadora, Ana Sabóia, afirma que o problema é da esfera pública. É preciso montar uma infraestrutura básica para atender a população descrita no parágrafo anterior. Em recente artigo publicado no Jornal O GLOBO (de 25/09/2008 p. 5) intitulado “a desigualdade aumenta apesar de cotas raciais”, é mencionado que entre jovens negros de 21 anos, 8,4% estão nas universidades; enquanto entre brancos, a taxa sobe para 24,4%. No mesmo artigo foi dito que a adoção de políticas públicas e ações afirmativas para os negros em mais de 60 universidades, aumentou a desigualdade entre negros e brancos no acesso ao ensino superior, que no nosso entendimento faltam dados concretos para tal afirmação. Se no Brasil 9% dos jovens tem terceiro grau completo, entre brancos a taxa sobe para 13,4%, mas cai para 4% entre pretos e pardos. Houve uma melhora em relação a 1997, quando o percentual de pretos e pardos com diploma era de 2,2%, e entre os brancos era de 9,6%. No entanto, o IBGE (2007) alerta que houve apenas uma melhora isolada em cada um dos grupos, mas não na redução da desigualdade. Em 1997, o hiato entre brancos e negros era de 7,4 pontos percentuais, mas, dez anos depois passou para 9,4. No mesmo artigo do jornal acima mencionado, José Luiz Petrucelli, do IBGE, afirma: “se a cor ou a raça não é elemento estruturante de apropriação de bens e riquezas, deveríamos ter a metade de brancos e de pretos e pardos nas universidades”. No universo de desigualdades sociais gerado na educação superior brasileira, os dados mencionados são relevantes, porém, sua precisão ainda é questionável. A desigualdade racial também está presente no rendimento-hora dos 95 trabalhadores. Comparando pessoas com a mesma escolaridade (doze anos ou mais de estudos), os brancos recebem até 40% mais do que os pretos e pardos. Para o economista Marcelo Paixão (citado no artigo do jornal O GLOBO, de 25/09/2008, já mencionado) que coordena o laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), a diferença salarial desestimula os jovens pretos e pardos a continuarem estudando, porque os indicadores educacionais não crescem, o ciclo da pobreza se reproduz indefinidamente no país. Na apropriação da renda, segundo a Pnad/2007, a desigualdade racial se mantém. Somente 12% dos negros e pardos estão entre os 1% mais ricos, enquanto os brancos são maioria absoluta: 86,3%. Já entre os 10% mais pobres, os negros e pardos representam 73,9% contra os 25% dos brancos. Os dados de matrícula da rede privada de certa forma mascararam (pela negação de muitas instituições em fornecer as informações solicitadas pelo censo) os resultados finais do censo da educação básica 2008 divulgados pelo Ministério da Educação em 15/01/2009. Diferentemente do que anunciou o Ministério, a situação do ensino fundamental e médio não é de estabilidade, mas de queda. A redes públicas estaduais e municipais de ensino básico registraram uma redução de 551 mil matrículas em relação ao ano anterior. A origem do problema é o sistema de coleta de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O Educacenso, como é chamado, foi lançado em 2007 quando muitas escolas da rede privada não deram informações, temendo a exposição pública de dados confidenciais. Em 2008, a resistência foi contornada, e o número de matrículas da rede particular o inflou. Comparando o ano de 2007 com 2008, as matrículas do setor privado na educação básica subiram 11%, o equivalente a 715.521 alunos a mais. Assim, o total de matrículas na educação básica no país, considerando escolas públicas e particulares, subiu 0,4%: de 53 milhões para 53,2 milhões. A diretora de estatística educacional do Inep, Maria Inês Pestana, afirmou ao Jornal O Globo, de 16/01/2009, que a elevação de matrículas no setor privado indica o fim da resistência de escolas particulares a participar do Educacenso. A análise dos dados por nível de ensino mostra com base em 96 indicadores do MEC (2007) como a tendência de queda de matrículas é maior do que foi divulgado. No ensino fundamental, o MEC divulgou redução geral de 35.573 estudantes na rede pública e privada, o que significa variação negativa de apenas 0,1%. Ocorre que as escolas estaduais perderam 322 mil alunos, e as municipais 129 mil, totalizando 461 mil estudantes a menos (redução de 1,4%). A queda, porém, foi compensada pelo acréscimos de 424 mil alunos na rede privada. O mesmo aconteceu no ensino médio. Enquanto as redes estaduais deixaram de ter 62 mil alunos, e as municipais perderam 27 mil (total de 89 mil alunos a menos), as escolas particulares ganharam 73 mil alunos. O resultado final foi a perda de 3.269 alunos, o que representa estabilidade (variação de 0%). A educação básica vai da creche ao ensino médio, incluindo a educação profissional de nível médio, a especial e a de jovens e adultos (antigo Supletivo). Consideradas todas as modalidades, as redes estaduais perderam 493.859 matrículas em 2008. Já nas redes municipais desapareceram 30.159 alunos. Em sentido inverso, a rede privada de educação básica aparece com 715.521 matrículas a mais, atingindo 7.101.043. Esse total é inferior aos 7,3 milhões de matrículas registradas em 2006. A redução do número de alunos no ensino fundamental tem explicação. Quase 98% das crianças brasileiras de 7 a 14 anos estão na escola, e a população nessa faixa etária está caindo. Com a diminuição das taxas de natalidade, o Brasil tem diante de si o que os especialistas chamam de janela demográfica, um período em que a população infanto-juvenil tende a se reduzir. O discurso do Ministro da Educação, Fernando Haddad, ao anunciar estabilidade nas matrículas foi de que esperava uma redução. O Ministro afirmou que a população até 17 anos vai encolher em 7 milhões de habitantes nos próximos 10 anos, caindo de 58 milhões para 51 milhões. O Educacenso (2008), apurou que na lista dos alunos pelo nome, foi constatado 761.281 casos de duplicidade de estudantes, as chamadas matrículas fantasmas. Isso ocorreu porque as famílias matriculam os filhos em 97 mais de uma escola ou mudam de endereço, e muitas vezes acabam desistindo durante o ano letivo. Vale ressaltar que esses dados não são taxativos e sim geram hipóteses para a explicação do fato. A complexidade do quadro educacional brasileiro é tamanha que o Educacenso 2008 ao listar os alunos do ensino médio teve dificuldade na exatidão dos números. O relatório divulgado no dia 09/06/2009 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)60 mostra que o Brasil registrou avanços importantes na educação nos últimos 15 anos. O estudo Situação da Infância e da Adolescência Brasileira 2009 – O Direito de Aprender aponta que os “grandes investimentos” feitos na área desde a década de 90 permitiram ampliar o número de matrículas. Mais de 70% dos municípios brasileiros, por exemplo, conseguiram atingir ou superar em 2007 as metas de evolução estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC) para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Outro dado positivo é o que revela que cerca de 27 milhões de estudantes estão nas salas de aula, o que corresponde a 97,6% das crianças brasileiras entre 7 e 14 anos. O Unicef chama a atenção, no entanto, para o fato de que a parcela ainda fora da escola (2,4%) representa o expressivo contingente de 680 mil brasileiros nessa faixa etária. Além disso, segundo o documento, “as desigualdades presentes na sociedade ainda têm um importante reflexo no ensino brasileiro”. O relatório alerta que são os grupos mais vulneráveis da população que enfrentam dificuldades para ter acesso à educação e concluir os estudos. Segundo os dados divulgados pelo Unicef, do total de crianças que não freqüentam a escola, 450 mil são negras e pardas e a maioria vive nas regiões Norte e Nordeste. Os altos índices de repetência e abandono escolar também são um desafio para a educação infantil brasileira, de acordo com o documento. Segundo o mesmo relatório, apesar de passar em média dez anos na escola, os estudantes brasileiros completam com sucesso pouco mais de sete séries. “De acordo com os dados do Censo Escolar de 2006, a quantidade de concluintes do ensino fundamental corresponde a 53,7% do número de matrículas na 1ª série deste nível de ensino no mesmo ano. No ensino médio, 60 Os dados se encontram disponíveis no Site: http://www.unicef.org/brazil/pt/ media_14931. htm. 98 a proporção entre matriculados na 1ª série e os concluintes é ainda menor: 50,9%”, aponta o estudo. O Unicef destaca que a ampliação da obrigatoriedade do ensino é fundamental para garantir a todos o acesso à educação. Hoje apenas o ensino fundamental (dos 7 aos 14 anos) é obrigatório. As desigualdades regionais no acesso à educação de qualidade também foram captadas pelo estudo. O relatório mostra, por exemplo, que uma criança moradora da região do Semiárido do país leva, em média, 11 anos para concluir o ensino fundamental de oito anos. Parte da dificuldade está inclusive na estrutura física das escolas, que muitas vezes não têm condições mínimas de atendimento e funcionam sem energia elétrica e água potável. “Das 37,6 mil escolas na zona rural da região, 28,3 mil não são abastecidas pela rede pública (de abastecimento de água). Dessas, 387 não têm nenhum tipo de abastecimento”, cita o documento. De acordo com o levantamento, o Semiárido concentra mais da metade da população de analfabetos acima de 15 anos, registra índices de escolarização e freqüência muito menores que a média nacional e ainda apresenta altos percentuais de evasão escolar. De acordo com avaliação da representante do Unicef no país, MariePierra Pirier, o Brasil precisa investir pelo menos 8% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação para conseguir reverter esses e outros problemas na área da educação infantil. O dado mais recente divulgado pelo Ministério da Educação é de 2007 e aponta que o gasto público do país na área correspondeu a 4,6% do PIB. O ministro Fernando Haddad defende que o investimento público em educação deve ser de 6% do PIB, média do que é aplicado em países desenvolvidos. Marie-Pierre, contudo, aponta que países que enfrentaram situação semelhante a do Brasil e precisavam reverter “dívidas históricas” com a educação, como a Coréia, o Japão e a Irlanda, obtiveram bons resultados após aumentarem os investimento na área para mais de 6%. Dados do Censo escolar de 2007 mostram crescimento de 94% nas matrículas da educação especial no Brasil desde 1998. Em relação ao ingresso em classes comuns do ensino regular, o aumento foi de cerca de 597% no mesmo período, quando o número de crianças matriculadas passou de 43.923 99 para 304.882. As crianças entre 7 e 14 anos fora da escola, 2,4% do total, somam 680 mil. Na região Norte, o índice é duas vezes maior do que o registrado no Sudeste. Do total de crianças e adolescentes brasileiros que não estão na escola, 66% são negros. Ainda assim, há uma significativa melhora na adequação idade-série entre os adolescentes negros. O número de estudantes indígenas cresceu 50,8% entre 2002 e 2007, passando de 117.171 para 176.714. Apesar de ainda haver uma porcentagem pequena de indígenas com acesso ao ensino médio, 4,8%, o número de crianças indígenas matriculadas nesta fase do ensino cresceu 665%. Das 2.480 escolas indígenas do Brasil, 80 % estão localizadas nos estados da Amazônia Legal (dados do Educacenso 2007). Com relação à educação quilombola, até dezembro de 2008 havia 1.305 comunidades remanescentes de quilombos reconhecidas no País, 423 delas no Maranhão, estado com maior número de escolas em áreas quilombolas. Os dados divulgados pelo Unicef apontam crescimento de 94,4% no número de escolas quilombolas entre 2005 e 2006. Segundo Marie-Pierre, para que os avanços alcancem todas as crianças e adolescentes, são necessárias políticas públicas que tenham como resultado a efetiva redução das desigualdades em todas as suas dimensões. A diretora lembrou do compromisso do Unicef de apoiar e participar de ações que garantam a sustentabilidade e aprimoramento das políticas e programas e disse que é fundamental a continuidade e o fortalecimento das articulações entre ações governamentais e sociais para superar as barreiras ainda existentes. Vale ressaltar que outros dados devem ser levados em conta na questão da desigualdade social no país. A seguir apresentamos gráficos retirados do ONG Criola61, que utilizam indicadores de pesquisadores da área e do IPEA apontam tais discrepâncias de um país que se diz moderno com traços fortes de desigualdades persistentes. 61 Os dados estão disponíveis no site: www.criola.org.br. Vale ressaltar que nas pesquisas do IPEA são utilizadas o período de cada dez anos, portanto ainda foi divulgada a pesquisa do decênio 2002-2111 100 ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO Marcelo Paixão, 2000 Fator regional: Segundo o economista e professor da UFRJ Marcelo Paixão, autor da pesquisa, o diferencial entre o IDH de brancos e negros é mais acentuado na região sul (48 postos a favor dos brancos) e sudeste (46 postos a favor dos brancos). IDH AJUSTADO AO GÊNERO/ IDG 1999 Wânia Sant’Anna, 2001 ESPERANÇA DE VIDA AO NASCER, 1998: Marcelo Paixão, 2000 Mortalidade Materna: 101 Pesquisa de Alaerte Martins no Estado do Paraná, informa que o risco de morte das mulheres negras é 7,4 vezes maior do que o das brancas. E nos lembra, citando a Organização Mundial de Saúde que “uma morte materna afeta diretamente um número grande de membros da família e da comunidade que depende dela. As mortes maternas, quando muitas, podem produzir graves conseqüências para as comunidades, as nações e a população.” 62 MORTALIDADE INFANTIL, 1997 Celso C. S. Simões Afirma Estela Cunha que, segundo os dados, os filhos de mães negras no nordeste têm um risco de morte antes de completar 1 ano de vida 44% maior do que os filhos de mães negras residentes no sul. E que, se comparados aos filhos de mães brancas residentes na região sul, os filhos de mães negras residentes no nordeste tem um risco 63% maior de morrer antes de completar 1 ano. ACESSO À EDUCAÇÃO, 1992 - 2001: IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 ACESSO À SAÚDE, 1998: 62 Ver artigo: Mortalidade Infantil e Raça: as diferenças da desigualdade, Jornal da Rede Saúde nº 23, março de 2001 102 IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 COBERTURA DO SUS, 1998: IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 ATENDIMENTO DIFERENCIADO: Maria do Carmo Leal e Silvana G. N. Gama, 2003 CARTEIRA ASSINADA, 1992 - 2001: 103 IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 COBERTURA PREVIDENCIÁRIA, 1992 - 2001: IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 TRABALHO INFANTIL, 1992 -2001 IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 ACESSO À MORADIA, 1992 - 2001: IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 OCUPAÇÃO DE MORADIA INADEQUADA, 1992 - 2001: 104 IPEA, Desigualdade Racial: Indicadores Socioeconômicos 2003 O Censo Escolar 2008 demonstra o aumento de 14,7% na educação profissional, um acréscimo de 101 mil estudantes, totalizando 795.459 matrículas. O Ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que o crescimento foi puxado pelas redes estaduais. Os dados preliminares do censo divulgado em outubro de 2008 indicavam redução de 2,5 milhões de matrículas nas redes estaduais e municipais. Isso ocorreu porque não estavam contabilizadas todas as matrículas dos estados e municípios63. Ainda de acordo com o Censo Escolar do Ministério da Educação houve uma redução de mais de 100 mil matrículas no ensino médio nos últimos 5 anos no Estado do Rio de Janeiro. Percentualmente, a queda foi de 15% entre 2004 e 2008, quase o dobro da média nacional, que registrou 8,7% no período. A diminuição é puxada basicamente pela rede estadual de ensino, com 91.195 de um total 115.119 alunos a menos. Na contramão a população jovem entre 14 e 19 anos cresceu pouco mais de 5%, segundo estimativa da Fundação Cide. Na comparação entre 2007 e 2008, o total de matrículas do ensino médio no Estado do Rio de Janeiro registrou uma pequena alta, de 2%, passando de 642.326 para 655.539. No entanto, a rede estadual isoladamente continuou sua trajetória de queda contínua desde 2004, caindo pouco menos de 2%, de 534.149 estudantes para 523.895 nos últimos dois anos. Em entrevista ao Jornal O Globo, de 17/01/2009, o educador Ruben Klein, pesquisador da Fundação Cesgranrio, afirma que o principal problema está no fluxo escolar. Segundo ele os índices de evasão e repetência nas últimas séries do ensino fundamental e médio caíram até o início dos anos 63 As tabelas completas do Censo 2008 estão no site www.oglobo.com.br/educação ou www.mec.gov.br. 105 2000. De 2003 em diante, no entanto, a tendência se inverteu. O educador mencionado afirma que o grande desafio daqui para frente é garantir a conclusão do ensino fundamental e médio, fazer com que os alunos terminem os estudos no tempo correto. Para ele, os números mostram um grande contingente de jovens sem futuro64. É preciso haver uma preocupação maior com a qualidade do ensino. Dados da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro mostram que a taxa de abandono no ensino médio tem ficado em torno de 17% nos últimos dois anos. Sobre a diminuição no número de matrículas, a atual secretária, Teresa Porto, ressaltou ser pelo maior controle nos últimos anos do censo do MEC, já que o mesmo não era informatizado, havendo um controle limitado sobre as informações enviadas pelas escolas. Agora o processo é online e é preciso enviar informações individuais de cada aluno. Para o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE) do Rio de Janeiro a queda das matrículas pode ser atribuída ao um reflexo da crise da educação estadual nos últimos tempos, isto é, professores com baixos salários e escolas sem condições de trabalho. Verificamos, portanto, que para a atual secretária de educação do Estado, o problema seja resolvido pela maior implementação do sistema de informática, já para o sindicato mencionado seria solucionado pela falta de condições de trabalho, de professores e funcionários e os seus aviltantes salários. No censo da educação superior de 2007 divulgado em 02/02/2009, pelo Ministério da Educação, a taxa de conclusão de curso mais alta é das Universidades Federais, com 72,6%. O cálculo leva em conta o número de estudantes que ingressaram 4 anos antes e o total de concluintes, isto é, os alunos que chegaram ao fim do curso em 2007. A média nacional ficou em 58,1%, sendo mais alta nas universidades públicas (63,8% nas estaduais e 62,4% das municipais) do que nas privadas. O censo mostrou que os cursos tecnológicos continuam crescendo: 278.727 matrículas em 2006, para 747.856 em 2007 (mais 24,8%). O mesmo 64 As conclusões do educador não são diferentes das mencionadas por Robert Castel (1998) que considera as gerações mais jovens que não podem contar com um mercado de trabalho que lhe forneça a garantia do trabalhado assalariado, como ‘inúteis para o mundo’. 106 ocorre no ensino de graduação a distância, que passou a responder por 7% do total de universitários do país, subindo de 207.206, em 2006, para 369.766, em 2007. Abaixo um quadro revela a situação nacional. O problema da evasão no ensino superior brasileiro é um velho conhecido dos gestores, mantenedores, professores, e demais profissionais envolvidos no dia a dia de uma instituição acadêmica. Embora seus efeitos prejudiciais sejam bem conhecidos, as causas da evasão e as ações para combatê-la ainda são pouco exploradas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), os números da evasão no Brasil têm se mantido estáveis nos últimos sete anos, na casa dos 20%, sendo que em 2007 o índice foi de 22%, contra 21,7 no ano anterior. Mas, como o número de ingressantes aumentou, em termos absolutos isso significa que mais estudantes estão abandonando a sala de aula. Entre 2006 e 2007, 868,4 mil alunos deixaram de estudar. "É um desperdício acadêmico, social e financeiro. O Brasil tem muito poucos alunos no ensino superior para se dar ao luxo de ainda perdê-los", diz a professora Maria Beatriz de Carvalho, vice-presidente do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia, especializado em consultoria educacional. "Os dados nos preocupam. É uma perda muito grande no sistema, que precisa melhorar sua eficiência”.65 65 Com exceção de questões estritamente pessoais do estudante e que o fazem desistir da graduação, Maria Beatriz defende a existência de uma série de outras razões que colaboram para a evasão e que são de responsabilidade da própria instituição. Por exemplo: currículos inchados e desatualizados; 107 Historicamente, vimos que o capitalismo apresenta um grande conflito: a luta entre burgueses e proletários. Enquanto aqueles tentam aumentar suas taxas de lucros, com exploração de mão-de-obra dos trabalhadores, estes reivindicam melhores condições de vida, que expressa o antagonismo da luta de classes. Entretanto, a partir do século XX surgem outros conflitos de interesses que vão além da divisão da sociedade em classes, ou seja: conflito de gênero, geração e etnia. Apesar da grande força dos movimentos sociais construídos pelas chamadas classes subalternas (mulheres, grupos étnicos não brancos e trabalhadores assalariados), dos milhões de vidas sacrificadas nessas lutas, a história desses grupos não é confortante. É verdade que as condições dos trabalhadores melhoraram, mas as melhorias foram limitadas aos países que tiveram welfare state e a grande maioria dos trabalhadores vivem uma exploração semelhante àquela do século XIX. Além dos trabalhadores, há um grande número de pessoas, nas grandes metrópoles dos países dependentes, que vivem em absoluta precariedade. As classes subalternas são submetidas a uma série de discriminações e preconceitos só pelo fato de pertencerem a uma determinada posição social. Já as classes dominantes, em virtude das discriminações, gozam de uma série de privilégios. Contudo, a opressão para se justificar faz uso de um sistema de idéias que chamamos ideologia. Identificamos em nossa análise social, várias situações de desigualdade e opressão, dentre elas podemos citar de classes, de gênero, de geração, de raça (ou etnia) entre outras. As desigualdades sociais possuem relação direta com a distribuição desigual do excedente de riqueza produzido pelas sociedades. As antigas sociedades agrícolas eram capazes de produzir uma quantidade de alimentos superior às necessidades. Isto permitiu a uma camada da população deixar de trabalhar e viver do trabalho alheio. As várias classes sociais dominantes se poucos programas de integração acadêmica ou de nivelamento; centros de orientação inexistentes ou ineficazes; professores e coordenadores que não utilizam testes iniciais para conhecerem a turma, além de não se sentirem responsáveis pelo sucesso do aluno; pouca possibilidade de transferência; e a pouca relação entre teoria e prática. Esse último fator, segundo ela, é apontado pelos próprios alunos nas avaliações feitas pela consultoria como uma das principais causas para o abandono do curso. Na opinião de Maria Beatriz, em todos esses casos é possível a instituição agir para tentar alterar o quadro, desde que se reconheça o problema e se tenha disposição para mudar. Cf: http:// revistaensinosuperior.uol.com.br/pg_materias_externas/128_35.html 108 caracterizam por apropriarem-se, em modo e tempo diversos, do excedente de riqueza produzida pelas classes subalternas. O sistema econômico dominante em cada época se esforça em manter separadas as classes sociais e reduzir ao mínimo as possibilidades de ascensão social. Isto ocorre também através do sistema escolar, à separação territorial das classes sociais (no Rio de Janeiro divisão entre favelas, subúrbios e zona sul, por exemplo), à ideologia, etc. Porém, o sistema capitalista fez da ilusão da ascensão social (ou mobilidade social) um dos pilares de sua ideologia. O capitalismo tem de alimentar todas as opressões. Através da complexa rede de vantagens/desvantagens, de condição social, a classe dominante se aproveita desta divisão. As vantagens que os trabalhadores, por exemplo, pensam gozar no momento em que são “dominadores” representam apenas alienação. Porém, eles sempre demonstram uma grande atração por estas pequenas vantagens. Para entender melhor esse processo, no atua contexto do capital, é importante mensurar o papel e influência que o Banco Mundial (BIRD) exerce na política macroeconômica brasileira, inclusive no que tange a educação. Importante se faz destacar que existe uma ação direta do Banco Mundial na educação brasileira por meio dos projetos por ele financiados. A partir de 1963, quando iniciou o financiamento de atividades nesse setor, o Banco Mundial concedeu mais de US$ 30 bilhões em empréstimos e créditos, e, atualmente, financia 162 projetos em 82 países. No Brasil foram investidos mais de US$ 2,1 bilhões66. A principal problemática da educação básica pública no Brasil diz respeito ao abandono e à repetência. Como é amplamente sabido, nas últimas décadas, o Banco Mundial exerceu forte influência na definição das políticas educacionais brasileiras, não exatamente pelo volume de recursos que injetou no setor, mas pelo que conseguiu influenciar nas políticas sociais, principalmente porque seu aval abriu portas para a liberação de empréstimos destinados a programas de ajuste estrutural. A política de crédito do BIRD à educação nada mais é do que um co66 Banco Mundial. Uma parceria de resultados: o Banco Mundial no Brasil. 01/02/ 2005. p. 35. 109 financiamento cujo modelo de empréstimo é do tipo convencional, tendo em vista os pesados encargos que acarreta e também a rigidez das regras e as precondições financeiras e políticas inerentes ao processo de financiamento comercial. Graça Drucke e Luiz Filgueiras (1997) ressaltam que é importante entender que as transformações sofridas pela educação superior no Brasil e nos demais países latino-americanos, com a efetivação da agenda neoliberal, não ocorreram por “geração espontânea”, nem por demanda de sua clientela, mas sim abarcadas por diversas orientações encontradas nos principais documentos dos organismos multilaterais, como o Banco Mundial, assim como na cartilha do Consenso de Washington. Dentre as exigências, destacam-se: a necessidade de que o Estado se desvencilhe da manutenção da educação superior, deixando esta a cargo da iniciativa privada, ocupando-se apenas da educação básica e média; a indicação para as instituições de ensino superior se organizarem e serem geridas como empresas econômicas; a importância das universidades públicas serem privatizadas ou diversificarem suas fontes de recursos (via cobrança de mensalidade, contratos de pesquisa com empresas, venda de serviços e consultorias, e doações da iniciativa privada) e a imposição do máximo de diferenciação institucional (universidades de pesquisa, de ensino, centros universitários etc.), o que garantia a competitividade e, consequentemente, o progresso desses domínios (DRUCKE ; FILGUEIRAS, 1997, p. 15-27). Nessa direção, é importante reconhecer que os créditos concedidos à educação são parte de projetos econômicos que integram a dívida externa do país para com as instituições bilaterais, multilaterais e bancos privados. Com o intuito de garantir uma maior estabilidade econômica dos países em desenvolvimento, o Banco Mundial passou a financiar a intervenção dos estados em algumas seqüelas da questão social. Desde 1990, o BIRD tem declarado que seu principal objetivo é o ataque à pobreza. Para isso, suas duas principais recomendações são: uso produtivo do recurso mais abundante dos pobres – o trabalho – e fornecimento de serviços básicos aos pobres, em especial saúde elementar, planejamento familiar, nutrição e educação primária. Nesta visão, o BIRD considera o investimento em educação a melhor forma de aumentar os recursos dos pobres. A educação é tratada pelo Banco como falsa medida compensatória para proteger os pobres e aliviar as possíveis tensões no setor social. Além disso, ela é tida como uma medida perversa para a contenção demográfica e para o aumento da produtividade das populações mais carentes, sem a preocupação real de melhorar as condições de vida das mesmas. Daí 110 depreende-se a ênfase na educação primária, que prepara a população, principalmente feminina, para o planejamento familiar e a vida produtiva, visando a entrada mais rápida no mercado de trabalho. Segundo Rosa Maria Torres (1998, p. 120), o BIRD também apresenta uma falsa proposta articulada para melhorar o acesso, a eqüidade e a qualidade dos sistemas escolares. Embora reconheça que cada país tem sua especificidade, trata-se, de fato, de um único “pacote” de reformas propostas aos países em desenvolvimento. A convergência da política educacional com as recomendações do Banco Mundial é óbvia demais para merecer tempo no cotejo de umas e outras. Para os críticos mais ostensivos dessas políticas, a maioria dos partidos de esquerda e as entidades (para) sindicais de docentes, de estudantes e de funcionários técnico-administrativos, essa convergência é suficiente para se deduzir seu sentido: a destruição das instituições públicas e, conseqüentemente, a generalizada privatização do ensino em todos os níveis, o que estaria consistente com as demais políticas do Estado no campo econômico. Nosso entendimento acerca disso é que na verdade o Banco Mundial é hoje o grande incentivador da mercantilização da educação no Brasil, fazendo com que a educação reproduza a lógica do capital de modo mais perverso. Essa afirmativa é confirmada quando István Mészáros (2006, p. 206), enfatiza que o mundo está preso a uma espiral destrutiva, a lógica do capital, que pode causar seu desaparecimento e onde há alienação67, estão os elementos que podem derrocar a dominação do povo. Segundo o autor, historicamente o alimento das práticas de transformação social é a educação. É preciso recuperar o sentido da educação, que é conhecer-se a si mesmo, aprender por diferentes meios. O autor enfatiza ainda que a lógica do capital torna-se uma competição 67 Alienação para István Mészáros (2006 p. 92) é a perda de controle sobre as atividades humanas que poderíamos e deveríamos controlar. O sistema social é uma construção humana e deveria ser controlado pelos homens, mas está longe de nós, fora de nosso alcance, está alienado. Não tem como ser controlado sob a hegemonia do poder do capital. A alienação não é algo mágico, que cai do céu, mas é parte fundamental do que chamo metabolismo social de humanidade. A alienação é um tipo de controlador do capital, que não se preocupa com o destino do planeta, mas com sua própria reprodução, infinita. Segundo ele, a lógica do capital é estimular a alienação, pois faz com que a população aceite esse paradoxo. A alienação leva à racionalização da insanidade, o que cria a ilusão de ser a ordem correta das coisas. É o modo como se gera a ideologia dominante. 111 destrutiva dos humanos. A competição, em si, não é ruim. Pode levar à superação de limites e até novas formas de cooperação, mas hoje, a competição é antagônica: alguém tem sempre que ser destruído, diz Mészáros (2005). Cabe ressaltar que o discurso crítico de Mészáros (2005, p. 92) sobre as intervenções do capital no sistema educacional contemporâneo é pautado no pensamento de Marx, Gramsci e Lênin. Mészáros (idem, p. 92) entende o capital como um elemento incorrigível e irreformável, pois o que se observou até agora na educação foi uma lógica global reformista, onde apenas alguns ajustes são permitidos a fim de se corrigir algum detalhe da própria ordem estabelecida, sem desestruturar as bases do sistema de reprodução dessa mesma ordem. Nesse sentido, o autor vê como alternativa a necessidade de rompimento dessa lógica do capital para a contemplação de um sistema educacional emancipador. Mészáros (idem, p. 103) cita Gramsci para reforçar sua crítica ao conceito de aprendizagem dos elitistas, pois Gramsci anuncia que todo homem é capaz de aprender, de acumular conhecimentos que podem vir a manter ou alterar determinada ordem social de acordo com a concepção de mundo prevalecente. Seguindo no sentido de que as forças sociais dominantes não são capazes de modificar a concepção de mundo de sua época. O autor compartilha da idéia de que é perfeitamente possível encontrar, dentro desse contexto de “manutenção/mudança”, uma oportunidade que permita transformar, de forma duradoura, o modo de internalização vigente. Para as forças sociais “democráticas” só há vantagem em defender seus interesses através da “manutenção ativa”, ou seja, numa situação a qual a sociedade esteja propriamente condicionada à reprodução da lógica do capital. Como alternativa urgente e necessária, Mészáros (idem, p. 104) assegura que somente um processo de “contra-internalização” seria capaz de cessar a ordem opressiva e dominante instaurada. Mészáros (idem, p.104) utiliza o pensamento de Marx ao afirmar que a alienação do trabalho é histórica e que se trata de uma ação progressivamente escravizante. Mas observa que só será possível superar tal alienação através do próprio trabalho e que somente a questão da negação não é suficiente para 112 intervir num processo histórico, para o qual o autor destaca, então, a importância da educação. Se o Estado capitalista tem a educação como um alvo global para nela legitimar seus próprios interesses, faz-se necessário uma intercessão imediata na educação a favor de uma transformação social que visa ser de extrema importância no rompimento da internalização, capaz de promover a efetiva transcendência da alienação do trabalho. Como uma solução de característica consistente e imediata, o autor considera a universalização conjunta do trabalho e da educação, uma vez que explica que o conceito de “para além do capital” é inerentemente concreto, ou seja, está inserido numa dinâmica social atual, participando de uma realidade, e por isso pretende estabelecer uma ordem social metabólica que seja concretamente auto-sustentável. A automediação é um meio que o autor encontra de conter a forma alienada de mediação na qual estão inseridos os “produtores livremente associados”, que criam vínculos com os empregadores como “associados” para garantirem a própria sobrevivência. Mas o modelo capitalista mantém a condição de romper qualquer contrato a qualquer tempo, caracterizando, assim, o fator alienante do indivíduo a sua própria condição. As instituições tiveram adaptações de acordo com o sistema do capital, o que evidentemente, gerou um modo de reprodução metabólica desse sistema alcançando uma dimensão mundial. Portanto, ao final de cada texto, o autor sempre intensifica a sua proposta, que é justamente a de promover uma mudança radical, uma mudança que possa ir além desse domínio que o capital exerce sobre a sociedade, com o propósito de entendimento da História para que seja possível a desalienação e emancipação. Mas para que essas propostas se tornem propulsoras de uma transformação radical é necessário dar impulso ao rompimento de todo o sistema de internalização que sustenta essa lógica do capital, ou seja, “quebrar” a imposição dos valores que legitimam os interesses dominantes, através da automediação (capaz de controlar a reprodução metabólica na qual a sociedade está submersa). Para Mészáros (idem, p.106), a educação para emancipação tem de ser um processo continuado, não podendo se limitar apenas a alguns anos da vida dos indivíduos. 113 Nessa perspectiva, como solução efetiva para uma mudança específica, o autor, numa postura dialética, sistematiza suas idéias que consiste, primeiramente, em focar a educação como um campo de emancipação; numa segunda ação, se daria através do desenvolvimento da percepção de igualdade na relação entre os “dominantes” e os “dominados” dentro da própria estrutura, pois sem isso seria impossível prosseguir para a universalização indissolúvel do trabalho e da educação, que seria a próxima e definitiva ação numa alternativa concreta e sustentável de “combater” a lógica do capital. Lógica esta, que torna cada vez mais invisível a relação da questão social com os rumos da educação em nosso país. Fato este que permite o surgimento de diferentes opiniões acerca de questões centrais sobre a educação no Brasil. No que concerne às cotas esse aspecto se repete quase clinicamente. De modo insistente, por exemplo, Liana Melo (O GLOBO, 25/10/2008, O País, p. 5) observa que “mesmo com a adoção de políticas públicas e ações afirmativas para os negros em mais de 60 universidades, aumentou a desigualdade entre negros e brancos no acesso ao ensino superior”. Se no Brasil 9% dos jovens têm terceiro grau completo, entre brancos a taxa sobe para 13,4%, mas cai para 4% entre pretos e pardos. Houve uma melhora em relação a 1997, quando o percentual de pretos e pardos com diplomas era de 2,2% e entre os brancos era de 9,6%. No entanto, o IBGE alerta que houve apenas uma melhora isolada em cada um dos grupos, mas não uma redução da desigualdade. Em 1997, o hiato entre brancos e negros era de 7,4 pontos percentuais, mas, dez anos depois, passou para 9,4. (O GLOBO: idem, p. 5) Dos jovens de 21 anos, apenas 8,4% dos pretos e pardos estavam no ensino superior em 2007; entre a população branca, a taxa era de 24,5%. A desigualdade racial também está presente no rendimento-hora dos trabalhadores. Comparando pessoas com a mesma escolaridade (12 anos ou mais de estudos), os brancos recebem até 40% mais do que os pretos e pardos. Para o economista Marcelo Paixão, coordenador dos Laboratórios de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), a diferença salarial desestimula os jovens pretos e pardos a continuarem estudando. Não por acaso os indicadores educacionais pouco cresce, e o ciclo da 114 pobreza se reproduz como cerne da desigualdade. Na apropriação da renda, a desigualdade racial se mantém. Somente 12% dos negros e pardos estão entre os 1% mais ricos, enquanto os brancos são a maioria absoluta: 86,3%. Já entre os 10% mais pobres, os negros e pardos representam 73,9% contra os 25,5% dos brancos. Tudo isso revela que a reprodução das relações sociais é engendrada por diferentes aspectos da questão social que se mantém como lógica perversa da tal reprodução e, consequentemente, se apresenta também na educação. O abismo da questão social é sempre reatualizado, e não eliminado, garantindo uma funcionalidade que precisa ser aclarada para não cair na armadilha de pensar que pode ser eliminada por políticas focalizadas. 2.1.1 Educação e Desigualdade Social na Contemporaneidade Apesar da complexidade do quadro educacional quando passamos a verificar na prática a situação da educação no Brasil, levando em consideração os dados obtidos pelas pesquisas realizadas pelo IBGE (2006) através do PNAD68, verificamos que o Brasil vem promovendo crescimento estatístico na universalização do ensino. A mais expressiva delas é o fato de o percentual de crianças na escola de 5 a 6 anos, ter crescido para 84,6% em 2006, o que significou um incremento de três pontos percentuais em relação a 2005. Em 2006, dos cerca de 173 milhões de brasileiros com 5 anos ou mais, 54,9 milhões eram estudantes. Isso representou um aumento de 0,9% em relação a 2005. No Norte e no Centro-Oeste o crescimento foi ainda mais expressivo: 1,3% para ambas as regiões, mas é em Santa Catarina, no Sul, que a PNAD constatou o maior índice de universalização (99%). Segundo o IBGE (2007) fazendo um comparativo dos dados de 1996 a 2006, as taxas brutas de freqüência à escola de alguns segmentos etários apresentaram crescimento relativo muito significativo. Para as crianças de 0 a 3 anos de idade, os percentuais dobraram nesse período, de 7,4% para 15,5%. Na faixa seguinte, de 4 a 6 anos, as taxas passaram de 53,8% para 76,0%, um aumento de mais de 40%. Além disso, a defasagem dos alunos do ensino 68 Divulgada pelo IBGE em 14/09/2007 e disponível em artigo do Jornal O Globo de 15/09/2007 p. 15 115 fundamental cai 41,6% em dez anos. Em relação ao ensino superior, a pesquisa aponta que, em 2006, 76,4% dos estudantes freqüentavam universidades particulares, e apenas 23,6% estavam em estabelecimentos públicos. No entanto, mais da metade dos estudantes que freqüentam o ensino superior na rede pública (54,3%) pertenciam aos 20% mais ricos. A pesquisa do IBGE revela também que o rendimento das famílias tem grande influência no acesso e permanência das crianças e jovens na escola. Nas famílias mais pobres, apenas 9,9% das crianças com até 3 anos de idade freqüentavam creches, em 2006. Em dez anos, o número de crianças trabalhando, na faixa de 10 a 15 anos, caiu de 3,6 milhões para 2,5 milhões. Entretanto, a pesquisa encontrou 235 mil crianças de dez a dezessete que declararam trabalhar ruas das cidades. As taxas brutas de freqüência à escola de alguns segmentos etários, em 2006, segundo a mesma pesquisa, apresentaram crescimento relativo muito significativo, na comparação com 1996. Para as crianças de 0 a 3 anos de idade, os percentuais dobraram nesse período, de 7,4% para 15,5%. Na faixa seguinte, de 4 a 6 anos, as taxas passaram de 53,8% para 76,0%, um aumento de mais de 40%. A freqüência à escola para a faixa etária de sete a quatorze anos era quase universal em 2006 (97,6%), não havendo diferenças marcantes de gênero ou cor. O quadro era menos favorável, porém, para os adolescentes de 15 a 17 anos, faixa correspondente ao ensino médio. Mesmo com o crescimento do acesso à escola para esse grupo, de 69,5% para 82,2% entre 1996 e 2006, a taxa de freqüência líquida em 2006 não atingia metade do segmento populacional: 47,1%. No Norte e Nordeste, havia estados em que esse percentual era menor que 30%, casos do Pará (28,4%) e Alagoas (25,4%). De 1996 para 2006, houve uma redução satisfatória na defasagem escolar no ensino fundamental, devida em grande parte à adoção da progressão continuada (aprovação automática) no ensino fundamental. De acordo com os dados já apresentados pelo UNICEF (2009), mesmo com inclusão do sistema de progressão automática no município do Rio de Janeiro não houve resolução da correlação entre idade e série dos alunos. A opção 116 pelo sistema fica a cargo de cada prefeitura e de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), está implantado em mais de 10% dos estabelecimentos de ensino brasileiros. Cerca de 25,7% dos alunos do ensino fundamental estavam defasados na correlação idade/série em 2006, ou seja, cerca de 8,3 milhões num universo de 32,5 milhões de estudantes. Em 1996, essa taxa correspondia a 43,9%, verificandose uma redução, no período, de 41,6%. Entre as grandes regiões, a maior taxa de defasagem no ensino fundamental foi encontrada no Nordeste, 37,9%; e a menor, no Sul (15,5%). Entre 1996 e 2006, a maior redução na taxa (51,0%) foi verificada na região Sudeste. Dentre as regiões metropolitanas, Salvador tinha em 2006 a maior taxa de defasagem no ensino fundamental (33,1%); e São Paulo, a menor (9,8%), tendo mostrado uma redução significativa de 1996 para 2006 (63,0%). Na região metropolitana de Belo Horizonte, a redução também foi acentuada (62,1%) nesse período. A defasagem escolar é maior nas últimas séries do ensino fundamental. Em 2006, enquanto nas quatro primeiras séries a taxa de defasagem era de cerca de 20,7%; nas últimas quatro, alcançava 31,4%. O Nordeste apresentava as mais altas taxas para os dois segmentos: 31,2% para o primeiro e 46,0% para o segundo. O Sul tinha as menores taxas: 11,3% e 20,0%, respectivamente. A defasagem se reflete no tempo médio esperado para conclusão dos ciclos de estudo. Em 2006, segundo dados do INEP, levava-se em média cinco anos para terminar a 4ª série e dez anos para terminar a 8ª série. Ainda de acordo com o INEP, a expectativa era que 87,6% dos estudantes terminassem a 4ª série do ensino fundamental, percentual que caía bastante para os concluintes da 8ª série (53,8%) (IBGE, 2007). Outro dado importante que foi divulgado pelo MEC, no dia 02/02/2009, através do Censo da Educação Superior de 2007, dos 4.880.381 universitários brasileiros naquele ano, 3.639.413 estudavam em instituições privadas. Nada menos do que 74,57% do total. As instituições federais respondiam por 615.542 matrículas (12,61%). Embora o ritmo de expansão das instituições privadas venha caindo — 117 elas continuam crescendo, mas numa velocidade menor —, sua participação aumentou em relação ao total de estudantes do ensino superior. Veja a variação dos últimos cinco anos: % de matrículas do setor privado 2003: 70,76% 2004: 71,70% 2005: 73,22% 2006: 74,14% 2007: 74,57% Fonte: MEC – Censo Escolar 2007 A matrícula dos estudantes brasileiros na rede particular no ensino superior vem se intensificando. Em 2006, 76,4% dos estudantes freqüentavam universidades particulares, e apenas 23,6% estavam em estabelecimentos públicos. No entanto, mais da metade dos estudantes que freqüentam o ensino superior na rede pública (54,3%) pertenciam aos 20% mais ricos. Ainda, segundo o IBGE (2007), no Brasil, o analfabetismo atinge 14,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais e está concentrado nas camadas mais pobres, nas áreas rurais, especialmente do Nordeste, entre os mais idosos, de cor preta e parda. Por outro lado, é importante notar que, entre 1996 e 2006, o percentual de jovens de 15 a 24 anos analfabetos reduziu-se bastante, chegando a 5,8%. Os cursos de alfabetização e de educação de jovens e adultos (Educação de Jovens e Adultos - fundamental e médio) atenderam, em 2006, cerca de 2,5 milhões de pessoas com idade superior a 15 anos, das quais aproximadamente 40% residiam no Sudeste. A maior freqüência é no supletivo fundamental (35,8%), seguida pelo supletivo do ensino médio (33,3%) e, por último, pela alfabetização de adultos (30,9%). Apenas 6,6% tinham idade superior a 60 anos. As pessoas de cor preta e parda estavam sobre-representadas (59,5%), em relação às de cor branca (39,9%) — na distribuição da população como um todo —, os brancos somam quase 50%, e 118 os pretos e pardos, 49%. Em síntese os dados mostrados anteriormente revelam que as desigualdades têm diferentes expressões na área educacional, tais como: ingresso, abandono, repetência, concentração de renda, entre outras. Segundo dados do IBGE (2006), embora ainda seja baixa, a média de anos de estudo da população, vem melhorando ano a ano. De 1996 para 2006, essa média passou de 5,7 para 7,2 anos de estudos para as pessoas com 15 anos ou mais de idade, o que representa um aumento de apenas 1,5 anos no período. A mesma pesquisa acima citada no decênio 1996/2006, já sob a perspectiva neoliberal, afirma que considerando os diferentes segmentos etários, percebe-se uma nítida melhora. A média de anos de estudo para as crianças de 11 anos de idade era 3,4 em 2006, frente a 2,6 anos em 1996 – nessa idade, a criança deveria estar com 4 anos de estudo concluídos. Já no caso dos jovens de 15 anos de idade, que deveriam ter 08 anos de estudo completos, a média era de 6,5 anos de estudo em 2006, contrastando com 5,2 anos em 1996. A média em torno de 8,5 anos de estudo, que representaria a conclusão das primeiras oito séries do ensino fundamental, só era alcançada em 1996 pela população de 18 anos – em 2006. Em 2006, a média de anos de estudo subia gradativamente até a faixa etária de 20 a 24 anos, quando alcança o valor máximo, de 9,1 anos de estudo. Já no grupo entre 25 a 59 anos de idade, a média voltava a cair (7,4 anos) e entre a população de 60 anos ou mais, era de 3,8 anos de estudo. Na faixa etária de 10 a 16 anos, os moradores do Sul tinham a maior média de anos de estudo; de 17 anos de idade em diante, o Sudeste tinha as médias mais elevadas. Na mesma pesquisa constatava-se uma média maior de anos de estudo para as pessoas situadas entre os 20% mais ricos na distribuição de renda do país. Enquanto no primeiro quinto (os 20% mais pobres), a média era de 3,9 anos de estudo; para o quinto superior, era de 10,2 anos. No Nordeste, a média de anos de estudo para as pessoas no primeiro quinto era de apenas 2,9 anos, contra 5,0 no Sudeste. Entre os 20% mais ricos no Nordeste, a 119 média era de 8,1 anos, contra 10,8 anos para a mesma faixa no Sudeste. A questão é tão complexa que optamos por fazer um uso reiterado dos indicadores sociais capazes de contribuir para a problemática em tela. Um dos limites do estabelecimento de cotas nas universidades públicas é cair numa armadilha que a desigualdade pode ser enfrentada através das cotas. É difícil, frente aos indicadores, enfrentá-las só com medidas paliativas como as cotas nas universidades. No que diz respeito à distribuição da população por grupos étnicos, os dados do IBGE (2006) parecem corroborar as tendências já anotadas para a década, houve um pequeno aumento da participação da população preta (6,9%) e de diminuição, também pequena, da branca (49,7%) e da parda (42,6%). Entre os indicadores sociais para o grupo de brancos, de um lado, e pretos e pardos, de outro, dois conjuntos merecem destaque: os que se referem à educação e os que dizem respeito à participação econômica. Em relação à educação, as taxas de analfabetismo funcional e freqüência escolar continuam apresentando diferenças significativas. Em números absolutos, em 2006, entre cerca de 14,4 milhões de analfabetos brasileiros, mais de 10 milhões eram pretos e pardos. As taxas de analfabetismo para a população de 15 anos ou mais de idade foram de 6,5% para brancos e de mais que o dobro, 14%, para pretos e pardos. A taxa de analfabetismo funcional também era muito menor para brancos (16,4%) do que para pretos (27,5%) e pardos (28,6%). A média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais de idade mostrava uma vantagem de 02 anos para brancos (8,1 anos de estudos), em relação a pretos e pardos (6,2). A distribuição por cor ou raça dos que freqüentavam escola com idade entre 18 e 24 anos mostrava também significativas diferenças: enquanto 56% dos brancos nessa faixa eram estudantes de nível superior ou terceiro grau, entre pretos e pardos, o percentual era de 22%. Em 1996, essa distribuição dos estudantes, nessa faixa de idade, era de 30,2% para os brancos e 7,1% para os pretos e pardos. Tais resultados mostram uma melhora para ambos os segmentos em relação à defasagem idade e curso freqüentado. Uma conseqüência desses diferenciais pode ser percebida entre as 120 pessoas de 25 anos ou mais de idade que alcançaram 15 anos ou mais de estudo, ou seja, haviam completado o nível superior. No Brasil, em 2006, apenas 8,6% possuíam esse nível de escolaridade, sendo que, nesse grupo, 78% eram de cor branca, 3,3% de cor preta, e 16,5% eram pardos. Mais de 12% dos brancos haviam concluído o terceiro grau, enquanto para pretos e pardos a participação não alcançava 4%. Os rendimentos médios de pretos e pardos se apresentavam sempre menores que os dos brancos. Mesmo quando são considerados os rendimentos-hora de acordo com grupos de anos de estudo, as diferenças permaneciam, com o rendimento-hora dos brancos em média 40% mais elevado que o de pretos e pardos para uma mesma faixa de anos de estudo. A pesquisa IBGE (2006) apontou, que o rendimento das famílias influiu no acesso e na permanência dos 48,4 milhões de crianças e jovens com até 14 anos na escola. Grande parcela das famílias (40,4%) com crianças e jovens nesta faixa estava, em 2006, entre as mais pobres do país, com rendimento mensal per capita de até ½ salário mínimo. Esta situação é mais preocupante no Nordeste, onde 63,1% de famílias com crianças até 14 anos de idade estavam na faixa mais baixa de rendimento, resultado da conjugação de uma fecundidade mais elevada e de um nível maior de pobreza. Em Alagoas (69,2%), Ceará (67,6%) e Piauí (66%), a maioria das famílias com crianças ou adolescentes pertenciam a menor faixa de rendimento, enquanto em Santa Catarina, apenas 16,6% das famílias estavam nessa situação (IBGE, 2007). Nessas famílias mais pobres, apenas 9,9% de crianças na faixa entre 0 a 3 anos freqüentavam creches, provavelmente em razão da pouca oferta de vagas em creches públicas. Se considerarmos as famílias com rendimento mensal per capita de mais de 3 salários mínimos, o acesso à creche e ao préescolar cresce para 40,7% das crianças. Esse percentual era de 15,5% no total das famílias. Embora ainda reduzido, o percentual de crianças nas creches dobrou em 10 anos já que em 1996 era de 7,4%. Quanto ao acesso das crianças de 4 a 6 anos das famílias mais pobres à pré-escola, o percentual era de 68,1%, enquanto nas famílias com mais de 3 salários mínimos mensais per capita, o acesso estava praticamente universalizado, 121 ficando em torno de 95%, em todas as regiões. O rendimento das famílias tem maior influência no início da vida escolar das crianças (creche e pré-escola) e no ensino médio (15 a 17 anos), sendo menos sentida no ensino fundamental (6 a 14 anos), que é obrigatório e está praticamente universalizado. Entre os 20% mais pobres, 72,7% estavam matriculados no ensino médio, enquanto entre os 20% mais ricos, eram 93,6%. Quando se considera o percentual de jovens entre 18 a 24 anos que estudavam (51,5%) das famílias mais ricas representavam mais que o dobro daqueles das famílias mais pobres (24,6%). Mais da metade (50,6%) dos jovens entre 18 e 19 anos trabalhavam, dos quais apenas 20% conciliavam o trabalho com os estudos. O percentual de rapazes nessa faixa de idade que trabalhavam (60,8%) era superior ao das moças (40,5%). Dedicavam-se aos afazeres domésticos, 17,2% dos jovens. Já no grupo de 20 a 24 anos, 64,4% trabalhavam e destes apenas 14,7% trabalhavam e estudavam. Mais da metade (54,5%) dos jovens trabalhadores entre 16 anos (idade a partir da qual o trabalho é permitido no país) e 24 anos recebem até um salário mínimo e cumprem uma jornada de 40 a 44 horas semanais. O acesso e a permanência no setor educacional analisados conjuntamente produzem um indicador importante, por isso é necessário associá-lo para que possa dar uma interpretação correta dos dados. Singer (Apud Luis Estensoro, 2003, p. 172) após analisar os dados contidos no documento Desigualdade de Rendimentos no Brasil nas décadas de 80 e 90: evolução e principais determinantes69 apresenta uma posição diferenciada de muitos autores, concluindo que a extrema desigualdade no Brasil não é determinada pelo fator educação, como sugerem alguns estudos, mas pela extrema concentração de renda nas mãos de 1% (ou 5%) mais ricos da população. Aqueles que são excluídos de um salário, de prestígio social ou de direitos legais são precisamente aqueles que têm menos recursos porque outros têm demais. Também refuta o argumento que os encargos trabalhistas e a indexação dos salários seriam a causa da ampliação do mercado informal de trabalho e do número de autônomos, apontando como causa desta tendência a própria desproletarização (diminuição do emprego formal) perpetrada por uma 69 O documento mencionado foi publicado pelo IPEA em junho de 2001 no texto para discussão número 803 de autoria de Lauro Ramos e Maria Lúcia Vieira. 122 grande mudança estrutural de alcance mundial com a Terceira Revolução Industrial. Singer (2003, Idem) ao assinalar que os marxistas diferenciam exploração de exclusão, não deixa de dizer que o importante é que a exclusão de alguns intensifica a exploração de outros. A sobre oferta de mão-de-obra desqualificada pressiona os salários dos trabalhadores para baixo, assim como o crescimento da terceirização e da informalização das relações de trabalho já afeta trabalhadores qualificados e empregados com diploma universitário, bem como a longa jornada de trabalho de alguns implica no desemprego de outros. Uma vez que a perda do emprego formal representa o mais importante processo verdadeiro da expressão da questão social, é possível dizer que a abertura do mercado à competição externa, que começou em 1990 e se acelerou em 1994, “está altamente correlacionada com essa exclusão”70. A desregulamentação do mercado de trabalho tem reforçado também essa tendência para a informalidade. Para André Urani (1995, pp-5-38), o mercado de trabalho brasileiro se caracteriza pelo elevado grau de informalidade das relações de trabalho e ausência de um sistema de seguro desemprego, bem como pelo incentivo indireto que uma série de mecanismos institucionais dá à alta rotatividade da mão-de-obra — sobretudo para trabalhadores menos qualificados —, e que resulta ser um dos principais processos de impedimento da cidadania. Outras características do mercado de trabalho brasileiro são a baixa intensidade e a forte desigualdade em termos de capital humano. Ao contrário de Singer, Urani (idem, 1995) acredita que a desigualdade de oportunidades de permanência e de êxito no sistema educacional resulta ser a principal causa da desigualdade de renda no Brasil. “Em outras palavras, o mercado de trabalho não pode ser responsabilizado pela totalidade da desigualdade de renda no Brasil, visto que ele absorve pessoas cujas capacidades de produzir são extremamente diferenciadas” (Idem, ibidem). Apesar da melhoria das condições de vida dos pobres estar associada “sistematicamente” ao crescimento econômico, a velocidade em que se deu o desenvolvimento social foi sempre menor que a do desenvolvimento 70 Sempre que usarmos o termo exclusão entenda-se como inclusão de forma excludente. 123 econômico. Por isso, Urani (Idem) se pergunta se é preciso aumentar a taxa de crescimento do PIB para gerar renda, e se é preciso gerar mais empregos e mais renda para aumentar o grau de desenvolvimento social no Brasil. Mais ainda, afirma que o crescimento econômico pode não ser considerado como necessário e muitos menos como suficiente para reduzir a pobreza. Vejamos seu argumento: Urani (Apud. Estensoro, idem, p. 173) demonstra que de 1980 a 1995 o estancamento do crescimento econômico não inibiu o processo de criação de empregos na economia brasileira, embora tenha comprometido a qualidade dos empregos gerados, pois ocorreu uma expansão do mercado de trabalho com empregos desprotegidos, precarizados e informais. O preço de um mercado flexível, que gera empregos apesar do pouco crescimento, foi a queda na produtividade média do trabalho e no salário real médio registradas na década de 1980. Assim, para este autor o principal problema da economia brasileira “definitivamente” não é a incapacidade de gerar empregos. Pelo contrário, muitos dos empregos de má qualidade que estão sendo gerados estão sendo destinados a crianças e adolescentes que deveriam estar no sistema escolar. Para colocar essas crianças na escola, em primeiro lugar seria preciso uma melhoria da qualidade do ensino, e depois um programa de transferências maciças em dinheiro às famílias ou aos indivíduos mais pobres, nos moldes do imposto de renda negativo. Ainda segundo Urani (Ibidem), é preciso também melhorar a qualidade do emprego, com reformas institucionais e aumento do grau de formalização das relações trabalhistas, bem como incentivar o crescimento sustentável, por meio de instrumentos de planejamento econômico para direcionar políticas públicas (redirecionando o gasto público para setores que gerem mais empregos para mão-de-obra qualificada) e a própria política macroeconômica (com uma política voltada para a eficiência da produtividade de setores chave, como o alimentar). A existência de um padrão de crescimento nãoconcentrador, que se traduza em aumentos de salários reais, ao mesmo tempo em que aumenta a parcela dos salários no PIB, é fundamental. 124 Há uma década já comentava José Marcio Camargo71 que, no longo prazo, a solução definitiva para a pobreza exige um aumento do capital físico e humano (educação) em poder dos pobres. No curto prazo, a solução do problema depende de programas de transferência de renda dos não-pobres para os pobres. Atualmente ocorre o inverso: uma parcela substancial dos recursos gastos nos programas de transferência de renda é apropriada pelos não-pobres. Entre eles estaria a educação pública superior, que é utilizada na sua maioria pelos não pobres. Sérgio Abranches72 acredita que a desigualdade é um fenômeno de longa duração, ao contrário do que ocorre com as medidas de renda, que variam entre cada período (inclusive variam pelo caráter informal da renda, o que explica a existência de aumentos do bem-estar e do consumo não compatíveis com o nível de renda). Esta “desigualdade durável” evidencia pelo menos três pilares no Brasil: a segregação racial, a discriminação das mulheres e os privilégios conferidos pelo Estado aos mais ricos. É importante ressaltar que foi possível a esfera pública, sobretudo nos últimos anos, incorporar um maior número de alunos, porém com a qualidade de ensino duvidosa e baixos investimentos esta esfera se precarizou. Assim sendo, há uma contradição entre aumentar o número de alunos nas escolas e manter a qualidade de ensino em níveis elevados. É essa a expectativa que pretendemos refletir através destes debates. 2.2 Publico e Privado: Tensões Históricas de Significações Importantes Para a Política de Cotas É importante ressaltar que nas últimas décadas tem havido uma espécie de banalização do sentido da coisa pública pelo acúmulo de reivindicações sociais e pela descaracterizante presença do Estado. Banalização esta que reflete a precarização da esfera pública promovida pelos ajustes neoliberais. Neste contexto faz-se mister ressaltar o verdadeiro sentido da esfera pública. Estudiosos do assunto, como por exemplo Habermas (1984) e Hannah Arendt (1992), afirmam que os conceitos de público e privado tiveram sua 71 72 VER: CAMARGO, José Marcio. “Mãos a obra, Senador!” Folha de São Paulo, 11 ago. 1999. VER: ABRANCHES, Sergio. “Desigualdade durável.” Veja, 10 nov. 1999. 125 origem na Grécia Clássica. Deve-se salientar, entretanto, que sua existência concreta, ainda que não necessariamente sua conceituação ou formalização jurídica, remonta à época das sociedades primitivas onde surgiu uma cisão entre uma maioria responsável pela produção da riqueza social e uma minoria que se apropriava desta riqueza. A diferença entre o interesse coletivo e interesses particulares, individuais ou familiares tem origem na criação de um excedente econômico, fruto da divisão de trabalho social, que permitiu o aparecimento de grupos sociais que se beneficiavam de uma apropriação privada da riqueza produzida coletivamente. Essa diferenciação se acentuou ao longo da história, particularmente no capitalismo, regido por uma produção cada vez mais social, porém uma apropriação cada vez mais privada. Marx e Engels em a Ideologia Alemã (2002, p.39) apontam que “a divisão do trabalho implica ainda a contradição entre o interesse do indivíduo singular ou da família singular e o interesse coletivo de todos os indivíduos que se relacionam entre si” . A esfera pública como conceito ou categoria teria surgido nas cidadesEstado da Grécia Clássica para designar a esfera da polis, da atuação dos cidadãos, definidos pela condição de proprietários de terras e escravos. A esfera pública era definida como o espaço da liberdade, ao contrário da esfera privada, a esfera doméstica, onde se realizava a reprodução da vida, o trabalho dos escravos, o serviço das mulheres, era definido como o espaço da necessidade. A condição para a participação na esfera pública era a de ser livre do trabalho produtivo, de gozar a autonomia privada. A partir desta constatação, supor que tais esferas fossem rigorosamente separadas incorre em um equívoco, segundo o pensamento de Habermas (1984, p.15). A existência da esfera pública está condicionada, ainda que existam espaços distintos, à produção de um excedente necessário para manter os senhores em suas atividades políticas e livres do trabalho produtivo. Pode-se afirmar que na formação dos Estados burgueses modernos algo semelhante ocorreu, quando a cidadania política era condicionada a uma certa renda ou propriedade. As categorias ‘público’ e ‘privado’ foram retomadas pela burguesia em sua ascensão e luta contra a aristocracia e o absolutismo monárquico. Na sociedade civil que se constitui na época moderna, os indivíduos são 126 divididos entre si e independentes um do outro. A este individualismo da época moderna, ligava-se intimamente uma liberdade, principalmente uma liberdade negativa. Marx, em A Questão Judaica, analisando os direitos do homem e do cidadão, contidos na Constituição Francesa de 1793, afirma que a “liberdade individual (...) juntamente com sua aplicação, constitui o alicerce da sociedade civil. Leva todo homem a ver em outros homens não a realização, mas a limitação da sua própria liberdade. (MARX, 1977, p. 229-230) A diferença entre o público e o privado é explicitada em A questão judaica entre o homem genérico e coletivo que existe para a comunidade política (Estado) e o homem real e particular: “O Estado político pleno é, em sua essência, a vida genérica do homem por oposição à sua vida material. As premissas desta vida egoísta se mantém em pé, à margem da defesa do Estado na sociedade civil, mas como qualidades próprias desta”. Marx explicita, em A Questão Judaica, a forma política de reconhecimento da propriedade privada: Não obstante, a anulação política da propriedade privada, ao contrário e longe de destruir a propriedade privada, a pressupõe. O Estado anula, a seu modo, as diferenças de nascimento, de status social, de cultura e de ocupação, ao declarar o nascimento, o status social, a cultura e a ocupação do homem como — diferenças não políticas, ao proclamar todo membro do povo, sem atender a estas diferenças, co-participante da soberania popular em base de igualdade, ao abordar todos os elementos da vida real do povo do ponto de vista do Estado. Contudo, o Estado deixa que a propriedade privada, a cultura e a ocupação atuem a seu modo, isto é, como propriedade privada, como cultura e como ocupação, e façam valer sua natureza especial. Longe de acabar com estas diferenças de fato, o Estado só existe sobre tais premissas, só se sente como Estado político e só faz valer sua generalidade em contraposição a estes elementos seus. Por isto Hegel determina, com toda exatidão, a atitude do Estado político em face da religião, ao salientar: "Para que o Estado adquira existência como realidade moral do espírito que se conhece a si mesma, é necessário que se distinga da forma da autoridade e da fé; esta distinção só se manifesta na medida em que o lado eclesiástico chega a separar-se em si mesmo; somente assim, sobre igrejas especiais, o Estado adquire e leva à existência a generalidade do pensamento, o princípio de sua forma" (HEGEL, Rechtsphilosophie, p. 346). Com efeito, só assim, acima dos elementos especiais, o Estado se constitui como generalidade. (idem) Ainda na A Questão Judaica, com relação aos direitos fundamentais, Marx observa que a ascensão política do homem acima da religião partilha de todos os inconvenientes e de todas as vantagens da ascensão política em geral. O Estado como tal anula, por exemplo, a propriedade privada. O homem declara abolida a propriedade privada de modo político quando suprime o 127 aspecto riqueza para o direito de sufrágio ativo e passivo, como já se fez em muitos Estados norte-americanos. Os elementos de conformação da ordem burguesa – a propriedade privada absoluta, a crença religiosa como assunto privado, a nova concepção do indivíduo e liberdade, foi gestada desde o final da Idade Média e ao longo da Idade Moderna, da estrutura fundante daqueles elementos, o modo de produção capitalista, com a generalização da produção de mercadorias e a transformação do trabalho humano numa mercadoria também. Karl Marx (1996) nos revelou os vínculos político-econômicos entre público e privado, dados pelo modo de produção capitalista. O vínculo político, segundo Marx, é representado pela solução corporativo-institucional chamada "Estado" e sua dimensão pública. O vínculo econômico, surgido em função do modo de produção capitalista, integra dois mecanismos para sua realização: um público - o tempo de trabalho socialmente necessário, disponível na mão de todos, e um privado - a acumulação do capital, que o novo modo de produção exigirá que seja restrito a poucos. Todo pensamento deve ter em conta o dinamismo dos fenômenos ou da história e mostrar-se sensível às contradições que estes apresentam. O sujeito da análise se constitui conjuntamente com as transformações que levam ao modo especificamente capitalista de produção. Este sujeito não é nem o capitalista individual, nem os produtores tomados em sua individualidade, senão o próprio capital, e o trabalho coletivo como sua extensão. Marx (2004, p. 89) analisa de duas maneiras este processo: no Capítulo Inédito, mediante uma contraposição entre a forma não desenvolvida do capital (dominação formal) e a forma específica ou plenamente desenvolvida (dominação real)73. 73 Segundo a compreensão marxiana, o mercado é o elemento constituinte das relações sociais do novo modo de produção, como lugar de circulação e troca do capital: nele se colocam, de um lado, os compradores da força de trabalho, isto é, os proprietários do capital e, do outro lado, os vendedores, que só dispunham de sua força de trabalho, que se constitui em típica mercadoria, o principal produto a ser obtido no mercado. Cabe, portanto, analisar o modo de produção capitalista como o processo pelo qual a relação de propriedade — entendida esta como controle efetivo dos instrumentos de produção, e não apenas sob a forma jurídica de que se reveste (propriedade jurídica) — liberta-se dos nexos pessoais e políticos de que se revestia nos modos de produção pré-capitalistas. Este processo, no entanto, não termina pela simples dissociação entre os produtores diretos e seus instrumentos, que de início instaura uma dominação econômica, porém, apenas formal, de uma classe sobre outra. Mas sim pela dominação real, que faz revelar a verdadeira essência do econômico. Isso vai ocorrer, com a grande indústria, pela transformação do processo de trabalho, que faz dos produtores diretos uma simples extensão do capital à relação formal 128 Nas últimas décadas as classes dominantes começaram a extravasar uma subjetividade anti-pública, uma ideologia anti-estatal, que demonstram o desprezo pela questão social. Como num "passe de mágica", parece que tanto a acumulação de capital quanto seus próprios cotidianos, podem realizar-se, reproduzirem-se sem o Estado. Este, aliás, como disse Francisco de Oliveira (1998, p. 220), aparece como um estorvo. O que caracteriza o momento atual, diz o autor, é a desuniversalização da dominação, que se redefine como apenas dominação, des-democratiza, descidadaniza e transforma-se em algo que se fundamenta em nossa herança autoritária brasileira. Neste sentido a questão do público e privado, seu sentido na construção do campo democrático, na universalização da cidadania, na construção e efetivação do direito deve fazer parte da agenda política dos que defendem essas causas74. O significado de público, privado e estatal, e a delimitação de suas esferas fazem parte das pesquisas e debates no âmbito das Ciências Sociais e Ciências Políticas, podendo se afirmar que existem múltiplos significados sobre esses conceitos75, conforme as diferentes fases históricas em que se inserem e a abordagem de cada autor. Na realidade, o que é publico e o que é privado pode ser interpretado por diversas vertentes de análise. A escolha de uma de apropriação passa a corresponder uma relação real, o trabalhador isolado dá lugar ao trabalhador coletivo, de tal maneira que o capitalista e o trabalhador passam a se constituir em simples suportes de uma relação mais ampla de dominação. Na visão de Marx a dominação real do capital implica a dominação absoluta do capital sobre o trabalho, a qual só pode dar-se mediante a socialização não só do processo de trabalho imediato, como também da escala em que o capitalista é proprietário e detentor dos meios de produção. A análise do processo pelo qual se constitui a dominação absoluta ou real é feita de forma muito incisiva em O Capital em seus capítulos XI, XII e XIII. 74 Concordamos com Chauí (loc. cit, p. 14-15) quando afirma que “em nossa sociedade, a indistinção entre o público e o privado não é uma falha ou um atraso, mas é, antes, a forma mesma de realização da sociedade e da política”: não apenas os governantes e parlamentares praticam a corrupção sobre os fundos públicos, mas não há percepção social de uma esfera pública das opiniões, da sociabilidade coletiva, da rua como espaço comum, assim como não há a percepção dos direitos à privacidade e à intimidade. Do ponto de vista dos direitos sociais, há um encolhimento do espaço público; do ponto de vista dos interesses econômicos, um alargamento do espaço privado. 75 Os conceitos de “público” e “privado” tornam-se complexos, numa sociedade fragmentada em classes. Como já vimos, o surgimento do Estado está ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e, com estas a divisão social do trabalho e a progressiva fragmentação da sociedade em classes. Em sua forma mais desenvolvida o Estado moderno — ou capitalista — ao garantir o “bem público”, garante, no âmbito político/jurídico ideológico, a exploração do capital sobre o trabalho, a exploração de uma classe minoritária sobre a outra majoritária. Portanto, o Estado moderno é uma exigência absoluta para assegurar e proteger a produtividade do sistema capitalista. Trata-se de um elemento corretivo necessário, para poder exercer o controle abrangente sobre as forças insubmissas que emanam de unidades produtivas isoladas do capital, um sistema reprodutivo social, antagonicamente estruturado. 129 determinada abordagem explicita o projeto político que se deseja construir.76 Desse modo, a relação do público e privado auxiliará no debate que faremos sobre políticas sociais de cotas que constituem o universo de implementação das chamadas ações afirmativas77. Conforme Iamamoto (2001, p.101) afirma, as desigualdades que presidem o processo de desenvolvimento do Brasil têm sido uma de suas particularidades históricas. O moderno se constrói por meio do arcaico, recriando nossa herança histórica patrimonialista ao atualizar marcas persistentes e, ao mesmo tempo, transformando-as no contexto de mundialização do capital sob hegemonia financeira. A noção de desenvolvimento desigual é usada em sua acepção clássica, por Marx na “Lei geral da acumulação capitalista”: a desigualdade entre o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social, entre a expansão das forças produtivas e as relações sociais na formação capitalista. Revela-se como reprodução ampliada da riqueza e das desigualdades sociais, fazendo crescer a pobreza relativa à concentração e centralização do capital, alijando segmentos majoritários da sociedade do usufruto das conquistas do trabalho social78. Por tudo que foi exposto observa-se que o sistema capitalista gera as desigualdades de oportunidades entre as pessoas, necessitando de uma 76 Para melhor entendimento MINTO (2006) sintetiza de forma clara o Estado moderno — não só capitalista, mas sim do capital, e portanto controlado pela classe proprietária dos meios de produção —, é um “partícipe intrínseco da lógica do capital”. Sua função de garantir a propriedade privada, no entanto, não elimina seu caráter contraditório de ente que se funda sobre uma base material de relações sociais também contraditória. Com isso impôs-se a “necessidade de promover certa socialização da política” levando, de fato, a muitas conquistas históricas e à cristalização da idéia de que, como função legitimadora a lógica da democracia ou da integração social democrática está atrelada ao Estado. (MINTO, Lalo Watanabe. As reformas do ensino superior no Brasil: o público e o privado em questão. Campinas, Autores Associados. 2006, p. 38) 77 Para isto devemos compreender a educação na visão marxista de Antonio Gramsci. No século XX, o filósofo Italiano Antônio Gramsci defendia uma função social diferente para a educação. Em sua avaliação, ela deveria formar pessoas não para ocupar espaços já previamente determinados, mas sim para serem capazes de gerar mudanças na sociedade, tornando-a mais justa e igualitária. Já Pierre Bourdieu afirma que a educação perde o papel que lhe fora atribuído de instância transformadora e democratizadora das sociedades e passa a ser vista como uma das principais instituições por meio do qual se mantém e legitimam os privilégios sociais. As duas afirmações foram feitas pelo professor Dr. José Carlos Libâneo no encarte suplemento do professor do jornal “Folha Dirigida” ano 2005, página 141. 78 Assim sendo, uma sociedade que se ergue sob relações desiguais, de exploração do homem pelo homem, de classes antagônicas, o conceito de público nada mais é do que uma emanação ideológica da classe dominante no seu esforço em tornar “universais” os seus interesses de classe como os únicos possíveis, equivalentes suposta “razão humana” natural. A falta da materialidade histórica não pressupõe que a concepção de público seja exatamente “público”, ou seja, sua realização, enquanto efetivo interesse geral, é impossível. MINTO (2006, p. 43) “afirma a impossibilidade fundada na divisão social do trabalho e nas formas de alienação e estranhamento da auto-atividade humana dela decorrentes, que as transformam apenas em atividades negativas, de não-realização das potencialidades humanas”. 130 esfera pública comprometida com as classes e camadas subalternas que implemente políticas sociais; que produzam processos capazes de engendrar a emancipação e libertação do homem e tornem a sociedade mais igualitária e menos injusta. Neste sentido, concordamos com Coutinho (1997, p.163) quando menciona que seria unilateral identificar pura e simplesmente a modernidade com o capitalismo, como o fazem todos os que parecem supor que uma modernidade se torna “moderna” quando está plenamente integrada na lógica da atual globalização capitalista. É preciso, diz Coutinho (Idem, p. 163), “conceber a modernidade também pelo ângulo da ampliação e da universalização da cidadania”, ou seja, concebê-la como uma época histórica marcada pela promessa da plena emancipação do homem de todas as opressões e alienações de que tem sido vítima, a maioria das quais produzidas e reproduzidas precisamente pelo capitalismo. Nesse sentido, podemos dizer que as possibilidades que a modernidade abriu para a humanidade – as generosas promessas de emancipação que ela criou – ainda não foram realizadas “(COUTINHO, idem). Por isso, conforme observou Francisco de Oliveira (1999, pp.72-73), é importante lembrarmos a velha lição dos Manuscritos Econômico-filosóficos de Marx e Engels. Para o autor A falência do Estado constitui a pedra de toque da privatização do público. Este aparece como desnecessário. Uma reforma do Estado que o faça parecer-se com essa objetividade subjetivada, vale dizer, com a empresa privada e com a experiência burguesa cotidiana, constitui a reificação quase necessária desse movimento [...] A crise do Estado, vista do ângulo de sua impotência para deter, realmente , o monopólio da violência legal, é uma conseqüência, objetivamente, de sua dilapidação financeira, e, subjetivamente, da falsa consciência da desnecessidade do público pelas burguesias e seus afiliados. (OLIVEIRA,idem) O que a destruição do público opera em relação às classes dominadas, é a destruição de sua política, o roubo da fala, sua exclusão do discurso reivindicativo e, no limite, sua destruição como classe; seu retrocesso ao estado de mercadoria, que é o objetivo do neoliberalismo (OLIVEIRA, Idem). Gilberto Dupas (2003, p.09), também acha fundamental abordar as tensões contemporâneas entre o público e o privado. Demonstra o autor que estas tensões envolvem indivíduos, o Estado e a Sociedade. Há uma exploração dos dilemas da liberdade, pressionada dentro dos limites cada vez 131 mais confusos entre o espaço público e o espaço privado. Dupas (Idem) critica a tendência das ciências sociais a esvaziar-se como projeto de conhecimento crítico e de legitimação, passando a configurar como modalidade de gestão operacional da realidade; os direitos das pessoas se afirmaram, com toda sua carga de particularismo privados, sobre os direitos universais dos homens; e os grandes relatos que davam sentido à modernidade foram reduzidos à fragmentação de particularismos. Faz um alerta que a democracia é a luta permanente dos sujeitos contra a lógica dominante dos sistemas e que a mesma está ameaçada por duas frentes: o individualismo extremo e a desagregação das sociedades política e civil. Wanderley Guilherme dos Santos (Apud ABRANCHES et al,1994, p. 34), destaca que os romanos não sabiam como resolver definitivamente o problema da miséria, ou de um modo geral, o problema da justiça social. As sociedades industriais modernas também ignoram como fazê-lo. O autor afirma que a escolha da política social implica essencialmente a escolha de um princípio de justiça, consistente e coerente, cuja superioridade em relação a outros princípios pode ser demonstrada. No caso da política de cotas, os indicadores nos mostram o percentual desprezível de negros, índios e alunos oriundos de escolas públicas que conseguem obter acesso às Universidades Públicas. Assim sendo, há uma necessidade iminente de acabar com esta expressão da desigualdade, criando mecanismos temporários de reserva de vagas nas Universidades e uma melhora significativa da qualidade das escolas públicas de educação básica79. A complexidade entre as esferas público e privado também foi observada por Bobbio (1992) para quem a antinomia público/privado pode ser definida considerando-se público, tudo que é manifesto, que pode ser aberto ao público e privado, o seu contrário. Para Bobbio (loc.cit. p.28) estas conceituações são historicamente contextualizadas, e podem abarcar significados diversos, de 79 Um dos paradigmas de análise nesta contextualização do público é o de Habermas (1984), segundo o qual a origem da categoria “público” surge com a gênese da sociedade burguesa. Habermas (1984, p. 91) aponta para a interpenetração progressiva entre as duas esferas: o público politizado encontra o seu lugar, sobretudo nos encontros privados dos burgueses. Nos últimos decênios do século XVIII as revistas em expansão (mesmo as revistas políticas) são diretamente pontos de cristalização da vida social entre as pessoas privadas, deixando-se distinguir perfeitamente que as delimitações destas categorias não implicam somente na oposição entre as mesmas, tendo cada qual sua abrangência limítrofe até o início da outra, tornando o debate sobre a delimitação deste conceitos realmente controvertido. 132 acordo com o momento de análise: Também esta distinção é conceitual e historicamente relevante, mas num sistema conceitual e num contexto histórico diversos daqueles em que se inserem a grande dicotomia. Tão diversos que a grande dicotomia mantém intacta a sua validade mesmo quando a esfera do público entendida como esfera de competência do poder público, não coincida necessariamente com a esfera do público entendida como esfera onde se dá o controle do poder público por parte do público (BOBBIO, idem). A partir da análise de Bobbio, deve-se considerar que o público e o privado não se excluem mutuamente, uma vez que são dimensões que se entrelaçam no decorrer do processo histórico – o público assume feições privadas e o privado assume feições públicas, como Habermas (1984) aponta, a partir do segundo quartel do século XIX. Essa interpenetração assume nuances mais acentuadas, com o neoliberalismo, a partir da década de 1970, em países onde o capitalismo não se desenvolve de forma dependente e na década de 1990, em países como o Brasil. Ao se enfocar o Estado sob um prisma liberal, vê-se que aí vige a idéia de afastá-lo ao máximo das relações de produção. A atuação do Estado fica restrita à proteção da propriedade e ao controle da esfera monetária80. Tendo como suporte as teorias marxistas, Marilena Chauí (1999, p. 411) afirma que "longe de ser a expressão da vontade geral e do interesse geral, o Estado é a expressão legal – jurídica e policial – dos interesses de uma classe social particular, a classe dos proprietários privados dos meios de produção ou classe dominante". Neste contexto a política de cotas seria um instrumento democrático de minimizar as tensões entre a classe dominante e dominada, pois facilitaria o acesso desta última à Universidade Pública. O domínio comunal é coisa pública, são bens publicamente acessíveis, comuns, coletivos; oposta existe a esfera do particular, do particularizado, separado, privativo. O âmbito do que é setor público contrapõe-se ao que é privado, ou seja, "o particular é a liberação do próprio cerne do domínio fundiário e da esfera pública" (HABERMAS, 1984, p.78). Conforme Bobbio (1992, p.14), o surgimento das categorias “público” e 80 Para Vasconcelos (1988:p. 27): “Com o capitalismo monopolista e a crescente intervenção do Estado na economia, nas relações sociais e na reprodução, as velhas distinções entre a as esferas da economia, entre economia e política, privado e público, produção e distribuição são liquidadas” . 133 “privado” relaciona-se com as desigualdades sociais, o que significa que poderão desaparecer como categorias opostas quando tais desigualdades acabarem: Sejam quais forem a origem da distinção e o momento de seu nascimento, a dicotomia clássica entre direito privado e direito público reflete a situação de um grupo social no qual já ocorreu a diferenciação entre aquilo que pertence ao grupo enquanto tal, à coletividade, e aquilo que pertence aos membros singulares, ou, mais em geral, entre a sociedade global e eventuais grupos menores (como a família), ou ainda, entre um poder central superior e os poderes periféricos inferiores que, com relação àquele, gozam de uma autonomia, apenas relativa, quando dela não dependem totalmente (BOBBIO, idem) No cenário contemporâneo, o capitalismo nos traz novas determinações, apresentando-se mais complexo em suas contradições. Entretanto, no seu emaranhado de contradições, composto de rupturas e continuidades, sua essência, que constitui a sua determinação fundante, continua sendo a mesma: a preservação da propriedade privada e da acumulação de capital através da exploração da força de trabalho. Com base nesse reconhecimento não é possível desprezarmos o método e a tese de Karl Marx, principalmente, quando se trata de estudar a realidade concreta da sociedade regulada pelas mercadorias, e entender a funcionalidade da “igualdade” e da “universalização” instituídas pelo capitalismo. Juntamente com Engels, Marx procura explicar os fundamentos da estrutura social na sociedade capitalista. Com este intuito, Marx observa e estuda a ascensão da burguesia e do proletariado na Inglaterra, demonstrando, através do método materialista histórico dialético, as contradições de uma sociedade de classes. Em seus estudos, dá ênfase ao surgimento do capitalismo industrial inglês e à consolidação das nações e dos Estados modernos, deixando transparente que uma sociedade, norteada pela mercantilização de todas as coisas e do próprio homem, jamais poderá proporcionar a universalização da igualdade do acesso aos direitos no seu sentido mais amplo da “cidadania plena”. Foi assim na época do capitalismo concorrencial estudado por Marx; como também podemos dizer que há uma continuidade na fase dos grandes monopólios, embora com muitos avanços na Lei e com muitas conquistas/concessões de direitos; ratificando-se, na 134 contemporaneidade, com os neoliberalismo, vêm desmontando, que grandes oligopólios pouco a alimentados pouco, os pelo direitos conquistados historicamente. A experiência histórica atual evidencia como o capitalismo se revitaliza com a manutenção da desigualdade social, que traz como conseqüência a pobreza relativa e/ou absoluta81, não tendo a intenção de erradicá-la. Assim, mesmo que por interesses políticos e/ou econômicos se propague à intenção de erradicar a pobreza, essa jamais será extinta na sociedade capitalista, até porque está questão não esta não está na agenda do capital. Como podemos observar a pobreza - diferente daquela manifestada como carência de bens materiais nas sociedades pré-capitalistas -, no sistema capitalista, se tornou manifestação do processo de exploração desse tipo de sociedade, porém apresentando formas diferenciadas em cada fase do capital. No momento, é importante entendermos que, nos processos de manutenção da desigualdade social, realizado através do processo de acumulação de capital, a pobreza sempre vem a reboque. Segundo Silene Freire (2006) o maior contingente de pobres que se evidencia no mundo contemporâneo guiou a construção das estratégias recentes das agências multilaterais que revelam uma espécie de incentivo a criação de políticas pobres para pobres. Portanto, para compreendermos o verdadeiro sentido da “igualdade” e do “direito” na sociedade capitalista, faz-se mister recorrer a alguns textos de juventude e de maturidade de Karl Marx. Conforme destaca Weffort (1996), Marx, em seus estudos iniciais, datados entre os anos de 1841-1843, tem como primeira temática a questão do direito, da filosofia e da história. Precisamente, “o roteiro que vai do direito e da filosofia à economia pode ser entendido também como uma chave do método de Marx e como um critério para localizarmos o sentido que ele atribui à política” (WEFFORT, 1996, p.229). Assim, para debater a questão da “igualdade” e do “direito” na sociedade burguesa, a análise de Marx se expressa na revisão crítica da filosofia do Estado de Hegel, na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e, 81 Segundo Silene Freire (2006) A questão da pobreza sempre esteve presente nas obras de Marx desde os Manuscritos até O Capital. É óbvio que a pobreza analisada por Marx na época do capitalismo concorrencial não é a mesma pobreza que vivenciamos na contemporaneidade, que vem carregada de novas dimensões, afloradas com o processo de reestruturação produtiva gerido no âmbito da hegemonia do capital financeiro. 135 principalmente, na Questão Judaica, destacando a necessidade da emancipação humana. Muito depois, este debate é reiterado nas suas obras de militância política, como por exemplo, na Crítica do Programa de Gotha de 1875. Não podemos esquecer que, em sua maior obra de maturidade - O Capital -, contamos com uma análise que demonstra a contradição e complexidade da organização do modo de produção da sociedade capitalista, que tem como objetivo principal acumular capital através da exploração da força de trabalho, e jamais vislumbrar uma igualdade efetiva no acesso à propriedade, que só poderia ser possível numa sociedade sem classes sociais, numa sociedade sem propriedade privada, numa sociedade, na qual os meios de produção fossem propriedades coletivas. Desvendar esse processo de dominação, obviamente, não cabe a burguesia, a quem não interessa cavar a própria sepultura. No entanto, cabe destacar que a propriedade privada é o eixo central para manter a dominação do capital sobre o trabalho. Portanto, o direito a igualdade e a liberdade, em realidade tem como objetivo garantir a preservação da propriedade individual. Marx, ao desvendar o fetiche da mercadoria, desmonta a aparente igualdade entre os indivíduos, apresentada pelo “princípio da equivalência”. Como destacam Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista, sobre a postura dos donos da propriedade privada: Horrorizai-vos porque queremos suprimir a propriedade privada. Mas na sociedade atual, vossa, a propriedade privada está suprimida para nove décimos de seus membros; ela existe precisamente pelo fato de não existir para nove décimos. Censurai-nos, portanto, porque queremos suprimir uma propriedade que pressupõe, como sua condição necessária, que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade” (MARX ; ENGELS, 1998,p.24). Conforme a defesa de Marx e Engels (1998), essa propriedade, que deve ser abolida, não é o direito de ter condições dignas de moradia e de vida, mas é a abolição da propriedade privada dos meios de produção, e aí inclui a força de trabalho enquanto mercadoria apropriada pelo capital. As reflexões de Marx nos levam a entender que nos contratualistas Hobbes, Locke e Rousseau, a “igualdade”, preconizada não surge com o significado político, mas é apenas o igual direito à liberdade individual. E essa 136 liberdade, vista como direito natural, significa, nada mais nada menos, do que o direito de propriedade82. Na busca da preservação da propriedade privada, o homem, de uma determinada classe social, luta para fundamentar direitos que possam garantir os seus interesses privados. Uma luta que, contraditoriamente, representa concessão e conquista na dinâmica complexa da luta entre capital X trabalho. Portanto, cabe aqui destacar que a luta pelos direitos sociais também foi uma luta da classe trabalhadora; e muitos dos direitos instituídos – embora muitos não sejam garantidos para todos os cidadãos –, nas diversas Constituições dos Estados democráticos, representaram/representam um grande avanço no sentido de ser mais uma exigência a sua “universalização”. Uma exigência que surge na sociedade de classes e, para a sua garantia, faz-se necessário a superação deste modo de relações sociais, sendo uma demanda fundamental a abolição da propriedade privada. Com essa análise, Marx, desde os seus estudos de juventude a sua obra de maturidade, busca demonstrar, tendo como base à democracia da Antiguidade Clássica – fonte também de Rosseau –, que, embora a emancipação política, conforme defendida pela Revolução Francesa, seja um avanço, é insuficiente para garantir a verdadeira liberdade da humanidade. Podemos dizer que é, precisamente, em seu texto sobre a Questão Judaica, que a crítica aos direitos humanos na sociedade capitalista e a luta pela emancipação humana são destacados como parte das exigências para a superação da sociedade de classes. Marx, quando destaca a necessidade da emancipação humana, no seu sentido mais amplo, não está excluindo a emancipação política, pelo contrário, ele a inclui como parte do processo de superação da ordem capitalista. Suas críticas de juventude, neste contexto, se desenvolvem sobre as “revoluções burguesas”, demonstrando as limitações da emancipação política. Ou seja, emancipação política representa, para Marx, uma “revolução parcial”, uma “revolução que deixa de pé os pilares do edifício” (MARX, 1991, p.121). Significa que além de emancipar apenas uma parte da sociedade capitalista, a burguesia, ela instaura também sua dominação geral. 82 Anotações das aulas da disciplina Teoria Política, lecionada pela professora Silene Freire no primeiro semestre de 2006. 137 Na busca pela legitimação e regulamentação dos direitos, a sociedade em geral – tanto a classe burguesa e quanto a classe trabalhadora – brinda, com entusiasmo, as conquistas políticas, que se confundem como interesses de todos. Neste sentido, na ordem capitalista, “somente em nome dos direitos gerais da sociedade pode uma classe especial reivindicar para si a dominação geral” (loc.cit.p.122) Marx também demonstra, em a Crítica do Programa de Ghota, que a massa operária, ao propor o programa de Ghota, acaba incorporando, em seu texto, a idéia do “direito burguês”. Ele questiona, por exemplo, a ênfase dada ao “trabalho como fonte de toda a riqueza” e ao “direito igual”, destacando que a proposta, contida no primeiro parágrafo do Programa é igualmente falsa, pois reproduz a ordem social dominante. Segundo Marx (1984), o trabalho não é fonte de toda a riqueza, porque a natureza é a fonte dos valores de uso, que fornece objetos e instrumentos para que a força de trabalho em ação possa criar mais valor. Outro exemplo, que podemos apresentar com relação à crítica ao texto do Programa de Ghota, diz respeito à questão “supressão de toda desigualdade social e política”. Engels questiona e comenta, na carta que envia a Augusto Bebel destacando as falhas do Programa, que essa proposta é duvidosa, pois, em lugar de ressaltar a “supressão da desigualdade social e política”, deveria estar ratificado a “abolição de todas as diferenças de classes” (1984,p.33). Até porque, como ressalta Engels (1984), mesmo numa sociedade socialista, sempre existirá certo nível de desigualdade social; e justifica afirmando que a imagem criada, em torno da sociedade socialista, como o “império da igualdade”, é baseada na idéia francesa unilateral. Isto posto, fica evidente os limites da maneira que vêm sendo construído historicamente o “direito” e a “igualdade”, que não garantem a universalidade do acesso aos direitos sociais, políticos e civis. Isto porque, na sociedade capitalista, deparamo-nos com uma igualdade fetichizada, que favorece apenas uma classe social, aquela que detêm a propriedade privada. Vale ressaltar que esses últimos parágrafos, apesar de não tratarem diretamente a questão do público e do privado são importantes, pois estão relacionados ao direito e a igualdade que mais uma vez enfatizamos não é garantidor da universalização 138 da cidadania. Não devemos cair na armadilha de pensar questão “pública” na acepção da palavra, mas de uma questão a ser tratada pelo poder público, pois a este caberia garantir homogeneidade, desenvolve-la e protegê-la. A tese básica do liberalismo, em matéria de ensino, é afirmar o primado da instrução pública e, em conseqüência, o dever indeclinável do Estado de organizar, manter e mesmo de impor a educação a toda a população. Vale ressaltar que a instrução pública liberal baseia-se nos fundamentos econômicos da sociedade burguesa, sendo assim, uma educação posta a serviço dos interesses dessa classe: meramente elementar e/ou apenas instrução, que legitima relações sociais tornando o indivíduo apto a pertencer a esta sociedade, a ser nela autônomo, porque proprietário, ainda que em abstrato, não se separa, no pensamento liberal a propriedade dos meios de produção e da força de trabalho.83 Devemos lembrar que a educação estatal não produz capital do ponto de vista econômico, o que diferencia substantivamente da escola privada, que se configura como um serviço. Entretanto, para além das concepções ideológicas burguesas acerca de suas necessidades, não se pode desprezar o fato que a razões econômicas que levaram essa classe a situar a educação no âmbito das responsabilidades do poder público. Mészáros (Apud MINTO, op. cit., p. 49) afirma “as duas funções da educação numa sociedade capitalista: a primeira é a produção das qualificações necessárias ao funcionamento da economia e a segunda a formação de quadros e a elaboração dos métodos para um controle político”. A burguesia já identificava desde a sua origem a educação como campo limitado de aplicação da lógica de acumulação e de exploração do capital, uma vez que havia uma apreensão da educação como atividade não material, incapaz de ser produtiva e geradora de lucros. Em Marx essa questão teórica ganharia uma definição mais clara. Isso porque, ao introduzir a distinção entre 83 Para Minto (idem, p. 48) a associação dos conceitos de público como sendo estatal e privado como não-estatal, originada na concepção de Estado enquanto o que se “encarrega das coisas públicas” na cultura ocidental, é muito empobrecida e precisa ser reformulada. Esta reformulação vai além da proposta do conceito, afirmando que público-privado são, na verdade, apenas categorias burguesas de legitimação da ordem vigente sob sua dominação: a da desigualdade e da exploração. Conceitos que, para o marxismo, não poderiam ser elevados à condição de categoria de análise científica: seja mais produtivo buscar entender o processo histórico de organização das escolas em nosso país, analisando como foi impregnado pela ideologia burguesa da dicotomia entre o público e o privado. 139 produção material e produção não-material, se tornou possível “superar a identificação corrente entre produção material e trabalho produtivo, por um lado, e produção não-material e trabalho improdutivo por outro” (Idem, p. 49). Não por acaso, Sader critica as políticas neoliberais que tentam escamotear os conceitos de público e privado as bem-sucedidas operações teóricas e políticas do neoliberalismo ao escamotear as distinções entre público e privado associando-a às noções estreitas de estatal e não-estatal, impedindo assim a afirmação da real questão em jogo: a polarização essencial não se dá entre o estatal e o privado, mais entre o público e o mercantil. No ensino superior a apreensão da fronteira entre as esferas pública e privada não se esgota, portanto, nos limites de sua natureza jurídica, mas esta, todavia, não pode ser excluída, o que implica apreender, de um lado, o processo mais amplo de reprodução do capitalismo e, das bases históricas e materiais das relações sociais, a ela relacionadas, em particular as formas nas quais o Brasil se insere nesse processo; de outro, analisar a educação superior a partir das políticas de estado (as políticas públicas, na acepção mais comum) para esse nível de ensino. (Apud MINTO, idem, p. 57) Silva Junior (2007) também enfatiza o debate entre as esferas público e privado, na educação superior, A discussão sobre as novas formas históricas das esferas pública e privada na educação superior reveste-se de enorme complexidade e de imprevisibilidade diante do pouco tempo da recente transição para um governo popular democrático, liderado pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva, num país onde o principal traço cultural é a ausência da prática da alteridade. Considere-se, ainda, que Lula à frente da Presidência da República do Brasil herdou um complexo jurídico-institucional bastante consolidado e produzido ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), no qual se destacaram as reformas do Estado e da educação cujo processo de implementação somente agora se acentua, mostrando suas reais faces. (SILVA JUNIOR, In. ORSO, 2007. p. 87) Vale ressaltar, que apesar da limitação do texto, é importante tornar claro o lugar e as finalidades da educação pública e a nova forma histórica das esferas pública e privada no ensino superior no governo de Luís Inácio Lula da Silva, levando-se em consideração a herança deixada pelo Presidente FHC, bem como a situação concreta da esfera educacional nesse nível de ensino. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Professor Anísio Teixeira (INEP) houve um aumento de matrículas no ensino médio da esfera pública nas três instâncias administrativas. As matrículas cresceram 34,1% de 1996 para 2002, sendo 0,9% na esfera federal, 83% na estadual, 2,4% na municipal e 12,9% na particular. Os dados mencionados nos levam a entender que o ensino médio foi objeto de preocupação de política pública. 140 Já em 2004 o MEC/INEP apontava para a demanda e ociosidade das vagas na educação superior e foi encontrado o seguinte resultado: na educação superior pública foram preenchidas 95% das vagas oferecidas e 5% ficaram ociosas, já em relação a educação superior privada houve um preenchimento de 62,5% das vagas e ficaram ociosas 37,5%. Podemos observar uma contradição nos indicadores que deve ser levada em conta na análise de políticas públicas para educação no que concerne ao problema de acesso e permanência na educação superior. Tal contradição expressa-se na existência de uma demanda reprimida alta e em expansão, tendo em vista o número de concluintes do ensino médio em 2001, uma baixa oferta de vagas no ensino superior público, acrescido da ociosidade de vagas de 37,5% no setor privado e 5% na esfera publica. “Trata-se de um quadro desalentador, considerando que a demanda reprimida é cumulativa e que a ociosidade se deve, no caso do ensino público, aos critérios mais rígidos de seleção, que tendem a prejudicar os jovens originários dos setores mais pobres da população” (SILVA JUNIOR, idem, p. 91). O autor mencionado anteriormente demonstra que O histórico e estrutural problema da distribuição e concentração de renda em nosso país juntamente com as políticas econômicas adotadas pelos governos FHC e Lula, que de forma mediada influenciaram na reconfiguração do público e do privado no estado brasileiro após a reforma de Bresser Pereira, permanece no governo Lula. Tal quadro tem como condicionamento histórico e estrutural na nossa história recente a mudança de políticas públicas para o setor social, do paradigma de políticas públicas de demanda social para o de políticas públicas de oferta, isto é, de políticas públicas do possível determinado pelo orçamento da União definido pelas agências multilaterais, por um governo pragmático e um legislativo fisiológico: em vez de políticas sociais, temos políticas econômicas”. (Idem, p. 92) Silva Junior (2007) salienta que no primeiro ano do governo Lula, o setor público economizou mais que o necessário com a finalidade de cumprir as metas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Todavia, mesmo com tal economia ainda foi insuficiente para pagar os juros que incidiram sobre a dívida. Vale ressaltar que a meta estabelecida pelo Fundo era de no mínimo 4,25% do PIB. As taxas de juros, cobradas no setor privado do Brasil, são as mais altas entre as economias emergentes segundo o Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial, publicadas no Jornal Folha de São Paulo de 141 23/02/2004. Mediante este quadro fica claro o porquê da redução verbas para a área social no país. Tendo como base os dados acima só poderíamos esperar um quadro tenebroso para as famílias em relação ao orçamento familiar para educação superior. A conseqüência imediata de acordo com o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP) a inadimplência chegou a 25%, onde a média histórica é 2%. A alta inadimplência constatada nas instituições de ensino superior é apenas um dos problemas do setor. O aumento da concorrência, devido à abertura de novas universidades privadas é outro fator que está gerando alta ociosidade das vagas. Não são poucos os autores que criticam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por ter praticado um governo para o capital financeiro internacional, preocupando-se tangencialmente com o capital nacional industrial e com o fortalecimento de um capital produtivo brasileiro. Além disso, gerenciou o Brasil considerando uma sociedade civil fragilizada, incrementando a consolidação estratégica do terceiro setor ou mais precisamente as Organizações Não-governamentais(ONGs).84 Com a posse de Luís Inácio Lula da Silva esperava-se uma ruptura das políticas do seu antecessor, porém ocorreu uma continuidade nos mesmos padrões do governo anterior no que se refere ao capital nacional e estrangeiro. 2.3 Dilemas da Educação Frente a Precarização da Esfera Pública: A “Reforma” Universitária do Neoliberalismo em Questão. Nesta seção buscaremos com base nos estudos de autores renomados na área, tais como Helgio Trindade, Carlos Lessa, Marilena Chauí, Roberto Leher entre outros, demonstrar que a chamada “Reforma” Universitária apresentada inicialmente pelo governo Fernando Henrique Cardoso e posteriormente aprofundada na sua execução pelo governo Lula da Silva tem 84 No governo FHC houve um aumento considerável das Organizações Não Governamentais (ONGs) que recebiam verbas do governo para realizar atividades próprias do Estado. A esse respeito consultar MONTANO (2001) 142 como objetivo cumprir normas programáticas estabelecidas pelo Banco Mundial visando a mercantilização da educação pública, principalmente a educação superior. Fizemos um uso reiterado de diversas citações dos autores mencionados com o objetivo de elucidarmos a forma com que governos que se denominam democráticos conduziram uma “reforma” tão importante no quadro educacional brasileiro. Antes de entrarmos especificamente neste debate, achamos importante discutir o próprio conceito de reforma utilizado pelos governos neoliberais brasileiros de FHC e Lula da Silva. Deste modo é importante ressaltar que o projeto de lei de reforma da educação superior encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional, em 12 de junho de 2006 (PL N.º 7.200) apesar de revogar três leis entre elas a Lei n.º 5.540/68 (Lei da Reforma Universitária) e de alterar outras cincos entre as quais a Lei n.º 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), se aprovado, ainda assim não conterá toda a reforma. Tratar-se-á na verdade, da última etapa importante, de um processo que se desdobra há pelo menos uma década, isto é, desde o início do governo Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995. O projeto acima citado poderá provocar mudanças na orientação da reforma da educação superior ainda em curso nesta década. A primeira dessas mudanças foram os procedimentos adotados em suas diferentes etapas de formulação, em que durante cerca de dois anos, esteve aberta a ampla discussão da sociedade civil organizada ou não. Isso, não independentemente do resultado final, poderá ser importante para o sucesso de sua eventual futura implantação. A segunda mudança os objetivos centrais que visaria alcançar: (i) constituir um sólido marco regulatório para a educação superior no país; (ii) assegurar a autonomia universitária prevista no art. 207 da Constituição, tanto para o setor privado quanto para o setor público, preconizando um sistema de financiamento consistente e responsável para o parque universitário federal; e (iii) consolidar responsabilidade social da educação superior mediante princípios normativos e assistência estudantil. (BRASIL, Casa Civil da Presidência da República. Exposição de motivos projetos de lei da reforma da educação superior. Brasília: E.M.I. 015/MEC/MF/MP/MCT. 10 abril 2006) Conforme a crítica de Behring e Boschetti (2008) a rigor o termo contrareforma é um contra-senso, já que O desenvolvimento das políticas sociais esteve imbuído historicamente de um 143 forte espírito reformista, sob pressão do movimento dos trabalhadores: as reformas dos anos de ouro. Contudo, em tempos de estagnação, reação burguesa e neoliberalismo, adentramos num ambiente contra-reformista e, por que não?, contra-revolucionário. (BEHRING ; BOSCHETTI, 2008. p. 148) Segundo Behring e Boschetti (2008, p. 150) “no Brasil, do ponto de vista da reforma democrática anunciada na Constituição de 1988, em alguns aspectos da estratégia social-democrata e do espírito welfariano“— em especial no capítulo da ordem social —, pode-se falar de uma contra-reforma em curso entre nós, solapando a possibilidade política, ainda que limitada, de reformas mais profundas no país, que muito possivelmente poderiam ultrapassar os próprios limites da social-democracia. Como observam as autoras, Dentro dessa lógica, portanto, empreender reformas democráticas, num país como o Brasil, poderia implicar um processo de radicalização e de ultrapassagem do Estado burguês, já que elas podem superar a si mesmas, considerando-se a cultura visceralmente antidemocrática e conservadora da burguesia brasileira. Nas nossas paragens não houve reformas no sentido social-democrata, mas processos de modernização conservadora ou de revolução passiva. (op. cit. p. 151) É importante entender segundo Bhering e Boschetti (2008) que Embora o termo reforma tenha sido largamente utilizado pelo projeto em curso no país nos anos 1990 para se autodesignar, partimos da perspectiva de que se esteve diante de uma apropriação indébita e fortemente ideológica da idéia reformista, a qual é destituída de seu conteúdo redistributivo de viés social-democrata, sendo submetida ao uso pragmático, como se qualquer mudança significasse uma reforma, não importando seu sentido, suas conseqüências sociais e sua direção sócio-histórica. Cabe lembrar que esse é um termo que ganhou sentido no debate do movimento operário socialista, ou melhor, de suas estratégias revolucionárias, sempre tendo em perspectiva melhores condições de vida e trabalho para as maiorias. Portanto, o reformismo, mesmo que não concordemos com suas estratégias e que se possa e se deva criticá-lo, como o fizeram revolucionários de períodos diferentes, a exemplo de Rosa Luxemburgo e Ernest Mandel, dentre outros, é um patrimônio da esquerda. (Idem, p. 149) Esse argumento fica mais claro quando se considera a história do século XX em âmbito mundial, na qual o que se pôde chamar de reforma associava-se à legislação social e, no pós-guerra, ao Welfare State. Estas foram reformas, como já demonstramos anteriormente, intrínsecas ao capitalismo, sob a pressão dos trabalhadores, com uma ampliação sem precedentes do papel do fundo público, “desencadeando medidas keynesianas de sustentação da acumulação, ao lado da proteção ao emprego e do atendimento de algumas 144 demandas dos trabalhadores. (op. cit., p. 149) Bhering e Boschetti (2008) com propriedade caracterizam o que ocorreu nos anos 90 com a instituição do Plano Real em 1994 Houve o desmonte e a destruição, numa espécie de reformatação do estado brasileiro para a adaptação passiva à lógica do capital. Revelou-se sem surpresa, a natureza pragmática, imediatista, submissa e anti-popular das dominantes brasileiras. E foram medidas que, em alguns setores, fizeram que o país evoluísse de forma inercial e, em outros, o fizeram permanecer no mesmo lugar ou até mesmo andar para trás, se pensarmos nos critérios de Florestan Fernandes: a ruptura com a heteronomia e com o drama social. Houve, portanto, uma abrangente contra-reforma do Estado no país, cujo sentido foi definido por fatores estruturais e conjunturais externos e internos, e pena disposição política da coalização de centro-direita protagonizada por Fernando Henrique Cardoso. Uma contra-reforma que foi possível a partir de algumas condições gerais, que precedem os anos 1990: a crise econômica dos anos 1980, e as marchas e contra-marchas do progresso de democratização do país. (op. cit., idem, p. 152) Portanto, a reforma como foi conduzida, acabou tendo um pequeno impacto da aumentar a implementação eficiente de políticas públicas. Houve na verdade a desresponsabilização pela política social, acompanhada do desprezo pelo padrão constitucional de seguridade social. As formulações de política social foram capturadas por uma lógica de adaptação ao novo contexto, isto é, o trinômio neoliberal para as políticas sociais — privatização, focalização/seletividade e descentralização. Behring observa que Este caminho [...] expõe os argumentos que sustentam a caracterização de que se esteve diante de uma contra-reforma da Estado, que implicou um profundo retrocesso social, em benefício de poucos.” Esta caracterização relaciona-se ao abandono das possibilidades de ruptura com heteronomia e de uma redemocratização política e econômica inclusiva dos trabalhadores e de maioria da população brasileira nos anos 1990. Na verdade, a autoreferência dos apologistas, os quais insistem em apontar o projeto da era FHC como reforma, é uma espúria e ideológica ressemantificação,Cabe lembrar que este é um termo que ganha sentido no debate do movimento operário socialista, melhor dizendo, de suas estratégicas revolucionárias sempre tendo em perspectiva a equidade. (BEHRING, 2003, p. 22-23) Cabe salientar, segundo a autora: [...] A "reforma" do estado, tal como está sendo conduzida, é a versão brasileira de uma estratégia de inserção passiva (Fiori, 2000. p.37) e a qualquer custo na dinâmica internacional e representa uma escolha políticoeconômica, não um caminho natural diante dos imperativos econômicos. (Idem, p.198) Behring (2003) acha importante ressaltar que 145 [..] transformações no estado brasileiro são fundamentais numa agenda que se propõe superar um estado privatizado, voltá-lo para a coisa pública, e especialmente, imprimir maior eficiência a suas ações. O resgate da "dívida social" como parte da preocupação está obviamente associado à capacidade do Estado brasileiro implementar políticas públicas. No entanto, para além desses argumentos muito genéricos, e por vezes de ocasião, há campos distintos no Brasil que apontam soluções inconciliáveis para as necessárias e esperadas transformações.[...] (Idem, p. 211) Cabe observar, ainda segundo a autora anteriormente mencionada, que após analisar os processos recentes da política brasileira podemos afirmar que esteve em curso no Brasil dos anos 1990 uma contra-reforma do Estado, e não uma “reforma”, como apontavam – e ainda o fazem – seus defensores. Uma contra-reforma que se compôs de um conjunto de mudanças estruturais regressivas sobre os trabalhadores e a massa da população brasileira que foram também antinacionais e antidemocráticas [...] (Op. cit., p.281) É num contexto de precarização da esfera pública que se expressa também através da “reforma” universitária, que está inserida a política de reserva de vagas nas universidades. A questão maior é constatar se tal política se coaduna no conteúdo das mudanças, já que, num quadro de sucateamento da educação e consequentemente das universidades públicas, se constrói uma política que gera gasto, sem que o mesmo tenha respaldo no orçamento das instituições superiores de ensino que as adotaram. Desse modo, faz-se necessário uma reflexão sobre os rumos do ensino superior brasileiro, como um todo, tendo como alvo a universalização de um direito fundamental chamado “direito à educação”, presente no texto da Carta Magna de 1988. A questão das cotas nas universidades públicas tem gerado grandes polêmicas85 conforme mencionamos, na introdução desta tese, principalmente porque não houve uma discussão ampla com os diversos setores que compõem a sociedade. A criação de cotas por leis ou decretos tem ocorrido de forma unilateral, pois a falta de um debate sobre o significado e a essência da “questão da desigualdade social” tem sido relegado a um plano secundário. As políticas compensatórias de cotas ainda se apresentam de modo limitado, tendo em vista que as instituições de ensino superior somente reservam vagas 85 Recentemente, em maio de 2009, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro deferiu liminar suspendendo o sistema de reserva de vagas nas universidades estaduais. O caso gerou uma grande polêmica, pois as cotas existem desde 2003 já inclusive tendo centenas de alunos beneficiados. O próprio Tribunal de Justiça no dia 01/06/09 suspendeu os efeitos da liminar para o processo seletivo do ano de 2009, já que iria causar grandes transtornos à administração pública e aos estudantes. O pedido de liminar contra o sistema de cotas foi feito pelo Deputado Estadual Flávio Bolsonaro, que afirmou ser o processo injusto. 146 de ingresso para determinados segmentos (negros, pardos, índios, alunos oriundos de escolas públicas, etc...), porém não oferecem condições para que o cotista se mantenha na universidade e, tão pouco, como este se sairá após o término do curso. Portanto, como já mencionado, tais políticas de cotas acabam se apresentando como uma espécie de “política pobre para pobres”, onde a possibilidade de ingresso à universidade não está diretamente associada à permanência. Em face desta política de precarização da educação pública, podemos observar que ao longo dos últimos governos brasileiros diversos fatores contribuíram para o desmonte considerável do que havia sido construído ao longo de 60 anos de história republicana no Brasil dos anos 30 ao fim dos anos 80: desde os serviços públicos (energia elétrica, saúde, universidade, educação em geral, habitação, assistência social, transporte, etc.), as empresas estatais até a legislação trabalhista e a Constituição Federal de 1988. Desde o primeiro governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) o país não teve um resultado esperado no que se refere a educação, se considerarmos que um governo deve se caracterizar por ter uma política de saúde, de educação, de habitação, de transporte, e tantas outras necessárias ao desenvolvimento de uma nação. Neste sentido, podemos dizer que nos dois mandatos de FHC, A política econômica se caracterizou por oferecer o Brasil como um espaço de valorização ao capital estrangeiro nacional e internacional, multiplicando os lucros dos bancos e dos aplicadores financeiros, com taxas de juros elevadas e sobre-endividamento. Foram feitos acertos com organismos financeiros internacionais para garantir os ganhos dos investidores comprometendo enorme quantidade de recursos preciosos do orçamento do país transferidos como ganhos financeiros aos credores das dívidas internas e externas. A este fim foram dedicados os orçamentos destes anos todos, numa proporção crescente para o juros e decrescente para os gastos sociais. A queda novo ajuste imposto pelos credores internacionais, novos cortes foram efetuados nas políticas e nos programas sociais. Os resultados sociais estão a vista de todos e são expostos nas pesquisas e estatísticas dos órgãos privados e oficiais, tais como: a pesquisa sobre saneamento a nível nacional publicada pelo IBGE-2001. (LESBAUPIN; MINEIRO, 2002, p. 7-8) Cabe ressaltar que o processo de desmonte acima mencionado atingiu as políticas públicas no país, que sempre tiveram como objetivo reduzir as tensões existentes entre as classes sociais. Vale lembrar que a desigualdade sempre predominou e continua a predominar neste país, bastando observar todos os indicadores que apresentamos nesse estudo. 147 Através dos dados apresentados pelo IBGE/2007 e da constatação do sucateamento das universidades fica claro que é num cenário adverso que pensaremos na chamada “educação superior” em sua totalidade. Sem dúvida, trata-se de um tema com alto grau de complexidade, desdobramentos, números e lacunas imensas. São muitos os aspectos ainda a considerar e a tese não tem a pretensão de esgotar o tema. Enfrentar a complexidade das universidades públicas é realmente trabalho interminável. Uma busca incessante para os espíritos inquietos. Seguir o novo e a revolução científicotecnológica que se pronuncia no momento presente, acompanhar os espasmos internos nas universidades, buscar entender o sentido de futuro e a direção para onde apontam os desdobramentos recentes, as relações com a sociedade, os inúmeros desafios colocados por ela, realmente não é uma tarefa fácil. Por isso, objetivamos também nesta seção partilhar angústias, apreensões e otimismos em relação ao futuro de nossas universidades públicas86. Segundo Carvalho e Silva (1991, p. 39) a palavra universidade deriva do latim universus, formada por unus, que significa um; e versus, particípio passado de vertere, que significa voltar, virar, tornar-se. Daí, universidades tem o significa etimológico profundo de “tornar um”, ou seja, expressar/articular a diversidade na unidade; que representa em última instância, sua missão histórica e razão de ser. A terminologia “público” tem diversos significados, dentre eles podemos citar: pertencente ou destinado ao povo, à coletividade; relativo ou pertencente ao governo de um país; que é de uso comum de todos e aberto a quaisquer pessoas. No Brasil a universidade pública é sinônimo de excelência no ensino, porém ao mesmo tempo carência de verbas para pesquisa e manutenção. Também é sinônimo de gratuidade, porém há vagas ociosas. É sinônimo de um ideal, mas que encontra no seu caminho barreiras por vezes intransponíveis, que trazem a tona uma grande discussão no meio acadêmico e fora dele: vale a pena a universidade ser pública? Vale a pena ser gratuita? 86 Para maior aprofundamento dos desafios das universidades públicas consultar TRIGUEIRO, Michelangelo Giotto Santoro. Universidades Públicas: Desafios e possibilidades no Brasil contemporâneo. Brasília. Editora Universidades de Brasília. 1999. 148 Fazendo uma retrospectiva histórica da universidade brasileira podemos afirmar que o mesmo chegou com os jesuítas, no século XVI, sofrendo interrupção com a expulsão da Companhia de Jesus (1659) sendo, posteriormente, revitalizado com a vinda da família Real (1808). No século XIX, portanto, foram lançadas as bases do ensino superior brasileiro, com as suas áreas mais prestigiadas — medicina, engenharia e direito —, expandida por meio de faculdades isoladas. Somente em 1920, foi criada a Universidade do Rio de Janeiro, mais tarde Universidade do Brasil e atual Universidade Federal do Rio de Janeiro; em 1927 a Universidade de Minas Gerais; em 1934 a Universidade de Porto Alegre e assim por diante. Na América Latina, diferentemente dos países mais desenvolvidos do Norte, a tradição e a luta pela universidade pública e gratuita está arraigada na cultura de seu povo. A universidade era para poucos privilegiados filhos da elite econômica e intelectual, descompromissados com a realidade do país. Segundo Bernardo Calil Pacheco e Liliane Mafort, A universidade dos anos 1870 seria imoral se fechasse os olhos à realidade da escravidão. Entretanto, isso aconteceu nos cursos superiores daquele época. Os militares e os padres lutaram mais contra a escravidão do que os “universitários” daquele tempo. (PACHECO ; MAFORT In: AMOEDO, 2004, p. 335) Historicamente a maioria da população brasileira, encontrou muita dificuldade para adentrar os portões das instituições de ensino superior. Daí o sentido de público e gratuito trazer a noção de democratização. Segundo Pacheco e Mafort (Idem) o papel da universidade não é bem entendido no Brasil. Quando os portugueses chegaram ao país em 1500 já existiam 62 universidades no mundo. Cem anos depois, em 1600, só na América Latina elas já eram 143. Em 1592, os jesuítas tentaram implementar no Brasil a primeira universidade pública que não se consolidou pelo temor da Corte Portuguesa de o país se emancipar. De acordo com Santoro Trigueiro (1999, p. 161) “é fundamental o papel do Estado, seja na garantia das condições de manutenção e de investimentos mínimos, no ensino, na pesquisa e na extensão, seja como indutor de mudanças mais profundas”. Trigueiro ressalta O ambiente é de grande turbulência e embate. De um lado, o MEC mantém 149 firme linha de avançar nas mudanças do ensino superior e das universidades e, de outro lado, a maioria das universidades se ressente da falta de maior discussão e de ser “ouvida” no processo decisório do governo a esse respeito. Por sua vez, as universidades mantem-se firmes no que considera uma defesa legítima dessa instituição, considerada sob a ameaça de um projeto “neoliberal”, que atinge todo o serviço público e, em particular as universidades. O risco de serem “engolidas” pelo mercado e por sua lógica de lucro é vista como a principal ameaça, entendendo em muitos comentários que o ministério tem atuado no sentido de subordinar as universidades a este padrão de relações mercantis. O assombro é quanto ao fim das universidades, a sua privatização e ao seu completo aniquilamento. (Idem, p. 148) Helgio Trindade (Apud PACHECO e MAFORT, 2004, p. 336) afirma que entre 1989/2000 houve uma queda de 33% nos investimentos públicos, passando de 0,97% do Produto Interno Bruto (PIB) para os atuais 0,61%. As universidades federais estão a caminho de uma morte lenta causada por asfixia financeira, principalmente nos últimos dez anos. Marilena Chauí (2001) também concorda com o desmantelamento das universidades públicas por carência de recursos. Destas constatações vem a seguinte indagação: por que num contexto de sucateamento das universidades públicas são criadas cotas para negros, pardos, índios e alunos oriundos de escolas públicas do ensino médio? A resposta possui alto grau de complexidade, pois, ao mesmo tempo em que gera uma facilidade de acesso ao ensino superior às ditas minorias não são dadas às condições mínimas para que estas permaneçam nos cursos os quais ingressaram, já que se há falta de verbas sem as cotas, com a inclusão destas produzir-se-ão mais despesas e consequentemente uma queda generalizada na qualidade do ensino das universidades pública. O documento da UNESCO: Política de Mudança e Desenvolvimento no Ensino Superior (1999, p. 38) revela que na maioria dos casos, o crescimento no número de estudantes no ensino superior não tem sido acompanhado por aumentos na locação de recursos em termos reais, dessa forma, obrigando muitas instituições a fazer cortes em seus orçamentos e até mesmo em seu quadro de pessoal. Há necessidade de expansão quantitativa do acesso, porém temos que assegurar a missão pública do ensino superior e evitar a mercantilização abusiva do setor privado e a privatização do público. Como observaram e Pacheco e Mafort (2004, Idem) “em países como os Estados Unidos que tem os maiores índices de desenvolvimento das universidades privadas mais de 70% 150 dos alunos estão em universidades públicas”. Já no Brasil temos um processo inverso. O grande desafio da universidade publica brasileira é se expandir e universalizar sem perder a qualidade. Não podemos entrar no modelo de massificação como ocorreu no México (Universidade Autônoma do México com quase 300 mil estudantes matriculados) e também na Argentina.87 Os dois principais problemas encontrados para quem sonha com um lugar na universidade pública são: a forma de ingresso (vestibular)88 e a escassez de vagas. Em relação ao primeiro discute-se tanto a forma quanto o conteúdo. Um dos pontos principais é a desigualdade de condições entre alunos mais abastados e o menos favorecidos.89 Pacheco e Mafort (2004) ressaltam, A qualidade do ensino básico não tem muitos motivos para ser elogiada nas últimas décadas. A defasagem em relação à elite das escolas particulares começa na escola de nível médio. Surgem daí sugestões como o sistema de cotas, como as que a UERJ e a UnB vem adotando há algum tempo. (Idem, p. 337) Com relação à escassez de vagas, é outro problema grave. Por questões internas das universidades, existem vagas ociosas em demasia, mas se todas fossem ocupadas não teríamos vagas suficientes para a demanda atual. De acordo com o Censo do IBGE/2000 dois milhões de jovens concluíram o ensino médio no ano de 2000. Ao mesmo tempo, havia três milhões e quinhentos mil jovens concluindo o primeiro ano do ensino médio. Mesmo considerando evasão e repetência, o número de concludentes aumenta significativamente a cada ano, o que quer dizer que irão faltar vagas. Quando se fala em universidade, estamos tratando de um dos assuntos mais importantes e mais debatidos de nosso tempo: a educação. A qualidade da educação universitária perpassa o sentido de autonomia da universidade brasileira. Vale ressaltar que durante o regime militar a bandeira da luta histórica 87 A esse respeito ver FREIRE, Silene. Extensão universitária e empreendedorismo: um debate que precisa advir. Revista Advir. n. 21. 2007. p. 76-83. 88 Vale ressaltar proposta do atual Ministro da Educação sobre a instituição de um novo modelo de seleção nos moldes do ENEM. 89 Basta constatar no resultado do último ENEM (2008) em que o desempenho dos alunos oriundos da rede privada ficou bem acima daqueles com origem na rede pública de ensino. Queremos ressaltar que, a maioria das escolas públicas, funcionam em condições físicas precárias e com professores desmotivados devido aos baixos salários pagos. Defendemos nesta tese uma escola pública de qualidade que atenda a todos sem qualquer tipo de discriminação. Ressaltamos que os colégios das elites mantém o seu padrão mesmo em situação de crise. 151 que unia diferentes correntes de pensamentos no universo acadêmico era a autonomia universitária. Esta constituía um princípio que se reportava muito mais à independência política, à luta pela liberdade de expressão, e à pluralidade ideológica. Hoje, o conceito de autonomia baseia-se na gestão de atividades econômico-administrativas no interior da universidade. A Constituição Federal de 1988 forneceu autonomia universitária às universidades públicas, tornado-as instituições normativas, produtoras de direitos e obrigações. Há várias concepções no que se refere à autonomia universitária: a primeira parte do pressuposto que a função social das universidades públicas deve ser definida pelo Estado; a segunda implica que a universidade pública não é uma mera extensão do Estado ou do governo, defende um distanciamento como condição básica para crítica da realidade social a ser desenvolvida. Ensino, pesquisa e extensão dependem de liberdade e autonomia política. No segundo governo FHC, dentro do Estado neoliberal, o Banco Mundial fez uma análise do ensino superior na América Latina e propôs uma reforma nas universidades públicas. O citado Banco passou, então, a condicionar a concessão de financiamentos à implantação das “reformas”. O governo Fernando Henrique Cardoso, em nome da autonomia universitária afirmava ser necessário regulamentar a autonomia e apresentar diretrizes de um projeto. Tais diretrizes foram analisadas pelo meio acadêmico que chegou a conclusão que as universidades perderiam autonomia, ao invés de ganhar. Parte do financiamento passaria para as empresas e fundações privadas, que ditariam os tipos de pesquisas a serem feitas e até mesmo o currículo de alguns cursos. As diretrizes traçadas acima geraram grande impacto em várias universidades da América Latina, como afirmam Pacheco e Mafort (2004) No Chile o projeto de autonomia já foi implantado e o Estado entra com cerca de 30% do orçamento das universidades públicas, a outra parcela vem de empresas privadas. Os alunos tem que pagar mensalidades, professores são contratados por hora aula, os salários são baixos e foram criados os centros de excelência. No México o financiamento é praticamente todo do governo, mas esse vem criando leis e sistemas para se livrar da responsabilidade. Na Argentina, a universidade pública é gratuita e a entrada não é limitada a elites culturais, porém em 2001 o governo do Presidente De La Rua deflagrou uma ofensiva para privatizar e implantar o ensino pago na universidade pública, com cobrança de “arancéis” para a graduação, um imposto especial aos estudantes e suas famílias, e outro aos graduados. Em 2002 o governo Duhalde preparou uma redução de 15% em relação ao ano anterior, gerando diminuição de salários dos professores, contratação precária, entre outras. 152 Na Universidade de Buenos Aires, por exemplo, o corte atingiu 40 milhões de pesos. (Idem, p. 342) Outra questão a ser levantada é que o número de universitários no Brasil ultrapassa desde 2004 a marca dos três milhões (INEP/MEC/2004), sendo que, destes 1,6 milhões estão matriculados em instituições particulares. Abrir faculdades virou negócio lucrativo. O crescimento do ensino particular mostra que camadas cada vez mais amplas da população têm acesso à continuação de seus estudos depois do ensino médio, o que é um bom sinal. Porém, mostra também um problema que se torna mais transparente a cada ano: a verificação da qualidade deste ensino particular. O ensino superior particular já custa para o aluno metade do que o ensino superior público custa ao governo. Resta saber se este aluno terá condições de bancar quatro ou cinco anos de mensalidade que, por hora estão fora do padrão econômico médio do brasileiro. Ainda no ensino superior brasileiro é importante ressaltar a grande evasão dos alunos dessas instituições no Brasil. A ampliação não planejada das instituições de ensino superior ocorrida nas últimas décadas esconde informações valiosas para a análise deste setor como um setor econômico. Embora a perspectiva de crescimento potencial do ensino superior brasileiro seja grande, na prática a demanda não deverá crescer muito e já pode estar ocorrendo um superdimensionamento do sistema, que se manifesta nas mais de quinhentas e sessenta e sete mil vagas não preenchidas no ano de 2002, sobretudo pelo setor privado (Tabela abaixo). Em 2003, das 2.183.172 vagas abertas pelo setor privado, apenas 1.539.859 foram preenchidas, criando uma enorme capacidade ociosa. Tabela: Vagas oferecidas e não preenchidas no ensino superior – Brasil (1980 /2003) Anos 1980 Vagas oferecidas 404.814 Vagas não preenchidas 48.147 Percentual de vagas não preenchidas 11,9% 1984 442.314 66.486 15,0% 1990 502.784 95.636 19,0% 1994 574.135 110.895 19,3% 153 2000 1.216.281 318.724 26,2% 2001 1.408.492 371.802 26,4% 2002 1.773.087 567.947 32,0% 2003 2.183.172 643.313 32,0% Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados do INEP (1998, 2000,2004) Aliado a este desafio, a crescente participação de alunos de menor poder aquisitivo tem levado a índices de inadimplência próximos de 20% ao longo do semestre. A legislação veda à instituição que os alunos inadimplentes sejam impedidos de freqüentar aulas ou prestar exame e as IES não podem negar aos alunos em atraso os documentos necessários à sua transferência ao final do período letivo, o que implica a possibilidade de sua saída sem a quitação da dívida. A relação existente entre o número total de alunos que entram e os que se formam num determinado período nas diferentes instituições do país se situa em 36,2%. Este indicador é menor para as IES privadas e religiosas sendo que as IES Federais apresentam uma relação de 50,3%. Se o número de matrículas iniciais não tiver aumentando, esta relação deve ser próxima de 100%. Contudo, muitos desses alunos desistem do curso, alguns da instituição e outros do sistema de ensino superior. Ainda sobre o ensino superior a Organização das Nações Unidas (ONU) em sua Carta de Direitos Humanos a princípio afirma ser dever de todos os países garantir os ensinos fundamental e médio a todos. O ensino superior seria obtido através do “mérito” do aluno, ou seja, a princípio não seria obrigação dos órgãos públicos oferecê-los a todos.90 No atual contexto, a universidade pública91 é atacada a partir de uma série de estratégias privatizantes, pretendendo apagar do horizonte ideológico das universidades a possibilidade de uma educação democrática, pública e de qualidade para as maiorias. A tentativa de privatização92 gera a despolitização 90 A discussão mais profunda sobre “mérito” será realizada no Capítulo III desta tese. A realidade do ensino dentro das universidades públicas não é homogênea. Existem carreiras onde, pelos mais variados e infelizes motivos os alunos, em sua maioria, pertencem a classes sociais mais favorecidas, com maior poder aquisitivo. É o caso de medicina e direito, por exemplo. A mesmo tempo existem cursos que são freqüentados por pessoas que necessitam trabalhar e dividem seu tempo com outros compromissos e não poderiam arcar com despesas extras com a educação. 92 Portanto, a privatização gera uma dualidade discriminatória entre os que podem e o que não podem pagar pelos serviços, “no mesmo posso em que propicia um nicho lucrativo para o capital, em especial segmentos do capital nacional que perderam espaços com a abertura comercial ’’ (BEHRING, Elaine 91 154 da educação, transformando-a em mercadoria, em mera formação de mão-deobra. O sentido de “público” levanta um sério problema em relação à proposta por uma universidade paga. O compromisso com a sociedade que, na verdade, é quem cobre os gastos através dos impostos, faz com que todo e qualquer passo deva ser dado pensando, primeiramente, no lado social, atendendo a necessidade da maioria. Um país como o Brasil, que possui um dos piores índices de distribuição de renda, praticamente inviabiliza a cobrança de mais taxas para dar continuidade aos estudos. O Brasil deve investir na capacitação e formação intelectual de sua população, na tentativa de fugir a submissão ao império vigente. Além disso, o acesso a produção de conhecimento, dentro da universidade, deve ser estimulado além de seus muros, democratizando e ampliando os horizontes de uma das instituições mais importantes que o mundo ocidental já construiu. A educação no Brasil a partir da década de 90, desde o ensino fundamental até o superior, teve como discurso a denominada “universalização” do ensino, havendo prioridade nas populações de baixa renda do país, que representaram durante anos as elevadas taxa de analfabetismo vigente. Tal aumento da oferta de vagas na rede pública de ensino fundamental foi acompanhada também, com a expansão da precarização e baixa qualidade de ensino oferecidas por muitas destas instituições, a partir das políticas educacionais adotadas no período, que à curto prazo tentaram sanar o déficit de pessoas alfabetizadas no país. A sociedade brasileira caracteriza-se pela maior discrepância existente no mundo entre seus indicadores econômicos e seus indicadores sociais. Aqueles, situando o Brasil como a oitava potência econômica do mundo ocidental, se aproximam dos níveis dos países industrializados da Europa, enquanto os indicadores sociais se aproximam do nível dos países menos desenvolvidos do mundo afro-asiático. (JAGUARIBE, 1986, p. 187.In: IANNI, 992. p. 90) Desde o início do primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso ficou claro que o projeto em relação à universidade pública seria executado com recomendações do Banco Mundial que deu as diretrizes da reforma. Da mesma forma que a saúde, a educação deve continuar pública na Rossetti. Brasil Contra-Reforma – desestruturação do Estado e perda de direitos. São Paulo: Cortez, 2003. p. 251) 155 educação fundamental, mista para o ensino médio e privado no ensino superior, em consonância com a perspectiva da “reforma” do governo. A mídia difundiu a idéia que a universidade gratuita era um privilégio e que a maioria dos estudantes pertencia às famílias que teriam condições de pagar os estudos superiores. Assim sendo haveria mais espaço para os estudantes de baixo poder aquisitivo na esfera pública. Fica bem claro o ataque a esfera pública com as campanhas de privatização das universidades com a implementação de ajuste neoliberal que se evidenciam no governo FHC93. Tais privatizações não se apoiavam em estudos ou pesquisas internacionais, embora vários dos membros do governo tenham estudado em universidades públicas e, portanto, gratuitas. Vale salientar que a universidade “tinha de ir” para o mercado. Foi preciso que os próprios professores universitários divulgassem estudos e pesquisas sobre as universidades no mundo para demonstrar a falsidade da idéia de que universidade boa é privada e pública é ruim. (LESBAUPIN ; MINEIRO, 2002, p. 46-47) Para realização do projeto de privatização, era preciso tornar inviável a continuidade do caráter gratuito da universidade pública. O governo utilizou todas as formas possíveis para dobrar a resistência dos membros da comunidade universitária — professores, estudantes e funcionários —, que tiveram os seus salários achatados. Além disso, as verbas de manutenção das universidades foram sendo progressivamente reduzidas e, as bolsas de mestrado e doutorado sendo cortadas paulatinamente. Percebeu-se de imediato que em virtude desta política educacional desastrosa milhares de professores se aposentaram para resguardar os seus direitos à integralidade de seus vencimentos. Um outro efeito da redução de verbas começou a atingir a infra-estrutura de funcionamento das universidades, tais como: falta de material para laboratórios, falta de água, falta de energia 93 No governo FHC, a ênfase e as políticas foram desenhadas de modo pouco articulado entre os vários ministérios, fomentando uma já antiga competição entre educação, trabalho e desenvolvimento. O esvaziamento da rede federal de educação técnica e a priorização de uma malha privada de educação emergente foram à tônica. Por outro lado, a educação dos trabalhadores deveria servir tão somente ao mercado, através de cursos rápidos, desvinculados na prática da escolarização formal, tendo sido pífios os investimentos na educação, de jovens e adultos, como forma de resgatar a imensa dívida social para com os trabalhadores, garantindo-lhes o direito à educação básica e ao conhecimento acumulado pela humanidade. Vendeu-se bastante neste período a ilusão de as causas do desemprego era devida à falta de educação dos trabalhadores, quando sabemos que a educação é um fator importante, mas que é a política econômica a determinante do desenvolvimento e da geração de emprego e renda no país. 156 elétrica, entre outros. O objetivo era mostrar que somente com a privatização das universidades públicas era possível fornecer um ensino de qualidade, demonstrando com clareza a lógica do mercado. Na verdade o governo coloca em prática a concepção neoliberal do Banco Mundial sobre a educação para este a prioridade é a educação fundamental, e o investimento nesta deve crescer em detrimento daquele feito na universidade — considerada extremamente clara e com pouco retorno. Por outro lado, considerada que a pesquisa já é realizada nos países desenvolvidos e supõem muitos recursos, de que nosso Estado não disporia. (LESBAUPIN ; MINEIRO, Idem, p. 48) Neste processo de sucateamento da universidade pública, expande-se a idéia do ensino pago, pois o governo pretende que a mesma se dedique unicamente ao ensino, deixando a pesquisa ser realizada apenas por centros de excelência. Na prática significa apartar o ensino da pesquisa, uma das características básicas da universidade pública no país, anulando no seio o alto grau de qualidade que tem até hoje, tanto é que as melhores instituições de ensino superior do país, mesmo com redução de verbas, continuam sendo as públicas. Sguissardi (2006) confirma a afirmação acima fazendo um histórico do governo Collor de Mello até Fernando Henrique Cardoso Uma modernização conservadora, foi percebida de forma mais clara, com o governo de Collor de Mello (1990-1991) e segui-se no de Itamar Franco (1992-1994), recrudesceu no de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Neste período, em especial, efetivou-se uma série de ajustes estruturais e fiscais ou de reformas orientadas para o mercado. No octênio Fernando Henrique Cardoso, ocorreram as principais conducentes a reconfiguração das esferas públicas e privadas, no âmbito do Estado, assim como da educação superior. (idem, p. 1026) O Brasil ao ingressar no mercado globalizado optou por seguir uma série de medidas das quais podemos citar: combate ao déficit público, ajuste fiscal, privatização, liberação/ajuste de preço, desregulamentação do setor financeiro, liberação do comércio, incentivos aos investimentos externos, reforma do sistema de previdência/seguridade social e reforma desregulamentação e flexibilização das relações de trabalho. Vale ressaltar que o equilíbrio orçamentário, desregulamentação dos mercados e privatização das empresas e serviços públicos são recomendações bem conhecidas do Consenso de Washington (1980), portanto, recomendações Internacional (FMI) e do Banco Mundial. do Fundo Monetário 157 Sguissardi (2006, p. 1027) cita estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Sócio-Econômico (DIEESE/2001) em que o Brasil apresentava o seguinte quadro de distribuição de renda do trabalho: o 1% mais rico obtinha 13,9% da renda total do trabalho, maior que os 13% da renda obtida pelos 50% mais pobres; os 5% mais ricos obtinham 36,6% da renda, cerca de oito vezes a renda obtida pelos 30% mais pobres da população, que obtinham apenas 4,4% da renda do trabalho; os 10% mais ricos obtinham 48,2% da renda total do trabalho enquanto os 10% mais pobres obtinham apenas 1,1%. Segundo o autor anteriormente mencionado as principais teses que tem orientado as reformas da educação superior no Brasil seriam: 1) tese do maior retorno social e individual dos investimentos em educação básica que o dos investimentos em educação superior; 2) tese da universidade de ensino x universidade de pesquisa e a tese do ensino superior como bem antes privado do que público, esta última tendo como base o documento preparado pelo Banco Mundial em 1998 denominado “The Financing and Managment of Higher Education — a status reporto on wolrdwide reforms. Constata-se o resultado de recomendações presentes em documentos anteriores do Banco: expansão de matrículas e de instituições de ensino superior, cada vez mais diferenciadas; redução do custo/aluno; orientações e soluções do mercado; diversificação de fontes ou busca de recursos não-estatais. Identifica-se, portanto, que essas reformas estariam orientadas mais para o mercado do que para a propriedade pública ou para a planificação e regulamentação estatais, o que se deve, segundo o Banco, à crescente importância que em quase todo mundo tem adquirido o capitalismo de mercado e os princípios da economia neoliberal (World Bank, 1998)94. No dizer do Banco, o ensino superior responderia a muitas das condições identificadas como sendo características de um bem privado, que se pode subordinar as forças de mercado. Não é de se estranhar que as reformas ultra-liberais da economia e a reforma do Estado reforçaram as “reformas pontuais” da educação superior nos últimos anos, tais como: a gradativa desresponsabilização do Estado com o 94 Para maiores esclarecimentos consultar a obra de Nicholas Barr denominada The Economics of the welfare state (1993, p. 106 e 345) 158 financiamento e a manutenção superior, embora mantendo crescente controle sobre ela, o estímulo e as facilidades para a criação e expansão de instituições de ensino superior, a indução a que as instituições públicas sejam organizadas e geridas como empresas econômicas, o incentivo a competição intra e inter institucional, a valorização da qualidade acadêmica em moldes administrativosgerenciais e empresariais, a manutenção das instituições federais de ensino superior sem autonomia de gestão financeira, implementação de fontes de financiamentos, mediante a criação da cobrança de mensalidades, contratos de pesquisa com empresas, vendas de serviços e consultoria e doações da iniciativa privada. Portanto, as teses mencionadas parecem estar orientando o trânsito da universidade brasileira — para não dizer latino-americano — do seu funcionamento sob os parâmetros da adaptação ou da superposição dos modelos clássicos de universidade para os modelos de ocasião, que podem ser denominados de modelo da “universidade mundial do Banco Mundial”. Sguissardi (2006) critica a forma com que o Ministério da Fazenda concebe o lugar da educação superior junto ao Fundo Público essas bandeiras ou esses objetivos centrais defrontam-se com dois grandes potenciais obstáculos, condicionantes de sua aprovação e efetividade: de um lado, a própria legislação anterior, incluída a aprovada durante o governo Lula, entre elas as Leis da parceria público-privado (PPP), da inovação tecnológica e do Programa Educação Para Todos (PROUNI), mas principalmente a concepção dominante do Ministério da Fazenda em relação ao lugar que deve ocupar a educação superior nas despesas do fundo público, concepção que continua muito próxima da disseminada por organismos multilaterais, como Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), seguida bastante à risca no octênio Fernando Henrique Cardoso; e, de outro diante da atual crise política, a fragilidade das posições do Poder Executivo no Congresso Nacional, onde facilmente tenderão a se aglutinar as forças representantes dos interesses do setor privado, que poderão reduzir sensivelmente o alcance dessas bandeiras, ou modificá-las radicalmente, da mesma forma que já o fizeram em relação à proposta governamental do PROUNI e passado recente. (Idem, p. 1023) De acordo com Evelyn Pena (2004, p. 57) já havia em 2004 uma intensa discussão no Congresso Nacional “para o projeto que cria a Lei Orgânica do Ensino Superior. O artigo mencionado aponta questões-chave para o entendimento do novo Estatuto do Ensino Superior”. Há uma crítica da amplitude com que a “reforma” universitária vem sendo discutida, pois já existem elementos suficientes para mudar questões-chave como a autonomia e 159 o financiamento para depois definir a aplicação das demais. O governo Lula da Silva surpreendeu a todos em setembro de 2004 com a edição da Medida Provisória que criou o Programa Universidades Para Todos (PROUNI), que posteriormente foi transformado na Lei n.º 11.096, de 13 de janeiro de 2005. Essa lei regula a atuação das entidades beneficentes de assistência social no ensino superior. Na Medida Provisória a estimativa do MEC era criar vaga, para alunos oriundos do ensino médio público nas universidades privadas. A estimativa do MEC é que seriam abertas cerca de 300 mil vagas a alunos carentes e professores de escolas públicas. A bolsa integral seria dada a quem têm renda familiar per capita não superior 1,5 salários-mínimos e parcial de 50% a quem tem renda familiar per capita que não exceda a três salários mínimos. Em contrapartida as instituições privadas de ensino superior que aderirem ao programa ficaram isentas do pagamento do imposto de renda, da contribuição social sobre o lucro líquido, do PIS e do COFINS. Também o governo propõe a instituição de uma política de cotas para estudantes de escolas públicas, aproveitamento das idéias contidas em 22 projetos de lei já em tramitação no Congresso Nacional. A proposta do MEC é de que a política de cotas atinja as universidades públicas e às particulares. A opinião predominante entre os reitores — e de muitos educadores — é de que cada universidade decida sobre o assunto. A Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) em documento intitulado “Proposta e Expansão e Modernização do Sistema Público Federal de Educação Superior” apresentado em agosto de 2003 ao Presidente Lula95 diz que a educação superior é bem público, e não deve estar a serviço das elites econômicas. Tal princípio já estava no manifesto dos pioneiros do início da década de 1930: “a educação é 95 Considerando a trajetória do Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, e tendo como base o Plano de Governo para a Educação no primeiro mandato — Uma Escola do Tamanho do Brasil — eram esperadas grandes mudanças para a educação superior, tais como: promoção da autonomia universitária e da indissociabilidade entre ensino, pesquisa, extensão, nos termos constitucionais; consolidação das instituições públicas como referência; expansão significativa da oferta do ensino superior, em especial no setor público e nos cursos noturnos; ampliação do financiamento público ao setor público, defesa dos princípios constitucionais da gratuidade do ensino superior público (art. 206, IV, da Constituição Federal); porém no momento atual marcado pelo processo de elaboração do projeto de lei da reforma da educação superior, apontam mais para a continuidade do que para descontinuidade das políticas anteriores no setor. No presente governo foram aprovadas quatro leis federais e um decreto de suma importância para a educação superior. 160 função social e eminentemente pública, que o Estado é chamado a realizar com a cooperação de todas as instituições”. A Lei n.º 10.861, de 14 de abril de 2004, criou a Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES). Com esta lei pretendeu-se a superação dos conhecidos limites do Exame Nacional de Curso (ENEM) por um sistema mais complexo de ações de avaliação. O questionamento da lei é o não-respeito a autonomia universitária e a centralização da constituição da Comissão Nacional de Avaliação de Ensino Superior (CONAES). Sua aplicação está em andamento. A Lei n.º 10.973, de 02 de dezembro de 2004, denominada Lei da Inovação Tecnológica, trata dos incentivos a inovação e a pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo. A principal crítica que lhe é feita é de que, justificada pela necessidade de aproximação universidade-empresa, criaria sérios riscos de distorções da verdadeira função pública da universidade no campo científico e da inovação e, dada a penúria financeira das universidades públicas, criaria, também, uma subordinação da agenda universitária ao campo empresarial. A Lei n.º 11.079, de 20 de dezembro de 2004, institui normas gerais para licitação e contratação de parceria público-privada (PPP) no âmbito da administração pública. A crítica principal, no caso da educação, é que, para além do fortalecimento do pólo privado do Estado ou como parte dele, ampliase a utilização dos recursos públicos por entidades privadas, com ou sem fins lucrativos. Finalmente a Lei n.º 11.096, de 13 de janeiro de 2005, que instituiu o Programa Universidade Para Todos (PROUNI). Esta lei regula a atuação das entidades beneficentes de assistência social no ensino superior. O programa, como foi aprovado, está sendo implementado, fortalece as instituições privadas comerciais de ensino. Em troca da isenção de um conjunto de impostos pelas instituições privadas, aprovou-se a possibilidade de troca de cerca de 10% das vagas, ou 8,5% da receita bruta na forma de bolsas para alunos egressos de escolas públicas, entre outros. Uma das críticas que se faz a lei mencionada é que a utilização dos espaços ociosos dos campi das instituições federais de 161 ensino superior teria sido menos oneroso e, cumpriria parte de um dos compromissos do plano de governo para a educação superior. O Decreto nº 5.773, de 09 de maio de 2006, dispõe sobre os exercícios das funções de regulação, supervisão, de instituições de ensino superior e cursos superiores de graduação e seqüenciais no sistema federal de ensino. Este decreto dada a presumível demora da aprovação do projeto de lei da reforma, enviada ao Congresso Nacional, visaria antecipar algumas de suas medidas. Dentre estas, a incorporação do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), parte do SINAES, no processo de reconhecimento e renovação dos cursos; a extensão aos conselhos profissionais da possibilidade de se manifestarem a respeito desse processo de reconhecimento dos cursos; a melhor definição de competências na aprovação de instituições e de cursos, aquelas ficando sob a responsabilidade do Conselho Nacional de Educação (CNE) e estes da SESU/MEC e SETEC/MEC. Tais medidas trouxeram alguns avanços importantes, porém, no que concerne ao financiamento, o montante de recursos financeiros destinados as instituições federais manteve-se praticamente inalterado durante esses anos de governo. Portanto, como já foi mencionado o projeto de reforma da educação superior, mesmo que aprovado nos termos de sua versão encaminhada ao Congresso Nacional, não comportará toda a reforma, que é um longo e denso processo impossível de ser enfaixado numa única lei. Essa lei seria a última e mais importante etapa desse processo, sob certos aspectos, de continuidade, sob outros, de ruptura. Vale ressaltar que o projeto está na quarta versão da Casa Civil encaminhada ao Congresso Nacional e os principais interlocutores parecem ter sido o Ministério da Fazenda e do Planejamento (mão direita do Estado, na expressão de BOURDIEU,1997), e teria decorrido sensível redução dos poucos animadores avanços em relação à questão da autonomia e financiamento das instituições federais de ensino superior. O cenário da “reserva de vagas nas universidades públicas” se coaduna 162 com a proposta de contra-reforma universitária do Governo Lula96 que tem fundamentos, características e, conseqüências de grande alcance social e, expressa uma determinada forma de compreender o papel do ensino superior em nosso país, bem como um projeto de desenvolvimento nacional. Como já afirmamos anteriormente o objetivo da “reforma”, proposta pelo governo com o apoio do Banco Mundial é que o ensino se transforme em mercadoria, isto é, mesmo quando ofertada pelo Estado será preciso pagar pelo ensino, pois as universidades devem captar recursos se vinculando as empresas privadas e ao mercado. Outro elemento presente na “reforma” é a concentração da produção científico-tecnológica, ainda maior nos países imperialistas, principalmente Estados Unidos da América. A precarização do trabalho docente é um forte incentivo para busca do ensino superior em outros países, por aqueles que podem pagar por isto. Um outro elemento importante na “reforma” é a Expansão da Educação à Distância (EAD), que em função do seu baixo custo, aumenta exageradamente os trabalhos docentes, causando assim uma conseqüente queda na qualidade do ensino. Em termos de mercado a educação a distância é muito mais lucrativa para o capital do que a educação presencial, pois, um professor pode atender um número muito maior de alunos em diversas regiões do país. Por isso, os estudiosos mais críticos como Leher (2004) e Laura Tavares por exemplo, afirmam que com a “ reforma” em curso a maioria perde com a reforma universitária neoliberal do Governo Lula. Os estudantes perdem, não só com a queda da qualidade do ensino como também financeiramente, com o fim da gratuidade. Em longo prazo perdem também no que se refere ao mercado de trabalho, pois a “universalização” do ensino promovida pela 96 Uma das promessas do atual governo federal seria a abertura de processos democráticos e fóruns de participação da sociedade civil organizada para a formulação de políticas educacionais que resgatassem a educação, a educação profissional e o trabalho como direitos dos trabalhadores. Dessa forma, a inserção dos trabalhadores nos processos produtivos passa a ser mais autônoma; qualificada e, por isto mesmo, mais efetiva e eficiente. As propostas do governo Lula para a educação profissional e tecnológica, em debate com a sociedade hoje, formariam um Sistema Público de Educação Profissional. O caráter público deste sistema é fundamental para que o Estado garanta a universalização e a qualidade da educação profissional em todos os níveis de ensino — a realidade é completamente diferente —, em especial no nível pós-médio e superior. A revitalização das políticas educacionais, no que concerne à educação de jovens e adultos na alfabetização, deve prosseguir para o ensino fundamental e médio, porém o que se observa é uma precarização generalizada nestes setores. 163 reforma e contando com o setor privado em expansão extraordinária, tende a produzir um exército de desempregados diplomados, que irão competir de forma intensiva (e com a qualidade do ensino das universidades estatais em queda, em condições semelhantes aos estudantes oriundos do ensino privado), bem como os salários deverão ter uma queda cada vez maior, devido à oferta de força de trabalho. Os professores perdem, pois irão ter suas condições de trabalho precarizados, sua produção intelectual limitada, seus salários corroídos. A expansão dos cursos de pós-graduação tende a produzir um grande número de doutores e mestres que estarão competindo no mercado de trabalho, pressionando os salários para baixo, e diminuindo a qualidade do ensino, pois o crescimento da oferta de pós-graduação, assim como o da graduação, é acompanhado pela queda da qualidade. A população em geral perde com a “reforma” neoliberal do ensino superior, pois ela faz parte do processo de aumento geral da exploração internacional que tende a aumentar a pobreza em escala crescente, principalmente em países de capitalismo subordinado como o Brasil. Uma pequena minoria ganha, além dos países imperialistas. O governo, as empresas capitalistas e os empresários da educação são beneficiados com este estado de coisas. O governo busca manter a governabilidade com a ilusão do ensino superior para a juventude e políticas paliativas (política de cotas, inclusão de excepcionais, entre outras). Os empresários da educação ganham por conseguirem ampliar o seu mercado consumidor e pelos incentivos governamentais. As empresas capitalistas ganham com a produção ampliada de força de trabalho, o que lhe permite aumentar a exploração com a queda dos salários oriunda da competição pelo mercado de trabalho. Segundo Sérgio Haddad (2007, p. 40)97, o Brasil está vivendo um novo tipo de exclusão. De acordo com o referido autor, atualmente, a criança entra na escola, mas não consegue freqüentá-la. Haddad (idem, p. 40) discorda quanto à conquista da universalização no Brasil. Afirma que a universalização está sendo implementada em um ambiente de restrição de recursos e baixa qualidade de ensino. 97 HADDAD, Sergio. Exclusão Repaginada. In: Jornal O Globo de 15/09/2007 p. 40. 164 Os números do IBGE (2006) corroboram com essa afirmativa uma vez que enquanto o governo persegue a universalização, o Brasil ainda convive com 14,9 milhões de analfabetos de 10 anos ou mais de idade. Entre as pessoas com idade igual ou superior a 15 anos, a taxa de analfabetismo recuou menos: 0,6%. Já o ensino público apresentou recuo de 0,7% em 2006, pois chegou a 5,8 milhões o número de estudantes universitários. Grande parte deles (75,5%) estava na rede particular. De acordo com Simon Schwartzman (2005, p.37) “existem dois diagnósticos, não necessariamente conflitantes, mas ideologicamente opostos, a respeito dos problemas da educação superior brasileira”. O primeiro é que o Brasil possui um sistema de ensino superior fechado, elitista, com espaço demasiadamente amplo para interesses privados, e que isto deveria ser resolvido com uma política deliberada de expansão das matrículas no setor público, e restrições severas ao setor privado. O outro diagnóstico é que as universidades públicas brasileiras não têm, em geral, a qualidade e o desempenho que deveriam ter em função dos recursos que recebem, nem em relação à formação de alto nível, nem na absorção da demanda crescente de acesso ao ensino superior. Nesta perspectiva, a melhoria da qualidade e relevância depende da criação de um sistema apropriado de incentivos, baseado em avaliações externas, autonomia de gestão interna de recursos, e critérios de financiamento público baseados em indicadores explícitos de desempenho e contratos de gestão. A ampliação do acesso, para ser efetiva, requer que o sistema de ensino superior se diversifique, abrindo espaço para instituições proporcionando cursos curtos ou longos, com ênfase mais acadêmica ou mais prática, com maior ênfase no ensino ou na pesquisa, e adotando diferentes formatos institucionais. O ensino superior brasileiro98 parece estar evoluindo assim, rapidamente, para o padrão que já ocorre no ensino médio, com o setor privado atendendo aos estratos sociais mais elevados, fazendo com que os mais ricos paguem pela sua educação. Existem, no entanto, dois problemas sérios. O primeiro é que o setor privado dificilmente conseguirá desenvolver atividades de pesquisa e formação de alto nível mais custosas e complexas, que 98 Anteriormente foi analisada a diferença entre Universidade Pública e Ensino Superior 165 requerem investimentos maiores e de longo prazo, e resultados financeiros incertos. O segundo é que, ao se massificar sem se preparar para atender a uma população muito distinta dos estudantes de elite do passado, o setor público pode perder a qualidade que chegou a ter em muitos casos, frustrando as aspirações de seus estudantes, a um custo social cada vez mais elevado, expresso nas altas taxas de abandono escolar que se observa, de aproximadamente 30% entre o primeiro e o quarto ano de estudo no setor público, e de mais de 50% no setor privado. Fernandes (2006, pp. 165-166) “apresenta questões que explicitam a precarização da educação no Brasil”. Segundo o sociólogo, “a igualdade dos cidadãos perante a lei possui um corolário inevitável: a igualdade das oportunidades educacionais”. Democracia exige educação das elites e das classes dominantes para aceitar como iguais e como parceiros (no plano do contrato ou no da vida pública) aqueles que lhes são socialmente “inferiores”. Democracia exige também educação das classes trabalhadoras e destituídas, tanto para se verem como “cidadãos”, membros prestantes da nação e do Estado, quanto para serem desiguais , preservarem sua identidade de classe, de raça, de etnia ou de “pobres” O ideal burguês de uma Constituição niveladora já foi ultrapassado. As contradições econômicas da sociedade capitalista têm de conviver com outras contradições que não podem ser eliminadas formalmente ou por meio de ficções constitucionais bem intencionadas. Por isso, a carta magna terá de prever a revolução educacional, que não foi consumada até hoje, após quase um século de suposto convívio republicano. Ainda segundo Fernandes (2006) a ditadura agravou de tal maneira os problemas educacionais que existiam na década de 1960, e as transformações recentes na economia, da sociedade civil, da modernização cultural e social ou da posição do Brasil no mundo foram tão profundas, que se impõe reeditar todo o sistema educacional de alto a baixo. A comercialização e a tecnificação do ensino de segundo e terceiro graus produziram efeitos monstruosos. O amordaçamento do estudante e do jovem , a debilitação do ensino e da pesquisa, a degradação do prestígio e dos salários dos professores, a obsoletização das escolas em todos os graus e a massa de estudantes pobres com várias carências exigem que escola e sociedade sejam pensadas como realidades interdependentes. Só nessa esfera, tão negligenciada no passado, o Congresso Constituinte precisará revelar uma capacidade criadora com mil facetas. E essa tarefa complexa é muito difícil nessa transição para o século XXI [...]. Hoje, trata-se de educar para que o cidadão conviva e conflite com o trabalhador e, assim, as contradições entre o ser e o vir a ser engendrem, historicamente, uma revolução democrática permanente (Idem, p. 165). Nesse aspecto, pode-se afirmar que uma característica da política social 166 é a Não - Universalização do acesso da população à educação escolarizada no Brasil, não obstante a mesma tenha sido “garantida” desde o século XIX. A não universalização e a precarização é decorrente, sobretudo, de um confronto de interesses (re)alimentado por uma cultura política excludente e elitizada, que não incorpora a participação das massas nos ciclos de alternância de poder e de desenvolvimento econômico. O quadro do acesso ao Ensino Superior, no Brasil, é extremamente grave: apenas 10% dos jovens estão nas universidades; destes, mais de 70% estudam em instituições privadas, cujo crescimento foi incentivado pelo governo militar a partir dos anos 60, para fazer frente às crescentes manifestações por mais vagas que ocorriam, à época, em escala crescente. Estes números revelam o descompromisso histórico da burguesia brasileira com o desenvolvimento voltado para as maiorias, e colocam o Brasil muito abaixo do padrão dos países desenvolvidos e de quase todos os nossos vizinhos latino-americanos, nos quais mais de 35% dos jovens estão no ensino superior, chegando a mais de 60% em alguns casos. Vale lembrar que, na grande maioria destes países, as universidades são predominantemente públicas. Na educação superior o Presidente Lula deu continuidade a orientação do governo Fernando Henrique Cardoso. Comprova-se esta afirmação com a submissão do orçamento do MEC à DRU - desvinculação de Receitas da União - (ou seja, o desvio de recursos da Educação para outros fins) e a manutenção da precarização dos salários de docentes e servidores técnico-administrativos foi um dos elementos que comprovam esta continuidade. Dando continuidade a sua política de “reforma” através do Plano Nacional de Educação (PNE), o governo Lula lançou algumas medidas, dentre elas a que criou o já mencionado PROUNI (Programa Universidade para Todos) - que reserva vagas em instituições particulares de ensino superior em troca de isenções fiscais; e o SINAES - um programa de avaliação institucional que substituiu o "Provão". O incentivo à política de cotas de vagas nas universidades para estudantes negros e para estudantes oriundos de escolas públicas foi outro elemento do "pacote". Em abril de 2007 o Ministério da Educação lançou o PDE - Plano de 167 Desenvolvimento da Educação, que, no âmbito das universidades federais, inclui o REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), que segue, entre outras metas do PDE, a de aumentar para 40% o total de vagas no sistema universitário oferecidas nas instituições públicas de ensino superior. O REUNI se apresenta na forma de um edital, onde as instituições que apresentem programas de expansão de vagas têm, garantidos, novos recursos para investimentos que podem ser utilizados para a construção e melhoria da infra-estrutura e de equipamentos e para o custeio de pessoal associado à expansão das atividades das universidades, até o limite de 20% do orçamento de cada universidade, sendo o atendimento dos planos condicionados à capacidade orçamentária do MEC. Este programa vem sendo discutido com intensidade em todas as instituições e nos movimentos estudantil, de docentes e de servidores. O programa propõe, entre outras metas, o aumento da taxa média de conclusão dos cursos de graduação para 90%; a elevação da relação professor/ aluno para 1/18 (um professor para cada 18 alunos), a ocupação das vagas ociosas, o aumento das vagas nos cursos noturnos e a ampliação das políticas de inclusão e assistência estudantil. Alguns autores sugerem como alternativa à política de cotas, além da ampliação geral das vagas, o estabelecimento de programas especiais para o reforço do ensino médio e, nas universidades, para a implantação de políticas de assistência estudantil e apoio acadêmico efetivo aos estudantes de baixa renda. O REUNI99 pode fazer avançar, ao apontar para o aumento das vagas nas universidades públicas e priorizar os cursos noturnos, atendendo, assim há mais estudantes da classe trabalhadora. Mas é um programa limitado e insuficiente para garantir a expansão estrutural do ensino superior brasileiro necessária para superar o enorme déficit existente, e apresenta diversos pontos polêmicos, tais como: há que garantir que os processos de expansão estejam comprometidos com a manutenção e o aumento da qualidade do ensino superior, e que a oferta de recursos seja suficiente para este fim. A universidade brasileira deve voltar-se para a produção, deve pensar os 99 O REUNI é um programa destinado a ampliar as vagas nos cursos noturnos das universidades públicas, mediante aumento da dotação orçamentária das universidades federais. 168 grandes eixos do desenvolvimento do país, deve apontar para a universalização do acesso ao ensino superior como instrumento de promoção de bem-estar e justiça social, para a necessidade de garantir-se alta qualidade da universidade brasileira e de fazê-la voltar, em seus esforços de ensino, pesquisa e extensão, para a produção do conhecimento voltado para a solução dos grandes problemas estruturais da sociedade brasileira, com destaque para as camadas menos favorecidas, para as demandas da classe trabalhadora. Esta é uma meta de longo prazo. A luta, pela ampliação do acesso à Universidade, na perspectiva de sua universalização, e por sua democratização, se configuram dentro de uma perspectiva política de intensificação da luta de classes. Nos últimos 15 anos, a discussão sobre a educação no país foi retomada, bastante em função do processo de globalização da economia, com a reestruturação produtiva e o surgimento de novas tecnologias. No Brasil, as políticas neoliberais, implementadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso neste período, levaram a um crescente desemprego e à precarização das relações de trabalho, ampliando a concentração da renda e aprofundando as desigualdades sociais. No entanto, a educação da população e dos trabalhadores em especial passou a ser um requisito de inserção na modernidade competitiva do capital. Deter tecnologia e a capacidade de produzi-la é um dos maiores bens que um país pode ter hoje. Neste sentido, a educação passou a ser uma política estratégica para os países em desenvolvimento e as instituições financeiras multilaterais como o Banco Mundial e organismos internacionais como a Unesco passaram a financiar programas educacionais, a partir do seu ponto de vista, no Brasil. Até mesmo uma inserção subordinada dos países em desenvolvimento na dinâmica globalizada do capital requer a crescente universalização da educação nestes países. É necessário fazer um recorte sobre a atuação dos governos brasileiros. Conforme já mencionado, uma questão central que deve ficar bem clara é diferenciarmos o conceito de universidade e ensino superior, pois assim o fazendo a primeira poderá lutar pela sua legitimidade. 169 Sousa Santos (2005) esclarece que O grande problema da universidade neste domínio tem sido o fato de passar facilmente por universidade aquilo que o não é. Isto foi possível devido à acumulação indiscriminada de funções atribuídas à universidade ao longo do século XX. Como elas foram adicionadas sem articulação lógica, o mercado do ensino superior pôde auto-designar o seu produto como universidade sem ter de assumir todas as funções desta, selecionando as que se lhe afiguraram fonte de lucro e concentrando-se nelas. As reformas devem partir do pressuposto que no século XXI só há universidade quando há formação graduada e pós-graduada, pesquisa e extensão. Sem qualquer destes, há ensino superior, não há universidade. Isto significa que, em muitos países, a esmagadora maioria das universidades privadas e mesmo parte das universidades públicas não são universidades porque lhes falta a pesquisa ou a pós-graduação (SOUSA SANTOS, idem, p.64). Vale ressaltar que o BNDES no contexto neoliberal passou a direcionar seus recursos para o desenvolvimento das universidades privadas — para estas não faltaram verbas públicas —, enquanto para o ensino superior público as verbas foram se reduzindo ano a ano, causando danos irreparáveis para a produção acadêmica dos professores que atuam neste nível de ensino. Para compreendermos o aumento de universidades no país, apontaríamos como marco teórico, as mudanças ocorridas através da LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei n.º 9.394/96), que flexibiliza o artigo que trata das instituições de ensino sem fins lucrativos, concedendo autonomia para o gerenciamento de suas receitas, abrindo pressuposto para a obtenção de lucros por via do ensino. A partir de então, com a liberação para a instalação de universidades que poderiam se constituir com fins lucrativos, o grande boom de universidades se fez presente em todo o território nacional, sobretudo no sudeste brasileiro, expandindo assim, o número de vagas nas instituições privadas de ensino superior no país. No momento em que muitas destas instituições com este caráter se firmam, seus propósitos ficaram muito bem delimitados, pois o objetivo maior destas instituições de ensino superior, já se encontrava delimitado, tendo como foco principal a obtenção de lucros através da comercialização de cursos superiores. Não é preciso ser nenhum gênio para entendermos também, que o aumento da lucratividade das empresas (e logo, para os neoliberais das universidades), passa pela racionalização e redução de custos, para que haja o aumento da margem de lucro obtida, e conseqüentemente das cifras geradas 170 pelo negócio. Podemos observar que as instituições de ensino superior se firmam muito mais como negócios, do que através da preocupação com a pesquisa e o desenvolvimento que deixaram de ser os princípios, que em tese deveriam orientar e nortear estas instituições. Em contrapartida, muitos centros universitários se transformaram exclusivamente em centros de qualificação profissional pautando suas estruturas de cursos acadêmicos, com base em solicitações profissionais de um mercado de trabalho. Sousa Santos (2004, p. 28) cita algumas idéias que servirão de orientação para a expansão do mercado educacional: necessidade de mão-de-obra qualificada fundamental para suprir a velocidade da informação, exigência de cada vez mais capital humano como condição de criatividade no uso da informação e aumento da eficiência, a sobrevivência da universidade depende da sociedade de informação e economia baseada no conhecimento, tendo que sofrer transformações no seu interior, nada disso é possível no atual paradigma que domina as universidades públicas, principalmente quando a concorrência entre os operadores do ensino buscam nichos de consumo (recrutamento de alunos) com mais alto retorno para o capital investido e mudança para o paradigma empresarial, onde as universidades privadas se adaptam com muito mais facilidade do que as públicas, com objetivo de maximizar a sua rentabilidade. Sousa Santos (idem, p. 15) enfatiza que “a universidade pública perdeu a prioridade nas políticas públicas do Estado, induzidas pelo modelo de desenvolvimento econômico conhecido por neoliberalismo”, que a partir de 1980 se impôs internacionalmente. As debilidades das universidades públicas, tais como: instalações inapropriadas, custo alto por aluno, elevada taxa de evasão, entre outras, foram usadas como argumentação para justificar a abertura generalizada do bem público universitário à exploração comercial. Sousa Santos (idem, p. 17) “divide o processo de mercadorização da universidade em duas fases”: a primeira vai do início de 1980 até meados da década de 1990 e a segunda emerge no final da década de 1990 com a consolidação do mercado transnacional da educação superior e universitária, transformada em solução global dos problemas da educação pelo Banco 171 Mundial e Organização Mundial do Comércio (OMC). O autor enfatiza na sua leitura dois processos marcantes na década: o desinvestimento do Estado na universidade pública e a globalização mercantil da universidade, mudando profundamente o modo como o bem público tem sido produzido, transformando-o num vasto campo de valorização do capitalismo educacional. Sousa Santos (Idem, p. 24) critica a criação de um mercado universitário que, “em busca de maiores ganhos cria sistemas não universitários de formação por módulos, encurtando os períodos de formação, tornando a mesma mais flexível e transversal”. Apesar dessas soluções, na década de 1990, houve um impacto grande da educação superior na universidade, de criadora de condições para a concorrência e para o sucesso no mercado, transforma-se, ela própria, gradualmente, num objeto de concorrência, ou seja, num mercado. Vale ressaltar que estas idéias que presidem à “reforma” da educação proposta pelo Banco Mundial e mais recentemente a idéia da reconversão deste em banco de conhecimento, no modo que sintetiza as idéias e a transforma em condicionalidades de ajuda ao “desenvolvimento”. Com o objetivo de obter maior número de alunos e maior receita, as instituições de ensino superior privada traçaram sua composição acadêmica, oferecendo cursos de forma especulativa, tendo como referência as demandas de mercado, que cria e recria diversas profissões, e as elege como promissoras num dado momento. Dando continuidade a essa proposta de ensino superior O governo federal por sua vez, cumprindo o papel de um Estado que se mostra com um caráter cada vez mais liberalizante, no que se refere aos setores sociais, como saúde e educação, por exemplo, se tornou conivente com este cenário, na medida em que incentiva o desenvolvimento destas instituições em detrimento do ensino superior público e gratuito, cada vez mais sucateado e precarizado em nosso país. A propósito disto, a política assistencialista de bolsas, veiculada através de programas como o Fies e o Prouni reforçam, e de certa maneira mantém em pé, muitas instituições de ensino privadas deste país. (ALTAIR, 2008. Blog Controvérsia) Não por acaso o governo Lula subsidia 50% das mensalidades dos estudantes ao longo de quatro anos, nas instituições privadas de ensino superior, mesmo sabendo da falta de perspectiva e de possibilidades de inserção desses futuros profissionais no mercado de trabalho. Trata-se da lógica do sistema capitalista que desvaloriza o preço da força de trabalho com 172 a finalidade de obtenção de maiores lucros e tornar a educação uma mercadoria. Na educação contemporânea observa-se a instituição de um ponto de tensão entre a acumulação de capital e as necessidades de uma população estudantil pobre. Tal população foi privada do acesso ao ensino superior, em função da elitização que vigora desde as primeiras décadas do século XX. As universidades públicas foram instituídas neste país, para educarem os filhos das elites brasileiras, principalmente nos cursos considerados “nobres”, tais como: Direito, Medicina e Odontologia. A criação do sistema de reservas de vagas nas universidades públicas do país apresenta-se como uma solução alternativa para ampliar o acesso de minorias étnicas e alunos oriundos da rede pública ao ensino superior. Conforme já mencionado nesse estudo, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a pioneira em adotar a política de cotas, através de lei estadual, inicialmente para negros e pardos e, posteriormente, ampliando o seu universo para alunos de escolas públicas e finalizando com a inclusão de cotas para filhos de funcionários do sistema penitenciário e policiais civis e militares mortos em serviço. As ONGs divulgam diversas pesquisas sobre universidades públicas que adotaram o sistema de cotas, observando uma diversidade que há tempos não se mostrava, principalmente naqueles cursos considerados “nobres” (de maior relação candidato/vaga). Nesta tese, como já mencionamos anteriormente, priorizamos a utilização de dados de órgãos oficiais de pesquisas para podemos comprovar a veracidade das informações divulgadas por todas as ONGs que abordam esse assunto. A principal crítica atribuído ao sistema de cotas é o receio pela queda na qualidade do ensino e também a questão de acirrar conflitos raciais, mas nas instituições que adotaram o sistema de cotas não foi observado, houve uma integração entre alunos cotistas e não-cotistas e o rendimento desses últimos até ultrapassou aqueles que ingressaram pelo sistema normal do vestibular. Tais dados foram obtidos através de pesquisas, realizadas pelos setores de 173 cada uma das instituições de ensino superior.100 Alguns dos resultados destes estudos, se não são solucionáveis, só o serão depois que novas concepções surjam e sejam testadas. Deve-se pensar de forma mais sistemática e menos preconceituosa na política social. Nesta direção, vale mencionar que uma construção histórica da agenda das políticas públicas no Brasil moderno é mencionado por Melo Rico em seu livro Avaliação de Políticas Sociais: uma questão em debate (2006). A autora mencionada enumera uma série de questões referentes às políticas públicas, tais como: os efeitos perversos das políticas públicas não explicitamente sociais, e a política social era referida como uma não-política, uma omissão que expressava a pouca prioridade conferida aos aspectos distributivos pelo regime. À incorporação da política social à dinâmica da acumulação expressa na constituição de complexos empresariais em torno da política social é entendida pelos críticos como uma dimensão da não-política. Este debate, na realidade, se processou em escala mundial sob o comando ideológico do Banco Mundial que passou a difundir a fórmula redistribution with growth, no que foi seguido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) que introduziu a abordagens da Basic Needs. (MELO. In: RICO, (Org.). 2006, p. 13-17) Neste sentido Silene Freire (2007) afirma que Embora as organizações estimuladas pelas agências multilaterais estejam voltadas para a ação social, efetivamente não possuem capacidade de promover elementos que alterem as regras do jogo; ou seja, não são capazes de acirrar o debate, de trazer novos elementos para reflexão, de mostrar a desigualdade como um ponto fundamental na disputa política e, por conseguinte garantir e universalizar a cidadania. Essas organizações, em sua grande maioria não-governamentais (ONGs), parecem atuar apenas como uma espécie de mediação que remedia situações limites da pobreza. (FREIRE In: FREIRE, (Org.). 2007. p. 147) Todas essas questões evidenciam que a discussão sobre o ensino superior precisa ser situada no contexto dos processos político, social, econômico e cultural que abrangem não somente as questões sobre educação, mas também as relações sociais em sua totalidade, fazendo-se necessário a consideração de dois estágios: “o do esclarecimento e o da compreensão da totalidade social, de que a educação é parte, incluindo as relações de determinação e influência que ela recebe da estrutura econômica, e o específico das discussões de temas e problemas educacionais” (GADOTTI, 1993, p. 130) Janaína Martins (2003, p. 60) enfatiza em sua dissertação que a 100 Na UERJ, o Laboratório de Políticas Públicas realizou estudos em 2007 demonstrando as principais polêmicas do sistema de cotas. 174 “implementação do ensino superior no Brasil e seu caráter elitista relaciona-se ao movimento histórico de construção do estado brasileiro e de acesso aos direitos educacionais no país”. A autora ressalta que o ensino superior no Brasil começa tardiamente, tanto é que o país é um dos últimos a concentrar esforços para a instituição do ensino superior em seu território. Para corroborar tal afirmação basta verificar que no Peru a primeira instituição de ensino superior data de 1551, na Argentina 1613, São Domingos 1538, Cuba 1728, Chile 1793 e no Brasil em 1808 foi criada a Faculdade de Medicina da Bahia, com finalidade de atender as necessidades militares. Martins (Idem, p. 61) destaca a nítida correlação entre a implementação embrionária das escolas de ensino superior no Brasil e a precariedade dos direitos sociais, políticos e civis da população no período colonial. Vale lembrar que os primeiros cursos e academias de estudos superiores seguiam o modelo napoliônico, caracterizado pela fragmentação e voltado unicamente para formação profissional. Cunha (2001) enfatiza que a criação das universidades no Brasil foi realizada pela união de cursos isolados, que não eram, em sua maioria, ao menos faculdades isoladas, mas cátedra de ensino superior Aquela influência francesa tem a ver com o tipo de coisas que se ensinavam, que estavam nos livros, trazidos todos da França. Está também na forma das instituições, todas isoladas. Depois de multiplicadas, foram costuradas institucionalmente em faculdades, as faculdades foram reunidas e daí nasceram as universidades. Portando, o processo de constituição do nosso ensino superior foi um processo de agregação sucessiva, que está longe de chegar ao seu fim. (CUNHA, 2001. p. 6) Carlos Lessa (1999) em seu artigo A universidade e a pós-modernidade: o panorama brasileiro, resgata os estudos de Luiz Antônio Cunha, na década de 80, ao publicar o seu clássico trabalho de reconstituição da história do ensino superior brasileiro, da Colônia à Era Vargas, qualifica, em um título inspirado, nossa universidade como "temporã"101. Recupera uma trajetória na qual, por variadas razões geopolíticas, político-ideológicas etc., foi adiada a montagem da Universidade no Brasil. Ainda que formalmente, desde 1920, a UFRJ estivesse organizada, e seja possível registrar a instalação da USP, da 101 Aliás, a saga da universidade brasileira é esquadrinhada, por Cunha, em duas outras obras: A Universidade Crítica: O Ensino Superior na República Populista (1983) e A Universidade Reformanda (1988). 175 UFMG e da Universidade de Porto Alegre como marcos anteriores à Segunda Guerra Mundial, a frustração do sonho de Anísio Teixeira com a Universidade do Distrito Federal e a mágica interrompida de Darcy Ribeiro com a UnB, diferem dos anos 70 na configuração da Universidade que integra ensino, pesquisa e extensão como uma instituição indispensável ao projeto do Brasilpotência. Lessa (1999, p. 159) ressalta que “no umbral do Terceiro Milênio, no bojo do processo dito de ”globalização", diante da hegemonia do discurso neoliberal, no transcurso da mais severa crise financeira e fiscal da República”, o Brasil, na periferia dos vagalhões da pós-modernidade, temporariamente sem rumo, em dúvida quanto à sua identidade, neo-adicto à lógica miúda do curto prazo, propõe-se a redefinir a educação. Hoje, o discurso da prioridade da educação é dominante como proposta para o futuro, sublinhando a educação fundamental. Para o ensino superior e o sistema de produção de alta-cultura na melhor versão cabe um papel coadjuvante102. O tema do ensino superior está associado a uma avaliação crítica da Universidade brasileira vista como anacrônica e desperdiçadora de recursos. O ideal do Estado mínimo transfere essa crítica e sugere a necessidade de uma "reforma" modernizadora. O mesmo autor afirma ter razões para temer que a Universidade brasileira venha a ser condenada menos pelos seus vícios e insuficiências e mais por suas virtudes. Com a esperança de que os sucessores de Luiz Antônio Cunha não substituam o temporã pelo qualificativo de abortada, impõe-se especular sobre a natureza da crise que atinge a instituição. A Universidade não teve apoio necessário na época imperial; na transição da República Velha para o Estado Novo e, para o Brasil redemocratizado. Entretanto, durante todas essas décadas, o ensino superior foi sendo ampliado, na medida em que o desenvolvimento econômico e social implicou novas tarefas para a sociedade. Este fato gerou o surgimento de novos cursos, porém sem nenhum objetivo de implantar a universidade. A pesquisa desenvolveu-se de forma tímida, somente após a 2.ª Guerra Mundial surgem alguns núcleos de pesquisa científica como a instalação do 102 A alta-cultura, como a entende o autor neste artigo, compreende as produções científica e tecnológica. Não se trata, pois, apenas de cultura erudita. 176 Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no ano de 1949103. Nos anos 30, Anísio Teixeira e o movimento da Escola Nova buscavam, com a formação das faculdades de filosofia, a constituição das universidades integradas. A pesquisa como coluna vertebral do ensino superior, na consagrada fórmula de Humboldt, ensaiada pela Universidade de Berlim na primeira metade do século XIX, somente foi implantada no Brasil nos anos 60. Entretanto, a simples reunião de faculdades e institutos, não garante um ensino superior de ponta. Este não é um fenômeno particular do Brasil; é universal. O século XX reduziu o esplendor da Universidade. Em alguns países da Europa, tais como Alemanha a universidade funcionava como suporte para a construção da nação alemã; na França, a Universidade dividiria prestígio com a Academia. Tudo isso nos aproxima da atual universidade brasileira, que tentou combinar o modelo francês com o paradigma humboldtiano na versão anglosaxônica sem apagar os vestígios da matriz ibérica.104 De acordo com Lessa (1999) O desenvolvimento do capitalismo perturbou, por diversos ângulos, a concepção decimonônica sobre a Universidade. A postura diletante cede espaço à chamada pesquisa aplicada e investigação tecnológica. Este segmento, com crescente aplicação aos processos produtivos e, na ordem capitalista, à competição interempresarial, não se adapta com facilidade ao ritual da ciência básica. Quando saber do artesão, na época pré-industrial, o conhecimento tecnológico era segredo de corporação que os mestres transmitiam de forma reservada aos oficiais de seu grêmio. Com a desagregação das tarefas complexas, e a constituição do trabalhador coletivo, houve momento em que, para certos ramos industriais, o saber fazer estava disponível no manual do equipamento padronizado. Porém, rapidamente, as indústrias de processo contínuo, as diferenciações de produto para o mercado, o acesso diferenciado a materiais etc., foram convertendo a informação sobre desenvolvimento tecnológico em dimensão qualificante e central da empresa em suas estratégias de mercado. O conhecimento tecnológico sempre foi um componente importante para o poder militar dos Estados nacionais. Aqui, o conhecimento diferencial é vantagem por vezes decisiva. (p.159) A pesquisa aplicada prospera fora da universidade no século XIX. Empresas, a partir de certo porte, têm seus próprios departamentos de 103 o sonho da Universidade precedeu no Brasil a independência. O Patriarca preconiza um programa, em 1821 — Lembranças e Apontamentos —, de implantação de um sistema de ensino coroado por uma universidade central com quatro faculdades: Filosofia, Medicina, Jurisprudência e Economia, Fazenda e Governo. Graduado por Coimbra, José Bonifácio propõe para o Brasil uma universidade mais avançada que a da reforma pombalina do padre Verney. (LESSA,1999, p. 160) 104 O modelo adotado pelas universidades brasileiras é aquele que reúne várias faculdades isoladas nas diversas áreas do saber, diferente do modelo francês que construiu suas universidades observando a totalidade do conhecimento. 177 pesquisa e desenvolvimento e algumas unidades são líderes em segmentos de ponta. Nas lições de Lessa (Idem) “o reconhecimento da empresa como instituição central da produção leva à proposta de articulá-la com a Universidade de uma dupla perspectiva”. Por um ângulo, surge a idéia da Universidade produzindo conhecimento para a apropriação privada, que entra em atrito com o ideal da Universidade produtora de conhecimento público; por outra dimensão, o objeto de pesquisa e o modo de acessá-lo são propriedade privada da empresa. No século XX, agigantou-se a cultura de massas. Houve conversão da obra do autor em mercadoria, da produção cultural em indústria, associadas a produção de economia e reprodução do poder. Cabe ressaltar, segundo Lessa (1999) A interligação, em tempo real, de fluxos planetários de informação, com o dinamismo da telemática, a desterritorialização dos sistemas de produção e o manejo de informações, impõe novas determinações sobre o espaço, o território, a nação, logo, a Universidade. Esses fenômenos formam o pano de fundo de um novo domínio de criação, difusão e ambiência cultural. Os fluxos massivos de informação criam novas comunidades com os seus rituais de pertencimento e cultos de fidelidade. Com a base física de uma descomunal rede de computadores, utilizando idiomas próprios, articula-se de forma difusa uma comunidade cósmica sem referência a território. A produção cultural (alta-cultura, cultura de massa e cultura popular) e, potencialmente, novas relações de poder desenvolvem-se com a base técnica do ciberespaço. A virtualidade deste espaço força uma redefinição do papel da Universidade. (Idem) Segundo Marilena Chauí (1999) “as idéias neoliberais105 permaneceram como letra morta até a crise capitalista do início dos anos 70, quando o capitalismo conheceu, pela primeira vez um tipo de situação imprevisível, isto é, baixas taxas de crescimento econômico e altas taxas de inflação106. 105 O que chamamos de neoliberalismo nasceu de um grupo de economistas,cientistas políticos e filósofos, entre os quais Popper e Lippman, que, em 1947, reuniu-se em Mont Saint Pélerin, na Suíça, à volta do austríaco Hayek e do norte-americano Milton Friedman. Esse grupo opunha-se encarniçadamente contra o surgimento do Estado de Bem-Estar de estilo keynesiano e social-democrata e contra a política norte-americana do New Deal. Navegando contra a corrente das décadas de 50 e 60, esse grupo elaborou um detalhado projeto econômico e político no qual atacava o chamado EstadoProvidência com seus encargos sociais e com a função de regulador das atividades do mercado, afirmando que esse tipo de Estado destruía a liberdade dos cidadãos e a competição sem as quais não há prosperidade. (CHAUÍ, Marilena. Ideologia neoliberal e universidade. OLIVEIRA, Francisco de; PAOLI, Maria Célia (Orgs). Os sentidos da democracia. Políticas do dissenso e hegemonia global. Petrópolis. Editora Vozes. 1999. p. 27) 106 A agenda neoliberal implica alguns pressupostos, tais como: 1) um Estado forte para quebrar o poder dos sindicatos e movimentos operários, para controlar os dinheiros públicos e cortar drasticamente os encargos sociais e os investimentos na economia; 2) um Estado cuja meta principal deveria ser a 178 É importante entender os traços do capitalismo contemporâneo, pois, a partir daí poderemos perceber as contradições por ele engendrado. Desse modo embora extensa vale a pena citar as reflexões de Chauí (Idem) sobre alguns traços do sistema capitalista atual. 1. o desemprego tornou-se estrutural, deixando de ser acidental ou expressão de uma crise conjuntural, porque a forma contemporânea do capitalismo, ao contrário de sua forma clássica, não pêra por inclusão de toda a sociedade no mercado de trabalho e de consumo, mas por exclusão. Essa exclusão se faz não só pela introdução da automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão-de-obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas. Como conseqüência tem-se a perda do poder dos sindicatos e o aumento da pobreza absoluta (na América Latina há 196 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza; estudos da ONU prevêem que no ano de 2000, 312 milhões, se a renda per capita estagnar — serão 59,3% da população da América Latina). 2. o monetarismo e o capital financeiro tornaram-se o coração e o cenro nervoso do capitalismo, ampliando a desvalorização do trabalho produtivo e privilegiando a mais abstrata e feitichizada das mercadorias, o dinheiro. 3. a terceirização, isto é, o aumento do setor de serviços, tornou-se estrutural, deixando de ser um suplemento à produção porque, agora, a produção não mais se realiza sob a antiga forma fordista das grandes plantas industriais que operavam com imensas linhas de montagem e grandes estoques, além de concentrarem todas as etapas de produção 4. A ciência e a tecnologia tornaram-se forças produtivas deixando de ser mero suporte do capital para se converter em agentes de sua acumulação. Consequentemente, mudou o modo de inserção dos cientistas e técnicos na sociedade uma vez que tornaram-se agentes econômicos diretos, e a força e o poder capitalistas encontram-se no monopólio dos conhecimentos e da informação. 5. Diferentemente da forma keynesiana e social-democrata que, desde o pósSegunda Guerra, havia definido o Estado como agente econômico para regulação do mercado e agente fiscal que emprega a tributação para promover investimentos nas políticas de direitos sociais, agora, o capitalismo dispensa e rejeita a presença estatal não só no mercado, mas também nas políticas sociais, de sorte que a privatização tanto de empresas quanto de serviços públicos também tornou-se estrutural. Disso resulta que a idéia de direitos sociais como pressuposto e garantia dos direitos civis ou políticos tende a desaparecer, porque o que era um direito converte-se num serviço privado regulado pelo mercado e, portanto, torna-se uma mercadoria a que têm acesso apenas os que têm poder aquisitivo para adquiri-la. 6. A transnacionalização da economia torna necessária a figura do Estado nacional como enclave territorial para o capital e dispensa as formas estabilidade monetária, contendo os gastos sociais e restaurando a taxa de desemprego necessária para formar um exército industrial de reserva que quebrasse o poderio dos sindicatos; 3) um Estado que realizasse uma reforma fiscal para incentivar os investimentos privados e, portanto, que reduzisse os impostos sobre o capital e as fortunas, aumentando os impostos sobre a renda individual e, portanto, sobre o trabalho, o consumo e o comércio; 4) um Estado que se afastasse da regulação da economia, deixando que o próprio mercado, com sua racionalidade própria, operasse a desregulação; em outras palavras, abolição dos investimentos estatais na produção, abolição do controle estatal sobre o fluxo financeiro, drástica legislação anti-greve e vasto programa de privatização. O modelo foi aplicado, primeiro, no Chile, depois na Inglaterra e nos Estados Unidos, expandindo-se para todo o mundo capitalista (com exceção dos países asiáticos) e, depois da “queda do muro de Berlim”, para o Leste Europeu. Esse modelo político tornou-se responsável pela mudança da forma da acumulação do capital, hoje conhecida como “acumulação flexível” e que não havia sido prevista pelo grupo neoliberal. De fato, este propusera seu pacote de medidas na certeza de que abaixaria a taxa de inflação e aumentaria a taxa do crescimento econômico. A primeira aconteceu, mas a segunda não, porque o modelo incentivou a especulação financeira em vez dos investimentos na produção; o monetarismo superou a indústria. Donde fala-se em “capitalismo pós-industrial”. (CHAUÍ In: OLIVEIRA ; PAOLI,p. 29) 179 clássicas do imperialismo (colonialismo político-militar, geopolítica de áreas de influência, etc.), de sorte que o centro econômico, jurídico e político planetário encontra-se no FMI e no Banco Mundial. Estes operam com um único dogma, proposto pelo grupo fundador do neoliberalismo, qual seja: estabilidade econômica e corte do déficit público. 7. A distinção entre países de Primeiro e Terceiro Mundo tende a ser substituída pela existência, em cada país, de uma divisão entre bolsões de riqueza absoluta e de miséria absoluta, isto é, a polarização de classes aparece como polarização entre a opulência absoluta e a indigência absoluta. Há, em cada país, um “primeiro mundo” (basta ir aos jardins e ao Morumbi, em São Paulo, para vê-lo). A diferença está apenas no número de pessoas que, em cada um deles, pertence a um dos “mundos”, em função dos dispositivos sociais consolidados e da política tributária (o grosso dos impostos não vem do capital, mas do trabalho e do consumo). (Idem, pp 2931) Dessa maneira, o paradigma do consumo tornou-se o mercado da moda, veloz, efêmero e descartável. Porque a ideologia da nova forma da acumulação do capital, o pós-modernismo relega à condição de mitos eurocêntricos totalitários os conceitos que fundaram e orientaram a modernidade: as idéias de racionalidade, universalidade, o contraponto entre necessidade e contingência, os problemas da relação entre subjetividade e objetividade, a história como dotada de sentido imanente, a diferença entre natureza e cultura, etc. Em seu lugar, a ideologia pós-moderna afirma a fragmentação como modo de ser do real fazendo a idéia de diferença o núcleo provedor de sentido da realidade. Chauí (1999) ressalta que A ideologia pós-moderna realiza três grandes inversões ideológicas; substitui a lógica da produção pela circulação (donde, nas universidades, a avaliação ser feita pelo número de publicações e não pela qualidade e importância da pesquisa); substitui a lógica do trabalho pela lógica da comunicação (donde a crença do Ministro da Educação de que, sem alterar o processo de formação dos professores do ensino básico e sem alterar seus salários aviltantes, tudo irá bem na educação desde que haja televisões e computadores nas escolas; e substitui a lógica da luta de classes pela lógica da satisfação-insatisfação dos indivíduos de consumo. (Idem, p. 33) Em tal contexto, de acordo com a autora “a qualidade propriamente educacional não é mencionada. São mencionados os desempenhos numéricos em exames vestibulares, o preço dos cursos e a forma de seleção de candidatos a vagas nas escolas” (sendo clara a discriminação de classe e étnica) (Idem, p. 34). Desta forma, entendemos que o fato da grande mídia escrita e falada criticar de forma não teórica o sistema de cotas das universidades públicas, sem levar em conta que as grandes desigualdades persistentes do nosso país gerou um debate puramente ideológico, e o que desejamos demonstrar com nossa tese é justamente o contrário. 180 Chauí (idem, p. 34) também indaga sobre a qualidade do ensino público no Brasil “por que seria interessante melhorar a qualidade do ensino público? Porque “se o ensino gratuito fosse de melhor qualidade, haveria maior competição e, previsivelmente, menores preços da rede particular”. Outra indagação feita pela autora acima citada é que “as universidades públicas, via de regra de melhor qualidade que as particulares, absorvem a clientela rica das escolas privadas de segundo grau e os estudantes pobres ou não fazem universidade ou pagam exorbitâncias nas universidades particulares de baixa qualidade” (Idem, p. 34). Como resolver o problema? Instituindo a universidade pública paga. Nenhuma reflexão é feita sobre as causas estruturais da situação calamitosa do ensino de primeiro e segundo graus, nenhuma reflexão é feita sobre o significado social e político do ensino público gratuito. É dado como óbvio que a lógica do mercado é a solução para os problemas educacionais. No caso do sistema de cotas, apesar de não ser a solução do problema do acesso ao ensino superior, deveria ser debatido de uma forma mais profunda e menos ideológica, principalmente na defesa da esfera pública e das denominadas minorias, que são marginalizadas do acesso a educação superior107. Ainda sobre a qualidade da educação superior vale a pena fazer uma retrospectiva histórica, principalmente dos anos de chumbo da ditadura militar para entendermos a situação atual deste segmento de ensino. Na época da ditadura militar brasileira, a classe dominante, sob o pretexto de combate a subversão, mas, realmente, para servir aos interesses de uma de suas parcelas (os proprietários das escolas privadas), praticamente 107 Chauí (1999) observa nos debates universitários que alguns temas já se tornaram hegemônicos na mente universitária, tais como: 1. aceitação da idéia de avaliação universitária sem nenhuma consideração sobre a situação do ensino de primeiro e segundo graus, como se a universidade nada tivesse a ver com eles e nenhuma responsabilidade lhe coubesse na situação em que se encontram; 2. aceitação da avaliação acadêmica pelo critério da titulação e das publicações, com total descaso pela docência, critério usado pelas universidades privadas norte-americanas nas quais a luta pelos cargos e pela efetivação é feita a partir dos critérios quantitativos da produção publicada e pela origem do título de PHD; 3. aceitação do critério de distribuição dos recursos públicos para pesquisa a partir da idéia de “linhas de pesquisa”, critério que faz sentido para as áreas que operam com grandes laboratórios e com grandes equipes de pesquisadores, mas que não faz nenhum sentido nas áreas de humanidades e nos campos de pesquisa teórica fundamental; 4. aceitação da idéia de modernização racionalizada pela privatização e terceirização da atividade universitária, a universidade participando da economia e da sociedade como prestadora de serviços às empresas privadas, com total descaso pela pesquisa fundamental e de longo prazo. 181 destruiu a escola pública de primeiro e segundo graus (atualmente ensino fundamental e médio). Por que pôde fazê-lo? Porque, neste país, a educação é considerada privilégio e não um direito dos cidadãos. Que pretendia a classe dominante ao desmontar uma patrimônio público de alta qualidade? Que a escola de primeiro e segundo graus (atualmente ensino fundamental e médio) ficasse reduzida à tarefa de alfabetizar e treinar mão-de-obra barata para o mercado de trabalho. Chauí (1999) critica o desmonte das escolas de educação básica realizada no período da ditadura, afirmando A classe dominante aguardou o resultado esperado: os alunos do primeiro e segundo graus (ensino fundamental e médio) das escolas publicas, quando conseguem ir até o final desse ciclo, porque por suposto estaria, “naturalmente” destinados à entrada imediata no mercado de trabalho, não devem dispor de condições de enfrentar os vestibulares das universidades públicas, pois não estão destinados a elas. A maioria deles é forçada ou a desistir da formação universitária ou a fazê-la em universidades particulares que, para lucrar com sua vinda, oferecem um ensino de baixíssima qualidade. Em contrapartida, os filhos da alta classe média e da burguesia, formados nas boas escolas particulares, tornam-se a principal clientela da universidade pública gratuita. E, agora, temos que ouvir dessa mesma classe dominante pontificar sobre como baixar custos e “democratizar” essa universidade pública deformada e distorcida que nos impusera goela abaixo. Que é proposto como remédio? Para “baixar os custos”, privatizar a universidade pública, baixar o nível da graduação e realizar, para a universidade, como versão-90, o que foi feito para o primeiro e o segundo graus na versão-70. (Idem, p. 38) As universidades ficaram divididas em três tipos de escola que não correspondem à divisão institucional da universidade em institutos e faculdades, mas ao modo como a atividade universitária é pensada e exercida, os três tipos podendo existir e coexistir em qualquer dos institutos e faculdade: 1. a que dá prestígio curricular ao docente; 2. a que oferece complementação salarial ao docente pesquisador; 3. a universidade pública. Segundo Chauí (1999) Esta terceira escola é aquela que mantém um vínculo interno entre docência e pesquisa, portanto, entre formação e criação, conhecimento e pensamento. Nela, realizam-se as pesquisas fundamentais, ou seja, as de longo prazo, independentes, que acarretam aumento de saber, mudanças no pensamento, descobertas de novos objetos de conhecimento e novos campos de investigação, reflexões críticas sobre a ciência, as humanidades e as artes, e compreensão-interpretação das realidades históricas. (p. 40) Ao conceber a universidade na atualidade como expressão do caráter mercadológico Chauí (1999) tece várias críticas a este modelo 182 1. empregando critérios que visam à homogeneidade, a avaliação despoja a universidade de sua especificidade, isto é, a diversidade e pluralidade de suas atividades, determinadas pela natureza própria dos objetos de pesquisa e de ensino, regidos por lógicas específicas, temporalidades e finalidades diferentes; 2. nada é conseguido como autoconhecimento da instituição, mas apenas um catálogo de atividades e publicações (acompanhadas de inexplicados conceitos classificatórios) que, absurdamente, passa a orientar a alocação de recursos; 3. a prestação de contas à sociedade não se cumpre porque tanto orçamentos quanto execuções orçamentárias são apresentados com números agregados, sem explicitação de critérios, prioridades, objetivos e finalidades e sem explicitar os convênios privados. (p. 41) Do ponto de vista político, uma reflexão sobre as conseqüências do neoliberalismo, revela que o encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado, com a supressão dos direitos por privilégios (do lado da “elite”) e por carências (do lado popular), aniquilando a cidadania. Do ponto de vista teórico, uma reflexão sobre a chamada “crise da razão” que leva à recusa das categorias que fundaram e organizaram o saber científico e filosófico modernos. Conforme Chauí (loc.cit, p. 42) “se nos voltarmos para o aspecto, de que a universidade constitui a sociedade teremos que considerar os traços que desenham o perfil da sociedade brasileira”.108 Nas palavras de Chauí (loc.cit., p. 44-45) para compreendê-la é importante indagar: como a universidade se mostra parte integrante e constitutiva desse 108 Os traços poderiam ser, muito grosseiramente, assim resumidos: 1. Relações sociais hierárquicas ou verticais, nas quais os sujeitos sociais se distribuem como superiores mandantes competentes e inferiores obedientes incompetentes; não opera, portanto, o princípio da igualdade formal-jurídica nem o da igualdade social real. Imperam as discriminações sociais, étnicas, de gêneros, religiosas e culturais. 2. Relações sociais e políticas fundadas em contactos pessoais, sem a mediação das instituições sociais e políticas de modo que estão estabelecidos os paradigmas da relação sócio-política a favor, a clientela e a tutela; não operam, portanto, as formas de representação e participação nas decisões concernentes à coletividade, mas formas variadas de paternalismo, populismo e mandonismos locais e regionais. Inexistem o princípio da liberdade e o da responsabilidade. Imperam poderes oligárquicos. 3. As desigualdades econômicas e sociais alcançam patamares extremos, não só porque 92% do PIB concentram-se nas mãos de 2% de indivíduos e grupos, enquanto 8% do PIB se distribuem para os 98% restantes da população, mas também porque a forma contemporânea do capitalismo e da política liberal, operando com o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado, com o desemprego estrutural e a exclusão sócio-política polarizam a sociedade brasileira entre a carência e o privilégio. Ora, uma carência é sempre particular e específica, não conseguindo generalizar-se num interesse comum nem universalizar-se num direito, e um privilégio, por definição, é sempre específico e particular, não podendo generalizar-se num interesse comum nem universalizar-se num direito sem deixar de ser privilégio. Na medida em que prevalecem carências e privilégios e os direitos não conseguem instituir-se, inexistem condições para a cidadania e para a democracia que, como vimos, tornaram-se inseparáveis da ética. 4. Na medida em que não operam os princípios da igualdade, da liberdade, da responsabilidade, da representação e da participação, nem o da justiça e o dos direitos, a lei não funciona como lei, isto é, não institui um pólo de generalidade e universalidade social e política no qual a sociedade ser reconheça. A lei opera como repressão, do lado dos carentes, e como conservação de privilégios, do lado dos dominantes. Por não ser reconhecida como expressão de uma vontade social, a lei é percebida como inútil, inócua, incompreensível podendo ou devendo ser transgredida, em vez de ser transformada. Torna-se espaço privilegiado para a corrupção. 183 tecido oligárquico, autoritário e violento brasileiro? 1. Com relação ao corpo discente: a universidade pública tem aceitado passivamente a destruição do ensino público de primeiro e segundo graus, a privatização desse ensino, o aumento das desigualdades educacionais e um sistema que reforça privilégios porque coloca o ensino superior público a serviço das classes e grupos mais abastados [...]. 2. Com relação ao corpo docente: [...] tende, por sua vez, a imitar os procedimentos de organização e luta dos trabalhadores industriais e dos serviços, assumindo também a organização e a luta corporativas por empregos, cargos e salários. Ao fazê-lo, deixam as questões relativas à docência, à pesquisa, aos financiamentos e à avaliação universitária nas mãos das direções universitárias, perdendo de vista o verdadeiro lugar da batalha. 3. Com relação a docência: os universitários tendem cada vez mais a aceitar a separação entre docência e pesquisa, aceitando que os títulos universitários funcionem como graus hierárquicos de separação entre graduação e pós-graduação, em lugar de pensá-las integradamente [...]. Isto é, a redução da graduação a um segundo grau avançado para a formação rápida e barata de mão-de-obra com diploma universitário. Em contrapartida, aceitam que a pós-graduação seja o funil seletivo de docentes e estudantes, aos quais é reservada a verdadeira formação universitária. 4. Com relação às universidades federais: de um lado, aceitação acrítica do modo como foram criadas para servir aos interesses e prestígio de oligarquias locais que as transformaram em cabides de empregos para clientes e parentes, não lhes dando condições materiais — bibliotecas, laboratórios, sistema de bolsas e de auxílios — para funcionarem como verdadeiras universidades [...]. 109 das pesquisas: tendência à aceitação 5. Com relação aos financiamentos acrítica da privatização das pesquisas, perdendo de vista o papel público do trabalho de investigação [...]. 6. Com relação à administração universitária ou ao corpo de funcionários: impera a ausência de carreiras definidas, concursos públicos transparentes, clareza de funções. Não há programas de formação e atualização dos funcionários. Não há atualização dos procedimentos do trabalho administrativo, mesmo porque isto significaria quebrar por dentro a burocracia [...]. (Idem, pp 44-46) Desta forma as universidades públicas estão institucionalizadas de maneira a reproduzir todos os traços da sociedade brasileira.110 109 A aceitação dos financiamentos privados produz os seguintes efeitos principais: a) perda da autonomia ou liberdade universitárias para definir prioridades, conteúdos, formas, prazos e utilização das pesquisas,m que se tornam inteiramente heterônomas; b) aceitação de que o Estado seja desincumbido da responsabilidade pela pesquisa nas instituições públicas; c) aceitação dos financiamentos privados como complementação salarial e fornecimento de infra-estrutura para os trabalhos de investigação, privatizando a universidade pública; d) desprestígio crescente das Humanidades, uma vez que sua produção não pode ser imediatamente inserida nas forças produtivas, como os resultados das ciências; e) aceitação da condição terceiro-mundista para a pesquisa científica, uma vez que os verdadeiros financiamentos para pesquisas de longo prazo e a fundo perdido são feitos no Primeiro Mundo. Com relação aos órgãos públicos de financiamento, como CAPES, CNPq ou FINEP, sabe-se que a burocracia destes órgãos absorve a maior parte dos recursos em sua própria auto-reprodução; há fragmentação dos financiamentos, sem clareza quanto aos objetivos e às prioridades, não há uma política para financiar a manter bibliotecas e laboratórios, para aquisição contínua e sistemática de materiais e instrumentos de precisão, nem para acompanhar, no longo prazo, grupos e centros universitários de pesquisa. Em contrapartida, a criação do PRONEX, que oferece recursos para a infra-estrutura de pesquisa e a continuidade dos trabalhos, visa a desmantelar a pesquisa universitária propriamente dita, uma vez que os “centros de excelência” ou “grupos de excelência” passam ao largo da instituição universitária enquanto tal, existindo como existem, no mercado, as microempresas e franquias. 110 Os traços citados são: — reforço da carência e do privilégio, no caso do corpo discente; 184 O pós-modernismo, subproduto da ideologia neoliberal, ao afirmar que as antigas idéias de razão, universalidade, consciência, sentido da história, luta de classes, justiça, responsabilidade e que as distinções entre natureza e cultura, público e privado, ciência e técnica, subjetividade e objetividade perderam a validade, passa a afirmar como realidades únicas e últimas a superfície veloz do aparecer social, a intimidade e a privacidade narcísicas, expostas publicamente sob a forma da propaganda e da publicidade, a competição e a vitória individual a qualquer preço. Chauí (1999, p. 51) enfatiza que “se não lutarmos contra o neoliberalismo, nossas tentativas para reconstruir as escolas públicas nos seus três graus estará prometida ao fracasso”. O neoliberalismo não é uma lei natural, nem uma fatalidade cósmica, nem muito menos o fim da história. Ele é a ideologia de uma forma histórica, particular, assumida pela acumulação do capital, afirma a autora. Portanto, a lógica neoliberal atingiu níveis preocupantes no ensino superior por reforçar ainda mais os traços de privatização do espaço público estatal nas universidades públicas brasileiras. Conforme Laura Tavares Soares (2001, p. 22) o neoliberalismo age diretamente na possibilidade de mobilidade social, polarizando ainda mais as classes e criando espaços de frustração entre jovens egressos do ensino superior.111 Janaína Martins (2003, p. 87)112 destaca que a universidade pública estatal brasileira é um elemento fundamental para construção da verdadeira cidadania, a qual não deve estar relegada apenas ao consumo e ao exercício — reforço de privilégios e desigualdades, no caso do corpo docente, dividido hierarquicamente em professores e pesquisadores. — reforço dos padrões autoritários, oligárquicos e violentos da sociedade brasileira pela ausência de controle interno da universidade por ela mesma e pela ausência de verdadeira prestação de contas das atividades universitárias à sociedade, portanto, abandono do princípio democrático da informação dos e aos cidadãos. 111 O que existiu ao longo desses últimos anos, na verdade, foi um crescimento vegetativo e insuficiente do investimento do Estado em políticas públicas fundamentais — com o que o governo procurou assentar seu compromisso com o social — enquanto a crise fiscal é aprofundada por custos com um setor parasitário. Tratou-se (...), de uma verdadeira punição de impostos, uma transferência de riqueza para os especuladores. (...) A sociedade tem dado recursos para além da sua capacidade, sobretudo os trabalhadores, já que o sistema tributário brasileiro está especialmente fundado no consumo. “Enquanto isso, a direção da sua aplicação pelo governo foi geradora do mais profundo déficit público vivido pelo Brasil em toda sua história.” (BEHRING, 2003, p.280 ) 112 Para maior aprofundamento a autora elaborou a dissertação “O significado do crescimento das instituições privadas de ensino superior na contemporaneidade brasileira: uma análise do caso do Estado do Rio de Janeiro pelo PPG em Serviço Social da UERJ no ano de 2003”. 185 do pleito eleitoral, e sim para ampliação dos espaços de participação democrática. Na mesma direção Freire (2003) afirma que ao legitimar a educação de direito em serviço, a reforma neoliberal percebe a universidade pública como prestadora de serviços, deslocando a noção de autonomia universitária para idéia de capacidade de captar recursos, tendo a extensão universitária como uma das vias principais para chegar a este objetivo (FREIRE, 2003. p. 26). Já José Murilo de Carvalho (2002) relaciona a mercantilização dos direitos sociais à dificuldade de legitimação da democracia no Brasil, visto que A cultura do consumo dificulta o desatamento de nó que torna tão lenta a marcha da cidadania entre nós, qual seja, a incapacidade do sistema representativo de produzir resultados que impliquem a redução da desigualdade e o fim da divisão dos brasileiros em castas separadas pela educação, pela renda, pela cor. (CARVALHO, 2002, p. 228). Janaína Martins (2003) enfatiza que investir em educação privada é um bom negócio Os negócios em educação já representam 9% do PIB do país (2002), o que significa em reais a movimentação de 90 bilhões por ano, segundo estimativas da Ideal Invest, consultoria paulista especializada em negócio de ensino. Este valor é aproximado ao valor que movimentam juntos os setores de telecomunicações e energia. Ainda baseado em dados da Ideal Invest o faturamento do ensino superior privado aumentou de cerca de 3 bilhões de reais em 97 para 10 bilhões de reais no ano de 2001. (Idem, p. 87) Segundo Gaudêncio Frigotto (2000, Apud MARTINS, 2003, p. 84) “a lógica da mercantilização contínua da educação assume também especificidade na trato da teoria do capital humano”, que retorna aos ideais de empresários neoconservadores, preocupados com o nível de competitividade vigente nas relações mercantis deste estágio em que se encontra a esfera de produção e reprodução do capital. Conforme ressalta Nicholas Davies (1999, p.165) “as reformas ocorridas na educação na década de 90 trazem consigo um toque de privatização e questionamento da esfera pública como sinônimo de estatal”. O Estado privatista é aceito pelas políticas neoliberais como entrave a publicização da educação em todos os níveis, educação básica e superior, Embora as últimas décadas tenham presenciado a expansão da escola estatal, ainda hoje o acesso a ela é deficiente do ponto de vista quantitativo. 186 Mesmo esta expansão quantitativa foi minada pela diminuição da qualidade (entendida no sentido tradicional: falta de condições, de ensinoaprendizagem, falta de professores, livros, má remuneração e sobre carga de trabalho dos professores), reforçando e legitimando as desigualdades sociais, uma vez que as classes populares/trabalhadoras acabam recebendo um ensino que não é igual ao oferecido às camadas médias/altas, desigualdade essa que contribui para reforçar e legitimar as desigualdades sociais. (DAVIES,. 1999. p. 165) Marilena Chauí (2001) ressalta que em toda parte, temos acompanhado e participado de discussões sobre a universidade e a necessidade de defende-la como um direito democrático, opondo-nos às medidas estatais que visam o seu desaparecimento. Cada um de nós tem tomado posição no debate, mas nem sempre nossos pressupostos estão claros para quem nos ouve ou nos lê. Por esse motivo, julguei valer a pena situar o contexto em que proponho o debate. (CHAUÍ, 2001, p. 9) Como ressalta Chauí, Fundada na noção de direitos, a democracia está apta a diferenciá-los de privilégios e carências. Os primeiros são, por definição, particulares, não podendo generalizar-se num interesse comum nem universalizar-se num direito porque deixariam de ser privilégios. Carências por sua vez, são sempre específicas e particulares, não conseguindo ultrapassar a especificidade e a particularidade rumo a um interesse comum nem universalizar-se num direito. A natureza universal do direito (seja porque válido para todos seja porque, diferenciado, é reconhecido por todos) aponta para um dos problemas centrais da sociedade brasileira, em que as desigualdades polarizam o espaço social entre o privilégio (das oligarquias) e as carências (populares); a dificuldade para instituir e conservar a cidadania. (Idem, p. 12) A mesma autora enfatiza que a cidadania se constitui pela e na criação de espaços sociais de lutas [...] É com ela que nasce a idéia e a instituição do espaço público, a distância do espaço privado da família, da economia e da religião. (Idem, p. 12) Em relação a democracia, não há dúvida de que instituí-la no Brasil é coisa extremamente difícil: em primeiro lugar, sempre foi difícil em decorrência da estrutura autoritária da sociedade brasileira; em segundo, ela se torna quase impossível diante da hegemonia econômico-político do neoliberalismo e de sua expressão social-democrata, a chamada “terceira via”. “Em outras palavras, a polarização entre a carência e o privilégio exprime a existência de uma sociedade na qual o espaço público não consegue instituir-se” (CHAUÍ, 2001, p. 13). Nossa sociedade possui um modo peculiar de evitar o trabalho dos conflitos e das contradições sociais, econômicas e políticas como tais, uma vez 187 que conflitos e contradições negam a imagem mítica da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. O autoritarismo social opera pela naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas, postas como desigualdades raciais entre superiores e inferiores, das diferenças religiosas e de gênero. Entretanto, impossível negar que hoje em dia por toda parte têm surgido, entre professores, estudantes e funcionários, propostas e práticas visando à democratização da universidade. Do lado dos professores, os esforços têm-se concentrado em duas direções principais: o fortalecimento das associações docentes como poder de pressão e o veto ante a burocracia universitária, e a luta pela diminuição da autoridade hierárquica pelo aumento da representação docente, discente e funcional nos órgãos colegiados e nos centros de decisão. É importante entender segundo Chauí (2001) que Por meio da pressão e da reivindicação por maior representação, sobretudo para os graus mais baixos da carreira, os professores têm-se empenhado pelo direito de conhecer e controlar os orçamentos universitários e na defesa da liberdade de ensino e pesquisa, denunciando a triagem ideológica e a desvalorização do trabalho docente e de investigação pelos critérios da quantidade. Assim, contra a burocracia administrativa, temos proposto o reforço dos parlamentos universitários; contra a falta de autonomia econômica, a abertura e controle dos orçamentos e verbas; e, enfim, contra a falta de autonomia cultural, a liberdade de ensino e de pesquisa e o critério da qualidade. (Idem, p. 66) Devido ao autoritarismo presente nas universidades, essas propostas e algumas de suas conquistas têm significado um avanço político e cultural imenso, causando preocupações nos administradores universitários, que vêem aí uma ameaça ao seu poderio. O que não deixa de ser sintomático, pois, quando bem analisadas, nossas tentativas democratizantes não ultrapassam o quadro das exigências de uma democracia liberal!113 113 Vale lembrar que “a democracia liberal define e articula de modo particular as idéias constitutivas da democracia, dando-lhes um conteúdo determinado. Assim, a idéia de comunidade, que no conceito originário de democracia se define pela presença de uma medida comum que torna os membros da coletividade equivalentes - essa medida é a liberdade pela qual será estabelecida a igualdade de condições na participação no poder e na repartição dos bens é uma idéia inviável na sociedade de classes, dividida não apenas pelo conflito dos interesses, mas por diferenças que vão desde as relações de produção até a participação no poder e na cultura. Na democracia liberal, duas entidades deverão substituir a idéia de comunidade livre e igual: a Nação e o Estado. A primeira é a face subjetiva da "comunidade" de origem, de costumes, de território, produzindo uma identificação social que ignora a divisão das classes. A segunda é a face objetiva da "comunidade", figurando sob forma imaginária o interesse geral, acima dos interesses particulares. A liberdade será definida pela idéia de independência, 188 Corroboramos com Chauí (2001) no sentido que num país como o Brasil, de tradição fortemente autoritária, a democracia liberal sempre aparece como um grande passo histórico e político, toda vez que se julga poder implantá-la durante algum tempo. Por esse motivo, no quadro da universidade, é perfeitamente compreensível que a democratização permaneça no contexto liberal. Isso, porém, não nos impede de compreender uma possibilidade democrática para além dos limites liberais. Nesse caso, precisaríamos começar compreendendo que a democracia não é forma de um regime político, mas uma forma de existência social. Compreendida sob esse ângulo, ela nos permitiria perceber que o poder não se restringe à esfera do Estado, mas se encontra espalhado pelo interior de toda a sociedade civil sob a forma da exploração econômica e da dominação social veiculada pelas instituições, pela divisão social? O trabalho, pela separação entre proprietários e produtores, dirigentes e executantes. A democracia, entendida como democracia social e política, também nos permitir e perceber como as divisões sociais operam no sentido de privatizar cada vez mais a existência social, reduzindo progressivamente o campo das ações comuns ou grupais, restringindo o espaço social ao espaço doméstico isolado (basta examinar o urbanismo contemporâneo para que essa privatização da vida salte aos olhos), mobilizando periodicamente os indivíduos para melhor despolitizá-Ios. (Idem, pp. 69-70) Seria preciso, também, que retomássemos o exame da idéia de representação antes de acoplá-Ia imediatamente à de participação. O ponto de apoio da dominação contemporânea, sob a forma da administração burocrática ou da Organização, é a separação operada entre direção e execução em todas as esferas da vida social (da economia ao lazer, passando pelas instituições sociais como a escola, o hospital, o espaço urbano, os transportes, as organizações partidárias, até o núcleo da produção cultural). Assim sendo, a questão democrática, antes de ser discussão sobre a cidadania como direito à representação, deveria ser a questão da concreticidade da própria cidadania trata-se do direito à gestão da vida econômica, social, política e cultural por o que, na verdade, reduz sua definição ao direito à propriedade privada, única a permitir a nãodependência com relação a outrem (portanto, os "dependentes" não são livres). Essa idéia é incompatível com a de igualdade, evidentemente, pois o direito formal de todos à propriedade privada não possui a menor viabilidade concreta, uma vez que o sistema social no seu todo funda-se na desigualdade de classe. A igualdade, então, passa a ser definida pela propriedade privada do corpo e pela relação de contrato entre iguais (sendo todos proprietários de seus corpos e de suas vontades). A relação contratual é encarada como uma realidade jurídica, e por isso a igualdade será definida como igualdade perante a lei. Os conflitos, por seu turno, não sendo realmente conflitos de interesses, mas de classes, não podem ser trabalhados socialmente, sendo, então, apenas rotinizados por meio de canais institucionais que permitam sua expressão legal e, portanto, seu controle. As eleições, articuladas à idéia de rotatividade dos governantes, perdem seu caráter simbólico (isto é, de revelação periódica da origem do poder, pois durante o período eleitoral o lugar do poder achando-se vazio revela-se como não pertencendo a ninguém, mas espalhado pela sociedade soberana), para reduzir-se à rotina de substituição de governos (permanecendo o poder sempre ocupado). Enfim, a democracia liberal reforça a idéia de cidadania como direito à representação, de modo a fazer da democracia um fenômeno exclusivamente político, ocultando a possibilidade de encará-Ia como social e histórica. A idéia de representação recobre a de participação, reduzindo-a ao instante periódico do voto. A liberdade se reduz à de voz (opinião) e voto, e a igualdade, ao direito de ter a lei em seu favor e de possuir representantes”. (Idem, pp. 68-69) 189 seus agentes. A democracia social e política, fundada numa cidadania concreta que começa no plano do trabalho, é a passagem dos objetos sociopolíticos que nos tomamos à condição de sujeitos históricos. A universidade, como instituição de docência e pesquisa, não pode passar ao largo dessa crise da racionalidade114, pois a vocação científica da universidade depende da posição que ela tome ante o novo paradigma da razão ou da não-razão. Chauí (2001) crítica a passividade que nossas universidades têm tido pois, incorporam sem crítica e sem reflexão essa perda do antigo referencial da racionalidade. E é fácil comprovar a ausência de críticas pelos temas que são pesquisados - o gosto pelo micro, o gosto pela "diferença"; pela docência submissa aos estudantes como consumidores que esperam dos cursos a gratificação narcísica instantânea, como a televisão lhes dá; pelo fascínio dos papers, das parcerias, do vocabulários, da competitividade, da eficiência e da modernidade, como se a universidade, para esconder a crise da razão, operasse com categorias como a eficiência, a competitividade, a modernidade, categoria que ela não produziu e sobre as quais ela não tem idéia. O que é grave é nossa inconsciência, pois a universidade está mergulhada no pós-modernismo sem o saber. Conseqüentemente, coloca-se passivamente diante do modelo neoliberal porque já o incorporou, sem que soubesse que o estava fazendo, incorporando passivamente a ideologia desse modelo que é o pós-modernismo. (Idem, p. 131) No plano da política universitária, essa absorção passiva do neoliberalismo e do pós-modernismo se revela pela noção de que houve mesmo o fim da razão. Economicamente, o neoliberalismo opera sobre dois pilares: a dispersão da produção e dos serviços e a exclusão crescente de grupos e classes sociais da esfera do trabalho e, portanto, da esfera do consumo. Com isso, o neoliberalismo retira dos trabalhadores os referenciais de classe e, ao mesmo tempo, os deixa indefesos diante da chamada exclusão e do desemprego. A resposta brasileira tem sido o corporativismo e a luta salarial. Essa resposta, também, foi passivamente absorvida pela universidade, e as lutas dos professores, estudantes e funcionários tornam-se cada vez mais 114 Categorias gerais como universalidade, necessidade, objetividade, finalidade, contradição, ideologia, na verdade são consideradas mitos de uma razão etnocêntrica, repressiva e totalitária. Em seu lugar, aparecem: o espaço tempo fragmentado, reunificado tecnicamente pelas telecomunicações e informações; a diferença, a alteridade; os micropoderes disciplinadores; a subjetividade narcísica; a contingência, o acaso; a descontinuidade, e o privilégio do universo privado e íntimo sobre o universo público; o mercado da moda, do efêmero e do descartável. Não por acaso, na cultura, o romance é substituído pelo conto, o livro, pelo paper, e o filme, pelo videoclipe. O espaço é sucessão de imagens fragmentadas; o tempo, pura velocidade dispersa. 190 corporativas. A universidade, também, não tomou uma posição diante desse problema. Com isso, a divisão socioeconômica e política são passivamente reproduzidas por nós. Produtividade e competitividade: é o discurso da cúpula universitária; defesa da categoria, salários: é o discurso da comunidade universitária. É importante salientar que esta absorção passiva citada por Chauí faz parte de uma cultura política que não é recente, sendo muitas vezes essa passividade que constroem consensos115, como foi o caso dos anos de chumbo que caracterizaram a ditadura militar. Cabe mencionar que aspectos cruciais desse período foram responsáveis por uma lógica de privatização da educação que transcende o atual contexto no neoliberalismo. Pelo exposto anteriormente, cabe aqui tão-somente resgatar que “a política educacional da ditadura para o ensino superior não se submeteu à orientação dos interesses do grande capital apenas contendo o acesso à graduação e reduzindo a alocação de recursos públicos” (NETTO,2005 p. 62), liberados para investimento em áreas mais prioritárias para os monopólios: transformou, pela primeira vez na história brasileira, o ensino superior num setor de investimentos capitalistas privados extremamente rentáveis — a educação superior, sob a autocracia burguesa, transformou-e num “grande negócio”. 116 Essa universidade esvaziada, igualmente apta a produzir profissionais afeitos à lógica formal-burocrática que preside aos ordenamentos tecnocráticos na mesma escala em que modela atores orientados pela irresponsabilidade social do cinismo, esta universidade —que um juízo mais duro talvez não vacilasse em considerar domesticada e corrompida — foi obra do regime 115 Cumpre constatar, Segundo José Paulo Netto (2005) a existência de um amplo consenso acerca do ponto de inflexão da postura ditatorial em face da educação: os analistas, apesar das suas diferenças ideopolíticas e de suas opções teórico-metodológicas alternativas, coincidem na verificação de que houve um giro, uma mudança qualitativa e estrutural, no trato da educação por parte da autocracia burguesa — e que este giro ocorre entre 1968 e 1969. Em termos breve, há como que uma espécie de unanimidade em reconhecer pelo menos dois momentos no enfrentamento da ditadura com a educação: um entre 1964 e 1968, caracterizado especialmente pelo esforço para erradicar as experiências democratizantes que se vinham desenvolvendo; outro, a partir de 1968-1969, marcado pela intervenção direcionada para modelar, pela política educacional, o sistema institucional de ensino conforme as exigências imediatas e estratégicas do projeto “modernizador”. (NETTO, José Paulo. Ditadura e serviço social. São Paulo. Cortez. 2005. p. 54) 116 A chamada livre iniciativa encontrou aí um dos seus vários paraísos, estabelecendo as suas universidades — o que não impediu, por vários canais, que nelas fossem injetados vultosos recursos públicos —, preferencialmente freqüentadas (e pagas) por alunos oriundos e/ou situados/nos (p. 63) níveis e socioeconômicos inferiores. Para os efeitos das universidades privadas e seus cursos “fáceis”, Cf. Freitas, 1986. p. 112ss. 191 autocrático burguês. Ela dá a medida da extensão e dos limites da sua política educacional — e, por isso mesmo, a crise da ditadura apenas fez vir à tona a crise da sua universidade (bem como do seu sistema educacional). No Brasil, o projeto de controle e enquadramento foi bem mais longe que noutros espaços do mundo da cultura117. Não por acaso a partir da implementação da agenda neoliberal, nos anos 90, a restauração do Estado de direito, a explicitação retórica da prioridade social progressivamente, e pela a construção crise da econômica. democracia A posteriori, são a minadas, temporária estabilização dos preços vem acompanhada pelo desemprego, pela atrofia de oportunidades inerente à redução do crescimento e pela desmontagem do sonho da sociedade de bem-estar anunciada na Constituição de 1988. Esta, apenas promulgada e antes de sua plena regulamentação, foi avassalada por um processo de "desconstitucionalização" e desestabilização da ordem jurídica. A administração por medidas provisórias consagrou a hegemonia do Poder Executivo. Esse cenário é síncrono com a atrofia da auto-estima e crise 117 Segundo Netto (2005) um dos componentes fundamentais desta neutralização, do potencial político das universidades consiste na restrição do trabalho acadêmico nos limites da academia — ou seja, o curto-circuito (instaurado originalmente por meio coativos) entre teoria, pesquisa e prática social —, foi extremamente importante naquelas áreas universitárias cujo objeto era a reflexão teórica sobre o ser social. Aqui, revertendo uma fecunda tendência que se manifestava desde a década de cinqüenta, o insulamento universitário, que foi ulteriormente legitimado, no plano intelectual, como requisito e índice de competência, qualificação e objetividade científicas, desempenhou uma multiplicidade de papéis que cabe não descurar. Com o expurgo de docentes e pesquisadores cuja carreira vinculava-se as tendências democratizantes e progressistas anteriores, mais o crescimento quantitativo do corpo docente, criou-se um quando de professores descomprometido com o passado — inclusive e principalmente com a continuidade do padrão de trabalho intelectual que vinha se afirmando, a duras penas, desde meados dos anos cinqüenta. Abria-se o espaço para uma intelectualidade independente, que tanto exercitou (é certo que minimamente) uma contestação abstrata do regime autocrático burguês quanto, por isso mesmo, ofereceu a este uma possibilidade (também diminuta, é verdade) de legitimação pelo aparente pluralismo que sugeria tolerar. Propiciou-se a existência (longe de ser hegemônica, naturalmente) de um discurso teórico formalmente de esquerda, que só pagava um preço para sobreviver: não conjugar a reflexão (teoria, ciência) com a intervenção prático-social dela decorrente (ideologia, política). No limite, tal neutralização era compatível até com a existência de um “marxismo acadêmico” — desde, é claro, que jejuno de prática social e, preferencialmente, crítico do “marxismo aplicado”. Este marxismo acadêmico, limitado a fronteiras puramente intelectuais, potencialmente desempenhava funções de apologia indireta. O modismo intelectual como fácil via para o estrelismo e o ecletismo como recurso esópico de sobrevivência (ou, ainda, como decorrência da degradação do padrão de trabalho intelectual) se generalizaram neste caldo cultural favorecedor de um novo mandarinato acadêmico — traços que, por quase uma década, fizeram com que o pouco de original e vivo que resistia no mundo da cultura passasse ao largos dos muros da academia. Não é este o lugar para tratar da vivência subjetiva dos protagonistas deste drama na cena universitária; para aqueles que conservaram a sua integridade intelectual e ética, permanecer aí era travar, honestamente, sem ilusões, a batalha da resistência possível; para boa parte dos novos quadros, precisamente aqueles descomprometidos com o passado, foi quase imperceptível o trânsito da resistência possível para a ilusão da resistência — numa racionalização tanto mais elaborada quanto mais se expressava a crise da ditadura. (Idem, p. 66-67) 192 de identidades nacionais. São óbvias as repercussões desses processos sobre a Universidade. Segundo Romano (1998) As universidades atuais enfrentam o risco de se tornarem empresas vinculadas diretamente ao mercado [...] a tendência dominante é a neoliberal, unindo, de modo imediato, o labor científico e o trabalho no sistema capitalista, tendo a universidade o seu tipo particular de produção. (Este é o novo modo de se amestrar o setor universitário com avaliações na lógica mercantil. (ROMANO In: Romano (org.), 1998, p. 15) Não há dúvida de que a radicalidade da adoção do paradigma de mercado amesquinha a visão de Universidade, hipertrofia os argumentos utilitaristas e abre uma busca desesperada da mercadoria a ser produzida pela Universidade. O produto com maior visibilidade e disponibilidade é denominado recurso humano. Dessa perspectiva, a Universidade é pensada como uma escola-fábrica, que produz mão-de-obra com a qualificação desejada pelo mercado. É necessário o recurso humano profissional capaz de operar determinadas técnicas e aplicar conhecimentos especializados. A renovação tecnológica é uma dimensão progressivamente importante para a competição capitalista e exige a formação de profissionais capazes de se ajustarem com o tempo mínimo de adaptação à operação das novas técnicas. Conclui-se, portanto, segundo Valdemar Sguissardi (2006, p. 1034), que as “reformas pontuais independentes de lei específica, mas de uma série de instrumentos legais e de medidas como a redução dos recursos financeiros, garantidores da mudança, tiveram como pano de fundo os ajustes da economia sugeridos pelo diagnóstico neoliberal e o que se tem denominado como “teses” defendidas em especial pelo Banco Mundial ao longo das décadas de 80 e 90. Dentre as teses anteriormente mencionadas podemos destacar: I)Tese do Maior Retorno Social e Individual dos Investimentos em Educação Básica que o dos Investimentos em Educação Superior; II) Tese da Universidade de Ensino x Universidade de Pesquisa; III) Tese do Ensino Superior Como Bem Antes Privado que Público. Segundo Sguissardi (idem, p 1039) essas teses parecem estar de fato orientando o trânsito da universidade brasileira — do seu funcionamento sob os parâmetros da adaptação ou da superposição dos modelos clássicos de 193 universidade para os dos modelos de “ocasião”, fundados nessas teses, que podem ser denominadas de modelo da “universidade mundial do Banco Mundial” ou de modelo anglo-saxão, por sua implantação, primeiro na Inglaterra. O autor acima mencionado (Idem, p. 1039) ressalta que “a educação superior no Governo Lula vem sendo mantida basicamente na mesma direção do governo FHC”. Na área universitária, os instrumentos legais e as medidas administrativas, incluídas as financeiras, mostram até o momento que não houve rupturas com “o processo anterior, a não ser, na adoção de novo sistema nacional de avaliação e com pequena expansão das instituições federais de ensino superior” (Idem, ibidem). Passados todos esses anos de Governo Lula, constata-se que não prevaleceram políticas anti-neoliberais em qualquer campo da administração pública, mas, sim, uma clara continuidade das políticas do octênio anterior, tais aportes são importantes para se pensar os limites e possibilidades da política de cotas no atual contexto. 194 3 POLÍTICA DE COTAS: AS (IN)VISIBILIDADES DOS DISCURSOS SOBRE O TEMA É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. Antonio Gramsci Conforme temos observado no decorrer desta tese, o Brasil é um país historicamente desigual que em pleno século XXI permanece com desafios imensos frente à necessidade de redução dessas desigualdades. No que concerne à educação, esse tem sido um espaço onde os dados evidenciam as dificuldades do enfrentamento desta questão (Cf. Cap. II). Contudo, conforme mencionamos em artigo recente (FREIRE e PEREIRA, 2009), a questão da desigualdade no Brasil tem gerado inúmeros debates travados sob o signo da fragmentação não apenas do conhecimento como também da percepção da realidade. Não por acaso temas como a questão das cotas raciais nas universidades públicas e tantos outros semelhantes a esses, apesar de sua óbvia importância imediata, “refratam o foco da análise totalizadora para os aspectos mais visíveis, ou melhor, para as ”pontas dos icebergs”, para os efeitos e as conseqüências das desigualdades sociais entre nós e não para suas causas e razões profundas” (loc. cit., pp. 43-44). Este aspecto acaba favorecendo um debate pouco fundamentado, resumido a meras opiniões sem compromisso com fundamentações e centrados em ‘achismos’ contrários e favoráveis a essa ação afirmativa. Este não é um movimento localizado, como observaram Bordieu e Wacquant (2002), temas fundamentais impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro. “Esses lugares-comuns no sentido aristotélico de noções ou de teses com as quais se argumenta, mas sobre as quais não se argumenta ou, por outras palavras, esses pressupostos da discussão que permanecem indiscutidos” (loc. cit., p.1, grifos nossos), fazem parte de nossa realidade contemporânea. Assim sendo buscamos neste terceiro e último capítulo de nossa tese, 195 contribuir para a visibilidade das invisibilidades presentes neste debate que muitas vezes parece prisioneiro das vulgatas dos lugares-comuns presentes, sobretudo na mídia, ao longo dos anos. Deste modo, objetivamos contribuir para uma maior consistência do debate retirando-o do confinamento desenraizado, desparticularizado que caracteriza o senso-comum. Neste sentido vale lembrar que o senso comum é em realidade a filosofia das massas, que aceitaram a moral, os costumes e o comportamento institucionalizado da sociedade burguesa em que vivem. Por isso, ultrapassar o senso comum para Gramsci era fundamental para compreender como a classe dominante procurou conquistar o consentimento das classes subalternas e assim entender como de fato essas ultimas podem proceder para produzir uma nova ordem de liberdade universal (FREIRE,1998). Ao buscarmos analisar criticamente os diferentes paradigmas que permeiam os estudos da política de cotas raciais partimos da constatação de que esse já é um campo de produção bastante significativo, com expressivo crescimento a partir de 2005 no Brasil, que ainda não foi suficientemente estudado. Existe hoje um impressionante número de publicações sobre o assunto e esse vasto e recente contingente possui particularidades relevantes que precisam ser explicitadas para entendermos os rumos presentes e o próprio futuro do debate. Esse vasto conjunto de trabalhos pode ser organizado de várias maneiras. Poderíamos, por exemplo, apenas selecionar as questões-argumentos que são apresentadas na defesa e não defesa dessas políticas, mas entendemos que essa seria uma forma parcial de conhecermos os nexos, os sentidos, as compreensões dessa política na contemporaneidade. Como pudemos constatar nem todos esses trabalhos são iguais do ponto de vista dos marcos teóricos que adotam para o desenvolvimento de suas análises e interpretações. Ao contrário, existem atualmente distintos modelos teóricos sendo empregados no estudo das cotas raciais, o que torna possível organizar a literatura existente agrupando os estudos disponíveis em torno deles, como também em torno das temáticas que as perspectivas teóricas evidenciam na construção de suas abordagens sobre o tema. Assim sendo esse capítulo é dedicado ao estudo das principais 196 abordagens sobre a política de cotas nas universidades e o modo como a vulgarização deste debate aparece na mídia, sobretudo na imprensa escrita e os seus principais rebatimentos nos processo das avaliações que são realizadas sobre a implementação das cotas, tendo como estudo de caso privilegiado a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O estudo que empreenderemos nesse capítulo filia-se a tradição da construção de modelos teóricos empregados no estudo das políticas sociais (no plano nacional e internacional) com o objetivo de familiarizar os leitores com as principais questões teóricas sobre a política de cotas que estão disponíveis atualmente na literatura e de modo mais vulgarizado na mídia e no processo de avaliação supracitado. Pretendemos, apresentar, na seção 3.1., uma visão resumida das principais abordagens, procurando destacar os autores e grupos de autores que representam cada uma delas e fornecer indicações para leituras adicionais. Para cada abordagem que discutiremos, procuraremos também realizar avaliações das mesmas sobre as suas possibilidades e limites frente à questão central deste debate que é a relação das cotas com a redução de um determinado tipo de desigualdade expresso na discriminação. É importante ressaltar, que para além do estudo das abordagens teóricas que nos debruçaremos neste capítulo, entendemos ser fundamental a análise de como a mídia vem difundindo seus principais discursos sobre o tema, no sentido de construir uma fala hegemônica em torno da questão. Considerando que esta “ação” midiática também contribuiu para a invisibilidade de diversas correntes de pensamento ao privilegiar determinadas falas de especialistas em detrimentos de outras, construindo simulacros de difíceis percepções, como demonstrou Marilena Chauí a discutir a ofensiva midíatica dos últimos anos. (CHAUÍ, 2006) A aparente “veracidade” das falas direcionadas para a construção do consenso em torno de “uma” fala hegemônica são respaldadas pela opinião de especialistas, sendo que as mesmas são selecionadas dentre as variadas abordagens possíveis e/ou porque reforçam o senso comum, e/ou porque se aproximam da linha editorial de interesse do jornal ou revista. Para compreender melhor tal processo, incluímos, também neste capítulo, a seção 3.2, sobre a importância da mídia impressa em torno da produção dos sentidos sobre as cotas. 197 Desse modo, fez-se mister em cada início das seções deste capítulo elucidar o caminho a partir do qual vamos “quebrar os ovos para fazer a omelete” (FALEIROS, 2004), melhor dizendo nosso mirante de construção das análises. Isso porque, como mencionam Behring e Boschetti (2008, p.25) “as concepções de políticas sociais supõem sempre uma perspectiva teórico-metodológica, o que por seu turno tem relações com perspectivas políticas e visões de mundo”. Melhor dizendo, “toda análise de processos e relações sociais, na verdade, é impregnada de política e disputa de projetos societários” (idem), apesar de algumas abordagens analíticas propugnarem de diferentes formas o mito da neutralidade. Com a finalidade de tornar claras as pesquisas no campo das ações afirmativas veremos em cada seção os dados da pesquisa realizada nesta tese sobre as publicações em artigos de jornais, livros e revistas, que nos fornecerão idéias de como estão sendo feitas às abordagens e seus impactos/influências nos argumentos de implementação e gestão do sistema de reservas de vagas (cotas) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 3.1 Principais Abordagens Sobre a Política de Cotas nas Universidades Ao iniciarmos nossa pesquisa para tese de doutorado procuramos ter o maior acesso possível ao conjunto das publicações existentes sobre o tema, para nossa surpresa o universo de produção era bem maior que o previsto embora os temas abordados se repetissem com muita freqüência e raramente mencionassem as obras de argumentos similares como referências. No fundo o que parecia prevalecer naquele momento (ano de 2005) e continua prevalecendo atualmente, eram livros contra e a favor de cotas e nada mais além disso. Desse modo, sem ignorar que apesar das proximidades cada produção não pode ser exatamente igual a quaisquer outras, pois variam as ênfases conceituais e as maneiras de considerar a evidência empírica que cada qual realiza, como demonstrou Coimbra (1994), procuramos organizar a literatura existente em termos de conjuntos maiores de autores e obras, que poderíamos estabelecer em função de suas grandes concordâncias e convergências teóricas. Procuramos, portanto, discutir as semelhanças das obras pela afinidade temática que possuem como central para construirmos o que podemos chamar de abordagens ou ponto de vista, compartilhados pelos autores. No início a 198 construção desses conjuntos de abordagens mais freqüentes das obras foram pensados independentemente das profissões dos autores, ou seja, advogados, antropólogos, economistas, assistentes sociais, sociólogos, etc., entretanto no decorrer da construção das análises foi ficando nítido que os três conjuntos de abordagens que se evidenciavam tinham vínculos estreitos com três blocos de conhecimento: direito, antropologia e sociologia. O que nos ajudou ainda mais a compreender os nexos das argumentações destas produções. Não são poucos os estudos que desde a década de 90 têm procurado organizar de maneira semelhante a bibliografia disponível, sugerindo diferentes tipologias ao longo das quais podemos classificar a produção intelectual a respeito do assunto a que se dedicam. Vale lembrar o estudo de Coimbra (1994) já citado anteriormente. Entretanto, nem todos os estudos possuem a mesma forma de construir os critérios adotados na montagem das tipologias. Para facilitar a compreensão do estudo que empreendemos, procuramos expor separadamente o critério a partir da exposição de cada abordagem por nós construída. Cabe registrar que a pesquisa revelou três eixos temáticos presentes na produção do universo investigado, são eles: a igualdade legal; a igualdade racial e a luta de classes. Assim, é a seguinte a relação que propomos: — A perspectiva da igualdade legal; — A perspectiva da igualdade racial; — A perspectiva da centralidade da luta de classes. Antes de passarmos à apresentação de cada uma, cabe lembrar que estamos expondo as características mais gerais de cada abordagem e buscando exemplificar através de alguns de seus autores mais representativos suas principais características, sem com isso afirmar que esses autores são idênticos entre si, ou que sua obra é exatamente igual à daqueles que possuem a mesma abordagem. Também apresentamos a seguir um quadro comparativo das publicações de acordo com as perspectivas construídas através da centralidade das temáticas, para que o leitor possa compreender logo de início a freqüência de sua presença nas obras analisadas: 199 PUBLICAÇÕES Livros e Revistas Acadêmicas Nacionais Livros e Revistas Acadêmicas Estrangeiras Teses e Dissertações Artigos em Revistas Não Acadêmicas Artigos em Jornais TOTAL SOMATÓRIO PERSPECTIVAL DA IGUALDADE LEGAL PERSPECTIVA DA IGUALDADE RACIAL PERSPECTIVA CENTRALIDAD E DA LUTA DE CLASSES 15 65 06 86 05 09 — 14 15 26 28 42 — — 43 68 139 200 189 333 01 07 329 540 Fontes: Jornais consultados: O GLOBO, JORNAL DO BRASIL, O DIA, FOLHA DIRIGIDA, EXTRA, FOLHA DE SÃO PAULO E CORREIO BRAZILIENSE. Revistas: VEJA, ÉPOCA, CARTA CAPITAL, FÓRUM, CAROS AMIGOS E ISTO É, no período de 2001 a 2009. Muitos artigos eram repetitivos e preferimos optar por uma pesquisa qualitativa em relação ao conteúdo das matérias. 3.1.1 A Perspectiva da Igualdade Legal Embora possua significativa produção esta abordagem não foi a mais freqüente em nossa pesquisa, mas por estar muito presente na mídia tornou-se muito conhecida daqueles que se interessam pelo tema. Sendo, inclusive, como veremos a seguir, uma abordagem que pode ser subdividida em duas vertentes em disputa. Antes de entrarmos nas questões centrais dos discursos, vale registrar que essa abordagem parte do princípio da justiça legal, da legalidade ou reserva legal como principal elemento da conquista da igualdade. Ao definirmos esse eixo interpretativo como uma das três principais abordagens, fizemos uma análise das produções na temática que revelou uma forte tendência interpretativa das cotas que se constitui através do legado do campo jurídico. Isso se deve ao fato inegável de que a legalidade118 e a constitucionalidade do sistema de cotas (sobretudo raciais) têm sido discutidas nos diversos tribunais do país e no meio jurídico em geral. Assim sendo, podemos afirmar que há um número significativo de interpretações que convergem para a questão da defesa da igualdade legal como principal critério de interpretação das cotas. 118 Não se deve confundir o princípio da legalidade e o da reserva de lei, enquanto o primeiro significa a submissão e o respeito à lei, o segundo consiste em estatuir que a regulamentação de determinadas matérias há de fazer-se necessariamente por lei formal. 200 Podemos dizer que nesta abordagem, a expressão do debate do sistema de cotas, se apresenta sob duas tendências. A primeira definimos como conservadora e se caracteriza por utilizar uma interpretação literal dos artigos da lei para justificar a inconstitucionalidade da política de cotas frente à constituição federal de 1988, por isso é a representante mais fiel de um legalismo extremado que caracteriza-se pela defesa incondicional da soberania das leis “ipsis litteris”, conforme veremos adiante. Já a segunda tendência se caracteriza pelo conjunto de questões que evidenciam as preocupações do campo mais progressistas da história do direito moderno, por isso a denominamos como tendência progressista. Uma das características da mesma é a análise do texto legal feita com base na interpretação sistemática da norma constitucional. Neste campo analítico o texto da constituição não é compreendido isoladamente, mas dentre o sistema constitucional vigente, mormente em função de regras de distribuição de competência, entre os órgãos do poder, de onde decorre que o princípio da legalidade ali consubstanciado se funda na previsão de competência geral do poder legislativo para legislar sobre matéria genericamente indicada, de sorte que, a idéia matriz está em que só o poder legislativo pode criar regras que contenham, originariamente, novidade modificativa da ordem jurídico-formal, o que faz coincidir a competência da fonte legislativa com o conteúdo inovativo de suas estatuições, com a conseqüência de distingui-la da competência regulamentar. Vale ressaltar que nesta abordagem observamos de forma clara a batalha de idéias entre as duas tendências supracitadas. Ou seja, entre os autores que utilizam apenas a lei para se opor às cotas e os que usam a interpretação conjugada dos artigos para demonstrar o alcance social do sistema de reserva de vagas. Melhor dizendo, entre o setor conservador e o setor mais progressista do campo jurídico. A influência positivista119 é muito notada na polêmica das cotas e encontra-se fartamente na tendência conservadora mencionada. O debate dos autores deste campo apresenta total oposição às cotas, através do ”legalismo”120. Tal oposição 119 A esse respeito consultar: BOBBIO, Norberto. Análise funcional do direito em Da estrutura à função: novos estudos de teoria do direito. São Paulo: Manole, 2006 e BOBBIO, Norberto. O positivismo jurídico. Lições da filosofia do direito, SP, Ícone, 1995 120 Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, na publicação Dicionário da Língua Portuguesa, 3.ª edição, p. 330. O legalismo é definido como o apego, em geral exagerado, a normas e procedimento legais. 201 não é recente, desde a sua implementação há uma repetição da argumentação com a citação dos mesmos dispositivos legais, principalmente vinculados ao princípio “da igualdade de todos perante a lei”. A positivação dos direitos individuais constitui elemento fundamental para sua obrigatoriedade e imperatividade. Essa consagração jurídico-positiva dos direitos do homem é uma garantia que se reconhece, na carta magna de 1988, uma relação jurídica entre governado e o estado e suas autoridades. Mesmo com o direito moderno contemplando os direitos fundamentais e enfatizando a interpretação teleológica e sistemática das leis e da constituição, ainda observamos uma corrente doutrinária que fica restrita a “ipsis litteris”, ressaltando que no direito sobrevive uma oposição entre aqueles que vêm no legalismo uma saída para o problema da interpretação das normas e outra que antes de analisar a questão a ser interpretada conjugam artigos que se relacionam com o bem estar da sociedade. Para ilustrar a supremacia das leis no judiciário Celso Antônio Bandeira de Mello parece ter encontrado parâmetros sólidos e coerentes em seu clássico Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade, na qual estabelece três questões a serem observadas, a fim de verificar o respeito ou desrespeito ao aludido princípio: O desrespeito a qualquer delas leva a inexorável ofensa à isonomia. São elas: a) a primeira diz com o elemento tomado como fator de desigualação; b) a segunda reporta-se a correlação lógica abstrata existente entre o fator erigido em critério de discrimen e a disparidade estabelecida no tratamento jurídico diversificado; c) a terceira atina a consonância desta correlação lógica com os interesses absorvidos no sistema constitucional e destarte juridicizado. (MELLO. Apud LENZA. 2006, p. 702) A título de exemplo, podemos afirmar que esses critérios podem servir de parâmetros para aplicação das denominadas discriminações positivas, ou affirmatives action, na medida em que, o constituinte tratou de proteger certos grupos, que, a seu entender, mereceriam tratamento diverso. Enfocando-os a partir de uma realidade histórica de marginalização social ou de hiposuficiência decorrentes de outros fatores, cuidou de estabelecer medidas de compensação, No mesmo sentido o legalismo é utilizado muitas vezes como uma estratégia autoritária, de impor uma ação estatal justificada apenas na necessidade de cumprimento "da lei". É o argumento que se esconde na autoridade da lei estatal para ter validade, quando na verdade há interesses que não podem ser expostos, devido à ausência de consenso. Pressupõe-se que, se a tese está fundada numa lei, e as leis (conforme essa ideologia) são verdades absolutas, então a tese nela fundada também é uma verdade absoluta. 202 buscando concretizar, ao menos em parte, uma igualdade de oportunidades com os demais indivíduos, que não sofreram as mesmas espécies de restrições. Vale ressaltar como exemplo da utilização da tendência conservadora da abordagem em tela, a Ação Declaratória de Inconstitucionalidade n.º 2.858, interposta em 19/03/2003 pela CONFENEN (Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino), com o objetivo de declarar inconstitucional alguns dispositivos das leis estaduais de reservas de vagas n.ºs 3.524/2000, 3.708/2001 e 4.061/2003. De acordo com o argumento da entidade a aplicação das três leis aos vestibulares de acesso às universidades públicas do Rio de Janeiro, os candidatos que não se declararem negros ou pardos e que não tenham estudado em escola pública municipal ou estadual, só poderão concorrer a 30% (trinta por cento) das vagas oferecidas (CF Notícias STF, 20/03/2003. In: www.stf.gov.br). Pelo quadro exposto, aparentemente os dispositivos legais estaduais, relacionados às cotas, estariam violando o princípio da isonomia, já que, embora legítima, a discriminação positiva é destituída de razoabilidade e proporcionalidade. O parecer da Procuradoria Geral da República foi favorável à inconstitucionalidade destas leis estaduais alegando que houve invasão de competência legislativa privativa da União sob Diretrizes e Bases da Educação Nacional (art. 22, inciso XXIV). A referida ADIN não foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal, pois as leis objeto da ação foram revogadas pelo art. 7.º da Lei Estadual n.º 4.151, de 05/09/2003. Os parágrafos anteriores exemplificam que a força do direito positivo ainda se faz presente de modo significativo, principalmente nos tribunais superiores bastando verificar que o Parecer do Procurador Geral da República, Geraldo Brindeiro, foi favorável a inconstitucionalidade das leis estaduais, se restringindo exclusivamente a uma mera questão processual de divisão de competência e não os aspectos sócio-econômicos envolvidos na questão. O Judiciário e o Ministério Público estão sofrendo mudanças, porém, o conservadorismo ainda predomina em muitas instâncias. Nessa linha de informação podemos observar vários dispositivos constitucionais e legais que fornecem embasamento jurídico no sentido de se criar um consenso anti-cotas. Por isso faz-se mister mencionar alguns artigos da Constituição e da LDB que dão sustentabilidade a este tipo de argumentação 203 conservadora. Ou seja, fornecem a fundamentação dos autores desta linha interpretativa que reiteradamente utilizam esses mesmos dispositivos legais para afirmar que o sistema de cotas nas universidades públicas é inconstitucional, seguindo uma interpretação literal e isolada da lei. A argumentação apresentada por estes autores que se posicionam contra as cotas tem como base, principalmente, a competência legislativa e o princípio da isonomia. Um dos dispositivos amplamente utilizado refere-se ao art. 22 da Constituição Federal de 1988, pois quando trata da competência para legislar, estipula que: Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: [...] XXIV - diretrizes e bases da educação nacional; No que tange a alçada da discussão em tela, sabe-se que o próprio texto constitucional logo no “catálogo” de direitos fundamentais, art. 5º, II, já menciona o princípio da legalidade121, no qual: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Assim, as Universidades públicas brasileiras regidas que são pelo direito público interno, estão sob a égide do ordenamento dos atos do regime administrativo público interno brasileiro e possuem autonomia reguladora de seus atos, conforme dispõe o art. 207 da Constituição Federal de 1988, vejamos: Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Todavia, não se pode confundir tais autonomias, em especial a didáticocientífica que está relacionada com o programa de curso e matéria técnicocientífica das faculdades ofertadas, com competência para legislar sobre matéria que é de competência privativa da União. Tanto é que a Lei nº: 9.394/1996, conhecida como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, afirma que: 121 O princípio da legalidade é nota essencial do Estado de direito. É, também, um princípio basilar de direito, porquanto é da essencial de seu conceito subordinar-se à Constituição e fundar-se na legalidade democrática. Sujeita-se ao império da lei, mas da lei que realize o princípio da igualdade e da justiça, não pela sua generalidade, mas pela busca da igualização das condições do socialmente desiguais. (SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 15.ed. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 421) 204 Art. 53. No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de outras, as seguintes atribuições: I - criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei, obedecendo às normas gerais da União e, quando for o caso, do respectivo sistema de ensino; II - fixar os currículos dos seus cursos e programas, observadas as diretrizes gerais pertinentes; III - estabelecer planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão; IV - fixar o número de vagas de acordo com a capacidade institucional e as exigências do seu meio; V - elaborar e reformar os seus estatutos e regimentos em consonância com as normas gerais atinentes; VI - conferir graus, diplomas e outros títulos; VII - firmar contratos, acordos e convênios; VIII - aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a obras, serviços e aquisições em geral, bem como administrar rendimentos conforme dispositivos institucionais; IX - administrar os rendimentos e deles dispor na forma prevista no ato de constituição, nas leis e nos respectivos estatutos; X - receber subvenções, doações, heranças, legados e cooperação financeira resultante de convênios com entidades públicas e privadas. Parágrafo único. Para garantir a autonomia didático-científica das universidades, caberá aos seus colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários disponíveis, sobre: I - criação, expansão, modificação e extinção de cursos; II - ampliação e diminuição de vagas; III - elaboração da programação dos cursos; IV - programação das pesquisas e das atividades de extensão; V - contratação e dispensa de professores; VI - planos de carreira docente. Observa-se que em momento algum se vê o objeto do debate em afirmação, como sendo “item” de autonomia decisória, porém sim, que as universidades federais, no inciso I do art. 53, da citada lei, devem obedecer às normas gerais da União. Seguindo a disposição legal acima, o Conselho Nacional de Educação (CNE) em Parecer de nº: 600/97, já enfatizou que: A Lei atribui aos colegiados de ensino e pesquisa das universidades – sempre dentro dos recursos orçamentários disponíveis - a competência para deliberar a respeito de cada uma e do conjunto de matérias que são essenciais para a vida acadêmica da instituição. Tal competência, na letra do artigo, é limitada apenas pelos recursos orçamentários disponíveis; no seu espírito, pelos princípios da educação nacional, demais dispositivos legais pertinentes e os fins da instituição, conforme os respectivos estatutos. Os órgãos colegiados de ensino e pesquisa têm, portanto, plena autonomia para deliberar a respeito da matéria em epígrafe. Mais ainda, determina a Lei que esses órgãos colegiados com tal competência deliberativa são os instrumentos por excelência para garantir a autonomia didático-científica das universidades. A Lei de Diretrizes e Bases – LDB — da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, destaca que, uma universidade só pode ser entendida enquanto tal, se sua autonomia estiver assegurada por colegiados de ensino e pesquisa que livremente deliberem a respeito das matérias referidas no 205 parágrafo único do art. 53. Esses colegiados, certamente guiados por princípios acadêmicos e profissionais resultantes da adequada qualificação de seus integrantes, têm como únicas restrições à sua competência deliberativa quanto aquelas matérias às limitações orçamentárias da instituição, os princípios da educação nacional, os demais dispositivos legais pertinentes e os fins da universidade. Dando continuidade ao pensamento dos defensores do legalismo, o objeto de portarias ou resoluções de quaisquer que sejam as autoridades universitárias, inclusive dos conselhos de ensino e pesquisa, que tratarem sobre a aplicação de sistema de cotas nas universidades públicas, sucumbirão no vício da inconstitucionalidade formal, porque tal matéria trata de diretriz educacional, conforme a Constituição Federal de 1988, no seu art. 208: Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: [...] V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; Assunto este que compete privativamente à União legislar. Portanto, tal competência legislativa, e que até hoje não foi exercitada pela União, não pode ser regulada ao bel prazer das universidades públicas, sob a rasa alegação de autonomia, visto que autonomia didático-científica não se confunde de modo algum com competência constitucional legislativa em razão da matéria, encalhando, pois, por inconstitucionalidade formal, toda norma regulamentar que for exarada por tais autoridades universitárias, que tratem sobre sistema de cotas. A matéria em debate trata de competência comum, como está prevista no art. 23, V da CF/88, vejamos: Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: [...] V - proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência; Cabe registrar que tanto o art. 22, quanto o art. 23, ambos da Constituição Federal de 1988, prescrevem em seus parágrafos únicos, que somente através de lei complementar poderá haver outorga de competência legislativa acerca desta matéria. 206 Assim sendo, como o art. 205 da Carta Constitucional de 1988 dispõe que: Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.(grifos nossos) Como visto anteriormente, segundo as normas, hoje, então, produzidas pelas universidades públicas sob todas as formas, exemplo: portaria da reitoria, resoluções do conselho de ensino e pesquisa, etc., padecem do vício da incompetência constitucional legislativa, isto é, de inconstitucionalidade formal e, portanto, são inválidas por nulidade absoluta do meio de produção normativa, ou seja, vício formal. Esse aspecto acaba fundamentando o argumento da competência no sentido da atribuição de legislar sobre o assunto. Assim, torna-se comum ao debate afirmar que a matéria em muito ultrapassa o disposto nos incisos do parágrafo único do art. 53 da LDB, antes citado, e pior fere a competência legislativa privativa da União em razão da matéria, como antes demonstrado. A autonomia administrativa das universidades (art. 207, CF/88) bem como de todas as instituições públicas não lhes dá plenos poderes para normatizar situações restritivas de direitos de forma genérica como aquelas discutidas nesta demanda (se por um lado amplia o direito de algumas minorias, restringe o direito de outros brasileiros em todo o território nacional). Entretanto, o fato de que algumas universidades públicas terem recebido do Legislativo apenas a tarefa de implementar as cotas como no Estado do Rio de Janeiro (UERJ e UENF) e outras tenham através de seus Conselhos e demais espaços de participação tentar construir uma proposta para efetivação das cotas no seu âmbito deixam claro que o processo jurídico não é engessado, sendo possível não sucumbir a uma mera imposição do Legislativo. A inconstitucionalidade formal presente na aplicabilidade do sistema de cotas pelas universidades públicas, hoje, é assente, visto que não há lei federal que exponha sobre o assunto, assim para os legalistas conservadores, não podem as autoridades universitárias, sobrepondo-se nos papéis dos parlamentares federais, criarem ações afirmativas diante da ausência dos que a quem realmente cabem este ofício. 207 A Constituição Federal de 1988 tornou mais complexa questão ao inaugurar um novo conjunto de valores para a sociedade brasileira, dentre os quais se incluem a valorização dos direitos humanos e o combate a todos os tipos de discriminação, conforme preceituado já no preâmbulo da Lei Maior: "nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...". E que prevê como fundamento do Estado Democrático de Direito atual, in verbis: Art. 3º. "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (...)IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação". A polêmica do legalismo, por envolver uma dialética principiológica, desperta a razão para afirmar que só a lei federal é incompetente constitucionalmente para resolver o que se propõe e, somente uma Emenda Constitucional, apesar de se chamar a atenção de que o art. 60, § 4°, da Constituição Federal de 1988, veda o poder constituinte derivado que tratar de matéria tendente a abolir direito ou garantias individuais (inciso IV). Sob outro aspecto, pelo fato de impor distinção de tratamento com base em critério étnico, incorre em verdadeiro crime de racismo, o qual é igualmente vedado pela Constituição da República. Por fim, implica em violação de outra norma constitucional, desta feita relativa ao acesso à educação, cujo teor alude à diretriz no sentido de que – "a educação, direito de todos e dever do Estado e da família (...)" (arts. 205 e 227) – e significa que, em primeiro lugar, que o Estado tem que aparelhar-se para fornecer, a todos, os serviços educacionais, isto é, oferecer ensino, de acordo com os princípios estatuídos na Constituição (art. 206), em segundo, que ele tem que ampliar cada vez mais as possibilidades de que todos venham a exercer igualmente esse direito, o que, por certo não é reduzindo ao nível do ensino e, em terceiro lugar, que todas as normas da Constituição sobre educação e ensino, hão que ser interpretadas em função daquela declaração e no sentido de sua plena e efetiva realização. Recentemente, no entanto, o legislador federal, sempre invocando sua 208 competência para regular as diretrizes e bases da educação nacional, editou a Lei n° 10.558, de 13.11.02. Essa lei tratou justamente do "acesso ao ensino superior de pessoas pertencentes a grupos socialmente desfavorecidos, especialmente dos afro-descendentes e dos indígenas brasileiros" (art. 1° da Lei). Não foi, porém, instituído nenhum "sistema de cotas", o que serve de ilustração para a constatação de que essa odiosa discriminação não consta de nenhuma lei escrita, embora, se o quisesse o legislador, já o teria feito. Se não ousou a tanto é porque reconhece que somente uma Emenda Constitucional pode excepcionar a Constituição. Desse modo, fica bem claro que o tema "acesso às universidades de grupos socialmente desfavorecidos" inclui-se na expressão "diretrizes e bases de educação nacional", razão pela qual nele não poderia adentrar, sob pena de usurpar — como de fato aconteceu — competência legislativa privativa da União. Portanto, não é casual que os legalistas conservadores defendam a clara inconstitucionalidade formal do método de produção legislativo para a aplicação do sistema de cotas, hoje, pelas universidades públicas, sendo para os mesmos, a única solução constitucionalmente possível, neste Estado de Direito, para se alcançar a plena reintegração social e racial no país a adoção de ações afirmativas consoantes com o princípio da isonomia o que, no campo educacional, pressupõe o ataque do problema em sua raiz, ou seja, traçando políticas públicas eficientes que impliquem melhora no ensino fundamental e médio ofertados pelo Estado, conseguir-se-ia, assim, almejar a verdadeira justiça social, e não esta genérica que hodiernamente querem por em voga, com formas paliativas, preconceituosas e primitivas, já “esquecidas” pela civilização moderna. Conforme já mencionado anteriormente, em 2001, o Estado do Rio de Janeiro, de maneira pioneira, aprovou a lei estadual nº. 3.708 que instituiu o sistema de cotas destinadas a negros nas universidades estaduais daquele estado. A medida, por si, já provocou polêmica, visto que se somavam duas leis, ambas estaduais, que reservavam a esmagadora maioria das vagas universitárias a pobres e negros. Tempos depois, com inúmeras alterações em seu texto, a decisão fluminense alcançou repercussão nacional, vindo a ser instituída como projeto de lei federal. A polêmica legalista mais recente sobre as cotas ressurgiu no Brasil com a decisão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que 209 suspendeu, através de liminar, em maio de 2009, a Lei Estadual n.º 5.346, de 2008, que prevê o sistema de cotas para o ingresso, nas universidades estaduais, de estudantes negros, índios, egressos de escolas públicas e filhos de policiais e bombeiros. A liminar foi cassada pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, devendo o mérito da ação movida pelo Deputado Flávio Bolsonaro ser julgado ainda no ano de 2009. Aplicou-se aí, o princípio da razoabilidade, já que a permanência da liminar causaria graves transtornos aos vestibulandos do ano citado. Observa-se, pelo teor da liminar concedida pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça o conservadorismo dos julgadores que utilizaram a interpretação literal da lei para conceder a medida preventiva, que foi posteriormente suspensa, até o julgamento final do mérito. Como se constata o legalismo ainda se encontra presente na maioria dos órgãos julgadores do Poder Judiciário. Assim, para os legalistas conservadores, devemos buscar argumentos plausíveis sobre as cotas e não deixar que interesses particulares se sobreponham aos coletivos. Portanto, grande importância adquire esta tese ao chamar o debate do projeto de lei que regulamenta a instituição de cotas para negros nas universidades públicas, evidenciando a necessidade de medidas, sem deixar esquecer da abertura democrática que deve ser dada aos meios difusores de argumentação. Enfim, pretende-se alertar para a possibilidade de se prejudicar um princípio constitucional. A área constitucional é uma parte do Direito muito relativa. A Constituição como texto supremo e dotado de força normativa, capaz de vincular todo um Estado à sua obediência, é de difícil interpretação na maioria dos casos. Por isso é necessário que todos os operadores de Direito compreendam a natureza das normas constitucionais e suas diferentes formas de interpretação. A virtude de um intérprete se encontra em sua racionalidade, pois é através dela que há confrontação entre as normas carregadas de cargas axiológicas e o caso concreto a ser decidido. É preciso ressaltar que a igualdade constitui elemento imprescindível para a democracia, seu próprio conceito orienta a atividade estatal na elaboração de políticas que visam o interesse público. Não se pode afirmar que existe um conceito, totalmente aceitável, sobre “igualdade”, que é tema polêmico em quase 210 todo mundo, principalmente, os seus significados, de acordo com os costumes dos povos. Nesta direção, é importante destacar que o tema da igualdade é de grande complexidade e tem origem na Grécia antiga passando pelo período medieval onde as pessoas eram divididas por classes rígidas. Com a revolução francesa proclamou-se a “igualdade universal”, deixando de considerar as condições externas das pessoas, por critérios distintivos da aplicação das leis. No Direito Moderno o princípio da igualdade deve ser encarado sob dois aspectos: o aspecto teórico, cuja finalidade é evitar a distribuição de privilégios discriminados e a outra auxiliando a diminuir os efeitos decorrentes das desigualdades. Desta forma, a idéia de ações afirmativas ingressou no Brasil com diversos sentidos que reflete a diversidade de debates, experiência históricas dos países que lhe deram origem. Vale enfatizar que as ações afirmativas nascem da ideologia do estado de bem-estar social, que não se constituiu plenamente no Brasil. Torna-se importante uma análise histórico-adaptativa das ações afirmativas no Brasil, pois a maioria das publicações utilizam o senso comum sem embasamento teórico para discuti-las. Os autores que utilizam à argumentação da inconstitucionalidade das cotas por ferirem o princípio da igualdade não se baseiam somente no termo inconstitucional, mas no fator de discrimen como critério de distinção daqueles que serão beneficiados. Podemos afirmar que não são poucos os autores que criticam o sistema de reserva de vagas nas universidades públicas, utilizando simplesmente os artigos da Constituição e das leis infraconstitucionais. O que se observa é um apego excessivo as normas, não levando em conta os aspectos sociais, políticos e econômicos da realidade brasileira. Apesar de não ser uma interpretação usada por aqueles que são considerados os grandes juristas do nosso País. Não podemos negar que exista tal posicionamento conservador, pois temos um Poder Judiciário muito afastado dos problemas da comunidade o que gera decisões estritamente formais, sem levar em conta a realidade da população, bastando observar a troca de insultos, divulgada pela mídia nacional em 2009, entre os ministros do STF, Gilmar Mendes e Joaquim Gomes, onde este último afirma que 211 o primeiro deveria ir às ruas para saber o que as pessoas estão pensando acerca das diversas temáticas, com a finalidade de proferir decisões reais e não meramente formais que afetam as classes subalternas. Mesmo com o direito moderno contemplando os direitos fundamentais usando a interpretação teleológica e sistemática das leis e da constituição, ainda observamos uma corrente doutrinária que fica restrita a “ipsis litteris”, ressaltando que no direito sobrevive uma oposição entre aqueles que vêm no legalismo uma saída para o problema da interpretação das normas e outra que antes de analisar a questão a ser interpretada conjugam artigos que se relacionam com o bem estar da sociedade. Celso Antonio Bandeira de Mello (2006) demonstra que parte da doutrina do direito constitucional possui radical apego ao legalismo ao afirma que: “Há ofensa ao preceito constitucional da isonomia quando: I — A norma singulariza atual e definitivamente um destinatário determinado, ao invés de abranger uma categoria de pessoas, ou uma pessoa futura e indeterminada. II — A norma adota como critério discriminador, para fins de diferenciação de regimes, elemento não residente nos fatos, situações ou pessoas de tal modo desequiparadas. É o que ocorre quando pretende tomar o fator tempo — que não descansa no objeto — como critério diferencial. III — A norma atribui tratamentos jurídicos diferentes em atenção a fator de discriminem adotado que, entretanto, não guarda relação de pertinência lógica com a disparidade de regimes outorgados. IV — A norma supõe relação de pertinência lógica existente em abstrato, mas o discrimen estabelecido conduz a efeitos contrapostos ou de qualquer modo dissonantes dos interesses prestigiados constitucionalmente. V — a interpretação da norma extrai dela distinções, discrimens, desequiparações que não foram professadamente assumidas por ela de modo claro, ainda que por via implícita” (MELLO, 2007, p. 47-48) Não raramente encontramos uma plena associação do legalismo à defesa do mérito. De acordo com Italo M. R. Guedes (2008), por exemplo, o mérito deve prevalecer sobre qualquer outra forma de seleção. Vale ressaltar que o sistema vestibular era um dos poucos que ainda contemplavam o mérito do cidadão em detrimento de outras formas de seleção. Entra quem demonstra mais capacidade. Um critério objetivo, onde a subjetividade passa longe. Ao contrário, nas seleções de pós-graduação ou para professores de universidades federais, a "articulação" do sujeito tem-se tornado, muitas vezes, mais importantes do que a capacidade do mesmo. Nesses últimos casos, cada vez mais tem-se percebido que a "máfia das publicações" tem ganhado espaço. O ato de se colocar nomes em diversas publicações, variandose a posição do autor, mesmo que ele não tenha participado do trabalho, tem sido cada vez mais comum. Obviamente quem foi submetido a uma boa educação leva vantagem. No entanto, jovens que passaram por uma educação de menor qualidade, como é o 212 caso de muitas escolas públicas, podem sim correr atrás. Diversos são os exemplos existentes. Para isto, tem que se dedicar, sem preguiça. Mas não é o que vem acontecendo no sistema educacional brasileiro. Não poder reprovar um aluno que não demonstrou capacidade durante o ano é o absurdo dos absurdos. Isso é fomentar a falta de compromisso em função de pseudo-melhorias. A média nacional do ENEM de, cerca de 42 % na prova objetiva, já diz tudo. O "analfabetismo funcional" é a moda do momento. Mas quais são as razões dessa nova moda? Não é a falta de qualidade do ensino? Então não seria mais sensato criar condições adequadas para a educação? As respostas são óbvias. Métodos de melhoria do ensino têm que ser implementadas sim, no entanto, a cobrança para com os estudantes também tem que existir. A prova da "preguiça" é a linguagem da internet dos jovens. A busca pelo caminho mais curto e mais fácil são sempre mais atraentes do que aquela pelo caminho correto. A falta de compromisso dos estudantes atuais é impressionante. (GUEDES, Italo M. R. Será o fim da “meritocracia” brasileira”. Postado em 21/11/2008. <www.scienblogs.com.br/geofagos>. Acesso em: 10 set. 2009). Na mesma linha de pensamento Samir José Caetano Martins e Milena Donato Oliveira (2003) na argumentação de mandado de segurança impetrado em 14/02/2003, perante Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, observam que a lei não deve distinguir pessoas em virtude de sua etnia, crença religiosa ou condição sócio-econômica Vale dizer: por um lado, todo cidadão tem o direito de participar de um certame para ingresso em instituição pública de ensino em igualdade de condições com os demais candidatos, sem discriminações nem favoritismos; por outro lado, também tem o direito de matricular-se, na medida em que outro candidato, com pontuação igual ou inferior, tenha efetuado a matrícula no mesmo Curso da Universidade. (SAMIR, Jose Caetano Martins: OLIVEIRA, Milena Donato. Mandado de segurança enviado a Vara de Fazenda Pública. 14/02/2003). Realizando uma interpretação literal dos dispositivos da Constituição da República de 1988, observa-se que o artigo 205 é interpretado como legitimador do mérito: Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (grifo nosso) E completando seu sentido, reza o artigo 208, V, da referida Carta: Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: ... V — acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. (grifo nosso) Não bastasse este fundamento, atrelado a ele tem-se a garantia constitucional da igualdade, que encontra expressão específica no artigo 206, I, e 213 matriz geral no artigo 5.º, caput, ambos da Constituição da República. Segundo Samir Martins e Milena Oliveira (Idem) na argumentação do mesmo mandado de segurança impetrado em 14/02/2003, perante Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a lei não deve distinguir pessoas em virtude de sua etnia, crença religiosa ou condição sócio-econômica Vale dizer: por um lado, todo cidadão têm o direito de participar de um certame para ingresso em instituição pública de ensino em igualdade de condições com os demais candidatos, sem discriminações nem favoritismos; por outro lado, também tem o direito de matricular-se, na medida em que outro candidato, com pontuação igual ou inferior, tenha efetuado a matrícula no mesmo Curso da Universidade. (Idem, 2003.). O sistema de reservas de vagas adotou como critério de discrimen a raça e a circunstância de cursar-se os ensinos fundamental e médio na rede pública. Critério este que entra em franca rota de colisão com o princípio da isonomia, segundo os autores já citados anteriormente. Vale ressaltar que as críticas elaboradas por Samir e Oliveira (2003) no que se refere ao fator raça, servem de base para defesa do legalismo. Melhor dizendo, o legalismo é uma forma de se contrapor ao protagonismo do debate sobre cotas, para os autores, Isto porque não há pertinência lógica entre o fator de discrimen adotado e a disparidade de regimes outorgados: negros, pardos e índios, assim como alunos da rede pública de ensino não são, de fato, discriminados no acesso à universidade, logo, não há razão para serem privilegiados com o sistema de cotas. Como adotar como um sério fator de discrimen a cor da pele, num país em que ninguém pode deixar de reconhecer a miscigenação racial generalizada? Como segregar pela origem acadêmica, num país em que, muitas, muitas vezes, alunos de parca situação financeira estudam com afinco em escolas particulares, beneficiados por bolsas de estudos que contemplam sua perseverança e capacidade intelectual? (Idem) Segundo os mesmos autores, o sistema de reserva de vagas se pretendesse “adotar um critério sócio-econômico, minimamente sério, discriminaria de acordo com a renda familiar — critério objetivo que atingiria as classes menos favorecidas” (SAMIR e OLIVEIRA, 2003, p. 4). Para a corrente doutrinária dos autores citados o critério de discrimen adotado ainda conduz a efeitos dissonantes com os interesses prestigiados constitucionalmente, na medida em que o acesso ao ensino superior deve se dar atendendo-se estritamente à capacidade do candidato (art. 208, V, da CRFB). Para os defensores desta forma de legalismo ao dispor que o acesso à 214 universidade está condicionado unicamente à atenção da capacitação intelectual, é evidente que a Constituição da República não quer alijar dos bancos universitários os negros, pardos e alunos oriundos de escolas públicas. O que a Lei Maior quer evitar são medidas demagógicas, que pretendem abarrotar os cursos superiores de alunos que, mal aprovados, já reivindicam aulas de reforço para acompanhar o ritmo universitário. Para melhor entendimento segundo estes mesmos autores Se o intuito é o de adotar “ações afirmativas”, então que se adote o aforisma básico desta linha de pensamento: “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Ou seja: ao invés de criar vagas, criar condições sócio-econômicas favoráveis para que todos disponham de qualificação suficiente para concorrer a uma vaga no curso superior. (Idem) Para os autores que seguem essa orientação o que não se pode é, atropelando a Constituição da República, adotar políticas populistas que jamais formarão uma sociedade forte e independente. É nesse sentido que o arcabouço normativo que sustenta o sistema de reserva de vagas também não resiste à incidência do artigo 5.º, LIV, da Constituição da República, matriz da garantia do devido processo legal substantivo ou princípio da razoabilidade. Isto porque não se verifica uma relação coerente, convergente e harmônica entre os motivos considerados, os meios escolhidos e os fins a serem alcançados pela referida legislação. E este descompasso se faz sentir tanto na análise da sua razoabilidade interna quanto da razoabilidade externa. Para clareza do que se afirma, em defesa da lei, cabe fixar com precisão os conceitos invocados, citando Luís Roberto Barroso: Essa razoabilidade deve ser aferida, em primeiro lugar, dentro da lei. É a chamada razoabilidade interna, que se diz com a existência de uma relação racional e proporcional entre seus motivos, meios e fins. Aí está incluída a razoabilidade técnica da medida. (...) De outra parte, havendo razoabilidade interna da norma, é preciso verificar sua razoabilidade externa, isto é: sua adequação aos meios e fins admitidos e preconizados pelo Texto Constitucional. Se a lei contravier valores expressos ou implícitos no Texto Constitucional, não será legítima nem razoável à luz da Constituição, ainda que o seja internamente”. (BARROSO, 2007, p. 206-206). A falta de razoabilidade interna do sistema de reserva de vagas, para os defensores da abordagem em foco, encontra sua expressão mais evidente no mecanismo de definição dos beneficiários das cotas raciais. Este mecanismo veio expresso, inicialmente, no artigo 5.º do Decreto Estadual n.º 30.766/2002, a saber: 215 Art. 5.º. A identificação dos alunos negros e pardos se fará através de declaração firmada, sob as penas da Lei, pelo próprio candidato à vaga na universidade. § 1.º A autodeclaração é facultativa, ficando o candidato submetido as regras gerais de seleção, caso opte por não a firmar. § 2.º Os candidatos beneficiados pelo regime de reserva de vagas tratada na Lei n.º 3.524/00 poderão firmar a declaração prevista neste artigo. Vale ressaltar, que para os legalistas anti-cotas, a própria legislação não teve o mínimo cuidado de constatar quem, de fato, é negro ou pardo (o que, em si, já é de discutível definição, num país marcado pela miscigenação racial, cabe repetir). Contenta-se com a simples declaração desta condição, com a inócua cláusula “sob as penas da lei”. Se nem a lei sabe dizer quem é negro ou pardo, como é que se poderá, depois, deflagrar uma eventual persecução penal pelo crime de falsidade ideológica? Qualquer um dirá que “pensava” ser pardo. A razoabilidade interna diz com a adequação técnica do meio ao atingimento do fim, e o fato é que reservar vagas a quem se declarar negro ou pardo é coisa bem diferente de reservar vagas a quem efetivamente é negro ou pardo. Técnica alguma há na medida adotada, um critério irresponsável que só atende à urgência de implantar o sistema no curso desta ou daquela gestão governamental. Sobre a razoabilidade externa é despiciendo tecer maiores comentários, dada a escancarada colidência do sistema de reserva de vagas com o critério de admissão ao ensino superior previsto no artigo 208, V, da Constituição da República. Nesse sentido, os legalistas anti-cotas, afirmam que o sistema de reserva de vagas também não se sustenta diante do princípio constitucional da proporcionalidade que como cediço é inerente à noção do Estado de Direito, integrando de modo implícito o sistema, como princípio constitucional não escrito. Por ser breve e precisa, pertine trazer a colação a síntese de Luís Roberto Barroso: A doutrina — tanto lusitana quanto brasileira — que se abebera no conhecimento jurídico produzido na Alemanha reproduz e endossa essa tríplice caracterização do princípio da proporcionalidade, como é mais comumente referido pelos autores alemães. Assim é que dele se extraem os requisitos: (a) da adequação, que exige que as medidas adotadas pelo Poder Público se mostrem aptas a atingir os objetivos pretendidos; (b) da necessidade ou exigibilidade, que impõe a verificação da inexistência de meios gravoso para atingimento dos fins visados; e (c) da proporcionalidade em sentido estrito, que é a ponderação entre o ônus imposto e o benefício trazido, para constatar se é justificável a interferência na esfera dos cidadãos (Idem. p. 209) A falta de adequação da medida já foi demonstrada acima no cotejo da 216 razoabilidade interna. A reserva de vagas, para os autores que adotam o legalismo seria uma afronta aos dispositivos constitucionais, pois ao invés de assegurar vagas para minorias, retirando do total delas, poder-se-ia ampliar o número total de vagas (não prejudicando o total de candidatos), melhorar as condições do ensino médio e fundamental, por exemplo. E na ponderação entre os ônus e os benefícios da medida, mais pungentes que quaisquer argumentos é a ampla repercussão negativa que a execução do sistema de reserva de vagas, testemunhada por todos os meios de comunicação. Dispõe o artigo 207 da Constituição da República: (já mencionado diversas vezes) As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. E, integrando o comando constitucional, dispõe o artigo 53 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9.394/96) (já mencionado diversas vezes): Art. 43. No exercício de sua autonomia, são asseguradas as universidades, sem prejuízo de outras as seguintes atribuições: IV — fixar o número de vagas de acordo com a capacidade institucional e as exigências do seu meio. Outra argumentação dos mesmos legalistas é que por força da autonomia didático-científica assegurada em nível constitucional, não pode uma simples Lei Estadual, invadindo competência que só à instituição de ensino superior é deferida, imiscuir-se na fixação da forma de acesso a seu corpo discente, inserindo critérios como a reserva de vagas a este ou àquele grupo social. Para os autores que seguem esta orientação legalista, tem-se portanto, que a reserva de vaga desafia o artigo 207, caput, da Constituição da República de 1988 e o artigo 53, IV, da Lei n.º 9.3984/96. Vale ressaltar que não se pode interpretar artigos da Constituição de forma literal, sem levar em conta os fins sociais dos mesmos, pois, os dispositivos legais devem ser interpretados de forma sistemática e na sua totalidade, não bastando a simples leitura de artigos isolados da Carta Magna. Deste modo, é bom colocar o posicionamento contrário ao apresentado até 217 agora na percepção de Humberto Adami, quanto ao alcance da Ação Declaratória de Inconstitucionalidade (ADIN) impetrada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (CONFENEN), quando afirma que: O Supremo Tribunal Federal é o "tatame' da apreciação da constitucionalidade no Brasil. Daí porque verdadeira "guerra" esta sendo travada lá (...) Daí porque, chamo a atenção, mais uma vez para a ADI da CONFENEN, que pode ser a "batalha" decisiva nesta guerra. Acaso deferida a liminar ou julgada procedente a ação, um “efeito dominó” que se estenderá às demais iniciativas de ação afirmativa, ainda que por indução, onde qualquer juiz de primeira instância se sentirá à vontade para barrá-las. Por isto, considero a Advocacia de Combate na questão racial, absolutamente fundamental, e um compromisso com os milhares de cotistas que estão, todos os dias, travando suas batalhas pessoais e específicas, nos seus âmbitos próprios. (SANTOS Jr., ADIN DA CONFENEN NO STF - O Tatame. Discriminação Racial. Yahoo Grupos, 2006. Disponível em: <http://br.groups.yahoo.com/ group/ discriminacao racial/ message/21525 >Acesso em: 10 set. 2009). Mirna Cavalcanti Albuquerque (2009) enfatiza que Enquanto as cotas, essas sim, são vexatoriamente inconstitucionais. Mesmo porque cérebro não tem cor. Há brancos inteligentes e há os não inteligentes. O mesmo se dá com as demais raças. (ALBUQUERQUE, Mirna Cavalcanti de. Ação contra o sistema de cotas raciais. Wiki repórter. Publicado em 22/07/09. Transcrito de http://www.jurid.com.br/ new/jengine.exe/cpag?p=jornaldetalhejornal&ID=65512) Segundo a autora em se falando de raças, este vocábulo caiu em desuso. Um país, como o Brasil, formado por diversas raças, a miscigenação tem ocorrido de tal forma, que muitas das vezes, é difícil dizer à qual raça a criatura pertence, pode ser de todas ou de algumas, o que jamais será é de raça pura. O Ministério da Igualdade Racial, criado pelo presidente Lula da Silva, ocupado inicialmente por Matilde Ribeiro e atualmente por Edson Santos, demonstra a diretriz do governo em adotar o critério racial como principal base fundante. Vale ressaltar que foi aprovado na Câmara o texto do Estatuto da Igualdade Racial, com a retirada dos principais pontos “polêmicos”, tais como: a reserva de cotas das universidades públicas, por exemplo. Portanto, é mais uma legislação que poucos avanços trarão para os negros. A questão das cotas é tão complexa que ainda continua sendo objeto de ações judiciais alegando a sua inconstitucionalidade, o que demonstra que a abordagem aqui discutida possui ainda solo fértil para sua ampla continuidade. Em julho de 2009 o partido DEM atacou a instituição de cotas raciais na Universidade de Brasília (UnB), sendo objeto a Arguição de Descumprimento de 218 Preceito Fundamental (ADPF) N.º 186 ajuizada, com pedido de suspensão liminar, pelo Democratas (DEM) no Supremo Tribunal Federal (STF). O partido tem a finalidade de que seja declarada a inconstitucionalidade de atos do poder público que resultaram na instituição de cotas raciais na universidade. O partido salienta que a violação aos preceitos fundamentais decorre de específicas determinações impostas pelo Poder Público (Universidade de Brasília). Atos administrativos e normativos determinaram a reserva de cotas de 20% do total das vagas oferecidas pela universidade a candidatos negros (dentre pretos e pardos). O Partido DEM assevera que acontecerão danos irreparáveis se a matrícula na universidade for realizada pelos candidatos aprovados com base nas cotas raciais, "a partir de critérios dissimulados, inconstitucionais e pretensiosos da Comissão Racial". "A ofensa aos estudantes preteridos porque não pertencem à raça "certa" é manifesta e demanda resposta urgente do Judiciário", argumenta o partido. Segundo Bernardo Lewgoy (2009) existem vários motivos para que sejamos contra o sistema de cotas raciais implementados nas universidades públicas. O mesmo autor apresenta os dez motivos contra o sistema de cotas. Achamos importante enumerar esses motivos para exemplificar ainda mais o legalismo anticotas: O primeiro deles é que as cotas raciais sempre dividem negativamente as sociedades onde são implantadas, gerando o ódio racial e o ressentimento das pessoas que não entraram na Universidade, apesar de terem obtido nota maior ou igual do que os cotistas nas provas de vestibular. O segundo é que as cotas raciais criam um terrível precedente ao admitir a discriminação racial para atingir objetivos políticos, gerando nas pessoas a sensação de que não serão mais julgadas pelo que são ou fazem, mas pela cor de sua pele ou origem étnica. Já o terceiro é que foi importado um modelo de cotas raciais para esconder o real problema da baixa qualidade do ensino básico e dar poder dentro da Universidade a políticos que não têm nenhum compromisso com a qualidade do ensino e da pesquisa. No quarto as cotas raciais corrompem as Universidades onde são aplicadas, aniquilando o valor do mérito acadêmico e criando pressões sem fim para discriminar as pessoas por sua “raça” em todos os níveis de ensino, do fundamental à universidade. (grifo nosso) Em quinto ligar cotas raciais levam a hipocrisia para dentro da sala de aula, pois estimulam o relaxamento nos padrões de avaliação, por parte de professores temerários de serem taxados de racistas, caso reprovem ou dêem notas baixas a alunos cotistas ou oriundos de minorias étnicas. Em sexto as cotas raciais sempre enfrentam o problema de como saber quem pertence ou não de alguém a um grupo racial Pelo sangue? Pela cor da pele? Como o Brasil é um país miscigenado, odiosos tribunais raciais acabam decidindo se alguém pertence ou não a uma “raça” e ocasionam tremendas injustiças, como mostrou o caso dos gêmeos da UnB. 219 Em sétimo as cotas raciais desestimulam não só o mérito acadêmico, mas encorajam a separação do povo em grupos raciais rivais, destruindo possibilidades de real convívio humano entre pessoas diferentes. Você sabia que muitas pessoas contrárias às cotas raciais são filhas de pais de cores diferentes? Qual será o clima que essa proposta vai gerar num país em que a miscigenação está dentro dos lares? Em oitavo as cotas raciais geram preconceito contra pessoas decentes de todas as origens, que gostariam de ser julgadas pelo seu mérito e não pela cor da sua pele. Elas incentivam um clima sem fim de suspeitas de que o aluno negro – cotista ou não - não é competente nem como estudante e nem o será como futuro profissional. Você faria uma cirurgia com um médico cotista? Em nono as Cotas raciais entraram no Brasil pela porta dos fundos, num momento em que todas as pesquisas dos órgãos oficiais mostravam que seus supostos beneficiários, negros e pardos, vinham melhorando sua situação social e inserção na Universidade Pública. Finalmente em décimo as cotas raciais recuperam a idéia, refutada por toda a ciência moderna, de que a humanidade se divide em “raças”, oficializando aquilo que se quer combater. (LEWGOY, B. Dez Motivos para ser contra as cotas raciais. In: CAMARGO, C. Blog. Escrito em 31 jul. 2009. <www.imil.org.br Acesso 10/09/2009>). (grifo nosso) Aluízio Amorim (2009) fez questão de deixar clara sua posição, ao afirmar Sou contra as cotas e defendo o mérito acadêmico como único passaporte válido e justo para o ingresso numa universidade. (AMORIM, Aluízio. Cotas raciais: destruição das universidades. <www.Blog do Aluízio Amorim>. Acesso em 28 fev. 2009) Aliás, diz Amorim (Idem) como bem indica o artigo, a universidade não é destinada a promover e/ou reparar injustiças, mas sim a produzir o conhecimento. O autor ressalta que Se for isso, há que ter em mente que se trata de uma mudança radical. As universidades existiram desde sempre para produzir conhecimento. A produção de conhecimento de qualidade só é possível em ambientes de porta de entrada estreita e com rígido regime de mérito. Adeus ao mérito individual. Com ele se despedem também a produção de conhecimento e o avanço acadêmico. Deve haver formas menos destruidoras de reparar injustiças históricas. (Idem) Em relação as decisões pretorianas com base no legalismo, podemos citar acordão do Tribunal Regional Federal (TRF4) da 4ª Região (divulgado pelo site do Conselho da Justiça Federal: www.cjf.gov.br, publicado em 15/02/2008) em que concede antecipação de tutela garantindo a matrícula provisória de uma estudante que não conseguiu classificação para o curso de Psicologia no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ela atingiu o 39º lugar, sendo que do total de 40 vagas oferecidas no curso apenas 28 ficaram para o acesso universal. As outras 12 vagas foram destinadas ao sistema de cotas. Na liminar, a desembargadora federal Marga Barth Tessler destacou 220 que a estudante não teve direito ao privilégio da cota social, pois não estudou todo o segundo grau no ensino público, mas alcançou pontuação superior à de alguns aprovados pelo sistema alternativo. Além disso, observou que a candidata tem renda familiar inferior a R$ 1.900,00 e tem despesas com aluguel e com remédios, para tratamento de insuficiência respiratória crônica. (TRF concede liminares na UFRGS e UFSC. Conselho de Justiça Federal. <www.trf4.gov.br.> Acesso em 10 set. 2009) Segundo a magistrada (2008) O sistema de cotas aplicado na Ufrgs é eminentemente social e que a universidade, dentro de sua autonomia administrativa, deu cumprimento ao princípio fundamental da erradicação das desigualdades sociais com a sua adoção. Apesar disso, concluiu a desembargadora, “a resolução universitária não poderia afrontar relevante e fundamental postulado expressamente consagrado pela Constituição, o mérito acadêmico, que neste caso, não sendo observado, atingiu o direito subjetivo da estudante”. O julgamento final do agravo de instrumento deve ocorrer na 4ª Turma do tribunal. (Idem) Em outra decisão, publicada dia 22/01/2008 no Diário Eletrônico da 4ª Região, o TRF4 concedeu a dois candidatos ao curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) o direito de concorrer a um número maior de vagas do que as que estavam previstas para o acesso universal, reduzindo, assim, o número de vagas reservadas para as cotas. A UFSC reservou 20% das vagas do vestibular 2008 para alunos vindos do ensino público e 10% para candidatos auto declarados negros, que tenham cursado integralmente o ensino fundamental e médio em instituições públicas. O juiz federal Marcelo De Nardi, convocado para atuar no tribunal, considerou excessivos os percentuais reservados para as cotas, destacando dados do censo realizado pelo IBGE em Santa Catarina em 2000, e concluiu como sendo razoável a reserva de 10% das vagas para os alunos provenientes do ensino público e 5% das vagas do vestibular para candidatos auto declarados negros. Para o magistrado, o sistema de cotas também deve ser delimitado pela jurisprudência, a partir da premissa de que o poder de dispor sobre reserva de vagas das universidades tem como limite o princípio da razoabilidade. O mérito do agravo será analisado pela 3ª Turma do TRF4. De acordo com C. Calligaris (1999) Numa sociedade neoliberal a única diferença aceitável é a diferença meritocrática mais o problema é que uma meritocracia só seria justa se todos pudessem concorrer a partir de condições iguais ou parecidas (CALLIGARIS, C. Uma proposta para o Brasil não ser um clube. Folha de São Paulo. São Paulo. 221 26 ago. 1999. p. 4) Também Reinaldo Azevedo é contra o sistema de cotas afirmando que não existe implementação prática de uma extravagância teórica que possa resultar em coisa boa: Não se pode imaginar que se possa por em curso um movimento de reparação de injustiça passadas cometendo injustiças presentes. Nessa direção considera ainda que não faz sentido agregar novos direitos às minorias retirando esse direito de antigas maiorias, desfazendo, em nome da igualdade futura, a igualdade presente. (AZEVEDO. Apud BRANDÃO. 2005. p. 78) Na mesma direção, José Carlos de Souza Trindade acredita que A adoção de cotas, ao criar vantagens para um determinado grupo social, particulariza o benefício do acesso e poder tornar-se discriminatória e desestimulante para os outros grupos sociais. Também visualiza o risco de o sistema de cotas desestabilizar o sistema educacional, ao se aviltar o princípio do mérito que norteia tanto a vida universitária quanto o processo de aprendizado. O problema está muito mais na exclusão social, um dos maiores desafios para a sociedade moderna — para o qual a universidade deve e pode contribuir —, do que propriamente para a etnia. (TRINDADE, Apud BRANDÃO. 2005. p. 78) Para João Baptista Pereira as cotas poderiam Causar a quebra do padrão de excelência que a universidade conseguiu construir e preservar no transcorrer dos anos, mesmo no atual período de notório rebaixamento do padrão educacional brasileiro. Admite também a adoção desse sistema de cotas resultaria no adensamento da classe média negra. Assim, a verdadeira ação democrática da educação brasileira seria a efetivação de uma escola pré-universitária, publica e competente, capaz de promover toda uma camada que aspira, com plenos direitos, viver dias melhores. (PEREIRA, In: PORTO;CATANI; PRUDENTE ; GILIOLI (Orgs.) 2002. p. 145). José Goldemberg e Eunice R. Durham (2006) também enfatizam o princípio da legalidade lembrando que A reserva de cotas para facilitar a admissão e aumentar a participação de negros nas universidades brasileiras viola a Constituição Federal que garante, no art. 206, igualdade de condições para o acesso a escola e ao ensino gratuito em estabelecimentos oficiais. No nível do ensino fundamental logrou-se universalizar o acesso, e há escolas públicas para todos. A mesma universalidade não atinge ainda o ensino médio, mas não se houve falar de cotas nas escolas secundárias, a quem nem todos têm acesso e nas quais faltam vagas (GOLDEMBERG ; DURHAM, In FRY; MAGGIE; MAIO; MONTEIRO ; SANTOS (Orgs). 2007. p. 169) O debate sob a legalidade das cotas tem focalizado insistentemente a fragilidade da questão da raça como critério de igualdade. A incorporação deste 222 argumento, como vimos anteriormente, ultrapassa os intelectuais do campo jurídico, embora tenha neste campo sua maior expressão. Para demonstrar a razão dessa afirmação faz-se necessário fazer algumas digressões sobre o princípio da igualdade que está previsto no art. 5º da Constituição Federal e determina que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. A compreensão do tema fica mais fácil mediante a análise de casos práticos. Será possível impedir que homens e pessoas de olhos azuis participem de um concurso público? A resposta intuitiva é que o ordenamento jurídico proíbe essa diferenciação. Essa resposta, contudo, nem sempre é verdadeira. Obviamente não haveria razão para impedi-los de participarem em um concurso para professores universitários. Os membros conservadores desta abordagem parecem repetir que não é possível utilizar o elemento raça para estabelecer privilégios no acesso às universidades. Isso ocorre por duas razões. A primeira porque não é possível saber com exatidão a raça de uma pessoa. Isso faz com que o critério de diferenciação seja indefinido. Não é possível saber com exatidão quando alguém é negro ou pardo. A indefinição é tamanha que levou gêmeos univitelinos a serem considerados de maneira diferente para o ingresso na UNB. Um foi considerado branco e o outro negro, embora sejam geneticamente idênticos. A segunda razão é porque não há relação entre o elemento raça e o resultado pretendido (ingressar na universidade). A raça não é levada em conta por ocasião do vestibular. A análise é feita com critérios exclusivamente objetivos e meritórios. Não há, portanto, relação entre fator de diferenciação e a diferenciação a ser realizada. Não é a raça que faz com que haja menos negros e pardos cursando a universidade. É o fato de que muitas pessoas com essas características integram a camada mais desfavorecida da população. Verifica-se a ilegalidade das cotas raciais. A verdade é que a sociedade está muito longe de poder ser considerada igualitária. Então somos forçados a nos apegarmos ao conceito da eqüidade, de Aristóteles, o qual, em síntese, baseava-se em tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais na proporção de sua desigualdade, para que assim pudéssemos chegar a um equilíbrio. 223 Sendo assim podemos determinar que, sim, as cotas raciais oferecem inconstitucionalidade. No entanto, seguindo o raciocínio aristotélico, estamos partindo da desigualdade para enfim nos aproximarmos da igualdade e junto com isso minimizarmos uma dívida impagável que todos nós, como sociedade, temos com a raça negra que foi tão segregada, oprimida e discriminada durante séculos. José Roberto Pinto de Góes (2004) afirma Como não é possível que o Conselho Nacional de Educação esteja se lixando para a lei deve estar aprovando pareceres sem os ler. Em março de 2004, o CNA aprovou um Parecer denominado Diretrizes Curriculares para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana, que só lendo por inteiro para acreditar. É uma afronta ao espírito da Constituição Republicana de 1988, sendo a qual a idéia de raça é preconceituosa, não devendo o indivíduo agir ou se relacionar com base em critérios raciais. Não é o sistema de mérito que gera injustas desigualdades mais a precariedade da rede escolar pública. O sistema de mérito não está baseado em preconceito. É até difícil entender esta proposição. Em que preconceito estaria baseado o sistema de mérito? O sistema também não está baseado na manutenção de privilégios. Ao contrário, alternativa ao mérito é justamente o privilégio, seja ele fundado na idéia de raça, na de pureza de sangue, no que se quiser inventar, enfim, os postos “a margem” não podem nem devem romper o sistema meritocrático. (GOES, Apud: MILITÃO, In: FRY; MAGGIE; MAIO; MONTEIRO; SANTOS (Orgs). 2007. p. 330) O termo igualdade, ao longo do tempo, foi entendido não como antítese da desigualdade, mas como se poderia supor em principio, da discriminação, assim sendo, os legalistas progressistas têm procurado ressaltar este aspecto. Segundo Hédio Silva Junior (2003) Igualdade e discriminação figurariam, portanto, como palavras antônimas, exprimindo conceitos antagônicos, contraditórios e antitéticos. Confirma esta afirmação o fato de o caput do art. 5.º da Constituição Federal, tal como nas Constituições de 1967 e 1969, encontra inspiração no texto constitucional de 1934, cujo enunciado isonômico é acompanhado de vedações que apuram e decompõem seu significado, acentuando: “sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso, convicções políticas”, assinalando a repulsa constitucional à utilização de atributos da pessoa como fatores de discrímen. (SILVA JUNIOR, In: SILVA; SILVERIO,2003,p.103). Para o autor acima citado, igualdade denotaria não fazer distinção, não discriminar, o que resulta, pelo ângulo da gramática, que o substantivo abstrato igualdade equivaleria ao substantivo concreto negado não discriminação, d’onde se deduz que o princípio da igualdade seria densificado por um conteúdo essencialmente negativo, uma obrigação negativa, abstencionista, passiva: nãodiscriminar. Silva Junior (2003, p. 103) salienta que “a experiência jurídica e a história das 224 democracias contemporâneas certificaram a insuficiência, senão a falácia do princípio da não-discriminação no enfrentamento da problemática da discriminação”, daí porque se passou a exigir uma postura ativa, pro-ativa do Estado na promoção da igualdade racial. A história atesta a insuficiência de uma atitude estatal negativa, no sentido de não discriminar, como de resto demonstra a inutilidade das declarações solenes de repúdio ao racismo. Na sociedade brasileira desfigurada por séculos de discriminação generalizada, não é suficiente que o Estado se abstenha de praticar a discriminação em suas leis. “Cabe ao Estado favorecer a criação de condições que permita a todos se beneficiarem da igualdade de oportunidade e eliminar qualquer fonte de discriminação direta ou indireta” (SILVA JUNIOR, p. 103). Neste sentido as ações afirmativas são compreendidas como comportamento ativo do Estado, em contraposição à atitude negativa, passiva, limitada a mera intenção de não discriminar. A promoção da igualdade distinguese por um comportamento ativo do Estado, em termos de tornar a igualdade formal em igualdade de oportunidade e tratamento, o que é, insistimos, qualitativamente diferente da cômoda postura de não discriminar. Seguindo esta direção, Ana Paula de Barcelos (2003), observa que No caso do sistema de cotas das universidades públicas, podem se identificar três grupos de normas pertinentes na Constituição. O primeiro grupo diz respeito às normas constitucionais gerais que se relacionam diretamente com a matéria, como as disposições do art. 5.º, II (enuncia o princípio da isonomia ou igualdade), e do art. 3.º, III (prevê para o Estado a missão de reduzir as desigualdades sociais). O segundo grupo contém as normas constitucionais sobre educação em geral, que se materializam no art. 205 (que determina ser objetivo da educação o desenvolvimento da pessoa, o preparo para a cidadania e a qualificação para o trabalho) e do art. 206 (dispõe sobre os princípios segundo os quais o ensino deverá ser ministrado), cumprindo o inciso VII deste mesmo artigo (que prevê a garantia do padrão de qualidade). O terceiro grupo, por fim, se exume à disposição do art. 208, V, da Carta Magna, que trata especificamente do acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. (BARCELOS, Vol. 7.º. 2003. p. 12) Com as normas constitucionais citadas anteriormente pode-se observar várias contradições. De fato as previsões constitucionais nem sempre apontam para o mesmo sentido, podendo até indicar caminhos opostos, sendo impossível atingir determinado fim constitucional sem frustrar em alguma medida o outro objetivo consagrado na carta política. Diante disto, os adeptos do legalismo progressista buscam manter a unidade da Constituição a fim de preservar os fins 225 constitucionais eventualmente contraditórios com base no princípio da razoabilidade. Para Silva Junior (2003), faz-se mister lembrar que Ainda no plano das normas constitucionais, não se pode olvidar que no dispositivo do art. 5.º, inciso XLI a Carta de 1988 estabelece a punição de qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. O dispositivo prevê que a lei punirá não todas e quaisquer discriminações, mas apenas e tão somente aquelas discriminações que atentem contra os direitos e liberdades fundamentais. Uma tal consideração ganha relevância quando verificamos que, especialmente, no plano das relações de trabalho, a Constituição vigente correlaciona igualdade e discriminação de duas formas: proíbe e sanciona a discriminação naquelas circunstâncias em que sua ocorrência produziria desigualação e, de outro lado prescreve discriminação como forma de compensar desigualdade de oportunidades, ou seja, quando tal procedimento se faz necessário para promoção da igualdade. (SILVA JUNIOR, Idem, p. 104) No sentido acima se atribuíram ao princípio da igualdade dois conteúdos distintos: um conteúdo negativo, que impõe uma obrigação negativa, uma abstenção, um papel passivo, uma obrigação de não-fazer, não discriminar, e um conteúdo positivo que impõe uma obrigação positiva, uma prestação, um papel ativo, uma obrigação de fazer: promover a igualdade. Silva Junior (2003) observa que O preâmbulo da Constituição Federal estabelece o repúdio ao preconceito; o art. 3.º, IV, proíbe o preconceito e qualquer outra forma de discriminação; o art. 5.º, XLII, prescreve a criminalização da prática de racismo; o art. 7.º, XXX, proíbe diferença de salários e critérios de admissão por motivo de cor, dentre outras motivações, e finalmente, o art. 227 atribui ao Estado o dever de colocar criança a salvo de toda forma de discriminação e repudia o preconceito contra portadores de deficiências. O direito de igualdade, traduzido na sanção estatal das práticas discriminatórias injustas, resultou desde a promulgação da Constituição vigente, na edição de um pequeno leque de normas infraconstitucionais, leis ordinárias destinadas a coibir, a sancionar, a punir, a discriminação injusta. (Idem, p. 105) Continuando Silva Junior (2003) afirma, A dimensão factual, empírica, dos direitos de igualdade à luz dos estudos sobre discriminação nas relações cotidianas, revela flagrante violação de, pelo menos, dois de seus conteúdos jurídicos fundamentais: igualdade na fruição de direitos e igualdade na aplicação da lei. Emerge também um hiato que distância o repúdio legal a discriminação das persistências práticas públicas e privadas, institucionais e/ou individuais, no mais das vezes silenciosas e informais, que resultam em violações de direito fundadas em raça/cor, etnia, sexo/gênero, idade, estado civil, orientação sexual ou porte de deficiências, nas relações de trabalho e outros quadrantes, há década denunciadas pelos movimentos sociais. (Idem, p. 106.). A implementação do direito à igualdade é tarefa fundamental a qualquer 226 projeto democrático, já que em última análise a democracia significa a igualdade — a igualdade no exercício dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. A busca democrática requer fundamentalmente o exercício, em igualdade de condições, dos direitos humanos elementares. Como afirma Flavia Piovesan (2003, p. 27) “se a democracia se confunde com a igualdade, a implementação do direito à igualdade, por sua vez, impõe tanto desafio de eliminar toda e qualquer forma de discriminação, como o desafio de promover a igualdade”. Para o jurista Joaquim Barbosa Gomes (2003) o tema é de grande importância para o nosso direito pátrio. Inicialmente por ter incidência direta sobre aquele que é, seguramente, o mais grave de todos os nossos problemas sociais, ou seja, os diversos mecanismos pelos quais, ao longo da nossa história, a sociedade brasileira logrou proceder, através das mais variadas formas de discriminação à exclusão e ao alijamento dos negros do processo produtivo conseqüente e da vida social digna. Posteriormente por abordar ao mesmo tempo normas de direito constitucional comparado e direito internacional, que é simplesmente esquecido no âmbito do Direito Constitucional. Joaquim Gomes (2003, p. 17) “ressalta que a noção de igualdade, como categoria jurídica de primeira grandeza, teve sua emergência como princípio jurídico incontornável nos documentos constitucionais promulgados imediatamente após as revoluções do final do século XVIII”. Foi a partir das experiências revolucionárias pioneiras dos EUA e da França que se edificou o conceito de igualdade perante a lei, uma construção jurídico-formal segundo a qual a lei, genérica e abstrata, deve ser igual para todos, sem qualquer distinção ou privilégios, devendo o aplicador fazê-la incidir de forma neutra sobre as situações concretas e sobre os conflitos interindividuais. Imperiosa, portanto, seria a adoção de uma concepção substancial da igualdade, “que levasse em conta em sua operacionalização não apenas certas condições fáticas e econômicas, mas também certos comportamentos inevitáveis da convivência humana, como é o caso da discriminação” (GOMES, 2003, p.19). Carmen L. Rocha (1985) do Superior Tribunal de Justiça (STJ) assinala Proibir a discriminação não era bastante para se ter a efetividade do princípio da igualdade jurídica. O que naquele modelo se tinha e se tem é tão-somente o princípio da vedação da desigualdade, ou da invalidade do comportamento 227 motivado por preconceito manifesto ou comprovado (ou comprovável), o que não pode ser considerado o mesmo que garantir a igualdade jurídica (ROCHA, 1996. p. 86) Joaquim B. Gomes (Idem, p. 19-20) demonstra o surgimento de novas políticas sociais que visam a promoção determinadas minorias, para defender a possibilidade de um legalismo progressista Como se percebe, no lugar de um conceito “estático” da igualdade extraída das revoluções francesa e americana, cuida-se nos dias atuais de se consolidar a noção de igualdade material ou substancial, que, longe se apegar ao formalismo e abstração da concepção igualitária do pensamento liberal oitocentista, recomenda, inversamente, uma noção “dinâmica”, “militante” de igualdade, na qual necessariamente, são devidas pesadas e avaliadas as desigualdades concretas existentes na sociedade, de sorte que as situações desiguais sejam tratadas de maneira dessemelhante, evitando-se assim, o aprofundamento e perpetuação de desigualdades engendradas pela própria sociedade. Dessa nova visão resultou o surgimento, em diversos ordenamentos jurídicos nacionais e na esfera do direito internacional dos direitos humanos, de políticas sociais de apoio e promoção de determinados grupos socialmente fragilizados. Vale dizer, da concepção liberal de igualdade de capta o ser humano em sua conformação abstrata, genérica, o Direito passa a percebê-lo e a tratá-lo em sua especifidade, como ser dotado de características singularizantes. (GOMES, In: SANTOS ; LOBATO, 2003. p.19-20) Na mesma direção Rocha (1985) afirma Em quase nenhum estado democrático até a década de 1960 se cuidou de promover a igualação e vencerem-se os preconceitos por comportamentos estatais e particulares obrigatórios pelos quais se superassem todas as formas de desigualação injusta. Os negros, os pobres, os marginalizados pela raça, pelo sexo, profissão religiosa, por condições econômicas inferiores, por deficiências físicas ou psíquicas, por idade etc... Continua em estado de desalento jurídico em grande parte do mundo. Inobstante a garantia constitucional da dignidade humana igual para todos, da liberdade igual para todos, não são poucos os homens e mulheres que continuam sem ter acesso a iguais oportunidades mínimas de trabalho, de participação política, de cidadania criativa e comprometida, deixados que seja à margem da convivência social, da experiência democrática na sociedade política. (Idem, p. 86) Gomes (2003,p.21) salienta que as ações afirmativas são políticas públicas voltadas “à concretização do princípio constitucional da igualdade material e a neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional e de compleição física”. Segundo Gomes (2003) as ações afirmativas tem como objetivo não ‘apenas coibir a discriminação do presente, mas sobretudo, eliminar os efeitos persistentes (psicológicos, culturais e comportamentais) da discriminação do passado, que tendem a se perpetuar’. Esses efeitos se revelam na chamada discriminação estrutural, espelhada nas abismais desigualdades sociais entre grupos dominantes e grupos marginalizados. Figura também como meta das ações afirmativas a implantação de certa diversidade e de uma maior representatividade dos grupos minoritários no mais diversos domínios da atividade pública e privada. O efeito mais visível 228 dessas políticas é a eliminação das barreiras artificiais e invisíveis que emperram o avanço de negros e mulheres, independentemente da existência ou não de política oficial tendente a subalternizá-los122. (Idem, p. 31) Um outro objetivo das ações afirmativas segundo Gomes (2003, p. 32) “é a criação das chamadas personalidades emblemáticas, que constituiriam um exemplo vivo da mobilidade social ascendente”. Um dos principais problemas para a constatarmos a exclusão da chamada minoria é o acesso a educação pública de qualidade. Na educação básica a escola pública republicana, aberta a todos, não oferece, na sua maioria, uma educação digna, pois carece de recursos financeiros. Na educação superior o papel se inverte, isto é, a maioria das universidades de qualidade está nas mãos do Estado. Portanto, este é o primeiro aspecto da exclusão.123 O segundo aspecto ocorre na seleção ao ensino superior, ou seja, o vestibular, que é um mecanismo intrinsecamente inútil sob a ótica do aprendizado, não tem outro objetivo que não o de excluir. Gomes (2003, p. 35) enfatiza “trata-se de excluir os socialmente fragilizados, de sorte a permitir que os recursos públicos, destinados a educação sejam gastos não em prol de todos, mas para benefícios de poucos”. No entendimento de Gomes (2003, p. 37) as ações afirmativas possuem compatibilidade com o Direito Constitucional vigente no Brasil, ou seja, “a questão se coloca em função do princípio constitucional da igualdade, que comporta várias vertentes como já foi dito anteriormente nesta tese”. Vários são os dispositivos da Constituição Federal de 1988 que corroboram a concepção de igualdade material. Dentre os dispositivos podemos citar: o art. 3.º, I e II; art. 7.º, XX; art. 37, VIII; art. 170, VII, que já foram comentados nos capítulos anteriores. Observam-se também outros tipos normativos que reconhecem o direito à diferença de tratamento legal para diversos grupos vulneráveis. Dentre outros destacamos: art. 4.º, II e VIII; art. 5.º, XLI e XLII; art. 23, X, art. 145, § 1.º; art. 179; art. 227, II e nos dispositivos das leis ordinárias: art. 354 e 373-A do Decreto-Lei n.º 5.452/43 (CLT); art. 5.º, § 2.º da Lei n.º 8.112/90; art. 93 da Lei n.º 8.213/91; art. 24, XX da Lei n.º 8.666/93 e art. 10, § 3.º da Lei n.º 9.504/97. 122 Os norte-americanos utilizam a expressão glass ceiling para indicar tais barreiras artificiais e invisíveis que impedem o progresso dos menos favorecidos. 123 Sempre que usarmos o termo exclusão devemos lembrar das armadilhas deste conceito, conforme destacamos em capítulo anterior. 229 Segundo Rocha (1996) a Constituição Brasileira de 1988 tem em seu preâmbulo que apresenta um momento novo no constitucionalismo pátrio: a idéia de que não se tem a democracia social, a justiça social, mas que o Direito foi ali elaborado para que se cheque a tê-los. (...) O princípio a igualdade resplandece sobre quase todos os outros acolhidos como pilastras do edifício normativo fundamental alicerçado. É guia não apenas de regras, mas de quase todos os outros princípios que informam e conformam o modelo constitucional positivado, sendo guiado apenas por um, ao qual se dá a servir: o da dignidade da pessoa humana. (Idem, p. 85) Para Gomes (2003) somente se universaliza a igualdade com uma conduta ativa, positiva, afirmativa, que se pode ter a transformação social buscada como objetivo fundamental da “república”. A concepção moderna e dinâmica do princípio constitucional da igualdade é aquela que conclama o Estado a deixar de lado a passividade, a renunciar à sua suposta neutralidade e a adotar um comportamento ativo, positivo, afirmativo, quase militante, na busca da concretização da igualdade substancial. Vale ressaltar que a própria Constituição de 1988 contempla algumas modalidades de ação afirmativa de forma ainda tímida (observar art. 5.º, I e art. 37, VIII). Desta forma o Direito Constitucional Brasileiro abriga não somente o princípio e as modalidades implícitas e explícitas de ação afirmativa a que fizemos alusão, mas também as que emanam dos tratados internacionais de direitos humanos assinados pelo nosso País. Segundo Joaquim de Arruda Falcão (Apud GOMES, 2003) Como critérios para que as ações afirmativas atendam o princípio da igualdade material podemos citar: 1) decorrer de um comando-dever constitucional, no sentido do que deve obediência a uma norma programática que determina a redução das desigualdades sociais; 2) ser específica, estabelecendo claramente aquelas situações ou indivíduos que serão beneficiados com a diferenciação; 3) ser eficiente, ou seja, é necessária a existência de um nexo causal entre a prioridade legal concedida e a igualdade sócio-econômica pretendida. (FALCÃO, Apud GOMES, In: SANTOS ; LOBATO, 2003, p. 51) Vale ressaltar os ensinamentos de Rocha (1996) em relação as cautelas que devem ser observadas na implementação das ações afirmativas É importante salientar que não se quer ver produzidas novas discriminações com ações afirmativas, agora em desfavor das maiorias, que sem serem marginalizadas historicamente perdem espaços que antes detinham face aos membros dos grupos afirmados pelo princípio igualador no Direito. Para se evitar que o extremo oposto sobreviesse é que os planos e programas de ação afirmativa adotados nos Estados Unidos e outros Estados, primaram sempre pela fixação de percentuais mínimos garantidores da presença das minorias que por eles se buscavam igualarem, com o objetivo de se romperem preconceitos contra elas ou pelo menos propiciarem-se condições para sua superação em 230 face da convivência juridicamente obrigada. Por ela, a maioria teria que se acostumar a trabalhar, a estudar, a se divertir etc..., com os negros, as mulheres, os judeus, os orientais, os velhos etc., habituando-se a vê-los produzir, viver sem inferioridade genética determinada pelas suas características pessoais resultantes do grupo a que pertencessem. Os planos e programas das entidades públicas e particulares de ação afirmativa deixam sempre à disputa livre da maioria a maior parcela de vagas em escolas, empregos, locais de lazer etc., como forma de garantia democrática do exercício da liberdade pessoal e da realização do princípio da não-discriminação (contido no princípio constitucional da igualdade jurídica) pela própria sociedade. (Idem, p. 88) Ao defender as cotas e sua legalidade, Raquel Coelho Lenz Cesar (2003, p. 188) observa que “a igualdade na lei compreende, além do direito de todos serem tratados igualmente perante a lei, a inclusão indiscriminada de todos os indivíduos no usufruto dos direitos fundamentais enumerados na Constituição”. Cesar (2003) aborda com muita propriedade que a igualdade na lei, ou igualdade nos direitos, é considerada a norma principal do Estado Liberal burguês, requerendo para a sua operacionalidade a inserção de outros valores a serem protegidos em seu contexto normativo, como a liberdade, a segurança e a neutralidade. Conforme este postulado formal, todos os indivíduos devem ser tratados igualmente, com o direito à mesma autonomia, igual respeito e proteção, como sujeitos capazes de uma escolha moral, na qual seus planos de vida podem ser perseguidos, desde que não haja o mínimo de interferência externa de outros indivíduos ou do próprio Estado. Por isso, é um postulado que pressupõe além da neutralidade, que haja generalidade e objetividade na distribuição e proteção dos direitos. Com base nesta concepção teórica, o Estado Liberal investe na idéia de igualdade dos indivíduos no âmbito formal da lei, preocupando-se muito mais com um nivelamento igualitário do acesso formal a estes direitos do que propriamente com uma realização coletiva democrática mais experimental deles. Por isso, diz-se que não é a igualdade que está perante a lei, mas sim, os indivíduos. (CESAR, 2003. p. 188-189) Continuando, a autora considera o princípio da igualdade liberal vazio, ao afirmar Isso significa que cada indivíduo deveria, dentro do âmbito de autonomia que a lei lhe conferia, procurar realizar os seus objetivos de vida. Neste sentido, o princípio da igualdade liberal era uma fórmula vazia, cuja utilidade dependeria de uma mediação legislativa sobre o tratamento de situações concretas. A igualdade constitucional vista de forma isolada, ‘não se assumia como uma verdadeira norma jurídica’. Não se constituía um direito subjetivo como já era reconhecida a liberdade em algumas de suas modalidades, mas condicionava-se ao princípio da reserva de lei. Desse modo, a igualdade começava a sedimentarse na base dos atos administrativos, legislativos e judiciais, principalmente no que dizia respeito à eliminação de privilégios da nobreza. Para uma ordem social recém advinda da escravidão, a igualdade não parecia muito útil no propósito da inclusão. Da qualquer modo, procurava substituir a honra por uma cidadania procedimental, que criava uma alternativa de comprometimento moral social. (Idem, p. 190-191) De acordo com Cesar (2003, p. 193) existiu “um limite de inserção formal dos negros na sociedade que perdurou por muitos anos no Brasil. Talvez um dos grandes entraves para esse tipo de conquista político-institucional tenha sido o 231 próprio sufocamento da história da escravidão, logo após o advento da república”124. Cesar (2003, p. 195) sustenta que a “Constituição Federal de 1934 atribuía uma natureza mais intervencionista no papel estatal. Com isso, beneficiava os menos avantajados na sociedade onde os negros se incluíam”. Ainda segundo a autora Por outro lado importava definir se a igualdade seria tratada como uma questão de princípio individual, revelada apenas através de suas concretizações, nos casos de discriminações diretas entre indivíduos, ou se representaria um princípio de maior abrangência, cuja utilidade prática também recairia sobre políticas públicas governamentais. Segundo a Constituição de 1934, o princípio da igualdade que abrigava o critério da raça, se definia nas relações individuais, como resposta as questões de discriminação racial. Ele se afirmava muito mais como um princípio de não-discriminação do que como norma programática para políticas públicas. Quando muito, assumia uma utilidade procedimental que não dependia de concretizações, impondo certos limites às autoridades aplicadoras do direito a fim de evitar decisões arbitrárias, desiguais e desproporcionais. (Idem, p. 195-196) Segundo a Constituição de 1934 o princípio da igualdade que abrigava o critério “raça”, se definia muito mais como princípio da não-discriminação do que como norma programática para políticas públicas. A alteração do texto constitucional de 1934 para o de 1937 trás um modelo semelhante ao da Constituição de 1891, pois tratava de eliminar a questão racial ao caracterizar a inexistência de pretos e brancos. No texto constitucional de 1946 a questão da igualdade racial continuava limitada, pois no art. 145, § 1.º, afirmava que “todos são iguais perante a lei”, não dizendo o tipo de igualdade que se destinava. Cesar (2003, p. 198) sustenta que o principal avanço da proteção contra a discriminação individual da época foi a Lei n.º 1.390/51 (Lei Afonso Arinos) que considerava racismo uma contravenção penal, punida com pequenas multas pagas pelo agressor. Portanto, ainda que tímida, a Lei Afonso Arinos abriu portas 124 A autora mencionada acima continua a enfrentar a questão enfatizando que: “outro problema que muito exclui os negros da sociedade foi a doutrina da eugenia. Segundo essa doutrina, o culto à higiene era fundamental para estabelecer uma sociedade racialmente superior tanto em relação ao asseio do corpo quanto em relação ao clareamento da raça. A purificação racial estimulava as políticas de imigração européia, enquanto a purificação do corpo consistia na adoção de valores eurocêntricos da elite nacional, cada vez mais distanciados da realidade social brasileira recém escravocrata. “Preto sim, porém, de almas e costumes brancos”. Assim é que Jeruse Romão chama atenção para a natureza racista da eugenia. Era na implementação dessa política que mais se observava o limite da fronteira entre raça e colasse e que mais o preconceito racial aparecia contra aqueles cuja história havia sido queimada. (Idem, p. 193). De acordo com segundo Cesar (idem, p.194) “a evidência dessa exclusão social repercutia, principalmente, na educação implementada à moda européia voltada para os brancos e distanciada da colônia”. Como conseqüência da política integracionista, as escolas eram mais freqüentadas pelos filhos de imigrantes. 232 para uma legislação mais eficaz no combate a discriminação racial. O art. 150 da Constituição de 1967 instituía que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credos religiosos e convicções políticas. O preconceito racial será punido por lei”. Na Constituição Cidadã de 1988, o princípio da igualdade assumiu suas duas dimensões: a de não discriminar ilegitimamente e a de discriminar positivamente. Ambas, porém, deveriam observar os limites de razoabilidade, proporcionalidade e justiça, inseridos na norma. Vale ressaltar que não é dispositivo legal que vai acabar com a discriminação e a intolerância, pois como já vimos anteriormente a legislação brasileira, após a abolição, criou mecanismo de não-discriminação, impondo penalidades, porém todos nós sabemos que existe uma discriminação que passa despercebida nos meios de comunicação, no trabalho, nas escolas, entre outros.. No que se concerne a igualdade através da lei, Cesar (2003, p. 201) destaca que A Constituição Federal de 1988 nasceu sob o signo do pluralismo político, da Justiça social e da Democracia, o que significa dizer que, diante da realidade de desigualdade social em que se encontrava o país, combinada com a herança do autoritarismo militar que perdurara por três décadas sem que se consolidasse uma vivência mais democrática entre os cidadãos, o caminho da justiça a ser trilhado seria o da igualdade. Mesmo que não se atingisse uma igualdade fática, ou sequer uma aproximação a ela, os valores elencados já em seu preâmbulo anunciavam a definição do bem comum como a busca por uma sociedade mais justa, fraterna e sem preconceito. Desse modo é que o homem é trazido para o centro do ordenamento jurídico, cujo objetivo está na proteção da sua dignidade, e não mais do seu mérito, como previa o modelo liberal passado. O reconhecimento da dignidade implica tanto no reconhecimento de uma cidadania mais substancial e menos procedimental quanto no reconhecimento do direito à diferença. A nova moralidade trazida pelo princípio da dignidade humana altera não apenas as influências da justiça minimalista do Estado ultra-liberal, como se compromete com a possibilidade real de efetivação do bem comum através de uma justiça mais igualitária. Desse modo a base da moralidade definida pela dignidade humana está, sobretudo, na cidadania, na igualdade e no pluralismo político que constituem princípios estruturantes do Estado Brasileiro. (Idem, p. 201-202) Com relação a construção da igualdade de direitos podemos observar um crescente reconhecimento de que critérios como cor ou raça, classe, credo religioso, sexo, idade, estado civil, convicção filosófica ou política, nacionalidade, e porte de deficiência, constituem as fontes mais suspeitas de discriminação sócio-jurídica na história do país, para os quais o princípio da igualdade visa proteger. A não-discriminação deve partir de uma vedação do Estado em orientar-se 233 por condutas preconceituosas e discriminatórias. Desse modo o Estado deve proteger o direito das minorias no termos de legislação infra-constitucional. Entre tais direitos que protegem este grupo mais vulnerável podemos citar: direito de resposta, por dano material, moral ou à imagem (V), liberdade de culto religioso (VI), direito à intimidade, vida privada, honra e imagem pessoal (X), direito de acesso à justiça (XXXV), direito a não ser discriminado (LXI), criminalização da prática de racismo (LXII), direto de não ter salário diferenciado por motivo de raça (art. 7.º, XXX) “proibição de diferença de salários, de exercícios de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil”125. Não podemos negar que as ações afirmativas possuem cunho de utilidade social. A visão utilitarista considera que do mesmo modo que um indivíduo avalia suas vantagens e desvantagens ao lidar com situações e bens, presentes e futuros, a comunidade deve fazer o mesmo, buscando um ponto de maximização do prazer, bem-estar e felicidade para si, a partir das satisfações e insatisfações apresentadas na avaliação geral de diferentes indivíduos. Cesar (2003) aborda que o utilitarismo considera possível que uma única pessoa, ou um grupo de pessoas, possa, através de um julgamento racional e imparcial, ordenar o modo mais eficiente de administrar as escolhas e oportunidades individuais de modo a alcançar um padrão de satisfação máxima para a sociedade como definiu John Rawls: A natureza da decisão tomada pelo legislador ideal não é, portanto, substancialmente diferente da de um empreendedor que decide maximizar seus lucros por meio da produção desta ou daquela mercadoria, ou da de um consumidor que decide maximizar sua satisfação mediante a compra desta ou daquele conjunto de bens. Em cada um desses casos há uma única pessoa cujo sistema de desejos determina a melhor distribuição de meios limitados. A decisão correta é essencialmente uma questão de administração eficiente. Essa visão da cooperação social é a conseqüência de se estender à sociedade o princípio da escolha para um único ser humano, e depois, fazer a extensão funcionar, juntando todas as pessoas numa só através de atos criativos do observador solidário e imparcial. O utilitarismo não leva a séria a diferença entre pessoas. (RAWLS, Apud CESAR, idem, p. 67) Continua Cesar (2003) afirmando que 125 Não podemos nos furtar de citar a Lei CAÓ de 15 de janeiro de 1989, assim denominada por ser de autoria do Deputado Carlos Alberto de Oliveira, que tornou passíveis de punição os crimes decorrentes do racismo, preconceito e discriminação racial em nosso país. Além do dispositivo citado foram promulgadas as leis 8.081/90 e 8.882/94, visando corrigir algumas distorções, através da alteração dos arts. 1.º e 20.º da lei CAÓ. Finalmente a Lei n.º 9.459/97 deu redação final a estrutura normativa anti-discriminatória, revogando o artigo 1.º da Lei 8.081/90 e 8.882/94, e incluindo o art. 140, § 3.º que trata da injúria discriminatória. 234 a visão utilitarista, a distribuição de soma de satisfações aos indivíduos na sociedade através da definição do bem, não requer a priori, uma regra própria de controle desse bem. A tendência está muito mais em uma ética individual onde o bem é conectado a uma moral individual, do que em uma ética onde o bem seja vinculado ao justo. O que importa na distribuição do bem é a maximização da satisfação dos indivíduos que compõem a sociedade, onde o justo depende de vários aspectos morais e sociais. (Idem, p. 68) Ralf Darhendorf (1991 Apud CESAR, 2003) ao escrever sobre o liberalismo econômico e político advertiu para o problema da limitação real do acesso condicionado por essa vertente teórica, a qual não impede que, na prática, os direitos humanos, consagrados nas Constituições democráticas como fundamentais, estejam muito mais presos ao seu recurso formal, tornando-se, conseqüentemente, mais exclusivos a alguns homens, ao invés de ser benéfico a todos, como o liberalismo proclama. Como resultado, se todas as pessoas não dispõem, de fato, de meios para o exercício de seus direitos, o acesso, que deveria ser um direito humano garantido a indivíduos e coletividades, acaba tornado-se privilégio concedido apenas a alguns indivíduos na sociedade. Faltando o acesso às oportunidades, falta o acesso a justiça. Faltando a oportunidade ou condições concretas de sua realização, o acesso à justiça resume-se numa idéia desacreditada. O conflito social moderno argumenta Darhendorf (1991), ocorre entre os defensores de mais escolhas, que são os que dispõem de mais proteção social e aqueles que demandam mais direitos. Há os que têm “o suprimento de alternativas em duas áreas de atividades que são os que detém melhores condições de acesso, e os que “reclamam de acesso a quaisquer bens ou profissões. (Idem, p. 52) Embora a política neoliberal nos leve a acreditar que a busca da igualdade está esgotada, pode-se afirmar que esta nova epistemologia, a qual ecoa o fragmentado discurso das minorias, já passa a ser ouvida na arena dos debates políticos, como uma possibilidade experimentada em outras ordens sociais, que podem, do mesmo modo, ser experimentadas no contexto social brasileiro, mesmo contrário as contingências da frágil engenharia econômica do Estado atual 126. 126 O acesso não pode estar restrito apenas a inserção, como afirma Cesar (2003). “Por isso, ter acesso não pode mais significar apenas estar inserido naquilo que era proclamado como naturalmente legítimo a todo homem pela particular condição do ser humano, como teorizou Kant, mas sim, estar beneficiado por um desses raros “bilhetes de entrada” produzidos pelas ações afirmativas, importantes ao equilíbrio das desigualdades do homem contemporâneo. É um significado que persiste muito mais na projeção que o indivíduo tem de si mesmo no contexto social, de sua projeção objetiva nas relações para com os outros indivíduos e para com o próprio Estado, na tentativa de eliminar tudo o que o exclui tanto na linguagem neutra da lei quanto na racionalidade do Judiciário aprimorada para abrigar suas demandas. Ao ser tratado como um direito humano, o acesso à justiça requer um posicionamento teórico que se adéqüe à realidade daqueles que ainda têm voz coletiva na esfera pública, e cuja diferença tem justificado constantes discriminações e acirramento de desigualdades sociais. Neste repensar epistemológico, o acesso a justiça expressa uma abordagem que vai além da visão processualista de acesso, ou daquela que equaciona a justiça somente à instituição do Judiciário. Sem dúvida, a contribuição dessas duas vertentes teóricas tem sido muito importante na sociedade moderna pelas muitas realizações já concretizadas em benefícios dos desiguais. Porém, é fundamental que abriguem uma terceira visão, a qual se aproxima de uma justiça material, averiguando sempre as reais possibilidades e limites do direito em implementá-las, com o objetivo 235 Para Cesar (Idem) no caso de quotas, mais especificamente, o quantum a ser estabelecido deve ser baseado em critério de razoabilidade proporcional. Se nos Estados Unidos esse quantum é baseado na proporção populacional, no Brasil, os índices populacionais cobrarão uma melhor definição pela falta de objetividade nos critérios raciais adotados nas estatísticas oficiais. Por outro lado, segundo a autora, “é neste ponto substancial que a justiça substancial alia-se à justiça procedimental desenvolvida pela doutrina brasileira para definir o conteúdo material da igualdade” (CESAR, Idem, p. 232). Além da existência da norma e de dados que requeiram a sua aplicação eficaz, o Direito ainda cobra procedimentos interpretativos na legitimação de políticas igualitárias. Com a implementação da igualdade material para grupos em desvantagem, e diante dos dados estatísticos que demonstram a enorme desvantagem da população afro-brasileira, conforme o princípio da igualdade requer para sua implementação como princípio geral, que sejam definidas políticas proporcionais à necessidade do fato considerado desigual. É certo que até mesmo a proporcionalidade pode sofrer uma parcela de arbítrio por parte do legislador e do administrador, por isso, é sempre importante frisar que a técnica desenvolvida nas últimas décadas, não concebe, por si só, toda a solução do problema. De qualquer modo, ela busca alcançar mais acertos do que erros. Por isso, é sempre importante conhecê-la na doutrina mais autorizada do país127. Analisando as leis sobre ações afirmativas na educação superior no Estado do Rio de Janeiro, e de seus efeitos iniciais, não se apresentou propriamente uma problemática entre princípios que repercutisse numa colisão de interesses, mas, de reduzir ainda mais o freqüente clamor por justiça dos desiguais. A questão que permanece nesta discussão em aberto é se os “bilhetes de entrada” seriam distribuídos somente às minorias demandantes ou se também seria reconhecido esse direito à maioria excluída dos benefícios sociais e institucionais. Por isso, repensamos as modalidades de justiça liberal e social, a fim de compreendermos a justificativa filosófica constitucional do tratamento diferenciado promovido pelas ações afirmativas a grupos minoritários, e o problema da população excluída que ao se identifica com o grupo minoritário alvo”. (Idem, p. 53-54) 127 Essa questão foi levantada na década de 1950 por San Tiago Dantas, quando consultado por advogados sobre a legitimidade dos poderes legislativo e executivo de, no período ditatorial, empregarem decretos-lei para subtraírem à apreciação do Judiciário, atos concretos pautados por norma diferente da geral. Dantas reconhecia que este era um conflito existente entre o princípio da igualdade, sobre o qual se baseia o sistema de direitos individuais, “é a faculdade que se reconhece ao Poder Legislativo de fazer não só leis aplicáveis igualmente a todos, como leis de exceção adequadas a espécies e situações particulares (DANTAS, F. C de San Tiago. Op. Cit., p. 38) A solução desse conflito estaria na adoção de critérios técnico-jurídico que diferenciassem a norma especial da norma arbitrária de modo que ela satisfizesse a consciência jurídica. (CÉSAR,idem, p. 232-233) 236 acima de tudo, uma inabilidade prática da sociedade e do Estado em lidarem com um único princípio: o da igualdade. Segundo Cesar (2003) As propostas das ações afirmativas já traziam em si o conteúdo ético e moral que precisava ser protegido, restando apenas ao Judiciário incorporá-lo às suas decisões. Mas enquanto o Judiciário procurava interpretar objetivamente o princípio da igualdade no momento de sua aplicação, a fim de fazer a justiça individual dos casos concretos que iam surgindo, as teses apresentadas refletiam um jogo de forças e interesses que desviavam o fim maior da justiça contido na lei.Não se tratava de compreender a igualdade dentro de um método, ou até mesmo dentro de uma condição técnica para fazê-la acontecer, mas de dar à norma o significado adequado à finalidade nela inserida, enfrentado, inclusive, a ruptura com a tradição que a norma requeria. Nesse processo, não havia uma divisão entre o intérprete dotado do ethos do convencimento, e o auditório que precisa ser convencido (...) Isso porque ao lidar com a modalidade de igualdade trazida pelas ações afirmativas, pode-se afirmar que até mesmo o Judiciário foi parte do auditório que precisava ser convencido da legitimidade dessas normas. A inversão dos papéis foi observada não apenas nos aspectos funcionais argumentativos, como também na atuação política dos atores do processo. Mais do que nunca o direito foi um campo de controvérsia por 128 Inicialmente, essa controvérsia pode ser vista em vários excelência. setores da sociedade que se manifestavam na imprensa contra a irrazoabilidade da medida. Depois foi a vez do próprio Legislativo, através de um único representante, questionar a constitucionalidade das Leis de reserva de vagas antes aprovadas por unanimidade naquela casa. Isso tudo sem falar no Judiciário que procurava uma razão que orientasse a práxis da medida, uma vez que todas as teses tradicionais que lhe eram apresentadas pareciam plausíveis. Por fim, a conturbação sócio-jurídica chega ao Supremo Tribunal Federal para que, à luz da Lei Maior, pudesse finalizar a controvérsia com um mínimo de perturbação social, e o máximo de justiça comum. (Idem, pp. 246-247) Tendo como base a igualdade fundamentada na Constituição de 1988 e em dados empíricos, neste sentido, atores formais e informais do processo de implementação das ações afirmativas, denunciavam as desigualdades, definindo o bem comum como a busca por uma justiça mais substancial. Quando essa definição de bem comum chega ao consenso social, então invariavelmente fracassa o método lógico-dedutivo contrário às interpretações abertas da norma igualitária. Mas até se chegar ao consenso, o justo e o razoável são vistos e revistos, enquanto a igualdade oscila entre uma interpretação formal conformada aos bens já distribuídos pelas tradições locais, e outra interpretação que aponta para um caminho mais redistributivo de direitos, ainda que clame pelo aperfeiçoamento da técnica redistributiva utilizada. Diversos autores compartilham o critério de que a questão da igualdade tem percorrido um largo trajeto no pensamento mediterrâneo. A esse respeito, Martin de Albuquerque considera que sempre: 128 Vide CAMARGO, Margarida Maria Lacombe. Hermenêutica e Argumentação, uma contribuição ao estudo do Direito. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 207. 237 É possível referi-la desde o velho Egito. No Livro dos Dois Caminhos, o ‘Senhor Universal’ diz aos outros deuses: ‘Fiz cada homem igual ao seu companheiro’; e Ptah-hotep ensina que as necessidades fundamentais e a mitigação dos piores azares são, por vontade de Deus, um direito de cada homem; que Deus fez os homens iguais em valor, como irmãos e membros de uma família. E remonta já, enquanto especulação filosófica conhecida, à Antiguidade Clássica — A Grécia e a Roma. Não admirará isto muito se pensarmos que se trata de ma matéria direitamente mergulhada na Ontologia e na Teologia, porque respeitante à própria natureza do homem, considerado em si mesmo ou nas relações com Deus. (ALBUQUERQUE, 1993, p. 7, apud SILVA, 2001, p. 32). Percebe-se, portanto, que desde os tempos antigos já havia diversidade conceitual de como se aplicar a igualdade e a necessidade de lutar por ela como direito, já que se confrontava com a desigualdade real. Esta luta não teria existido, repita-se, se não houvesse confiança numa evolução histórica natural. O desenvolvimento social fez inevitável que os homens sentissem a necessidade de mudar suas idéias e conceitos, ainda arraigadas no passado. Nesse sentido, escreve Alain Touraine (1997) Enquanto as culturas políticas tradicionais, em particular as religiosas, associavam natureza e sociedade e estavam inclinadas a aceitar de bom grade a autoridade natural do rei, do sábio ou do pai, a cultura política moderna associa o princípio jurídico da igualdade a uma necessidade histórica que proíbe a manutenção de privilégios, sob pena de conduzir as sociedades à ruína. (TOURAINE, 1997 p. 13). Para Serge Atchabahian (2006, p. 8) “a igualdade é caracterizada como um Direito Fundamental, sendo tema antigo na existência do homem. Tratando-se de direito decorrente da natureza humana”, por isto imprescindível e intransferível cuja conquista decorreu de árdua luta durante a história da civilização129. Sendo a igualdade o valor mais abstrato afirmado pelo liberalismo, suas 129 O liberalismo tem na expansão da personalidade individual, o seu fim principal, o qual é buscado a todo custo, ainda que o desenvolvimento de uma personalidade mais dotada e rica possa se afirmar em prejuízo ou detrimento de uma personalidade menos dotada e mais pobre. Como o liberalismo assume o compromisso de garantir uma liberdade igual a todos os indivíduos, essa liberdade somente passa a ser acreditada no âmbito da moralidade abstrata, em que todos os indivíduos são igualados em racionalidade, paixões e desejos. Portanto, qualquer desigualdade advinda dos limites encontrados na busca individual por autonomia, passa a ser justificada com base nas relações individuais vinculadas ao fluxo natural do mercado, e não como um problema real de limites das possibilidade de escolha. Continuando, a liberdade igual para todos não é um valor absoluto, nem se realiza por si própria, mas precisa de um critério valorativo ou teleológico em determinar para quê, ou para quem se destina, ela termina por deparar-se com um problema teórico. Basta que ela saia da generalidade e impessoalidade das regras sociais e jurídicas, para demonstrar que, em muitos casos concretos, não só a liberdade tem seus condicionamentos próprios, como também uma função teleológica particular ao permitir que a liberdade de uns seja limitada em função da liberdade de outros. (CESAR, Raquel Coelho Lenz. Ação afirmativa no Brasil: é o melhor caminho de acesso a justiça para as minorias raciais? Riscos e acertos no caso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro — UERJ. Tese de Doutorado em Direito Público. 2003, p. 59-60). 238 variações teóricas e práticas sofridas nas suas principais correntes — utilitarista, contratualista e igualitária, a tornam, muitas vezes questionável. A dificuldade teórica está, principalmente, na inacabada concepção formal de que todos os homens são criados iguais. Essa afirmação não enseja uma comprovação empírica, mas sim, um caminho que constate um tratamento, de fato, igual, tornando-se pressuposto moral desconectado da realidade. Conseqüentemente, implicações práticas recaem sobre o difícil reconhecimento de qual igualdade ou desigualdade pode ser justificada na sociedade, tanto no âmbito jurídico, quanto político. Lembrando ainda que o reconhecimento moral da igualdade de todos os seres humanos, não corresponde necessariamente a elaboração de uma doutrina igualitária. A igualdade moral de todos os seres humanos só se transforma em critério teórico da igualdade prática, a medida que disponibiliza recursos para os indivíduos alcançarem seus objetivos legítimos de vida. (Idem, p. 62) Significando que a igualdade de todos perante a lei, para dar maior densidade jurídica ao seu status, deve se permitir, em alguns casos, sair do plano da igualdade formal do acesso para chegar à igualdade mais substancial de resultado. Buscando-se uma coerência entre o princípio constitucional da igualdade e a política igualitária dos Poderes Públicos que o concretizam. Isso tudo sem alterar as normas político-econômicas assecuratórias do liberalismo econômico. Essa concepção igualitária, onde as ações afirmativas se inserem, parte do pressuposto da importância da igualdade formal, mas reconhece a insuficiência dos limites de sua interpretação. Segundo Pámela Marconatto Marques (2009) “já dizia Ivor Morish em 1975 (ano de publicação de sua obra “Anomia”) que as velhas barreiras sociais estavam sendo substituídas pelas do “mérito”. “A antiga elite, com a sua gravata com as cores da escola, pode ter desaparecido, mas está sendo firmemente substituída por uma nova elite cuja prescrição é o mérito” assegurava o sociólogo. Marques (2009) ressalta que “o princípio da Meritocracia, cujo cerne está contido na máxima “a cada um é dado o que merece”, serviu, ao longo da história, de respaldo à perpetuação da dominação e ainda hoje serve com excelência a 239 esse fim”. O que apraz às elites (que não necessitam de cotas que assegurem a vaga de seus descendentes) continua contando com teorias que lhes sustentem e justifiquem, ou seja, Marx continua atual. Vale ressaltar segundo a Autora Enquanto os méritos daqueles que puderam custear um ensino médio de excelência e um bom cursinho pré-vestibular vai sendo reconhecido, as crianças negras continuam sem referencial. Talvez o sistema de cotas seja, realmente, apenas um paliativo que deve ser seguido por uma séria mudança nas bases do sistema educacional, que dê a todos o mesmo ponto de partida (já que a meritocracia não pode ser aplicada sem igualdade social). No entanto, a reforma impreterível deve ser feita na consciência social imperante. Aquela que se recusa a admitir-se preconceituosa, mas continua temendo um assalto ao depara-se com um negro em uma rua deserta em hora avançada da noite ou a aceitar o sucesso de um negro em áreas que não sejam o samba ou o futebol. Consciência que não liberta o negro de sua posição servil e o faz sentir oprimido, ainda que constitua metade da população nacional. (MARQUES, P. A meritocracia atrasando a inclusão I. Site do Curso de Direito da UFSM. Santa Maria-RS. Disponível em: <http://www. ufsm.br/direito/artigos/opiniao/meritocracia_inclusao.htm>. Acesso em 25 maio 2009) Para os legalistas progressistas, que defende as cotas, a adoção do sistema de cotas não vem restringir as possibilidades de alguns para beneficiar outros. Vem unicamente exercer sua finalidade constitucional: incluir aqueles que ficaram de fora na partilha do bolo, dispensando aos mesmos, tratamento desigual, eis que desigual é a sua situação, medida amplamente mais difícil e trabalhosa do que simplesmente ignorar a diversidade e confortavelmente nos recostarmos nas acomodações da alienação, munida do discurso falacioso de que todos somos absolutamente iguais e continuamos recebendo exatamente aquilo que merecemos. Segundo Larry Rother (2008, p. 98) “certos aspectos da vida brasileira expõem muito mais do que outros as contradições da sociedade (e o hiato entre aspiração e realidade)”. Não por acaso, classe e raça são talvez os dois exemplos mais importantes e visíveis. Muitos ficam estarrecidos, por exemplo, o modo como são tratados aqueles que lhes são socialmente inferiores, em especial a classe de emprestado que está sempre presente, fazendo o trabalho doméstico que os mais privilegiados querem evitar. É particularmente irritante ter de testemunhar cenas “em que uma pessoa de classe alta chama um empregado que está no outro lado da casa para trazer um copo d’água, por exemplo, quando a própria pessoa está mais perto da geladeira (Idem, p. 98). Acaba-se concluindo que isso normalmente 240 é um jogo de poder, com o objetivo de reforçar uma relação senhor-criado que data da escravidão e da era colonial··”. Fontão da Silva (2006,p.5) observou em sua dissertação de mestrado em direito que “a inteligência e os talentos inatos são resultado de mero acaso; os meios familiares e sociais possuem influência considerável no desenvolvimento das aptidões individuais”. Além disso, fatos contingenciais coexistem com diferenças oriundas de herança histórica, étnica e de gênero. O autor citado critica a concepção de mérito 130 como justiça distributiva, uma vez que, metaforicamente, os competidores partem de pontos distintos, o que torna a competição desigual. Desta forma para falar em justiça igualitária seria necessário adoção de medidas emergenciais para o restabelecimento de um status quo idealmente desejado. Para os autores desta linha de pensamento, as políticas de ação afirmativa, principalmente aquelas que se referem ao sistema de cotas no ensino superior, complementam o circulo iniciado na exigibilidade moderna de acúmulo de conhecimentos especializado e elevados como veículo de acesso a melhores postos de trabalho e decorrente da ascensão social. Como se observa não existe bens em quantidades suficientes para atender à demanda, quer pela natureza intrínseca que encerram, quer pela limitação das reservas. Em todas as situações deve ser considerado aspectos como divisões territoriais, politicamente fixadas, bem como as valorações econômicas que, via de regra são estabelecidas nos moldes das ideologicamente denominadas “leis” de mercado, além do aspecto subjetivo que corresponde a um desejo geral. Fontão Silva (Idem) questiona os motivos do mérito ser critério insuficiente de justiça distributiva. Vejamos a argumentação do autor A justificativa repousa no fato de que as sociedades ocidentais contemporânea encontram-se assoladas pela ideologia individualista neoliberal a qual, levando o laissez-faire, “laissez-passez” às últimas conseqüências embuídas de 130 Guilherme Luiz Fontão da Silva ressalta que “a idéia de mérito não foi alheia à sociedade industrial a qual reinou soberanamente desde o século XVIII até meados do século XX. Contudo, com a emergência da sociedade pós-industrial cronologicamente situada, a partir da década de 50 do século passado, o mérito compreendido como inteligência mais esforço pessoal incidente quotidianamente na vida das pessoas, quer era nível educacional quer no acirramento da competição, vem se destacando como critério de justiça distributiva, na medida em que a repartição das quotas dos bens e postos genericamente almejados — ainda mola propulsora de mobilidade social vertical ascendente —, tem pendido em prol dos mais aptos. (SILVA, Guilherme Luiz Fontão. Os limites do mérito como critério de justiça distributiva. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro. UFF. 2006, p. 5) 241 indisfarçável hiper-darwinismo, propugna pelo destaque pelos dos mais aptos às supostas novas exigências do capital internacional, consubstanciada em uma polivalente qualificação profissional individual paradoxalmente simultânea a uma crescente especialização dessa mesma mão-de-obra da qual é exigida capacidade incondicional de flexibilização, mais sob égide, de uma mera igualdade formal de oportunidades (Idem, p. 17) Como já foi visto anteriormente no nosso país imperam desigualdades sociais persistentes, onde há má distribuição de renda e as oportunidades não são igualitárias, portanto, atribuir relevância ao mérito como critério exclusivo de justiça distributiva é temerária podendo produzir como conduta desonrosa, mormente se tal posicionamento advier do meio acadêmico, em parte, pela formação da opinião pública e da produção intelectual capazes de influenciar, a formulação de políticas públicas que podem minimizar ou agravar o quadro de disparidades a que se submete grande parte da população. Silva (2006, p. 23) diz que “o surgimento da ideologia meritocrática no Ocidente é bastante recente. Contudo, vem assumindo contornos cada vez mais nítidos que, em curtíssimo lapso temporal, a tornam sobre valorizada como nunca d’antes sequer vislumbrado”. É justamente em face das transformações havidas e decorrentes que diversos estudiosos têm procurado diagnosticar e delimitar um possível novo e amplo cenário que supostamente se distinguiria e se destacaria da modernidade. Não devemos cair na armadilha de conceber uma sociedade eminentemente meritocrática, pois como se percebe existem limites do mérito como também para a falácia que impregna a ideologia egoísta neoliberal a qual se investe na prerrogativa de condutora soberana dos destinos da humanidade. Pode-se afirmar que a onipresença do mérito nos quatro cantos do planeta foi reforçada pelo insucesso da experiência socialista no transcorrer do século XX. Silva (2006) observa a importância de se realizar uma análise sociológica de contextualização do mérito Essa imprescindível inserção deriva da proeminência que o mesmo adquiriu mais recentemente, tendo em vista as sensíveis mudanças ocorridas a partir da segunda metade do século passado, momento em que houve a passagem para uma nova realidade que enfatizou o papel do conhecimento teórico, do planejamento social, da pesquisa científica, da produção de idéias e da instrução. Afirmo ainda que a emergência da ideologia meritocrática frisa-se pela proeminência dos serviços sobre a produção material de bens e pela valorização do acúmulo de conhecimento, especialmente o de caráter científico tecnológico que vem gerando a ascensão de uma elite técnica, compostas por indivíduos de elevada escolaridade, que poderá constituir um novo padrão de estratificação social supostamente menos afeta aos laços consangüíneos e mais subordinada 242 ao mérito individual. (Idem, p. 20) Segundo os autores que defendem os limites do mérito, os mesmos são também evidenciados pela não efetividade dos meios necessários para promover uma igualdade real, a não preocupação em compensar as desigualdades históricas e contingenciais. Pode-se observar que o meio familiar e sociais não favoráveis podem destruir talentos inatos, por outro lado, não podemos desprezar aqueles não tão talentosos, mas de grande esforço e dedicação que podem superar os mais inteligentes, que são poucos esforçados e muito dispersos. É uma questão polêmica nessa denominada sociedade de informação. Como podemos observar a noção de meritocracia não foi gerada na contemporaneidade e sim é fruto da mesma, tendo como base um incessante processo de racionalização do mundo o qual, como oportunamente se mostrará nesta tese não abraça necessariamente uma moral altruísta. Já em relação às pós-modernidade131 admite-se a convivência de opostos, de modo que o ideal meritocrático não é descartado, até porque acatado pela racionalidade a qual pretende guiar as relações sociais e inter-pessoais, como se fosse possível e desejá-lo fazê-lo. A modernidade não pressupõe um compromisso com propostas igualitárias, sendo fácil compreender que a ideologia meritocrática de cunho excludente reserva uma grande parte da riqueza e da ascensão social aos indivíduos segundo o critério do mérito. O que se pretende na verdade são encobrir, muitas vezes, manipulações e imposições excludentes, contrárias as aspirações igualitárias. De forma resumida o que se quer denunciar são os relativismos culturais que continuam a abrigar desigualdades persistentes, inconcebíveis no mundo atual. A definição de uma idéia não é uma tarefa fácil, muito menos o conceito de mérito. Desse modo, tentar definir algo que não é susceptível de definição não parece producente, embora possa constituir atitude científica. Mas razoável é, 131 Vários estudiosos têm procurado diagnosticar e delimitar um novo cenário que supostamente se distinguiria da modernidade. Não é por outra razão que, se há um certo consenso quanto à anatomia da modernidade, não existe acordo, todavia, no que tange ao marco inicial de uma nova fase. Como destaca SILVA (2006, p. 24) podem ser identificados, por exemplo, os seguintes fatos: a) alteração nas relações de trabalho a partir do fordismo; b) construção de artefatos nucleares com poder de destruição do planeta; c) crise dos valores iluministas em razão das duas guerras mundiais; d) adventos dos meios de comunicação de massa; e) surgimento da informática; f) globalização; g) fracasso da experiência socialista. 243 pois, proceder a uma conceituação por implicar um estabelecimento de limites menos radical, mais consentâneo com a flexibilidade ou a não unanimidade que encerra132. Originalmente, como visto, mérito se confundia com merecimento, de modo que podia ser positivo ou negativo. Este, quando se referisse a um castigo, aquele quando dissesse respeito a uma honraria, qualquer que fosse. Todavia, acata-se (não unanimemente), na contemporaneidade, que a conduta meritória é composta de dois elementos, a saber: inteligência e esforço ou ainda talento e esforço133. Mesmo no século XIX a idéia de competitividade não era tão arraigada quanto nos dias atuais. Porém, foi principalmente a partir da virada do século XIX que a ênfase na competição se fez sentir mais aguçadamente, na medida em que constituía o caminho para a acumulação de bens. E obviamente, maiores chances de vencer teriam os que demonstrassem suas aptidões para tanto. A essa altura, fica evidente que, com a implementação do fordismo e do taylorismo, em que pese a existência de tarefas laborais mecânica, vários postos de trabalho deveriam ser preenchidos pelos mais competentes, a fim de que os processos racionais de produção pudessem ser levados a cabo de forma mais eficiente possível. Aos poucos foi sendo criada uma elite de trabalhadores voltados a atividades empresariais intelectuais, tendo em vista a melhor remuneração percebida. Todavia, quanto ao trabalho subordinado, os atributos das pessoas melhor 132 Por isso, tendo em vista a oscilação ainda reinante no meio acadêmico, definir mérito pode não ser uma escolha acertada; ou, contrariamente, sirva de supedâneo para que todas as discussões a respeito do tema sejam reunificadas sob a mesma bandeira, de modo que, ao se falar sobre mérito, não se esteja a confundirse com merecimento, ou com talento. Aliás, é notória a confusão no que tange à conceituação de mérito, muitas vezes tratado como se merecimento fosse. Como se não bastasse, as traduções para a língua portuguesa não fazem a menor distinção entre os vocábulos “mert” e “desert”, quando já deveriam fazê-lo, já que o significado daquele mais se assemelha aos conceitos que ora proponho neste trabalho e o deste último, a idéia de merecimento. Levando-se em conta, porém, os limites do presente trabalho são mais aconselháveis manter uma posição de cautela, de modo que mais acertada será a conceptualização do termo em apreço. (Idem, p. 70-71) 133 SILVA (2006) demonstra que existem outros conceitos de mérito “mas existem outros conceitos semelhantes possíveis. Um conceito alternativo viável seria acrescentar qualificativos a inteligência (elevada) e esforço (considerável) o que praticamente descartaria, por exemplo, toda conduta impulsionada por muito esforço, mas baixo Q.I., além do que praticamente inviabilizaria a gradação da conduta meritória. Diversamente, pode-se substituir o elemento talento por inteligência não importando se elevada ou não, até porque o esforço pode compensar um eventual quociente baixo e vice-versa. Nesse caso, o esforço, despido da idéia de intensificação de forças, poderia vir a desempenhar papel proeminente, o que traria maior aceitabilidade do mérito como critério de justiça distributiva, na medida em que se torna apto a valorizar a capacidade de realização do indivíduo pelo empenho empreendido, o que somente seria razoável, advirta-se, em sociedades que efetivamente proporcionassem igualdade eqüitativa de oportunidades. Desse modo, terse-ia, mais apropriadamente, que mérito é o atributo da conduta composta por inteligência e esforço, cuja relevância seja socialmente reconhecida”. (Idem, p. 72) 244 qualificadas e que efetivamente demonstrem sua capacidade empreendedora não são passaportes para os melhores empregos. Isto, porque o problema do desemprego estrutural aliado ao fenômeno do credencialismo tende a relegar o profissional altamente qualificado ao relento, na medida em que as conseqüências da flexibilização obsessiva e a aplicação das leis de mercado ao trabalho fazem com que mesmo os indivíduos cuja conduta se revista de alta inteligência e considerável esforço e que apresente resultados satisfatórios, padeçam da instabilidade do mercado, de modo que nem sempre ocupam e permanecem com relativa estabilidade em empregos de elevada remuneração o suficiente para firmarem seu status no ápice da estratificação social. Observe-se que a sociedade pós-industrial encerra uma dicotomia quase paradoxal: de um lado valoriza o trabalho intelectual por meio de remuneração mais elevada, de outro, repudia, ao remunerar mal, o trabalho que outrora seria acatado como intelectual, mas hodiernamente não o é, qual seja, aquele que utiliza alguns conhecimentos triviais (como de informática), por exemplo, que seriam considerados sofisticados nos anos vinte do século passado), mesmo em diversos ramos do conhecimento o que, de certo modo, indica uma polivalência por vezes semi-especializada, mas, como sabido, pouco susceptível de angariar remuneração mais equânime. Quanto aos profissionais liberais igualmente se impõem as regras de mercado, mas evidentemente os mesmos não se sujeitam, em princípio, aos novos padrões acatados entre as empresas privadas, é importante asseverar que, para o exercício das profissões liberais, no contexto das sociedades ideologicamente meritocráticas, não bastam os respectivos certificados. Várias delas exigem exames de proficiência de cuja aprovação depende o profissional para exercê-las regularmente. Assim na sociedade meritocrática processos como do vestibular acabam sendo valorizados sem questionamentos e aprofundam a defesa e manutenção do legalismo conservador. Para Silva (2006) é importante traduzir o limite do mérito como critério legalista da justiça distributiva, pois Diversas podem ser as abordagens acerca do mérito como critério de justiça distributiva. Quaisquer que sejam, todavia, se subsumem a duas grandes vertentes ideológicas que se entrechocam: de um lado, o neoliberalismo 245 apregoando mundo afora a idéia de Estado mínimo. Do outro lado, temos o liberalismo igualitário e o socialismo preocupado com a elevação das desigualdades sociais, da concentração de renda e com o avanço feroz do capitalismo financeiro denunciam que o crescimento do desemprego é reflexo de políticas empresariais descompromissadas com o aspecto social do trabalho e atrelada à reivindicação de aumento das margens de lucro, sem a preocupação da preservação do emprego, de modo que a subtração crescente das conquistas dos trabalhadores é um vilipêndio inescusável. (Idem, p. 156) Isto posto, torna-se possível constatar que a abordagem aqui definida pela defesa da igualdade legal, ou seja, aquela que defende a legalidade constitucional possui uma inegável relevância no debate sobre cotas raciais nas universidades públicas, gerando como afirmamos inicialmente eixos distintos (conservadores e progressistas) cuja semelhança revela-se acima de tudo pela centralidade jurídica presente na questão. No que concerne ao caso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) a presença da perspectiva legal se fez presente, de forma mais significativa, em três espaços: nos Conselhos da UERJ (CSEP e C.U.), na DIJUR (Diretoria Jurídica) e na Comissão de Vestibular da universidade. Sobretudo por ocasião do processo de implementação das cotas raciais, conforme veremos adiante. Ao analisarmos as atas do Conselho Universitário (C. U.) e Conselho Superior de Ensino e Pesquisa (CSEP) podemos perceber que no início da implementação das cotas buscar entedender as mesmas significava, acima de tudo, compreender o grau de subordinação a este processo instituído pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. A imposição só foi aceita por motivo de lei. Não foram poucas as falas dos conselheiros constatadas em atas ( ver: ANEXOS) que discorreram sob tal aspecto. Já na DIJUR (Diretoria Jurídica da UERJ) a abordagem central desta seção se fez presente nas respostas oficiais da instituição aos processos judiciais implantados contra o sistema de cotas pelos candidatos que se sentiram preteridos no processo seletivo. A complexidade desta questão na DIJUR foi constatada durante nossa investigação ao termos acesso a alguns processos desta natureza e seus respectivos encaminhamentos. Melhor dizendo, a dificuldade de se aferir numa única direção legal fez com que uma parte desses processos fosse contemplada com liminares e outros negados. Tendo a UERJ, frente a complexidade deste cenário, que recorrer a uma sustentação oficial que a desresponsabilizasse no campo legal e ingressasse esse debate no campo 246 financeiro, ou seja, foi o argumento da incapacidade financeira de incorporação de novos estudantes no processo de vestibular que acabou sendo a “saída” institucional frente a polêmica da legalidade (conforme defesa padrão feita nos processos judiciais)134. Na Comissão de Vestibular da UERJ a problemática da igualdade legal interferiu, sobretudo, na construção e reconstrução de caminhos capazes de abarcar a complexidade adquirida por este processo seletivo. Assim sendo, podemos dizer que dentro de um único vestibular existiam vários critérios de seleção que buscavam e buscam administrar a incorporação das cotas reduzindo os impactos mais polêmicos de tal processo. Ou seja, construindo da melhor maneira possível as bases da legalidade e visibilidade dos critérios do vestibular da UERJ. Para exemplificar a presença da abordagem em foco nos espaços supracitados selecionamos as seguintes citações retiradas das fontes documentais analisadas em nossa investigação. No dia 21 de março de 2003 em Ata da Primeira Seção Ordinária do Conselho Universitário, cuja pauta era “O sistema de cotas”, foi registrado que: O conselheiro Cláudio Barbosa da Costa em sua fala afirmou que A UERJ fizera o seu vestibular de acordo com a legislação e esse processo seletivo já tivera os resultados proclamados e, após a proclamação dos resultados surgiram contestações, tanto a partir de ações individuais de candidatos, que se sentiram prejudicados pela classificação, como também por uma representação do Deputado Flávio Bolsonaro que argüira a inconstitucionalidade das leis aprovadas. Informou que a representação com relação a reserva para estudantes da rede publica fora acatada por um desembargador, que concedera uma liminar suspendendo os efeitos da lei que reservava as vagas para estudantes das escolas públicas. Acrescentou que para outra representação, que questionava a constitucionalidade da cota para negros, a liminar não fora concedida, mostrando, cada vez mais, a complexidade da situação, inclusive do ponto de vista jurídico, portanto, constitucionalidade ou inconstitucionalidade não eram líquidas e certas como se divulgara, a medida que dois desembargadores diferentes reagiram de maneira diferenciada na questão da constitucionalidade das leis. Sobre a questão das liminares individuais a Universidade contestou os mandados de segurança com a argumentação formal que os editais foram públicos e não foram contestados preliminarmente.(COSTA, Cláudio Barbosa de. Ata da Reunião do Conselho Universitário da UERJ. Dia 21 mar. 2003. p. 6) Os membros do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa (CSEP) na sessão do dia 14 de março de 2003 debateram a questão da adoção pela UERJ do sistema de reservas de vagas nos cursos de graduação e, apresentaram as 134 Ver alguns destes exemplos nos anexos que constam desta tese. 247 seguintes considerações: A primeira consideração foi que o Vestibular UERJ 2003 foi realizado de acordo com o disposto na legislação sobre cotas e reservas de vagas, aprovada pela Assembléia Legislativa do Estado e sancionada pelo Poder Executivo. A segunda a respeito das críticas formadas ao conjunto das leis, o CESEPE sustenta, por unanimidade, que os termos dos editais do vestibular 2003, devem ser respeitados, tendo em vista terem sido essas as condições previamente estabelecidas para a sociedade e para todos os candidatos inscritos nos cursos em atendimento a legislação vigente. A terceira o CSEP entende que é relevante a discussão sobre a inclusão social de estudantes na universidade pública. Em vista disso aponta que o governo do Estado assuma a responsabilidade que lhe cabe e concretize seu compromisso com o Programa de Apoio ao Estudante, de modo que não se frustrem as enormes expectativas criadas junto aos jovens selecionados pelo Exame do Vestibular 2003, em atendimento ao disposto ao disposto na legislação em vigor. Em quarto, o Conselho afirmou que o vestibular 2003 obedecendo a legislação atual comprova ser de difícil operação trabalhar com duas leis superpostas. A quinta o CSEP entende que a autonomia da universidade é um requisito essencial para o correto desenvolvimento de todas as atividades acadêmicas, inclusive fixação do número de vagas e critérios dos processos seletivos. A mais ampla autonomia deve ser garantida para que a instituição determine os modos pelos quais os objetivos propostos pelos poderes de Estado sejam alcançados. A universidade deve dispor das condições para cumprir as funções que lhe são próprias: produção e difusão de conhecimento, formação de indivíduos críticos e solidários e contribuição para as questões de interesse da sociedade brasileira. (ATA SUPERIOR DO CONSELHO DE ENSINO E PESQUISA. 14/03/2003) Já na DIJUR o processo que mais chama a atenção foi o Mandado de Segurança n.º 2003/001/017213-5 da 3.ª Vara de Fazenda Pública da Capital, em que figuram como impetrante Mino Donato Oliva e como impetrado o Reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tal ação judicial foi impetrada pelos advogados Samir José Caetano Martins e Milena Donato Oliva, e obteve liminar em 17/03/2003 pelo juiz Renato Rocha Braga, sob a fundamentação que estavam presentes os requisitos para a concessão da liminar e que em razão da proximidade do início do período letivo a análise do mérito, a momento posterior, poderia ser mostrar completamente ineficaz. Também vale ressaltar, o mandado de segurança nº 2003/001024906-5 da 6.ª Vara de Fazenda Pública da Capital, em que figuram como partes Marat Espinelle Calado e Reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nesta ação a juíza Jacqueline Lima Montenegro indeferiu, em 08/07/2003, a liminar com a fundamentação de que não estariam presentes os requisitos legais do fumus boni júris e do periculum in mora. Em outro mandado de segurança n.º 2003/001027752, da 4.ª Vara de Fazenda Pública, a juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite, em 11/03/2003, indeferiu a liminar pelos motivos citados anteriormente e, além disso, afirmou que a candidata, mesmo que não houvesse o sistema do reserva de vagas não 248 obteria a colocação para ingresso no curso de medicina. Portanto, observa-se a grande batalha jurídica entre candidatos que foram preteridos no processo seletivo do vestibular (em função das cotas) em face da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Vale ressaltar, que a defesa padrão (em ANEXO) utilizada pela a UERJ para se preservar legalmente, centrou-se principalmente na questão orçamentária já que iriam ingressar na universidade alunos que precisariam de assistência material e a universidade não teria como suprir tal assistência. Com relação ao Departamento de Seleção Acadêmica (DESEA) da UERJ os quadros oficialmente divulgados em CD e documentos desta comissão tornam fácil a constatação das observações realizadas sobre a implementação correta das cotas. Tanto é que foi publicado relatório analítico dos resultados do vestibular/2003, no Caderno de Graduação da Sub-Reitoria de Graduação, volume 8. Nesta publicação são mostrados relatórios, tabelas, variáveis, perfil dos classificados e avaliação das diferenças candidatos cotistas e não-cotistas. Foram esses dados apresentados pelo DESEA que ajudaram a fundamentar a defesa das cotas contra os muitos processos da batalha jurídica contra as mesmas, neste período. 3.1.2 A Perspectiva da Igualdade Racial A pesquisa realizada em nossa tese constatou algo que não é grande novidade; a enorme produção sobre esta perspectiva. Este profícuo debate teórico em torno da questão da validade ou não da noção de raça enquanto fator predominante de discriminação no Brasil e como critério de acesso afirmativo para o ingresso nas universidades brasileiras, tem revelado que o mito da democracia racial atribuído a obra freyriana (conforme visto no cap.I) permanece vivo em nosso país. Aparentemente a maior fonte de discenso referente ao tema não seria a implementação das ações afirmativas enquanto política compensatória, mas o “próprio uso da categoria raça como critério classificatório 249 para efeito de eliminação de desigualdades atuais ou históricas experimentadas por algum segmento da população brasileira” (BERNARDINO; GALDINO, 2004, p.15). Enfatizamos, ainda, que dentre as três abordagens apresentadas, a racial é a que figura com maior freqüência na literatura sobre o tema cotas. Conforme os gráficos e tabelas presentes na introdução deste capítulo comprovam. É importante lembrar que a polêmica em torno do tema ultrapassou o campo da reflexão teórica para se tornar um verdadeiro ‘entrincheiramento’ de posições contra ou a favor dos projetos de lei de Cotas (PL 73/1999) e do Estatuto da Igualdade Racial (PL 3.198/2000), junto ao Estado brasileiro. Podemos citar como exemplo desta afirmação os manifestos contra e pró-cotas135 apresentados ao Congresso Nacional no ano de 2006. A carta aberta intitulada “Manifesto de Alerta: Todos têm direitos iguais na República Democrática”, assinado por 114 designados como intelectuais e artistas, dentre eles: Wanderley Guilherme dos Santos (cientista político), Renato Lessa (cientista político), Manolo Florentino (historiador), Ferreira Gullar (poeta), Caetano Veloso (compositor), Demétrio Magnoli (geógrafo), Ivone Maggie (Antropóloga) e Peter Fry (antropólogo), foi entregue em junho de 2006 no Congresso e pautava-se tanto na defesa do princípio da igualdade legal, discutida na seção anterior, quanto na crítica de que tais projetos de lei traziam o risco de implantar uma classificação racial dos brasileiros através do Estado, ou seja a nação brasileira passaria a definir “os direitos das pessoas com base na tonalidade da sua pele, pela ‘raça’ ”. Tais argumentos, ainda que admitam existência do racismo no Brasil, preocupam-se também com o seu acirramento, visto que, segundo tal perspectiva, estas políticas “não eliminam o racismo, e podem até mesmo produzir o efeito contrário, dando respaldo legal ao conceito de raça, e possibilitando o acirramento do conflito e da intolerância” (MANISFESTO DE ALERTA, 2006). A reação contra este manifesto foi praticamente imediata, em menos de uma semana foi realizado um manifesto pró-cotas com a assinatura de mais de 300 nomes, entre os chamados intelectuais e artistas favoráveis ao sistema, contando com assinaturas de Augusto Boal (cineasta), Fábio Konder Comparato (advogado), Emir Sader (sociólogo), Kabengele Munanga (antropólogo), Abdias 135 Os mesmos encontram-se em anexo. 250 do Nascimento (militante do movimento negro, ex-senador pelo PDT-RJ), Eduardo Viveiros de Castro (antropólogo), Francisco Carlos Teixeira da Silva (historiador), José Jorge de Carvalho (antropólogo) e Otávio Velho (antropólogo). Para este grupo a aprovação dos Projetos de Lei seria indispensável, a título de condenar mais “uma geração inteira de secundaristas negros a ficar fora das universidades, pois, segundo estudos do IPEA, serão necessários 30 anos para que a população negra alcance a escolaridade média dos brancos de hoje” (MANIFESTO PRÓ-COTAS, 2006). Entendemos que a raça neste texto encontra-se presente como principal argumento, sempre apresentada em termos estatísticos comparativos entre a situação de brancos e negros na sociedade brasileira. Na prática essa vertente entende que não haveria como discutir o racismo, sem a admitir a existência da “racialização” da sociedade. Tais manifestações políticas contra ou favoráveis às cotas, evidenciam os principais aspectos desse polêmico debate atual, principalmente no campo da antropologia, em que proliferam estudos sobre a noção de raça no meio acadêmico. Neste contexto, não podemos esquecer da centralidade da influência da Fundação Ford e da Fundação Rockfeller no incentivo ao debate das cotas raciais através do financiamento de estudos e publicações sobre o tema racismo e ações afirmativas136. É característica da produção, os autores que utilizam a raça numa dimensão que visa o resgate de uma pretensa dívida do Brasil com a população negra que ainda hoje sofre com o racismo e a discriminação, conforme já foi apresentado nas estatísticas dos capítulos anteriores desta tese. Sendo a mesma perspectiva, questionada por autores que acreditam que a instituição de cotas para negros, pardos e índios nas universidades públicas criaria um verdadeiro “racismo” às avessas. Este último grupo de autores nega a noção da diversidade 136 Sendo Bordieu e Wacquant (2002,pp.6-7) “é fundamental observarmos o papel motor que desempenham as grandes fundações americanas de filantropia e pesquisa na difusão da doxa racial norte-americana no seio do campo universitário brasileiro, tanto no plano das representações, quanto das práticas. Assim, a Fundação Rockefeller financia um programa sobre "Raça e Etnicidade" na Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) daUniversidade Candido Mendes, de maneira a favorecer o intercâmbio de pesquisadores e estudantes. Para a obtenção de seu patrocínio, a Fundação impõe como condição que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira americana”, o que levanta problemas espinhosos segundo os autores, “já que, como se viu, a dicotomia branco/negro é de aplicação, no mínimo, arriscada na sociedade brasileira” (idem). 251 de raças, afirmando que só existe uma única raça: “a raça humana”. Para efeito didático nesta tese, chamaremos respectivamente tais grupos de pró-cotas raciais e anti-cotas raciais, os primeiros almejam a igualdade racial e o segundo partem do pressuposto que não existe tal questão em termos de raça. Não é nosso intento, nesta seção, realizar juízo de valor no que tange a discussão sobre raça, mas apresentar os principais argumentos que utilizam a noção de raça para posicionarem-se contrários ou favoráveis às políticas de ação afirmativa, em especial sobre a política de cotas nas universidades. Procuraremos relacionar sucintamente alguns dos principais aspectos abordados nesta perspectiva, no sentido de apresentar como os autores analisam a complexa relação entre a questão da igualdade e a conseqüente identificação racial que supõem tais políticas. A perspectiva da igualdade racial é identificada pela defesa incondicional das cotas raciais e tem como principais signatários, os estudiosos Kabenguele Munanga, Antônio Sérgio Alfredo Guimarães e José Jorge de Carvalho, ainda que outros autores sejam citados em virtude do aspecto didático de sua argumentação. Em especial usaremos Sabrina Moehlecke cujo trabalho sintetizaria vários estudos relacionados a este grupo. Iniciamos esta revisão literária pró-cotas apresentando o trabalho de Brandão (2003, pp.19-22) que exemplifica a questão da classificação da raça, enquanto uma categoria teórica pertinente. Cabe ressaltar que tal afirmação é central para os argumentos pró-cotas raciais. O autor reconhece que existe uma gama de idéias que circulam no senso comum sobre a questão da raça, e que no Brasil o preconceito racial é vinculado diretamente às gradações de “cor” e não de “origem” como no caso dos Estados Unidos. Ainda assim, para Brandão (idem) as cinco categorias de autoclassificação de cor do IBGE137 servem como um indicador bastante confiável sobre as características raciais da sociedade brasileira. Seu estudo está em frontal oposição aos estudos antropológicos anti-cotas raciais, que enfatizam a possível tendência para uma multiplicidade de gradações de auto-classificações de cor dos brasileiros. Brandão recorre a argumentos de Munanga para afirmar que tais diferenciações vinculam-se muito mais a uma 137 São elas: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. 252 “fuga simbólica, produto da ‘ideologia da mestiçagem’ produzida no país ao longo do século XX do que há uma característica não racializada da sociedade brasileira” (MUNANGA, apud BRANDÃO, idem, p.20). Raça, para os adeptos desta perspectiva, seria designada não pela biologia, mas é engendrada no seio das relações sociais, conforme descreve os autores Santos e Lobato (2003), seria, então, entendida enquanto um fator sociológico estruturante capaz de engendrar desigualdades e discriminações que produziriam hierarquias e concentração de renda, segundo os referidos autores: A raça – não é biológica, aferida pela estrutura do DNA, mas a social, aquela que é definida nas relações sociais, que emerge do reconhecimento socialmente conferido aos indivíduos, a partir de aspectos de esteriótipos físicos, culturais, comportamentais, etc. – condiciona, no Brasil diferentes possibilidades e barreiras no acesso a riqueza social (SANTOS;LOBATO, 2003, p.8) Antônio Sérgio Guimarães (2002, p. 50) “entende que a raça, ainda que não exista biologicamente, tem uma presença nominal no mundo social”. Durante anos não fez parte de nossos discursos cotidianos, mas nem por isso as desigualdades entre grupos sociais diminuíram. Sustenta o uso público do termo “raça” como uma estratégia anti-racista. O autor concebe a raça não apenas como uma categoria política necessária para organizar a resistência da militância do movimento negro ao racismo no Brasil, mas enquanto “categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de “cor” enseja são efetivamente raciais e não apenas “de classe” (idem, p. 50). Portanto, os acadêmicos pró-cotas raciais, em geral concordam com os estudos de Guimarães, em que a raça, enquanto construção sociológica, é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. Trata-se, ao contrário, de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais (GUIMARÃES, 1999, p. 9). Dito isto, se a raça, de acordo com tal pensamento, é um fator estruturante social, então haveria em virtude dela uma “questão racial” na sociedade brasileira, fundamental para a compreensão da lógica de produção e reprodução da pobreza e exclusão social138. A “raça, portanto, se relacionaria diretamente com a 138 Nota-se que a utilização do termo exclusão social é recorrente em análises que seguem a mesma perspectiva teórica, ignorando as críticas as fragilidades do conceito. 253 distribuição diferencial dos indivíduos nas posições existentes na estrutura de classes” (BRANDÃO, 2003 in OLIVEIRA, 2003, p 27). Tais níveis de segregação raciais poderiam ser apreendidos não só nas variáveis socioeconômicas, como também nas estruturas simbólicas da sociedade, na medida em que criam o estereótipo do local “adequado” ao negro (HASENBALG, 1991, Apud OLIVEIRA idem). Guimarães (1997, p. 169) procura explicar a permanente associação entre raça, cor e posição social139. Para tanto, desenvolve a idéia do Brasil como uma “sociedade de status”: [...] sociedade onde os grupos sociais, inclusive as classes sociais, desenvolveram “direitos” a certos privilégios em relação ao Estado e aos outros grupos sociais. Tais privilégios de posição são resguardados, no plano das relações entre sujeitos, por distâncias e etiquetas, que têm na aparência e na cor, [...] suas principais referências e marcos no espaço social. (GUIMARÃES, 1997, p. 169). A situação do negro na sociedade brasileira, já há muito havia sido debatida por Fernandes (1978), que apresentou a discriminação racial enquanto um componente histórico que garantiu a manutenção da ordem social pósabolição, relegando ao negro um papel subalternizado na estrutura social da sociedade. Moehlecke (2002, p. 764) destaca que Florestan foi o pioneiro nesse rompimento com o paradigma culturalista representado principalmente pela obra de Gilberto Freyre, Dos anos de 1950, os estudos desenvolvidos por Florestan Fernandes romperam com o paradigma culturalista anterior e inauguraram uma nova interpretação das relações raciais brasileiras, com um enfoque mais estrutural-funcionalista. Em A integração do negro na sociedade de classes (1978 [1965]), Fernandes ressalta o racismo e as desigualdades raciais existentes no país e questiona nossa suposta democracia racial, redefinida como um mito, uma falsa realidade que, paradoxalmente, contribui para inviabilizar sua própria efetivação. Observa que, apesar do fim do sistema escravista, a ordem social permaneceu intacta, estabelecendo-se “uma espécie de composição entre o passado e o presente, entre a sociedade de castas e a sociedade de classes [...]. O antigo regime persistiria na mentalidade, no comportamento, na organização das relações sociais e nas desigualdades entre brancos e negros. No entanto, imaginava que, com a intensificação da industrialização e das mudanças estruturais na sociedade brasileira, as injustiças raciais históricas seriam superadas. (Idem, p. 764) Tendo como base o pensamento de Roberto da Matta (1993), Guimarães irá afirmar que as peculiaridades de nosso racismo se relacionam à estrutura 139 Ainda que considere a questão da renda como um dos fatores que entrelaça em suas pesquisas, sua utilização é para entender o que chama de sociedade de status e não uma sociedade de classes. Sendo que o negro estaria entre os mais baixos patamares de status social, em decorrência do racismo, e não da questão social. 254 profundamente hierarquizada da sociedade brasileira, onde cada um tem um lugar definido: Aqui, o senhor não se sente ameaçado ou culpado por estar submetendo um outro homem ao trabalho escravo, mas, muito pelo contrário, ele vê o negro como seu complemento natural, como um outro que se dedica ao trabalho duro, mas complementar às suas próprias atividades que são as do espírito. Assim a lógica do sistema de relações sociais no Brasil é a de que pode haver intimidade entre senhores e escravos, superiores e inferiores, porque o mundo está realmente hierarquizado, tal e qual o céu da Igreja Católica. (DA MATTA, 1993, p. 75). Moehlecke (2004, p. 767) sobre o tema afirma que nesse “sistema, no qual ninguém é igual nem entre si nem perante a lei e as hierarquias são rígidas, não houve a necessidade de segregar o negro”. Nossa suposta democracia racial e a idéia de relações raciais harmônicas só foram possíveis em razão da ausência de valores e relações sociais efetivamente igualitárias no país. Desse modo, o uso do termo “raça” e a explicitação das distinções raciais vigentes, como fazem as políticas de ação afirmativa seriam maneiras de desmascarar o racismo, como também de questionar a ausência de igualdade e a naturalização das hierarquias sociais brasileiras. O trabalho de Habermas (1998) é muito utilizado para tal perspectiva enquanto base teórica de sustentação, motivo pelo qual faremos uma incursão em seu trabalho. Para este autor (1998, p. 285), existiria certa “resistência do modernismo político que acostumou a tratar igualmente seres e grupos diferentes ou desiguais, em vez de tratá-los especificamente como diferentes desiguais”. Visto desse ângulo, não se poderia tratar igualmente, falando em termos de políticas públicas, os negros pobres e os brancos pobres, quando uns são duplamente discriminados e outros discriminados apenas uma vez. Munanga (2001), um dos autores mais reconhecido deste campo, rebate e refuta algumas críticas contra as cotas para negros no Brasil. Logo, achamos importante transcrever a citação deste autor, pois reforça a noção de como o sistema de reserva de vagas nas universidades públicas é tratado por autores e pela mídia tendo como base apenas aspectos do senso comum, mas que também se encontram perpassando a fala de especialistas. Para Munanga três questões são importantes de se abordar nesta direção, na primeira contra-argumentação ele destaca que: 1.Dizem que é impossível implementar cotas para negros no Brasil, porque é 255 difícil definir quem é negro no País por causa da mestiçagem, tendo como conseqüência a possibilidade da fraude por parte dos alunos brancos que, alegando sua afrodescendência pelo processo de mestiçagem, ocupariam o espaço destinado às verdadeiras vítimas do racismo. Em primeiro lugar, não acredito que todos os alunos brancos pobres possam cometer este tipo de fraude para ingressar na universidade pública, por causa da força do ideal de branqueamento ainda atuando no imaginário coletivo do brasileiro. Um racista essencialista, psicologicamente convencido da superioridade de sua “raça”, não troca de campo com tanta facilidade. Muitos não aceitarão a troca, em nome do chamado orgulho da raça. Conscientes desta dificuldade, alguns recorrem aos falsos princípios da democracia advogando a introdução de uma flagrante injustiça contra brancos pobres, se o Brasil adotar cotas em favor da maioria de negros pobres. Se for fácil identificar os alunos brancos pobres, por que o seria tão difícil para os alunos negros pobres? Em segundo lugar, a identificação é uma simples questão de auto-definição, combinando os critérios de ascendência politicamente assumida com os critérios de classe social. Isto tem sido o critério ultimamente utilizado até pelos pesquisadores e técnicos no último recenseamento do IBGE. Ele vale tanto para os brancos quanto para os negros e para os chamados amarelos. Não vejo necessidade de recorrer, seja ao exame da árvore genealógica dos auto-declarados negros, seja ao exime científico por meio do teste de DNA. Se constar, depois de algum tempo de experiência, que a maioria dos alunos pobres beneficiados pela política de cotas é composta de alunos brancos pobres falsificados em negros, será então necessário reavaliar os critérios até então adotados. De qualquer modo, os recursos investidos não seriam perdidos, pois teriam sido aproveitados por um segmento da população que também necessita de políticas públicas diferenciadas. Uma definição pelos critérios científicos dificultaria qualquer proposta de ação afirmativa em benéfico de qualquer segmento, pois muitos que se dizem negros podem ser portadores dos marcadores genéticos europeus. Também muitos dos que se dizem brancos podem ser portadores dos marcadores genéticos africanos. O que conta no nosso cotidiano ou que faz parte de nossas representações coletivas do negro, do branco, do índio, do amarelo e do mestiço não se coloca no plano do genótipo, mas sim, do fenótipo, num país onde, segundo Oracy Nogueira, o preconceito é de marca e não de origem. No segundo argumento ele lembra : 2.Outros argumentos contra a política de cotas recorrem ao fato do abandono dessa política nos Estados Unidos, por não ter ajudado no recuo da discriminação racial entre brancos e negros daquele país e por ter sido aproveitado apenas aos membros da classe média afro-americana, deixando intocada a pobreza dos guetos. Ponto de vista rejeitado pelos defensores de cotas nos Estados Unidos, baseando-se na mobilidade social realizada pelos afro-americanos, nos últimos quarenta anos, mobilidade que não teria sido possível se não fosse implantada a política de cotas. Os próprios americanos observam que, no Estado da Califórnia, o primeiro a incrementar cotas e também abandoná-las, recuou no ingresso de alunos afro-americanos nas universidades públicas, daquele Estado. Mas devemos dizer que os afro-americanos têm outras alternativas para ingressar e permanecer nas universidades que aqui não temos por causa das peculiaridades do “nosso” racismo. Eles têm universidades federais de peso criadas para eles, Universidade de Howard, por exemplo, e universidades criadas pelas igrejas independentes negras para as comunidades afro-americanas, principalmente nos Estados do Sul, considerados como os mais racistas (é o caso da Universidade de Atlanta, que foi fundada pelos negros e para os negros). Além disso, a maioria das universidades públicas americanas até as mais conceituadas como Princeton, Harvard e Stanford continuam a cultivar as ações afirmativas em termos de metas, sem recorrer necessariamente às cotas ou estatísticas definidas. Deixar de discutir cotas em nossas universidades por que não deram certo nos Estados Unidos, como dizem os argumentos contra, é uma estratégia fácil para manter o status quo. As cotas, se forem aprovadas por alguns Estados como já está sendo no Rio de Janeiro e na Bahia, deveriam, antes de serem aplicadas, passar por uma nova discussão dentro das peculiaridades do racismo à brasileira, cruzando os critérios de “raça” e de “classe” e respeitando a realidade demográfica de cada Estado da União. 256 Um censo étnico da população escolarizada de cada Estado é indispensável para incrementar as políticas públicas no que diz respeito à educação dos brasileiros, a curto, médio e longo prazos. Já no terceiro ele observa: 3.Por que a cota misteriosamente não é também destinada aos índios e à sua descendência cujos direitos foram igualmente violados durante séculos, além de serem despojados de seu imenso território, indagam outros argumentos contra a política de cotas. Os movimentos negros que reivindicam as cotas nunca foram contra as propostas que beneficiariam as populações indígenas, as mulheres, os homossexuais, os portadores de necessidades especiais, até as classes sociais pobres independentemente da pigmentação da pele. Apenas reivindicam um tratamento diferenciado, tendo em vista que foram e constituem ainda a grande vítima de uma discriminação específica, racial. Eles têm uma clara consciência de que poderão um dia gozar de sua plena cidadania quando deixarão de ser diluídos no social geral e abstrato, como propõe o pensamento da esquerda que até hoje continua a bater nas teclas de uma questão que, segundo eles, é simplesmente social, fechando os olhos a uma cultura racista que abarca indistintamente pobres, médios e ricos em todas as sociedades racistas. (MUNANGA, 2001, p. 36-42) Em sentido contrário ao pensamento de Florestan Fernandes, que enfatiza o viés histórico e social da discriminação do negro, relacionando-a ao sistema escravagista, os autores deste viés admitem a existência da racialidade na sociedade brasileira ligada a existência de novos mecanismos contemporâneos de discriminação. Estes costumam pautar suas afirmações no trabalho de Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle e Silva, que nos anos de 1980 enfatizaram a relevância da discriminação propriamente racial, como um traço contemporâneo da sociedade brasileira. Mais que uma herança da escravidão, tais autores observam que as desigualdades socioeconômicas entre brancos e negros — ou não-brancos, como preferem — decorrem da discriminação racial, e não só social, que se perpetua nas sociedades capitalistas. Compreendem o racismo como uma ideologia e um conjunto de práticas que re-elaboram as “sobrevivências” do antigo regime e as transformam dentro da nova estrutura social (HASENBALG, 1979, p. 76). A raça/cor é vista como um “esquema classificatório e um princípio de seleção racial que está na base da persistência e reprodução de desigualdades sociais e econômicas entre brasileiros brancos e não-brancos” (HASENBALG; SILVA, 1992, p. 11). Utilizando-se principalmente por desse referencial institutos oficiais teórico, de e de pesquisas dados e produzidos estatística sobre desigualdades raciais e as conseqüentes distinções estabelecidas entre discriminação racial e socioeconômica, o movimento negro passou a denunciar a 257 chamada democracia racial e a mestiçagem brasileira como um etnocídio, na medida em que negavam ao negro uma existência própria. Acreditam que realçar as diferenças raciais rompe com a lógica do racismo brasileiro e propiciaria ao negro um espaço positivo e valorizado na sociedade brasileira que antes lhe foi vedado e invisibilizado. A afirmação de uma identidade negra, afro-descendente ou afro-brasileira, distinta da idéia do mestiço, caracterizou o anti-racismo diferencialista do movimento negro desde então (D’ADESKY, 1996). Sobre o tema Moehlecke (2004) analisa os discursos e produções teóricas anti-cotas raciais que entende o mito da democracia racial como um ponto de partida positivo para construção da identidade brasileira, segundo a autora, a classificação bipolar defendida pelo movimento negro e a identificação racial exigida pelas políticas de ação afirmativa atentam, segundo alguns pesquisadores (Maggie & Gonçalves, 1995; Maggie, 1996, Fry, 1996), contra a tradição brasileira e seu modo de pensar as relações raciais, baseadas num nãoracismo universalista, fundado em valores modernos de respeito ao indivíduo que buscam integrar os diversos grupos étnicos e raciais. Numa posição inversa à assumida pelo movimento negro, ressaltam que nossa sociedade seria fundada por mitos raciais que evitaram realçar as diferenças entre os grupos e afirmam que tal postura encontraria pouca receptividade entre a população, além de abrir espaço para animosidades raciais então desconhecidas. Sem negar a existência de discriminação e desigualdades raciais no país, defendem que tomemos o mito da democracia racial como um ideal, como um conjunto de valores a orientar um projeto de não-racismo universalista propriamente brasileiro. (Idem, p. 765) Para os defensores das cotas raciais, ainda que restringindo o debate, a política de ação afirmativa configura-se, portanto, como uma possibilidade de garantir acesso a espaços pouco freqüentados pela população negra, tais como: universidades e cargos de maior monta na administração pública ou gerência privada. É importante reafirmar que este debate é recente, visto que para tais autores não seria possível imaginar as propostas de ação afirmativa num país onde há pouco tempo se negava os indícios de preconceitos étnicos e de discriminação racial. Em dezenas de anos, os movimentos sociais negros lutaram duramente para arrancar, da voz oficial brasileira, a confissão de que esta sociedade é também racista140. Embora, aparentemente, o racismo esteja ainda muito vivo na cultura e no tecido social brasileiro, a voz oficial reagiu há pouco tempo aos clamores dos movimentos negros, como bem ilustrado pelo texto do Relatório do 140 A maioria dos intelectuais desta perspectiva aceitam a existência do racismo no Brasil, Ali Kamel (2007), seguindo na contra corrente dessa afirmativa edita um livro intitulado “Não somos racistas”. 258 Comitê Nacional para a Reparação da Participação Brasileira na III Conferência Mundial das Nações Unidas contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, África do Sul, no período de 31 de agosto a 7 de setembro de 2001. Nesse relatório, no que tange às propostas em benefício da “comunidade negra” houve: [...] a adoção de medidas reparatórias às vítimas do racismo, da discriminação e de formas conexas de intolerância, por meio de políticas públicas específicas para a superação da desigualdade. Tais medidas reparatórias, fundamentadas nas regras de discriminação positiva, prescritas na Constituição de 1988, deverão contemplar medidas legislativas e administrativas destinadas a garantir a regulamentação dos direitos de igualdade racial previstos na Constituição de 1988, com especial ênfase nas áreas de educação, trabalho, titulação de terras e estabelecimentos de uma política agrícola e de desenvolvimento das comunidades remanescentes dos quilombos, — adoção de cotas ou outras medidas afirmativas que promovam o acesso de negros às universidades públicas (BRASIL, 2001, p. 28-30). Cabe registrar que as cotas raciais no ensino superior são apenas uma das possibilidades de ações afirmativas. Entretanto, historicamente, podemos dizer que após o aumento desse tipo de ação afirmativa baseada na raça em diversas instituições brasileiras, houve a uma ampliação da defesa da racialidade como critério de maior eficácia para o acesso das ditas minorias, principalmente para promover seu acesso ao ensino superior. De acordo com Sabrina Moehlecke (2004) O ensino superior brasileiro, nos debates atuais sobre sua reforma e expansão, tem diante de si o desfio de encontrar soluções que correspondam à questão das desigualdades raciais no acesso às suas instituições e na permanência nelas. Algumas universidades públicas já adotaram ações nessa direção, ao estabelecerem cotas raciais ou sociais em seus processos seletivos. Contudo, essas experiências têm gerado significativas controvérsias.[..] o que motiva algumas de suas disputas, sendo dois pontos mais polêmicos, a complexa relação de igualdade e a identificação racial que supõem [..]. (MOEHLECKE, 2004, p. 757) O debate sobre políticas para a igualdade racial, contudo, não é recente. Um primeiro registro do que hoje chamamos de ação afirmativa data de 1968, quando o Ministério do Trabalho “manifestou-se em favor da criação de uma lei que obrigasse empresas privadas a contratar uma porcentagem de empregados negros. Mas tal lei não chegou a ser elaborada” (SANTOS, 1999, p. 22). Foi somente nos anos de 1980, com a redemocratização do país, que o então deputado federal Abdias Nascimento formulou o primeiro projeto de lei propondo uma “ação compensatória” ao afro-brasileiro em diversas áreas da vida social como 259 reparação pelos séculos de discriminação sofrida. O debate, restrito até então ao movimento negro e a alguns intelectuais, amplia-se a partir de meados dos anos de 1990. Em 1995, pela primeira vez, o presidente da República reconhece que o Brasil é sim um país racista e organiza um encontro, no ano seguinte, com o objetivo de pensar ações que modifiquem essa situação. “O momento simboliza uma mudança na maneira como o poder público vinha tratando a questão das relações raciais” (MOEHLECKE, 2000, p. 758) No entanto, seria preciso esperar mais oito anos para que o assunto entrasse na agenda política nacional, como ocorreu por meio do programa de combate ao racismo apresentado pelo governo federal na Conferência Internacional contra o Racismo, Xenofobia e Intolerância, realizada em Durban, na África do Sul, em 2001. Desde então, políticas de ação afirmativa direcionadas à população negra espalharam-se pelo país. Retomando a questão da igualdade, para posteriormente associá-la a questão racial, lembramos que o trabalho de Moehlecke (2004) associa o surgimento das ações afirmativas com diversos movimentos sociais que exigiam igual tratamento entre pessoas de diversas classes sociais, como veremos a seguir: Os programas de ação afirmativa que começaram a vigorar em algumas universidades brasileiras surgiram articulados com movimentos sociais que exigiam maior igualdade e mecanismos mais eqüitativos no acesso a bens e serviços. Ligadas a sociedades democráticas pautadas no mérito individual e na igualdade de oportunidades como seus principais valores, essas ações propõem uma desigualdade de tratamento como forma de restituir uma igualdade que foi rompida ou que nunca existiu. Além do Brasil, já foram experimentadas em países como a Índia, após a independência, os Estados Unidos, no processo de extinção de leis segregacionistas, em países europeus, com relação aos imigrantes de ex-colônias e à população feminina. (Idem, p. 759) Para fundamentar a defesa da igualdade racial Moehlecke (2002) ressalta que a igualdade constitui-se em um dos valores fundamentais em que se inspiraram filosofias e ideologias. Designada positivamente como algo que se deseja, não possui, entretanto, um valor intrínseco. Consiste, antes, numa relação que se estabelece, por isso cita Bobbio (1997) lembrando que: O que dá a essa relação um valor, o que faz dela uma meta humanamente desejável, é o fato de ser junta [...] uma relação de igualdade é uma meta desejável na medida em que é considerada justa, onde por justa se entende que tal relação tem a ver, de algum modo, com uma ordem a instituir ou a restituir. (BOBBIO, 1997, p. 15. Apud MOEHLECK, p. 759-760) 260 Ainda segundo a mesma autora, duas pessoas podem discutir e nunca chegar a um consenso sobre o que entendem por racismo ou discriminação racial e se os reprovam ou não, mas podem concordar sobre a existência ou não de uma relação específica de igualdade entre grupos raciais distintos. Para Moehlecke uma das máximas muito proclamadas no pensamento político ocidental é a de que “todos os homens são ou nascem iguais”, mas o que atribui uma conotação positiva a esta enunciação não é a igualdade, “mas a extensão da igualdade a todos” (BOBBIO, 1997, p. 23). Neste sentido Dizer que todos entres são iguais sem nenhuma outra determinação nada significa na linguagem política; é preciso que se especifique com que entes estamos tratando e com relação a que são iguais, ou seja, é preciso responder a duas perguntas: a) igualdade entre quem; e b) igualdade em que? (MOEHLECKE, 2004, p. 11-12). Opondo-se aos mecanismos vigentes para a promoção e distribuição de status social, nos quais predominam as distinções hereditárias e a divisão da sociedade por estamentos, as declarações de direito do mundo moderno igualaram os homens em seu momento de nascimento e estabeleceram o mérito e o esforço de cada um como medida para a repartição de bens, recursos e mobilidade social. Tal é o caráter universalista da concepção de igualdade civil, central ao pensamento iluminista: “O pressuposto ético da representação dos indivíduos considerados singularmente e não por grupos de interesse é o reconhecimento da igualdade natural dos homens. Cada homem conta por si mesmo e não como membro deste ou daquele grupo particular” (idem, p. 117). Ainda voltando a questão da discriminação baseada na raça, segundo Moehlecke (2004, p. 761) “das Luzes e da modernidade foram excluídos os índios, os escravos e os povos colonizados, que não compartilhavam da natureza humana dos chamados homens”, ou seja, ficou configurada uma exclusão cujo principal critério diferencial seria o pertencimento racial. Além destes, também as mulheres, supostamente incapazes, assim como as crianças, foram consideradas inaptas de fazer uso da razão nos assuntos públicos. Declarações de direito eram proclamadas ao mesmo tempo em que franceses e norte-americanos escravizavam grande parte da população negra mundial. A abolição da escravidão ocorreu nos Estados Unidos apenas em 1863 e a França manteve suas colônias até 1962. 261 Para esta mesma autora, Na segunda metade do século XX, a população negra liderou nos Estados Unidos o Movimento dos Direitos Civis, exigindo o fim do sistema de segregação legal vigente no país e a inclusão efetiva dos ex-escravos na sociedade norteamericana. Novas políticas de igualdade, como a ação afirmativa fora experimentadas como forma de garantir direitos a grupos historicamente excluídos de sua cidadania plena. Denunciaram que a igualdade abstrata não significou, necessariamente, a garantia de relações justas. (Idem, p. 761) Seguindo tal pensamento, conclui-se que a igualdade de oportunidades liberal traz como ideário diminuir a influência de circunstâncias sociais e de dotes naturais sobre a riqueza distribuída. No entanto, tem sido insuficiente para evitar que condições adscritas, como a raça e o sexo, sirvam como critério de hierarquização social e de uma distribuição desigual de bens e serviços. Os teóricos da vertente pró-cotas raciais também recorrem à filosofia como justificativa. John Rawls (2002), filósofo político e autor do clássico Uma teoria da justiça seria um dos principais embasamentos filosóficos desta linha. Esse autor afirma que no contexto das tensões sociais decorrentes dos movimentos iniciados nos Estados Unidos, na década de 1960, tanto a liberdade civil das declarações modernas, com suas desigualdades sociais, quanto à igualdade de oportunidades, com as desigualdades naturais, são igualmente arbitrárias do ponto de vista moral. Propõe, então, uma política da diferença e a utilização da identificação racial como nova medida de igualdade. De acordo com Rawls, [...] ninguém merece a maior capacidade natural que tem, nem um ponto de partida mais favorável na sociedade. Mas, é claro, isso não é motivo para ignorar essas distinções, muito menos para eliminá-las. E vez disso, a estrutura básica [da sociedade] pode ser ordenada de modo que as contingências trabalhem para o bem dos menos favorecidos. Assim somos leva dos ao princípio da diferença se desejamos montar o sistema social de modo que ninguém ganhe ou perca devido ao seu lugar arbitrário na distribuição de dotes naturais ou à sua posição inicial na sociedade sem dar ou receber benefícios compensatórios em troca. (RAWLS, 2002, p. 108). Para o autor, a distribuição natural de talentos ou a posição social que cada indivíduo ocupa não são justas nem injustas — o que as tornas justas ou não são as maneiras pelas quais as instituições as utilizam. Entendendo a questão da igualdade liberal como injusta, Rawls propõe o que define como igualdade democrática, obtida por meio da combinação do princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença (idem, ibid., p. 79). Nascer com alguma deficiência física ou mental, por exemplo, não é uma questão de escolha individual; talentos naturais e circunstâncias sociais são ambos resultantes da sorte, o que está além da decisão de cada um. 262 Segundo os autores Carvalho e Segato (2002, p.10) já existem uma gama de estudos suficientes, dentre os quais os autores citam Carlos Hasenbalg e Antônio Sérgio Alfredo Guimarães e Kabengele Munanga, que cobririam diversos aspectos que comprovariam que a raça incide de modo estrutural na qualidade de vida de população negras, na educação, no emprego, na moradia, na saúde física e mental, na auto-estima e na perspectiva de futuro - confirmam um quadro dramático de discriminação racial no Brasil, o qual se estende também às instituições educativas, públicas e privadas, em todos os graus. No mercado de trabalho, além de uma inserção sempre inferiorizada, há discriminação no salário pago a negros e negras, bloqueios e dificuldades no seu ritmo de promoção funcional quando comparado com o dos colegas brancos em idêntica condição. Agregue-se a isso as barreiras de acesso aos empregos mais qualificados, o que faz com que os negros estejam praticamente ausentes, apesar de representarem 45% da população nacional, de todas as posições de prestígio, como no corpo diplomático, nos altos postos militares, na magistratura, no legislativo, nos escalões superiores do Executivo e do serviço público em geral, nas universidades, nos postos de visibilidade na mídia e no nível executivo da empresa privada. (CARVALHO; SEGATO, 2002, p.10) Em especial, em nossa tese, nos ateremos à discussão da abordagem racial que trate especificamente sobre a questão da política de cotas nas universidades. Percebemos então que esta perspectiva pró-cotas se caracteriza muitas vezes por uma fala utilitarista/pragmática141 voltada principalmente para a necessidade, considerada urgente, de se elaborar políticas que aumentem o número de jovens negros nas universidades públicas brasileiras. Sobre o tema, Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2003, p. 203) utiliza cinco pontos para demonstrar a pequena presença de negros nas universidades públicas. O autor inicia seus estudos enfatizando que o número de negros nas universidades públicas é muito pequeno; em seguida analisa também as causas dessa presença insuficiente; em terceiro, destaca alguns tipos de política que podem reverter esse quadro; em quarto, aponta alguns aspectos éticos envolvidos nessas políticas e, finalmente, discute a exeqüibilidade destas medidas. Conforme aponta Guimarães (2003, p. 203) “a questão do acesso da população negra as universidades está relacionado com a carência de estatísticas universitárias que demonstravam a falta de identidade racial dos seus alunos”. Vale ressaltar que até o ano 2000 não havia iniciativa por parte da universidade pública brasileira de realizar o registro com base na cor. Assim sendo, somente com iniciativas de instituições de ensino superior tais como: Universidade Federal 141 Voltaremos ao tema ao debatermos a questão do pós-modernismo nas ciências sociais, na sessão sobre a abordagem crítica. 263 da Bahia, que foram produzidas estatísticas no tocante a identidade de cor no formulário da inscrição do vestibular. Assim se pode ter a noção exata do número pequeno de negros, pardos e indígenas em relação aos brancos nos bancos escolares das universidades públicas, principalmente nos cursos considerados “nobres”. Guimarães (2003) critica a ausência de dados sobre a população denominada “negra ou parda” em relação ao acesso ao ensino superior. Utilizaremos dados de uma amostragem do ano de 2000 para exemplificar tal afirmação. Seus estudos procuram entrecruzar os dados raciais e sociais para subsidiar suas análises. Segundo o mesmo autor os estudos mais precisos são feitos normalmente de 10 em 10 anos, portanto as próximas tabelas que vamos mostrar se referem ao Censo/IBGE/2000 Os dados disponíveis mostram que a população de jovens que se definem como “pardos” e “pretos” nas universidades brasileiras, principalmente naquelas que são publicas e gratuitas, está muito abaixo da proporção desses grupos de cor na população. Vejamos alguns dados. Na USP, em 2001, havia 8,3% de negros (dentre eles 7% de “pardos” e 1,3% de “pretos”) para uma população de 20,9% de pardos e 4,4% de “pretos” no Estado de São Paulo. Lembre-se de que a USP é a única universidade pública na cidade de São Paulo, excetuando a Paulista de Medicina. (GUIMARÃES In: SILVA; SILVERIO (Orgs). 2003, p.204) A tabela a seguir mostra que a mesma desigualdade de acesso é registrada em outras universidades públicas do país: UFRJ, UFPR, UFBA, UFMA, UnB, portanto, esta não seria uma característica isolada, mas um quadro do ensino superior brasileiro em várias regiões: Tabela 1. Distribuição dos estudantes segundo a cor UFRJ, UFPR, UFMA, UnB e UFBA UFRJ UFPR Branca 76,8 86,5 Parda 17,1 7,7 Preta 3,2 0,9 Amarela 1,6 4,1 Indígena 1,3 0,8 Total 100,0 100,0 % pop. negra (preta + parda) do 44,3% 23% Estado UFMA UFBA UnB 47,0 50,8 63,7 32,4 34,6 29,8 10,4 8,0 2,5 5,9 3,0 2,9 4,3 3,6 1,1 100,0 100,0 100,0 78,7% 79,1% 52,4% Fonte: Pesquisa direta. Programa A cor da Bahia/UFBA, I Censo Étnico-Racial da USP e IBGE-Tabulações avançadas Censo de 2000 Ainda segundo Guimarães (2003, p. 204) a análise dos dados da FUVEST sobre os resultados do vestibular 2000 nos permite verificar alguns dos fatores que explicam a pequena absorção de “negros” nas universidades brasileiras. Em 264 primeiro lugar, como era de se esperar, nota-se uma grande seletividade segundo as classes socioeconômicas das famílias dos candidatos. A tabela a seguir mostra, no entanto, que a classe socioeconômica interfere no desempenho dos membros de todos os grupos de cor: quanto maior a classe socioeconômica do candidato, melhor o seu desempenho, maiores as chances de acesso. A influência da classe também se manifesta através de três outras variáveis disponíveis. Primeiro, a possibilidade de dedicação exclusiva aos estudos: aqueles que não precisam trabalhar têm um desempenho melhor no vestibular: segundo, e relacionado a esse, o turno em que cursou o ensino médio; aqueles que estudaram no período diurno têm mais sucesso; terceiro, a natureza do estabelecimento de educação básica (ensino fundamental e médio) em que se estudou: aqueles que cursaram escolas públicas estaduais e municipais têm menos possibilidade de sucesso (GUIMARÃES, et. al. 2002). Tabela 2: Taxa de sucesso (relação aprovados/candidatos) no vestibular 2000 por cor do candidato, segundo o nível socioeconômico. Classe/cor Branca Preta Parda Amarela A 8,1% 5,6% 8,5% 13,1% B 7,4% 4,9% 6,4% 10,9% C 5,5% 3,0% 3,9% 8,5% D-E 4,2% 3,7% 2,2% 7,2% Fonte dos dados brutos: FUVEST (GUIMARÃES, et. al. 2001). Indígena 7,6% 5,6% 6,1% 2,0% Total 8,5% 7,6% 5,5% 3,9% Evidentemente, esses dados apontam para problemas estruturais da sociedade, que precisam ser enfrentados, entre os quais se destacam a pobreza dos negros e a baixa qualidade da escola pública. Segundo Guimarães (2003) No entanto, os dados apontam também para dois outros fatores: primeiro, o candidato negro (“pardo” ou “preto”) quando comparado ao candidato que se identifica como amarelo demonstra que lhe falta apoio familiar e comunitário. Assim, o maior sucesso dos amarelos, também uma minoria de cor, se explica, em parte, no caso da USP, pelo maior número de vezes que eles tentam o vestibular, pelo maior tempo de preparação, medido por anos de cursinho, e pelo fato de se inscreverem em maior número como “treineiros”. Ao contrário, são os negros os que estão em pior situação nesses três indicadores. Uma conclusão preliminar que se impõe, portanto, é a de que, além de problemas de ordem socioeconômica, os negros enfrentam também problemas relacionados com preparação insuficiente e pouca persistência ou motivação. Problemas desse tipo acompanham todas as minorias que vivenciaram posição social subalterna por um longo período de tempo, seja porque os laços comunitários são ainda fracos, seja porque o grupo não desenvolveu uma estratégia eficiente de reversão de sua posição de subordinação. (GUIMARÃES, et. al., 2003. p. 205) Considerado um dos principais antropólogos desta perspectiva Kabengele 265 Munanga (2003) afirma que as chamadas políticas de ação afirmativa são muito recentes na história da ideologia anti-racista, Nos países onde já foram implantadas (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Índia, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia e Malásia, entre outros), elas visam oferecer aos grupos discriminados e excluídos um tratamento diferenciado para compensar as desvantagens devidas à sua situação de vítimas do racismo e de outras formas de discriminação. Daí as terminologias de equal opportunity policies, ação afirmativa, ação positiva, discriminação positiva ou políticas compensatórias. (MUNANGA, 2003 in: SILVA; SILVÉRIO (Orgs.), 2003. p. 117) Ainda na década passada, por ocasião dos trezentos anos da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995, o Núcleo da Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP), iniciou a discussão sobre a implementação de cotas naquela instituição. Na ocasião Kabenguele Munanga enfatiza a necessidade de antes de estabelecer o sistema de cotas se “fazer uma pesquisa preliminar em países que já têm experiência de cotas, como os EUA, o Canadá, a Austrália ou a Índia. Naquela ocasião, apresentei essa proposta, mas ela não foi levada adiante” (MUNANGA, 2003), tal afirmação demonstra que a grande polarização sobre o tema é recente e possivelmente vários intelectuais gostariam de tê-la melhor aclarado, antes de sua efetiva implementação. Este autor, hoje um expoente na defesa das cotas, afirmou que o principal não são as cotas em si, mais aumentar o contingente de população negra no ensino superior, para o autor: as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo que não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. Se as cotas forem adotadas, devem ser cruzados critérios econômicos com critérios étnicos. Porque meus filhos não precisam de cotas, assim como outros negros da classe média” (idem, p.107). Segunda essa vertente teórica pró-cotas, as experiências feitas pelos países que convivem com o racismo poderiam servir de inspiração ao Brasil, respeitando as peculiaridades culturais e históricas do racismo à moda nacional. Munanga (2003) ressalta que: Vozes eloqüentes, estudos acadêmicos recentes, qualitativos e quantitativos, realizados pelas instituições de pesquisas respeitadíssimas como o IBGE e o IPEA, não deixam dúvidas sobre a gravidade gritante da exclusão do negro, isto é, pretos e mestiços na sociedade brasileira. Fazendo um cruzamento sistemático entre a pertença racial e os indicadores econômicos de renda, emprego, escolaridade, classe social, idade, situação familiar e região ao longo de mais de 70 anos desde 1929, Ricardo Henriques chega à conclusão de que “no Brasil, a condição racial constitui um fator de privilégio para bancos e de 266 exclusão e desvantagens para não-brancos. Algumas cifras assustam quem tem preocupação social aguçada e compromisso com a busca da igualdade e equidade nas sociedades humanas”. (Idem, p. 118) A defesa das cotas raciais nas universidades pauta-se principalmente em dados estatísticos comparativos entre brancos e negros no Brasil, cuja divulgação deve muito a Ricardo Henriques (Apud MUNANGA, 2003, p. 118), que sistematizou a apresentação de tais dados no debate acadêmico, tal qual no exemplo abaixo: avaliando dados sobre cor e pobreza chega a seguinte conclusão”: do total dos universitários brasileiros, 97% são brancos, sobre 2% de negros e 1% de descendentes de orientais; sobre 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, 70% deles são negros; sobre 53 milhões de brasileiros que vivem na pobreza, 63% deles são negros.(Idem, p.118) Destacando a desigualdade racial brasileira, o texto de Munanga (2003) sintetiza os argumentos deste grupo sobre a necessidade de reparação em virtude da disparidade histórica entre brancos e negros, inclusive entre brancos pobres e negros pobres, enfatizando a questão racial como motivo da maior aprofundamento da pobreza entre os negros, como veremos a seguir: Num país onde os preconceitos e a discriminação racial não foram zerados, ou seja, onde os alunos brancos pobres e negros pobres ainda não são iguais, pois uns são discriminados uma vez pela condição socioeconômica e outros são discriminados duas vezes pela condição racial e socioeconômica, as políticas ditas universais, defendidas, sobretudo, pelos intelectuais de esquerda e pelo exministro da Educação Paulo Renato, não trariam as mudanças substanciais esperadas para a população negra. Como disse Habermas, o modernismo político nos acostumou a tratar igualmente seres desiguais, em vez de tratá-los de modo desigual. Daí a justificativa de uma política preferencial, no sentido de uma discriminação positiva, sobretudo quando se trata de uma medida de indenização ou de reparação para compensar as perdas de cerca de 400 anos de defasagem no processo de desenvolvimento entre brancos e negros. É nesse contexto que colocamos a importância da implementação de políticas de ação afirmativa, entre as quais a experiência das cotas, que, pela experiência de outros países, afirmou-se como um instrumento veloz de transformação, sobretudo no domínio da mobilidade socioeconômica, considerado como um dos aspectos não menos importante de desigualdade racial. (Idem, p. 119) Para diminuir essa defasagem, a proposta do autor citado é apostar na escolarização como viés equalizador, nas ações afirmativas como medida facilitadora do acesso do negro ao ensino universitário e superior de modo geral, tirando-o da situação de 2% em que se encontra depois de 114 anos de abolição em relação ao contingente branco que, sozinho, representa 97% de brasileiros universitários. É justamente na busca de ferramentas e de instrumentos apropriados para acelerar o processo de mudança de quadro injusto em que se 267 encontra a população negra que se coloca a proposta das cotas apenas como um instrumento ou caminho, entre tantos, a serem incrementados. Portanto, não existe uma exclusão a priori entre a cota e a melhoria do ensino fundamental. Segundo Munanga : Por que, então, a cota e não outros instrumentos e que instrumentos? Numa sociedade racista, na qual os comportamentos racistas difundidos no tecido social e na cultura escapam do controle social, a cota obrigatória confirma-se, pela experiência vivida pelos países que a praticaram, como uma garantia de acesso e permanência nos espaços e setores da sociedade até hoje majoritariamente reservados à “casta” branca da sociedade. O uso desse instrumento seria transitório, esperando o processo de amadurecimento da sociedade global na construção de sua democracia e plena cidadania. Paralelamente às cotas, outros caminhos a curto, médio e longos prazos projetados em metas poderiam ser inventados e incrementados. Tratando-se do Brasil, um país que desde a abolição nunca assumiu seu racismo, condição sine qua non para pensar em políticas de ação afirmativa, os instrumentos devem ser criados pelos caminhos próprios ou pela inspiração dos caminhos trilhados por outros países em situação racial comparável. (Idem, p. 120) Herdeiro de uma tradição de debates da USP, Munanga (2003) ressalta as cotas como medida emergencial e temporária, pois se nas gerações seguintes dos cotistas não houver uma redução nas desigualdades de acesso ao ensino superior é sinal de que as mesmas não serviram para sanar o problema da inclusão das minorias. Tal afirmativa condiz com sua defesa de adoção de políticas de melhoria do ensino fundamental e médio concomitante com as cotas, segundo ele: Finalmente, a questão fundamental que se coloca não é a cota, mas sim o ingresso e a permanência dos negros nas universidades públicas. A cota é apenas um instrumento e uma medida emergencial enquanto buscam-se outros caminhos. Se o Brasil, na sua genialidade racista, encontrar alternativas que não passam pelas cotas, para não cometer injustiças contra brancos pobres — o que é crítica sensata — ótimo! Mas, dizer simplesmente que implantar cotas é uma injustiça, sem propor outras alternativas a curto, médio e longo prazos, é uma maneira de fugir de uma questão vital para mais de 70 milhões de brasileiros de ascendência africana e para o próprio futuro do Brasil. É uma maneira de reiterar o mito da democracia racial, embora este já esteja desmistificado. (Idem, p. 127) Para os autores que defendem as cotas raciais, todos aqueles que condenam as políticas de ação afirmativa ou as cotas favorecendo a integração dos afro-descendentes utilizam, de modo especulativo, argumentos que pregam o status quo, ao silenciar as estatísticas que comprovam a exclusão social do negro. “Querem remeter a solução do problema a um futuro longínquo, imaginando-se, sem dúvida, que medidas macroeconômicas poderiam, miraculosamente, reduzir a pobreza e a exclusão social” (MUNANGA, 2003, p. 127). Não podemos negar que a discussão das cotas no ensino superior é um 268 dos centros polêmicos das ações afirmativas no Brasil hoje, juntamente com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O tema é debatido nos meios de comunicação em calorosos debates como a discussão sobre o mesmo sistema nos cursos de instituições de ensino superior no Brasil. As controvérsias desse debate recaem, não somente nas ações afirmativas, mas na idéia que temos que universidade no Brasil e nos limites da inconstitucionalidade que poderiam ser estipulados com adoção das chamadas “cotas cegas”142, inseridas de forma aleatória, sem propósito de corrigir uma injustiça imprecisa. Segundo os defensores do sistema, as cotas devem ter como pressuposto uma característica flexível e temporária elas são medidas paliativas vinculadas à estatística raciais de instituições e da sociedade como um todo. Qualquer programa de cotas deveria ter uma revisão periódica e uma análise profunda de seus resultados em busca da igualdade racial. Um aspecto importante dessa defesa é que as cotas devem acompanhar a paridade estatística racial, em uma relação entre a cota destinada à minoria e a sua relação com o contingente populacional local. Para atender tal demanda, é necessário novamente voltar à argumentação filosófica em torno da importância das ações afirmativas baseadas na raça. Dialogando com as questões de sua época, seu princípio da diferença tem vários pontos de aproximação com as políticas de ação afirmativa, ainda que não sejam a mesma coisa. Para Rawls, as desigualdades de nascimento, os dons naturais e as posições menos favorecidas advindas de gênero, raça, etnia são imerecidas e têm de ser compensadas de algum modo: O princípio [da diferença] determina a fim de tratar as pessoas igualitariamente, de proporcionar uma genuína igualdade de oportunidade, a sociedade deve dar mais atenção àqueles com menos dotes inatos e aos oriundos de posições sociais menos favoráveis. A idéia é de reparar o desvio das contingências na direção da igualdade. (RAWLS, 2002, p. 107). Àqueles que consideram injusta a compensação por supostamente atentar contra a noção de mérito, Rawls questiona o quão meritórios são os dotes naturais ou as posições desfavoráveis socialmente. Serão resquícios de sociedades religiosas, nas quais os dons e o status social são distribuídos de 142 Tais cotas não recaem num necessário objetivo da ação afirmativa específica em uma comunidade, pois ignoram a índole compensatória e não possuem um reflexo próximo da exatidão dos índices estatísticos da discriminação racial (SANTOS, 2005, p. 83). 269 acordo com a casta à qual pertencemos? Conclui, pois, que esta não é uma questão que envolve mérito: Talvez alguns pensarão que uma pessoa com maiores dons naturais mereça aquelas a vantagens e o caráter superior que tornou possível seu desenvolvimento. Porque é mais digno neste sentido, merece as maiores vantagens que puder alcançar com seus dons. Esta visão, entretanto, é certamente incorreta. Um dos pontos recorrentes de nossos juízos analisados até agora é que ninguém merece o seu lugar na distribuição dos dons naturais, mais do que mereça seu ponto de partida na sociedade. Afirmar que um homem merece o caráter superior que lhe permite esforçar-se para cultivar suas habilidades é igualmente problemático, pois seu caráter depende largamente de uma família privilegiada e de circunstâncias sociais, pelas quais não tem mérito algum. Não parece aplicar-se a noção de merecimento a tais casos. Dessa forma, o homem representativo mais privilegiado não pode dizer que o mereça e, portanto, que tenha direito a um esquema de cooperação no qual lhe seja permitido adquirir benefícios de modo que não contribuam ao bem-estar alheio. (RAWLS, 1973, p. 107). Rawls (1973) distancia-se da tradição liberal ancorada na idéia de igualdade de oportunidade e de sua respectiva concepção de mérito, circunscrita a alguma situações sociais. Ao rediscutir o ideal meritocrático, ressalta suas limitações e ressignificá-lo historicamente ao considerá-lo no âmbito dos usos e fins que a sociedade atribui às diferenças, inatas ou sociais. É sob esta perspectiva que concebe o princípio da diferença como algo intrínseco à estrutura da sociedade. Segundo Moehlecke (2004, p. 763) “está em jogo, com as políticas de ação afirmativa, uma relação complexa de igualdade, que tenciona a tradição moderna baseada nos direitos individuais”, ao propor uma redefinição da igualdade de oportunidades liberal, ao introduzir a utilização de particularidades grupais e ao dar uma ênfase positiva à construção de identidades raciais. No caso do Brasil, além desses embates no campo normativo, “a utilização da raça para a definição de políticas confronta-se com a idéia de uma nação que se imagina miscigenada e indiferente às distinções raciais” (Idem, p. 763). A autora observa Que no debate brasileiro atual sobre relações raciais, percebe-se que o reconhecimento da existência de desigualdades entre grupos raciais no acesso a bens e serviços é objeto de razoável consenso. Vários estudos, como aqueles realizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), demonstram o quão profundas são as distâncias entre brancos e negros (pretos e pardos) em quase todas as esferas da vida social. Contudo, as explicações do porquê de tal situação e, principalmente as proposições de soluções adentram um terreno controverso. Não serão as condições desfavoráveis da população negra, na verdade, conseqüência da pobreza em que vivem? E, sendo assim, não seria mais adequado adotar políticas universais em vez de políticas direcionadas a grupos raciais específicos? Afinal, existe racismo no Brasil? Há um problema especificamente racial no país? (Idem, p. 763-764) 270 Moehlecke (2004) frisa ainda que o desafio de encontrar soluções para ampliar o acesso e permanência do negro nas universidades, no sentido contrário as desigualdades raciais nas universidades atuais, inclusive outras alternativas para além do sistema de cotas, O sistema de ensino superior brasileiro, nos debates atuais sobre sua reforma e expansão, tem diante de si o desafio de encontrar soluções que correspondam à questão das desigualdades raciais no acesso às suas instituições e na permanência nelas. Algumas ações vêm sendo experimentadas, como os cursinhos pré-vestibulares comunitários para alunos negros e carentes, financiados pelo Ministério da Educação ou por universidades; a oferta de bolsas de estudo; a isenção das taxas de inscrição para o vestibular; e, inclusive, as chamadas políticas de cotas raciais ou sociais que, apesar das controvérsias, já são utilizadas por sete universidades públicas do país. (Idem, p. 758) A autora continua sua argumentação afirmando que as políticas de ação afirmativa tencionam não apenas os marcos de “tradição liberal universalista e sua noção de igualdade e mérito, mas também nossa noção de povo mestiço convivendo sob uma harmonia racial, idéia com a qual o Brasil tem se identificado há anos” (Idem, p. 764). Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre foi a obra que mais influenciou essa imagem positiva da mestiçagem brasileira, tida pelo autor como um símbolo per se de sociedade anti-racista. Como poderiam existir diferenças raças em um país tão densamente miscigenado? Em um momento de transição para a modernidade, industrialização e construção da nação que foram os anos de 1930, o passado escravista teria de ser superado em nome de um ideal de harmonia e democracia nas relações entre os grupos étnicos. Em geral, dentro dessa perspectiva, há uma substituição da utopia universalista, em favor do apoio a políticas compensatórias, específicas, pontuais e temporárias, capazes de construir o que Frei Santos143 (2003, p. 39) denomina como uma “nova ordem inclusiva144 que faria nascer um ”Brasil novo, materialmente diverso e, por isso, também mais justo e mais bonito”, através da adoção de políticas inclusivas conforme citação a seguir: O tema da inclusão está na ordem do dia. Temos agora que ter lucidez para saber qual a melhor política inclusiva para as universidades. Precisamos buscar um maior consenso sobre elas. Diante das estatísticas, estamos convictos que medidas universalistas, não resolvem e não resolverão o problema. As 143 O Frei David Raimundo Santos é um ferrenho defensor das cotas raciais em todos os níveis, tendo como suporte a Organização Não Governamental (ONG) Educafro que luta pela inclusão dos negros no acesso ao ensino superior. 144 Entendemos que o melhor termo a ser utilizado neste caso seria inclusão de forma excludente e não apenas inclusão como Frei David Santos (2003) afirma em seu artigo. 271 distorções gritantes exigem a adoção de medidas específicas e emergenciais que devem ser conjugadas às medidas universalistas para que possamos consubstanciar a igualdade desejada. (Idem, p. 39) Respondendo as críticas anti-cotas, de que a debate racial não seria uma característica brasileira, mas uma “externalidade” que procura difundir/imitar o modelo americano no mundo, os viés pró-cotas afirma que no Brasil a branquidão/europeidade é valorizada enquanto a negritude/africanidade é estigmatizada. Portanto, "o problema do negro", portanto seria nacional e cuja solução “passa pela sua integração social, econômica, cultural e psicológica ao seio da nação e a sua desmarginalização como cidadão" (MOURA, 1994, p. 234). Neste sentido, o racismo no estilo brasileiro" difere do racismo nos EUA fundamentalmente em seu foco: no Brasil, o preconceito contra a aparência (preconceito de marca ou fenótipo) versus o preconceito contra origem ou descendência (preconceito de origem ou genótipo)... Se a tônica nos anos 80 era a ênfase na similaridade, a literatura mais recente sublinha as especificidades nacionais e até mesmo a originalidade dentro do contexto diaspórico... o terreno prático e ideológico sobre o qual a luta anti-racista se desdobra no Brasil, como nota Silva, é aquele de "uma sociedade multirracial onde manifestações de 'preconceito de raça' e atos de 'discriminação racial,' e grandes níveis de desigualdade entre negros e brancos coexistem com uma construção da raça que rejeita a separação e celebra a harmonia racial" (SILVA, 1998, p. 223 Apud FRENCH, 2002). Em contraponto aos argumentos apresentados, os posicionamentos anticotas raciais procuram enfatizar as conseqüências de tornarmos a política de cotas racial, em especial nas universidades, como uma política de Estado. Longe de ser um bloco uníssono de pensamento, podemos identificar divergências, inclusive àquelas próprias das formações acadêmicas de seus autores. Ainda assim, o discurso unifica-se no que tange a negação do argumento principal que aponta para a problemática da identificação do cidadão através da cor da pele. Os signatários mais conhecidos desta linha de pensamento teórico são: Peter Fry, Ivonne Maggie, Demetrio Magnoli e Ali Kamel, pois os mesmos sintetizam as afirmações mais comuns utilizados nesta perspectiva que apresentaremos a seguir. Segundo as referências bibliográficas destes autores anti-cotas, principalmente pelo viés antropológico, no Brasil, não haveria brancos, negros ou índios, apenas brasileiros. O sistema de classificação racial pautado no discurso das pessoas comuns teria um “intrincado modo de falar muito de cor sem falar de oposição” (MAGGIE, 1996, p. 233). O racismo e a hierarquia entre as raças, no imaginário brasileiro, seria como uma antítese do que é “ser brasileiro”, ou seja, 272 faria parte de nossa sociedade à oposição ao racismo e às diferenças raciais: O modelo brasileiro de representar a diferença suprimindo-a, colocando-a num passado, gera um sistema obsessiva e essencialmente anti-racista. Onde ser racista é considerado um pecado capital que ameaça e põe em cheque o mito de origem da sociedade brasileira e atenta contra a identidade nacional. (MAGGIE; GONÇALVES, 1995, p. 4). Na visão de Maggie (1996), Gonçalves (1995) e Fry (2007) os valores e o ideal de sociedade pela ideologia da democracia racial difundidos, deveriam ser preservados, pois teriam forte apelo no imaginário social brasileiro e poderiam contribuir para a construção de uma sociedade menos desigual. Estes autores opõem-se à afirmação de identidades raciais, que acusam de uma essencialização racial. Entendem que o negro, o branco e o índio e suas particularidades não apenas estão, mas também devem permanecer no passado. Ainda que entendam a democracia racial enquanto mito, essa vertente de pensamente retoma o que considera os aspectos positivos do pensamento de Gilberto Freyre (2004) em contraposição às ações afirmativas de caráter racial, conforme podemos verificar no trecho a seguir: As medidas pós-Durban, ao proporem ações afirmativas em prol da “população negra”, rompem não só com o a-racismo e o anti-racismo tradicionais, mas também com a forte ideologia que define o Brasil como o país da mistura, ou, como preferia Gilberto Freyre, do hibridismo. Ações afirmativas implicam, evidentemente, imaginar o Brasil composto não de infinitas misturas, mas de grupos estanques: os que têm e os que não têm direito à ação afirmativa, no caso em questão, “negros” e “brancos” [...] .(MAGGIE ; FRY, 2004, p. 68) Para esses autores que se posicionam claramente contra a centralidade da raça como critério de igualdade, a percepção fenotípica de auto-identificação do povo brasileiro não possui um caráter bipolar (preto/branco), ao contrário podemos encontrar a utilização de uma infinidade de termos. Segundo Peter Fry, a auto-identificação múltipla da aparência das pessoas é um traço comum dos brasileiros, que ultrapassaria qualquer possibilidade de uma classificação estanque, e para além deste aspecto ainda haveria o mulato, termo comum utilizado no cotidiano que já seria o mediano mais próximo entre qualquer pretensa classificação bipolar. Para o mesmo autor, numa situação de conflito, própria de uma sociedade racista pode aflorar certa “bipolariadade popular”, ainda assim o comum é a “desracialização da identidade individual” em 273 situações cotidianas” (FRY, 1995, p.132). Para Azevedo (2004, p. 217), a abordagem da igualdade racial possui o que ela chama de espinhosa tensão interna, pois, aceitando tais argumentos, como poderíamos atacar uma herança racista pautadas nas teorias racistas do século XIX, difundida no inconsciente coletivo, ao mesmo tempo em que negamos a possibilidade de existência de uma sociedade racializada? A resposta é simples, vários autores desse campo não negam a existência de uma percepção de raça no cotidiano, mas a apontam como uma idéia difusa, acirrada em situação de conflito, dentre as diversas possibilidades de identidades. A questão central, portanto seria que o Estado deve posicionar-se contrário a tentativa de “estatização” da raça sob pena de promover a ampliação do conflito social em torno do tema. Portanto partindo dessa lógica, apresentar uma postura que se caracterize como anti-racista é essencialmente ser contrária à noção de “raça”145, principalmente de sua possível institucionalização. Na citação de Militão (2007) fica claro que tal negação refere-se às cotas raciais e não as possibilidades de redução das desigualdades em outros campos, através das ações afirmativas em geral146. Ou seja, é uma reação principalmente a “racialização” oficial que poderia ser engendrada pela institucionalização da lei de cotas: A oposição as cotas raciais por legislação federal é dogmática por não ser a melhor solução para o conjunto da sociedade, além dos óbices constitucionais (art. 5.º, caput, e art. 19, III). Na condição de combatentes contra o racismo devemos ter por nosso interesse maior a incondicional destruição da idéia de “raça”, e não a sua consolidação institucional. Conforme a Carta Magna, o Estado somente pode legislar tendo por objetivo a pessoa humana e suas nuances características e diferenças inatas, excluso o termo “raças”, que não pode ser acatado como diferença humana. A Constituição de 1988 não confere nem admite raças como possibilidade de direito (art. 19), e quando se refere ao racismo (arts. 3.º, 4.º e 5.º, XLII) o faz para repudiar o seu conceito e refutar a crença em “raças” distintas. Portanto, em conformidade com a legítima expressão constituinte recolhida do povo, atuamos contra a institucionalização de leis de cotas, o que não implica em absoluto, a repulsa a doutrina de ações afirmativas (idem, p. 331). Militão (2007) critica, também, de forma direta, os argumentos comuns dos intelectuais anti-cotas raciais sobre as possíveis conseqüências da aceitação da bipolaridade racial através da adoção das cotas pelo Estado brasileiro. Segundo o 145 Enquanto para os teóricos pró-cotas raciais, o termo raça seria uma categoria sociológica, para os do grupo anti-cotas ela no campo social ela seria apenas uma noção, sendo somente admitida a existência da “raça humana”. 146 Embora um série de autores identifique automaticamente ações afirmativas e cotas raciais. 274 autor a implementação jurídica das ações afirmativas criaria a estatização da identidade racial, por ele negada tanto pelas possíveis conseqüências de acirramento do conflito em torno do tema, quanto por não admitir a possibilidade da existência de outra raça para além da “raça” humana. Legislar sobre o tema seria equivocadamente institucionalizar uma “crendice” que não encontraria arcabouço teórico de sustentação: Além de cotas raciais não terem sustentação na elaborada doutrina jurídica de ações afirmativas, há também um trágico efeito que precisa ser reafirmado: a adoção de cotas representará, sim, a estatização de “raças” como identidade e estimulará ideais e reações racistas. A negação de algo tão evidente é como dizer que a adição de anilina não turvará a água cristalina. O direito como ciência, contempla na sua formulação a aplicação de um princípio universal: a árvore produz somente frutos venenosos. Num certame qualquer, ao retirar vagas de brancos mais pobres (menores notas) e as entregar a negros mais privilegiados (melhores notas), que são pessoas que estudam, freqüentam e vivem num espaço social e na mesma escola pública estarão estabelecidas condições para o conflito racial latente. Também sob o aspecto ético-político da negativa e repúdio à figura institucional de raça como personalidade jurídica, um fato concreto: se somente existe a espécie humana, não há “raças humanas”. Portanto, as leis de cotas atuariam sobre uma crendice do povo. E se é produto de crendice, tal como extraterrestre e chupa-cabra o Estado não pode legislar sobre crenças (idem, p.332). Ainda que alguns autores desse viés aceitem a existência de uma correlação estatística entre desvantagens econômicas e sociais e a cor da pele, sendo possível, portanto, que uma parte desse contingente populacional discriminado possa ascender socialmente frente à implementação de ações afirmativas, praticamente verificamos o consenso em torno da possibilidade de acirramento do racismo no país. A institucionalização das cotas é entendida como uma espécie de novo “ovo da serpente”, identificado com uma tendência da estatização da raça, mesmo que não existam garantias efetivas da consolidação desse prognóstico. Essa leitura transversal pode ser observada no texto dos autores Maio e Santos (2007) citado a seguir: A estratégia das cotas é solução equivocada para um problema mal definido. Análises estatísticas mostram correlações importantes entre cor e uma série de desvantagens econômicas e sociais que persistem outras variáveis são controladas. O que está ampla e detalhadamente comprovado é que a educação das pessoas é o que mais explica as diferenças de renda e oportunidades de vida. A maneira mais efetiva de reduzir as desigualdades sociais é pela generalização da educação básica de qualidade e pela abertura de bons postos de trabalho. Cotas raciais, mesmo se eficazmente implementadas, promoverão somente a ascensão social de um reduzido número de pessoas não alterando os fatores mais profundos que determinam às iniqüidades sociais. Políticas dirigidas a grupos sociais estanque em nome de grupos sociais não eliminam o racismo e podem até mesmo efeito contrário, ou seja, o acirramento do conflito e da intolerância, como demonstram exemplos históricos e contemporâneos. (Idem, 275 p.290) É a escrita pessimista, com relação ao critério de raças, de Martinho (2007) que nos elucida de forma clara qual seria essa “serpente naciturna”, ou “pomo da discórdia” como prefere chamar, ao analisar a implantação da Lei de Reservas de Vagas de 2001, implantada na UERJ e UENF, pelo então governador do Estado. O autor afirma que se o racismo é um aspecto escamoteado na sociedade brasileira, ela passará a ser explicito e conflituoso a partir da intensificação e vivência da experiência de cotas raciais, segundo o autor: No dia 9 de novembro de 2001 o então governador do Estado do Rio de Janeiro, aprovou o Decreto n.º 3.708, a chamada lei das cotas, que previa o benefício de no mínimo 40% das vagas nos cursos de graduação da UERJ e da UENF para as populações negras e pardas. O debate em torno da política de cotas, alterou a unidade inicialmente constituída. A lei de cotas havia sido sancionada pelo governo do Estado, aprovado pela ALERJ e apoiada pela Reitoria da UERJ. Restava apenas aceitar a realidade imposta. Era um debate sem conseqüência. O que mais me assusta nessa história toda é a crença para aqueles que acham que o Brasil é um país racista, de que as cotas contribuirão para o enfrentamento do preconceito. É exatamente o contrário. Na medida em que políticas públicas começam a induzir pessoas a declarar sua cor, para fins de emprego ou acesso à universidade, será difícil conter o racismo. Principalmente entre a população branca e pobre. É inevitável a afirmação da raça como um valor transformará nosso racismo. Como disse Nelson Rodrigues, o brasileiro é um narciso às avessas e por isso cospe em sua própria imagem. Somos racistas, preconceituosos e hipócritas, mas por enquanto de forma dissimuladas, nas próximas décadas do século XXI, desejado por parte dos membros da lista, pelo menos em nosso racismo, alcançaremos a honestidade. (MARTINHO, 2007, In FRY; MAGGIE; at al., 2007. p. 181) Podemos inferir que o trabalho de Peter Fry (1995) estaria fazendo as pazes com o referencial teórico de Gilberto Freyre ao tratar, a questão por um viés antropológico que enfatizaria a multiplicidade das representações sociais do povo brasileiro a respeito de si mesmo, desta forma não haveria possibilidade de estabelecer critérios externos para definir a raça dos indivíduos. Para Fry (1995), “longe de se encontrar destituída de interesse, a idéia de democracia racial ainda seria perfeitamente coerente com projetos de democracia e cidadania” (SCHWARCZ,2006,p.290). Seu arcabouço teórico antropológico, portanto desautorizaria qualquer possibilidade de essencialismo ou bipolaridade, ainda que com argumentos do campo da genética ou da cultura. Aprofundando o tema, Maggie (2007, p.330) parte para uma estratégia de denúncia de uma suposta “operação política e ideológica” que dividiria a sociedade de forma bipolar, em detrimento de políticas públicas universalistas: 276 Os críticos da política de cotas raciais estão querendo alertar a sociedade brasileira de que se desenrola uma operação política e ideológica para transformar nossa sociedade em uma sociedade dividida “legalmente” em brancos e negros e afirmam ser preciso dar às políticas públicas a natureza universalista que devem ter. (Idem) Conhecido pelo teor cáustico e direto de seus argumentos, Magnoli, também em tom de denúncia, não pouca críticas ao considera uma ação do Estado em parceria com diversas ONG’s no sentido de retomar a questão da raça, no que ele classificou como “reengenharia étnica” que aparentemente transformou uma bandeira política própria do desenvolvimento histórico americano numa questão de ordem da agenda brasileira em detrimento da defesa de direitos sociais universais: O Brasil mimetiza as políticas sociais dos Estados Unidos, que são compatíveis com a ruína dos direitos sociais universais. Desde 2003 a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) controlada por ideólogos fanáticos passou a funcionar como um dínamo de reengenharia étnica. Seus dirigentes e as ONGs chapa-branca que circulam em torno da luz do poder engajaram-se na “retificação da história do país”, dividindo a nação em brancos e afrodescendentes. Este termo é destinado a naturalizar diferenças sociais e culturais cristalizando-as pela restauração do conceito anacrônico de raça. Alcunha deveria ser considerada ofensiva, pois seu pressuposto lógico é a noção racista de que a África constitui uma matriz cultural e biológica unitária. Mas tornou-se uma bandeira política compartilhada por intelectuais conservadores e ONGs supostamente progressivas. (MAGNOLI, 2007 In FRY; MAGGIE, et al (Orgs), 2007. p. 330) Seguindo argumentação semelhante, sobre a discussão da raça não fazer parte da tradição acadêmica ou social brasileira, Carlos Lessa (2006) enfatiza que “o Brasil não tem cor”, lembrando que foi o determinismo racial e ambiental do século XIX que inseriu tal pensamento no país, ou seja, desde sempre a possibilidade de identificação de raças na sociedade brasileira deve ser entendida como um fator externo, próprio de uma ideologia colonizadora européia de então. Mais uma vez, também neste autor, a obra de Gilberto Freyre é revisitada como fonte inspiradora dessa vertente de pensamento, como podemos verificar na citação a seguir: O Brasil não tem cor. Tem todo um mosaico de combinações possíveis. Falar de raça, no singular ou no plural, é anti-científico, social e ideologicamente muito perigoso. Quem no Brasil, falou de raças foi uma elite que, no século XIX, intimidada pelo eurocentrismo assumiu como ciência o determinismo ambiental e racial de um blacke (que explicava o êxito britânico pelo desafio do ambiente insular) e de um Gobineau que se apoiava na pureza racial como propulsor civilizatório e a mestiçagem da raça dominante como o vetor explicativo de sua decadência. Tanto Blacke como Gobineau falam do Brasil mestiço do século XIX como exemplo de uma sociedade condenada a não ser civilizada. O tema da raça serviu para ginásticas curiosas. Houve veto a imigração chinesa; houve abolicionistas a favor da medida não por humanismo, mais para evitar novas 277 injeções de etnia africanas e, por meio de imigrantes europeus branquear a raça brasileira. Euclides da Cunha viu no sertanejo do semi-árido e no caboclo amazônico raças históricas em formação com potencialidade civilizatória. Toda esta bobagem foi sepultada por Gilberto Freyre e pelo movimento antropofágico que exaltou no brasileiro, a mistura étnico-cultural. A pobreza pesa mais sob o contingente de pardos e pretos brasileiros. A abolição não foi acompanhada de reforma agrária, o plano de André Rebouças não prosperou. Entretanto, para a atração de mão-de-obra européia o primeiro movimento de sedução de alemães e italianos foi a concessão de terras pelo império para familiares. Grande parte do sul foi ocupada por colonos europeus. A república velha não institui o ensino público gratuito e de qualidade, que foi necessário, nos anos 1930, nos Estado Novo, para proteger o trabalhador urbano. Gerações de pardos e pretos nascerão na pobreza e nela permanecerão por uma observação simples: quem nasce pobre tem mais alta probabilidade de vir a ser pobre. Não é o racismo que explica essa situação. Mestiços foram dignitários do Império. O mulato barão de Cotegipe foi chefe de gabinete de D. Pedro II, provavelmente possuía escravos. (LESSA,2006,s/p.) Essa “externalidade” do discurso sobre raça na atualidade, também é apontada por Azevedo (2004), que analisa o apoio de fundações dos Estados Unidos para pesquisas sobre Educação Superior nos países do chamado terceiro mundo, com base nas conclusões de Bourdieu e Wacquant (2002) sobre “as artimanhas da razão imperialista”, que estaria difundindo o modelo de hipodescendência “segundo o qual os filhos de uma “união mista” são automaticamente situados na casta inferior dos negros”, este modelo resquício da tradição legal discriminatória do sul estadunidense, para ser apontado como um modelo democratizante e progressista. Desta feita, tanto os pardos, segundo a classificação do IBGE, quando as diversas autoclassificações possíveis e utilizadas frequentemente pela população brasileira se resumiram ao binômio (branco-negro), quando não indígena ou amarelo. Retomando o trabalho de Peter Fry (2007), no que tange especificamente sobre a questão das cotas raciais como critério de acesso à universidade, o autor aprofunda seu argumento anterior ressaltando a impossibilidade de enquadramento dos candidatos ao vestibular em apenas duas categorias raciais. Sua crítica pauta-se principalmente no fato que mesmo que haja identificação racial no senso comum cotidiano, tal classificação não poderia ser imposta pelo Estado. Segundo o autor: Não é a igualdade racial que está sendo transformada em lei! Aliás, é quase inconcebível por meio de uma lei. As leis propostas são para dirimir as desigualdades por meio de subcotas raciais. Cotas raciais significam que os candidatos terão que se definir ou como negros ou como brancos. É isso que cria polêmica do meu ponto de vista, porque obrigará encaixarem em duas categorias raciais apenas. Esse ritual obrigatório terá um efeito pedagógico que o Brasil é um país de duas raças. E as profecias têm a tendência por si sós. Sobretudo quando implementadas e fiscalizadas pelos Estados Nacionais. Ninguém está sugerindo não pode se identificar com raças (se quiserem) na sua vida particular. Estamos preocupados com a interferência do Estado nesse processo. É como se 278 os defensores das cotas desconhecem o país. É verdade que há preconceito racial em toda parte, inclusive nas escolas. Mais quem olha para os alunos de uma escola qualquer de todas as aparências concebíveis, estudando e brincando junto, reconheceria a violência embutida num ato de dividir os alunos em negros e brancos por quaisquer finalidade (idem, p. 336). Demétrio Magnoli (2005, p.120) torna o debate mais acirrado negando veementemente a possibilidade de existência de raças, para o autor tal discurso no Brasil desde sempre partiu do Estado e não da sociedade, portanto, seu argumento seria contrário inclusive à possibilidade de haver certa “racialidade” difusa no cotidiano identificada nas representações sociais dos indivíduos sobre sua auto-classificação racial, conforme os argumentos de Peter Fry (2007) e Militão (2007). Segundo Magnoli, As raças humanas são invenções culturais do poder político. O Império fabricou os pardos. O Estado entrega-se agora a fabricação de um país de brancos e negros, isentos de meio-tons. Invertem-se os sinais de valor à custa atualização legitimação e oficialização do artigo de fé do racismo, que é a classificação racial dos cidadãos. (MAGNOLI,. In: FRY; MAGGIE, 2007, p. 120) Magnoli (2009), aprofundando tais afirmativas, lançou recentemente o livro uma gota de sangue, procurando demonstrar que o conceito de raça vem sendo construído através da história e da geografia, em várias culturas, com objetivo de dominação, sendo consolidado no século XIX. Em especial critica o conceito de multiculturalismo como uma imposição do imperialismo americano. Sua crítica mais mordaz é contra as estatísticas que embasam os argumentos pró-cotas, que para o autor dividiriam o povo brasileiro e utilizariam para montar médias de exclusão do negro do ensino superior a contabilidade geral de pretos e pardos, pessoas que nem se sabe se terminaram o ensino médio e/ou tem interesse de prestar o vestibular. Em resposta a implementação de cotas nos Estados Unidos e sua freqüente comparação com a sociedade brasileira, Martinho (2003) pondera que ainda sendo que contrário às políticas de ação afirmativa, em virtude da especificidade americana que criou um fosso de tal maneira profundo na relação entre brancos com afro-descendentes, naquele país talvez “a política de cotas se justifique”. Diferentemente do Brasil que se caracterizou por uma formação miscigenada, conforme palavras do autor na citação abaixo: É isso que está se fazendo hoje com a política de cotas. Se não vejamos: nos 279 séculos de tráfico escravista para as costas brasileiras, aportaram por aqui cerca de três milhões e meio de cativos, enquanto que nos Estados Unidos, na mesma época, desembarcaram apenas quatrocentos mil. O censo de 1872, o mais próximo da abolição, aponta para a existência de um milhão e duzentos mil escravos no Brasil, ao passo que, abolida a escravatura nos Estados Unidos, havia cerca de quatro milhões de escravos. No mesmo recenseamento de 1872 podemos perceber que metade de nossa população era “de cor”. Nos Estados 147 Esta evidente Unidos, “de cor” eram apenas 6% da população livre. discrepância mostra que as coisas, aqui no Brasil, saíram fora do combinado. O número reduzido de mulheres brancas que para cá se transferiram impôs, ao português colonizador, um relacionamento de proximidade com as mulheres escravas inexistente nas colônias inglesas. Esta mistura, talvez inesperada, transformou o Brasil em um país miscigenado. Além disso, o fato de ter havido por aqui uma mobilidade social bem maior que nas colônias inglesas, fez com que a legitimidade de nossa escravidão não se ancorasse no racismo. Na primeira metade do século XVIII, na região de Minas Gerais, 1/4 dos proprietários de escravos eram negros libertos. No século XIX, dependendo da região, os “não brancos” podiam corresponder a 1/3 ou até mesmo a metade dos proprietários de escravos. A presença de negros entre os proprietários escravistas é também narrada pela literatura. Este é o caso, por exemplo, do personagem Prudência, de Machado de Assis, um liberto que, diante de uma população complacente, surrou seu escravo em pleno passeio público.148 Se é verdade, portanto, o que disse Joaquim Nabuco, para quem “a escravidão é má e obriga o senhor a sê-lo, a escravidão brasileira foi má “para cima” e “para baixo”. “Para baixo por que não escolhia a cor do escravo. Nos primeiros anos de colonização a população nativa submeteu-se ao jugo do trabalho compulsório com a mesma violência com que, anos depois, os africanos foram tratados. No século XIX, campônios europeus, expulsos de um continente que destruía plantações e construía estradas de ferro e fábricas, foram submetidos a trabalhos forçados e à violência escravocrata no Brasil. O sonho do Eldorado não passou, para a maioria dos imigrantes, de efêmera ilusão. (Idem, pp. 30-31) Sobre argumentos de que nos Estados Unidos ocorreu realmente a ascensão de afro-descendentes a posto de mando, Martinho (2003) lembra que tal medida não reduziu outras aspectos racistas presentes na sociedade, reafirmando a impossibilidade das cotas raciais responderem ao problema do fim do racismo, conforme o trecho a seguir: Muitos afirmam que a existência, nos Estados Unidos, de afro-descendentes em postos-chave no comando do Estado, configura uma prova evidente da legitimidade das políticas de cotas. No entanto, é preciso lembrar que naquela poderosa nação ao norte da América, a grande maioria da população carcerária é composta de homens negros, assim como o são também a maior parte dos indivíduos residentes na periferia das grandes cidades. Estes dados evidenciam que não bastam políticas afirmativas ou de cotas raciais para a ascensão social dos chamados excluídos. (Idem, p. 30-31) Ainda que o aprofundamento acadêmico do debate das cotas seja recente e incentivado por financiamento externo, segundo Martinho (2003) este tem como marco a III Conferência Mundial das Nações Unidas de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, no ano de 2001, na 147 GOIS, José Roberto Pinto de. Cotas Raciais e políticas Afirmativas: a peleja entre a profecia do padre Antônio Vieira e a teimosia de dois engraxates. In: Polêmica. Revista Eletrônica da UERJ. 148 Citado por José Roberto Pinto de Góis. Cotas raciais... Op. cit. 280 África do Sul, quando a delegação oficial brasileira, nomeada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, encaminhou uma proposta favorável à adoção de “ações afirmativas” em favor da população afro-descendente, “No curto espaço de um ano, entretanto, a “questão das cotas” ganhou contornos e importância inusitados”. Como diria o historiador inglês Eric Hobsbawn (1982, p. 82) “está inventada uma nova tradição” e a mudança foi drástica, pois, rompe com a matriz universalista que permeou as lutas históricas pela democratização da sociedade brasileira, herdeira do ideal da democracia oriundo da Revolução Francesa que “desconsidera a idéia de ‘raça’ como elemento para a distinção entre os cidadãos deste país”, em troca da adoção de “um modelo de liberalismo da democracia americana (MAGGIE, 2003)”. Segundo Azevedo (2004, p. 232) o grave resultante dessa nova conjuntura política foi uma nova interpretação sobre a quem é de esquerda e direita no país, pois Nesse debate, a questão assume uma conotação divisora entre esquerda e direita. É comum que quem defende a cota racial se julgue de esquerda e diga que os outros são de direita. Quem ousa se colocar contra a cota racial, defendese como pode para afastar de si o jargão de direita e pior ainda, o de racista. (Idem) Ali Kamel (2006) polemiza ainda mais o debate ao afirmar que a sociedade brasileira não é constitutivamente racista, sendo, portanto, o racismo um traço que apesar de existir não é predominante na cultura nacional. O autor critica, portanto, as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial como a quebra de uma longa tradição de convivência em favor do estabelecimento, inclusive oficial, de categorias raciais estanques e beligerantes, que colocariam os negros e brancos como opostos. O autor elenca a pobreza e a concentração de renda como principal chaga de nossa sociedade e não o racismo. Segundo ele, "Negros e pardos são maioria entre os pobres porque o nosso modelo econômico foi sempre concentrador de renda: quem foi pobre (e os escravos, por definição, não tinham posses) esteve fadado a continuar pobre (idem)". Para além de tais aspectos, Azevedo (2004) acredita que o debate da sociedade civil em torno das cotas tem (in)visibilizado a discussão de outras propostas de reformas econômicas e sociais tais como a emergência da reforma agrária, “cujo modelo poderia inspirar soluções para o problema da população 281 sem teto das cidades brasileiras”, acabando por destacar tanto midiática, quanto teoricamente o debate contra ou a favor das ações afirmativas como “a única (e inevitável) opção política aberta àqueles que se preocupam com o problema do racismo institucional e da miséria de grande parte da população negra brasileira”. E para aqueles que ingenuamente enveredam pela defesa da cota racial como uma política temporária, a mesma autora alerta que “evidentemente, não se convoca oficialmente a população para ela definir-se em termos de raça negra/branca, em termos de usufruto de direitos para um belo dia decretar a todos:” esqueçam a raça, ela não passa de uma invenção! ” (idem, 2004, p.235). Após a apresentação do viés anti e pró-cotas dentro da abordagem racial, em que analisamos e interpretamos as principais produções sobre as cotas raciais, entendemos que ficou claro que o conjunto dos estudos que definimos de perspectiva da igualdade racial é a mais sedimentada em termos de construção do debate e suas oposições, se tornando quase um paradigma de análise sobre as cotas nas universidades públicas. Melhor dizendo, impossível abordar este tema ignorando o expressivo contingente da produção desta perspectiva teórica. Neste contexto o que nossa investigação revelou com relação à experiência da UERJ não é diferente. A produção que podemos considerar “da casa”, sobretudo a do Programa de Política da COR (PPCOR) do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da UERJ, através da sua coleção Políticas da Cor, temáticos organizados pelos autores Brandão (2007); Petrucelli (2007); Daflon, Oliveira e Júnior (2007); Paixão (2006), Miranda, Aguiar e Pierrô (2006); Bernadino e Galdino (2004); Oliveira (2003); Santos e Lobato (2003) e Paixão (2003), evidencia a inegável influência da defesa da igualdade racial, enquanto perspectiva teórica capaz de fundamentar a defesa crítica do mito a democracia racial de Gilberto Freyre. Também em alguns documentos da sub-reitoria de Graduação (SR-1) da UERJ, aparece com menos nitidez do que no Programa Políticas da Cor (PPCOR), uma consensualidade com relação a centralidade desta perspectiva. Não por acaso, não são poucos os documentos que procuram gerenciar/amenizar a desigualdade racial, sobretudo, nos primórdios da implementação das cotas, quando eram as cotas raciais as principais ações afirmativas da UERJ. Se por um lado existem dados empíricos que podem ser comprovados através de livros e demais publicações. Também não é incorreto afirmar que esta 282 corrente de pensamento, de forte inspiração antropológica, tem guiado grupos de militantes estudantis, dentre eles se destaca, na UERJ, o DENEGRIR (corrente não majoritária), que fundam a sua prática na constatação que consideram absoluta de que a desigualdade no Brasil é acima de tudo racial. Revelando o mesmo grau de influência desta perspectiva as questões apresentadas nas audiências públicas que colocam como ponto de pauta a questão da cotas, essa perspectiva tem aparecido mais frequentemente. Participante ativo das audiências e um dos expoentes da defesa das cotas raciais, Frei David Santos, se destaca neste cenário como um dos principais divulgadores da perspectiva em tela, sendo a mesma a que mais fortemente permeia o material divulgado pelo religioso, inclusive na publicação da SR-1 da UERJ denominada Caderno de Graduação, que abre espaço para que o mesmo faça a defesa da igualdade racial, através da ênfase que dá a desvantagens dos negros na sociedade brasileira, quando trata de políticas de ação afirmativa para permanência dos estudantes já beneficiados pelas cotas. Segundo o frei, Não podemos ficar acomodados porque as cotas existem. Já dão os seus frutos. Que isto basta e que duas leis sozinhas vão resolver. Cotas exigem um responsável projeto de permanência. Estes alunos precisam de um sério e justo programa, garantindo que não sejam os primeiros a abandonar a Universidade por falta de livros, passagem, refeições, etc. Por trás da implementação de uma lei de cotas existe um país cheio de distorções e injustiças históricas, principalmente no acesso à educação. No caso dos negros, em especial, são mais três séculos e meio de uma exclusão oficial e quase cento e quinze anos de uma discriminação velada, contudo eficiente (Idem, p. 40). O fato da primazia da defesa da perspectiva da igualdade racial no interior da UERJ ser facilmente comprovado não significa que houve um debate sobre as concepções teóricas das abordagens sobre o tema para uma conseqüente opção. Ao contrário, parece haver uma banalização, muitas vezes atribuídas a paixões ou escolhas individuais. Conforme mencionou Gentili: “O debate sobre cotas e, num sentido mais geral, sobre as estratégias de democratização do acesso ao ensino superior, detona as mais diversas e encontradas paixões” (2005,p.6). O maior destaque deste viés acaba por camuflar a essência da batalha de idéias que permeia a própria construção do conhecimento. Aceitar que este debate será sempre inconcluso é a negação dos campos teóricos em disputa dentro do seu próprio lócus privilegiado que deveria ser a Universidade. Ou seja, legitimar o senso comum dentro de um local que melhor condição possui para ultrapassá-lo 283 (idem). Por fim, é importante situar que nesta perspectiva se confrontam uma ancoragem tradicionalmente do lócus da antropologia com perspectivas de sociólogos, historiadores e juristas. Por isso reduzi-la ao senso-comum é quase como negar o confronto de saberes específicos. Outro risco de tal redução também é ignorar que instituições como a Fundação Ford (difusora da defesa das cotas raciais), não são neutras e que possuem projetos relacionados à defesa de questões diretamente vinculados aos projetos hegemônicos em disputa, conforme já nos elucidou Bourdieu e Wacquant (2002). Segundo Bourdieu e Wacquant (idem), existe uma “neutralização” da circulação internacional dos textos, descolando-os das condições sociais e históricas que os engendram, principalmente através da atuação de fundações americanas de difusão cultural como a Ford e a Rockffeler. Os autores citam, por exemplo, como o debate da raça e da identidade estão permeados de proposições etnocêntricas que são transferidos de forma direta como se fossem comuns as realidades americana e brasileira, elevando a “história particular do Movimento em favor dos Direitos Civis como padrão universal da luta dos grupos de cor oprimidos” (idem,p.5). Os autores identificam também o ramo editorial dos EUA como impulsionador de tais debates pelo viés estadounidense, no sentido de impulsionar a venda de seus títulos e influenciar militantes e/ou acadêmicos de outros países, e no caso especial do Brasil, a adotar táticas do movimento afroamericano de defesa dos direitos civis denunciando a categoria pardo, quando nos próprios Estados Unidos ocorre a mobilização social em torno a aceitação da categoria mestiço para ampliar a classificação racial bipolar. “É assim que certas decisões de pura comercialização editorial orientam a pesquisa e o ensino universitários no sentido da homogeneização (2002,pp.4-5) ”, (in)visibilizando debates que levam em consideração as condições históricas e determinações específicas da sociedade brasileira no que tange a questão. Vemos assim que apesar da extensa produção desta perspectiva a mesma ainda é pouco discutida do ponto de vista teórico, sendo resumida aos prós e contras que engendra. Desta forma, esse é um aporte que permanece sendo necessário ao debate. 284 3.1.3 A Abordagem da Perspectiva Luta de Classes O objetivo central desta seção é fazer uma reflexão crítica sobre a literatura que relacione a questão da luta de classes, e segmentos de classes, e a análise da questão das cotas na universidade, destacando como o recorte dessa abordagem pode representar uma ruptura com o senso comum que caracteriza o debate, por ser teoricamente mais consistente do que as produções construídas e apresentadas até então nesta tese. Ainda que esta proposta tenha se mostrado interessante, sua realização trouxe algumas dificuldades de levantamento, em virtude do conjunto dos estudos que compõe o que definimos como abordagem crítica ou perspectiva da luta de classes seja a mais recente e a de menor expressão numérica em termos de produção. É importante ressaltar que entendemos que a análise das cotas, tanto na abordagem legalista quanto na da abordagem da igualdade racial, principalmente no viés pró-cotas, ao apresentar uma série exaustiva de dados para comprovar a sub-representação do negro da universidade, aparentemente confundem os dados em si, como a própria questão a ser estudada. Como se os dados sozinhos fossem capazes de explicar todos os aspectos próprios deste fenômeno social, sem a realização de uma análise das causas e razões econômicas, históricas e políticas que engendraram os caminhos por que perpassam o debate na atualidade. As autoras Elaine Behring e Ivonette Boschetti (2008) fazem alguns apontamentos interessantes sobre a despolitização do debate da política social, que nos indicam os porquês inerentes a superficialidade de tais abordagens, que transferem o debate em torno das cotas para uma dimensão técnica e instrumental. Ou seja, se o negro encontra-se sub-representado em X% na universidade, com relação a sua representação populacional de acordo com os dados do IBGE, então a solução seria a implementação de cotas que garantisse sua representação neste espaço. Tal procedimento acaba “esvaziando [o debate] das tensões políticas e societárias que marcam a formulação e a cobertura das políticas sociais (idem, p.26)”, que segundo nosso entendimento, encontram-se no 285 cerne da questão. Entendemos que tal perspectiva de entendimento do debate remontaria a perspectiva funcionalista de abordagem dos fatos sociais centrada apenas nos dados, cujo precursor foi Émile Durkheim (1987), no século XIX. Nesta linha, cabe à pesquisa social, portanto, estudar a gênese e o funcionamento das instituições sociais, apropriando-se da sua realidade objetiva por meio da observação, da descrição, da comparação, fugindo do movimento que vai das idéias para as coisas(...) As características de constância e regularidade dos fatos sociais são sinais de sua objetividade [...] (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, pp.26-28). Seguindo esse pensamento a complexidade da sociedade na divisão social do trabalho atual pode ser entendida como decorrente de funções diferenciadas do “corpo social” que no seu conjunto funcionaria em termos de “solidariedade orgânica149”, ou seja, buscando o funcionamento da mesma através da “coesão social”. Portanto, se existe um fato social que desarmoniza essa coesão social, ela seria considera uma “anomia”, entendida como “uma condição mórbida e patológica geral da sociedade, marcada pela desagregação e pelo desequilíbrio social...” (idem, p.30). Segundo Behringe e Boschetti (2008) tal abordagem funcionalista na atualidade foi recuperada por autores que remontam ao estudo de uma “nova questão social”, do “capitalismo desorganizado”, como se estivéssemos num contexto de colapso de instituições sociais que regulariam as relações sociais que atuavam de forma harmônica anteriormente (idem, p.30). Dito isso, poder-se-ia lidar com as questões decorrentes de tal desorganização através do desenvolvimento de ações e/ou instituições voltadas para reorganizar a coesão social, portanto, “a visão de fatos sociais como coisas cuja natureza não se modifica pela vontade, justifica, ao fim e ao cabo, a ordem burguesa, ao naturalizar sua dinâmica” (idem, p.31). Se pensarmos na desigualdade racial em termos de “anomia” social, caberia, portanto, a aceitação dos exaustivos dados estatísticos que demonstram que o negro encontra-se sub-representado nas universidades, ou em qualquer outro espaço de poder econômico e político, como sendo uma apresentação de todos os aspectos possíveis do fato social, de forma objetiva e (des)ideologizada. 149 Essa categoria central no pensamento de Durkheim revela aspectos relacionados às ciências naturais, em especial à biologia, comparando a sociedade ao funcionamento do corpo humano. 286 Assim como no corpo humano, tal questão que danificaria o funcionamento coeso da sociedade deveria ser corrigida “cirurgicamente”, ou seja, pontualmente. Desta forma a implementação de ações afirmativas seria capaz de acertar tal “anormalidade”, visto que numa sociedade “coesa”, neste caso sem a existência do racismo enquanto fato social, todos os grupamentos sociais deveriam estar representados nos diversos espaços sociais150. Por outro lado, os representantes destas mesmas abordagens, no viés anti-cotas representam um outro extremo do debate, pautando sua argumentação num viés idealista, que pensa a sociedade “como resultado do pensamento, desconsiderando as condições e determinações objetivas” (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 32). Nesta perspectiva, inspirada no trabalho de Max Weber (2001), os valores orientariam a escolha e o enfoque da pesquisa social. Entretanto, ainda que partindo da idéia para a investigação empírica, nesta linha também existe uma preocupação com a busca da objetividade, através da construção metodológica, ou seja, [...] se os valores orientam a eleição das questões, Weber postula a necessidade de neutralidade axiológica quando do encaminhamento das respostas: ela deve ser neutra já que a pesquisa deve caminhar por regras objetivas e universais [...] Dessa remissa decorre o imperativo categórico da separação rigorosa entre fatos e valores, presente também em Weber, que afirmava que a interferência dos valores impede a compreensão integral dos fatos e que os dados não podem ser pedestais para julgamento de valor (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 34). A solução complexa de Weber para tal questão, que rompe inclusive com o positivismo de Durkheim, pois, considera os fenômenos sociais como históricos, e não como dados que se explicam por si só, foi desenvolver a metodologia do “tipo ideal”, “cujo lugar no processo de conhecimento é exclusivamente heurístico, mas constitui o significado do fenômeno cultural para o sujeito da pesquisa” (idem, p. 35). Nesta perspectiva a pesquisa parte da idéia que se tem do fenômeno, e partir dela verifica as diferenciações no campo empírico, ou seja, a idéia acaba se sobrepondo ao próprio fenômeno. Para Tragtemberg, no tenso período da luta de classe do fim do século XIX e início do XX, o trabalho de Weber veio se “opor a descoberta marxiana de um fator econômico como determinante do social, 150 A de se ressaltar que a própria organização do capitalismo no Brasil o delegou primeiramente para esfera do trabalho, e depois, para fora dela com a vinda dos imigrantes para assumir os postos de trabalho. Portanto, o negro nesta organização social não deveria estar representado efetivamente em nenhum espaço de poder econômico ou político, ao contrário, tenderia a desaparecer por intermédio do processo de mestiçagem e branqueamento, discussões muito em voga no início do século. 287 [indicando] outros fatores, principalmente o ambiente cultural, como o que imprime sentido à ação humana” 151 (TRAGTEMBERG, 1980. Apud BEHRING; BOSCHETTI, 2008 p.38). Voltando a questão das abordagens legalista e racial, no viés anti-cotas, podemos inferir que em ambas percebemos a influência do idealismo, visto que existe uma negação das condições objetivas do negro na sociedade, em favor da defesa de uma idéia que não se sustenta no campo investigativo. A “igualdade perante a lei” e a “democracia racial” são valores, “tipos ideais” segundo os quais se defende toda uma argumentação, ainda que esteja claro frente à quantidade de dados empíricos que estes não se sustentam na realidade social. Em torno de tais idéias refutam a instituição de cotas raciais para o acesso à universidade, e solicitam a intervenção do Estado na melhoria do ensino básico para garantir as condições de igualdade. Portanto, tal perspectiva pleiteia a reforma para que o real chegue ao ideal, e não a transformação societária. Entendemos, portanto, que estes são exemplos de análises unilaterais, que não aprofundam ou analisam a questão das cotas incluindo o fenômeno social no complexo e contraditório “processo de produção e reprodução... e inseridas na totalidade concreta: a sociedade burguesa” (BEHRING; BOSCHETTI, 2008,p. 34). É importante registrar que a totalidade compreenderia não o todo, mas “a realidade nas suas [...] complexas determinações, e revela, sob a superfície dos fenômenos, suas conexões internas, necessárias a suas apreensões” (idem, p.36). Tal linha de pensamento de viés marxista, que chamamos nesta tese de abordagem da perspectiva da luta de classes, possui uma análise mais rica de determinações, não se deixando levar por superficialidades ou soluções imediatas, procurando encontrar a “essência” do fenômeno (MARX, 1982, Apud BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p.39), ou seja, o método, na perspectiva marxiana, não se confunde com técnicas ou regras intelectivas com as que analisamos nos itens anteriores: é uma relação entre sujeito e objeto que permite ao sujeito aproximar-se e apropriar-se das características do objetivo. Nesta perspectiva, o conhecimento não é absoluto, mas é possível apreender as múltiplas determinações dos processos sociais historicamente situados, porque o ser social se objetiva – a sociabilidade é objetivação. Contudo, a sociabilidade burguesa se objetiva de forma fetichizada [...] Buscamos captar o seu movimento essencial na sociedade burguesa, desde suas origens até os dias de hoje [...] Assim, descobrir a essência dos fenômenos, 151 Segundo este autor o capitalismo moderno não ocorreria sem a Reforma Protestante, por exemplo. 288 na perspectiva crítico-dialética, pressupõe situa-los na realidade social sob o ponto de vista da totalidade concreta que, antes de tudo, significa que cada fenômeno pode ser apreendido tudo, significa que cada fenômeno pode ser apreendido como um momento da totalidade (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 39-40). Tal abordagem crítica seria a antítese do empirismo durkheimiano, pois, para ele o acúmulo de dados sobre o fenômeno não significaria conhecer o mesmo. Os fatos, nesta abordagem, devem ser entendidos relacionados ao todo dialético, e não como isolados. Não se busca exaustivamente coletar informações sobre o fenômeno152, e sim a partir delas compreender as suas múltiplas determinações estruturais. Ou seja, o método consiste em ir do abstrato ao concreto, sendo esta “a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado” (MARX, 1982, p.14 In idem, p. 42). Neste ponto, ainda que os dados empíricos sejam retirados da realidade, estes não podem ser entendidos como o concreto, visto que enquanto objeto ainda não analisado pelo método dialético, ele só apresenta a aparência do fenômeno e não suas múltiplas determinações estruturais. Desta feita, a abordagem crítica, rompe também com o idealismo weberiano, visto que o abstrato de que a dialética parte é o próprio fenômeno social e não uma idéia do mesmo. Na perspectiva crítica, portanto, o estudo das cotas para negros na universidade, deve considerar: as múltiplas causalidades, as conexões internas, a historicidade da questão, as posições em confronto das classes sociais, o papel do Estado relacionando tais questões e às condições de produção e reprodução do capital, conforme veremos nas análises dos autores que apresentaremos nesta seção. Por fim, a abordagem da luta de classes não é neutra, ela articula o método de análise, ao elemento orientador da ação para transformação societária. “Tratase de um patamar de observação radicalmente crítico, e que não reconhece no mundo do capital nenhuma possibilidade de conjugação positiva entre acumulação e o princípio da igualdade” (idem, p.46), sendo, portanto uma abordagem a ser mais invisibilizada dentro do debate, com relação as abordagens mais utilitaristas/pragmáticas ou idealistas, pois, exporia o interesses do capital, 152 Podemos citar como exemplos as enumeras estatísticas realizadas sobre o negro para comprovar sua sub-representação na universidade e em outros espaços. 289 que se encontra fetichizado em meio as relações sociais. Não é mera coincidência que tal abordagem crítica não encontra ainda uma maior expressão dentro desse debate teórico em torno das cotas, pois, tal fato tem relação com o aumento de produções acadêmicas pós-modernas153 que defendem que atualmente nos encontramos numa sociedade pós-industrial, surgida depois da quebra do padrão de acumulação fordista. Para esta vertente de pensamento, este marco teria encerrado, se é que um dia houve, a possibilidade de existirem paradigmas de análise da totalidade social. Portanto, para intelectuais pós-modernos não seria possível mais falar na contemporaneidade da existência da luta de classes ou mesmo classes sociais, visto que o traço fundamental da sociedade pós-moderna seria a sua própria fragmentação social, inviabilizando qualquer esquema de interpretação maximalista, que seria substituída pela construção crítica de discursos sobre temáticas minimizadas. Para os pós-modernos, portanto, a teoria marxiana foi superada pela história, o marxismo teria perdido sua base de sustentação teórica. Harvey (2007) aponta os trabalhos de Foucault e Lyotard154 como principais representantes dessa corrente, por desenvolverem um pensamento “condenando as metanarrativas (amplos esquemas interpretativos como os produzidos por Marx ou Freud) como “totalizantes”, eles insistem na pluralidade de formações de “poder-discurso” [Foucault] ou de “jogos de linguagem [Lyotard] (idem, 49-50). Anderson (1999) consegue demonstrar nexos entre as posições pósmodernas, apesar de sua aparente fragmentação. Dentre eles destaca que o pósmodernismo acaba assumindo uma postura de direita, pois, apresenta certa resignação frente à impossibilidade de superação da ordem capitalista, isto é, de afirmação da ordem capitalista e sua inexorável supremacia, ainda que identifique suas contradições. Entendemos, então, que este pensamento acabaria sendo funcional ao capital, pois, não questionaria suas bases. Segundo esse autor: Para Lyotard, os próprios parâmetros da nova condição foram criados pelo descrédito do socialismo como última narrativa grandiosa – versão última de uma emancipação que não fazia mais sentido. Habermas, ainda numa posição de 153 Principalmente após a derrocada do socialismo real, pós derrubada do muro de Berlim, e a perplexidade de tais autores frente a esta conjuntura. 154 Podemos acrescentar o trabalho de Habermas que segue linha semelhante, apesar de ainda realizar diferenciações entre o pensamento progressista e conservador. 290 esquerda, resistindo a um compromisso com o pós-moderno, mesmo assim atribuiu a idéia à direita, formulando-a como uma representação do neoconservadorismo. Comum a todos era a subscrição dos princípios do que Lyotard – outrora o mais radical – chamou de democracia liberal como o horizonte insuperável da época. Não podia haver nada mais que o capitalismo. O pós-moderno foi uma sentença contra as ilusões alternativas. (idem, pp. 53-54) Diante da impossibilidade de combate e superação a um capitalismo incontestavelmente “vitorioso” e de uma sociedade fragmentada que impossibilita saídas alternativas totalizantes, o “que fazer”? A resposta nos parece ser um pragmatismo frente a defesa de agendas igualmente fragmentárias, construindo um “cada grupo por si”. Harvey percebeu claramente esse movimento: Mas se, como insistem os pós-modernistas, não podemos aspirar a nenhuma representação unificada do mundo, nem retratá-lo com uma totalidade cheia de conexões e diferenciações, em vez de fragmentos em perpétua mudança, como poderíamos aspirar a agir coerentemente diante do mundo? A resposta pósmoderna simples é de que, como a representação e a ação coerentes são repressivas ou ilusórias (e, portanto, fadadas a ser autodissolventes e autoderrotantes), sequer deveríamos tentar nos engajar em algum projeto global. O pragmatismo [...] se torna então a única filosofia da ação possível (idem, 2007, p.55). Mas este brilhante marxista vai mais além, pois, identifica o pósmodernismo como um “produto ideológico do próprio capitalismo” (HARVEY, 2007. p. 107), exacerbando a alienação, produto do próprio desenvolvimento dos das relações de produção em sua fase de acumulação “flexível”, dessa forma o pósmodernismo não seria uma ruptura com o moderno, nem algo novo, mas uma forma ideológica de percepção da realidade, cujo fetiche obscurece as relações socais entre as classes. Entende, portanto, que o referencial marxiano é fundamental para desvendar tais contradições do atual. (HARVEY, 1993. p. 307). Sobre esse tema Carcanholo e Baruco (2008) afirmam: Nesse sentido específico... o pós-modernismo não representaria nenhuma novidade. A pós-modernidade não é uma nova era, uma nova sociedade (pósindustrial e pós-classista). A forma histórica, sobre a qual o pós-modernismo constrói as suas fundamentações, é produto do próprio capitalismo, em determinadas conjunturas histórico-sociais. Isso nos permite retirar mais duas conclusões a respeito do pensamento pós-moderno em sua relação com o capitalismo... a defesa do pós-modernismo como uma nova era, para além do capitalismo, confunde uma determinada forma histórica com o seu conteúdo (idem, p.9 ). É importante ressaltar que a acumulação flexível só foi possível pela própria lógica do capital que tende a sua auto-valorização que opera uma 291 verdadeira transformação tecnológica e social155, modificando a forma de se produzir e as relações de produção. Portanto não seria o surgimento de uma sociedade que teria acabado com a divisão de classes sociais, mas a própria condição subsumida dos trabalhadores (MARX,1971), pressionados pelo desemprego estrutural que possibilita que os empresários possam definir normas de produção que ampliem a exploração dos trabalhadores em termos relativos e absolutos para níveis impensáveis até então. Deste modo, seria a hegemonia do capital financeiro, fetiche por excelência, que tornaria as “relações sociais entre o capital e o trabalho praticamente invisíveis” (IAMAMOTO, 2007, p. 21). Para Carcanholo e Baruco, (2008) a explicação para as complexas relações sociais na atualidade reside na tradição marxista156, pois, a lógica fetichista do capital combina de forma dialética a privatização da vida cotidiana, o culto à identidade micro157 e aos guetos, com a expansão totalizante e mundializada dos mercados globais, isto é, a postura pós-moderna com a lógica do capitalismo neoliberal e mundializado (idem p. 12). Dito isto entendemos que seria somente aparente a contradição entre a fragmentação e heterogeneidade atual e a lógica totalizante do capitalismo, conforme demonstra os autores (CARCANHOLO ; BARUCO, 2008): Essa contradição se manifesta na apologia da soberania do consumidor, individual, atomizado, casuístico em suas escolhas, mas que, para tanto, necessita obrigatoriamente subsumir-se aos desideratos do próprio mercado, uma vez que, para consumir, é necessário possuir dinheiro, e, para isto, não há alternativa a não ser vender previamente algum produto do qual seja proprietário/produtor. Entretanto, se esse produto não possui aceitação social (demanda), isto é, se esse trabalho privado não obtiver confirmação social, a soberania do consumidor está fadada a restringir-se ao terreno das possibilidades não efetivadas. Que soberania do indivíduo é essa que só se efetiva em razão daquilo que o social (expresso, no capitalismo, pela divisão social e mercantil do trabalho) permite? Assim como a democracia, a soberania do individuo no consumo, valores tão caros à ideologia neoliberal, e ao pensamento pós-moderno, parece se restringir ao campo do meramente formal, vazio de conteúdo (idem, p. 12-13)” Essa subordinação da sociedade ao mercado e a identificação social do indivíduo pela sua capacidade de consumo explicam o pragmatismo reinante, resultante do abandono de bandeiras de luta coletiva. O mesmo alimenta a discussão da afirmação das identidades fragmentadas. Nesta lógica, a representação dos grupamentos sociais dentro da elite e não a destruição dos esquemas de dominação. A discussão passaria então para falsa dicotomia 155 Mézàros (2002) sobre o tema da incontrolabilidade do capital, que pode levar a destruição da humanidade, se novas alternativas não forem construída. 156 Afirmação que concordamos nesta tese, portanto, não podemos tratar a questão das cotas isoladamente, mas dentro das complexas relações que a engendram no capitalismo contemporâneo 157 Raça, gênero, geração, etnia, religião, etc, descontextualizada do viés de classe. 292 inclusão x exclusão, representação x sub-representação, em detrimento de estratégias de organização social no campo de ampliação de direitos, ou mesmo de alteração do sistema constituído. Portanto para desvendar a aparência dos traços da organização da sociedade contemporânea, não se pode cair na armadilha de achar que podemos resolver isoladamente a desigualdade através da questão gênero, geração, etnia, etc, sem que sejam questionadas ou se vise à resolução das condições de dominação da sociedade capitalista como um todo. Entendemos que o lastro pós-moderno encontra-se em consonância com hegemonia do capital financeiro, pois, não considera as possibilidades de transformação de sua dominação. Por isso, a importância da utilização do referencial marxiano para o debate das cotas, no sentido de auxiliar no descortinamento da essência das relações sociais que engendram a discriminação social e racial como forma de manutenção da ordem vigente. Após esse necessário aporte para o debate, voltemos à análise da produção literária na abordagem crítica. Verificamos que neste campo, podemos aglutinar argumentações e posicionamentos distintos quanto à política de cotas raciais no Brasil, numa visão perpassada pelo viés socialista, que vão desde a negação desta política até o entendimento de sua importância estratégica num processo maior de luta no seio da luta de classes, sem que a questão das cotas raciais esteja descolada da perspectiva de enfrentamento da questão social prioritariamente dita. Os principais autores dessa perspectiva são Mário Maestri, Valério Arcary, Marcelo Badaró Mattos, Mauro W. Barbosa de Almeida, dentre outros. Como já vimos anteriormente, o racismo e as desigualdades raciais são realidades empíricas já comprovadas por uma série de dados estatísticos, como vimos nos capítulos anteriores. Florestan Fernandes (1978) já abordou o tema entendendo que as relações de dominação dos negros no Brasil eram características históricas de um determinado tipo dominação de capitalista engendrada na sociedade brasileira que mantiveram a permanência das desigualdades raciais mesmo no pós-abolição. Este debate tomou vulto no Brasil com a instituição de cotas nas universidades, principalmente no que tange as formas de enfrentamento da 293 questão. A polêmica sobre as ações afirmativas teve como marco a virada do século XIX para o século XX e mais especificamente o movimento negro brasileiro da década de 1930, que sempre pleiteou medidas compensatórias pelo passado escravista e a persistência da discriminação racial no país. Sobre o tema Mario Maestri (2007) afirma que em meados de 2006, manifesto o parlamento contra os projetos que propõe a discriminação positiva de brasileiros com afro-ascendência relançou a discussão sobre o combate as seqüelas do racismo, jamais enfrentada sistematicamente pela esquerda marxista (idem, p. 94). Esse autor nega, portanto, a existência de uma questão racial no Brasil moderno. Para o mesmo, jamais houve exclusivismo racial na exploração, mesmo cabendo em algumas regiões o papel de sub-proletariado para o negro. Para ele, a proposta de país dividido em brancos exploradores e negros explorados e de trabalhador branco privilegiado pela super-exploração do negro seriam “sandices” apoiadas na manipulação das estatísticas e dos fatos econômicos. Entendemos que Maestri somente reconhece a existência de uma questão social, baseada na divisão de classes. Continuando, o mesmo autor atribui à ampliação deste debates há organizações como a Fundação Ford, que nos anos 80 do século XX iniciou uma apologia das ações afirmativas entre militantes negros158. Ainda que não seja o objetivo desta tese a comprovação de tais afirmações, é certo que parte do movimento negro passou a aceitar a máxima pós-moderna de que, também, no Brasil não existiria classes sociais, mas etnias — privilegiadas ou discriminadas, coeridas por valores interesses únicos que deveriam organiza-se isoladamente, ou seja, conforme a discussão anterior. Podemos inferir que tais organizações do movimento social brasileiro aderiram à lógica pragmática. Continuando a apresentação de Maestri, o autor analisa que foi nos anos 90, que a proposta de racialização do Brasil ganhou as lideranças negras, dos frágeis setores médios, ao prometer-lhes funções representativas na sociedade e conquistas pontuais, ainda que nada oferecendo a massa negra marginalizada. Portanto, entendemos, que esta seria a depressão dos valores universalista, racionalista, socialista que proporcionou terreno fértil para tal discussão. Uma 158 Sobre o tema conferir Bourdieu e Wacquant (2002) 294 vitória ideológica da contra-revolução neoliberal, visto que o atendimento pontual de demandas, necessariamente não traria uma ampliação dos investimentos que comprometesse a redução proposta para o Estado, ao contrário da ampliação do investimento em políticas sociais universais. Ainda sobre o trabalho de Maestri (2007), o autor afirma que a vitória da idéia de democratização da sociedade baseada na raça, estaria muito mais garantindo critérios raciais para distribuição de privilégio, em detrimento da luta unitária pelo mundo do trabalho. Ou seja, a racialização somente fracionaria O mundo do trabalho e dificulta a luta unitária por reivindicações possíveis de serem obtidas imediatamente. A proposta de identidade racial por sobre os interesses de classe apresenta como conquista a promoção de membros dos grupos étnicos, abandonando o combate da exploração pela democratização racial do privilégio. (MAESTRI, 2007. p. 97/98) A justificativa para o uso de ações focalizadas como as cotas é explorada criticamente por Maestri (2007,p.98) ao afirmar “os direitos universais não diminuem as desigualdades raciais, o problema não é mais a pobreza da população negra, mas o fato que não há negros ricos”, portanto, ele realiza uma crítica mordaz e pertinente sobre a idéia de representação X sub-representação das minorias na elite. Neste sentido, para o autor, os defensores das cotas considerariam um avanço social a diminuição das desigualdades raciais nos espaços de poder econômico ou simbólicos, ainda que, haja mais negros na miséria, o avanço seria haver mais negros em situação privilegiada. O mesmo autor afirma que a luta deve ser na sua totalidade, isto é, punir o trabalho informal, expandir o emprego, garantir saúde, educação, segurança, etc. para todo o habitante do Brasil, constituem a única forma de garantir direitos essenciais aos setores mais desprotegidos, entre eles, os afro-descendentes pobres. Maestri (2007,p.97), ainda assim, admite que as reivindicações de direitos universais deixam de fora as “necessidades específicas de segmentos étnico, etário, minorados etc., singulares que devem ser atendidas através de pauta específica dirigida, entretanto, para todos os necessitados, e não a privilegiados”. Portanto esse autor, pautando-se na dialética marxista nega veementemente a possibilidade das cotas como um avanço, classificando-as de privilégio. Para Sergio Lessa (2007,p.104) o debate das ações afirmativas só aumentaria o racismo já existente na sociedade brasileira, lhe acrescentando 295 contornos contemporâneos. Portanto, o autor corrobora com a idéia de que as cotas não abolem — apenas renovam e, assim, reforçam — “as várias modalidades de racismo contemporâneo, o qual se caracterizou por ter fundamento de classe articulado a inédita justificativa pós-moderna”. Lessa (2007) critica as políticas afirmativas ao destacar que As políticas afirmativas possuem pressupostos rigorosamente incompatíveis com a concepção de mundo revolucionário. Pois, em primeiro lugar, postulam que, diferente do passado, a sociedade contemporânea seria muito “mais complexo”. Por isso suas contradições não seriam mais predominantemente determinadas pela forma de produção do conteúdo material da riqueza social. Diferente do passado, hoje a sociedade seria multi-polarizada por determinações de várias ordens que se entrecruzasse em uma processualidade marcada pela fragmentação das causas e seus efeitos, pela inconstância e novidade quase infinitas. Esta “operação ideológica” termina invariavelmente na surrada estratégia da via democrática e das conquistas parciais dos “de baixo”, conquistas que incluíram, claro, as cotas. Cancela-se o momento predominantemente exercido pela produção do “conteúdo material da riqueza social”, remove-se a universalidade das determinações de classe nas sociedades que conhecem a exploração do homem pelo homem, parcelam-se os processos de exploração em distintos e autônomos momentos de construção das diferenças e funda-se nas diferenças particulares, no limites individuais, as causas últimas dos processos históricos: não chegamos por esta via tortuosa, à concepção de um mundo típica de um Descarte, Locke ou Rosseau, que viam na natureza do indivíduo a essência da sociedade? Com as cotas, a esquerda a ela aderiu importa também toda uma concepção de mundo burguesa que a desarma e a enfraquece. (LESSA, 2007, p. 104). Lessa (idem) levanta a questão da reserva de vagas (cotas) para o caso das universidades públicas, denunciando o que acredita ser uma incompatibilidade entre a luta pela universalização de direitos e as demandas focalizadas na questão das identidades pós-modernas. Segundo ele, “todos [que] lutam pela universalização do ensino público, gratuito e de qualidade, acabam ajudando a organizar os negros e os indígenas a lutarem por suas cotas, reduzindo assim as vagas para os brancos, asiáticos e europeus” (idem, p.104). Para Lessa (idem) esta contraposição de corporativismo de uma raça contra o de outra seria um equívoco, pois, apenas reforça o racismo inerente a uma sociedade de classe, pois o que de fato contrapõe o índio, o negro e o branco não é a etnia, “mas o preconceito que erradia da dominação de classe e da existência da exploração do homem pelo homem, após tantos milênios sob a regência da propriedade privada” (Idem, p. 104). Ainda seguindo essa linha de raciocínio, Lessa (2007) denuncia categoricamente que As políticas afirmativas, entre elas as cotas, reproduzem e renovam os preconceitos e racismo de todos os tipos ao invés de combatê-los; fortalecem o 296 particularismo e o espírito corporativo, desarmam e enfraquecem a crítica revolucionária da sociedade e, por fim, dividem os trabalhadores entre as diferentes raças dificultando a luta contra o capitalismo. (Idem, p. 105) Sobre o mesmo tema o também marxista Valério Arcary (2007, p.105) afirma que a adoção das cotas seria um passo em direção à máxima “de cada um de acordo com a sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade”, uma máxima socialista. Não nos parece que este argumento seja procedente, pois não pode ser generalizada a toda reprodução social e muito menos porque as cotas ao desconsiderarem as determinações de classe, terminam sendo apenas uma nova forma de aplicação do velho e surrado direito burguês. Também homogeneízam os indivíduos das diferentes raças ao cancelarem seu pertencimento de classe. Num caminho oposto ao de Arcary, Ferreira Gullar (2006), também generaliza a questão, afirmando que Viabilizar a entrada de pessoas de cor negra ou parda e de índios no ensino superior é um processo louvável, mais o que estão sugerindo é um critério que deveria ser anti-discriminatório e que acaba por discriminar os brancos pobres. O problema não é de cor, é de desigualdade. (GULLAR, Correio Braziliense. 25 jul. 2006) Assim como Gullar (idem), José de Souza Martins (2007) possui uma postura essencialmente contrária às cotas ressaltando que o negro ao propor as cotas busca obter o privilégio dos brancos, portanto, está pensando da mesma forma que o dominante, abandonando a luta social em torno da emancipação. Segundo este autor, A mistificação das cotas e dos privilégios compensatórios faz do negro um branco, o branco que não sabe pensar nem ver o mundo além do horizonte branco da privação de humanidade que impôs a outro. Não faz dele um cidadão informado pelos clamores justos e necessários da consciência negra. Mistificar a história e a consciência da própria desalienação é alienação pura e simples. Como o branco o negro nunca foi no Brasil um paladino da liberdade. Nem podia havia escravidão em Palmares. Escravos que recusavam a fugir das fazendas e ir para os Quilombos eram capturados e convertidos em cativos dos Quilombolas. A luta de Palmares não era contra a iniqüidade desumanizadora da escravidão. Era apenas recusa da escravidão própria, mas não da escravidão alheia. As etnias de que procederam os escravos negros no Brasil praticavam e praticam a escravidão ainda hoje na África. Não raro capturavam seu iguais para vende-los aos traficantes. Ainda o fazem. Não faz muito tempo os bantos, do mesmo grupo linguístico de que procedem Zumbi foram denunciados na ONU por escravizarem pigmeus nos Camarões. Uma luta social que se omite em relação a essa verdade histórica não emancipa. O negro se anula nesse trocadilho ideológico. Age como branco pensando ser negro. Dar um passo além dessa cegueira história depende do milagre da visão, da consciência crítica necessária para situar a práxis libertadora no horizonte da liberdade. Quem faz história como vingança e castigo, nem vinga nem faz história, porque anula no ato a verdade e a necessidade do outro. Anula a mediação fundamental que 297 humaniza a práxis e faz dela instrumento não só de liberdade formal mas de liberdade e emancipação reais. O negro não se libertará nem se emancipará se não compreender a dialética da libertação e da práxis. Ele só será livre e emancipado se libertar e emancipar o branco que se apossou não só do seu corpo na escravidão, mas também de sua alma, na liberdade que lhe deu. (MARTINS, 2007, in: FRY; MAGGIE; et al, 2007. p. 99) Já Mauro W. Barbosa de Almeida (2007,p.98) reconhece que a discriminação racial no Brasil é a mais nítida de todas as discriminações, e diferente de Maestri propõe que as lutas entre os explorados deva combater e reconhecer a existência de todas as formas de exploração, afirmando que a discriminação racial é um dos principais exemplos de discriminação, ao lado da discriminação de gênero e de várias outras. A luta contra todas essas formas de discriminação e de segregação deve ser uma pré-condição para uma verdadeira unidade da luta dos explorados, uma unidade que parte do reconhecimento da igualdade como síntese das diferenças, e não da igualdade que pretende anular com método Pro custo. (ALMEIDA, 2007, p. 98) Mas ao contrário dos argumentos pós-modernos, Almeida (Idem) enfatiza que a história de classes persiste central na contemporaneidade destacando, que A história contemporânea continua a ser a história das lutas de classe, mas não mais com uma única classe protagonista de proletários unidos pela identidade de seus modos de vida e de trabalho, mas uma rede ilimitada de excluídos e desapropriados aglutinados pela exclusão social e pelo conflito de seus interesses com a ditadura do mercado em escala mundial. Dessa forma, um desafio teórico para os socialistas constitui hoje precisamente em captura a articulação complexa entre as contradições principais e as contradições secundárias, e extrair as conseqüências do fato de que as contradições secundárias podem tornar-se sobre-determinantes em determinados contextos (Idem, p. 100). O autor reconhece que as políticas de Estado orientadas para reduzir a discriminação racial e a resultante segregação racial de facto são resultados, de movimentos sociais nacionais ou da internacionalização de lutas contra a segregação em países como África do Sul e Estados Unidos. Para ele, seria leviano afirmar que a luta contra a discriminação e a segregação racial não tiveram efeitos importantes nos países citados. Ainda assim esta não eliminou as desigualdades sociais, porém a unidade dos trabalhadores não pode existir sem o reconhecimento do sentimento de humilhação e rebaixamento de parte dos trabalhadores, sejam eles mulheres, negros ou deficientes físicos. O autor, portanto, acredita que as medidas de ação afirmativa, em momento algum, ferem a universalidade de direito, e sim, ferem a nãouniversalidade de direitos, uma concepção perversa de igualdade que é expressa 298 pelo chamado de “Princípio de Pareto”. Tal princípio afirma que é inadmissível qualquer transferência de patrimônio que afete o privilégio, ainda que de uma única pessoa. Entendemos, portanto, baseados nesta afirmação, porque houve grande reação das elites em torno das cotas, pois, na prática ela “dividiu” um privilégio histórico das classes dominantes. O autor continua sua preleção indicando que para os socialistas e, mesmo para os liberais humanistas, a autêntica igualdade universal não implica tratar desiguais como se fossem iguais. Assim como Arcary ele acredita que ela se expressaria da mesma forma: “de cada um segundo sua capacidade, e a cada um segundo sua necessidade”. Para finalizar Almeida (2007) analisa positivamente o fato do tema ação afirmativa ter um caráter importante de denúncia do racismo e discriminações que já existem na sociedade brasileira, e no caso do movimento negro, afirma ainda Que os movimentos populares negros não precisam introduzir o racismo no Brasil, já que este sempre existiu e continua a existir”. Os movimentos de ação afirmativa querem forçar a sociedade a refletir e a agir face a extrema desigualdade social e ao endêmico e hipócrita racismo a maneira brasileira, que impõe aos negros como virtude precisamente silenciarem sobre o preconceito de que são vítimas. Índios, negros, mulheres, deficientes físicos: todos esses grupos exigem um tratamento diferenciado para que os direitos de cidadania sejam de fato universalizados. (Idem, p. 101). Dentro da abordagem crítica, entendemos que Marcelo Badaró Mattos (2007) traz as contribuições mais importantes e aprofundadas sobre o tema, inclusive analisando o que considera equívocos no que classificamos nesta tese de abordagem racial pró e anti-cotas. O autor defende também a importância política do termo raça, numa sociedade perpassada pelo racismo como a nossa. Segundo ele, o debate sobre o racismo na sociedade brasileira só ganhou novas dimensões no fim do governo Fernando Henrique Cardoso. Desde então, surgiram propostas concretas de políticas afirmativas baseadas no estabelecimento de cotas para ingresso no serviço público reservadas a pretos e pardos e legislações estaduais (como a do Rio de Janeiro) estabelecendo reservas de vagas para ingresso na Universidade de pretos e pardos. Posteriormente as próprias Universidades se abriram a tal discussão e atualmente mais de sessenta universidades públicas que adotam algum tipo de ação afirmativa, seja por cota, sejam com adicional levando em conta raça e 299 situação econômica. Os argumentos de Mattos (2007), dentro desta perspectiva crítica, são dos mais interessantes, pois, descortinam sob a ótica do referencial marxista, os vários argumentos anticotas que não se sustentam teoricamente. Sua análise revela a utilização do método marxiano, pois, o autor partindo do abstrato, ou seja, dos mesmos argumentos utilizados por outras abordagens, consegue nos apresentar um concreto pensado, como veremos a seguir: Assistimos na grande imprensa, que se agarram à meritocracia — “os melhores e mais capazes serão preteridos” — para defender o vestibular. Este se constitui, na verdade, em um enorme funil criado na universidade pública, para deleite das privadas do ensino superior e dos cursinhos, já que o acesso a um curso superior no Brasil não atinge sequer 10% dos jovens em idade universitária e, destes, menos de 25% estão nas universidades públicas. (MATTOS,2007. p. 179) O autor critica a afirmação da exclusão de estudantes pobres na universidade, dentre eles os negros, para demonstrar que o acesso não era permitido em cursos de maior status e cujas vagas foram historicamente preenchidas pela classe dominante, o que não seria o caso dos demais cursos voltados para reprodução da mão de obre em diversas profissões. Conforme dados estatísticos sistematizados por Stubrin (Apud MATTOS, 2007, p. 179) “70,8% dos matriculados em instituições de ensino superior públicas possuem renda familiar inferior a R$ 2.400,00; percentual nas privadas é de 58,4%”. Com bases nestes dados podemos afirmar que o ensino superior público já perfaz uma maioria de estudantes com menor renda. A novidade trazida pelas cotas, portanto, foi à introdução de estudantes carentes nos cursos mais disputados do vestibular, pois vários estudos mostraram que os alunos considerados “inaptos” para cursarem a universidade obtiveram desempenho igual, ou melhor, aos nãocotistas. Badaró então conclui que os argumentos da meritocracia não se sustentam.159 Também, para ele, não merecem maior atenção às denúncias de “fraudes” de brancos que se identificam como pardos para enganar os critérios autoidentificatórios que se estabelecem. Segundo Mattos (2007,p.179) no Brasil, o “preconceito racial não se construiu sobre provas de sangue, mas sobre uma 159 As conclusões foram baseadas no relatório da Comissão de Avaliação da UERJ e pode ser encontrado no site:< www.2.uerj.br/~.cpa > 300 clara identificação da cor como estigma e toda a luta histórica dos movimentos sociais anti-racistas” são pela assunção da identidade de negro, de forma a superar os traumas sociais provocados pelo estigma. E embora sejam conhecidas as imensas listas de títulos auto-atribuídos por aqueles que buscam fugir deste estigma (como nos censos de resposta aberta, as auto-definições de morenos, marrons, chocolates, escurinhos, etc...), o fato é que a auto-identificação é um processo positivo em curso, de conscientização sobre o racismo e a necessidade de organização para sua superação e garantia dos direitos fundamentais. Ainda assim, a tentativa de responder a esse tipo de crítica estabelecendo critérios de identificação racial fenotípica — como fotos, entrevistas, e “análise por especialistas” —, como inicialmente procedeu a UnB ao introduzir o sistema de reserva de vagas, foi um equívoco, pois levou a erros ainda maiores, reintroduzindo a perspectiva racialista da virada do século XIX ao XX, e reforçando a insustentável idéia da existência biológica de raças humanas distintas, identificáveis por características genéticas ou fenotípicas. Mattos (2007) enfatiza que “as cotas não estimulam a discriminação de negros contra brancos, introduzindo a idéia de raça no debate social e político”. Para ele o resgate da democracia racial de Gilberto Freyre, por Ali Kamel (2007), dentre outros autores em contrapartida das idéias de Florestan Fernandes, Oracy Nogueira, entre outros, é que tem dividido o Brasil entre brancos e negros. O autor concorda que os dados estatísticos, que demonstram claramente porque, do ponto de vista das condições sociais, a idéia de uma população negra, reunindo as classificações censitárias de cor “preto” e “pardo”, faz todo sentido. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2004, por exemplo, demonstra que o percentual de analfabetos pardos (15,6%) é inclusive superior ao de negros (14,6%), ambos equivalentes a mais do dobro do percentual dos brancos (7%). Mas, pode-se também argumentar com os dados da realidade ainda mais empiricamente palpáveis. Ele crítica autores que negam a discriminação baseada na cor, ao afirmarem que este ente abstrato — “a nação” — é anti-racista, nunca devem ter assistido a situações em que o negro ou pardo foi discriminado, inclusive por elementos que pertencem ao poder público, principalmente policiais. 301 Mattos (2007) contrapõe também as argumentações acríticas dos defensores do modelo das cotas, vejamos Há também argumentos frágeis entre os que defendem as cotas. Pensamos aqui, por exemplo, naqueles que se apóiam acriticamente no modelo estadunidense para defender a proposta de inclusão do negro nos extratos intermediários da sociedade. É fato que o racismo nos Estados Unidos, apoiavase em um modelo próprio de segregação legalizada, que só foi quebrado pela luta de negros e negras pelos direitos civis, nos anos 60. Políticas de ação afirmativa foram importantes conquistas daqueles anos e nos últimos tempos se percebe, no bojo da onda neoliberal/conservadora de esforço do capital para retirar direitos, um claro objetivo conservador de por fim a tais políticas, que corretamente tem sido combatido pela resistência dos movimentos negros e da esquerda estadunidense. Mas, conhecedores dos processos históricos complexos, sabemos que conquistas parciais das classes subalternas são muitas vezes compensadas por manobras das classes dominantes que anulam seu raio 160 de ação e limitam sobremaneira sua efetividade . Pensemos por exemplo, em como as conquistas democráticas da classe trabalhadora e seus aliados, desde o século XIX (como o sufrágio universal), foram tendo seus efeitos minorados pelas manobras dos dominantes (instituindo fórmulas bicamerais de legislativo; colégios eleitorais, regimes bipartidários e mais recentemente os mecanismos — “marketing eleitoral”, entre outros), de forma a evitar um real exercício de poder popular através do voto”. Ou, no caso das lutas sindicais, em que as conquistas trabalhistas do século XX foram acompanhadas de intensas manobras para a incorporação dos dirigentes e organizações de classe aos desígnios do Estado e do capital, facilitando mesmo, nos últimos 30 anos, a retirada de muitos dos direitos conquistados [cf. ANTUNES, 1999]. (Idem, p. 183) Vale ressaltar que nos Estados Unidos da América, mesmo com a existência de cotas nas universidades e empregos, a imensa maioria dos negros de lá continua a viver na pobreza, no gueto ou pior, na prisão. Destaca Mattos (2007, p.184) “que os Estados Unidos possui 5% da população mundial e deste percentual 25% da população total de prisioneiros do mundo e, além disso, do percentual anterior 45% são negros”. É um fato alarmante para os dias atuais, principalmente num país que forma a maior economia do mundo. Portanto, segundo ele não haverá solução para o racismo, como não há para o verdadeiro exercício do "poder do povo”: ou para a exploração do trabalho, nos marcos do sistema do capital. Ser individualmente “incluído”, numa sociedade que socialmente excluem tantos, não pode ser visto como a última conquista. Conforme destaca Mattos (2007) A luta de minorias identitárias pela afirmação de seu direito à especificidade, seria deste ponto de vista, a única luta social válida no mundo de hoje. Não podemos concordar com este viés pós-moderno, que abdicou de articular as lutas específicas ao confronto mais amplo pela superação das desigualdades fundamentais. Os impasses a que esta postura pode levar são ainda mais graves quando pensamos na realidade contemporânea, em que conflitos militares, 160 Podemos inferir, neste caso, que apesar das cotas efetivamente inserirem setores historicamente subalternizado na universidade, esta vem passando por um processo de contra-reforma que universaliza a graduação e passa para centros de excelência a diferenciação simbólica de poder. 302 originados da atual configuração do imperialismo, são justificados por critérios identitários, "culturais", étnicos e/ou religiosos. Analisando com cuidado os argumentos de legitimação de alguns dos principais formuladores da "doutrina Bush", observa-se o quanto a matriz identitária e “culturalista” estão a serviço de uma nova onda de discriminação, instituindo-se como um neo-racismo, contra as estigmatizadas imagens da religião, culturas ou etnicidade do Oriente Médio, alvo dos ataques militares, ou da África, também palco dos conflitos militares e de um genocídio econômico-social ainda mais efetivo. (Idem, p. 184) Desse ponto de vista seria estratégico, a defesa do sistema de cotas pela classe e não pela cor, ainda que não desmerecendo, como vimos, a questão da desigualdade do negro na sociedade. Mattos (2007) afirma que o próprio sistema capitalista possui interesse na fragmentação das demandas sociais, conforme já vimos anteriormente ao discutir a questão das identidades pós-modernas, portanto, ao contrário de negar as demandas das desigualdades específicas, Mattos (idem), enfatiza a necessidade de aproximação conforme podemos verificar no trecho abaixo Nesse ponto, podemos tratar de alguns argumentos mais sólidos, que por isso mesmo merecem reflexão mais detida. Um deles é o que se opõe ao sistema de cotas por defender que reside nas classes e não na cor a raiz da desigualdade. O argumento é correto na sua essência. O núcleo duro do sistema a ser superado por qualquer projeto emancipatório consistente é a subordinação estrutural do trabalho ao capital. Porém, não é menos verdadeiro que, no exercício da exploração/dominação de classe, é importante para o capital estabelecer/estimular desigualdades outras, que induzam à concorrência interna e à fragmentação da identidade entre os trabalhadores e produzam "exércitos industriais de reserva" permanentes, ou seja, grupos de "excluídos" que contribuam em seu conjunto para pressionar para baixo a massa salarial. (Idem, 187) O autor entende ainda que nos países onde houve a colonização a partir da mão-de-obra escrava podemos somar à subordinação do trabalho ao capital, as desigualdades complementares baseadas em critérios raciais que a reforçam os mecanismos de exploração. Ainda assim, enquanto existirem as desigualdades raciais, mesmo que o conceito de raça já tenha sido cientificamente descartado pelos estudiosos, o uso da categoria raça se faz necessário, com objetivo claro de se oporem ao racismo, afirmando a sua história e importância cultural. Ainda segundo Mattos (2007) a intensificação da luta de classes na segunda metade do século XIX, historicamente é diretamente relacionada à história do negro, com apoio do movimento abolicionista, além de brancos pobres. Dessa forma o autor recupera a importância da solidariedade de classe neste contexto, certamente no sentido de realizar um paralelo com o tempo atual em que a fragmentação social coloca os grupos em campos de luta diferenciados. 303 Segundo o autor: Devemos destacar que se a origem do racismo brasileiro pode ser encontrada nos quase quatro séculos de escravidão, sua presença e resignificação após a abolição legal do trabalho escravo atendeu a outros imperativos históricos. Diante da imposição imperialista inglesa do fim do tráfico de escravos, em 1850, a classe senhorial brasileira se viu frente ao dilema da substituição da força de trabalho nos espaços de ponta da economia agro-exportadora. Buscou, sempre que pôde, adiar ao máximo o fim da escravidão e manter formas de trabalho compulsório para além daquele momento. A intensificação da luta de classes na segunda metade do século XIX, ou seja, a maior mobilização dos negros, escravos e ex-escravos, com apoios significativos dos trabalhadores ditos livres e dos setores médios urbanos, foi responsável última pela abolição de 1888, fato que poderia ainda ser postergado por muitos anos se dependesse apenas da vontade senhorial. É neste contexto, de temor branco/senhorial, pela mobilização e luta dos dominados negros/escravos e seus aliados, que devemos entender o sucesso da importação das teorias cientificistas européias, que sustentavam e (em parte significativa do senso comum, ainda sustentam) o racismo brasileiro. As críticas ao racialismo cientificista que surgiram no pós-30, foram muitas vezes mitigadas por uma negação do racismo, baseada na idéia (quase sempre sustentada em comparações com o caso estadunidense) de que a miscigenação entre nós seria a prova maior da existência de uma sociedade com igualdade de oportunidades para todos, restando explicar as desigualdades objetivamente existentes, como resultado de inaptidões individuais, ou de um "peso do passado" escravista, cuja superação se daria progressivamente. (Idem, p. 189). Mattos (2007) ressalta um elemento importante para o debate ao afirmar que Cabe enfrentar aquele que parece ser o mais sólido argumento contra as cotas. Trata-se da defesa, de um ponto de vista referenciado no socialismo (não na perspectiva liberal de Kamel, Maggie e outros, que também se apresentam como defensores do Universalismo, mas como "igualdade de oportunidades", mediada por outros critérios, como o "mérito"), de que nossa luta é pela igualdade social e a bandeira adequada a esta luta é a da universalização dos direitos, como o direito de acesso ao ensino superior. Assim, nossa luta deve ser pela melhoria da qualidade e pela universalização do acesso ao ensino fundamental e médio, bem como pelo fim da barreira do vestibular e pela universalização da universidade pública. (Idem, 193) A originalidade do pensamento desse autor está também em sua análise das desigualdades de acesso e permanência ainda no ensino médio161. Para ele, no Brasil, de acordo com dados do IBGE/2007, menos de 10% dos jovens em idade universitária freqüentam o ensino superior. Porém, se multiplicássemos por três o número de vagas nas universidades, não teríamos estudantes aptos a cursá-las, pois menos de 25% dos jovens brasileiros completam o ensino médio. E se os negros somam hoje cerca de 50% da população, representam menos de 44% dos estudantes do ensino médio. Ou seja, no quadro atual da educação 161 O que pode ser comprovada, como já descrito nesta tese, pelo fato de sobravam vagas de cotas no vestibular da UERJ, por exemplo. 304 brasileira, qualquer meta de expansão do ensino superior dirá respeito a menos de ¼ dos jovens brasileiros e políticas afirmativas terão o potencial de incluir um percentual ainda menor de jovens negros. Portanto, a transposição numérica da representação populacional para pensar as cotas, não levaria em consideração a condição dos estudantes negros no ensino médio. Mattos (2007) critica as políticas dos últimos governos que ampliam as vagas nas universidades públicas, afirmando que estão longe da universalização. Desta forma, Por isso, afirmamos que, não apenas as propostas de cotas raciais, ou para estudantes de escola pública, como o conjunto de políticas anunciadas pelos últimos governos em direção ao aumento de vagas nas universidades estarão longe de representar algo próximo a políticas universalizantes, pois que estão desacompanhadas da necessária ampliação do ensino médio, o que só poderá se dar pela via da escola pública. Neste caso, sequer se tratam de políticas focalizadas, no sentido daquelas direcionadas aos mais pobres entre os mais pobres, como propõem os organismos financeiros internacionais, a não ser que invertamos a lente do foco, pois os atingidos por políticas diferenciadas de acesso ao ensino superior tendem a ser os menos pobres entre os mais pobres, pelas barreiras já existentes no ensino médio. A focalização está no princípio de só concentrar verbas públicas (e mesmo assim sabemos que em quantidade insuficiente) no ensino fundamental. (Idem, 194) Em proposta da Associação Nacional de Docentes de Ensino Superior (ANDES) denominada “Uma proposta para o Brasil de hoje” é explicitado que ao pensar em políticas afirmativas para a educação no Brasil de hoje, não se pode falar apenas da Universidade. Na direção da universalização do direito à educação, devemos começar por discutir políticas afirmativas no ensino médio, apoiando e ampliando a escola pública naqueles territórios em que se concentram os setores mais pauperizados da classe trabalhadora (que, por óbvio, face os dados acima expostos, concentram maiores percentuais da população negra) e em que as condições atuais de sobrevivência da escola pública estão seriamente ameaçadas, pela violência urbana, abandono do poder público e insegurança/ desvalorização dos profissionais de educação162. Mattos (2007) afirma que somente uma perspectiva universalista de direito a educação pode resolver a questão das desigualdades persistentes O sistema de reserva de vagas não é uma resolução para o problema da desigualdade racial e do racismo e qualquer perspectiva de solução definitiva deste problema deve referenciar-se na luta pela superação da desigualdade fundamental entre capital e trabalho, que a desigualdade racial reforça (e pela qual é gerada e reforçada). Não é também a solução definitiva para o problema da restrição de acesso ao ensino superior no país. Devemos sim trabalhar pela 162 Proposta mais detalhada neste sentido está presente em ANDES-SN, 2005. 305 universalidade do direito de acesso ao ensino superior público, distinguindo claramente nossa concepção de universalidade/igualdade na perspectiva da superação da sociedade de classes, da concepção liberal de "igualdade de oportunidades" ou "eqüidade': limitada pelos supostos "méritos" e "competências" dos indivíduos. No entanto, reconhecendo social e historicamente que a universidade no Brasil de hoje não é um direito universal, restrito que é o acesso pelo exame vestibular e pelos funis anteriores do ensino básico, defender a perspectiva universalista em abstrato, opondo-a a defesa das ações afirmativas na forma da reserva de vagas é permanecer concedendo que entre o conjunto dos excluídos do ensino superior, para além do corte classista continue se sobrepondo o corte racial, de forma que o setor mais explorado da classe trabalhadora continue a ser o que encontra mais barreiras para chegar ao ensino superior. (Idem, 195) A defesa de um universalismo abstrato contra as cotas só tem fomentado a ampliação do espaço público de um setor mais conservador do movimento negro, que desvincula em seu discurso a questão racial da exploração de classes, prega a "inclusão" com convivência harmônica e se constitui em baluarte na sociedade civil das propostas privatistas do Executivo, de transferência de recursos públicos para as instituições privadas, na modalidade da isenção fiscal, maquiada de política afirmativa, nos moldes do Programa Universidade para Todos (PROUNI). Mattos (2007) não poupa criticas aos defensores do Programa Universidades para Todos (PROUNI), para tal resgata as palavras e Nascimento (2005), ao dizer como é o caso do dirigente já citado da ONG Educafro, Frei David do Nascimento, que valoriza o Prouni, como um programa "DEFENDIDO pelos pobres e criticado pela classe média, [que] vai dar alegria a mais de 40.000 afrobrasileiros(as)". Ou, com argumentos menos sentimentais e mais pragmáticos, para ele: "O Prouni revela duas sabedorias que muitos não perceberam"; a primeira sendo o transformar os impostos em bolsas, para "atender ao movimento social" e a segunda ampliar o sistema de bolsas para as instituições não-filantrópicas. Isto porque "não dá para esperar o 'bolo das vagas públicas crescer' para dividi-lo." (NASCIMENTO, 2005, p. 97 Apud MATTOS, 2007,p.105). A argumentação de que o PROUNI é benéfico aos pobres, segundo MATTOS (idem) é falacioso já que os cerca de R$ 2 bilhões de isenções (sem contar os cerca de R$ 1 bilhão do orçamento do Programa de Financiamento Estudantil – Fies), utilizados para gerar no máximo 300 mil vagas, a maior parte com bolsas parciais, contrastam com a proposta dos reitores das universidades federais que fixaram uma verba de R$ 1 bilhão por ano no seu orçamento, para a criação de 400 mil novas vagas, generalizando o horário noturno. É possível propor formas concretas de enfrentar o problema da desigualdade racial, na perspectiva da universalização do direito de acesso à universidade pública (que se apóia num projeto de transformação social). 306 Discutindo-se, por exemplo, a criação de cotas para negros, descendentes dos povos originários (indígenas), populações quilombolas, sempre oriundos da escola pública (critérios de raça e classe devem se mostrar assim fundidos), mas não apenas estabelecendo as cotas como percentual das poucas vagas hoje existentes e sim as inserindo num programa agressivo de abertura de novas vagas nas instituições públicas de Ensino Superior. Assim, acoplaríamos a política de cotas a uma perspectiva de transição, de conquista relevante, na direção da universalização do direito de acesso. Desta forma também se evita a armadilha de jogar os que ingressam pelo vestibular tradicional contra os que ingressam através dos critérios de cota, abrindo caminho para uma mobilização maior contra a barreira do vestibular, que queremos derrubar. Mattos (2007) defende o fim do vestibular com a ampliação do número de vagas. Para ele, A ampliação das vagas, com no horizonte o fim do vestibular, no entanto, não deve ser desconectada da busca por um padrão unitário de qualidade, baseado na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Assim, é importante ressaltar que defendemos uma ampliação significativa das vagas, mas no ensino superior de verdade (recusamos a modernosa expressão "presencial") e não a partir do ensino à distância, direcionado às licenciaturas para formar profissionais do ensino básico, como propõe o atual governo. Tampouco aceitaremos que as novas vagas sejam abertas em curso de curta duração, sem foco disciplinar/profissional (a "nova" proposta de reestruturação das universidades federais, centrada na implantação de um "ciclo básico interdisciplinar" terminativo e absolutamente minimalista), para que a barreira do "mérito", "vocação" ou "aptidão" se interponha a seguir. Por isso, devemos associar a reserva de vagas a políticas de ampliação do acesso, mas também à abertura de novos concursos para servidores docentes e técnico-administrativos e verbas para manutenção e expansão das instituições públicas de Ensino Superior. (idem, p. 197) É preciso ainda definir um outro elemento aditivo. Hoje, no interior das instituições públicas, há já um grande contingente de estudantes que enfrenta enorme dificuldade de manter-se, pela retração das políticas de "assistência estudantil" nos últimos anos. Sucateados ou privatizados, bandejões e alojamentos não atendem à demanda. Bolsas são insuficientes. É necessário colocar no centro da pauta de reivindicações a garantia das condições de permanência do conjunto dos estudantes nas instituições públicas, cotistas ou não, o que obviamente seria ainda mais necessário com uma eventual ampliação de vagas. Os estudantes, como demonstraram em diversos episódios, como na greve das universidades federais em 2001, já perceberam que a pauta de reajuste salarial, concursos e verbas, apresentada pelos docentes e servidores técnico- 307 administrativos é sua também. Estes, da mesma forma, podem assumir claramente que a luta pelo seu projeto de universidade, deve incluir integralmente a pauta da ampliação do acesso, acompanhada da garantia das condições de permanência, lutando pela inclusão de verbas de "assistência estudantil no orçamento das instituições e pela ampliação em número e valor nominal de todas as modalidades de bolsa oferecidas a estudantes de graduação e pós”. (Idem, p. 197) Em termos de orçamento não é inviável em curto prazo, nem mesmo nas condições atuais, bastando para tanto o simples remanejamento de verbas hoje direcionadas para a iniciativa privada no setor. Isto para não falar da necessidade inadiável para o país da retomada das metas de investimento educacional estabelecidas pelo PNDE original. Portanto, o trato da “questão racial” descolado de uma discussão de classe, inviabiliza a percepção dos projetos em disputa. Em nome da inclusão do negro no ensino superior, se transferem verbas que deveriam ser investidas nas universidades públicas, para o setor privado, não por acaso cujos principais acionistas são do hegemônico capital financeiro163. Portanto, não podemos desconsiderar o fato de o cerne atual da luta de classe está na utilização de recursos do Estado para subsidiar a acumulação capitalista. Neste ponto o autor nos alerta sobre a necessidade do debate sobre as cotas não estar descolado da ampliação do ensino superior público e da defesa da universalidade do direito a educação, como veremos a seguir: Na definição da associação entre a defesa das políticas afirmativas, incluindo a reserva de vagas, nas instituições públicas de ensino superior e a defesa de ampliação das vagas, verbas, quadro de pessoal e condições de permanência, não é possível estabelecer condicionantes quantitativos simplificadores (do tipo mais x% de vagas para a reserva, com x% de incremento orçamentário ou x vagas para concursos de docentes e técnico-administrativos). Tratam-se de princípios e bandeiras que se consubstanciam conforme os avanços e conquistas concretas das lutas sociais. Porém, a combinação da luta pela reserva de vagas com a da ampliação do sistema público de Ensino Superior, em direção à universalização do direito de acesso é hoje um horizonte necessário para a unificação e ampliação de uma frente social dos segmentos interessados na defesa da universidade pública neste país, bem como de todos os que lutam pela superação da sociedade de classes, aí incluída a luta pelo fim da desigualdade e do preconceito raciais (Idem, p. 197). Sobre a importância do Estado neste processo, Behring (2000) nos elucida que a política social configura-se num ponto importante de tencionamento 163 Sobre hegemonia do capital financeiro cf. Iamamoto, 2007. 308 constante por parte dos trabalhadores, por mais que esta não seja por si mesma um projeto de igualdade e equidade de condições entre o capital e o trabalho, sua disputa no campo da luta de classes não pode ser desconsideração, pois, garante a defesa de “condições dignas de existência, face ao recrudescimento da ofensiva capitalista em termos do corte de recursos públicos para a reprodução da força de trabalho” (BEHRING, 2000, p.24) Entendemos, portanto, que a defesa da universalidade dos direitos é na atualidade, uma das agendas centrais da luta de classes, e seus segmentos, pois dela depende o tipo de investimento que incide diretamente a apropriação do fundo público que é de interesse da classe trabalhadora164. No caso das cotas, especificamente, é essencial que o debate seja prioritariamente perpassado pelo viés de classe, se queremos que seja ampliado o contingente de trabalhadores que concluem o ensino médio nas escolas públicas, e possam ter acesso a uma universidade pública, socialmente referenciada. Portanto, ainda que haja uma sub-representação do negro em cursos superiores historicamente voltados para a elite, aceitação da questão racial, desvinculada da questão de classe não pode ser defendida por uma perspectiva crítica, pois, ao contrário de questionar o capital, ela é funcional ao mesmo, inclusive por ser utilizada para justificar o investimento público no ensino superior privado. Ainda assim, a partir de tais afirmações de Mattos (2007), entendemos que assumir as políticas de ação afirmativa165 como parte de uma estratégia de democratização, em nada contradiz a necessidade e a importância das chamadas políticas universalistas. Pelo contrário, as políticas de ação afirmativas e seus instrumentos (as cotas, as bolsas e incentivos, a priorização de investimentos para grupos sociais historicamente discriminados, os programas educacionais e a formação de educadores para o combate à discriminação, a valorização cultural, etc.), apesar de seu aspecto compensatório166, acabam atuando como políticas de universalização de direitos, na medida em que, mesmo inicialmente estabelecendo critérios desiguais, são políticas de constituição material daquilo que a coletividade definir como o que todos (rigorosamente todos) devem ter 164 Entendendo que os projetos de investimento público são diferenciados, em decorrência da divisão social em classes sociais e segmentos de classe, que oporia interesses do investimento do fundo público na esfera privada ou na ampliação da esfera pública. 165 Neste aspecto, não se poderia defender a cota racial, desvinculada do corte de renda. 166 Portanto necessitam de acompanhamento/avaliação que lhe garantam um caráter provisório, ao mesmo tempo em que são enfrentadas as questões estruturais que geram tais desigualdades em outros campos. 309 acesso. O que não podemos é utilizar a justificativa em torna da política de cotas para desqualificar a importância do Estado na democratização do ensino167. Em suma, a perspectiva crítica não coaduna com o entendimento da existência de uma questão racial, desvinculada da questão social, ainda assim, através dessa abordagem podemos perceber a importância da defesa das ações afirmativas em geral, e das cotas em particular, como parte de uma estratégia política de ‘guerra de posição’, conforme elaborada por Gramsci para as sociedades ocidentais (GRAMSCI,2000). A abordagem crítica, através de apreensão dialética da questão, possibilita a compreensão do tencionamento existente em torno do tema cotas, para além de questão da igualdade racial ou da possibilidade do acirramento do racismo na sociedade brasileira, conforme verificamos nas abordagens anteriores, para descortinar as tensões políticas e societárias imbuídos no tema, em torno da utilização dos recursos do Estado. Portanto, entendemos que as cotas só podem e devem ser apoiadas enquanto uma exigência histórica das lutas pela transformação social na contemporaneidade, em que os espaços devem ser ocupados e ampliados, no sentido de descortinar o fetiche e a fragmentação social características do capitalismo sob hegemonia do capital financeiro. Mas tal opção só é viável politicamente quando articulada e subordinada à centralidade da luta de classes e da universalidade dos direitos. 3.2 Influência da Mídia na Construção do Consenso Anti-Cotas O objetivo desta seção é demonstrar que apesar da política de cotas terem atualmente um importante papel na ampliação dos direitos, pois mesmo que de forma polêmica facilitam o acesso de parte da população às universidades públicas, em especial nos cursos mais concorridos no vestibular, ainda assim podemos observar na mídia escrita e falada uma forte oposição. Para tal procuraremos analisar os nexos estruturantes de tais discursos, que reforçam uma abordagem do senso comum em torno das cotas, procurando descortinar “os valores, as ideologias, a percepção dos temas e problemas sociais, o funcionamento das instituições e as práticas sociais” (FREIRE, 2009, idem, p.178). Entendemos, baseando-nos nas formulações de Chauí (2006) que a mídia, 167 Nas seções anteriores já demonstramos como maior profundidade esta afirmação. 310 parte da indústria cultural, vende produtos culturais, e para vendê-los procura conquistar o seu consumidor/leitor. “Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocálo, provocá-lo, fazê-lo pensar, trazer-lhe informações que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez” (idem, pp. 29-30). Ou seja, ela divulga por intermédios dos meios de comunicação o senso comum, (in)visibilizando o debate do conhecimento que se dá em tornos de inúmeros temas. Segundo a mesma autora, a mídia: [...] inventa figuras chamadas “expectador médio”, “ouvinte médio” e “leitor médio” aos quais são atribuídas certas capacidades mentais “médias”, certos conhecimentos “médios” e certos gostos “médios”, oferecendo-lhes produtos culturais “médios”... A “média” é o senso comum cristalizado, que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova [...], de modo que tudo o que nas obras de arte e de pensamento significa trabalho criador e expressivo da sensibilidade, da imaginação, da inteligência da reflexão e da crítica não tem interesse, não “vende”. Massificar é, assim, banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos (idem, p. 30) Nunca é demais lembrar o trabalho de Martins (2008,p.54) que nos esclarece o significado do termo senso comum. Para o autor chamamos o senso comum de comum não por sua banalidade, mas porque este tipo de conhecimento faz parte de uma relação compartilhada entre sujeitos, em que o significado antecede a mesma, “pois é condição de seu estabelecimento e ocorrência. Seu significado compartilhado não há mediação. Além disso, não há possibilidade de que os participantes da interação se imporiam significados, já que o significado é reciprocamente experimentado pelos sujeitos (idem)”. Retomando a questão da mídia enquanto indústria cultural, os meios de comunicação, enquanto empresas de produção cultural, produzem uma mercadoria articular, a notícia. Freire (2009) nos esclarece sobre a questão, baseando-se no trabalho de Marcondes Filho (1989). Segundo a autora, a notícia é uma informação transformada em mercadoria e para que a mesma se torne ‘vendável’ é necessário que sua apresentação receba requintes sensacionalistas e emocionais, além de uma padronização simplificadora que adapta seus discursos às normas mercadológicas, negando possíveis subjetividades nos fatos. Na qualidade de mercadoria socialmente produzida, o discurso, contido nos jornais e revistas, age também na própria criação das necessidades de informação e definição de temas relevantes, construindo o consumidor-leitor, nos termos já descritos por Marx (1989), ou seja, a produção fornece a matéria/objeto do consumo, ao mesmo tempo em que cria e produz o próprio consumidor (FREIRE, 2009, in FREIRE, 2009, p.180). 311 Segundo Chauí (2000, p.72), pode-se analisar o exercício do poder da mídia por dois ângulos principais: o econômico e o ideológico. Pelo ponto de vista econômico a autora enfatiza que os meios de comunicação são empresas privadas, ainda que no Brasil possuam concessões públicas, portanto são empreendimentos regidos pela lógica do capital. O que nos remete ao ponto de vista ideológico de análise, visto que por ser de origem burguesa, seus atores ou agentes realizam uma construção lógica específica dessa classe social e segmentos da mesma, só que escrito de forma anônima e impessoal, permeada de falas de especialistas em busca de credibilidade, o que a autora chama de “particularidade da ideologia contemporânea” (CHAUÍ, 2006, p. 76). Portanto, ainda baseando-nos nas análises da autora, podemos inferir que ao divulgar o discurso do senso comum a mídia estaria apresentando falas vinculadas aos interesses das classes dominantes que através da repetição e da relação estabelecida com os leitores acaba contribuindo para construção de consensos. O senso comum nada mais seria do que a própria visão de mundo da classe dominante tornada consenso nas relações de sociabilidade. Segundo Freire a repetição dos argumentos, perpassados pelo viés de classe, transforma uma visão de mundo particular em senso comum nas relações de sociabilidade dos leitores. “Somos convencidos cotidianamente, pelos próprios meios de comunicação, de que pensamos, sentimos, decidimos e agimos por nós mesmos, de que exercemos o tão decantado livre arbítrio” (FREIRE, 2009, p.181). Tais descolamentos de sentido não teriam conseqüências graves se não houvesse uma grande concentração de poder econômico no meio midiático, tornando uma visão de mundo dominante sobre as demais, conforme nos elucida Freire (2009). Segundo a autora, “menos de uma dezena de grandes empresas de alcance global controlam hoje não só os meios tradicionais, mas também os novos meios eletrônicos e digitais” (idem, p.183). Ainda sobre o tema Freire e Carvalho (2008) informam que, No plano internacional, poucas agências são responsáveis pela veiculação de imagens e narração dos fatos que serão distribuídos por todo o mundo, tal concentração dificulta a possibilidade de uma análise menos unilateral dos fatos, ponto em cheque a própria liberdade de expressão e pensamento da população tão defendida pelos setores da grande imprensa. No Brasil, já na década de 90, apenas nove famílias controlavam mais de 90% de toda a comunicação social do país. “Trata-se de jornais, revistas, rádios, redes de televisão, com mais de 90% de circulação, audiência e produção de informações... controlados pelo estamento dominante (SODRÉ, 1992, p.43, Apud: FREIRE; CARVALHO, 2008, p.160). 312 É Bourdieu que nos elucida porque as classes dominantes, vinculadas em especial à industria cultural168, realizariam tais discursos de negação à política de cotas. Para o autor os atores sociais estão inseridos na sociedade dividindo espacialmente determinados campos socais que garantem aos mesmos não só a reprodução de suas condições de dominação quanto capital simbólico..... É o seu posicionamento espacial na sociedade que condiciona o que ele chama de habitus de classe, ou seja, os atores sociais além de buscar tornar consenso seus pontos de vista, tentam manter determinados referenciais e posições que ocupam no mundo (BOURDIEU, 1989, p.8). O mesmo autor compreende que os atores sociais estão inseridos espacialmente em determinados campos sociais, a posse de grandezas de certos capitais (cultural, social, econômico, político, artístico, esportivo etc.) e o habitus de cada ator social condiciona seu posicionamento espacial, neste sentido os mesmos entram em lutas simbólicas e relações sempre com pontos de vista, interesses e referenciais determinados pela posição que ocupam no mundo que pretendem transformar ou conservar (idem). Segundo Bourdieu, “essas ações têm por princípio o habitus, que tende a reproduzir as condições de sua própria produção, gerando, nos domínios mais diferentes da prática, as estratégias objetivamente coerentes e as características sistemáticas de um modo de reprodução (idem, pp. 386-387)”. Seguindo essa lógica, cada classe social169, ou seguimento de classe, possui a sua distribuição espacial própria, o seu habitus170, e por vezes não há nem o questionamento do porque determinados espaços não são ocupados por todos, quando em teoria, dentro de uma democracia liberal onde “todos são iguais perante a lei”. Dessa forma, o autor entende que a reprodução de classe como que transfere heranças distintivas na sociedade contemporânea. Assim sendo, para tornar as classes subalternizadas atuantes no sentindo de desconstruir este habitus que a limitam e dominam, estas teriam que construir o que a tradição marxista chama de “consciência de classe”, questionando o lócus que lhe cabe na 168 Sobre o tema indústria cultural cf. Harvey, 1996 Cabe ressaltar que a referência de Bourdieu para classe social é do trabalho de Thompson (1987), e não no sentido marxiano clássico de classe em si. 170 Bourdieu (1989) vai mais além, afirma que o habitus também está relacionado ao tipo de consumo cultural, escolha profissional, lazer, etc. 169 313 produção e reprodução social do capital. Neste sentido é compreensível o porquê de segmentos das classes dominantes procuram transformar em consenso, através da mídia, seus pontos de vista em torno das cotas, visto que o ensino superior, em especial os cursos de maior status nas universidades públicas, tradicionalmente sempre foram um habitus próprio e desfrutado pelas classes dominantes brasileiras171. Corroborando nossa afirmação Fávero (2006) realiza a seguinte afirmação: pode-se inferir que alguns desses impasses vividos pela universidade no Brasil poderiam estar ligados à própria história dessa instituição na sociedade brasileira. Basta lembrar que ela foi criada não para atender às necessidades fundamentais da realidade da qual era e é parte, mas pensada e aceita como um bem cultural oferecido a minorias, sem a definição clara no sentido de que, por suas próprias funções deveria se constituir em espaço de investigação científica e de produção de conhecimento.(FAVERO, 2006, p. 32) Dito isto, registramos que as fontes selecionadas para embasar nossas análises foram, principalmente, jornais e revistas de grande circulação no país, tais como: O Globo, Jornal do Brasil, Estado de São Paulo, Correio Brasiliense e Folha de São Paulo. Destas selecionamos principalmente notícias para análise a partir de 2007, no sentindo de situar a contemporaneidade do debate. A seleção das mesmas foi baseada na expressão nacional destes veículos de comunicação enquanto formadores de opinião, e na intensa campanha contra cotas difundida em suas linhas editoriais e a escolha das notícias analisadas nestas fontes foram de caráter qualitativo. Foram analisadas, também notícias veiculadas por outros jornais locais com publicação on line e impressa172, em especial do ano de 2008, no sentindo de demonstrar que por conta da difusão de notícias pelas agências de comunicação, não existe grandes variações entre o perfil local ou nacional dos veículos de comunicação. O gráfico a seguir apresenta de forma sucinta os principais assuntos que 171 tal situação torna-se ainda mais polêmica no que tange as cotas raciais, numa sociedade permeada pelo racismo. 172 As mesmas foram retiradas dos jornais on line das regiões centro oeste, norte, nordeste, sul e sudeste. As fontes pesquisadas foram: Correio Brasiliense (http://www.correio.web.com.br); Diário de Cuiabá (http://www.diariodecuiaba.com.br); Diário do Amapá (http://www.diariodoamapa. com.br); Diário do Amazonas (http://www.diariodoamazonas.com.br/ index.php) ; O Liberal (http://www.orm.com.br/oliberal); Meio Norte (http://www.jornalmn.com.br/); Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/fsp) ; O Estado de São Paulo (http://www.estado.com.br); A Tribuna (http://www.tribunaonline.com.br); Estado de Minas (http://www.em.com.br) ; Gazeta de Alagoas (http://www.gazetaweb.globo.com); A Tarde (http://www.atarde.com.br) ; Correio da Paraíba (http://www.correiodaparaiba.com.br) ; Diário de Pernambuco (http://www.pernambuco.com/diario); Diário de Natal (http://www.diariodenatal.com.br) ; Gazeta do Povo (http://www.portal.rpc.com.br/ gazetadopovo) ; Correio do Povo (http://www.correiodopovo.com.br) ; Diário Catarinense (http://www.diariocatarinense.com.br) ;Cinforme (http://www.cinform.com.br); A Crítica (http://www. acritica.net/); Jornal Pequeno (http://www.jornalpequeno.net) 314 se destacaram na imprensa sobre cotas, durante o ano de 2008. Das 234 notícias coletadas, que citavam o tema cota nas universidades, 68 eram informes sobre vestibulares, lista de aprovados e novas universidades federais que estavam debatendo a implantação de cotas e suas instituições; dos 30 artigos de opinião, 10 eram a favor e 20 contra, ou seja, há o dobro do espaço para opiniões contrárias, ainda que nas pesquisas de opinião sobre o tema este percentual costuma ser praticamente equilibrado; já o debate das cotas no PROUNI é praticamente nulo, com apenas 3 notícias sobre o tema; podemos perceber também que a questão de políticas de permanência não se encontra mais em destaque, apesar do aumento do número de cotistas nacionalmente, certamente porque tal questão requer ampliação do investimento público em políticas de assistência estudantil. Os principais debates polêmicos nos principais jornais de repercussão nacional investigados sobre o tema, são ainda: em primeiro lugar as liminares em torno das cotas, com 40 notícias, publicadas durante os 3 primeiros meses do 1º ano de implementação das mesmas na UERJ e contestam os resultados do vestibular; e em segundo lugar detectamos o debate político do projeto de cotas no legislativo nacional, com 39 notícias ao longo de vários anos, motivo inclusive das principais mobilizações de intelectuais pró e anti-cotas173. Num sentido oposto ao nacional a discussão das cotas nos Estados arrefeceu (16 notícias), mostrando que a arena de disputa do tema é realmente nacional. Outra aspecto que verificamos é que ainda são freqüentes pesquisas de opinião sobre o tema, ou pesquisas que apresentam os resultados satisfatórios dos cotistas, o que certamente foi um dos motivos para diminuir a polêmica em torno da redução da qualidade nas universidades públicas. As outras notícias tratavam de propostas ainda difusas sobre a inclusão de cotas no ensino profissionalizante, nas vagas de estágio, no trabalho, ou artigos mais genéricos que tocavam no tema sem maiores aprofundamentos. 173 Conforme atesta a edição do manifesto pro e anti cotas lançado em maio de 2008. 315 Gráfico 1: NOTÍCIAS CONTABILIZADAS SOBRE COTAS DO ANO DE 2008 EM DIVERSOS JORNAIS174 Total de notícias: 234 80 70 60 50 40 30 20 10 0 68 40 s ut ro ou ni e es co ta ta tís s t ic as Po s lít ob ic re as ... d Pr e oj p er et m o an de ên le ci id a e co ta s fe C de ot ra as l D n eb os at e e st ju ad ríd os ico so br e co ta s fa vo r a 1 Pr op in iã o 3 21 16 13 Pe sq ui sa s Ar ti g os de de ti g os Ar Ve st ib ul ar na s fe de ra is op in iã o e co ta s co nt ra 10 O 20 39 Utilizamos também, como fontes da mídia, às Revistas Veja e Época, por serem as mesmas canais voltados para as chamadas classes médias brasileiras, desde 2001 até 2009, para situarmos o debate comparativamente, desde a implementação pioneira das cotas na UERJ. Lembremos que essas Revistas são semanais, e que o ano tem aproximadamente 52 semanas, portanto o percentual de notícias que apresentaremos abaixo demonstra a importância que estes veículos de comunicação deram ao tema, principalmente a partir de 2006175, não por acaso, em torno da possibilidade efetiva de aprovação do projeto de lei 3.627/2004 nacional para instituir cotas nas universidades federais e do Projeto de Lei 6264/2005, que propõe o Estatuto da Igualdade Racial. Ou seja, podemos inferir, como mencionado anteriormente, que o debate no início ainda era mais 174 Além dos jornais de grande circulação citado, temos também os regionais: Correio Brasiliense; Diário de Cuiabá; Diário do Amapá; Diário do Amazonas; O Liberal; Meio Norte; Folha de São Paulo; O Estado de São Paulo; A Tribuna; Estado de Minas; Gazeta de Alagoas ; A Tarde; Correio da Paraíba; Diário de Pernambuco; Diário de Natal; Gazeta do Povo; Correio do Povo; Diário Catarinense; Cinforme; A Crítica; Jornal Pequeno 175 A partir de então, praticamente temos mais notícias sobre cotas do que publicações anuais, o que demonstra a ferrenha posição dessas revistas no sentido de formular uma opinião pública contrária as cotas. 316 característico de um debate regional, por isso as maiores polêmicas midiáticas ficaram por conta de uma circulação mais restrita. Abaixo realizamos uma análise quantitativa e qualitativa do material coletado nas Revistas Veja e Época nos períodos indicados nas tabelas, que demonstram que o debate com o passar dos anos foi ocupando maior espaço nestes canais. Assim o aumento anual de notícias nas Revistas em tela revela que as polêmicas em torno das políticas de cotas não se reduzem, ao contrário continuam sendo estimuladas como notícia na mídia. REVISTA VEJA Tabela 1: ARTIGOS PUBLICADOS NO PERÍODO 2001 A 2009 2001 7 2002 3 2003 5 2004 9 2005 4 2006 85 2007 164 2008 163 2009 173 Ressalte-se tomando como marco o ano de 2001 o debate sobre cotas ainda estava incipiente, tendo em vista o pequeno aumento no número de matérias que versavam sobre cotas raciais. Uma matéria que merece destaque nesse período foi a de autoria de Eduardo Salgado (em 05/09/2001) - “A indenização é justa”. No artigo citado o autor é favorável a uma reparação a população negra, tendo em vista o passado escravagista a que foi submetida. Outro artigo do mesmo autor publicado em 12/09/2001 denominado “Boa causa, mau argumento”, há uma crítica ao sistema de cotas, criticando a falta de embasamento teórico do mesmo. Já Roberto Pompeu de Toledo demonstra em artigo publicado em 12/09/2001 que o Brasil fecha os olhos para o problema racial, tecendo críticas a tão falada democracia racial. Os exemplos foram citados para registrar que no referido ano a tônica do debate era a questão da igualdade racial, principalmente, sobre o fato das cotas serem justas ou não, e retomando o debate em torno da “democracia racial”. No ano de 2002 surgiram alguns artigos já mencionando as cotas como “política” pública, cujo principal critério seria o racial, porém o debate ainda incipiente. Como exemplo, podemos citar o artigo de Luiz Felipe de Alencastro denominado “Os negros e a política de cotas” publicado em 02/02/2002 na qual o 317 autor tece comentários acirrados tendo como base o privilégio a uma determinada raça, já delineando o perfil editorial contrário que a revista seguiria a partir de então. No ano seguinte dos cinco artigos publicados destacamos dois: o primeiro de autoria de Diogo Mannardi denominado “Fora Zumbi”, publica em 07/03/2003 onde o autor, que já polêmico pela sua natureza, critica a devoção pelo critério racial e pelo sistema de cotas. Também, no mesmo ano, Sergio Abranches publicada, em 19/11/2003, o artigo chamado “Retrato falado do Brasil” que de forma menos ideológica discute, com base nos dados do IBGE, se é mesmo necessário estabelecer reservas de vagas para negros em universidades públicas. A partir daí se inicia um processo de discussão pautado na fala de especialistas no tema, e menos no debate das cotas serem ou não justas. Neste o ano, o debate esteve fortemente ligado aos princípios da igualdade e mérito. Em 2004, de um total de nove artigos selecionamos três. Cláudio de Moura e Castro no seu artigo “A maquiagem do monstro”, publicado em 26/05/2004, afirma que a política de cotas mascara o problema da educação brasileira, que não é racial e, sim de uma gestão eficiente nos recursos públicos destinados a ela. No mesmo ano Tales Alvarenga publica artigo chamado “As aparências não enganam”, em 23/06/2004, em que tece duras críticas ao sistema de cotas baseado na raça, que trata da aparência e não da essência. O último artigo selecionado deste ano foi o de Roberto Pompeu de Toledo, denominado “Debates, meio-debates e não-debates”, publicado em 14/07/2004, em que o autor afirma que o debate sobre as cotas na verdade é um não debate ou um debate feito pela metade. No ano de 2005, a Revista Veja seleciona artigos que criticam duramente o sistema de cotas. Como exemplo, podemos citar o de Marcelo Carneiro, chamado “Cotas para que?” onde o autor não vê sentido na implantação de um sistema de cotas num país de mestiços, além disso, critica a perda do mérito no sistema mencionado. Em 2006 a polêmica das cotas continua, bastando observar que de quatro artigos selecionados em 2005 passamos para oitenta artigos em 2006. Esse salto deveu-se a implantação da reserva de vagas nas universidades estaduais no Rio de Janeiro e em outros estados. Podemos destacar algumas polêmicas, tais 318 como: “Manifesto contra as cotas raciais”; “A lei que cria o racismo” e “Convite ao ódio racial”. Percebemos claramente a intenção da Revista Veja de formar um consenso anti-cotas, alegando a inconstitucionalidade da lei que a instituiu e, principalmente, a criação, por lei, do racismo. Cabe lembrar que a partir deste período autores como Ivone Maggie e Peter Fry passaram a aparecer repetidamente na mídia no sentido de corroborar a defesa de pontos-de-vista anticotas raciais. No ano seguinte houve uma duplicação do número de publicações atinentes ao assunto, tendo a incidência de 164 matérias. No ano mencionado observa-se a centralidade das publicações no conceito de “raça”, tendo dois artigos importantes: o primeiro de Rosana Zakabi, denominado “Raça não existe”, publicado em 06/06/2007 e outro de autoria de Reinaldo Azevedo chamado “A discriminação contra os brancos, Gilberto Freyre e essa ”mama” África, publicado em 01/04/2007, em seu blog. Podemos salientar que a partir de então o teor das críticas enfatizavam o viés que retomava o mito da igualdade racial enquanto valor positivo para sociedade brasileira, mas ainda sem embasamentos técnicos de cunho jurídico ou com estatísticas que pudessem combater os argumentos pró-cotas. No ano de 2008 a Revista Veja selecionou as publicações sobre cotas tendo como base a questão da legalidade e da justiça entre os cidadãos. No artigo de Reinaldo Azevedo, publicado em 21/11/2008, o autor chama atenção para que o Senado resista à legalização do ódio racista e de classe. Outra publicação no mesmo ano diz respeito ao justo e ao injusto, de Lia Luft, publicado em 06/02/2008, em que a autora tenta demonstrar de forma muito frágil que o sistema de reservas de vagas é injusto, pois discrimina pessoas pela cor da pele e pela classe social. Vale ressaltar que André Petry escreve um artigo ridículo denominado “O QI dos baianos”, 07/05/2008, demonstrando, assim, uma discriminação regional, que fere frontalmente os princípios balizares da Constituição de 1988 — todos são iguais perante a lei. Finalmente chegamos ao ano de 2009 em que o número de publicações atinentes ao tema continuou a crescer (total de 173), visto que a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei reservando 50% das vagas das universidades federais para negros, índios e alunos oriundos das escolas públicas. Tal projeto 319 foi enviado ao Senado e nessa Casa Legislativa iniciaram-se debates acirrados da alegada inconstitucionalidade da referida lei que fomentaria, segundo tais argumentos, a discriminação racial num país como o Brasil, formando essencialmente pela mestiçagem. Vale ressaltar a matéria J. R. Guzzo, publicada em 15/03/2009, denominada “Tudo pelo social”, na qual o autor afirma haver um populismo exagerado na aprovação das cotas raciais. No mesmo ano Reinaldo Azevedo, em matéria denominada “Cotas raciais — uma decisão corajosa e correta DEM, publicada em 21/06/2009, tece elogios sobre o ingresso de ação de inconstitucionalidade contra as cotas movida pelo partido citado. Também no Caderno de Educação da citada revista houve matéria intitulada “Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) debate cotas raciais em universidades”, de 31/03/2009, em que mais uma vez se restabelece a polêmica das cotas ferirem o princípio da igualdade e do mérito. Na atualidade o debate gira em torna da posição de legisladores que tentam incluir a chamada “cota social” em vez de “cota racial” no projeto de lei que já fora aprovado na Câmara dos Deputados. O debate continua muito polêmico. Como veremos a seguir, a maioria das matérias da mídia discorre contrariamente ao tema, principalmente em virtude deste ser um momento crucial para a aprovação do projeto de lei que instituirá cotas em todas as universidades federais, portanto o tema é ponta na agenda política, apesar de que aparentemente sua aprovação final pode ser adiada para 2010. Vale ressaltar que com apenas seis meses do ano de 2009 já temos mais artigos do que em todo ano de 2008. REVISTA ÉPOCA Tabela 2 ARTIGOS PUBLICADOS NO PERÍODO 2001 A 2009 2001 26 2002 25 2003 45 2004 20 2005 26 2006 124 2007 135 2008 203 2009 248 Ressalte-se tomando como marco o ano de 2001, assim como na revista Veja, o debate sobre cotas ainda estava incipiente, tendo em vista o pequeno aumento no número de matérias que versavam sobre cotas raciais. Uma matéria que merece destaque nesse período foi a de Eduardo Salgado — “Boa causa, 320 mau argumento”. A matéria citada é a favor do sistema de reserva de vagas sob alegação de que ele inclui176 minorias que normalmente estariam alijadas do acesso ao ensino superior, portanto, como vemos, não estava ainda delimitada a linha editorial, ainda havendo algum espaço para leituras levemente dissonantes. Em 2002, os debates se concentraram na questão racial e do mérito, afirmando que as cotas feriam os princípios da igualdade e da legalidade. Para isto utiliza como base dados do Inep/MEC/2004. Nota-se que ainda não se enfatiza a vertente anti-cotas que denuncia que ela exacerbaria o racismo, defendendo uma releitura de idéias tradicionais como a “democracia racial”. Em 2006 a polêmica das cotas continua e agora o debate jurídico foi enfatizado, pois os alunos que ingressaram com medidas judiciais não obtiveram êxito nas Justiça do Rio de Janeiro. Vale ressaltar que muitos processos estão tramitando em fase recursal e o parecer final será dado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Também, nesse mesmo ano, os debates sobre o PROUNI entraram em cena, principalmente com argumentação de que era uma forma de revitalização do ensino superior via setor privado. No ano seguinte, em 2007, as principais matérias publicadas versaram sobre a divisão da comunidade em relação à política de cotas e um maior enfoque as ONG’s defensoras da reserva de vagas, tais como a Educafro. A reforma universitária também entrou em debate e a educação foi sustentada como uma política pública essencial ao desenvolvimento do país. Além das matérias citadas houve continuidade no debate da falência do ensino médio, do PROUNI e do que foi possível avançar com a inclusão das cotas, principalmente pela ONG Educafro. Cabe enfatizar a matéria “Bolsas que valem a pena” de 15/09/2007, que versa a seguinte afirmação “As notas dos alunos beneficiados pelo ProUni são superiores à média, uma prova de que investir no talento dos estudantes de baixa renda dá resultado”. Nota-se que no PROUNI também está incluído a cota racial, mas neste caso a questão da utilização da verba do Estado para financiar o ensino superior privado se sobrepõe a questão da igualdade racial implícita, o que nos indica que a importância da questão público x privado (discutida no cap. II desta tese) se sobrepõe as outras, como nos elucidaram, neste capítulo, os 176 Na publicação é utilizado o senso comum no que tange a noção de exclusão social, na medida em que entendemos quando se fala em inclusão social temos que caracterizá-la como “inclusão de forma excludente”. 321 autores da abordagem crítica. Em 2008 dentre as matérias encontradas uma chama especialmente atenção: “O Projeto de Lei que cria reservas de 50% das vagas nas universidades federais” para as denominadas minorias. Tal projeto não teve um consenso e até uma parte do movimento negro ficou insatisfeita. Outra matéria interessante foi à defesa de cotas raciais nos cursos de pós-graduação, pois a Capes é frontalmente contrária, sob alegação de privilégios. Uma matéria polêmica publicada no ano de 2008 foi “A farsa das cotas” de autoria de Antonio Luis Mendes de Almeida em que afirma claramente não ser pelas cotas a via de resolução dos problemas de acesso a educação superior. O autor citado faz severas críticas aos movimentos sociais que apóiam cotas tendo como base: raça e condição social. Apesar de radical, o artigo sintetiza argumentos que servem de contraponto para uma reflexão maior sobre a reserva de vagas nas universidades públicas. Em 2009, a matéria que mais se destacou na mídia foi a liminar concedida ao Deputado Estadual Flávio Bolsonaro que requereu ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro a suspensão da lei de cotas, sob alegação da inclusão indevida de beneficiários, tais como: filhos de policiais militares, filhos de policiais civis e filhos de agentes penitenciários, mortos em serviço. A lei foi suspensa e gerou grande polêmica na sociedade carioca e instabilidade aos estudantes que ingressaram como cotistas e os futuros vestibulandos. Houve recurso e o Tribunal de Justiça cassou a liminar observando que julgará o mérito ainda este ano. No Rio de Janeiro a polêmica foi tão grande que o Conselho Estadual de Educação (CEE) nomeou comissão para fazer um estudo analítico sobre a política de cotas nas universidades estaduais, demonstrando que a questão jurídica e em torno do mérito está longe de ser concluída. Após estas explanações, iniciaremos a análise qualitativa das noticias dos jornais selecionados para estudo, enfatizando que o tema em tela é complexo, já que a literatura quase sempre utiliza argumentos próprios do senso comum para respaldar seus argumentos nos debates, e os mesmos são reforçados repetidas vezes, de forma unilateral pelas falas da mídia. Ainda assim é importante registrar que as falas contra as cotas encontram um terreno muito fértil numa sociedade como a brasileira, principalmente em virtude das “particularidades de nossa 322 cultura política: o moderno se constitui por meio do ‘arcaico’, recriando nossa herança histórica ao atualizar aspectos persistentes e, ao mesmo tempo” (FREIRE, 2009a, p.4) Entendemos que falta ao tema um arcabouço teórico inspirado na teoria social de Marx. O princípio da igualdade é trabalhado muito mais no sentido burguês, isto é, todos são iguais — perante a lei. Mas, existem desigualdades sociais persistentes, que não serão resolvidas com a introdução da política de ações afirmativas. Este referencial que foi apresentado anteriormente neste capítulo, não possui rebatimento semelhante aos conservadores na mídia, principalmente porque seus argumentos vão para além do debate fetichizado sobre inclusão X exclusão, da meritocracia ou igualdade racial, para questionar o próprio sistema como um todo e pleitear sua transformação radical. Após tais observações, nos ateremos a uma análise mais qualitativa dos conteúdos das notícias selecionadas. Nossa metodologia de análise qualitativa de conteúdo das notícias procura situar as falas desses atores sociais dentro do seu contexto, conforme proposta metodológica de Minayo (et al, 1994 p. 77). Cabe enfatizar que para desenvolver teoricamente este estudo, nos inspiramos no trabalho de Freire (2009)177, pois a mesma realiza uma análise crítica dos meios de comunicação, desvendando os sentidos imbricados no interior dos mesmos. A autora parte da premissa de que o discurso na imprensa não é imparcial, pelo contrário suas falas divulgam códigos ideológicos privados de compreensão do mundo como se os mesmos fossem universais. Freire utiliza a expressão “simulacro do poder” cunhada por Chauí (2000, in FREIRE, 2009, p. 178) para definir essa construção de consensos em torno de visões de mundo perpassadas pelo viés de classe. Concordamos, portanto, com sua afirmação, pautada no trabalho de Guattari e Ronilk (1985, apud Freire, 2009), de que a produção de sentidos e significados são fundamentais para reprodução de esquemas de dominação, portanto a mediação dos meios de comunicação devem ser entendidos como centrais neste processo, pois os mesmo falam “para” e “pelos” indivíduos. A opção desse formato de análise pauta-se na compreensão de que a “mídia representa para nós pesquisadores o arquivo por excelência” (HOBSBAWN, 1995. Apud: FREIRE, 2009, p.178), portanto, a mesma não pode ser 177 A autora tratou da relação sobre mídia e violência, mas o quadro teórico que a mesma utilizou serviu de base para nossas análises no que tange a cobertura da mídia sobre as cotas. 323 desconsiderada, pois, é principalmente através dela que certas abordagens acadêmicas têm seus aspectos mais superficiais e descontextualizados para reforçar o senso comum, ao mesmo tempo em que outros temas são (in)visibilizados. Portanto, podemos inferir que os silêncios midiáticos dizem muito sobre quais falas são importantes de ser negadas. Em especial, no caso das cotas, a quantidade significativa de notícias veiculadas contrárias ao sistema aparece como uma ofensiva midiática que (in)visibiliza a complexa polêmica social em torno do tema, como se a sociedade brasileira de antemão já fosse contrária a sua adoção. Freire (2009) chama tal “excesso” de tentativa de formação do consenso favorável ao silenciamento da política. Segundo a autora: Não é a falta de informações divulgadas pela mídia, ao contrário, é elo excesso delas que assistimos a uma espécie de paz imposta para silenciar a política, pela aparência vazia dos consensos que se revelam incapazes de construir e recuperar os direitos de uma cidadania que, reinventando a si própria pela discordância e pela própria recriação, possa reinventar novos caminhos da construção democrática (FREIRE, 2009, in FREIRE, 2009 p. 179). É importante lembrar que a implantação do sistema de cotas nas universidades públicas gerou grandes debates nos diversos segmentos da sociedade. O Programa Políticas da Cor na Educação Brasileira (PPCOR)178, do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro elaborou estudo sobre as principais polêmicas do sistema de cotas, conforme vimos anteriormente179, que resumiu grande parte das polêmicas que também perpassaram o debate nos meios de comunicação. Portanto, para compreendermos a necessidade do PPCOR lançar um documento com tais contra argumentos, temos que entender com quem ou o que tais falas estão dialogando. Entendemos que este material, devido ao seu caráter mais direto, contra argumentava mais diretamente com o senso comum divulgado pela mídia, do que com o meio acadêmico180. “Neste sentido conviria realçar que a análise de qualquer forma de produção de esquemas de significação 178 É importante registrar que este Programa de Extensão recebeu o maior financiamento da Fundação Ford para pesquisa e incentivo a projeto de intervenção no campo das ações afirmativas para negros, aglutinando a sua volta uma gama de intelectuais em defesa das cotas, ao nível nacional, portanto, compondo um importante aparelho privado de hegemonia, o que justifica a prioridade que demos a seu discurso. 179 GENTILI, Pablo; FERREIRA, Renato. Nada só para os negros nada só para os brancos: dez mitos sobre as cotas. Rio de Janeiro. Laboratório de Políticas Públicas - UERJ. Série Dados e Debates. N.º 1. Rio de Janeiro, julho de 2006. 180 O debate acadêmico especificamente foi realizado através da Coleção PPCOR citada na bibliografia de nossa tese. 324 permanecerá abstrata se não encontrarmos a quem é destinada” (FREIRE, 2009 in FREIRE, 2009, p.185). Cabe enfatizar, que de acordo com os dados de nossa pesquisa, desde a implantação das cotas na UERJ e na UFBA, pioneiras no sistema, inúmeras notícias sobre o tema já foram veiculadas na mídia, sendo que a maioria dos artigos de opinião e editorias apresentando um viés negativo. Quando as falas têm um caráter mais informativo, a negação do tema encontra-se camuflada pelo cientificismo de especialistas que opinam na matéria. Na notícia abaixo podemos observar tal particularidade, quando a professora Ivonne Maggie contesta o resultado de uma pesquisa só porque não concorda em parte com a mesma. O curioso na notícia que essa professora é descrita no texto como antropóloga para opinar contrariamente, e seu interlocutor que defende as cotas, apesar de advogado181, não é apresentado também como um especialista no tema do ensino superior, o que coincidentemente torna tendenciosa a apresentação “imparcial” das leituras diversas apresentadas. Como podemos observar na notícia a seguir: Cota é vista como essencial e humilhante Opinião dos brasileiros em relação às ações afirmativas é contraditória ANTÔNIO GOIS DA SUCURSAL DO RIO Polêmicas desde que começaram a ser implementadas, em 2002, no Brasil, as cotas para negros nas universidades continuam dividindo opiniões. Se, por um lado, 51% da população se diz a favor da reserva de vagas para negros, por outro, 86% concordaram com a afirmação de que as cotas deveriam beneficiar pessoas pobres e de baixa renda, independentemente da cor. As respostas seguem contraditórias quando 53% dos brasileiros concordam que cotas são humilhantes para negros, mas, ao mesmo tempo, 62% dizem que elas são fundamentais para ampliar o acesso de toda a população à educação. Também 62% dizem que elas podem gerar atos de racismo. Leituras diversas Como era esperado, o resultado da pesquisa gerou leituras diversas de críticos e de pessoas favoráveis ao sistema. A antropóloga Yvonne Maggie, contrária à reserva de vagas por cor ou raça, destaca a incoerência dos resultados do levantamento. Para ela, no entanto, é natural que, dependendo da forma como a pergunta é feita, a população concorde com a idéia de dar vantagens àqueles que se sentem mais discriminados. "Quem vai negar vantagens aos que dizem ser mais discriminados? As pessoas, no entanto, acreditam no esforço pessoal e também são favoráveis ao mérito, até em percentual maior. Também acham que as cotas podem provocar racismo. Será que estão fazendo o cálculo de que é melhor racismo, contanto que as pessoas ganhem alguns privilégios?", questiona a antropóloga. Aceitação Renato Ferreira, do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e defensor do sistema, diz não ter dúvidas de que há uma aceitação à política de cotas. "Os meios de comunicação, via de regra, se manifestam contrariamente. Se sai algo positivo, quase não comentam. Se é negativo, isso reverbera. Dentro desse 181 O advogado em questão é ex-consultor jurídico da ONG Educafro e então Coordenador do Programa Políticas da Cor, da UERJ. 325 contexto, acho significativo que a maioria da população hoje concorde com as cotas raciais",... (DIÁRIO CATARINENSE, 23 nov. 2008) Novamente sobre o uso do discurso competente de especialistas ou de cidadãos influentes podemos utilizar mais uma vez o trabalho de Chauí (2006) para embasar nossas análises. Segundo essa autora o discurso jornalístico apresenta a “veracidade” de suas afirmações, e sua “imparcialidade” a partir da apresentação de pesquisas acadêmicas que conferem respaldo científico às questões propostas em seus editoriais, ainda por muitas não sejam apresentadas às pesquisas com argumentos contrários aos mesmos. Esta, portanto, seria a importância dos especialistas, já que articulariam a “retórica-verdade- cientificidade” do que antes poderia passar por meras opiniões. “Para a autora, as falas de especialistas são apresentadas pela mídia como verdade, pois são devidamente respaldados por um saber (científico, técnico, religioso, político, artístico) que institui a divisão entre os que “sabem” e os que não “sabem” (CHAUÍ, 2006. Apud: FREIRE; CARVALHO, 2008, p. 160). Ainda sobre o uso do discurso competente de especialistas ou de cidadãos influentes podemos utilizar mais uma vez a contribuição de Chauí (2006) para nos elucidar. Segundo essa autora o discurso jornalístico apresenta a “veracidade” de suas afirmações, e sua “imparcialidade” a partir da apresentação de pesquisas acadêmicas que conferem respaldo científico às questões propostas em seus editoriais, ainda que por muitas vezes não sejam apresentadas às pesquisas com argumentos contrários aos mesmos. Esta, portanto, seria a importância dos especialistas, já que articulariam a “retórica-verdade-cientificidade” do que antes poderia passar por meras opiniões. No caso da notícia abaixo tal relação fica explícita, primeiro porque a notícia tem um tom informativo sobre as ações afirmativas na UNICAMP, ainda assim a mesma só passa a opinião do “especialista” contrário às cotas, como se já existisse um consenso científico nesta universidade em torno do tema, anulando tanto a política institucional, quanto respaldando nacionalmente a polêmica com uma fala científica a negação da política de cotas, em especial às cotas raciais. Conforme podemos verificar na reportagem a seguir: Especialista vê interferência Coordenador do vestibular da Unicamp critica projeto de cotas 326 O físico Leandro Teffler, coordenador executivo do vestibular da universidade Estadual de Campinas (Unicamp), criticou ontem a aprovação, pela Câmara, do projeto que torna obrigatória a adoção do sistema de cotas, com recorte racial, nas escolas federais. Para o especialista - um dos idealizadores do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social da Unicamp, implantado em 2005 -, o projeto interfere na autonomia das universidades e ignora as diferentes realidades do País. "As universidades precisam ter autonomia para decisões desse tipo e procurar o modelo mais adequado à sua realidade", afirmou. Segundo o especialista, há lugares do País onde não existe demanda para as cotas determinadas correspondentes a 50% das vagas: "Em poucos lugares vamos encontrar uma demanda nesse nível". Outro problema identificado por Teffler é a limitação que a lei pode impor à busca de soluções para a inclusão social: "O projeto faz tábula rasa de todos os projetos de ação afirmativa. Parece que a única ação possível é a reserva de cotas". O sistema de cotas da Unicamp tem um recorte racial, semelhante ao do projeto votado na Câmara. "O conselho universitário quis deixar claro que a instituição está preocupada com a questão da diversidade no corpo discente." Nas universidades públicas que já adotaram sistemas de cotas, a maioria optou pelo recorte racial. Uma das exceções é a Universidade de São Paulo (USP), que reservou vagas apenas para egressos de escolas públicas de ensino médio, sem preocupação com a cor da pele do candidato à vaga. Segundo a pró-reitora da área de graduação da USP, professora Selma Garrido Pimenta, essa opção tem uma razão clara: a constatação de que a grande maioria dos estudantes que cursam o ensino médio o faz em escolas públicas e que, por outro lado, o maior número dos que entram na USP vem de escolas particulares e de pré-vestibulares. "Decidimos mudar esse quadro, ampliando o número de estudantes de escolas públicas na USP", disse a professora. "Essa é a nossa política." (O ESTADO DE SÃO PAULO, 22 nov. 2008) Esse discurso competente, nos moldes estudados por Chauí (2006), também é apresentado na Revista Veja (04/03/2009, p. 66), que lança matéria denominada “Uma Segunda Opinião”, sobre as cotas nas universidades federais brasileiras alertando que os seus efeitos podem ser ruinosos para negros e brancos brasileiros. Esse veículo de comunicação é particularmente mais imparcial do que a Revista Época, pois de maneira mais explicita procura desacreditar os argumentos contrários às cotas de forma mais direta182. Nos próximos parágrafos faremos um resumo de como a temática nunca foi esquecida pelos veículos de comunicação. Segundo artigo “Discriminação não é solução”, publicado na Revista Época, de 05/05/2008, um grupo de 113 cidadãos, representados por uma comissão, de oito pessoas, entregou um abaixo-assinado contra as cotas ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes. O documento entregue requer a inconstitucionalidade do sistema de cotas nas universidades públicas. Segundo artigo da mencionada revista, Desde 2004, algumas universidades federais e estaduais estabelecem reserva de vagas para os vestibulandos que se declararem negros. A política despertou 182 Já aprofundamos a questão do mérito na primeira abordagem deste capítulo. 327 reações contrárias e várias ações diretas de inconstitucionalidade, que estão sendo julgadas no STF. Os autores do documento, intitulado “Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, pedem ao Supremo que seja favorável a essas ações. (MANSUR, Alexandre; FERNANDES, Discriminação não é solução. Revista Época. n.º 520. São Paulo, 05 maio 2008. p. 102) A revista apresenta a argumentação do grupo de intelectuais é que devido ao processo de miscigenação da sociedade brasileira ficaria difícil introduzir o conceito de raça em processos seletivos e que este grupo também argumenta que a Constituição Federal de 1988 proíbe qualquer tipo de distinção entre brasileiros, sendo obrigação apresentar a afirmação que “a política despertou reações contrárias e várias ações diretas de inconstitucionalidade”, (in)visibiliza no debate todas as manifestações favoráveis ao sistema, a organização dos prévestibulares comunitários que pleiteiam a medida, como se tal opinião fosse resultado de um consenso social contra aqueles que defendem as cotas. Na manchete citada acima, as reações sobre o tema na imprensa são apresentadas não como a representação de um grupo, numa batalha ideológica e política ainda inconclusa em torno da questão, mas como uma afirmação da própria sociedade. Em contrapartida ao “manifesto dos 113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, um grupo de defensores da política de cotas raciais entregou ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, um documento denominado “113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, assinado por mais de mil pessoas, incluindo acadêmicos, estudantes, artistas e militantes dos direitos de minorias. A argumentação dos defensores das cotas é: incluir grupos sociais historicamente excluídos, promover igualdades de oportunidades para os grupos citados, que contam com o apoio dos estudantes183. Ao contrário das manchetes sobre o manifesto anti-cotas que levam o leitor a entender que não é uma reação de intelectuais e artistas específicos, mas sim uma reação generalizada, as manchetes que tratam do manifesto anti-cotas costumam ser mais objetivas, sem que “reações favoráveis” fossem mencionadas, como por exemplo “Supremo recebe manifesto a favor das cotas” (O Globo, 14/05/2008). Esta questão é importante ressaltar, visto que no Brasil o 183 Tendo como base o documento entregue, é possível dizer que atualmente o país conta com mais de 20 mil cotistas negros cursando a graduação. Somam 69 (sessenta e nove) às instituições de ensino superior público que adotam ações afirmativas. 328 hábito de ler somente as manchetes nas bancas de jornais, pode garantir a formação de opinião de muitas pessoas em torno de um tema. Vale salientar ainda que De acordo com o grupo pró-cotas “a posição dos 113 é paralela à da elite conservadora que reage desesperadamente para manter o poder que acumulou no período da escravidão, do colonialismo e das repúblicas branqueadas ou excludentes construídas em um momento político ultrapassado e que agora são obrigadas a enfrentar as demandas de uma agenda política que exige justiça social, convivência multiétnica e multirracial, com divisão proporcional de poder e de riqueza”, diz o manifesto entregue ontem ao STF. (MANSUR; FERNANDES, Nelito. Discriminação não é solução. Revista Época. n.º 520. São Paulo. 05/05/2008. p. 102) As discussões em torno do Projeto de Lei n.º 180/2008, aprovado pela Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado Federal e que reserva vaga para ingresso nas universidades públicas e nas instituições federais de ensino técnico, de nível médio, vem provocando acalorado debates. O consenso está longe de ser alcançado, pois, deve ser tratado com bom senso e equilíbrio, para condução de um debate sério184. Só em 2008, 28 notícias coletadas versavam especificamente sobre este tema, e podemos notar uma mudança significativa no debate. Enquanto o pleito passou pela Câmara, no Senado a grande questão atual para se obter maioria é se deve ou não ter corte de renda na lei185 e não mais o questionamento das cotas raciais.186 No final de 2008 um artigo do jornalista Ali Kamel, intitulado “Aos Senadores” resumiu três principais correntes no debate das cotas raciais. A primeira corrente entende que o racismo no Brasil é responsável pela desigualdade entre negros, pardos e brancos, por este motivo defende cotas raciais puras, sem corte de renda; para a segunda corrente o racismo existe, em maior ou menor grau, em todas as sociedades. No entanto, a principal causa da desigualdade é a pobreza. Negros e pardos estão em pior situação, pois são a maioria entre os pobres; já a terceira corrente acredita que a pobreza é o principal 184 Na primeira audiência, promovida pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), do Senado, ficou claro a divergência sobre o projeto: de um lado temos a tese de que o projeto é “frontalmente inconstitucional” em razão de subtrair vagas para alguns competidores, além de criar figura jurídica da raça, banida há mais de um século do cenário nacional. Em outra vertente, juristas como Augusto Werneck, insiste que é preciso cotas para os negros nas universidades, única forma de resgatar uma nódoa histórica. A polêmica está instalada, porém, parece-nos que a discussão não tem embasamento teórico, não leva em conta a noção de classe e muito menos toca na ferida principal que é mantença do sistema capitalista. 185 Ainda que as cotas sejam dirigidas para estudantes da escola pública. 186 Ainda que também utilize o sistema de cotas, o PROUNI foi implementado por projeto de lei, portanto, mas uma vez podemos ver a relação entre o interesse nos recursos do Estados, e da questão do habitus, visto que o grande questionamento é em torno das universidades públicas. 329 fator de explicação da desigualdade, por isso defende a adoção de políticas sociais para os pobres em geral, focando os investimentos em educação básica. Esta corrente seria contrária a adoção de cotas, e defendida veementemente pelo autor. Vale ressaltar que o jornalista Ali Kamel inspirou a sua posição nas idéias do economista Thomas Sowell, autor do livro Ação Afirmativa ao Redor do Mundo, que critica através de um estudo empírico, em vários países, a introdução das ações afirmativas e as suas conseqüências187. Outro grande debate em torno do tema gira em torno da questão do mérito acadêmico, em um dos artigos que defendem as cotas é enfatizada a desigualdade de condições entre brancos e negros na disputa pelas vagas nas universidades. A atual relatora do projeto de lei n.º 180/2008, a Senadora Serys Slhessarenko em artigo denominado “O fim do apartheid”, publicado no Jornal do Brasil, de 22/03/2009, afirma que a palavra “apartheid” significa “vida separada” e é utilizada por críticos às cotas raciais que demonstram desconhecer seu real significado e não percebem que o Brasil já vive seu próprio apartheid. De um lado, brancos capacitados por mérito, levados aos bancos universitários; de outro, os negros despreparados, excluídos da universidade pública188. No artigo publicado no Jornal O Globo (em 22/03/2009,p.13) denominado “Cota para elite da escola pública cria polêmica” levanta uma polêmica sobre o projeto de lei que está em análise na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em relação ao direito a cotas por alunos oriundos de escolas técnicas federais e dos colégios militares e de aplicação. O artigo afirma que o desempenho dos alunos dessas escolas, tendo como base o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do MEC e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador do governo para medir a qualidade do ensino estabelece que o Ideb das federais, no ensino médio, é de 5,7 numa escala até 10 contra 5,6 das privadas189. 187 Nos estudos de Thomas Sowell foram abordadas ações afirmativas em outros países além dos Estados Unidos, tais como Índia, Nigéria, Malásia e Sri Lanka e mostram que a implantação desta política compensatória não gerou o efeito esperado. 188 O projeto de cotas para universidades tramita no Congresso há mais de dez anos, trabalhando em três vertentes de exclusão, buscando não criar beneficiamento racial. Primeiro, reserva 50% das vagas para alunos que tenham cursado todo o ensino médio em escolas públicas, dentre estes alunos, metade deverá ter renda familiar per capita, não superior a 1,5 salário-mínimo. (Idem, p. 103) 189 No mesmo artigo acima o ministro da educação, Fernando Haddad, diz que a redação ficou confusa e o projeto provavelmente voltará à Câmara. Vale ressaltar que existem ilhas de qualidade na educação pública brasileira, pois a rede federal é tão disputada quanto um vestibular, bastando verificar os dados do Inep/MEC 330 Mais amplo do que o projeto de Lei nº 3.627/2004, o Estatuto da Igualdade Racial já foi aprovado em 2009. O texto original contemplava, entre outras reivindicações do movimento negro, uma reserva de 20% das vagas para negros em universidades, concursos públicos e até em filmes e programas de televisão, sendo que as questões mais polêmicas não foram aprovadas. Conforme matéria publicada em 11/09/2009 na Folha de São Paulo: Entidades do movimento negro comemoram a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial na Câmara dos Deputados. A avaliação das organizações negras é de que, embora tenha havido um recuo nas questões polêmicas relacionadas aos quilombolas e às cotas, em termos estratégicos, foi muito importante aprovar a legislação, que tramita há dez anos. “É melhor um estatuto não tão perfeito, mas aprovado, do que um perfeito engavetado”, resumiu o diretor-geral do Educafro, rede de cursinhos pré-vestibulares para jovens negros, frei David dos Santos. A presidente do Conselho Estadual da Comunidade Negra de São Paulo, Elisa Lucas Rodrigues, foi no mesmo tom.“A aprovação do estatuto é um grande passo para a solução das questões raciais no Brasil. Há aspectos a serem corrigidos, mas a nossa análise sobre o momento é totalmente positiva”, afirmou ela. Elisa, que esteve na Câmara acompanhando a votação, disse que a aprovação foi uma surpresa. “Sinceramente, não esperava que passasse, já que havia vários sociólogos defendendo a tese segundo a qual as cotas, por exemplo, representam a racialização da sociedade brasileira.” Na opinião de David, a exclusão de temas como a definição de áreas quilombolas e as cotas do estatuto pode, no fim das contas, até se converter em algo favorável para os movimentos. “Com isso, o pessoal vai ter de se articular para aprovar a legislação que trata desses temas específicos. A sinalização do movimento nesses casos é de que vamos concentrar nossas energias na aprovação da Lei 73/99, das cotas, e da que diz respeito aos quilombolas”, afirmou David. O presidente da comissão de combate ao racismo do PT paulista, Cláudio Aparecido da Silva, também elogiou a aprovação da lei. “Este foi um marco histórico para o movimento negro no Brasil.” Segundo David, a aprovação do estatuto envolveu uma forte pressão sobre o DEM, o partido que mais lutou contra o projeto. Foram enviadas cartas aos partidos democratas do mundo questionando a posição da legenda e organizado um protesto em frente à sede do partido. (p. 25) De acordo com o artigo publicado na Revista Época, de 05 de maio 2008, para o grupo que se opõe às cotas, Embora a idéia de cotas possa ter algumas justificativas, há formas mais eficientes de compensar alguma desigualdade racial. As cotas se inspiram na política de ações afirmativas, surgida nos Estados Unidos, em 1961, para reparar a histórica discriminação contra os negros. A primeira derrota do sistema veio em 1978, quando a Suprema Corte impôs limites às cotas na Universidade da Califórnia. O argumento era que as maiores oportunidades para as minorias não poderiam acontecer ao custo da perda de direitos da maioria. Em 1997, a Justiça da Califórnia baniu todas as formas de ação afirmativa, seguida por Michigan, em 1998, e pela Flórida, em 2000. (Idem, p. 102) onde as escolas federais respondiam por menos de 1% das matrículas do ensino médio em 2008, são cerca de 82 mil estudantes, em números absolutos. 331 Ainda de acordo com o artigo da Revista Época (de 05/05/2008) em três décadas de ações afirmativas, os indicadores sociais dos negros americanos melhoraram pouco190. Ainda com base na Revista Época, de 05/05/2008, podemos afirmar que a discussão do início das cotas arrefeceu em virtude do resultado acadêmico dos bolsistas191, portanto, o deslocamento do debate atual é para a questão da constitucionalidade das cotas e sobre as consequências e dificuldades de se definir critérios para identificar o pertencimento racial no Brasil. No Brasil, os resultados da política de cotas são, no mínimo, contraditórios. Um aspecto positivo é que elas parecem levar mais alunos pobres para a universidade e não baixam o rendimento acadêmico, como temiam alguns. Nas universidades estaduais do Rio de Janeiro (Uerj) e da Bahia (Uneb), onde o sistema já está em vigor, a nota média dos alunos cotistas e não-cotistas ao longo do curso é praticamente a mesma. O que complica a avaliação dos resultados é que as cotas brasileiras misturam critérios de raça (que privilegiam alunos declaradamente “negros” ou “índios”) com econômicos (que reservam vagas para estudantes de escolas públicas, independentemente de sua cor). (Idem, 103) Ainda que a notícia acentue o aspecto positivo das cotas não terem baixado o rendimento das universidades em que foram implantadas, a notícia corrobora a opinião do grupo anti-cotas que o importante seria a melhoria do ensino fundamental, ou seja, não se põe em discussão a própria exclusão propositada proporcionada pelo vestibular. A notícia termina então com o “veredicto” pautado na opinião de especialistas de que para compensar a desigualdade econômica e racial do país, os autores do manifesto do grupo dos 113 cidadãos influentes, propõe outro tipo de ação — “A política que tem de haver é de uma distribuição melhor do acesso à boa educação”. Um aspecto interessante, ainda sobre o tema, é que recorrentemente estão sendo veiculados artigos que dizem que os pais de classe média vão migrar seus filhos para escolas públicas e assim os mesmos ficarão com as vagas das cotas, o que certamente busca desqualificar o projeto de lei, antes mesmo de sua implementação, dando-lhe um perfil de elite. O interessante é que mesmo os representantes da rede particular sendo consultados e negando a afirmação, o jornal estampa a manchete como se houvesse uma migração massiva para 190 A taxa de mortalidade das crianças negras aumentou, a expectativa de vida dos homens negros diminuiu e o desemprego continua duas vezes maior que entre os brancos. A seu favor, o número de negros juízes, advogados, físicos e engenheiros triplicou (ÉPOCA, 05 maio 2008, p. 102). 191 Foram encontradas notícias com resultados semelhantes sobre outras universidades. 332 escola pública, sem dados que atestem tal afirmação além de poucos depoimentos, conforme podemos conferir a seguir: Pais de olho nas cotas De olho em bolsas de faculdades, cotas e outros incentivos dos governos estadual e federal, pais estão tirando os filhos de escolas particulares e recorrendo às instituições de ensino da rede pública. Essa migração tem sido cada vez mais comum, em alguns casos aliado à questão financeira, observou Maria da Penha Adami Martins, coordenadora da Chamada Pública Escolar de Vila Velha e membro da Comissão de Organização de Matrícula da Região Metropolitana (Comarem). Ela citou como exemplo alguns bairros em que isso é bastante comum, como Jardim Camburi e Jardim da Penha, em Vitória, e Itapoã, Itaparica, em Vila Velha. “As famílias de classe média têm procurado as nossas escolas públicas pela qualidade do ensino que ficou melhor nos últimos 10 anos, bem como o fato das instituições de ensino estarem bem equipadas”, disse Maria da Penha. Um outro atrativo é a gratuidade da passagem destinada aos estudantes do ensino médio (...) O superintendente do Sindicato dos Proprietários dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe), Geraldo Diório Filho, garantiu que a rede não sente essa migração. Mas ele disse que, obviamente, há alunos que se deparam com dificuldades financeiras. Nesse caso, a saída é recorrer a financiamentos, como o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), do governo federal, e o Nossa Bolsa (governo estadual). (GAZETA DO POVO, 24 set. 2008) Como já visto tramita no Senado um projeto já mencionado nesta tese que implanta o sistema de cotas raciais nas universidades federais brasileiras. Essas instituições ficarão obrigadas a reservar 50% de suas vagas para alunos egressos de escolas públicas. Dentro desse universo de cotistas, negros, pardos e índios serão os principais beneficiados: terão garantido um número de vagas proporcional à sua representação demográfica em cada estado. O projeto visa a ampliar a presença desses grupos étnicos e raciais no ensino superior. O objetivo é justo. Negros, pardos e índios, em especial os mais pobres, têm pouca ou nenhuma chance de se equiparar social e economicamente aos brancos sem que se lhes abram maiores oportunidades na vida. Mas essa questão é complexa e não se esgota em sua justeza. A primeira reflexão encontrada no artigo de Camila Pereira (Revista Veja, 04/03/2009, p. 67) é se o papel das universidades federais deve passar a ser o de reparar injustiças históricas. Se for isso, há que ter em mente que se trata de uma mudança radical. Segundo a autora, as universidades existiram desde sempre para produzir conhecimento. A produção de conhecimento de qualidade só é possível em ambientes de porta de entrada estreita e com rígido regime de 333 mérito192. O cerne do projeto, se aprovado for, é gerar acesso à universidade usando o desacreditado conceito de raça. Como já foi repetido algumas vezes a origem das cotas no Brasil iniciou em 2002, quando a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) as instituiu, por lei estadual, pela primeira vez no país.193 Houve muita polêmica sobre o tema, já que o conceito de raça é muito complexo e de difícil aceitabilidade por parte de muitos setores da sociedade brasileira. Atualmente, ainda são impetrados diversas ações de inconstitucionalidade, do final de cada ano, até março, ampliam-se o número de notícias sobre o tema. Só no ano de 2008, 35 notícias coletadas giravam em torno de ações na justiça, o que condiz com a crescente judicialização da política194 na contemporaneidade. Segundo o artigo da Revista Veja (04/03/2009, p. 67) a experiência com cotas não gerou resultados positivos conclusivos e tampouco unanimidade quanto a sua constitucionalidade. Ainda neste ano (2009), o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar a validade desse modelo195. A idéia conta com forte apoio oficial e, felizmente, com a oposição de muitas lideranças negras do país que enxergam no favorecimento das cotas um risco para todos196. Segundo a mesma notícia, o projeto apresentaria “contaminação ideológica”, esta representada pelo ponto de vista da Secretaria da Igualdade Racial (SEPPIR) e ONGs da do projeto é seu ponto fraco, o que seria a contraposição do discurso do “especialista” escolhido para combater tal ponto de vista. A notícia aponte as seguintes questões: por qual critério se chegou ao porcentual de 50% das vagas das universidades federais para cotistas? Para o ministro Edson Santos, da Seppir, pelo critério da "sensibilidade". Outro efeito da pressão das ONGs negras é que um mecanismo para beneficiar candidatos de baixa renda só foi incorporado ao projeto na última hora, e quase como um remendo. A redação da lei deixa no ar muitas dúvidas, entre as quais se um 192 Não devemos confundir mérito com meritocracia, a esse respeito a primeira seção deste capítulo buscou esclarecer o leitor. 193 Vale lembrar que outras universidades instituíram o sistema de cotas através de seus Conselhos Universitários e não por leis do Executivo. 194 O termo "judicialização da política", cunhado por Valhnder (1994) tem sido usado para designar a centralidade atual do papel político dos juízes, sobretudo em tribunais constitucionais. 195 Vale ressaltar que o modelo de cotas varia de uma universidade para outra, em função da autonomia universitária garantida pela Constituição Federal. 196 Em julho de 2009, o Partido dos Democratas (DEM) ingressou com Ação Declaratória de Inconstitucionalidade (ADIN) contra o sistema de cotas nas universidades públicas, utilizando as mais diversas argumentações que vão desde uma afronta ao princípio da igualdade, até a meritocracia (o documento se encontra disponível no site: <www.iara.org.br>) 334 branco pobre saído da escola pública poderá se beneficiar das cotas. Em contraponto, o discurso do sociólogo Demétrio Magnoli (Idem, 2009, p. 67), opositor ferrenho ao sistema de cotas raciais é apresentado no discurso como “(des)ideologizado” no sentindo de discutir o tema raça: Políticas baseadas na raça são a negação do princípio fundador da democracia, segundo o qual as oportunidades das pessoas estão em aberto – e não prédeterminadas por suas origens". Algumas das maiores e mais vergonhosas tragédias da história foram plantadas, cultivadas e colhidas pelo ódio racial produzido por políticas públicas racistas – a escravidão, o holocausto e a apartheid. É ingênuo pensar que o progresso social se acelera quando o estado inverte o sinal de modo que um grupo racial historicamente derrotado possa, finalmente, triunfar sobre seus algozes. Isso produz mais ódio. (Idem, 2009, p. 67) Este estudioso continua sua crítica lembrando que o modelo utilizado no Brasil do sistema de cotas nas universidades públicas foi importado dos Estados Unidos baseado na experiência empírica e nas melhores decisões emanadas pela Suprema Corte. A crítica que se faz ao sistema de cotas nas universidades é que a mesma cria um acirramento do ódio e das divisões raciais patrocinadas pelo próprio Estado. Segundo a Revista Veja (2009, p. 169), pautando agora no trabalho da antropóloga Ivone Maggie, o Brasil estaria enveredando no caminho inverso dos Estados Unidos sobre a questão da constitucionalidade das cotas, o que nos remete a outra questão, ainda que estejamos nos aproximando de uma proposta para todas as universidades públicas brasileiras, no campo da política é possível retrocessos no tema, principalmente com a mídia em maioria contrária a questão e realizando a mediação com seus leitores. Segue trecho da notícia citada nesta análise: Nos Estados Unidos, país com longa experiência em ações afirmativas, caminhase na direção justamente oposta à que pretende o Brasil. A Suprema Corte americana nos anos 70 julgou inconstitucionais as cotas para negros e outras minorias. Recentemente, também considerou inconstitucional o "bônus" nas notas que algumas universidades instituíram para ajudar no ingresso dos estudantes negros. Resumiu o juiz Anthony Kennedy em um voto sobre as ações afirmativas: "Preferências raciais, quando corroboradas pelo Estado, podem ser a mais segregacionista das políticas, com o potencial de destruir a confiança na Constituição e na idéia de igualdade". Incentivados a responder sobre a própria cor no último censo escolar de 2008, 65% dos alunos brasileiros deixaram a questão em branco. A maioria dos brasileiros também não se define com base na raça. Conclui a antropóloga Yvonne Maggie: "A luta contra o racismo consiste em destruir essa identidade racial – e não em reforçá-la". Impor cotas raciais por lei pode ir contra o bom senso e contra a realidade brasileira, acirrando divisões apenas embrionárias na sociedade. (Idem, p. 169) Outra polêmica levantada no debate é que poderíamos fazer a classificação a partir da carga genética do indivíduo, porém, segundo a biologia 335 do ensino médio o biótipo (carga genética) não tem manifestação completa e automática sobre o fenótipo (aparência). Isso significa que pessoas de ancestralidade negra podem parecer menos negras do que alguns brancos197. É importante realizarmos um a parte no tema para uma análise jurídica198 do projeto de lei, citado anteriormente, que prevê que os beneficiários, além de negros, pardos ou índios, sejam egressos de escolas públicas. Metade das vagas seria reservada para aqueles estudantes de famílias de baixa renda. A intenção do remendo é evitar que os brasileiros negros de classe média ou os alunos das escolas públicas de elite sejam os principais beneficiados pelo novo sistema. É um bom remendo. Mas ele só vale para 50% das vagas sob o sistema de cotas. A lei, da maneira como chegou ao Senado, é confusa quanto a que benefício teria direito o brasileiro branco e pobre. O texto afirma que as vagas devem ser preenchidas por negros, pardos e índios, "no mínimo" na proporção em que suas etnias participam da composição da população em cada estado. Ao usar a expressão "no mínimo" e não se referir aos brancos, a lei abre espaço para que as demais vagas também sejam ocupadas por negros, pardos e índios. O artigo publicado na Revista Veja (2009, p. 71) ressalta que se aprovado como está, o projeto beneficiaria efetivamente 75.000 brasileiros, a metade dos calouros que entra nas universidades a cada ano. Tais vagas seriam destinadas preferencialmente a negros, pardos e índios. O conteúdo do artigo é tendencioso, pois, presume que todos tiveram as mesmas oportunidades e que as desigualdades sociais não persistem neste modelo de dominação neoliberal. De acordo com o conteúdo da matéria, o grande culpado da situação é o próprio indivíduo e não o sistema capitalista, que necessita da divisão de classes para manter as desigualdades sociais e os benefícios aos mais favorecidos. O artigo continua, afirmando que o projeto de cotas não centraliza o debate nas desigualdades sociais persistentes, que tem origem desde a colonização do Brasil. Não bastam gerar mecanismos de acesso aos alunos das chamadas minorias, pois, os problemas maiores se encontram na educação básica e ensino 197 Na Universidade de Brasília, uma das primeiras a implantar o sistema de cotas no país, uma comissão foi formada com o objetivo de arbitrar, a partir de fotografias, sobre quais candidatos se enquadravam no critério racial a ser favorecido. Dois irmãos gêmeos idênticos, univitelinos, tentaram o acesso – mas apenas um foi considerado negro. A universidade decidiu, então, substituir a foto por uma entrevista. Logo outra injustiça flagrante será produzida pelo novo sistema. Isso é inevitável. Em todos os tempos históricos e geográficos, o critério racial isolado como balizador de políticas públicas produziu favoritismo e abuso de poder. 198 Nosso campo de formação. 336 médio. Lembrando sobre as polêmicas listadas pelo PPCOR, não existe para os defensores das cotas nenhuma incompatibilidade em se melhorar e investir no ensino médio concomitantemente a implementação das cotas, portanto, tal dicotomia é propositalmente aplicada, conforme veremos a seguir nos dados obtidos na Revista Veja, Apenas 20% dos alunos mais pobres concluem o ensino médio. Pior ainda: entre os que chegam à formatura, uma minoria tem condições reais de cursar uma faculdade, ainda que ela seja gratuita. Metade dos alunos conclui o ensino básico sem conseguir executar as operações fundamentais da matemática e sem entender o conteúdo de textos simples. Não há solução mágica para a democratização do acesso à universidade. Isso apenas ocorrerá quando mais e mais estudantes forem preparados para competir de igual para igual por uma vaga. Não há, claro, uma maneira de fazer isso que ignore o investimento maciço na melhoria do nível dos professores das escolas públicas brasileiras. (Idem, p. 72) Como já vimos na seção anterior, de forma mais pormenorizada, o mérito acadêmico não se confunde com meritocracia, pois nesse segundo caso imaginamos que todos os estudantes tiveram as mesmas oportunidades na vida, fato que não é verdadeiro. Não queremos dizer que o mérito individual acadêmico não exista, porém, num contexto das relações sociais e não estudado isoladamente. É interessante notar que diminuíram consideravelmente nos últimos anos os argumentos midiáticos em torno do mérito simplesmente, talvez em virtude do bom ou médio desempenho que vem sendo apresentado por cotistas em várias universidades que adotaram o sistema. Portanto, o foco central do debate na mídia gira em torno de dois eixos centrais, a inconstitucionalidade e a possibilidade de exacerbação do racismo através da ampliação nacional da lei de cotas, principalmente em torno da argumentação de juristas e antropólogos contrários às cotas. O que revela a soberania das influências das perspectivas da igualdade legal e da igualdade racial na construção do consenso que engendra a hegemonia do capital, conforme analisado por Gramsci (2000) A temática das cotas nas universidades sempre despertou muito interesse dos detentores do poder, pois, se observamos na mídia haverá sempre um debate ideológico entre aqueles que são contra e outros que são a favor da introdução das cotas como meio de reduzir as desigualdades raciais. Apesar da grande produção nesta área não observamos nas notícias uma maior discussão em torno do que consideramos o cerne da questão, que é como a educação 337 influencia e reproduz as desigualdades sociais provocadas pelo sistema capitalista199. Quando o debate gira somente em torno da questão racial, o mesmo pode ser desqualificado pelos jornais, com os argumentos de além de não resolver a questão do racismo, também não estar atendendo ao destino que se propôs de reduzir as desigualdades raciais nas universidades, como podemos observar nas notícias: “Mais negros no ensino superior; desigualdade maior”, Acesso de brancos foi ainda maior, ampliando disparidade de 7,4 para 9,4 pontos porcentuais (Jornal Pequeno,25/09/2008); mesmo com cotas, pretos e pardos ingressam menos na universidade (Diário de Cuiabá, 24/09/2008); cresce distância entre brancos e negros no acesso à educação (Cresce distância entre brancos e negros no acesso à educação (A Tribuna, 24/09/2008). Todas baseadas em dados da PNAD 2007-IBGE. O economista americano Thomas Sowell faz severas críticas ao sistema de cotas ao afirmar que as mesmas: garantem acesso somente a grupos que já estavam longe da miséria, afirma ainda que para garantir a melhora social, é providenciar um ensino básico sólido para todos200. No seu livro As Ações Afirmativas ao Redor do Mundo o economista americano Thomas Sowell, da Universidade Stanford realizou um estudo internacional sobre o efeito das cotas. Este estudo é de importante registro, pois, grande parte dos argumentos contrários às cotas, presentes na mídia são baseados nas afirmações desse autor, ainda que não sejam descritas as fontes. Sobre tal trabalho Camila Pereira (2009), em artigo para a Veja, observa que é incorreto atribuir às ações afirmativas o progresso dos grupos beneficiados. Nos Estados Unidos, os números revelam que grande parte dos negros ascendeu justamente no período anterior às cotas. Depois delas, o que se viu foi a melhora na renda do grupo reduzido de classe média negra que já vinha avançando. Para os 20% dos negros americanos mais pobres, ocorreu o contrário. A renda até caiu. Outro problema recorrente é que, embora surjam como políticas provisórias, as cotas acabam sempre prorrogadas por longos períodos. Na Índia, a reserva de empregos e de vagas na universidade para castas discriminadas foi implantada em 1949. Era para durar dez anos, mas existe até hoje. A razão para a persistência da medida é simples: ninguém quer arcar com o custo político de eliminar o benefício. Ao contrário. Ele é até ampliado. Isso já ocorre no Brasil. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que começou com cotas para negros, pardos, índios e estudantes de escola pública, atualmente também reserva vagas filhos de policias 199 Em momento algum observamos nos debates a discussão sobre a luta de classes, guerra de posições, hegemonia da classe dominante, entre outras. Simplesmente o debate é reduzido a questão da igualdade formal, da meritocracia, da raça, da cor da pele, da pobreza, dos privilégios, entre outros. 200 Não podemos deixar de comentar que Sowell é um economista e comentarista social cujas opiniões estão mais próximas de um radical do que do “Mainstream” negro, e que foi amplamente desacreditado por essa razão. O economista tem posições contraditórias tais como: “quer abolir o salário mínimo, é contrário ao aborto, ao casamento gay e a programas de assistência médica administrados pelo governo. Em outras palavras, não é exatamente um progressista” (ROTHER, 2008, p. 107) 338 militares, bombeiros e agentes penitenciários, mortos em serviço. Outro exemplo é a Universidade Federal de São Carlos já reserva vagas até para refugiados políticos. (PEREIRA.Uma segunda opinião. Revista Veja. São Paulo, Ano 42. n.º 9. p. 173. 04 mar. 2009) Vale ressaltar, segundo constatações de Thomas Sowell (2004), com argumentos muito aproveitados em diversas notícias, o sistema de cotas só tem beneficiado uma minoria. Não a minoria, mas uma minoria pré-existente no interior de uma minoria. Embora não faça o menor sentido pensar no negro como uma minoria, em se tratando do Brasil, é fácil perceber que o sistema de cotas raciais entre nós terá o mesmo resultado. A opção por cotas e políticas afirmativas dirigidas a grupo específico da população, no mais diversos cantos do mundo vem sempre acompanhada das mais pias intenções, da mais exibida compaixão pelos mais fracos. Embora seja verdade que uma análise mais atenta dos argumentos apresentados revele tolices assombrosas, falsidades históricas e manipulações estatísticas, sempre resta o fato de que as intenções originais são louváveis. No Brasil os motivos são também os mais nobres: proteger os pobres e acabar com o racismo e outras formas de discriminação. Os efeitos, como em todo canto, são ruins. No caso dos mais pobres, a inexistência de ações afirmativas genéricas, combinada com sistema de cotas e assistencialismo, protege mais a pobreza do que os pobres. Enquanto nada muda no estado precário da escola pública, pretende-se forçar as portas das universidades para fazer entrar os mais pobres — com argumento que eles também tem direito ao ensino superior. Confunde-se educação com diploma, os termos dessa equação só pode levar a perpetuação da pobreza. (SOWELL. 2004. p. 10-11) Curiosamente, apesar das quantidades de dados apresentada no trabalho desse autor, suas conclusões repetidamente reiteram elementos do senso comum para se posicionar contra o sistema de reservas de vagas nas universidades, como se a questão central fosse ser contra ou a favor das cotas. Não podemos negar sua contribuição para a temática, pois é uma das poucas obras que estuda as conseqüências da ação afirmativa nos Estados Unidos da América, na Índia, na Nigéria, na Malásia, em Siri Lanka e outros países. Entretanto, o tema é tratado de forma descritiva sem levar em conta a abordagem marxista que centraliza o debate em torno das desigualdades persistentes próprias do sistema capitalista, inclusive sendo as mesmas úteis para manutenção das mesmas. Em relação à educação superior o tema “cotas” tem aparecido frequentemente nos diversos veículos de comunicação sem uma abordagem teórica precisa. Na Revista Época, de 06/04/2009, foi publicado artigo denominado “Cotas para quê? Reservar vagas para negros e índios ou estudantes pobres nas universidades públicas não resolve uma injustiça histórica e cria ainda mais problemas”. Os autores da matéria utilizaram os mesmos argumentos dos artigos anteriores que são: o sistema de cotas é injusto, a cor da pele não quer dizer nada, produzir a primeira lei racial no Brasil em 120 anos de 339 história republicana, alunos de escolas públicas não devem ter direitos às cotas, pois é o próprio Estado que está fornecendo um ensino de péssima qualidade, não dando oportunidades aos estudantes para que estes concorram em pé de igualdade com os alunos oriundos da iniciativa privada e ainda afirmam que fere o princípio constitucional da igualdade, sem levar em conta que as pessoas não são iguais e devem ser tratadas de forma desigual afim de que se estabeleça uma paridade de oportunidades entre elas. O sistema de cotas, seja com corte racial, seja com corte social que é injusto e sim o ingresso e permanência de alunos pobres nas escolas públicas de educação básica201. Analisando os dados do censo escolar 2007/Inep citado na Revista Época, de 06/04/2009, chegaremos à conclusão que reservar parte dos 2,3 milhões de vagas em universidades públicas não vai resolver a questão social dos 36 milhões de estudantes que passam onze anos em escolas públicas. Exemplificando 4.029.748 estudantes entraram em 2009 na 1.ª série do (ou segundo ano) ensino fundamental deste número 2.211.998 terminam em 2009 o ensino médio e 1.817.750 desistiram da escola e este último nenhum sistema de cotas em universidades vai ajudá-los. Tal não poderia deixar de ser, visto que no sistema capitalista toda a estruturação está voltada para diferenciação de classes, embora na aparência seja construído para que “todos sejam iguais perante a lei”. Vale ressaltar, também, que segundo dados do censo escolar 2007/Inep o país investiu em 2006 R$ 1.773,00 anuais por aluno na educação básica, enquanto no ensino superior o gasto foi de R$ 11.820,00. Há, portanto, uma discrepância entre esses valores que precisam ser modificados. O estudo das cotas de acordo com as abordagens que citamos na introdução da tese foi realizado em outras sessões anteriores deste Capítulo III. Em relação à política de cotas procuramos discutir não apenas o contexto em que essas mudanças estão inseridas, mas também, as conseqüências que elas têm para a construção de uma sociedade igualitária. Para isto, é necessária a formação de consensos para redução de conflitos e de disputa de interesses em nome do desenvolvimento econômico e social. Para tal contamos com a 201 Enquanto as desigualdades sociais persistirem não há qualquer sistema que resolva o problema do acesso a educação de qualidade, principalmente, a educação superior, que atualmente possui um grande obstáculo: o vestibular que impede que estudantes oriundos das classes populares, com escolas sucateadas, concorram no mesmo patamar com aqueles da iniciativa privada, onde as escolas estão melhores equipadas e os professores são melhores remunerados. 340 contribuição de Coutinho (1980, p. 84. in FREIRE, 2009,p.186) ao analisar a importância da ideologia como elemento capaz de unificar um bloco histórico202 que não é homogêneo, mas marcados pelas contradições caracterizadas por uma sociedade dividida em classes. Neste tema, Gramsci nos “Cadernos do Cárcere” nos esclarece que as ideologias não “devem ser julgadas segundo um critério de verdade e falsidade, mas segundo sua eficiência para aglutinar bases e frações de classe em posições de domínio e subordinação. A ideologia contribui para “cimentar e unificar” o bloco social (Apud FREIRE, 2009a, p. 17)”, neste sentido “convém ressaltar que hegemonia, para Gramsci, é exatamente a capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe (idem, p.18)”. Sobre o tema Freire (2009) nos elucida que para ser formado um consenso em torno de um bloco histórico, a ideologia é difundida de forma pedagógica pelos aparelhos privados de hegemonia. Estes seriam “Processos de construção e manutenção da hegemonia são na sua essência projetos pedagógicos, daí podemos falar numa pedagogia do capital que atravessa os aparelhos privados de hegemonia, como é o caso dos meios de comunicação que formam a chamada mídia (idem, p.186)”. Portanto ao desacreditar o discurso das cotas que denuncia as desigualdades sociais e raciais efetivas da sociedade brasileira, reforça-se a idéia de que seria possível em condições de igualdade na qualidade do ensino fundamental que todos participassem do vestibular, sem questionar o próprio caráter do vestibular de não permitir o direito a educação para todos, em todos os níveis. Desta forma se “ensina” a naturalização do vestibular como filtro para o acesso às universidades, quando na verdade tal barreira é construída socialmente203. Entendemos o argumento é que se o Estado proporcionasse igualdade de condições de ensino nas escolas públicas, assim como nas escolas particulares, não teria sido necessária a discussão das cotas como que atenuante das desigualdades social e raciail, na prática, escamoteia o discurso neoliberal que 202 O autor pauta suas análises na obra se Gramsci (2000), Podemos citar como exemplo a Argentina que não possui vestibular, sendo a universidade garantida aos que a querem cursar e possuem o grau de estudos exigidos para tal, neste modelo o filtro diferenciador são os próprios estudos avançados ou vinculadas à permanência no curso, que podem causar evasão. 203 341 põe em cheque a capacidade do Estado de proporcionar uma educação com qualidade de ensino, tendo como exemplo de sucesso o ensino privado. Não por acaso a cidade do Rio de Janeiro na atualidade apresenta um projeto de gestão privada do ensino, através da atuação de ONGs como a fundação Airton Senna204. No sentido oposto, se valoriza a educação das escolas particulares como um “serviço”, retirando da educação o seu patamar de direito, para situá-lo numa esfera de mercado, cuja eficiência é garantida pela relação de consumo. A explosão de escolas, faculdades, centros universitários e universidades particulares nos últimos anos, por exemplo, está longe (e nunca estará nem próxima) de possibilitar a democratização do direito ao ensino formal, pois como direito, a educação (a produção e socialização do conhecimento) é uma esfera que, numa democracia, deve ser necessariamente participável, ou seja, deve pertencer a todos e ser efetivamente aberta à participação de todos, o que só é possível na esfera pública. Podemos concluir daí, que todo investimento público (financiamentos e isenções fiscais) nesse setor (privado) é, portanto, equivocado (ou faz parte de uma estratégia de privatização e empresariamento da educação, o que a transforma em bem de consumo, ao invés de materializar o direito). Ao afirmarmos, a partir da luta dos movimentos sociais, que a igualdade é condição de um processo de democratização, afirmamos, também, que no Brasil o caminho da mudança deve começar pelo combate às desigualdades sociais. Esse combate passa pela reestruturação de diversas instituições (entre elas o sistema educacional - acesso, currículo, material didático, formação de educadores, formas de seleção, financiamento de pesquisas, etc. — o sistema previdenciário — um dos maiores produtores de desigualdades e o desmonte do Estado de Privilégios que é o Estado Brasileiro), por políticas massivas de acesso aos direitos fundamentais, complementadas por políticas específicas para os 204 Ver Projeto de Lei nº 2/2009, aprovado em 6 de maio do corrente ano que "Dispõe sobre a qualificação de entidades como Organizações Sociais e dá outras providências", ainda polêmica e sem maioria ainda na câmara, permitiria que serviços essenciais ao bem estar da população como educação, saúde, ciência e tecnologia, entre outros, passassem da Prefeitura para entidades privadas, com recursos públicos. A primeira medida no sentido dessa privatização do ensino municipal foi a contratação da Fundação Ayrton Senna, entidade educacional do setor privado, para preparar material didático, avaliações dos alunos da rede pública de ensino, esquecendo-se de que a autonomia pedagógica, proposta que vem sendo amplamente combatida pelo sindicato da categoria. - Infelizmente, e contrário à nossa posição, o projeto foi aprovado. A lei permite agora que serviços essenciais ao bem estar da população como educação, saúde, ciência e tecnologia, entre outros, deixem de ser responsabilidade direta da prefeitura que repassará recursos públicos a entidades privadas para a execução desses serviços. 342 grupos sociais mais vulneráveis à discriminação. Por isso, devem ser implementadas políticas (não necessariamente vinculadas ao emprego) de acesso à renda digna, de aumento de vagas nas escolas e universidades públicas (e de transformação dessas universidades em públicas), de acesso à saúde e moradia, juntamente com políticas de ação afirmativa para negros, indígenas, portadores de deficiências e necessidades especiais e, obviamente, os mais pobres. Por causa da polêmica sobre a admissão nas universidades, o Supremo Tribunal Federal foi requisitado a julgar a constitucionalidade das cotas raciais e deu indicações de que o fará em breve. Este é um momento histórico, e o Tribunal tem uma oportunidade de debater o sistema de ingresso nas universidades — na sua totalidade —, levando-se em conta, principalmente, o sistema capitalista que deixa a maioria da população distanciada, não só da universidade pública, mas também, da educação em geral, bastando observar o percentual grande do número de analfabetos funcionais, conforme pesquisa realizada pelo IBGE em 2007. Comprova-se, assim, que para a classe detentora do poder não há interesse da universalização da educação. Desta feita, não podemos analisar o debate travado na mídia em torno do tema sem procurar estabelecer mediações com a realidade que ele se relaciona. Longe do senso comum, o debate sobre as cotas para as universidades públicas na mídia é muito complexo, pois envolve mais ideologia do que teoria. Para desvendar os sentidos possíveis dos mesmos, e suas determinações estruturantes, não podemos abrir mão das reflexões de Bourdieu (1989) de que temos que questionar de onde o interlocutor nos fala. Segundo este autor o discurso dos intelectuais “...é determinado em sua estrutura e em sua função pela posição que ocupa no interior do campo de poder...” (idem, p. 190). Os veículos de comunicação de grande circulação que selecionamos como fonte, não por acaso; foram aqueles que apoiaram, durante toda a década de 90, o desmonte do Estado. A tese do jornalista Silva (2009) demonstra, como as mesmas fontes que pesquisamos, além de outras, tratam os oito anos de mandato de Fernando Henrique Cardoso com condescendência, diferentemente do atual presidente Lula. Podemos inferir neste caso que pode haver uma relação direta entre tal procedimento e a importância fundamental da privatização para a 343 elite brasileira, aliada histórica da burguesia internacional, que foi estancada no mandato de Lula, ainda que outros aspectos da política econômica do período anterior tenham sido mantidos. Atualmente, estes mesmos jornais e revistas, denunciam a má qualidade da escola pública na educação básica como responsável pela desigualdade apresentada no ensino superior em virtude do mau gerenciamento e ideologização, e não como resultado do processo de desmonte da própria educação pública impetrada pela agenda neoliberal. Sobre o tema Gentili (1995) nos esclarece que, [...] o neoliberalismo ataca a escola pública a partir de uma série de estratégias privatizantes, mediante a aplicação de uma política de descentralização autoritária e, ao mesmo tempo, mediante uma política de reforma cultural que pretende apagar do horizonte ideológico de nossas sociedades a possibilidade mesma de uma educação democrática, pública e de qualidade para as maiorias. Uma política de reforma cultural que, em suma, pretende negar e dissolver a existência mesmo do direito à educação. (GENTILI, 1995, p.78)” Mas uma vez a mídia aponta a “incompetência” do Estado frente aos problemas na sociedade brasileira, neste caso especificamente, como gerador da desigualdade da qualidade de ensino entre o ensino público e privado. É o que Borón (1994) apontou como “satanização” do Estado, e seus agentes, e valorização da “competência” gerencial do setor privado. Podemos inferir, então que o nexo possível dessas falas está na própria privatização desse setor que mobiliza uma parcela considerável do fundo público205. Em suma, é importante realizar o desvendamento dos conteúdos de tais notícias, já que as mesmas estão diretamente ligadas à formação do senso comum que produz consensos sobre o tema, ou seja que possibilita a integração e reprodução da ordem social através das invisibilidades que produz . O que podemos inferir, portanto, é que nas notícias coletadas há uma verdadeira indução no leitor para que tenha uma posição anti-cotas, usando argumentações frágeis do senso-comum, sem base teórica explicitada. Esta luta em torno do “poder simbólico”, discutido por Bordieu (idem), de nomear o mundo com a utilização de símbolos é um meio eficaz de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. “Essa “luta” pelo poder é conduzida diretamente ao cotidiano dos leitores, através de procuração dada aos especialistas em produção simbólica, tais como: editores e jornalistas (FREIRE; 205 Sobre a questão do fundo público Cf. Oliveira, 1998. 344 CARVALHO, 2008, p.153). Portanto, de acordo com as teorias apresentadas anteriormente podemos inferir o vulto que o tema cotas ganhou na mídia nos últimos anos, e os tipos de discursos mais difundidos, não podem ser considerados como aleatórios, ao contrário, existe uma relação dialética que alimentaria o consumo de notícias, quanto mais há interesse do leitor pelo assunto, tanto mais sua cobertura é estimulada, criando em torno do tema mais interesse por tal produto e determinado tipo de argumentação repetida inúmeras vezes. Nesta lógica, outras questões, ou abordagens pertinentes sobre o tema, tornam-se (in)visibilizadas pela linha editorial/ideológica seguida pelos jornais ou revistas. Nos últimos anos no Brasil surgiu uma farta literatura sobre política de ação afirmativa, especialmente em relação à cotas para a população negra nas Universidades, evidentemente, várias destas obras editadas postulam analisar os riscos e possibilidades da adoção de ações afirmativas sob perspectivas diversas. Da abordagem conservadora até o viés histórico, passando pela sociologia política e pelos estudos sobre educação, vários direcionamentos ao debate foram propostos. Portanto as perspectivas aqui discutidas são muito importantes para localização da discussão para além do senso comum midiático. A polêmica é tão acirrada que alguns chegam a dizer que o Brasil se tornará um país dividido entre negros e brancos, sendo a perspectiva da luta de classes pela tradição marxista ainda uma minoria (in)visibilizada, sobretudo pela mídia, mas que propõe questões capazes de dar sustentabilidade e aprofundamento das análises realizadas até então, para além da dicotomia contra ou a favor das cotas, e em direção a democratização efetiva da sociedade brasileira. Lembrando que não existe democracia efetiva sem cidadania universalizada. 345 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS E assim chega-se ao final, com a certeza de que, agora, foi alcançada aptidão para o começo. Mas, se assim é, o começo é recomeço, o fim torna-se suposto, e a jornada pode prosseguir, melhor e mais ampla. Fecha-se um círculo, e provavelmente, de um círculo de círculos. José Chasin Por certo, qualquer investigação que se reivindique conseqüente apresentará conclusões parciais. Desse modo, seria penoso e desnecessário repetir as ponderações feitas ao longo do estudo para apresentá-las a título de conclusão. Pensamos, entretanto, ser possível oferecer, à guisa de considerações finais, uma síntese dos aportes que consideramos, através da pesquisa realizada, necessários ao debate da política de cotas em nosso país. Lembrando que o sentido de aportar é chegar a algum lugar seguro, é ancorar, amarrar com a tranqüilidade da segurança para que se possa de novo partir em busca de novos caminhos que um dia também irão aportar... Por termos esta compreensão apresentaremos apenas algumas questões que evidenciem as reflexões realizadas sobre a reserva de vagas através de cotas nas universidades públicas. Estamos cientes de que todo final é ao mesmo tempo um recomeço. Um começo de novos começos que aqui tentamos indicar. No primeiro capítulo intentamos evidenciar que o debate sobre a desigualdade não é recente, ou seja, não surgiu com as cotas e nem mesmo é de fácil resolução. Na verdade a desigualdade persistente no país é um traço da formação social, política e econômica nacional que tem sido historicamente perpetuado, sendo legitimado pela vulgarização e pelas propagandas de que a questão cerne da desigualdade possa ser facilmente resolvida. Dessa forma, recorremos a alguns dos clássicos que ao longo de suas obras buscaram desmistificar os fetiches inerentes a igualdade no capitalismo evidenciando as características da sociedade brasileira . No segundo capítulo objetivamos apresentar os inúmeros dados que comprovam a presença dessa desigualdade orgânica na educação, 346 ressaltando que se esses indicadores não forem percebidos na sua totalidade, não serão as intervenções focalizadas desconsiderando o seu contexto histórico, ou seja, o cenário atual, que poderão guiar soluções a essa problemática. Foi neste capítulo que buscamos recordar de que modo a autonomia do debate universitário tem se apresentado como uma falsa questão, na medida que a “reforma” universitária construída pelo Banco Mundial, como diretriz internacional dentro do processo hegemônico do capital financeiro objetiva um tipo de universalização na educação que não ultrapassa, ao contrário, aprofunda e amplia as precarizações do ensino público em diferentes países. No Brasil tem sido poucos os analistas que consideram a importância desse debate sobre o reconhecimento dos rumos da educação pública para o enfrentamento da discussão da cota, é como se a cota pudesse ter uma independência, uma autonomia, ignorando o enfrentamento da questão desastre educacional que vem se configurando nas últimas décadas em nosso país. Por fim, no terceiro e último capítulo buscamos arrumar o solo do debate sobre cotas tentando, a partir da intensa pesquisa realizada nesse estudo, agregar eixos fundamentais dessa discussão para entender melhor a verdadeira configuração da batalha de idéias que se fez ao redor das cotas no debate, sobretudo a cota racial, que sem dúvida alguma é a mais questionada. Nesse capítulo acreditamos que se encontra a maior contribuição da nossa tese buscando fugir do senso-comum analisamos um conjunto absolutamente expressivo dos diferentes tipos de produção construído ao redor do debate sobre cotas raciais. Foi a partir do mesmo, fruto de um grande esforço teóricometodológico, que buscamos analisar as existências e/ou influências das abordagens que construímos nas questões das cotas enfrentadas em nossa universidade (UERJ). Por todos os capítulos que percorremos durante o desenvolvimento desta tese, ficou sempre uma pergunta: em que medida a universidade pública pode ter um papel significativo para a redução da desigualdade social no Brasil? Essa pergunta é muito complexa, pois envolve dois temas que historicamente são pouco aclarados em nosso país: o da desigualdade social, por um lado, e do ensino superior, por outro. Segundo Ferreira (2005) a dificuldade se aplica, sobretudo por existir 347 uma diversidade significativa de explicações sobre a desigualdade social no nosso país, que reproduzem maneiras ideologicamente diversas de entender o processo de formação da nação brasileira, e dessas leituras também dependem, em última instância, as várias visões possíveis da universidade e seu papel na sociedade. (2005, p.13) É interessante mencionar que o debate sobre cotas, sobretudo as raciais, carrega em seu interior o cerne destas questões destacadas, o que ajuda a entender as polêmicas geradas. As mesmas podem ser entendidas se seguirmos as duas linhas de raciocínio, indicadas por Ferreira (idem) para compreensão da questão: “a primeira, segundo a qual a universidade pode e deve ter um papel na redução da desigualdade pelo caráter de sua produção de conhecimento e a aplicabilidade prática dessa produção na solução dos problemas sociais” (idem); a segunda sustenta-se na crença de que uma ampliação constante e significativa do acesso ao ensino superior poderia, num período longo que atravessasse algumas gerações, “aumentar o nível de conhecimento geral da população e sua capacidade de apropriar-se com mais equidade dos benefícios do nosso desenvolvimento” (idem). Estas duas idéias que soam simpáticas e consensuais, escondem, de fato, enormes obstáculos e significativos desafios. Esses últimos revelam concepções de mundo distintas e em constantes disputas. Porém não se apresentam com facilidade sendo reproduzidos pelas (in)visibilidades que constroem oposições que muitas vezes são atribuídas a meras paixões pessoais, típicas dos contra e a favor em que parecem se resumir. Nas sociedades contemporâneas cada vez mais o exercício do pensée unique tem se revelado como opção de muitos atores envolvidos diretamente com a educação. Deste modo, os desafios mencionados se encontram cada vez mais distantes das possibilidades de problematização e aprofundamento. Nestes tempos tão duros, repletos de desencantos, em que a crise estrutural do capitalismo impõe mudanças regressivas em todas as dimensões da vida social, o declínio da esfera pública tem desresponsabilizado o Estado da construção e efetivação da cidadania. É neste contexto que a educação pública também declina, a política se despolitiza e o trabalho se desvaloriza. É neste cenário que a apatia alcança patamares cada vez maiores em várias dimensões e esferas, sobretudo na educacional e os consensos vazios parecem ocupar cada vez mais espaços. 348 Conforme Observou Neves (2008) no “neoliberalismo de terceira via”, a privatização, a fragmentação e a focalização das políticas sociais materializadas na criação do “setor público não estatal” têm ainda a função de dialogar econômica e politicamente com frações significativas das camadas médias que funcionam também como intelectuais, estabelecendo a relação entre as frações de classe expropriadoras e importantes frações do proletariado. Esses novos intelectuais orgânicos, dentre eles os professores, têm como tarefa promover a desvalorização da igualdade como valor, com práticas de prestação de serviços sociais na sociedade civil, principalmente de caráter voluntário. Assim a educação vai perdendo suas possibilidades emancipatórias. Assim vamos adiando as reflexões necessárias para o aprofundamento das questões que são fundamentais na educação. Guiados pelos ensinamentos gramscinianos, muitas vezes pouco explicitados aqui, mais fundamentais para construção de nossas indagações que moveram a investigação, refletimos em diversos momentos sobre seu tema de estudo para construir o nosso: “a superação do mundo da necessidade onde a educação deve cumprir o papel de reunificar o trabalho intelectual e o manual, devolvendo aos seres humanos a possibilidade de um desenvolvimento amplo de suas capacidades espirituais e materiais” (GRAMSCI,2000). Lembrando que esta superação deve começar pelo combate efetivo as formas desumanizantes e subcidadãs de educação num país que “se ergue pela desigualdade e se alimenta dela”. Neste sentido, a superação das desigualdades persistentes de nossa história se tornou também uma preocupação que acompanhou todo nosso estudo, através da ênfase da relação da educação com essa problemática. Queremos deixar claro que compreendemos, a experiência das cotas como extremamente importante considerando todos os aspectos que envolvem a questão e aqui foram mencionados. Entretanto, temos a esperança que esse sistema, um dia deixe de existir, pois a sua continuidade é o signo da não superação e/ou redução das perversas desigualdades em nosso país. Apesar de não termos uma visão otimista da educação na contemporaneidade, achamos importante destacar uma conhecida reflexão do filósofo Antonio Gramsci ao definir que o pessimismo da razão é um elo fundamental na construção do otimismo da vontade, vontade esta que nos 349 impulsiona sempre a tentar compreender (e assim melhor contribuir para transformar) os rumos da educação e conseqüentemente as questões que estão presentes em seu âmago. O que está realmente por trás desta nossa dedicação ao tema e especificamente a este objeto de estudo é uma vontade, um reconhecimento de que a universidade pública brasileira possui um papel fundamental na problematização e construção da cidadania em nosso país. Deste modo, pensar suas propostas, é pensar seus rumos, o significado e alcance de suas políticas. Concordamos com Laura Tavares Soares (2007) quando afirma que a necessária autonomia e diversidade de suas ações não significa que elas prescindam de uma perspectiva mais geral sobre o seu papel como Universidade Pública na sociedade. Não uma sociedade abstrata, mas uma sociedade determinada por condições históricas, políticas, sociais, culturais e econômicas; entendida em seus aspectos estruturais e conjunturais. Portanto, a Universidade não deve ser apenas o espelho da sociedade, sobretudo no caso da sociedade brasileira – ainda marcada pelo conservadorismo e por profundas desigualdades de diversas naturezas. Ao invés de cumprir com um papel meramente reprodutor do status quo, a Universidade precisa assumir um papel transformador dessa realidade, sobretudo da dura realidade de parcelas ainda majoritárias de jovens brasileiros que não têm acesso ao ensino superior e tampouco têm garantidos seus direitos mais essenciais, como os Direitos Humanos (SOARES Prefácio Apud FREIRE 2007,p.12- grifos nossos)