UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE O “FAZER JUNTO” A CRIANÇA E O ADULTO EM BUSCA DE UM ENCONTRO Por: Ana Júlia Neves Regadas Orientador Vilson Sérgio de Carvalho Rio de Janeiro 2003 2 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE O “FAZER JUNTO” A CRIANÇA E O ADULTO EM BUSCA DE UM ENCONTRO Apresentação de monografia à Universidade Candido Mendes como condição prévia para a conclusão do Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Arteterapia na Saúde e na Educação. Por: Ana Julia Neves Regadas 3 AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, a Deus pela força incondicional me dada nos momentos mais difíceis. Aos meus pais, pelo apoio emocional e tantas vezes financeiro necessário para eu ter conseguido continuar. A minha filha Yasmim, de 11 anos, por ter ficado inúmeros momentos com o irmão menor, para que eu pudesse estar presente nas aulas... A amiga Carmen Moreira pelo apoio e compreensão e por sempre ter tentado me erguer nas dificuldades. A amiga Alexandra, digitadora, porque sem ela a monografia não teria saído a tempo no meio à tantas atribuições. 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho à Deus e à todas as pessoas que contribuíram para a minha formação profissional, como meus pais e meu irmão. Agradeço dando sempre o melhor de mim. 5 RESUMO O que leva professores do Ensino Fundamental a trabalharem com seus alunos numa perspectiva de Trabalho Coletivo buscando através da arte um caminho favorecedor da compreensão de si e do outro? Essa pergunta percorrerá toda a construção desta monografia. Pretende-se investigar alguns dos diversos caminhos pelos quais algumas professoras do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro vêm descobrindo a importância do “fazer junto” em suas práticas pedagógicas (alunos e alunos/ alunos e professores) introduzindo a arte na escola como elemento decodificador da realidade, favorecedor do aprendizado, estimulador da criatividade na formação do educando e do cidadão. Diante de tudo isso, podemos encontrar práticas pedagógicas onde as professoras contemplam a realização da produção coletiva. Tais práticas não surgem do nada, estão ancoradas, ainda que as professoras não se dêem conta, em contribuições teóricas que anunciam a troca como desenvolvimento fundamental para construção do conhecimento. É na troca de idéias que as pessoas têm grande chance de estar expondo suas idéias aos outros, de estar escutando as idéias dos outros sobre o mesmo tema ou assunto, de estar comparando suas idéias com as dos outros e as dos outros entre si e de estar, a partir daí, podendo melhorar, completar, ou mesmo modificar o que pensam ou, então, confirmar ainda mais os seus pontos de vistas. O acesso ao conhecimento e ao saber está longe de ser repartido, compartilhado e muito menos democratizado. Precisamos ainda abandonar o medo de ousar e pensar outras possibilidades em educação, com outros olhos e caminhar por outros caminhos. Enfrentar este desafio significa partilhar e democratizar o saber, isto não é uma tarefa fácil para nós, educadoras e educadores. Nessa linha de questionamentos, fomos percebendo o quanto é necessário o “fazer junto” e que o saber democrático, 6 seria o saber sem divisas – onde o professor e aluno atuam no mesmo lado: fazendo, refazendo, compartilhando, construindo novos conceitos e reformulando alguns e que o diálogo entre as crianças permite ao educador promover as habilidades de raciocínio sem uso de treinos, sem compulsão. Participar de um diálogo é explorar as mais variadas possibilidades, descobrir alternativas, reconhecer outras perspectivas e estabelecer um compromisso com a constante descoberta e também aprender a respeitar as diferenças de saberes. Quando isso acontece, o educador alcança um comprometimento com a construção da formação crítica do “cidadão aluno”. A prática pedagógica desenvolvida no cotidiano da escola pública , tem nos informado que esse fazer junto não é específico do trabalho com as crianças menores, ele também é necessário em nossa prática pedagógica com alunos maiores. Ao olharmos atentamente para o cotidiano da escola pública das séries iniciais do ensino fundamental, será possível perceber a existência de educadoras e educadores atentos a proporcionar aos alunos práticas coletivas de construção de conhecimento que possibilitem a troca de experiência, o saber ouvir, o trabalhar em grupo, o exercício da negociação, questionamento, a confrontação de opiniões, enfim o diálogo. A meta é dar a oportunidade aos alunos e alunas para que o seu conhecimento se transforme em saber e que as oportunidades sejam iguais para todos. 7 METODOLOGIA A metodologia a ser usada para a realização deste trabalho foi a observação e entrevistas feitas com crianças e professores do 1º segmento do Ensino Fundamental do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro. A técnica utilizada foi entrevistas com crianças cujo eixo de trabalho não seja dentro da proposta do trabalho coletivo. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 9 CAPÍTULO I O DIÁLOGO NA SALA DE AULA 12 CAPÍTULO II O AFETO – O FIO CONDUTOR 24 CAPÍTULO III A CRIANÇA E O ADULTO – EM BUSCA DE UM ENCONTRO 30 CONCLUSÃO 48 BIBLIOGRAFIA 51 ÍNDICE 52 9 INTRODUÇÃO Vivemos num sistema educacional aparentemente desconectado com a realidade, vivências e necessidades dos nossos alunos. Neste sentido, o acesso ao conhecimento e ao saber está longe de ser repartido, compartilhado e muito menos democratizado. Precisamos começar a abandonar o medo de ousar e pensar outras possibilidades em educação. Enfrentar este desafio exige de nós um outro olhar e outros modos de caminhar, significa ainda, aprender a partilhar e democratizar o saber. Esta é uma tarefa nada fácil para nós, educadores. No entanto, um grande número de professores encorajados pelo que nos diz Paulo Freire (1996, p. 50) “O que importa, na formação docente, não é repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança, do medo que, ao ser “educado”, vai virando coragem” tem assumido enfrentar o desafio que é o motivo deste trabalho monográfico. O que leva professoras do Ensino Fundamental a trabalharem com seus alunos numa perspectiva de Trabalho Coletivo? Essa pergunta percorrerá toda a construção desta monografia. Pretende-se investigar alguns dos diversos caminhos pelos quais algumas professoras do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro vêm descobrindo a importância do “fazer junto” em suas práticas pedagógicas (aluno e aluno / alunos e professores). Ao olharmos atentamente para o cotidiano da escola pública das séries iniciais do Ensino Fundamental, será possível perceber a existência de educadores atentos em proporcionar aos alunos, práticas coletivas de construção de conhecimento que possibilitem a troca de experiência, o saber ouvir, o trabalhar em grupo, o exercício da negociação, questionamento, a confrontação de opiniões, enfim o diálogo. Cabe lembrar, que a construção desse tipo de prática não pressupõe a ausência de conflitos. A meta é dar a 10 oportunidade aos alunos para que o seu conhecimento se transforme em saber e que as oportunidades sejam iguais para todos. Já é possível encontrar práticas pedagógicas onde as professoras contemplam as discussões prévias, discussões essas, que antecedem a realização da produção textual, aonde cada um vai colocando suas idéias e, coletivamente, vão pensando em estratégias para chegar a várias soluções. Tais práticas não surgem do nada, estão ancoradas, ainda que as professoras não se dêem conta, em contribuições teóricas que anunciam a troca como desenvolvimento fundamental para construção do conhecimento. Uma dessas contribuições nos é dada por Vygotsky. Para este autor “construir” conhecimentos implica uma ação partilhada, já que é através dos outros que as relações entre sujeito e objeto de conhecimento são estabelecidas. É na troca de idéias que os alunos têm grande chance de estar expondo suas idéias aos outros, de estar escutando as idéias dos outros sobre o mesmo tema ou assunto, de estar comparando suas idéias com as dos outros e as dos outros entre si e de estar, a partir daí, podendo melhorar, completar, ou mesmo modificar o que pensam ou, então, confirmar ainda mais os seus pontos de vista. Isto é possível porque estas professoras já compreenderam o que nos ensina Paulo Freire: “Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos”. Uma prática pedagógica que investe e valoriza as ações coletivas é indispensável na tarefa de ajudar alunos a se apropriarem da leitura e da escrita, e também, para a construção do saber democrático sem hierarquia, onde o professor e aluno atuam do mesmo lado: fazendo, refazendo, compartilhando, construindo novos conhecimentos e reformulando outros tantos. Este tipo de prática precisa estar norteada por múltiplos diálogos. Sendo assim, neste trabalho, a discussão sobre a forma como se dá o diálogo na sala de aula entre os vários sujeitos estará sendo apresentada e 11 discutida, prioritariamente, pelas contribuições teóricas de Paulo Freire e Vygotsky. 12 CAPÍTULO I DIÁLOGO NA SALA DE AULA 13 O QUE SERIA DIÁLOGO? Quando se pensa em diálogo, pode-se entendê-lo como a forma de expressão verbal que os indivíduos utilizam para expressarem seus pensamentos frente a uma ou mais pessoas. Mas não seria apenas isso, deve-se ter uma visão de diálogo mais ampla. Visão esta que vem sendo abordada por importantes estudiosos deste assunto. Segundo Rúdio (1991, p.32): “...é um encontro em que a base fundamental é o relacionamento que se estabelece entre as pessoas, em que uma não é mais do que a outra e ambas são iguais como seres humanos.” Verifica-se que é preciso que haja humildade entre os sujeitos para que o diálogo ocorra. Ou seja, um não poderá sentir-se superior ao outro, pois já cessa a possibilidade de que o mesmo aconteça. Já para Freire (1987, p.79), o diálogo é definido como: “... o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tão pouco torna-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes.” Entende-se o diálogo como o momento em que os indivíduos se utilizam da palavra para representar o mundo em que vivem, e através dele, buscam uma maior reflexão, para uma possível e esperada resolução, ou ainda, uma ação. 14 Quando há diálogo, pressupõe-se que idéias são trocadas por no mínimo duas pessoas, onde surgirão aspectos novos e, contrastantes que não aqueles de conhecimentos de ambos. A partir daí, ocorre um processo de construção (reconstrução) do conhecimento, pois, desta ação conjunta, em que não deverá de maneira alguma existir passividade e nem neutralidade, espera-se obter uma ação transformadora. O diálogo cria, portanto, condições para que o homem tome consciência maior de si e compreenda seus problemas, suas limitações, para resolução das dificuldades com as quais se defronta. Em seus estudos, Freire (1987) faz referências a uma postura “não dialógica” do ser que sente-se superior ao seu semelhante, e através de suas palavras inibe a possibilidade de iniciativa e de expressão dos outros. Estes, achando-se totalmente ignorantes, não têm condições de contribuir com idéias, ficando a mercê daquele pretencioso detentor do saber. Salienta-se a posição do homem como “construtor” de sua realidade. Nisto cada indivíduo deverá utilizar-se de seu diálogo na obtenção de um ideal. A partir daí, espera-se uma transformação de sua sociedade, pois, segundo Rúdio (1991, p. 20): “O diálogo que mantemos tem a marca de nossa personalidade: conforme sejamos inteligentes ou obtusos, rígidos ou flexíveis, confiantes ou temerosos, verazes ou fingidos, esperançosos ou desiludidos, etc., assim, também, de certa maneira será o tom de nosso diálogo.” Como vimos, cada indivíduo traz em sua maneira de dialogar, características próprias, pessoais que demonstra aquilo que ele é. E é neste conjunto de diferenças individuais que o ser humano evolui. 15 Nota-se desde o início dos tempos a necessidade de se obter uma forma de diálogo em que toda a sociedade consiga conviver harmoniosamente. Isto fica evidenciado quando, nos primórdios, o homem deixava vestígios de sua existência para gerações futuras, o que é um “tipo” de diálogo não direto, mas que contribuiu para engrandecer concepções à cerca do mundo em que vivemos. Veremos ao longo deste estudo, algumas das contribuições dadas pela ação dialógica. 1.1 – O diálogo na sala de aula “... Ao revolucionário cabe libertar-se com o povo, não conquistá-lo.” Paulo Freire A democratização da escola passa pela relação professor – aluno, e não, pelo aumento do número de vagas na Rede Municipal e Estadual, como o Governo Federal vem anunciando. Na verdade, todo este esforço torna-se em vão se o aluno encontrar uma escola – e neste momento, refiro-me a merendeiras, inspetores, professores, diretores, etc. – autoritária e que não possibilite um vínculo positivo tanto com o saber quanto com a própria escola. A escola não pode manter a atitude autoritária que decide de fora e transmite o conhecimento que considera necessário para a vida dos alunos. Nem tampouco manter a concepção ilusória de que os alunos sabem, de que os alunos já detém um saber tão elaborado, tão acabado que possam prescindir da aquisição mais formal do conhecimento de coisas que estejam fora de sua vivência. Esteban nos relata que: “Professores diferentes, com opções teóricas distintas e com modos particulares de conduzir a prática, avaliam de modo diferente o resultado dos alunos e 16 alunas. O que algumas professoras entendem como positivo, como uma evolução, como parte produtivas de um processo; outras interpretam como excesso de erros, como ausência de conhecimento, como problema da criança como resultado de um processo ensino / aprendizagem mal desenvolvido.” Nessa perspectiva é fácil nos depararmos ainda com escolas onde os conteúdos e procedimentos didáticos não costumam ter nenhuma relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as realidades sociais. É a predominância a palavra do professor, das regras impostas e da transmissão verbal do conhecimento. Cabe ao aluno apenas executar prescrições que lhes são fixadas por autoridades exteriores a ele. Valoriza-se o trabalho individual, a atenção, a concentração, o esforço e a disciplina como garantias para a apreensão do conhecimento. As trocas de informações, os questionamentos, as dúvidas e a comunicação entre os alunos, enfim a interação entre pares, são interpretadas como falta de respeito, disperção, bagunça, indisciplina e “conversas paralelas”. Nestas abordagens, o adulto é considerado pronto e completo, o modelo perfeito que deve ensinar as crianças e moldar seu caráter, comportamento e conhecimento. Cabe a ele ser exigente e rigoroso na tarefa de direcionar, punir, treinar, vigiar, organizar conteúdos e meios que garantam o ensino e a aprendizagem. O professor por ser o único detentor do saber, é quem corrige, avalia e julga as produções e comportamentos dos alunos, principalmente seus “erros” e “dificuldades”, detendo-se exclusivamente no produto da aprendizagem, naquilo que a criança é capaz de fazer sozinha. Ainda cabe lembrar que, nesta perspectiva de trabalho, a aprendizagem é confundida com memorização de um conjunto de conteúdos 17 desarticulados, conseguida através da repetição de exercícios sistemáticos de fixação e cópia e estimulada por reforços positivos (elogios, recompensas) ou negativos (notas baixas, castigos, ...). Em Paulo Freire (1994, p. 12): “...a abordagem da educação não é unilateral. Não há uma relação linear de poder, mas um processo dialético em que educador e educando estão imersos numa aventura de descoberta compartilhada. Por isso é uma concepção revolucionária, comprometida com a libertação humana. A educação pode ser uma forma de reprodução da opressão, se não permitir essa relação dialética na elaboração do conhecimento.” Para Freire, ninguém educa ninguém, mas ao mesmo tempo, ninguém se educa inteiramente sozinho. Desta forma, faz-se necessário que o professor ou a professora se deixe educar, se não pelo aluno, por uma prática, por uma postura que deverá adotar junto com os alunos, de aproximação à realidade vivida por estes. E, através do diálogo na sala de aula, o educador poderá estimular o pensamento crítico do aluno sobre as contradições da sociedade em que vive. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. A prática da relação dialógica exige fundamentalmente que o educador respeite seu educando; se distanciando de uma relação de autoritarismo, na qual a verdade e o saber vêm do educador, ocorrendo falta de cumplicidade na busca do conhecer. Dessa forma, combate-se o que costuma acontecer numa relação onde não prevalece o respeito: o distanciamento, os medos e até pavores, onde existe a negação do 18 companheirismo e o incentivo à competição; onde há excesso de “receitas” e de técnicas sem a devida conexão com os fatos. Outro ponto de igual importância é o respeito aos saberes que os alunos trazem para a escola. Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos. Por isso mesmo, pensar neste sentido, coloca à escola o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos chegam a ela – saberes socialmente construídos na prática comunitária – mas também discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos. A partir do conhecimento da leitura de mundo de seus alunos o educador poderá desenvolver uma prática transformadora. Nosso papel, como educadores comprometidos com a causa das classes populares, não é falar ao povo sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa. Temos de estar convencidos de que a sua visão do mundo, que se manifesta nas várias formas de ação, reflete a sua situação no mundo. Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição, mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao aluno, daqueles elementos que este lhe entregou de forma inestruturada. O diálogo proposto pela classe dominante é vertical, forma o alunomassa, impossibilitando-o de se manifestar. Para Freire, o diálogo se funda na relação horizontal. O diálogo entre professores e alunos não os torna iguais, mas marca a posição democrática entre eles. O diálogo tem significação precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem e assim crescem um com o outro. 19 Freire (1992, p. 118), nos fala que: “Não há diálogo no espontaneismo como no todopoderosismo do professor ou da professora. A relação dialógica, porém não anula, como às vezes se pensa, a possibilidade do ato de ensinar. Pelo contrário, ela funda este ato, que se completa e se sela no outro, o de aprender, e ambos só se tornam verdadeiramente possíveis quando o pensamento crítico, inquieto, do educador ou da educadora não freia a capacidade de criticamente também pensar ou começar a pensar do educando. Pelo contrário, quando o pensamento crítico do educador ou da educadora se entrega à curiosidade do educando. Se o pensamento do educador anula, esmaga, dificulta o desenvolvimento do pensamento dos educandos, então o pensar do educador, autoritário, tende a gerar nos educandos sobre quem incide, um pensar tímido, inautêntico ou, às vezes, puramente rebelde.” A escola pública ainda hoje não está propiciando à classe popular uma educação de qualidade. Porém, a qualidade que estamos buscando, não é aquela entendida como nos moldes tradicionais. O que estamos buscando através das reflexões de Paulo Freire é uma Educação transformadora, ou seja, a formação do homem crítico, participativo, consciente das contradições do mundo em que vive e que por isso mesmo, não se deixa manipular pela mídia ou pelo discurso neoliberal. Para Freire, o diálogo é o instrumento utilizado pelo educador para o desenvolvimento do pensamento crítico e criador; porque é através da participação ativa entorno dos assuntos abordados, que o aluno apreende a realidade à sua volta. 20 Portanto, o diálogo é uma exigência existencial, que possibilita a comunicação e permite ultrapassar o imediatamente vivido. Ultrapassando suas “situações limites”, o educador-educando chega a uma visão totalizante do programa, dos assuntos abordados, da apreensão das contradições até a última etapa do desenvolvimento de cada estudo. Podemos encontrar em Freire forte acentuação no papel do educando como sujeito do conhecimento. Para ele, o sujeito ativo é aquele que se apropria da capacidade de desvelar as contradições da realidade, de se colocar sempre numa postura inquiridora diante do mundo e, com os outros, atuar como agente histórico; e no nível pessoal, é o sujeito capaz de aprender pensando: formulando hipóteses, considerando as contradições entre as próprias hipóteses construídas, superando os conflitos cognitivos e avançando no sentido de novas reestruturações. É fundamental que o educador possibilite a emergência do conflito na sala de aula, e permita que o cotidiano da sala de aula seja espaço de imprevisibilidade. O professor freqüentemente se encontra diante de situações comuns que alteram a dinâmica da sala de aula, interferindo no processo ensino / aprendizagem. O planejamento vai sendo atravessado pelos fatos que se impõem ao previsto, criando novas demandas, novas possibilidades, novos obstáculos. Muitas tramas se entretecem na constituição do que chamamos cotidiano escolar, lugar marcado pela complexidade, exigindo múltiplos olhares. O que é transformador é principalmente a forma como se trabalham os conteúdos. Quando enfatiza-se as cópias sem sentido, a decoração de fatos e datas, a repetição das idéias do professor, enfim, os modelos para serem eternizados, estamos contribuindo, para a formação de um sujeito 21 adaptado, submisso, pouco questionador, alienado. Não se está contribuindo para a formação de um sujeito pensante, que ousa criar, criticar e modificar a realidade a sua volta. A ação de educar, ou melhor, para se ajudar alguém em seu caminho para educar-se, deve necessariamente estar implícito a alteridade e, desse modo, ser uma relação dialógica. É na interação com o outro, trocando significados, possibilitamos a construção do conhecimento e, portanto, é o que temos de mais pleno em educação e no educar para cidadania. Segundo Freire: “...Ensinar não é a pura transferência mecânica do perfil do conteúdo que o professor faz ao aluno, passivo e dócil.” (1992, p. 70) Percebe-se que Freire diz que ensinar é a maneira pela qual ele, educador estimula nos educandos, o gosto, a criatividade, a curiosidade e ao mesmo tempo, o interesse em procurar respostas para seus questionamentos. “Por isso, ensinar é um ato criador, um ato crítico e não mecânico.” (Freire, 1992, p. 81) Onde o educador crítico não procura negar as diferenças, mas consciente delas trabalhará para que estas de maneira alguma quebre a relação que ocorre, pois ambos fazem esforços comum para conhecer e transformar esta realidade. Esse educador deve estar ciente que irá atender a uma clientela com diversas culturas, devendo ele de acordo com Freire (1992, p. 108) “... procurar entender o universo místico do aluno para compreender e comunicar-se com eles”. Portanto, no momento em que o educador se familiariza, procura conhecer o que se passa no mundo do educando, suas crenças e seus valores, utiliza-se de uma linguagem mais simples para que eles possam se entender. Não podendo esquecer que tanto o educando, quanto o educador ao estudarem o mesmo objeto (assunto), para conhecêlo, cada um faz com um universo de conhecimento, isto é, conceitos, 22 informações, noções que só permitirão conhecer este objeto a ser estudado a partir do que cada um já conhece. E é este conhecimento pessoal que permitirá a troca do diálogo. Compreende-se que o educador deve iniciar seu trabalho de onde se encontra o educando, ou seja, começar a apreender a partir do que o aluno já sabe, da situação que ele está vivendo. O educador precisa perceber que esse momento do educando é um todo significativo e partir daí, para o conhecimento, caminhando juntos para chegarem a realização do que almejam, fazendo parte de um ambiente confiável, estruturado pelo próprio convívio entre eles. Encontrando-se em determinado momento, o educando como ouvinte participativo e vice-versa. Portanto, educador e educandos em sala de aula, estão em uma contínua busca do querer apreender. O educador, tendo noção que exerce uma função social com seu trabalho tem que ter em mente, que essa atuação para ter um bom resultado, dependerá a cada instante de seu interesse, devendo este, ser um pesquisador no seu campo de trabalho. Através de observações registradas dos fatos ocorridos em sala de aula e da análise do desempenho de seus educandos, será possível ter constantes informações sobre o que eles apreenderam e o que buscam saber. Pois, enquanto educador, indivíduo pensante, curioso e imaginativo, não deve parar de buscar, de pesquisar a razão de ser das coisas. Sabendo que o diálogo é utilizado como um instrumento indispensável para poder enfrentar os fatos que ocorrem, o educador dialógico, em sala de aula, junto com o grupo, busca a participação dos mesmos, levando-os na maioria das vezes, a busca de questionamentos e não mensagens a serem consumidas. É uma pessoa dinâmica, que antes de tudo tem que ser principalmente responsável. Deve sempre buscar aprender mais, para passar aos educandos com humildade o que sabe, construindo situações para falarem, analisarem. Temos assim um momento de troca de 23 conhecimentos. O educador deve também estar munido de estratégias estimuladoras para fazer com que os alunos participem dos encontros, sendo também, constante observador. Verifica-se através do comportamento desse educador e das participações dos educandos, a formação do cidadão comum para uma educação democrática que se faz necessária. Mas esse educador é, apenas, um colaborador desse processo. Segundo Freire (1994, p.84): “A vida de um aluno não se reduz ao intervalo entre o dia da matrícula na escola e o dia em que se evade... ou que recebe o diploma. Também a vida do professor não se limita a ser um espaço entre a data do concurso (ou contratação) e a sua aposentadoria. Um e outro – aluno e professor – são seres históricos porque imprimem marcas na escola e fora dela. São autores.” Na busca de caminhos que nos conduzam ao sucesso escolar, devemos explicitar os aspectos potencialmente construtores do resultado desejado. Mas pensar e fazer uma escola pública de qualidade tem sido um grande desafio para os educadores comprometidos com a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Alcançar este propósito não é tarefa fácil... A compreensão deste processo demanda o desenvolvimento de uma atuação pedagógica atenta aos conflitos, contradições, fissuras, vozes que aparecem, que se escondem e que se revelam nos episódios do cotidiano. Cotidiano esse constituído de muitas tramas que se entretecem na dinâmica da sala de aula. Lugar marcado pela complexidade, exigindo múltiplos olhares e diversas perspectivas. Lugar múltiplo onde se cruzam saberes e desejos diversos e que convida ao diálogo. 24 CAPÍTULO II O AFETO – O FIO CONDUTOR “... Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.” Carlos Castañeda 25 CONCEITO Outra questão que, enquanto educadores, deve-se estar sempre atento quando se resolve percorrer por onde a prática coletiva vai sendo construída, é a importância dos nutrientes afetivos nessa relação. Freire (1990) nos chama atenção para o fato de que nada sobre a sociedade, a língua, a cultura ou a alma humana é simples; nada se desenrola “naturalmente”... Não é difícil imaginar como deve ser esse desenrolar numa sala de aula. Sendo um espaço que proporciona o encontro de pessoas diferentes, portadoras de contextos, conteúdos, propostas, expectativas e histórias diferentes, para realizarem um projeto coletivo ensino/aprendizagem, a dinâmica, as tensões, as contradições, os conflitos, a desordem, o ruído deve ser tão esperados quanto os acordos, a complementaridade, os consensos, a ordem, o silêncio. É a complexidade que pode caracterizar os processos desenvolvidos na sala de aula e nos ajudar a compreendê-los, bem como contribuir para elaborar uma ação mais favorável à aventura do conhecimento, que deve ali ser vivida. Encontramos na sala de aula um espaço plural, composto por singularidades. Ambiente em que é possível lidar com o diverso sem segregá-lo ou mesmo sem determinarmos que este ou aquele elemento seja melhor ou pior do que outro – ele simplesmente é diferente e tem todo um conjunto de propriedades que contribui para o todo e para a sociedade. O ambiente da alteridade, lugar onde todos aprendem trocando com todos. Ambiente do aprender e ensinar, construir e interagir, da educação. Singularidades que vão sendo percebidas quando olhamos para os fatos que compõem o dia-a-dia da sala de aula: alguém que tropeça e cai, 26 provocando risos, movimento, conversa em voz alta, desatenção; um ruído que vem de fora da sala e que atrai a atenção de alguns, se tornando motivo de conversa estimulando a tentativa de sair da sala, levando ao abandono da tarefa que estava sendo realizada; aquele aluno que a professora já conhece e que no dia em que algo vai mal em sua casa não deixa ninguém em paz na aula; o dia da prova, em que os alunos chegam à sala mais ansiosos do que de costume, fazendo com que alguns não consigam realizar as mesmas atividades que fazem todos os dias; o dia em que a professora não “está bem” e embora tenha preparado sua aula com cuidado, não dá certo, o grupo se dispersa, as propostas não são satisfatoriamente realizadas. Porém, uma educação comprometida com as classes populares não pode abrir mão da construção de possibilidades (e não determinismo) do fazer humano. Daí a importância da educação que, não podendo tudo (Freire, 1980); pode, por exemplo, contribuir para uma leitura do mundo fundada na linguagem da possibilidade, da construção solidária, do fazer junto, da colaboração e cooperação. Uma educação assim pensada, assim praticada, é uma educação que se traduz numa pedagogia fundada na amorosidade. O amor é uma intercomunicação de consciências que se respeitam, não se apropriam do outro. Não existe educação sem amor. Educar é um ato de amor, e o amor implica luta contra o egoísmo: quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar, quem não ama não compreende o outro, não o respeita. Nessa perspectiva de trabalho, podemos produzir espaços felizes. E fica o desafio maior: como construir ambientes felizes que contribuam para alfabetizar as crianças das classes populares sem lhes impor valores e 27 formas de ser, fazer, pensar, dizer que silenciem e apaguem suas próprias formas de ver e estar no mundo? No cotidiano da escola, faz-se necessário construir espaços potencialmente férteis em estratégias mais solidárias e cooperativas, numa perspectiva de construir conhecimentos numa ação partilhada. Compartilhar é respeitar e levar em consideração a história de cada um, seus gostos e sentimentos. Oportunizar o outro em se colocar e interagir e, a partir daí, construir. Dessa maneira, a heterogeneidade, característica presente em qualquer grupo humano, passa a ser vista como fator imprescindível para as interações na sala de aula. Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências, trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis de conhecimentos de criança (e do professor) imprimem ao cotidiano escolar a possibilidade de troca, de visão do mundo, confrontos, ajuda mútua e conseqüente ampliação das capacidades individuais. 2.1 – Novos caminhos a serem percorridos Nem caçador, Nem pescador Caminhante... Talvez um guia, Que conhece um certo trecho da estrada. Talvez um tocador de flauta, Buscando um ritmo para o caminho Fernando Lemos 28 Várias outras reflexões sobre a prática escolar ainda poderiam ser feitas, a partir das inspirações trazidas pelas idéias de Vygotsky. Os postulados desse autor parecem apontar para a necessidade de criação de uma escola bem diferente da que conhecemos. Uma escola em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes. Onde há espaço para transformações, para as diferenças, para o erro, para as contradições, para a colaboração mútua e para a criatividade. Uma escola em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes. Onde há espaço para transformações, para as diferenças, para o erro, para as contradições, para a colaboração mútua e para a criatividade. Uma escola em que professores e alunos tenham autonomia, possam pensar, refletir sobre o seu próprio processo de construção de conhecimentos e ter acesso a novas informações. Uma escola em que o conhecimento já sistematizado não é tratado de forma dogmática e esvaziado de significado. “As escolas deveriam entender mais de seres humanos e de amor do que conteúdos e técnicas educativas. Elas têm contribuído em demasia para a construção de neuróticos por não entenderem de amor, de sonhos, de fantasias, de símbolo e de dores.” (C. Saltini, 1997, p. 15) O educador não pode ser aquele indivíduo que fala horas a fio a seu aluno, mas aquele que estabelece uma relação e um diálogo íntimo com ele, bem como uma afetividade que busca mobilizar sua energia interna. É aquele que acredita que o aluno tem essa capacidade de gerar idéias e colocá-las ao serviço de sua vida. Não será o adulto que lhe dará esses elementos de forma gratuita, pois a criança sabe buscar, nem há necessidade que lhe dêem uma “jarra 29 cheia” de conhecimentos, pois sabe construir o seu próprio conhecimento. Para isto basta alguém estar por perto, junto, numa relação de respeito mútuo. O professor (educador) obviamente precisa conhecer a criança. Mas deve conhecê-la não apenas na sua estrutura biofisiológica e psicossocial, mas também na sua interioridade afetiva, na sua necessidade de criatura que chora, ri, dorme, sofre e busca constantemente compreender o mundo que a cerca, bem como o que ela faz ali na escola. Seria ótimo manter um diálogo com a criança, em que se possa perceber o que está acontecendo, usando tanto o silêncio quanto o corpo, abraçando-a quando ela assim o permitir; compartilhar com os demais da classe os sentimentos que estão sendo evidenciados nesse instante é um trabalho quase terapêutico. Utilizar as erupções violentas e falar sobre elas. Dar oportunidade para a criança colocar seus sentimentos na escola, não apenas sua inteligência ou sua capacidade de aprender. O afeto buscando o prazer se transforma em interesse e este por sua vez provoca a interação com o meio. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico entre tantas outras coisas na complexidade desse cotidiano escolar. 30 CAPÍTULO III A CRIANÇA E O ADULTO EM BUSCA DE UM ENCONTRO “Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me desencaixotar pintaram os minhas sentidos, emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu...” Alberto Caliro 31 UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL Todo ato educativo requer intencionalidade. O que se deseja atingir? Como? Que meios serão utilizados? Como se avaliará? Torna-se necessário, relatar que na proposta de Freire em sala de aula, a organização e a sistematização dos conhecimentos e das percepções dos educandos sobre seus contextos de vida, são os elementos utilizados como ponto de partida para adquirirem e ao mesmo tempo, ampliarem seus conhecimentos. Mas que estratégia poderiam ser utilizados para o desencadeamento do assunto a ser discutido? O nome de alunos, manchetes de revistas ou jornais, recortes retratando situações de vida e letras de músicas, encartes, cartas escritas para os educandos, mapas, figuras do corpo humano; muitos são materiais de que o educador pode utilizar como recursos para que dirija o diálogo. O diálogo surge com a finalidade de levar o educando a reflexão e expressão por meio da fala e da escrita, dependendo do nível que o aluno esteja, fazendo um levantamento da realidade; educadores e educandos caminham juntos levantando diversos pontos de vista sobre o social. As idéias apresentadas nesta monografia de forma clara, profunda e esperançosa são tecidas nas tramas da afetividade em defesa de uma educação compromissada com a formação de pessoas livres, íntegras, críticas, autônomas, criativas, responsáveis e amorosas, cuja vida seja pautada nos princípios de igualdade, justiça, reciprocidade e cooperação, tendo em vista a construção de um mundo melhor. 32 Segundo Buscaglia (1982, p. 11) na apresentação de um dos seus livros, cita Kazantzakis para definir a atuação dos professores: “... os professores ideais são os que se fazem de ponte, que convidam os alunos a atravessarem, e depois, tendo facilitado a travessia, desmoronam-se com prazer, encorajando-os a criarem as suas próprias pontes.” Nesse sentido, percebemos em algumas práticas que o aprender necessita ser exercido com liberdade e não por imposição, pela simples razão de que numa relação dialógica entre sujeitos ocorrerão trocas. Ao professor, cabe a responsabilidade inicial de, como ponte, fomentar os seus sonhos e de seus alunos, incentivando-os com seus exemplos e ações. Ao aluno, a ousadia de trazer seus sonhos e a “rebeldia” de não aceitar nada pré-estabelecido, mas negociado. Aos dois, a “loucura” de se permitirem na relação com tudo que é peculiar de suas diversidades. As inquietações que me motivaram a produzir esse texto são oriundas de alguns anos de observação crítica da prática educacional que ocorre em um ambiente pedagógico específico, a sala de aula. É nessa perspectiva que algumas professoras de 3ª série do Ensino Fundamental desenvolvem no cotidiano a construção do trabalho coletivo em sala. Essas educadoras nos ajudam a entender que o saber é democrático: fazendo, refazendo, compartilhando, construindo novos conceitos e reformulando alguns. Ajudam a entender que é na troca de idéias que as pessoas têm grande chance de estar expondo suas idéias aos outros, de estar escutando as idéias dos outros sobre o mesmo tema ou assunto, de estar comparando suas idéias com as dos outros e as dos outros entre si e de estar, a partir daí, podendo melhorar, completar, ou mesmo modificar o que pensam ou, então, confirmar mais os seus pontos de 33 vista. Nos ajudam a entender que o diálogo entre crianças permite ao educador promover as habilidades de raciocínio sem uso de treinos, sem compulsão. Participar de um diálogo é explorar as mais variadas possibilidades, descobrir alternativas, reconhecer outras perspectivas e estabelecer um compromisso com a constante descoberta e também aprender a respeitar as diferenças de saberes. Segundo Freire (1996, p. 153): “Minha segurança se funda na convicção de que sei algo e de que ignoro algo a que se junta a certeza de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei... me sinto seguro porque não há razão para me envergonhar por desconhecer algo. Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios, são saberes necessários à prática educativa. Viver a abertura respeitosa aos outros, de acordo com o momento, tomar a própria prática de abertura ao outro como objeto da reflexão crítica deveria fazer parte da aventura docente.” Ao ter entrado em algumas salas, pude observar... 3.1. Arte na escola expressa nossa identidade Essa produção textual nasceu da necessidade de escrevermos uma carta a Comlurb solicitando para a escola uma vistoria para detectar focos de mosquitos causadores da Dengue, já que nossa escola localiza-se numa área (Tijuca) em que vêm ocorrendo muitos casos de contaminação pelo mosquito Aedes Aegypti. 34 Fiz a proposta para a turma a partir de um trabalho de pesquisa em jornais, revistas e postos de saúde sobre o assunto. Nessa primeira fase os alunos trabalharam em grupos de cinco, confeccionando cartazes e apresentando para a turma em sala. Depois pedi aos alunos que expusessem os cartazes no pátio, para que todo o segmento tivesse acesso às informações coletadas por eles. Passamos então, posteriormente, a construção da carta. A princípio a idéia era que eles fizessem individualmente, mas como percebi que alguns alunos estavam com muitas dificuldades, sugeri que fizéssemos todos juntos, coletivamente. Expliquei também a eles que a carta era da turma e eu os auxiliaria no que fosse preciso. A partir daí coloquei para eles alguns pontos a serem levados em consideração ao escrevermos uma carta: para quem vamos escrever? Presidente da Comlurb. Por que estamos escrevendo e com que finalidade? Queremos solicitar uma vistoria para detectar focos do mosquito causador da Dengue e a passagem do carro Fumacê dentro da escola. Datamos e começamos a escrever a carta, eles iam falando e eu escrevendo. Em alguns pontos eu ia chamado a atenção para as palavras e expressões usadas, como “vimos por meio desta...”. Já que estava sendo escrita para um presidente eles queriam usar palavras rebuscadas, atentei para o fato de que a carta era deles, crianças de 10 e 11 anos e que tinham seu próprio vocabulário, que talvez ele (o presidente) pensasse que a carta não tinha sido escrita por eles. A partir daí tudo fluiu com mais facilidade. Depois da carta pronta, começamos a discutir para saber quem escreveria, todos queriam escrever... Propus então, já que todos haviam participado da redação da carta, todos tinham o direito de escrever. Dividi a carta toda em pequenas frases e fui colocando o nome de cada aluno que iria escrever aquele trechinho num tamanho de letras grandes e em folha de papel ofício, usando toda a criatividade. Um grupo de alunos com maior habilidade para desenhar, ficou encarregado de fazer os desenhos. Depois de todos os pequenos cartazes prontos, colocamos a carta em ordem e fomos colando. Eu fiquei encarregada de confeccionar um rolo para a carta. A carta foi entregue pessoalmente ao Presidente da 35 Comlurb pelo representante da turma. A princípio não pensei que a atividade fosse render tanto, mas no decorrer percebi que eles estavam muito empenhados e sentiram imenso prazer e orgulho do que tinham produzido, e eu também. 3.1.1 – Entrevista com a Professora Por que você escolheu trabalhar na perspectiva da construção coletiva? Fiz opção pela produção de texto coletivo em função das dificuldades que os alunos apresentaram ao tentar escrever uma carta. Quais os pontos positivos e negativos que você estaria apontando quando realiza esse tipo de trabalho em sala? Como ponto positivo, foi muito gratificante perceber que eles se soltaram e conseguiram participar bastante quando eu estava construindo a carta no quadro. Eles mesmos opinavam sobre palavras repetidas, ortografia, ... de modo a melhorar a composição. Como ponto negativo posso destacar uma certa agitação na hora de falar, mas dá para organizar bem as falas, para que todos possam ser ouvidos. Avaliando, qual o resultado que você conclui dentro dessa perspectiva na construção da prática coletiva? Vejo como bastante proveitoso o trabalho coletivo, desde que haja organização, e que todos possam opinar, tirar dúvidas, enfim, trabalhar em conjunto para construção de um conhecimento mútuo. Contribuindo, e muito, para que seja ouvido e saiba ouvir respeitando as individualidades e ao mesmo tempo desenvolvendo sua consciência de cidadania. Parece tão fácil... 36 3.2. Arte na escola estimula nossa criatividade Quando cheguei em casa e comecei a ler aquela carta, que falava da fuga de uma família ameaçada por traficantes, fiquei pensando qual seria o verdadeiro papel de um educador. Como tornar meu aluno crítico sem levá-lo a descobrir e conhecer a realidade que o cerca. Pensando sobre essas coisas, resolvi levar a carta para a discussão, na tentativa de levá-los a refletir sobre o problema da violência. Eu só queria ouvir o que as crianças pensavam a respeito do problema, fiquei perplexa com as idéias das crianças, as soluções apontadas, revelando como eles estavam atentos com o que vinha sendo divulgado pela mídia. O debate estava quente, crianças de dedo levantado, loucas para falarem. Quando Angela, Orientadora Educacional, chegou, ela ficou encantada com a discussão e resolveu sugerir às crianças a construção de “raps”, elas adoraram a idéia. Embora não tivesse pensado nisso, a princípio, aceitei. A construção dos “raps” foi uma atividade realizada em grupo pela turma 304 no ano de 2000. Durante a realização da atividade pude perceber que apesar do “caos” as crianças são extremamente capazes de criar. Fiquei abismada com o resultado com os textos, digo os “raps” construídos. Os alunos foram capazes de construí-los e neles revelarem as soluções para a problemática da violência. A gente pensa que não vai sair nada. Acreditamos que só é possível construir quando está todo mundo quietinho. A situação que eu vivi vem dar um choque no que a gente acredita. Chamou-me atenção a atitude de dois alunos que não se adaptaram a seus grupos, criaram o maior caso e terminaram me forçando a aceitar sua proposta de fazerem o “rap” em dupla ou até mesmo individualmente. Isso leva a gente a pensar que, às vezes, nossas práticas autoritárias precisam ser revistas em função das respostas e necessidades das crianças. Outra coisa que me surpreendeu foi a preocupação das crianças na hora de rever a escrita me surpreendeu, pois estavam preocupados com o resultado final. 37 3.2.1 – Entrevista com a Professora Por que você escolheu trabalhar na perspectiva da construção coletiva? Apesar de achar difícil romper “barreiras” do tradicional, mas não impossível, devido o ranço que temos como educadora algo em mim mudou. A reflexão e a crítica de buscar algo que o aluno(a) possa estar discutindo é maravilhoso. Quando resolvi buscar este caminho, fiquei refletindo sobre Paulo Freire que nos leva a refletir que nosso papel é levar o educando a ter um senso crítico. Então diante de tal compromisso, resolvi que os educandos precisavam de um espaço para discutir coletivamente, pois é “rica” a troca de informações entre eles, entre “barulhos e confusões” eles aprendem e nos ensinam como a troca é altamente crítica e construtiva. Quais os pontos positivos e negativos que você estaria apontando quando realiza esse tipo de trabalho em sala? Quando o educando abre este espaço de troca, porque não dizer o fazer junto eles constroem e formulam suas opiniões criticamente. Na perspectiva coletiva sem dúvida, o senso crítico é desenvolvido, aprendemos com o erro do “outro” e ensinamos o outro, esta troca nos torna críticos para formular opiniões e crescer potencialmente nos faz acreditar que somos capazes. Quanto ao lado negativo apontaria o grande “ranço” que existe em nós como educadoras, o medo de traçar novos caminhos e até mesmo de desafiar. 38 Avaliando, qual o resultado que você conclui dentro dessa perspectiva na construção da prática coletiva? Concluindo foi ótimo, como educadora. Eu desafiei, abri um caminho, o horizonte de perspectivas se abriu, eu consegui ousar, quebrar o “ranço” e levar em consideração às opiniões dos meus alunos numa visão crítica. Considero essa perspectiva coletiva como transformadora, pois o educando tem o poder de refletir, ou seja, pensar, modificar e ser crítico para formular suas opiniões e estar apto para futuramente poder participar e ser crítico dentro da sociedade. Concluindo como pensamento de Morin (1999 : 154) , que nos ajudará a repensar nossa prática como educar e “arriscar”: “O que se pode dizer é que nós, enquanto seres computantes e cogitantes, vivos, sociais e culturais, não podemos escapar à dupla problemática do erro e os acontecimentos do universo são traduzidos em informações e em mensagens; a palavra tradução é capital; a computação é também uma tradução; é aí que chegam todos os riscos dos erros; quanto mais informação, mais comunicação, mais idéias e mais riscos de erro; mas também, quanto mais complexidade, mais possibilidade de transformar esses erros e troná-los criativos.” 39 3.3. – Arte na escola favorece o aprendizado Estou trabalhando, neste ano, com uma turma de 3ª série, os alunos são participantes e ativos. Aceitam as propostas sugeridas e trazem novas. Trabalham com entusiasmo para que o proposto dê certo. Percebo que os alunos na 4ª série ainda encontram dificuldades de escreverem textos completos, coerentes e organizados de modo que facilite o entendimento de que lê. Outro fato visível é o de não gostarem de ler. Levei então, a proposta à turma de um projeto onde estamos trabalhando para formação de leitores e escritores e contadores de história. Este projeto tem como objetivo principal o incentivo à leitura, o prazer em ouvir e contar histórias e autoria de textos. No entanto, para que este objetivo seja atingido, precisamos entender que é função da escola em formar Letrados (conjunto de comportamentos que caracterizam um modo NÃO oral de representar e interagir em sociedade dita culta), e para isto, preferi trabalhar na perspectiva de organização do texto narrativo, desta forma, o textos coletivo, construído pelos alunos e professor se faz necessário na medida que os alunos, na 3ª série, ainda encontram dificuldades de pensar o mundo de forma segmentada, motivo pelo qual, suponho, ainda escrevam textos vazios de detalhes, muitas vezes resumidos a um único parágrafo, sem pontuação, sem coerência. Para isto estão incluídas atividades como visitas a biblioteca, livrarias, exposições de livros (Bienal), conversas com pessoas da comunidade (resgate da história oral), contadores de histórias, autores, confecção de um livro coletivo e de um livro individual, criação de estórias, dramatizações... Algumas dessas já aconteceram e outras estão agendadas. E o desfecho, para este ano estaremos construindo um livro coletivo, um individual, e a organização de ciclos de contadores de histórias com os alunos desta turma para os de outras turmas. Esta dinâmica se dá desde o planejamento da atividade que vamos fazer até a escrita do texto, que se faz coletivamente turma e professor, 40 aonde vamos discutindo passo a passo cada questão que vai aparecendo à medida que vamos escrevendo. Neste momento muitas questões da língua, organização e arrumação do texto vão sendo trabalhadas. Também fazem parte do nosso cotidiano trabalhar com textos construídos em grupo, aonde os alunos vão interagindo um com o outro, trocando idéias e discutindo as dúvidas. • Construindo uma proposta de trabalho junto com os alunos... " Não é possível imaginar que o professor defina de modo unilateral as situações-problema." (Perrenoud, 1999, p. 62) Discutir alguns conteúdos e suas funções, com os alunos é uma das estratégias que encontro para tentar encaminhar o trabalho mais ameno e mais democrático, digo tentar, pois usar a palavra democracia quando a maioria dos conteúdos são impostos, chega ser contraditório, no entanto, dar conta do que a sociedade deseja da escola, e ao mesmo tempo do que acreditamos que deva ser a escola, é um trabalho quase louco, há quem acredite inclusive que a escola não deve levar em consideração o que a sociedade deseja da escola, pois precisamos mudar tal sociedade e muitos conceitos que nela há. Não comungo desta idéia, concordo que o imaginário social sobre escola precisa mudar, mas é este imaginário que sustenta a escola, que ainda delega algum poder oportunidade de mudar a escola, o poder simbólico que algum conceito, dará a precisamos mostrar que outra forma de educar diferente da temos, pode dar certo, dará mais prazer aos nossos alunos e deixará menos traumas. Por outro lado, dizer hoje a sociedade que aí está que não precisamos educar para a competitividade do mercado de trabalho e da vida é dizer provavelmente excluído. alguém ficará para trás, e E mais uma vez nos contradizemos quando 41 desejamos uma sociedade mais justa e trabalhamos para que alguém continue excluído. Então, o que fazer? Como fazer? Este é mais um dos dilemas da educação. “ ...Também gostei das matérias do 3º e 4º bimestre .Do 3º bimestre estudos sobre o corpo, células. Do 4º bimestre jogo da velha e etc” (Tayná) “...Eu aprendi muitas coisas como: Decomposição , m.m.c., m.d.c., advérbios, alguns verbos diferentes, órgãos, tecidos e muito mais.” (Leonardo) Muitas discussões em torno dos "conteúdos significativos" ou "essências" acontecem paralelamente, principalmente nos Centros de Estudos, no entanto ainda há muito que avançar neste sentido, esta é mais uma das discussões que precisamos fazer. O que seria essencial? Para quem seria essencial? Para discutir este assunto precisamos rediscutir qual é a verdadeira função da escola. Outra questão muito importante é o fato de que os conceitos estudados não estão estanques, separados e conseqüentemente sem sentido... Embora sentisse muitas dificuldades em trabalhar interdisciplinarmente íamos tentando buscar ao menos, eixos comuns, naqueles conteúdos tradicionais que deveríamos trabalhar... Embora aborde separadamente as questões, o faço para tentar expressar melhor os fatos, no entanto, constituem parte de um todo, que excede os muros da escola, seja através dos passeios tão comentado pelos alunos, ou seja, pela vida social dos alunos que não podemos negar e nem fingir que não existe pois estava o tempo todo invadindo nossas aulas... 42 • As plenárias: discutindo, dividindo e multiplicando... Intitulamos de "assembléia" as reuniões que fazíamos para discutir muitas das questões da sala, que começaram a acontecer por conta de alguns incidentes que aconteciam no recreio (brigas e outros problemas), no começo as assembléias em convocadas por mim depois os alunos passaram pedir que fizéssemos sempre que sentiam necessidade por eles próprios ou pelos colegas. Nas assembléias ouvíamos todas as partes envolvidas e registrávamos no caderno da turma, cada depoimento, e então discutíamos o ocorrido. Os alunos se colocavam e juntos sociabilizávamos tanto os ocorridos quando as providências cabíveis em cada situação, muitas das vezes eu, como professora, precisa atuar como mediadora nas discussões, pois os alunos se colocavam do modo enfático e eram bastante rigorosos para aplicar as medidas de punição ou prevenção, tínhamos que discutir inclusive o castigo se é que alguém merecesse castigo. Com o tempo as assembléias deixaram de discutir somente os problemas e passamos a incluir outras decisões que beneficiavam a turma de alguma forma, assim as aulas, os passeios, e outras medidas que passavam ser comunitárias. "Combinar" as coisas nos fez cúmplices de todo o processo de aprendizagem. A "rodinha" muito utilizada nas séries iniciais e por vezes abandonada nas séries finais do 1º segmento, foi uma das questões apontadas por apenas por dois alunos, no entanto, considero um dos grandes pontos positivos do trabalho, no ano de 2001. Considero até uma conquista uma vez que este tipo de trabalho, geralmente é abolido nas 3ª e 4ª.Séries. Na rodinha nas conversávamos sobre tudo... Muitas aulas foram dadas na rodinha e muitas dúvidas foram tiradas, na “rodinha”. As questões de Ciências, as perguntas sobre sexualidade, era sem sombra de dúvida um 43 espaço de relaxamento, uma vez que todos sentávamos no chão e descontração, pois muitas das questões que eram dúvidas e curiosidades, acabavam em piadas e brincadeiras, para eles tudo era engraçado, inclusive seus próprios corpos. • Durante a realização de algumas atividades dos projetos desenvolvidos em nossas salas de aula, fomos percebendo o quanto é importante o "fazer junto", digo fazer junto, pois não se trata apenas do tradicional trabalho em grupo, onde na maioria das vezes os alunos continuam trabalhando isolados, pois acabam por cada um fazer uma parte e a discussão torna-se mínima, não que estes trabalhos também não sejam importantes, mas falo aqui, do trabalho coletivo, onde os alunos fazem realmente juntos, discutindo as dificuldades, trocando idéias, aprendendo juntos... a construção do texto ou de outro trabalho, é feita com a cooperação de todos. • Os trabalhos de grupo não eram coisas fáceis de se lidar, havia aluno que sentia muita dificuldade em trabalhar em grupo, ou por não querer ajudar ou por querer fazer tudo sozinho, não querer dividir as tarefas. Os trabalhos variavam, em alguns momentos eu determinava os grupos, em outras vezes sorteávamos e em alguns momentos também se agrupavam por afinidades... Esta atitude me facilitava perceber quem tinha dificuldade em se relacionar em grupo, trocar os papéis dentro dos grupos, trabalhar a cooperação e respeito entre todos. Muitas vezes eu precisava interferir no sentido de amenizar as brigas e discussões, houve até momento em que permiti que alguém que não quisesse fazer o trabalho em grupo, fizesse sozinho, mas houve tempo em que forçava para que fizessem no grupo, mas estas relações eram muito difíceis. Salvador cita Johnson e Johnson (1979, p. 198) que comenta sobre conflito necessário: "a controvérsia resolvida de forma construtiva, produz-se um conflito que, por sua vez, gera sentimentos de incerteza e um desequilíbrio cognitivo e afetivo nos participantes, este desequilíbrio leva a 44 buscar novas informações e analisar a partir de perspectivas novas as informações disponíveis." • Os passeios: os campeões de comentários Os passeios como já disse, foram os campeões de comentários... Que pistas isto nos traz? No que o ambiente escolar tem perdido para outros espaços? Por que é tão legal estar fora da sala de aula? Poderia simplificar a resposta de tais questões, e dizer somente que eles não estavam acostumados a saírem da sala de aula, por isso tal entusiasmo... talvez fosse também isto, mas com certeza não foi só isso... A escola se resguarda o tempo todo, através de muros de concreto ou simbólico, da vida real, esquece que ela está situada num contexto social, lembra-se disto somente quando não quer assumir sozinha a culpa do fracasso escolar... Os passeios foram uma forma de aproximar os alunos do mundo real, mundo que talvez a família nunca tivesse condições de aproximá-los, fosse por falta de tempo, fosse por falta de recursos... A proposta de fazer os passeios, no entanto, tinham um objetivo inicial: ser uma estratégia de um projeto de leitura e escrita. O projeto que intitulamos de "Escrevendo, Lendo e Contando Histórias", tinha como o objetivo de incentivar a leitura e produção de textos e ao final, fariam oficinas de contação de história pelos alunos da turma, produziríamos livros coletivos e individuais, e como estratégia visitaríamos a Bienal, livrarias, bibliotecas, ambientes que estivessem envolvidos direta e indiretamente com a leitura. Este projeto oportunizava a revisão textual de modo concreto, ou seja, revisar os textos produzidos tinha função real, não significava corrigir e 45 deixá-los guardados, deste modo as discussões sobre ortografia, estética textual, gramática e outras necessidades aconteciam na medida em que sentíamos necessidades reais, através de nossos escritos que seriam usados na composição de outros trabalhos que seriam lidos e apreciados por outras pessoas. No decorrer do ano fomos sentindo outras necessidades e outras oportunidades, nem todas as coisas planejadas foram possíveis de acontecerem, a proposta inicial foi tomando uma outra forma, foi se rendendo aos nossos desejos e possibilidades. A ida à Bienal foi um marco na história desta turma, no meio daquela confusão, que normalmente acontece em uma bienal, fizemos muitas descobertas juntos. O relatório do grupo de alunos conta nossa aventura. • Relatório da bienal Os passeios também nos auxiliavam nos conteúdos trabalhos, serviam como motivadores das aulas e eixo de algumas discussões, inclusive nas produções textuais. Trabalhamos textos dos livros adquiridos pelos alunos na Bienal, montamos até um gráfico mostrando a preferência de leitura através dos livros adquiridos na Bienal... Interessante foi descobrir que estão mais interessados em livros informativos, compraram livros que falavam da adolescência, sobre horóscopo, sobre religião... Discutimos sobre isso na aula: Qual seria o motivo deles estarem tão interessados nesses assuntos?... Chegamos juntos a uma conclusão: estão curiosos por saberem algumas respostas comuns na adolescência. Esta com certeza é uma pista importante. Mas nem sempre foi fácil, assumirmos a prática dos passeios, alguns deles foram feitos em transporte coletivo público (ônibus e metrô), em alguns momentos tivemos que assumir a responsabilidade de levá-los 46 de ônibus público, e metrô, ou nós fazíamos assim ou não fazíamos, optamos por assumir... Fomos duas vezes ao teatro, ao Centro Cultural da Marinha, andamos de barco, visitamos a Ilha Fiscal, à Bienal, ao Instituto Oswaldo Cruz -Museu da Vida, cada lugar uma nova aventura, fizemos passeios que não eram "aulas": o Parque da Mônica, e nossa despedida, se é que podemos chamar de despedida, foi em um sítio. Aproveito aqui alguns comentários feitos nos relatórios dos alunos, que contam melhor que eu tais atividades. • Texto do Museu da Vida As produções dos relatórios, tinham inicialmente somente a intenção de produção de texto, embora comporem um livro contando estivessem envolvidos na proposta de as aventuras da turma, que contariam os passeios feitos. Mas como os relatórios não em feitos somente para contarmos os passeios, serviam também para formalizar as conversas das rodinhas, as avaliações dos trabalhos de grupo... Quando começo a ler estes relatórios para avaliar e refletir a fim trazer questões para a esta monografia, vejo uma coisa que antes não via: Como são diferentes as percepções dos alunos... Não que já não soubesse disso, mas nesse momento presto atenção a um detalhe fundamental para nós educadores. Olhares são diferentes, a forma de aprender é diferente para cada aluno. Parece tão óbvio falar disso, mas os relatórios mostram que cada aluno vai aprender a seu modo, independente do professor. E mais uma vez me convenço da importância do trabalho coletivo, onde a troca das diferentes impressões vai compor um todo, em que um jeito de olhar, completa o jeito de olhar do outro, num ciclo vicioso. 47 Nos relatórios, cada aluno expressava o lhe chamava atenção e o que ficava de tudo que fora vivido pela turma. A experiência era a mesma, mas a vivência daquela situação era diferenciada dependendo de cada aluno, dependendo de cada história... 3.3.1 – Entrevista com a Professora Por que você escolheu trabalhar na perspectiva da construção coletiva? Por acreditar que o trabalho coletivo funciona com um facilitador do processo de aprendizagem, e por acreditar que juntos nós avançamos rompendo a barreira do individualismo, onde todos tem a oportunidade de se colocarem com seus saberes, que tradicionalmente não seriam valorizados. Quais os pontos positivos e negativos que você estaria apontando quando realiza esse tipo de trabalho em sala? Esse tipo de trabalho traz em si uma perspectiva de conflito, uma vez que em nossa sociedade, vivemos isolados, mudar e lidar com as diferenças e ouvir o outro é difícil. Mas esse conflito torna-se necessário para que os alunos aprendam se colocarem e a respeitarem as colocações dos colegas. Avaliando, qual o resultado que você conclui dentro dessa perspectiva na construção da prática coletiva? De certa forma esta pergunta já foi respondida. Juntos, aluno – aluno ou aluno – professora, vamos avançando em muitas questões: ortográficas, gramaticais, estética textual, organização textual, afetivas, democráticas, vamos aprendendo a respeitar e ser respeitados. 48 CONCLUSÃO “... há os que atuam no cotidiano da escola e que lutam por transformá-la em espaço de troca, de criação, de relações amorosas e solidárias.” Regina Garcia Em um país onde o desemprego cresce assustadoramente, temos o dever como educadoras e educadores, de buscar todas as formas possíveis para dar a todos acesso à Educação. Porém, uma Educação que possibilite a classe popular lutar, de igual para igual, pelos postos de trabalho com a classe elitizada. E, principalmente como queria Paulo Freire, para que os jovens e adultos possam questionar a realidade das relações dos indivíduos com os outros e com o mundo que os envolve. E, onde detectarem uma situação de opressão que lesa a liberdade concreta, poderem ter autonomia para provocar a reação organizada contra a situação para transformá-la. Tudo isso pode e deve ser vivenciado numa sala de aula, desde cedo, com práticas que potencialize seus alunos de fato, onde impere o respeito às diferenças. Estamos iniciando um novo século que revolucionou completamente a forma de viver em sociedade sem resolver antigos problemas como: o analfabetismo e a formação de professores. Como o leitor ou a leitora deve estar observando, não temos muito (ainda) o que festejar. Na verdade, temos é que lutar por um país mais justo, mais solidário. Aprendi com Paulo Freire a não aceitar a desumanização. Paulo Freire (1968, p. 30), nos fala que: “A desumanização, que não se verifica apenas, nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que de forma diferente, nos que a roubam, é distorção da vocação do SER 49 MAIS. É distorção possível na história, mas não vocação histórica. Na verdade, se admitíssemos que a desumanização é vocação histórica dos homens, nada mais teríamos que fazer, a não ser adotar uma atitude cínica ou de total desespero. A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como “seres para si”, não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que seja um fato concreto na história, não é porém, destino dado, mas resultado de uma ‘ordem’ injusta que gera violência dos opressores e esta, o ser menos.” Na minha opinião, Freire ao longo de sua trajetória como educador foi reformulando suas idéias. Depois de passar por várias experiências em países que buscavam sua libertação, Freire aprendeu que deveria sempre partir do conhecimento do educando, de seu “universo vocabular”, de seu nível e consciência do mundo não para permanecer nele, mas para superálo através do diálogo educativo. E, se ele é o encontro em que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a uma “discussão guerreira, polêmica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo, nem com buscar a verdade, mas impor a sua.” (Freire, 1968, p. 93) Ao longo desta monografia, fui me apaixonando em especial não só pela metodologia de Paulo Freire, mas também, pela sua grande figura humana. Espero ter conseguido despertar a curiosidade do leitor ou da leitora para ler os livros do nosso grande educador, para que descubra como eu que ainda há esperança e práticas de construção de conhecimento diferentes para a Educação do nosso país. Afinal quem não sonha com uma sociedade amparada pelo amor e pelo respeito? Quem não se inquieta diante de uma realidade escolar distante do verdadeiro sentido da educação? 50 Abraçar esses questionamentos é colocar de lado o egoísmo e fazer da relação professor-aluno um momento de crescimento e troca. É saber que tudo que transmitimos não pode ser imposto, pois assim sendo seria ensino. Educação engloba e supera o ensino, pela razão deste ser apenas uma etapa do processo de aprendizagem. Educação é mais do que transferência de conteúdos, necessita do ambiente relacional onde haja respeito e diálogo para possibilitar a compreensão do outro. Mas só compreendemos o outro quando o respeitamos em sua diversidade, quando o amarmos. ... às vezes, o ponto central de nossos problemas em educação se encontra antes de tudo em nossos corações. Pois “Eva viu a uva ... e Paulo Freire nos mostrou os cachos, a parreira, a plantação.” 51 BIBLIOGRAFIA ESTEBAN, Maria Teresa. O que sabe quem erra? – Reflexões sobre avaliação e fracasso escolar. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001. FREIRE, Paulo. Pedagogia de Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra – Coleção Leitura, 6ª ed. 1996. FREITAS, Nilson Guedes de. Pedagogia do Amor: caminho da libertação na relação professor – aluno. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2000. GADOTTI, Moacir. Educação e poder: introdução à pedagogia do conflito. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1987. GARCIA, Regina Leite. Novos olhares sobre a alfabetização. São Paulo: Cortez, 2001. REGO, Teresa Cristina. Vygotsky – Uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 5ª ed. 1995. SALTINI, Cláudio. Afetividade e Inteligência. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. 52 ÍNDICE INTRODUÇÃO 9 CAPÍTULO I 12 O DIÁLOGO NA SALA DE AULA 12 O que é diálogo? 12 1.1 – O diálogo na sala de aula 13 CAPÍTULO II 24 O AFETO – O FIO CONDUTOR 24 2.1 – Novos caminhos a serem percorridos 27 CAPÍTULO III 30 A CRIANÇA E O ADULTO – EM BUSCA DE UM ENCONTRO 30 3.1 – Arte na escola expressa nossa identidade 33 3.1.1 – Entrevista com a Professora 35 3.2 – Arte na escola estimula nossa criatividade 36 3.2.1 – Entrevista com a Professora 37 3.3 – Arte na escola favorece o aprendizado 3.3.1 – Entrevista com a Professora 39 47 CONCLUSÃO 48 BIBLIOGRAFIA 51 ÍNDICE 52 53 FOLHA DE AVALIAÇÃO UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PROJETO A VEZ DO MESTRE Pós-Graduação “Lato Sensu” Título da monografia: O “Fazer Junto” – A criança e o adulto em busca de um encontro Autora: Ana Julia Neves Regadas Data da Entrega: ____ de agosto de 2003 Avaliado por: ________________________________ Conceito: _______ Avaliado por: ________________________________ Conceito: _______ Avaliado por: ________________________________ Conceito: _______ Conceito Final: Rio de Janeiro, ____ de ____________________ de 2003