Narrativa Grupal Mediada – Uma Estratégia para o Estudo de Caso como Objeto de Aprendizagem Autoria: Pedro Lincoln C. L. de Mattos Resumo Este artigo propõe uma estratégia metodológica de pesquisa para promover a interpretação de um caso, reunindo, com a mediação do pesquisador, um grupo de pessoas relevantes ao caso, sobretudo por terem-no vivido ou testemunhado, com o objetivo de dali extraírem uma aprendizagem. Esse interesse, definidor do estudo de caso, nada tem de novo, mas é pouco estudado e não se coadunaria bem com o paradigma de estudos de casos dominante. Propõese que, a certa altura da pesquisa, façam-se rodadas sucessivas de entrevistas, articuladas por questões em que o pesquisador resume e avança o obtido até então, submetendo-as aos participantes, rumo a um esclarecimento do caso (não necessariamente consenso), suficiente para uma aprendizagem sobre ele. No início do texto, o problema a que se refere o método é identificado e discutido face a outros tipos de estudo de caso. A orientação epistemológica presente à opção pela narrativa de aprendizagem, subjacente à proposta, é justificada. Em seguida, a estratégia metodológica é distinguida do Método Delphi, com o qual guarda semelhanças. Na segunda metade do texto, os procedimentos dela são descritos. A conclusão acentua a liberdade do pesquisador, na prática, em relação aos procedimentos detalhados, aqui sugeridos apenas em nome da estratégia metodológica. 1 O enfoque A interpretação de um fato, um “caso”, é fenômeno do dia-a-dia da comunicação em todas as sociedades. De Homero aos nossos dias, eis um gênero literário dos mais antigos: alguém, com certa legitimidade, faz a narrativa de um caso, de modo a que um auditório qualquer possa aprender um significado relevante que ao caso se atribui. Agora imagine-se: se adicionássemos à situação o tratamento objetivador que é próprio à ciência, não poderia essa prática secular comparecer também na literatura acadêmica? Mais: e se ao narrador fosse dado o status de “pesquisador” e ele reunisse a si um conjunto significativo de pessoas que protagonizaram ou foram testemunhas do caso, e as fizesse dialogar ordenadamente de modo a, juntos, evidenciarem uma interpretação sustentável e útil para a nossa aprendizagem? Imaginado isso, lá estariam eles, depois, tentando apresentar seu relato em um congresso científico... O que parece estranho nessas insinuações? – Faltaria aqui – argüiria nossa tradição científica ocidental – a intenção e o método de criar conhecimento certo, de falar das coisas como elas realmente são, e de decifrar o sentido oculto, permanente e único dos fatos, tudo exigindo linguagem própria. Realmente, se tratar o caso segundo este paradigma do conhecimento moderno for a única opção, especialmente para as ciências humanas, passa a ser espúria qualquer tentativa de confundir, com aquelas pretensas práticas, a expressão “estudo de caso”, consagrada em metodologia. A questão de um paradigma moderno de conhecimento que acima se coloca, com certa hipóstase, não é propriamente o objeto deste artigo, como também não o é examinar todo o contexto metodológico – e ele é vastíssimo – em que se tem falado de “estudo de caso”. Mas 1 aquela questão, adiante brevemente retomada, tem a ver com a justificativa de singela estratégia metodológica que aqui se sugere aos pesquisadores em áreas interdisciplinares como administração. No mundo de sua prática, muitos casos se teria a narrar aos gestores e aos detentores de interesse econômico ou político em organizações. Deve ficar claro desde já que, por todo texto, ao usar-se a expressão “estudo de caso” só se tem em vista a prática ordinária de pesquisa. A estratégia metodológica proposta não foi concebida para a situação didática, de denominação semelhante, nas escolas e em outras situações de treinamento nas organizações. No entanto, sua concepção voltada para a aprendizagem e a forma como se tenta justifica-la são, em boa parte, extensivas ao “método do caso”, de largo uso nas escolas de administração. No fundo, começa a desaparecer – e há outras boas razões para saudar o fato – a distinção entre estratégia de aprender e estratégia de pesquisar. 2 Delimitações Há muitas formas de constituir e estudar um “caso”, usadas entre os pesquisadores em administração e essas são, cada vez mais, estratégias de trabalho procuradas (SCANDURA; WILLIAMS, 2000, apud JOIA, 2004, p. 123-124). Em toda a variedade de formas e divergências metodológicas, no entanto, há algo para o que se chamaria a atenção: “estudo de caso” é como se tende a denominar o pólo em que se aglutinaram no século passado práticas alternativas a um paradigma de método da ciência moderna. Por oposição a certo princípio metodológico tradicional do conhecimento racionalista, que a ciência moderna apropriou, “De singula non fit scientia” (não se faz ciência de coisas singulares), o estudo de casos particulares contrastava com todos os métodos produtores de generalização. Nas ciências humanas e sociais, o teste de hipóteses no survey ou, fora dele, em experimentos semelhantes aos das ciências “duras”, representava aquele paradigma. Frente a ele, essencialmente articulado em linguagem formal (no caso, estatística), como se poderiam denominar todos os procedimentos de pesquisa que se expressassem de outra forma? Os “dissidentes” identificaram sua variedade – mas também a condicionaram – como “qualitativos”, definindo-se por oposição ao status quo metodológico, caracterizado desde então como “quantitativo”. Nessa dicotomia, até agora não superada, se pretendia encerrar duas lógicas irreconciliáveis, duas epistemologias e compreensões diferentes de realidade, não apenas marcar uma variedade de procedimentos de coleta e análise de dados. O quadro resultante, no entanto, era, do lado tradicional (“pesquisa quantitativa”), uma caracterização metodológica cada vez mais clara e uniforme que gerava segurança no meio de seus praticantes; do outro lado, reinava o ecletismo (as “mixagens”), a flexibilidade e a ambigüidade, onde “pesquisa qualitativa” poderia aglutinar indefinidamente todo processo não-quantitativo. O estudo de caso foi então desenvolvido no seio dos métodos qualitativos e com eles sempre associado pelos grandes compêndios e autores da pesquisa em sociologia e psicologia das organizações (cf. em YIN, 1994, Cap. 1, diversas referências; BRYMAN, 1989, p. 170-187, PATTON, 1990, p. 98-102, 384-390, STAKE, 1994, 236-247; MERRIAM, 1998, p. 26-43). Na variedade das estratégias metodológicas em administração, seu uso destacado pode ter muito a ver com a própria polissemia que o envolveu no grande gênero dos “métodos qualitativos”. O estudo de caso chegou a casar-se com a “pesquisa avaliativa” (PATTON, 1990), a associar-se a outras práticas “não-ortodoxas”, de fato bem diversas, como a pesquisa2 ação (BRYMAN, 1989), e abriu-se a uma amplitude conceitual já descaracterizante – na observação acertada de Yin (1994, p. 37) sobre STAKE (1994, p. 236). O próprio Yin, propugnando uma especificidade do estudo de caso a partir do objetivo de “esclarecer uma decisão” (1994, p. 31), tenta distingui-lo da pesquisa qualitativa e de avaliação, mas acaba mostrando mais o outro lado, ou seja, as áreas de interseção (1994, 33-34), e não convence. A estratégia para estudos de caso aqui apresentada não se prende ao “mainstream” dessa tradição dita “pesquisa qualitativa”, mas não é, de forma alguma, estranha ao campo dos estudos de caso. Apenas tenta, sem compromissos com o paradigma veredictivo da ciência moderna, de início referido, adicionar ao método conceitos familiares a outros gêneros literários, como o da narrativa, e elementos de sistematização, também já conhecidos. Se achada metodologicamente consistente por algum pesquisador, essa “composição” pode vir a ser-lhe de utilidade em alguns tipos de estudo de caso. 3 “Este é um caso de (...). O que aprendemos com ele?” Um tipo de estudo de caso Mesmo não majoritária, há uma prática de estudo de caso muito simplesmente voltada para a aprendizagem corrente, tal como, afinal, se faz muitas vezes ao refletir sobre ao fatos da vida. Tal sentido está na expressão corrente: “Este é um caso de (...)”, e o estudo é feito com a finalidade precípua de colher dele um significado relevante e útil, tê-lo como objeto de aprendizagem – entendida esta em termos amplos. Propõe-se que tal se faça por uma reconstrução sintética de significado a partir de depoimentos de pessoas que assumem, em conjunto, o papel de “analistas” do caso. Ela é produzida para dali aprender-se o essencial. Esse “sentido essencial do caso” inspirará a prática, mas talvez também algum conceito novo, até uma evidência a mais para alguma teoria, mesmo não contribuindo para sua elaboração. De qualquer forma, se incorporará à nossa experiência esclarecida e será de grande impacto para ações futuras: aprenderemos, intencionalmente, com ele. Desde já, no entanto, deve-se ressaltar duas características básicas do estudo de caso como aqui proposto. No estudo de caso que fundamentalmente pergunta: “o que aprendemos com este caso?” e remete à construção de um significado, o papel do pesquisador se redefine. De fato, com que legitimidade poderia ele construir tal significado sem os demais atores do caso, sejam eles os próprios agentes históricos ou as testemunhas dos fatos? Impõe-se uma forma de interpretação partilhada. Produzir um diálogo no coração do processo metodológico do estudo é essencial, um diálogo que não se sinta caudatário do dever de representar o fato em vários aspectos possíveis, mas que, sem desdenhar os dados reais como evidências na argumentação entre os participantes, seja orientado para construir um significado geral e unificador do caso, e, portanto, melhor estruturado para a aprendizagem. Por outro lado, o grupo de testemunhas de um caso não se coloca diante dele de forma puramente subjetiva e arbitrária, ao sabor de vieses e emoções. O próprio grupo, com a intermediação do pesquisador, se auto-regula pela objetivação – os fatos e interpretações postos por alguém na entrevista, bem como a consistência das ligações entre aqueles e estas, estão sujeitos ao crivo dos demais. A intermediação do pesquisador velará por isso. 3 Nada de inédito e original nas formas de estudo de caso está aqui sendo proposto. Apenas uma estratégia metodológica, supostamente consistente, é apresentada como forma prática de conciliar as características expressas nos parágrafos acima. Bent Flyvbjerg (2001), da Universidade de Aalborg, Dinamarca, escreveu há pouco tempo obra bem recebida (GORDON, 2001) que retoma, por perspectiva nova, os problemas metodológicos que têm trazido desgaste e impasses à pesquisa na área das ciências sociais. No Capítulo 6, que intitula “O Poder do Exemplo”, ele trata do estudo de casos e põe-no em relação com a aprendizagem humana de que tratara em capítulo anterior. E diz: Dois pontos devem ser postos. Primeiro, o estudo de caso produz precisamente o tipo de conhecimento dependente de contexto que torna possível passar-se dos mais baixos para os mais altos níveis do processo de aprendizagem. Segundo, no estudo de questões humanas existe apenas conhecimento dependente de contexto, o que descarta a possibilidade de construção epistêmica teórica. Vamos examinar esses dois pontos mais de perto. No final, contudo, se eles estiverem corretos, ter-se-á conseqüências radicais para o estudo de caso na pesquisa e no ensino. (FLYVBJERG, 2001, p. 71) Os dois pontos levantados por Flyvbjerg mudam a perspectiva de toda a metodologia tradicional do estudo de caso. Mais adiante, em sua argumentação, ele continua: O segundo ponto principal, em conexão com o processo de aprendizagem é que não existe e provavelmente não pode existir teoria preditiva nas ciências sociais. Como argumentei no Capítulo Quatro, a ciência social, em última instância, não tem nada mais a oferecer que conhecimento concreto, dependente do contexto, e o estudo de caso é especialmente conveniente para produzir esse tipo de conhecimento. Em seu trabalho mais recente, Donald Campbell chega a conclusão semelhante, explicando como seu trabalho passou por “uma oscilação extrema, afastando-se da minha inicial depreciação dogmática dos estudos de caso”, acima descrita. Em lógica que muito se assemelha à de Aristóteles e à do modelo de Dreyfus sobre aprendizagem humana, Campbell agora explica: “Afinal, o homem é, em sua forma normal, um conhecedor muito competente, e o conhecer qualitativo do senso comum não é substituído pelo conhecimento quantitativo (...). Isso não significa que aquela observação natural do senso comum seja objetiva, independente ou não viesada. Mas é tudo que temos. É o único caminho para o conhecimento – mesmo sendo barulhento, falível e tendencioso.” (Degrees of freedom and the case study. Comparative Political Studies, v. 8, n.1, 1975, p. 179, 191). Campbell não é o único pesquisador que mudou sua visão do estudo de caso. (FLYVBJERG, 2001, p. 72-73) Em que pese certo pessimismo de Flyvbjerg em relação ao tipo de conhecimento possível à ciência social, fica bem ancorado seu ponto de vista que associa fortemente o estudo de caso aos processos básicos de aprendizagem humana, bem enraizados nas situações ordinárias da vida e no senso comum. É nesse contexto de conhecimento que se coloca a participação de pessoas que viveram e testemunham o caso, na estratégia de pesquisa aqui sugerida. Sem atribuir a Flyvbjerg, pelo que diz acima, qualquer rejeição ao uso de práticas científicas à aprendizagem humana ordinária, naquela estratégia também se pensa agregar ao processo a maneira objetivada de construir conhecimento, típica da ciência, e o enriquecimento que conceitos, associados a teorias, podem trazer ao esclarecimento do caso. Essas contribuições 4 são promovidas sobretudo pela forma como se prevê, na estratégia, a participação do pesquisador. 4 Estudos de caso não podem imaginar-se reconstituindo fielmente a realidade Na maioria das formas de estudo de caso em prática na academia, o pesquisador se coloca diante do caso como a ciência natural costuma fazer com seus objetos. Tentando desvendar a complexidade de sua explicação sobretudo por métodos qualitativos, ele tece um quadro causal apoiado em evidências empíricas, ainda que orientadas por hipóteses e linhas explicativas (teorias) relativas ao contexto do caso e que este seja visto como campo multifacetado de aspectos e explicações causais. Sem recusar globalmente tais estratégias de pesquisa, cabe aqui referenciar a crítica a certo traço comum a muitas delas, no que se mostram excessivamente devedoras a um paradigma do conhecimento moderno: pôr-se como tarefa e intenção primeira o tecer uma explicação supostamente fiel à realidade, contando, para isso, com as virtudes intrínsecas do método (indutivo ou dedutivo) e com linguagem capaz de representa-la bem. Ao mencionar tal crítica se espera estar indiretamente argumentando contra a rejeição da estratégia de pesquisa proposta, em nome de razões, fundadas nesse paradigma, que apóiam os métodos tradicionais de estudo de caso. Um caso não é uma fonte inesgotável de observações e conclusões, porque não há fatos sociais estáveis e “pré-definidos”, aguardando apenas o olhar arguto de um pesquisador: ele a é a principal parte do processo de conhecimento que diz criar (PEARCE, 1996; BERGER; LUCKMANN, 1994). O método científico moderno é capaz de construir uma bela peça lógica e técnica sobre o caso, mas compromete-se fatalmente ao assegurar com isso uma explicação própria, superior e absoluta dele. Ou, pelo menos, ao aparentar tal pretensão. O paradigma de ciência, acima aludido, há muito está em crise. A despeito do sucesso na solução de problemas práticos e tecnológicos pelas ciências experimentais, os fatos trabalhados por elas – hoje se vê claro – não são “puros”, não são o dado original, último e seguro, fundante da certeza (CHALMERS, 1993, p. 46-63). Não é logicamente sustentável que alguém parta da observação, não dirigido por uma expectativa, (POPPER, 1972, p. 46). Além disso, a observação científica, intermediada e elaborada pelo aparelho cognitivo autônomo do observador-cientista, é mais um limite radicalmente condicionante do que um apoio (POLLACK, 1999). Sabe-se que um mesmo conjunto de observações se presta a teorias quase opostas e por cada uma é tomado como prova (“sub-determinação” teórica dos fatos científicos), e isso gera discussão interminável (LAUDAN, 1996). A ciência pratica “metanarrativas circulares” quando, fechada em seu método, se justifica freqüentemente valendo-se das bases de sua própria forma de pensar, e a isso acrescenta fundar a legitimidade sobre a performatividade (LYOTARD, 1997, p. 23-46). De há muito ficou para trás o mito da neutralidade científica (DEMO, 1995, p. 70-86). A história dessa crise e do que tem surgido alternativamente encontra-se hoje já bem mapeada por autores de ampla legitimidade na filosofia e na sociologia (HABERMAS, 1990, p. 11-61; RORTY, 1994, Caps. III e IV; RORTY, 1999, p. 24-71; BAUMAN, 1999, p. 9-21) e já chega também à pesquisa em administração (TSOUKAS, 1998). Melhor seria, pois, desistir dos estudos de caso cujas “conclusões” pretendem apoiar-se em alguma reconstituição descritiva e autêntica dos “fatos”. 5 5 A legitimidade epistemológica do estudo de caso como aprendizagem construída Flyvbjerg (2001), em seção intitulada “A qualidade irredutível de boas narrativas de caso”, e ressaltando qualidades característica às “narrativas para aprendizagem”, que aqui se associa ao estudo de caso, diz: Estudos de caso freqüentemente contêm um substancial elemento narrativo. Tipicamente, boas narrativas abordam a complexidade e as contradições da vida real. Dessa forma, tais narrativas podem oferecer dificuldade ou impossibilidade para serem sumarizadas em fórmulas científicas claras, proposições gerais e teorias. (...) Mas isso pode ser um sinal de que o estudo descobriu uma problemática particularmente rica. (FLYVBJERG, 2001, p. 84) Contudo, não é auto-evidente que a narração interpretativa de um fato deva ser vista como a construção de um significado unificador, inclusive com a intenção de aprendizagem. As seções seguintes procuram justificar a opção epistemológica aqui adotada. A primeira elabora um argumento lingüístico e a segunda busca apoio em filósofos da história para realçar o sentido mais profundo da narrativa histórica, indo ao encontro da perspectiva construtivista no estudo de caso. 5.1 O caso é constituído pela opção de narrativa do pesquisador e seus entrevistados “Eis um fato”. Quando se pode dizer isso? Quem narra um fato, constitui tal fato. Não é possível mostrar que este fato existia antes de qualquer narrativa dele. Demonstrá-lo significaria associar detalhes à descrição dele próprio, então já assumido enquanto tal. E mais: o fato está na própria forma pela qual se optou ao narrar, não na designação que depois de feita a narração se lhe dá. O ato de fala que narra está essencialmente na predicação, o verbo com seus complementos (AUSTIN, 1990, p. 85-102) . Se alguém de repente chega para você e diz: “A demissão do diretor administrativofinanceiro”, sem fazer predicações, você fica aguardando que ele prossiga. Se isso é só o título de um texto escrito ou falado, supõe-se que você o leia; só então se completará o ato de fala do autor. Vejam-se agora os seguintes enunciados, com outras tantas predicações: “O diretor administrativo-financeiro pediu demissão ontem”, “O diretor administrativo-financeiro pediu demissão, após um longo período de desgaste”, “A crise de governança da empresa resultou na demissão do diretor administrativo-financeiro”, “A demissão do diretor administrativo-financeiro significou a desautorização de todo um programa de mudança na empresa que envolvia dezenas de gerentes.” Estes e outros são enunciados alternativos à disposição de um narrador. Há, naqueles enunciados, um só fato? Onde estaria então? Na “demissão do diretor administrativo-financeiro”? Tem ela sentido suficiente, sem um contexto de predicação? (Alguém logo poderia retrucar: “O que? Foi demitido? Conte-me o que houve”, demonstrando que ainda não entende ali um fato.) Ou, em vez disso, cada um daqueles enunciados não poderia ser considerado um fato de conotações diferentes, construído de forma própria por um enfoque, uma intenção predicativa que lhe dá sentido? Ora, na predicação se manifesta a intenção do falante. Assim, fatos (casos), como objeto de conhecimento, não são algo simples, unívoco, não problemático, “objetivo”. Não se pode ter um fato sem sua interpretação. A interpretação surgirá de qualquer forma, quando alguém começar sua narração. Se o narrador consegue ou não convencer seu público de sua “versão” – ou seja, de que a forma como faz a predicação é sustentável e verossímil – isso é outra questão. Diz respeito à aderência ou legitimação social da narração. Já fica, contudo, claro, 6 que na origem do fato encontram-se certas escolhas de predicação, entre inúmeras outras possíveis, igualmente demonstráveis, e até certo ponto à disposição do narrador. A forma sintática que apresenta o fato “fechado” (“a demissão do diretor-financeiro”) é posterior a uma narração original, ou apenas a anuncia. 5.2 O que é narrar um fato? Primeiro, é preciso enfraquecer o primado da reconstitição histórica, da memória dos fatos, para a vida humana e social. Ao contrário, muitas soluções precisam romper com o passado ou entendê-lo de forma inteiramente nova. Assim foram, inclusive, as revoluções científicas (KUHN, 1991). É o caso de lembrar “o elogio do esquecimento”, de Nietzsche, tanto na Genealogia da Moral (1887) quanto nas Considerações Extemporâneas (1874), ao criticar o homem moderno, que tudo registra e que em tudo se firma nos dados e relatos dos analistas. O filósofo fala da “memória morta”, que afasta o momento da vida e da criação de cultura. Como se argumenta aqui com uma questão básica de valor, não se deveria julgar fora de contexto citar as palavras de Nietzsche: “Mas nas menores, como nas maiores felicidades, é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade, felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente” (NIETZSCHE, 1991, p. 21, apud OLIVEIRA, 2005, p. 11). A modernidade nos roubou o sentido da narrativa do passado. Pretendeu, metodologicamente, dar-lhe como referência apenas o passado. No entanto, os antigos formavam sua cultura do presente com o passado, criando para este tal função. O que pais, avós, anciãos, sábios e líderes religiosas faziam sempre era criar um significado presente com os fatos do passado, tratados então com liberdade literária. Ensinava-se para o presente, a essência das narrativas era doutrinária, todos o sabiam, inclusive os ouvintes das narrações bíblicas.. A superação progressiva da modernidade traz de volta o sentido da narração como presente. Estuda-se um caso não apenas “por causa de”, mas “a partir de” algum interesse presente. A narrativa não apenas acontece no presente, ela é uma elaboração presente que inclui memórias. Nesse mesmo contexto de revisão do paradigma moderno, Walter Benjamin (1892-1940) tenta retomar o sentido da narrativa: A narrativa, que durante tanto tempo floresceu em um meio de artesão – no campo, no mar e na cidade – é, ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o “puro em-si” da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. (BENJAMIN, 1994, p. 205) E ainda ele: Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se dar conselhos parece hoje antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis. (BENJAMIN, 1994, p. 200-201) De que forma o conceito não-moderno de “narrar uma história” se aplica a uma estratégia de estudo de caso que visa construir um significado de aprendizagem? Que contexto de 7 significado comum aos dois poderia justificar a extensão do primeiro à segunda? – Basicamente, tratando a atividade de pesquisa (o estudo de caso) como despojada de um contexto formal ou fetichista de entendimento. Não há acionamento de dispositivos ou sistemas nem “abracadabras” que geram conhecimento. Este é um processo criativo e artesanal, coletivamente conduzido – colaboração, avaliação-mútua e emulação em uma rede institucionalizada de relacionamentos – que inclui técnicas, mas pouco a pouco se apodera delas e as renova. Como não poderia ser diferente, essa dinâmica sócio-construtivista da pesquisa vale também para as ciências administrativas (ASTLEY, 1985). Por isso, não tornase difícil justificar um “caso”, de identidade inconteste, que só nos restaria delimitar, reconstituir, trazendo-o à luz por evidências empíricas, e, por fim, interpretar. Não se tem propriamente o estudo de um caso, tem-se a re-construção livre mas objetiva de um fato ou conjunto de fatos, agora (segundo se propõe) narrados de forma única por um grupo de pessoas que dele teve experiência, mais um pesquisador com função catalisadora. 6 Uma dificuldade metodológica a que se tenta responder De diversas formas, nos estudos de caso, o pesquisador recorre às pessoas envolvidas com seu objeto de estudo (o caso) para entrevistá-las. São várias as funções que o entrevistado assume, na riqueza de uma entrevista aberta: ele relata e testemunha, ele analisa e interpreta. Um problema de natureza metodológica que nos interessa é como integrar essas funções dos entrevistados, entre si e com o que por fim faz o próprio pesquisador quando tenta, pela interpretação, produzir um significado geral do caso. É preciso que esse processo se beneficie das vantagens da comunicação; que se torne um diálogo entre participantes do caso e pesquisador e que seja um diálogo sistematizado e objetivado (como cabe ao trabalho científico), do qual o pesquisador participa, que conduz e media. Esse não é um problema metodológico simples. Estamos acostumados a ter como “naturais” – e, por isso, a não vê-las – as limitações do pesquisador que se afasta dos entrevistados para, após colher os dados de seu interesse, procurar uma forma objetiva de tratá-los e de aí garantir a presença de alguma visão teórica. Por outro lado, também nos acostumamos a supor como condição inevitável da pesquisa a perda que acontece na compreensão da complexidade do objeto de estudo, quando se dissociam a narrativa dos fatos e a elaboração teórica interpretativa deles: um primeiro personagem viveu a complexidade dos fatos, narra-os, e, depois de ouvido, fica para lá; o mesmo acontece a um segundo, a um terceiro, etc.; e, enfim, outro personagem, o pesquisador, que chegou aos fatos indiretamente e está imbuído de conceitos interpretativos, toma consigo o processo da pesquisa e leva-o adiante. O discurso científico vai ser construído a partir deste último personagem, sem dúvida. Deverão, no entanto, os entrevistados ficar sempre na posição de simples “fornecedores de dados”? Caso não, como se poderia viabilizar a incorporação do feeling e da competência de quem viveu os fatos à análise interpretativa sistemática deles? Ou seja, alguma estratégia metodológica permitiria ter, em conjunto, os dois tipos de personagem acima distinguidos, procedendo à análise interpretativa de um caso bem identificado, guardando sempre a objetividade, própria da linguagem científica? – Propõe-se aqui uma forma de responder afirmativamente a esta pergunta. 8 7 Distinções em relação ao Método Delphi A sistemática de rodadas sucessivas de coletas de dados sobre o mesmo grupo, conduzidas com um mesmo propósito, tornou-se mais conhecida pelo Método Delphi, ou “Consenso de Especialistas” (WRIGHT, J. T. C.; GIOVINAZZO, R. A., 2000 ). A estratégia metodológica proposta neste artigo recorre também a esse tipo de procedimento. Como o faz, porém, com propósito e características bem diversas, cabe dedicar ao tema alguns parágrafos. Pretende-se mostrar que se trata aqui de outra coisa, porque alguns detalhes do Delphi revelam estrutura lógica subjacente e fundamentação diferentes, reduzindo a sistemática de rodadas sucessivas, elemento comum às duas estratégias, a um arcabouço formal que, de si, não caracteriza método de pesquisa. O Método Delphi, surgido em 1948 na Rand Corporation e aí cultivado para prospecção na área de tecnologia por especialistas (DALKEY, N.C.; HELMER-HIRSCHBERG, O., 1962), teve larga expansão em outras instituições, usos e foi muitas vezes estudado na academia (o site www.scholar.google.com registra cerca de 16.500 referências para a entrada “The Delphi Method”). As características do Delphi são facilmente identificáveis em relação a outras técnicas de pesquisa (VICHAS, R. P., 1982). O objetivo do método, na grande maioria de suas aplicações, é claro e altamente pragmático: colher um consenso de especialistas sobre assunto complexo e relativo ao futuro. Não há análise de um caso e o conjunto em nada poderia parecer uma narrativa de um grupo de pessoas. Interessa no Delphi o que afinal as pessoas supostamente melhor informadas concluem para fins práticos. A técnica instrumentaliza decisões, sem discutir-lhes o mérito. A finalidade prática orienta o consenso, que é característica sempre presente em todas as variedades do método e que, por sua vez orienta a metodologia. Cada opinião vale o mesmo – e, por isso, mantém-se o anonimato, para evitar que o prestígio pessoal de algum informante influencie a opinião de outros. Ela é coletada por questionários padronizados e sua agregação é feita por estatística descritiva de tendência central. Nesse processo, o pesquisador, supostamente não especialista, limita-se à computação e síntese das respostas, retornando aos especialistas os pontos a que eles mesmos estão chegando. A qualificação progressiva das opiniões é feita por feedback, cada especialista revendo a própria posição face à dos outros. Há alguns anos, o Delphi ganhou novas adesões pelo uso da Internet no acesso aos participantes. Segundo Loures (2002, p.8) só a velocidade da aplicação diferenciaria o Delphi Eletrônico do tradicional. É necessário frisar que a narrativa grupal mediada não visa o consenso estrito, mas, sobretudo, a complementaridade, e que, ao contrário de participantes nivelados por sua especialidade, tem-se ali pessoas de diversas competências, visões e até posições hierárquicas, aproximadas por envolvimento diferenciado com um conjunto de fatos. Seus depoimentos e opiniões não são exatamente comparáveis, “adicionáveis”, computáveis, e, por isso, o uso de questionários não é adequado. Não se renuncia à fecundidade da interação face-a-face. O anonimato tornase secundário, cabendo ao pesquisador julgar se, no caso, traz benefícios ou é inútil. Aqui, a construção do conhecimento não avança sem a participação essencial do pesquisador que, com função própria, é um participante como os outros, responsável por uma mediação que aporta ao processo, e submete aos demais, algo único: conceitos, ou mesmo teorias, que tecem um fio condutor na geração progressiva do significado do caso. No Delphi, os critérios de escolha dos especialistas constituem problema delicado, levando a resultados errôneos ou ao fracasso do objetivo de consenso. Na narrativa grupal mediada sobre um caso, o critério já está dado desde o início e é inequívoco: o envolvimento relevante, por participação, no caso. 9 Também aqui, o movimento é muito mais de “feedforward” do que de “feedback”, pois a mediação vai fazendo com que cada rodada alimente a seguinte, rumo a algo construído aos poucos. Essas distinções permitem que este artigo não se estruture nem se justifique a partir do Método Delphi, mas a partir de lógica própria, vinculada a um tipo de estudo de caso, como vem fazendo. 8 A estratégia metodológica: visão geral e características Nos subitens a seguir faz-se a apresentação ordenada de procedimentos que expressariam a estratégia metodológica proposta e justificada até aqui. O objetivo da estratégia é tecer, entre atores envolvidos em um caso, uma interpretação desejavelmente consensuada de aspectos complementares dele, visando dar-lhe sentido geral; uma reconstrução do caso que emule diálogo objetivado pela condução de um pesquisador munido de conceitos pertinentes. Isso igualmente afasta essa estratégia metodológica tanto de um “grupo focal” quanto de uma série de entrevistas isoladas, feitas por um pesquisador em estudo de caso convencional. O trabalho conjunto dos participantes (inclusive o pesquisador) se volta, inseparavelmente, tanto para a interpretação substantiva do caso quanto para a identificação da cadeia de fatos que a justificariam. 8.1 Uma síntese dos procedimentos Eis uma descrição introdutória dos procedimentos metodológicos sugeridos, como prática da estratégia até aqui justificada. O pesquisador, depois de tomar contato com fatos inicialmente caracterizados como “um caso”, e de vê-lo sob aspecto relevante e de seu interesse, chega a uma pergunta geral de pesquisa do tipo: “O que poderia caracterizar sustentavelmente o/a (...) como um caso relevante no campo da (...)?” A resposta específica será o resultado de toda a pesquisa. Do caso que agora entra em estudo participaram personagens acessíveis que o conhecem bem e que têm capacidade de opinião, seja de que lado tenham estado. São convidadas algumas dessas pessoas – um número inferior a quatro traria análise muito pobre e superior a oito ou dez começaria a dificultar a operacionalidade – para participar, como “analistas de caso” (essa seria a denominação adotada), de uma série de três a provavelmente não mais de seis entrevistas curtas com cada um, sendo cada entrevista precedida do exame, pelo entrevistado, de breve texto preparado pelo pesquisador, que chamaremos aqui “texto intermediário”. O resultado das entrevistas é tratado pelo pesquisador com apoio em certos conceitos comuns ao campo da administração ou das ciências sociais, para os quais deve estar previamente preparado. Nas rodadas de entrevistas, o assunto é aprofundado por questões sucessivas que distinguem e sintetizam respostas anteriores dos entrevistados, justamente para apresentá-las de uns a outros e levar adiante a interpretação do conjunto. Os analistas de caso, que, antes de cada uma das breves entrevistas, lêem novo texto intermediário do pesquisador, têm oportunidade de pronunciar-se sobre interpretações, inclusive as do pesquisador, e fatos que viveram, e sobre os quais têm seu próprio feeling ou seu viés. Tudo avança rumo a um esclarecimento ou caracterização geral do caso. 10 O diálogo é imprevisível: pode gerar áreas de consenso ou evidenciar dissensos sustentáveis, que, enquanto tais, mostrarão algo real sobre o caso. Ao leitor, que afinal, ao apreciar o estudo resultante, de alguma forma, também se envolve no diálogo, não é negada uma espécie de “última palavra”. Afinal as ciências humanas são hermenêuticas: não levam à afirmação categórica sobre certa hipótese atribuível à natureza, mas argumentam sobre interpretação mais sustentável. 8.2 Elementos característicos do processo 8.2.1 O que precede. A narrativa grupal mediada, como em qualquer outro estudo de caso, é precedida por levantamentos iniciais que dêem certa organicidade aos fatos. É natural que o “caso” passe por vários estágios de formação ou mesmo metamorfoses. Inevitavelmente crescem juntos fato e interpretação, o que significa tanto a organização de fatos em torno de um problema ou temática de interesse, quanto a reformulação de problema ou temática em função do que os fatos comportam. A escolha de um campo de fatos, aliás, tem muito a ver com as facilidades de trabalho de campo para o pesquisador (contatos, acesso, informação anterior sobre o campo, etc.). 8.2.2 Os personagens-chave para a interpretação, e sua preparação. São esses levantamentos preliminares, que incluem entrevistas e acesso a documentos, que levam à identificação do grupo de participantes. Essas pessoas devem ter vivido os fatos, ter estado presentes em alguma das instituições diretamente envolvidas, ou, por algum título, poderem participar do círculo como indiretamente envolvidas. Elas serão relacionadas, em número não inferior a quatro, o que empobreceria o diálogo, nem normalmente superior a oito ou dez, o que dificultaria a operacionalização e prolongaria bastante o trabalho de campo. Contudo, as circunstâncias do caso e a disponibilidade do pesquisador são o critério final sobre esses quantitativos. Os participantes devem ser previamente contatados sobre seu interesse e disponibilidade para participar da seqüência de entrevistas. O método e seu objetivo, juntamente com um esboço do campo de fatos em estudo, devem ser objeto de pleno assentimento. Deve ficar claro que o método os coloca no status (e responsabilidade) de, enquanto grupo, promoverem uma re-leitura, uma narrativa, tanto pessoal quanto coletiva, de um caso, mesmo que um pesquisador lhes proponha um sentido-vetor inicial de interpretação. 8.2.3 O anonimato dos participantes. Nesse momento, o pesquisador já deverá ter decidido se é possível e indispensável manter o sigilo do nome de cada participante em relação aos demais. A natureza eventualmente polêmica ou conflituosa dos fatos, o estímulo à participação de alguém pela presença do nome de outrem na lista, diferenças hierárquicas e vinculações entre pessoas, e outros critérios, devem ser pesados pelo pesquisador para propor ao participante o anonimato no processo. Se adotado, o anonimato seria mantido rigorosamente, tanto nas entrevistas quanto fora delas, mesmo que, pelo teor das opiniões e posições recolhidas ao longo do processo, possa parecer evidente a algum participante a presença de alguém dele conhecido. 8.2.4 Os passos do esclarecimento do caso. Como já mencionado mais de uma vez, o processo se desenrola por uma série de rodadas sucessivas de entrevistas individuais. Uma mesma questão inicial, levantada pelo pesquisador sobre certos aspectos do caso, abrindo o campo, é posta para cada analista de caso na primeira rodada de entrevistas. Esta questão é fundamental porque, apesar de aberta e sugestiva, age como vetor de interpretação no diálogo que se segue, mesmo que aí se venha a discordar do enfoque adotado. As entrevistas subseqüentes são feitas em torno e a partir de perguntas formuladas pelo pesquisador – de 11 preferência uma pergunta a cada entrevista, mesmo admitindo sub-perguntas. Mas durante a entrevista é possível e até desejável que haja perguntas de esclarecimento ou detalhamento. Cada rodada é precedida por um texto intermediário de uma a duas páginas, não mais, distribuído possivelmente por mala eletrônica, todos já estando avisados da sistemática. O texto intermediário pode ser dividido em duas partes, algo como: “síntese da interpretação do caso até aqui” e “questão para a próxima entrevista”. O pesquisador, a cada passo (rodada), precisará basear-se objetivamente nas falas dos participantes – e demonstrá-lo no seu texto – para formular a questão do próximo passo. A intermediação do pesquisador, sintetizando e impulsionando ativamente o diálogo, visa construir e articular o significado do caso, com as posições dos analistas e com a sua, que é exposta, ela própria, em seguida, à apreciação deles. Não há número preciso de rodadas, mas só o objetivo de esclarecimento do caso, a alcançar. 8.2.5 A formulação das perguntas aos participantes, convoca tanto sua informação e seu feeling, quanto, inevitavelmente, sua interpretação particular (“O/a senhor/senhora acredita que... concordaria com uma interpretação que... diria que... Por que?”). Nessa formulação fica clara a função do pesquisador no diálogo. Ele conduz o diálogo interpretativo, mas não define seu caminho porque os participantes reagem à pergunta formulada. Podem ir além dela, inclusive sugerindo novo rumo da compreensão de aspectos do caso. 8.2.6 O texto resultante de todo o processo (relatório de pesquisa) pode reproduzir sinteticamente a seqüência do diálogo, rodada a rodada, e para ele já será subsídio, a cada uma delas, a análise das falas dos participantes, então feita, e a pergunta seguinte dali emergente. 8.2.7 O recurso complementar a outras fontes e documentos. Os participantes não podem ser tratados como fontes absolutas de referência a fatos. Imprecisões e mesmo conflitos de relatos devem levar o pesquisador, entre uma rodada e outra de entrevistas, a outros documentos ou mesmo entrevistas complementares com pessoas que podem dar testemunhos específicos. Os elementos colhidos nesses recursos, contudo, devem voltar ao processo, incorporados ao texto intermediário, na rodada seguinte de entrevistas. 8.2.8 Nem sempre um “final feliz”... É usual que os trabalhos científicos construam sempre conclusões, como uma espécie de “final feliz” em que tudo sempre acaba. O pesquisador coleta os dados, tem ascendência sobre eles e um método concebido e estruturado para produzir um conhecimento-conclusão. No entanto, quando divide o trabalho interpretativo com um grupo independente de pessoas, com convicções sobre sua experiência, é possível que a interpretação final surpreenda não sendo monolítica ou o caso se mostre ainda resistente à clareza, mesmo tendo o pesquisador trabalhado com competência. Mas a narrativa terá sido feita. Ter-se-á produzido com ela um significado que aponta para a complexidade. Não estará frustrada a aprendizagem com o caso: será parcial ou adiada, e pode estender-se além de seus limites esperados. 9 Conclusão: como o pesquisador deve ver essa estratégia metodológica Para uma concepção de ciência social, à moda das ciências naturais, como processo de descoberta de leis, formas de vida social e relações estáveis entre as pessoas, as estratégias metodológicas tendem a tornar-se formas exatas de o pesquisador proceder, simplesmente porque, de outra maneira, não chegará àquelas mesmas leis, formas de vida e relações, no caso em questão. Lamentavelmente, a metodologia se torna pouco a pouco uma tecnologia. 12 Contudo, as ciências poderiam também ser entendidas como, no fundo, uma literatura reflexiva (HABERMAS, 1990, p. 235-255), e as ciências humanas e sociais, especialmente, se mostram como um hermenêutica reflexiva (GIDDENS, 1982, p. 7-13). Afinal, não são elas tradições sociais que organizam e interpretam em narrativas fatos de sua própria vida, que refletem sobre si próprias? O autor de tais peças está sempre no palco. A despeito de todo o tratamento objetivo da narração – e o pesquisador tem linguagem própria em sua narrativa – a capacidade de envolvimento dele é recurso heurístico e metodológico que se impõe pela natureza da pesquisa. O pesquisador pode procurar, sim, a estabilidade ou regularidade dos comportamentos e das relações sociais, mas sem esquecer-se de que faz isso culturalmente, ou seja, com linguagem, crenças, interesses e padrões retransmitidos pela socialização, exatamente o estofo de que é feita a regularidade de seu objeto. Isso põe o limite da metodologia e a precedência do pesquisador sobre o método. Mantémno como o grande e constante criador de sua ciência. No fundo, o método tem que ser dele, e as regras do método só valem e funcionam se forem apoderadas por sua subjetividade. A prática da pesquisa que entendeu o método não está mais presa a ele. A estratégia metodológica em uso – e, agora esta estratégia de interpretação grupal mediada no estudo de caso – é apenas uma iniciação lógica de referência, uma sintaxe de trabalho que será usada com autonomia e diversidade, tal como a linguagem natural onde regras gramaticais não impedem a criação de infinitos significados. Assim, a estratégia metodológica sugerida neste artigo tem apenas caráter orientador. Procurou-se delinear uma maneira teoricamente sustentável e operacionalmente consistente – agora sob juízo do próprio leitor – de fazer pesquisa para produzir interpretação de um caso, construída racionalmente no diálogo entre um pesquisador e as pessoas que viveram os fatos e podem refletir sobre eles. A maneira real e final de proceder é decisão do pesquisador (sua, leitor), face à peculiaridade de seu caso e do campo teórico envolvido. Essa oportunidade e esse risco não lhe podem ser tirados. Mesmo que ele se sinta inicialmente um tanto preso aos detalhes sugeridos acima, sua experiência e seu critério lhe trarão depois liberdade de movimentos próprios. O autor deste artigo é também um pesquisador, articulou essa estratégia metodológica e certamente terá oportunidade de, ao vivê-la fora do domínio lingüístico em que agora o faz, acrescentar-lhe elementos, reposicioná-los e genuinamente criar na prática. É também por essa razão que este artigo, ao sugerir originalmente esses procedimentos, não deve ser usado por muito tempo, antes que seja enriquecido ou reformulado, em contribuição semelhante à deste texto, pela experiência dos que quiserem orientar-se por ele em seus estudos de caso sob enfoque de aprendizagem. Na auto-superação constante repousa a vitalidade da ciência. 13 Referências ASTLEY, Graham W. Administrative Science as socially constructed truth. Administrative Science Quarterly, n. 30, p. 497-513, 1985. AUSTIN, John L. Quando o dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre:Artes Médicas,1990. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. BENJAMIN, Walter. 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