UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA RENATA JOAQUIM CANDORIN APRENDIZAGEM DE CONCEITOS MATEMÁTICOS PELOS ALUNOS SURDOS CRICIÚMA (SC), FEVEREIRO 2007 1 RENATA JOAQUIM CANDORIN APRENDIZAGEM DE CONCEITOS MATEMÁTICOS PELOS ALUNOS SURDOS Monografia apresentada a Diretoria de PósGraduação do Curso de Pós-Graduação Especialização em Educação Matemática da Universidade do Extremo Sul Catarinense, para obtenção do grau de especialista em Educação Matemática. Orientadora: Profª. MSc. Albertina Serafim Daminelli. CRICIÚMA (SC), FEVEREIRO 2007 2 Dedico este trabalho ao meu esposo Jakson, minha filha Maria Luísa que por inúmeras vezes abdicaram de minha presença para que se tornasse possível à realização de mais uma etapa de minha vida. 3 AGRADECIMENTO A Deus, que sendo pai sublime, esteve ao meu lado em todas os momentos de minha vida. A minha família, que me apoiou compartilhado meus ideais e incentivando-me a prosseguir no decorrer desta jornada. A todos que de alguma maneira contribuíram para minha formação com gestos de amor e compreensão. A professora orientadora Albertina, que me auxiliou na orientação da pesquisa permitindo-me encontrar o melhor caminho. Muito obrigado a todos que diretamente ou indiretamente contribuíram com este trabalho. 4 “Para falar, não basta ter boca, é necessário ter um desejo para comunicar, pois todo o desejo pede, busca comunicação com o outro. Também todo o desejo é desejo do outro que me impede a desejar”. (Madalena Freire) 5 RESUMO A presente pesquisa envolve um estudo monográfico cujo tema é “Aprendizagem de conceitos matemáticos pelos alunos surdos” partindo da necessidade crescente de introduzir uma reflexão sobre o tema perante os profissionais atuantes na área da educação. Sabe-se que apesar de ser um direito assegurado por lei, a inclusão só acontecerá quando toda a comunidade aceitá-la. O mesmo trabalho teve como objetivo geral analisar como os professores de matemática estão possibilitando a apropriação de conceitos matemáticos pelos alunos surdos, buscando refletir sua inclusão e contribuir para a construção de uma escola capaz de promover igualdade de oportunidades para todos e que seja capaz de conviver com a diversidade humana. A pesquisa teve as seguintes questões norteadoras: Os professores conhecem as proposta pedagógica defendida pela escola em relação aos alunos com necessidades especiais, mais especificamente, os surdos? Qual a metodologia de ensino que os professores de matemática consideram mais eficaz para apropriação dos conceitos matemáticos pelos mesmos? Como os professores avaliam esses alunos? Os professores tiveram algum tipo de curso de capacitação para trabalhar com eles? A pesquisa desenvolveu-se em dois (02) momentos: primeiro procurou-se traçar os caminhos do referencial teórico fundamentados por vários autores como: nos livros de: Mazzotta (1982), Mantoan (1997), Sassaki (1997), Ribeiro (2001), Carrahe (1995), Carvalho (1998) entre outros; no segundo momento, buscou-se traçar a trajetória metodológica da pesquisa de campo, sendo que se realizou um estudo descritivo qualitativo em que por meio dos dados coletados em questionários e entrevistas com professores de matemática e interprete da Língua de Sinais (LIBRAS) procurou-se apresentar a realidade vivenciada em duas (02) escolas da rede estadual de ensino do município de Araranguá, SC. Palavras-Chave: Surdo, Educação, Inclusão, Conceitos Matemáticos, Necessidades Especiais. 6 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APAES – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais CENESP – Centro Nacional de Educação Especial CESB – Campanha para a Educação do Surdo Brasileiro CFE – Conselho Federal de Educação CORDE – Coordenadoria para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente FCEE – Fundação Catarinense de Educação Especial INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos INSM - Instituto Nacional dos Surdos-Mudos LDB – Lei de Diretrizes e Bases MEC – Ministério Nacional da Educação e Cultura SENEB – Secretaria Nacional de Educação Básica SESPE – Secretaria de Educação Especial SC – Santa Catarina PNE – Plano Nacional de Educação PNEE – Portador de Necessidade Educativa Especial PNEES – Portadores de Necessidades Educativas Especiais UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................08 2 CONTEXTUALIZANDO A EDUCAÇÃO ESPECIAL E O ATUAL CONCEITO DE INCLUSÃO ............................................................................................................11 2.1 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário mundial ....................................................................................................11 2.2 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário nacional ...................................................................................................13 2.3 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário estadual ...................................................................................................21 2.4 Atual conceito de inclusão ............................................................................22 3 ASPECTOS HISTÓRICOS, EDUCACIONAIS E FILOSÓFICOS DOS EDUCANDOS SURDOS ........................................................................................24 3.1 Aspectos históricos da surdez......................................................................24 3.2 Aspectos educacionais e filosóficos no Brasil............................................26 3.2.1 Concepção comunicação total ...................................................................27 3.2.2 Concepção oralista......................................................................................28 3.2.3 Concepção bilingüista ................................................................................29 4 A LINGUAGEM HUMANA E A SURDEZ............................................................31 5 OS ALUNOS SURDOS E A APRENDIZAGEM DOS CONCEITOS MATEMÁTICOS .....................................................................................................35 5.1 A abordagem sócio-histórica na educação do surdo .................................37 6 A TRAJETÓRIA METODOLÓGICA DA PESQUISA...........................................42 6.1 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados.....................43 6.1.1 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados nos questionários dirigidos aos professores (Apêndice 1) .....................................43 6.1.2 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados na entrevista realizada com o interprete de língua de sinais (LIBRAS)..................................50 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................53 REFERÊNCIAS ......................................................................................................56 APÊNDICES...........................................................................................................59 8 1 INTRODUÇÃO A sociedade delega à escola a importante tarefa de educar, formar valores éticos e desenvolver o conhecimento científico das crianças. Entretanto, observa-se que em muitas escolas estudam apenas as crianças que não possuem qualquer necessidade educativa especial, ou seja, crianças ditas normais. Muitas escolas deixam de matricular alunos portadores de deficiência por falta de espaço físico adequado para atendê-los e por falta de qualificação profissional, contribuindo assim, com a exclusão e com o alto índice do fracasso escolar. Sabe-se que muitos professores estão passando por algumas dificuldades no desenvolvimento dos conteúdos e dos conceitos para esses alunos, em especial, os professores de matemática, por não dominarem a linguagem de LIBRAS dificultando a mediação dos conceitos. Diante dessa realidade educacional escolheu-se o tema: “Aprendizagem de conceitos matemáticos pelos alunos surdos”, no qual pretende-se abordar esse assunto de forma que a inclusão seja uma realidade na escola como na sociedade de modo geral, possibilitando a construção de uma perspectiva inovadora e produtiva para que esses alunos apropriem-se dos conceitos matemáticos. Nesse sentido, levantou-se o problema: Como os professores estão promovendo atividades de ensino que possibilitem a apropriação de conceitos matemáticos aos alunos surdos? Considerando-se que a escola tem um papel fundamental na constituição do sujeito surdo e que, portanto deve oportunizar um espaço onde ele possa se apropriar, elaborar e (re) elaborar o conhecimento, possa participar ativamente, possa falar e ser escutado, enfim, não apenas um espaço em que ele possa estar presente. O objetivo geral desta pesquisa é analisar como os professores de matemática estão possibilitando a apropriação de conceitos matemáticos pelos alunos surdos, e para se alcançar esse objetivo delineou-se alguns objetivos específicos como: • Identificar quais são os métodos que melhor desenvolvem os conceitos matemáticos; • Compreender as dificuldades encontradas pelos professores em trabalhar com os conceitos matemáticos; 9 • Constatar como ocorre a apropriação do conhecimento pelos mesmos. A proposta inicial do tema idealizado por meio de um estudo monográfico tem base na necessidade crescente de introduzir a reflexão perante os profissionais atuantes na educação, mais precisamente na área da matemática, ressaltando a importância do processo de inclusão para que se obtenha aprendizagem significativa. Sabe-se que apesar de ser um direito assegurando em lei, a inclusão só acontecerá acontecer quando a comunidade aceitá-la. Por isso, torna-se fundamental que dirigentes e educadores sejam agentes modificadores da situação atual de segregação desses educandos. A pesquisa investigou aspectos que foram estruturados em forma de questionamentos e proposições. Esses aspectos que envolvem debates e discordâncias vão sendo modificados e aperfeiçoados no decorrer da pesquisa confrontando com a realidade. As questões norteadoras foram as seguintes: - Os professores conhecem as proposta pedagógica defendida pela escola em relação aos alunos com necessidades especiais, mais especificamente os surdos? - Qual a metodologia de ensino que os professores de matemática consideram mais eficaz para apropriação dos conceitos matemáticos pelos mesmos? - Como os professores avaliam esses alunos? - Os professores tiveram algum tipo de curso de capacitação para trabalhar com eles? Esta pesquisa caracterizou-se como descritiva com abordagem qualitativa, e como tal envolve a obtenção de dados descritivos obtidos no contado direto com os questionados. A população atingida neste estudo foram duas (02) escolas da rede estadual de educação situadas no município de Araranguá (SC), tendo uma amostra simples intencional de dois (02) professores de matemática, sendo um (01) de cada escola e um (01) interprete de Língua de Sinais. Os instrumentos utilizados nesta pesquisa foram questionários destinados aos professores de matemática e entrevista realizada com o interprete. Para apresentar este estudo o texto foi estruturado em cinco (05) 10 momentos. No primeiro momento, contextualizou-se a educação especial e o atual conceito de inclusão, seguidos de alguns sub-capítulos: • Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário mundial; • Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário nacional; • Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário estadual; • Atual conceito de inclusão. No segundo momento, abordou-se os aspectos históricos, educacionais e filosóficos dos educandos surdos, seguidos dos sub-capítulos: • Aspectos históricos da surdez; • Aspectos educacionais e filosóficos nom Brasil. No terceiro momento abordou-se a linguagem humana e a surdez. No quarto momento, abordou-se sobre os alunos surdos e a aprendizagem dos conceitos matemáticos, seguido do sub-capítulo: • A abordagem sócio-histórica na educação dos surdos. No último momento, tratou-se da trajetória metodológica da pesquisa; apontou-se a apresentação, a analise e a interpretação dos dados coletados, seguido das considerações finais, referências e apêndices. 11 2 CONTEXTUALIZANDO A EDUCAÇÃO ESPECIAL E O ATUAL CONCEITO DE INCLUSÃO Sendo a Educação Especial uma modalidade de educação escolar que reúne métodos e processos adequados para atender as diferenças e as necessidades especiais dos educandos, independente do nível e grau de comprometimento, aborda-se nesse capítulo alguns pressupostos históricos e legais da educação especial no cenário mundial, nacional e estadual, sendo destacado sempre a educação dos surdos. 2.1 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário mundial Na Antiguidade Clássica, não há dentro da literatura muitas referências quanto às pessoas surdas, mas sabe-se que em Esparta, na Grécia, as crianças portadoras de deficiências físicas ou mentais eram consideradas subumanas o que legitimava sua eliminação ou abandono. Durante a Idade Média, com a difusão do Cristianismo, esses sujeitos começam a escapar do abandono e da exposição e passam a ser acolhidos em conventos e/ou igrejas, onde convenientemente isolavam e escondiam o incômodo ou o inútil. Nessa época, com a Inquisição Religiosa sacrificaram-se milhares de pessoas, dentre elas: loucos, adivinhos, alucinados e deficientes mentais. Na Idade Moderna, surge o método científico, iniciando assim os estudos em torno das tipologias e com elas a mentalidade classificatória na concepção das deficiências. Mentalidade essa, impregnada de noções com forte caráter de doença, mediação, tratamento... A fatalidade hereditária ou congênita assume o lugar da danação divina, para efeito de prognóstico. A ineducabilidade ou irrecuperabilidade do idiota é o novo estigma, que vem substituir o sentido expiatório e propiciatório que a deficiência receberá durante as negras décadas que antecederam a medicina, também supersticiosa. O médico é o novo árbitro do destino do deficiente. Ele julga, ele salva, ele condena. (PESSOTTI, 1984, p. 68). Na Idade Contemporânea, as atitudes para com os portadores de 12 deficiência se modificam em decorrência das relações sociais estabelecidas se concretizando em novas oportunidades educacionais e de integração social desses indivíduos. Embora a fase clínica/assistencialista não possa ser considerada como passado, o presente vê crescer e fortalecer os ideais de ética contemporânea: integração, inclusão e direitos. Em 1994, dirigentes de mais de noventa países se reúnem na Espanha e assinam a Declaração de Salamanca, que é vista como o mais importante documento que garante os direitos educacionais. Ela proclama as escolas regulares inclusivas como meio mais eficaz de combater a discriminação e determina que as mesmas devam acolher a criança independentemente de sua condição física, intelectual, social, emocional ou lingüística. A Declaração de Salamanca (BRASIL, 1994) proclama no Art. 40: “a importância da participação das pessoas diferentes na definição do seu processo educacional. Adicionalmente, reconhece o direito dessas pessoas de realizar escolhas em relação a sua Educação”. Seguindo essas orientações, as pessoas surdas como membros da comunidade escolar, têm o direito de participar das decisões políticas a respeito do seu processo educacional. Normalmente, os profissionais do ensino traçam as competências e finalidades da escola sem considerar essas questões, nem as opiniões dos segmentos envolvidos no processo escolar. Isso acarreta desencontros, falta de perspectivas e distanciamento entre as práticas propostas pelos especialistas e as necessidades concretas dos surdos, mesmo quando se tenta fazer o melhor possível. Beneficiando-se (ou ajudando a promover?) de toda uma reavaliação dos direitos humanos, incluindo a criança, a mulher, o velho, o negro... a pessoa portadora de deficiência pode começar a ser olhada, e a olhar para si mesmo de forma menos maniqueísta: nem herói, nem vítima, nem Deus, nem demônio, nem melhor, nem pior, nem super-homem, nem animal. Pessoa. (AMARAL, 1994, p. 15). Diante do exposto, pode-se afirmar que a tendência mais atual de educação especial confere-lhe as condições de realizar a aprendizagem sóciocultural independentemente das condições, limitações ou dificuldades que o ser humano manifeste, sendo que o indivíduo passa a ser pensado pelas relações que ele mantém com outros sujeitos na sociedade. 13 2.2 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário nacional Após a Segunda Guerra Mundial, a Educação Especial brasileira distinguiu-se pela ampliação e proliferação de entidades privadas, ao lado do aumento da população atendida pela rede pública, que foi se configurando cada vez mais como uma ação em nível nacional, quer pela criação de federações estaduais e nacionais de entidades privadas, quer pelo surgimento dos primeiros serviços de Educação Especial nas Secretarias Estaduais de Educação e das Campanhas Nacionais de Educação de deficientes ligadas ao Ministério da Educação e Cultura. O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), foi fundado em 1956, pela Lei n° 3.198, de 6 de julho, sendo que aluno para entrar nesse instituto deveria ter mais de nove anos e menos de quatorze anos de idade e depois que o mesmo completasse dezoito anos, esse deveria deixar o instituto. Nesse instituto, era utilizada a língua de sinais. Nessa época, segundo Mazotta (1996), o atendimento nessa instituição era precário, pois eram atendidos apenas 17 surdos, sendo que, na época, havia no Brasil um contingente de 11.595 surdos. Esse instituto teve o mérito de realizar em 1883, o 1º Congresso de Instrução Pública que abriu a discussão da educação dos portadores de deficiência no país. Durante esse congresso, foram tratados temas como sugestão de currículo e formação de professores para surdos. No período de 1957 a 1993, destacam-se inicialmente as campanhas voltadas especificamente para os portadores de deficiência, patrocinadas pelo governo federal, no qual a primeira a ser instituída relacionada a pessoa surda foi a Campanha para a Educação do Surdo Brasileiro (CESB), pelo Decreto Federal n° 42.728, de 03 de dezembro de 1957, que tinha por finalidade promover, por todos os meios a seu alcance, as medidas necessárias à educação e assistência, no mais amplo sentido, em todo o Território Nacional (Decreto n° 42.728/57, art. 2°). Em 1971, Helena Antipoff reproduziu pelo país as Sociedades Pestalozzi, que se uniram entre si para a criação da Federação Nacional das Sociedades Pestalozzi do Brasil. Caminho semelhante ocorreu com as APAES, que iniciando-se com a fundação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Rio de Janeiro em 1954 multiplicando-se por todo território nacional até a criação da Federação 14 Nacional das APAES no início da década de 80. Sem dúvida essas iniciativas somadas às pressões de entidades públicas e filantrópicas como APAE e Pestallozzi foram essenciais para a inclusão de um capítulo sobre a educação de excepcionais na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961. No texto dessa lei assim se apresentam os dois artigos que tratam da educação de excepcionais no Brasil: Título X – Da Educação de Excepcionais: Art. 88° - A educação de excepcionais deve, no que for possível, enquadrarse no sistema geral de educação, a fim de integrá-los na comunidade. Art. 89° - Toda iniciativa privada considerada eficiente pelos conselhos estaduais de educação e relativa à educação de excepcionais receberá dos poderes públicos tratamento especial mediante bolsas de estudo, empréstimos e subvenções. Reafirmando esses direitos, a Lei nº 4.024/61, em seu art. 88, indica que para integrá-los na comunidade sua educação deverá dentro do possível, enquadrar-se no sistema geral de ensino. Pode-se inferir que o princípio básico aí implícito é o de que a educação dos excepcionais deve utilizar-se dos mesmos serviços educacionais organizados para o alunado em geral. Nessa linha de interpretação, estariam abrangidos pelo sistema geral de educação tanto os serviços educacionais comuns quanto os especiais. No entanto, o direito a educação e a obrigatoriedade escolar presente na LDB de 1961 ainda não é de caráter universal, pois, segundo o art. 30, em seu parágrafo único: “Constituem casos de isenção, além de outros previstos em lei: a) comprovado estado de pobreza do pai ou responsável; b) insuficiência de escolas; c) matrícula encerrada; d) doença ou anomalia grave da criança”. Na Emenda Constitucional n. º 12, de 17/10/1978, no Título IV, da Família, da Educação e da Cultura, os artigos 175, 176 e 177 estabelecem, respectivamente, que uma lei especial disporá sobre a educação de excepcionais; a educação é direito de todos e dever do Estado, devendo ser dada no lar e na escola; obrigatoriamente, cada sistema de ensino terá serviços de assistência educacional que assegurem aos alunos necessitados condições de eficiência escolar. Na Lei n° 5.692, de 11 de agosto de 1971, posteriormente alterada pela Lei nº 7.044, de 18 de outubro de 1982, que não modificou o artigo referente a educação especial, consta no Capítulo I - Do ensino de 1º e 2ºGraus: 15 Art. 9º - Os alunos que apresentam deficiências físicas ou mentais, os que se encontram em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação. Durante 25 anos a educação especial teve suas normas fixadas pelos Conselhos de Educação, que se inspiraram na Constituição vigente, no art. 9º da Lei nº 5.692/71 e nos pareceres do Conselho Federal de Educação (CFE). Nas diretrizes há um posicionamento que atribui um sentido clínico e/ou terapêutico à educação especial, na medida em que o atendimento educacional assume o caráter preventivo/corretivo. Conforme a Portaria Interministerial nº. 186/78, não há uma exigência de professor especializado para classes especiais, mas uma recomendação para que, “sempre que possível”, se empregassem esses profissionais. Após a aprovação da Lei nº 5.692/71, que previa tratamento especial aos excepcionais, começou a se desenvolver numerosas ações com vistas à implantação de novas diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2ºgraus. Na área de educação de excepcionais formou-se um Grupo-Tarefa de Educação Especial, constituído pela Portaria de 25 de maio de 1972, que elaborou o Projeto Prioritário nº. 35, incluído no Plano Setorial de Educação e Cultura 1972/1974. Fez parte do trabalho à vinda ao Brasil do especialista em educação especial, o norte-americano James Gallagher, responsável pelo Relatório de Planejamento para o Grupo-Tarefa de Educação Especial do Ministério da Educação e Cultura do Brasil, o qual apresentava propostas para a estruturação da educação especial. Em 3 de julho de 1973, o então Presidente Emílio Garrastazu Médici criou pelo Decreto n° 72.425, o Centro Nacional de Educação Especial (CENESP) para promover em todo o território nacional a expansão e melhoria do atendimento aos excepcionais. O CENESP foi substituído pela Secretaria de Educação Especial (SESPE) por meio do Decreto n° 93.613, de 21 de dezembro de 1986, passando a integrar a estrutura básica do Ministério da Educação e Cultura (MEC), como órgão central de direção superior em Brasília. Também em 1986, pelo Decreto n° 93.481, de 29 de outubro, o Presidente José Sarney instituiu, no Gabinete Civil da Presidência da República, a Coordenadoria para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE) como órgão com autonomia administrativa e financeira e com destinação de recursos 16 orçamentários específicos. O momento que legitima o atendimento educacional especializado no Brasil ocorre em 5 de outubro de 1988, quando é promulgada a Nova Carta Constitucional Brasileira, no Título VIII Da Ordem Social, Capítulo III da Educação, da Cultura e do Desporto, que em seu art. 208, inciso III, prevê o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. É importante registrar ainda, a Lei n. º 7.853, de 24 de outubro de 1989, que estabelece normas gerais para o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiências e sua efetiva integração social. Em seu art. 2º, estabelece que ao poder público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos. Na identificação e análise da legislação e das normas relativas a educação de portadores de deficiência, é importante não deixar de incluir o Estatuto da Criança e do Adolescente, estabelecido pela Lei n. º 8.069, de 13 de julho de 1990, que destaca em seus parágrafos 1º e 2º que “a criança e o adolescente portadores de deficiências receberão atendimento especializado” e que a eles será garantido o fornecimento gratuito de medicamentos, próteses e outros recursos para tratamento, habilitação ou reabilitação, além de confirmar em seu art. 54 que “é dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”. Em 15 de março de 1990, com a reestruturação do Ministério da Educação, a SESPE foi extinta e suas atribuições passaram a ser da Secretaria Nacional de Educação Básica (SENEB). No final de 1992, após o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello, procedeu-se a uma nova reorganização ministerial tendo sido recriada a Secretaria de Educação Especial (SEESP) como órgão específico do Ministério da Educação. Embora a Constituição Federal (1996) ressegure o direito de todos os portadores de deficiência a educação, com ênfase na integração/inclusão, não se pode dizer que esse objetivo tenha sido alcançado. Em seguida, é lançado o Plano Decenal de Educação para todos elaborado pelo Ministério da Educação em 1993, tendo como cerne o “imperativo de universalização com qualidade, aspiração maior da sociedade brasileira, com a conseqüente erradicação do analfabetismo”. O plano 17 inclui, de modo explícito, os portadores de deficiência como um dos segmentos da clientela escolar merecedores de “atenção especial nos esforços para o alcance da universalização com qualidade e eqüidade”. Finalmente, em 1994, consegue-se sistematizar e organizar em um único documento as ações e políticas voltadas à educação especial. Surge, assim, a Política Nacional de Educação Especial, entendida como: A ciência é a arte de estabelecer objetivos gerais e específicos, decorrentes da interpretação dos interesses, necessidades e aspirações de pessoas portadoras de deficiências, condutas típicas (problemas de conduta) e de altas habilidades (superdotadas), assim como de bem orientar todas as atividades que garantam a conquista e a manutenção de tais objetivos. (BRASIL, 1994, p. 34). Após oito anos de intensa discussão no Congresso Nacional, foi sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 20 de dezembro de 1996, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei n° 9.394. Merecem destaque os artigos 58, 59 e 60 que tratam da Educação Especial. A nova LDB reafirma a preferência do atendimento aos PNEEs (Portadores de Necessidades Educacionais Especiais) na rede regular de ensino, os deveres do Estado e da educação pública. Ressalta-se que a expressão “serviços de apoio especializado na escola regular” não visa ao atendimento exclusivo em classe especial ou classe comum, mas comporta intercâmbio entre o público e o privado através de projetos com apoio de órgãos nacionais e/ou internacionais, dificultando a ocorrência de práticas segregadoras e anti-segregadoras. De modo geral, segundo Ferreira (1998), a lei configura a perspectiva positiva de uma educação especial mais ligada à educação escolar e ao ensino público. Nesse sentido, o texto preserva os avanços contidos no projeto de lei da Câmara Federal. No artigo 58, caracteriza-se a educação especial como modalidade da educação escolar destinada aos educandos portadores de necessidades especiais. Prevê-se nos parágrafos 1º e 2º a existência de apoio especializado no ensino regular e de serviços especiais separados quando não for possível a integração. Destaca-se no mesmo artigo a oferta da Educação Especial já na educação infantil, área em que o atendimento educacional ao aluno com necessidades especiais é, ao mesmo tempo, tão escasso quanto importante. 18 Ainda com base em Ferreira (1998), o art. 59 aponta as providências ou apoios, de ordem escolar ou de assistência, que os sistemas de ensino deverão assegurar aos alunos considerados especiais. Aqui se combinam as idéias de flexibilidade e de articulação, seja na questão da terminalidade específica no ensino fundamental (para os portadores de deficiência) e na aceleração (para os considerados superdotados), seja na educação para o trabalho (a ser propiciada mediante articulação com os órgãos oficiais afins). Prevê ainda, no inciso III, a especialização adequada dos professores em nível médio ou superior para prestação de atendimento especializado, bem como a capacitação de professores do ensino regular para a integração do educando as classes comuns. No Brasil, em 1978, pela primeira vez a Constituição assegurou ao deficiente melhores condições sociais e econômicas, especialmente a educação especial gratuita. Na década de 80, importantes movimentos a favor dos direitos civis, provocaram iniciativas em torno da integração do portador de deficiência mental na sociedade. A Constituição Brasileira promulgada em 1988 garante atendimento educacional especializado aos deficientes, preferencialmente na rede regular de ensino e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) aprovado em 1990 reitera os direitos garantidos. Em 1996, no Brasil, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases nº 9.394), se ajusta a Legislação Federal e aponta que a educação das pessoas com necessidades educativas especiais deverá dar-se de preferência na rede regular de ensino. Atualmente, no Brasil, se está tentando efetivar em todos os espaços sociais o que foi assegurado constitucionalmente, como o atendimento especializado aos portadores de deficiência de preferência na rede regular de ensino, bem como a integração total desses na sociedade. No entanto, segundo Di Cunto (2000), a efetiva realização dos programas implica inúmeras ações, desde a identificação preventiva e precoce que atenda a todas as crianças, principalmente as denominadas de alto risco, passando por um acompanhamento adequado e especializado no que se refere a serviços especiais, identificação correta, ensino compatível com a necessidade do aluno, inclusão no mercado de trabalho etc. Ao se observar essas ações, ainda que previstas em vários documentos legais como a Constituição Federal, a Política Nacional de Educação Especial etc., 19 na prática, elas geram poucos resultados, pois se esbarram sempre em problemas de ordem política, financeira e social. Alguns deles, inclusive, são inerentes a própria Política Nacional de Educação Especial como, por exemplo, a insuficiência de ações organizadas, articuladas e coordenadas entre os diversos níveis de planejamento na esfera federal, estadual, municipal e particular, e entre as áreas de ação social (saúde, educação, previdência, trabalho e justiça); a escassez de recursos financeiros para programas de educação especial; as desigualdades nas oportunidades oferecidas em regiões, Estados, zonas urbanas e rurais, decorrentes do desequilíbrio geográfico, social e econômico. Visando minimizar essas situações, típicas de países subdesenvolvidos, o governo federal aprovou em 9 de janeiro de 2001, a Lei n. º 10.172, que dispõe sobre o Plano Nacional de Educação, em tramitação no Congresso Nacional desde fevereiro de 1998, e estabeleceu o período de uma década para que algumas metas sejam atingidas e outras superadas. A educação especial é considerada como uma modalidade de ensino e traz como diretriz a plena integração das pessoas com necessidades especiais em todas as áreas da sociedade. Trata-se, portanto, de duas questões: o direito a educação comum a todas as pessoas, e o direito de receber essa educação sempre que possível junto com as demais pessoas nas escolas regulares. O documento traz um diagnóstico da educação especial no Brasil hoje. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que 10% da população apresente algum tipo de necessidade especial. Isso significa que existem 15 milhões de brasileiros com necessidades especiais. Reconhece que 53,1% dos estabelecimentos que oferecem educação especial são da iniciativa privada, 31,3% são estaduais, 15,2% são municipais e 0,3% federais. Ou seja, legitima em dados oficiais que o atendimento particular, nele incluído e oferecido por entidades filantrópicas é responsável por quase metade de toda a educação especial no País, denunciando a insignificante atuação federal. O diagnóstico também deixa claro que apesar das marcantes discrepâncias regionais, as matrículas oficiais desse alunado não chegam a 300.000 em todo o País. O Plano Nacional de Educação apresenta como pressuposto fundamental para a inclusão desse alunado ao ensino regular a eliminação das barreiras arquitetônicas nas escolas e a adequação do material didático-pedagógico conforme as necessidades específicas dos alunos. Quanto à qualificação dos profissionais do 20 magistério, 73% dos que trabalham com alunos especiais possuem curso específico e 45,7% são formados em nível superior. No entanto, considerando a diretriz inclusiva, os demais docentes e profissionais do ensino regular necessitam ter conhecimento das necessidades educativas especiais desse novo alunado. As classes especiais ainda são uma realidade presente na educação das pessoas portadoras de necessidades especiais em nosso país, constituindo 38% do atendimento destinado aos portadores de necessidades especiais. Não há dados oficiais sobre esse alunado no ensino superior no Brasil. Segundo o próprio Plano Nacional de Educação, as tendências recentes dos sistemas de ensino são as seguintes: * Integração/inclusão do aluno com necessidades especiais no sistema regular de ensino e, se isso não for possível em função das necessidades do educando, realizar o atendimento em classes e escolas especializadas; * Ampliação do regulamento das escolas especiais para prestarem apoio e orientação aos programas de integração, além do atendimento específico; * Melhoria da qualificação dos professores do ensino fundamental para essa clientela; * Expansão da oferta dos cursos de formação/especialização pelas universidades e escolas normais. O Plano Nacional de Educação celebra ainda a articulação e a cooperação entre os setores de educação, saúde e assistência como fundamentais na potencialização da ação de cada um deles. Do mesmo modo, ratifica a política governamental em parceria com a sociedade civil, através de incentivos a instituições de natureza filantrópica como as que envolvem pais de crianças excepcionais. Longe de criticar o belíssimo trabalho que vem sendo historicamente desenvolvido pelas Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs) em todo o território brasileiro, é preciso que sejam criados mecanismos de fiscalização de algumas instituições que, sob a égide da filantropia, estão recebendo verbas públicas para projetos privados de interesse particular e escuso. Uma grande novidade do Plano Nacional de Educação (PNE) é a sugestão de se reservar uma parcela equivalente a 5 ou 6% dos recursos vinculados à manutenção e desenvolvimento do ensino especial na rede regular de ensino fundamental. 21 Em linhas gerais, o Plano Nacional de Educação traz como grande proposta a construção de uma escola inclusiva, aberta à diversidade dos alunos, na qual a participação da comunidade é fator essencial no século que desponta. 2.3 Pressupostos históricos e legais da educação especial e dos surdos no cenário estadual A história da educação especial em Santa Catarina não começa com a lei que instituiu a Fundação Catarinense de Educação Especial. O ano de 1954 constitui como um marco histórico, devidamente documentado, pela passagem em terras catarinenses de um técnico em educação do Ministério da Educação e Cultura a serviço do Instituto Nacional dos SurdosMudos - INSM - do Rio de Janeiro. Sua tarefa era a difusão das atividades e experiências daquele Instituto. Como resultado dessa visita, no ano de 1957, três professores que retornaram de um curso de três anos no INSM, realizaram levantamento do número de crianças deficientes da audição nos municípios de Florianópolis, Brusque e Blumenau. Convém ressaltar que já em 1955 era criada, por iniciativa da comunidade de Brusque, a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - APAE do Estado de Santa Catarina. A criação em 1957 da primeira classe especial na rede pública marcou oficialmente as iniciativas governamentais, culminando com a criação da Divisão de Ensino Especial da Secretaria da Educação em 1962. Enquanto isso, o movimento de APAES era concretizado pela da criação de serviços de atendimento às pessoas com deficiência em parceria com o poder público. O aprimoramento das técnicas e métodos de avaliação e atendimento, a qualidade dos serviços especializados, o prestígio dos profissionais junto a comunidade, o bom relacionamento político e outros fatores contribuíram imensamente para que uma nova idéia surgisse e viesse a concretizar-se como: a criação de uma instituição pública capaz de oferecer não apenas atendimento como também definir as diretrizes e funcionamento da educação especial em âmbito estadual, a capacitação de recursos humanos na área e a realização de estudos e pesquisas ligadas a prevenção e a assistência à integração da pessoa com deficiência. 22 Com esses ideais, foi criada em 6 de maio de 1968, a Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), através da Lei nº 4.156 e regulamentada através do Decreto nº 7.443 de 2 de dezembro do mesmo ano. A estrutura técnicoadministrativa inicial constituía-se por centros de atendimento que funcionavam fisicamente descentralizados compreendendo: Administração, Atendimento de Deficientes Mentais, Atendimento Clínico, Oficinas e Estimulação Precoce. Em nível técnico-pedagógico a FCEE, até meados dos anos 80, alcançou a condição de instituição modelo em educação especial no Brasil. A qualidade dos serviços oferecidos, o investimento na capacitação de recursos humanos, a dedicação dos profissionais atuantes, o fomento a pesquisa e desenvolvimento de recursos tecnológicos, os intercâmbios técnico-pedagógicos e outros fatores contribuíram para a consolidação e propagação do modelo. Nessa trajetória, a FCEE atinge a maturidade institucional. O que significa repensar ações, redefinirem propostas, investir profissionalmente, reatar relacionamentos, recriar vínculos capazes de dar o suporte necessário à continuidade dos serviços oferecidos à pessoa com deficiência, que foi fonte inspiradora de sua criação e na qual deve ousar continuar acreditando e investindo. 2.4 Atual conceito de inclusão Nos dias de hoje fala-se muito de inclusão, porém percebe-se que nem sempre a sua definição é clara e objetiva. Nesse sentido, a inclusão é um processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades educativas especiais e simultaneamente, essas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. O processo da inclusão vem sendo aplicado em cada sistema social, tornando assim uma sociedade inclusiva. Portanto, é imprescindível dominar bem os conceitos de inclusão para que todos os indivíduos passem a ser participantes ativos na construção de uma sociedade. Percebe-se que as definições de conceitos são fundamentais para o atendimento das práticas sociais. Eles moldam as ações e permitem analisar os programas, pois os conceitos acompanham a evolução de certos valores éticos, como aqueles em torno de pessoas com necessidades educativas especiais. Sassaky (1997, p. 41), conceitua: “a inclusão social como um processo 23 pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades educativas especiais e simultaneamente, essas se preparam para assumir seus papéis na sociedade”. Já Carvalho (1998, p. 170), quanto à inclusão afirma que: “pressupõe, conceitualmente, que todos, sem exceção, devem participar da vida acadêmica em escolas ditas comuns e nas classes ditas regulares onde deve ser desenvolvido um trabalho pedagógico que sirva a todos, indiscriminadamente”. A inclusão, portanto, é um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade por meio de pequenas e grandes transformações, nos ambientes físico e na mentalidade de todas as pessoas. Desse modo, pode-se afirmar que o objetivo da inclusão nas escolas é criar um mundo em que todas as pessoas se reconheçam e se apóiem mutuamente, e esse objetivo não é atingido por nenhuma falsa imagem da homogeneidade e muito menos pela simples colocação dos educandos na escola, pois é por meio da inclusão educacional da pessoa com necessidades educativas especiais que a educação passa por um processo de mudança e as novas tendências dizem que todos têm direito a escolarização. Para Skliar (1998, p. 46): A inclusão educacional das pessoas com necessidades educativas especiais é um processo que necessita ter profissionais envolvidos, a interação dos educadores do Ensino Especial com os educadores do Ensino Regular, visando à importância de planejar, discutir e avaliar o processo. A inclusão só poderá acontecer quando houver uma interação social, que forneça uma base de abordagem bastante relevante para a compreensão de que as deficiências corporais afetam antes de tudo, as relações sociais destes indivíduos e não suas interações diretas com ambiente físico. Nessa concepção, os processos psicológicos superiores têm sua origem em processos sociais e têm natureza social, numa visão de constituição mútua de fenômenos individuais e sociais. O processo de conhecimento implica entre sujeito e o objeto a ser conhecido, necessariamente, mediado por outro sujeito. Cabe ressaltar que a criança cujo desenvolvimento se complicou por alguma anomalia, não é sensivelmente menos desenvolvida do que as ditas normais, são somente uma criança com outro desenvolvimento. 24 3 ASPECTOS HISTÓRICOS, EDUCACIONAIS E FILOSÓFICOS DOS EDUCANDOS SURDOS Antes de abordar sobre os educandos surdos é de suma importância ressaltar alguns aspectos históricos, educacionais e filosóficos. 3.1 Aspectos históricos da surdez Nesta pesquisa, os aspectos históricos da surdez estão fundamentados essencialmente nas discussões sobre surdez realizadas pela autora Godfeld (1997). Ter conhecimento da história, bem como das filosofias e abordagens educacionais na área da surdez é fundamental para compreender o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e emocional das pessoas surdas. Nesse sentido, pode-se verificar que em épocas remotas o conceito que a sociedade tinha sobre o surdo estava relacionado principalmente a aspectos negativos, como por exemplo, a idéia de um ser primitivo ou inferior que alimentava a crença da impossibilidade de educação que persistiu até o século XV. A partir do século XVI surgem os primeiros professores de surdos que, como nos dias atuais, desenvolveram diferentes metodologias de ensino. Alguns se baseavam apenas na língua oral, enquanto outros pesquisavam e defendiam a Língua de Sinais. Teve ainda os que criaram códigos visuais que não configuram como uma língua, mas serviam para facilitar a comunicação com os surdos. Na Espanha, em 1620, o monge Pedro Ponce criou uma escola de professores de surdos e deu origem a uma metodologia educacional que abordava a datilogia (representação manual das letras do alfabeto), escrita e oralização. Já em 1750, na França, Abade Michel de L’Epée aprendeu a Língua de Sinais com surdos e desenvolveu os “Sinais Metódicos”, uma combinação da Língua de Sinais com a gramática sinalizada francesa, e teve um grande êxito na educação dos surdos. Em poucos anos (1771 a 1785) sua escola passou a atender setenta e cinco surdos. Nesse mesmo período, no ano de 1750, surgem na Alemanha as primeiras noções do Oralismo baseadas nas idéias de Samuel Heinick que criou a primeira escola pública Oralista com nove (09) alunos. 25 Após compararem as metodologias Gestualista de L’Epée e Oralista de Heinick, a comunidade científica considerou os argumentos de L’Epée mais convincentes e, com isso, foram negados a Heinick os recursos necessários para a ampliação de seu Instituto Oralista. O século XVIII é considerado, tanto no sentido quantitativo quanto no qualitativo, a época mais significativa da educação dos surdos. Foram acentuadas as pesquisas, as discussões e as práticas educativas Oralista e Gestualista. Em 1815, o professor americano Thomas Gallaudet seguiu para a Europa interessando-se pelo método manual e retornando ao seu país acompanhado de Laurent Clerc, um dos melhores alunos do Francês Abade L’Epee. Assim, influenciado pela abordagem Gestualista, Gallaudet fundou nos Estados Unidos (EUA) a primeira escola permanente para surdos onde nasceria a metodologia que, mais tarde, será usada como Filosofia da Comunicação Total. Ampliando suas ações, Gallaudet criou em 1864, a primeira universidade para surdos, a Universidade Gallaudet. É interessante perceber que ao mesmo tempo em que a Língua de Sinais ganha força pelo mundo, como uma importante estratégia para a educação dos surdos, ela vai influenciando a idéia de institucionalização segregadora. A partir de 1860 o método oral começa a ganhar força amparado principalmente pelos avanços tecnológicos. Entre os defensores do oralismo destaca-se Alexander Grahan Bell, que teve grande influência no resultado da votação no Congresso Internacional de Educadores Surdos, realizado em Milão no ano de 1980. Nesse congresso, discutiu-se qual o método era o mais apropriado para a educação dos surdos. O oralismo foi o método vencedor e a Língua de Sinais foi oficialmente proibida, embora não deixasse de ser utilizada pelos surdos entre si. A partir da publicação de William Stokoe, na década de sessenta, sobre a linguagem de sinais surgiram novas pesquisas sobre a discussão que contribuíram para que o Oralismo perdesse a sua supremacia mundial. Nessa mesma época, Doroty Schfflet, professora e mãe de surdo, desenvolveram um método de Abordagem total que em 1960 foi denominado por Roy Holcom como Total Communication, que deu origem à filosofia da Comunicação Total (filosofia que utiliza todos os meios possíveis de comunicação na educação dos surdos, acreditando que é a comunicação e não a língua que deve ser privilegiada). A partir da década de setenta, estudiosos de alguns países observaram 26 que a Língua de Sinais deveria ser utilizada em algumas situações e a língua oral em outras de forma independente, para que o surdo pudesse de fato internalizar e se constituir por uma língua. Esta noção deu origem a filosofia Bilíngüe que recebeu e permanece recebendo muitos adeptos. 3.2 Aspectos educacionais e filosóficos no Brasil Em 1855, chegou no Brasil Ernest Hurt, professor francês com problemas auditivos, que iniciou um trabalho de educação de duas crianças surdas e logo após, em 26 de setembro de 1857, fundou na cidade do Rio de Janeiro a primeira escola para surdos, o atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). É importante destacar que é nesse período, como já foi citado anteriormente, que o Oralismo começa a ser privilegiado e a Língua de Sinais a ser proibida no processo educacional dos Surdos. Dessa forma, o INES que utilizava a Língua de Sinais começou a seguir a partir de 1911 a tendência mundial Oralista, muito embora a língua de sinais permanecesse em sala de aula até o ano de 1957 quando foi definitivamente proibida em sala de aula pela diretora Ana Rímola de Faria Doria. Após a visita da educadora de surdos Ivete Vasconcellos da Universidade de Gallaudet, na década de setenta, é introduzida no Brasil a Filosofia da Comunicação Total. A partir de 1980, através da pesquisa da professora Lucinda Ferreira Brito sobre a Língua de Sinais, começa a ser discutido no Brasil o Bilingüismo1, uma abordagem que vai privilegiar a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) como a Língua Oficial do Surdo e a Língua Oral ou Escrita como línguas secundarias que devem ser aprendidas separadamente a partir das LIBRAS. Atualmente, o Oralismo, a Filosofia da Comunicação Total e o Bilingüismo evoluíram de forma significativa e permanece fundamentado nas práticas educacionais com surdos no Brasil. No entanto, o Bilingüismo recebe um destaque maior entre os profissionais da área. Existem atualmente três concepções para a educação dos surdos: o Oralismo (a abordagem que privilegia o desenvolvimento da linguagem oral no 1 Bilingüismo: que tem ou fala duas línguas 27 processo de educação); a Comunicação Total (filosofia que acredita que se deve priorizar todos os recursos possíveis para facilitar a comunicação e educação do surdo, defendendo a utilização da língua oral e da língua sinalizada simultaneamente); e o Bilingüismo( que defende a Língua de Sinais como a língua natural do surdo e, portanto, a primeira língua que deve ser estruturada e sistematizada no processo educacional, sendo a língua oral ou escrita a segunda língua a ser aprendida). 3.2.1 Concepção comunicação total A Filosofia da Comunicação Total tem como principal preocupação os processos comunicativos entre surdos e entre surdos e ouvintes. Ela se preocupa com a aprendizagem da língua oral pelo surdo, mas acredita que os aspectos cognitivos, emocionais e sociais não devem ser negligenciados por causa do aprendizado exclusivo da língua oral. Essa filosofia de Comunicação Total defende a utilização de todos os recursos gestuais e visuais para facilitar a comunicação e a educação tais como: a Língua de Sinais, a linguagem oral, os códigos manuais, a escrita, entre outros. Os professores que seguem a Comunicação Total interpretam o surdo de forma diferente dos oralistas, com efeito, ele não é visto apenas como um portador de uma deficiência que deve ser eliminada, mas como uma pessoa, onde a surdez é uma característica que marca a sua constituição enquanto ser individual e social, que marca o seu desenvolvimento afetivo e cognitivo. (CICCONE, 1990, p. 65). A Comunicação Total acredita que somente o aprendizado da língua oral não assegura o pleno desenvolvimento do surdo, opondo-se ao oralismo. A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é uma língua viso-gestual, que diferente do que a maioria das pessoas pensam, não é um conjunto segmentado de sinais, mas uma língua como qualquer outra, formada por aspectos morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos bem estruturados e que é aprendida naturalmente pelo surdo. (BRITO, 1993, p.14). Essa oposição não ocorre, pois se considera que uma criança surda apresenta limitações na aquisição da linguagem oral quando esta é a única linguagem utilizada pelos ouvintes (professor e alunos), gerando assim dificuldades 28 na comunicação entre elas. Portanto, torna-se decisivo para os alunos surdos a introdução de uma linguagem de sinais para facilitar a comunicação. 3.2.2 Concepção oralista A concepção Oralista pressupõe que a língua oral seja o instrumento que proporcione condições para a integração social do surdo, uma vez que é o meio de comunicação mais utilizado. Evidentemente, tal pressuposição merece ser respeitada, muito embora a noção de que para viver em uma sociedade de ouvintes seja preciso aprender a falar e que falar é emitir sons/palavras. Sabe-se que a comunicação não acontece apenas pelo ato de falar, mas pelo desejo de dizer algo a alguém, contexto envolvido na comunicação, ou seja, aspectos extralinguísticos2 (voz, olhar, expressão facial, gesto), espaço físico, conhecimento mútuo do que está sendo dito, e por outras questões de ordem pragmática e discursiva. A idéia de que os sinais prejudicam a aprendizagem da língua oral é inadequada ao menos no processo de aquisição da linguagem do ouvinte, uma vez que o gesto e o movimento estão presentes durante todo o desenvolvimento da pessoa. Aprender a língua da comunidade ouvinte, ou seja, comunicar-se pela fala deve sem dúvida favorecer a inclusão social. No entanto, não significa que outras línguas e meios de comunicação não possam auxiliar tanto no processo de aprendizagem da fala quanto o processo de inclusão social, diminuindo as barreiras e as desvantagens. A partir da década de 70, a mobilização pública ocorrida no Brasil a favor da integração educacional das pessoas com necessidades especiais favoreceu a concepção Oralista.O modelo de caráter fundamentalmente homogêneo trabalha com a utilização de aparelho de amplificação sonora (AASI), o treinamento da leitura labial e a estimulação/educação auditiva residual e da fala. Nesse sentido, integrar o indivíduo surdo significa torná-lo usuário de uma língua oral. Entretanto, segundo Goldfeld é preciso considerar alguns aspectos extremamente relevantes como: o surdo não adquire a linguagem oral naturalmente como o sujeito ouvinte; e a deficiência da linguagem oral provocada pela não 2 Extralingüístico: fora do estudo das línguas. 29 audição atrapalha em outras áreas como afetividade, a cognição e a socialização. O modelo Oralista se constitui historicamente no Brasil. Ele foi motivado pelos ideais de justiça e igualdade sustentados com a Revolução Francesa, reiterando os ideais liberais (igualdade, liberdade e fraternidade) que circulavam no mundo ocidental. Essa idéia possibilitou e incentivou formas novas e rígidas para o estabelecimento da nova ordem social, todos são iguais. Na verdade, essa busca em fazer do surdo um falante semelhante ao ouvinte vem ao encontro de um desejo da sociedade e da própria família, sempre buscando a homogeneização para que a ciência e a tecnologia descubram a cura para todos os problemas sociais. Assim, a participação do surdo nas decisões sociais e a sua autonomia se defrontam com os valores e os conceitos impostos pelo grupo dito normal, ou seja, neste caso pelos ouvintes-falantes. Deve-se considerar que o próprio surdo se transforma por essa ação social, permitindo-lhe permite ser e vir a ser, tornando-o um sujeito transformador de sua própria realidade e agente de reorganização extragrupal interferindo na modificação do que lhe tolhe. Construindo sua identidade como falante (não da oralidade, mas de uma língua), capaz de agir, se transformar o meio em que vive, este sujeito, que carregava o emblema de não falar e de não poder, pode ser ‘resignificado’ pelos ouvintes e por si mesmo e poder batalhar pelo seu direito e de todos nós: a cidadania. (MOURA, 1993, p. 45). 3.2.3 Concepção bilingüista Os estudos e as pesquisas sobre a Língua de Sinais na educação do surdo, principalmente a partir da década de 80, possibilitaram críticas a Filosofia da Comunicação Total e, sobretudo, ao Oralismo. Esses estudos auxiliaram na reconstrução do ‘status’ da Língua de Sinais e permitiram o desenvolvimento da Concepção Bilingüista que vem sendo indicada como um importante fato na área da educação do surdo, valorizando o individuo e a sua cultura. A Língua de Sinais não se restringe a ser um mero instrumento lingüístico de apoio à comunicação como na Comunicação Total. Vista como a língua natural do surdo, ela se torna um instrumento de constituição do mesmo, de cultura e de meio para o desenvolvimento cognitivo e social desse. No Bilingüismo, é a partir da sistematização e do uso da Língua de Sinais como uma forma de comunicação e constituição humana que o surdo poderá 30 aprender de forma significativa outras formas de linguagem como a fala e a escrita. Dessa forma, o Bilingüismo pressupõe a aprendizagem de forma sistematizada, separada da Língua de Sinais, fala ou escrita. A preparação escolar do educando surdo para o mercado de trabalho será plena se ocorrer fundamentada numa concepção de inclusão, para tanto a escola deve considerá-lo um ser social, capaz e produtivo. A prática da preparação do aluno portador de deficiência para o mercado de trabalho beneficia-se das vantagens da filosofia da inclusão, ao trabalhar simultaneamente, como o aluno (que vai ser preparado), com os recursos humanos, materiais e físicos da própria escola (que de modifica e se aprimora em seu papel) e com a comunidade que vai ser ajudada a se tornar mais receptiva e mais acessível ao futuro trabalhador com deficiência. (SASSAKI, 1997, p. 8). Sendo assim, cabe a escola repensar suas funções sociais e políticas para que possa garantir não somente aos surdos, mas por todos que por ela passar a formação do cidadão participativo, responsável, crítico e criativo. Nesse sentido, a escola deverá atender a todos sem discriminação, respeitando e valorizando as diferenças, possibilitando que se apropriem do conhecimento, que interajam e compartilhem da cultura. É neste contexto, de uma escola inclusiva e capaz de formar pessoas para viverem a diversidade, que a formação do surdo para o mercado de trabalho deve ser repensada, pois a interação social, esta fundamentada no esforço de inserir na sociedade pessoas com deficiências que alcançarão um nível de competência compatível com os padrões sociais vigentes. Sob a ótica dos dias de hoje, Sassaki (1997, p. 81) afirma que: 3 A interação constitui um esforço unilateral tão somente da pessoa com deficiência e seus aliados (a família, a instituição especializada e algumas pessoas da comunidade que abracem a causa da inserção social), sendo que esses tentam torná-la mais aceitável no seio da sociedade. A integração tem o mérito de inserir o sujeito com deficiência na sociedade, mas desde que ele esteja de alguma forma capacitado a superar as barreiras físicas, programáticas e atitudinais4 nele existentes. 3 4 Unilateral: situado de um lado só. Atitudinais: proveniente de atitudes. 31 4 A LINGUAGEM HUMANA E A SURDEZ Se nos indagarmos sobre a importância da linguagem, veremos que a mesma cumpre várias funções pessoais e sociais. Ela permite o melhor conhecimento do próprio sujeito, possibilita a exteriorização e a organização do pensamento, e atua como elemento estimulador das interações sociais, entre outras. [...] Tem se discutido muito sobre as funções essenciais da linguagem humana e a hierarquia natural que há entre elas. É fácil observar, por exemplo, que é pela posse e pelo uso da linguagem, falando oralmente ao próximo ou mentalmente a nós mesmos, que conseguimos organizar o nosso pensamento e torná-lo articulador, concatenado e nítido, é assim que, nas crianças, á partir do momento em que rigorosamente, adquirem o manejo da língua dos adultos e deixam para trás o balbucio e a expressão fragmentada e difusa, surge um novo e repentino vigor de raciocínio, que não só decorre do desenvolvimento do cérebro, mas também da circunstância de que o indivíduo dispõe agora da língua materna a serviço de todo o seu trabalho de atividade mental. Observa-se ainda que por outro lado, que é quase exclusivamente pela linguagem que nos comunicamos uns com os outros na vida social. Pode-se dizer que a sociedade humana, em confronto com os aspectos rudimentares das colônias dos animais gregárias é, na sua tremenda complexibilidade, uma conseqüência da posse da linguagem. (BRASIL, 1996, p. 12-13). A perspectiva sócio histórica de linguagem, influenciada pelos trabalhos de Vygotsky, permitiu a ruptura da dicotomia significante/significado, porque o som separado do significado perde as propriedades específicas que o convertem em som exclusivo da linguagem humana, distinguindo-o dos demais sons existentes na natureza. Por sua vez, o significado separado do aspecto sonoro da palavra converte-se em representação, em ato de pensamento que estudado isoladamente como um conceito se desenvolve e vive independente de seu portador material. Segundo Vygotsky (1991), a linguagem deve ser tomada como uma unidade indivisível que possui estreita relação com o pensamento, mas não é apenas uma forma de comunicação do mesmo. Ela é uma função mental superior que age de forma reguladora das demais funções mentais inferiores. Para ele, o que importa é o uso funcional de signos de quaisquer tipos que possam exercer papel correspondente ao da fala. Desse modo, a linguagem não depende necessariamente do som. Assim, dentro de uma visão sócio-histórica, a linguagem é interpretada no âmbito da interação. Ela deixa de ser mera atividade neurofisiológica para ser 32 atividade social e de ser apenas um meio de comunicação para ser elemento constitutivo do sujeito. Portanto, deve-se trabalhar com o surdo a linguagem significativa, uma vez que essa lhe proporcionara um melhor desenvolvimento intelectual e o fará ser melhor compreendido. [...] Criticava métodos mecânicos, artificiais e penosos, utilizados com crianças para o desenvolvimento da fala. Considerava cruéis os método que proibiam a única maneira que o surdo tinha para se comunicar, fazendo com que ele fosse submetido a treinamentos para a articulação da fala que acabavam inibindo o desenvolvimento intelectual. [...] O uso de múltiplos recursos para a aprendizagem da fala e salienta a importância da ‘mímica’ e da linguagem escrita, indicando a necessidade de se dar atenção aos modos de coordenar essas várias experiências em diferentes momentos do desenvolvimento. A mímica não é um inimigo, mas um aliado dos esforços educativos que visam a dar acesso à linguagem falada e aos conhecimentos sistematizados. O caminho para a educação do surdo é o da poliglossia. VYGOTSKY apud GÓES, 1996, p.35-36). A partir do redimensionamento da linguagem na perspectiva sóciohistórica, conforme citado anteriormente, o velho dilema da surdez (o problema da linguagem e da comunicação) passa a ser repensado. Nas palavras de Vygotsky (1988), o desenvolvimento da linguagem é decorrente da interação do adulto e da criança. É por meio da “negociação” com outra pessoa que se adquire a linguagem. Para Vygotsky (1991), a surdez é a deficiência que causa maiores danos para o indivíduo por atingir exatamente a função que diferencia o homem do animal, ou seja, a linguagem. Como afirma Luria (apud, GOLDFELD, 1997, p. 78): “é a linguagem que permite o salto sensorial que rege a vida humana através das leis sócio-históricas”. Na verdade, a grande dificuldade dos surdos em relação a comunicação está associada ao fato das línguas serem exclusivamente auditivo-orais. O ideal é que a criança surda adquira a linguagem da mesma forma que as ouvintes, seguindo os mesmos processos. Nesse sentido a educação escolar é um ambiente adequado para a estimulação da linguagem como meio de integração. Na perspectiva acima, a educação escolar não fica a espera do desenvolvimento intelectual da criança. Sua função é levar o educando adiante, pois quanto mais ele aprende, mais se desenvolve mentalmente. O objetivo é ampliar o universo de interações e de expressões do aluno para facilitar a apropriação do 33 conhecimento. A vida social deve ser entendida pela escola como um processo muito mais complexo do que simplesmente a coordenação de operações individuais. Nesse sentido, a visão sócio-histórica se opõe a visão da escola tradicional, na medida em que valoriza as relações entre indivíduo e sociedade, sujeito e objetos, organismos e meio. É comum encontrar famílias esperando que a escola resolva tudo para seu filho surdo, que assuma todas as responsabilidades como também encontrar escolas que desejam que o surdo já venha alfabetizado de casa, que acreditam que a sua função é apenas servir como local para socialização do surdo. Essa postura de omissão e de projetar responsabilidades ou culpas acaba tornando-se frustrante e pouco colabora para a escolarização e inclusão do surdo. Para o desenvolvimento do surdo é indispensável que se forme uma relação ajustada, coesa, de esforço conjunto, de parceria. Os pais precisam manter contato com a escola e com os profissionais que atuam com seus filhos para poderem discutir sobre as estratégias e os recursos mais adequados para que eles possam ser respeitados e melhor compreendidos pela comunidade escolar. Em contrapartida, no trabalho com os pais, não basta à escola orientar apenas sobre a melhor forma de estimular a audição do surdo, é preciso criar as condições para que a família possa manifestar suas preocupações, anseios, suas verdades, seus medos, suas dúvidas, suas angústias, enfim, criar condições para que por meio do diálogo, a adaptação e a inclusão sejam construídas e aperfeiçoadas. A educação de um filho surdo, que foge aos padrões de normalidade préestabelecidos pela sociedade, não é tarefa simples, pois requer em primeiro lugar aceitar a condição da surdez, e em segundo compreender de forma crítica as necessidades e as dificuldades do surdo evitando a segregação e promovendo a autonomia. Nesse sentido, Carvalho (1998) destaca que o que importa para o processo de escolarização do surdo é proporcionar condições para a apropriação do acervo cultural produzido pela humanidade, o desenvolvimento de seu potencial e da sua formação integral como sujeito, o exercício efetivo de sua cidadania. Para que o aluno surdo atinja esse potencial é indispensável, que seja garantido seu código lingüístico, a língua de sinais, tão importante para o surdo quanto a língua 34 oral para os ouvintes. 35 5 OS ALUNOS SURDOS E A APRENDIZAGEM DOS CONCEITOS MATEMÁTICOS O ensino de Matemática costuma provocar duas sensações contraditórias tanto por parte de quem ensina como por parte de quem aprende. De um lado, existe a constatação de que se trata de uma área de conhecimento importante; de outro, a insatisfação diante dos resultados negativos obtidos com muita freqüência em relação a sua aprendizagem. Durante muito tempo a Matemática foi vista somente como uma ciência exata cujo ensino e aprendizagem ocorria por meio da memorização e repetição mecânica de exercícios de fixação, regras e “macetes”. Segundo Frant (1994), há professores que ainda utilizam o método tradicional acima, enquanto que outros procuram modificá-lo, dando mais ênfase para a participação e aprendizagem do educando, porque vê a matemática como conhecimento vivo que permite ao aluno produzir significados, estabelecer relações, justificar, analisar e criar. Diante do exposto questiona-se: Como o professor deve trabalhar os conceitos matemáticos com alunos surdos? Considerando-se que no ensino da Matemática requer que o professor tenha uma didática mais adequada já com os alunos ditos normais, uma vez que a maneira como esse aprende não coincide de imediato com a forma como aquele ensina ocorrendo desencontro entre eles, o que dizer então da didática a ser utilizada com os surdos? Nessa perspectiva, o professor deverá ser o mediador dos conhecimentos adquiridos pelos alunos, conhecer a forma como esse raciocina e resolve determinadas situações e principalmente saber utilizar os códigos lingüísticos dos surdos rompendo assim, as barreiras entre o conhecimento matemático, o professor e o aluno surdo. De acordo com Skliar (1998, p. 27): “a língua de sinais deve estar ao alcance de todos os surdos, ela deve ser o princípio de uma política lingüística a partir da qual se pode sustentar um projeto educacional, visando a aprendizagem dos alunos sejam eles surdos ou não”. Tendo em vista que a aprendizagem da Matemática refere-se a um 36 conjunto de conceitos e procedimentos que comportam métodos de investigação, raciocínio, formas de representação e comunicação. Como ciência, a Matemática, engloba um amplo campo de ralações, regularidades e coerências, despertando a curiosidade e instigando a capacidade de generalizar, projetar, prever e abstrair. O desenvolvimento desses procedimentos amplia os meios para compreender o mundo que nos cerca, tanto em situações mais próximas, presentes na vida cotidiana, como naquelas de caráter mais geral. Por outro lado, a Matemática também é a base para a construção de conhecimentos relacionados às outras áreas do currículo, ela está presente nas Ciências Exatas, nas Ciências Naturais e Sociais, nas variadas formas de Comunicação e Expressão. (RIBEIRO, 2001, p. 99). Nesse sentido, saber Matemática torna-se cada vez mais necessário no mundo atual, em que se generalizam tecnologias e meios de informação, baseados em dados quantitativos e espaciais em diferentes representações. Também a complexidade do mundo do trabalho exige da escola, cada vez mais, a formação de pessoas que saibam fazer perguntas, que assimilem rapidamente informações e resolvam problemas utilizando processos de pensamento cada vez mais elaborados. Como acontece com outras aprendizagens, o ponto de partida para a aquisição dos conteúdos matemáticos deve ser os conhecimentos prévios dos educandos. Ressalva-se aqui a importância do contado que a criança surda deve ter com a língua de sinais desde a mais tenra idade, possibilitando assim que essa construa seus conhecimentos que no momento de entrar para a escola poderá ser utilizado pelo professor como conhecimento prévio. No início da escolaridade, é importante enfatizar o caráter instrumental das noções matemáticas, tomando-o como fio condutor da aprendizagem. Assim, as transmissões de informações e a exercitação de técnicas não devem ocupar o espaço das atividades de resolução de problemas. Outro fator de suma importância no desenvolvimento da aprendizagem de conceitos matemáticos pelo aluno surdo refere-se a mediação que segundo Ribeiro (2001, p. 100): “a mediação entre o conhecimento informal dos alunos e o conhecimento sistematizado ou escolar pode ser amplamente facilitada pela intervenção do professor”. Sabe-se que nessa mediação, a comunicação desempenha um papel fundamental que auxilia os alunos a construírem os vínculos entre as noções informais e intuitivas e a linguagem abstrata e simbólica da Matemática. 37 A estabeleçam mediação conexões também entre desempenha as idéias uma função-chave matemáticas e suas para que diferentes representações: verbais, materiais, pictóricas, simbólicas e mentais. 5.1 A abordagem sócio-histórica na educação do surdo O teórico Lev Vygotsky construiu o conceito de mediação, em sua obra defende que o ser humano é o resultado da interação com o meio em que vive. Portanto, para potencializar o desenvolvimento de uma criança, é preciso que ela se relacione com outras pessoas. Em sua teoria Vygotsky esclarece o desenvolvimento das funções superiores da criança (pensamento, linguagem, consciência, vontade), tendo como fundamento que tal processo somente ocorre a partir das interações sociais do sujeito com sua cultura. Sendo que tais interações sociais são sempre mediadas, isto é, ocorrem por meio de um elemento intermediário, torna-se fundamental o estudo dos principais elementos mediadores (instrumentos e signos), e de que forma atuam no processo de constituição do pensamento da criança. Segundo Vygotsky (1896-1934), é por meio do convívio com o outro que o homem se constitui. “Se alguém cresce isolado da sociedade, não desenvolve características básicas do ser humano”, (apud REGO, 1998, p. 45). Com base nisso, ratifica-se a idéia de que as crianças precisam se relacionar não apenas com seus pares. Nessa abordagem, o indivíduo é concebido como um ser social, em que o seu funcionamento psicológico ocorre de acordo com as relações sociais que esse estabelece com seu mundo exterior. É importante destacar que essas relações se desenvolvem por meio de um processo histórico mediadas pela linguagem (principal sistema simbólico do ser humano). A relação entre Aprendizagem e Desenvolvimento é um dos temas centrais na obra de Vygotsky. Segundo ele, o desenvolvimento humano depende da capacidade de apreensão de elementos culturais e de aprendizagens conquistadas nas interações sociais. Outros pontos importantes estudados por Vygotsky referem-se à questão do significado e sentido da palavra, os meios de aquisição da linguagem, a formação de conceitos, a relação entre desenvolvimento e aprendizagem e o desenvolvimento 38 de crianças deficientes. O desenvolvimento e a aprendizagem estão relacionados desde o nascimento da criança. O desenvolvimento não é um processo universal e linear, mas ao contrário, ele é constituído no contexto, na interação com a aprendizagem. Sendo que a aprendizagem promove o desenvolvimento atuando sobre a zona de desenvolvimento real na criança. (VYGOTSKY, 1991, p. 21). Percebe-se então, que na abordagem sócio-histórica, o conhecimento é elaborado a partir das interações da criança com o outro e com o mundo, sendo que essas interações sociais se constituem como as principais molas propulsoras do aprendizado. Diante do exposto pode-se dizer que o desenvolvimento psicológico de uma criança é um processo construído culturalmente e a aprendizagem é um processo de elaboração e reelaboração desse conhecimento. Ao se considerar que é a linguagem que diferencia o ser humano dos animais, o que dizer das crianças surdas que não utilizam a linguagem oral para se comunicar. Essas são consideradas como animais? Sabe-se que a dificuldade dos surdos de se comunicarem ocorre pelo fato de as línguas auditivas-orais serem as únicas utilizadas pela grande maioria das comunidades, e que a surdez impossibilita a criança de adquiri-la espontaneamente. Vygotsky, em seu trabalho sobre deficiência, ressalta que os problemas da surdez são decorrentes de questões sócio-culturais e que a educação dessas crianças deve ter como objetivo a minimização destes danos. Ao observar a história da educação dos surdos depara-se que essa apresenta uma dura realidade, na qual as crianças surdas não possuem contato com a língua de sinais desde pequenas, e como não podem adquirir a língua oral num ritmo semelhante ao das crianças ouvintes, elas, na esmagadora maioria das vezes, sofrem atraso de linguagem. Ao considerar-se que a aprendizagem de matemática na sala de aula é um momento de interação entre a matemática e os sujeitos aprendentes, nesse sentido as crianças surdas podem perfeitamente aprender os conceitos matemáticos desde que o professor utilize ao língua de sinais ou tenha o auxílio de um intérprete em suas aulas. Para Carraher (1995, p. 12): “a aprendizagem de um conceito [...] está 39 relacionada à psicologia da aprendizagem em primeiro plano. A atividade que conduz a aprendizagem é a atividade de um sujeito humano construindo seu conhecimento”. Enquanto atividade humana, a matemática é uma forma particular de organizar os objetos e eventos no mundo. Podemos estabelecer relações entre os objetos de nosso conhecimento, contá-los, somá-los, dividi-los etc. e verificar os resultados das diferentes formas de organização que escolhemos para nossas atividades. A educação matemática, por meio de situações cuidadosamente estudadas, pode visar à construção de modelos matemáticos pelas crianças, as quais estariam engajadas em resolver problemas cujo significado as orientasse sobre os próprios modelos. Os modelos matemáticos poderiam ser, inicialmente, recriados pelas crianças apenas como teoremas em ação, necessários a soluções de problemas, passando posteriormente a condição de objetos de análises, quando sua condição de teoremas em ação estivesse solidificada. Não se teria, é claro, uma aprendizagem imediata, uma vez que a busca de solução de problemas não pode ser considerada simples. Segundo Vóvio (1998, p. 17): “não são necessários muitos argumentos para convencer as pessoas sobre a importância da matemática entre os conteúdos da educação escolar”. Todos sabem o valor que os números e as operações numéricas têm no cotidiano da maioria das pessoas e a sua importância como instrumentos para outras aprendizagens escolares. Grande parte das escritas e outras formas de representação com as quais os jovens e adultos convivem diariamente estão relacionadas com a matemática e eles normalmente têm grande interesse nessa área. Aprender a ler e escrever números, fazer cálculos e interpretar plantas e outras representações gráficas é algo que motiva muito os jovens e adultos que estão se alfabetizando, pois eles reconhecem facilmente a importância desses conhecimentos. Esse mesmo autor destaca que é importante ter em mente, entretanto, que o modo como a matemática se integra no processo de alfabetização de crianças surdas é muito diferente do que ocorre no ensino das demais. Isso porque, no seu dia a dia, quase todas fazem regularmente alguns cálculos simples, sem perceberem que estão utilizando os conceitos matemáticos. É nesse aspecto que os educadores têm o papel fundamental de ajudar 40 os alunos a ampliar seus conhecimentos, aplicando-os a novas situações. Com a ajuda dos educadores, bem como do interprete as crianças surdas podem adquirir conhecimentos sobre os conceitos matemáticos com facilidade. Para que seja ensinada a Matemática é preciso que o professor compreenda a formação dos mecanismos da mente e seu funcionamento no indivíduo. A verdade é que nenhum sujeito é realmente livre, pois as ações são prédeterminadas pelas circunstâncias e por várias restrições e ordens, mas tem-se a capacidade de escolher. Essa liberdade de escolha deverá permitir ao professor orientar a aprendizagem. É importante que ele conheça o aluno. Com esse conhecimento, o aluno deixa de ser mero espectador para ser um atuante, pois o professor detecta as suas dificuldades e consegue estabelecer planos para fazer com que a aprendizagem chegue até ele. A maneira de viver, de pensar, a forma como se relaciona com as outras pessoas e com a natureza sofrem modificações constantes, pois com o tempo tudo se modifica. Dos fatores (a necessidade e a curiosidade) nasceram todas as ciências, entre elas matemática. A matemática é uma ferramenta criada pelo homem, que auxilia na sua luta diária, seja para contar laranjas na feira, para numerar as casas de uma rua, para calcular o número de tijolos necessários para fazer uma casa ou para conferir a contribuição ao INSS, descontada de seu salário, e assim por diante. Por outro lado, a matemática juntamente com as demais ciências, permite uma melhor compreensão da realidade. Segundo Vóvio (1998, p. 25): “hoje, considera-se que o estudo das noções matemáticas só adquire significado para os alunos quando estão associadas a situações-problema”. De modo breve, pode-se dizer que uma situação-problema não é apenas aquela que é apresentada por meio de um texto e que traz uma pergunta a ser respondida, como é comum aparecer nos livros de matemática. Uma situação-problema pode ser apresentada e resolvida oralmente ou por meio de registros matemáticos. Ela é sempre um desafio, pois os alunos precisam construir a solução. É importante que todo esse trabalho seja desenvolvido de forma coletiva e individualmente. Assim sendo, mais importante do que dar a resposta correta ao problema proposto é que o aluno seja capaz de explicar o modo como chegou a 41 essa resposta, de justificar suas estratégias e analisar se o caminho escolhido é o único que o leva à solução. Ao se habituarem a fazer esse tipo de análise eles poderão desenvolver formas de raciocínios mais flexíveis e a aplicar as estratégias construídas em novas situações. O aluno surdo é capaz de realizar as mesmas estratégias, desde que as mediações do professor (explicações, questionamentos etc) sejam dadas na sua língua, à língua de sinais. No que se refere à avaliação do ensino de matemática com os alunos surdos, não se pode esquecer que a avaliação é o processo pelo qual o professor interpreta dados da aprendizagem do aluno e seu trabalho, permitindo assim o diagnóstico dos resultados e, se necessário, a realimentação do processo de ensino/aprendizagem. “A avaliação, em Matemática, deve estar relacionada á concepção adotada, bem como aos encaminhamentos metodológicos propostos, portanto, deve ser coerente com o enfoque dado aos princípios básicos da disciplina”. (BRUSZINSKI, 2001, p. 62). Se encararmos a Matemática sobre um ponto de vista dinâmico, que leva em conta os caminhos percorridos pelo aluno em suas tentativas de solucionar os problemas propostos, então, o desenvolvimento do aluno deve ser acompanhado ao longo de sua trajetória escolar. Avaliar nessa perspectiva não é fácil. Não é possível fazer esse tipo de avaliação com uma única prova ou provas que cobrem questões mecânicas, desvinculadas de situações-problemas. Essas situações envolvem o entendimento dos conceitos básicos que se referem aos conteúdos trabalhados, portanto não se deve aprender Matemática para resolver problemas, mas aprende-se Matemática resolvendo problemas. 42 6 A TRAJETÓRIA METODOLÓGICA DA PESQUISA Para Andrade (1993, p. 35), a metodologia “é a descrição precisa dos métodos, materiais, técnicas e equipamentos utilizados”. Ela engloba o cerne da cientificidade de uma pesquisa, em que o método é um procedimento geral, baseado em princípios lógicos que pode ser comum a várias ciências. Nesse sentido, a presente pesquisa tem por característica o tipo descritiva com a abordagem qualitativa, pois se tratou de levantar dados referentes a existência da relação sujeito e realidade, buscando conhecer conceitos à luz do referencial teórico. Foram pesquisadas duas (02) Instituições de Ensino pertencentes à rede estadual de educação, ambas atendendo alunos do Ensino Fundamental no município de Araranguá, SC. Essas instituições foram denominadas de Escola A e Escola B, na qual se optou por uma amostra simples intencional de um (01) professor de matemática da Escola A, um (01) professor de matemática da Escola B e um intérprete de Língua de Sinais. As escolas pesquisadas trabalham com metodologias diferentes no atendimento aos educandos surdos. Na escola A, o aluno freqüenta o ensino regular sem acompanhamento do intérprete, freqüentando no período oposto à sala de recursos5. Na escola B, o aluno freqüenta apenas o ensino regular com apoio permanente do intérprete de língua de sinais. Compreendendo a necessidade de se instrumentalizar para coletar dados, a escolha foi por questionários com perguntas fechadas, destinadas aos professores de matemática e entrevista semi-estrutura ao intérprete de Língua de Sinais. 5 Sala de recursos: é um serviço de apoio pedagógico especializado, no qual o professor realiza a complementação ou suplementação curricular, usando procedimentos e materiais específicos. 43 Os dados coletados foram analisados de forma qualitativa, visando um melhor entendimento do tema: “Aprendizagem de conceitos matemáticos pelos alunos surdos”. 6.1 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados Esse capítulo tem por objetivo apresentar, analisar e interpretar os dados coletados junto aos professores de matemática, procurando compreender as suas falas sobre o tema em questão. 6.1.1 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados nos questionários dirigidos aos professores (Apêndice 1) Este quadro apresenta dados sobre os professores pesquisados, bem como da escola e as séries em que atuam, a habilitação, o tempo de atuação no campo educacional, a carga horária trabalhada, e a situação funcional. A relevância dos dados traz um ”mapa” para que possamos visualizar os dados da pesquisa. Quadro 1 – Titulação dos professores PROFESSORES ESCOLA SÉRIE HABILITAÇÃO A ESCOLA A 5ª a 8ª Licenciatura em B ESCOLA B 5ª a 8ª Licenciatura em TEMPO DE CARGA SITUAÇÃO SERVIÇO HORÁRIA FUNCIONAL 10 anos 40h/a Efetiva 16 anos 40h/a Efetiva Matemática Matemática Fonte: Professores de Matemática envolvidos na pesquisa (2006). Diante desse quadro constata-se que os sujeitos da pesquisa, os quais forneceram dados para a realização desse trabalho são professores habilitados com Licenciatura em Matemática, ambos trabalham com o Ensino Fundamental (5ª a 8ª série), com carga horária de 40h/a. Outro ponto destacado refere-se ao tempo de serviço, sendo que um deles possui 10 anos no magistério e o outro dezesseis, ambos efetivos nas escolas em que trabalham. 44 O questionário aplicado foi elaborado com dez (10) questões abertas pertinentes ao problema da pesquisa, o qual é: “Como os professores estão promovendo atividades de ensino que possibilitem a apropriação de conceitos matemáticos aos alunos surdos?” O que vem a seguir trata da análise das “falas” apresentadas no questionário destinado aos professores. QUESTÃO 1 - O que é inclusão para você? Conceitue. PROFESSOR A: “É a integração de todos os alunos deficientes junto aos alunos ditos normais”. PROFESSOR B: “É garantir ao educando o acesso e a permanência na escola”. Diante das respostas desses professores, percebeu-se que o conceito de inclusão para eles não está bem acentuado, pois sabe-se que incluir uma pessoa com necessidades especiais no Ensino Regular é muito mais do que somente aceitá-la e tratá-la bem. [...] Um processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades educativas especiais e simultaneamente, essas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. (SASSAKY, 1997, p. 41). A inclusão, portanto, é um processo que contribui para a construção de um tipo de sociedade por meio de pequenas e grandes transformações nos ambientes físicos e na mentalidade de todas as pessoas. QUESTÃO 2 – Você considera qualificado para trabalhar com alunos com necessidades educativas especiais? PROFESSOR A: “Muito pouco”. PROFESSOR B: “De certo modo sim”. As respostas acima demonstram que esses professores não se sentem 45 completamente qualificados para desenvolver um trabalho com alunos que possuem necessidades educativas especiais, o que faz concluir que esses alunos estão freqüentando as escolas regulares, mas não estão verdadeiramente incluídos nelas. Sabe-se que o estado de Santa Catarina a partir de 1999 abriu as portas do ensino regular para a inclusão dos educandos portadores de necessidades educativas especiais (PNEE), com a reformulação do Sistema Estadual de Ensino garantindo o estabelecimento da Política de Integração da Pessoa com Necessidades Especiais. Desse modo, para garantir a qualidade do atendimento aos alunos surdos, a escola deve comprometer-se como um todo investindo esforços para a capacitação de professores. QUESTÃO 3 – Como você vê a presença de um aluno surdo em sua sala de aula? PROFESSOR A: “Vejo como uma criança normal, porém encontro dificuldades em trabalhar com ele”. PROFESSOR B: “Como um desafio, pois o professor tem que estar em constante busca para mediar o conhecimento”. Essas constatações demonstram que apesar da importância da inclusão, alguns educadores estão encontrando dificuldades no convívio e no trabalho com os surdos. Porém, alguns deles estão transformando esta situação em desafio. Diante dessa realidade, cabe aos profissionais da educação questionar as razões mais profundas dessa situação, formular propostas que venham contribuir para a superação das dificuldades encontradas e ver o aluno surdo com os mesmos olhos que vê o ouvinte. QUESTÃO 4 – Você recebeu orientações para trabalhar com o educando surdo? PROFESSOR A: “Não tive especialização adequada para o atendimento especializado na integração desses alunos”. 46 PROFESSOR B: “As orientações recebidas não são suficientes para a realização do trabalho do professor em sala de aula”. Diante dessas falas, percebe-se que essa situação vem evidenciar que há poucas orientações destinadas aos educadores para o trabalho com o educando surdo. O educador como principal agente de ensino e a escola como uma instituição social de maior responsabilidade no processo educativo precisam estar constantemente atualizados. Para isso, é fundamental um investimento consistente e permanente na formação dos educadores, tanto no que diz respeito ao ensino geral quanto nas especialidades das deficiências. É necessário que se deixe de pensar na Educação Especial isoladamente, e se comece a pensá-la no contexto geral, pois essa dicotomia só tem contribuído para o distanciamento tanto dos portadores de deficiência e da população dita normal, como da construção de uma educação democrática. QUESTÃO 5 - A escola adquire materiais didáticos diferenciados para adaptar as necessidades dos educandos surdos? Quais? PROFESSOR A: “Há alguns materiais especiais na Sala de Recursos que muitas vezes o professor do Ensino Regular solicita para trabalhar com os demais alunos”. PROFESSOR B: “Sim, são mandados pela Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), entre eles destaca-se: dominós, jogos da memória, alfabeto digital”. Cabe a escola e aos educadores proporcionar materiais adequados e desenvolver programas com adaptação específicas, que visem ajudar o desenvolvimento dos educandos com necessidades especiais. Diante das respostas obtidas dos professores acima, percebe-se que as escolas oferecem alguns materiais adequados ao ensino dos surdos enviados pela Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), mas os mesmos não são o 47 suficiente para atender a todas as escolas. QUESTÃO 6 Na escola em que você atua existe a presença do intérprete de língua de sinais? Qual a sua opinião sobre o trabalho desenvolvido por esse? PROFESSOR A: “Não, mas o trabalho desenvolvido por esse auxilia na compreensão dos conteúdos transmitidos pelos alunos surdos”. PROFESSOR B.“Sim, na escola em que atuo há intérprete, sendo que esse realiza um trabalho de suma importância para o processo de desenvolvimento do aluno surdo”. Diante dessas respostas contraditórias, observa-se que os professores reconhecem a importância da existência de um intérprete de Língua de Sinais na sala de aula em que estudam crianças surdas e ouvintes, uma vez que o conhecimento prévio que o surdo tem de mundo é assimilado e transmitido por intermédio dessa língua. Devemos criar as condições para que os surdos [...] tenham a possibilidade de acesso ao domínio da língua escrita [...] pela garantia de desenvolvimento normal de linguagem [...]. Em segundo lugar, é imprescindível brindar a informação requerida para que as crianças surdas elaborem um conhecimento prévio sem o qual não é possível a interação com o novo conhecimento.(SANCHE, apud QUADROS, 1998, p. 7) Como resultado de tal prática os alunos surdos conseguem identificar os significados das palavras, na qual se adota uma concepção sócio-histórica de linguagem, esperando-se que, expostas ao funcionamento lingüístico-discursivo da língua de sinais como mediadora para o aprendizado dos alunos surdos. QUESTÃO 7 Você modificou sua metodologia de trabalho com a inclusão do educando surdo em sua sala de aula? Quais as modificações feitas? PROFESSOR A: “Sim, buscando conhecimentos e materiais”. PROFESSOR B:“Não houve mudanças nas atividades, mas sim no 48 desenvolvimento delas” . Todo educando, independente das dificuldades advindas de sua deficiência, poderá a seu modo e em seu tempo, beneficiar-se de programas educacionais, desde que lhe sejam dadas oportunidades adequadas para que possa desenvolver o seu potencial de aprendizagem e conseqüentemente, integrar-se. A apropriação cultural se dá de forma ampla no e pelo processo educativo e, de forma mais restrita, no e pelo ensino [...]. Desta maneira, o desenvolvimento cognitivo depende tanto do conteúdo a ser apropriado como das relações que se estabelecem ao longo do processo de educação e ensino. (DAVIS, 1989, p. 50). A escola deve assegurar aos alunos o direito de pensar e expressar seus pensamentos, criar argumentos, buscar soluções comuns a partir de contribuições diversas. Analisando as respostas acima, observa-se que os professores têm de alguma forma, buscado modificar sua metodologia de ensino em relação ao surdo. QUESTÃO 8 O surdo tem condições de acompanhar com bom aproveitamento o Ensino Regular? PROFESSOR A: ”Sim, quando bem assessorado”. PROFESSOR B: “Se houvesse mais preparo para nós professores, o desempenho seria bem melhor”. A primeira condição para a produção do conhecimento é a ação sobre o mundo, ou seja, para conhecer o sujeito precisa agir e interagir com outro, com um universo social e cultural. No caso do educando surdo, que possui limitações de natureza orgânica, essa ação sobre o mundo se fará de forma também deficitária. Sendo assim, um auxílio mais adequado do meio irá propiciar a esse aluno, condições mais favoráveis para a aprendizagem.Isso vem confirmar as respostas dos professores questionados, porém os mesmos alegam não ter muito preparo para fazer acompanhá-los o Ensino Regular. 49 Ao contrário da crença de que a pessoa portadora de deficiência deve viver em ambiente rigidamente estruturados e se relacionar com o mundo de forma condicionada e estereotipada, na verdade precisa de condições estimulantes para agir livremente e que tenham motivação bastante para alcançar os objetivos desejados. (FERREIRA, 1993, p. 93). O educador deve, por isso, oferecer condições desafiadoras que levem o educando a agir sobre o ambiente. Diante desses desafios, o educando vai construindo sua noção de espaço, de tempo, estabelecendo relação de causa e efeito, pois, à medida que tem em vista conseguir algo desejado, movimenta-se pondo em ação seus esquemas conhecidos, ou cria novos meios para se adaptar. QUESTÃO 9 Um dos objetivos dos alunos surdos freqüentar o Ensino Regular é a integração com os alunos ouvintes. Existe realmente essa integração? PROFESSOR A: “Muito pouco”. PROFESSOR B: “Nem sempre”. Observa-se nessas falas, que o processo de inclusão não se está efetivando completamente nas escolas, pois muitas vezes, apenas é colocado um educando surdo no convívio com os ouvintes, e aquele não desenvolve as suas potencialidades e tão pouco tem interação com os demais. A inclusão educacional do aluno portador de necessidades especiais é um processo que necessita ser constantemente revisto e reavaliado pelos profissionais envolvidos, a integração entre os educadores do Ensino Regular e da Sala de Recursos é muito importante para planejar, discutir e avaliar todo o processo. QUESTÃO 10 A escola proporciona cursos, congressos ou seminários que tratam da inclusão dos alunos surdos? Para você é necessário? Por quê? PROFESSOR A: “Muito pouco, porém é necessário para que os ouvintes saibam das dificuldades dos surdos”. PROFESSOR B: “Não, mas é de grande necessidade a realização de 50 cursos”. Diante dessas falas, constata-se que o sistema de ensino deve oferecer cursos de capacitação para todos os educadores, principalmente para aqueles que possuem em sua classe crianças portadoras de necessidades educativas especiais, pois somente com a aproximação do educador, da escola e da sociedade ocorrerá de fato a inclusão. No entanto, esses cursos não são oferecidos pela rede Estadual de Ensino. 6.1.2 Apresentação, análise e interpretação dos dados coletados na entrevista realizada com o interprete de língua de sinais (LIBRAS). Apresenta-se a seguir os dados coletados na entrevista realizada com o intérprete de língua de sinais (Apêndice 2). PERGUNTA 1 - Qual a função do interprete de língua de sinais na sala de aula? O intérprete é o mediador entre o surdo e as informações sobre a cultura e o universo ouvinte. Nos últimos anos, a presença do intérprete de Libras tem ganhado destaque nos espaços educacionais em função da política educacional brasileira que prevê a inclusão do sujeito surdo nas instituições regulares de ensino. Além disso, dado o desconhecimento da maioria da população sobre LIBRAS, tornase necessário que existam intérpretes nos diversos setores da sociedade - públicos e privados - a fim de permitir que os surdos tenham seus direitos de cidadania respeitados, da mesma forma em que possam estar livres e conscientes para exercer seus deveres. PERGUNTA 2 - Com o auxílio do intérprete o educando surdo realmente tem seus direitos lingüísticos garantido? Por quê? Com o intérprete, o surdo passa a ter acesso a uma gama de eventos que sem a presença do mesmo não faz nenhum sentido, ou seja, ele possibilita o conhecimento e participação de toda uma comunidade em congressos, palestras, 51 debates, escolas etc. O profissional intérprete é o canal que interliga dois ”mundos diferentes”: o da pessoa surda ao da ouvinte. PERGUNTA 3 - Como acontece a interação do educando surdo com o professor regente e os colegas? A interação entre o aluno surdo com professor e demais colegas depende fundamentalmente do clima estabelecido pelo educador em sala de aula, da relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir, discutir e compreender o nível dos mesmos, criando pontes entre o seu conhecimento e o deles. PERGUNTA 4 - Como ocorre o processo de aprendizagem do educando surdo? Como esse é avaliado? O processo de aprendizagem do educando surdo deve possibilitar ao mesmo a busca pela compreensão do seu próprio mundo e sobre o que se passa em sua volta, ele (a) surdo (a) passa a existir num mundo complexo e dinâmico e deixa para trás o seu refúgio caseiro onde ele (a) incompreendido até então vivia. Como em geral, a avaliação formal é obrigatória, devem-se ter inúmeros cuidados em sua elaboração e aplicação. Todo o conteúdo da prova deve estar adequado com o que foi trabalhado, durante as aulas não dando margem a dúvidas. Na avaliação da aprendizagem do aluno surdo, não se pode permitir que o desempenho lingüístico interfira de maneira castradora na performance acadêmica desses alunos que já possuem, por sua perda auditiva, uma defasagem lingüística em relação aos ouvintes que têm garantido na escola a sua língua. Diante dos dados coletados junto ao intérprete de língua de sinais pode-se concluir que o entrevistado possui clara definição sobre a sua função na sala de aula, bem como esse acredita que com o seu auxílio o educando surdo possui maior garantia de apropriar o conhecimento transmitido pela escola. No que se refere a interação do educando surdo com o professor regente e com os demais colegas, o intérprete afirma que essa interação depende, primeiramente, do modo como o educador conduz suas aulas, ou seja, cabe a ele compreender, respeitar e valorizar o conhecimento de cada aluno, como também 52 saber relacionar esse conhecimento com o que ira ensinar. Quanto à aprendizagem do aluno surdo e como esse é avaliado, o intérprete afirma que a aprendizagem deve permitir que ele compreenda o seu mundo e o qual está inserido. E a avaliação deve ser realizada de modo que o mesmo não perceba nenhuma interferência lingüística. Assim, pode-se afirmar que os alunos surdos (escola B), que freqüentam o ensino regular, em que existe a presença do intérprete de língua de sinais, têm maior facilidade de adquirir os conceitos e os fundamentos matemáticos. Enquanto que os alunos (escola A), que freqüentam o ensino regular e a sala de recurso em períodos diferentes, têm maior dificuldade na apropriação do conhecimento escolar, mais especificamente no que se refere aos conceitos matemáticos. 53 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base nos estudos e reflexões realizadas e tendo como ponto de apoio o referencial teórico e a pesquisa de campo, desenvolveu-se aqui uma visão sobre o processo de inclusão das crianças surdas e a aprendizagem dos conceitos matemáticos pelas mesmas. Considerando que a inclusão é um processo complexo que envolve a adaptação de todas as partes (população geral, profissional da educação, família e da própria criança a ser incluída), a mobilização de setores isolados visando a inclusão traz somente resultados parciais, havendo necessidade de esforços conjuntos para que o processo chegue a um termo satisfatório. Mesmo assim, não será a ação de resultados imediatos, mas de esforços contínuos para que, em longo prazo, o educando surdo possa ser melhor compreendido, do contrário, ele continuará despersonalizado, objeto a ser cuidado e não sujeito constituído. A proposta de inclusão requer definições claras quanto aos papéis da Educação Especial e do Ensino Regular, contudo, perde-se de vista a preocupação com uma educação única, que requer união de esforços para o alcance de objetivos comuns. Em outras palavras, unir saberes que se complementem com vistas a garantir o acesso e a permanência do educando na escola. O acesso é garantido pela lei. A permanência deve ser constituído com o compromisso efetivo da educação. É uma aposta em uma escola que assuma todos os educandos como pessoas que merecem respeito, descartando modelos seletivos e aprofundando a compreensão que se pode/deve oferecer aos educandos as mesmas possibilidades e experiências educativas, independentes de sua posição social, econômica, raça, sexo, capacidade intelectual ou qualquer outra característica. É uma aposta em uma escola que, incluindo as diferenças exclui as desigualdades. O objetivo desse trabalho foi analisar como os professores de matemática estão possibilitando a apropriação de conceitos matemáticos pelos alunos surdos, assim, tendo como base a análise dos resultados já apresentados, pode-se expor algumas considerações sobre o que foi referido. Observou-se nos depoimentos dos professores questionados um discurso a favor da inclusão, porém eles relatam que na prática esse processo é carregado 54 de conflitos e dificuldades. Constatou-se também que os professores como responsáveis pelo êxito da adaptação social da criança possuem pouca qualificação profissional no que diz respeito ao trabalho realizado com o educando surdo. Nessa perspectiva, acreditase que é de fundamental importância que os professores tenham acesso a uma formação adequada para a realização desse trabalho, já que ao educador é atribuído um papel fundamental, cabendo a ele desempenhar a tarefa de tornar as interações sociais um processo formativo e constitutivo de um novo saber. Foi constatado também, que é de suma a importância a existência de um intérprete como mediador entre o surdo e as informações sobre a cultura e o universo ouvinte. Sendo que nos últimos anos, a presença do intérprete de Libras vem ganhando destaque no espaço escolar em função da política educacional brasileira que prevê a inclusão do sujeito surdo nas instituições regulares de ensino. A integração do aluno surdo é um desafio que deve ser enfrentado com coragem, determinação e segurança. O encaminhamento do aluno para a classe de ensino regular deve ser fruto de um criterioso processo de mudança nos tradicionais métodos de avaliação. Finalmente, deve-se ter clareza que essa integração não passa exclusivamente pela sua colocação na turma com crianças ouvintes. A verdadeira integração implica em reciprocidade. A criança surda poderá iniciar seu processo de integração na família, na vizinhança, na comunidade, participando de atividades sócio-recreativas, culturais ou religiosas com crianças e adultos "ouvintes" e dar continuidade a esse processo na escola especial ou regular, de acordo com suas necessidades. Garantir ao aluno surdo um processo de escolarização de qualidade é fator fundamental para sua plena integração. É importante ressaltar ainda que existe diferença no processo de aprendizagem e na aquisição dos conhecimentos e conceitos matemáticos entre os alunos surdos que freqüentam o ensino regular juntamente com o auxílio do intérprete de língua de sinais e os alunos surdos que freqüentam o ensino regular e a sala de recursos. Os alunos surdos que freqüentam o ensino regular, em que existe a presença do intérprete de língua de sinais possui maior facilidade de adquirir os conceitos e os fundamentos matemáticos, enquanto, que os alunos surdos que freqüentam o ensino regular e a sala de recurso em períodos diferentes possuem maior dificuldade na apropriação do conhecimento escolar, mais especificamente no 55 que se refere aos conceitos matemáticos. Espera-se que esse trabalho sirva para os educadores e todas as demais pessoas envolvidas no processo educacional, no sentido de possibilitar maior participação da família no processo de ensino/aprendizagem da criança portadora de necessidades especiais, buscando uma educação de qualidade para esses educandos. 56 REFERÊNCIAS ANDRADE, Maria Margarida de. Introdução à metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1993. AMARAL, Ligia Assumpção. Pensar a diferença/deficiência. Brasília, CORDE, 1994. BRASIL, Congresso Nacional. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial [da União], Brasília, 23 dez. 1996, n. 248. BRASIL. Declaração de salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas especiais. Brasília: CORDE, 1994. BRASIL. Resultado da sistematização dos Trabalhos da Câmara Técnica Sobre o Surdo e a Língua de Sinais. Deficiência auditiva. Brasília: Corde, 1996. 24p. BRASIL. 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QUESTIONÁRIOS COM OS PROFESSORES Escola: _____________________________________________________________ Série que atua:_______________________________________________________ Habilitação: __________________________________________________________ Tempo de serviço: ____________________________________________________ Carga Horária: _______________________________________________________ Situação funcional: ___________________________________________________ 1 O que é inclusão para você? Conceitue. ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 2 Você se considera qualificado para trabalhar com alunos com necessidades educativas especiais? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 3 Como você vê a presença de um aluno surdo em sua sala de aula? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 61 4 Você recebeu orientações para trabalhar com educando surdo? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 5 A escola adquire materiais didáticos diferenciados para adaptar as necessidades dos educandos surdos? Quais? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 6 Na escola em que você atua existe a presença do intérprete de língua de sinais? Qual a sua opinião sobre o trabalho desenvolvido por esse? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 7 Você modificou sua metodologia de trabalho com a inclusão do educando surdo em sua sala de aula? Quais as modificações feitas? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 8 O surdo tem condições de acompanhar com bom aproveitamento o Ensino Regular? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 9 Um dos objetivos dos alunos surdos freqüentar o Ensino Regular é a integração com os alunos ouvintes. Existe realmente essa integração? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 10 A escola proporciona cursos, congressos ou seminários que tratam da inclusão dos alunos surdos? Para você é necessário? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 62 APÊNDICE 2 - ROTEIRO DA ENTREVISTA REALIZADA COM O INTÉRPRETE DA LÍNGUA DE SINAIS UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ROTEIRO DA ENTREVISTA REALIZADA COM O INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS 1 Qual a função do intérprete de língua de sinais na sala de aula? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 2 Com o auxílio do intérprete o educando surdo realmente tem seus direitos lingüísticos garantido? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 3 Como acontece a interação do educando surdo com o professor regente e os colegas? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 4 Como ocorre o processo de aprendizagem do educando surdo? Como esse é avaliado? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________