FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS
CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA
MESTRADO EXECUTIVO
ESCOLARIDADE, SALÁRIOS E
EMPREGABILIDADE: IMPLICAÇÕES NO MERCADO
DE EMPREGOS DO
RIO DE JANEIRO
Dissertação de Mestrado, apresentada à Escola Brasileira de
Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas como
requisito para a obtenção do título de Mestre em Gestão Empresarial.
Alexandre Alves de Seabra
Rio de Janeiro, 2002
2
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS
CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA
MESTRADO EXECUTIVO
ESCOLARIDADE, SALÁRIOS E EMPREGABILIDADE: IMPLICAÇÕES NO
MERCADO DE EMPREGOS DO
RIO DE JANEIRO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
APRESENTADO POR:
Alexandre Alves de Seabra
E
APROVADO EM: 24/06/2002
PELA COMISSÃO EXAMINADORA
_______________________________________________________
MOISÉS BALASSIANO
PhD. em Psicologia Quantitativa
_______________________________________________________
DEBORAH MORAES ZOUAIN
Drª. em Engenharia da Produção
_______________________________________________________
VALDEREZ FERREIRA FRAGA
Drª. em Educação
3
A minha esposa Cassia e a meus filhos
Bernardo, Guilherme e Henrique, pelos
momentos que deixamos de desfrutar no
período de dedicação a esta dissertação.
4
AGRADECIMENTOS
Ao Professor e orientador, Prof. Moisés Balassiano, por sua competência, paciência e
dedicação com que me recebeu nos momentos de dúvidas e de preocupação ao longo da tarefa
de escrever esta dissertação.
À Ana Heloisa da Costa Lemos, pela iniciação ao tema empregabilidade.
Ao amigo Almir Barbosa Gomes, pelas revisões e sugestões do texto, e ao amigo Rogério
Fernandes, pela revisão final.
À Claudia Cunha Mesquita, pela inestimável colaboração na busca por bibliografia e pela
crítica dos textos.
À Dra. Vera Marina Martins Alves, do Ministério do Trabalho e do Emprego, e ao amigo
Celso Ícaro C. Tavares, pela gentileza e empenho na disponibilização dos microdados da
RAIS.
A todos os que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização desta dissertação.
5
SUMÁRIO
RESUMO
7
ABSTRACT
8
INTRUDUÇÃO
9
Objetivo
12
Delimitação
13
Relevância do Estudo
13
REFERENCIAL TEÓRICO
Desigualdade Salarial
Metodologia
17
23
27
Definição da População
27
Base dos Dados
28
Depuração dos Dados
29
Definição das Variáveis
31
Eliminação dos Dados Inconsistentes
34
Modelo Utilizado para Análise
35
Análise dos Resultados
40
Análise com Base nas Tabulações das Variáveis da População
40
Análise com Base nos Resultados do Modelo
48
Conclusões
52
Recomendações
56
Bibliografia
57
6
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
TABELA 1 – Decomposição da Desigualdade Salarial de acordo com suas
Fontes Principais
25
TABELA 2 – Especificação do Grau de Instrução
30
TABELA 3 – Especificação da Faixa Etária
30
TABELA 4 – Distribuição por Faixa Etária dos Indivíduos no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
40
TABELA 5 - Distribuição por Gênero dos Indivíduos no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
42
TABELA 6 - Distribuição por Escolaridade dos Indivíduos no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
43
TABELA 7 - Empregabilidade por Escolaridade no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
45
TABELA 8 – Remuneração Média por Escolaridade no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
46
TABELA 9 – Correlação de Pearson entre as variáveis pesquisadas
47
TABELA 10 – Efeitos Diretos determinados pelo Modelo
48
TABELA 11 - Efeitos Indiretos determinados pelo Modelo
49
TABELA 12 – Efeitos Totais determinados pelo modelo
50
GRÁFICO 1 – Distribuição por Faixa Etária
41
GRÁFICO 2 – Distribuição por Sexo
42
GRÁFICO 3 – Distribuição por Escolaridade
44
GRÁFICO 4 – Empregabilidade por Escolaridade
44
GRÁFICO 5 - Remuneração Média por Escolaridade
47
7
RESUMO
O elevado grau de flexibilidade tem sido apontado como uma das características
marcantes do mercado de trabalho brasileiro.
Empregabilidade vem sendo um termo
freqüente entre os profissionais da área de recursos humanos. A Teoria do Capital Humano e
a discussão contemporânea acerca da empregabilidade abordam as relações da prática
educativa e da prática de produção em uma estrutura econômico-social capitalista como um
todo. As conseqüências da educação na vida dos indivíduos refletem-se de várias maneiras,
direta e indiretamente. A nossa intenção é avaliar, estatisticamente, dentro desse universo de
conseqüências, os eventos explicativos das relações entre escolaridade x salário e escolaridade
x emprego.
A principal finalidade desse trabalho será a de avaliar as relações entre
escolaridade, salário e empregabilidade sob a perspectiva de um modelo estrutural, visando
comparar e contrastar duas teorias vigentes: a do capital humano e a da empregabilidade.
Para isso foi utilizada uma base de dados sobre os indivíduos que se encontram no mercado
formal de trabalho na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Os resultados mostraram a
importância da escolaridade tanto no nível de salário como no fator empregabilidade, cujos
valores e taxas mais altas correspondem aos indivíduos com nível superior completo.
8
ABSTRACT
The high degree of flexibility has been pointed as one of the outstanding
characteristics of the Brazilian job market. Employability is being a frequent discussion issue
among the professionals of the human resources area. The Human Capital Theory and the
contemporary discussion concerning Employability argue the relationship of the educational
practice and of the production practice in a capitalist economical-social structure as a whole.
The education consequences in the individuals' life are reflected in several ways, direct and
indirectly. Our objective is to evaluate, with statistics methods, and in that universe of
consequences, the explanatory events of the relationships between education-wage and
education–job. The main reason of this work is to evaluate the relationship between
education, wage and Employability from a structural model perspective, seeking to compare
and to contrast two effective theories: the one from the human capital and other from the
Employability. To make this analysis, a database of individuals that are working at the formal
work market in the Rio de Janeiro Metropolitan Area, had been used. The results showed the
education importance on the wage level, as well as, on the Employability factor, whose values
and highest taxes correspond to the individuals graduated on the university.
9
INTRODUÇÃO
Em um mundo globalizado, uma reordenação de valores vem interferindo e
modificando radicalmente todas as atividades humanas, inclusive antigas relações de trabalho.
Vivemos numa era de transformações, sobretudo de mudanças profundas nos campos
econômico, cultural, social, ético, político e educacional; como afirma Frigotto (2002): “um
contexto onde presenciamos um veloz processo de globalização das mercadorias e do capital,
com reflexos na situação de emprego dos trabalhadores.”
Continuamente temos presenciado
uma verdadeira avalanche de mudanças que diretamente têm impactado o curso normal não só
das economias mundiais, sobretudo das próprias empresas.
também tem se alterado de forma muito significativa.
A relação capital x trabalho
Na verdade, mudanças sempre
existiram, porém, hoje as mudanças são constantes e a velocidade em que elas ocorrem é cada
vez maior. Vale lembrar que numa economia cada vez mais globalizada a arena é o mundo, o
que nos faz concluir que hoje os desafios são bem maiores. Os muros caíram. O paternalismo
está dando lugar à competência e ao profissionalismo.
Por outro lado, grandes mudanças
também têm ocorrido no cenário empresarial. As empresas necessitam rapidamente ajustarse aos novos tempos, sob o risco de não mais se manterem competitivas e serem eliminadas
pela concorrência.
Em meio a toda essa turbulência o ser humano, principal fator capaz de tornar a
empresa permanentemente competitiva, passa a ser o centro das atenções, pois somente seres
humanos competentes e devidamente qualificados poderão produzir ou prestar serviços com
qualidade. Estamos passando de uma força de trabalho braçal para uma força de trabalho
10
intelectual. A gestão do conhecimento na empresa é algo que deve ser tratado com atenção,
pois ela é um fator estratégico, não só contribuindo para a sobrevivência das organizações
mas, também, para o seu crescimento sustentável. A capacitação das pessoas é um dos fatores
críticos de sucesso para a sobrevivência das empresas nesses novos tempos. A prontidão para
agir é outro ponto importante, ou seja, necessitamos de pessoas pró-ativas que possam ousar,
correndo riscos calculados, mas que tentem buscar novas soluções para antigos problemas e
que se sintam motivadas a desempenhar essa função.
O conhecimento está em alta nesta era do capital humano, porém, conhecimento só
não basta. É preciso que o conhecimento seja colocado em prática, pois são as ações
provenientes do conhecimento que gerarão as soluções de que necessitamos. Resultados são
conseqüências do nosso poder de criar soluções para os problemas ou desafios que nos são
apresentados, e empregabilidade sendo entendida como a capacidade de desenvolver novas
competências para estar em condições de atender às contínuas exigências e desafios impostos
no mercado de trabalho. Loureiro (2002) analisa esse ponto:
“No passado, um justo dia de trabalho era recompensado por um justo pagamento
diário. A relação era a seguinte: se você fosse leal, trabalhasse duro e obedecesse às
ordens, a empresa, em troca, lhe ofereceria um trabalho seguro e aumento de salário
que de certa forma gerava uma certa segurança financeira. Hoje o novo contrato de
trabalho está inserido dentro de uma nova formatação. O que se busca é uma
associação mutuamente proveitosa entre empresa e colaboradores. A nova regra é a
seguinte: se você desenvolve continuamente suas habilidades, aplica-as de modo que
possa ajudar a companhia a ter sucesso, se você efetivamente agrega valor ao
negócio, a empresa apoiará o seu desenvolvimento, propiciará um local de trabalho
desafiante e lhe recompensará pela suas contribuições.”
11
E complementa:
“Antigamente, o importante era você ter um emprego para toda
vida. Hoje, o que importa é você ser empregável pela vida toda. Daí a importância de
investirmos constantemente na nossa carreira, com ou sem subsídios por parte da empresa.”
Com efeito, essas mudanças atingem diretamente a própria cultura humana, assumindo
a conotação de desenvolvimento socioeconômico.
O homem é um ser tanto social como
psicológico. É o agente e o paciente dessas mudanças e, desse modo, gera para si desafios e
ansiedades que determinam, em última instância, o questionamento de seus valores
existenciais. É nesse contexto que emergem as discussões em torno da empregabilidade dos
indivíduos e sua possível relação de descendência com a teoria do capital humano.
Serão apresentados, dentro do referencial teórico, o aspecto sociológico da teoria do
capital humano e o conceito de empregabilidade que, através de sua melhoria, imputa aos
trabalhadores, individualmente, a responsabilidade pela manutenção do emprego e da renda.
Concordamos com Gentili (1999) quanto à limitação do uso do conceito de empregabilidade,
sem admitir com o abuso, quando diz que “o uso conservador da empregabilidade, por
enquanto seu uso (e abuso) dominante, desempenha uma função simbólica central na
demonstração do caráter limitado e aparentemente irrealizável dessa promessa no campo
econômico: a escola é uma instância de integração dos indivíduos ao mercado, mas não
todos podem ou poderão gozar dos benefícios dessa integração já que no mercado
competitivo não há espaço para todos” Gentili (1999:87). Mas, apesar de toda a importância
da discussão social, é também importante a verificação da existência e do grau de influência
da visão econômica na população de trabalhadores.
O que acontece com os indivíduos que
permanecem no mercado formal de empregos ? Partindo da afirmação da teoria do capital
humano sobre a influência da educação na renda do indivíduo e da população, quanto à
12
escolaridade, esta explica, estatisticamente analisando, os salários dos indivíduos no mercado
formal de empregos ? O que vem a ser empregabilidade no mercado formal de empregos?
As Teorias do Capital Humano e a discussão contemporânea acerca da
empregabilidade discutem as relações da prática educativa e da prática de produção em uma
estrutura econômico-social capitalista como um todo.
As conseqüências da educação no
indivíduo refletem-se de várias maneiras, direta e indiretamente. A nossa intenção é avaliar,
dentro desse universo de conseqüências, os eventos explicativos das relações entre
escolaridade x salário e escolaridade x emprego. A principal finalidade desse trabalho será a
de realizar, na população de indivíduos que se encontram no mercado formal, uma análise
estatística com visão econômica.
Objetivo
O presente trabalho tem por objeto testar as principais premissas da teoria do capital
humano e da empregabilidade no mercado formal de empregos, através de técnicas
estatísticas, e explorar a existência de outras variáveis intervenientes nas relações entre
escolaridade x salário e escolaridade x emprego. Para tanto, serão utilizadas como base de
dados as estatísticas sobre empregos formais constantes no Cadastro Geral de Empregados e
Desempregados – CAGED, e da Relação Anual de Informações Sociais – RAIS, ambas do
Ministério do Trabalho e do Emprego.
13
Delimitação do Estudo
É importante ressaltar que não é nosso desejo discutir todas as nuances, nem
comprovar todas as afirmações das teorias do capital humano e da empregabilidade.
Testaremos apenas a principal afirmação de cada abordagem, para a população delimitada: os
indivíduos que, no ano de 1999, fizeram parte do mercado formal de empregos na Região
Metropolitana do Rio de Janeiro.
Será investigado até que ponto um incremento na
escolaridade produz um incremento no salário, segundo a teoria do capital humano e, além
disso, se um incremento na escolaridade aumenta a probabilidade do indivíduo manter-se
empregado ou diminui a probabilidade do indivíduo ficar fora do mercado de trabalho,
premissa subjacente ao conceito de empregabilidade.
Analisaremos apenas os indivíduos que estavam no mercado formal de empregos,
isentando os que queriam ingressar, posto que seus arquivos não constam das estatísticas
acima mencionadas. Este fato é consistente com a própria conceituação de empregabilidade,
que considera apenas os agentes do mercado formal.
O objetivo do presente estudo está
restrito aos seus participantes em 1999.
Relevância do Estudo
Efetivamente, qual é a importância da escolaridade na geração de salário, dentro do
mercado formal de emprego?
Qual é a importância da escolaridade na manutenção do
emprego e na minimização do tempo em que o indivíduo permanece fora do mercado de
trabalho formal?
14
Essas questões são importantes para uma visão do resultado do investimento em
educação, tanto pelo lado governamental quanto para a sociedade.
A capacitação das pessoas será um dos fatores críticos de sucesso para a sobrevivência
das empresas nesses novos tempos.
Hoje tornar-se empregável, acentua a importância de
investir constantemente em sua carreira, com ou sem subsídios por parte da empresa.
Rodrigues (1997) destaca essas alterações e o atraso brasileiro em relação às principais
economias mundiais:
“Enquanto o Brasil buscava, na década de 70, implementar sua profissionalização
compulsória de nível médio – com características fordizantes - , os países centrais do
capitalismo já viviam os primeiros sintomas de um novo padrão de acumulação.
Melhor, o capitalismo mais uma vez expunha suas contradições interna de forma
explosiva. Para perdurar o modo de produção capitalista era preciso empreender-se
mais uma metamorfose.
Da mesma forma que o padrão de acumulação fordista se apoiou no pilar
organizacional –taylorismo-, no pilar tecnológico –fordismo- e no Estado
estruturante, também o padrão de acumulação flexível se apóia sobre uma nova
dinâmica de gestão do processo produtivo, em um novo padrão tecnológico e em um
novo tipo de Estado.
Nesse novo padrão, flexibilidade é o conceito
chave.”(Rodrigues, 1997:119)
A procura por instrução, pelos trabalhadores, partindo da necessidade de manterem-se
no emprego e da melhoria dos seus rendimentos é comentada por Machado (1998):
“A preocupação com o emprego constitui, hoje, uma questão de grande relevância
social e é compreensível que as escolas estejam atentas a este problema cada vez
mais grave.
Neste sentido, é o próprio trabalhador, no afã de se autovalorizar no
mercado, que é levado a se ver e a se propor a ser um valor de troca vantajoso. A
15
luta contra o desemprego, na sociedade do capital, é também uma reivindicação de
integração do trabalho ao capital.” (Machado, 1998:29)
Essa procura seria compensadora, através de melhores salários e mais empregabilidade
para esses indivíduos?
Podemos tirar algumas conclusões sobre a possibilidade da
Escolaridade não estar acompanhando essa nova necessidade do capital. Avaliando a opinião
de Machado (1998), quando diz que:
“Como a empresa trata a força de trabalho como valor de troca, ao atribuir um
salário ao trabalhador, ela procura se pautar em referências de mercado, procura
averiguar o que o investimento em educação já foi incorporado naquela pessoa. Mas
o valor de troca da força de trabalho não é dedutível somente deste acúmulo de
investimentos em educação, capacidades, qualidades e saberes internacionalizados
pelos trabalhadores.
O desemprego dos qualificados e diplomados, atualmente, é
crescente e ilustra bem esta situação.” Machado (1998:29)
O estudo nos permitirá conhecer a intensidade da relação entre escolaridade , salário e
empregabilidade e, de acordo com a teoria do capital humano e os conceitos de
empregabilidade, o efeito da escolaridade é forte e positivo, respectivamente no salário e na
empregabilidade.
Através dos resultados podemos analisar, no mercado formal da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro, se essas suposições se confirmam.
Dependendo do grau desses efeitos, supomos que a educação satisfaz as necessidades
atuais do capital, no caso de constatarmos uma relação forte e positiva com a empregabilidade
e, é recompensada pelo capital se apresentar um efeito positivo também de forte intensidade
16
no salário. Através de variações na intensidade e direção dos efeitos da escolaridade sobre o
salário e a empregabilidade, podemos delinear outras suposições.
17
REFERENCIAL TEÓRICO
A verificação do papel econômico da educação, cuja discussão resultou no surgimento
da teoria do capital humano, iniciou o debate sobre a integração entre educação escolar e as
necessidades do setor produtivo.
A apresentação das principais teses da teoria do capital humano e sua migração para os
conceitos da empregabilidade possibilitam-nos definir indicadores que representam
estatisticamente os resultados econômicos de tais teorias.
A tese central da teoria do capital humano vincula educação ao desenvolvimento
econômico, à distribuição de renda ou, de forma mais individual, é responsável direta pela
renda. Acredita-se que quanto mais elevado o nível de escolaridade, maior a probabilidade
do indivíduo melhorar o seu salário. Baseado em Rodrigues (1997), a economia capitalista
encontrou na teoria do capital humano uma justificativa para as diferenças sociais.
O
desenvolvimento da economia capitalista, marcado pela linha de produção criada por Ford,
denominado por Rodrigues (1997) como padrão de acumulação fordista , necessitou para a
sua sustentação a criação de um complexo societário articulado e integrado à produção em
massa, da reformulação do papel dos sindicatos, do Estado, e foi preciso, ainda, conformar os
corpos, os paladares, a escola e a cultura.
Baseado em Azevedo (2002), para o capital é
importante que o trabalhador ofereça uma força de trabalho com músculos e nervos capazes e
aptos para o trabalho, que acompanhe as inovações do processo produtivo e que opere
familiar e socialmente a força de trabalho para as novidades do mundo do trabalho.
18
Todo esse desenvolvimento não conseguiu trazer o benefício a todos, criando uma
necessidade de justificativa por parte do capital à sociedade.
A teoria do capital humano é uma forma de o capital explicar e justificar à sociedade a
permanência de dois níveis de problemas. Por um lado, quanto ao aspecto macroeconômico,
permaneceram as gigantescas diferenças de desenvolvimento econômico-social entre países; e
por outro, quanto ao aspecto microeconômico, permaneceram os profundos abismos que
separam os indivíduos no que diz respeito à renda, ao conforto material, ao acesso aos bens
culturais.
De acordo com Frigotto (2002), “é no contexto da busca de explicações para as
profundas desigualdades econômico-sociais entre nações e intranações, e após as duas
sangrentas Guerras Mundiais, que processos de aprendizagem escolar passam a receber uma
explícita e enfática função econômica específica – capital humano – que explicita o estoque
de conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e níveis de saúde que potenciam a força de
trabalho.
É sob a égide da teoria do capital humano que se traçam planos, diretrizes e
estratégias educacionais mormente para os países do Terceiro Mundo.
No Brasil, as
reformas universitárias de 1968, de 1º e 2º graus de 1971, a fundação do Mobral e inúmeros
outros programas se estruturaram, fundamentalmente, tendo como suporte a teoria do capital
humano”.
Baseado em Schultz (1967), um dos pioneiros na apresentação do termo e na
divulgação da teoria do capital humano, o conceito de capital, restrito às estruturas,
equipamentos de produção e patrimônio, é extremamente limitado, para estudar tanto o
crescimento econômico computável (Renda Nacional) como, o que é mais importante, todas
as conquistas no bem-estar, geradas pelo progresso econômico.
19
Schultz (1967) diz, ainda, que os trabalhadores se tornam capitalistas a partir do
momento em que começam a investir na aquisição de conhecimentos e habilidades e que
representam valor econômico e, conseqüentemente, propiciam-lhes maiores rendimentos.
A Teoria do Capital Humano apresenta na sua essência como solução para o
crescimento econômico e mudança na distribuição de Renda, o investimento em educação.
Baseado em Denerval Saviani, in Frigotto (1986), a educação deixa de ser entendida como
algo não meramente ornamental, mas decisivo do ponto de vista do desenvolvimento da
economia, e, de acordo com Schultz (1967), essas dúvidas ou confusões em torno do
crescimento econômico podem ser devidamente esclarecidas pela consideração do
investimento no capital humano.
De acordo com essa Teoria, o esforço do trabalhador pela sua escolarização poderá
significar mobilidade social e ganhos salariais e, em um plano macroeconômico, aumento de
produtividade.
A princípio, o valor econômico da educação não representaria valor significativo.
Uma dificuldade em classificar instrução como investimento vem da essência da negociação
do capital humano, que não pode ser negociado como o capital comum. A venda de um
conhecimento ou habilidade não retira esse conhecimento de quem o esteja negociando, e que
pode ser utilizado para outros fins.
O ser humano, com toda a sua potencialidade, é a figura principal, e efetivamente pode
fazer a diferença no sentido de construir, não só empresas mais ágeis e lucrativas, mas
também, e principalmente, um mundo mais justo.
20
A dificuldade para a avaliação da relação renda e educação está na definição do
conceito de educação.
A opção pelo grau de escolaridade como representativo para a
educação, além de ser a única variável disponível na fonte dos dados sobre o assunto, vem
baseada numa explanação de Schultz (1967) a respeito dessa dificuldade:
“Não é fácil firmar um conceito tanto sobre educação quanto sobre liberdade. A
dificuldade em definir a educação decorre das conotações que ela possa suscitar, o
que depende preponderantemente da cultura específica em que esta educação se
processa. A educação está, intimamente, associada à cultura da comunidade a que
serve e, em decorrência o conceito de educação difere de uma comunidade para
outra.
O que a educação tem como constante, em que pese a caracterização
emprestada por essas peculiaridades culturais, é o ensino e o aprendizado.
Assim,
educar significa, etimologicamente, revelar ou extrair de uma pessoa algo potencial e
latente; significa aperfeiçoar uma pessoa, moral e mentalmente, de maneira a tornála suscetível de escolhas individuais e sociais, e capaz de agir em consonância;
significa prepará-la para uma profissão, por meio de instrução sistemática; e, por
fim, significa exercitar, disciplinar ou formar habilidades, como, por exemplo,
aperfeiçoar o gosto de uma pessoa. A ação ou processo de atingir um ou mais desses
objetivos é, em primeira aproximação, o que se pode entender por educação”
(Schultz, 1967:18)
E ainda, segundo afirmativa de Schultz (1967) sobre a importância da instrução, podese dizer, na verdade, que a capacidade produtiva do trabalho é, predominantemente, um meio
de produção “produzido”.
Nós produzimos a nós mesmos e os recursos humanos são uma
conseqüência dos investimentos dos quais a instrução é a mais importante.
A teoria do capital humano certifica a importância do papel da escola e das políticas
educacionais no resultado produtivo do indivíduo e da sociedade: “Mediante a transmissão,
difusão e socialização de uma série de saberes, a escola, afirmam os teóricos desse campo,
contribui ao formar o capital humano que, como um poderoso fator produtivo, permite um
21
aumento tendencial das Rendas individuais e, conseqüentemente, o crescimento econômico
das sociedades.” (Gentili, 1999:87).
Mais recentemente, pudemos observar uma alteração na teoria do capital humano,
agora mais individualizada, cuja inserção competitiva no mercado depende dos
conhecimentos absorvidos pelo indivíduo e se esses conhecimentos são os mais apropriados
para esse mercado.
Tôrres (1999) constata que, em período recente, uma nova série de estudos aplicados à
análise da taxa de rendimento para avaliação do capital humano lançou as bases do que ela
chama de terceira geração na teoria do capital humano.
Surge então o conceito de empregabilidade.
A mudança significativa da teoria do
capital humano para o conceito da empregabilidade é o rompimento da relação individual com
o social.
Baseado em Azevedo (2002), os pressupostos da teoria do capital humano, que visam
maior investimento em educação, afinam-se com os requisitos de flexibilidade do mercado de
trabalho e do reforço intelectual na formação do trabalhador em tempos de acumulação
flexível. A teoria do capital humano foi uma espécie de “ideologia embaixadora” para os
tempos atuais de acumulação flexível, como se preparasse as bases para mudanças na
estrutura das relações do trabalho.
Empregabilidade pode ser definida como a qualidade que o indivíduo possui de estar
sincronizado com as exigências do mercado; a capacidade de se ajustar às mudanças
tecnológicas e sociais, ou seja, a condição daquele que, apesar das mudanças no mercado de
trabalho, continua apto para nele permanecer, o que, de acordo com Gentili (1999), lhe
22
garante uma chance maior de inserção no mercado, mas não uma certeza, simplesmente
porque no mercado não há lugar para todos.
Assinala Machado (1998), que o conceito de empregabilidade refere-se às condições
subjetivas da integração dos indivíduos à realidade atual dos mercados de trabalho.
Empregabilidade significa, na prática, senão melhores condições de competição para
sobreviver na luta por empregos, com uma oferta reduzida.
Diante dessa constatação, podemos afirmar que empregabilidade é a adição das
probabilidades de o indivíduo se manter empregado e não ficar fora do mercado de trabalho,
num determinado intervalo de tempo.
Empregabilidade deve estar sempre referida à presença, aquisição ou mobilização de
um conjunto objetivamente identificável de atributos da força de trabalho.
Atualmente,
empregabilidade, está relacionada com o fato de adquirirmos novos conhecimentos e
habilidades capazes de nos assegurar um posto dentro de qualquer organização.
Empregabilidade no mercado formal é manter-se empregado, apesar de seu conceito
afirmar que o mais importante não é ter um emprego, mas sim tornar-se empregável, ou seja,
manter-se competitivo em um mercado em contínua mutação. Portanto, no mercado formal,
tornar-se empregável é não ficar desempregado; é a facilidade que o indivíduo possui de,
terminado um vínculo empregatício com um estabelecimento, realizar um novo vínculo, com
o menor intervalo de tempo entre ambos.
Hirata (1997) infere que a “noção de Empregabilidade parece, como a de
competência, ter ainda contornos pouco delineados e se prestar a usos diversos, salvo na
literatura econômica sobre o desemprego”, e nas análises estatísticas, nas quais ela se refere
23
basicamente “à passagem da situação do desemprego para a de emprego”. Nesta acepção,
baseada em Gazier (1999), empregabilidade consistiria na “probabilidade de saída do
desemprego” ou, sob uma formulação positiva, na “capacidade de obter um emprego”. Essas
definições consideram tanto o mercado formal como o informal, e nós as utilizaremos apenas
para o caso do mercado formal de empregos.
Podemos assim definir Empregabilidade, para efeito de utilização em nossos estudos,
como sendo a probabilidade de saída do desemprego, que é igual a probabilidade
complementar de permanecer desempregado, ou seja, a probabilidade de permanecer
empregado. Em linguagem matemática, podemos representar por :
Pr {saída do desemprego} = 1 - Pr{permanecer desempregado} = Pr{permanecer empregado}
Desigualdade Salarial
O capital humano, como já discutimos anteriormente, tem a visão de que as diferenças
salariais têm uma relação positiva com os níveis de escolaridade, propondo assim um
investimento no sentido de ampliar a abrangência da educação.
Já a discussão sobre
desigualdade salarial, gira em torno da qualidade do ensino e não da quantidade.
Barros, Henriques e Mendonça (2002) apresentam em seu estudo a importância
relativa da heterogeneidade da escolaridade entre os trabalhadores e o valor atribuído pelo
mercado de trabalho à escolaridade.
O objetivo dos autores é o de compreender a
desigualdade salarial brasileira e fornecer evidências sobre a importância do processo de
24
expansão acelerado e contínuo da educação para assegurar o desenvolvimento
socioeconômico sustentável. Segundo Barros, Henriques e Mendonça (2002), a desigualdade
salarial retrata duas origens básicas.
Por um lado, pode estar traduzindo diferenças de
produtividade entre trabalhadores, mas por outro, pode corresponder à remuneração distinta
de trabalhadores com idênticas características produtivas, o que definiram como: revelada
pelo mercado de trabalho, a desigualdade resultante das diferenças na produtividade intrínseca
dos trabalhadores, e como gerada pelo mercado de trabalho, a desigualdade referente aos
processos de discriminação e segmentação.
No primeiro caso, os trabalhadores com
características individuais similares, mas diferentes produtividades, prestam serviços
diferenciados e são remunerados de forma distinta.
Nesse caso, o mercado, em última
instância, revela as diferenças existentes anteriormente ao ingresso dos trabalhadores no
mercado de trabalho. No segundo caso, a desigualdade salarial derivada da remuneração
diferenciada de trabalhadores igualmente produtivos, deve ser interpretada como gerada pelo
mercado de trabalho, na medida em que está tratando de forma diferenciada trabalhadores que
estão provendo serviços equivalentes.
Barros, Henriques e Mendonça (2002) produziram estimativas para a realidade
brasileira recente reconstituindo a origem de quase 60% do total da desigualdade salarial
observada, conforme apresentado na Tabela 1. Essa tabela apresenta os valores que indicam
a intensidade da contribuição de cada fonte para a desigualdade observada.
Essas fontes
referem-se à capacidade do mercado de trabalho gerar desigualdades por intermédio de
discriminações de gênero ou de raça e de segmentações regionais, setoriais ou derivadas do
grau de formalidade das relações trabalhistas e à capacidade do mercado de trabalho revelar
desigualdades preexistentes representadas por diferenças de treinamento e heterogeneidades
ocupacionais ou educacionais. Por exemplo, o valor associado à discriminação racial indica
25
quantos pontos percentuais a desigualdade salarial reduziria caso o salário médio de brancos e
não-brancos fosse igual.
Tabela 1 - DECOMPOSIÇÃO DA DESIGUALDADE SALARIAL DE ACORDO COM SUAS F ONTES P RINCIPAIS
Fonte
Fontes Identificáveis
Gerada pelo mercado de trabalho
Discriminação
Raça
Gênero
Segmentação
Formal versus Informal
Setorial
Regional
Revelada pelo Mercado de Trabalho
Diferenças de Experiência na Ocupação
Heterogeneidade Ocupacional
Heterogeneidade Educacional
Fontes não-identificáveis
Total
Fonte: Barros, Henriques e Mendonça (2002:4)
Contribuição (%)
59
11
4
1
3
7
1
5
1
48
2
6,5
39,5
41
100
A conclusão dos autores é que:
“(...) o mercado de trabalho brasileiro, de forma preponderante, revela uma
desigualdade pretérita ao acesso dos trabalhadores no campo das negociações
salariais.
Assim, as diferenças de produtividade resultantes de diferenças
educacionais correspondem à principal fonte de desigualdade salarial. Isto significa
que a heterogeneidade na escolaridade dos trabalhadores, muito mais do que o
tratamento diferenciado de trabalhadores igualmente produtivos, responde, de forma
primordial, pela desigualdade de salários.” Barros, Henriques e Mendonça (2002:4)
26
No nosso trabalho podemos admitir que a explicação do salário pelo grau de
escolaridade possa estar suavizada por essa heterogeneidade dos salários num mesmo nível de
escolaridade, não sendo nossa intenção abordar as diferenças salariais por essa ótica. O que
desejamos dizer sobre essa sociedade, em termos mais estatísticos, é que como a variabilidade
dentro de um mesmo nível salarial é supostamente grande, esta seria uma parte considerável
da variância total. Portanto, a variabilidade entre níveis, a outra parte da variância total, este
sim o nosso objeto, estaria suavizada.
27
METODOLOGIA
Definição da População
A população estudada foi definida como sendo as pessoas empregadas no mercado
formal, ou seja, os indivíduos que têm vínculo empregatício com um determinado
estabelecimento, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 1999. Foram levantados os
dados dos elementos dessa população entre janeiro de 1990 e dezembro de 1999.
Assim,
definida a população, o período a ser estudado compreende o tempo total de 120 meses.
A opção pelos indivíduos com vínculo empregatício em 1999 foi preferida, por
exemplo, aos indivíduos com vínculo empregatício em 1990, por razões conforme a seguir
citadas.
Se tivéssemos optado pelos indivíduos com vínculo em 1990 e um indivíduo saísse do
mercado formal e não retornasse até 1999.
O período da data da saída desse indivíduo até
dezembro de 1999 poderia ser computado como tempo de desemprego? E se este indivíduo
se aposentou?
A fim de evitar esse problema, resolvemos trabalhar com os indivíduos que tinham
vínculo em 1999 e buscar o seu histórico desde 1990.
O tempo total desses indivíduos no mercado formal inicia-se, por definição, no mês e
ano referentes à data de admissão da sua primeira aparição no período de 1990 a 1999.
28
Quando a data referente à admissão do indivíduo for inferior a janeiro de 1990, de
modo a preservar o tempo total a ser analisado, igual a 120 meses, a contagem do tempo
inicia-se em janeiro de 1990.
Base dos Dados
Foi solicitado à Coordenação de Estatísticas do Trabalho e Identificação Profissional –
CGETIP, do Ministério do Trabalho e Emprego, um levantamento das informações constantes
em suas bases. As estatísticas foram extraídas da Relação Anual de Informações Sociais –
RAIS, instrumento de coleta de dados para a gestão governamental do setor de trabalho,
instituído pelo Decreto nº 76.900, de 23/12/1975, que tem como objetivo o suprimento às
necessidades de controle da atividade trabalhista no País, o provimento de dados para a
elaboração de estatísticas do trabalho, e ainda, a disposição de informações do mercado de
trabalho às entidades governamentais. A RAIS é um Registro Administrativo, de âmbito
nacional, com periodicidade anual e obrigatório para os estabelecimentos, ou seja, a base de
dados da RAIS é originária dos registros administrativos do Ministério do Trabalho, utilizados
para acompanhar a arrecadação de contribuições e a distribuição de benefícios previstas na
legislação trabalhista. A RAIS representa, praticamente, um censo anual do mercado formal
brasileiro, na medida em que todas as organizações legais (privadas e públicas) são obrigadas
a declará-la.
O tratamento aplicado aos dados dos estabelecimentos e aos vínculos
empregatícios permite sua desagregação no âmbito do município, de subatividades
econômicas e de ocupações.
Tais informações são disponibilizadas segundo o estoque
(número de empregos) e a movimentação de mão-de-obra empregada (admissões e
desligamentos), por gênero, faixa etária, grau de instrução, rendimento médio e faixa de
rendimentos em salários mínimos. A população abrangida, atualmente, é superior a 2 milhões
29
de estabelecimentos com vínculos empregatícios.
Por ser um registro administrativo com
informações prestadas pelos empregadores, apesar do alto grau dos testes de consistência
executados pelo Ministério do Trabalho, seus dados devem ser utilizados com a cautela
necessária a esse formato de banco de dados devido a erros e omissões.
Segundo De Negri et al. “ ... a RAIS mostrou ser fonte confiável de análise do
mercado formal de trabalho no Brasil, principalmente por sua natureza censitária, amplitude
de informação, cobertura geográfica e dimensão temporal.
Ademais, a RAIS permite
análises longitudinais, o que viabiliza a investigação avançada de vários problemas relativos
ao mercado de trabalho e à distribuição de Salário com importantes impactos na política
pública.” (De Negri et al.,2001:19)
Depuração dos Dados
As informações recebidas continham, para cada indivíduo com vínculo empregatício
em 1999, o histórico desse indivíduo para cada vínculo, ou seja, para cada empresa que o
indivíduo trabalhou nos foram informados: ano e mês de admissão e ano e mês de demissão
(o valor zero nesse campo implica que o indivíduo permanecia com vínculo naquele
estabelecimento, em dezembro de 1999). Além desses dados foram fornecidos, para cada ano
do período estudado, a remuneração média em salários-mínimos, o sexo, a subatividade em
que o indivíduo atuava, de acordo com a classificação da Fundação Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE, o grau de instrução, tabulado conforme o manual da RAIS/99
e apresentado na Tabela 2, e a faixa etária, conforme a Tabela 3.
30
Tabela 2 – Especificação do Grau de Instrução
GRAU DE INSTRUÇÃO
DESCRIÇÃO
1
Analfabeto, inclusive o que, embora tenha recebido instrução,
não se alfabetizou
2
Até a 4ª série incompleta do 1º grau (primário incompleto) ou
que tenha se alfabetizado sem ter freqüentado escola regular
3
Com a 4ª série completa do 1º grau (primário completo)
4
Da 5ª à 8ª série incompleta do 1º grau (ginásio incompleto)
5
Primeiro grau (ginásio) completo
6
Segundo grau (colegial) incompleto
7
Segundo grau (colegial) completo
8
Superior incompleto
9
Superior completo
Fonte: Manual de Orientação da Relação Anual de Informações Sociais – RAIS. Ano-base
2000. Brasília: MTE/SPPE/DES, 2000.
Tabela 3 – Especificação da Faixa Etária
F AIXA E TÁRIA
P ERÍODO EM ANOS
1
10 a 14
2
15 a 17
3
18 a 24
4
25 a 29
5
30 a 39
6
40 a 49
7
50 a 64
8
65 ou mais
Fonte: Manual de Orientação da Relação Anual de
Informações Sociais – RAIS. Ano-base 2000. Brasília:
MTE/SPPE/DES, 2000.
31
Extração dos dados para um arquivo de trabalho
O arquivo original recebido do Ministério do Trabalho e do Emprego continha mais de
3.000.000 (três milhões) de registros, isto porque cada vínculo do indivíduo era representado
por um registro com os valores correspondentes das variáveis relacionadas àquele vínculo.
Foi desenvolvido um programa de computador para ler o arquivo original e criar um arquivo
de trabalho, onde cada registro corresponderia a um indivíduo, e calcular as variáveis: tempo
total no mercado, tempo de emprego, tempo de desemprego, empregabilidade, para cada
indivíduo da população, além de recolher as variáveis existentes, tais como: sexo, grau de
escolaridade, faixa etária, etc. Esse novo arquivo continha um total de 2.589.366 registros.
Podemos definir esse número como o tamanho da população a ser estudada, ou seja, o número
de indivíduos que pertenciam ao mercado formal de empregos na região Metropolitana do Rio
de Janeiro no ano de 1999.
Definição das Variáveis
A princípio, selecionamos os seguintes indicadores para o estudo comparativo:
Escolaridade, Idade, Salário e Empregabilidade, com o objetivo de determinar as relações
entre esses indicadores. As variáveis representativas dos indicadores foram assim definidas:
Escolaridade – representada pelo Grau de Instrução, conforme definido
anteriormente (Tabela 2), correspondente à informação relatada na RAIS de 1999;
Salário – representada pela Remuneração Média.
Foi utilizada a
Remuneração Média correspondente ao ano de 1999, expressa em salários-mínimos;
32
Idade – representada pela Faixa Etária, conforme a Tabela 3, e
correspondente ao ano de 1999;
Empregabilidade – foi definida como sendo a proporção entre o tempo em
que o indivíduo esteve empregado e o tempo total em que o indivíduo esteve no
mercado formal, tempos esses relativos ao período observado (janeiro de 1990 a
dezembro de 1999).
Ei =
TEi
,
TTi
onde:
Ei = Empregabilidade do i-ésimo indivíduo, Ei
ε
(0,1];
TEi = tempo em que o i-ésimo indivíduo esteve empregado no
mercado formal, no período de observação;
TTi = tempo total em que o i-ésimo indivíduo esteve no mercado
formal, no período de observação.
O tempo total em que o indivíduo esteve no mercado formal, TTi , foi calculado
através da contagem do número de meses entre a data de Competência de Admissão
(mês/ano) e a data de Competência de Demissão (mês/ano), observando-se que o período de
estudo está delimitado de janeiro de 1990 a dezembro de 1999 e ordenados os vínculos do
indivíduo do mais antigo para o mais atual pela data da Competência de Admissão. Assim
33
sendo, o tempo total em que o indivíduo esteve no mercado formal obedeceu aos seguintes
critérios:
i)
se a data de Competência de Admissão for anterior a janeiro de 1990, para
efeito de contagem do tempo total em que o sujeito esteve no mercado formal,
o início do período foi fixado em janeiro de 1990;
ii)
se o indivíduo teve no período de 1990 a 1999 apenas um vínculo, o tempo
total foi calculado como sendo o número de meses da data de Competência de
Admissão a dezembro de 1999;
iii)
para o indivíduo que apresentou a última data de Competência de Demissão
inferior a dezembro de 1999, o período dessa data até dezembro de 1999 foi
considerado como se ele estivesse no mercado formal de empregos. Cabe
lembrar que, como a população foi definida como sendo constituída por
aqueles que tiveram vínculo empregatício, em 1999, e estamos estudando o seu
histórico de 1990 a 1999, consideramos que esse indivíduo ainda estava no
mercado formal, apesar de desempregado em alguns meses finais de 1999;
iv)
o tempo total máximo observado foi o relativo ao período de 120 meses,
correspondente ao tempo em que o indivíduo ingressou no mercado formal ou
ao qual já pertencia em janeiro de 1990;
v)
no caso de indivíduos com mais de um vínculo empregatício, se houver
coincidência de períodos, ou seja, se o indivíduo teve vínculo empregatício
com dois estabelecimentos simultaneamente, ou ainda, trabalhou em dois ou
mais empregos ao mesmo tempo, foram considerados, para efeito de contagem
do tempo total, os meses coincidentes como sendo apenas um.
34
O tempo total no mercado formal de um indivíduo, TTi , está dividido em dois tempos
distintos e complementares em relação a esse tempo, a saber: o seu tempo de emprego TEi e
o seu tempo de desemprego TDi .
Definido o tempo total em que o indivíduo esteve no mercado formal TTi , o seu
tempo de emprego TEi será igual ao número de meses em que esse indivíduo teve vínculo
empregatício ativo. Por outro lado, o seu tempo de desemprego TDi será igual ao número de
meses em que esse indivíduo teve vínculo não-ativo, ou melhor, não teve vínculo
empregatício.
Definidos dessa forma, a soma
do tempo de emprego TEi com o de
desemprego TDi tem como resultado o tempo total do indivíduo no mercado formal, TTi ,
constituido pela seguinte igualdade:
TTi = TEi + TDi
Eliminação dos Dados Inconsistentes
Analisados os registros do arquivo apresentado no item anterior, eliminara-se algumas
inconsistências ou falta de informação, tipo grau de Escolaridade não informado ou os
indivíduos que entraram no mercado formal em dezembro de 1999, o que equivale a uma
contagem nula de tempo.
Identificados esses registros, num total de 200.469, optamos pela sua simples
eliminação, uma vez que estamos trabalhando com a população completa, e sua eliminação
não afetaria a nossa análise.
Após a eliminação desses registros, permaneceram para a
análise estatística 2.388.897 indivíduos.
35
Modelo Utilizado para Análise
É comum hoje na análise estatística, principalmente em pesquisa quantitativa nas
ciências sociais e comportamentais, a modelagem de equações estruturais.
Nessas áreas
podem ser citados dois problemas fundamentais: a mensuração de variáveis que não são
observáveis diretamente (variáveis latentes) e a explicação de relações causais entre essas
variáveis. A modelagem de equações estruturais procura responder a esses dois problemas,
primeiro através do modelo de mensuração, e segundo, através do modelo estrutural, que é um
diagrama de caminho crítico, que relaciona variáveis dependentes e independentes.
A
modelagem de equações estruturais também é conhecida pelo nome de LISREL (o software
mais popular utilizado para análise).
É uma extensão de várias técnicas multivariadas,
principalmente análise de regressão múltipla e análise fatorial.
Por exemplo, na análise
fatorial exploratória, as variáveis observadas estão relacionadas com todos os fatores comuns;
na análise fatorial confirmatória, uma estrutura de relação é imposta e confirmada pela
análise. As variáveis observadas não precisam estar relacionadas a todos os fatores comuns,
e o modelo é imposto com base no conhecimento teórico que se tem sobre o problema em
estudo. Utilizamos o modelo de equações estruturais com variáveis observacionais, que é um
caso especial dos modelos de equações estruturais mais gerais, com variáveis latentes e
observacionais.
Em modelos de regressão múltipla ou de análise de variância, sabemos que os
coeficientes de regressão ou as estimativas de variância do erro derivam da minimização da
soma dos quadrados das diferenças da variável dependente predita e observada. No modelo
de equações estruturais, em vez de minimizar funções de valores observados e preditos,
minimizamos a diferença entre as covariâncias da amostra e as covariâncias preditas pelo
modelo.
36
Baseado em Bollen (1989), análise de caminho crítico é uma metodologia para
analisar sistemas de equações estruturais.
Aplicações contemporâneas enfatizam três
componentes de análise de caminho crítico: 1- o diagrama, 2- a decomposição da covariância
e correlações em termos de parâmetros do modelo, e 3- as distinções entre efeitos diretos,
indiretos e totais de uma variável em outra. Os diagramas de caminho são uma representação
pictórica de um sistema de equações simultâneas. Uma das vantagens principais de um
diagrama de caminho é que ele apresenta o quadro das relações. Para muitos investigadores,
esse quadro pode representar as relações mais claramente que as equações. Através do
diagrama de caminho existe um jogo de regras que relacionam as correlações (ou
covariâncias) entre as variáveis e os parâmetros do modelo.
A análise do caminho crítico identifica efeitos diretos, indiretos e totais de uma
variável em outra.
Os efeitos diretos são os não mediados por outra variável; os efeitos
indiretos operam por pelo menos uma variável interveniente; e os efeitos totais são a soma dos
efeitos diretos e indiretos.
De acordo com o modelo, o diagrama de caminho crítico utilizado em nossa análise
ficou assim definido:
γ11
Escolaridade
Salário
X1
Y1
ζ1
γ21
β 21
β12
γ12
Idade
Empregabilidade
X2
Y2
γ 22
ζ2
37
resultando no seguinte sistema de equações:
Y1 = β 12 Y2 + γ 11 X 1 + γ 12 X 2 + ζ 1
,

Y2 = β 21Y1 + γ 21 X 1 + γ 22 X 2 + ζ 2
onde :
X1 à Escolaridade;
X2 à Idade;
Y1 à Salário;
Y2 à Empregabilidade;
γ11 à Efeito direto de Escolaridade (X1) em Salário (Y1);
γ12 à Efeito direto de idade (X2) em Salário (Y1);
γ21 à Efeito direto de Escolaridade (X1) em Empregabilidade (Y2);
γ22 à Efeito direto da variável idade (X2) na variável Empregabilidade (Y2);
β12 à Efeito direto da variável Empregabilidade (Y2) na variável Salário (Y1);
β21 à Efeito direto da variável Salário (Y1) na variável Empregabilidade (Y2);
ζ1 , ζ2 à Erros aleatórios ou erros das equações do modelo.
Apesar de existirem, nas informações levantadas sobre a população estudada, várias
características disponíveis, o objetivo principal do estudo é verificar a possível relação de
escolaridade com salário e empregabilidade. Optou-se por incluir a característica referente à
variável idade, pois estávamos interessados na determinação de outras variáveis que também
38
influenciassem as variáveis, salário e Empregabilidade.
A não inclusão de mais variáveis
deveu-se a impossibilidade da determinação dos parâmetros do modelo e, para isso, seria
necessária a criação de outras relações.
Optou-se pela variável Idade, por ser esta a que
apresentava dentre as demais variáveis disponíveis o maior grau de correlação com as
variáveis Salário e Empregabilidade, veja Tabela 9.
Cálculo dos parâmetros do modelo
Utilizando-se o programa LISREL para a determinação dos parâmetros do modelo
empregado, chegamos aos seguintes resultados:
γ11 = 0,29;
γ12 = 0,05;
γ21 = 0,55;
γ22 = 0,46;
β12 = 1,00;
β21 = - 1,20
ζ 1 = 1,73
ζ 2 = 2,15
39
resultando na determinação das seguintes equações :
 Y1 = Y2 + 0, 29 X 1 + 0,05 X 2 + 1, 73

Y2 = −1, 20 Y1 + 0,55 X 1 + 0, 46 X 2 + 2,15,
e na representação pelo diagrama de caminho crítico:
0,29
Escolaridade
Salário
X1
Y1
1,73
0,55
1,00
−1,20
0,05
Idade
Empregabilidade
X2
Y2
0,46
2,15
40
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Análise com Base nas Tabulações da Variáveis
As tabulações apresentadas na análise dos dados, referentes à população, foram
realizadas utilizando-se o SPSS.
Algumas tabulações foram exportadas para o aplicativo
Excel, para o confeccionamento dos gráficos.
Tabela 4 - Distribuição dos indivíduos no Mercado Formal
Da Região Metropolitana do Rio de Janeiro por Faixa Etária
F AIXA ETÁRIA
P ERÍODO EM
F REQÜÊNCIA
%
ANOS
1
10 a 14
162
0,01
2
15 a 17
15.444
0,65
3
18 a 24
427.433
17,89
4
25 a 29
398.995
16,70
5
30 a 39
716.144
29,97
6
40 a 49
535.074
22,40
7
50 a 64
269.386
11,28
8
65 ou mais
26.259
1,10
2.388.897
100,00
TOTAL
41
Podemos verificar na Tabela 4, que no mercado formal da Região Metropolitana do
Rio de Janeiro o contingente de menores de idade é praticamente nulo. A faixa dos 30 aos 49
anos representa mais da metade da população do mercado formal, e os indivíduos na faixa dos
trinta anos representam, sozinhos, quase um terço da população total. A partir dos 65 anos
voltamos a ter um contingente mínimo, com pouco mais de 1%, conforme podemos visualizar
melhor no Gráfico 1, abaixo elaborado, a partir da Tabela 4.
Gráfico 1 – Distribuição por Faixa Etária
800000
700000
600000
Nº de Trabalhadores
500000
400000
300000
200000
100000
0
1
2
3
4
5
6
7
8
Faixa Etária
O Mercado Formal de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é
formado por praticamente dois terços de indivíduos do sexo masculino, como podemos
verificar na Tabela 5, e melhor visualizar no Gráfico 2, elaborado a partir desta Tabela.
42
Tabela 5 - Distribuição dos indivíduos, por Gênero, no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
SEXO
F REQÜÊNCIA
%
SALÁRIO M ÉDIO
(EM S.M.)
1- Masculino
1.500.311
63
6,56
2 - Feminino
888.586
37
5,32
TOTAL
2.388.897
100
6,10
Gráfico 2 – Distribuição por Sexo
Feminino
37%
63%
Masculino
Os salários dos indivíduos do sexo masculino são em média superiores em quase 25%
do salário médio dos indivíduos do sexo feminino.
43
Um parâmetro interessante na distribuição da escolaridade é que nos graus cuja
representação é a relativa à escolaridade incompleta, existe uma diferença significativa, para
menos, no número de indivíduos, como demonstrado no Gráfico 3. Podemos deduzir que os
indivíduos, quando entram no Mercado Formal de Emprego na Região Metropolitana do Rio
de Janeiro, param de estudar, e são poucos os que tentam melhorar a sua escolaridade.
Tabela 6 - Distribuição por Escolaridade dos indivíduos no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
ESCOLARIDADE
F REQÜÊNCIA
%
Analfabeto, inclusive o que, embora
tenha recebido instrução, não se
alfabetizou
1
27981
1,17
Até a 4ª série incompleta do 1º grau
(primário incompleto) ou que tenha se
alfabetizado sem ter freqüentado escola
regular
2
148.223
6,21
Com a 4ª série completa do 1º grau
(primário completo)
3
332.109
13,90
Da 5ª à 8ª série incompleta do 1º grau
(ginásio incompleto)
4
267.820
11,21
Primeiro grau (ginásio) completo
5
507.571
21,25
Segundo grau (colegial) incompleto
6
169.910
7,11
Segundo grau (colegial) completo
7
559.518
23,42
Superior incompleto
8
92.532
3,87
Superior completo
9
283.233
11,86
2.388.897
100,00
TOTAL
44
Gráfico 3 – Distribuição por Escolaridade
Nº de Trabalhadores
600000
500000
400000
300000
200000
100000
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Escolaridade
As taxas de empregabilidade têm um comportamento decrescente nos primeiros quatro
graus, ou seja, até o grau com escolaridade entre a 5ª e a 8ª série incompleta, à exceção do
grau 3 – 4ª série completa, que tem uma pequena elevação em relação ao grau anterior,
mantendo-se ainda superior ao grau 4. A partir de então apresenta um crescimento contínuo,
atingindo o seu ápice nos indivíduos com curso superior completo, como podemos verificar
no Gráfico 4, elaborado a partir da Tabela 7.
Escolaridade
9
Ge
ra
l
8
7
6
5
4
3
2
1,2
1
0,8
0,6
0,4
0,2
0
1
Empregabilidade
Gráfico 4 – Empregabilidade por Escolaridade
45
Tabela 7 - Empregabilidade por Escolaridade no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
ESCOLARIDADE
EMPREGABILIDADE
Analfabeto, inclusive o que, embora
tenha recebido instrução, não se
alfabetizou
1
0,9012
Até a 4ª série incompleta do 1º grau
(primário incompleto) ou que tenha se
alfabetizado sem ter freqüentado escola
regular
2
0,8842
Com a 4ª série completa do 1º grau
(primário completo)
3
0,8978
Da 5ª à 8ª série incompleta do 1º grau
(ginásio incompleto)
4
0,8762
Primeiro grau (ginásio) completo
5
0,8854
Segundo grau (colegial) incompleto
6
0,8886
Segundo grau (colegial) completo
7
0,9096
Superior incompleto
8
0,9201
Superior completo
9
0,9643
GERAL
0,9028
Na distribuição dos rendimentos médios por Escolaridade, Gráfico 5, com base na
Tabela 8, podemos verificar, do grau 1 (analfabeto) até o grau 5 (1º grau completo) os salário
médios sem muita diferença mas ligeiramente decrescentes até o grau 4 (da 5ª a 8ª série
incompleta), à exceção do grau 2 (até a 4ª série incompleta), que apresenta um acréscimo em
relação aos analfabetos. A partir do grau 6 (segundo grau incompleto), acontece o primeiro
salto em relação à escolaridade anterior, salto este de quase dois salários mínimos, se
46
constituindo a partir desse ponto numa progressão geométrica do incremento, passando para
um aumento de quatro salários-mínimos de diferença dos indivíduos com superior incompleto
em relação aos indivíduos com segundo grau completo. Voltando a manter a mesma razão
geométrica no incremento, ou seja, dando um pulo de quase oito salários mínimos para os
indivíduos com superior completo.
Tabela 8 – Remuneração Média por Escolaridade no Mercado Formal
de Empregos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
ESCOLARIDADE
REMUNERAÇÃO MÉDIA
(em salários-mínimos)
Analfabeto, inclusive o que, embora
tenha recebido instrução, não se
alfabetizou
1
3,94
Até a 4ª série incompleta do 1º grau
(primário incompleto) ou que tenha se
alfabetizado sem ter freqüentado escola
regular
2
4,27
Com a 4ª série completa do 1º grau
(primário completo)
3
3,51
Da 5ª à 8ª série incompleta do 1º grau
(ginásio incompleto)
4
3,43
Primeiro grau (ginásio) completo
5
3,74
Segundo grau (colegial) incompleto
6
4,36
Segundo grau (colegial) completo
7
5,91
Superior incompleto
8
9,95
Superior completo
9
17,26
GERAL
6,10
47
Gráfico 5 - Remuneração Média Escolaridade em Salários Mínimos
9
Ge
ral
8
7
6
5
4
3
2
1
20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Tabela 9 – Correlação de Pearson entre as variáveis pesquisadas
VARIÁVEIS
Escolaridade
Salário
Idade
Empregabilidade
Sexo
Escolaridade
1
0,384
0,002
0,089
0,246
Salário
0,384
1
0,232
0,089
- 0,069
Idade
0,002
0,232
1
0,180
- 0,015
Empregabilidade
0,089
0,089
0,180
1
0,037
Sexo
0,246
- 0,069
- 0,015
0,037
1
48
Análise com os Resultados da Aplicação do Modelo
Com esses resultados podemos tabular os efeitos determinados pelo modelo:
TABELA 10 – EFEITOS DIRETOS DETERMINADOS PELO MODELO
VARIÁVEIS
QUE CAUSAM EFEITO
QUE SOFREM O EFEITO
SALÁRIO
EMPREGABILIDADE
ESCOLARIDADE
0,29
0,55
IDADE
0,05
0,46
-
- 1,20
1,00
-
SALÁRIO
EMPREGABILIDADE
Observando os efeitos contidos na Tabela 10 - Efeitos Diretos, podemos admitir as
seguintes conclusões:
1- O efeito direto de escolaridade em empregabilidade é quase o dobro do que o
efeito direto de escolaridade em salário, sendo os dois efeitos positivos, o que
implica que um acréscimo no grau de escolaridade resultará em um efeito direto
positivo maior na taxa de empregabilidade do que no salário do indivíduo.
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2- Em relação à idade, podemos notar que ela pouco influencia diretamente o salário,
tendo uma influência bem mais significativa na empregabilidade.
3- O efeito direto de maior intensidade determinado pelo modelo é o efeito do salário
sobre a empregabilidade, só que de forma negativa e com intensidade 20%
superior.
Isto implica que a taxa de empregabilidade do indivíduo tende a se
reduzir com a conquista de melhores salários.
4- De sentido oposto ao efeito comentado no item anterior, é o efeito direto de
empregabilidade no salário, pois apresenta um valor um pouco menor em
intensidade, mas positivo. Podemos deduzir que indivíduos com melhores taxas
de empregabilidade tendem a melhorar os seus rendimentos.
TABELA 11 – EFEITOS INDIRETOS DETERMINADOS PELO MODELO
VARIÁVEIS
QUE CAUSAM EFEITO
EFEITO
INTERVENIENTES
QUE SOFREM O EFEITO
INDIRETO
Salário
Empregabilidade
0,29 . (-1,20) =
- 0,35
Empregabilidade
Salário
0,55 . 1,00 =
0,55
Salário
Empregabilidade
0,05 . (- 1,20) =
- 0,06
Empregabilidade
Salário
0,46 . 1,00 =
0,46
ESCOLARIDADE
IDADE
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A modelagem utilizada para este estudo permite, também, a análise dos efeitos
indiretos das variáveis exógenas nas variáveis endógenas, conforme demonstrado na Tabela
11.
No nosso modelo, escolaridade e idade são as variáveis exógenas e salário e
empregabilidade as endógenas.
O efeito indireto da variável escolaridade é negativo na variável empregabilidade,
através da variável interveniente salário.
Já sobre o salário, escolaridade apresenta
indiretamente efeito positivo idêntico ao efeito direto.
Idade tem efeito indireto sobre empregabilidade de intensidade muito pouco superior
ao efeito direto, só que negativo. Sobre o salário, da mesma forma que escolaridade, idade
influencia na mesma intensidade e direção do efeito direto.
TABELA 12 – EFEITOS TOTAIS DETERMINADOS PELO MODELO
VARIÁVEIS
QUE CAUSAM EFEITO
QUE SOFREM O EFEITO
SALÁRIO
EMPREGABILIDADE
ESCOLARIDADE
0,55 + 0,29 = 0,84
0,55 – 0,35 = 0,20
IDADE
0,05 + 0,46 = 0,51
0,46 – 0,06 = 0,40
O modelo apresenta os efeitos das variáveis exógenas sobre as variáveis endógenas,
demonstrados na Tabela 12, que são a soma dos efeitos diretos e indiretos.
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O efeito total da escolaridade sobre o salário é quatro vezes maior que o efeito total da
escolaridade sobre a empregabilidade.
O efeito total da idade sobre o salário cresce bastante em relação ao efeito direto, e
pouco se altera sobre empregabilidade, na mesma comparação com o efeito direto.
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CONCLUSÕES
O objetivo principal do trabalho é o de analisar, sob a ótica da Teoria do Capital
Humano e dos conceitos de empregabilidade, a relação entre escolaridade, salário e
empregabilidade e outras variáveis que possam ter influência sobre esta relação.
Em um primeiro momento, em função da modelagem escolhida, foi analisado o grau
de correlação existente entre as características dos indivíduos na população, através do cálculo
da matriz de correlações, apresentada na Tabela 9. Além das variáveis principais do estudo:
escolaridade, salário e empregabilidade, optou-se pela inclusão apenas da variável idade, por
ser esta a que apresentava o maior grau de correlação com as principais variáveis do estudo.
A primeira conclusão que podemos extrair dos resultados do modelo é referente ao
efeito direto que as variáveis explicativas (exógenas) têm sobre as variáveis a serem
determinadas (endógenas) e principalmente o efeito direto de escolaridade sobre salário e
empregabilidade. Nessa relação direta, Escolaridade tem um efeito quase duas vezes maior
sobre empregabilidade do que sobre o salário, levando-nos em um primeiro momento a
admitir que, na população em estudo, o principal argumento das discussões sobre
empregabilidade prevaleceria sobre o argumento da Teoria do Capital Humano.
Uma constatação interessante refere-se às relações diretas entre salário e
empregabilidade. Empregabilidade tem um efeito direto e positivo sobre o Salário, o que nos
ajuda a afirmar que quanto melhor a empregabilidade do indivíduo maior a tendência a
melhorar o seu salário.
O efeito inverso, salário sobre empregablidade, tem intensidade
superior em 20%, ou seja, salário influencia mais a empregabilidade do que empregabilidade
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influencia salário, porém de modo inverso. Como o efeito do salário sobre empregabilidade é
negativo, conforme os indivíduos vão escalando os níveis de salário tendem a ter uma perda
na sua empregabilidade.
A outra variável exógena no modelo utilizado é idade, que tem um efeito, apesar de
positivo, muito pequeno sobre o salário. Era de se esperar que com a idade, por influência de
outros fatores, como por exemplo, a experiência adquirida, o salário do indivíduo tendesse a
se elevar, o que pela magnitude do efeito de idade sobre salário, isso não se confirma de
forma muito forte.
Já sobre empregabilidade, idade tem um efeito maior e positivo, o que
implica dizer que a idade no mercado formal do Rio de Janeiro é um fator de melhora da
empregabilidade.
Interpretamos até agora os efeitos diretos. O modelo nos permite avaliar, também, os
efeitos indiretos.
Esses são os resultados das influências de umas variáveis sobre outras,
através da interveniência de uma terceira variável.
Analisando o efeito indireto da
escolaridade sobre o salário, temos como resultado o produto do efeito direto de escolaridade
em empregabilidade (0,55) pelo efeito direto de empregabilidade em salário (1,00).
A
passagem pela variável empregabilidade do efeito de escolaridade sobre o salário resulta em
um efeito positivo, ou seja, o nível de escolaridade do indivíduo em conjunto com sua taxa de
empregabilidade tendem a influenciar positivamente no seu salário.
Antes de avançarmos na avaliação dos demais efeitos indiretos determinados pelo
modelo, vamos nos manter na relação escolaridade x salário.
Vimos que escolaridade tem
um efeito direto e positivo sobre o salário, e que escolaridade tem , também, um efeito
indireto e positivo, através da variável interveniente empregabilidade, sobre o salário.
A
soma dos efeitos direto e indireto nos dá o efeito total de escolaridade sobre salário, cujo
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resultado é positivo.
Concluímos, então, que escolaridade tem influência positiva sobre o
salário e que através da interveniência de empregabilidade tende a ampliar essa influência.
As Tabelas 10, 11 e 12 apresentam os efeitos diretos, indiretos e totais,
respectivamente, entre as variáveis utilizadas no modelo.
Analisemos, agora, a influência da escolaridade na empregabilidade. Como já vimos
anteriormente, escolaridade tem um efeito direto e positivo sobre a empregabilidade.
O
efeito indireto é o resultado do produto do efeito direto de escolaridade na variável
interveniente salário (0,29), pelo efeito direto de salário em empregabilidade (- 1,20). Como
este efeito é negativo, escolaridade, através da variável interveniente salário, exerce um efeito
negativo na empregabilidade.
Apesar disso, o efeito total, resultado da somas dos efeitos
direto e indireto, ainda se mantém positivo, mas com menor intensidade. Como já havíamos
verificado na análise dos efeitos diretos, salário agora como variável interveniente de
escolaridade, volta a influir negativamente na empregabilidade do indivíduo.
Verificando todos esses efeitos de escolaridade, tanto em salário quanto em
empregabilidade, o efeito direto de escolaridade em empregabilidade é maior que o efeito
direto de escolaridade em salário, mas nos efeitos totais essa relação se inverte. Escolaridade
passa a influir mais em salário do que na empregabilidade.
Executando-se a mesma análise, só que agora sobre os efeitos da idade no salário e na
empregabilidade, verificamos que idade, assim como escolaridade, tem um efeito direto maior
sobre a empregabilidade, e também invertendo a relação quando se trata dos efeitos totais.
A inversão dessas relações é resultado dos efeitos diretos entre salário e
empregabilidade, que conseguem reverter o sentido nos efeitos totais, apesar dos efeitos
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diretos de escolaridade e idade sobre o salário serem menores do que o seu respectivo efeito
direto sobre empregabilidade,.
Os resultados do modelo nos permitem afirmar que as principais premissas da Teoria
do Capital Humano e os conceitos de empregabilidade, relativos à influência positiva da
educação (aqui representada pela escolaridade) sobre o salário e sobre a empregabilidade, são
confirmadas.
Verificamos, também, uma forte relação entre as duas variáveis endógenas,
salário e empregabilidade.
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RECOMENDAÇÕES
Quanto à população estudada, fica a sugestão para trabalhos posteriores sobre uma
análise com a aplicação do modelo aqui utilizado, estratificando-se essa população por tipo de
ocupação e realizando uma análise independente por estrato, e assim permitindo serem
confrontadas as diferenças sobre a influência da escolaridade nos diversos tipos de ocupação.
Em trabalhos futuros, seria interessante a comparação entre os resultados desse mesmo
modelo, para as principais regiões metropolitanas do Brasil, de modo a se verificar a
existência de diferenças, entre as regiões, quanto à influência da escolaridade sobre as
variáveis salário e empregabilidade.
Uma relação que deve ser analisada com mais profundidade é o forte efeito, nos dois
sentidos, entre salário e empregabilidade.
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