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Semiótica da Interatividade 1
Uma Análise Semiótica da Interatividade
Patrícia de Albuquerque Fernandes2
UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco
Resumo
Este artigo
instrumento
estabelecer
investigação
identificação
através de
interativa.
trata de uma aproximação analítica a respeito da linguagem interativa como
de mediação inserido em processos de simbiose real e virtual, na intenção de
uma investigação da alfabetização semiótica da interatividade. Ou seja, uma
semiótica no universo da hipermídia, na busca da compreensão, definição e
do hipersigno, tentando estabelecer uma análise da gramática da interatividade,
seu objeto, hipersigno, como instrumento mediador da linguagem multimídia e
Palavras Chave:
Hipersigno; hipermídia; alfabetização semiótica; gramática da interatividade; ambientes midiaticos.
Introdução
Propor uma abordagem semiótica à pluralidade das linguagens interativas é como entrar em um
labirinto de extensão infinita. Porém, este labirinto, infinito, que já reside na própria natureza do
signo, na análise de sua interpretação e construção, e na própria estrutura do signo em si, é aqui
transcrito para o universo das mídias interativas.
A aproximação investigativa proposta por este trabalho concentra-se no ato da linguagem
interativa dos meios eletrônicos e digitais, multimídia, das mídias interativas dinâmicas e suas
1
Trabalho apresentado ao NP 15 – Semiótica da Comunicação do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da INTERCOM.
Professora do Curso de Comunicação Social com Habilitação em Publicidade da Universidade Católica de Pernambuco, nas
disciplina de Criação em Publicidade e Produção Multimídia, e da Escola Superior de Marketing, Faculdade de Mercado Amplo
na disciplina de Arte Publicitária. Diretora de arte e de criação tendo atuado em Portugal, Inglaterra e São Paulo. E-mail:
[email protected]. Mestra pela Saint Martins College of Art and Design – Londres, Inglaterra, 1992. Dissertação; The Symbolic
Mode, e graduada pela UFPE em 1988; Monografia; Imagem sob ótica Pluralista. Em ambos os cursos e em seu
trabalho, semiótica tem sido objeto de investigação e fonte inesgotável de pesquisa.
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elaborações como linguagem, e nas relações estabelecidas através do hipersigno, como
instrumento cognitivo mediador entre o homem, a máquina e os meios.
A princípio compreender interatividade parece simples; o ato de interferir e provocar uma reação,
ou desencadear um processo de reação em bidirecionalidade, onde “os pólos, emissor e receptor
são intercambiáveis e dialogam entre si durante a construção da mensagem” (MACHADO, 1990,
p.208 apud PRIMO, MOURA, SILVEIRA, SANTOS, 2004, p.2).3 Mas qual o principal objeto
deste ato?
A ação lógica do signo é funcionar como mediador entre o objeto e o efeito que se produz
numa mente atual ou potencial, efeito este (interpretante) que é mediatamente devido ao
objeto através do signo. A mediação do signo em relação ao objeto implica a produção do
interpretante, que será sempre, por mais que a cadeia dos interpretantes cresça, devido à
ação lógica do objeto, a ação mediada pelo signo.(SANTAELLA, 2000, p.24).
Segundo Santaella, “hipersigno ou hipersigno híbrido é o agente de todas as linguagens presentes
dentro do computador e sujeito principal gerador da hipermídia”.(SANTAELLA, 2000, p.10).
O signo, o hipersigno e a hipermídia, provocam, como unidade, um desencadear de estruturas de
análise semelhantes e correspondentes;
(1)
Desencadeamento das análises;
SIGNO
HIPERSIGNO
(a)
HIPERMIDIA
(b)
(c)
(a) o desencadear múltiplo de planos de análises do signo em si
(b) o desencadear múltiplo de planos de análises do hipersigno em si
(c) o desencadear múltiplo de planos de análises da hipermídia em si
3
Referência à definição de Interatividade por MACHADO, A. A arte do vídeo, 1988 apud TEIXEIRA PRIMO, A. F. MOURA,
L; SILVEIRA, G.; SANTOS, L.A. Televisão interativa: um meio de comunicação democrático. Disponível em:
<http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo/pb/tv.htm>. Acesso em: 14 abril 2004.
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Portanto, estabelecer um paralelo da análise do signo com os meios interativos é talvez fazer uma
comparação semelhante à comparação estabelecida entre o micro e o macro cosmo, possível e
admitido pela ciência.
Outra estrutura de análise dar-se por comparar o signo, o hipersigno e a hipermídia no sentido de
como se relacionam entre si, uns com os outros, despertando uma leitura bidirecional e interativa,
e percebemos que se alterados o posicionamento dos elementos desta leitura, através da
alternância das posições mediadoras, comunicacionais e informativas, ainda funcionam;
(2)
HIPERMIDIA
SIGNO
HIPERSIGNO
HIPERSIGNO
HIPERSIGNO
SIGNO
HIPERMIDIA
HIPERMIDIA
a
SIGNO
b
HIPERMIDIA
SIGNO
SIGNO
HIPERSIGNO
HIPERMIDIA
HIPERSIGNO
SIGNO
HIPERSIGNO
d
c
HIPERMIDIA
e
f
Este diagrama demonstra que o hipersigno é mediador na relação do signo e da hipermídia (a) e
que igualmente, o hipersigno é mediador da hipermídia e do signo (b) alternadamente, e que a
hipermídia é mediadora do signo e do hipersigno (c), e assim consecutivamente (d, e, f), ou seja,
qualquer que seja o posicionamento e a alternância, a leitura é possível, interativa e real,
provando que o signo, o hipersigno e a hipermídia são agentes mediadores de si mesmos.
Baseado no quadro acima
(2),
é expressa as possibilidades mediadoras intersemióticas do signo,
hipersigno e hipermídia. Percebemos também que em cada uma das representações
(a,b,c,d,e,f)
é,
4
estabelecido uma nova ordem de aproximação gramatical, de sintaxe e de semântica, pois o
hipersigno colocado como mediador do signo e da hipermídia difere sintaxialmente e
semanticamente da hipermídia como mediadora do signo e do hipersigno em contexto,
estruturalmente.
Cada uma destas representações
(a,b,c,d,e,f)
corresponde a uma determinada situação e quando
entramos no território de cada uma separadamente, independentemente e pontualmente; signo,
hipersigno e hipermídia, como visto no quadro
(1)
encontramos outros universos, os universo
imersos nos territórios de cada um (do ponto de vista do interpretante ou do objeto).
Uma sintaxe comparativa; a hipermídia e o homem;
Aproximação
Do ponto de vista da tecnologia, a grande transformação subjetiva da aproximação cognitiva
estabelecida pelas novas mídias se deu pela própria evolução da natureza dos meios. Quando
passamos da fotografia estática para a fotografia cinética; (cinema), da sincronização sonora para
transmissão eletrônica; (televisão) o ponto estático ou o grão do qual era formada a imagem
passou a ser visto como um grão de luz e, mesmo que em suporte de natureza físico-química,
(filme ou da fita magnética) a imagem, virtualmente, era a partir de então, composta e transcrita
em luz.
A velocidade, o som, o ritmo, a sobreposição, a fusão, a dinamicidade, a flexibilidade, a
espacialidade e a elasticidade infinita proporcionada pela desmaterialização da imagem,
ingressam finalmente na era interativa característica do espaço digital e da hipermídia, instituída
através do universo multimidiatico.
Pudemos experienciar os efeitos possíveis através da manipulação destes suportes com a imagem
e com o som em relação dinâmica, como também grandes transformações na consciência de uma
nova ordem perceptiva. Em conseqüência, o homem transformou seu cotidiano através destes
meios e destas tecnologias alterando a dinâmica de sua vida e da sua relação para com estes
meios.
5
Nasceu o personal computer, anunciou-se, portanto, o fim do raciocínio linear mecânico trazido
pela industrialização. A comunicação em larga escala cada vez mais se transforma em objeto de
seleção e da interferência individual, não-linear, sobrepondo-se ao pensamento massificador. A
máquina não mais serve, simplesmente, para mecanizar e sim como instrumento personificado,
gerador e proporcionador de conhecimento.
Fora do personal computer, em processo semelhante, a telefonia celular e a tv a cabo, adotam
funções cada vez mais interativas. O telefone celular incorporou a interface visual e a tv
interativa opções e possibilidades da tecnologia digital, transformando os meios de comunicação
em massa, em meios de comunicação interpessoal, em processo dialogar, seletivo, construtivo;
“onde os telespectadores tem a possibilidade de interferir nos processos e produção de conteúdos.
De receptor passa-se a emissor. De passivo torna-se agente.”4
Esta multiplicidade de relações não só aconteceu dentro do universo do meio, mas entre o usuário
e o próprio conteúdo. Vivencia-se a revolução da interface, acessível de qualquer ponto do
planeta.
O universo digital emerge para o cotidiano banal, instrumentalizando as superfícies do
necessário. A relação da hipermídia para com o homem passa de uma relação midiática,
profusória, para uma relação mediadora.
Entramos na era da telemática e estes recursos não se limitam aos meios de comunicação e de
seleção e produção de informação, de educação à distância. Eles estão cada vez mais presentes
em nosso universo cotidiano de usabilidade, como os videofones, eletrodomésticos inteligentes,
sistemas de segurança, serviços de saúde prestados eletronicamente5 , bens de consumo de alta
tecnologia, games, players, videogames, aparelhos controlados remotamente.
4
TEIXEIRA PRIMO, A. F. MOURA, L.; SILVEIRA, G.; SANTOS, L.A. Televisão interativa: um meio de comunicação
democrático. Disponível em: <http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo/pb/tv.htm>. Acesso em: 14 abril 2004.
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Já é possível para um médico operar o paciente em cidade diferente; junção de robótica e tecnologias digitais.
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Tudo isto demonstra a invasão sem fronteiras e em constante expansão do universo da
hipermídia, da automação e da interatividade dentro do nosso universo usual, e cada vez mais
presente em todos os momentos de nossa existência.
O espaço multimídia foi incorporado pela Internet que reproduz com total flexibilidade e
receptividade todas as linguagens e todas as mídias. Dentro da Internet temos o cinema, o vídeo,
a tv, a música, o videotexto, o áudio-texto, redes de compra e serviços bancários, e até mesmo o
teatro de atores virtuais. O espaço hipermídia, através da Internet tornou possível a difusão e
integração da sinergia dos meios e linguagens com grande acessibilidade.
A flexibilidade na manipulação das informações, imagens e sons, a fusão de todas as mídias em
uma só, aproximaram várias linguagens em uma planificação intersemiótica, com a presença e
intervenção da máquina cada vez mais constante como mediadora do homem e de seu meio.
Reflexion, comunicação interpessoal através de vídeo em ambiente virtual6
6
Reflexion é um sistema de comunicação interpessoal idealizado por Cian Cullinan, Stefan Agamanolis, que através de uma
câmara de vídeo acoplada ao computador, opera como um espelho mágico no qual você pode ver o seu reflexo junto com o
reflexo dos outros participantes que se encontram em locais distantes, e interagir, tocar, conversar, brincar em tempo real, em um
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É totalmente alterada a condição do homem no mundo. Agora o mundo virtual e o mundo do
domínio parecem integrar a complexidade de nossa existência. O homem exerce influência
individual e direta e muda sua relação com o saber, aprender, apreender, memorizar, exercer.
O universo digital que se apresenta primeiramente como simulação do real, na condição de
virtual e expandido do natural, com inteligência própria, interativo, passa agora à condição de
interlocutor.
O avanço proporcionado por estes novos processos mediadores reflete na automação do homem
com relação à usabilidade destes sistemas, porém, com o artifício “virtual” da livre escolha, da
liberdade sem fronteiras, proporcionados pela tecnologia digital. Sua percepção, expandida,
gerencia processos de inteligência. Além de operar com os signos, somam-se os hipersignos.
Instaura-se com isto uma nova antropologia, baseada em um novo posicionamento do homem e
de sua comunicação com o meio, como ser animal, social e moral em uma nova relação de
mediação e construção do real através do virtual.
A dimensão do perceptum hipermidiatico
A dimensão do perceptum hipermidiatico se reflete na infinidade das conexões de sua rede. O
objeto direto espelha seu reflexo sígnico e está inserido em meta-sistemas múltiplos, contendo
referenciais também múltiplos e assim se presentifica em pluralidade. Se analisado como
unidade, está inserido como em conexões meta-neuronais, de infinitas flexões, ou seja; o metaelemento inserido no meta-contexto se tornando meta-complexo.
O espaço digital matemático se comparado ao ambiente mental, orgânico e originalmente
fenomenal, postulador do pensamento e da memória natural, se assemelha funcionalmente. Os
signos, agentes postuladores do pensamento, operam no universo da cognição. O objeto
hipersigno, direto ou indireto, reside na qualidade de signo, existe e opera através dos impulsos
vídeo virtual com uma dinâmica intima e social [...] os participantes também podem navegar e interagir com objetos que
aparecem na tela, documentos, imagens, filmes, programas de televisão ao vivo. Mídia Lab Europe: Human Connectedness
Disponível em: < http://www.medialabeurope.org/hc/projects/reflexion/>. Acesso em: 29 abril 2004.
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elétricos das redes informáticas, refletidas posteriormente na cognição, na mente humana, e a
partir daí, faz sentido.
Pensar é computar e os programas da máquina da nova era hão de espelhar inteligência
artificial homóloga à nossa. Se há entidades, é preciso distingui-las quanto à essência e
quanto ao modo de apresentação. A tradição da ciência cognitiva caminha no leito estreito
da ambigüidade nominal: a essência é una; o modo de apresentação é diverso. O cérebro,
portanto, é a única essência, de acordo com o materialismo da nova ciência; os predicados
ou propriedades mentais, porém, hão de ser emergentes, ou não-traduzíveis em linguagem
de neurociências. O mental, complexo que é, emerge da computação dos átomos
neuronais. A complexidade, termo em voga nesta virada de século, é o artífice da
transmutação do sinal elétrico do cérebro na forma do pensamento.(DEL NERO, 1994)
O predicativo do quase signo ao quali (dade) do hipersigno
[...] aparecendo, ele se apresenta, apresentando-se, ele virará signo, virá a ser signo ou
será quase signo. Se vem provocando surpresa ou se vem desacompanhado e despojado
de qualquer elemento que não seja sua pura “talidade” (sentimentos assim se
presentificam) serão seres intermediários, fronteiriços, quase signos: não são mais
completamente fenômenos, mas ainda não são inteiramente signos.(SANTAELLA, 2000,
p.98).
Na condição de inserido em universo virtual, o hipersigno apresenta-se primeiramente como
simulação do signo real, porém não necessariamente. A qualidade maior do hipersigno reside na
interlocução direta da natureza de sua representação, contexto, funcionalidade, identidade e,
principalmente na qualidade de objeto de mediação. Antes de ser hiper é signo.
As verdadeiras qualidades intrínsecas do hipersigno revelam-se primeiramente em função de sua
aparência primeira, assim como nos signos, quando justificadas pela identidade7 sígnica que ele
carrega, como instrumento cognitivo mediador da compreensão e apreensão do objeto.
O hipersigno é objeto principal da mediação hipermidiatica, e soma características próprias para
além das de signo, como; mutação, dinamicidade, volatidade, sincronicidade, efemeridade,
características do universo da hipermídia, e se relaciona com três universos, o real, o virtual e o
hipotético, alterando e estendendo assim sua condição de signo para a de hipersigno.
7
Identidade sígnica que provém da qualidade primeira abstraída de qualquer relação empírica espaço-temporal, constitutiva dele
em sua particularidade, em seu modo de aparecer tal qual é. Qualidades só podem ser comunicadas por quali-signos apud
SANTAELLA (2000, p.99).
9
Contém as supras qualidades do signo como objeto do real e amplia-se para hiper como objeto
dinâmico, comportamental.
Segundo Pierce existem dez aspectos de acordo com os quais as principais divisões dos
signos são determinadas; 1. modo de apreensão do próprio signo, 2. modo de
apresentação do objeto imediato, 3. modo de ser do objeto dinâmico, 4. relação do signo
com seu objeto dinâmico, 5. modo de apresentação do interpretante imediato, 6. modo de
ser do interpretante dinâmico, 7. relação do signo com o interpretante dinâmico, 8.
natureza do interpretante normal, 9. relação do signo com o interpretante normal, 10.
relação triádica do signo com seu objeto. (SANTAELLA, 2000, p.93).
A dimensão semântica – o hipersigno legi (timo)
Os modelos artificiais de interação possibilitam a modificação de conteúdos e espaços, assim
como os signos modificam nossos pensamentos para além da constituição e formação de nossos
espaços mentais; idéias, referenciais e realidade.
Os hipersignos conseguem mudar nossos comportamentos assim como a revolução das
tecnologias digitais e da telemática estão mudando a sociedade, e mesmo como agentes
dinâmicos, sujeitos a interação e a modificação por seu interpretante direto, o hipersigno legítimo
é anteriormente e tendencialmente, agente unificador do entendimento de seu objeto.
[...] o que o faz agir como tal é sua tendencialidade, isto é, tende a gerar o mesmo
interpretante ou interpretantes semanticamente correlatos. Isto porque a natureza da lei é
exatamente aquela de funcionar como mediação pela qual ocorrências particulares se
conformaram a generalização imposta pela lei. O poder da lei é o de governar
particulares. Assim sendo, um legi-signo age como uma força de generalidade que tende a
governar todas as ocorrências de interpretantes singulares. (SANTAELLA, 2000, p.105).
O hipersigno age semioticamente como objeto dinâmico da hipermídia e em forma de réplica do
real, objeto virtual, sua funcionalidade interage com todos os níveis de representação, e sua forma
com todos os tipos linguagens.
Na condição de virtual, réplica, pós-signo, evoca uma ação do pensamento interpretativa,
comunicativa e de efeito semântico, pragmático, provocando uma ação operante e outra
respondente, justificando o sentido da sua interação, de sua significância e de sua existência; e aí
10
“fica a evidência de que o interpretante é algo criado pelo próprio signo” (SANTAELLA, 2000,
p.13) e neste caso, em dimensões correlatas.
O hipersigno, legi-signo legítimo, existe como elemento total em suas propriedades virtuais, ele
tem existência concreta por intermédio de suas manifestações8 e como réplica essencial evoca a
interpretação de seu objeto real.
Mutante, é híbrido e objeto de várias interpretações e de vários conteúdos, assumindo também em
determinados momentos a função de um único objeto. Depende de seu referencial e de seu
contexto, e é agente transformador na medida que sua significação é apreendida. O hipersigno
também interage independentemente de sua compreensão.
O sujeito é o objeto – a interatividade sin-signica
[...] qualquer coisa que compele nossa atenção é, na sua insistência, um segundo em
relação a atenção compelida. É o tropeço do encontro ou ocorrência que deva ser
essencial ao sin-signo e que faz dele um signo. (SANTAELLA, 2000, p.100).
Para além do signo, o hipersigno está ligado ao seu objeto por uma relação de intervenção. Muito
mais que por uma conexão de fato, ou uma simples representação, indução ou simbolização. E na
condição de si mesmo, ele se manifesta, é surpreendente, mutante e dinâmico.
Entre todas as propriedades e qualidades herdadas na condição primeira de signo, o hipersigno,
dinâmico, tem como principal característica o fato de ser um signo comportamental. Como
dinâmico e mutante pode estabelecer uma relação com seu objeto na condição de indutor,
condutor ou de cognição. Porém apesar de ser programado pelo seu executor e assim previsível; é
desconhecido pelo seu interpretante.
Ele sinaliza, rima, pulsa, adverte, indica. Sua ocorrência acontece entre o tempo e o espaço de sua
existência.
8
Que corporifica um legi-signo na propriedade geral que ele possui em ser um signo legítimo, manifestação esta que
apud SANTAELLA, Lúcia. Teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas. São Paulo: Pioneira, 2000.
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A tríade do hipersigno – o hipersigno em si
As mais conhecidas tríades formuladas por Pierce são as que dizem respeito ao signo em
si mesmo (quali-signo, sin-signo, legi-signo), a relação do signo com o objeto dinâmico
(ícone, índice e símbolo) e a relação do signo com o interpretante (rema, dicente e
argumento)... Se o signo é algo que traz um objeto para uma relação com um
interpretante, então o signo exibe conseqüentemente cada uma destas três modalidades,
ele é algo em si mesmo, em conexão com um segundo e uma mediação entre um segundo
e um terceiro. Pierce mais detalhadamente explorou: 1. signo em si mesmo, 2.signo em
conexão com o objeto. 3. signo como representação para o interpretante.(SANTAELLA,
2000, p.92)
O hipersigno, objeto dinâmico, virtual e direto das linguagens interativas, é reflexo do signo e o
representa, e como tal, apresenta-se sobre ele. O signo é reflexo e objeto do hipersigno, pois
espelha o sentido próprio indutivo dinâmico direcional, ambos se espelham como representantes
de um mesmo objeto.
A dimensão do hipersigno vai além do domínio do previsível. Ele está ligado ao seu objeto não
só em virtude de sua legitimidade, qualidade e singularidade. Sua tríade é refletida em vários
outros planos de funcionalidade cognitiva, ou não cognitiva, habitual ou não habitual, virtual
natural ou virtual não natural, e isto o faz ainda mais complexo como objeto do real.
A tríade do hipersigno se estende para um universo bem mais complexo quando comparada a do
signo em si. Uma vez que o hipersigno existe em função da condição de virtual e depende das
relações elásticas bilaterais e bidirecionais da interatividade, para além das interpretativas, amplia
sua dimensão sintática e semântica, e sua condição de signo para hipersigno.
Como signos híbridos, objetos imersos em meta-sistemas de meta-contextos meta-complexos
somam outras variações para além das do signo resultantes das hiper características ampliadas da
condição de signo, das hiper qualidades, dos fatos de virtualidade e da natureza simulacra das leis
e hábitos que os regem.
O hipersigno, comportamental, mutante, pode ser modificado, construído, desconstruído, em
essência, em materialidade, em forma, em qualidade, através da intervenção de seu interpretante
ou de seu executor, dependendo de seu contexto e de sua natureza funcional.
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Intervenção em vídeo de Bem Fry9
As definições do hipersigno, em primeiridade estão atreladas a sua funcionalidade e generalidade,
quando a iconicidade hipersignica remete ao signo icônico que para Pierce é o que “diz respeito a
algo que já se apresenta como signo” (SANTAELLA, 2000, p.111). Quando indicativo funciona
“como veículo de transporte alertando e conduzindo o receptor diretamente para seu objeto”
(SANTAELLA, 2000, p.111), e simbólico por conter referenciais complexos em sua constituição;
também refletida na contextualidade de sua representação.
Suas possíveis definições e combinações são infinitas quanto ao seu gênero e constituição. Um
ícone sin-hiper-signo, ou um índice legi-hiper-sin-signico ou um quali-hiper-legi-signo dinâmico.
O argumento da re-flexão ou flexão
A tecnologia, cada vez mais presente, transforma-se em tecnologia intelectual, inteligente. O
homem contemporâneo como unidade interativa, operante e respondente, produtor e emissor,
interagindo dentro de um sistema múltiplo de comunicação, a hipermídia, imerso, traduzido e
9
Neste trabalho o artista reconstrói a imagem do treiller de um filme com letras. As letras, códigos, ou melhor, objetos
dinâmicos, são escolhidas individualmente baseadas no brilho da área específica da imagem. Em áreas mais escuras foram usadas
letras minúsculas, enquanto em áreas mais claras letras mais largas, formando assim a imagem, da mesma maneira que os pintores
impressionistas compunham suas figuras, só que, neste caso com códigos dinâmicos, que não são pontos e sim letras, já signos de
um outro código; o alfabético traduzido como fragmento para compor a mensagem, não em palavras, mas em imagem. Uma
metalinguagem, um meta código ou um sistema dentro de outro sistema de significação, criando outros referenciais e alterando a
funcionalidade dos elementos, estabelecendo assim uma outra linguagem, apud BEM FRY: Vídeo experiments. Disponível em:
<http://acg.media.mit.edu/people/fry/video/>. Acesso em: 6 de maio de 2004.
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complexo, transcrito em universos de sistemas semiológicos também complexos e infinitos, se
estende da simples condição do existir real para um existir virtual. Sua relação com seus
referenciais internos e externos se duplica e se redimensionam bi-lateralmente, bi-polarmente e
bi-direcionalmente, de forma inversa, reversa e infinita.
HIPERMIDIA
HOMEM
INTERAÇÃO
Universo do Homem
Universo da Hipermídia
O homem interage e obtém uma reposta muitas vezes ainda operante e a natureza multimidiatica
infinita e digital sugere a intangibilidade, a volatilidade, a vivacidade, a acessibilidade, a
receptividade e a flexibilidade.
A memória e a inteligência artificiais duplicadas estão estendidas dos modelos mentais naturais e
assim como os hipersignos são hiper memórias e hiper inteligências. Não são apenas duplicações
ou extensões, são próprias.
O hipersigno, como o signo, se estabelece no universo do imaginário, da abstração, do
pensamento, e não tem matéria, nem composição, apenas idéia, pois se tem matéria não é mais
signo.
A pluralidade da linguagem interativa e a pluralidade sígnica apresentarem-se implícitas umas
nas outras e, em simbiose operante, o signo e o hipersigno estão como representação do real e do
virtual, assim como sistemas de signos estão contidos em sistemas simbólicos, não dependendo
da noção espaço-temporal, são fenômenos e não matéria.
O objeto dinâmico do hipersigno, sujeito predicativo do ambiente hipermidiatico, instaura uma
nova relação estrutural à linguagem. O signo que permanece legítimo quando transcrito do
contexto virtual é segundo na transformação do mundo real.
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Apresenta-se então a natureza complexa da linguagem interativa, ampliada pela natureza dos
fenômenos da hipermídia e caracterizada pelo volume de informações crescente a serem
assimilados e produzidos na sociedade do complexo.
A gramática da interatividade se dá, portanto na complexidade de flexões infinitas. As formas de
seus conteúdos e de seus sujeitos atendem as regências flexíveis de suas infinitas
predicatividades. Seu verbo é seu sujeito e seu objeto, que exprime, que significa, que é
abundante, por ter duas ou mais formas, por ter um ou mais modos, tempos ou pessoas. É
qualificativo, referencial e atemporal, ativo, atributivo, e até defectivo. Também impessoal,
pessoal, comportamental. Reflexivo é ativo e incoativo. Intensivo e transitivo, regular e irregular
e até freqüentativo.
Gramática: estudo sistemático dos elementos constitutivos de uma língua (sons, forma,
palavras, construções e recursos expressivos). Arte de exprimir corretamente os
pensamentos. Complexo de princípios que regem uma arte ou ciência. (gír) Embriagues
que torna o indivíduo palrador...”10 (MICHAELES, 1998)
10
Definição de gramática do dicionário MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa: São Paulo, Melhoramentos
1998.
15
Referências bibliográficas:
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Pioneira, 2000.
GREENFIELD, Patrícia M. O desenvolvimento do raciocínio na era eletrônica: os efeitos da tv,
computadores e videogames. São Paulo: Summus, 1988.
NICOLAI-DA-COSTA, Ana Maria. Revoluções tecnológicas e transformações subjetivas [on-line].
Disponível em: <http://www.rdc.puc-rio.br/sobrepuc/depto/psicologia/pesquisas.html>. Acesso em: 9
maio 2004
DHOLAKIA, N; MUNDORF, N; DHOLAKIA, R. Novos serviços de Informação: um quadro de
referência estratégico. Revista Ciência da Informação. [on-line] IBICT, Volume 26, número 3, 1997.
Disponível em: <http://www.ibict.br/cionline/260397/26039701.htm>. Acesso em: 18 abril 2004.
LÉVY, Pierre. Educação e Cybercultura: a nova relação com o saber. [on-line] Disponível em:
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TEIXEIRA PRIMO, A. F.; MOURA, L.; SILVEIRA, G.; SANTOS, L.A. Televisão interativa: um meio
de comunicação democrático? [on-line] Disponível em: <http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo/pb/tv.htm>
Acesso em: 10 abr. 2004
MACHADO, Irene. Comunicação, um problema semiótico? Ciberlegenda, n.5, 2001. Disponível em:
<www.uff.br/mestcii/irene1.htm>. Acesso em: 12 maio 2004.
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