1 FACULDADE CÂNDIDO MENDES CURSO DE ADMINISTRAÇÃO E SUPERVISÃO ESCOLAR GESTÃO DEMOCRÁTICA UTOPIA OU REALIDADE? RIO DE JANEIRO 2010 SANDRA HELENA DE MOURA CARVALHO 2 SANDRA HELENA DE MOURA CARVALHO GESTÃO DEMOCRÁTICA UTOPIA OU REALIDADE? Monografia apresentada à Faculdade Cândido Mendes como requisito parcial à obtenção do título de pós-graduação em Administração e Supervisão Escolar. Orientador: Maria Esther de Araújo RIO DE JANEIRO 2010 FACULDADE CÂNDIDO MÊNDES CURSO DE ADMINISTRAÇÃO E SUPERVISÃO ESCOLAR 3 AGRADECIMENTO A minha grande amiga Eliane, pela colaboração e incentivo em todos os momentos. 4 "Se administrar é utilizar racionalmente os recursos para a realização de fins determinados, administrar a escola exige a permanente impregnação de seus fins pedagógicos na forma de alcançá-los". Vitor Henrique Paro. Gestão Democrática da Escola Pública, (2006, p. 161) 5 Resumo Nesta pesquisa procuro mostrar a gestão democrática, analisando a mesma em períodos anteriores e a sua real importância no panorama atual. Assinalo as dificuldades encontradas por um gestor na tentativa de implantação de um processo democrático que favoreça um amplo e coeso desenvolvimento do processo educacional. O motivo para escolha deste tema foi a observação de um panorama autocrata da gestão escolar no município onde sou professora e onde o gestor não é eleito, como acontece na rede estadual de educação. Sendo assim, pretendo apresentar as vantagens e benefícios que uma gestão democrática pode oferecer se adequadamente implantada. Fazer um comparativo de como se deu esse tipo de gestão ao longo dos anos anteriores (se é que ela realmente existiu ou existe). Além de apresentar as beneficies de uma gestão democrática, pretendo também, por meio desta monografia, apresentar como deve ser uma gestão democrática, seus aspectos positivos e seus perigos. A hipótese que pretendo apresentar por meio desta monografia é a apresentação de um adequado perfil de gestão democrática, indicar as possíveis posturas que devem ser tomadas para que se possa garantir a implantação de um processo de gestão realmente democrático. Pretendo fazer estudo de campo do ambiente que atuo como gestora. 6 Metodologia Esta pesquisa apresenta a gestão democrática na escola pública sobre dois enfoques. O primeiro tem um caráter histórico e documental da gestão democrática no Brasil., através de pesquisas sobre o tema e os trabalhos existentes, principalmente os posteriores à incorporação da Gestão Democrática na Constituição Federal de 1988. Tendo como base autores como Vitor Henrique Paro, Libâneo, Gadotti, entre outros procurei estabelecer as características de uma verdadeira gestão democrática. Separei os dados coletados em capítulos contendo informações relevantes como escolha de diretores, conselhos escolares, participação, descentralização, autonomia. O segundo é mais empírico, envolveu, principalmente a minha experiência como educadora e gestora de uma escola pública do Município de Duque Caxias. É resultado de muita observação, de visitação às outras unidades do município onde atuo. Fiz uma análise crítica da nossa realidade, ressaltei a necessidade da participação dos diversos segmentos da comunidade escolar, a importância da escolha democrática para diretor e procurei indicar o longo caminho que ainda temos a percorrer para a implementação gestão democrática nas escolas públicas. 7 GESTÃO DEMOCRATICA: “Utopia ou Realidade”? SUMÁRIO Introdução............................................................................................................ I - Histórico: A Gestão Escolar no Brasil............................................................11 1.1 Brasil Colônia...............................................................................................12 1.2 Brasil Império: .............................................................................................14 1.3 Brasil República ..........................................................................................15 1.4 Contextualização: .......................................................................................19 II - Gestão Democrática: ...................................................................................20 2.1 Componentes Básicos de uma Gestão Democrática..................................22 2.2 A Gestão Democrática na Legislação Brasileira ........................................27 2.3 Princípios e características de uma Gestão Democrática...........................29 2.4 O perfil do gestor e dos demais profissionais envolvidos numa . Gestão Democrática .........................................................................................35 2.5 Os benefícios da Gestão Democrática e os perigos de uma interpretação equivocada de seus princípios. ..................................................41 III - A Gestão Democrática na Escola Pública ..................................................47 IV – Gestão Democrática: utopia ou realidade?................................................52 Conclusão..........................................................................................................55 Bibliografia.........................................................................................................57 Anexo.................................................................................................................58 8 GESTÃO DEMOCRATICA: “Utopia ou Realidade”? 1- INTRODUÇÃO “Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso que recusa o imobilismo. A escola em que se pensa, em que se atua, em que se cria, em que se fala, em que se ama, se adivinha, a escola que apaixonadamente diz sim a vida.” Paulo Freire (Um salto para o futuro – Construindo a Escola Cidadã – MEC,1998, p. 31) Em decorrência aos contínuos processos de transformação que veem acontecendo em todo o mundo nos aspectos econômicos, sociais e culturais, e com a globalização e os recursos tecnológicos o intercâmbio é quase imediato de conhecimentos e padrões sociais e culturais entre outros fatores. Na educação, um efeito deste movimento são os processos de descentralização da gestão escolar, hoje percebidos como uma das mais importantes tendências das reformas educacionais em nível mundial. Para se alcançar uma gestão democrática se faz necessário um estudo profundo sobre o tema, para que se possa estabelecer mecanismos legais e institucionais ligados às ações que busquem a participação de toda sociedade na formulação de políticas educacionais; no planejamento; na tomada de decisões; na definição do uso de recursos e necessidades de investimento; na execução das deliberações coletivas; nos momentos de avaliação da escola e da política educacional. Tais ações serão analisadas ao longo deste trabalho. Como se dá essa participação? Quem participa? Em que momentos? No que participa? Qual a importância das decisões tomadas? Quais os desafios enfrentados por escolas que decidem praticar a gestão democrática e conquistar mais autonomia? São aspectos a serem definidos para a implantação de uma gestão democrática A construção de uma escola democrática pressupõe uma forma de gestão preocupada com a participação de todos os membros da comunidade 9 escolar – alunos e seus pais, professores, funcionários e direção. Atualmente não se concebe uma escola sem o mínimo de abertura ao diálogo com aqueles que, direta ou indiretamente, contribuem para a consecução do ensino e promoção da aprendizagem. Assim é que a escola, além de estimular a integração interna, deve procurar estabelecer parcerias com organizações comunitárias, ONG’s e outras associações que possam somar esforços e garantir a continuidade do processo de democratização da sociedade e de suas instituições educacionais. Antes disso, porém, os professores, coordenadores, diretores e demais servidores devem estar dispostos a construir a democracia na escola, e esta apresentar as condições institucionais favoráveis à participação. O primeiro passo desta investigação é verificar a estrutura da gestão escolar; como seus instrumentos institucionais contribuem para a gestão democrática; e o grau de resistência à implementação dessa forma (democrática) de gerir a escola. Todo processo de democratização da escola é calcado na figura do gestor e em suas ações que consistem em administrar democraticamente para professores, alunos, pais, funcionários e comunidade. Que se interessa pelo aprendizado dos alunos e a qualidade do ensino. Que não se intimida diante das dificuldades que enfrenta pela resistência de alguns às mudanças e ou até porque existe pessoas inclusive professores que tentam burlar,impedir as mudanças por comodismo. O gestor democrático realiza o planejamento, as reuniões pedagógicas os eventos educativos e culturais com a participação, de fato, de todos inclusive a comunidade, e não nesta outra realidade que a Escola vive, os diretores articulam quase que isoladamente as tomadas de decisões e isso não melhorava a qualidade de ensino. O perfil deste gestor e seu trabalho será tratado e analisado nesta pesquisa. Em suma a proposta desta dissertação sobre gestão democrática é: • abordar as diferentes concepções que disputam, na arena educacional, as proposições e vivências em termos de autonomia escolar, na construção do projeto político-pedagógico de cada unidade de ensino; • definir o papel da comunidade na gestão escolar, nos conselhos escolares e no processo de escolha para cargo de direção; 10 • estabelecer parâmetros para gerir de forma racional os recursos financeiros; demonstrar a importância do PPP na construção da identidade da escola • fazer uma avaliação institucional da escola pública como o processo que confere informações para as decisões, suas possibilidades e limites; • demonstrar que as mudanças nas escolas só irão acontecer de fato se houver uma organização do trabalho pedagógico com equipe técnica e gestor trabalhando em conjunto com o corpo docente, funcionários e demais membros da equipe escolar avaliando e reconstruindo seus projetos, planejamentos e planos. Em sua totalidade esta dissertação, terá com objeto de análise a escola pública, por se encontrar dentro do meu campo de atuação e por considerar ser este o melhor caminho para uma verdadeira democracia, tanto na escola como na vida. Pretendo demonstrar que o primeiro trabalho do gestor no sentido de provocar mudanças no âmbito escolar é motivar professores, funcionários e alunos, valorizando-os escutando-os e depois traçando um plano de ação focando o que é prioritário A partir daí envolver as lideranças do bairro, os meios de comunicação locais e o trabalho voluntário da comunidade. Uma reflexão sobre gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e a atuação do gestor escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na escola e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Pretendo identificar princípios para implementação de uma gestão democrática e também localizar atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes, técnicos e demais sujeitos educacionais. 11 I-HISTÓRICO A GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL É impossível desvincular gestão escolar dos processos políticos do país, por isso se faz necessário uma análise das diversas formas de gestão dentro dos vários períodos de nossa história até chegarmos a esta conscientização da importância de um trabalho participativo, autônomo e direcionado para a qualidade do ensino, com vistas a uma escola democrática e formadora de cidadãos cientes de seus direitos e deveres. Além das conjunturas históricas aludidas reativas ao sentido da palavra educação, originária do termo latino "educere", tal palavra significa conduzir, criar e sustentar. Ao longo do seu desenvolvimento histórico, adquiriu novo significado e associações, a exemplo da Grécia Antiga, onde a palavra latina citada se transformou em sinônimo do conceito de escola. O elo criado entre educação e escola permitiu o nascimento de uma nova instituição ocidental dedicada ao trabalho e ensinamento de crianças e jovens. Essa veio acompanhada da necessidade de organização e administração. A administração, assim como a educação se transformou; abandonaram as primeiras regras de organização, baseadas na família, na religião e no exército e construíram novos mecanismos e metodologias de organização institucional, principalmente a partir da Revolução Industrial, ocorrida na Europa do século XVIII. "Se administrar é utilizar racionalmente os recursos para a realização de fins determinados, administrar a escola exige a permanente impregnação de seus fins pedagógicos na forma de alcançá-los". Vitor Henrique Paro. Gestão Democrática da Escola Pública, (2006, p. 161). 12 1.1 A GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL COLÔNIA A história da educação colonial no Brasil se inicia com a consolidação territorial e se estende ao ano de 1822, quando se consolida o processo de emancipação política. O Estado português mantinha uma atuante relação com a Igreja. Durante o período colonial, a monarquia portuguesa delegou à Companhia de Jesus, o papel eminente de desenvolver a educação. A administração geral da Companhia de Jesus era executada em Roma, tendo como articulador a figura do provincial geral, responsável pelo andamento das casas e colégios em todas as províncias. Na colônia, o cargo de provincial era o nível máximo e obtinha a função de promover o estudo na província e vigiar o cumprimento das normas do Ratio Studiorum. O Ratio simbolizava as formas de administração e organização dos currículos e métodos de ensino que orientavam os professores em suas aulas. A crise da educação jesuítica no Brasil se deu no reinado de D. José I, principalmente pelas estratégias do seu primeiro ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que aboliu algumas das estruturas do Antigo Regime, principalmente pelo monopólio da Igreja. Em 1759, os jesuítas são expulsos de Portugal e de todas as suas colônias e o governo Português toma o encargo de administrar a educação, sendo esta considerada de interesse do Estado e não mais da Igreja. Pombal instaura o Alvará Régio na tentativa de dar continuidade ao trabalho pedagógico implementado pelos jesuítas, a partir deste período o Estado passa a intervir na administração e gestão do sistema escolar. O Alvará estabelece o cargo de Diretor Geral de Estudos, a prestação de exames para professores, institui a licença para o funcionamento do ensino público e particular, os concursos para admissão de professores, cria o cargo de comissários para a inspeção e controle das escolas. Decorreram quase trinta anos entre a expulsão dos jesuítas e a assunção do controle da educação pelo Governo português, tempo suficiente para ocasionar o desmantelamento do único sistema educacional presenciado pelo país. 13 A Era de Pombal teve seu fim em 1777, e até a vinda da Família Real em 1808 pouco se mudou em relação a administração escolar no Brasil. Para atender à elite que chegara junto com a família real, D. João VI criou novos cursos, instituições culturais e educacionais e ampliou o número de vagas nos cursos que já existiam. As medidas criadas por D João VI, propiciaram a possibilidade de se construir no país uma educação formalizada, com a concentração de estudos específicos, direcionados a formação especializada. Em síntese, a administração escolar joanina se limitou ao atendimento dos interesses do governo, criando os cursos superiores no intuito de atender as necessidades da sua corte, delegando a segundo plano as escolas de primeiras letras. A administração escolar nada mudou ao período anterior, com a manutenção das aulas avulsas e a fiscalização e controle do poder central sobre a educação. 14 1.2 A GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL IMPÉRIO As rupturas políticas e sócio-culturais refletiram na administração pública escolar do Brasil independente. O novo projeto educacional brasileiro tinha como principal interesse garantir a instrução primária para a população branca e livre. Para a concretização deste ideal pedagógico foi necessário reformular os quadros administrativos e burocráticos do Brasil, valorizando a elite nacional recém formada e quebrando os últimos vínculos existentes no âmbito educacional com Portugal. A Lei Geral de 1827, que contribuiu para expandir a organização da administração escolar no Brasil, citava o compromisso do Estado com a criação de escola de primeiras letras, para todos os cidadãos em todas as cidades, vilas e vilarejos. Durante o período regencial se efetivou o Ato Adicional de 1834, promovendo a descentralização do ensino. A administração escolar foi dividida por fatores sociais; a coroa ficaria responsável pelo nível superior, promovendo a educação da elite; por outro lado as províncias se responsabilizavam pela educação popular, gerenciando a escola elementar e secundária. O Segundo Reinado se inicia em 1840, com o golpe da maioridade de D Pedro II e se estende ao ano de 1889, quando é proclamada a República no Brasil. O maior avanço do Segundo Reinado se dirigiu ao nascimento de um novo modelo de administração, marcada pela conscientização dos professores. No campo da administração escolar, os professores ficaram responsáveis pela administração e manutenção das escolas elementares; a junta de professores de cada colégio exercia a função de diretor. Somente no segundo segmento o cargo de diretor existia, sendo tanto nas escolas elementares e no segundo segmento, tais professores eram subordinados e fiscalizados pelo Estado. 15 1.3 A GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL REPÚBLICA O projeto político da educação republicana e sua administração propunham o plano de educação para todos, porém na prática foi marcado por um forte dualismo. De um lado existia a elitização do ensino que procurava a continuidade dos estudos científicos e para o povo se direcionava a proposta de uma educação elementar e profissional. A educação superior e secundária ficaria a cargo da União e a educação profissional e fundamental caberia à administração dos estados. A partir de 1914 com a Primeira Guerra Mundial, ocorreu a decadência da política cafeeira, passando a se desenvolver e se investir em novos setores econômicos, a exemplo da indústria. O desenvolvimento da indústria proporcionou o surgimento de uma pequena burguesia urbana, procurando uma educação de cunho acadêmico e científico. Foi neste contexto que as classes populares, ligadas ao setor industrial, denominadas como operariado, passou a exigir a implantação e consolidação das necessidades mínimas de escolarização, desenvolvendo protestos referentes a possibilidade de expansão do ensino. Na década de vinte foi marcada por diversos fatos relevantes no processo de mudança das características políticas brasileiras. Foi nesta década que ocorreu o Movimento dos 18 do Forte (1922), a Semana de Arte Moderna (1922), a fundação do Partido Comunista (1922), a Revolta Tenentista (1924) e a Coluna Prestes (1924 a 1927). Além disso, no que se refere à educação, foram realizadas diversas reformas de abrangência estadual, como as de Lourenço Filho, no Ceará, em 1923, a de Anísio Teixeira, na Bahia, em 1925, a de Francisco Campos e Mario Casassanta, em Minas, em 1927, a de Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (atual Rio de Janeiro), em 1928 e a de Carneiro Leão, em Pernambuco, em 1928. Revolução de 30 foi o marco referencial para a entrada do Brasil no mundo capitalista de produção. A nova realidade brasileira passou a exigir uma mãode-obra especializada e para tal era preciso investir na educação. Sendo assim, em 1930, foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública e, em 16 1931, o governo provisório sanciona decretos organizando o ensino secundário e as universidades brasileiras ainda inexistentes. Estes Decretos ficaram conhecidos como "Reforma Francisco Campos". Em 1934 a nova Constituição (a segunda da República) dispõe, pela primeira vez, que a educação é direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelos Poderes Públicos. É outorgada uma nova Constituição em 1937 e seu texto sugere a preparação de um maior contingente de mão-de-obra para as novas atividades abertas pelo mercado. Neste sentido a nova Constituição enfatiza o ensino prévocacional e profissional. Em 1942, por iniciativa do Ministro Gustavo Capanema, são reformados alguns ramos do ensino. Estas Reformas receberam o nome de Leis Orgânicas do Ensino, e são compostas por Decretos-lei que criam o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI e valoriza o ensino profissionalizante. O fim do Estado Novo consubstanciou-se na adoção de uma nova Constituição de cunho liberal e democrático. Esta nova Constituição, na área da Educação, determina a obrigatoriedade de se cumprir o ensino primário e dá competência à União para legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional. Ainda em 1946 o então Ministro Raul Leitão da Cunha regulamenta o Ensino Primário e o Ensino Normal, além de criar o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAC, atendendo as mudanças exigidas pela sociedade após a Revolução de 1930. Depois de anos de acirradas discussões foi promulgada a Lei 4.024, em 20 de dezembro de 1961, prevalecendo as reivindicações da Igreja Católica e dos donos de estabelecimentos particulares de ensino no confronto com os que defendiam o monopólio estatal para a oferta da educação aos brasileiros. Em 1950, em Salvador, no Estado da Bahia, Anísio Teixeira inaugura o Centro Popular de Educação (Centro Educacional Carneiro Ribeiro), dando início a sua idéia de escola-classe e escola-parque; em 1952, em Fortaleza, Estado do Ceará, o educador Lauro de Oliveira Lima inicia uma didática baseada nas teorias científicas de Jean Piaget: o Método Psicogenético; em 1953 a educação passa a ser administrada por um Ministério próprio: o Ministério da 17 Educação e Cultura; em 1961 a tem inicio uma campanha de alfabetização, cuja didática, criada pelo pernambucano Paulo Freire, propunha alfabetizar em 40 horas adultos analfabetos; em 1962 é criado o Conselho Federal de Educação, que substitui o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais de Educação e, ainda em 1962 é criado o Plano Nacional de Educação e o Programa Nacional de Alfabetização, pelo Ministério da Educação e Cultura, inspirado no Método Paulo Freire. Em 1964, um golpe militar põe fim a todas as iniciativas de se revolucionar a educação brasileira. É no período mais cruel da ditadura militar, onde qualquer expressão popular contrária aos interesses do governo era abafada, muitas vezes pela violência física, que é instituída a Lei 5.692, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1971. A característica mais marcante desta Lei era tentar dar a formação educacional um cunho profissionalizante. No fim do Regime Militar a discussão sobre as questões educacionais já haviam perdido o seu sentido pedagógico e assumido um caráter político. profissionais de outras áreas, distantes do conhecimento pedagógico, passaram a assumir postos na área da educação e a concretizar discursos em nome do saber pedagógico. Neste período, do fim do Regime Militar aos dias de hoje, a fase politicamente marcante na educação, foi o trabalho do economista e Ministro da Educação Paulo Renato de Souza. Logo no início de sua gestão, através de uma Medida Provisória extinguiu o Conselho Federal de Educação e criou o Conselho Nacional de Educação, vinculado ao Ministério da Educação e Cultura. Esta mudança tornou o Conselho menos burocrático e mais político. Mesmo que possamos não concordar com a forma como foram executados alguns programas, temos que reconhecer que, em toda a História da Educação no Brasil, contada a partir do descobrimento, jamais houve execução de tantos projetos na área da educação numa só administração. Modificar a organização e reordenar a gestão da educação foram problemas que compareceram recorrentemente na discussão da política educacional brasileira, em diferentes momentos históricos, pondo em pauta temas como 18 descentralização, municipalização, participação comunitarismo, gestão democrática e "modernização" da gestão educacional. Concluindo podemos dizer que a História da Educação Brasileira tem um princípio, meio e fim bem demarcado e facilmente observável. Ela é feita em rupturas marcantes, onde em cada período determinado teve características próprias. É provável que estejamos próximos de uma nova ruptura. Na evolução da História da Educação brasileira a próxima ruptura precisaria implantar um modelo que fosse único, que atenda às necessidades de nossa população e que seja eficaz e o ponto de partida é autonomia das escolas e a gestão democrática. , que exige uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar e participação ativa do Estado. 19 1.4 CONTEXTUALIZAÇÃO Durante muito tempo, o nosso país vivenciou um governo democrático de "fachada", tendencioso, e, sobretudo, autoritário, em que a classe social dominante apresentava como um dos mais eficazes procedimentos administrativos, a limitação e a inibição das manifestações e participações populares em qualquer tipo de instituição mantida ou subsidiada pelo Estado. Na busca de uma educação que possibilite ao sujeito superar os desafios do momento, aumentando a auto-estima e a confiança necessária para operar sobre a restrição do que lhe é negado, observa-seque, desde então, vários educadores procuram respostas que levem em consideração o problema de desenvolvimento econômico e a participação da comunidade, iniciando assim, a busca da inserção crítica do cidadão brasileiro no processo de "democratização da escola". Uma escola democrática é uma escola que se baseia em princípios democráticos, em especial na democracia participativa, dando direitos de participação iguais para estudantes, professores e funcionários. Esses ambientes de ensino colocam as vozes da juventude como os atores centrais do processo educacional, ao engajar estudantes em cada aspecto das operações da escola, incluindo aprendizagem, ensino e liderança. Os adultos participam do processo educacional facilitando as atividades de acordo com os interesses dos estudantes 20 II .GESTÃO DEMOCRÁTICA “A Administração Escolar, em sua forma democrática e cooperativa, não é algo pronto, que se possa aplicar como uma receita (...). Embora se tenha presente que a autoridade deve ser compartilhada por todos, o que supõe formas coletivas ou colegiadas de gestão escolar, não é possível estabelecer a priori, com precisão, qual a forma mais adequada dessa administração.” Paro (2006, p. 161) É interessante verificar como o conceito evoluiu com o a passar dos anos do que seria gestão escolar e permitir pensar em gestão no sentindo de gerir uma instituição escolar, desenvolvendo estratégias no cotidiano com a finalidade de uma democratização da gestão educacional. Conforme apontado por Lück (2000, p. 11), gestão escolar: [...] constitui uma dimensão e um enfoque de atuação que objetiva promover a organização, a mobilização e a articulação de todas as condições materiais e humanas necessárias para garantir o avanço dos processos socioeducacionais dos estabelecimentos de ensino orientadas para a promoção efetiva da aprendizagem pelos alunos, de modo a torná-los capazes de enfrentar adequadamente os desafios da sociedade globalizada e da economia centrada no conhecimento.. A Gestão Democrática é uma forma de gerir uma instituição de maneira que possibilite a participação, transparência e democracia. È um sistema único e descentralizado que supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo, visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino, sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário, como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. A gestão democrática pode melhorar o que é específico na escola, isto é, seu ensino. A gestão democrática não é um processo simples de curtíssimo prazo, mas também não é um processo irrealizável, de prazo interminável. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação, numa pratica a ser construída na escola. Ela acontecerá, por exemplo, associada à elaboração do projetopolítico-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos Escolares que 21 efetivamente influenciem na gestão escolar com um todo e de medidas que garantam autonomia administrativa, pedagógica e financeira da escola, sem eximir o Estado de suas obrigações com ensino público. Gestão democrática se caracteriza por reconhecer a importância da participação consciente e esclarecida da comunidade escolar nas decisões sobre a orientação e manejamento do trabalho a ser desenvolvido. Os princípios que norteiam a Gestão Democrática são: • Descentralização: A administração, as decisões, as ações devem ser elaboradas e executadas de forma não hierarquizada. • Participação: Todos os envolvidos no cotidiano escolar devem participar da gestão: professores, estudantes, funcionários, pais ou responsáveis, pessoas que participam de projetos na escola, e toda a comunidade ao redor da escola. • Transparência: Qualquer decisão e ação tomada ou implantada na escola tem que ser de conhecimento de todos. 22 2.1 COMPONENTES BÁSICOS A Gestão Democrática é formada por alguns componentes básicos: Constituição do Conselho escolar; elaboração do Projeto Político Pedagógico de maneira coletiva e participativa; definição e fiscalização da verba da escola pela comunidade escolar; divulgação e transparência na prestação de contas; avaliação institucional da escola, professores, dirigentes, estudantes, equipe técnica; eleição direta para diretor (a); Conselhos Escolares O Conselho Escolar é um colegiado com membros de todos os segmentos da comunidade escolar com a função de gerir coletivamente a escola. Os Conselhos Escolares podem servir somente para discutir problemas burocráticos, ser compostos apenas por professores e diretor (a), como um ‘Conselho de Classe’, mas se estiver dentro dos princípios da Gestão Democrática esse Conselho terá que discutir politicamente os problemas reais da escola e do lugar que ela está inserida com a participação de todos os sujeitos do processo. Para que se garanta a constituição de um Conselho Escolar com essas características, Antunes (SEED, 1998) aponta alguns parâmetros importantes a serem considerados: Natureza do Conselho Escolar: Deve ser deliberativa, consultiva, normativa e fiscalizadora. Atribuições fundamentais: Elaborar seu regimento interno; elaborar, aprovar, acompanhar e avaliar o projeto político-pedagógico; criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar; definir e aprovar o plano de aplicação financeiros da escola; participar de outras instâncias democráticas, como conselhos regional, municipal, e estadual da estrutura educacional, para definir, acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. Normas de funcionamento: O Conselho Escolar deverá se reunir periodicamente, conforme a necessidade da escola, para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos aos quais se propôs; a função do membro do CE 23 não será remunerada; serão válidas as deliberações tomadas por metade mais um dos votos dos presentes da reunião. Composição: Todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no CE, assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento); o diretor é membro nato do conselho. Processo de escolha dos membros: A eleição dos membros e suplentes deverá ser feita na unidade escolar, por votação direta, secreta e facultativa. Presidência do Conselho Escolar: Qualquer membro efetivo do conselho poderá ser eleito seu presidente, desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. Critérios de participação: Participam do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares; os representantes dos estudantes a partir da 4ª série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto, salvo nos assuntos que, por força legal, sejam restritivos aos que estiverem no gozo de sua capacidade civil; poderão participar das reuniões do Conselho, com direito a voz e não voto, os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas, representantes de entidades conveniadas, Grêmio Estudantil, membros da comunidade, movimentos populares organizados e entidades sindicais. Mandato: Um ano, com direito à recondução. Projeto político pedagógico Para que se tenha êxito em fazer um Projeto Político-Pedagógico, com a participação da comunidade, e para que sua implementação esteja presente na realidade escolar, algumas características são fundamentais: Comunicação eficiente: Um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. Adesão voluntária e consciente ao projeto: Todos precisam estar envolvidos. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. Suporte institucional e financeiro: Tem que ter vontade política, pleno conhecimento de todos e recursos financeiros claramente definidos. 24 Controle, acompanhamento e avaliação do projeto: Um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. Credibilidade: As idéias podem ser boas, mas, se os que as defendem não têm prestígio, comprovada competência e legitimidade, o projeto pode ficar bem limitado. Eleição para diretor. Na Gestão Democrática o dirigente da escola só pode ser escolhido depois da elaboração de seu Projeto Político-Pedagógico. A comunidade que o eleger votará naquele que, na sua avaliação, melhor pode contribuir para implementação do PPP. Porém, existem outras formas de escolha de diretor, que são a realidade da maioria das escolas públicas do Brasil. A escolha para diretor nas escolas sempre foi um assunto muito polêmico e discutido tanto nas escolas quanto entre especialistas da educação. O assunto encontra-se em grande evidência também devido ao fato de ser, entre as outras práticas de administração da escola, aquela que envolve um maior interesse dos governantes, pois é uma importante ferramenta de cooptação pelo poder – "te dou o cargo e você me dá o apoio". A grande atenção voltada a este tema faz alguns até pensarem que a Gestão Democrática se restringe à eleição direta para diretor. Na gestão democrática, as "queixas-lamentos" dos professores, coordenadores e diretores, ou seja, as reclamações de determinadas situações que procuram sempre um responsável para o problema, sem tomar nenhuma atitude efetiva, são substituídas cada vez mais, pela compreensão dos problemas abordados e as buscas de soluções possíveis, procurando priorizar o que de melhor poderão oferecer para o desenvolvimento harmonioso das próprias crianças. É preciso acabar com o circulo de lamentações, mas isso não ocorre a partir da negação dos problemas, faz-se necessário que as reclamações sejam trabalhadas, consideradas e refletidas (isso não significa, necessariamente, que todos os problemas serão resolvidos). O mais importante é o processo de 25 busca de soluções, em que o professor transforme essas "queixas-lamentos" em juízo crítico, abrindo e valorizando o espaço para a elaboração das questões necessárias à (re) construção do conhecimento, da aprendizagem. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola, na circulação das informações, na divisão do trabalho, no estabelecimento do calendário escolar, na distribuição das aulas, no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas, na formação de grupos de trabalho, na capacitação dos recursos humanos. A gestão democrática é, portanto, atitude e método. A atitude democrática é importante, mas não o suficiente. Precisamos de métodos democráticos, de efetivo exercício da democracia. A democracia também é um aprendizado, demanda tempo, atenção e trabalho. Avaliação É necessária uma avaliação da escola como instituição, do gestor, dos professores, dos alunos e de todos os envolvidos no processo de gestão democrática de uma unidade escolar. Rever o PPP, buscar novas tecnologias, observar o caminhar do aluno e o seu progresso assim como as suas dificuldades, procurar novos caminhos, sempre dando ênfase ao trabalho em equipe. A avaliação do sistema escolar e das escolas pode se dar por duas modalidades: a avaliação institucional e a avaliação acadêmica. A avaliação institucional é uma função primordial do sistema de organização e gestão dos sistemas escolares e das escolas. Essa avaliação, também chamada de administrativa, visa à obtenção de dados quantitativos r qualitativos sobre os alunos, os professores, a estrutura organizacional, os recursos físicos e materiais, as práticas de gestão, a produtividade dos cursos e dos professores, etc., com o objetivo de emitir juízos valorativos e tomar decisões em relação ao desenvolvimento da instituição. A avaliação acadêmica ou científica visa à produção de informações sobre resultados da aprendizagem escolar em função do acompanhamento e revisão das políticas 26 educacionais, do sistema escolar e das escolas, tendo em vista formular indicadores de qualidade dos resultados do ensino. Ambas estão centradas na obtenção de dados e informações relacionados com a eficiência e eficácia dos sistemas de ensino e das escolas. Porém deve ser ressaltado que a avaliação dos alunos não pode ser substituída pela avaliação do sistema de ensino. Ao contrário, a avaliação do sistema de ensino e da escola é que deve buscar seus critérios de relevância na avaliação feita pelos professores, ou seja, a serviço da melhoria da qualidade cognitiva da aprendizagem, onde os objetivos de ensino é que irão determinar as formas de avaliação. 27 2.2 A Gestão Democrática na Legislação Brasileira No Brasil, com a reabertura político-democrática, pós Ditadura Militar (1964 – 1985), a Constituição Federal de 1988 chegou para definir a “gestão democrática do ensino público, na forma da lei” como um de seus princípios (Art. 206, Inciso VI). .A promulgação da Constituição, em 1988, tornou obrigatória a adaptação das Constituições Estaduais e das Leis Orgânicas do Distrito Federal e dos municípios às novas determinações, dentre elas a do princípio da gestão democrática do ensino público. Alguns anos mais tarde, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996, vem reforçar esse princípio, acrescentando apenas “e a legislação do sistema de ensino” (Art. 3º, Inc. VIII). A partir de então, o tema se tornou um dos mais discutidos entre os estudiosos da área educacional. A GESTÃO DEMOCRÁTICA NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA A participação da sociedade civil no processo constituinte fez-se mais organizada em função da existência de um Fórum que congregou entidades de âmbito nacional na defesa do ensino público e representou uma plataforma avançada dessa defesa. A gestão democrática do ensino fez-se presente nas reivindicações das entidades, indicando que, já naquele momento, a idéia de democratização da educação superava o conceito de escola para todos, incluindo a noção da escola como espaço de vivência democrática e de administração participativa. A despeito das mobilizações para que a gestão democrática do ensino fosse incluída na Constituição sem restrições, manobras de grupos conservadores no Congresso Nacional, se não conseguiram expurgar a expressão em sua totalidade, terminaram por limitá-la ao ensino público. Antes mesmo de incorporada a gestão democrática do ensino público na Constituição de 1988, a mobilização em torno de sua introdução na LDB foi iniciada. Coube ao Deputado Octávio Elísio (PSDB-MG), apresentar um projeto de lei à Câmara Federal, partindo de um estudo de Dermeval Saviani publicado na revista da ANDE8 e substituindo o componente sobre financiamento da 28 educação por um texto mais detalhado, baseado em estudos realizados por Jacques Velloso e José Carlos Merchior. O projeto apresentado não continha nenhuma referência explícita sobre a gestão democrática como princípio do ensino público, apesar de, naquele momento, este já ser um ponto conquistado na Constituição recentemente promulgada. A mobilização do Fórum, transformado em Fórum em Defesa da Pública na LDB, com a ampliação de sua base de representação. O substitutivo Jorge Hage (PSDB-BA), como ficou conhecido, incorporou, no entanto, importantes avanços no campo da democratização da educação, inclusive de sua gestão democrática, por meio de mecanismos como autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira das unidades escolares, bem como de descentralização dos sistemas de ensino. Somente aprovado pelo plenário da Câmara Federal em 13 de maio de 1993, quando a correlação de forças políticas já havia se alterado, seguiu para o Senado Federal, onde já havia sido apresentado pelo Senador Darcy Ribeiro (PDT-RJ) outro projeto, em 20 de maio de 1992. O Senado Federal teve, então, a incumbência de analisar o projeto aprovado na Câmara Federal e o originado na própria casa. Tendo passado por um período de intensa turbulência, em sua tramitação no Senado, a LDB finalmente promulgada em dezembro de 1996 como Lei 9394/96 termina por contemplar de maneira direta ou indireta a gestão democrática do ensino público. Além dessas referências diretas, a LDB fixa incumbências dos estabelecimentos de ensino, incluindo, no Art. 12, a elaboração e execução da proposta pedagógica, e no Art. 15, a ampliação progressiva de autonomia pedagógica, administrativa e de gestão financeira nas escolas. Lei 9394/96, Art. 3º, Inciso VIII sobre a legislação dos sistemas de ensino. Lei 9394/96, Art. 14. sobre a elaboração do PPP e a criação dos conselhos escolares. Lei 9394/96, Art. 56. trata da gestão democrática nas instituições de ensino superior “Estes artigos da LDB, acima citados, dispõem que a “gestão democrática do ensino público na educação básica aos sistemas de ensino, oferece ampla autonomia às unidades federadas para definirem em sintonia com suas especificidades formas de operacionalização da gestão, com a participação dos profissionais da educação envolvidos e de toda a comunidade escolar e local” (VIEIRA, p.7 – 20, 2005). 29 2.3 PRINCÍPIOS E CARACTERÍSTICAS DE UMA GESTÃO DEMOCRÁTICA Princípios da gestão democrática Por ser um trabalho complexo a o gestão democrática requer o conhecimento e adoção de alguns princípios básicos, cuja aplicação, deve estar subordinada às condições concretas de cada escola, São eles: • Autonomia das escolas e da comunidade educativa. Autonomia de uma escola é representada pelo poder de decisão sobre seus objetivos e suas formas de organização; manter-se relativamente independente do poder central: gerir livremente os recursos financeiros.. Poder traçar o seu próprio caminho com a participação e dos professores, alunos, funcionários, pais e comunidade.Na escola pública a autonomia é relativa, uma vez que a escola está vinculada ao sistema e às políticas publicas. • Relação orgânica entre a direção e a participação dos membros da equipe escolar. Este princípio engloba o exercício da direção e a responsabilidade individual de cada membro da equipe escolar, a serviço dos objetivos do ensino, especialmente da qualidade cognitiva dos processos de ensino e aprendizagem. “..., a organização escolar democrática implica não só a participação na gestão mas a gestão da participação.” Jose Carlos Libâneo (2008, p.143) • Envolvimento da comunidade no processo escolar A presença da comunidade na escola têm várias implicações, tais como: preparar o projeto pedagógico-curricular e acompanhar e avaliar a qualidade dos serviços prestados. Além disso, a participação da comunidade escolar em processos decisórios dá respaldo a governos municipais e estaduais para 30 encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei que atendam aos ensejos da população. • Planejamento das tarefas O plano de ação de uma escola ou o projeto pedagógico curricular, discutido e analisado publicamente pela equipe escolar, torna-se instrumento unificador das atividades escolares, convergindo em sua execução o interesse e o esforço coletivo dos membros da escola. • Formação continuada para o desenvolvimento pessoal e profissional dos integrantes da comunidade escolar A organização e a gestão do trabalho escolar requerem o constante aperfeiçoamento profissional de toda a equipe escolar. Dirigir uma escola implica conhecer bem seu estado real, observar e avaliar constantemente o desenvolvimento do processo de ensino, analisar com objetividade os resultados, fazer compartilhar experiências docentes bem sucedidas. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar tosos os seus segmentos, principalmente pais e alunos, respondendo às exigências dessa prática. As secretarias de Educação devem, portanto, comprometer-se com esta capacitação. • Consultar a comunidade escolar Se desejarmos que a população se incorpore à vida social, com presença ativa e decisória, não podemos conceber a definição de política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante. Nesse sentido, seminários, assembléias, debates, encontros etc., devem, portanto, comprometer-se com esta capacitação. • Utilização de informações concretas e análise de cada problema em seus múltiplos aspectos, com ampla democratização das informações Analisar os problemas em seus múltiplos aspectos significa verificar a qualidade das aulas, o cumprimento dos programas, a qualificação e a experiência dos professores, as características socioeconômicas e culturais 31 dos alunos, os resultados do trabalho que a equipe propôs atingir, a saúde dos alunos, a adequação dos métodos e procedimentos didáticos. A democratização das informações implica o acesso de todos às informações e canais de comunicação que agilizem a tomada de conhecimento das decisões e de sua execução. • Garantir a lisura nos processos de definição da gestão Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática - escolha dos dirigentes escolares, implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa-, todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. É preciso garantir a todos acesso aos acontecimentos e às resoluções e fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização; • Avaliação compartilhada Todas as decisões e procedimentos devem ser acompanhados e avaliados com base na organização de um trabalho voltado para as ações pedagógicas, que atenda aos objetivos básicos da instituição e que conte com a participação de todos os membros da equipe escolar. • Relações humanas produtivas e criativas assentadas na busca de objetivos comuns È muito importante as relações interpessoais em função da qualidade do trabalho de cada educador, da valorização da experiência individual, do clima amistoso de trabalho. As relações devem ser baseadas no diálogo e no consenso. CARACTERÍSTICAS DE UMA GESTÃO DEMOCRÁTICA • Estrutura organizacional A Gestão Democrática implica a existência de uma sólida estrutura organizacional, responsabilidades muito bem definidas, posições seguras em relação às formas de assegurar relações interativas democráticas, 32 procedimentos explícitos de tomada de decisões, formas de acompanhamento e de avaliação. • Objetivos Comuns A consolidação de uma gestão escolar de cunho democrático-participativo requer competência cognitiva e afetiva, respaldada na contextualização de valores, hábitos, atitudes e conhecimentos. Para o desenvolvimento de atitudes coletivas, é importante cultivar o espírito de coesão, a partir da formação da equipe escolar, em torno de objetivos comuns. • Proposta pedagógica inovadora Gestão democrática se concebe como a tarefa de abrir os portões da escola acompanhada de uma nova proposta pedagógica, servindo de instrumento de transformação dessas práticas e não apenas uma reiteração dessa nova formulação. Faz-se necessário superar as formas conservatórias de organização e gestão, adotando formas alternativas, criativas, de modo que aos objetivos sociais e políticos da escola correspondam estratégias adequadas e eficazes de organização e gestão. “A gestão democrática, no interior da escola, não é um princípio fácil de ser consolidado, pois se trata da participação crítica na construção do projeto político pedagógico e na sua gestão.” Zilah Veiga (2002, p. 18): • Participação A participação fortalece a gestão democrática, contudo há uma necessidade de descentralização e democratização da educação para que venha provocar mudanças pedagógicas no processo ensino-aprendizagem “O entendimento do conceito de gestão já pressupõe, em si, a idéia de participação, isto é, do trabalho associado de pessoas analisando situações, decidindo sobre seu encaminhamento e agir sobre elas em conjunto”. Lück(1998,p.15), 33 Uma gestão é considerada democrática e participativa quando existe um movimento de participação, que tanto pode vir do interior da escola quanto da comunidade, e que pode ser de desconstrução da subalternidade. Não são dois movimentos, mas um movimento em rede. Para isso, faz-se necessário superar as formas conservadoras de organização e gestão, adotando formas alternativas, criativas, de modo alcançar estratégias adequadas e eficazes para se implantar uma gestão democrática. A participação influi na democratização da gestão e na melhoria de ensino. “Todos os segmentos da comunidade podem compreender melhor o funcionamento da escola, conhecer com mais profundidade os que nela estudam e trabalham, intensificar seu desenvolvimento com ela e, assim, acompanhar melhor a educação ali oferecida.” Gadotti e Romão(1997, p.16) Participação significa a atuação dos profissionais da educação e dos usuários (alunos e pais) na gestão da escola. Há dois sentidos de participação articulados entre si. Há a participação como meio de conquista da autonomia da escola, dos professores, dos alunos, constituindo-se como prática formativa, como elemento pedagógico, metodológico e curricular. Há a participação como processo organizacional em que os profissionais e usuários da escola compartilham alguns processos de tomada de decisões. • Diálogo A escola democrática é aquela que está aberta ao diálogo intenso com toda comunidade escolar, sem distinção; procura moldar as formas instituídas de organização da escola ao novo momento de democratização da sociedade e da educação escolar. • Gestor comprometido A escola precisa ter liderança de um gestor comprometido com a qualidade da educação e com as transformações sociais que possibilite avançar o aluno nos 34 mais variados aspectos: social, político, intelectual e humano. As atitudes os conhecimentos o desenvolvimento de habilidades na formação do gestor da educação são elementos cruciais para o funcionamento da educação escolar 35 2.4 O PERFIL DO GESTOR E DOS DEMAIS PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS NUMA GESTÃO DEMOCRÁTICA “É que a democracia, como qualquer sonho, não se faz com palavras desencarnadas, mas com reflexão e prática” Paulo Freire (Um salto para o futuro – Construindo a Escola Cidadã – MEC, 1998, p. 43 ) Este capítulo tem inicio com o seguinte questionamento: Quais as formas ditas democráticas de participação de pais, alunos, funcionários, professores e gestor dentro do ambiente escolar? “Uma grande escola exigirá docentes competentes, abertos para o mundo e para o saber, sempre de novo redefinidos. Docentes e estudantes conscientemente comprometidos. Uma grande escola exigirá espaços físicos, culturais, sociais e artísticos, equipados que abriguem toda a sabedoria acumulada da humanidade e toda a esperança de futuro – que não seja continuidade do presente, porque este está em ritmo de barbárie – mas seja sua ultrapassagem. Uma grande escola exigirá tempo. Tempo de encontro, de encanto, de canto, de poesia, de arte, de cultura, de lazer, de discussão, de gratuidade, de ética e de estética, de bem-estar e de bemquerer e de beleza. Porque escola grande se faz com grandes cabeças (é certo!), mas também com grandes corações, com muitos braços, que se estendem em abraços que animam caminhadas para grandes horizontes.” Redin(1999,p.07) A divisão do trabalho corresponde ao agrupamento de funções, segundo determinados critérios, de forma a permitir que a carga total de trabalho seja desempenhado satisfatoriamente pelas pessoas disponíveis para o seu desempenho. PAIS E/OU REPONSÁVEIS A participação de pais no processo pedagógico e na definição das propostas educacionais, o que supõe avaliação, foi, durante muito tempo, indesejada, um tabu nos meios educacionais. Mas faz parte do domínio público de que "é preciso toda uma aldeia para se educar uma criança". E a legislação tem previsto a participação de pais em Conselhos, de Escola, Fundos Gestores os 36 mais variados e outras modalidades. Apesar de entender como positiva a incorporação de novos setores à discussão – e, quiçá, decisão – educacional, é importante destacar que este é um terreno de contradições e disputas de propostas políticas variadas. Finalmente, a participação de pais é um caminho ainda longo a se percorrer, pois "não representa algo que apenas seja adicionável à atual organização da escola, para que, melhorando-a, ela permaneça, no essencial, igual àquilo que tem sido e que é", conforme indica Licínio Lima (2002, p. 71). Trata-se de investir na transformação da "cara da escola" que passa pela criação e efetivação de mecanismos de participação como base à Gestão Democrática. ALUNOS A escola convive com alunos diariamente e, de maneira consciente ou não, ensina não só por meio de conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. Mas também pelas relações que estabelece no dia-a-dia. Se o aluno só ouvir, dificilmente aprenderá a falar; se fala no momento que bem entende, apresentará dificuldade para ouvir o outro; se só é avaliado, não aprenderá a avaliar; se só realizar tarefas individuais, dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente; se só cumprir ordens, não aprenderá a estabelecer seus limites; se suas tarefas forem sempre dirigidas, não aprenderá a ser criativo. A forma como a escola organiza seu tempo e a forma como ela organiza seu espaço também ensinam aos alunos. Por isso, a escola não educa só quando educadores escrevem ou falam. Querendo ou não, a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar. É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ele está. O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? Em relação a estes questionamentos, Gadotti tem a resposta: “O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. E, para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem, ele precisa participar das decisões que dizem 37 respeito ao projeto da escola, projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. A participação pertence a própria natureza doa ato pedagógico.” Gadotti ( Um salto para o futuro – Construindo a Escola Cidadã – MEC, 1998, p.44) O Conselho Escolar pode ser o espaço de construção do projeto da escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve, proporcionando o exercício da cidadania, o aprendizado de relações sociais mais democráticas, a formação de cidadãos ativos. Por meio do conselho o aluno e demais membros da comunidade poderá controlar a qualidade de um serviço prestado, acompanhando e opinando sobre a educação que lhe é oferecida. Outra atividade que garante a participação dos alunos no processo de democratização da gestão é o Grêmio Estudantil. O Grêmio Estudantil é uma entidade representativa dos alunos criada pela Lei Federal nº. 7.398/85, que lhes confere autonomia para se organizarem em torno de seus interesses, com finalidades educacionais, culturais, cívicas e sociais. Deve ser regulamentado no Regimento Escolar da Unidade. FUNCIONÁRIOS ADMINISTRATIVOS E DE APOIO ESCOLAR A concepção democrático-participativa também deve estar presente na relação entre a direção e seus funcionários. Acentua a importância da busca de objetivos comuns assumidos por todos. Defende uma forma coletiva de tomada de decisões, sem, todavia, desobrigar as pessoas da responsabilidade individual. Ou seja, uma vez tomadas as decisões coletivamente, cada profissional deve assumir a sua parte no trabalho. PROFESSORES Os professores têm como função básica realizar o objetivo prioritário da escola, o processo de ensino e aprendizagem. Os professores formam junto com a direção e os especialistas, a equipe escolar. Além de seu papel específico de docência, também têm a responsabilidade de participar na elaboração do 38 projeto-político-pedagógico, na realização das atividades da escola e nas decisões dos conselhos de escola e de classe, das reuniões com pais e das demais atividades cívicas, culturais e recreativas da comunidade. A Gestão Democrática concebe a docência como trabalho interativo, aposta na construção coletiva dos objetivos e das práticas escolares, no diálogo e na busca do consenso. Os professores devem participar ativamente da gestão e organização da escola, contribuindo nas decisões de cunho organizativo. administrativo e pedagógico-didático. Para isso, ele precisa conhecer bem os objetivos e funcionamento da escola, dominar e exercer competentemente sua profissão de professor, trabalhar em equipe e cooperar com os outros profissionais. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia-1996-p.47) COORDENADOR PEDAGÓGICO OU SUPERVISOR EDUCACIONAL Também chamado de Orientador Pedagógico. Deve ser o especialista nas diversas didáticas e o parceiro mais experiente do professor. É ele quem responde por esse trabalho junto ao diretor, formando assim uma relação de parceria – e cumplicidade – para transformar a escola num espaço de aprendizagem. As funções de coordenação pedagógica podem ser sintetizadas nesta formulação: planejar, coordenar, gerir e acompanhar e avaliar todas as atividades pedagógico-didáticas e curriculares da escola e da sala de aula, visando atingir níveis satisfatórios de qualidade cognitiva e operativa das aprendizagens dos alunos. “os elementos materiais e conceituais não cumprem sua função no processo se não estiverem associados ao esforço humano coletivo; da mesma forma, o esforço humano coletivo necessita dos elementos materiais e conceituais para ser aplicado racionalmente.” (Paro,1988, p.24) 39 ORIENTADOR EDUCACIONAL É o profissional cujo papel principal é atuar com os alunos, conscientizando-os de seus valores e dificuldades, levando-os à realização em todas as estruturas e em todos os planos de sua vida. Tendo o aconselhamento sua principal forma de atuação. O orientador educacional assume funções de assistência ao professor, aos pais, às pessoas da escola com os quais os educandos mantêm contatos significativos, no sentido de que estes se tornem mais preparados para entender e atender às necessidades dos alunos, tanto com relação aos aspectos cognitivos e psicomotores, como os afetivos. SUPERVISOR ESCOLAR É o funcionário destacado pela Secretaria de Educação, geralmente um educador (especialista), para dar apoio às escolas e fazer a interface do Executivo com elas. Tem como função dar apoio técnico e administrativo e garantir a implantação da política pública. DIRETOR O diretor é o gestor escolar por excelência, aquele que lidera, gerencia e articula o trabalho de professores e funcionários em função de uma meta: a aprendizagem de todos os alunos. É ele quem responde legal e judicialmente pela escola e pedagogicamente por seus resultados- essa última atribuição, a mais importante, é às vezes esquecida. È um profissional com conhecimentos e habilidades para exercer liderança, iniciativa e utilizar práticas de trabalho em grupo para assegurar a participação de alunos, professores, especialistas e pais nos processos de tomada de decisões e na solução dos problemas. Tem uma importância significativa para que a escola seja respeitada pela comunidade. O diretor é um líder, uma pessoa que consegue aglutinar as aspirações, os desejos, as expectativas da comunidade escolar e articular a 40 adesão e a participação de todos os segmentos da escola na gestão de um projeto comum. Como gestor da escola, como dirigente, o diretor tem uma visão de conjunto e uma atuação que apreende a escola nos seus aspectos pedagógicos, culturais, administrativos, financeiros. Em razão disso, a escolha do diretor requer muita responsabilidade do sistema de ensino e da comunidade escolar. Infelizmente, predomina ainda um sistema escolar público brasileiro a nomeação arbitrária de diretores por indicação política. As funções do diretor são, predominantemente, gestoras e administrativas, entendendo-se, todavia, que elas têm conotação pedagógica, uma vez que se referem a uma instituição e a um projeto educativos e existem em função do campo educativo. Como foi relatado neste capítulo, a gestão de uma escola para ser eficaz e democrática depende do trabalho e do compromisso de todos os integrantes da comunidade escolar. È necessário acontecer a racionalidade e a coordenação dos trabalhos em prol de objetivos comuns.. “Uma grande escola exigirá docentes competentes, abertos para o mundo e para o saber, sempre de novo redefinidos. Docentes e estudantes conscientemente comprometidos. Uma grande escola exigirá espaços físicos, culturais, sociais e artísticos, equipados que abriguem toda a sabedoria acumulada da humanidade e toda a esperança de futuro – que não seja continuidade do presente, porque este está em ritmo de barbárie – mas seja sua ultrapassagem. Uma grande escola exigirá tempo. Tempo de encontro, de encanto, de canto, de poesia, de arte, de cultura, de lazer, de discussão, de gratuidade, de ética e de estética, de bem-estar e de bemquerer e de beleza. Porque escola grande se faz com grandes cabeças (é certo!), mas também com grandes corações, com muitos braços, que se estendem em abraços que animam caminhadas para grandes horizontes.” Redin (1999,p.07) 41 2.5 Os benefícios da Gestão Democrática e os perigos de uma interpretação equivocada de seus princípios. A gestão democrática é o processo de aprendizado e luta política que não circunscreve aos limites da prática educativa, mas vislumbra a criação da participação e o aprendizado do jogo democrático e do repensar das estruturas do poder autoritário que permeiam as relações e as práticas educativas. Qualquer política que se volte para a democratização das relações escolares devem considerar o contexto em que elas se inserem, as necessidades decorrentes e as condições objetiva s em que elas se efetivem. Mas, como se pensar uma escola democrática se o seu principal instrumento de gestão, o Projeto Político Pedagógico, é construído por sujeitos que ainda não conquistaram o grau necessário de autonomia frente à direção da escola? Onde o desconhecimento generalizado da função dos elementos , envolvidos no processo de gestão, não resguardam a representatividade, continuidade e legitimidade necessárias à gestão democrática.? Para poder constituir um caminho real de melhoria da qualidade de ensino a gestão democrática deve ser concebida, em profundidade, como mecanismo capaz de alterar a prática pedagógica. A gestão democrática é o instrumento de transformação da prática escolar, não sua reiteração. Este é o seu maior desafio, pois envolverá, necessariamente, a formação de um novo projeto pedagógico. Uma gestão de qualidade requer liderança abalizada e dedicação, visando valores que inspirem a todos á trabalharem em prol de uma escola produtiva. Daí aos responsáveis pela Gestão de criarem um ambiente estimulador para o aprendizado e para a participação de todos no processo educativo. A qualidade da educação não depende apenas de uma gestão democrática,mas de um planejamento participativo e de um projeto pedagógico eficiente e contextualizado com a realidade da escola. Nesse âmbito,faz mister romper com as tendências fragmentadas e desarticuladas do modo de conceber o 42 projeto para re-significar as suas práticas, para criar a identidade de cada escola particularmente.Tendo como ponto de partida, o planejamento. Partindo desse princípio,a escola precisa da participação da comunidade como usuária consciente deste serviço,não apenas para servir como instrumento de controle em suas dependências físicas.Trata-se de romper com os muros da escola. Mudar as relações de trabalho esse é o principal objetivo de uma gestão democrática,para que essa meta seja atingida precisamos redefinir o conceito de educação através de um planejamento pedagógico consistente voltado ao aprendizado do aluno.Várias escolas não consegue planejar por despreparo da equipe técnica e no fim acabam perdendo a qualidade do ensino. A escola e sua equipe devem estar preparadas para ocupar esse espaço com compromisso, competência humana, teórica, técnica e política. A consolidação de uma gestão escolar de cunho democrático-participativo requer competência cognitiva e afetiva, respaldada na contextualização de valores, hábitos,atitudes e conhecimentos,para o desenvolvimento de atitudes coletivas, é importante cultivar o espírito de coesão,a partir da formação da equipe escolar,em torno de objetivos comuns. O gestor deve utilizar os meios burocráticos para facilitar,não para atrapalhar o processo ensino aprendizagem, o que precisa ficar claro é a perspectiva de uma gestão voltada para as pessoas.Uma escola de sucesso usará todo o potencial crítico e volitivo dos seus recursos humanos e procurará rentabilizar as possibilidades de cada um,pois as escolas tendem a ter os professores que merecem. Ao observarmos a totalidade do ambiente escolar, temos como principal lócus desse movimento a sala de aula e promovemos o tom de democracia pela prática que aplicamos nesse espaço, onde a relação saber/poder passa a ser um mero fator, pois o importante são as trocas de experiências e o que se apreende daqueles diversos saberes expostos. Ou podemos cair na mediocridade, trabalhando a democracia, onde o professor na sua “sapiência” ensina aos alunos que educadamente “absorvem” as informações e se fazem entendidos, sem discussões e diálogos, mas também 43 sem a capacidade de deliberar qualquer medida, pois não dominam os seus conhecimentos. No Brasil, experiências isoladas de gestão democrática de escolas sempre existiram, mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompodas quando estes deixavam a escola; não tiveram continuidade. Essas tentativas se sustentaram no pressuposto mais amplo: maior autonomia das escolas. Existem ainda críticos da gestão democrática que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. Outra objeção que costuma ser feita aos “automistas” é a de que autonomia da escola leva à pulverização, à dispersão e à preservação do localismo, o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. A heterogeneidade dificulta o controle, quando não o impossibilita. Todavia, essas objeções- sustentadas frequentemente por uma concepção centralizadora da educação- são cada vez mais frágeis, na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia. Autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritária existentes. Autonomia é o oposto da uniformização. Autonomia admite a diferença e, por isso, supõe a parceria. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo. Por isso, escola autônoma não significa escola isolada, mas em constante intercâmbio com a sociedade. É necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas; que seja incorporada ao cotidiano e se torne tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. Para isso, há de se criar as condições concretas para o seu exercício, que requer, entre outras providências, a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse 44 novo fazer pedagógico-político; a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação: condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras; respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas, tomemos conhecimento de sues limites e avanços e, num processo contínuo de prática e reflexão, superemos suas falhas, aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização, a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas – “colaboração” entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria de Educação com as escolas; • o órgão de gestão de Educação: plano estratégico de participação, canais de participação (ampliação do acesso à comunicação) e, por isso, transparência administrativa; • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidade de participar da gestão pública); • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da capacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional, se não tem extinguido, pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. O grande problema de uma gestão democrática é a tensão, o conflito permanente entre os interesses das autoridades e os interesses das autoridades das Secretarias de Educação. A primeira resistência à construção de uma escola democrática é a participação incipiente dos próprios servidores, embora seja tarefa que faz parte de seu trabalho e para a qual percebem um salário Depois, a dificuldade se refere à estrutura de gestão já consolidada na escola, onde os órgãos de gestão democrática figuram como meros apêndices da direção, logo dependentes e sem autonomia. 45 A escola e sua equipe devem estar preparadas para ocupar esse espaço com compromisso, competência humana, teórica, técnica e política. A consolidação de uma gestão escolar de cunho democrático-participativo requer competência cognitiva e afetiva, respaldada na contextualização de valores, hábitos,atitudes e conhecimentos,para o desenvolvimento de atitudes coletivas, é importante cultivar o espírito de coesão,a partir da formação da equipe escolar,em torno de objetivos comuns. É fundamental que nesse processo de mudança a escola busque a unidade entre a família, gestor, comunidade, professores, alunos,funcionários onde cada um sinta-se responsável em transformar a educação.Se realmente desejar formar crianças que no futuro sejam indivíduos autônomos,criativos e participativos,precisa hoje trabalhar a autonomia do próprio professor,levando-o a estabelecer relações democráticas em sala de aula,excluindo o autoritarismo com seus alunos,pois só pode auxiliar as crianças a tornarem-se autônomas e com caráter democrático,por meio de atitudes e posturas das pessoas com quais elas convivem. As mudanças nas escolas só irão acontecer de fato se houver uma organização do trabalho pedagógico manada por um corpo técnico alçado diretor e coordenador pedagógico trabalhando em conjunto com o corpo docente, funcionários e demais membros da equipe escolar avaliando e reconstruindo seus projetos,planejamentos e planos. O maior perigo da implementação de uma gestão democrática é que ela se faça presente apenas nos discursos e nas reuniões pedagógcas, mas fique ausente nas ações do dia-a-dia. As mudanças são visíveis no que dizem respeito às práticas educacionais, as escolas com uma gestão democrática dão aos professores liberdade para levar os alunos a construírem conhecimentos e mostrarem suas diferenças, alunos envolvidos com a escola passam a futuros promissores, pais preocupados com a escola são futuros colaboradores para a educação em uma sociedade envolvida, isto é um país desenvolvido em educação. O Diretor ou Coordenador tem neste contexto o dever de corroborar as transformações e construções que favoreçam a unidade escolar como um todo, 46 incluindo todos os seus participantes (funcionários, alunos e comunidade) e jamais ser causídico de um poder centralizado. Porém, isso não demanda deixar de exercer sua autoridade perante os acontecimentos cotidianos, como o caso da falta de funcionários e do “famoso” desvio de funções e muito menos deixar de cumprir o plano pedagógico Municipal ou Estadual. Não da maneira hierarquizada e autoritária às vezes imposta, mas, de maneira reflexiva utilizando constantemente o discernimento. Abranger os conhecimentos e colocar em prática novas concepções e novos Projetos Pedagógicos, como inserir novas teorias no planejamento, demandam o famoso “jogo de cintura”, pois, as aversões estão logo à frente e o medo do desconhecido pode surtir no enfraquecimento da direção como um todo. Surpreendentemente, esse “fazer” também pode despertar no corpo docente à vontade de inovar e de “arregaçar as mangas”. Ao ser implementada a gestão democrática é que, não sendo fim em si, ela pode articular-se com uma variedade infinita de objetivos, não precisando estar necessariamente articulada com a dominação que vige em nossa sociedade. Mas isto não deve servir a qualquer pretexto de imputar-lhe uma neutralidade que não existe. Embora toda gestão tenha a característica básica de mediação, não significa que toda gestão seja idêntica. Precisamente por ser mediação a determinado fim, a gestão tem que adequar-se (nos métodos e nos conteúdos de seus meios) ao objetivo que pretende alcançar, diferenciando-se, portanto, à medida que se diferenciam os objetivos. A democratização da gestão da escola não pode restringir-se ao limites do próprio estado, — promovendo a participação coletiva apenas dos que atuam em seu interior — mas envolver principalmente os usuários e a comunidade em geral, de modo que se possa produzir, por parte da população, uma real possibilidade de controle democrático do Estado no provimento de educação escolar em quantidade e qualidade compatíveis com as obrigações do poder público e de acordo com os interesses da sociedade. 47 III. A GESTÃO DEMOCRÁTICA NA ESCOLA PÚBLICA As instituições escolares vêm sendo pressionadas a repensar seu papel diante das transformações que caracterizam o acelerado processo de integração e reestruturação capitalista caracterizar novas mundial. realidades Essas sociais, transformações políticas, acabem por econômicas, culturais, geográficas. A escola pública não pode ficar fora dessas transformações ou ignorá-las. A democratização da educação é um elemento indispensável para de uma escola pública de qualidade e comprometida com os valores da cidadania, considerando o contexto em que as escolas estão inseridas e as suas necessidades. Nesse processo, a participação e a descentralização são fatores essenciais. Gestão democrática é aquela que abre toda organização da escola pública à participação de todos no poder de decisão. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e, para isso, ela deve dar o exemplo. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. A escola não tem um fim em si mesma. Ela está a serviço da comunidade. Nisso, a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantêm; • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola, isto é, o seu ensino. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento mútuo e, em conseqüência, aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. Existem, certamente, algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto- político-pedagógico da escola. Entre eles, podemos citar: • nossa pouca experiência democrática; • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o 48 governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases; • a própria estrutura vertical do nosso sistema educacional; • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional; • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. A gestão escolar no cotidiano se constitui, hoje, de forma diferenciada: o trabalho fragmentado de inúmeros funcionários público, concursados, contratados temporariamente ou indicados por políticos, que mediante leis, normas, decretos, ofícios e memorandos controlam e coordenam não só o trabalho coletivo da escola, mas também a vida cotidiana dos profissionais. Mais do que controle e coordenação, esses funcionários negociam seus poderes e seus saberes específicos com poderes e saberes tanto das Secretarias de Educação quanto da comunidade. Portanto. O trabalho desses funcionários não pode ser reduzido a uma burocracia impessoal controlada pela hierarquia e pelos meios de comunicação, atualmente tendo como mediação a informática. A gestão escolar é exercida hoje, muito mais por sujeitos individuais que ocupam temporariamente cargos e funções; Ao falar de Escola Pública tomo como base as escolas municipais de Duque de Caxias, onde atuo por mais de trinta anos. Estamos dando os primeiros passos em direção a uma gestão realmente democrática. Construímos o nosso Projeto Político Pedagógico, dentro da nossa realidade e necessidades; elegemos um Conselho Escolar com representantes de todos os segmentos da comunidade escolar, que ainda está aprendendo a deliberar e a participar ativamente da vida da instituição; gerimos algumas verbas principalmente as enviadas pelo governo federal. Ainda não elegemos os diretores e estamos aguardando ansiosamente esse processo. Houve avanços, mas ainda não se pode afirmar que existe uma política pública efetiva de democratização da escola nem tampouco um movimento político, mas apenas uma mobilização vivenciada no cotidiano escolar. A gestão democrática atinge espaços e tempos provisórios de algumas escolas, não conseguindo se universalizar. As escolas estaduais do Estado do Rio de Janeiro já avançaram mais um pouco, elegem seus 49 diretores, quando os governantes marcam eleições, e conseguem gerir todas as suas verbas. Na maioria das escolas públicas tanto municipais como estaduais a participação de pais e responsáveis ainda não tem grande significação. Raramente os pais são convidados para reuniões regulares que não sejam entrega de boletim, não vejo a direção ouvir o que os pais têm a dizer, nem mesmo para participarem de eventos como jantares, festas ou uma apresentação de trabalho dos seus filhos. Ao contrário, os pais são chamados a comparecer na escola quando seus filhos estão dando problema. Sinceramente, quem gosta de ir à escola para ouvir reclamação de seus filhos, tudo bem que a família anda muito ausente na educação de nossas crianças, mas nem por isso devemos castigar os pais. Devemos sim, tornar a escola um lugar agradável e fazer com que todos os envolvidos sintam como sua e, portanto responsáveis pelo bem estar de todos. As práticas dentro da escola pública precisam ser construídas, discutidas e refletidas pelo coletivo escolar. A garantia de um sistema mais ético e justo estará no permanente exercício da cidadania. O desafio é grande, mas não inatingível. Transformações na própria organização do tempo e do espaço, questionamentos em relação ao currículo, legislações que garantam a educação básica e pública para todos, planos que propiciam mais verbas para o desenvolvimento educacional, apesar de ainda serem insuficientes.Políticas e reformas que prometem garantias de avanços, mas escondem o perigo do nãoreconhecimento dos sujeitos que constroem a educação diariamente no nosso Brasil. “Os únicos recursos novos, pelo menos em termos do conjunto nacional das redes estaduais e municipais, são a complementação federal, insignificante no FUNDEF (menos de 1 % da receita nacional em 2006) e muito pequena no FUNDEB ( menos de 5% da receita em 2007 e 10% a partir de 2010).” (Davies, 2008,p.67) A escola pública ainda é vista pelos usuários como propriedade do governo ou do pessoal que nela trabalha. O professor comporta-se como dono do seu cargo e dos alunos de suas classes. O diretor, em alguns casos, funciona como guardião dessa concepção, evitando interferências de servidores e de pais. 50 Mas está na figura do diretor a possibilidade de facilitar ou dificultar a implantação de procedimentos participativos. Na prática, o que existe na maioria das escolas brasileiras é uma gestão compartimentada. Um pequeno grupo decide e a maioria executa. Construir uma gestão democrática exige tempo e planejamento e dá mais trabalho do que simplesmente agir de forma diretiva. Contudo, os ganhos são enormes quando as decisões sobre os gastos, a montagem do projeto pedagógico e os instrumentos de avaliação, entre outros, são compartilhados e a comunidade e a equipe se sentem, de fato, parte da escola. Assim o democrático deixa de ser adjetivo para se tornar prática. A escola pública produz e reproduz diferenças sociais e cabe a organização pedagógica reconhecer essa problemática e tentar tomar medidas que possam superar esses entraves,construindo uma gestão escolar que ofereça reciprocidade,mudança de mentalidade e atitude,sem a qual essa organização não poderia ser efetiva em seu papel social.A gestão democrática,pressupõe a idéia de participação,isto é, do trabalho associado de pessoas,analisando situações,decidindo sobre o seu encaminhamento e agindo sobre elas em conjunto. A educação não será acessível a todos enquanto todos os trabalhadores não se interessarem por ela. A educação para todos supõe todos pela educação. Com relação à baixa produtividade do ensino, o que se constata é certa renúncia da escola pública a responsabilizar-se por um produto pelo qual ela deve prestar conta ao estado e à sociedade. Mas, pela dificuldade de medida de sua qualidade apenas por meio de exames ou testes pontuais, faz-se mister um acompanhamento constante do trabalho escolar, garantindo um bom produto pela garantia de um bom processo. Para responder às exigências de qualidade e produtividade da escola pública, a gestão da educação deverá realizar-se plenamente em seu caráter mediador. Ao mesmo tempo, consentânea com as características dialógicas da relação pedagógica, deverá assumir a forma democrática para atender tanto ao direito da população ao controle democrático do estado quanto à necessidade que a própria escola tem da participação dos usuários para bem desempenhar suas funções. 51 O padrão de formação dos dirigentes escolares das escolas públicas está se alterando, no sentido de que este tem que desenvolver novas habilidades que até então não eram exigidas de um administrados escolar. O diretor da escola se tornou um agente político mais atuante, tendo que fazer a interface dos objetivos estabelecidos pelos órgãos de administração central da educação e os interesses da comunidade local onde está inserida. Além disto, o dirigente passou a ter que desenvolver a habilidade de gerenciar novos recursos públicos, cuja administração depende do prévio conhecimento de toda uma regulamentação específica gravada em textos legais, tais como, o processo de licitações, de direito tributário, direito de trabalho, obrigações de informações às agências governamentais (Receita Federal, INSS, etc.). Ficou muito mais complexo administrar uma escola e o Diretor passou a ter a necessidade de compartilhar com representantes da Comunidade escolar, nos conselhos ou associações, as deliberações para uma utilização racional dos recursos financeiros. Há de se entender que a participação comunitária vem acontecendo de forma lenta e gradual e que, indiscutivelmente, ainda se tem um longo caminho a ser percorrido. É verdade que as escolas públicas se diferenciam pela qualidade de ensino e qualidade quem faz é quem organiza o trabalho pedagógico, ou seja, é importante que a gestão esteja embasada numa concepção democrática e participativa, pois os novos tempos exigiram um padrão educacional voltado para o desenvolvimento de um conjunto de competências e de habilidades essenciais, a fim de que os alunos possam fundamentalmente compreender e refletir sobre a realidade, participando e agindo no contexto de uma sociedade comprometida com o futuro. “Houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. Por isso, no meu entender, as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo investimento deveria ser feito nu8ma mudança radical e ampla. Hoje, minha certeza é outra: penso que, no dia-a-dia, mudando passo a passo, com pequenas mudanças numa certa direção, podemos operar a grande mudança, a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo, solidário e paciente. E o mais importante, isso pode ser feito já. Não é preciso mais esperar para mudar.” Gadotti (Um salto para o futuro – Construindo a Escola Cidadã – MEC, 1998, p.22) 52 IV. GESTÃO DEMOCRÁTICA: UTOPIA OU REALIDADE? A palavra utopia significa lugar que não existe, algo inalcançável. Não quer dizer que nunca possa existir ou que nunca será alcançável. Podemos considerá-la com algo desejável e possível. Assim é a gestão democrática, principalmente na escola pública, ainda não existe totalmente, mas é colocada como um objetivo a ser atingido. Inicialmente a tarefa deve consistir numa tomada de consciência das condições concretas, que apontam para a viabilidade de um projeto de democratização das relações no interior da escola. Coloco a utopia como um resultado, que pressupõe obviamente um processo e não um sentido antagônico à realidade. Realidade é o que está e utopia é o pode e deve vir a ser. Infelizmente a escola, com pequenas melhoras, ainda é reprodutora de uma certa ideologia dominante. Se queremos uma escola transformadora, precisamos transformar a escola que temos., para tal é necessário ser transformado o sistema de autoridade e a distribuição do próprio trabalho no interior da escola. Na medida em que se conseguir a participação de todos os setores da escola nas decisões a respeito de seus objetivos e de seu funcionamento, ter-se-á melhores condições para pressionar os escalões superiores no sentido de dotar a escola de autonomia e de recursos. No papel, a autonomia escolar parece ser ampla, mas sua realização ainda é uma utopia por falta de informação das pessoas que têm que exercê-la e pela tradição centralista da Educação brasileira. O primeiro passo nessa direção foi a criação dos conselhos escolares, ainda um instrumento imperfeito, mas é o que existe e que precisa ser aperfeiçoado e ele é o embrião de uma verdadeira gestão democrática, desde que articulado com os interesses populares na escola. Hoje quando o diretor reivindica, é fácil dizer-lhe não, porém quando essa reivindicação não for de uma pessoa, mas de um grupo, que representa outros grupos a resposta tende a ser outra, é neste sentido, portanto, que a escola necessita organizar-se democraticamente com vistas ao alcance de objetivos transformadores. Cada escola deve exigir o atendimento dos direitos e contar com a participação efetiva da comunidade. Não basta permitir formalmente que 53 os pais participem da administração da escola; é preciso que haja condições materiais propiciadoras dessa participação. Uma providência dessa natureza é de fundamental importância na medida em que rompe com a idéia de que os problemas escolares podem ser resolvidos nos estritos limites da escola e procura, ao mesmo tempo, propiciar condições concretas de participação da comunidade escolar nos destinos da educação. É neste sentido que a utopia de uma escola participativa. Ou seja, no sentido de que aceita a necessidade, ou a imprescindibilidade, da participação efetiva da comunidade nas decisões que dizem respeito à educação de seus filhos, se procura identificar as condições de possibilidade dessa participação e se buscam os mecanismos necessários à distribuição da autoridade no interior da escola, de modo a adequá-la ao mister de, ao mesmo tempo em que procura formas democráticas de alcance dos objetivos educacionais a ela inerentes, se constitua em mecanismo de pressão junto ao Estado e à classe detentora do poder, no sentido de serem propiciadas as condições que possibilitam o seu funcionamento e autonomia. Afinal, autonomia não é uma palavra de fácil interpretação e sua subjetividade exige dos gestores muita discussão e prática para lhe dar vida. Mas, se a transformação da autoridade no interior da escola for entendida como uma quimera, se a participação efetiva da comunidade nos destino da educação for uma utopia no sentido de um sonho irrealizável, e não no sentido que foi dado no início do capítulo, então de nada adianta continuar falando de escola como algo que possa contribuir para a transformação social e, definitivamente, devemos deixar caírem as máscaras e as ilusões com relação à escola que aí está e partir para outras soluções, ou, então, cruzar os braços e esperar passivamente que a classe dominante, através de suas “reformas” e “acomodações” de interesses continue fazendo-nos engolir as soluções paliativas que a mantêm perenemente do poder. Para que utopia de uma gestão democrática seja realidade será necessário relativizar o papel da escola por meio da problematização da relação entre sociedade e escola; recuperar na escola o trabalho docente em sua globalidade e dinamicidade; problematizar formas de provimento ao cargo de 54 diretor; criar novos mecanismos de democratização, como importância política do conselho escolar, comunidade e construção do PPP da escola; rediscutir a organização do trabalho no interior da escola para além das barreiras corporativas e funcionais. Como também rever a autonomia e o papel dos movimentos no interior das escolas. Deve-se criar mecanismos de avaliação do PPP, envolvendo avaliação docente, discente e institucional por meio da definição do parâmetro de qualidade; criar e garantir canais de democratização das informações entre todos os segmentos envolvidos; lutar pela autonomia financeira da escola e estabelecer canais de articulação com outras esferas; rever o papel dos dirigentes das escolas para atuarem mais eficazmente para a construção de uma escola democrática. Dar ênfase à pluralidade de projetos para a defesa da escola pública, gratuita, democrática e de qualidade. A participação da população na escola ganha sentido, assim, na forma de uma postura positiva da instituição com relação aos usuários, em especial aos pais e responsáveis pelos estudantes, oferecendo ocasiões de diálogo, de convivência verdadeiramente humana, em suma, de participação na vida da escola. Levar o aluno a querer aprender implica um acordo tanto com educandos, fazendo-os sujeitos, quando com seus pais, trazendo-os para o convívio da escola, mostrando-lhes quão importante é sua participação e fazendo uma escola pública de acordo com seus interesses de cidadãos. (PARO, In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE POLÍTICA E ADMINISTRAÇÃO DA EDUCAÇÃO, 18, 1997) 55 CONCLUSÃO Nesta monografia sob o título de Gestão Democrática: Utopia ou Realidade? Foi desenvolvida em quatro capítulos onde foi mostrado o conceito de gestão através das varias etapas de nossa história, seus beneficios e os entraves para a implementação de uma gestão democratica de fato nas escolas públicas. Foi realizado um estudo para melhor entender o papel, a competência, a responsabilidade dos gestores escolares e importância de um projeto-políticopedagógico consciente e da participação de todos os segmentos da comunidade escolar. Dentro da minha experiência como educadora e gestora tentei mostrar que a democratização do sistema público de ensino enfrenta dificuldades quanto a sua forma de gestão e na escolha de seus gestores Organizar o trabalho pedagógico em escola pública não é uma tarefa fácil é algo abrangente,requer uma formação de boa qualidade além de exigir do gestor um trabalho coletivo que busque incessantemente a autonomia, liberdade, emancipação e a participação na construção do projeto político-pedagógico. Numa gestão democrática,o gestor precisará saber como trabalhar os conflitos e desencontros, deverá ter competência para buscar novas alternativas e que as mesmas atendam aos interesses da comunidade escolar, deverá compreender que a qualidade da escola dependerá da participação ativa de todos membros, respeitando individualidade de cada um e buscando nos conhecimentos individuais novas fontes de enriquecer o trabalho coletivo. Procuro demonstrar que a gestão democrática deve ser incluída na prática social que pode levar à conscientização e à participação popular no interior da escola, como pais, moradores, movimentos populares e sindicais, constituindo um caminho real para a melhoria da qualidade de ensino se ela for concebida em profundidade,como um mecanismo capaz de alterar prática pedagógica, tornando-se um instrumento de transformação. Este é o seu maior desafio, pois envolverá, necessariamente a formação de um novo projeto político, abertura dos portões e muros escolares devem sempre estar acompanhados de novos 56 projetos pedagógcos. É lamentável perceber que, após tantas lutas e apesar da asociedade civil, com avaços e recuos, ter alcançado diferentes formas de organização, as práticas escolares ainda apresentem-se continuamente conformadas com a situação, fundamentando-se na imposição e na coerção legal e burocrática de um estado que ignora o caminho já percorrido pelos profissionais de educação, Usei Utopia e realidade, não como palavras antônimas, mas como processo e resultado. Verifiquei que o caminho para a concretização da grande utopia pretendida por todo educador consciente– gestão democrática da educação- é a participação da população usuária, visando superar a atual situação de precariedade do ensino público no país, em especial no Estado do Rio de Janeiro. E que esta adesão redunde em ações efetivas que contribuam para o bom desempenho do aluno. A gestão democrática somente será um modelo preponderante de administração, quando, no cotidiano da escola, dirigente e dirigidos participarem desse debate tanto nas reuniões administrativas e pedagógicas quanto nas aulas. 57 Bibliografia • FREIRE, Wendel – Gestão Democratica – Reflexoes e pratica do/no cotidiano • escolar- editora wak, 2009 - RJ LIBANEO, Jose Carlos – Organização e Gestão da Escola – Teoria e Prática – MF livros- 5ª edição ,,2008 – GO • FREIRE, Paulo. Pedagogia de Autonomia: Saberes necessários a prática educativa. SP: ed. Paz e Terra, 1996, 20ª edição • BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação a Distância. Salto para o Futuro: Construindo uma escola cidadã, projeto político-pedagógico. Brasília: SEED, 1998. ISBN • PARO, Vitor Henrique. Administração escola: introdução crítica. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2006. • WIKIPEDIA. Gestão Democrática. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Gestão_democrática>. Disponível em 58 Anexo Detalhamento LDB 9394/96 Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX - garantia de padrão de qualidade; Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: I - elaborar e executar sua proposta pedagógica; II - administrar seu pessoal e seus recursos materiais e financeiros; III - assegurar o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas; IV - velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente; V - prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento; VI - articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola; VII - informar pai e mãe, conviventes ou não com seus filhos, e, se for o caso, os responsáveis legais, sobre a frequência e rendimento dos alunos, bem como sobre a execução da proposta pedagógica da escola; (Redação dada pela Lei nº. 12.013, de 2009). VIII – notificar ao Conselho Tutelar do Município, ao juiz competente da Comarca e ao respectivo representante do Ministério Público a relação dos 59 alunos que apresentem quantidade de faltas acima de cinqüenta por cento do percentual permitido em lei. (Incluído pela Lei nº. 10.287, de 2001). Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II - participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. Art. 15. Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público. Art. 56. As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes.