SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL REVISTA TRIMESTRAL DE JURISPRUDÊNCIA Volume 109* (Páginas 1 a 450) Julho de 1984 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL Ministro João Baptista CORDEIRO GUERRA (26974), Presidente Ministro José Carlos MOREIRA ALVES (20-6-75), Vice-Presidente Ministro DJACI Alves FALCÃO (22-2-67) Ministro Pedro SOARES MUNOZ (8-8-77) Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA (27-6-78) Ministro Luiz RAFAEL MAYER (15-12-78) Ministro José NERI DA SILVEIRA (1981) Ministro ALFREDO BUZAID (30-3-82) Ministro OSCAR Dias CORRÊA (26-4-82) Ministro ALDIR Guimarães PASSARINHO (2-9-82) Ministro José FRANCISCO REZEK (24-3-83) COMISSÃO DE REGIMENTO Ministro DJACI FALCÃO Ministro SOARES MUNOZ Ministro FRANCISCO REZEK Ministro ALDIR PASSARINHO — Suplente COMISSÃO DE JURISPRUDÊNCIA Ministro MOREIRA ALVES Ministro DECIO MIRANDA Ministro RAFAEL MAYER COMISSÃO DE DOCUMENTAÇÃO Ministro MOREIRA ALVES Ministro RAFAEL MAYER Ministro NERI DA SILVEIRA COMISSÃO DE COORDENAÇÃO Ministro SOARES MUNOZ Ministro DECIO MIRANDA Ministro OSCAR CORRÊA PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA Doutor INOCÊNCIO Mártires COELHO COMPOSIÇÃO DAS TURMAS Primeira Turma Ministro Pedro SOARES MUNOZ, Presidente Ministro Luiz RAFAEL MAYER Ministro José NERI DA SILVEIRA Ministro ALFREDO BUZAID Ministro OSCAR CORRÊA Segunda Turma Ministro DJACI Alves FALCÃO, Presidente Ministro José Carlos MOREIRA ALVES, Vice-Presidente Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA Ministro ALDIR Guimarães PASSARINHO Ministro José FRANCISCO REZEK CONSELHO NACIONAL DA MAGISTRATURA Ministro João Baptista CORDEIRO GUERRA, Presidente Ministro José Carlos MOREIRA ALVES, Vice-Presidente Ministro DJACI Alves FALCÃO Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA Ministro Luiz RAFAEL MAYER Ministro José NERI DA SILVEIRA Ministro ALFREDO BUZAID REVISTA TRIMESTRAL DE JURISPRUDENCIA SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL RECLAMAÇÃO N? 127 — PE (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda. Reclamante: Procurador-Geral da República — Reclamado: Juiz Federal da Vara da Seção Judiciária de Pernambuco — Interessados: Fundação Professor Mário Ramos e Silva e José Paulo da Silva. Processual Civil. Demarcação. Uma vez proferida e trãnsita em Julgado a sentença homologatória da demarcação (Cód. Proc. Civil de 1939, art. 439), a execução subseqüente que se faz é a desta sentença, e não a do acórdão que mandara proceder à demarcação (mesmo Código, art. 426). ACORDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária, na conformidade da ata do Julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em julgar procedente a Reclamação. Brasília, 8 de fevereiro de 1984 — Cordeiro Guerra, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Decio Miranda: O Procurador-Geral da República, nos termos dos arts. 156 e segs. do Regimento Interno, apresenta reclamação contra o ato do Dr. Juiz Federal da lt _Vara da Seção Judiciária de Pernambuco, que, em execução de acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal na Apelação Cível n? 5.978, e deferindo requerimento da Fundação Professor Mario Ramos e Silva, sucessora de apelados naquele recurso, determinou se oficiasse ao Delegado do Serviço do Patrimônio da União, no sentido de ser reconhecido à referida Fundação: «o domínio útil dos terrenos de marinha, acrescidos e alagados que constituem a Ilha do Pina e que ficam ao lado leste da Ilha do Nogueira, indo até as águas do Oceano Atlântico e, ainda, até os terrenos ocupados pela Administração do Porto do Recife e os lotes de terrenos de números 270 e 270-A, com exclusão da área onde fica situada a càsa de n? 21, antigo 2 R.T.J. — 109 n? 37, da Av. Comendador Moraes, esquina da Av. Herculano Bandeira, Bairro do Pina, nesta Capital, que vem sendo ocupada pelo Sr. José Paulo da Silva, por constituir coisa julgada, segundo se observa de fls. 586/592, dos autos». (Fls. 39) Neguei a suspensão liminar do ato reclamado (fls. 62v.) mas vim a deferi-la posteriormente (flS. 89). Prestou o Dr. Juiz reclamado informações, verbis: «Em resposta ao Ofício de n? 559/R, de Vossa Excelência, passo a informar: A Santa Casa de Misericórdia do Recife propôs Ação Demarcatória contra a União Federal, José Moreira de Araújo Livramento e Da. Alayde Livramento Ramos e Silva, também chamada Alayde Moreira Ramos e Silva, e outros, com a finalidade de demarcar os limites entre as Ilhas do Nogueira e do Pina, cuja ação, em grau de recurso, foi julgada procedente por esse Supremo Tribunal Federal, conforme Acórdão de n? 5.978, de 27 de outubro de 1938. Com a baixa dos autos, houve cumprimento do prefalado acórdão, traçando-se a linha limítrofe da Ilha do Nogueira com a Ilha do Pina. O laudo constante dos autos respectivos, fls. 540/550 (cópia anexadoc. n? 1), descreve toda a trajetória da demarcação procedida. A demarcação efetivada através do laudo em referência, foi julgada por sentença que transitou em julgado, após a concordância das partes litigantes, inclusive, a União Federal, fls. 559 a 559v, 561/561v e 564v (cópias anexas — docs. de n?s 2, 3 e 4). Conforme se percebe do citado laudo, «ao leste, o limite da Ilha do Nogueira é com a Ilha do Pina, separando-as um canal que existia há tempos atrás e que atravessava a Avenida Herculano Bandeira, nas imediações da Igreja» (Sic). O Serviço do Patrimônio da União ficou a obedecer durante muitos anos, ao estipulado no Acórdão n? 5.978, citado e que se faz concretizar através da aludida demarcação, conforme, aliás, vem escrito, data vênia, pelo douto Procurador-Geral da República, item 9, da reclamação, embora dizendo que pelo cometimento de «erro hoje felizmente já reconhecido e corrigido» (Sic). Entendo que a decisão atacada na Reclamação não feriu, nem de leve, o Acórdão de n? 5.978, de 27 de outubro de 1938, dessa Suprema Corte. Pelo contrário, deu-lhe cumprimento, ao mandar que se respeitasse e reconhecesse o direito dos que ficaram com as ocupações de suas terras ao leste daquela linha demarcatória. Não quis este Juízo dizer que a União Federal não fosse detentora de imóvel ao leste da mesma linha. Tanto é assim que, no despacho atacado pela reclamação, fls. 594, dos autos (cópia anexa, doc. n? 5), ficou determinado que o domínio útil, ao leste da Ilha do Nogueira, em favor da Fundação Professor Mario Ramos e Silva, ia «até os terrenos ocupados pela Administração do Porto do Recife e os lotes de n?s 270 e 270A...», sendo que, a mesma Fundação, em fls. 601/604, item 5, dos autos da Demarcação, (cópia anexa — doc. n? 6), esclarece não ser proprietária total do domínio útil da área que fica ao leste da Ilha do Nogueira, dizendo da alienação de dois lotes, bem assim, da ocupação por parte da Administração do Porto do Recife. R.T.J. — 109 Assim, o Serviço do Patrimônio da União é que não mais quer obedecer ao especificado na demarcação em referência, cuja linha limítrofe encontra suporte no Acórdão de n? 5.978, dessa Colenda Corte e não de parte deste Juizo, consoante acima esclarecido. Outrossim, entendo que, se prejuízo houve para algum interessado, diante do despacho atacado pela douta Procuradoria-Geral da República, o remédio por esta escolhido, data venha, não se adapta à solução da matéria, posto que recursos outros se fazem rezar na legislação adjetiva civil. Logo, no cumprimento do dever, é que fiz continuar na execução do julgado, cuja base é o Acórdão de p? 5.978, dessa Suprema Corte, seguido da sentença que homologou a demarcação determinada pelo mencionado Acórdão. Espero, assim, respeitosamente, seja julgada improcedente a Reclamação. Estive no gozo de férias regulamentares, reassumindo o exercício no dia 6 deste mês, sendo que, no dia 9 próximo passado, é que recebi, por intermédio da Secretaria da 1! Vara, desta Seção Judiciária, o oficio de V. Exa., ora respondido.» (Fls. 66/7) A Fundação Professor Mário Ramos e Silva, interessada no feito, assim reconhecida por meu despacho de fls, 89, sucessora testamentária, que é, de Dona Alayde Moreira Ramos e Silva, esta, por sua vez, sucessora de réus na ação demarcatória que velo a ser dirimida na citada Apelação Civel n? 5.978, oferece impugnação à reclamação. Transcrevendo do acórdão naquela apelação trechos que têm por condizentes, diz a Fundação: «6. Vê-se, portanto, sem sombra de dúvida razoável, que, por 3 força da demarcação parcial procedida em rigorosa obediência ao determinado pelo Acórdão desse Supremo Tribunal Federal, que os limites da Ilha do Nogueira, a Leste, são os terrenos ocupados pela Administração do Porto do Recife, os lotes n?s 270 e 270A (que pertenciam ao co-réu José Moreira de Araújo Livramento e que vieram, no curso da lide, a ser por ele alienados) e a «Ilha do Pina», sendo certo, assim, que nenhum outro imóvel confronta, a Leste, com a Ilha do Nogueira. (Fls. 97 fine) 6.1. Nessas circunstâncias, força é, então, reconhecer que, a partir de quando terminam os terrenos ocupados pela Administração do Porto do Recife, a que se seguem os lotes n?s 270 e 270-A, começa a «Ilha do Pina», cuja extensão, na parte que interessa à controvérsia, ou seja a Oeste da «Ilha do Nogueira», vai até o extremo sul dessa Ilha». (Fls. 98 princ). E acrescenta: «7. A demarcação parcial procedida entre a «Ilha do Nogueira», e a «Ilha do Pina», foi homologada por sentença em 10 de janeiro de 1956, que transitou em julgado, havendo, a requerimento do Dr. Procurador da República no Estado de Pernambuco, Carlos Waldemar Rollemberg, dela sido cientificada, para o devido cumprimento, a Delegacia do Serviço do Patrimônio da União naquele Estado.» (Fls. 98). Mais adiante, procurando demonstrar a desvalia dos fundamentos da reclamação, e, conseqüentemente, a perfeição do despacho reclamado, escreve a Fundação: «17. Assim, no que respeita à alegação de que o Acórdão não reconhecera a titularidade da Ilha do Pina ao Sr. José Moreira de Araújo Livramento e demais sucessores 4 R.T.J. — 109 do Visconde do Livramento, mas tão-somente a titularidade da Santa Casa de Misericórdia sobre a Ilha do Nogueira, cabe contrapor o fato de que foram aqueles antecessores da Impugnante os únicos demandados juntamente com a União Federal, esta como proprietária do domínio direto da Ilha do Pina e aqueles como proprietários limítrofes da mesma Ilha para responderem como réus, aos termos da Ação de Demarcação promovida pela Santa Casa de Misericórdia, proprietária da Ilha do Nogueira, com a finalidade de ver constituídos «ós verdadeiros limites entre as duas Ilhas, restituindo-se a quem de direito os terrenos porventura invadidos por qualquer deles», como consta do Acórdão proferido na Apelação Cível n? 5.978. 17.1. Essa condição de proprietária da Ilha do Pina ou, melhor dizendo, de titulares do domínio útil da Ilha do Pina, constituiu matéria incontroversa no processo, porque reconhecida tanto pela Autora, a Santa Casa de Misericórdia do Recife, como por todos os réus, inclusive a União Federal, que ainda na audiência de instrução e julgamento da fase executória, ressalvou apenas a sua condição de titular do domínio direto dos imóveis em causa (Ilha do Pina e Ilha do Nogueira) (documento n? 8). 17.2. Sendo certo que a Ação de Demarcação, hoje, como ontem, (CPC arts. 267, VI, 950; Regulamento n? 720/1890, art. 1?, 66 e 67; Regulamento n? 737/1850, arts. 74, § 2? c/c o art. 672, § 1?), carece, para o seu desenvolvimento válido e regular, da citação dos confrontantes, se afigura curial que, nãó fossem aqueles antecessores da impugnante os titulares do domínio útil da Ilha do Pina, tal como então reconhecido no processo, não só este não poderia ter tido prosseguimento sem a citação dos verdadei- ros confrontantes, como da lide deveriam ter sido excluídos, por ilegitimidade de parte. Se assim não ocorreu, é porque foram eles reconhecidos como titulares do domínio útil da Ilha do Pina e, portanto, partes legitimas. 17.3. A circunstância de o Acórdão desse Supremo Tribunal Federal não haver, de modo expresso, analisado a titularidade daqueles antecessores da Impugnante, ao contrário do que ocorreu em relação à Autora, Santa Casa de Misericórdia do Recife, se explica em virtude de haver a sentença de primeiro grau negado àquela demandante a alegada condição de proprietária ou enfiteuta da Ilha do Nogueira e, em razão disso, julgado até improcedente a Demarcatória intentada. No caso porém daqueles co-réus, reconhecidos no processo, de forma incontroversa, como titulares do domínio útil da Ilha do Pina, era despicienda a análise, na Superior Instância, da sua titularidade, o que não significa dizer que não tenha havido pronunciamento judicial a esse respeito. 17.4. E tanto é certo que aqueles antecessores da Impugnante foram reconhecidos na ação demarcatória como titulares do domínio útil da Ilha do Pina, que foram eles, ainda nessa qualidade, citados para responder aos termos da execução do julgado (doc. n? 07), havendo acompanhado dita execução até final (doc. n? 08). 17.5. Aliás, a própria ilustrada Procuradorla-Geral da República assim o reconhece, quando afirma no item 5, da Reclamação de fls. 2/8, verbis: «Foi o V. Acórdão n? 5.978 integralmente cumprido, foi feita a demarcação (docs. anexos), conforme se verifica da planta anexa, onde está demonstrado clara- R.T.J. — 109 mente o que pertence à Santa Casa de Misericórdia do Recife, o que pertence ao Sr. José Moreira de Araújo Livramento, o que pertence, atualmente, ao Serviço Social contra o Mocambo e o que pertence à União Federal como próprio nacional — a Ponta do Pina — cedido a Terceiros sob regime jurídico de Ocupação, salvo alguns poucos sob regime de enfiteuse. 17.6. E doutra forma não poderia ser, ao se considerar a natureza da acuo tini= regundorum, onde a primeira questão a ser dirimida concerne, exatamente, à titularidade do domínio pelas partes litigantes, valendo referir, no tema, que a jurisprudência desse Colendíssimo Supremo Tribunal Federal tem sido sempre no sentido de reconhecer que as decisões proferidas em ações que tais, inclusive as ações divisórias, de índole idêntica, fazem coisa julgada acerca do domínio, consoante se infere dos acórdãos proferidos nos RE n? 71.099 (RTJ 59, 163/171, 82.933 (RTJ 82, 912/919) e 81.763 (RTJ 84.532/540).» (Fls. 101/103). Mandei abrir vista à União Federal, reclamante, para se pronunciar sobre as manifestações do Dr. Juiz reclamado e da interessada Fundação Professor Mário Ramos e Silva, o que foi feito em parecer da lavra do Procurador Moacir António Machado da Silva, aprovado pelo Procurador-Geral, Prof. Inocêncio Mártires Coelho, a dizer, na parte substancial: «7. Pelo teor do acórdão, não resta dúvida de que o Supremo Tribunal reconheceu o domínio útil da Santa Casa de Misericórdia do Recife sobre a Ilha do Nogueira, um jus in re,portanto, que constitui pressuposto para a demarcação judicial. Ressalvou-se apenas que a demarcação não alteraria as rela- 5 ções entre a autora e a Fazenda Nacional, quanto ao domínio desdobrado em direto e útil. O mesmo não se pode afirmar quanto à área conhecida como Pina de Dentro. O acórdão do Supremo Tribunal e a sentença apelada do Juizo Federal no Estado de Pernambuço não se definiram a respeito da titularidade do domínio sobre o imóvel em referência. Não se nega que, nas ações demarcatórias, a primeira questão a ser dirimida é a concernente à titularidade do domínio das partes litigantes. A faculdade de proceder à demarcação é um dos atributos da propriedade, decorrente do principio da exclusividade do domínio. E, por isso mesmo, a pretensão demarcatória deve ser deduzida com a apresentação do título correspondente. A sentença proferida na ação, de caráter contencioso, produz coisa julgada em relação às partes litigantes e aos limites estabelecidos. Ocorre, porém, que, no caso, a ação foi proposta contra a União, o Sr. José Moreira de Araújo Livramento e outros, não tendo havido Individualização da titularidade de nenhum dos réus em relação ao domínio sobre a Ponta do Pina, que fica ao leste da Ilha do Nogueira. Por outro lado, não houve litígio entre a União e o Sr. José Moreira de Araújo Livramento ou outros sucessores do Visconde do Livramento quanto ao domínio sobre a área em questão. Todos figuraram exclusivamente na condição de réus na ação demarcatória, de forma que não houve coisa julgada a respeito dessa matéria. A coisa julgada emergente do acórdão do Supremo Tribunal Federal refere-se à titularidade do domínio útil da Santa Casa sobre a 6 R.T.J. — 109 Ilha do Nogueira, bem como aos limites entre esse imóvel e outros confinantes. Em conseqüência, o MM. Juiz Federal da 1? Vara em Recife, ao reconhecer o domínio da Fundação sobre a Ponta do Pina, a pretexto de cumprir o acórdão do Supremo Tribunal Federal, na verdade dilatou os limites objetivos e subjetivos da coisa julgada, dandolhe uma dimensão que ela não contém. Como ressalta a própria Fundação, a demarcatória foi proposta pela Santa Casa simultaneamente contra a União Federal e os sucessores do Visconde do Livramento com a finalidade de constituir os verdadeiros limites entre as duas ilhas, restituindo-se a quem de direito os terrenos porventura invadidos por qualquer deles. A tanto se reduziu o pedido. Não houve, por outro lado, pronunciamento judicial sobre os titulares do domínio de cada imóvel confinante com a Ilha do Nogueira. Nem isso seria necessário para a demarcação da Ilha, não obstante os argumentos teóricos que são alinhados pela Fundação. Esses aspectos têm inegável relevo na fixação precisa do alcance da decisão do Supremo Tribunal. Segundo observação de Celso Neves, a definição do conteúdo da coisa julgada vincula-se «ao que foi pedido na ação e constitui objeto de julgamento, de seu lado restrito ao elemento declaratório da sentença» (Coisa Julgada Civil, 1971, pág. 494). E, ainda, Chiovenda: «o que, portanto, determina os limites objetivos da coisa julgada é a demanda de mérito da parte autora. Essa é a principal conseqüência prática de se considerar, no estudo da coisa julgada, ante a eficácia da vontade que encerra o pro- cesso do que o raciocínio lógico que o prende (apud Frederico Marques, Inst. de DPC, v. 5, pág. 51). A ação demarcatória restringiu-se à determinação dos limites entre a Ilha do Nogueira e os imóveis confinantes. Não houve definição de limites dos Imóveis confinantes entre si e, por isso mesmo, a União e o Sr. José Moreira de Araújo Livramento figuraram numa mesma posição na relação jurídica processual. A decisão transitada em julgado obriga os participantes do processo em que foi proferida. Mas limita-se à relação jurídica deduzida em Juizo e objeto do decisum. As conseqüências da declaração judicial se impõem ás partes ou a seus sucessores. Nenhum argumento, por outro lado, pode ser extraído da sentença homologatória proferida em execução, quanto à demarcação da Ilha do Nogueira, feita com base no julgado do Supremo Tribunal Federal. Em primeiro lugar, a atividade jurisdicional de execução não poderia, evidentemente, alterar o comando especifico do acórdão exeqüendo. A execução tem por fim realizar praticamente os atos materiais no sentido de completar a eficácia da decisão proferida na fase de conhecimento. Nenhuma inovação pode produzir, sem ofensa coisa julgada emergente da sentença exeqüenda. 18. Por outro lado, a sentença homologatória de 1956 também não se definiu a respeito da titularidade do domínio sobre o Pina de Dentro. Na demarcação realizada, restringiu-se o agrimensor a afirmar que, ao leste, a Ilha do Nogueira limita-se com a «Ilha do Pina», bem assim com os terrenos ocupados pela atual Administração do Porto do Recife, e, ainda com R.T.J. — 109 os lotes 270 e 270-A. Não houve nem poderia haver, nessa fase, a descrição dos titulares dos imóveis em referência. Na audiência realizada na fase executória, para apreciar as plantas e o memorial descritivo, a União ressalvou a sua condição de titular do domínio direto da Ilha do Nogueira e não, como equivocadamente afirma a Fundação, em relação aos outros imóveis limitrofes (ver fls. 19/19v). Como acentuou esta Procuradoria Geral da República, na inicial, a questão fundamental da presente reclamação não é saber se a Fundação deve ou não ser titular do domínio útil da Ponta do Pina, demarcada nas plantas como sendo da União, mas sim reafirmar que essa titularidade sobre o imóvel em questão não pode ser inferida do acórdão proferido na Apelação Cível n? 5.978, do Supremo Tribunal Federal. E logo adiante, prossegue a inicial: «Não se afirma, nem se nega, possa a Fundação Prof. Mário Ramos e Silva vir a ser a titular do domínio útil das terras em questão. Poderá vir a ser, não por determinação do Acórdão n? 5.978, mas por outro título jurídico, desconhecido da União, e que deverá ser apresentado nos autos da Ação Discriminatória de Terras Públicas, proposta pela União, já em. 1974, perante a mesma lt Vara Federal da Seção Judiciária de Pernambuco...» ( fls. 6). 21. E, por outro lado, o Egrégio Tribunal Federal de Recursos, no julgamento da Apelação Cível n? 56.725-PE, decidiu que «a Ilha do Pina não constitui objeto daquela demanda, que teve deslinde por acórdão do Supremo Tribunal Federal a determinar a demarcação da Ilha do Nogueira na parte que com ela confronta» ( fls. 35). 7 Como foi igualmente ressaltado na inicial, a manutenção do ato reclamado implicará em prejulgamento da ação discriminatória de terras públicas, em despojar a União do domínio útil da área e em cancelamento de todos os títulos de ocupação concedidos pela União a terceiros. Em resumo, o ato reclamado do MM. Juiz Federal da 1! Vara em Pernambuco extravasa os limites da coisa julgada emergente do acórdão do Supremo Tribunal, proferido na Apelação Cível n? 5.978, na equivocada suposição de que houve nesse julgado a definição do titular do domínio sobre a Ponta do Pina. Questões de domínio da Ilha do Pina ou do Pina de Dentro devem ser tratadas na ação discriminatória de terras públicas proposta pela União ou em ação autônoma, se for o caso 24. Em face do exposto, o parecer é pela procedência da reclamação.» (Fls. 142/6). As fls. 146 e segs. dos autos, José Paulo da Silva requer sua admissão nos autos como interessado. Declara-se senhor e possuidor dos direitos de ocupação do terreno acrescido de marinha com a casa n? 21 da Av. Comendador Morais, Bairro do Pina, direitos que lhe teriam sido transferidos com autorização do Serviço do Patrimônio da União, e que fez valer em consignação de foros ajuizada contra a União, ação que suscitou acórdão hoje objeto de rescisória proposta pela já referida Fundação, ora adversada pela União. Deferi essa admissão nos autos, ante o interesse processual do requerente em ver mantido o despacho reclamado, na parte em que excluiu de sua determinação a área onde fica situada a casa que o requerente diz possuir. E o relatório. 8 R.T.J. — 109 VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): O despacho reclamado, declara-se nele próprio, foi prolatado na execução do acórdão proferido pela 1! Turma do Supremo Tribunal Federal na Apelação Cível n? 5.978, em sessão de 27 de outubro de 1938, sendo relator o saudoso Ministro Carvalho Mourão. (Fls. 39). Consigna o acórdão que, sendo partes, como apelante, a Santa Casa de Misericórdia de Recife, e, como apelados, a União Federal, o Doutor José Moreira de Araújo Livramento e outros, decidiram os Ministros componentes daquela Turma «dar provimento, em parte, à apelação, para, reformando a sentença apelada, julgarem, como julgam, procedente a ação (ação demarcatória proposta pela então apelante) e mandarem, como mandam, que se proceda à demarcação parcial da Ilha do Nogueira na parte em que confronta com a Ilha do Pina, reconstituindo-se os antigos limites daquela, do lado do antigo canal que a separava da Ilha do Pina, para co que o agrimensor e os arbitradores nomeados tomarão para base de informação: a) o que consta da vistoria a folhas cento e setenta e cinco; b) as plantas duzentos e seis, duzentos e sete e duzentos e vinte e seis, em confronto; c) os títulos de aforamento dos terrenos de números duzentos e setenta e duzentos e setenta A (por certidão a folhas duzentos e dezoito e seguintes); d) a escritura de arrendamento, por certidão a folhas duzentos e vinte e três verso e seguintes». (Fls. 10/10v.). No corpo do voto do relator, Ministro Carvalho Mourão, vem explicita essa determinação que serviu ao dispositivo do acórdão. Nesse voto, ao final, se lê: «... julgar procedente a ação para mandar que se proceda à de- marcação parcial da Ilha do Nogueira, na parte que confronta com a Ilha do Fina», seguindo-se no voto, a mesma especificação já acima transcrita. Vê-se, desse trecho, constante do voto condutor e repetido no acórdão propriamente dito, que há uma determinação principal — a demarcação parcial da Ilha do Nogueira; e uma determinação acessória, ao agrimensor e arbitradores, para, na consecução daquela finalidade principal tomarem, como «base de informação», certos elementos, vistoria, plantas e títulos de aforamento. O elemento principal do dispositivo do acórdão consiste em que se trata de «demarcação parcial». Logo, não se teria determinado demarcação de todo o perímetro da antiga Ilha do Nogueira. E se não estaria em causa toda a Ilha do Nogueira, com maior clareza não se teria demarcado todo o perímetro da Ilha do Pina. Dá-se, porém, que qualquer cogitação de pormenores da demarcação, à vista do acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal, ficou superada pela sentença que, em execução daquele acórdão, julgou concretamente a demarcação realizada pelos peritos. Logo, mediante simples invocação do acórdão do Supremo Tribunal Federal não seria possível, como fez o despacho reclamado, definir todo o perímetro da Ilha do Pina, ou seja, «o domínio útil dos terrenos de marinha, acrescidos e alagados que constituem a Ilha do Pina», como ficou expresso no despacho reclamado. O acórdão do Supremo Tribunal Federal não comportava tal execução especifica. Mandara proceder à demarcação, indicando, para os trabalhos desta, certos elementos a serem consultados. R.T.J. — 109 A demarcação velo a ser efetuada, concretamente, em execução do dito acórdão do Supremo Tribunal, após trabalhos técnicos de engenharia e agrimensura de que resultou uma planta descritiva, qual se vê, nestes autos, da cópia do termo de audiência de fls. 19, quando as partes, presentes, inclusive o Procurador da República, nada objetaram às plantas levantadas, vindo o Juiz, em seguida, a homologar, por sentença, «a demarcação parcial da Ilha do Nogueira com a Ilha do Pina, promovida a requerimento da Santa Casa de Misericórdia do Recife, uma vez que todos os interessados concordaram com os trabalhos executados pelos peritos». (Fls. 21v. dos presentes autos de Reclamação). Esta, a sentença a que se referia o art. 439 do Cód. Proc. Civil de 1939, a dizer que, findo o prazo de cinco dias em que as partes diriam do seu direito, «serão os autos conclusos ao juiz, que marcará audiência de instrução e julgamento, na qual homologará, ou não, a divisão ou a demarcação». Tal sentença foi intimada às partes interessadas (fls. 22), tendo aparentemente, transitado em julgado. Assim efetuada, concretamente, a demarcação que o acórdão do Supremo Tribunal determinara, qualquer ato posterior de execução, no que tange aos lindes estabelecidos, havia de ser buscado, também concretamente, nas plantas homologadas por essa sentença, e não mais em meras deduções de indicações genéricas contidas no referido acórdão, que julgara procedente a ação de demarcação. Se há plantas e laudo de agrimensura homologados por sentença transita em julgado, de 10 de janeiro de 1956, não havia mais que proceder, como fez o despacho reclamado, a nova execução daquele acórdão. 9 Tal sentença homologatória da demarcação — transita em julgado, repete-se — passou a implicitamente integrar os títulos de propriedade relativos aos imóveis que foram objeto da demarcação; e é naquela sentença, não mais no acórdão já cumprido, que se deve basear o procedimento ulterior do Juizo de primeiro grau. Em resumo, com a prolação da sentença homologatória da demarcação (fls. 21 v. destes autos de Reclamação), sentença que alude à concordância de todos os interessados com os trabalhos executados pelos peritos, ficaram aprovados a planta e o laudo de agrimensura, não mais se necessitando recorrer aos termos do acórdão do Supremo Tribunal Federal. A execução, que o acórdão do Supremo Tribunal Federal comportava, já foi realizada, através a sentença que homologou planta e laudos da demarcação. Exaurida tal execução pelos meios regulares de seu processamento, não é possível repeti-la diretamente a cada caso ocorrente, prescindindo da sentença subseqüente. Fazê-lo não importa em somente desrespeitar tal sentença, mas também o próprio acórdão que a ensejou, sujeito ao risco de uma segunda execução, diferente da primeira. Tenho que, por essa forma indireta, ocorre, no caso, detrimento à autoridade da decisão do Supremo Tribunal Federal (Regimento Interno, art. 156), pois a tanto equivale o pretender dar duas execuções diversas, e eventualmente contraditórias, ao mesmo acórdão do Supremo Tribunal Federal, uma através a produção de plantas e laudos de agrimensura, homologados por sentença, outra, subseqüente, através direta interpretação do magistrado processante da execução, sem o adminiculo daquelas contribuições técnicas. 10 R.T.J. — 109 de imaginar que o digno Juiz reclamado, no adotar essa segunda forma de execução, se tenha inspirado justamente no propósito de prestigiar, com a invocação da autoridade do Supremo Tribunal Federal, a execução da decisão subseqüente, que homologara os laudos e plantas da demarcação. Ao que parece, o Juiz Federal não tem conseguido a indispensável obediência do Serviço do Patrimônio da União para essa execução, lendo-se, em seu ofício àquela repartição, que «ofícios outros já foram remetidos a essa Delegacia do Serviço do Patrimônio da União, dentre os quais os de n?s 7, de 10-1-56 e 229/2? CF, ambos de Juizes de direito da antiga Vara da Fazenda Nacional, desta Capital, todos no sentido do cumprimento ao venerando Acórdão mencionado, desde que houve a demarcação da linha parcial ordenada». (Fls. 40 fine). Isto posto, Julgo procedente a reclamação, para o fim de declarar insubsistente o despacho reclamado, que importou em dar nova e possivelmente imprópria execução ao antigo acórdão do Supremo Tribunal Federal, desligado de seu complemento natural, a sentença posterior, transita em julgado, que o completara. Insista o Dr. Juiz, se for o caso, na execução daquela sentença. Com referência ao interesse de José Paulo da Silva, a reforma do despacho que suscita seu ingresso nestes autos não modifica sua situação, que deriva dos efeitos que possa ter, na execução da sentença homologatória da demarcação, o dispositivo de acórdão do Tribunal Federal de Recursos sobre seu direito de pagar certa taxa ao Serviço do Patrimônio da União. (Fls. 35). Repetindo: Julgo procedente a reclamação, nos termos já acima indicados. E o meu voto. EXTRATO DA ATA Rel. 127-PE — Rel.: Min. Decio Miranda. Recite.: Procurador-Geral da República. Reciclo.: Juiz Federal da 1? Vara da Seção Judiciária de Pernambuco. Interessados: Fundação Professor Mário Ramos e Silva (Advs.: José Guilherme Villela e outro). José Paulo da Silva (Advs.: Roberto Rosas e outro). Decisão: Pediu vista o Ministro Oscar Corrêa, depois do voto do Ministro Relator, que julgou procedente a reclamação. Usaram da palavra pelos interessados os Drs. Roberto Rosas e José Guilherme Villela. Presidência do Senhor Ministro Xavier de Albuquerque. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira Alves, Soares Mufioz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Firmino Paz, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 17 de junho de 1982 — Alberto Veronesse Aguiar, Secretário. VOTO (VISTA) O Sr. Ministro Oscar Corrêa: Pedi vista dos autos, após o voto do eminente Ministro Decio Miranda, julgando procedente a reclamação, em face de dúvidas que me ocorreram, ante os debates que neste Plenário se feriram. Esclarecido pela releitura do voto do Eminente Relator e memoriais dos interessados, trago o meu voto, escusando-me do atraso com que o profiro. R.T.J. — 109 Reli o voto do Ilustre Ministro Decio Miranda e reexaminel-o em vista da documentação dos autos e dos argumentos suplementares apresentados. E acompanho-o. Compreendo que o despacho reclamado poderia e deveria ser atacado, pela União ou interessados, por outros recursos processuais, como sustenta a Fundação interessada. Concordo em que a reclamação, prevista no artigo 156 do RISTF, «para preservar a competência do Tribunal ou garantir a autoridade de suas decisões «não objetiva a simples interpretação do seu julgado, como, aliás, já decidido pela Corte. Mas, parece-me que o despacho reclamado, se não importa, diretamente, ofensa ao deliberado, pelo Tribunal, como acentuou o lúcido vc to do Eminente Relator, «por forma indireta» «ocorre, no caso, detrimento à autoridade da decisão do Supremo Tribunal Federal (RI, art. 156), pois a tanto equivale o pretender dar duas execuções diversas, e eventualmente contraditórias, ao mesmo acórdão do STF ...» Ainda que tal não ocorra, como se depreende do voto do Eminente Relator, a simples possibilidade de que venha a ocorrer, aconselha se acolha a reclamação. Escusando-me de outras considerações, acompanho o Eminente Relator, que, segura e ponderadamente, viu a espécie. É o voto. EXTRATO DA ATA Rel. 127-PE — Rel.: Ministro Decio Miranda. Recite.: Procurador-Geral da República. Reciclo.: Juiz Federal da I? Vara da Seção Judiciária de Pernambuco. Interessados.: Fundação Professor Mário Ramos e Silva 11 (Adv.: José Guilherme Mela e outro), José Paulo da Silva (Adv.: Roberto Rosas e outro). Decisão: Pediu vista o Ministro Alfredo Buzaid depois dos votos dos Ministros Relator e Oscar Corrêa que julgaram procedente a reclamação. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes á Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Muiioz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília 14 de setembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. VOTO (VISTA) O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: 1.Na ação demarcatória movida pela Santa Casa de Misericórdia do Recife, este Colendo Supremo Tribunal Federal, em acórdão da Primeira Turma n? 5.978, de que foi Relator o eminente e saudoso Ministro Carvalho Mourão, proferiu o seguinte julgamento: «... dar provimento, em parte, apelação, para, reformando a sentença apelada, julgarem, como julgam, procedente a ação e mandarem, como mandam, que se proceda à demarcação parcial da Ilha do Nogueira na parte que confronta com a Ilha do Pina, reconstituindose os antigos limites daquela, do lado do antigo canal que a separava da Ilha do Pina; para o que o agrimensor e os arbitradores nomeados tomarão para base de informação: a) o que consta da vistoria a folhas cento e setenta e cinco; b, as plantas de folhas duzentos e 12 R.T.J. — 109 seis, duzentos e sete e duzentos e Moacir Antônio Machado da Silva, vinte e cinco a duzentos e vinte e aprovado pelo eminente Professor seis, em confronto; c) os títulos de Inocêncio Mártires Coelho opinou aforamento dos terrenos de núme- pela procedência da reclamação. ros duzentos e setenta e duzentos e Iniciado o julgamento, o eminente setenta A (por certidão a folhas duzentos e dezoito e seguintes, ); d) Ministro Decio Miranda, Relator do a escritura de arrendamento, por feito, deu pela procedência da reclacertidão a folhas duzentos e vinte e mação, assim concluindo o seu douto três verso e seguintes». (Fls. 10 e voto: v.). «Isto posto, julgo procedente a reclamação, para o fim de declaEste venerando acórdão foi inteirar insubsistente o despacho reclaramente cumprido, tendo-se feito a mado, que importou em dar nova e demarcação entre os dois imóveis possivelmente imprópria execução homologada por sentença transitada ao antigo acórdão do Supremo Triem julgado. Depois de vinte anos de bunal Federal, desligado de seu trânsito em julgado da sentença, que complemento natural, a sentença julgou a fase executória da demarposterior, trânsita em julgado, que cação parcial, a Fundação Professor o completara. Mário Ramos e Silva, na qualidade Insista o Dr. Juiz, se for o caso, de sucessora de José Moreira de na execução daquela sentença. Araújo Livramento, requereu ao Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal da PrimeiCom referência ao interesse de ra Vara da Circunscrição Judiciária José Paulo da Silva, a reforma do de Pernambuco que, em cumprimendespacho que suscita seu ingresso to do Acórdão n? 5.978 deste Egrégio nestes autos não modifica sua siTribunal, fosse oficiado ao Delegado tuação, que deriva dos efeitos que do Serviço do Patrimônio da União possa ter, na execução da sentença em Pernambuco que pretende o rehomologatória da demarcação, o conhecimento do domínio útil do Pidispositivo de acórdão do Tribunal na de Dentro pertencente á União. Federal de Recursos sobre seu diMalgrado a oposição do Serviço do reito de pagar certa taxa ao ServiPatrimônio da União, o MM. Juiz ço do Patrimônio da União» (fls. 22 Federal da Primeira Vara persevedo voto). rou em determinar que o Delegado do Patrimônio da União reconhecesO eminente Ministro Oscar Corrêa, se o domínio útil em favor da Funda- que vista, acompanhou e emição Professor Mário Ramos e Silva nentepediu Ministro Relator Dedo Miran(fls. 4/5). da. 3. A ação demarcatória, movida 2. O eminente Ministro Dedo Miranda mandou ouvir o MM. Juiz Fe- pela Santa Casa de Misericórdia do deral, que prestou informações (fls. Recife, foi julgada improcedente sob 66/68). A Fundação Professor Mário á alegação de não haver a autora Ramos e Silva interveio no processo, provado o jus in re. Este Egrégio alegando a improcedência da recla- Tribunal, dando provimento em parmação (fls. 94/109). Interveio tam- te à apelação, no v. Acórdão n? 5.978, bém nos autos João Paulo da Silva de 27-10-38, julgou procedente em como interessado (fls. 149/150). A parte a demarcação, determinando o douta Procuradoria-Geral da Repú- critério para fixar marcos, definir blica, em parecer da lavra do Dr. rumos e traçar a linha demarcatória R.T.J. — 109 entre a ilha do Pina e a Ilha do Nogueira. Só se questionou na fase contenciosa da ação demarcatória se a Santa Casa de Misericórdia do Recife era parte legítima, isto é, se possuía titulo hábil para exercer o direito. Assim se expressou o eminente Relator Ministro Carvalho Mourão: «Na dilação probatória, porém, juntou a A. apelante novos documentos. Esses documentos provam o domínio da apelante nos terrenos da Ilha do Nogueira. «Mesmo que a A. não fosse senão titular do domínio útil da Ilha, não se lhe podia deixar de reconhecer o direito de pedir a demarcação judicial do imóvel. O domínio útil, decorrente da enfiteuse ou do aforamento perpétuo, é um jus In re. Veja-se Whitaker (Terras, número vinte e um, páginas oitenta e quatro, Quinta edição) com o que concorda seu erudito critico Penaforte Mendes (Engastes em Ouro, na mesma obra, páginas trinta e quatro — IX). Não é mister que o domínio seja pleno para que legitime a ação de demarcação. Se na Ilha há terrenos de marinha e acrescidos e se é verdade que a A. está na posse de tais terrenos; tal circunstância não impede que a A. promova a demarcação do imóvel, pois que a realização da demarcação não prejudica nem modifica de qualquer modo os direitos do Estado sobre aqueles terrenos. A demarcação apenas fixará os limites da Ilha». (fls. 14 e v.). Este v. acórdão foi cumprido em sua integridade na fase da execução, descidida por sentença que transitou em julgado em 5-12-55, como se pode ver dos termos de audiência de fls. 80/81. 13 fase executória da ação de demarcação. A coisa julgada objetiva cingese ao traçado da linha limítrofe entre a ilha do Pina e a Ilha do Nogueira; e a coisa julgada subjetiva abrange apenas as partes que foram citadas para a ação. Parte legitima para propor a ação demarcatória é o proprietário (Código Civil, art. 569; Código de Processo Civil de 1939, art. 415; Código de Processo Civil de 1973, art. 946). Entende-se por proprietário quem tem o domínio pleno, o domínio útil e o titular de Jus in re. Sob o regime jurídico do Decreto n? 720 dispunha o art. 66 que «... na petição inicial o autor demonstrará o seu jus in re». Sujeito passivo da ação é o confinante. O Código de Processo Civil de 1973 dispõe: «Art. 946. Cabe: I — a ação de demarcação, ao proprietário para obrigar o seu confinante a estremar os respectivos prédios, fixando-se novos limites entre eles ou aviventando-se os já apagados.» Nos processos em geral, a pretensão do réu não consiste em pedir, mas em impedir o êxito da ação. Sucede, porém, que a ação de demarcação, como a de divisão e de partilha de bens do autor da herança, é ação dúplice, como acentuou Juliano: «D. 1.10.10: IudIcium communi dividundo, famillae erciscundae, finium regundorum tale est, ut singulae personae duplo( ius babeant, agentls ut eius quo cum agitur». Ora, a característica da ação dúplice está em que o autor pode assumir a posição de réu e vice-versa 4. A atividade jurisdicional do (cf. Latayette, Direito das Coisas, I Estado se exauriu com o trânsito em 19 n? 5). Salvo a União Federal, os julgado da decisão que pós termo à réus na ação de demarcação movida 19 R.T.J. — 109 pela Santa Casa de Misericórdia do mos e Silva vir a ser a titular do domínio útil das terras em quesRecife não postularam direito próprio. O V. Acórdão n? 5.978 desta tão. Poderá vir a ser, não por deEgrégia Corte esclarece que: terminação do Acórdão n? 5.978, mas por outro titulo jurídico, des«A Fazenda Nacional (cota de foconhecido da União, e que deverá lhas duzentos e sessenta e oito verser apresentado nos autos da Ação so), ofereceu como razões de apeDiscriminatória de Terras Públilação as de primeira instância, de cas, proposta pela União, já em folhas duzentos e nove e duzentos e 1974, perante a mesma 1? Vara Fedezessete, às quais já me referi. deral da Seção Judiciária de PerOs demais réus (razões a folhas nambuco...» (fls. 145). duzentos e sessenta e dois e seguintes), confessam, agora, expressaPor todas estas razões e pelo mais mente (folhas duzentos e sessenta que consta do douto voto do eminene dois) que os documentos juntos te Relator, Ministro Decio Miranda, pela A. na dilação probatória (fo- acompanhado pelo eminente Minislhas setenta e dois a cento e qua- tro Oscar Corrêa, também julgo prorenta e oito) «provam o domínio da cedente a reclamação, adotando a apelante aos (sie) terrenos da Ilha conclusão do eminente Relator. do Nogueira; não, porém, que lhe E o meu voto. pertençam os acrescidos, que, no entender dos réus — apelados, são da União» (fls. 12). EXTRATO DA ATA Se o v. acórdão referido nada dispôs sobre pretensão dos réus que foRel. 127-PE — Rel.: Ministro Decio ram confinantes na ação de demar- Miranda. Recite.: Procurador-Geral cação, não lhes é licito, com funda- da República. Reciclo.: Juiz Federal mento neste v. aresto, pretender em da 1! Vara da Seção Judiciária de nova execução de processo findo que Pernambuco. Interessados: Fundase reabra o feito, obtendo o reconhe- ção Professor Mário Ramos e Silva cimento de um título de domínio, que (Adv.: José Guilherme Villela e ouextraem por inferência. Foi o que tro). José Paulo da Silva (Adv.: RoSustentou a douta Procuradoria-Ge- berto Rosas e outro). ral da República: Decisão: Julgaram procedente a «... na inicial, a questão funda- Reclamação, unanimemente. mental da presente reclamação não é saber se a Fundação deve ou Presidência do Senhor Ministro não ser a titular do domínio útil da Cordeiro Guerra. Presentes a Sessão Ponta do Pina, demarcada nas os Senhores Ministros Moreira Alplantas como sendo da União, mas ves, Soares Mufloz, Decio Miranda, sim reafirmar que essa titularida- Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alde sobre o imóvel em questão não fredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir pode ser inferida do acórdão profe- Passarinho e Francisco Rezek. Aurido na Apelação Chiei n? 5.978, do sente, justificadamente, o Senhor Supremo Tribunal Federal». ( fls. Ministro piaci Falcão. Procurador145). Geral da República, substituto, o Dr. Francisco de Assis Toledo. E logo em seguida: «Não se afirma, nem se nega, Brasília, 8 de fevereiro de 1984 — possa a Fundação Prof. Mário Ra- Alberto Veronese Aguiar, Secretário. R.T.J. — 109 15 EXTRADIÇÃO N? 404 — REINO DE ESPANHA (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Requerente: Governo da Espanha — Extraditando: Alfredo José Quintas Galiego. Extradição. Pedido formulado pelo Governo da Espanha, com apoio no principio da reciprocidade. Requisitos atendidos. Deferimento. Encontrando-se em devida forma o pedido de extradição e até mesmo declarando o extraditando, no seu interrogatório, que era inocente e desejava defender-se perante a Justiça espanhola, e, ademais, nada sendo alegado quanto àqueles pontos sobre os quais poderia versar a defesa (art. 85 da Lei 6.815/80), é de deferir-se a solicitação do Governo Espanhol. ACORDA° Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, deferir o pedido. Brasília, 28 de setembro de 1983 — Cordeiro Guerra, Presidente — Aldir Passarinho, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro- Aldir Passarinho (Relator): Trata-se de pedido de extradição de Aaredo José Quintas Gallego, formulada pelo Governo da Espanha, encaminhando o Sr. Ministro da Justiça a esta Corte os documentos justificativos da medida, e determinado ao Departamento de Polícia Federal que o extraditando fosse colocado à disposição desta Corte. Posteriormente, velo a informação de que o extraditando já se encontrava à disposição deste Tribunal. Verifica-se dos autos que o extraditando está sendo processado na Espanha sob acusação de roubo rea- lizado contra a Caja de Ahrrojos y Monte de Piedad Municipal de Vigo — Espanha. Deleguei ao MM. Juiz da 3! Vara Federal-I, do Rio de Janeiro, o encargo de proceder ao interrogatório do extraditando, o que foi feito, encontrando-se o respectivo termo a fls. 50/51. Declarou ele que velo para o Brasil a fim de aqui estabelecerse comercialmente, trazendo economias e empréstimos levantados em seu país; negava o fato que lhe era imputado, pois não se apropriara de qualquer importância da Caia de Ahrrojos; que só tomara conhecimento de que havia sido decretada sua prisão preventiva quando veio ela a realizar-se; e que se estabeleceu com negócio de doces e salgados, em Jacarepaguá, no Estado do Rio, tendo montado o negócio com um cidadão de nacionalidade argentina. Declarou, ainda, que, sendo inocente, desejava defender-se perante a justiça espanhola e que somente tivera noticia de que se encontrava acusado de roubo, na ocasião daquele interrogatório. Sua viagem para o Brasil fora decidida de última hora e, por isso, não tivera ocasião de avisar seus parentes, sua namorada e nem seus pais, posto que estes se encontravam na aldeia. 16 R.T.J. — 109 Esclareceu, ainda, que era empregado da Caia Municipal de Ahrrojos de Vigo e lá permanecera até o fim do expediente de sábado. Combinara com Angel Luiz Carro Alvarez — que é o outro acusado do crime — para que este fosse apanhá-lo após o expediente, o que não ocorrera, pelo que se dirigiu ao seu apartamento. Que não avisara o Banco de que pretendia deixar o emprego e viajar para o Brasil, a fim de não causar um duro golpe em seus pais com tal noticia, pois o emprego que ele ocupava era por todos considerado muito bom. Trouxera para o Brasil três milhões de pesetas e Angel, quatrocentas mil. Sobre o fato de ter sido acusado, respondeu que pelo menos cinco pessoas tinham condições de permanecer no interior da Caixa sem serem molestadas, e lhe parecia que seu nome devia ter sido lembrado pela circunstância de ter abandonado o emprego para viajar para o Brasil, sem avisar. Para o ato foi nomeado advogado dativo, o Dr. Luiz Rodrigues Feijão. A defesa do extraditando foi oferecida pelo seu advogado dativo, o qual ressaltou que ele negava perentoriamente sua participação no crime que lhe era imputado, e que as peças que instruem o pedido eram insuficientes para que se formasse um juízo de culpa em desfavor do mesmo, pois a respeito havia apenas indícios e nada mais. Acrescentou, contudo, que a solicitação da Espanha não pecava por nenhuma imperfeição. Ouvida, manifestou-se a douta Procuradoria-Geral da República pela procedência do pedido. Observou que não cabe discutir-se no pedido de extradição sobre a culpabilidade do acusado, mas anota que ele próprio admitira que era ordenança da Caia de Ahrrojos; que na data do evento, sábado, dia 22 de agosto de 1981, ficara no Banco; e que, na ver- dade, inopinadamente, embarcara para o Brasil com seu companheiro Angel Alvarez, pagando a passagem despesas deste, e viajando sem comunicar nada a ninguém, nem mesmo a seus familiares mais chegados. Observa, ainda, o parecer, que, a rigor, não houve impugnação ao pedido de extradição, sendo mesmo certo que o extraditando declarara que era inocente e desejava defender-se perante a Justiça espanhola. o relatório. VOTO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): O pedido é formulado com apoio no principio da reciprocidade. O parágrafo único do art. 85 da Lei n? 6.815/80 relaciona as defesas possíveis em pedido de extradição, podendo versar sobre a identidade do extraditando, defeito de forma dos documentos apresentados ou ilegalidade da extradição. Ora, no caso, nada a respeito foi alegado e, quanto à declaração de inocência formulada pelo acusado e endossada pela Defesa, não cabe a este Tribunal adentrar o mérito da ação penal, nem, portanto, perquirir, para avaliação da culpabilidade, no caso, de Alfredo José Quintas Gallego, das razões da sua inesperada viagem para Brasil, sem nada avisar a ninguém. Não há, no caso, que cogitar-se de prescrição, porquanto o crime foi praticado no dia 22 de agosto de 1981, não sendo mesmo ela objeto de alegação por parte da defesa. Assim, não se observando qualquer impedimento a que se efetive a extradição solicitada pelo Governo da Espanha, defiro-a, em concordância com o parecer da douta Procuradoria-Geral da República. E o meu voto. R.T.J. — 109 EXTRATO DA ATA Extr. 404-Espanha — Rel.: Ministro Aldir Passarinho. Reqte.: Governo da Espanha. Extdo.: Alfredo José Quintas Gallego (Advs.: Luiz Rodrigues Feijão e Roberto Rosas). Decisão: Deferiu-se o pedido de extradição, unanimemente. 17 Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sesão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Muuloz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 28 de setembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. EXTRADIÇÃO N? 411 — REPÚBLICA PORTUGUESA (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Dedo Miranda. Requerente: Governo da República Portuguesa — Extraditando: Antonio Canelas ~rega. Internacional Público. Extradição. Pedido que, em diligência, se verifica ter sido encaminhado por via diplomática. Satisfeitas as exigências da lei brasileira, defere-se a extradição. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em deferir o pedido de extradição. Brasília, 15 de fevereiro de 1984 — Cordeiro Guerra, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Dedo Miranda: Pede o Governo de Portugal a extradição de Antonio Canelas Nóbrega, acusado da prática de homicídio voluntário, previsto nos termos do art. 349 do Código Penal de 1886 e punível nos termos do art. 131 do Código Penal em vigor, de acordo com o disposto no art. 2?, n? 4, deste mesmo diploma, correspondendo-lhe uma pena, em abstrato, de 8 a 16 anos de prisão. Refere achar-se instruído o pedido com a documentação legal e declara prestar a garantia formal de que a pessoa reclamada não será extraditada para terceiro Estado, nem detida, para exercício da ação penal, para cumprimento de pena ou para outro fim, por fatos diversos dos que fundamentam o pedido e lhe sejam anteriores ou contemporâneos (fl. 3 tine). Obriga-se a computar o tempo de prisão que, no Brasil, tenha sido imposto por força da extradição e a não entregar o extraditando, .sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o reclame, nem considerar qualquer motivo político para agravar a pena. Acrescenta que o Código Penal Português não prevê a pena de morte nem castigos corporais. Deleguei o interrogatório do extraditando a Juiz Federal da Seção do 18 R.T.J. — 109 Estado do Rio de Janeiro, tendo sido ele ouvido, conforme fl. 53, sem nada dizer que contrarie o pedido. Não tendo apresentado defesa o advogado referido pelo extraditando no interrogatório (fls. 54), nomeeilhe defensor o Dr. Aluisio Xavier de Albuquerque, que contrapôs ao pedido defeitos de forma, a saber: a) ter tido inicio o processo por meio de Aviso do Ministério da Justiça, que a este Tribunal encaminhara o pedido que havia recebido do ProcuradorGeral da República de Portugal, o que revela não ter sido encaminhado por via diplomática, como de regra; tal circunstância denota flagrante desacerto com parte do preceituado no art. 80 da Lei n? 6.815, de 1980; b) por outro lado, a falta de documentos juntos ao pedido, especialmente cópia dos textos legais aplicáveis, impede verificar-se, entre outros pontos, se ocorreu a prescrição ( 64/5). Aberta vista ao Ministério Público Federal, assim se pronunciou, em parecer devidamente aprovado pelo Procurador-Geral da República, o Dr. Claudio Lemos Fonteles: «1. Solicita o Governo Português a extradição de seu nacional Antônio Canelas Nóbrega quem, contra si, tem decreto judicial de prisão provisória, por prática de homicídio doloso, consumado aos 26-11-1981 ( vide Participação a fls. 6), lavrado pelo MM. Juiz do Tribunal Judicial da Comarca de Amarante (vide fls. 33 e V). Em seu interrogatório Judicial — fls. 53 — Antonio Canelas admite o fato, afirmando a fuga a nosso País. O pronunciamento de sua defesa dativa, subscrita pelo ilustre advogado Aluisio Xavier de Albuquerque — fls. 64/65 — impugna a pretensão exclusivamente por defeitos de forma. Considera-a, então, inadequada por não emanar de ato de Governo a Governo, a propósito abordando o decidido nas Extradições n?s 313 e 314, da República Argentina, e alude à ausência de texto legal atinente à prescrição. Dissentimos da argumentação. Pelo documento de fls. 3/4, que se constitui na solicitação da extradição, subscreve-a o Procurador-Geral da República Portuguesa endereçando-a ao nosso Ministro da Justiça. E bem verdade que o artigo 80 pede o requerimento de extradição, por via diplomática. Mas também contempla a manifestação direta de Governo a Governo. O Procurador-Geral da República aqui, como no direito português, representa judicialmente o Estado. Portanto, se dele emana o pedido de extradição, não se pode negar que o ato é a manifestação de vontade estatal. Note-se, ademais, que expresso está ainda em dito documento que o Procurador-Geral assim age, por delegação do Exmo. Sr. Ministro da Justiça de Portugal, e releva a reciprocidade (vide fls. 3). Os precedentes citados pela ilustre defesa não guardam sinonímla com o caso em exame pois, nas situações pretéritas, os pedidos foram apresentados por Juiz de 1? grau do município de Buenos Aires, e sequer se invocou tratado de extradição ou tratamento de reciprocidade (consulte-se a publicação deste Supremo Tribunal e Extradições julgamentos legislação — vol. I — págs. 331/337). 12. Também a menção feita Extradição n? 347 não traz valida- R.T.J. —109 de porque nesta o Estado Requerente não foi o Governo Português, como está na petição de fl. 65, mas a República de Itália, e cuidou do famoso caso «Ovidio Lefebvre Ovidio» (consulte-se publicação citada — vol. II — pág. 167/229). Não há, efetivamente, menção documentada sobre a prescrição. Consta a alusiva ao fato, criminalmente tipificado, e à pena (vide fls. 37 e v.). Mas, datando o delito de 26 de novembro de 1981, isto amplamente admitido pelo próprio extraditando, já o dissemos, e presente a grave sanção que lhe é fixada quer em nossa legislação, quer na lusitana, óbvia faz-se a conclusão que formalizado o pedido extradicional aos 3.6 do ano em curso, esvazia-se de sentido qualquer argumento alusivo à prescrição, assim objetivamente afastada. 15. Pelo deferimento do pedido» (fls. 68/71). E o relatório. ANTECIPAÇÃO AO VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): Sr. Presidente, Srs. Ministros, a sustentação oral que acabamos de ouvir comprova o acerto de meu ato, nomeando defensor dativo do extraditando o Dr. Aluisio Xavier de Albuquerque, que, com brilho e propriedade, esgotou argumentos a favor de seu constituinte. Realmente, o defeito principal argüido pelo nobre Advogado ocorreu: o pedido não veio por via diplomática. Meu voto é o que passo a ler. VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): Declara o art. 80 da Lei n? 6.815, de 19 de agosto de 1980, que «a 19 extradição será requerida por via diplomática, ou, na falta de agente diplomático do Estado que a requerer, diretamente de Governo a Governo.». Felizmente, não padecem as antigas e sempre amistosas relações entre Brasil e Portugal, da ausência de agentes diplomáticos. No caso, por mera inadvertência veio o pedido, formulado pelo Procurador-Geral da República Portuguesa, endereçado ao nosso Ministério da Justiça, em vez de circular pela via diplomática especifica. Tal inadvertência não deve levar à inanidade do pedido. Dela não decorreu prejuízo ás garantias legais que cercam o ato da extradição. No que toca á falta, entre os documentos vindos com o pedido, de cópia «dos textos legais sobre o crime, a pena e sua prescrição», o que se visa, com a exigência, é impedir a inflição de penas que contrariam a consciência jurídica brasileira. Notoriamente, tal não ocorre no caso, em que o pedido diz corresponder ao delito «uma pena, em abstrato, de 8 a 16 anos de reclusão» fls. 3 fine. Quanto à prescrição, é evidente, como salienta o parecer, que, datando o homicídio de 26-11-81, não haveria possibilidade de achar-se já a esta altura por ela alcançada a ação penal. Reportando-me aos termos do aludido parecer, defiro a extradição. E o meu voto. ADITAMENTO AO VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): Acrescento, Sr. Presidente, que, outras fossem as circunstâncias de tempo, teria promovido diligência no sentido de proporcionar oportunidade a que o pedido fosse ratificado por via diplomática. 20 R.T.J. — 109 Mas, considerando a interrupção decorrente das férias do Tribunal, achei que seria providência até mesmo contrária aos interesses do extraditando. Defiro a extradição. VOTO (DILIGÊNCIA) O Sr. Ministro Francisco Rezek: Sr. Presidente, a respeito do primeiro tópico abordado pela defesa, é fato que este Tribunal tem alguma jurisprudência no sentido de que o rol pertinente à composição do dossiê não é de ser entendido como uma lista de requisitos da extradição, mas de elementos normalmente necessários à verificação de sua legalidade. Destarte, se certo requisito se pode dar por induvidoso, o Tribunal releva a insuficiência do dossiê. E o caso do pedido relativo a crime muito recente, cuja gravidade torna claro que a. prescrição não pode ter ocorrido. Há dois ou três casos em que o Tribunal relevou a ausência, nos autos, dos textos legais do pais de origem a respeito da prescrição dos crimes de que se acusa o extraditando. Receio, porém, que exista séria dificuldade em relevar-se outro vicio formal deste pedido. Como disse o Advogado dativo, o Procurador-Geral do Estado português não fala ao exterior. Ele representa o Estado internamente, perante a Justiça de Portugal. Existe um relacionamento diplomático normal entre esta República e aquela. Ainda que não existisse, e que se devesse partir para a fórmula variante a que alude a lei, o pedido «de Governo a Governo», ainda assim, a voz do Governo Português não seria a do ProcuradorGeral do Estado. Seria, para todos os fins, a do Chefe de Estado, a do Chefe do Governo, a do Ministro de Estado das Relações Exteriores; e, para comunicação com esta Repúbli- ca, também a do Embaixador permanentemente acreditado junto a nós. Nenhuma outra autoridade, nem o Ministro da Defesa ou o Presidente da Corte Suprema, falaria pelo Estato português em caso de ausência de relacionamento diplomático. Não vejo como, então, contornar o dispositivo legal que reclama essa comunicação de Governo a Governo, pelo conduto diplomático ordinário, ou, quando inexistente este, por pessoa que fale em nome do Governo português no foro internacional, não no foro interno. Assim, e considerando que existe, também, jurisprudência no sentido de que o Tribunal, mesmo à falta de requerimento do Ministéiro Público, pode promover diligências, e embora ciente de que isto terá um resultado mais que óbvio, hesito em contornar o rigor da norma, e proporia a diligência, para que a representação do Estado português, neste Pais, abone ou não este pedido, que por via postal, ou outra qualquer, inteiramente anômala, o Procurador-Geral de Portugal endereçou ao Ministro da Justiça do Brasil. Acompanhando em todos os outros pontos o voto do eminente relator, mas estimando que este resultado, que já preconcebemos, poderia ser buscado para não se desgastar a norma, proponho a conversão do julgamento em diligência. O Sr. Ministro Decio Miranda (Relator): Minha hesitação é a seguinte: é evidente que, se vier a ser condenado o extraditando, o tempo que vai ficar preso, aqui, será descontado. Mas, na hipótese de uma absolvição em Portugal, ele padeceria inutilmente esta prisão, pelo tempo das férias do Tribunal. São estas circunstâncias temporais que me levam a abrandar o rigor dos princípios. Em tese, agiria como sugere o eminente Ministro Francisco Rezek. R.T.J. — 109 Por isso, mantenho meu voto. VOTO (DILIGENCIA) Sr. Ministro Aldir Passarinho: Sr. Presidente, não obstante as ponderações do eminente Relator e as dúvidas que tenho sobre a possibilidade de conversão do julgamento em diligência, a fim de ser suprida a iniciativa do Governo, concordo com o eminente Ministro Francisco Rezek, pela diligência. VOTO (DILIGENCIA) Sr. Ministro Oscar Corrêa: Senhor Presidente, também acolho a diligência, tanto mais quanto será oportunidade de se cumprir a outra diligência, relativa aos textos legais sobre prescrição, e se dar autenticidade aos documentos, nos termos do artigo 80, 1?. E o voto. VOTO (DILIGENCIA) O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr. Presidente. Em face do texto legal, parece que a diligência, efetivamente, é de atender-se, inobstante ter havido comunicação de Governo a Governo. O expediente da extradição veio ao Supremo Tribunal Federal, por intermédio do Ministro da Justiça, que é, em realidade, a autoridade brasileira que encaminha as notas verbais, os pedidos de extradição, para o seu regular processamento nesta Corte. No caso, o Ministro considerou hábil, teve como idôneo o pedido do Goberno estrangeiro, proveniente do Procurador-Geral da República Portuguesa, instruido com toda a documentação indispensável. Mas, de fato, diante do texto legal, acompanho o Sr. Ministro Francisco Rezek, para que se cumpra a disposição de lei, embora compreenda, que, substancialmente, nenhuma al- 21 teração se dará, quanto à manifestação de interesse do Governo de Portugal, acerca da extradição. Sr. Ministro Francisco Rezek: Sr. Presidente. Essa qualidade que falece ao Ministro da Justiça do Brasil, para entrar em comunicação direta com Governo estrangeiro, ainda que passivamente, falece também a todos nós, assim como ao Ministro da Fazenda, ao Presidente do Congresso, em virtude de regras de comunicação internacional. Receio que Tribunal crie jurisprudência um tanto perigosa, se... O Sr. Ministro Néri da Silveira: Senhor Ministro Rezek, todo expediente relativo a extradição vem ao Supremo Tribunal Federal, por intermédio do Ministério da Justiça. A competência'é do Ministro da Justiça, para o envio do procedimento a esta Corte. Sr. Ministro Francisco Rezek: Do Ministro da Justiça, que o recebe do Itamaraty para nos mandar. Sr. Ministro Néri da Silveira: Desse modo, se o Poder Executivo se comunica com o Poder Judiciário, via Ministério da Justiça, no caso concreto, o expediente de extradição foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal pela autoridade brasileira competente. Sr. Ministro Francisco Rezek: Sim, mas a autoridade deveria tê-lo recebido, através do conduto internacional de comunicação competente, porque, isso não ocorrendo este Tribunal tem a prerrogativa da critica. Recordo o caso Sardon, de 1972 (Extr. n? 314) em que a Corte não conheceu, à vigésima quinta hora, de um pedido, ao dar-se conta de que ele fora enderaçado ao Itamaraty via correio, pelo Juiz processante, de Buenos Aires. Sem nenhuma responsabilidade do Governo Argentino, expressa na voz de quem pode falar por ele na cena internacional. A tolerãncia do Governo Brasileiro sana 22 R.T.J. — 109 esse vicio? Entendeu-se que não, pois este Tribunal tem o direito de crítica e deve exercê-lo. O Sr. Ministro Néri da Silveira: A vista das considerações acima, voto pela diligência. EXTRATO DA ATA Extr. n? 411 — República Portuguesa — Rel.: Ministro Decio Miranda. Reqte.: Governo da República Portuguesa. Extdo.: Antônio Canelas Nóbrega (Adv.: Aluisio Xavier de Albuquerque). Decisão: Convertido o julgamento em diligência, vencido o Ministro Relator. Falou pelo Extdo.: O Dr. Aluísio Xavier de Albuquerque. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sesão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Soares Mutioz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 14 de dezembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. VOTO (SOBRE DILIGÊNCIA) O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): O Tribunal converteu o julgamento em diligência para que a representação portuguesa no Brasil ratificasse o pedido, de vez que pela lei brasileira a extradição será solicitada por via diplomática ( Lei n? 6.815, de 19-8-80, art. 80). Tal exigência foi satisfeita mediante o esclarecimento do oficio de fls. 77, acompanhado da cópia do expediente de fls. 78, pelo qual a Embaixada de Portugal trasmitira ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil o pedido relativo à extradição do cidadão português Antônio Canelas Nóbrega, acompanhado dos documentos que hoje se vêem a fls. 5/40 das presentes notas. Vê-se, pois, que o pedido de extradição fora encaminhado por via diplomática, tendo, porém, deixado de ser enviada ao Supremo Tribunal Federal a chamada «nota verbal» com que a Embaixada de Portugal o remetera ao Ministério das Relações Exteriores, nota que hoje se vê juntada a fls. 79 destes autos de extradição com o seguinte teor: «A Embaixada de Portugal apresenta os seus atenciosos cumprimentos ao Ministério da Relações Exteriores e, em referência á Nota DJ/DE-I/44/007, de 4 de maio findo, tem a honra de solicitar o encaminhamento às autoridades brasileiras competentes, com a possível brevidade, do pedido em anexo, relativo à extradição do cidadão português Antônio Canelas Nóbrega. 2. Conforme poderá ser verificado, o referido pedido é formulado com observância das condições e garantias exigidas pela lei brasileira. 3. A Embaixada de Portugal aproveita a oportunidade para reiterar ao Ministério das Relações Exteriores os protestos da sua elevada consideração. Brasília, 23 de junho de 1983» (fls. 79). Isto posto, e reiterando o voto proferido na sessão plenária de 14-12-83, defiro a extradição. EXTRATO DA ATA Extr. 411 — República Portuguesa — Rel.: Ministro Decio Miranda. Reqte.: Governo da República Portuguesa. Extdo.: Antônio Canelas Nóbrega (Adv.: Aluisio Xavier de Albuquerque). Decisão: Deferiu-se o pedido de extradição, unanimemente. R.T.J. — 109 Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufioz, Dedo Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, 23 Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 15 de Fevereiro de 1984 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. REPRESENTAÇÃO N? 1.145 — SP (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Soares Mufioz. Representante: Procurador-Geral da República — Representado: Governador do Estado de São Paulo. Representação. Argüição de InconstitizelonaIldade. — Inconstitucionalidade da expressão «... mediante prévia aprovação da Assembléia Legislativa ...» contida no ii 2? do art. 12 do Decreto-lei Complementar n? 7, de 6-11-69, editado pelo Governador do Estado de São Paulo. A exigência de condicionar ã anuência prévia do Poder Legislativo a nomeação dos membros dos Conselhos Deliberativos das Autarquias estaduais constitui afronta ao principio da separação dos Poderes, que a Lei Fundamental agasalha no art. 6?. Precedente: Representação n? 1.089-SP. curador-Geral da República Professor Inocêncio Mártires Coelho, In Vistos, relatados e discutidos estes verbis: autos, acordam os Ministros do Su«Em atenção a pedido do Senhor premo Tribunal Federal, em sessão Governador José Maria Marin, do Plenária, na conformidade da ata do Estado de São Paulo, o Senhor julgamento e das notas taquigráfiProcurador-Geral da República cas, por unanimidade de votos, julajuizou ação direta objetivando a gar procedente a Representação e declaração de inconstitucionalidadeclarar a inconstitucionalidade da de da expressão «... mediante préexpressão «... mediante prévia aprovia aprovação da Assembléia Levação da Assembléia Legislativa ...» gislativa...» contida no parágrafo contida no 2? do art. 12 do Decreto2? do art. 12 do Decreto-lei Comlei Complementar n? 7, de 6 de noplementar n? 7, de 6 de novembro vembro de 1969, editado pelo Goverde 1969, editado em 6 de novembro nador do Estado de São Paulo. de 1969, no recesso da Assembléia Legislativa, pelo então GovernaBrasília, 5 de outubro de 1983 — dor, Senhor Roberto Costa de Cordeiro Guerra, Presidente — Abreu Sodré. Soares Mtuloz, Relator. Fundamentando o pedido acolhiRELATÓRIO do, sustentou o Chefe do Poder Executivo do Estado Bandeirante O Sr. Ministro Soares Mufloz: Adoque a a exigência de condicionar à to, como relatório, o parecer do ilusanuência prévia do Poder Legislatre Procurador Dr. João Paulo de tivo a nomeação dos membros dos Barros, aprovado pelo eminente ProConselhos Deliberativos das autarACÓRDÃO 24 R.T.J. — 109 guias estaduais constitui flagrante afronta ao principio da separação dos Poderes — que a lei fundamental agasalha no artigo 6? - por isso que configura indevida interferência em atribuições privativas do Poder Executivo». Assim, o texto malsinado vulnera diretamente os artigos 6?, 13, inciso V; 57, inciso V; 81, inciso VIII e 200 da Constituição da República. Invocando os parâmetros da Constituição de 1967 «que continha preceito legitimando a intervenção do Legislativo no processo de escolha e nomeação referido, desde que a lei o determinasse» (pág. 8) e da alteração que lhe operou a Emenda n? 1, de 1969, cita a jurisprudência da Excelsa Corte antes e depois desse condicionamento. Provocada, manifestou-se a Presidência da augusta Assembléia Legislativa, que se arrimando na jurisprudência superada do Supremo Tribunal Federal, conclui suas informações pela improcedência da Representação. O tema já é conhecido no âmbito e na solenidade do julgamento da representação do ProcuradorGeral da República pelo colendo Supremo Tribunal Federal. A Emenda Constitucional n? 1, de 1969, modificou o controle do Legislativo sobre a escolha de nomes para provimento de cargos pelo Chefe do Poder Executivo: enquanto na Constituição de 1967 esse controle era de amplo espectro (se determinado em lei, a escolha de qualquer servidor estava sob o crivo do Poder Legislativo), a partir de 30 de outubro de 1969, somente para as funções e cargos expressamente definidos no texto constitucional é que esse controle remanesceu. Desde então, vem a Excelsa Corte declarando a inconstitucionalidade de preceitos ou expressões que acrescentem, na esfera estadual, outros cargos ou funções que não os que guardam semelhança com os da esfera federal e que permaneceram sob controle do Senado Federal (v. g.: Representações 1.018-GO, acórdão publicado na RTJ 101/468 e 1.089-SP, RTJ 103/516). Na espécie em exame, o Decreto-lei Complementar n? 7, de 6 de novembro de 1969, posterior portanto, à entrada em vigor da Emenda Constitucional n? 1, dispôs sobre a descentralização dos serviços que «por sua natureza ou finalidade, justifiquem autonomia técnica, administrativa ou financeira» (art. 1?). Na seção III, disciplinou sobre as autarquias e sua organização. O artigo 10, ao final, condicionava a nomeação do Superintendente de autarquia à «prévia aprovação da Assembléia Legislativa». Essa e a expressão «dirigentes de autarquias» que se continha no inciso X do artigo 17 da Constituição Estadual, foram declaradas inconstitucionais na Representação ri? 1.089. Restou por impugnar, então, o mesmo condicionamento imposto, no § 2? do artigo 11, à composição do Conselho Deliberativo dessas mesmas autarquias, o que é feito nestes autos. Para evitar-se repetição de tudo o que já se considerou em ambos os precedentes citados, pede-se vênia para a remissão aos fundamentos daqueles pareceres, concluindose pela procedência da Representação, a fim de que — declarada a sua inconstitucionalidade — seja excluída a expressão « mediante prévia aprovação da Assembléia Legislativa...» do § 2? do artigo 12 do Decreto-Lei Complementar n? 7, de 6 de novembro de 1969, por violar o princípio da independência e harmonia dos Poderes (art. 13, I, R.T.J. — 109 c/c os artigos 10, VII, c, e 57, V, da Emenda Constitucional n? 1/1969), «porquanto não havendo norma correspondente dessa Carta Magna, defeso é aos Estados determinar, em suas Constituições ou leis ordinárias, a indicada limitação competência exclusiva do Governador do Estado no que concerne ao provimento dos cargos de dirigentes de autarquias» (sic, Exmo. Sr. Ministro Soares Mutioz, ementa do v. acórdão na Rp. n? 1.089SP, RTJ 103/513, notas taquigráficas anexas)» (fls. 44/47). Deste relatório devem ser remetidas cópias aos senhores Ministros. Brasília, 28 de novembro de 1983 — Ministro Soares Mutioz, Relator. VOTO O Sr. Ministro Soares Muiloz (E...,lator): De conformidade com o parecer, cujos fundamentos adoto, declaro a inconstitucionalidade da expressão: «... mediante prévia aprovação da Assembléia Legislativa...» contida no § 2? do art. 12 do Decreto-lei Complementar n? 7, de 6 de novembro de 1969, editado no recesso da Assembléia Legislativa, pelo então Governador do Estado de São Paulo, Senhor Roberto Costa Abreu Sodré. Na Representação n? 1.089-SP, relatada também por mim, foi declarada a inconstitucionalidade do art. 10 do mencionado Decreto-lei Complementar n? 7, de 6 de novembro de 1969, na parte em que condicionava a nomeação pelo Governador do Estado dos dirigentes das autarquias à «prévia aprovação da Assembléia Legislativa». Os fundamentos do voto que proferi no aludido precedente tem inteira adequação à presente representação, de modo que a eles me reporto, adotando-os, In verbis: «Com efeito, a Emenda Constitucional n? 1, de 1969, art. 42, inciso 25 III, suprimiu a hipótese de prévia aprovação do Senado Federal para a escolha do Procurador-Geral da República e «de outros servidores, quando determinado em lei,» estabelecida no art. 45, I, da Constituição de 1967, de sorte que, a partir daquela Emenda, a jurisprudência anterior tornou-se superada. E isso o reconheceu o Supremo Tribunal Federal nas Representações n? 950, do Rio de Janeiro, Relator Ministro Moreira Alves (RTJ 92/1.000): 857, de Minas Gerais, relator Ministro Barros Monteiro (RTJ 67/310) e 1.018, do Estado de Minas Gerais, relator Ministro Cunha Peixoto (DJ de 25-4-1980, pág. 2803). O controle do Poder Legislativo na nomeação de dirigentes de autarquias viola o principio da independência e harmonia dos Poderes (art. 13, I, c/c o art. 10, VII, c, da Emenda Constitucional n? 1, de 1969), porquanto não havendo norma correspondente na Carta Maior, defeso é aos Estados determinar, em suas Constituições ou leis ordinárias, aquela limitação à competência exclusiva do Governador do Estado no atinente ao provimento dos cargos de dirigentes das autarquias (art. 57, V, CF).» (RTJ 103/520/521). E o voto. EXTRATO DA ATA Rp. 1.145-SP — Rel.: Ministro Soares Mufloz. Repte.: ProcuradorGeral da República. Repdo.: Governador do Estado de São Paulo. Decisão: Julgou-se procedente a Representação e declarou-se a inconstitucionalidade da expressão «...mediante prévia aprovação da Assembléia Legislativa...» contida no § 2? do art. 12, do Decreto-lei Complementar n? 7, de 6 de novembro de 1969, editado pelo Governador do Estado de São Paulo. Decisão unânime. Votou o Presidente. 26 R.T.J. — 109 Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Substituto, o Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 5 de outubro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. REPRESENTAÇÃO N? 1.170 — RJ (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Representante: Procurador-Geral da República — Representados: Governador e Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Representação de inconstitucionalidade da Lei n? 672, de 8-9-83, do Estado do Rio de Janeiro. Liminar deferida pelo relator e referendada pelo Plenário da Corte (§ 1? do art. 170 c/c o art. 21, incs. IV e V, do Regimento Interno). ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão Plenária, na conformidade da ata de julgamento e das notas taquigráficas, á unanimidade de votos, em referendar o pedido de liminar concedido pelo Ministro Relator. Brasília, 7 de outubro de 1983 — Cordeiro Guerra, Presidente — Djaci Falcão, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Djaci Falcão: Na Representação n? 1.170-4, do Estado do Rio de Janeiro, de que sou relator, foi formulado o seguinte pedido pelo Exmo. Sr. Dr. ProcuradorGeral da República: «O diploma legal impugnado estabeleceu, no seu artigo 8?, que as primeiras eleições para elaboração da lista tríplice de candidatos a reitor e vice-reitor realizar-se-iam, no máximo, dentro de trinta dias após a respectiva promulgação (doc. 1). Publicada a lei em 9 de setembro passado, avizinha-se a data para realização das eleições, previstas, segundo o noticiário mais autorizado da imprensa falada e escrita, para a data de amanhã (6 de outubro). Com a expectativa criada pela realização das eleições, estabeleceu-se no campus universitário enorme movimentação, «com faixas dependuradas nas janelas, cartazes colados nos corredores e nas salas de aula, debates diários e discussões nas cantinas e nos pátios», segundo informes colhidos do prestigioso Jornal do Brasil do dia 4 do corrente, que em seguida acrescenta: «este é o clima vivido nos últimos dias pelos quase 18 mil alunos, professores e funcionários da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que, no próximo dia 6, escolherão seus candidatos à Reitoria e à Vice-Reitoria» (doc. 2). Essa situação, de certa forma, confirma a advertência do eminente ex-Senador da República Jarbas Passarinho, quando, em autorizado R.T.J. — 109 artigo publicado recentemente na imprensa da Capital, prenunciava que se intenta fazer aqui o que ainda há poucos anos se passou no Chile, no âmbito estritamente universitário, ou seja, diz o articulista: Os partidos políticos fariam a campanha por seus candidatos, levando para o cerne da universidade a cizânia das lutas eleitorais, além de obrigar os candidatos a assumir compromissos que, certamente, conspirarão contra a eficiência da administração. Pode-se imaginar o que será o resultado de uma sistemática dessa, com os partidos políticos, legais e clandestinos, envolvidos na luta pela conquista da reitoria (doc. 3). Ora, eminente Relator, a Representação n? 1.170, a Vossa Excelência distribuída, tem em vista a ueclaração de inconstitucionalidade de todo o teor da Lei Estadual n? 672, de 8-9-83, inclusive o malsinado artigo 8?, que faculta a realização de eleições diretas para a reitoria até, no máximo, trinta dias após a publicação daquela. Admitida a realização do pleito, estará em parte frustrado o objetivo final que se persegue com a ação constitucional direta intentada perante esta Suprema Corte. Ocorrem, sem dúvida, os pressupostos a que se refere a norma regimental pertinente, tanto em relação ao fumus bonl juris, quanto ao perimam In mora. Dai por que aguarda o Representante a concessão da cautelar, em ordem a garantir a eficácia da ulterior decisão da causa e evitando-se grave dano à ordem pública, decorrente da exacerbação dos ânimos» (fls. 12/14). Com a inicial é argüida a inconstitucionalidade da Lei n? 672, de 8 de setembro de 1983, do Estado do Rio de Janeiro, pela maneira seguinte: 27 «Pela lei em questão, sancionada sem vetos pelo Chefe do Executivo estadual e regularmente publicada no competente órgão oficial, os nomes para a escolha daqueles dirigentes universitários serão encaminhados ao Governador em listas tríplices elaboradas «com base no resultado de eleições diretas» (art. 1?), estabelecendo, logo á frente, o art. 4?, que são eleitores do novo processo todos os professores, alunos e servidores não docentes; enfim , toda a comunidade universitária. Depois de estipular que «a eleição será feita em urnas distintas», compreensivas de votos de professores, alunos e servidores não docentes (art. 5?), atribui a cada classe de votantes pesos distintos, de tal modo que o total de votos apurados entre os professores tenha peso igual à soma dos votos dos alunos e dos empregados não docentes da universidade (art. 6?). O sétimo, por sua vez, contém mandamento imperativo, no sentido de que «o voto será pessoal, secreto e obrigatório». Reza, contudo, a Constituição Federal, em seu art. 8?, inciso XVII, letra q, que compete à União legislar sobre «diretrizes e bases da educação nacional», acrescentando seu parágrafo único que, sobre esta matéria, assim como sobre outras ali relacionadas, a competência assegurada à União não exclui a dos Estados para legislarem em caráter supletivo. Com fundamento nesse texto constitucional, a União votou a Lei n? 5.540, de 28 de novembro de 1968, fixando normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, lei cujo art. 16 foi posteriormente alterado por outra, de n? 6.420, editada em 3 de junho de 22 R.T.J. — 109 1977, que lhe deu, na parte que inOs reitores e vice-reitores das teressa ao caso, a seguinte redauniversidades estaduais ou municipais serão nomeados pelo Chefe ção: do Poder Executivo competente Art. 16. A nomeação de reitoescolhidos em listas sêxtuplas res é vice-reitores de universidapreparadas por um colégio eleitodes, e de diretores e vice-direral especial na forma do item I tores de unidades universitárias do artigo 16 da Lei n? 5.540, com e de estabelecimentos isolados de a redação dada pela Lei n? 6.420, ensino superior, obedecerá ao sede 3 de junho de 1977. guinte: Do confronto entre a legislação I — O reitor e o vice-reitor de federal e a estadual transcritas, universidade oficial serão noemerge, nítida, a antinomia entre meados pelo Chefe do Poder Exeambas: enquanto a lei federal discutivo, escolhidos em listas prepõe que os dirigentes das universiparadas por um colégio eleitoral dades estaduais serão escolhidos especial, constituído da reunião em listas sêxtuplas, preparadas do Conselho universitário e dos pelo Conselho Universitário e pelos órgãos colegiados máximos de órgãos máximos de ensino, pesquiensino e pesquisa e de adminissa e administração, a legislação lotração ou equivalente; cal estabelece, para a mesma escolha, sejam organizadas listas II — Os dirigentes de universitríplices, elaboradas com base no dades ou estabelecimentos isolaresultado de eleições diretas de dos particulares serão escolhidos que participe toda a comunidade na forma dos respectivos estatuuniversitária. tos e regimentos; Esse conflito de normas somente III — O diretor e o vice-diretor pode ser dirimido à luz da Constide estabelecimento isolado de entuição Federal, onde se acham dissino superior mantido pela União criminadas as competências de caquando constituído em autarquia da qual das pessoas jurídicas de serão nomeados pelo Presidente direito público interno (União, Esda República, e no caso de diretados e Municípios). tor e vice-diretor de unidade universitária, pelo Ministro da EduOra, tendo a União votado, valicação e Cultura, escolhidos em damente, lei, inserida em sua comlista preparada pelo respectivo petência constitucional, quanto à colegiado máximo; forma pela qual devem ser elaboradas as listas sêxtuplas para a esIV — Nos demais casos, o dicolha dos dirigentes universitários, retor será escolhido conforme esfederais ou estaduais, parece eivatabelecido pelo respectivo sisteda de inconstitucionalidade a lei, ma de ensino. de origem local, que estabeleça §1? Ressalvado o caso do inciprocesso diverso daquele traçado so II deste artigo, as listas a que pelo legislador federal» ( fls. 2/6). se refere este artigo serão sêxtuDiante da urgência da medida replas. querida proferi o seguinte despacho: Posteriormente, o Decreto Fede«Vistos, etc. ral n? 80.536, de 11 de outubro de 1977, regulamentando a mencionaCom base no art. 21, incs. IV e V, da Lei n? 6.420, do mesmo ano, esdo Regimento Interno do Supremo tabeleceu no seu art. 10, caput: Tribunal Federal, e à vista das 29 R.T.J. — 109 considerações aduzidas pelo Exmo. Sr. Dr. Procurador-Geral da República (fls. 12/14), defiro a medida liminar de suspensão da Lei n? 672, de 8-9-83, do Estado do Rio de Janeiro, até o julgamento desta Representação — Brasília, 5-10-83». Tenho para mim que se impõe a medida cautelar prevista no § 1? do art. 170 c/c o art. 21, incs. IV e V, do nosso Regimento Interno, bem assim, no art. 119, Inc. I, letra p, da Constituição Federal. Há, nesta representação, fundamentos jurídicos relevantes. Ao lado disso, a execução da Lei n? 672, de 89-&3, do Estado do Rio de Janeiro, argüida de inconstitucional, poderá causar prejuízos de difícil e incerta reparação no plano da administração universitária. A suspensão provisória, da execução da lei em causa, propiciará a eficácia plena da decisão qualquer que seja a diretriz que seja tomada, oportunamente, por esta Corte. Daí por que acolhi o pedido formulado pelo Professor Inocêncio Mártires Coelho, digno Procurador da Re- vessem lugar no Rio de Janeiro os atos de execução do atacado art. 8? da Lei Estadual n? 672, com conseqüências danosas á administração universitária na hipótese de a representação vir a ser julgada procedente. Sendo igualmente certo, e é o mínimo que se pode dizer neste momento, sem transbordar dos limites que a oportunidade nos impõe, que a representação é, à evidência, verossímil nos seus fundamentos, vista a regra constitucional que incumbe à União a edição das diretrizes e bases da educação nacional, e em vista da circunstãncia de que uma lei ordinária de índole federal dispõe, de modo. absolutamente claro e detalhado, sobre esse mesmo assunto. Meu voto é no sentido de compartilhar da decisão do Ministro Relator. EXTRATO DA ATA Rp 1.170-RJ — Rel.: Ministro Djaci Falcão. Repte.: Procurador-Geral da República. Repdos.: Governador e Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. pública. Decisão: Referendado, unanimemente, o despacho proferido pelo SeCom estas considerações submeto nhor Ministro Djaci Falcão, suspena matéria à apreciação do Plenário da Corte, nos termos do art. 5?, inc. dendo a execução da Lel n? 672, de 8X, c/c o art. 21, Inc. V, do Regimen- 9-83, do Estado do Rio de Janeiro, até o julgamento final da Represento Interno. tação. VOTO Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão O Sr. Ministro Francisco Rezek: os Senhores Ministros Djaci Falcão, Sr. Presidente, não cabe ao Tribu- Soares Mui%oz, Dedo Miranda, Ranal, neste momento, tomar uma de- fael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo cisão que antecipe o juízo de mérito Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarida representação que um dia virá a nho e Francisco Rezek. Ausente, jusjulgamento. Cuida-se apenas de abo- tificadamente, o Senhor Ministro nar o despacho do eminente Minis- Moreira Alves — Procurador-Geral tro Relator que concedeu a medida da República, Substituto, o Dr. Mauro Leite Soares. liminar. S. Exa. considerou, ao proferir esBrasília, 7 de outubro de 1983 — se despacho, a iminência de que ti- Alberto Veronese Aguiar, Secretário. 30 R.T.J. — 109 SENTENÇA ESTRANGEIRA N? 2.912 — REINO DA BÉLGICA (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Requerente: Walter Matter S.A. — Requerida: Fenelon Machado S.A. — Exportação e Importação. Sentença estrangeira. Homologação. Sentença estrangeira, que teve por exeqüível decisão arbitrai. Sua homologabilidade, em princípio, no Brasil. Precedente na Sentença Estrangeira n? 2178 (RTJ 92/515 e 91/48). Regimento Interno do STF, art. 217. Requisitos à homologação de sentença estrangeira. Sentença que se há de ter por suficientemente motivada. Requerido domiciliado no Brasil. Lei de Introdução ao Código Civil, art. 12. Competência relativa. Se as partes acordaram solver, por meio de arbitragem, em praça estrangeira, as questões que se apresentassem na execução do contrato, não cabe alegar o requerido incompetência do Tribunal estrangeiro competente, que homologou a decisão arbitrai. E, entretanto, princípio de ordem pública, no Brasil, seja o réu, conhecida sua residência, diretamente, citado no País, para responder à ação, perante a Justiça estrangeira, constituindo a citação válida, dessa sorte, requisito indispensável à homologação da sentença alienígena. Lei de Introdução ao Código Civil, art. 12, § 2?. A citação deve ser feita, mediante carta rogatória, após obtido o exequatur do Presidente do Supremo Tribunal Federal. No caso, não houve citação da requerida, mediante carta rogatória, nem compareceu ela, voluntariamente, ao Juizo estrangeiro. Não afastaria o vicio da falta de citação, sequer, o fato alegado, pela requerente, segundo o qual a requerida não ignorava a existência da decisão arbitrai. Trânsito em julgado da decisão estrangeira homologanda, não regularmente comprovado. Sentença estrangeira, cujo pedido de homologação se indefere, por falta de citação regular da requerida, mediante carta rogatória, e porque não comprovado, suficientemente, seu trânsito em julgado (RISTF, art. 217, II e III). ACORDA() Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, à unanimidade, indeferir a homologação. Brasília, 2 de fevereiro de 1983 — Xavier de Albuquerque, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Trata-se de sentença estrangeira em que Walter Matter S.A., sociedade comercial sediada em Genebra, na Suíça, pleiteia ho- mologação de decisão proferida pela Primeira Câmara Cível da Corte de Apelação de Antuérpia, Bélgica, pela qual se proclamou exeqüível sentença arbitrai, da Câmara Arbitrai para os Cafés, em Antuérpia, prolatada a 8-4-1974, contra a empresa brasileira Fenelon Machado S.A. — Exportação e Importação, que restou condenada a pagar determinadas importâncias, relativas a perdas sofridas na consignação de uma partida de 5.092 sacas de café. A condenação da empresa, segundo a sentença, cuja homologação ora se pleiteia, consiste no pagamento das seguintes parcelas: US$ 65.947,77 (sessenta e cinco mil, novecentos e R.T.J. — 109 quarenta e sete dólares americanos e setenta e sete centavos) a titulo de principal; US$ 65.825,00 (sessenta e cinco mil, oitocentos e vinte e cinco dólares americanos) relativos a juros; US$ 3.418,02 (três mil, quatrocentos e dezoito dólares americanos e dois centavos) correspondente a comissão; FrB 2.500,00 (dois mil e quinhentos francos belgas) referentes a custas, destinados e reembolso à Câmara Arbitrai indicada no item anterior. Segundo a inicial, a requerida, ciente do julgamento da Corte Arbitrai, procurava eximir-se de cumprila, tendo sido, posteriormente, notificada do julgamento, de que se trata, donde se infere o trânsito em julgado da sentença homologanda. Citada, a empresa nacional apresentou a contestação de fls. 68/75, onde ressalta os seguintes tópicos: Incompetência da Justiça estrangeira para dirimir a controvérsia, porquanto, possuindo sede e foro na cidade do Rio de Janeiro, segundo é do conhecimento da requerente, sustenta que competente seria, necessariamente, o foro brasileiro, a teor do art. 12, da Lei de Introdução ao Código Civil, tendo em vista que não acordaram as partes em eleger o foro da praça de Antuérpia para dirimir eventuais pendências, renunciando seu foro privativo, o que evidencia não estar a sentença revestida de formalidade essencial; Falta da citação da requerida para acompanhar a arbitragem proclamada pela Câmara Arbitrai de Antuérpia, com infringência, assim, segundo alega, do art. 15, letra b, da Lei de Introdução ao Código Civil, e do art. 217, item II, do Regimento Interno desta Corte, alegando que a requerida deveria ter sido citada por carta rogatória, o que não aconteceu; 31 Falta de inteligência da sentença homologanda, por não preencher, segundo anota a requerida, os requisitos exigidos pela legislação brasileira, especialmente, o disposto no item II, do art. 458, do Código de Processo Civil, acrescentando que a sentença prolatada pela Câmara Arbitrai «não declara em que documento teria se baseado para proceder a arbitragem; não indica os dispositivos das convenções internacionais aplicáveis ao caso que embasariam sua conclusão, não informam quais os elementos da ação» e «não relata os fatos, que originariam a obrigação a ser cumprida» (fls. 73); Não há prova de trânsito em julgado da sentença, com infringência, assinalada pela requerida, do art. 217, item III, do Regimento Interno desta Corte, e em desarmonia com o enunciado da Súmula n? 420 (fls. 76). Concluindo sua contestação pleiteia a firma Fenelon Machado S.A. — Exportação e Importação a improcedência do pedido, com a conseqüente negativa da pretendida homologação, bem assim que condenada seja a requerente ao pagamento de custas processuais e honorários advocaticios. Em sua réplica, manifestada às fls. 80/81, Walter Matter S.A. afirma que são improcedentes as objeções indicadas pela requerida, tendo em vista que «estão pres ntes, em rigorosa obediência aos receitos legais e regimentais, os re uisitos básicos à homologação da se tença», destacando, verbis (fls. 80/81): «2. Para a prin eira alegação, deixou a requerida e considerar a eleição expressa do oro de Antuérpia, constatada pel Câmara Arbitrai de Cafés daqu a cidade (fls. 6, original; fls. 15, radução), que se deu por competi te para apreciar a matéria, em virtude, justamente, do que as partes no contra- 32 R.T.J. — 109 to de consignação haviam estatuído entre si; ao confirmar a decisão arbitrai, em segunda instância, a Primeira Câmara eive! da Corte de Apelação de Antuérpia lhe reconheceu validade por ter sido observado, também, o requisito da competência da Câmara Arbitrai, submetida, por seu turno, à jurisdição da Justiça belga. A requerida não ignorava a existência de uma decisão arbitrai que a condenava, tanto que se negou expressamente, em carta endereçada à Comissão das Associações Européias de Café, a cumprila, opondo-lhe a alegação de problemas cambiais e da inexistência de autorização legal, no Brasil, para executá-la (fls. 22/24); esta manifestação expressa da Ré representa, no entender da peticionária, a antecipação de uma revelia voluntária dentro do processo judicial que se seguiu; por outro lado, o Tribunal Belga, ao se pronunciar, respeitou integralmente os preceitos processuais aplicáveis aos litígios em que a parte requerida não tenha comparecido (Código de Processo Civil belga, artigo 804: «Si à l'audience à laquelle la cause a été remise ou a été nouvellement fixée, l'une des parties ne comparait pas, jugement par défaut peut etre requis contre elle» — fls. 26, original; fls. 31, tradução). A sentença arbitrai tornada exeqüível pelo Tribunal belga está fundamentada até os mínimos detalhes; a eventual presença de expressões em inglês dentro da tradução não lhe compromete a inteligência, eis que se trata de termos consagrados no uso comercial internacional. 5. O trânsito em julgado da sentença homologanda se infere não só da expedição, pelo Escrivão da Corte Distrital de Antuérpia, da notificação do julgamento à Fene- íon Machado S.A., em 24-1979, como também do teor da ordem contida no fecho da certidão de fls. 25/28, traduzido a fls. 33, onde já se determina o cumprimento da decisão judicial.» Submetidos os autos à douta Procuradoria-Geral da República, manifestou-se, às fls. 84/85, no sentido de que fossem esclarecidos, pelà empresa requerente, as questões constantes dos itens a seguir especificados: «a) se a prova da competência da Justiça do Reino da Bélgica para o processo contra a empresa brasileira, ora ré, resume-se efetivamente ao texto de fls. 5 (parcialmente traduzido às fls. 12/13), que alude a um convênio firmado pelas partes, mas que não foi trazido aos autos; b) se existe texto, omitido nestes autos, mas originalmente incorporado, quer à decisão arbitrai, quer à decisão judiciária, que lhe sobreveio, motivando, de algum modo, a declaração da procedência do primitivo pedido, e a conseqüente condenação da empresa ré a Indenizar a empresa autora; C) como se operou a citação da empresa ré para se ver processar ante o foro belga.» Visando atender à promoção da ProCuradoria-Geral da República, vieram aos autos, instruídas com a documentação respectiva, as petições de fls. 92/93 e 111/112. De sua vez, a firma Fenelon Machado S.A. — Exportação e Importação, em face da juntada de novos documentos ao feito, manifestou-se às fls. 119/121, reiterando os termos da contestação, oportunidade em que anotou não terem sido atendidas as indagações formuladas pelo Órgão do Ministério Público. Retornando o feito à douta Procuradoria-Geral da República, o ilus- R.T.J. — 109 tre titular do referido Orgão, Dr. Inocêncio Mártires Coelho, no parecer de fls. 124, 130, pelo indeferimento do pedido de homologação, a teor dos arts. 216 e 217, itens II e III, do Regimento Interno deste Tribunal, e em face do disposto nos arts. 458, item II, e 1.095, item II, do Código de Processo Civil. E o relatório. 33 vers, os Árbitros se declaram competentes para receber o presente litígio e para estatuir; 2. quanto ao teor: Declaram\ a ação recebível e bem fundamentada. Rejeitam as exigências do Autor quanto ás despesas com advogado. Rejeitam as exigências do Autor quanto ao prejuízo com o câmbio sobre dólares americanos. VOTO Declaram encerrar as contas em 31 de dezembro de 1973. O Sr. Ministro Néri da Silveira Condenam o Réu a pagar ao Au(Relator): Trata-se de homologação tor: O montante referente ao prinde sentença estrangeira, que teve cipal de US$ 65.947,77 ou sejam: por exeqüível decisão arbitrai. Em princípio, é dita sentença homologáMontante desemvel no Brasil, como decidiu este bolsado pelo Autor US$ 321.672,46 Tribunal na Sentença Estrangeira n? Deduzida uma car2.178, In RTJ 92/515 e 91/48, destata de crédito em cando, no particular, a Procurafavor do Autor, dadoria-Geral da República (fls. 126): tada de 25-10-71 ... 5.119,00 «5. E fato notório que as decisões ar316.553,37 bitrais são em tese suscetíveis de hoDeduzida do produmologação por essa Alta Corte, desto da venda 250.605;60 de que previamente chanceladas, 65.947,77 através de processo próprio, no país a quantia de US$ 65.825 de acordo de origem, pelo órgão judiciário com a escala em anexo represencompetente.» tando os juros combinados de 10% De outra parte, como se vê de fls. ao ano até 31 de dezembro de 1973 102, as partes acordaram submetermais os juros corridos a partir de se a arbitramento, «se for o caso, 1? de janeiro de 1974, a quantia de possivelmente, por acordo amigável, US$ 3.418,02 de acordo com a discaso contrário, por arbitramento em criminação em anexo representanAntuérpia». do a comissão sobre o mais elevado débito trimestral até 31 de deA sentença arbitrai, da Câmara zembro de 1973 e o reembolsar à Arbitrai para os Cafés em AntuérChambre Arbitrale pour les Cafés pia, na ação da requerente contra a à Anvers, a quantia de 2.500 Franrequerida, tem esta conclusão (fls. cos Belgas representando as taxas 15/16): de Câmara.» «O Colégio de Árbitros, levando Essa sentença arbitrai foi proclaem conta os elementos da documentação, estatui por unanimida- mada exeqüível pela Corte de Apelação de Antuérpia, Bélgica, em decide: 1. quanto á competência: já que são com o seguinte teor (fls. 30/32). «Ouvi os motivos e as conclusões as partes previram expressamente do Apelante; que todo litígio entre elas seria resolvido por arbitragem da Cham— Tendo em vista a decisão do bre Arbitrale pour les Cafés á AnPresidente da Corte da Primeira 34 R.T.J. — 109 Instância de Antuérpia datada de 29 (vinte e nove) de junho de 1978 (mil novecentos e setenta e oito), uma cópia da qual foi submetida; Levando-se em consideração que um apelo superior poderá ser admitido; Levando-se em consideração que a administração de justiça conforme provido pelo artigo 804 do Código referente a apelados foi observada; que na sessão da Corte, o Apelante alegou não comparecimento. Levando-se em consideração que baseado nos documentos atualmente disponíveis, ou seja: o acordo realizado pelas partes no dia 21 (vinte e um) de agosto de 1968 (mil novecentos e sessenta e oito) com relação ao Contrato de Café Europeu (EEC), e o art. 42 deste contrato, as petições originais submetidas pela Apelante parecem ser corretas e adequadamente comprovadas. Por estes motivos, a Corte, dando seu julgamento após discussão com o Apelante e na ausência do Apelado: (Carimbo do Consulado Geral da República Federativa do Brasil, devidamente rubricado). Tendo em vista o artigo 24 da Lei de junho de 1935; Aceita o apelo superior. Anula a decisão em disputa e faz novo julgamento. Proclama exeqüível contra o Apelado, a sentença arbitrai da Câmara de Arbitragem para Café em Antuérpia, datada de 8 (oito) de abril de 1974 (mil novecentos e setenta e quatro), proferida no litígio entre o Apelante e o Apelado. Ao passar o presente julgamento, condena o Apelado em custas do processo nas duas Instâncias, que deixaram de ser calculados por falta de dados.» De acordo com o art. 217, do Regimento Interno, constituem requisitos indispensáveis à homologação da sentença estrangeira: «I — haver sido proferida por juiz competente; II — terem sido as partes citadas ou haver-se legalmente verificado a revelia; III — ter passado em julgado e estar revestida das formalidades necessárias à execução no lugar em que foi proferida; IV — estar autenticada pelo cônsul brasileiro e acompanhada de tradução oficial.» Na contestação, a requerida alegou incompetência da Justiça estrangeira para dirimir a controvérsia, eis que, domiciliada no Brasil não se comprovou houvessem as partes eleito a praça comercial de Antuérpia, no Reino da Bélgica, para resolver qualquer controvérsia entre elas oriunda do negócio jurídico. A teor do art. 12, da Lei de Introdução ao Código Civil, é competente a autoridade judiciária brasileira, quando for o réu domiciliado no Brasil ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação. Não assiste, neste particular, entretanto, razão à requerida. Com efeito, vê-se da sentença arbitrai, na tradução de fls. 15, verbis: «quanto à competência: já que as partes previram expressamente que todo litígio entre elas seria resolvido por arbitragem da Chambre Arbitrale pour les Cafés à Anvers, os Árbitros se declaram competentes para receber o presente litígio e para estatuir.» Ora, se as partes assim dispuseram, força é reconhecer a legitimidade da requerente para pedir a homologação da sentença arbitrai pelo órgão judiciário competente da praça de Antuérpia, tal como sucedeu. R.T.J. — 109 Neste passo, com inteira propriedade, anotou o parecer do Dr. Procurador-Geral da República, às fls. 126: «6. Igualmente certo é que a circunstância de ser a requerida uma empresa sediada em território brasileiro não exclui a competência dos tribunais estrangeiros, sempre que se trate de matéria estranha ao domínio do artigo 89 do Código de Processo Civil, caracterizando-se assim como prorrogável a competência da Justiça local. 7. No caso vertente, lê-se às fls. 102 que as partes acordaram em solver por meio de arbitragem, na praça de Antuérpia, as questões que se apresentassem na execução do contrato mercantil que as vinculara. 8. Eleito, pois, o foro belga para dirimir as controvérsias porventura existentes, àquele não se poderia evadir a empresa requerida desde que regularmente citada. Não há, portanto, acolher a alegação de incompetência da Corte de Apelação de Antuérpia, que proferiu a decisão homologanda. Comprovou, ademais, nesse sentido, a requerente que, indeferida pelo Presidente do Tribunal de Primeira Instância, a força executória à sentença arbitrai, de acordo com o art. 1.710 da Lei processual civil belga, dessa decisão cabia o recurso que interpôs; perante a Corte de Apelação, nos termos dos arts. 1.711 e 1.712, da referida Lei belga, que rezam (fls. 96/97): «Art. 1.711. 1. Se o pedido for indeferido, o requerente poderá interpor recurso, em um mês a contar da notificação, perante o Tribunal de Recursos. Esse recurso é formado por intimação através de Oficial de Justiça feita à parte contra a qual a execução foi expedida e contendo citação para comparecer perante o tribunal. 2. Se esta parte pretender obter a anulação da sentença, sem ter anteriormente apresentado uma petição para esse efeito, ela deverá 35 formular seu pedido perante o Tribunal de Primeira Instância, sob pena de perda de seu direito, num prazo de um mês a contar da notificação do ato do recurso. O Tribunal de Recursos sobrestará seu pronunciamento até que uma decisão definitiva tenha sido proferida sobre o pedido de anulação «Art. 1.712. 1. A decisão pela qual a sentença tiver recebido força executória deve ser notificada pela parte que a requereu à outra parte. Ela poderá ser impugnada perante o Tribunal de Primeira Instância no prazo de um mês a partir da notificação. 2. A parte que impugnar a sentença e pretender obter a sua anulação, sem ter previamente dado entrada num pedido para esse efeito, deve formular seu pedido de anulação, sob pena de perda de seu direito, seguindo o mesmo procedimento e no prazo previsto na alínea 1. A parte que, sem impugnar conforme a alínea 1, pretender obter a anulação da sentença, deve, sob pena de perda de seu direito, formular seu pedido de anulação no prazo previsto na alínea 1.» Sucede, porém, que se confere a condição de princípio de ordem pública, entre nós, seja o réu, conhecido seu domicilio, diretamente citado, no Brasil, para responder à ação, perante a Justiça estrangeira, constituindo a citação, dessa sorte, requisito essencial da homologabilidade, em qualquer caso, da sentença alienígena. Cumpre, ademais, verificar se a citação se fez, na conformidade da lei brasileira, eis que concerne à forma do ato de procedimento, ut art. 12, § 2?, da Lel de Introdução ao Código Civil Brasileiro, verbis. «§2?. A autoridade judiciária brasileira cumprirá, concedido o 36 R.T.J. — 109 exequatur e segundo a forma estabelecida pela lei brasileira, as diligências deprecadas por autoridade estrangeira competente observando a lei desta, quanto ao objeto das diligências.» Tem-se como assente na jurisprudência desta Corte que a citação de pessoa domiciliada no Brasil se faz mediante carta rogatória, que depende do prévio exequatur do Presidente do Supremo Tribunal Federal, para ser cumprida. No caso, não houve citação da requerida, mediante carta rogatória, nem esta compareceu, voluntariamente, ao Juizo estrangeiro, o que, aliás, se verifica da expressa referência à sua nãopresença, na sentença homologanda (fls. 32). Ora, a relevância da regra da citação, no direito brasileiro, é de tal ordem que, se for esta nula ou omitida e o processo correr à revelia, a decisão nele proferida também é nula, cabendo declarar tal nulidade, até mesmo o processo de execução (CPC, art. 741, I), sem necessidade de ação rescisória, como reminiscência, em nosso direito, da adio nullitatis insanabilis. Não afasta o vicio da falta de citação da requerida, o fato alegado, pela requerente, na réplica, às fls. 81, segundo o qual a requerida não ignorava a existência da decisão arbitrai, que a condenara, «tanto que se negou expressamente, em carta enderaçada à Comissão das Associações Européias de Café, a cumpri-la, opondo-se a alegação de problemas cambiais e da inexistência de autorização legal, no Brasil, para executá-la» (fls. 22/24). Entende a requerente que essa manifestação «represente a antecipação de uma revelia voluntária dentro do processo judicial que se seguiu». Em realidade, da correspondência referida pela requerente não é possível extrair o efeito alegado pela peticionária. Nesse documento assim se expressa a requerida, a propósito da decisão arbitrai, dirigindo-se à Comissão das Associações Européias de Café: «Sem formular qualquer comentário à decisão da Associação do Café em Antuérpia, devemos salientar que, se fosse caso de cumprimento, por nossa parte, dessa sentença enfrentaríamos proibição legal para fazer a remessa correspondente de US$ O fato é que, no Brasil, não há nenhuma autorização legal para executar mesmo aquelas arbitragens judiciais Ora, é bem de ver que não se trata do processo judicial de declaração de exeqüibllidade da sentença arbitrai. Quanto a este, nenhuma prova há, por parte da requerente, de citação da requerida, que não compareceu à Corte de Primeira Instância, nem perante a Corte de Apelação, onde, provido o recurso da requerente, se declarou exeqüível a decisão arbitrai. Nem se poderia acolher a alegação de que a citação seria bastante, na conformidade da lei belga, mediante simples carta, cuja cópia, de resto, não existe nos autos, consoante bem o anotou a requerida, às fls. 121. Logra, dessa maneira, inteira procedência, também no ponto, o parecer do ilustre Dr. Procurador-Geral da República, às fls. 126/127, verbis: «9. Sem desrespeito ao Colendo Tribunal de Antuérpia, demonstrada não está nos autos a regular citação da requerida para o processo homologatório do laudo arbitrai, visto que em tais casos se exige o trânsito formal de carta rogatória, que não é suprida pela recusa expressa, «por carta enderaçada ao órgão arbitrai, a cumprir a decisão, antecipando, desta forma uma revelia, qualquer que fosse, posteriormente, o modo de chamá- R.T.J. — 109 la a se manifestar nas instâncias judiciais percorridas», conforme assevera a requerente (fls. 93, penúltimo parágrafo). A citação reclamada pelo artigo 217, II, do Regimento Interno desse Tribunal, é a que emana do órgão judiciário instado a chancelar o laudo arbitrai. Nenhuma valia se empresta a propósito, ao chamamento provido pelo próprio árbitro, dado que o processo arbitrai não se subordina necessariamente à disciplina das leis adjetivas ditadas pelo Estado. Só a indiferença a uma citação consubstanciada no trânsito regular de carta rogatória pode ocasionar a legitima decretação da revelia de uma pessoa jurídica sediada no Brasil, e obrigada, por contrato, a aceitar a jurisdição estrangeira. Nesse sentido decidiu no passado, em circunstâncias semelhantes, essa Alta Corte (SS EE n? 1.529 e 1.578, inter alia). 12. O simples fato da requerida não ter sido regularmente citada para o feito de que resultou a sentença de cuja homologação se cuida, obsta a chancela que se pretende, conforme sólida jurisprudência desse Tribunal». Não considero, entretanto, data venta, acolhível a contestação, na parte em que entende sem motivação a sentença estrangeira homologanda, o que importaria em desrespeito ao direito brasileiro, que não empresta eficácia a esse tipo de decisório (fls. 74). E que, na espécie, a decisão da Corte de Apelação de Antuérpia não se pode ter como desmotivada. Refere-se, por primeiro, à decisão do Presidente da Corte de Primeira Instância, em face de cópia que lhe foi submetida. Após afirmar as razões para tomar ,conhecimento do apelo invóca os, documentos atualmente disponíveis (sic), ou seja: «o acordo 37 realizado pelas partes no dia 21 (vinte e um) de agosto de 1968, com relação ao Contrato de Café Europeu (EEC) e o Artigo 42 deste contrato», para concluir que ((as petições originais submetidas pelo Apelante parecem ser corretas e adequadamente comprovadas». A seguir, a decisão homologanda passa a examinar o pedido, nestes termos: «A Corte, dando seu julgamento após discussão com o Apelante e na ausência do Apelado: Tendo em vista o Artigo 24 da Lei de 15 de junho de 1935; Aceita o apelo superior; Anula a decisão em disputa e faz novo julgamento; Proclama exeqüível contra o Apelado, a sentença arbitrai da Câmara de Arbitragem para Café em Antuérpia, datada de 8 (oito de abril) de 1974, proferida no litígio entre o Apelante e o Apelado. Ao passar o presente julgamento, condena o Apelado em custas do processo nas duas Instâncias, que deixaram de ser calculadas por falta de dados». Ora, essa decisão no nítido caráter homologatório da sentença arbitrai teve em conta, à evidência, o que nesta se continha. Pois bem, está na tradução, de fls. 11/21, o inteiro teor da decisão arbitrai, com ampla discussão da controvérsia e as razões dos árbitros para sentenciar, como lhes aprouve. Todos os elementos que poderiam ensejar a defesa da requerida, na causa, assim como apresentados pela requerente, foram examinados pelo Colégio de Arbitros. De outra parte, não está, nos autos, comprovado o trânsito em julgado da decisão homologanda, exigência que se contém, outrossim, no art. 217, III, primeira parte, do Regimento Interno. Sustenta, no particular, a requerente que cumpre concluir pelo trânsito em julgado da decisão homologanda, tendo em conta a lei belga. A sentença da Corte de Apelação de Antuérpia, tine declarou exe- 38 R.T.J. — 109 EXTRATO DA ATA qüivel a decisão arbitrai em causa, foi comunicada regularmente à reSE 2.912 — Reino da Bélgica — querida, por ato de oficial de justiça Rel.r Néri da Silveira. Reqte.: datado de 2 de abril de 1979, dando- WalterMin. Matter (Adv.: Gustav Lise o prazo de três meses, a contar da vio Toniatti). S.A. Reqdo.: Fenelon Macomunicação, para o recurso, prazo chado S.A. — Exportação e Importaesse aumentado em oitenta dias, em ção (Adv.: José Luiz Clerot). razão da distância, eis que domiciDecisão: Indeferiu-se a homologaliada no Brasil a requerida. E o que está no documento de fls. 113/116, ção, unanimemente. Falaram: pelo cuja tradução não o acompanha. Tal Reqte.: O Dr. Gustav Livio Toniatti, documento firmado por um advoga- e pelo Reqdo. o Dr. José Luiz Clerot. do de Antuérpia (fls. 113/116), J. Van Presidência do Senhor Ministro Den Heuvel, não pode, á evidência, Xavier de Albuquerque. Presentes à substituir a prova oficial do trãnsito Sessão os Senhores Ministros Dl aci em julgado da decisão homologanda. Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira Do exposto, por falta de citação re- Alves, Soares Mturioz, Decio Mirangular da requerida mediante carta da, Rafael Mayer, Néri da Silveira, rogatória, da Justiça belga à do Bra- Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa e Aldir sil, e ainda porque não se comprovou Passarinho. Procurador-Geral da o trânsito em julgado da decisão República Inocêncio Mártires Coe(RI, art. 217, II e III), nego homolo- lho. gação à sentença estrangeira em Brasília, 2 de fevereiro de 1983 — exame. Alberto Veronese Aguiar, Secretário. SENTENÇA ESTRANGEIRA N? 3.228 — ESTADOS UNIDOS DA AMERICA Sr. Ministro Cordeiro Guerra, Presidente. Requerente: Valdeci Fostignone Casalinuovo, em solteira Valdeci Fostignone (Advs.: Clovis Ribeiro e Antonio Carlos Barbosa da Silva); Requerido: Francesco Casalinuovo. Relator: O Sentença estrangeira de divórcio. Homologação concedida, com restrição quanto a bens imóveis situados no Brasil. Vistos Valdeci Fostignoni Casalinuovo, brasileira, naturalizada norte-americana, residente e domiciliada em São Paulo, requereu homologação da sentença de 13 de julho de 1982, pela qual o Tribunal Superior de New Jersey, U.S.A., dissolveu por divórcio absoluto o casamento que em São Caetano do Sul, São Paulo e a 28 de setembro de 1963, contraíra com Francesco Casalinuovo, de nacionalidade italiana. A requerente juntou certidão da sentença homologada, autenticada pelo representante consular do Bra- sil em New York, (fls. 10 v.), bem assim a respectiva tradução feita por tradutor oficial em São Paulo. Comprovou, ainda, o trânsito em julgado da decisão. Infrutífera a citação por Rogatória nos Estados Unidos da América a requerente juntou declaração expressa de seu ex-marido concordando com o pedido de homologação. Ouvido, o Dr. Procurador-Geral da República, no seu parecer de fls. 91/92, assim se pronunciou: R.T.J. — 109 39 «Valdeci Fostignone CasalinuoInobstante a peça homologanda vo, natural de Campinas, Estado cuidar de imóvel situado no Brasil, de São Paulo, naturalizada norteóbice não há à chancela por parte americana, fls. 22 verso, traz à hodessa Augusta Presidência, devenmologação a sentença com que o do a requerente, finda a ação hoTribunal Superior de New Jersey, mologatória, submetê-la a juízo em 1982, dissolveu por divórcio abbrasileiro competente, a fim de soluto o matrimônio que, dezenove que produza os efeitos legais peranos antes, em São Caetano do Sul, tinentes (SE n? 2.883, DJ de 14-5-82, São Paulo, vinculara-a ao ora repág. 4.572 e SE n? 3.290, DJ de 27-9querido, nascido na Itália e natura83, pág. 14.701 ). lizado norte-americano. Pela homologação requerida.» A competência do juízo processante encontra fundamento na nacionalidade das partes quanto ao Isto posto, homologo a sentença de seu domicílio fls. 11, perante ao que se trata com a restrição de não qual estiveram representadas. O guardar eficácia relativamente aos varão ora expressa sua aquiescên- bens situados no Brasil, até decisão cia ao pedido de homologação. do juiz competente. A decisão homologanda é irrecorrIvel, fls. 11, traz a chancela Brasília, 30 de março de 1984 — consular brasileira, fls. 10 verso, e Ministro Cordeiro Guerra, Presidenfoi objeto de tradução autêntica. te. SENTENÇA ESTRANGEIRA N? 9.280 — REPUBLICA ARABE DA SIRIA Relator: O Sr. Ministro Cordeiro Guerra, Presidente. Requerente: Elham Safatli Taha, em solteira Elham Safatli (Adv.: Ramar Oliveira Alencar) — Requerido: Ali Youssef Taha. Sentença estrangeira de divórcio. Presença de cônjuge brasileiro. Adoção do nome de solteira. Vistos. 13/15). Comprovou, ainda, o trânsito Elham Safatli Taha, brasileira re- em julgado da decisão. Finalmente, sidente e domiciliada no Rio de Ja- solicitou a requerente que a decisão neiro, requereu a homologação de homologatória a autorize a voltar a sentença de 23 de agosto de 1972, pe- usar o nome de solteira. la qual, o Tribunal Religioso de Tarpor edital, o requerido não tous, República Arabe da Síria, dis- seCitado manifestou. Por isso, foi-lhe nosolveu por divócio absoluto o casa- meado especial o Dr. Hélio mento que no Rio de Janeiro, a 3 de ProençaCurador Doyle, o qual opinou pelo agosto de 1966, contraíra com Ali deferimento do pedido (fls. 30 /32). Youssef Taha, de nacionalidade Quanto à solicitação para usar o nosíria. me de solteira, assim se manifestou A requerente juntou original da o Dr. Curador: sentença homologada, autenticada pelo representante consular do Bra«Não nos parece cabível, entretanto, nesse processo, seja deferido sil em Damasco (fls. 17), bem assim a respectiva tradução feita por trao que se pede no penúltimo item da dutor oficial no Rio de Janeiro (fls. petição inicial...» 40 R.T.J. — 109 «A mudança de nome não está autorizada na sentença que este Colendo Tribunal ora examina.» Ouvida, a douta Procuradoria-Geral, opinou também pela homologação requerida, assim concluindo seu pronunciamento (fls. 35/36): «Quanto ao pedido da requerente para o uso de seu nome de solteira, esta Procuradoria-Geral da Repú- blica nada tem a opor, tendo em vista o art. 17, « 2?, da Lei n? 6.615/77.» Isto posto, nos termos dos pareceres, homologo a sentença de que se trata. Indefiro, porém, o pedido relativo ao uso do nome de solteira, que deve ser formulado no juizo competente, ratione materiae. Brasília, 30 de março de 1984 — Ministro Cordeiro Guerra, Presidente. REVISÃO CRIMINAL N? 4.702 — SP (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Requerente: José Nilton Francisco da Silva, ou José Nilton da Silva ou José Milton da Silva. Questão de ordem. Competência do Supremo Tribunal Federal para processar e julgar revisão criminal. È competente o Supremo Tribunal Federal para processar e Julgar revisão criminal, quando a condenação tiver sido por ele proferida ou mantida no julgamento de ação penal originária, no recurso criminal ordinário (Regimento Interno, art. 263, caput), ou no recurso extraordinário, com conhecimento do seu mérito. A circunstância de apreciar pedido de habeas-corpus não torna competente o Supremo Tribunal Federal, quando o habeas corpus é de cognição incompleta. Incompetência do Supremo Tribunal Federal. ACÓRDÃO quereu, através da assistência judiVistos, relatados e discutidos estes ciária, revisão criminal, objetivando autos, acordam os Ministros do Su- anular a decisão da Egrégia Terceipremo Tribunal Federal, em sessão ra Câmara do Tribunal de Alçada plenária, na conformidade da ata do Criminal de São Paulo, que o condejulgamento e das notas taquigráfi- nou a cumprir a pena de cinco anos cas, por unanimidade de votos, em e quatro meses de reclusão. Sustenta dar pela incompetência do Supremo que, à época dos fatos, era inimputáTribunal Federal e declarar compe- vel, porque, conforme laudo do Institente o Egrégio Tribunal de Alçada tuto Médico Legal, tinha apenas dezessete anos. Criminal de São Paulo. Brasília, 8 de setembro de 1983 — O Egrégio Terceiro Grupo do TriCordeiro Guerra, Presidente — bunal de Alçada não conheceu do peAlfredo Buzaid, Relator. dido, por entender que é incompetenRELATÓRIO te, pelo que remeteu os autos a esta O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: 1. Corte. O v. acórdão está assim rediJosé Nilton Francisco da Silva re- gido: R.T.J. — 109 «1. No Processo n? 664/76, da douta 3? Vara da Comarca de Santo André, José Nilton Francisco da Silva veio a ser condenado à pena de 5 (cinco) anos e 5 (cinco) meses de reclusão, mais multa de Cri 10,00 (fls. 470/72 dos autos apensos). Apelou, vindo a C. 3? Câmara deste Tribunal a reduzir-lhe as penas para 5 anos e 4 meses e Cri 4,00 (Apelação n? 265.487 — fls. 614/617). Impetrou habeas corpus que foi apreciado pelo C. Supremo Tribunal Federal (cf. fls. 661/662 dos autos principais e fls. 19/25 destes). Ali se afirmou textualmente que «o laudo de verificação de idade de fls. 4 não pode prevalecer sobre a certidão de idade». Ingressa ele em Juizo com pedido revisional, onde volta a sustentar que era menor de 18 anos ao tempo do fato pelo qual condenado, reportando-se ao laudo pericial acolhido em decisões desta Casa (fls. 4/7). A douta Procuradoria de Justiça, custos legis, entende que a R. decisão da Colenda Suprema Corte não implica na incompetência deste Tribunal de Alçada, já que «o indeferimento daquele remédio heróico não estabelece coisa julgada material nem obsta que, sob um regime cognitivo mais amplo, como é o regime dessa via rescisória, o pedido até encontre eventual acolhimento»( fls. 30/31). E a síntese. 2. Não se conhece da revisão. E que a questão a ser revista foi decidida, contra o réu, pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal, que deu pela prevalência do registro de nascimento diante do exame de verificação de idade. Se, embora em sede de habeas corpus, o Colendo Supremo Tribunal Federal afirmou a imputabilidade do réu, possível não é ao Tribunal de Alçada apreciar, em revisão criminal, essa mesma alegação. 41 Não se desconhece que o remédio heróico, fazendo coisa julgada meramente formal, não veda a reapreciação do mesmo tema. Est modus in rebus. O julgamento da revisão criminal por esta Casa seria, em última análise, a submissão de afirmação especifica, para o caso concreto, feita pela Suprema Corte a reapreciação por Juizo, de grau inferior. Inaceitável, data venta, tal inversão hierárquica de Juízos. Assim, não se conhece do pedido e determina-se a remessa dos autos à Colenda Suprema Corte, para que o pedido seja apreciado, se de tal for o caso, nos precisos termos do contido no art. 119, I, m, da Constituição Federal, ou determinado o que for de direito» (fls. 35/37). 2. Ouvida a douta ProcuradoriaGeral da República, em parecer da Dra. Haydevalda Aparecida Sampaio, aprovado pelo eminente Professor Inocêncio Mártires Coelho, assim se manifestou: «1. Trata-se de pedido de revisão criminal do qual não conheceu, por considerar-se incompetente, o Terceiro Grupo de Câmaras do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo, declinando para o Supremo Tribunal Federal. Condenado, por roubo, a cinco (5) anos e cinco (5) meses de reclusão, mais multa de Cr; 10,00 José Nilton Francisco da Silva apelou. O recurso foi parcialmente provido pela 3! Camara do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo, tendo a pena sido reduzida para cinco (5) anos e quatro (4) meses de reclusão e multa de Cr$ 4,00. Inconformado, impetrou habeas corpus que foi apreciado pelo Pretório Excelso, tendo este fir- 42 R.T.J. — 109 mado que o laudo de verificação de certidão de nascimento (v. HC n? idade não pode prevalecer sobre a 48.860-SP, Rel.: Ministro Antonio certidão de idade. Neder, RTJ 58/795; RHC n? 55.715SP, Rel.: Ministro Djaci Falcão, 4. Preceitua o artigo 263 do ReRTJ 84/840). gimento Interno da Suprema Corte, verbis: 7. Além disso, deve-se atentar para o fato de que o próprio reque«Art. 263. Será admitida a rerente foi o declarante no questionavisão, pelo Tribunal, dos procesdo registro de nascimento. sos criminais findos, em que a condenação tiver sido por ele Opinamos, em face do exposto, proferida ou mantida no julgapelo não conhecimento, remetendomento de ação penal originária se os autos ao Tribunal de Alçada ou recurso criminal ordinário; Criminal de São Paulo, competente para o julgamento; caso assim não I — quando a decisão condenase entenda, pelo indeferimento do tória for contrária ao texto expedido» (fls. 42/45). presso da lei penal ou à evidência dos autos; E o relatório. Peço dia para subII — quando a decisão conde- meter ao Pleno a preliminar de comnatória se fundar em depoimen- petência do Supremo Tribunal Fedetos, exames ou documentos com- ral. provadamente falsos; VOTO III — quando, após a decisão condenatória, se descobrirem noO Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Revas provas de inocência do conlator): 1. Antes de mandar processar denado ou de circunstância que determine ou autorize diminuição a presente ação de revisão, entendi que deveria submeter à Corte a especial da pena. questão de sua competência. O EgréParágrafo único. No caso do gio Terceiro Grupo de Câmaras do inciso I, primeira parte, caberá a Tribunal de Alçada Criminal não corevisão, pelo Tribunal, de proces- nheceu da revisão e ordenou a remesso em que a condenação tiver si- sa dos autos ao Supremo Tribunal do por ele proferida ou mantida Federal As razões em que se fundou no julgamento do recurso ex- o v. aresto, para declinar de sua traordinário, se seu fundamento competência, foram as seguintes: coincidir com a questão federal «1. No Processo n? 664/76, da apreciada.» douta 3? Vara da Comarca de San5. Dessa forma, falece competo André, José Nilton Francisco da tência ao Supremo Tribunal FedeSilva veio a ser condenado à pena ralpara apreciar a presente revide 5 (cinco) anos e 5 (cinco) meses são, visto não se tratar de condede reclusão, mais multa de Cl nação por ele proferida ou mantida 10,00 (fls. 470/472 dos autos apenno julgamento de ação penal origisos). Apelou, vindo a C. 3 1 Câmara nária ou recurso criminal ordinádeste Tribunal a reduzir-lhe as perio, bem como por não ter sido nas para 5 anos e 4 meses e Cr$ apreciada em recurso extraordiná4,00 (Apelação n? 265.487 — fls. rio. 614/617). Impetrou habeas corpus que foi apreciado pelo C. Supremo 6. Quanto ao mérito, não assiste razão ao requerente uma vez que Tribunal Federal (cf. fls. 661/662 a prova de menoridade, em nosso dos autos principais e fls. 19/25 processo penal, é feita mediante destes). Ali se afirmou textualmen- R.T.J. — 109 te que «o laudo de verificação de idade de fls. 4 não pode prevalecer sobre a certidão de idade». Ingressa ele em Juízo com pedido revisional, onde volta a sustentar que era menor de 18 anos ao tempo do fato pelo qual condenado, reportando-se ao laudo pericial acolhido em decisões desta Casa (fls. 4/7). A douta Procuradoria de Justiça, custos legis, entende que a R. decisão da Colenda Suprema Corte não implica na incompetência deste Tribunal de Alçada, já que «o indeferimento daquele remédio heróico não estabelece coisa julgada material nem obsta que, sob um regime cognitivo mais amplo, como é o regime dessa via rescisória, o pedido até encontre eventual acolhimento» (fls. 30/31). a síntese. 2. Não se conhece da revisão. que a questão a ser revista foi decidida, contra o réu, pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal que deu pela prevalência do registro de nascimento diante do exame de verificação de idade. Se, embora em sede de habeas corpus, o Colendo Supremo Tribunal Federal afirmou a imputabilidade do réu, possível não é ao Tribunal de Alçada apreciar, em revisão criminal, essa mesma alegação. Não se desconhece que o remédio heróico, fazendo coisa julgada meramente formal, não veda a reapreciação do mesmo tema. Est modos In rebus. julgamento da revisão criminal por esta Casa seria, em última análise, a submissão de afirmação específica, para o caso concreto, feita pela Suprema Corte a reapreciação por Juízo, de grau inferior, Inaceitável, data venta, tal inversão hierárquica de Juízos. 43 Assim, não se conhece do pedido e determina-se a remessa dos autos à Colenda Suprema Corte, para que o pedido seja apreciado, se de tal for o caso, nos precisos termos do contido no art. 119, I, m, da Constituição Federal, ou determinado o que for de direito» (fls. 35/37). José Nilton da Silva ou Nilton Francisco da Silva impetrou ordem de habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal onde recebeu o n? 59.447 e foi julgado em sessão de 18-12-81. O eminente Relator, Ministro Soares Mufioz, proferiu o seguinte voto, acolhido por unanimidade: «De conformidade com o parecer, indefiro a ordem de habeas corpus. Realmente, não há prova de que o paciente fosse inimputável ao tempo do crime. Pelo contrário, o acórdão impugnado, arrimado em certidão, assevera que ele nasceu a 5-2-56, de sorte que à data do crime, 5-2-76, já era maior. O laudo de verificação de idade de fls. 4 não pode prevalecer sobre a certidão de idade. Ante o exposto, indefiro o pedido de habeas corpus» (fls. 24). Segundo dispõe o art. 263 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, «Será admitida a revisão, pelo Tribunal, dos processos criminais findos, em que a condenação tiver sido por ele proferida ou mantida no julgamento de ação penal originária ou recurso criminal ordinário: I — quando a decisão condenatória for contrária ao texto expresso da lei penal ou à evidência dos autos; II — quando a decisão condenatória se fundar em depoimentos, exames ou documentos comprovadamente falsos; 44 R.T.J. — 109 III — quando, após a decisão condenatória, se descobrirem novas provas de inocência do condenado ou de circunstância que determine ou autorize diminuição especial da pena. Parágrafo único. No caso do inciso I, primeira parte, caberá a revisão, pelo Tribunal, de processo em que a condenação tiver sido por ele proferida ou mantida no julgamento de recurso extraordinário, se seu fundamento coincidir com a questão federal apreciada.» 4. Ocorre que o Supremo Tribunal Federal, ao julgar o habeas corpus, não decidiu o mérito, proferindo sentença condenatória. Declarou, apenas, como consta da ementa do v. acórdão, que a inimputabilidade do acusado não está comprovada (fls. 19). Entre duas provas, a do laudo de verificação da idade e a da certidão de nascimento, esta devia prevalecer sobre aquela (fls. 24). O problema das relações entre o habeas corpus julgado nesta Corte e o processo criminal a que respondeu o acusado perante a Justiça do Estado de São Paulo é eminentemente técnico. Trata-se de saber qual a eficácia jurídica da decisão denegatória de habeas corpus. Ora, segundo o ensinamento de Pontes de Miranda: «O sistema jurídico tem toda decisão denegatória de habeas corpus como de incompleta cognição; apesar da sua declaratividade, não produz coisa julgada material» (Pontes de Miranda, História e prática do habeas corpus, 8? ed., Saraiva, 1979, vol. II, pág. 242). Este entendimento é pacífico nesta Corte. Para não cansar os eminentes Ministros com longas citações de arestos, lembrarei como precedentes análogos o v. acórdão da Egrégia Primeira Turma, proferido no Recurso Extraodinário n? 91.196, em 183-80, Relator o eminente Ministro Thompson Flores (RTJ 96/322) e a Revisão Criminal n? 4.580, em 19-5-82, Relator: Ministro Alfredo Buzaid (RTJ 102/490), por onde se vê que, o Supremo Tribunal, tendo indeferido o pedido de habeas corpus ou resolvido o incidente processual, sem enfrentar a questão de mérito, não se torna competente para conhecer de revisão criminal. 5. Aliás, a Constituição da República, no artigo 119, I, m, dispõe que ao Supremo Tribunal Federal compete originariamente processar e julgar as revisões criminais e as ações rescisórias dos seus julgados; o Código de Processo Penal estabelece, por igual, que: «Art. 624. As revisões criminais serão processadas e julgadas: I — pelo Supremo Tribunal quanto às condenações por ele proferidas». Também o Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal considera admissivel a revisão criminal dos processos findos, em que a condenação tiver sido por ele proferida ou mantida no julgamento de ação penal originária ou recurso criminal ordinário (art. 263), ou no julgamento de recurso extraordinário, se o seu fundamento coincidir com a questão federal apreciada (art. 263, § 1?). Para os efeitos de revisão, vale lembrar a lição de José Frederico Marques, segundo o qual «Consideram-se decisões criminais do Supremo Tribunal Federal não só aquelas proferidas em processo de sua competência originária, como ainda os acórdãos de recursos extraordinários ou ordinários. Necessário é, porém, que tenha sido proferida decisão definitiva pelo Supremo, isto é, que tenha Julgado o meritum causae e imposto condenação» (José Frederico Marques, Elementos de direito processual penal, Forense, 1975, vol. IV, pág 339). R.T.J. — 109 Tendo o Supremo Tribunal Federal,Habeas Corpus n? 59.447, declarado que a inimputabilidade não fora comprovada, dai se segue que não proferiu sentença condenatória, porque não apreciou o mérito, senão apenas um incidente. Ante o exposto, dou pela incompetência do Supremo Tribunal Federal, devolvendo-se os autos para o Egrégio Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo. E o meu voto. 45 Decisão: Deu-se pela incompetência do Supremo Tribunal Federal e declarou-se competente o Egrégio Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, unanimemente. EXTRATO DA ATA Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufioz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. RvCr. 4.702-SP — Rel.: Ministro Alfredo Buzaid. Reqte.: José Nilton Francisco da Silva, ou José Nilton da Silva, ou José Milton da Silva. Brasília, 8 de setembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. CONFLITO DE JURISDIÇÃO N? 6.416 — DF (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Suscitante: 2! Junta de Conciliação e Julgamento de Brasília — Suscitado: Tribunal Federal de Recursos — Interessados: Domingos Serafim dos Santos e União Federal. Conflito de Jurisdição. Há decisão do Tribunal Federal de Recursos, com trânsito em Julgado, definindo a competência do foro especilizado para o Julgamento da reclamação. Em conseqüência, não há conflito entre a 2! Junta de Conciliação e Julgamento de Brasília e o Tribunal Federal de Recursos. Conflito não conhecido. ACORDA() RELATORIO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plena, à unanimidade de votos e na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, em não conhecer do conflito. O Sr. Ministro Djaci Falcão: Ofereço como relatório o parecer emitido pela douta Procuradoria-Geral da República, que diz: «Domingos Serafim dos Santos propôs, contra a União Federal, no foro privativo desta, reclamação trabalhista em que alega haver sido admitido pela empresa Clean Master — Limpeza e Conservação Ltda., para prestação de serviços Brasília, 29 de setembro de 1983 — Cordeiro Guerra, Presidente — Djaci Falcão, Relator. 46 R.T.J. — 109 em blocos de apartamentos administrados pelo DASP em Brasília, Capital da República. Demitido da empresa em 28 de janeiro de 1981, reclama o pagamento de parcelas relativas a horas extras, FGTS, adicional noturno e os efeitos patrimoniais das horas extraordinárias sobre férias, 13? salário, aviso prévio e repouso remunerado. Dá notícia o reclamante, ainda, de que ajuizara, anteriormente, a mesma demanda perante a Justiça do Trabalho, tendo o MM. Juiz indeferido o pedido inicial ao fundamento de que a reclamada Clean Master Ltda., era parte manifestamente ilegítima para a causa. O ilustre Juiz Federal, entendendo que a questão de legitimidade mascarava questão subjacente, a relativa à competência do foro, com a qual se confundia, houve por bem suscitar conflito de jurisdição perante o Tribunal Federal de Recursos ( fls. 12). Este, no julgamento do incidente, entendeu competente a MMa. 2? Junta de Conciliação e Julgamento do Distrito Federal (fls. 15), a quem foram os autos remetidos. Ali, o MM. Juiz-Presidente teceu oportunas considerações a respeito dos fatos que antecederam a causa, concluindo por suscitar o presente conflito ( fls. 16). Lembrou S. Exa. que, em decisão com trânsito em julgado, prolatada anteriormente por aquela MMa. Junta, fora extinto o processo por ilegitimidade de parte da reclamada, Clean Master — Limpeza e Conservação Ltda. Ajuizada pelo mesmo interessado nova reclamação, agora contra a União Federal, unicamente em relação a esta deveria ser a lide decidida. Suscitado o conflito, fora ele decidido pelo Tribunal Federal de Recursos, inocorrente entretanto qualquer das hipóteses previstas no art. 115 do CPC, porquanto não declinou o Juiz Federal de sua competência, nem a Junta Trabalhista se dera por incompetente. Resumiu a situação na seguinte alternativa, de um lado, uma ação cuja única ré é a União, sendo portanto a Justiça do Trabalho incompetente para julgá-la; de outro, uma decisão proferida pelo TFR que, dirimindo conflito, reconheceulhe a competência para decidi-la. Como não seria lícito à Justiça do Trabalho julgar causa em que seja parte a União (CF, art. 125, I), restava-lhe considerar a decisão do Tribunal Federal de Recursos como declinatória da sua competência para o foro trabalhista. Daí a presente suscitação que, a nosso ver, não merece conhecida. E que, bem ou mal, houve decisão do Tribunal Federal de Recursos, transitada em julgado, definindo a competência do foro especializado para julgamento da causa. Não seria possível convolar esse julgado, cujos termos são claros e enfáticos (fls. 15), em mera decisão declinatória do foro, desvirtuando-lhe o comando por via de provimento a conflito que não é sucedâneo do recurso cabível Em verdade, a situação caótica a que chegaram estes autos decorreu de equívocos acumulados desde a primitiva reclamação movida contra a Clean Master Ltda., julgada extinta por ilegitimidade de causa, quando, na verdade, ela é a verdadeira empregadora. Isso ficou demonstrado, à saciedade, na sentença do MM. Juiz Federal, ao aludir à existência de Lei Federal, a de n? 5.645, de 10 de dezembro de 1970, cujo artigo 3?, parágrafo único, reza expressamente: R.T.J. — 109 'As atividades relacionadas com transporte, conservação, custódia, operação de elevadores, limpeza e outras assemelhadas serão, de preferência, objeto de execução indireta, mediante contrato, de acordo com o art. 10, 7? do Decreto-lei n? 200, de 25 de fevereiro de 1967'. Por conseguinte, não se poderia, a nosso ver, trancar a ação ao fundamento desabalizado de que a delegação de tarefas vinculadas à Administração caracteriza a prática de atos objetivando desvirtuar os preceitos da legislação trabalhista» (fls. 13). Cometido esse equívoco inicial, outro maior ocorreu, agora de parte do reclamante, que não interpôs o recurso cabível, deixando a sentença de extinção do processo transitar em julgado. Remetidos os autos à Justiça Federal, lembrou-se a conveniência da suscitação do conflito, sem que, como anotou a decisão de fl. 17, se configurassem os pressupostos do art. 115 do CPC, isto é, sem que a Justiça Federal declinasse de sua competência e tivesse a Justiça Especializada se declarado competente. Por último, o eg. Tribunal Federal de Recursos julgou a suscitação, ausente qualquer formalização expressa do incidente pelos Juizos tidos em conflito. Não há, ao ver do Ministério Público, como emendar por melo de julgamento do conflito essa sucessão de equívocos, só reparáveis pelos meios processuais adequados. Nestas condições, ausente o conflito, o parecer é pelo seu não conhecimento. Brasília, 16 de setembro de 1983 — Walter José de Medeiros, Procurador da República. Aprovo: Ino- 47 cêncio Mártires Coelho, Procurador-Geral da República» (fls. 22/26). VOTO O Sr. Ministro Djaci Falcão (Relator): Domingos Serafim dos Santos, vigia, propôs reclamação trabalhista contra a União, embora firmando não ter contrato de trabalho com esta, mas com a Clean Master — Limpeza e Conservação Ltda. Esclareceu que anteriormente ajuizara reclamação contra a empresa privada — Clean Master Ltda., perante a 2! Junta de Conciliação e Julgamento de Brasília, sendo indeferida a inicial por manifesta ilegitimidade da reclamada, declarando-se extinto o processo (art. 295, Inc. II e 267, I e VI do CPC). O Juiz Federal da 2? Vara do Distrito Federal suscitou, perante o Tribunal Federal de Recursos, conflito negativo de jurisdição (fls. 12/14), sustentando a competência da 2! Junta de Conciliação e Julgamento do Distrito Federal (fls. 12/13). O egrégio Tribunal Federal de Recursos apreciando o conflito, deu pela competência do juizo suscitado, ou seja, a 29 Junta de Conciliação e Julgamento do Distrito Federal (fls. 15). Encaminhados os autos à mencionada Junta, esta suscitou o presente condito, sustentanto que sendo ré a União, incompetente era a Justiça do Trabalho para julgar a reclamação (art. 125, I, da CF). Devendo a decisão do TFR ser considerada como declinatória da sua competência para o foro trabalhista. Não há dúvida de que há uma decisão do TFR, definindo a competência do foro especializado para o julgamento da reclamação, que transitou em julgado. Certa ou errada está de pé esta decisão. 48 R.T.J. - 109 Decisão: Não conhecido, unanimemente. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufloz, Dedo Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Alfredo Buzaid. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 29 de setembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. Conforme bem acentuou o parecer não há conflito a ser dirimido pelo Supremo Tribunal Federal. Não conheço do conflito. EXTRATO DA ATA CJ 6.416-DF — Rel.: Ministro Djaci Falcão. Suste.: 2? Junta de Conciliação e Julgamento de Brasília. Susdo.: Tribunal Federal de Recursos. Interessados.: Domingos Serafim dos Santos (Adv.: Josué José Nogueira) e União Federal MANDADO DE SEGURANÇA N? 20.395 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves. Impetrante: Carlos David Santos Aarão Reis — Autoridades Coatoras: Presidente da República — Tribunal Federal de Recursos. Mandado de Segurança. Disponibilidade de Magistrado. Artigos 113, I} 2?, e 27, respectivamente, da Constituição Federal e da Lei Complementar rt? 35/79. Sendo a colocação em disponibilidade ato complexo que se perfaz com a declaração, por decreto, do Presidente da República (artigo 27, 4 8?, da Lei Complementar n? 35/79), conhece-se do mandado de segurança contra essa autoridade. Para estar fundamentada a decisão que coloca magistrado em disponibilidade por interesse público, basta que se funde — e a ele, portanto, se refira — em inquérito que apurou os fatos, e do qual a conclusão é submetida a julgamento, em escrutínio secreto O mesmo ocorre quanto à decisão preliminar de instauração do inquérito, tendo em vista sua natureza e o procedimento estabelecido na parte final do 2? do artigo 27 da Lel Complementar n? 35/79, dispensada, até, a publicação de sua conclusão. Mandado de segurança conhecido no que diz respeito ao ato do Sr. Presidente da República, mas indeferido. ACORDA() Brasília, 28 de setembro de 1983 Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Su- premo Tribunal Federal, em sessão plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráfi- cas, por maioria de votos, indeferir a segurança. Cordeiro Guerra, Presidente — Moreira Alves, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Moreira Alves: Carlos David Santos Aarão Reis impetra mandado de segurança contra o Sr. R.T.J. — 109 Presidente da República e o Tribunal Federal de Recursos, alegando que foi colocado em disponibilidade por ato do Chefe do Poder Executivo em decorrência de decisão daquele Tribunal, decisão essa que é nula por falta de fundamentação. A propósito, acentua na inicial: «Consoante se pode verificar do processo instaurado, cuja requisição se irá postular a final, o impetrante ofereceu, no momento oportuno, defesa prévia, onde refutou, uma a uma, com veemência, todas as imputações que lhe foram feitas. O Tribunal Federal de Recursos, porém, decidiu pela instauração do processo, sem apresentar, para tanto, qualquer motivação. Mais grave, ainda, o impetrante ofereceu, no curso da instrução, elementos de convicção de enorme consistência, que demonstraram a veracidade dos fatos argüidos em sua defesa e a absoluta improcedência das acusações contra si dirigidas. A decisão que concluiu pelo seu afastamento, igualmente, não contém qualquer fundamento, o que faz com que se possa presumir que todos os elementos apresentados pelo impetrante, em sua defesa, foram ignorados e desprezados» ( fls. 4/5). Em seguida, salienta que toda decisão necessita de ser fundamentada; que, no caso presente, não há motivação, nem da instauração do processo, muito menos do julgamento; que, em face de certidão fornecida pelo Tribunal Federal de Recursos, a fundamentação consistiria nos relatórios, o que é errôneo; que o primeiro relatório não é qualquer relatório, mas apenas a peça de acusação elaborada pelo Conselho de Justiça Federal, e, se ele serviu de fundamento para a instauração do processo, isso implica dizer que a defesa prévia não foi levada em conside- 49 ração; e que o fato de ser secreta a sessão, como secreto é o escrutínio, não desobriga o Tribunal de fundamentar tais decisões. Por fim, pede o impetrante que «seja julgado procedente o pedido, para que, declarada a nulidade do processo instaurado, volte o impetrante ao exercício de suas funções judicantes na 3? Vara-II da Seção Judiciária da Justiça Federal no Estado do Rio de Janeiro» (fls. 10). O presente mandado de segurança foi distribuído ao Sr. Ministro Néri da Silveira, que afirmou seu impedimento, razão por que foi ele redistribuído a mim. Requisitados os autos do processo de disponibilidade e solicitadas informações, foram elas apresentadas pelos Srs. Presidente da República e Presidente do Tribunal Federal de Recursos. As do Sr. Presidente da República, depois de historiarem os fatos, salientam: «Insurge o impetrante contra o processo administrativo argüindo a sua nulidade pelo desconhecimento das decisões dos Ministros do Tribunal Federal de Recursos e por não haver motivação para a instauração do processo, assim como para o julgamento. Ora, todas as peças instrutórias que originaram a sindicância, assim como as formalidades preliminares à formação do processo, foram devidamente observadas. A Lei Orgânica da Magistratura Nacional disciplina no Título III, Capítulo I, arts. 35 e 36 os deveres e as proibições do magistrado. Ao encaminhar o Projeto de Lei Complementar n? 183/78, que sancionado veio a constituir-se na Lei Complementar n? 35/79, que dispõe sobre a Lei Orgânica da Magistratura, o Exm? Sr.'Ministro da Justi- 50 R.T.J. — 109 ça na Exposição de Motivos n? 185/78, ao referir-se sobre a disciplina judiciária realça nos parágrafos 6, 9 e 10 o seguinte: 6. «Estamos convencidos, também, que a criação de instrumentos eficazes, à disposição do próprio Poder Judiciário, para a necessária pronta correição de irregularidades perpetradas por membros do Poder Judiciário, bem como para a exigência das responsabilidades funcionais, do cumprimento dos deveres do cargo, como correspondência aos direitos e prerrogativas, constitui, de sua parte, sinal inequívoco de prestígio à nobre classe dos magistrados, notadamente, àqueles integrantes dos Tribunais, responsáveis, portanto, pelo bom funcionamento dos graus inferiores da Jurisdição. 9. Ao Conselho Nacional da Magistratura cabe conhecer de reclamações contra membros de Tribunais, podendo avocar processos disciplinares contra juizes de primeira instância e, em qualquer caso, determinar a disponibilidade ou a aposentadoria de uns e outros, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Salvo tal faculdade de avocar, o Conselho não interfere na competência disciplinar dos Tribunais. O Projeto dispõe, ainda, sobre o procedimento da reclamação formulada perante o Conselho, bem como o da avocação de processo disciplinar contra juiz do grau inferior da jurisdição. Estabelece, também, que o processo e o julgamento das representações e reclamações serão sigilosos, para resguardar a dignidade do magistrado, sem prejuizo de poder o relator delegar a instrução a juiz de posição funcional igual ou superior à do indiciado, assegurando-lhe o direito de defesa na reclamação ou na representação. As decisões serão 'recorríveis. O diploma legal proposto determina os casos de aposentadoria compulsória e de disponibilidade, a serem aplicados pelo Conselho Nacional, bem como estabelece norma para a hipótese da existência de crime de ação pública, a fim de que, sem demora, se proceda ao oferecimento da denúncia ou à instauração de inquérito policial, conforme o caso. 10. Outro ponto a realçar no Projeto consiste no sistema de penas disciplinares, suscetíveis de aplicação aos magistrados, pelos órgãos superiores da Magistratura, salientando-se a disciplina do procedimento para a decretação da perda de cargo. Na esteira da Constituição, o texto projetado arrola os casos em que o magistrado perderá o cargo, o que somente pode ocorrer através de sentença judiciária». Assim sendo, o Projeto estabelece que o Magistrado perderá o cargo por força de sentença, proferida em ação penal por crime comum ou de responsabilidade ou de sentença, proferida em ação penal por crime comum ou de responsabilidade, ou de sentença, em processo para a decretação de perda ao cargo, nos casos que arrola, entre os quais, de par com os previstos no art. 114 da Lei, se inscrevem o da desídia grave no desempenho dos deveres funcionais e o de comportamento incompatível com a dignidade, a honra e o decoro das funções judicantes. Na verdade, para estes casos, o Projeto prevê a pena disciplinar da demissão, a qual pode impor-se pelo Tribunal a que pertença ou esteja subordinado o magistrado, observadas as normas procedimentais para a R.T.J. — 109 decretação da perda do cargo prescritas no Projeto. De outra parte, desenvolve o Projeto de Mandamentos constitucionais que autorizam a aposentadoria e a disponibilidade do magistrado, sanções, estas, aplicáveis, não só pelos Tribunais, nos termos da Constituição, mas também pelo Conselho Nacional da Magistratura». Para o presente processo administrativo pela lisura e imparcialidade demonstrados pelos membros do Conselho da Justiça Federal que propiciaram ao acusado, em todas as fases do inquérito, o exercício do direito de defesa, na forma assegurada pela Constituição. No que tange á apuração da falta para a necessária punição, e até mesmo para a possível absolvição do indiciado, os únicos procedimentos admitidos em lei são a sindicai-leia e o processo administrativo disciplinar. A ordem jurídica se afirma pelo cumprimento das leis. A sua inobservância acarreta a injustiça, a arbitrariedade, a truculência e faz surgir o caos social e a corrupção que constituem o marco inicial para a subversão dos costumes. Firmado na lei o Poder Público pune os cidadãos que cometem delitos ou adotam comportamentos antijuridicos. E é na forma da lei que a administração instaura o processo administrativo que, em geral decorre: de irregularidade constatada por funcionário e levada ao conhecimento de autoridade superior (art. 194 da Lei n? 1.711/52), de resultado de sindicância: 3. de ciência de irregularidade por qualquer autoridade (art. 217 da Lei n? 1.711/52); 51 4. de denúncia. Aplica-se aos juizes federais a Lei n? 1.711/52, por remessa ao art. 52 da Lei n? 5.010/66. Para a abertura do inquérito administrativo em tela, houve o preenchimento de todos os pressupostos exigidos em lei. A denúncia de irregularidades ocorridas formalizou-se através do Telex n? 406, de 31 de agosto de 1982, enviado ao Presidente do Conselho da Justiça Federal pelo Juiz Diretor do Foro da 3! Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro, comunicando que o Doutor Carlos David Santos Aarão Reis, daquela Vara II, mandara afixar, na porta da Secretaria, cópia de sentença azarada no Processo n? 2.615.010, decidindo suspender todas audiências e demais atos processuais de seu oficio, encerrando suas atividades judicantes. Informou o MM Juiz: «Tal fato de desagradável repercussão foi documentado pela TV Globo que transmitiu ontem, dia 30, no Jornal Nacional, com grande destaque a noticia com nuances alarmistas e que não correspondem à verdade dos fatos. Os jornais de hoje que remeterei pelo malote dão as mesmas noticias que Conforme se depreende das peças constantes dos autos e, tendo em vista o Relatório de fls. 51/57, o art. 27 e parágrafos da Lei Complementar n? 35/79, foram fielmente cumpridos: a instauração do processo administrativo foi precedida de defesa prévia durante a sindicância — 1?; o Tribunal, pelo seu Plenário, determinou o afastamento do Magistrado do exercício de suas fun- 52 R.T.J. — 109 ções, sem prejuízo dos vencimentos e vantagens, até decisão final — § 3?; foram produzidas provas nos prazos consignados, cientificado o Ministério Público e o magistrado acusado, sendo que seu procurador requereu provas na petição incial, voltando a peticionar a fim de solicitar a substituição de testemunhas — § 4?; finda a instrução do processo administrativo foi aberta vista dos autos ao Ministério Público e ao acusado — § 5?; e) terminados os trabalhos relativos ao processo administrativo, o assunto foi submetido ao julgamento do Plenário, que, em sessão secreta de 29 de novembro de 1982, nos termos do art. 320, § 6? do Regimento Interno, proferiu decisão referente à disponibilidade do acusado no seguinte teor: «O Tribunal, por unanimidade, rejeitou as preliminares de impedimento dos membros do Conselho da Justiça Federal, a de falta de fundamentação na instauração do Processo, a de cerceamento de defesa (vista dos autos exclusivamente no Foro Federal), a de certidão requerida estar incompleta (processos conclusos aos membros do Tribunal) e a de irrelevancia dos fatos não constantes da acusação e, relativamente, a da posição indevida do Ministério Público no processo, esta rejeitada por maioria, contra 1 (um)) voto; finalmente, com a abstenção do Sr. Ministro Américo Luz, foi rejeitada, unanimemente, a preliminar de impedimento de sua Excelência. No mérito, o Tribunal, por 20 (vinte) votos contra 3 (três) e 1 (um) em branco, decidiu determinar seja posto em disponibilidade, com vencimentos proporcionais, o Juiz Federal Doutor Carlos Da- vid Santos Aarão Reis, em exercício na 3? Vara da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro. Participaram do julgamento os Exmos. Srs. Ministros Jarbas Nobre, Presidente, Armando Rolemberg, Moacir Catunda, José Dantas, Lauro Leitão, Carlos Madeira Gueiros Leite, Washington Bolívar, Torreão Braz, Carlos Mário Velloso, Otto Rocha, Wilson Gonçalves, William Patterson, Bueno de Souza, Pereira de Paiva, Sebastião Reis, Miguel Jerônymo Ferrante, José Cândido, Pedro Acioli, Américo Luz, Antônio de Pádua Ribeiro, Flaquer Scartezzini e Leitão Krieger. Não participou do julgamento, por motivo justificado, o Sr. Ministro Adhemar Raymundo. Tribunal Federal de Recursos, 25 de novembro de 1982». IV — Impropriedade do Mandado de Segurança contra ato disciplinar — Competência da autoridade punitiva e observância das formalidades legais. A Lei n? 1.533, de 21 de dezembro de 1951, dispõe, verbis: «Art. 1? Conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito liquido e certo não amparado por habeas corpus, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, alguém sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade, seja de que categoria for ou sejam quais forem as funções que exerça. Art. 5? Não se dará mandado de segurança quando se tratar: III — de ato disciplinar quando praticado por autoridade incompetente ou com inobservância de formalidade essencial». Exclui-se expressamente do âmbito do mandado de segurança o ato R.T.J. — 109 disciplinar, isto é, aquele que deflui do poder hierárquico da Administração para a punição das faltas ilicitudes de seus servidores desde que praticado nos limites da competência corretiva do superior em observância das formalidades exigidas para a imposição da penalidade. Ensejaria a segurança, a disponibilidade em causa, se a autoridade julgadora fosse incompetente para a punição, ou agisse com preterição das exigências formais necessárias ao processo disciplinar, ou negasse defesa ao indiciado. Ressalta-se que é inquestionável a impossibilidade da impetração do mandamus com a alegação da incompetência da autoridade punitiva e da inobservância das formalidades essenciais que envolveram processo administrativo, visando à anulação da medida imposta, de vez que: a) a disponiblidade com vencimentos proporcionais é uma pena disciplinar, ex vi, dos arts. 28, 42, IV, e 45, II, da Lei Complementar n? 35/79, in verbis: «Art. 28. O magistrado vitalício poderá ser compulsoriamente aposentado ou posto em disponibilidade, nos termos da Constituição e da presente Lei Art 42 São penas disciplinares: IV — disponibilidade com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Art. 45. O Tribunal ou seu órgão especial poderá determinar, por motivo de interesse público, em escrutínio secreto e pelo voto de dois terços de seus membros efetivos: 53 II — a disponibilidade de membro do próprio Tribunal ou de Juiz de Instância inferior, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. o Plenário do Tribunal Federal de Recursos, obedecidas as normas de procedimento insitas. nos arts. 328 e 330, do Regimento Interno, decidiu, em sessão secreta, de 23 de setembro de 1982, por unanimidade de votos, instaurar processo administrativo, com fins de colocar em disponibilidade juiz federal. E, em sessão secreta realizada no dia 25 de novembro de 1982, decidiu colocar em disponibilidade, com vencimentos proporcionais o indiciado; a exigência do sigilo aplicar-se tanto ao julgamento que deverá se realizar em sessão secreta e que decidirá pela penalização, quanto á votação efetuada pelos membros do colegiado, em escrutínio também secreto, filexistindo dispositivo legal que autorize a dispensa do sigilo para as razões do voto, em julgamento de processo administrativo disciplinar. Mesmo por que, ao serem conhecidas as razões do voto, poder-se-á distinguir o estilo do votante, cessando, ai, o segredo do voto e ocorrendo a quebra do sigilo. Dispõe § 6? do art. 328 do Regimento Interno do TFR: «O julgamento será realizado em sessão secreta do Tribunal e a decisão no sentido da penalização do magistrado só será tomada pelo voto de dois terços dos membros do colegiado em escrutínio secreto» (o grifo não é do original). Assim, tendo sido o ato disciplinar — disponibilidade com vencimentos proporcionais — determi- 54 R.T.J. — 109 nado pelo Plenário do Tribunal Federal de Recursos ( autoridade competente), em escrutínio secreto e pelo voto de dois terços de seus membros efetivos, tendo sido assegurada ao impetrante a garantia constitucional de ampla defesa, com arrimo no apurado pelo processo administrativo, efetuado nos termos da lei, não comporta, no caso em exame, mandado de segurança visando a anular o processo e, conseqüentemente, a pena imposta. Como afirma o próprio impetrante, foi instaurado processo administrativo para averiguar a denúncia contra sua pessoa. Portanto, a Administração cumpriu sua obrigação, como bem afirma Egberto Maia Luz: «Não pode, absolutamente, o Estado se omitir na apuração de qualquer falta funcional, pois isto, se ocorresse, seria seriamente comprometedor a tal ponto que poderia ser considerada a conivência delituosa, ou então a responsabilidade, genérica ou especifica de quem assim procedesse. O Estado não somente pode, como, principalmente, deve apurar qualquer irregularidade decorrente do mau exercício das funções que, obediente à ordem jurídica, fundamentalmente estabelecida para o exercício do seu direito e reconhecimento e garantia de outros, adotar normas e princípios que não discrepem dos universalmente adotados no sentido da apuração de um ilícito, da fixação de uma responsabilidade e, finalmente, da cominação da pena, indo, até, a execução desta, rigidamente contida no âmbito da sua competência » (In Direito Administrativo Disci- plinar — Teoria e Prática — José Bushatsky, Editor — 1977 — pág. 63). O ato punitivo foi precedido de todas as formalidades legais — sindicância regular, processo administrativo por autoridade competente, defesa ampla, enquadrandose, perfeitamente, na definição do mestre José Cretella Júnior. «Ato administrativo perfeito é aquele que, tendo completado o ciclo de sua formação, contém todos os elementos de procedimento e forma exigidas por lei.» (In Curso de Direito Administrativo. 5? Edição — 1976. Editora Forense — pág. 316). «V — Conclusão Nestas condições, tendo sido demonstrada a inexistência de irregularidade no processo administrativo, ou o cerceamento de defesa do acusado, ensejadores da sua nulidade e incorrendo, na espécie, qualquer vicio a macular a votação proferida pelos insignes Ministros do Tribunal Federal de Recursos, decidindo pela aplicação da pena disciplinar de disponibilidade com vencimentos proporcionais ao Juiz Federal Carlos David Santos Aarão Reis, consubstanciada através de decreto presidencial, acredita-se, e assim se espera, que o Egrégio Supremo Tribunal Federal negue provimento à impetração». A fls. 81/85, encontram-se as informações do Sr. Presidente do Tribunal Federal de Recursos, nas quais se lê: «I—O Pedido Carlos David Santos Aarão Reis, Juiz Federal em disponibilidade, impetra mandado de segurança contra ato complexo praticado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e pelo Tribunal Fede- R.T.J. — 109 ral de Recursos que colocou em disponibilidade o mencionado magistrado, conforme decreto de 2112-1982, publicado no DOU de 22-1282, baixado com base no procedimento próprio (Constituição art. 113, 3?, Lei Complementar n? 35, de 1979, artigos 28, 45, II, parágrafo único, e 46; RITFR, artigos 329, 330 e 328). O impetrante, que era Julz Federal Substituto, por força do disposto na EC n? 7, de 1977, teve o seu cargo transformado no de Juiz Federal. Diz ele que, «em 23 de setembro de 1982, por iniciativa do Conselho da Justiça Federal, resolveu o Tribunal Federal de Recursos, sem o menor fundamento, instaurar processo para fins de disponibilidade», após o que o Tribunal, em sessão de 25 de novembro de 1982, decidiu pela disponibilidade do impetrante. Sustenta o requerente que é nulo o processo, por ausência de fundamentação das decisões proferidas. Afirmando que «toda e qualquer decisão humana precisa ser fundamentada, motivada, pois o inverso seria arbitrário, no sentido mais absoluto da palavra», sustenta o impetrante que, «se o Tribunal Federal de Recursos adotou como fundamento de instauração do processo aquela peça (a representação do Conselho da Justiça Federal), sequer considerou as razões da defesa prévia do impetrante.» Argumenta que o sigilo não inibe o dever de motivar a decisão e, «carecendo a instauração do processo e o julgamento, pelo qual o impetrante foi colocado em disponibilidade, de qualquer motivação, são totalmente inválidos, produzindo a invalidade de todo o processo, ab intuo. Por isso, «pede seja julgado procedente o pedido, para que, declarada a nulidade do processo instaurado, volte o impetrante ao 55 exercido de suas funções judicantes na 3? Vara — II da Seção Judiciária da Justiça Federal, no Estado do Rio de Janeiro.» II — Os Fatos O Conselho da Justiça Federal, diante de exposição apresentada pelo Sr. Ministro Corregedor-Geral da Justiça Federal em correição geral extraordinária levada a efeito no juizo do Dr. Carlos David Santos Aarão Reis, decidiu, «com apoio no art. 4?, itens III e XX, do seu Regimento Interno,. expedir os atos necessários á normalização dos serviços forenses na referida Vara.» «Deliberou, ainda, instaurar sindicância junto a essa Vara, com o objetivo de apurar a razão do retardamento dos julgamentos dos processos enumerados na exposição do Exmo. Sr. Ministro Corregedor-Geral.» Diante não só do apurado na sindica/leia, como, também, na correição geral extraordinária instaurada na 3? Vara do Rio de Janeiro, tendo para lá se deslocado, para realizá-la, o Sr. Ministro Corregedor-Geral, decidiu o Conselho da Justiça Federal — órgão do Tribunal incumbido de presidir a administração da Justiça Federal da 1? Instância (Lei n? 5.010/66, artigos 4? e segs.; RITFR, artigo 45) — que fatos e circunstâncias desaconselhavam a permanência, em exercido, do impetrante. Por isso resolveu encaminhá-los à apreciação do Plenário do TFR, «para que seja posto em disponibilidade, nos termos do art. 113, * 3?, da Constituição, combinado com os artigos 28, 42, IV, e 45, II, da Lei Complementar ri? 35, de 14 de março de 1979, obedecidas as normas de procedimento previstas no art. 328, c/c o art. 330, do Regimento Interno do Tribunal». O volume I do PA n? 001/82 contém cópia integral da deliberação 56 R.T.J. — 109 do Conselho da Justiça Federal, em que são analisados os fatos e circunstâncias mencionados, com vasta documentação, além do relatório do Sr. Ministro CorregedorGeral (PA n? 001, fls. 2/31 e 52/85). O Tribunal, reunido em sessão secreta (RITFR, artigo 328, § 1?), resolveu submeter a representação, com todos os documentos ao Juiz Aarão Reis, para que este apresentasse a defesa prévia mencionada no § 1? do art. 328 do RITFR. Após, decidiu o Tribunal pela instauração do processo (RITFR, art. 328, § 2?), acolhendo, assim, a exposição que lhe dirigiu o Conselho da Justiça Federal. Na mesma Sessão, foi designado o Sr. Ministro William Patterson para funcionar como relator do procedimento administrativo, tendo S. Exa. dado início aos trabalhos deste (PA n? 001, fls. 400 e segs.). No procedimento administrativo, ensejou-se ao magistrado a mais ampla defesa (PA n? 001, 3? vol., fls. 438 e segs.). Ao cabo, o Sr. Ministro William Patterson, Relator, apresentou circunstanciado relatório (PA n? 001, 3? vol., fls. 679/685) á consideração do Plenário, que, em sessão secreta (Lei Complementar n? 35/79, artigo 27, § 6?, RITFR, art. 328, § 6? ), decidiu determinar a disponibilidade do impetrante, com vencimentos proporcionais, publicando-se, apenas, a conclusão do julgamento (Lei Complementar n? 35/79, art. 27, § 7?; RITFR, art. 328, § 7?), tudo conforme se pode ver do PA n? 001, 3? vol., fls. 686). Assim os fatos. De sua apreciação, força é concluir que o Conselho da Justiça Federal deu os motivos por que entendeu que o impetrante deveria ser posto em disponibilidade. O Tribunal, pelo voto de mais de dois terços de seus membros, em escrutínio secreto, como manda a Constituição (CF art. 113, § 3? ), acolheu os motivos apresentados pelo Conselho. Acolhendo ditos motivos, está evidente que o ato está motivado. E mais não poderia o Tribunal fazer, porque a Constituição — manda que a votação se faça em escrutínio secreto (art. 113, § 3?). Ora, votando o Ministro em escrutínio secreto, poderá, apenas, acolher ou recusar a representação que contém os motivos, nada mais. Se o Ministro desse voto fundamentado, no julgamento mencionado no § 3? do art. 113, da Constituição, estaria o dito julgamento nulo, porque, repete-se, a Constituição exige votação em escrutínio secreto, tal como acontece no julgamento pelo Júri. III — O Direito Da análise dos autos da sindicãncia, PA n? 002 da Corregedoria-Geral da Justiça Federal ( algumas peças seguem por cópia, como amostragem), e dos autos PA n? 001, do TFR ( anexos), verifica-se a situação caótica reinante na Vara de que era titular o impetrante; este, ao que sé concluíra naqueles procedimentos, manifestara-se desvocacionado para a Magistratura, tal a instabilidade emocional, desorganização administrativa, escassa produtividade e indisciplina judiciária, reveladas a teor dos fatos ali apurados, culminados na abusiva determinação de fechamento da Vara, com grande estardalhaço na imprensa, ao argumento de inexistir servidores a sua disposição, quando a realidade era bem outra. Tenha-se em conta, de outro lado, que o julgamento do art. 113, § 3?, da Constituição, apoia-se na conveniência administrativa, com vistas ao interesse público. E, não R.T.J. —109 custa repetir, porque o julgamento se dá em escrutínio secreto mais não pode o membro do Tribunal fazer senão acolher ou recusar a representação motivada, então recusando ou acolhendo a defesa do magistrado. E foi assim rigorosamente na forma da disposição constitucional, que procedeu o TFR, quando determinou a disponibilidade do impetrante. IV — Conclusão Em suma, considerados os fatos — como foram fartamente comprovados em procedimentos atentos à mais ampla defesa do Indiciado — vê-se que o Tribunal agiu em completa harmonia com o comando assecuratório do interesse público, valor em nome do qual se Impunha o dever de coibir a irregular conduta do magistrado ora Impetrante. Dai não existir, no caso, direito líquido e certo a ser protegido, pelo que deve a impetração ser denegada. Aproveito a oportunidade para reiterar a Vossa Excelência, Senhor Ministro Relator, os meus protestos de elevada estima e consideração. Aberta vista à Procuradoria-Geral da República, manifestou-se, por ela, o Dr. Mauro Leite Soares, em parecer cujos termos são estes (fls. 88/103): «1. Inicialmente é de anotar que o mandado de segurança não é de ser conhecido com relação ao Tribunal Federal de Recursos, por não estarem os atos do mesmo sujeitos ao controle do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 119, I, letra i, da Constituição. 2. Tal fato, no entanto, não implica no não conhecimento de toda a matéria versada na impetração, bem como no processo administrativo que redundou no ato praticado 57 pelo Senhor Presidente da República, pois que, ato complexo ou vinculado, o seu controle judicial se dá de cima para baixo, obrigando todas as autoridades participantes à observância da sua legalidade, isto é, dos requisitos legais para a sua prática. Alega o Impetrante, fls. 4, verbis, «nulidade absoluta do processo por ausência de fundamentação das decisões proferidas», e, assim, se nos é permitido inferir, cerceamento de defesa. Declara-se no art. 113, III, 3? da Constituição: «O Tribunal competente, ou o órgão especial previsto no art. 144, V, poderá determinar, por motivo de interesse público, em escrutínio secreto e pelo voto de dois terços de seus membros efetivos, a remoção ou a disponibilidade do juiz de categoria inferior, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço, assegurando-lhe defesa, e proceder da mesma forma, em relação a seus próprios juizes». 5. Por seu turno, declara-se na Lei Orgânica da Magistratura Nacional: 27. O julgamento será realizado em sessão secreta do Tribunal ou de seu Orgão Especial, depois de relatório oral, e a decisão no sentido da penalização do magistrado só será tomada pelo voto de dois terços dos membros do colegiado, em escrutínio secreto. Da decisão publicar-se-á somente a conclusão. § 8? Se a decisão concluir pela perda do cargo, será comunicada, imediatamente, ao Poder Executivo, para a formalização do ato. «Art. 28. O magistrado vitalício poderá ser compulsoria«Art. 58 R.T.J. — 109 mente aposentado ou posto em disponibilidade, nos termos da Constituição e da presente lei». Portanto, a sessão de julgamento é secreta, bem como a decisão é tomada em escrutínio secreto. No entender do Impetrante, porém, tais fatos não ensejam ou propiciam o desconhecimento da fundamentação da decisão ou da motiviação do ato impugnado de sua penalização. 8. Parece-nos aplicável ao caso em exame, por analogia, a denominada «teoria dos motivos determinados», segundo o ensinamento de Hely Lopes Meirelles, Direito Administrativo Brasileiro, 9? edição, pág. 151: «A teoria dos motivos determinantes funda-se na consideração de que os atos administrativos, quando tiverem sua prática motivada, ficam vinculados aos motivos expostos, para todos os efeitos jurídicos. Tais motivos é que determinam e justificam a realização do ato, e, por isso mesmo, deve haver perfeita correspondência entre eles e a realidade. Mesmo os atos discricionários, se forem motivados, ficam vinculados a esses motivos como causa determinante de seu cometimento e sujeitam-se ao confronto da existência e legitimidade dos motivos indicados. Havendo desconformidade entre os motivos determinantes e a realidade, o ato é inválido». No caso concreto os motivos estão expostos no relatório dos autos anexados e que se encontra por cópia às fls. 19/55 destes autos. Permitimo-nos pequeno excerto do mesmo, fls. 21: «Efetivamente, o Dr. Carlos David Santos Aarão Reis vem demonstrando inadaptação para a Magistratura desde seu ingresso na Justiça Federal, manifestando instabilidade emocional, desorganização administrativa, escassa produtividade e indisciplina judiciária A escassa produtividade alia o excesso injustificado dos prazos para sentenciar ou despachar, que os inúmeros pedidos de correição parcial têm evidenciado, através dos anos, prejudicando, sensivelmente, o regular funcionamento da 3? Vara-H, da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro, causando às partes incontáveis prejuízos e desprestígios para a Justiça Federal A indisciplina judiciária do mencionado juiz se patenteia na infringência a deveres do Magistrado, no descumprimento ostensivo de determinações legais, na recusa em acatar os pedidos de informações do Conselho da Justiça Federal ou do órgão corregedor e na linguagem imprópria ou claramente desrespeitosa com que se dirige ao Tribunal e seus Ministros, bem como aos seus colegas Magistrados e às autoridades constituídas do Pais. A Lei Complementar n? 35, de 1979 (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), ao tratar da Disciplina Judiciária, estabeleceu os deveres do Magistrado (Tít. III, Cap. I), como os previstos no art. 35, incisos II, III e IV e no art. 39, aos quais o Dr. Carlos David Santos Aarão Reis não tem guardado obediência, o mesmo ocorrendo quanto ao preceituado nos itens III, IV e VIII, do art. 13, da Lei n? 5.010, de 1966». Tais motivos são complementados à fls. 23: «Tendo em vista a sistemática impontualidade do referido Ma- R.T.J. — 109 gistrado, não é de estranhar que os processos não tenham regular andamento, acumulando-se. Com efeito, não obstante as determinações legais (Lei Complementar ri? 35/79, art. 35, VI e Lei n? 5.010/66, art. 32), costuma comparecer ao Forum por volta das dezesseis e trinta horas, à exceção das sextas-feiras, em que nem comparece. As audiências, realizadas às terças e quintas-feiras, também se iniciam naquele horário, com prejuízo sensível para as partes, testemunhas, membros do Ministério Público, advogados e funcionários». Diz o Impetrante que o relatório não é fundamentação, motivação. Ora sendo secreto o julgamento, tanto quanto o escrutínio, a votação, não poderia mesmo o Tribunal Federal de Recursos personalizar e individualizar a decisão, senão que, somente e numericamente, declarar o acolhimento do processo instaurado para fins de disponibilidade do Impetrante, nos termos das peças que o informaram. Trata-se, no caso, de ato vinculado, isto é, a decisão em questão subordinou-se aos fundamentos constantes do referido Relatório, no dizer do qual, fl. 48, verbis, «Tendo em vista a gravidade de todos esses fatos e circunstâncias que estão a desaconselhar a permanência, em exercício, do Dr. Carlos David Santos Aarão Reis, o Conselho da Justiça Federal resolveu encaminhá-los à apreciação do Plenário do Tribunal Federal de Recursos, para que o referido Juiz Federal seja posto em disponibilidade,...» 12. Inexistiu cerceamento de defesa. Do relatório do processo administrativo instaurado para fins de sua disponibilidade temos: «A defesa prévia do Dr. Carlos David Santos Aarão Reis consta de fls. 143/161, acompanhada dos documentos de fls. 162/217.» Encerrada a sindicância, o Egrégio Conselho de Justiça Federal elaborou a representação que deu origem ao Processo Administrativo n? 001, onde as suas razões estão desenvolvidas, de forma ampla (lê fls. 02/31) e instruídas com a documentação de fls. 32/174 — 1? volume. «O MM. Juiz apresentou sua defesa, em petitório de fls. 189/228 (lê) com os documentos de fls. 229/359.». c) «Finalmente, aos autos foram juntadas razões finais oferecidas pelo Dr. Carlos David Santos Aarão Reis, instruídas com inúmeros documentos, compondo as fls. 590/678. Passo à leitura integral dessa peça, onde se destacam as seguintes preliminares, a serem dirimidas, previamente, por este Colendo Plenário: Impedimento dos Membros do Conselho da Justiça Federal. Impedimento do Ministro Américo Luz; Falta de fundamentação na instrução do processo; Cerceamento de defesa, tconsubstanciada na «vista» dos autos no recinto do foro federal; e) Incorreção das certidões fornecidas pela Secretaria do TFR; I ) Irrelevância de fatos não constantes da acusação; e g) Posição indevida eleita pelo Ministério Público. Com esse relatório, entendo cumprida minha missão como relator, 60 R.T.J. — 109 cabendo, agora, decidir sobre a matéria, nos termos previstos no § 6?, do art. 328, do Regimento Interno verbis: «Art. 328. § 6? O julgamento será realizado em sessão secreta do Tribunal e a decisão no sentido da penalização do magistrado só será tomada pelo voto de dois terços dos membros do coleglado, em escrutínio secreto». Ante o exposto, submeto o assunto à elevada consideração deste Colegiado». Aliás, quando da apresentação de razões, fls. 594, anexos, o Impetrante alegara que o cerceamento de defesa se devia ao fato de a vista do processo administrativo terse dado em gabinete de Juiz Federal daquela Seção Judiciária. A lei não confere ao Magistrado, no caso, tratamento diverso ou especial. Tratando-se de matéria de ordem constitucional e declarando-se na lei regulamentar, § 7? do art. 27 da LOMAN, que «Da decisão publicar-se-á somente a conclusão», não possui o Impetrante direito liquido e certo à ciência dos votos proferidos no julgamento, sem individualização, pois que, caso contrário, estaria quebrando o sigilo imposto pela lei. Mesmo a especificação das faltas imputadas e acolhidas, o que para se argumentar poder-se-ia admitir, não acarreta irregularidade do procedimento ora impugnado, pois à ausência em questão tem-se o dispositivo legal retro referido a lhe oferecer cobertura ao lado de, no silêncio, estar implicitamente deduzido o acolhimento integral, em uma aplicação da lei que enseja a prática de certa discricionariedade por parte do julgador, em tal caso. Mas o Impetrante, de qualquer sorte, não impugna tal matéria, pretendendo, sim, a própria fundamentação de decisão, a qual, sabidamente, não existe ou não pode ser dada à publicidade, sob pena de nulificação do ato, de procedimento sigiloso em si mesmo, conforme lei. De outro ângulo e incidindo possivelmente sobre a espécie versada nos autos, temos que o Egrégio Supremo Tribunal tratou da matéria referente à fundamentação e motivação da decisão de julgamento de magistrado nos RECR n? 85.703, Relator Ministro Thompson Flôres, RTJ 86/619 e RE n? 77.912, Relator para o acórdão o Sr. Ministro Moreira Alves, RTJ 89/846. O primeiro, da Egrégia Segunda Turma, encontra-se assim ementado: «Magistrado. Condenação em processo originário perante o Tribunal de Justiça — Decisão inteiramente desfundamentada, contrariando o art. 153, §§ 15 e 13, da Constituição. II — a circunstância de ter sido o julgamento proferido em sessão secreta não desobriga o Tribunal de motivar seu veredito, pois que, ainda que a lei o determinasse, padeceria do vício de inconstitucionalidade. Sucede que ela mesma o exige, como decorre do art. 561, VI e VII do Código de Processo Penal, incorporado ao Regimento Interno, art. 160, f e g. III — Recurso extraordinário provido». O Eminente Ministro Thompson Flõres assinalou em seu voto: «A transcrição integral do acórdão bem evidencia que está ausente de fundamentação. Tal proceder importa em contrariedade a duas garantias fundamentais insculpidas na Consti- R.T.J. — 109 tuição, art. 153 13 e 15, primeira parte, amplitude de defesa e individualização da pena. Esta, ademais, é a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (H. Fragoso, Jurisprudência Criminal, II, 1973, n? 438, págs. 437/46). 4. Pouco importa que trate de processo originário da competência do Tribunal de Justiça, Código de Processo Penal, arts. 556 e seguintes, para o qual o julgamento é proferido em sessão secreta, art. 561, VI, verbis: «Art. 561. Finda a instrução, o Tribunal procederá, em sessão plenária, ao julgamento do processo, observando-se o seguinte: VI — encerrados os debates, o Tribunal passará a funcionar em sessão secreta, para proferir o julgamento, que será anunciado em sessão pública»; Ainda que, ausentes as próprias partes, e por óbvias razões, os votos são proferidos a descoberto, motivando cada juiz o seu convencimento. Do julgado não constava o nome dos julgadores cujos votos se tornaram vencedores ou vencidos, pois, se assim não se procedesse, quebrado estaria o sigilo, e não teria sentido a determinação legal de ser o julgamento proferido em sessão secreta 5. Todavia o veredito há que ser fundamentado, como ademais, dispõe o citado art. 561, VII, com a referência que faz, o qual compreende, precisamente, o titulo referente a sentença, arts. 382 e seguintes. Tudo está repetido no Regimento Interno do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, art. 160, f e g. 61 6. Assim, não precisando os fatos objeto da acusação, nem as provas em as quais se baseou para dar por sua procedência, parcial ou total, não importa, nem justificando porque impunha a sanção que especificou, atentar contra os citados parágrafos do art. 153 da Carta Maior. Cerceada ficou a defesa do acusado a qual a Constituição qualifica de ampla e com os recursos a ela inerentes, pois, como poderá combater fundamentos inexistentes e reclamos contra pena não individuada, também por ela erigida em garantia.» Do segundo acórdão, proferido em sessão plenária, temos a seguinte ementa: «Magistrado. Disponibilidade por interesse público ($ 2? do artigo 113 da Constituição Federal na redação anterior á Emenda Constitucional n? 7/77). — Para estar fundamentada a decisão que coloca magistrado em disponibilidade por interesse público, basta que se funde — e a ele portanto, faça referência — em inquérito que apurou os fatos, e do qual a conclusão é submetida a julgamento. Essa, aliás, é a única motivação admissivel em escrutinio secreto, em que todos os participantes se limitam a votar sim ou não. Não há sequer necessidade — e não é conveniente — que a decisão, ao invés de se reportar expressamente ao inquérito, reproduza os fatos que nele foram objeto de apuração». O Eminente Ministro Soares Muõoz, Relator originário, vencido em parte, declarou: «Como controlar judicialmente a adequação do fato, a sanção imposta na via administrativa, se aquele não é relevado com as 62 R.T.J. — 109 suas circunstâncias na decisão do órgão disciplinar? Para a prática de alguns atos, ensina Seabra Fagundes, a competência da Administração é estritamente determinada na lei, quanto aos motivos e modo de agir E essa a competência vinco lata dos italianos ou liée dos franceses. «A Administração Pública não é livre em resolver sobre a conveniência do ato, nem sobre o seu conteúdo. Só lhe cabe constatar a ocorrência dos motivos e, com base neles, praticar o ato» (O Controle dos Atos Administrativos, pág. 93, n? 37, 2? ed.). De outra natureza não é a competência administrativa que o art. 113, § 3?, da Constituição da República, atribuiu aos Tribunais vinculada a existência de motivo de Interesse público, que recomende a remoção ou a disponibilidade do magistrado, para preservar a independência, a Imparcialidade ou o decoro dos órgãos jurisdiclonais. O motivo, ao qual se vincula indissoluvelmente o ato de remoção ou da disponibilidade, deve estar expresso na decisão, embora esta, quanto à fundamentação, possa ser mantida em sigilo, salvo em relação à defesa. Sem essa explicitação, repito, subtrai-se, do magistrado removido ou posto em disponibilidade, compulsoriamente, o direito de recorrer ao Poder Judiciário, pleiteando a anulação daqueles atos, sob o fundamento de que os fatos em razão dos quais foi punido não configuram o motivo de interesse público a que alude o art. 113, § 3?, da Constituição da República. E a decisão administrativa que, por omissa, não permitir esse exame e esse controle jurisdicional será, por isso mesmo, nula». O Eminente Ministro Moreira Alves, após considerar que o recurso extraordinário ressentia de prequestionamento da matéria, acentuou: «A meu ver, a expressão «por motivo de interesse público» implica, apenas, a necessidade de que a decisão administrativa do Tribunal se funde — e, portanto, a ele faça referência — os fatos objeto de apuração em inquérito, cuja conclusão é submetida a julgamento. Essa aliás, é a única motivação admissivel em escrutínio secreto, em que todos os participantes se limitam a votar sim ou não. Não há sequer necessidade - e não é conveniente — que a decisão, ao invés de se reportar expressamente ao inquérito, reproduza os fatos que nele foram objeto de apuração. Para que o magistrado colocado em disponibilidade possa atacar por via judicial, decisão administrativa dessa natureza, basta a comissão ao inquérito, pois sua defesa judicial poderá, com base nos fatos objeto deste, demonstrar, até a inexistência de interesse público capaz de permitir a colocação em disponibilidade». Os Eminentes Ministros Cordeiro Guerra, Leitão de Abreu e Xavier de Albuquerque, pela ordem, declararam seus votos, dos quais permitimo-nos transcrever os seguintes trechos, respectivamente: «A publicidade dos motivos, das razões de convencimento, do veredictum tomado, como no júri, pelas respostas Sim ou Não determinaria danosos efeitos a dignidade do Poder Judiciário. Motivos de interesse público podem ocorrer, que, apurados, não devem ser divulgados. Sem dúvida, no inquérito, terá conhecimento deles, o acusado, que aduzirá defesa. Desprezada esta pelo Tribunal, está este dispensado de fundamentar as razões de R.T.J. — 109 seu convencimento, pelo interesse de dignidade da Magistratura.» «Nenhum foi o prejuizo acarretado ao recorrente pela forma em que se acha concebido o ato de disponibilidade, uma vez que, dizendo conhecer o motivo da disponibilidade, plenamente se defendeu, argüindo não haver prova nos autos dos fatos que lhe eram imputados. Não é omissa a decisão impugnada, por outro lado, acerca dos fatos em que a disponibilidade se baseou. Está dito, pelo contrário , claramente dito no acórdão serem tais fatos os apurados no inquérito administrativo, com base no resultado do qual a decisão se proferiu. Indicados, pois, os fatos, indicado ficou o motivo da disponibilidade, consistente no interesse público.» «Sr. Presidente, quando o Juiz houver de perder o cargo, apesar de sua vitaliciedade, exigirei que a decisão seja amplamente fundamentada, cabalmente motivada. Mas parece-me que a disposição constitucional de que se cuida, teria sua eficiência posta em grave risco, se se exigisse, para a decretação da disponibilidade, motivação cabal e pormenorizada. A prudente discrição dos Tribunais é que me parece haver sido entregue, pela Constituição, a deliberação sobre a conveniência de afastar, por disponibilidade compulsória, magistrado cuja atuação não se mostre adequada ao desempenho da judicatura». Finalmente, e apenas para fins de argumentação, possuisse o ato impugnado a mácula pretendida, seu desfazimento não levaria á conclusão do pedido, fls. 10, isto é, o retorno do Impetrante ao exercício de suas funções judicantes, pois a inexistência de publicidade da fundamentação do ato Lm- 63 pugnado, suprida que fosse ou possível que pudesse ser, acarretaria tão-somente o preenchimento de tal requisito para o ato e, não, o seu integral desfazimento, tendo em vista que o Tribunal Federal de Recursos limitou-se à aplicação do § 7? do art. 27 da Lel Orgânica da Magistratura e, anteriormente, o Impetrante fora afastado do exercício do cargo, fls. 16. Em face do exposto, somos pelo indeferimento do mandado de segurança.» VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves (Relator): 1. Sendo a colocação em disponibilidade ato complexo que se perfaz com a declaração, por decreto, do Presidente da República (artigo 27, § 8?, da Lei Complementar n? 35/79), conheço do presente mandado de segurança contra essa autoridade, e passo a examiná-lo em seu mérito. 2. Alega o impetrante que o ato de sua colocação em disponibilidade é nulo porque, seja quando decidiu pela instauração do processo, seja quando determinou a disponibilidade, deixou o Tribunal Federal de Recursos de motivar ambas as decisões. Não tem razão, porém, o impetrante. Com efeito, esta Corte, por seu Plenário, ao julgar o RE n? 77.912 (RTJ 89/846 e segs.), que dizia respeito a caso análogo ao presente, e de que fui relator para o acórdão, assim decidiu: «Para estar fundamentada a decisão que coloca magistrado em disponibilidade por interesse público, basta que se funde — e a ele, portanto, faça referência — em inquérito que apurou os fatos, e do qual a conclusão é submetida a Ra- 64 R.T.J. — 109 gamento. Essa, aliás é a única motivação admissível em escrutínio secreto, em que todos os participantes se limitam a votar sim ou não. Não há sequer necessidade — e não é conveniente — de que a decisão, ao invés de se reportar expressamente ao inquérito, reproduza os fatos que nele foram objeto de apuração». Ora, no caso presente, como se vê da própria documentação juntada pelo impetrante, o Tribunal Federal de Recursos decidiu á vista da ampla exposição — inclusive com a leitura das peças principais — feita pelo relator do processo administrativo, o Sr. Ministro William Patterson (fls. 49/55). E sua decisão, indicado expressamente o processo administrativo a que se referia (o que, também, ocorreu em sua publicação), foi do teor seguinte, conforme certidão a fls. 686 do processo administrativo apensado, vol. III, e que havia sido fornecida ao impetrante, como se vê a fls. 17 dos autos: «O Dr. Ronaldo Rios Albo, por delegação do Sr. Diretor-Geral da Secretaria do Tribunal Federal de Recursos, usando das atribuições que lhe são conferidas por lei, Certifica, examinando os autos do Processo Administrativo n? 001/82-TER (Reservado), em que figura como parte interessada o Exmo Sr Dr Carlos David Santos Aarão Reis, MM Juiz Federal em disponibilidade, que, em seu requerimento protocolado sob n? 262453, o Exmo. Sr. Ministro Presidente do Tribunal proferiu despacho do teor seguinte: «Certifique-se, com as cautelas dos §§ 6? e 7?, artigo 27, da LOMAN, e §§ 6? e 7?, artigo 328, do Regimento Interno TFR. Bsb, 3-3-83 (a) Ministro Jarbas Nobre, Presidente.» Assim, deferido o pedido do interessado e em cumprimento ao r. despacho Certifica o seguinte: Que a decisão re- lativa á instauração do processo de disponibilidade foi nestes termos: «O Tribunal, reunido em sessão secreta resolveu, por unanimidade de votos, determinar a instauração de processo, com o objetivo de colocar em disponibilidade o Doutor Carlos David Santos Aarão Reis, Juiz Federal da 3? Vara II, da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro (§ 2?, do art. 328 do Regimento Interno) e o afastamento do mesmo do exercício de suas funções, sem prejuízo dos vencimentos e vantagens até decisão final (§ 3? do mesmo dispositivo regimental). Participaram da votação os Exmos. Srs. Ministros Jarbas Nobre, Presidente, Armando Rolemberg, Moacir Catunda, José Dantas, Lauro Leitão, Carlos Medeira, Gueiros Leite, Washington Bolívar, Torreão Braz, Carlos Mário Veloso, Justino Ribeiro, Otto Rocha, Wilson Gonçalves, William Patterson, Adhemar Raymundo, Bueno de Souza, Sebastião Reis, Miguel Jerônymo Ferrante, José Cândido, Pedro Acioli, Américo Luz, ' Antônio de Pádua Ribeiro, Flaquer Scartezzini, Costa Lima e Leitão Krieger. Ausente, justificadamente, o Exmo. Sr. Ministro Pereira de Paiva. Sala das Sessões do Plenário, 23 Set. 1982 (a) Ronaldo Rios Albo, Diretor da Secretaria Judiciária, Secretário da Sessão, em substituição ao Secretário do Plenário.», Que a decisão referente à disponibilidade do requerente é do seguinte teor: «O Tribunal, por unànimidade, rejeitou as preliminares de impedimento dos membros do Conselho da Justiça Federal, a de falta de fundamentação na instauração do processo, a de cerceamento de defesa (vista dos autos exclusivamente no Foro Federal), a de certidão requerida estar incompleta (processos conclusos aos membros do Tribunal) e a de R.T.J. — 109 irrelevância dos fatos não constantes da acusação e, relativamente, a da posição indevida do Ministério Público no processo, esta rejeitada por maioria, contra 1 (um) voto; finalmente, com a abstenção do Sr. Ministro Américo Luz, foi rejeitada, unanimemente, a preliminar de Impedimento de Sua Excelência. No mérito, o Tribunal, por 20 (vinte) votos contra 3 ( três) e 1 (um) em branco, decidiu determinar seja posto em disponibilidade, com vencimentos proporcionais, o Juiz Federal Doutor Carlos David Santos Aarão Reis, em exercício na 3? Vara da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro Participaram do julgamento os Exmos. Srs. Ministros Jarbas Nobre, Presidente, Armando Rolemberg, Moacir Catunda, José Dantas, Lauro Leitão, Carlos Medeira, Gueiros Leite, Washington Bolívar, Torreão Braz, Carlos Mário Velloso, Otto Rocha, Wilson Gonçalves, William Patterson, Bueno de Souza, Pereira de Paiva, Sebastião Reis, Miguel Jerónymo Ferrante, José Cândido, Pedro Acioli, Américo Luz, António de Pádua Ribeiro, Flaquer Scartezzini e Leitão Kriger. Não participou do julgamento, por motivo justificado o Sr. Ministro Adhemar Raymundo. Tribunal Federal de Recursos, 25 de novembro de 1982 — José Alves ~Uno, Secretário do Plenário». Que os Exmos. Srs. Ministros Jarbas Nobre, José Dantas, Torreão Braz, Washington Bolívar e Carlos Mário Velloso, Membros do Conselho da Justiça Federal participaram com voto, em ambas as Sessões, mencionadas. Que os fundamentos pelos quais o Tribunal decidiu instaurar o processo (Relatório 1) e determinar a disponibilidade (Relatório 2) do requerente 65 estão contidos nos Relatórios anexos por cópia, que passam a fazer parte integrante desta certidão; Certifica, ainda, que nas Sessões referidas, de instauração do processo e deliberação da disponibilidade, não houve declaração de suspeição ou impedimento por parte dos Membros do Plenário. g O Que Foi Pedido Para Certificar. O referido é verdade e dá fé. Dada e passada nesta cidade de Brasília, Capital da República Federativa do Brasil, aos sete dias do mês de março do ano de mil novecentos e oitenta e três (7-3-1983). E o quanto basta para que, conforme entendimento desta Corte, se tenha por fundamentada decisão dessa natureza. E, com maior razão, é a quanto é suficiente também, para a decisão que determina a instauração do inquérito, à vista do teor da acusação e do da defesa prévia apresentada, se o for. Essa decisão, pela sistemática estabelecido no artigo 27, ff 1? a 3?, da Lel Complementar n? 35/79, diz respeito tão-somente á instauração, ou não, do inquérito — instauração que só não se dará se evidenciada, de plano, a total improcedência das acusações — e não determina os limites deste, que, se instaurado, serão os do teor da acusação. E tanto assim é que, como estabelece o 2? do mencionado artigo 27 caso seja a instauração determinada, o feito será no mesmo dia distribuído e entregue ao relator, para que se inicie sua instrução. Não se exige sequer — ao contrário do que ocorre com a decisão final — a publicação de sua conclusão. 3. Em face do exposto, e em resumo, conheço do presente mandado de segurança no que diz respeito ao ato do Sr. Presidente da República, mas o indefiro. R.T.J. - 109 66 VOTO VOTO Sr. Ministro Soares Mufioz: Sr. Presidente, o relatório demonstrou que tenho pronunciamento contrário ao do eminente Relator. O Sr. Ministro Cordeiro Guerra (Presidente): O eminente Relator, em seu voto, referiu a precedente em que me manifestei no sentido de que a decisão secreta era não fundamentada e soberana do Tribunal. Nada tenho a acrescentar ao que disse naquele precedente. Queria, apenas, observar que a Constituição deu aos Tribunais a autodisciplina e a disciplina da Magistratura em caráter amplo e absoluto. Assim, acho que a decisão do Tribunal Pleno, ou do órgão especial, atinente ao magistrado não precisa ser revista pelo Poder Judiciário, pela razão muito simples de que foi praticada pelo próprio Poder Judiciário. Não estamos decidindo tão-só quanto à disciplina de um funcionário, mas exercendo um poder do Estado de autopreservação moral do Poder Judiciário. Por isso é que digo: não se trata de saber agora se procedeu mal ou não. O Tribunal é soberano em julgar se esse homem está à altura do cargo em face dos atos que praticou e de que o impetrante teve conhecimento prévio. Houve até uma pronúncia, de acordo com a lei, em que ele se defendeu. Aceita a acusação, pergunta-se se esta é, ou não, procedente. Não é necessário especificar eventuais torpezas que ele tenha praticado, ainda mais num caso em que se põe simplesmente em disponibilidade. Se amanhã o Tribunal considerar (direito de graça, que ele pode ter) recuperado o juiz e o chamar à atividade, nesse caso, ficaria um homem publicamente desmoralizado revertendo ao serviço do Poder Judiciário. Seria uma incongruência. Tenho — honra seja feita — em alto conceito os Tribunais da República. Como tive oportunidade de dizer recentemente os casos, como o dos acórdão que colocou o magistrado em disponibilidade devia ter sido fundamentado, indicando o fato ou os fatos em razão dos quais foi aplicada a sanção. Se assim não for feito, o apenado não poderá recorrer, porque ingnora por que foi apenado. A afirmação de que o julgamento é sigiloso e, por isso, não deverá ser fundamentado não procede. As decisões do Tribunal do Júri também são sigilosas; entretanto, são fundamentadas, uma vez que se reportam ao libelo, e, do libelo, emergem os quesitos nos quais se descreve o fato com suas circunstâncias; além do mais, o juiz fundamenta a fixação da pena. A garantia da vitaliciedade ficará reduzida ao arbítrio dos Tribunais, que poderão, a qualquer momento sem dizer o motivo, colocar um juiz em disponibilidade ou aposentá-lo. Não se trata de desconfiar dos Tribunais, mas de revestir a garantia da vitaliciedade do juiz de real e efetiva operância. Defiro o mandado de segurança. VOTO Sr. Ministro Djacl Falcão: Sr. Presidente, trata-se de processo especialissimo, em escrutínio secreto, como previsto na Constituição, no resguardo do próprio Poder Judiciário. Acompanho o eminente Relator, data venia do voto do eminente Ministro Soares Muiloz, indeferindo a segurança. R.T.J. — 109 autos, são hipóteses cirúrgicas que raramente ocorrem, e sabemos que isso é feito para preservar a austeridade do Tribunal, e não para privar alguém das suas garantias constitucionais. A magistratura brasileira tem um alto nível ético e esses instrumentos de autogoverno que a Constituição deferiu têm sido usados com moderação e critério. Confio na magistratura, quando ela diz: não pode continuar no nosso meio. Acho, assim, que essas decisões devem ser prestigiadas, para que nós mesmos façamos a disciplina. Não é possível — como disse — que alguns Juízes se considerem senhores de baraço e cutelo e busquem a publicidade, a fama e o lucro, e amanhã tenhamos que declarar isso. O Julgamento soberano dos Jurados, por exemplo, dá a sua íntima convicção: sim ou não; não é fundamentado. Se isso se defere aos simples cidadãos da República, por que não se pode, outorgar o mesmo poder aos Tribunais mais altos da República? Entendo válida a reforma da Constituição, que deve ser usada com serenidade, energia e discrição. Dai o 67 Julgamento secreto, a fundamentação secreta, que é da tradição até dos povos mais cultos. Por esses motivos, acompanho o eminente Relator, indeferindo a segurança. EXTRATO DA ATA MS 20.395-RJ — Rel.: Min. Moreira Alves. Impete.: Carlos David Santos Aarão Reis (Adv.: Sergio Bermudes). Autoridades coatoras: Presidente da República e Tribunal Federal de Recursos. Decisão: Indeferiu-se a segurança contra o voto do Ministro Soares Mufoz. Votou o Presidente. Impedidos os Ministros Aldir Passarinho e Néri da Silveira. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Id aci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufioz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocênclo Mártires Coelho. Brasília, 28 de setembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. RECURSO DE RABIEM CORPUS N? 60.560 — GO (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves. Recorrentes: Reginaldo Almeida Andrade e outro — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Habeas carpes. A falta de curador no interrogatório do réu menor não acarreta nulidade, se este teve a assitêncla de defensor por ele constituído. Improcedência, no caso, da alegação de nulidade na fixação da pena. Recurso ordinário a que se nega provimento. ACORDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do Julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de habeas corpus. 68 R.T.J. — 109 Brasília, 1? de março de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Moreira Alves, Relatar. RELATÓRIO O Sr. Ministro Moreira Alves: De acórdão denegatório de habeas corpus foi interposto recurso ordinário que assim é apreciado pela Procuradoria-Geral da República em parecer do Dr. Alvaro Augusto Ribeiro Costa (fls. 78/83): «1. Cuida-se de impetração em favor de pacientes que se acham condenados a quatro anos de pena reclusiva, como incursos no art. 213 do C. Penal. Sustenta-se que nulo é o processo, em virtude de falta de nomeação de curadores aos réus, menores. Além disso, nula seria a sentença condenatória, porque erroneamente fixadas as penas. O arestro de fls. 60/63, todavia, denegando wrlt, fê-lo com base nas considerações que a respectiva ementa assim abreviou: «1. Processo Criminal. Falta de curador nos interrogatórios dos réus menores, a que, no entanto, estiveram presentes advogados constituídos. Oferecimento de defesa prévia e assistência durante a instrução, por seus advogados. Ausência de prejuízo. Nulidade rejeitada.» Precedente do Supremo Tribunal Federal: Recurso Extraordinário criminal n? 94.952-6, de Goiás (ac. de 30-4-82, da r Turma, Relator MM. Djaci Falcão — DJ de 28 de maio de 1982). 2. Não é nula a sentença que, na individualização da pena, adota o critério que manda apreciar conjuntamente as circunstâncias judiciais (art. 42) e as agravantes e atenuantes (arts. 44, 45 e 48).» A nosso ver, merece confirmação o aludido julgado. Quanto à falta de nomeação de curadores para os réus, o acórdão esclareceu, in verbis: «Examinando-se os autos da ação penal, em que é vitima de estupro a menor Maria Aparecida Martins Alves, de 14 anos, verifica-se que o acusado Reginaldo Almeida Andrade declarou; no interrogatório, ter a idade de 19 anos, e teve a assistência de seu defensor e advogado Dr. Pedro Gomes Netto (fls. 39/41). Por seu turno, o réu Dorázio Ulisses de Andrade, ao ser interrogado, declarou a idade de 20 anos, e indicou para defensor o Dr. Pedro Ferreira de Azevedo, que presenciou o ato (fls. 42/44). Ambos os defensores apresentaram defesa prévia, com rol de testemunhas. Durante a inquirição das testemunhas arroladas na denúncia, fizeram reperguntas. Conseguiram ouvir 10 testemunhas de defesa. Nas alegações finais, o Dr. Pedro Gomes Netto escreveu 17 laudas datilografadas, e o Dr. Pedro Ferreira de Azevedo, 5 laudas. Ora, anular-se um processo, após o julgamento, sem que nele tenha sido arguido qualquer prejuízo e — o que é mais importante — em que os réus tiveram ampla defesa, parece-nos um exagerado formalismo, que não se coaduna com o princípio assente no art. 563 do CPP. Esta Câmara, na esteira do Excelso Supremo Tribunal Federal, não tem guardado coerência ao enfrentar essa questão. Há decisões nos dois sentidos, acolhendo ou não a nulidade, quando o acusado, embora sem curador nomeado, é assistido por defensor. No julgamento do Recurso Extraordinário n? 94.952-6, deste Estado, de que foi relator o eminen- R.T.J. — 109 te Ministro Djaci Falcão, a Suprema Corte manteve acórdão desta Câmara, datado de 7-4-81, proferido no Recurso Criminal n? 2.850, de Rio Verde, e a ementa publicada no «Diário da Justiça» de 28-5-82 com o seguinte teor«Processo criminal. Falta de curador no interrogatório de réu menor, a que, no entanto, esteve presente advogado constituído. Oferecimento de defesa prévia e assistência durante a instrução por seus advogados. Ausência de prejuízo. Nulidade rejeitada. «Segundo a Súmula n? 352 — «Não é nulo o processo penal por falta de nomeação de curador ao réu menor que teve a assistência de defensor dativo». E com maior razão, deverá supri-la o defensor constituído. O verbete da Súmula n? 352 é abrangente da assistência de defensor, dativo ou constituído. Aliás, no acórdão que serviu de base à mencionada Súmula o paciente teve defensor constituído (RHC n? 39.640, relatado pelo Sr. Ministro Pedro Chaves). Recurso extraordinário a que se nega provimento.» ( ac. de 30-4-82, da 2? Turma do STF). Várias vezes, este Tribunal tem decidido que, se o réu menor contou a assistência de defensor, não se anula o processo por falta de nomeação de curador. (ap. cr . n?s 5.337, 5.043, 5.350, ac. de 16-971, 10-11-70, 23-9-71, rec. cr . n? 2.850 e ac. de 7-4-81). Agora, com maior razão, pois o Exmo. Sr. Ministro Djaci Falcão, como relator do Recurso Extraordinário criminal n? 94-952-6, supra-referido, tornou patente que a Súmula n? 352 resultou de um caso em que o defensor era constituído e não dativo. Dai a conclu- 69 são lógica de que o verbete da Súmula n? 352 é abrangente da assistência de defensor dativo ou constituído.» No que tange á fixação das penas, igualmente desmerece acolhida o pleito sob exame. A sentença de fls. 38/44, no particular, assim foi colocada: «Nos autos comprovou-se que os réus são primários e de bons antecedentes. Consta também que são trabalhadores. Segundo o testemunho de diversas pessoas, anteriormente ao crime tinham comportamentos exemplares. Também, a circunstância de serem menores de vinte e um anos, lhes são favoráveis. Diante das ponderações acima, entendemos, data vênia, que a pena base, deve ser a mínima prevista no Artigo 213 do Código Penal. Ocorre, entretanto, que os réus premeditaram o crime. E as suas circunstâncias indicam que foi cometido com intensidade de dolo. Por outro lado, as suas conseqüências são funestas para a vitima, a sua família e até para a vitima, a sua família e até para a sociedade local que, por muito tempo, sentir-se-á revoltada com tamanha monstruosidade. Assim, essa pena há de ser aumentada para quatro anos de reclusão que fica sendo a pena definitiva a ser cumprida pelos acusados, na Penitenciária do Estado (CEPAIGO). A vista do exposto, condenamos os réus Reitinaldo Almeida Andrade e Dorázio Ulisses de Andrade, cada um, ao cumprimento de pena de reclusão de quatro (4) anos, a ser cumprida na Penitenciária Estadual (CEPAIGO), depois de transitada esta em julgado.» 70 R.T.J. — 109 8. Acertado, dessarte, revela-se VOTO o aresto impugnado, quando pondeO Sr. Ministro Moreira Alves (Rera, In verbis: «Realmente, o prolator da sen- lator): 1. No tocante à falta de curatença analisou conjuntamente as dor no interrogatório de réus menocircunstâncias judiciais e legais res, que, no entanto, tiveram a assispara fixação da pena-base. Esse tência, no ato, de seus defensores porém, é o critério defendido por constituídos, esta Segunda Turma — vários penalistas, entre eles Ro- e o acórdão recorrido cita o aresto berto Lyra. Aliás, José Frede- prolatado no RE n? 94.952, relator o rico Marques, a propósito, dá a Sr. Ministro Djaci Falcão — tem ensua opinião: «Não nos parece que tendido que, embora a súmula 352, haja necessidade de separar as só aluda a assistência de defensor circunstâncias judiciais das cir- dativo, não há qualquer razão para cunstâncias legais, no juízo que o não estendê-la ao defensor constimagistrado formula ao apreciar tuído, hipótese, aliás, que ocorria no os elementos apontados no artigo acórdão que lhe serviu de base 42.» (Curso de Direito Penal, (RHC n? 39.640). Com apoio nessa 1956, vol. III, § 143, pág. 259). Por orientação, que me afigura correta, conseguinte, não é nula a senten- inexiste a alegada nulidade. ça que, na individualização de Por outro lado, no que diz respena, adota o critério que manda peito à fixação da pena, acolho as apreciar conjuntamente as cir- ponderações do acórdão recorrido no cunstâncias judiciais (art. 42) e sentido de que a análise conjunta as agravantes e atenuantes (arts. das circunstâncias judiciais e legais, 44, 45 e 48). para a fixação da pena-base, não é E verdade que o magistrado di- causa de nulidade, sendo o certo, vidiu o seu raciocínio em duas fa- ainda, que, no caso, «o critério do ses: primeiro analisou os elemen- juiz, embora divorciado da técnica, tos favoráveis, inclusive a meno- não oferece dificuldade ao entendiridade, fixando a pena no míni- mento, o seu raciocínio ficou perfeimo previsto no art. 213. Em se- tamente delineado, e a atenuante da guida, considerando a premedita- menoridade (obrigatória) não deição (intensidade do dolo) e sérias xou de influir na penalidade imposconseqüências do crime, aumen- ta» (fls. 63). Inexiste, assim, na estou a sanção até quatro anos, que pécie, prejuízo para os réus, certo, se tornou definitiva. Ora, o crité- como é, inclusive — Q que, aliás, o' rio do juiz, embora divorciado da próprio acórdão recorrido acentua técnica, não oferece dificuldade —, que «o Código não estabelece ao entendimento, o seu raciocínio modificação quantitativa precisa paficou perfeitamente delineado, e ra as atenuantes e agravantes» (fls. a atenuante da menoridade (obri- 63). gatória) não deixou de influir na Em face do exposto, nego propenalidade imposta. Convém fi- vimento ao presente recurso. que ressaltado que o Código não estabelece «modificação quantiEXTRATO DA ATA tativa precisa» para atenuante e agravantes.» RHC 60.560-GO — Rel.: Min. MoO parecer, em face do exposto, reira Alves. Rectes.: Reginaldo Alsugere o improvimento do recur- meida Andrade e outro (Adv.: Geralso.» do Rodrigues Furtado). Recdo.: Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. E o relatório. R.T.J. — 109 Decisão: Negado provimento. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, 71 Decio Miranda e Aldir Passarinho. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 1? de março de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. HABEAS CORPUS N? 60.581 — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira: Paciente: Francisco José Martins Santos — Impetrante: o mesmo — Coator: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Habeas corpus. Condenado que cumpre pena de reclusão de quatorze anos, por crime de homicídio. Pretensão a freqüentar curso superior. Mandado de segurança indeferido por falta de liquidez e certeza do direito. Habeas corpus de que se conhece. Código Penal, art. 30, 6?, incisos V e VII. Freqüência a cursos, fora de prisão, compativel com os regimes semi-aberto e aberto (C. P., art. 30, 4?). Requisitos a serem satisfeitos por condenado à pena superior a oito anos. Hipótese não comprovada. Pedido indeferido. ACORDA° mara Ove! do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que lhe Vistos, relatados e discutidos estes negou o direito de freqüentar a Faautos, acordam os Ministros da Pri- culdade de Direito da Universidade meira Turma do Supremo Tribunal Santa Ursula — fls. 19/24 —, turno Federal, na conformidade da ata de matinal, em acórdão assim ementajulgamentos e notas taquigráficas, à do — fls. 53: unanimidade, indeferir o pedido de «Ementa: Mandado de seguranhabeas corpus. ça. Pretendido direito de preso em Brasília, 11 de março de 1983 — cumprimento de pena de reclusão Soares Milhos, Presidente— Néri da a freqüentar curso superior para o Silveira, Relator. qual se habilitou. Denegação da ordem. O condenado que cumpre peRELATORIO na de reclusão não tem direito liquido e certo à freqüência de auO Sr. Ministro Néri da Silveira las fora da prisão se não se encon( Relator ): Trata-se de habeas tra beneficiado pelo regime de pricorpus, impetrado, em causa prósão semi-aberta, ou aberta.» pria, por Francisco José Martins O paciente, em longo arrazoado, Santos, preso e recolhido ao Instituto explica, os Penitenciário Vieira Ferreira Netto, motivos pormenorizadamente, que o levaram a eleger a Niterói-RJ, pela prática do crime de via do presente habeas corpus, ao homicídio (art. 121, 2?, IV, do Códi- afastar a interposição do recurso exgo Penal) em que foi condenado a 14 traordinário, que ele mesmo reconheanos de reclusão (fls. 02, 20, 20 ver- ce ser cabível contra aquela decisão. so). É que — explica o paciente — se Insurge-se o paciente-impetrante contados todos às prazos previstos contra decisão proferida pela 3? a na legislação processual para inter- 72 R.T.J. — 109 posição do recurso ou recursos, somente teria chance de freqüentar a mencionada Faculdade no 1? semestre de 1984 — fls. 4/5. Requisitadas as informações ao Tribunal apontado como coator, prestou-as seu ilustre Presidente, Desembargador Francisco Rangel de Abreu, pelo ofício de fls. 41/42, ao qual anexa, dentre outras peças, cópia da inicial do mandado de segurança e do acórdao nele proferido. Esclarece o documento ( fls. 41/42): «Em atenção ao Ofício n? 770/R, e a fim de instruir o julgamento do Habeas Corpus n? 60.581-8, tenho a honra de prestar a V. Excelência as seguintes informações: Francisco José Martins Santos impetra, em causa própria, habeas corpus para esse egrégio Supremo Tribunal Federal, para que lhe seja garantido o direito de freqüentar a Faculdade de Direito da Universidade Santa Ursula, onde está matriculado. O ora paciente, condenado a 14 anos de reclusão, com medida de segurança de internação em Colônia Agrícola, Instituto de Trabalho, de Reeducação ou Ensino Profissional por um ano, como incurso IV, do Código no art. 121 2?, Penal, impetrou Mandado de Segurança, nos termos da petição que anexo por cópia. Requereu lhe fosse concedida, preliminarmente, autorização para freqüentar as aulas na referida Faculdade, o que lhe foi negado fls. 27. Pelo acórdão de fls. 56, publicado no Diário Oficial de 21-12-82, os Juizes componentes da Terceira Camara Cível deste Tribunal, por unanimidade de votos, denegaram a segurança. Parecer da d. Procuradoria-Geral da Justiça de fls. 45/46 e Relatório a fls. 50.» Oficiando nos autos, manifesta-se a douta Procuradoria-Geral da República, às fls. 58/59, pelo indeferimento do pedido. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Conheço do pedido, porque concerne à liberdade de ir e vir do paciente. Este, preso desde 3-91977, pretende freqüentar o Curso de Direito, na Universidade Santa Ursula, onde está matriculado, com inicio das aulas a 10-8-1981. O paciente foi condenado, a 15-5-1980, a 14 (quatorze) anos de reclusão, como incurso no art. 121, § 2?, IV, do CP, e um ano de medida de segurança. Dispõe o art. 30, § 6?, V e VII, do Código Penal, verbis: «Art. 30. O período inicial, do cumprimento de pena privativa da liberdade, consiste na observação do recluso, sujeito ou não a isolamento celular, por tempo não superior a 3 ( três) meses, com atividades que permitam completar o conhecimento de sua personalidade. § 6? — Deverão ser regulamentadas por lei local ou, à sua falta, por provimento do Conselho Superior da Magistratura ou órgão equivalente, as seguintes concessões a serem outorgadas pelo Juiz, a requerimento do interessado, seu cônjuge ou ascendente, ou na falta desses, de descendente ou irmão, ou por iniciativa de órgão para isso competente, ou, ainda, quanto às três primeiras, também de ofício: V — freqüência a curso profisstonalizante, bem como de segundo grau ou superior, fora do estabelecimento: VII — licenças periódicas, combinadas ou não com as concessões dos incisos IV e V deste parágrafo, para visitar à família e ir à sua R.T.J. igreja, bem como licença para participar de atividades que concorram para a emenda e reintegração no convívio social, aos condenados que estão em regime aberto e, com menos amplitude, aos que estão em regime semi-aberto.» Sustenta o paciente que não lhe é aplicável o disposto no art. 30, 5?, verbis: «* 5? — O condenado não perigoso, cuja pena não ultrapasse oito anos, poderá ser recolhido a estabelecimento de regime semiaberto, desde o início, ou, se ultrapassar, após ter cumprido um terço dela em regime fechado.» Para assim entender, o impetrante alega que está internado em estabelecimento sujeito a regime semiaberto, instituto Penitenciário Vieira Ferreira Netto, para o qual foi transferido. E acrescenta que se aplica, espécie, o disposto no art. 30, 4?, do mesmo estatuto penal, estes termos: «. 4? — A freqüência a cursos profissionalizantes, bem como de instrução de segundo grau ou superior, fora da prisão, só é compatível com os regimes semiaberto e aberto.» Sucede, porém, que essa alegação do paciente não se comprovou nos autos, nem foi admitida no acórdão no mandado de segurança, onde se assentou (fls. 53): «O impetrante cumpre pena de reclusão por crime de homicídio e, nessa condição de preso, encontrase sujeito às restrições que são impostas pela legislação penal substantiva. A sua pretensão de freqüentar aulas e curso superior para o qual se habilitou depende da implementação das exigências da lei penal para que possa desfrutar de benefício somente concedido àqueles que cumprem pena em regime de prisão semi-aberta, ou aberta, afo- 109 73 ra as disposições regulamentares do estabelecimento prisional onde se encontra internado, nos termos do artigo 32 do Código Penal Brasileiro. A toda a evidência, como bem sublinhado no douto Parecer da Procuradoria-Geral da Justiça do alegado direito líquido e certo dado como violado pelo requerente não pode ser avaliado pela via mandamental.» Acolho, assim, o parecer da douta Procuradoria-Geral da República, às fls. 59, nestes termos: «12. Consoante afirmação do próprio impetrante, sua prisão efetivou-se em 3-9-1979 ( fls. 5), não havendo, pois, cumprido, ainda, um terço da pena. Há, também, nos autos, notícia de que, a par da pena privativa de liberdade, foi imposta ao paciente medida de segurança detentiva (fls. 41/42). Mesmo que não subsistisse tal medida, nenhuma ilegalidade decorreria da r. decisão do colendo Tribunal de Justiça fluminenses porque, de acordo com o artigo 30, ff 4? e 5?, do Código Penal, a freqüência a curso superior, fora da prisão, por condenado à pena de reclusão superior a oito anos só é legalmente permitida, depois de cumprido um terço da pena, em estabelecimento de regime fechado, comprovada a ausência de periculosidade.» Do exposto, indefiro o habeas em- pes. EXTRATO DA ATA HC 60.581-RJ — Rel.: Min. Néri da Silveira. Pacte.: Francisco José Martins Santos. Impte.: O mesmo. Coator.: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. 74 R.T.J. — 109 Decisão: Indeferiu-se o pedido de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mutioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 11 de março de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 60.589 — MG (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Geraldo Alves de Almeida Filho — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Habeas empes. Recurso Interposto pelo Ministério Público da decisão do Júri. Tempestividade. Código de Processo Penal, art. 798. P a b. Embora o prazo flua da sessão em que profe--rágafos1?e5lt rida a decisão, se presente a parte (CPP, art. 798, I 5?, letra b), não se computa no prazo o dia do começo (CPP, art. 798, I 1?). Os parágrafos 1? e 5?, do art. 798, do CPP, não se excluem, mas se completam. Realizando-se sessão do Júri a 20 de agosto de 1982, com absolvição do réu, foi tempestivo o recurso do MP a 25 do mesmo mês. Recurso desprovido. ACORDA() ciente pretendia fosse reconhecida a intempestividade do recurso maniVistos, relatados e discutidos estes festado pelo Ministério Público local. autos, acordam os Ministros da PriNo referido Tribunal, o voto condumeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de tor do acórdão expôs a espécie dos julgamentos e notas taquigráficas, á autos e a decidiu, nestes termos ( fls. unanimidade, negar provimento ao 28/29): recurso de habeas corpus. «Os advogados Ceryx Mendonça Brasília, 3 de fevereiro de 1983 — Brasil Atheniense e Jesus Maria de Soares Mufloz, Presidente — Néri da Andrade Drumond impetraram orSilveira, Relator. dem de habeas corpus em favor de Geraldo Alves de Almeida Filho, RELATÓRIO ao fundamento, em resumo, de que o mesmo foi submetido a julgaO Sr. Ministro Néri da Silveira mento perante o Júri em 20 de (Relator): Reeditando os argumenagosto deste ano, e absolvido, sentos que serviram de base à impetrado que o Repr. do Ministério públição inicial, Geraldo Alves de Almeico, em data de 25 do mesmo mês, da Filho, soldado da Polícia Militar, interpôs à decisão absolutória o reresidente e domiciliado em Juiz de curso de apelação, que foi recebido Fora-MG, recorre ordinariamente a pelo MM. Juiz, titular da 3? Vara este Tribunal ( fls. 32/39), contra Criminal autoridade dada como acórdão do colendo Tribunal de Juscoatora. E que, segundo interpretiça do Estado de Minas Gerais, que, tação e exposição procedida na por unanimidade, negou ordem de petição de fls. 2/8, aplicando habeas corpus ( fls. 26), em que o paprincípios de hermenêutica, ao ca- R.T.J. — 109 so, resulta que a Promotoria de Justiça recorreu já depois do prazo vencido, o que se teria dado em 24 de agosto. Assim o recebimento do recurso importou em constrangimento ilegal feito ao paciente. Pretendem os impetrantes que, segundo o § 5?, do art. 798, do Código de Processo Penal, o prazo recursal corre da audiência ou sessão em que se proferir a decisão, se a ela estiver presente a parte; logo, proferido o veredito do Júri em 20 de agosto, o prazo venceu em 24 de agosto. Confirma o MM. Juiz que o paciente foi submetido a julgamento perante o Júri, pela terceira vez, no dia 20 de agosto deste ano e que de sua decisão apelou o representante do MP em 25 desse mês, às 15,45h. Em brevíssimo parecer, a Procuradoria-Geral da Justiça entende o recurso oferecido em tempo, pelo que a matéria não merece maiores estudos. Realmente, por mais que mereçam admiração os ilustres patronos do paciente, e por mais brilhantes seus argumentos, certo é que o art. 798 do C. P. Penal, já no parágrafo primeiro, impôs como norma inafastável que «não se computará no prazo o dia do começo, incluindo-se, porém, o do vencimento». Assim, nem há que se apegar ao parágrafo quinto do mesmo artigo de lei. Acontece que o ilustre e culto advogado que fez uso da tribuna acentuou a questão dos recursos, quando a matéria de mérito já servira de fundamento a recurso anterior — contudo essa matéria não foi objeto de documentação plena nos autos. Em seguida, contudo, o douto advogado reiterou as alegações sobre a tempestividade do recurso. 75 Com vênia, não entendo que o parágrafo quinto do art. 798, do C.P. Penal, corresponda a exceção à regra estatuída no caput do dispositivo e no seu parágrafo primeiro. NãO discuto o aspecto da peremptoriedade dos prazos. Mas tenho que o prazo se rege nos termos do § 1?, citado, e o prazo venceu no dia 25 de agosto — dia da interposição do recurso do M. Público. Com esse entendimento denego a ordem». As fls. 60/63, opinou a douta Procuradoria-Geral da República no sentido do não provimento do recurso. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator ): Realizou-se a sessão do Júri a 20 de agosto de 1982. Absolvido o réu, o MP recorreu a 25 do mesmo mês. Correto o acórdão, ao desacolher a alegação do paciente de intempestividade do apelo ministerial. Não há, assim, qualquer constrangimento ilegal, em face do recebimento do recurso pelo magistrado de primeiro grau, único fundamento da impetração. Bem anotou, em torno da controvérsia, o parecer da Ilustrada Procuradora da República, Dra. Haydevalda Aparecida Sampaio, com a aprovação do Subprocurador-Geral Francisco de Assis Toledo (fls. 62), verbis: «3. Sem dúvida, o artigo 798, 5?, letra b, do Código de Processo Penal, estabelece que, salvo os casos expressos, os prazos correrão da audiência ou sessão em que for proferida a decisão, se a ela estiver presente a parte. 4. Todavia, nos termos do § 1?, do mesmo artigo, não se computa- R.T.J. — 109 76 rá no prazo o dia do começo, incluindo-se, porém, o do vencimento. Data venia, ao contrário do que afirmou o recorrente, tais regras não se excluem, mas se completam. Assim, embora o prazo comece a correr da audiência ou sessão em que foi proferida a decisão, não se computa o dia do começo. 7. Tendo a decisão sido prolatada no dia 20 de agosto deste ano quando o paciente foi submetido a julgamento perante o Tribunal do Júri, tempestivo é o recurso interposto pelo Ministério Público no último dia do quinqüidio legal — 25 de agosto — visto não se computar o dia do início». Do exposto, nego provimento ao recurso. EXTRATO DA ATA RI-1C 60.589-MG — Rel.: Min. Néri da Silveira. Recte:: Geraldo Alves de Almeida Filho. ( Advs.: Ceryx Mendonça Brasil Atheniense e Jesus Maria de Andrade Drumond ). Recdo.: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Decisão: Negou-se provimento ao recurso de Habeas corpos. Decisão unanime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes á Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 3 de fevereiro de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. HABEAS CORPUS N? 60.622 — RS (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Paciente: Oscar Cândido da Silva — Impetrante: Wilson Ogata — Coator: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Habeas empes. Alegação de excesso de prazo da prisão provisória. Paciente processado, como incurso no art. 121, 2?, item I, do Código Penal, preso em flagrante, condenado pelo Tribunal do Júri, sendo o julgamento anulado por deficiência na formulação dos quesitos. Anulado o julgamento, opera a decisão de pronúncia, que, na conformidade do art. 408, 1?, do CPP, legitima a permanência do réu, na prisão, até ser, de novo, julgado. No caso concreto, as informações esclarecem que o novo julgamento pelo júri ocorreria no mesmo mês em que prestadas. Pedido denegado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, indeferir o pedido de Habeas Corpus. Brasília, 15 de março de 1983 — Soares Mufloz, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Trata-se de ordem de habeas corpus impetrada pelo advo- R.T.J. — 109 gado Wilson Ogata, mediante o telex de fls. 02, em que indicando como coator o colendo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, pleiteia que o paciente Oscar Cândido da Silva, preso a 18-4-1981, como incurso nas sanções do art. 121, § 2?, item I, do Código Penal, aguarde o julgamento em liberdade, sustentando excesso de prazo na prisão do acusado. Prestando as informações solicitadas, o ilustre Vice-Presidente do Tribunal de Justiça gaúcho, Desembargador Bonorino Buttelli, expôs a situação do processo-crime a que responde o réu, nestes termos (fls. 9/11): «1. Trata-se de processo oriundo de Sapucaia do Sul, em que são réus o ora paciente e seu irmão Lauro Pedroso da Silva, por infração dos arts. 121, § 2?, I (motivo torpe, vingança), em co-autoria, contra João Paes Maciel e tentativa idêntica contra Valter Paes Macia irmão deste. O fato ocorreu em 18 de abril de 1981, mais ou menos às 19h 30min, na rua 1? de Maio, próximo ao prédio n? 938, em Vila Nova Sapucaia. Nessa oportunidade, os irmãos réus encontraram-se com as vitimas e se tramaram em luta. O paciente açhava-se armado com uma pistola (garrucha), calibre 32 e uma faca de 29 cm de lâmina. Seu companheiro e irmão, Lauro Pedroso, manejava um facão de 34 cm. 4. Consta que o motivo foi vingança, eis que João, que acabou assassinado, fora empregado de Oscar e por ele teria sido esbofeteado, numa parada de ônibus, pelo fato de lhe reclamar o pagamento de pequenos serviços realizados. Mais tarde, teria a vitima concordado em servir de testemunha numa ação trabalhista contra o mesmo. 77 Houve flagrante, que foi homologado, e expressamente mantida a prisão dos réus. A denúncia, classificando o delito como homicídio qualificado, consumado e tentado, foi aceita pela pronúncia que, por sua vez, foi mantida por acórdão da egrégia 3? Câmara Criminal deste Tribunal. Submetidos a julgamento, entenderam os jurados de os condenar como requerido pelo Ministério Público — homicídio qualificado. E o magistrado, atendendo às variáveis do art. 42, lhes graduou as penas em 14 anos e 2 meses de reclusão, para o paciente, e 14 anos para Lauro. Inconformados, apelaram. E, ainda, a mesma 3? Câmara Criminal entendeu de anular o julgamento por extrema deficiência de quesitos (quesitos complexos, construídos na forma negativa, quesitos de autoria singular, quando se trata de co-autoria, etc.). Em várias ocasiões têm os réus solicitado revogação de prisão, liberdade provisória, etc.. E sempre lhes tem sido negado. Em 8 de maio de 1981; na pronúncia; em 8 de julho de 1981; no acórdão da 3? Câmara Criminal, que manteve a pronúncia. E agora, anulado o julgamento, permaneceu a pronúncia, que garantiu a prisão. O paciente, efetivamente, acha-se preso desde a noite do fato, isto é, 18-4-81, quando foi encontrado na «boate do Elo». Deverá ser novamente julgado na primeira reunião do Tribunal do Júri do corrente ano, aprazada para março vindouro. 11. Em complementação, informo-lhe a respeito das datas: 7-5-81 — recebimento da denúncia; 8-6-81 — pronúncia; 78 R.T.J. — 109 1-10-81 — manutenção da julgamento desfavorável anterior, pronúncia pela 3? Câmara Crimi- não menos exato é que, até a sentennal; ça de pronúncia, a 8-6-1981, inocorexcesso de prazo na prisão pro30-3-82 — julgamento pelo reu visória do acusado. O espaço de temTribunal do Júri; po, a seguir, até o julgamento, de2-9-82 — entrada da apela- correu do apelo que a defesa Interção na Câmara; pôs, sem sucesso, contra a pronúncia. Condenado, a apelação haveria 27-9-82 — parecer do Minis- de processar-se, mantida a prisão, já tério Público e agora em face do veredito do Tribug) 2-12-82 — julgamento da nal do Júri. Anulado o julgamento, apelação, anulando o Júri. opera a decisão de pronúncia, que, No momento, a última decisão na conformidade do art. 408, § I?, do aguarda a confecção datilográfica CPP, legitima a permanência do réu do acórdão já lavrado, para ser pu- na prisão, até ser julgado. blicada.» Vê-se, dessa maneira, que não há ilegalidade na custódia do paciente, Oficiando nos autos, opinou a dou- embora o lapso de tempo já decorrita Procuradoria-Geral da República, do, a contar de 18-4-1981. Releva noàs fls. 13/16, pelo não conhecimento tar, outrossim, que as informações do pedido ou, se conhecido, pelo seu esclarecem terem sido, invariaveldesprovimento. mente, denegadas, em ambas as insE o relatório. tâncias, as súplicas de liberdade provisória e revogação da prisão dos VOTO acusados. Não há, portanto, a esta altura, O Sr. Ministro Néri da Silveira se anuncia o novo julgamen(Relator): Preso a 18-4-1981, recebi- quando to do paciente co-réu, pelo Trida a denúncia a 7 do mês seguinte, bunal do Júri, enoseu mês em curso, rafoi pronunciado o paciente a 8-6-1981. zão de direito suficiente a justificar Recorreu da sentença de pronúncia, a concessão da ordem, a fim de ser o sem êxito, consoante julgamento da posto em liberdade e, nessa Corte estadual a 1-10-1981. Mantida, paciente aguardar o veredito popuAssim, a decisão de pronúncia e sub- situação, lar. metido o paciente a julgamento, Indefiro, dessarte, o habeas corcondenou-o o Tribunal do Júri, a 30- pus. 3-1982, sendo a pena fixada em 14 anos e 2 meses de reclusão, por hoEXTRATO DA ATA micídio qualificado, e o co-réu, seu HC 60.622-RS — Rel.: MM. Néri da irmão, a 14 anos de reclusão. Apelaram, sendo anulado o julgamento, Silveira. Pacte.: Oscar Candido da por deficiência de quesitos, a 2-12- Silva. Impte.: Wilson Ogata. Coator.: 1982, pelo Tribunal de Justiça, Tribunal de Justiça do Estado do Rio informando-se que o novo julgamen- Grande do Sul. to deverá ocorrer na primeira reuDecisão: Indeferiu-se o pedido de nião do Tribunal do Júri da Comarca habeas corpus. Decisão unânime. de Sapucaia do Sul, no mês em curPresidência do Senhor Ministro so. Soares Mutioz. Presentes à Sessão os Se é certo que longa é a duração Senhores Ministros, Néri da Silveira, da custódia do paciente, sem estar Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Aucondenado, em face da anulação do sente, justificadamente, o Senhor R.T.J. — 109 Ministro Rafael Mayer. Subprocura- dor-Geral da República, Dr. Francis- co de Assis Toledo. 79 Brasília, 15 de março de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS R? 60.952 — MG (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Recorrente: Rudson Lopes — Recorrido: Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais. Direito penal. Espancamento de preso por policial militar. Processo e Julgamento do delito de abuso de autoridade pela Justiça comum, ainda que praticado por policial militar no exercício da função administrativa civil. Processo penal. Se o quantum da pena comporta, em principio, o favor legal da suspensão condicional, deve o Juiz pronunciar-se sobre a sua concessão, observados os pressupostos legais. 3. Provimento em parte do recurso de habeas corpus. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do Julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial do recurso de habeas corpus. Brasília, 10 de junho de 1983 — Soares Mutioz, Presidente — Alfredo Buzaid, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Rudson Lopes, por seus advogados Dilson Leite de Carvalho e outros, impetrou ordem de habeas corpos, perante o Eg. Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais, contra decisão do MM. Juiz de Direito da comarca de Carlos Chagas, que o condenou por crime de abuso de autoridade, previsto na Lei n? 4.898, de 9 de dezembro de 1965. Alegou a inépcia da denúncia e da representação, a autoria não positivada, a incompe- ténia da Justiça comum para o processo e Julgamento e, por fim, ausência de fundamentação da sentença, inclusive quanto à suspensão condicional da pena. O Tribunal a quo, por sua Primeira Câmara Criminal, denegou a ordem: irresignado, recorreu, com fundamento no artigo 119, II, c, da Constituição da República. Ouvida a douta Procuradoria-Geral da República, em parecer da lavra do ilustre Procurador Alvaro Augusto Ribeiro da Costa, aprovado pe- lo eminente Professor Francisco de Assis Toledo, assim se manifestou, verbis: Cuida-se de pedido de anulação do processo em que o paciente foi condenado pela prática de abuso de autoridade. Como fundamentos da impetração, alegou-se: a) inépcia da denúncia e da representação; b ) autoria não comprovada; c) incom petência da Justiça comum: d) ausência de fundamentação da Sentença, inclusive quanto ao sumis. 84) R.T.J. — 109 Denegado o pedido, veio a ser tempestivamente oposto recurso denominado de extraordinário ( v. fls. 75). Merece conhecimento o recurso, como ordinário, porque tempestivo e amparado pelo art. 119, II, c, da vigente Lei Maior, c/c o art. 579 do Código de Processo Penal. No mérito, não assiste razão ao recorrente, quanto à argüida incompetência da Justiça comum. O acórdão recorrido, no particular, louvou-se na jurisprudência da Suprema Corte, segundo a qual «O processo e julgamento de delito de abuso de autoridade, previsto apenas na lei penal comum, compete à Justiça comum, ainda que praticado por policial militar no exercício da função administrativa civil» (Conflito de Jurisdição n? 6.351, in DJ 14-5-82, pág. 4.566). 7. Por outro lado, não se mostra inepta a denúncia de fls. 9/10, que satisfaz as exigências do art. 41 do CPP, assim descrevendo os fatos geradores da ação penal: «Na madrugada de 12 de dezembro do ano em curso, por volta das 2:00 horas, no bar de propriedade do Sr. João Gomes dos Santos, localizado à rua São Paulo n? 580, nesta cidade, encontrava-se a vitima Eduardo Pego dos Santos que tomava conta do referido estabelecimento. A vítima fechou o bar e dirigiuse para a residência de um colega, próxima ao dito estabelecimento, onde costumava dormir. Quando, porém, tentava abrir a porta de casa, a vítima fora surpreendida pelo denunciado que, saltando de um veiculo marca Fiat, cor azul-claro, se investiu contra a mesma, agarrando-o pe- lo braço, ameaçando-a: «não corre não; se você correr, te corto na bala». Ato continuo, empurrou-a para o interior do veículo e seguiu em direção à cadela, onde, sem nenhum motivo justo trancafiou a vítima, e como se não bastasse tamanho abuso, foi mais além, isto é, espancou-a, ocasionando-lhe as lesões descritas no a.c.d. incluso». Outrossim, igualmente válida é a representação de fls. 11, sendo de notar-se que até mesmo sua ausência, se verificada, não comprometeria a atuação do Ministério Público, diante dos termos do art. 1? da Lei n? 5.249, de 9-2-67, que expressamente dispôs não ser a falta de representação do ofendido, nos casos de abuso de autoridade (Lei n? 4.898/65), óbice à iniciativa da ação pública. Quanto à negativa de autoria, argüida na impetração, cuida-se de tema que, por envolver o reexame, em profundidade, de todos os fatos e circunstancias levadas em conta pela sentença de fls. 30/31, não se comporta no âmbito do habeas corpus. No que concerne à alegada ausência de fundamentação da sentença, o impetrante somente tem razão quanto ao sursis, pois não se cumpriu o disposto no art. 697 do C. Pr. Penal. Por esse motivo — e considerando a jurisprudência do Supremo Tribunal sobre a matéria ( v., para exemplos, as RTJ's n?s 50/848, 61/669 e 94/149) — somos pelo parcial provimento do recurso, a fim de que seja suprida, no juízo de primeiro grau, a omissão concernente ao benefício do sumis» ( fls. 88/90). E o relatório. R.T.J. — 109 81 decidido aqui, sendo Relator o eminente Ministro Rafael Mayer, assim O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Re- ementado: lator): O recorrente foi condenado «Crime de abuso de autoridade. pela prática do crime do art. 3?, da Policial militar no exercício de poLei n? 4.898/65, por haver espancado liciamento civil. Competência. Lei um preso, procedendo, assim, com n? 4.898/65, art. 4?, a e b. O procesabuso de autoridade. Na r. sentença so e julgamento de delito de abuso de 1? grau foi fixada pena de detende autoridade, previsto apenas na ção de 3 meses, além de pena aceslei penal comum, compete à Justisória de inabilitação temporária paça comum, ainda que praticado ra ocupar funções públicas. Não foi por policial militar no exercício da feita referência sobre a suspensão função administrativa civil. Conflicondicional da pena. to de jurisdição conhecido para declarar competente a Justiça CoDo primeiro fundamento da impemum» (RTJ 102/20). tração e reafirmado nas razões deste recurso, pode dizer-se que a denúnPor derradeiro, assiste razão ao cia atende aos ditames do art. 41 do recorrente quanto à parte da r. senCódigo de Processo Penal, pois ali tença, que não se referiu à concesestão presentes todos os requisitos são do sursis, por não ter cumprido o que informam a referida peça. Por disposto no art. 697 do Código de outro lado, consoante foi assinalado Processo Penal. A jurisprudência no parecer supra, a falta ou a Inép- deste Supremo Tribunal Federal, cocia da representação, exigida pelo mo faz certo o seguinte aresto, de art. 1?, da Lei n? 4.898/65, não com- que foi Relator o eminente Ministro prometeria a atuação do Ministério Xavier de Albuquerque, assentou, Público, como dominus Mis, porque como se vê da seguinte ementa: a Lei n? 5.249, de 9 de fevereiro de «Suspensão condicional da pena. 1967, em seu art. 1?, dispõe não ser Se o quantum da reprimenda comóbice à instauração da ação penal a porta, em principio, o favor legal, falta de representação do ofendido deve o juiz pronunciar-se sobre sua ou da vítima de abuso de autoridade. concessão à luz dos pressupostos do art. 57 do Código Penal. RecurPor outro lado, a verificação da so de habeas corpus parcialmente autoria, que o recorrente diz não esprovido» (RTJ 94/149). tar comprovada, importa em reexaAnte o exposto, conheço em parte me da prova dos fatos, que é vedada no estreito âmbito do habeas corpus, e nesta parte dou provimento ao reconsoante reiterada jurisprudência curso, a fim de que o MM. Juiz de desta Eg. Corte (RHC n? 59.709-2-RJ Direito supra a omissão com relação — DJ de 26 de março de 1982, pág. ao benefício da suspensão condicional da pena. 2.563). R o meu voto. Ainda, com relação à incompetência da justiça comum para julgar o EXTRATO DA ATA recorrente, por ser policial militar, vale ressaltar que a jurisprudência RHC 60.952-MG — Rel.: Min. Alfredesta Colenda Corte se orienta no do Buzaid. Recte.: Rudson Lopes. mesmo sentido do v. acórdão recor- (Advs.: Dilson Leite de Carvalho e rido, como se pode ver através do outros). Recdo • Tribunal de Alçada Conflito de Jurisdição n? 6.351-MG., do Estado de Mings Gerais. VOTO 82 R.T.J. — 109 Decisão: Deu-se provimento em parte ao recurso de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. João Boabaid de Oliveira Itapary. Brasília, 10 de junho de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. HABEAS CORPUS N? 61.004 — DF (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves. Paciente: Wilson Sichieri — Coator: Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Habeas corpus. Prisão civil. Depositário tido como Infiel no Juizo cível. — E ao Juizo civel que Cabe, em face das provas constantes dos autos da ação própria, decidir se houve, ou não, depósito, e se o depositário foi, ou não, infiel. Tais decisões, evidentemente, não podem ser reexaminadas em habeas corpus. — Ora, no caso, admitida, no juízo competente, a qualidade de depositário infiel, não há Ilegalidade na decretação da prisão civil, que a qualquer instante, pode ser ilidida pela devolução da coisa depositada ou do equivalente em dinheiro. Habeas corpus indeferido. ACORDA() Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, indeferir o pedido de habeas corpus. Brasília, 30 de agosto de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Moreira Alves, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Moreira Alves: Em favor do ora paciente foi impetrado habeas corpus, sob o fundamento de que, não sendo ele depositário de 28 vacas arrestadas, por falta de sua assinatura e compromisso no auto do arresto, é ilegal o decreto de prisão civil que contra ele foi expedido em virtude de decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Prestadas informações a fls. 49 e seguintes, assim se manifestou a Procuradoria-Geral da República, em parecer do Dr. Francisco de Assis Toledo (fls. 175/176): «1. Cuida-se de impetração que sustenta ser ilegal o constrangimento infligido ao paciente através de decreto de prisão civil, considerado que foi depositário infiel. 2. Alega o impetrante não ser o paciente depositário, de vez que não firmou o auto de arresto via do qual se lhe atribuiu essa condição. Além disso, afirma-se ainda o descabimento da coação em face da impossibilidade — já reconhecida judicialmente — da restituição dos animais depositados. R.T.J. — 109 Não se afigura procedente, todavia, a negativa da condição de depositário. No particular, o acórdão de fls. 168/173 observou, com acerto, que a simples falta de assinatura e de compromisso no auto de arresto ( v. fls. 35) não poderia elidir a responsabilidade do paciente, que foi nomeado depositário (v. fls. 18/20), teve o gado recebido por preposto seu em sua fazenda e dela o transferiu para outra, não tendo negado, em nenhum momento, a posse dos animais recebidos. Por outro lado, admitida pelo acórdão a condição de depositário infiel, cabível era a decretação da prisão, «em face de oferta de pagamento do gado muito aquém do seu real valor» ( fls. 172). Ora, o que se tem admitido como capaz de elidir a prisão é a devolução da coisa ou do equivalente em dinheiro. Não se dispondo o paciente a fazer qualquer dessas hipóteses, submete-se ao ato de constrição que lhe foi imposto. O mais constitui matéria de mérito decidida na ação civel, irrevisível no âmbito do habeas corpus. Pela denegação da ordem, é o parecer.» É o relatório. VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves (Relator): 1. E ao juizo civel que cabe, em face das provas constantes dos autos da ação própria, decidir se houve, ou não, depósito, e se o depositário foi, ou não, infiel. Tais decisões, evidentemente, não podem ser reexaminadas em habeas corpos. 2. Ora, no caso, admitida, no juizo competente, a qualidade de depositário infiel, não há ilegalidade na decretação da prisão civil, que, a 83 qualquer instante, pode ser elidida pela devolução da coisa depositada ou do equivalente em dinheiro. 3. Em face do exposto, e não havendo ilegalidade da decretação da prisão em causa, acolho o parecer da Procuradoria-Geral da República, e indefiro o presente habeas corpus. VOTO (PRELIMINAR) O Sr. Ministro Aldir Passarinho: Sr. Presidente, acompanho o voto do eminente Relator, por falta de prequestionamento de vários dos artigos mencionados como malferidos ou cuja vigência teria sido negada, exceto com relação ao art. 330 do Código de Processo Civil, em parte, posto que, neste ponto, o eminente Relator mostra que não haveria por que a exigência da perícia, não podendo o recorrente, no caso, exigi-la. Na inicial, pleiteia-se por todas as provas permitidas, indicando, especificamente, a perícia. O MM. Juiz, segundo a forma habitual, pediria a especificação de provas, ou, então, deveria indicar aquelas que achasse necessárias para o esclarecimento da questão. O que se verifica, entretanto, na hipótese, ante a análise feita pelo ilustre Ministro Moreira Alves, Relator, quanto ao art. 330 do Código de Processo Civil, é que o MM. Juiz naturalmente entendeu que ela era desnecessária, interpretação essa julgada aceitável por S. Exa. EXTRATO DA ATA HC 61.004-DF — Rel.: Min. Moreira Alves. Pacte.: Wilson Sichieri (Advs.: Flamarion Daia, Jesse Alexandre Burns). Coator: Tribunal de Justiça do Distrito Federal. 84 R.T.J. — 109 Decisão: Indeferido o pedido, à unanimidade de votos. Falou pelo Pacte.: o Dr. Jesse Alexandre Burns. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 30 de agosto de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.099 — RS (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Recorrente: Juarez Nunes Ubatuba — Recorrido: Tribunal de Alçada do Estado do Rio Grande do Sul. Habeas corpus. Primeira denúncia declarada inválida. Nova denúncia do Ministério Público sem qualquer circunstância nova. Narrativa de fato que não configura crime de estelionato. 3. Habeas corpus concedido para trancar a ação penal. ACORDA° «Trata-se de Habeas Corpus preventivo visando o trancamento da ação penal, em última análise ou Vistos, relatados e discutidos estes porque o fato narrado evidenteautos, acordam os Ministros da Primente não constitui crime ou pormeira Turma do Supremo Tribunal que o próprio fato apurado tamFederal, na conformidade da ata do bém indubitavelmente não configuJulgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em ra infração penal. dar provimento ao recurso de haSem razão o nobre impetrante, beas corpus. pois, a narrativa da nova denúncia Brasília, 9 de agosto de 1983 — oferecida contra o paciente, em Soares Mutioz, Presidente — Alfredo virtude de anulação da anterior, Buzaid, Relator. por esta Câmara, se ajusta à descrição típica do estelionato (ver RELATORIO fls. 7), não havendo de outro lado, nas peças de informação, elementos suficientemente claros de que o O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: O que houve foi um mero ilícito civil. bacharel Marco Antônio Miranda Guimarães impetra, perante o Eg. Nestas condições, não incidindo o Tribunal de Alçada do Estado do Rio art. 43, inc. I, do CPP, satisfeitos Grande do Sul, ordem de habeas os pressupostos processuais e as corpus, em favor de Juarez Nunes condições da ação, inadmissível o Ubatuba, alegando que a denúncia ( fls. pretendido trancamento» do Ministério Público expõe fatos 59/60). inexistentes ou que os mesmos são atípicos. Inconformado, recorreu o impeA Eg. Segunda Cãmara Criminal trante para este Colendo Tribunal, do Tribunal de Alçada denegou a or- consoante art. 310 do Regimento Indem, nestes termos: terno. R.T.J. — 109 Ouvida a douta Procuradoria-Geral da República, em parecer da lavra do ilustre procurador Cláudio Lemos Fontelles, aprovado pelo eminente Professor Francisco de Assis Toledo, DD. Subprocurador-Geral, assim se manifestou, verbis: «1. O Dr. Marco Antônio Miranda Guimarães considera que a nova denúncia, ajuizada contra Juarez Nunes Ubatuba, em nada discrepou da primeira acusação formulada, e rejeitada em pronunciamento recursal da 2? instância, ao entendimento de que «o fato narrado não constitui crime» (vide: acórdão a fls. 39). Indeferida a postulação, fazse o recurso. Aderimos às razões de Juarez Ubatuba. Ora, a primeira denúncia invalidada assim narrou o evento, verbis: «Em dois de julho de 1980, em horário comercial, na Rua Dr. Timóteo, n? 777, nesta cidade, o denunciado, proprietário da firma Kopi Empreendimentos Imobiliários Ltda., contratou com Gilceu Fragoso Majeswki a construção de uma casa, conforme documentos anexos, pela importância de Cr$ 90.000,00 (noventa mil cruzeiros), recebendo para tanto, em oito de julho do mesmo ano, conforme recibo apenso, a importância de Cr$ 45.000,00 (quarenta e cinco mil cruzeiros) em adiantamento. Findo o prazo contratual o denunciado nada cumpriu daquilo que se havia obrigado nem devolveu o dinheiro recebido, apesar de muitas vezes solicitado a assim fazer». Com vista dos autos à ciência do julgado que desconstituira a peça acusatória, o Dr. Promotor Público «para não pedir diretamente 85 o arquivamento deste feito» — fls. 40 — sugeriu o envio dos autos à Chefia do parquet, pois, verbis: «Juarez Nunes Ubatuba, na conformidade dos elementos contidos no inquérito que embalaram a denúncia, praticou um fato tal e qual o descrito na peça vestibular anulada, nada mais havendo a acrescentar ou diminuir.» (Vide fls. 40, grifamos). Como a Procuradoria-Geral da Justiça se decidisse pelo retorno dos autos à Promotoria local a pronunciamento conclusivo (fls. 44), surge então nova denúncia, com o seguinte acréscimo, verbis: «O denunciado recebeu, ainda, uma promissória firmada pela vitima que deveria ser cobrada quanto da entrega do imóvel, devidamente construído nas condições contratuais. O denunciado logrou induzir a vítima em erro usando o artificio de solicitar preço muito reduzido, bem como prazo exíguo, para a construção do imóvel a qual, pelas suas dimensões e características, sabia não ser possível executar, bem como não ter ele (denunciado) suporte material para tanto». (Vide fls. 7). Mas este adendo traz circunstância nova? Cremos que não. O recebimento da promissória está na razão do pactuado e, de per se, não configura o artificio delituoso, obviamente. 10. Quanto a dizer-se do preço muito reduzido; do prazo exígto; e da impossibilidade de execução do oferecido pelas dimensões e características da obra, tais situações, também amplamente avaliadas pelo proprietário, dito lesado, não se poderia constituir em artificio criminoso. Não cumprido o aven- 86 R.T.J. — 109 çado, resta a pura inadimplência contratual, com efeitos restritos ao âmbito da jurisdição cível. Por outra perspectiva, o objeto do contrato não autoriza a conclusão, firmada na opinlo delicti, do distanciamento entre o preço e a extensão do que construído deveria ser, pois em julho de 1980, por Cr$ 90.000,00 fez-se a proposta de construção de uma pequeníssima casa pré-fabricada de 33,48 m2 (vide contrato a fls. 13). Por não se ter alterado o quadro da postulação primeira, como nela descrito, com a nova denúncia ajuizada, e uma vez eliminada aquela pelo reconhecimento judicial da atipicidade criminal do narrado, perduram os efeitos dessa decisão à realidade que se repetiu. 13. Somos pelo provimento do recurso» (fls. 78/81). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Relator): A denúncia imputa ao paciente a prática de um crime de estelionato, consubstanciado no art. 171 do Código Penal. Diz que tratou com terceiro a construção de uma casa de madeira, tendo recebido metade do pagamento avençado, mas que sequer iniciou os trabalhos. A acusação imputa como dolosa a conduta do recorrente por haver estipulado preço mínimo para o serviço contratado, sendo que esse artifico levou a vitima a aceitar a proposta, caindo, assim, em erro, do que obteve aquele a vantagem indevida. Conquanto seja corrente na jurisprudência desta Eg. Corte que no habeas corpus é defeso o exame aprofundado da prova (HC n? 59.9346-RS — DJ de 13-8-82, pág. 7.586), na espécie não se pode deixar de fazer pelo menos um exame perfunctório dos elementos vindos para os autos, embora isso não importe diretamente no exame da prova. recorrente foi denunciado duas vezes pelo mesmo fato, em ocasiões diferentes pois a primeira denúncia foi julgada inepta em grau de recurso, depois de condenado em primeiro grau. Com a volta dos autos à comarca de origem, não ofereceu o órgão do Ministério Público outra denúncia, quiçá por já antever a inexistência de crime ou porque os elementos indiciários não mostravam uma figura típica, capaz de ensejar a persecutio criminis por estelionato. Pediu, em conseqüência, a remessa dos autos ao Procurador-Geral da Justiça, nos termos do art. 28 do Código de Processo Penal. Os autos foram devolvidos, com cota daquela autoridade, «para que o Dr. Promotor se manifeste fundamentadamente sobre o arquivamento do inquérito de acordo com o referido no art. 28 do Código de Processo Penal, ou ofereça denúncia, se entender que novos elementos surgiram além do apurado no IP» (fls. 44). Sem esses «novos elementos», o Dr. Promotor local ofereceu a segunda denúncia, estando o recorrente, por isso, sendo processado. Dessarte vê-se, de antemão, que os elementos dos autos não fornecem um quadro nítido de existência de pressupostos válidos à persecutio criminis, constituindo esta, já instaurada, coação ilegal. Ante o exposto, dou provimento ao recurso, a fim de trancar a ação penal intentada contra Juarez Nunes Ubatuba. o meu voto. VOTO Sr. Ministro Rafael Mayer: Sr. Presidente, estou de acordo com o eminente Relator, por outro fundamento. R.T.J. — 109 Estabelecer-se se há ilícito civil ou Ilícito criminal, se há, ou não, dolo, é uma indagação, em profundidade, que dificilmente se poderia resolver no âmbito do habeas corpus. Repetida a denúncia que foi tida por inepta, ela continua inepta. Assim, dou provimento ao recurso. EXTRATO DA ATA RHC 61.099-RS — Rel.: Min. Alfredo Buzaid. Recte.: Juarez Nunes Ubatuba. (Adv.: Marco Antonio Miranda Guimarães). Recdo.: Tribunal de Alçada do Estado do Rio Grande do Sul. 87 Decisão: Deu-se provimento ao recurso de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 9 de agosto de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. RECURSO DE RAMAS CORPUS N? 61.109 — MG (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves. Recorrente: Mathias Enéas Mescolin — Recorrido: Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais. nal. Habeas corpus. Interpretação do artigo 171, ii C, II, do Código Pe- O citado dispositivo não contempla a hipótese de promitente comprador que não registra sua promessa, e, por isso, não pode opti-la ao que, posteriormente, recebeu de promitente vendedor o mesmo imóvel alienationis causa ou em garantia e registrou o instrumento em que se consubstanciou esse segundo negócio Jurídico. Possibilidade, porém, de o fato, em face de circunstâncias ocorrentes no caso, mas não descritas na denúncia em causa, vir a constituir crime previsto em outro dispositivo penal. Recurso ordinário provido em parte, para declarar inepta a denúncia. ACORDA() Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, prover o recurso nos termos do voto do Relator. Brasília, 2 de setembro de 1983 — Optei Falcão, Presidente — Moreira Alves, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Moreira Alves: E este o teor do acórdão recorrido (fls. 71/79): «O Sr. Juiz-Presidente: «Encontrase inscrito para falar pelo paciente Dr. Sidney F. Safe Silveira, a quem tenho a honra de dar a palavra neste instante.» (O advogado proferiu a sustentação oral). O Sr. Juiz Guimarães Mendonça: «Ouvi, atentamente, a sustentação 88 R.T.J. — 109 oral feita da tribuna, pelo ilustre Dr. Sidney Safe Silveira, e, tenho voto escrito, onde analiso todos os aspectos por ele abordados da tribuna. Passo a proferi-lo, neste instante: Os Drs. Nilo Batista e Sidney F. Safe Silveira, brasileiros, casados, advogados, devidamente qualificados na inicial, com fundamento no art. 153, § 20 da Constituição Federal e art. 648, I, do CPP, solicitam a concessão de ordem de habeas corpus em favor de Mathias Enéas Mescolin, brasileiro, casado, empresário e advogado, residente na Av. Rio Branco, 2.900/1.601, em Juiz de Fora. Em síntese, argúem os impetrantes que o paciente está sofrendo constrangimento ilegal face à ação penal contra o mesmo ajuizada na 19 Vara Criminal da Comarca de Juiz de Fora, para a qual falta a justa causa. Argúem que o paciente foi denunciado como incurso nas sanções cominadas pelo art. 171, § 29, inciso I do Código Penal, e nessa modalidade, pressupõe a lei penal, que a coisa dada em garantia seja alheia. Argúem que — «ao paciente, e a seus sócios, se imputa o crime de «dar em garantia coisa alheia», porque, no licito exercício de atividade comercial, sua empresa gravou de hipoteca apartamento que prometera vender por contrato particular não inscrito. Falar-se de coisa alheia com respeito a esse apartamento, apenas compromissado à venda, é um disparate inaceitável. Os fatos são atípicos, e sendo assim não há justa causa para a ação penal» (fl. 9). Ante tais motivos, solicitam a concessão da ordem de habeas corpus com o fito de verem trancada a ação penal contra o paciente. A inicial foi instruída com os documentos constantes de fls. 13/29. Solicitadas informações à digna autoridade apontada como coatora, prestou-se às fls. 41/44 e, acompanhando-as, vieram os documentos de fls. 45/65. Indo os autos à Procuradoria da Justiça, opinou no feito o digno Procurador de Justiça Dr. Reynaldo Lopes, o qual manifestou-se pela denegação da ordem. Conforme se vê da denúncia ofertada pelo digno Promotor de Justiça, narra ela, que a Imobiliária Roma Ltda., que teve sua razão social posteriormente alterada, «vendeu a Marcus de Lima Moreira, através de contrato promissório, o apartamento n? 616 e respectiva fração ideal de terreno, no Ed. Fagundes Netto (então em construção), situado à Rua São Mateus, nesta cidade, pelo preço certo e ajustado de Cr$ 250.000,00»... Prosseguindo, afirma que o preço foi pago — «em duas prestações, sendo a primeira delas, no ato da assinatura do Contrato Particular de Promessa de Compra e Venda e Construção, do valor de Cr$ 240.000,00 (duzentos e quarenta mil cruzeiros) e a segunda e última no dia 30-12-78 e do valor de Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros), tudo na conformidade do instrumento de contrato e promissória, quitados, em anexo». Transcreve a denúncia a cláusula terceira do contrato promissório, onde se vê que a promitente vendedora se obriga a outorgar a escritura definitiva ao promissário comprador ou quem por ele for indicado, estipulando a cláusula 10? ser o contrato celebrado em caráter irrevogável, irretratável e inarrependivel. Mais adiante, narra a denúncia, — que a empresa vendedora, por seus sócios epigrafados, depois de haver recebido, pontualmente e na sua integralidade, todo o dinheiro proveniente do negócio realizado, dirigiu-se à Agência da Caixa Econômica Federal e ali, sempre alentados pela voracidade do ludíbrio, R.T.J. — 109 deu mesmo imóvel em garantia hipotecária de um empréstimo obtido junto àquela Instituição Financeira. Locupletaram-se, assim, a empresa e conseqüentemente os seus referidos sócios à custa do patrimônio alheio, pois, receberam todo o dinheiro da venda do comprador e, em seguida, receberam, também, do Agente Financeiro Emprestador». Afirma, mais a peça inaugural, que o ora Paciente e seus sócios agiram em conjunto, discutindo preço e condições do negócio, receberam o dinheiro na sua totalidade em nome da empresa, mantiveram contactos por telefone e pessoais com a vitima e, posteriormente, o. Paciente e Amauri Messias dos Reis Benet, compareceram no contrato de mútuo celebrado com a Caixa Econômica Federal. Tormentosa é a distinção entre fraude civil e penal, sendo, realmente, delicada a matéria. E certo que face ao contrato promissório que instrui o presente pedido, quitado inclusive antes do prazo nele avençado, teria o promitentecomprador o direito à chamada adjudicação compulsória, que é no dizer do eminente Prof. Darcy Bessone — «simples forma coativa e especifica de uma obrigação de fazer» (Da Compra e Venda, n? 60, pág. 170). As promessas de compra e venda de imóveis ainda que não registradas, contêm obrigação de outorga de escritura definitiva por parte do promitente vendedor, uma vez cumpridas as obrigações do promitente comprador. Por não se encontrar inscrito no Reg. Imobiliário da comarca o contrato promissório de compra e venda, à vitima, restou um direito pessoal, de cunho obrigacional. Se inscrito o contrato, com sua inscrição nasceria o direito real e com ele o de seqüela, e como sabido, tornaria Me- 89 ficaz os atos jurídicos praticados pela empresa em relação ao apartamento prometido à venda. Evidentemente, o contrato promissório de compra e venda, ainda que quitado e inarrependível, não transfere o domínio. Entretanto, a meu sentir, narra a denúncia um fato delituoso, imputando aos denunciados o fato de que, deram em garantia à Caixa Econômica Federal, em contrato de mútuo, um apartamento já prometido à venda, com o preço totalmente pago, sendo o contrato inarrependivel. Evidentemente, no âmbito do habeas corpus, somente se pode reconhecer falta de justa causa para a ação penal, quando há «divórcio entre a imputação tática contida na denúncia e os elementos de convicção em que ela se apóia, quando a desconformidade entre a imputação feita ao acusado e os elementos que lhe servem de supedâneo por incontroversa, transiúcida e evidente, revelando que a acusação resulta de pura criação mental de seu autor. Em face da natureza do babeas corpus, não é possível em seu âmbito o confronto e a valoração de provas (TACrim/SP RT 527/355, in Código de Processo Penal Anotado, Damásio E. de Jesus, pág. 376). Realmente, entre o fato narrado na denúncia e a capitulação efetivada pelo Dr. Promotor de Justiça, existe ligeiro divórcio, vez que narra o fato de que, a empresa, por seus diretores, deram em hipoteca um apartamento já prometido à venda, sendo que o adquirente já havia pago todo o preço avençado, sendo inarrependivel o contrato. Por não ter transferido o domínio, mencionado apartamento ainda pertence ao proprietário, ou seja, à empresa. Entretanto, veda a lel penal, no art. 171, § 2?, inciso II, a dação em garantia de coisa própria, já prometida a venda a terceiro. 90 R.T.J. — 109 Evidentemente, não eStá o Juiz sujeito á capitulação feita pela denúncia, podendo dar outra definição jurídica aos fatos narrados na denúncia. Ante o exposto, denego a ordem.» Sr. Juiz Rubem Miranda: «Sr. Presidente, pela relevância da matéria e porque, na condição de 1? Vogal, não tive qualquer contato com os autos, peço vista.» Sr. Juiz-Presidente: «O relator denegava a ordem. O primeiro Vogal solicitou adiamento a fim de melhor examinar o pedido.» Sr. Juiz-Presidente: «O julgamento deste feito foi adiado na sessão anterior, a pedido do Juiz Primeiro Vogal, após o voto do eminente Juiz relator, que denegava a ordem.» Sr. Juiz Rubem Miranda: «Sr. Presidente: Trata-se de habeas corpus impetrado a favor de Mathias Enéas Mescolin visando o trancamento da ação penal que a Justiça Pública lhe move como incurso no art. 171, 2?, I, do Código Penal, por ter dado em garantia coisa alheia como própria. A iniciativa da ação penal coube à própria vítima que representou diretamente ao Juiz da 1? Vara Criminal de Juiz de Fora, como dispensa do inquérito policial, por julgar suficiente a documentação que junto à representação. Aberta vista, o Ministério Público ofereceu denúncia que foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal. Em conseqüência veio a nova denúncia, fundada no fato de que a vítima, Dr. Marcos de Lima Moreira, é promitente comprador do apartamento 616, edifício Fernando Fagundes Neto, situado em Juiz de Fora e que, depois desse contrato de compra e venda, a empresa promitente vendedora, representada pelo denunciado, ora paciente, deu o edifício em hipoteca à Caixa Econômica Federal, inclusive o apartamento prometido à venda. Pelos fatos narrados existe, realmente, o crime em tese, suficiente para instauração da ação penal. E certo que a promessa de compra e venda não transfere o domínio, mas ninguém nega que, por ela, o promitente comprador se imite na posse do imóvel. Desta forma existe, em sentido amplo, a «coisa alheia» exigida para caracterização da modalidade capitulada na denúncia. «Cumpre advertir — ensina Nelson Hungria — que outras fraudes, além das especialmente previstas, a propósito de venda, promessa de venda ou oneração de imóveis, nos incisos I e II do 2? do art. 171, podem não escapar de incidência na forma genérica do estelionato ( art. 171, caput). (Comentários ao Código Penal, Forense, ed. 1955, vol. VII, pág. 232). Assim é recomendável o prosseguimento do processo, devendo os motivos articulados pela defesa serem apreciados pela sentença ou em grau de recurso na hipótese de condenação. Para o trancamento da ação penal exige-se que a ausência de justa causa seja palpável, reconhecível à primeira vista, independentemente de prova ou maiores indagações. No caso dos autos a falta de tipicidade não resulta com clareza que seria de se exigir para o trancamento da ação. Já decidiu o Excelso Supremo Tribunal Federal que, «se o fato constitui, em tese infração penal, há justa causa para o procedimento penal» (HC n? 30.007, Relator Ministro Lafaiete Andrade, Rev. For. Vol. 115/571). Pela mesma forma voltou a decidir a Suprema Corte no habeas R.T.J. — 109 91 corpus n? 31.078, Relator Ministro considerada aquela a quem se deu Orozimbo Nonato, com a seguinte o imóvel em garantia, sem que a ementa: \ falta de representação dessa, por desnecessária, nulifique o proces«Só na pótese de que o fato so. denunciado não constitua crime sível obter por via em tese, é Inadmissível, concessa venta, é o de habeas rpus, o trancamento trancamento da ação penal a que do p (Rev. citada, vol. responde o paciente, pelo que 134, pág. 23 ). acompanho os votos proferidos pelos Eminentes Juizes Relator e 1? Não é o caso dos autos, onde Vogal, e, também, denego a ordem em tese, o ilícito penal existe. impetrada. Por estas razões, embora reconhecendo a excelência da tese Custas, na forma da lei.» brilhantemente sustentada pelos O Sr. Juiz- Presidente: «Denegailustres advogados impetrantes, ram a ordem.» denego a ordem. Interposto recurso ordinário, sobre Custas ex lege. ele assim se manifesta a ProcuraO Sr. Juiz Edelberto Santiago: doria-Geral da República (lis. «Sr. Presidente, 95/97): LI e ouvi, com a devida atenção, «1. Em favor de Mathias Enéas o excelente memorial e a brilhante Mescolin, o Dr. Nilo Batista ajuisustentação oral que, respectivazou pedido de habeas corpus, susmente produziram os Ilustres tentando a atipicidade criminal do causidicos, conspícuos Juristas e evento, qualificado na denúncia coprofessores eméritos, Nilo Batista mo «dar em garantia coisa alheia, e Sidney Safe da Silveira, tendo como própria»: artigo 171, I 2?, I, acompanhado com bastante intedo Código Penal (Vide: lis. 26). resse a leitura dos votos que me antecederam neste julgamento. Indeferida a pretensão, há o recurso agora subscrito pelo Dr. E, do que li e ouvi, observei que, Safe Silveira. ainda que não se admita, na espécie, estelionato na modalidade que O fato está em que adquirinlhe empresta a peça exordial do do determinado imóvel da «Roma processo, em tese, não estando o Construções e Empreendimentos», Juiz adstrito à classificação dada empresa de Mathias Mescolin, o ciao delito pelo dominus lltis, há intdadão Marcos de Lima Moreira ludivelmente, a possibilidade de se quitou o preço do imóvel dentro em admitir, a final, configurado o cri15 (quinze) dias da feitura do pacto me no seu tipo fundamental, vez promissório de compra e venda que, se há estelionato na dação em (denúncia a fls. 22/213), e deu-o em garantia de imóvel cuja venda a locação a terceiros, quando é surprestações se acha prometida a preendido, 1 (um) ano após com a terceiro, com muito mais razão esretenção dos frutos da locação, tará o delito caracterizado, quando pois que, por essa época Mathias o promitente-vendedor já tenha reMescolin dera o mesmo imóvel em cebido, integralmente, o preço da garantia de empréstimo hipotecáres. rio à Caixa Federal, silenciando Frise-se, ainda, que se trata de sobre a venda e, como não honrasação penal incondicional, pelo que, se o pagamento com a credora, o sujeito passivo pode até mesmo ser imóvel foi excutido. 92 R.T.J. - 109 Comentando o dispositivo em apreço, com razão diz o emérito Prof. Heleno Cláudio Fragoso, verbis: «Trata-se de disposição supérflua, mantida na lei pela impressionante força de inércia do direito. A hipótese se ajusta perfeitamente ao estelionato em seu tipo fundamental» ( In — Lições de Direito Penal — parte especial 2 — pág. 77). Adiante, no exame específico do pacto promissório, mantém-se coerente, verbis: «Tem-se afirmado que não há estelionato na simples promessa de compra e venda que é obrigação de fazer e não se confunde com a venda não se figurando pois, a hipótese prevista no art. 171, § 2?, I (RT 414/247; 417/377; 432/342; 440/336). Não temos a menor dúvida que tal caso se enquadra na cabeça do art. 171. Se o agente, induzindo alguém em erro, promete-lhe vender bem que não possui, obtendo, em conseqüência, vantagem ilícita, pratica o crime de estelionato» (obra citada — pág. 78). A transcrição do pensamento do douto Nelson Hungria — fl. 6 —, data venta não aproveita o recorrente. Deixa, de pronto, bem assente o ilustre doutrinador que a norma comentada contempla a venda, ou permuta, ou garantia, feita pelo dominus, do mesmo imóvel a mais de uma pessoa. Todavia, é desconsiderado o ilícito se negligente o primeiro comprador, outro adquirente se antecipa e promove o antecipado registro. Mas no caso, a obrigação de passar a escritura definitiva, por cláusula contratual expressa — 3?, era do compromissário vendedor — vide . fl 29 — de sorte que não se pode cogitar de negligência, ou incúria do comprador. 10. Por derradeiro, mencionou bem em suas informações o ilustre magistrado a quo a fl.44 , recente decisão da lavra do douto MM. Decio Miranda corroborando a realidade da conduta estelionatária, justo como no caso em exame, quando há a venda, ou a promessa sem menção a gravame hipotecário instituído sobre o bem (RHC n? 59.730 DJ 23-4-82, pág. 3.668). 11.Pelo improvimento do recurso. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves: (Relator): 1. Tem razão o acórdão recorrido quando sustenta, em última análise, que o réu se defende dos fatos que lhe são imputados, sendo certo que, estes, em tese, constituem crime, pouco importa a má classificação que o delito tenha dado á denúncia. 2. A questão que surge, no caso, é a de saber se o comportamento descrito na denúncia configura crime em tese. O aresto recorrido entende que, embora a promessa de compra e venda irretratável e Irrevogável, mas não registrada, não dê margem a direito real em favor do promitentecomprador, pois ela tem eficácia meramente obrigatória, se o promitente vendedor hipotecar o imóvel objeto da promessa poderá ser enquadrado no crime descrito no artigo 171, § 2?, II, do Código Penal, onde se lê: R.T.J. — 109 93 2? parte, págs. 184/185), depois de acentuar, como referência ao dispositivo em causa, que- ele «tem por objetivo acautelar os interesses da gente pobre e humilde que emprega suas economias na aquisição de imóveis a prestações, ao mesmo tempo que cuida não permitir se desvirtui esse gênero de negócios que dia a Esse entendimento encontra apoio dia se tornam mais numerosos», terna lição de Nelson Hungria (Comen- mina por concluir que, se «o comprotários ao Código Penal, vol. VII, sit missário não averbou o seu contrato, ed., págs. 234/235), o qual, ao comen- o dispositivo em apreço não o tutetar o dispositivo em causa (artigo la». A conclusão destrói a afirmação 171, 41 2?, II, do Código Penal), escre- inicial, pois também na hipótese conve: trária — a do registro do compromisso — o dispositivo penal não pro«Finalmente, refere-se o disposi- tege o promitente-comprador, uma tivo legal à preexistente promessa vez que este não pode ser vitima de de venda, quando o imóvel, a coisa dano patrimonial por venda, permue a promessa tenha sido avençada ta ou dação em pagamento ou em mediante pagamento a prestações. garantia do imóvel posteriormente Já aqui, nada importa que a realizada, já que o registro prévio é promissio não tenha sido transcrita oponível contra todos, e impede o reno Registro Imobiliário; mas, note- gistro eficaz de qualquer desses nese: se foi transcrita, constituindo, gócios jurídicos feitos posteriormenassim, direito real, será sujeito te. passivo do crime em questão quem recebe o imóvel alienationis causa 3. Reexaminando, agora, mais ou em garantia; caso contrário, suessa matéria — jeito passivo será o promissário- aprofundadamente já perfilhe'. a interpretação de Nelcomprador.» son Hungria, verifico que a exegeadotada por esse eminente mesEssa lição, por vezes, vem repeti- se de nosso direito penal não é susda na doutrina, como se vê, por tre tentável em face dos termos do disexemplo, em Celso Delmanto, Códi- positivo legal em causa. go Penal Anotado, 4? ed., pág. 227, ao aludir ao sujeito passivo do crime Com efeito, o crime descrito no indescrito nesse artigo 171, II 2?, II: ciso II do 2? do artigo 171 do Código «Sujeito passivo: E quem sofre a Penal, no tocante à promessa de lesão patrimonial, ou seja, aquele venda a terceiro é o de vender, perque recebe a coisa inalienável, mutar, dar em pagamento ou em gagravada ou litigiosa; ou ainda, na rantia, imóvel que se prometeu venÚltima hipótese do inciso, depen- der a terceiro, mediante pagamento dendo de produzir ou não efeitos em prestações, silenciando sobre esreais o compromisso, poderá ser a sa circunstância. Portanto, o fato depessoa que recebe a propriedade lituoso ai descrito pressupõe uma anteriormente prometida a tercei- promessa de compra e venda preexistente (como o próprio Nelson ro, ou este próprio.» Hungria reconhece) e um ato posteJá Magalhães Noronha (Código rior de venda, permuta ou dação em Penal Brasileiro Comentado, vol. V, pagamento ou em garantia do imó«II — vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias.» 94 R.T.J. — 109 vel prometido vender, sem que desse muta ou em pagamento ou em gaato posterior conste a circunstância rantia imóvel objeto de anterior prode preexistir, em favor de terceiro, messa de compra e venda a terceiro, aquela promessa. Ora, como o este- delito este que só ocorrerá se a prolionato, em qualquer de suas modali- messa tiver sido registrada antes do dades, tem como objeto jurídico o registro dos instrumentos desses nepatrimônio, e como, no caso, o meio gócios jurídicos, visto como só então fraudulento é o silêncio sobre a cir- haverá dano patrimonial pela oponicunstância de haver preexistente bilidade erga omnes da promessa repromessa de compra e venda do gistrada. Tal distinção — ao contrámesmo imóvel, o crime descrito no rio do que afirma Nelson Hungria — dispositivo em causa só ocorrerá não tem qualquer influência no sujeiquando alguém vender, permutar ou to passivo, para colocar nessa posider em pagamento ou em garantia, ção, conforme a promessa esteja, ou imóvel que prometeu vender a ter- não, registrada, o que recebeu o ceiro, silenciando sobre esta circuns- imóvel alienationis causa ou em gatância, desde que a promessa pree- rantia, na primeira hipótese, ou o xistente venha a ser registrada no promitente comprador, na segunda. Registro de Imóveis antes de ir a registro, para a constituição do direito O inciso II do 2? do artigo 171 do real correspondente, o instrumento Código Penal não contempla a hipóda venda, da permuta ou da dação tese de promitente •êomprador que em pagamento ou em garantia. O não registra sua promessa e, por isque implica dizer que só pode ser su- so, não pode opb-la ao que, posteriorjeito passivo desse delito o que com- mente, recebeu do promitente pra, permuta ou recebe em dação vendedor o mesmoimóvel alienaem pagamento ou em garantia o tionis causa ou em g rantia e regisimóvel precedentemente prometido trou o instrumento em que se convender a terceiro, sem que essa cir- substanciou esse segundo negócio cunstância conste do instrumento da jurídico. compra e venda, da permuta ou da dação, e desde que esse instrumento E não há, em nossa legislação penão seja registrado antes do registro nal, nenhuma lei que descreva a hidaquela promessa. Este último re- pótese acima como crime, nem mesquisito é exigível, porque, sem a sua mo o caput do artigo 171 do Código verificação, não ocorre qualquer da- Penal, que exige a vítima tenha no patrimonial para o que comprou, sido induzida ouque mantida erro permutou ou recebeu o imóvel em por meio fraudulento, o queem não popagamento ou em garantia, certo co- de ocorrer com o promitente•commo é que a promessa de compra e orador de promessa de imóvel antevenda, mesmo preexistente não é rior ao negócio jurídico que, por falta oponível a terceiros, a não ser depois de registro daquela (registro que cade registrada no Registro de Imóbe ao promitente comprador fazer), veis. pode impedir o cumprimento da promessa pelo promitente vendedor, Por conseguinte, a distinção entre causando, por isso, dano patrimoter sido, ou não, registrada a pro- nial ao promitente comprador. A indumessa de compra e venda só influi ção ou manutenção em erro por para a configuração, ou não, do cri- meio fraudulento — um dos elemenme contra o único sujeito passivo do tos do estelionato do caput do artigo delito descrito no dispositivo em cau- 171 do Código Civil — é, nesse caso, sa — quem compra, recebe em per- cronologicamente impossível com R.T.J. — 109 relação ao promitente comprador, que, ao afirmar a promessa de compra e venda, nãp foi induzido ou mantido em erro, uma vez que o imóvel era do promitente vendedor e não estava onerado. No caso sob julgamento, a hipótese descrita na denúncia é justamente esta, que, como se viu, não constitui, sequer em tese, crime, mas se restringe, apenas, em nosso sistema jurídico, ao âmbito das conseqüências, estabelecidas no direito civil para o inadimplemento contratual. Em face do exposto, dou provimento ao presente recurso ordinário, para trancar a ação penal em causa. VOTO O Sr. Ministro Francisco Rezek: Sr. Presidente, na noite de ontem, de posse do memorial do recorrente, dei-me á consulta da obra de Nelson Hungria, e me defrontei com o texto a que fez referência o eminente Relator. Pareceu-me dificilmente compatível com os princípios gerais que orientam o direito penal, admitir-se estelionato com sujeito passivo diverso daquele a que a leitura do inciso II, g 2?, do artigo 171, parece conduzir com multa naturalidade. De modo que acompanho o eminente Relator, só não compartilhando, talvez, o seu lamento de índole político-judiciária. Tenho ficado impressionado com a freqüência com que no mundo dos negócios e, sobretudo, no mundo dos negócios imobiliários, hoje em dia, pessoas que norteiam sua conduta por parâmetros não os mais escrupulosos, e que tangenciam, continuadamente, a incursão na lei penal, procedendo à luz de regras de conduta idênticas, podemse ver, de súbito, transformadas uma em réu, outra em vítima, pelo 95 fato de a última, quase que casualmente, ter sentido a iminência de um dano e ter-se lembrado primeiro de pedir socorro à autoridade. Mas isso é um comentário incidental, e sem maior importância. Acompanho o eminente Relator, dando provimento ao recurso. VOTO O Sr. Ministro Aldir Passarinho: Sr. Presidente, li o memorial que me foi trazido pelo nobre Advogado do paciente, e ouvi com bastante atenção sua defesa, bem como o erudito voto do Sr. Ministro Moreira Alves. Realmente, não encontrei, na exata tipicidade do art. 171 e seu 2?, incisos I e II, o enquadramento do caso em exame. O Código Penal, como 'é de sua natureza, discrimina os fatos para o enquadramento penal, com minúcias. E, no caso concreto, vê-se do If 2? a exigência de que a compra seja feita a prestação. Mas, não encontrando eu tipicidade do caso no art. 171, caput, e seu 2?, do Código Penal, surpreendi-me contudo com as ca! racterísticas que o ilícito apresenta. No caso, o que me houve foi o seguinte: o acusado comprometeu-se a vender um apartamento para determinado cidadão, mediante contrato de promessa de compra e venda. O promitente comprador quita o preço, mas o promitente•comprador dá o imóvel em garantia hipotecária à Caixa Econômica, e não liquida o débito. Em face disso, o imóvel é vendido com execução da hipoteca, pela Caixa. Assim, o promitente vendedor, proprietário do imóvel, recebeu integralmente o preço do promitente comprador e o valor da hipoteca. Tal comportamento, porém, não encontra sua tipicidade no estelionato. Ocorre, porém, o seguin- 96 R.T.J. — 109 te: no contrato hipotecário, feito com a Caixa Econômica, foi omitida pelo devedor hipotecário, e que é o ora Paciente, declaração importantíssima que era, exatamente, aquela de que o imóvel fora objeto de anterior promessa de compra e venda. Esse fato não foi mencionado à Caixa Econômica. A existência de tal contrato de promessa de compra e venda era fato juridicamente relevante. Não posso compreender que a Caixa Econômica fizesse um empréstimo hipotecário se viesse a declaração de que o imóvel estava comprometido, embora sob a forma de promessa de compra e venda e, ainda mais, com pagamento integral do preço. Seria uma conivência, uma pactuação da Caixa Econômica com uma fraude. Então, se assim, ocorreu, como tudo indica, havendo omissão de fato juridicamente relevante em relação à Caixa Econômica, poderá configurar-se, a meu ver, no caso, o crime de falsidade ideológica. Realmente. O art. 299 do Código Penal, diz: «Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.» Assim, acho que devo conceder o habeas corpus por inépcia da denúncia, sem prejuízo, porém, da possibilidade de ser oferecida outra, no caso de se configurar o crime do artigo 299, caput, do Código Penal. E o meu voto. ADITAMENTO AO VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves (Relator): Sr. Presidente, concordo com as considerações feitas pelo eminente Ministro Aldir Passarinho, e, em vez de concluir meu voto pelo trancamento puro e simples da ação penal, concluo dando provimento, em parte, ao recurso, para o efeito de declarar inepta a denúncia, sem afastar, entretanto, a possibilidade de o Ministério Público apresentar nova denúncia, se entender que há outro crime, como o aventado pelo eminente Ministro Aldir Passarinho. EXTRATO DA ATA RHC 61.109-MG — Rel.: Min. Moreira Alves. Recte.: Mathias Enéas Mescolin (Advs.: Lúcia Mendes de Almeida e José Paulo Sepúlveda Pertence). Recdo.: Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais. Decisão: Provido o recurso nos termos do voto do Relator. Unãnime. Falou pelo Recte.: O Dr. José Paulo Sepúlveda Pertence. Presidência do Senhor Ministro A Caixa Econômica não faria, não Djaci Falcão. Presentes à Sessão os concederia uma hipoteca se tivesse Senhores Ministros Moreira Alves, constado haver o compromisso aludi- Decio Miranda, Aldir Passarinho e do a pesar sobre o imóvel. E nem Francisco Rezek. Subprocuradorpoderia ser declarado que o imóvel Geral da República, Dr. Mauro Leite não possuía gravames. A Caixa po- Soares. deria ser submetida ao ônus de uma ação judicial, promovida pelo proBrasília, 2 de setembro de 1983 — mitente comprador, que pagara o Hélio Francisco Marques, Secretápreço e que se vira espoliado. rio. R.T.J. — 109 97 RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.261 — MS (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Paciente: Raul Guilherme Ramos de Carvalho — Impetrantes: S. L. Monteiro Salles e Angelo Moretto Neto — Coator: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Habeas corpos. Nulidade inocorrente. Prescrição não verificada. Art. 514 do CPP. Súmula n? 196. — A resposta escrita à denúncia, reclamada pelo art. 514 do CPP, somente cabe em crimes funciona is em que a condição de funcionário é inerente à prática do ilícito. Não se decreta a prescrição retroativa, com apoio na Súmula 146, quando da sentença condenatórla há recurso da acusação visando à exasperação da pena. — Habeas corpus indeferido. ACORDA() proferido por Juiz suspeito; b) inobservância do disposto no art. 514 do Vistos, relatados e discutidos estes CPP. autos, acordam os Ministros da PriNão merece prosperar, todavia, meira Turma do Supremo Tribunal a impetração. Federal, em conformidade com a As informações, de fls. 91/92, noata de Julgamentos e notas taquigráticiam, In verbis: ficas, à unanimidade, em indeferir o pedido. «Por incurso nos arts. 150 ff 1? e 2?, e 129, caput (duas vezes) do Brasília, 3 de fevereiro de 1984 — Código Penal e no art. 21 da Lei Soares Mufioz, Presidente — Rafael das Contravenções Penais (três Mayer, Relator. vezes), todos dispositivos combinados com o art. 44, n? II, letras RELATÓRIO a e c, e 51, caput, do mesmo estatuto repressivo, foi o paciente deO Sr. Ministro Rafael Mayer: Adonunciado perante o Juizo da Co-to, como relatório, o parecer do ilusmarca de Bananal (fls. 2/3, doc. tre Procurador, Alvaro Augusto Rin? 1). beiro da Costa, aprovado pelo eminente Subprocurador-Geral, Prof. Recebida a denúncia (fls. Assis Toledo, que expõe e opina nes88/v., doc. n? 2), em 17-8-77, pelo ses termos: Sr. Juiz de Direito da Comarca, Dr. Nivaldo Balzano, realizou-se «Cuida-se de pedido de anulação o interrogatório do acusado (fls. do processo em que o paciente foi 100/102, doc. n? 3), apresentandocondenado — como incurso nos se, a seguir, a defesa prévia (fls. arts. 150, §:à 1? e 2?, e 129, caput 103, doc. n? 4). (duas vezes), todos do C. Penal — ou o reconhecimento da extinção Argüida a suspeição do MM. Juiz da Comarca, deu-se S.Exa. da «pretensão persecutória» (Mc), por impedido - (fls. 123/124, doc. com base na Súmula n? 146. n? 5), ordenando a remessa dos Como fundamentos da argüida autos ao seu substituto. nulidade, alega-se: a) ausência de despacho de recebimento da deEm audiência designada para núncia, sendo inválido o que fora oitiva de vitimas e testemunhas, 98 R.T.J. — 109 a defesa levantou preliminares, que, acolhidas, resultaram na redesignação de data para interrogatório do réu e na ratificação do recebimento da denúncia (fls. 153/154, doc. n? 6). Após nova qualificação e interrogatório do acusado em Juízo (fls. 216/217 v., doc. n? 7), seu advogado formulou defesa prévia (fls. 219/220, doc. n? 8). No correr da instrução, foram ouvidas as vítimas e as testemunhas (fls. 279/285v., 291/294, 307/310v. e 322/323, doc. n? 9), tendo o defensor interposto correição parcial (fls. 2/6, doc. n? 10), que foi indeferida pela E. Terceira Câmara desta Corte (fls. 60/61, doc. n? 11). Formularam-se as alegações finais (fls. 330/332, 357/362 e 363/364, doc. n? 12), sobrevindo sentença condenatória, que apenou o paciente, por infringência aos arts. 150, §§ 1?, 2?, 129, caput (duas vezes), do Código Penal, e ao art. 21 da Lei das Contravenções Penais (três vezes), a 11 meses de detenção e 15 dias de prisão simples (fls. 397/410, doc. n? 13). Desta decisão recorreu a defesa (fls. 421 e 423/432, doc. n? 14) e o Ministério Público (fls. 440/444, doc. n? 15), tendo a E. Segunda Câmara deste Tribunal rejeitado a preliminar de prescrição sumular quanto aos crimes, julgado prescrita a contravenção penal e provido a ambos os recursos para, a final, reformular a pena detentiva em 12 meses ( fls. 503/524 e 537/542, doc. n? 16). Opostos Embargos Infringentes, o E. Primeiro Grupo de Câmaras rejeitou-os - (fls. 544/546, doc. n? 17). Como se vê das informações, não procede a alegativa de ausência de despacho de recebimento da denúncia, pois o despacho de fls. 95 foi expressamente ratificado às fls. 108. No que concerne à pretendida inobservância do disposto no art. 514 do CPP também não assiste razão ao impetrante. Em primeiro lugar, porque a providência prevista no aludido dispositivo somente é cabível tratando-se de crime funcional típico, descrito nos arts. 312 a 326 do C. Penal (v. RTJ-66/365); em segundo lugar porque mesmo que se admitisse o cabimento de tal providência no caso sob exame, dela não se poderia cogitar, depois de proferido o acórdão que excluiu da condenação o acréscimo de pena relativo à circunstância prevista no § 2? do art. 150 do C. Penal, ficando decidido que o paciente não agiu na qualidade de funcionário público (v. RTJ-103/1196). Por fim, não ocorreu a alegada prescrição. Tendo o Ministério Público recorrido contra a sentença — visando o aumento das penas - inaplicável é a Súmula 146, sendo a prescrição, em conseqüência, definida com base na pena em abstrato. Por isso mesmo, incensurável se mostra o Acórdão de fls. 220/222 — exarado no julgamento dos embargos infringentes — ponderando: «Os fatos delituosos ocorreram em 22 de maio de 1977. A denúncia foi recebida em 17 de agosto de 1977. A publicação da sentença ocorreu em 19 de setembro de 1979, mais de dois anos depois do recebimento da denúncia. Não tivesse havido recurso do Ministério Público poder-se-ia declarar prescrita a ação penal, nos termos da Súmula 146, por se tratar de fato anterior à Lei n? 6.416/77. R.T.J. — 109 99 Entretanto, a interposição de se destaca no douto parecer essa recurso ministerial constitui fato mesma circunstância veio a ser desimpeditivo da aplicação da Sú- considerada, para efeito de agravamula n? 146». ção da pena, no Acórdão condenatóSomos, em face do exposto, pelo rio transitado em julgado. indeferimento do pedido.» Finalmente, o reconhecimento da prescrição retroativa, com base na E o relatório. Súmula 146, carece de apoio em razão de ter sido interposto recurso da VOTO acusação, contra a sentença de priO Sr. Ministro Rafael Mayer (Re- meiro grau, visando à exasperação lator): Estão bem apreciados pelo da pena, com o que aliás logrou êxidouto parecer os fundamentos da im- to. petração, merecendo inteira acolhiAssim, nos termos exatos do douto da. parecer, indefiro o pedido. Com efeito, fica elidido o argumenEXTRATO DA ATA to referente à ausência de despacho de recebimento da denúncia, face à HC 61.261-SP — Rel.: Min. Rafael expressa ratificação pelo juiz com- Mayer. Pacte.: Raul Guilherme Rapetente do anterior provimento que a mos de Carvalho. Imptes.: S. L. impetração aponta como inválido. Monteiro Salles e Angelo Moretto Por outro lado, a observância do Neto. Coator: Tribunal de Alçada rito estabelecido no art. 514 do CPP, Criminal do Estado de São Paulo. exigente de notificação prévia do Decisão: Indeferiu-se o pedido de acusado para oferecer resposta es- habeas corpus. Decisão unânime. crita à denúncia, anteriormente ao Presidência do Senhor Ministro seu recebimento, não se impõe, na espécie, pois não se trata de crime Soares Mutioz. Presentes à Sessão os de responsabilidade do funcionário Senhores Ministres, Rafael Mayer, público, somente configurável quan- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e do a condição funcional é inerente à Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral sua prática. Trata-se, aqui, de cir- da República, Dr. Francisco de Ascunstâncias em que essa condição sis Toledo. funcional é tão-somente considerada Brasília, 3 de fevereiro de. 1984 — como qualificadora do crime de vio- António Carlos de Azevedo Braga, lação do domicilio. Além disso, como Secretário RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.283 — MS (Segunda Turma) Relator: O Sr.Ministro Moreira Alves. Recorrente: NomItor Ferreira de Moraes — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul. Habeas expus. Beneficio do artigo 594 do CPP. — O simples fato da existência de anterior perdão após condenação por crime contra os costumes demonstra que o recorrente não tem bons antecedentes, requisito, também, para a concessão do be- neficio pleiteado. Recurso ordinário que se nega provimento. 100 R.T.J. — 109 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de habeas corpus. Brasília, 27 de setembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Moreira Alves, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Moreira Alves: E este o teor do acórdão recorrido (fls. 47/49): «Relatório O Sr. Des. Sérgio Martins Sobrinho: Os advogados Antonino Moura Borges e Rubens José Cozza — o primeiro, de Campo Grande; o segundo, de Nova Andradina — impetram a presente ordem de habeas corpus em favor de Nomitor Ferreira de Moraes, apontando coação do juiz de direito da 2? vara da comarca de Nova Andradina, e pleiteiam alvará de soltura para o paciente, pelos seguintes motivos: que foi o paciente denunciado no artigo 213, c/c os artigos 224, letra a, e 225, g 1?, I, do CP; que a vitima tinha vida desregrada, péssimo comportamento e era acostumada à prática de atos sexuais (parente e conhecidos afirmaram isso na instrução); que não houve testemunhas do fato e que não foi concludente a prova da autoria e da culpa. A decisão condenatória é fruto de ilações e interpretações divorciadas da lei; que na sentença o juiz afirmou que não importa não seja mais virgem a vitima para caracterizar-se o estupro, o que se constitui num absurdo, assegurando o magistrado, por outro lado, que era obrigação do acusado saber a idade da suposta vitima, para, a final, condená-lo em delito qualificado; 5. que admitiu ainda o decisum a reincidência do réu e manteve a condenação, mesmo tendo havido perdão no outro processo. Finalmente, o acusado foi preso com desatenção ao artigo 594 do CPP. ato foi arbitrário e abusivo, sanável pela via escolhida; 6. que o acusado defendia-se solto porque não havia flagrante nem prisão decretada. E primário. A prefalada reincidência não existe, conforme prova certidão junto ao pedido, pois ocorreu extinção da punibilidade, mesmo porque houve perdão. Não tendo sido julgado o mérito naquele caso anterior Enexiste reincidência, como quer a lei brasileira; 7. que o paciente tem bons antecedentes, é membro da Polícia Militar do Paraná, inclusive com direito a prisão especial. Não havia necessidade de recolhê-lo à prisão para apelar. Com a inicial de fls. 2/8-TJ vieram os documentos de fls. 9/19-TJ. Distribuído o feito inicialmente ao Des. Pereira Rosa, solicitou ele as informações de fls. 28/29-TJ, seguidas dos documentos de fls. 30/35-TJ. parecer da Procuradoria (fls. 37/40-TJ) é pela denegação da ordem E o relatório. Inclua-se em pauta. Voto Sr. Des. Sérgio Martins Sobrinho (Relator): Egrégia Turma Julgadora, R.T.J. — 109 O habeas corpus, em realidade, discute a mesma matéria da sentença contra a qual o paciente apelou, recurso que Já está também neste Colegiado. Mas, fundamentalmente, o que pretendem os impetrantes é que o paciente aguarde em liberdade o Julgamento da apelação, alegando que o caráter de reincidência que foi dado na sentença não existe, porque em processo, por idêntico delito, que o paciente cometeu no Paraná, foi ele perdoado e o processo extinguiu-se, isto é, foi decretada a extinção do processo. Na verdade, ao apreciar pedido para o paciente aguardar em liberdade, formulado pelo Dr. Ivandir Valesi (cópia de fls. 30/31-TJ), e após a manifestação do Dr. Promotor de Justiça ( fl. 33-TJ), o juiz, fundamentada mente ( fls. 34/35TJ), decidiu pela negativa do pedido para que Nomitor aguarde em liberdade o Julgamento da apelação, esteado precisamente em -que, no caso, a reincidência existe. O réu não tem, portanto, condições para aguardar em liberdade, por essa circunstância, porque, embora realmente tenha havido perdão no processo do Paraná, o fato delituoso existiu e comprova não ter Nomitor bons antecedentes. Mas ainda não considero propriamente esse aspecto. Considero que a matéria foi devidamente analisada e decidida pelo magistrado da instância singela, negando, por todas as razões que expôs no seu decisório, o direito de o paciente aguardar o Julgamento da apelação em liberdade. Tendo em vista que o Juiz não se omitiu na apreciação do tema, els que o paciente Já apelou, também expondo no recurso essas circunstânclas que alega no habeas corpus, não tenho dúvida em denegar a ordem. E como voto. 101 O Sr. Des. Milton Malulei (1? Revisor): De acordo. O Sr. Des. Leão Neto do Carmo (2? Revisor): Estou de acordo com V. Exa. Pelo menos não há prova nos autos de que o paciente tenha bons antecedentes. Ainda há fato revelador que não os tem.» Interposto recurso ordinário, sobre ele assim se manifesta a Procuradoria-Geral da República, em parecer do Dr. Getúlio Rivera Velasco Catanhede: allomitor Ferreira de Moraes foi denunciado e condenado pela Justiça Criminal de Nova AndradinaMS como incurso no art. 213 c/c o art. 224, letra a, -e 225, f 1?, I, do Código Penal, pela prática do crime de estupro com violência presumida. Na sentença condenatória, o magistrado considerou-o reincidente, porque este obtivera perdão Judicial em processo penal anterior. Na decisão denegatória do pedido de liberdade provisória, o Juiz da causa, invocando doutrina e Julgado dessa Colenda Corte, no sentido de que o perdão Judicial tem natureza condenatória, sem o efeito de excluir a primariedade, volta a sustentar que o réu é reincidente, sem direito a apelar em liberdade, eis que este fora perdoado pelo cometimento do crime previsto no art. 227, 4 3?, do Código Penal. 4. Inconformado, impetrou o réu habeas corpus para o Egrégio Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, que reconheceu não só a falta de primarledade, mas também a ausência de bons antecedentes, desse modo denegando o writ, dal o presente recurso para essa Colenda Corte, objetivando o recorrente o beneficio do art. 594 do Código de Processio Penal. 102 R.T.J. — 109 Esses os fatos, em resumo. VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves ( ReVerifica-se, portanto, que o lator): Para o beneficio é magistrado só alude, na sentença necessário que, além depleiteado primário, condenatória, a reincidência como tenha o réu bons antecedentes. Óbice para a concessão da liberdaNo caso, o simples fato da existênde provisória, deixando de mencio- cia de anterior após condenanar a existência de bons antece- ção por crimeperdão contra os costumes dentes (fls. 14/15). está a demonstrar que não tem o reDessa situação resulta que, corrente bons antecedentes, o que admitindo-se como primário o re- basta para afastar sua pretensão. Em face do exposto, nego provicorrente, em decorrência da certidão de fl. 16, que atesta a conces- mento ao presente recurso. EXTRATO DA ATA são de perdão pelo querelante, cuRHC 61.263-MS — Rel.: Min. Moja sentença é extrativa da punibilidade, por expressa previsão legal reira Alves. Rect.: Nomitor Ferreira (art. 108, V, C. Penal), o que afas- de Moraes (Advs.: António Moura ta a reincidência, na conformidade Borges e outros). Recdo.: Tribunal do art. 107, 3?, c/c art. 46 do esta- de Justiça do Estado de Mato Grosso tuto penal, ainda assim faltaria o do Sul. Decisão: Negado provimento. Unârequisisto de bons antecedentes, não declarado na sentença, como é nime. Presidência do Senhor Ministro necessário, nos termos do art. 594 do CPP e iterativa jurisprudência Djaci Falcão. Presentes à Sessão os dessa Colenda Corte, para assegu- Senhores Ministros Moreira Alves, rar o direito de recorrer em liber- Dedo Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek — Subprocuradordade. Geral da República, Dr. Mauro Leite Pelo improvimento do recur- Soares. Brasília, 27 de setembro de 1983 — so.» ( fls. 70/72) Hélio Francisco Marques, SecretáE o relatório. rio. BABEM CORPUS 61.349 — BA (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek. Paciente: Carlos Uns de Albuquerque — Coator: Tribunal Federal de Recursos,. Habeas comais. Competência da Justiça Federal. Peculato. Empregado dos. Correios. Prescrição retroativa não configurada. Agravamento da pena-base, sem fundamentação. competente a Justiça Federal para julgar peculato cometido por empregado da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Se da sentença condenatória a acusação recorre, postulando nova classificação do delito, e agravamento necessário da pena imposta pelo juiz de primeiro grau, frustra-se a prescrição retroativa. Não fundamentado o acréscimo del um quinto sobre a pena-base, não deve subsistir. Pedido de babeas emala que se acolhe, em parte. R.T.J. — 109 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, de conformidade com a ata de julgamentos e as notas taquigráficas, à unanimidade de votos, deferir em parte o pedido, nos termos do voto do Ministro Relator. Brasília, 18 de novembro de 1983 — E:0cl Falcão, Presidente — Francisco Rezek, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Francisco Rezek: Este habeas corpus volta-se contra Acórdão do Tribunal Federal de Recursos, resumido nesta ementa: «Penal. Peculato e Apropriação Indébita. 1. O Réu funcionário público no exercido das respectivas funções, apropriou-se de quantia de que tinha a posse. 2. O fato ficou comprovado pela prova-técnica e testemunhal. 3. O dano a considerar-se não é só ao patrimônio público, porém o que é suficiente para caracterizar a violação do dever de fidelidade para com a Administração.» (fl. 46). 0, acórdão impugnado faz saber que o réu foi processado porque, na qualidade de chefe de turma da secção de exportação do correio geral de Salvador — BA, abriu correspondência alheia, retirando cheque nominal, que transformou em cheque ao portador, apagando o nome do beneficiário, e que descontou mais tarde. Foi afinal condenado pelo juiz federal a um ano e oito meses de reclusão, além de multa, por crime de apropriação indébita (art. 168 1? III do Código Penal). O Ministério Público apelou, vendo na espécie o crime de peculato. Ob- 103 teve êxito, com o aumento da pena para dois anos e cinco meses, sendo a multa agravada. Na impetração, alega-se a incompetência da Justiça federal. Postulase, ainda, o reconhecimento da prescrição retroativa, visto que a denúncia foi recebida em 2-10-75 e a sentença só se viu publicar em 6-3-81, sendo a pena aplicada inferior a dois anos. Impugna-se, por último, a elevação em um quinto da pena-base, sem qualquer justificativa. A Procuradora Haydevalda Sam-, paio falou nos autos pelo Ministério Público (fls. 63/65): «Inquestionável, portanto, é a competência da Justiça Federal, nos termos do artigo 125, inciso IV, da Constituição Federal, por se tratar de crime cometido por funcionário público, no exercido de suas funções em detrimento de serviços e interesse de empresa pública federal. Quanto à alagada extinção da punibllidade, não assiste razão ao impetrante, visto que tendo sido majorada a pena imposta em primeira instância, a prescrição regulase pela pena concretizada no acórdão. Como a condenação imposta foi de dois anos e cinco meses, a sua prescrição ocorre em oito anos, consoante o estabelecido no artigo 109, IV, do Código Penal. E tal lapso de tempo não transcorreu entre recebimento da denúncia, em 210-75 (v. fl. 7), e a sentença condenatória de primeiro grau, prolatada em 5-3-81 ( v. fl. 14). No tocante à argüida ausência de fundamentação, quanto à majoração da pena-base, parece-nos, data venta, que assiste razão ao impetrante. O acórdão impugnado, ao dar provimento ao recurso da acusação, através de voto do Relator, consignou, Verbis: 104 R.T.J. — 109 «De conseguinte, julgo procedente a denúncia e condeno o acusado como incurso nas sanções do art. 312, do CP. O réu, consoante anotara a sentença: «... embora tenha bons antecedentes sociais, sua personalidade é reveladora de periculosidade, não indicando que abandone a delinqüência; agiu, no caso em exame, com forte intensidade dolosa, revelada na série de atos que praticou com o objetivo de se locupletar indevidamente; os motivos do delito se situam na formação moral do réu, que não disciplina a sua volúpia de ganhos; as conseqüências do delito foram minimizadas pela reparação do dano» (fl. 415), motivo pelo qual fixo a pena-base em 25 (vinte e cinco) meses de reclusão, aumentada de 1/5 (um quinto) tornando-a definitiva em 2 (dois) anos e 5 (cinco) meses, e multa de Cri 5.000,00, e sem direito a surtas.» (fls. 55/56). Não há dúvida portanto, que o aresto condenatório padece de fundamentação, no concernente à majoração da pena-base, visto que não foram indicadas as razões pelas quais a sanção foi aumentada de um quinto. Opinamos, em face do exposto, pelo deferimento parcial do recurso, apenas para que seja excluído da condenação o acréscimo de um quinto, mantendo-se a pena-base de vinte e cinco meses de reclusão.» E o relatório. vamente ameaçam a credibilidade, perante o público, dos Correios, sabida tradicionalmente afetos à responsabilidade do governo da União. De outra parte, o fato mesmo de o delito ter sido classificado como peculato proclama a competência do foro federal. Está correta a classificação do delito pelo Tribunal Federal de Recursos. A circunstância de encontrar-se o cheque em carta simples, sem valor declarado, não tem relevo jurídico no quadro das questões penais aqui versadas, se não se controverte que o paciente detinha, em razão do cargo, a posse da carta. Considerar o empregado da empresa pública funcionário para efeitos penais é estar em sintonia com a jurisprudência deste Tribunal, pois no mesmo sentido já se decidiu nos RREE n?s 96.358-8-RJ (Rel.: Min. Alfredo Buzaid — DJ de 20-8-82) e 96.803-PE (Rel.: Min. Soares Munõz — RTJ 103/869). Em ambos os casos entendeu-se que empresa pública é entidade paraestatal, e que, por isso, aplica-se aos seus empregados o disposto no atual § 1? — antigo parágrafo único — do art. 327 do Código Penal Essa inteligência se harmoniza com a autorizada doutrina de Hely Lopes Meirelles, que considera as empresas públicas as mais modernas instituições paraestatais (Direito Administrativo Brasileiro, São Paulo, RT, 1979, pág. 334), razão por que afirma que «empregados e dirigentes de empresa pública são considerados funcionários públicos, por expressa equiparação do Código Penal (art. 327, parágrafo único)» (ob. cit., VOTO págs. 339/340). O Sr. Ministro Francisco Rezek A prescrição retroativa invocada (Relator): A Justiça federai é com- na impetração não deve ser reconhepetente para julgar o feito, visto que cida, pois o recurso do Ministério o delito afeta serviço e interesse de Público a impediu. O intento do empresa pública da União (art. 125 agravamento da pena na l apelação — IV da Constituição). Atos como o foi evidente, já que o réu fura condeque vem descrito na denúncia efeti- nado em primeiro grau a um ano e R.T.J. — oito meses de reclusão, e, por força do recurso do Ministério Público — que visava a desclassificar o delito para peculato —, sujeitou-se à pena mínima de dois anos, prevista no art. 312 do Código Penal. Além disso, como anota a Procuradoria da República, a pena afinal imposta no aresto não autoriza a falar em prescrição. Alega-se que no TFR a pena-base foi fixada acima do mínimo legal e majorada em um quinto, sem que houvesse justificativa para tanto. A irresignação, aqui, encontra patrocínio da Procuradoria-Geral, no que tange ao acréscimo. Efetivamente, não se procurou justificar a exasperação da pena-base, que, por isso, não deve subsistir. A própria fixação da pena-base, em um mês acima do mínimo legal, encontra justificativa no voto do revisor do acórdão impugnado. las 109 Concedo a ordem, tão-só para excluir da condenação o acréscimo injustificado de um quinto sobre a pena-base. EXTRATO DA ATA HC 61.349-BA — Rel.: Min. Francisco Rezek. Poete.: Carlos Uns de Albuquerque. !rapte.: Aristides de Souza Oliveira. Coator.: Tribunal Federal de Recursos. Decisão: Deferido em parte nos termos do voto do Relator. Unanime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Dedo Miranda. Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 18 de novembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.367 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Recorrentes: José Carlos Bernardino e outros — Recorrido: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Policial-militar. Crime militar. Policiamento exclusivo. Policiamento civil regular. Art. 9?. II do CEM. — Quer no exercido do policiamento que é exclusivo da policia militar, quer no do policiamento civil que em decorrência de sua função lhe seja regularmente atribuído, o policial-militar responde por crime militar, verificados os requisitos do art. 9?, H do Código Penal Militar. — Recurso de Hebetas corna improvido. ACORDA° Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em conformidade com a ata de julgamento e notas taquigráficas, à unanimidade, em negar provimento ao recurso. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Soares Muiloz, Presidente — Rafael Mayer, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Rafael Mayer: Adoto, como relatório, o parecer emitido pelo ilustre Procurador, Alvaro Augusto Ribeiro Costa, devidamente aprovado pelo eminente Subprocurador-Geral, Prof. Assis Toledo, nesses termos: «O caso foi relatado, às fls. 56/57, in verbis: 106 R.T.J. — 109 O bel. José Aranha impetra ordem de habeas corpus em favor de José Carlos Bernardino e Djalma Oliveira da Silva, alegando estarem eles sendo processados perante o douto Juízo da 4? Vara Distrital da Casa Verde, como incursos nas sanções do art. 129 do Código Penal. Sendo os pacientes policiais militares, a competência para o conhecimento do feito seria da Justiça Militar e não da comum, conforme reiteradas decisões do Colendo Pretório Excelso. Colhidas informações, o douto Juízo reporta-se ao Acórdão proferido no pedido de habeas corpus n? 114.032, decidido por esta mesma Casa, onde se assentou a competência da Justiça Comum no caso, pois se tratava de fato onde não posta em cheque a estrutura militar (fls. 27/28). A douta Procuradoria-Geral da Justiça, custos legis, pela palavra do eminente Dr. José Ferreira Nunes Júnior, reporta-se a parecer proferido no habeas corpos anterior, pugnado pela denegação do writ (fls. 43/47).» Denegado o writ, veio a se? tempestivamente interposto o cabível recurso, insistindo na pretensão inicialmente deduzida. Não merece prosperar, todavia, a irresignação em causa. Os fundamentos do acórdão recorrido foram assim externados: Tratando-se de mera renovação da tese já decidida quando do habeas corpos n? 114.032, como reconhece a própria peça vestibular, menos não cabe do que reportar-se esta Câmara ao ali contido, pois é o entendimento diuturno em seus julgamentos. A pretensão de atribtik-se à Justiça Militar a competência para julgar os membros da Polícia Militar, criando-Se uma competência ratione personnae, tem trazido dupla inconveniência: por um lado, é da experiência universal que o julgamento do réu por seus próprios pares pode levar a apreciação de fatos a um perigoso subjetivismo, pelo inafastável sprit de corps presente em qualquer corporação. Cuidando dos vícios da percepção, em razão de seita, partido ou grupo, assim discorria François Gorphe: gl'impartialité en Lebon dans politique, écrit La Psychologie Politique, est impossible parce que l'homme linpartial aurait immédiatement contre lui toas les partis, y cumpris celui auquel 11 appartient. Le sectaire ou le partisan, ayant la raison enfermée dans les formules dogmatique étroites, le coeur asservi á des desirs cellectifs rigoureux, ne peut ni percevoir convenablement les divers aspects d'un événement qui intéresse son groupement, ni en témoigner librement» («La Critique du Témoignage», pág. 1%). Qual o proveito para a sociedade da impunidade de fatos típicos, tratados, por vezes, como mera infração administrativa? Qual o proveito para a própria corporação em ficar sob suspeita de parcialidade, criando-se uma fissura na sociedade, em razão de circunstância tão secundária como é a natureza da corporação a que pertence o suspeito? Julgando a Apelação n? 243.751, de Olímpia, esta mesma Câmara, dando pela competência da Justiça Comum para julgar miliciano a quem se atribui fato penalmente típico, reportou-se ao julgamento do habeas corpus n? 106.866, de Rio Claro, sendo relator o insigne Silva Franco, onde ficou dito que «não se criou, ao nível constitucional, a Justiça Militar pela simples circunstância a R.T.J. — 109 de, enquanto militar, ser autor de um fato criminoso, mas, sim, para julgar o militar que, por seu procedimento, fere direta e imediatamente a atividade militar. Entendimento contrário poderia conduzir ao absurdo, denunciado por Zaffaronl e Cavallero (Derecho Penal Militar, pág. 4, 1980), de admitir-se uma ordem jurídico-militar autônoma em relação à ordem jurídica global quando dentro desta. Se se pode aceitar partilhas, não se pode conceber que nenhuma dessas partes funcione de forma enquistado ou independente, posto que isto seria totalmente contraditório com a expressão ordem, que demanda uma unidade de compreensão». Pontes de Miranda interpreta o contido no 15 do artigo 153 da Constituição Federal em cotejo com o contido no 1?, do mesmo dispositivo, que trata do principio da isonomia. Reportando-se a Gerhard Leibnolz, assevera o festejado constitucionalista pátrio que «a justiça especial torna-se exceção quando é instituída de tal modo que viole o art. 153, §.1?: todos são iguais perante a lei». E mais adiante: «o if 15, 2? parte, lê-se como se dissesse: não haverá outros foros privilegiados que os instituídos pela própria Constituição, e.g., o do Presidente da República, o dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, V. ref. ao art. 150 da Constituição de 1967). Nada justifica, pois que, puramente ratione personnae, o militar, que vive e atua em uma sociedade pluralista, goze de privilégios pessoais, em face da ordem Instituída paratodos, subtraindo-se da Justiça COnum a apreciação de fato penalmente tipico a ele atribuído tão-somente 107 em face de membro de uma corporação que zela pelos aspectos disciplinares de sua conduta. «O policial militar, no exercício de função policial civil, isto é, na realização de tarefas de prevenção ou até mesmo de repressão de infrações penais não-militares, não pode ser havido se pratica ato criminoso, como autor de crime militar, visto que a atuação, por ele empreendida, não se traduz em ofensa à estrutura militar» (Julgados do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, vol. 67, pág. 144). O Colendo Supremo Tribunal Federal ao ensejo do julgamento do Recurso interposto em razão do indeferimento daquele writ, acenou com a impossibilidade de «aprofundado exame da prova co-lhida no inquérito, incompatível com a via sumarissima do habeas corpus» (textual — ementa de fl. 785). Não tendo, como se vê da denúncia, cometido os pacientes crime algum de natureza militar, nada há que modificar, data venta, no entendimento anterior desta mesma Câmara.» E certo que o recorrente indica jurisprudência da Suprema Corte que, a seu ver, favoreceria à tese da impetração. Contudo, esses precedentes não se aplicam ao caso sob exame. Assim entendemos porque, em nenhum momento, cuidou o recorrente de demonstrar a ocorrência, no caso, de qualquer das situações que o art. 9? do Código Penal Militar define como suficientes à configuração do crime militar. A jurisprudência da Corte Maior, porém, já se firmou no sentido de que «A competência especial para os crimes praticados por policial ne R.T.J. — 109 militar no exercício do policia- justiça de exceção privilegiando mento civil somente se dá quan- uma classe, pois aquela conotação do o agente se encontre em servi- supõe, objetivamente, situações e ço no exercício regular da fun- atividades ligadas ao serviço que lhe ção» (v. RHC n? 59.351-SP., E é próprio. Turma, Rel.: Min. Rafael Mayer, Tanto assim, que esta Turma já decidiu que o crime praticado por ln RTJ 102/1,077). A denúncia de fls. 9/11, por sua policial-militar, no exercício da funvez, noticia que os fatos delituosos ção civil de delegado de polícia, não ocorreram quando os pacientes se é crime militar (RECr n? 92.273, adiavam à paisana, não tendo uti- Rel.: O MM Cunha Peixoto, RTJ lizado armas pertencentes à corpo- 105/161), ou na execução de diligênração policial-militar, nem partici- cia não afeta a seu setor de trabalho, a titulo de colaboração com outra pado de policiamento ostensivo. autoridade policial (HC n? 59.862, De nenhum modo, pois, é possí- Rel.: o MM Néri da Silveira). vel ajustar-se tais fatos à previOra, o policiamento que incumbe à são do art. 9? do C. P. Militar, Polícia Militar não se restringe ao sem o que não se configura o cri- denominado ostensivo, para assegume militar definido em lei, cogita- rar a manutenção da ordem pública, do pelo art. 144, § 1?, d da vigente atuando de maneira preventiva ou Lei Maior. repressiva à suas perturbações (art. Somos, em face do exposto, pelo 3? do Decreto-lei n? 667/69), com os não provimento do recurso.» seus vários desdobramentos (ostensivo normal, urbano e rural, de trânE o relatório. sito, florestal e de mananciais, ferroviário, rodoviário, de rádio patrulha, VOTO de segurança externa dos estabeleciO Sr. Ministro Rafael Mayer (Re- mentos penais), como também aquelator): Conquanto correta a conclu- le que lhe seja fixado na legislação são do venerável acórdão recorrido, estadual (Decreto n? 66.862/70). em face das circunstâncias dos auAssim, quer no exercício do politos, falsa é a premissa maior de que ciamento que é exclusivo da policia parte, ao ter que, em qualquer caso, militar, quanto no exercício do polinão comete o policial-militar crime ciamento civil que por decorrência militar, quando no exercício do poli- de sua função lhe seja regularmente ciamento civil, por não traduzir atribuído, o militar pode ser responofensa à estrutura militar. sabilizado por crime militar, se veriOutro é o entendimento desta Cor- ficados os requisitos do art. 9?, II do te, ao considerar que o policial mili- Código Penal Militar. Por isso, o julgado pioneiro desta tar comete crime militar, quando no serviço do policiamento civil que se- Corte, em aplicando a Emenda Consja inerente ou conseqüente à sua titucional n? 7, no particular, e reforcondição funcional, desde que ocor- mulando a Súmula n? 297, tinha corentes os pressupostos do art. 9?, II, mo premissa crime praticado por do Código Penal Militar, definidores militar no policiamento de trânsito, decerto policiamento civil (RHC n? do crime militar impróprio. Rel.: o MM Rodrigues AlckClaro que não é somente a condi- 56.049, min; Cfr. RHC n? 55.946, Rel.: o Min. ção subjetiva de policial militar que dá a conotação de militar ao crime Moreira Alves, RTJ 89/430). Ora, o suposto da existência de cripor ele cometido; pois ai se incorreria certamente na mácula de uma me militar, praticado por policial R.T.J. 109 109 militar, é a ocorrência dos mencionados requisitos do art. 9?, II, do CPM, e em se tratando de crime praticado no exercício do policiamento civil, a efetividade e regularidade desse exercício. Não basta, portanto, para configurar o crime militar e suscitar a competência especial, a condição militar dos impetrantes, se ao praticarem o evento criminoso não se encontravam em serviço, quer propriamente de policia militar, quer, por extensão, de polícia civil. Ora, como bem destaca o douto parecer, não há qualquer demonstração nos autos de que os impetrantes, na condição de policiais militares, se encontrassem em algumas das situações descritas na lei penal militar como caracterizadoras do crime militar, pois, ao contrário, o que deflui dos autos é que, em sua atuação delitiva, não se encontravam no exercício regular da função de policiamento que lhes é própria, sendo por- tanto atos desvinculados do contexto do serviço e da atividade própria do policial-militar. Nesses fundamentos, e de acordo com o douto parecer, nego provimento ao recurso. EXTRATO DA ATA RHC 61.367-SP — Rel.: Min. Rafael Mayer. Rectes.: José Carlos Bernardino e outro (Adv.: José Aranha). Recdo.: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Decisão: Negou-se provimento ao recurso de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Muttoz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Alfredo Bitzaid, Néri da Silveira e Oscar Cpra. Subprocurador-Geral da Rep lica. Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. HABEAS CORPUS N? 61.377 — PB (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Paciente: Francisco Estrela de Oliveira, vulgo «Tobias»' — Impetrante: Romeu Gonçalves de Abrantes — Coator: Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba. Decisão que cassou sentença absolutória e determinou a submissão do réu a novo júri. Observância do art. 593, Inc. III, letra d, do Código de Processo Penal. Habeas corpus indeferido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros co mpo -netsdaSguTrmopemo Tribunal Federal, à unanimidade de votos e na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, em indeferir o pedido. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente e Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Matei Falcão: Trata-se de pedido de habeas corpus em favor de Francisco Estrela de Oliveira, vulgo «Tobias», contra decisão do egrégio Tribunal de Justiça da Paraíba que, provendo recurso do Ministério Público, fundado no art. 593, inc. III, letra d, do CP Penal, cassou a sentença absolutória e determinou que o paciente fosse submetido a novo júri. R.T.J. — 109 110 Sustenta o impetrante que o acórdão impugnado se valeu apenas de indícios, para concluir pela autoria intelectual do crime, atribuída ao paciente, não havendo no caso uma decisão contrária à prova dos autos. Leio as considerações aduzidas na petição de fls. 2/12. Prestadas as informações de fls. 86/87, manifestou-se o Ministério Público pelo indeferimento do pedido (fls. 89/92). VOTO O Sr. Ministro Djacl Falcão (Relator): A meu ver não procede o pedido. Conforme diz, com propriedade, o parecer da douta Procuradoria da República: «Embora seja certo que o acórdão impugnado fundou-se em indícios, verifica-se que o exame dos mesmos foi feito de modo a gerar convencimento de manifesta autoria intelectual do crime, por parte do paciente. 5. Com efeito, lê-se no julgado, In verbis: A decisão do Tribunal do Júri de Souza está realmente a merecer reforma. Efetivamente, os autos oferecem seguros elementos que apontam o apelado como mandante do homicídio de que foi vítima sua amante. Os indícios exsurgem de forma clara dos autos e apontam o apelado como mandante do delito e Severino Calixto como executor do mesmo. Os motivos que determinaram o homicídio, os tinha o apelado; a arma usada na prática do crime lhe pertencia; os contatos insólitos entre ele e Severino Calixto nas horas que antecederam o bárbaro crime; a fuga de Severino Calixto logo após a prática do fato; tudo enfim, leva a inconces- sa certeza quanto a autoria material e intelectual da radie de Margarida. Por outro lado, se a lógica é coerência do raciocínio, temos que admitir que sendo Margarida uma mulher jovem e atraente, vivendo apenas como uma mulher privilegiada do apelado que já tinha ultrapassado os 61 anos de idade, a incompreensão e a desinteligência tinham que surgir. Há nos autos informações sobre profunda desinteligência do casal, inclusive, tentativa de morte por parte do apelado. Por igual patenteado, ficou, que a vítima fugira do apelado mais de uma vez, e ultimamente, inconformada com sua sorte entregara-se à bebida. Se o apelado tivesse mandado um pistoleiro estranho à região, eliminar a vítima, sem se preocupar em esquematizar o álibi, evidentissimo que esquematizou, o caso descambaria para dúvida. Agir, porém, como agiu, contratando um desqualificado local para realizar a empreitada, ultrapassou os limites da infantilidade ou da indignação. Qualquer pessoa possuidora de sagacidade ordinária, sem qualquer conhecimento especializado chega à conclusão a que chegaram o Juiz e o Promotor. Não obstante os Srs. Jurados absolveram o apelado pela negativa da autoria. A força probante dos indícios equivale a qualquer melo de prova. Será naturalmente, maior ou menor segundo o nexo lógico experimental entre o fato indiciante e o fato a ser provado. Ou melhor, quanto maior for a correlação entre os dois, mais evidentes estará a existência do segundo. 111 R.T.J. — 109 No caso ocorrente, basta juntar alguns dos indícios apurados para que a autoria intelectual surgir como um imperativo ditado pelo próprio bom senso. Daí a necessidade da hipótese ser novamente submetida á apreciação do Júri. Vê-se, pois, que o acórdão em questão fundou-se na assertiva de que a prova dos autos, embora indiciária, apontara a autoria intelectual do crime pelo paciente, «como um imperativo ditado pelo próprio bom senso.» (v. fls. 53). 7. Se, portanto, o aresto acolheu recurso fundado no art. 593, Hl, d, do Cl'!', mostrou-se coerente, pois quem afirma que os jurados negaram autoria que — em face dos indícios examinados — surge «como imperativo ditado pelo próprio bom senso», está afirmando, é óbvio, que os jurados decidiram contra a prova manifesta dos autos» ( fls. 90/92). Na verdade, a motivação que serviu de base á anulação do julgamen- to pelo Tribunal do Júri, situa-se nos termos do citado artigo do Código de Processo Penal. Ante o exposto indefiro o pedido. EXTRATO DA ATA HC 61.377-PB — Rel.: Min. Djaci Falcão. Pacte.: Francisco Estrela de Oliveira, vulgo Tobias. Impte.: Romeu Gonçalves de Abrantes. Coator.: Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba. Decisão: Indeferido o pedido, à unanimidade de votos. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. BARRAS CORPUS Nt 61.390 — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Paciente: Helito Faustino Silva — Impetrante: Zeila Mary Costa Souza — Coator: 2? Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro. Habeas Corpus. Competência. Apelação deserta. Revisão. Autoridade coatora. 1. O principio de que Julgada a apelação o Tribunal se torna autoridade coatora mesmo quando se invoquem, no habeas corpus, nulidades do processo-crime por ele não apreciadas, não tem aplicação quando, tida por deserta a apelação, não se instaurou o Juizo recursal, &Malta a sentença em primeiro grau. O principio igualmente não se aplica quando instaurado o juizo revisional, de âmbito restrito, nele não se apreciaram as questões suscitadas, em primeira mão, no pedido de habeas corpus. Em qualquer desses casos, não sendo o Tribunal autoridade coatora, incompetente é o STF para o writ. Habeas corpus não conhecido. R.T.J. — 109 112 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em conformidade com a ata de julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, em não conhecer do habeas corpus, devolvendo o processo ao 2? Tribunal de Alçada do &Stade Saio de Janeiro. BitMlbt, 10 de fevereiro de 1984 — Soares Maga, Presidente — Rafael Mayer, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Rafael Mayer: Adoto, como relatório, o parecer do ilustre Procurador, Alvaro Augusto Ribeiro Costa, devidamente aprovado pelo eminente Subprocurador, Prof. Assis Toledo, in verbis: «1. O paciente foi denunciado e condenado — como incurso no art. 157, § 2?, I, do Código Penal — a cinco anos e quatro meses de reclusão, além de multa (Proc. n? 30.162/69, da 5! V. Cr. do Rio de Janeiro). Houve apelação da defesa mas o colegiado julgador considerou-a deserta. Pediu-se revisão criminal, que não foi acolhida. Agora, mediante impetração sob exame, alega-se: a) afronta ao art. 41 do CPP, b) inobservância do disposto no art. 226 desse diploma; c) inocorrência do trânsito em julgado da sentença condenatória. Não nos parece procedente, porém, a primeira das alegações acima referidas. 6. Com efeito, inepta não é a denúncia de fls. 1-A, dos autos em apenso, que narrou, com todas as circunstâncias essenciais, o roubo atribuído ao paciente. Quanto à segunda alegação do impetrante afirma-se que o auto de reconhecimento do paciente, na policia, não foi subscrito por delegado e que dele não consta a qualificação das testemunhas nem a assinatura do reconhecido. O auto de fls. 9 (dos autos em apenso), todavia, embora não registre a observância das cautelas previstas no art. 226, II, do CPP, atende às exigências do inciso IV desse artigo. Por outro lado, tratando-se de peça extrajudicial, suas eventuais falhas não teriam o condão de invalidar o processo subseqüente ao inquérito, pois delas não cuida o art. 564 do CPP. Quanto ao trânsito em julgado em sentença condenatória, igualmente não merece prosperar a impetração. No particular, as informações (de fls. 24/25) esclarecem que a apelação do paciente foi julgada deserta, «por força do disposto no art. 595 do CPP.» Por outro lado, certo é que o paciente já pediu revisão criminal, que não foi acolhida (v. fls. 212 a 215 dos autos em apenso), e cujo pressuposto é o trânsito em julgado da decisão revista. Somos, em face do enunciado, pelo indeferimento do pedido.» E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator): Há uma questão preliminar. A única intervenção do Tribunal de Justiça local no processo-crime cujas nulidades fazem objeto da impetração consistiu em declarar deserta a apelação nos termos do art. 595 do Código de Processo Penal. Es- R.T.J. 109 se ponto não é alvo do ataque que todo se dirige contra os eventos do processo em primeiro grau. Deserta a apelação, perempta a devolução que lhe é inerente, o trânsito em julgado da sentença se opera automaticamente, sem possibilidade de manifestação do Tribunal. A jurisprudência desta Corte tem como assente que o julgamento da apelação investe o Tribunal na condição de autoridade coatora nos procedimentos do habeas corpus vinculados ao respectivo processo-crime, ainda quando nestes se suscitem nulidades a cujo respeito não se tenha pronunciado o juízo de apelação, atraída portanto a espécie à competência do Supremo Tribunal Federal (RHC n? 59.731 — lt Turma, Rel.: O Min. Néri da Silveira; RHC n? 59.759, 2t Turma, Rel.: O Min. Firmino Paz). A contrário senso, não instaurado o juízo de apelação não se verifica decisão do Tribunal de que decorra constrangimento ao réu, pois esta emana necessariamente do trânsito em julgado da sentença de primeiro grau, convalidante das nulidades apontadas. Logo não se há de apontar o Tribunal Federal local como autoridade coatora, não se firmando, de conseguinte, a competência do Supremo Tribunal Federal para o julgamento do presente habeas corpus. Certo é que houve pedido revistonal do paciente, indeferido pelo Egrégio Tribunal a quo, embora a ele não se reporte a impetração. Todavia, como se vê de informações constantes dos autos do processo-crime em apenso, o processo revisional não tem a mesma temática que a presente impetração, cingindo-se à alegação de que a sentença condenatória contrariava texto expresso de lei e a evidência dos au- 113 tos, havendo novas provas de inocência do acusado, com a invocação do art. 621, I e III do CPP. Baseando-se a revisão em fundamentos estritos, e admitida a sua renovação por fundamento que não tenha sido apreciado, o seu julgamento não põe o Tribunal como autoridade coatora no tocante às matérias suscitadas em babem corpus que não tenham sido perante ele deduzidas. Diferente do da apelação é o tratamento que lhe dá esta Corte, como se vê de caso análogo, julgado pela Egrégia Segunda Turma (HC n? 58.898, Rel.: O Min. Moreira Alves), não conhecida a impetração contra o Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, com fundamento em nulidades da instrução criminal, posto que «o acórdão prolatado em revisão criminal se adstringiu ao exame da alegação de que as provas não autorizaram a condenação do ora paciente, o que nada tem que ver com as alegações constantes nesse habeas corpus (in RTJ 102/552 ). Assim, também sob_ esse prisma, não é o Tribunal a quo autoridade coatora, nem, portanto, competente esta Corte. Pelo exposto, preliminarmente, não conheço do pedido e remeto os autos ao Egrégio Segundo Tribunal de Alçada do Rio de Janeiro. EXTRATO DA ATA HC 61.390-RJ— Rel.: Min. Rafael Mayer. Pte.: Helito Faustino Silva. Impte.: Zelia Mary Costa Souza. Coator: 2? Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro. Decisão: Não se conheceu do habeas corpus e se devolveu o processo ao 2? Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro. Decisão Unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Munõz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Alfredo Buzaid, Néri da Silveira e 114 R.T.J. — 109 Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — da República, Dr. Francisco de As- Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. sis Toledo. BARBAS CORPUS N? 61.402 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Paciente: Jorge Luiz da Silva — Impetrante: Antonio Jorge de Souza — Coator: 2? Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro. Defesa. Cerceamento. Falta de intimação de defensor do réu, para a audiência em que foi ouvida a única testemunha do sumário. Igual omissão, quanto aos prazos dos arts. 499 e 500 do CPP. Deferimento do pedido. ACÓRDÃO nha da acusação que compareceu a Juizo (8? Vara Criminal da CapiVistos, relatados e discutidos estes tal-RJ). autos, acordam os Ministros compoEm segundo lugar ressalta o imnentes da Segunda Turma do Suprepetrante que esse patrono partimo Tribunal Federal, á unanimidade cular (nomeado às fls. 84) também de votos e na conformidade da ata não foi notificado para se pronundo julgamento e das notas taquigráciar no prazo do artigo 499, do C. ficas, em conceder a ordem, nos terde Pr. Penal. mos do voto do Relator. Por último vale frisar que tamBrasília, 14 de fevereiro de 1984 — bém não se intimou o advogado da Djaci Falcão, Presidente e Relator. preferência do paciente para apresentar Alegações Finais (art. 500, RELATORIO CPP) em favor de seu constituinte. Assim sendo, Eminente Ministro, O Sr. Ministro Djaci Falcão: O adinegável o cerceamento de defesa vogado Antonio Jorge de Souza imimposto ao ora paciente, face ao petra habeas corpus em favor de disposto no artigo 153, § 15, da Jorge Luiz da Silva, expondo na parConstituição Federal» (fls. 2). te essencial do pedido: COnclui pedindo a nulidade do pro«O paciente está condenado pela cesso, com expedição de alvará de Justiça Pública do Rio de Janeiro soltura. (II Tribunal de Alçada, 4? CC, O pedido vem instruido com os doApel. n? 16.485). cumentos de fls. 4 /19. Prestadas as Sucede, entretanto, Excelência, informações de fls. 27/28, e requisique o mesmo acha-se submetido a tados os autos da ação penal (apenflagrante coação ilegal por cercea- sados), opinou o Ministério Público: mento de defesa. «1. Cuida-se de pedido de anulação do processo em que o paciente Primeiro porque apesar de ter foi condenado, na 8? Vara Criminal advogado exclusivo este não foi do Rio de Janeiro, como incurso no intimado para participar do ato art. 157, § 2?, II, do C. Penal (Proc. processual de fls. 149 (originais), onde se inquiriu a única testemun? 41.755). R.T.J. — 109 Alega-se, como causas de nulidade: a) que o advogado do paciente não foi intimado para a audiência em que foi ouvida a única testemunha do rol da acusação a comparecer a juizo; b) que o mesmo patrono não foi intimado para os fins do art. 499 do CPP; c) que o defensor também não foi intimado para apresentar alegações finais. As informações de fls. 27/28, noticiam, In verbis: — O paciente, na Ação Penal n? 41.755, foi denunciado como infrator do art. 157, § 2? I e II do Código Penal. No interrogatório, o advogado constituído, em alegações preliminares, negou a autoria dó crime imputado a seu cliente, arrolando testemunhas. Consta dos autos o termo de inquirição da testemunha indicada na denúncia, registrando a respectiva assentada a presença de defensor nomeado para aquele ato (xerocópia). Pela defesa foram inquiridas três testemunhas e, em virtude da ausência do patrono do ora paciente, não obstante a sua regular intimação, a Dra. Juíza nomeou o Dr. Defensor Público em exercício, naquele Juízo para assisti-lo (fls. 164 e verso). Na fase das alegações finais, abriu-se vista dos autos ao advogado exclusivo do réu (fls. 175v.) sem que o mesmo apresentasse as razões no prazo legal (art. 500 do CPP), o que motivou o despacho determinando vista à Defensoria Pública para que se suprisse a ausência daquele (xerocópia). A sentença do Juízo de primeiro grau censurou a inércia do advogado constituído e condenou o 115 paciente como incurso no art. 157, § 2?, II do CP, fixando a pena em 6 anos, 8 meses de reclusão e multa de Cr$ 12.000,00 e medida de segurança por 2 anos (reincidência em crime doloso), sendo a decisão integralmente confirmada em grau de Apelação (fls. 179/183 — fls. 204/205 e 104/106). 4. Com a apensação dos autos principais, verificamos o seguinte: o paciente, ao ser interrogado em Juizo , indicou como seu defensor o Bel. Antonio Jorge de Souza (v. fls. 84); esse advogado apresentou defesa prévia e arrolou testemunhas (v. fls. 86); foi designado o dia 22-12-81 para o inicio do sumário (v. fls. 116), que se realizou naquela data, sem que tivesse sido intimado o defensor do paciente (v. fls. 116/149); a essa audiência, esteve ausente o Bel. Antonio Jorge de Souza, ficando a defesa do paciente a cargo do Dr. Guilherme Piquei (v. fls. 149); e) na mesma audiência foi ouvida uma única testemunha (v. fls. 149), cujo depoimento velo a ser levado em conta — decisivamente — pela sentença condenatória (v. fls. 179/182); O tendo o Ministério Público desistido dos depoimentos das demais testemunhas arroladas com a denúncia (v. fls. 155 v.), foi designado o dia 17-3-82 para a audiência de oitiva das testemunhas da defesa (v. fls. 156v.); g) o Bel. Antonio Jorge de Souza foi intimado para a audiência (v. fls. 164v.), mas a ela não compareceu; por isso, foi nomeado, ad hoc, o Dr. Roberto Vitagliano (v. fls. 166/166r.); 116 R.T.J. — 109 h) o defensor do paciente também não foi intimado com respeito aos prazos dos arts. 499 e 500 do CPP, ficando as alegações finais a cargo da Defensoria Pública (v. fls. 167/177v.). De todo o exposto, verifica-se a procedência das alegações do impetrante, de vez que a defesa do paciente resultou cerceada, não tendo sido sanados os vícios processuais ocorridos. Com efeito, é magistério da Suprema Corte que «o defensor deve ser intimado para ciência de quando se procederá a instrução criminal, e a ausência de tal ato configura nulidade» (v. RTJ 66/400). E certo que essa omissão tem natureza relativa, não acarretando a anulação do processo quando suprida por falta de argüição oportuna (art. 572, I, cc o art. 571, II, do CPP), ou quando não tenha influído na decisão da causa (art. 566, do CPP). No caso, porém, viu-se que o defensor constituído pelo paciente não teve oportunidade de argüir a falta ao ensejo das alegações finais — pois não lhe foi dada intimação e que o depoimento colhido na audiência questionada serviu de fundamento à sentença. 9. Somos, então, pelo deferimento do wrlt, para que seja anulado o processo em causa, a partir da audiência de fls. 149 (inclusive), delegando-se ao juiz da causa expedir o pretendido alvará de soltura em favor do paciente, se por outro motivo não estiver preso. Justificamos essa cautela, em face dos antecedentes noticiados às fls. 104/108 dos autos em apenso. Brasília, 7 de fevereiro de 1984 — Alvaro Augusto Ribeiro Costa, Procurador da República — Aprovo: Francisco de Assis Toledo, Subprocurador-Geral, da República» ( fls. 55/58). VOTO O Sr. Ministro Djaci Falcão (Relator): No caso sob apreciação verifica-se que o defensor constituído pelo acusado não foi intimado para a audiência de instrução, em que foi ouvida uma única testemunha de acusação, cujo depoimento serviu de suporte decisivo à sentença condenatória. Além disso, o seu defensor também não foi intimado com respeito aos prazos para requerimento de diligências e alegações finais (arts. 499 e 500 do Código de Processo Penal), ficando estas a cargo da Defensoria Pública. Observo que, na espécie, o defensor constituído não teve oportunidade de argüir a falta de intimação para o sumário, pois não foi intimado para o oferecimento das alegações finais. Ante o exposto e de acordo com o parecer, concedo a ordem de habeas corpus para apular o processo a partir da audiência de instrução, inclusive, devendo ser regularmente renovado. Outrossim, determino a expedição de alvará de soltura em favor do paciente, se por ai não se achar preso. EXTRATO DA ATA HC 61.402-RJ — Rel.: Ministro Diaci Falcão. Pte.: Jorge Luiz da Silva. Impete.: Antonio Jorge de Souza. Coator: 2? Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro. Decisão: Concedida a ordem nos termos do voto do Relator. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e R.T.J. — 109 Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. 117 Brasília, 14 de fevereiro de 1984 — Hélio Francisco Marques, Secretário. HABEAS CORPUS N? 61.416 — MG (Segunda Turma) • Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek. Paciente: Mauricio Barbosa da Cruz — Coator: Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais. Não importa constrangimento ilegal o desarquivamento de inquérito policial militar, com base em representação do Juiz corregedor, nos termos de previsão legal expressa. Inaplicabilidade da Súmula 524. Precedente do STF. «Verifica-se dos autos que, em ACORDA() data de 19 de maio de 1980, nesta Capital, cerca das 00:40 horas, Vistos, relatados e discutidos estes nas imediações da Avenida Bias autos, acordam os Ministros da SeFortes, ocorreu a morte do civil gunda Turma do Supremo Tribunal Ismail Cândido Rosa, atingido Federal, de conformidade com a ata por disparo de revólver, fugindo de Julgamentos e as notas taquigráfiautor do local. Na ocasião, o cas, à unanimidade de votos, indefeevento teria sido presenciado por rir o pedido. João Batista Campos, que chaBrasília, 16 de dezembro de 1983 — mou imediatamente uma Rádio Decio Miranda, Presidente — FranPatrulha, expondo aos patrulheicisco Rezek, Relator. ros como o fato ocorrera. Saíram todos, então, ao encalço da pesRELATÓRIO soa que fizera os disparos. PouSr. Ministro Francisco Rezek: cos quarteirões à frente, a dita Neste habeas corpus profliga-se o testemunha indicou o Sd. PM desarquivamento de inquérito poliMaurício Barbosa da Cruz como cial militar, por força de representaautor do homicídio, dizendo, In ção do Juiz corregedor ao Tribunal verbis, que «o depoente afirma de Justiça Militar de Minas Gerais. categoricamente que é a mesma O fato importaria desrespeito à Jupessoa que disparou os tiros no risprudência estampada na Súmula indivíduo na rua Curitiba com ti? 524. Rias Fortes». Encaminhados os autos à Justiça Militar, o repreProcurador Alvaro Ribeiro Cossentante do Ministério Público ta, intervindo nos autos pelo Ministépediu o arquivamento por entenrio Público Federal, assim opina: der não provada a autoria do «Não sofre o paciente, a nosso evento, com o que concordou o ver, constrangimento ilegal ou abuJuiz Auditor. O despacho de arsivo. quivamento, nessas condições, O Acórdão de fls. 27, ao acolher não pode prevalecer. O art. 30 do a representação do Corregedor da Código de Processo Penal Militar Justiça Militar Estadual, fundou-se dispõe que a denúncia deve ser nas considerações assim enunciaoferecida quando existe um fato das: que, em tese, constitua crime e R.T.J. — 109 118 indícios de sua autoria. In caso, mais que indícios, temos afirmação de prova testemunhal ocular, impondo-se um processo crime regular para que se apure o que de fato deve ter acontecido. Nessas condições, o arquivamento está infundado, procedendo a Representação do Juiz Corregedor, devendo ser remetidos os autos ao Procurador-Geral da Justiça, que decidirá como devido». A colenda P Turma da Suprema Corte, outrossim, apreciando impetração semelhante à de que ora se cuida, assinalou a inaplicabilidade da Súmula n? 524 à hipótese de inquérito da Justiça Militar, desarquivado por via da correição parcial prevista no art. 498, b, do CPPM (v. HC n? 61 212-1-MG, Rel.: Min. Oscar Corrêa, cfe. notas taquigráficas anexas). Somos, em face do exposto, pelo indeferimento do pedido» ( fls. 36/38). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Francisco Rezek (Relator): O precedente citado pelo Ministério Público tem esta ementa: «Desarquivamento de inquérito policial militar pelo Tribunal de Justiça Militar, acolhendo pedido do Corregedor. Legalidade, em face do artigo 311, II, da Resolução n? 61, de 8-12-1975, do Colendo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que, expressamente, o prevê. Distinção entre a lei processual penal comum e a militar federal. Inaplicabilidade, ao caso, da Súmula n? 524. Habeas Corpus indeferido» ( fls. 39). No corpo do precedente ficou acertado que «... Na justiça militar federal ou estadual mineira, a Súmula n? 524 só terá aplicação, se o inquérito arquivado, de que não discordou o Corregedor, for posteriormente desarquivado, sem novas provas, mas não para o caso concreto em que o desarquivamento se deu em decorrência da atuação do Corregedor da Justiça Militar do Estado de Minas Gerais». Acolhendo o parecer transcrito, e na trilha do precedente, indefiro o pedido. EXTRATO DA ATA HC 61.416-MG — Rel.: Min Francisco Rezek. Pacte.: Mauricio Barbosa da Cruz. Impte.: Helena Vieira. Coator.: Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais. Decisão: Indeferido o pedido, à unanimidade de votos. Ausente, ocasionalmente, o Senhor Ministro Djaci Falcão. Presidência do Senhor Ministro Decio Miranda. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Aldir Passarinho e Francisco Reza. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Ausente, ocasionalmente, o Sr. Ministro Djaci Falcão. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. R.T.J. — 109 119 RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.422 — RS (Segunda Turma) Relator: O Sr.Ministro Decio Miranda. Recorrente: Edivar Moacir Pereira Pedroso — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Penal. Prescrição da ação penal. Quesito respondido pelo Júri, em julgamento antecedente, no sentido de reconhecer a atenuante de violenta emoção, provocada por ato injusto da vitima. Anulado o julgamento, o novo Conselho de Sentença não estará adstrito a admitir a atenuante. Conseqüentemente, impossível reconhecer-se prescrição com base nessa imaginada perspectiva. sido questionados sobre a moderaACÓRDÃO ção e o elemento subjetivo determinador do excesso. Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do SuSubmetido a novo julgamento premo Tribunal Federal, em segunpelo Tribunal do Júri, foi o pacienda turma, na conformidade da ata te absolvido. Todavia, provendo do julgamento e das notas taquigráapelo do Ministério Público, a 2? ficas, por unanimidade de votos, em Câmara Criminal do Tribunal de negar provimento ao recurso. Justiça determinou que fosse novamente julgado, por ter sido a deciBrasília, 25 de novembro de 1983 — são absolutória manifestamente Djaci Falcão, Presidente — Decio contrária à prova dos autos. Miranda, Relator. Na impetração, ora em grau RELATÓRIO de recurso, o advogado Ney Fayet pleiteia que seja declarada extinta O Sr. Ministro Decio Miranda: Rea punibilidade do paciente, pela za o parecer da Procuradoria-Geral prescrição da ação penal. da República, de lavra da ProcuraSustenta o impetrante que a dora Haydevalda Aparecida Sampena de quatro anos fixada na senpaio e aprovação do Subprocuradortença do Presidente do Tribunal do Geral Prof. Francisco de Assis ToleJúri, pelo homicídio privilegiado, do: passou a ser definitiva para a acusação, uma vez que o Tribunal a «1. Julgado pelo Tribunal do Júri de Alegrete, Edivar Moacir Pequo negou provimento à apelação reira Pedroso foi condenado, por do Ministério Público, não podendo homicídio privilegiado, a quatro ser imposta ao paciente, em outro anos de reclusão. julgamento, pena maior. 2. A 2? Câmara Criminal do TriE certo, consoante iterativa bunal de Justiça do Estado do Rio jurisprudência do Pretório ExcelGrande do Sul conheceu, apenas so, que anulada sentença condenaem parte, a apelação interposta tória, em recurso apenas do réu, pela defesa. Inconformado, o panão é possível, em novo julgamenciente recorreu extraordinariato, agravar a pena ( v. HC n? mente, tendo a Suprema Corte 59.634-GO, Rel.: Ministro Alfredo anulado o julgamento, por não teBuzaid, RTJ 101/1010; RHC n? rem os jurados, após negado a ne53.441-RJ, Rel.: Ministro Bilac Pincessidade dos meios empregados, to, RTJ 74/654 ). 120 R.T.J. — 109 7. Todavia, esta tese não se aplica quando se trata de decisão proferida pelo Tribunal do Júri, como bem acentuou o acórdão recorrido, «verbis»: Com efeito, a pena de quatro anos, imposta ao paciente no julgamento anulado, decorreu de o Conselho de Sentença ter reconhecido a atenuante do artigo 48, inciso IV, letra c,última parte, ou seja, a circunstância de haver praticado o crime sob a influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vitima. Quando proferiu a sentença, o Dr. Juiz Presidente tomou essa circunstância como se fora a privilegiadora do § 1? do artigo 121 e fez a redução da pena prevista para o homicídio emocional. Frisou a Câmara, na oportunidade de julgar a apelação do réu, que houvera erro na graduação da pena, e agregou que o erro não podia ser corrigido naquela ocasião, diante dos termos das razões do órgão do Ministério Público. lho aceite ou rejeite circunstâncias de agravação ou de atenuação da penabilidade. Ora, se existe a possibilidade legal de o novo Conselho negar a dita atenuante, a pena, sendo isto possível, deverá ser necessária e forçosamente, maior que a anterior. Porém, não se podendo prever qual será esse aumento, eis que a lei não preestabelece o quantum de redução das atenuantes, qualquer discussão em torno da pena final e conseqüente prescrição é discussão a partir de conjeturas e suposições, que não se adequa à índole do liabeas corpos. Mas fica, de tudo, a dúvida sobre se ocorrerá, ou não, a antevista extinção da punibilldade. (fls. 54). Opinamos, em face do exposto, pelo não provimento do recurso.» (fls. 105/9). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Decio Miranda (Relator): Acolho a fundamentação e a conclusão do douto parecer. Realmente, como bem salienta o Desde logo é evidente, no enrecorrido, o novo Conselho tanto, que o novo Conselho de acórdão Sentença, se proposto outra vez Sentença, se proposto outra vez o de quesito, não estará obrigado a determinado quesito, respondido de admitir aquela referida atenuan- certa forma no julgamento anulado, te, pois irá rejulgar desfrutando não está adstrito a renovar a resposda plena soberania decisória, não ta anterior, «pois irá rejulgar desfrusó quanto a ser culpado ou ino- tando da plena soberania decisória, cente o réu, como ainda em rela- não só quanto a ser'culpado ou inoção aos ingredientes formadores cente o réu, como ainda em relação da pena. Assim como o Conselho aos ingredientes formadores da peanterior dispôs de liberdade para na». Isto posto, nego provimento ao rereconhecê-la, o seguinte gozará de mesma liberdade tanto para curso. admiti-la novamente, quanto paE o meu voto. ra rejeitá-la. Isto porque aquela regra de jurisprudência não tem EXTRATO DA ATA força para cercear o poder julgaRHC 61.422-RS — Rel.: Min. Decio dor do Tribunal do Júri, até o ponto de impedir que seu conse- Miranda. Recte.: Edivar Moacir Pe- R.T.J. — 109 relva Pedroso (Adv.: Ney Fayet). Recdo.: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Decisão: Negado provimento. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes á Sessão os Senhores Ministros Decio Miranda e 121 Aldir Passarinho. Ausentes, jutificademente, os Senhores Ministros Moreira Alves e Francisco Reza. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 25 de novembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. HABEAS CORPUS N? 61.426 — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Soares Mufioz. Paciente: Antônio José da Silva — Coator: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Tribunal cio Júri. Embriaguez. Questionário utilizando as expressões da lei, suprimida apenas a forma negativa, aliás com vantagem, pois as perguntas sob a forma negativa podem gerar confusão. Habeas corpus Indeferido. ACORDA() Funda-se o verti na alegação de que o questionário formulado aos juVistos, relatados e discutidos estes rados foi redigido de forma imperfeiautos, acordam os Ministros do Su- ta e capaz de gerar dúvida e perplepremo Tribunal Federal, em Primei- xidade no Conselho de Sentença. Ca ra Turma, na conformidade da ata mo se vê por cópia xerox autêntica do julgamento e das notas taquigrá- anexada à petição inicial, indaga o ficas, por unanimidade de votos, in- aludido quesito impugnado: deferir o pedido de «habeas corpus». O réu, por embriaguez, proBrasília, 10 de fevereiro de 1984 — veniente de caso fortuito ou torça Soares Muhoz, Presidente e Relator. maior, possuía ao tempo da ação a plena capacidade de entender o caRELATÓRIO ráter criminoso do fato?» O réu, por embriaguez, proO Sr. Ministro Soares Mtuloz: O veniente de caso fortuito ou força advogado Odarico Carvalho impetra maior, possuía ao tempo da ação a ordem de habeas corpus pleiteando a plena capacidade de determinar-se decretação da nulidade da decisão de acordo com o entendimento do do 4? Tribunal do Júri do Rio de Jacaráter' criminoso do fato?» (fls. neiro, mantida, em grau de apela2/3). ção, pela 3? Câmara Criminal do TriData venta, aduz a impetração, bunal de Justiça que condenou Antonio José da Silva, como incurso «Foi multo infeliz a redação desno art 121, • 2?, I e IV, do Código se quesito. Pela sualiteralidade, a Penal, a quinze (15) anos de recluplena capacidade de entender o caráter criminoso do fato ou são e lhe impôs a medida de segurança detentiva consistente em indeterminar-se de acordo com esse ternação em colônia agrícola pelo entendimento, seria conseqüência período mínimo de um (1) ano. da embriaguez, proveniente de ca- 122 R.T.J. so fortuito ou força maior... Foram os jurados colocados numa situação de perplexidade. Obviamente, a redação desse quesito deveria ser outra. Por exemplo: O réu, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, estava privado, ao tempo da ação, da plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato?» O réu, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, estava privado, ao tempo da ação, da plena capacidade de determinar-se de acordo com o entendimento do caráter criminoso do fato?» Então, nenhuma dúvida haveria no espirito dos jurados. Analogamente ao que lhes coube decidir no quesito anterior, eles responderiam afirmativamente se entendessem que o réu fazia jus à redução da pena prevista no § 2? do artigo 24 do CP, e negativamente em caso contrário. Entretanto, nos termos em que lhes foi proposto o quesito, é impossível saber-se o que realmente queriam dizer os jurados com as respostas afirmativas, proferidas por maioria (doc. n? 4)» (fl. 3). Sobre a invocada nulidade não se pronunciou o Tribunal de Justiça, visto que não argüida na apelação. O parecer da SubprocuradoriaGeral da República é pelo indeferimento do pedido, in verbis: «Complexidade em determinado quesito é o fundamento único da impetração que, assim, almeja desconstituir a decisão do Conselho de Sentença, referendada a nível recursal. Não deve prosperar. Impugna-se a indagação, n? 4, desdobrada em dois (2) itens, pre- 109 ferindo-se a formulação pela negativa, do que a forma utilizada em quesitação positiva, negada pelos jurados (vide: fl. 3). Ora, nada há de irregular na pergunta, como feita. Registre-se, aliás, que já no «3? quesito» também se apresentou a formulação pela via direta e, então, o subseqüente quesito não poderia destoar da linha adotada (vide: Termo à fl. 9). Curioso, e assim a incoerência da postulação, é que a impetração não cuidou de impugnar a redação da 3? pergunta, igualmente subdividida em dois (2) itens. Como se vê, não há a demonstração clara de complexidade na indagação, dai porque concluímos pelo indeferimento do pedido» (fls. 35/36). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Soares Mufioz (Relator): Na redação dos quesitos impugnados foram mantidas as expressões utilizadas no parágrafo 2? do art. 24 do Código Penal e, dessa forma, não há imperfeição a reconhecer, e, muito menos, admitir que as perguntas possam ter suscitado dúvida ou perplexidade, capaz de impedir ou dificultar a resposta dos jurados. A forma afirmativa do questionário tornou mais fácil a indagação, sabido, como é, que as perguntas negativas, elas sim, podem gerar confusão. A substituição proposta pela petição inicial das expressões usadas no questionário — «possuía a plena capacidade...» por «estava privado de plena capacidade», que não são as do § 2? do art. 24 do Código Penal, é passível de identificar ou gerar confusão da dirimente prevista no § 1? R.T.J. — 109 do mencionado art. 24 com a minorante do 2? do mesmo artigo e que foi objeto do quesito em questão. Ante o exposto, indefiro o pedido de habeas corpus. EXTRATO DA ATA HC 61.426-RJ — Rel.: Min. Soares Mufloz. Pte.: António José da Silva. Impte.: Odarico Carvalho. Coator: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. 123 Decisão: Indeferiu-se o pedido de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Alfredo Buzaid, Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário HABEAS CORPUS N? 61.445 — PB (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Soares Mufioz. Paciente: Geraldo Quevedo Barbosa ou Geraldo José de Almeida Junior — Coator: Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba. Citação por editai. Ausência de prova de que o acusado estivesse preso quando não foi encontrado para ser citado pessoalmente. A citação mediante edital de réu preso noutra Unidade da Federação não constitui, de regra, causa de nulidade. Súmula 351. A falta de razões finais constituí nulidade relativa, que é de considerar-se sanada se o sentenciado interpôs apelação em extensas razões, sem alegar a mencionada omissão. Habeas corpus indeferido. ACORDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Primeira Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, for unanimidade de votos, indeferir o pedido de «habeas corpus». Brasília, 13 de dezembro de 1983 — Soares Mufloz, Presidente e Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Soares Mufloz: A Procuradoria-GeraidaRepúblicaemltiu parecer, através do ilustre Procurador Dr. Alvaro Augusto Ribeiro Costa, que expõe a espécie e sobre ela opina, verbis: «Cuida-se de pedido de anulação do processo em que o paciente foi condenado — na 9? Vara Criminal da Comarca de João Pessoa (PB) — a cinco anos de reclusão, além de multa, como incurso no art. 155, 4?, IV, c/c o art. 25, bem assim no art. 180, c/c o art. 25, todos do C. Penal. A nulidade resultaria: a) de não ter sido o paciente requisitado para o interrogatório e os demais atos da instrução, embora estivesse preso; b) de não terem sido apresentadas alegações finais em seu pra, pelo defensor dativo; c) de não ter sido feita a intimação regular da sentença ao paciente. Não cremos como se possa acolher a primeira das alegações acima indicadas, pois a impetrante 124 R.T.J. — 109 realmente, preso em São Paulo quando não foi encontrado, no Estado da Paraíba, para ser citado por, mandado e, por isso, a citação se realizou mediante edital. O atestado de fls. 12, datado de 11-8-80, diz que o paciente deu entrada no Presídio do Hipódromo em 30-4-79, em São Paulo, ali permaneceu até o dia 10-5-79, data em que foi removido para a Divisão de Capturas, em trânsito para a comarca de Natal, Estado do Rio Grande do Norte. No entanto, a prisão preventiva do paciente foi decretada dias antes de sua entrada no Presídio do Hipódromo, como se vê do mandado de ti. 125, expedido a 25-4-79. Quando da citação por edital, o paciente não mais se encontrava naquele presídio e nenhum atestado existe, no processo, do estabelecimento penitenciário para o qual foi transferido. Ademais, preso que se achasse o paciente, não seria na mesma Unidade da Federação em que estava sendo processado. O Supremo Tribunal Federal decidiu, no HC n? 58.718, que «se o réu se encontra preso em outro Estado que não o em que o juiz exerce jurisdição, não há nulidade na citação por edital (apud. Código de Processo Penal, Anotado, por Damásio E. de Jesus, pág. 197, 3? ed.). Da mesma orientação participa a Súmula N? 351. A falta de razões finais constitui nulidade relativa que se considera sanada quando não alegada oportunamente ou na hipótese em que da omissão não resulta prejuízo para a defesa (arts. 563, 564, III, e, e 572 do CPP). O paciente apelou da sentença condenatória em petição por ele assinada e produziu pela Assistência Judiciária, e as respectivas razões VOTO não argüiram a nulidade decorrente da falta de razões finais, nem alegaO Sr. Ministro Soares Mufioz (Re- ram que não lhe tivesse sido dado o lator): Não encontro comprovado prazo para oferecê-las, sendo que esnos autos que o paciente estivesse, ta omissão é que constituiria causa não fez prova, em nenhum momento, de que a prisão do paciente, em São Paulo, fosse conhecida do juiz do processo que teve curso em João Pessoa. No que concerne à alegada falta de intimação da sentença ao paciente, nas informações prestadas no presente habeas corpus não esclarecem o ponto. Em face delas, não nos é possível afirmar se o paciente foi intimado (ou não) da sentença. Não vemos necessidade, porém, de sugerir que sejam requisitadas informações complementares, quanto à mencionada intimação, porque entendemos caracterizada a nulidade do processo, no que concerne ao paciente, a partir da fase do art. 500 do CPP. Com efeito, o acórdão de fls. 189/195 reconheceu que a sentença foi prolatada sem que tivessem sido apresentadas alegações finais em favor do paciente, cuja defesa esteve a cargo de defensor dativo. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, todavia, já se firmou, considerando essencial à defesa a apresentação das razões finais sendo motivo de nulidade a falta das mesmas (v. HC n? 60.899PR, 1! Turma. Rel.: Min. Alfredo Buzaid, In DJ 1-7-83, pág. 9.994; HC n? 56.373-PR, 2? T. Rel.: Min. Leitão de Abreu, in RTJ 90/808). Em face do exposto, somos pelo deferimento do pedido, em parte, a fim de que seja anulado o processo em causa, quanto ao paciente, a partir das razões finais, inclusive» (fls. 197/199). E o relatório. R.T.J. — 109 125 de nulidade, se tivesse morrido (art. 564, III, c). Na apelação, em prol do paciente, não só foram oferecidas extensas razões como ainda memorial (fls. 34/39). A falta de intimação da sentença não se acha comprovada nos presentes autos. De resto, a apelação do paciente demonstrou sua inteira ciência da sentença, pois a petição recursal, como já disse, foi assinada por ele (fl. 46), assim como, também, as razões produzidas pelo serviço de Assistência Judiciária da Casa de Detenção de São Paulo (fls. 34/46). Ante o exposto, indefiro o pedido de habeas corpus. EXTRATO DA ATA HC 61.445-PB — Rel.: Min. Soares Mufloz. Pacte.: Geraldo Quevedo Barbosa ou Geraldo José de Almeida Junior. Impte.: Tania Mara Molina Belo. Coator.: Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba. Decisão: Indeferiu-se o pedido de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Miuloz Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 13 de dezembro de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. HABEAS CORPUS 1Ç? 61.448 — ES (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Paciente: Altamiro Custódia ou Custódio da Silva — Impetrante: Hernani Giurizatto — Coator: Tribunal de Justiça do Estado do Espirito Santo. Crime militar. Desclassificação em favor do artigo 437, letra a, do Código de Processo Penal Militar. A exigência do aditamento da de- núncia e de resposta pela defesa limita-se Ét hipótese em que a inovação da classificação do crime vem agravar a situação do réu. Na espécie, isso não ocorre. Habeas corpus indeferido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros componentes da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal à unanimidade de votos e na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, em indeferir o pedido. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Djaci Falcão, Presidente e Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Djaci Falcão: Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de Altamiro Custódio da Silva, sob alegação de que: «O paciente, juntamente com outro, nas iras do art. 327 do Cód. Penal Militar, se viu denunciado pelo Dr. Procurador da Justiça Militar Estadual e, em alegações finais escritas como também, em ale gações orais, em julgamento perante o Conselho Permanente de Justiça, S. Exa. pugnou pela condenação do mesmo nas sanções do art. 339 do mencionado diploma legal, recebendo o paciente, por veredito, a pena de 1 (hum) ano de detenção; Inconformado, por inocorrência do delito que lhe foi imputado, recorreu para o Tribunal de Justiça do Espírito Santo, vindo de ser condenado à pena de 06 (seis) me- 126 R.T.J. — 109 ses de detenção pela Egrégia SeFace ao exposto, por se tratar de nulidade Insanável e Já passado gunda Câmara Criminal, à unanimidade, por infringência ao art. em Julgado o V. Acórdão, espera o impetrante que o Excelso Pretório, 328 do Cód. Penal Militar; por uma de suas Colendas Turmas, Data venia, da Colenda Segunda anule o V. Acórdão porque trata-se Câmara Criminal, o Julgamento e de decisão ultra petita e evidente condenação do paciente, o foi ultra cerceamento de defesa» (fls. 2/3). petita porque o Recurso de ApelaO pedido vem instruído com os doção da Defesa pleiteou, tão-somente, a reforma da Sentença por ino- cumentos de fls. 4/23. corrência do delito; Prestadas as informações de fl. 32, Se, pela Súmula do STF de n? manifestou-se a Procuradoria da Re160, «E nula a decisão do Tribunal pública nos seguintes termos: que acolhe, contra o réu, nulidade «1. Altamiro Custódio da Silva, não argüida no recurso da acusacabo da Policia Militar do Estado ção, ressalvados os casos de recurdo Espirito Santo, foi condenado so de oficio», evidentemente, não pela Justiça Militar, pelo crime do poderá o Tribunal, em recurso da art. 339 do CPM ( impedimento, defesa, alterar substancialmente, o perturbação ou fraude de concordelito imputado ao réu, aplicandorência), a um ano de detenção, lhe as sanções de outro delito que mínimo legal. Note-se que a sennão consta da denúncia, alegações tença, para assim proceder, desfinais escritas e orais do Dr. Proclassificou a acusação do tipo do curador da Justiça Militar. art. 327 para o do art. 339 do estatuto penal militar (fls. 9/10). Indubitável a nulidade do V. Acórdão porque a decisão foi ultra Apelando somente a defesa, o petita e porque evidente o cerceaTribunal de Justiça do Estado promento de defesa uma vez que esta veu em parte o recurso para, de foi toda ela trabalhada na inocornovo, rência dos crimes capitulados nos ...desclassificar o crime para o arts. 327 e 339 do Cód Penal Miliart. 328, combinado com o artigo tar, sendo, no entanto, surpreendi53, ambos do CPM, e, em consedo com a condenação do art. 328 do qüência, condenar o apelante mesmo diploma substantivo, sem pena de seis meses de detenção. que tivesse o paciente oportunida(fl.. 19). de de carrear provas também da inocorrência do delito previsto no Dai o presente pedido de habeas corpus no qual se alega a art. 328. nulidade do acórdão em apreço, Pela Legislação Processual Pepor ter operado uma desclassificanal Militar é vedado ao Conselho ção não pedida nem argüida no rePermanente de Justiça aplicar curso da defesa. Invoca-se a Súmucondenação em delito diverso dala 160, bem como as peculiaridades quele que consta da denúncia ou, do Código de Processo Penal Milidas alegações finais do Dr. Procutar. rador da Justiça Militar. Ipso fato, tanto por imposição legal como por 4. Diga-se, Inicialmente, que a interpretação, também deverá ser classificação do fato no tipo do art. proibido, na instância recursal, a 328 do CPM surgiu apenas no acóraplicação de outro delito sem que a dão do Tribunal, não tendo sido codefesa tivesse tido oportunidade de gitada em outras fases do procesproduzir provas em tal sentido. so. Não obstante, não houve sur- R.T.J. — 109 presa para a defesa, visto como, na modalidade de fraude («fraudar a realização de... tomada de preços, de interesse da administração militar»), está esse fato típico explicitamente contido na denúncia que, com todas as letras, atribuiu ao paciente haver violado e alterado para mais os valores de propostas apresentadas por empresas concorrentes de certa fornecedora de peças, com o propósito evidente de fazer com que esta última, da preferência do acusado, vencesse a tomada de preços que então se realizava. Não houve, pois, surpresa para a defesa, nem é caso de invocar-se a Súmula n? 160 que cuida do acolhimento de nulidade, não de matéria referente à desclassificação do crime. Por outro lado, não cabe falarse em julgamento além do pedido, pois a defesa pediu o mais, ou seja, a absolvição, e o Tribunal lhe deu menos, isto é, uma redução na condenação, por via da desclassificação do crime. Diga-se, ainda inicialmente que a condenação empreendida pelo acórdão atacado beneficiou o réu, pois a pena do crime do art. 328 é de 6 meses a dois anos de detenção, ao passo que a do art. 339, de acordo com a edição da Imprensa Nacional (Coleção das Leis, 1970), de 1 a 3 anos de detenção. (A 3? edição da Forense, 1980, contém erro de impressão ao consignar a pena de «um a três meses», pág. 112). 5. Sendo assim, a questão que se põe nestes autos é, a nosso ver, a de saber se o Tribunal de Apelação pode dar, de oficio nova definição jurídica ao fato criminoso, empreendendo a mutatio llbelli, e, em caso positivo, se, no âmbito da Justiça Militar, será isso possível, 127 como se fez, independentemente de prévia abertura de vista à acusação e à defesa. 6. Nos processos de competência da Justiça comum parece não haver dúvida, diante de dois precedentes desta Corte: o primeiro no RHC n? 48.328, relatado pelo Ministro Djaci Falcão (RTJ 56/71); o segundo no HC n? 50.716, relatado pelo Ministro Barros Monteiro (RTJ 65/85). Já quanto aos processos de competência da Justiça Militar, localizamos dois acórdãos dissidentes, cujas ementas bem espelham as respectivas orientações, In verbis: Ementa: Os pressupostos estabelecidos no Código de Processo Penal Militar não são os mesmos dos previstos no Código de Processo Penal Comum, relativamente à mutatio Men'. De conformidade com aqueles o órgão julgador não pode dar definição jurídica diversa da que constar da denúncia, sem que a desclassificação haja sido formulada pelo Ministério Público em alegações escritas, e que a outra parte tinha tido oportunidade de defender-se. Cotejo entre o art. 437, letra a do CPPM e os arts. 383 e 384 do CPP. Habeas corpus concedido.» (RHC n? 55.993-RJ, Rel.: Ministro Soares Munoz, RTJ 86/793). —Ementa: Desclassificação a favor do réu. Interpretação do artigo 437, a, do Código de Processo Penal Militar. Ainda quando se pretenda que art. 437, a do Cód. de Proc. Penal Militar, interpretado sistematicamente, em face de sua letra b, não tenha mantido, com outras palavras, das regras tradicionais dos arts. 383 e 384 do Cód. de Proc. Penal, não se poderá levar cerceamento do princípio lura novit curia a ponto de impedir 128 R.T.J. — 109 VOTO que, sem manifestação anterior do Ministério Público e oportunaO Sr. Ministro Djaci Falcão (Relamente da defesa para responder a ela, o Conselho de Justiça dê ao tor): Acolho o parecer do eminente fato definição jurídica mais favo- prof. Francisco de Assis Toledo. Na verdade, parece-me que a exigência rável ao réu. de aditamento pela acusação e de — Inexistência de nulidade. resposta pela defesa, limita-se a hiHabeas corpus indeferido. ( HC pótese em que a inovação da classin? 55.744 — Rel.: Min. Moreira ficação do crime vem agravar a siEives, RTJ 88/421). tuação do réu, como é de boa lógica. 7. Como no RHC n? 55.993 sus- Se não há agravação, como se dá no tentamos no parecer, que, na oca- caso, inexiste razão para se declarar sião, desmereceu acolhida, a tese nula a sentença condenatória. que ficou vencedora no HC n? Ante o exposto indefiro o pedido. 55.744, pedimos vênia para, nesta oportunidade, reiterar aquele enEXTRATO DA ATA tendimento. Parece-nos, com efeito, que a exigência de aditamento HC 61.448-ES — Rel.: Ministro Djapelo Ministério Público e de resci Falcão. Pte.: Altamiro Custódia posta da defesa, referidas no art. 437, a do CPPM, se restringe à hi- ou Custódio da Silva. Impte.: Hernapótese em que a nova classificação ni Giurizatto. Coator: Tribunal de «agrava a situação do réu». (Voto Justiça do Estado do Espirito Santo. vencido do Ministro Cunha PeixoDecisão: Indeferido o pedido, à to, no RHC n? 55.993. Não havendo unanimidade de votos. essa possibilidade de agravação, inexiste razão plausível para Presidência do Senhor Ministro abolir-se do sistema o principio Djaci Falcão. Presentes à Sessão os lura novit curta, como bem salien- Senhores Ministros Moreira Alves, tou o voto do Ministro Moreira Al- Decio Miranda, Aldir Passarinho e ves, no HC n? 55.744. Francisco Rezek. SubprocuradorAnte o exposto, o parecer é pela Geral da Reública, Dr. Mauro Leite denegação da ordem. Soares. Brasília, 6 de fevereiro de 1984 — Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Francisco de Assis Toledo, Subprocurador-Geral da República» (fls. Hélio Francisco Marques, Secretário. 34/39). HABEAS CORPUS N? 61.469 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Paciente: Jacques Roberto Gaivão Bresciani — Impetrante: Eubis do Amaral — Coator: Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Prevenção. Habeas coros. Apelação. O conhecimento do habeas corpus torna preventa a competência para todos os recursos posteriores (art. 103 do Regimento Interno do Tribunal de Justiça de São Paulo; art. 69 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal). Habeas corpos indeferido. R.T.J. —109 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, indeferir a ordem. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Soares Mulloz, Presidente — Rafael Mayer, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Rafael Mayer: Adoto, como relatório, o parecer proferido pelo ilustre Doutor Cláudio Lemos Fonteles, devidamente aprovado pelo eminente Subprocurador-Geral, Prof. Assis Toledo, in verbis: «Torna a peticionar o Dr. Eubis do Amaral em favor de Jacques Roberto Gaivão Bresciani e suscita agora argumento único que dá pela incompetência da 1? Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, buscando invalidar, assim, a decisão da 4? Câmara Criminal, do mesmo colegiado, que àquela declinara da competência ao exame do apelo, porque prevenia ante anterior decisão em pedido de Habeas corpus (vide: fls. 9). Sustenta a impetração que a decisão em pedido de habeas corpus não gera a prevenção e que o mesmo, por ter a natureza jurídica de ação, não se compreende no magistério do artigo 103, regimental. A questão nos parece prejudicada, porque abordada, e decidida, em anterior postulação do. mesmo paciente, ainda que incidentalmente, quando por outro fundamento buscava-se profligar o acórdão da mesma lf Cãmara Criminal, pois então dizíamos em parecer, transcrito no Relatório do douto Min. Rafael Mayer, verbis: «A pretensão liberatória, requerida pelo Dr. Eubis do Amaral, em 129 favor do advogado Jacques Roberto Gaivão Bresciani, quer eliminar o julgado assumido pela 1? Câmara do Tribunal de Justiça de S. Paulo, que condenou o paciente a 5 anos de reclusão, além da pena acessória de interdição do exercício profissional da advocacia por 3 (três) anos — vide fls. 49 —, ao fundamento de que, anulado por este Supremo Tribunal anterior julgado de apelação, lavrado pela mesma Câmara em desfavor do réu, esse segmento judicante não poderia reexaminar a matéria. O argumento carece de qualquer respaldo jurídico, por isso não deve prosperar. Realmente, o Supremo Tribunal, pelo voto do douto Min. Rafael Mayer, anulara a decisão em recurso de apelação promovido por Jacques Roberto, dado que não acontecera a necessária e prévia publicação de alteração no horário dos julgamentos, o que desrespeitou o magistério da Súmula n? 431 (vide: fls. 13/19). Assim feito, no novo exame da questão haveria mesmo a 1! Câmara de a si chamá-lo, até porque prevento já estava o conhecimento da questão, por ter decidido pedido de habeas corpus (vide: informa- ções a fls. 31). E justo como no exame da questão, neste Supremo Tribunal Federal. Informado que o douto Min. Rafael Mayer já apreciara anterior postulação do réu, em torno do mesmo fato «— fls. 23 — este processo a S. Exa. foi distribuído». ( Vide: fls. 17/18). E, no voto do ilustrado Relator, define-se o ponto, verbis: «Com efeito, o problema de competência não fora aflorado, no primeiro procedimento, e o Julgamento dg primeira apelação já se fizera sob o. crivo da compe- 130 R.T.J. — 109 tenda prevenia da Câmara Criminal que conhecera, anteriormente de pedido de «habeas corpus» referente ao mesmo processo criminal. Firmada e reiterada a competência da Câmara; insubsistente é a alegação de que estivessem impedidos ou suspeitos os seus componentes pelo só fato de haverem participado do julgamento anterior, pois a hipótese não se alinha dentre as previsões dos arts. 252 e 254 do Código de Processo Penal. (Vide: fls. 20, grifamos). «Por mais, o artigo 103, do Regimento Interno do Tribunal de Justiça de São Paulo, lido a fls. 4, da impetração, muito a contrário do que sustenta o ilustre causídico, permite a ilação tranqüila de que o habeas corpus previne a jurisdição pois por ele, sem dúvida «a câmara conhece da causa», ou mesmo decide «um dos seus incidentes» e, por isso, aos «recursos posteriores terá a jurisdição preventa». Pelo indeferimento do solicitado, acaso não se o tenha por prejudicado.» o relatório. VOTO Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator): A competência dos Tribunais em dispor sobre os seus regimentos internos deflui da sua própria autonomia, e o tradicional reconhecimento desse poder se alça a preceito constitucional. A Constituição em vigor torna aliás explicito, o que já implícito se tinha, que é matéria da norma regimental a definição da competência dos órgãos internos do Tribunal, turmas, grupos, seções, etc. Não bastasse, a própria lei ordinária remete aos regimentos internos a disciplina dos processos que têm curso na superior instância, como de modo especifico dispõe o Código de Processo Penal, relativamente ao processamento dos recursos e apelações, revisões e habeas corpus, de competência dos tribunais (arts. 560, 618, 628, 638 e 666 do CPP). assim porque as questões denominadas de interna corporis, que são tais, refogem da ordem processual comum, para se incluir na disciplina regimental, em obséquio à autonomia do Poder Judiciário e ao resguardo da vida interna dos tribunais diante da intervenção dos legisladores (Cfr. Frederico Marques, Instituições, 1/61). Ora, em sendo assim, não se pode negar a autenticidade da interpretação que o Tribunal dá ao próprio Regimento que adotou, cabendo obsequiar a dominância dessa interpretação. Ademais, a interpretação conferida pelo Tribunal de Justiça ao art. 103 do seu Regimento Interno, que está em causa, é de todo consentânea e congruente com o conceito da competência preventa e com a natureza processual do habeas corpus. As doutas informações da autoridade coatora, subscritas pelo ilustre Desembargador Heráclides Batalha de Camargo, reportam-se a precedente desta Corte, tomado no HC n?s 49.459/49.852, que é de todo pertinente. Ai se reconheceu nulo o julgamento de habeas corpus por urna das Turmas do Tribunal Federal de Recursos, pois o anterior fora distribuírki e apreciado por outra, quando «preventa estava para ela a apreciação de todos os que se referissem à mesma ação penal, como sucede» (RTJ 64/49). desconhecimento da competência preventa na espécie redundaria, inegavelmente, em grave desacerto da ordem dos processos e julgamentos no tribunal, fomentando contradições e conflitos na prestação jurisdicional. A natureza de ação de que se reveste o habeas corpus, decerto juri- R.T.J. — 109 131 dicamente correta, não é de molde a art. 10 c/c o art. 69 do Regimento Inafastar a aplicação da competência terno do STF, de indiscutida e vetusprevenia, dada a sua especificidade ta aplicação. ou singularidade, pela prioridade de Inocorrente defeito de competênseu conhecimento com relação ao cia, e sem que o reconhecimento da Juizo de apelação da ação penal a prevenção contenha laivo de ilegalique ele se vincula necessariamente, dade ou abuso de poder, ponho-me no caso. de acordo com o douto parecer, e inCom efeito, objeto do habeas defiro a ordem. corpos, á mais das vezes, e no presente caso, é o de resolver questões EXTRATO DA ATA incidentes no curso da ação penal, antecipando-se no conhecimento dos HC 61.469-SP — Rel.: Min. Rafael seus trâmites. Na consideração dessa realidade processual, é que se fez Mayer. Pacte.: Jacques Roberto Gaio dispositivo do regimento paulista e vão Bresciani. Impetrante: Eubis do se lhe deu interpretação conseqüen- Amaral. Coator: Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do te. Aliás, por argumentar, se se admi- Estado de São Paulo. Decisão: Indeferiu-se a ordem de tisse como verdadeira a premissa do impetrante, de se tratar de uma habeas corpos. Decisão unânime. ação autônoma insuscetível de pre- Falou como impetrante: Dr. Eubis venir, recair-se-ia na prorrogação de do Amaral. competência, pela indiscutível ocorPresidência do Senhor Ministro rência de conexão. Soares Mui-1oz. Presentes à Sessão os O artigo 103 do Regimento Interno Senhores Ministros, Rafael Mayer, do Tribunal de Justiça de São Paulo Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Aunão sugere, no seu texto, outra inter- sente, justificadamente, o Senhor pretação que a que lhe foi conferida Ministro Alfredo Buzald. Subprocurapela venerável instância a quo, refle- dor-Geral da República, Dr. João tindo correta e indeclinável aplica- Boabald de Oliveira Itapary. ção do principio da prevenção. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Anoto que a norma regimental em António Carlos de Azevedo Braga, causa encontra correspondência no Secretário. HABEAS CORPUS Nt 61.490 — DF , (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek. Paciente: Rúbia Maria Oliveira Souza — Coator: Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Habeas corpus. Júri. Nulidade. Quesitos. Não há incompatibilidade lógica entre a violenta emoção, que é a qualidade do estado de animo do autor, e as possíveis circunstâncias agravantes que se revelem no modo de executar o crime, qual a traição ou o aproveitamento das facilidades do convívio doméstico. Há incompatibilidade no reconhecimento simultâneo do motivo fútil e do estado de violenta emoção, provocada por ato injusto da vitima — dois elementos estritamente subjetivos, e de coexistência inadmissível. R.T.J. — 109 132 ACORDA° Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, de conformidade com a ata de julgamentos e as notas taquigráficas, à unanimidade de votos, conceder a ordem, nos termos do voto do Ministro Relator. Brasília, 9 de dezembro de 1983 — Mac( Falcão, Presidente — Francisco Rezek, Relator. RELATORIO Sr. Ministro Francisco Reza: Em favor de Rúbia Oliveira Souza foi impetrado este habeas corpus, alegando-se a nulidade do julgamento do tribunal do júri de Brasília, que a condenou a quatorze anos de reclusão por homicídio qualificado, decisão mais tarde abonada em segunda instância. impetrante entende que houve complexidade na formulação deste quesito: «No dia 21 de agosto de 1981, por volta das 22:00 horas, no interior do apartamento 507 do bloco «E», da SQS 211, a ré Rúbia Maria de Oliveira Souza, após jogar álcool no corpo da vitima José Fernandes Lapa, ateou-lhe fogo, ocasionandolhe as lesões descritas no laudo de fls. 18?» (fls. 16) Argúi, outrossim, contradição na resposta do júri, visto que os jurados afirmaram ter a ré cometido o crime por motivo fútil e à traição — art. 121, 2?, II e IV do CP — e, logo depois, reconheceram a circunstância atenuante de ter sido cometido o delito sob influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima — art. 48, IV, c do Código Penal. Dr. Cláudio Fonteles opina, pela Procuradoria-Geral da República, neste sentido ( fls. 341/345): «A amparar mento, o ilustre o primeiro arguadvogado arrimase em julgado desta Suprema Corte — fls. 17/28 —, mencionando parecer de nossa lavra, acolhido no caso referido (fls. 29/31). Cremos, todavia, que há dessemelhança nas situações. No caso mencionado, dizíamos, verbis: «Deflui do voto o ilustre Des. Lima Carneiro, quando apreciou o recurso de apelação do réu, que o primeiro quesito efetivamente englobou indagação sobre o fato principal, e a circunstância qualificada: morte por asfixia (vide: fls. 16). Ora, isto não está normativamente autorizado. Na conformidade do artigo 484, e incisos, do Código de Processo Penal, «o primeiro quesito versará sobre o fato principal, de conformidade com o libelo». Vale dizer: indagase da existência do evento, e da autoria; quem o perpetrou. Após isto, o Conselho de Sentença é ouvido sobre a tese, ou teses da defesa (inciso III, do artigo 484). Se repelida a postulação da defesa, firmando-se então a certeza jurídica do homicídio, é que, por coerência, indagar-se-á se ele consumado é, por forma qualificada, ou privilegiada ( inciso IV, do artigo 484). No caso implicando o quesito inicial na resposta sobre o evento, e sua modalidade qualificada, a formulação, sem dúvida cerceia a defesa por pressupor real o fato imputado ao acusado, eliminando então antecipadamente, o exame do que sustentara.» (vide: fls. 30). E, no que fixávamos, então, a razão processual ao estabelecimento de ordem de precedência na for- R.T.J. —109 mulação dos quesitos, marcávamos o cerceamento da defesa porque esta sustentara o homicídio simples (vide: Relatório a fls. 19), Situação de desclassificação, portanto, de logo subtraída ao Conselho de Sentença com a formulação englobada do primeiro (1?) quesito quando, pelo disposto no inciso III, do artigo 484, do CPP, exige-se a formulação própria, e destacada, a propósito. Mas na situação ora em exame, a defesa, por tese sua, abordou exclusivamente a negativa da autoria (registro em Ata a fls. 33). Ora, a negativa da autoria é dado que se reconhece, ou se esvai, na formulação mesma do primeiro (1?) quesito, como estabelecemos no trecho transcrito no item 5,. deste. Assim sendo, inexistindo teses outras da defesa a se encaixarem no contido no inciso III, do artigo 484, o já indagar-se no primeiro (1?) quesito sobre uma realidade objetivada — atear fogo ao corpo da vitima — não traz Maiores transtornos porque não induz, ou dificulta, a compreensão sobre a autoria. Na especificidade do caso a indagação sob o nt 4, repetindo o já reconhecido na primeira (lt ) formulação mostra-se despicienda (vide: Termo de Quesitos a fls. 16). Todavia, concedemos razão à impetração quando precisa a contradição nas respostas aos quesitos 3? (reconhecimento do motivo fútil) e 11? (reconhecimento da conduta da ré sob influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vitima). Sem dúvida, ambas as respostas pressupõem constatação no plano subjetivo do autor do evento, vale dizer: no que o conduz á ação. 133 Então, disseram os jurados que a ré ao evento fora motivada por uma futilidade; uma tolice; uma bobagem; um nada importante. Mas simultaneamente afirmouse que no matar, assim se comportara, porque em instante imediatamente anterior fora a ré tomada de violenta emoção, por ato injusto da própria vitima. A contradição é manifesta. São momentos que hurlente de se trouver ensamble. Aliás, admitida a discussão imediatamente anterior ao evento homicídio, na qual a ré, verbalmente humilhada e agredida, chegara à violenta emoção por injusto comportamento da vitima (vide: r. decisão a fls. 15), fica certo, outrossim, que o reconhecimento da qualificadora surpresa, em circunstâncias que tais, também não se mostra adequado, como também não o é o assentar-se a agravante alusiva ao «prevalecer-se de relações de coabitação» (quesitos 5 e 6, respectivamente). Com o quadro assim constituído pelos jurados, haveria o magistrado de cuidar da observância do disposto no artigo 489, do CPP. Não 0 fazendo causou prejuízo à ré, evidentemente. Pelo deferimento do pedido, por esta perspectiva, para que, anulada a decisão do Conselho de Sentença seja a acusada submetida a novo julgamento.» o relatório. ADITAMENTO AO RELATORIO O Sr. Ministro Francisco Rezek (Relator): Acrescento que, nesta manhã, recebi memorial do Ministério Público de Brasília. Esse memoHal não discute o parecer da Procuradoria-Geral de República e suas teses; apenas lembra que e habeas 134 R.T.J. — 109 modo de executar o crime, qual a traição, ou o aproveitamento das facilidades do convívio doméstico. Não me parece ter razão, neste passo, a Procuradoria-Geral. Tem-na, porém, no que se refere à contradição jacente no reconhecimento simultâneo do motivo fútil e ANTECIPAÇÃO AO VOTO do estado de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima, dois Sr. Ministro Francisco Rezek elementos estritamente subjetivos e, (Relator): Sr. Presidente, quero fa- pelo que representam, inconciliázer um comentário, quanto á preli- veis. Com efeito, afirmar que houve, minar. por parte da vítima, um ato injusto, habeas corpus, se a um tempo é capaz de produzir no autor a emoção via processual que não comporta violenta, é negar, rotundamente, que exame aprofundado de prova, e que o motivo determinante da reação se ressente de todas aquelas limita- criminosa tenha sido fútil. E possível ções que são diariamente proclama- que, em jurisprudência ou em doudas nesta Casa e noutras, a outro trina, já se tenha pretendido o contempo — esta é a face inversa de trário, à base do curioso argumento sua originalidade — não é um remé- de que futilidade da ratio criminis dio recurso" que deva aguardar mo- estaria na degíroporção entre o ato mento processual próprio. Consti- injusto da vitima, e a limitada (emtuem raridade as hipóteses de não- bora violenta?! ) carga emocional asconhecimento do pedido de habeas sim produzida no autor, e a gravidacorpus; e o caso, positivamente, não de do ato criminoso. Parece-me, data venta, que tomar esse caminho retrata uma delas. com as palavras. E não quevoto que trago escrito é o se- érerjogar entender o significado curial de guinte: (lê). expressões singelas como motivo fútil, emoção violenta, ato injusto da VOTO vitima. Se o Poder Judiciário se põe a tolerar acrobacias hermenêuticas Sr. Ministro Francisco Rezek desse gênero, a segurança da ordem (Relator): O primeiro fundamento jurídica entra em faixa de risco. da impetração foi neutralizado, com E oportuno lembrar que, no RECr. propriedade, pelo parecer do Ministério Público. Resulta claro que a n? 88.843 (RTJ 87/677), o relator, Miresposta afirmativa ao primeiro que- nistro Soares Mulioz, destacou exsito, deduzido de modo próprio e ob- pressamente a contradição que af10jetivo pela presidência do tribunal ra «no reconhecimento simultâneo do júri, significou a rejeição da tese da agravante do motivo fútil e da da negativa da autoria, a que apenas violenta emoção provocada por ato injusto da vitima.» Naquele caso podois dos jurados foram sensíveis. rém, qualificado o homicídio por Quanto à pretendida contradição duas agravantes, réu se impuseno pronunciamento do júri, cabe ra, não obstante, aao pena mínima, raponderar que não há incompatibili- zão por que prevaleceu o veredito dade lógica entre a violenta emoção, condenatório. que é qualidade do estado de ânimo Aqui, o prejuízo causado á paciendo autor, e as possíveis circunstâncias agravantes que se revelem no te pela contradição do júri, não sacorpus se volta contra uma decisão do Tribunal de Justiça cuja ementa não foi, ainda, publicada; embora a decisão seja de 15 de outubro mais ou menos. Decisão, portanto, recorrível. o relatório. R.T.J. — 109 nada — conforme observa a Procuradoria-Geral — pela aplicação do art. 489 do CPP, está evidente no fato de que a pena fixou-se acima do mínimo legal de doze anos de reclusão. Como proposto pelo Ministério Público, concedo a ordem de habeas corpus, para que, anulada a decisão do conselho de sentença, seja a paciente submetida a novo julgamento. EXTRATO DA ATA HC 61.490-DF — Rel.: Min. Francisco Rezek. Pacte.: Rúbia Maria 135 Oliveira Souza. Impete.: Jason Barbosa de Faria. Coator : Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Decisão: Concedida a ordem nos termos do voto do Relator. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 9 de dezembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.516 — MG (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek. Recorrente: João Carvalho de Rezende — Recorrido: Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais. Receptação culposa. Habeas corpos. Inepta é a denúncia que, acusando o paciente de receptação culposa, descreve singela operação de compra e venda, sem dizer qual, dentre as três circunstâncias alternativas do art. 180 4 1? do Código Penal, escora a tese da tipicidade delituosa. Recurso provido para a concessão da ordem. núncia por receptação culposa, deduACÓRDÃO zida nestes termos: Vistos, relatados e discutidos estes «O 2? Promotor de Justiça desta autos, acordam os Ministros da SeComarca, no exercício de suas gunda Turma do Supremo Tribunal atribuições, e na forma da Lei, Federal, de conformidade com a ata vem perante V. Exa. oferecer dede julgamento e as notas taquigráfinúncia, baseada no Inquérito Policas, à unanimidade de votos, dar cial que instrui a presente, contra provimento ao Recurso de habeas Lourival Soares de Siqueira Filho; corpus, para conceder a ordem, nos contra Darei Leão; contra João termos do voto do Ministro Relator. Carvalho Rezende, qualificado(s) Brasília, 16 de dezembro de 1983 — às fls. 22, 86/85, respet. pela prátiDedo Miranda, Presidente ca do(s) seguinte(s) fato(s) deliFrancisco Rezek, Relator. tuoso(s): RELATÓRIO O Sr. Ministro Francisco Rezek: O paciente Vê pesar sobre si unia de- 1. Quando de um levantamento feito para comprovação de acervo de firma «Guardiã-Vigilância Bancária Ltda.», com sede na Rua 136 R.T.J. — 109 Quintino Bocaiúva, 414, nesta cidade, firma esta que se dedicava ao ramo de segurança de empresas, neste estado, ficou comprovado o desaparecimento de 16 armas, pertencentes à referida firma. Tal levantamento foi feito por determinação de Comando dat 4! RM/Juiz de Fora em 6 de junho de 1980, constatando o desaparecimento das armas e indiciando o primeiro denunciado e Manoel Berto de Almeida. Administrativamente tal empresa se achava, em virtude destes fatos, em completa desorganização. Por um evento acidental, uma das armas foi apreendida em Barretos, estado de São Paulo, em poder de João Carvalho Rezende. A partir de tal fato chegou-se, então, à autoria do desaparecimento de tais armas, fato este previsto como crime no Código Penal Brasileiro; foram apontados, no IP, como autores do delito, Manoel Berto de Almeida e Lourival Soares de Siqueira Filho; Manoel Berto de Almeida exerceu na referida firma as funções de chefe do setor operacional da mesma, à época do levantamento, conforme consta dos autos, às folhas 32. A arma pertencente à firma foi adquirida por João Carvalho Rezende, de Darci Leão que, por sua vez a recebera de Lourival Soares de Siqueira Filho. O denunciado Lourival Soares de Siqueira Filho não era empregado da «Guardiã-Vigilância Bancária Ltda.» mas tinha estreitas ligações com Manoel Berto de Almeida, conseguindo, desta forma, apoderar-se da arma apreendida em São Paulo, tendo esta sido entregue, por ele a Darci Leão para com a mesma comercial. Assim tendo o(s) denunciado( s) incorrido nas sanções do(s) artigo 155, o 1? deles' o segundo denunciado nas sanções do artigo 180; e o terceiro denunciado nas sanções do artigo 180, § 1?, todos do CP» (fls. 18/18v.). Recebida a pena acusatória, foi impetrado habeas corpus ante o Tribunal de Alçada de Minas Gerais, sob o duplo argumento de falta de justa causa e inépcia da denúncia. Indeferido o pedido, sobe a esta Corte o recurso ordinário, que repisa as razões da inicial. Pela Procuradoria-Geral da República, a Dra. Haydevalda Sampaio opina: «Não há dúvida, portanto, que se imputa ao paciente a prática de receptação culposa, por haver adquirido um revólver que havia sido objeto de furto. Ora, presente o fumus bonis isso é suficiente para que o processo tenha inicio e prosseguimento, pois, segundo iterativa jurisprudência do Pretório excelso, o habeas corpus não enseja o exame aprofundado da prova para se saber se o acusado é, ou não, inocente (v. RHC n? 58.919-SP, Rel.: Ministro Antônio Neder, RTJ 60/636; HC n? 59.456-SP, Rel.: Ministro Cordeiro Guerra, DJ de 12-4-82, pág. 3210; RHC n? 59.497-2-RJ, Rel.: Ministro Rafael Mayer, DJ de 19-282, Pá g . 1134; RHC n? 59.511-1-PR; Rel.: Ministro Firmino Paz, DJ de 12-2-82, pág. 789). O trancamento da ação penal, por falta de justa causa, só é possível em casos especiais, quando os fatos não são controversos e inexiste crime, em tese. Por outro lado, também não procede a alegação da inépcia da denúncia, uma vez que descreve os fatos suficientemente, de modo a permitir o regular exercício da defesa. E a Suprema Corte já decidiu que «não é inepta a denúncia, que, dando cumprimento aos requisitos R.T.J. — 109 constantes do art. 41 do CPP, descreve um crime em tese, com a demonstração, embora sucinta, da participação individual de cada codenunciado» (RHC n? 57.825-0-RJ, Rel.: Ministro Cunha Peixoto, DJ de 25-4-80, pág. 2805). Além disso, as eventuais omissões da denúncia, podem ser supridas a qualquer tempo, antes da sentença, conforme estabelece o artigo 569 do Código de Processo Penal e de acordo com precedentes do Supremo Tribunal Federal (v. RHC n? 50.592-PR, Rel.: Ministro Barros Monteiro, DJ de 16-3-73, pág. 1463; RHC n? 56.396-1-SP, Rel.: Ministro Decio Miranda, DJ de 258-78, pág. 6180); RHC n? 59.581-GO, Rel.: Ministro Cordeiro Guerra, DJ de 12-4-82, pág. 3211). Opinamos em face do exposto, pelo não provimento do recure.o» (fls. 101/103). 2 o relatório. 137 Segundo a denúncia, comprou-a o paciente de Darei Leão. Sobre este nada se afirma senão que recebera a arma de terceiro, que sequer trabalhava na empresa furtada, e que, valendo-se da amizade com funcionário daquela, apropriara-se da arma. Não se pretende que o paciente fosse cônscio dessa cadeia de eventos — mesmo porque, neste caso, teria ele incidido em receptação dolosa. O que a denúncia descreve, quanto ao paciente, é uma operação de compra e venda de bem móvel, regida pelas leis civis da República, e estranha à sua legislação penal. Provejo o recurso e concedo a ordem de habeas corpus em razão da inépcia da denúncia; ressalvada ao Ministério Público a possibilidade de outra iniciativa, atenta aos requisitos legais. Assim, deixo de apreciar o argumento da falta de justa causa, que na espécie, conforme notou a Procuradoria-Geral, demandaVOTO ria maior exame de prova o que não O Sr. Ministro Francisco Reza se compreende em autos de habeas (Relator): Tal como definida no § 1? corpus. do art. 180 do Código Penal, a receptação culposa consiste na aquisição EXTRATO DA ATA de coisa que se deveria presumir obtida por meio criminoso em razão de RHC 61.516-MG — Rel.: Min. Franpelo menos uma dentre as circunstâncias conducentes a essa presun- cisco Rezek. Recte.: João Carvalho ção legal: a natureza da própria coi- de Rezende (Adv.: Clóvis José Vilesa, a desproporção entre o preço la). Recdo.: Tribunal de Alçada do pedido e o valor real, ou a peculiar Estado de Minas Gerais. condição daquele que oferece. Decisão: Provido o recurso para No caso a denúncia sequer dá conceder a ordem nos termos do vonotícia da espécie de arma adquirida to do Relator. Unânime. Ausente, pelo paciente, não dando a saber ocasionalmente, o Senhor Ministro qual a característica que a tornaria Djaci Falcão. impassível de obter-se por meios legais. Não há notícia, tampouco, de Presidência do Senhor Ministro desproporção entre o valor e o pre- Decio Miranda Presentes à Sessão ço; nem de qual a condição presente os Senhores Ministros Aldir Passarino vendedor e hábil para fazer duvi- nho e Francisco Rezek. Ausente, jusdar da legitimidade da posse da ar- tificadamente, o Senhor Ministro Moma. reira Alves. Ausente, ocasionalmente, R.T.J. — 109 138 o Senhor Ministro Djaci Falcão. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretario. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.517 — PB (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Recorrente: Marco Tovar Colaço Agra — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba. Excesso de prazo relativo à instrução do processo por homicídio. Argüição não formulada oportunamente, podendo ser objeto de novo pedido de habeas carpes. Outrossim, não é caso de concessão ex offielo, à míngua de elementos que esclareçam a matéria. Decreto de custódia preventiva exaustivamente fundamentado. Pedido denegado. ACOFtDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros componentes da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, à unanimidade de votos e na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, em negar provimento ao recurso. Brasília, 13 de dezembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente e Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Djaci Falcão: O acórdão objeto do presente recurso guarda o seguinte teor: «Habeas Corpus. — Alegada descaracterização da Flagrância. — Falta de Curador ao menor em processo regido pela Lei n? 6.368/76, — Imprestabilidade dos dois (02) decretos de prisão preventiva, — Prazos legais não observados durante a instrução: excesso. — Permanência na prisão por um dos fundamentos. Não perduram os efeitos da prisão preventiva quando se reconhece, em processo especial, o excesso de prazo para a forma- ção da culpa, muito embora tenha o Paciente de permanecer preso, face à decretação de uma outra custódia preventiva, por crime de homicídio, devidamente formalizada. Vistos, relatados e discutidos estes autos de Petição de Habeas Carpas n?s 83.209.662 e 83.209.722, em que é impetrante o Bel. Vital do Rego e paciente, Marco Tovar Colaço Agra. Acorda a Egrégia Câmara Criminal do Colendo Tribunal de Justiça da Paraíba, nos termos do Parecer da douta Procuradoria de Justiça, denegar a Ordem contra o voto do Des. Manuel Taigy de Queiroz Mello Filho, quanto ao processo por crime de Homicídio e, à unanimidade, conceder quanto ao processo especial de Tóxicos. Com efeito, o Bel. Vital do Rego impetrou uma Ordem de habeas corpus em favor de Marco Tovar Colaço Agra, atacando o Auto de Prisão em flagrante lavrado pela Polícia Federal, que o reputa forjado; falta de Curador na fase policial, em se tratando de um menor e, imprestabilidade dos decretos de prisão preventiva, porque proferi- R.T.J. — 109 dos com embasamento numa Flagrância nula, viciada, por afrontar diversos dispositivos legais, notadamente, o art. 302 e seguintes do Código de Processo Penal. Prestadas as Informações de estilo quase que simultaneamente, chegaram autos de um outro pedido de habeas corpus que fora impetrado perante o Exmo. Dr. Juiz de Direito da e Vara Criminal de Campina Grande, e remetido ao 2? Grau de Jurisdição, face à alegação de Incompetência, como se verifica do despacho de fls. 29/30 (Autos n? 8.320.722), exarado pelo referido Magistrado. Os fundamentos nos dois (02) pedidos são idênticos, dai porque se determinou a tramitação do Habeas Corpus n? 83.209.662, e que dera entrada originariamente no Tribunal. A douta Pocuradoria de Justiça ofereceu o Parecer de fls. 97/99, opinando pela denegação E nessa oportunidade, o Impetrante, ilustre causídico, Bel Vital do Rego, peticiona às fls. 101/104, juntando documentos, para solicitar por medida de economia processual, que fosse apreciado, no mesmo pedido, um outro fundamento, qual fosse o do excesso de prazo para a conclusão do feito, a que se refere a Lei n? 6.368/76 (Tóxicos), sem que o Paciente desse causa. Os processos foram levados a julgamento numa só assentada, decidindo, de logo, a Câmara julgar prejudicada a 1! Impetração perante o Dr. Juiz de Campina Grande (HC n? 83.209.722), qualquer que fosse o resultado conhecido no julgamento do outro habeas corpus, de competência originária do Tribunal. E, assim após os votos do Relator (denegando) e do Vogal seguinte (concedendo), o Des. Anísio Mala Neto suscitou uma Questão de Ordem no sentido de que o Ex- 139 mo. Dr. Procurador de Justiça fosse ouvido sobre aquela já mencionada petição de fls. 101/104, o que não fora feito anteriormente (ver fls. 101/122v.). Adiado o julgamento, veio ao processo o Parecer de fls. 124/127, opinando pela concessão da Ordem quanto ao procedimento especial (Tóxicos), por entender S. Exa. que, realmente, era extravagante o retardamento que vinha sofrendo o feito. Ora, no início do julgamento, em se tratando de duas custódias preventivas, como Relator, da matéria, não tive dúvida em denegar a Ordem, e assim precedi pelo entendimento de que o Auto de prisão de flagrante, lavrado contra o paciente, Marco Tovar Colaço Agra, não poderia ser acoimado de nulo, (forjado), porque a sua comprovação estaria a depender de elementos de provas, o que somente seria possível durante a instrução do feito, nos próprios autos da Ação, e nunca no âmbito estreito e limitado do habeas corpus. Demais disso, a alegada falta de Curador ao Réu menor, não invalidaria o processo, vez que essa providência poderia ser adotada em juízo, como foi posteriormente, permitindo-se, assim, a repetição de toda a prova, e, por fim, entendia que o decreto de prisão preventiva, no processo especial, estava por demais fundamentado. Por isso, denegava a Ordem, embora o Des. Manuel Taigy, a concedesse, levando em conta o que faculta a Lei Fleury. Com a retomada dos trabalhos e, agora, na apreciação do argumento trazido à baila, e que diz respeito ao excesso de prazo para a conclusão do feito, a Câmara entendeu por bem, à unanimidade, cessar o decreto de prisão preventiva, invalidando-o nos termos do Parecer. 140 R.T.J. — 109 Na verdade, o inquérito foi encaminhado a Juizo em data de 16-8-83 e o Paciente somente foi interrogado a 1-9-83, embora os autos tivessem sido distribuídos desde 21-7-83. Dessa forma, está provado exuberantemente o excesso, quando se sabe que o art. 22, .§ 3?, da Lei n? 6.368/77, foi desatendido. Caracterizado esse retardamento, tem-se como certo o constrangimento ilegal que está a sofrer o Paciente, sanável por habeas corpus, pois, o prazo para a conclusão do feito é de trinta e oito (38) dias, por ser rito especial. Assim, sob esse fundamento, a Câmara concedeu a Ordem, como se disse, embora subsistindo a prisão do Paciente Marco Tovar Colaço Agra, face a um outro decreto de custódia preventiva exarado no rumoroso processo por crime de homicídio, a que mesmo responde como um dos participantes da morte de Alcides Pereira da Silva, vulgo «Vaquerinho». De fato, S. Exa. o Dr. Amauri Ribeiro de Barros, juiz da 1? Vara Criminal da Comarca de Campina Grande, ao decretar a prisão preventiva do Paciente, fê-lo de maneira a não deixar margem para contestação. Narrou todo o fato e fundamentou a sua decisão, mostrando os antecedentes do acusado, seu grau de periculosidade e a sua própria confissão, como participe. Não há dúvida de que foram atendidos integralmente os elementos constitutivos do art. 312, do Código de Processo Penal, quando se sabe, extra-autos, que uma terceira (3?) prisão preventiva já foi decretada contra o mesmo. Em liberdade, irá trazer sérios transtornos para a apuração da verdade, pois, a prática de tais crimes enluta e macula a honra da sociedade campinense. É necessário que se ponha um freio nessa onda de crimes e, mais que isso• no terror que se implantara naquela Comarca! Com esses fundamentos, a Câmara, a sua maioria, entendeu por bem denegar a Ordem impetrado, vencido o Exmo. Des. Manuel Taigy de Queiroz Mello Filho, para manter o Paciente sob a custódia preventiva no processo a que responde por crime de homicídio. Participaram do julgamento os Exmos. Des. Taigy de Queiroz Mello Filho, que presidiu c/voto; Anisio Mala Neto e o Relator. João Pessoa, 4 de outubro de 1983 — (a) Ilegível — Presidente c/ voto (a) Ilegível — Relator (a) Ilegível — Fui Presidente — Procurador.» (fls. 130/133). Em tempo hábil foi interposto recurso ordinário, no qual o ilustre advogado do impetrante insiste na sua pretensão, objetivando a cassação da prisão preventiva decretada contra o recorrente (fls. 137/149). Manifestou-se o Ministério Público local pela confirmação do aresto recorrido, consoante se vê ás fls. 155/157. Perante esta Corte a Procuradoria-Geral da República opinou pelo não provimento do recurso (fls. 165/172). VOTO O Sr. Ministro Djaci Falcão (Relator): O Acórdão recorrido concedeu, em parte, a ordem de habeas corpus, reconhecendo o excesso de prazo ocorrido no processo em que o paciente foi denunciado como incurso no art. 12 da Lei n? 6.368/76. Desse modo, manteve a prisão preventiva decretada na ação penal em que figura como co-autor de homicídio doloso. Alega o recorrente que a decisão omitiu o exame do excesso de pra- R.T.J. — 109 zo relativo ao processo por homicídio. Acontece que esta argüição não foi formulada, oportunamente. Assim, sendo, poderá ser levantada mediante nova impetração perante o Tribunal competente. Ademais, não é caso de concessão ex officio, porque não consta dos autos as necessárias informações acerca do andamento do processo referente ao homicídio. Aliás, não consta destes autos, sequer, a denúncia pelo crime de homicídio. Portanto, não tem aplicação à espécie o disposto no art. 193, inc. II, do Regimento Interno do STF. Com relação à custódia preventiva bem pondera o parecer da douta Procuradoria-Geral da República: «14. Quanto à prisão preventiva, o despacho questionado assim a Justificou: — O Dr. Delegado de Polícia José Guedes Sobrinho pede a decretação da prisão preventiva dos acusados, Antônio Arnaldo Fernandes Filho, Aluísio Lucena Sobrinho, Raimundo Waldimir Silvério, Ataliba de Oliveira Arruda e Marco Tovar Colaço Agra, todos devidamente qualificados às fls....e fls. Justifica a sua representação dizendo que a cidade passa por momentos de intranqüilidade, com a prática de crimes bárbaros, praticados por elementos perigosos, tais como os acusados, Já autores de outros delitos, viciados e traficantes de maconha, dai, conclui o Delegadq, se fazer necessária a decretação da custódia preventiva dos acusados, como garantia da ordem pública e para que não fujam da aplicação da lei penal. Os presentes autos dão-nos conhecimento que entre os dias 11 para 12 de abril, os acusados acima referidos conduziram a vítima Alcides Pereira da Silva co- 141 nhecido por «Vaquerinho» para uma propriedade localizada no distrito de Boa Vista e ali, com tiros de revólveres e metralhadora a abateram, queimaram o cadáver e foram enterrar na propriedade de marinho, pertencente ao pai de Ataliba de Oliveira Arruda. O crime passou em mistério por alguns dias, durante os quais os familiares da vitima a procuravam pela cidade e pelas vizinhanças, até que, com a prisão de Ataliba de Oliveira Arruda, pela Polícia Federal, este confessou que praticou vários crimes, inclusive da vitima «Vaquerinho». — Posteriormente, foi preso e autuado em flagrante o indivíduo Marco Tovar Colaço Agra, pela Polícia Federal, acusado de viciado em maconha, tendo este confessado que juntamente com os acusados assassinou a vítima Alcides Pereira da Silva, conhecido como «Vaquerinho» e que o crime teve início quando o veículo de Alcides Pereira chocou-se com o de Aluísio Lucena Sobrinho, ocorrendo na ocasião uma discussão entre ambos, quando Alcides deu um murro na cara de Aluisio e este prometeu que se vingaria. Ataliba tendo conhecimento do fato, tomou as «dores» por Aluísio e passou juntamente com este seguir a vitima, ainda em companhia dos outros acusados. Encontrando-a foram até a superintendência e ali ainda discutiram, porém fizeram um acordo no qual «Vaquerinho» pagaria as despesas com os reparos do veículo de Aluísio. Após saírem da Superintendência de Policia, os dois entraram numa Brasília e foram até uma oficina mecânica, localizada na avenida Assis 142 R.T.J. — 109 Chateaubrland, nesta cidade, sendo seguidos por Marco Antônio Arnaldo e «Raimundinho». Aí, quando chegaram na oficina, Aluísio deixou Vaquerinho e saiu Para lugar desconhecido. Então, Marco, Antonio e «Raimundinho», pegaram a vitima, puseram num Fiat e seguiram à Fazenda Marinho de propriedade do Dr. José de Souza Arruda, deste Município onde já se encontrava Ataliba, retornando para esta Cidade, porém desviaram a rota, entrando por uma estrada carroçava' e ali, Ataliba atirou contra a vítima, com uma metralhadora e depois com um revólver, acertando na vitima que procurava fugir. Já ferida a vítima recebeu um tiro na cabeça, desferido por Toinho. Ataliba mandou Marco Tovar encontrar-se com Aluisio, teúdo, encontrado em sua residência, onde deu o recado, isto é que fosse até o local do crime. Após contactar com Aluisio, seguiu Tovar para a Universidade, enquanto, Toinho ficava com Aluisio. Praticado o crime, conduziram a vitima para uma fazenda, onde queimaram o cadáver. Pelo que se vê dos presentes autos a materialidade do crime está bem provada; a autoria está também sobejamente provada, pelos menos até agora; o crime foi dos mais bárbaros já praticados neste município e pela maneira e nas circunstâncias como foi praticado demonstrou que os acusados são pessoas possuidoras de elevado grau de periculosidade e que, soltos dificultam a instrução criminal, atemorizando testemunhas ameaçando as outras, conluindo-se com eles etc... Veja-se que já há termos de algumas testemunhas, (fls. 9), veri- fique-se que os acusados Marco Tovar e Ataliba estão sendo processados pelo uso e tráfico de maconha, pela Polícia Federal, enquanto os demais, com exceção de Aluísio, também são viciados em drogas. Também em liberdade os acusados procurarão fugir da aplicação da lei penal, tendo em vista que Ataliba já procurou fazer noutras ocasiões e, segundo a voz geral é autor de vários outros crimes, por ele mesmo confessados. A ordem pública necessita de tranqüilidade, nossa cidade passa por momentos graves, pela onda de crimes, assaltos ultimamente praticados contra indefesos e com a prisão dos acusados poder-se-á viver mais descontraído sem o temor de ser assassinado ou assaltado na primeira esquina. Pelo exposto, defiro o pedido da autoridade policial, para decretar como decretadas as prisões preventivas dos acusados acima referidos, de acordo com os arts. 311 e 312, do Código de Processo Penal, estando os réus incursos nas penas do art. 121 do Código Penal. Como se vê, não há como se falar em ausência de fundamentação do despacho. Por outro lado, se — como afirma o impetrante — as confissões dos co-réus foram obtidas por meio de torturas, isso é matéria a depender de exame de provas, inviável no âmbito do writ. É possível, aliás, que o paciente haja sido torturado. As alegações do impetante, no particular, são verossímeis e acompanhadas de um começo de prova (v. fls. 129/129v.). R.T.J. — 109 143 18. No entanto, não foi apenas clusive para a custódia preventiva. com base na confissão do paciente E, no caso, ela foi devidamente justique se formou o convencimento do ficada. magistrado coator, a respeito da ponto que é crucial é o do alegaparticipação daquele no evento de doOexcesso de prazo. Entretanto, no que se cuida. Ataliba de Oliveira particular, assinalou Exa., muito Arrruda (co-réu) apontou o pacien- bem, não ter sido ele V. no tangente ao te como co-autor do ilícito, mas ne- crime de homicídio, objeto de decinhuma prova existe, nestes autos, são do tribunal a quo, e acrescenta de que esse co-réu haja sido tortu- mesmo V. Exa. ser possível, que sorado.» (fls. 168/172). bre esse ponto, volte a ser impetrada Na verdade, o decreto de prisão a ordem perante aquela Corte. No preventiva proferido a 8-8-83 (fls. que diz respeito às sevicias, embora 77/78) está exaustivamente funda- possam elas ter sido praticadas, não mentado, não merecendo qualquer importa isso em que não tenha havireparo. do a participação do paciente, no criDiante do exposto nego provimento me, até porque, no caso, há declarações de um co-autor que o desfavoreao recurso cem. O que caberia, na verdade, era a apuração da responsabilidade da VOTO autoridade policial, e não considerar O Sr. Ministro Aldir Passarinho: de logo, isento de culpa o paciente, Sr. Presidente, acompanho V. Exa. excluindo-o de participação no criA justificação da custódia preventi- me, apenas pela possibilidade de ter va está largamente exposta, inclusi- ele sido seviciado quando da confisve apontando o paciente como mem- são. bro de um grupo de malfeitores. Não Sr. Presidente, acompanho se pode saber, de pronto, qual o exa- V.Assim, Exa. integralmente, to grau de sua participação na práti- vimento ao recurso. negando proca dos ilícitos que foram cometidos, mas a verdade é que é afirmado, peEXTRATO DA ATA lo que consta dos autos, integrar ele um bando que assassinou, de maneiRHC 61.517-PE — Rel.: Min. Djaci ra cruel, um cidadão, e se entrega ao uso de tóxicos. Ao cuidar da veri- Falcão. Recte.: Marco Tovar Colaço ficação de periculosidade para fins Agra (Advs.: Vital do Rego e outro). de decretação de medida de segu- Recdo.: Tribunal de Justiça do Estarança, diz o Código Penal, no seu do da Paraíba. art. 77: Decisão: Negado provimento. «Quando a periculosidade não é Unânime. Falou pelo Recte.: O Dr. presumida por lei, deve ser reco- Vital do Rêgo. nhecido perigoso o indivíduo, se a Presidência do Senhor Ministro sua personalidade e antecedentes, Djaci Falcão. Presentes à Sessão os bem como os motivos e circunstân- Senhores Ministros Decio Miranda, cias do crime autorizam a suposi- Aldir Passarinho e Francisco Rezek. ção de que venha ou torne a delin- Ausente, justificadamente, o Senhor qüir.» Ministro Moreira Alves. SubprocuraNo caso, essa conceituação legal é dor-Geral da República, Dr. Mauro para a aplicação das medidas de se- Leite Soares. gurança, mas, evidentemente, o conBrasília, 13 de dezembro de 1983 -.ceito legal pode ser tomado para a Hélio Francisco Marques, Secretáverificação dessa periculosidade, in- rio. 144 R.T.J. — 109 RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.536 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Recorrente: José Carlos Leite dos Santos — Recorrido: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Habeas corpus. Apelação pendente. Cabimento do writ. Não se há de remeter ao juizo de apelação, ainda que idêntica, a matéria do habeas comas evidenciadora do ilegal constrangimento. Recurso de habeas corpos provido. para mandar processar a apelação ACÓRDÃO interposta pelo paciente, e, em conseqüência, considerou prejudicado Vistos, relatados e discutidos estes o pedido de fls. 2/5. autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Daí o presente recurso, objetiFederal, na conformidade da ata de vando o conhecimento da impetrajulgamentos e notas taquigráficas, à ção. unanimidade, dar provimento ao reE certo, de acordo com a atual curso para declarar-se extinta a prejurisprudência da Suprema Corte, tensão executiva da pena e da medique o fato de estar pendente recurda de segurança. so de apelação em principio, não Brasília, 16 de dezembro de 1983 — torna inadmissível o habeas corSoares Mufloz, Presidente — Rafael pus: Mayer, Relator. «Habeas corpus - Em princípio, é cabível na pendência de recurRELATORIO so de apelação. Se, entretanto, os fundamentos O Sr. Ministro Rafael Mayer: Adode ambos são idênticos, as pecuto, como relatório, o parecer proferiliaridades do caso, exigindo medo pela ilustre Procuradora Haydelhor exame da prova, podem auvalda Aparecida Sampaio, devidatorizar, dentro de um prudente mente aprovado pelo eminente arbítrio, se remeta o exame da Subprocurador-Geral, Prof. Assis matéria para a via do recurso de Toledo, nesses termos: alcance e de aspecto mais am«O advogado Norberto Agostinho plos. impetrou habeas corpus em favor Recurso não provido (RHC n? de José Carlos Leite dos Santos, 56.316-MG, Rel.: Ministro Rodricondenado a 8 meses de reclusão e gues Mclunin, RTJ 87/84). Cr$667,00 de multa, além de um No presente caso, parece-nos ano de medida de segurança, como cabível a pretensão, visto não haincurso nas sanções do artigo 155, ver dúvida de que ocorreu a prescaput, do Código Penal, sob alegacrição alegada, como assinalou a ção de extinção da punibilidade, Procuradoria-Geral da Justiça, pela prescrição da pretensão exeverbis: cutória. A Segunda Câmara do Tribunal «O fato ocorreu em 6-9-1979, de Alçada Criminal do Estado de posteriormente à Lei n? 6.416/77. São Paulo, por votação unânime, Cogita-se, é certo, de prescrição de ofício, concedeu habeas corpus em termos de pretensão executa- R.T.J. — 109 ria da pena principal, mas o fundamento legal é o artigo 110, ff 1? e 2?, do Código Penal (redação dada pela Lei n? 6.416/77). 145 tauração, o exame da matéria proposta em pedido de habeas corpus, quando sendo o mesmo fundamento se exija melhor exame, todavia sem detrimento do princípio inconcusso de que aquele pedido é cabível e eficaz ainda que já pendente o recurso de apelação. Ocorreu, inquestionavelmente, a prescrição da pretensão executória. A denúncia foi recebida em 28-4-80 e a decisão condenatória é de 23-4-83, sem recurso da acusaOra, como cabalmente demonstra-. ção. Sendo a pena concretizada do no douto parecer, consumou-se a inferior a um ano, o prazo de prescrição para os efeitos do art. prescrição é de dois anos, que já 110, ff 1? e 2?, do Código Penal, de modo que a concessão da ordem sese escoou» (fls. 36/37). ria cabível mesmo de ofício. «E, nos termos do art. 86 do CP, Entretanto, como este é o fundanão derrogado pela Lei n? 6.416/77, extinta a punibilidade pela prescri- mento do pedido e do recurso ordináção, cessa a medida de segurança rio, nos exatos termos do douto pareque tenha sido imposta, e deixa de cer, que tenho por incorporado neste existir a condição para que venha voto, conheço e dou provimento para a ser imposta, nesse fundamento.» declarar extinta a punibilidade, pela (HC n? 57.558-SP, Rel.: Min. Rafael prescrição da pretensão executória, extensivamente à medida de seguMayer, RTJ 102/121). rança. Opinamos, em face do exposto, pelo provimento do recurso, para EXTRATO DA ATA que o Tribunal a quo conheça e julgue o wrlt, ou para que se declare extinta a punibilidade, pela presRHC 61.536-SP — Rel.: Min. Rafael crição da pretensão executória, Mayer. Recte.: José Carlos Leite dos estendendo-se à medida de segu- Santos (Adv.: Norberto Agostinho). rança.» Recdo.: Tribunal de Alçada Criminal E o relatório. do Estado de São Paulo. VOTO O Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator): A concessão do habeas corpus de ofício, pela venerável decisão recorrida, para que se processe a apelação interposta pelo paciente, respondendo ele em liberdade, não exaure o objeto da impetração que é o de obter a decretação da prescrição da pretensão executória. Por outro lado, a jurisprudência desta Corte admite que excepcionalmente se remeta ao juízo de apelação, já instaurado ou em via de ins- Decisão: Deu-se provimento ao recurso para declarar-se extinta a pretensão executiva da pena e da medida de segurança. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Alfredo Buzaid. Subprocurador-Geral da República Dr. João Boabaid de Oliveira Itapary. Brasília, 16 de dezembro de 1984 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. R.T.J. — 109 146 RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.568 — SP (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek. Recorrente: Lourival ou Lorival Jorge de Souza — Recorrido: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Livramento condicional. Suspensão (CPP, art. 732). E indispensável que o Juiz ouça o Conselho Penitenciário, embora licito que mande desde logo recolher o condenado à prisão, quando o imponham as circunstâncias. Recurso provido em parte. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, de conformidade com a ata de julgamentos e as nostas taquigráficas, à unanimidade de votos, dar provimento em parte ao Recurso de liabeas Corpus, nos termos do voto do Relator. Brasília, 17 de fevereiro de 1984 — Miei Falcão, Presidente — Francisco Rezek, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Francisco Reza: Tomo por relatório o parecer com que o Procurador Cláudio Fontelles, pelo Ministério Público Federal, resumiu a espécie, e sobre ela opinou, nestes termos (fls. 45/47): «O Dr. Sérgio Eid, por Lorival Jorge de Souza, ajuizou pedido de habeas corpus, objetivando restaurada fosse a liberdade sob condição que usufruía o paciente, argumentando com a delonga na conclusão do inquérito policial pelo evento ulterior perpetrado, e também porque não se cumpriu com a audiência do Conselho Penitenciário quando se decidiu pela suspensão do cogitado beneficio. Indeferida a ordem, ao recurso. Não cremos deva vicejar. Diz o artigo 732, do CPP, verbis: Art. 732: «Praticada pelo liberado nova infração, o juiz ou Tribunal poderá ordenar a sua prisão, ouvido o Conselho Penitenciário suspendendo o curso do livramento condicional cuja revogação ficará, entretanto, dependendo da decisão final no novo processo.. Ora, a documentação trazida com as informações judiciais a fls. 14/20, deixa claro que o Ministério Público pediu a sustação do beneficio, amparado na certeza de evento delituoso — assalto — em que o réu se envolvera, tanto que reconhecido pela própria vitima (fls. 14/20). A não audiência do Conselho Penitenciário não transtorna o decidido, pelo caráter provisório que possui, então a significar suspensão cautelar de beneficio concedido, e não sua revogação, esta sim traduzindo-se em situação definitiva, desfavorável ao réu, daí porque o artigo 730, do CPP, cuida de, então, obrigar a prévia audiência do liberado e enseja contraditório, ainda que sumário. Suspenso o gozo do beneficio, a demora, nos autos não demonstrada pelo recorrente, no consolidarse a ação penal pelo fato posterior não ocasiona qualquer constrangi- R.T.J. — 109 mento, pois o tempo de reclusão, de novo experimentada, conta à detração da pena já estabelecida. Pelo improvhnento do recurso.» E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Francisco Rezek (Relator): A jurisprudência desta Casa a respeito da matéria em debate é escassa. Em setembro de 1974 a Primeira Turma, sob a relação do Ministro Rodrigues Mckmin, concedeu habeas corpus para anular a suspensão do livramento condicional, porque não escorado o respectivo despacho em audiência do Conselho Penitenciário. Este acórdão não é extenso, e fundou-se na literalidade do artigo 732 do Código de Processo Penal (HC n? 52.754-SP). Treze anos antes, em abril de 1961, o Plenário, sendo relator o Ministro Victor Nunes, abordara aquele dispositivo de lei nos termos seguintes: «Pergunta-se: em face desse texto, é indispensável a prévia audiência do Conselho Penitenciário para que possa o juiz suspender (suspender, e não revogar) o livramento condicional? A redação da lei, à primeira vista, faz supor que sim. Entretanto, pelo art. 727, verificase que «o livramento condicional poderá ser também revogado (isto é, além dos casos previstos no art. 726), se o liberado deixar de cumprir quaisquer das obrigações costantes da sentença, ou for irrecorrivelmente condenado», etc. Acrescenta o art. 730 que «a revogação será decretada a requerimento do Ministério Público, mediante representação do Conselho Penitenciário ou dos patronatos oficiais, ou da autoridade policial a quem incumbir a vigilância ou, de oficio, pelo Juiz...». Ora, se o juiz, no caso de descumprimento, pelo liberado, de qualquer das obrigações cons- 147 • tantes da sentença, pode revogar, officio, e não simplesmente suspender, olivramento condicional, parece-me que, no caso do art. 732, pode suspender o beneficio antes do parecer do Conselho Penitenciário. Manda a lei ouvir este órgão da administração da Justiça Penal, assim foi feito no caso dos autos, estando o Juiz á espera do parecer. Não manda, porém, a lei, que tal audiência seja prévia. Nem se compreenderia, que, praticando liberado uma infração penal grave, devesse o juiz da execução aguardar o parecer do Conselho Penitenciário, por vezes demorado, para somente depois recolher o condenado à prisão; mesmo porque essa medida é de natureza provisória, pois definitiva é a revogação do livramento, e esta, em caso de comissão de novo crime, só terá lugar depois do julgamento, e se resultar a condenação do acusado.» (HC n? 38.331-PR). Não encontro razão para dissentir desse ponto de vista. E certo que o juiz pode decretar, de oficio, a revogação do livramento quando descumpridas as obrigações impostas ao réu ( arts. 727 e 730 do CPP), condicionada sua decisão pela oitiva prévia do próprio réu, e por nada mais. Se nesse caso, mais gravoso para o condenado, prescinde a lei da audiência do Conselho Penitenciário, não se há de desautorizar a suspensão do livramento condicional porque não precedida de parecer do Conselho. Esse entendimento se reforça na consideração de que a medida em exame é provisória; e, no caso concreto, foi requerida pelo Ministério Público. Sucede que, mesmo à luz do precedente mencionado, aquilo de que se pode abrir mão, em nome de uma interpretação sistemática de quanto circunda o art. 732 do CPP, é a antecedência do pronunciamento do ex 148 R.T.J. — 109 Conselho. Deixar, simplesmente, de ouvi-lo, é desprezar de modo ostensivo e intolerável o comando da lei. Na espécie, o juízo informante não dá noticia de que, mesmo após a decisão impugnada, tenha encaminhado o caso à consideração do Conselho Penitenciário. Para o estrito fim de que se promova a audiência prescrita pelo art. 732 do Código de Processo, e sem prejuízo da continuidade da custódia do paciente, concedo a ordem de habeas corpus, provendo assim, em parte, o recurso ordinário. EXTRATO DA ATA RHC 61.568-SP — Rel.: Ministro Francisco Rezek. Rect.: Lourival ou Lorival Jorge de Souza (Adv.: Sérgio Eid). Recdo.: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Decisão: Provido em parte, nos termos do voto do Relator. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 17 de fevereiro de 1984 — Hélio Francisco marques, Secretário. RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.571— SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Recorrente: Horácio de Oliveira Netto — Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Recurso de habeas corpus. Crime falimentar. A prescrição de crime [alimentar começa a correr da data em que deveria estar encerrada a falência ou do trânsito em julgado da sentença que a encerrar (Súmula n? 147). Todavia, o recebimento da denúncia interrompe o prazo prescriclonal (Súmula n? 592), consoante o artigo 117, I do Código Penal. 3. Nega-se provimento ao recurso. ACORDA° RELATORIO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de habeas corpus. O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: O advogado Dilmar Derito impetrou ordem de habeas corpus em favor de Horácio de Oliveira Netto, denunciado por crime falimentar previsto no art. 188, incisos III e VIII da Lei de Falências, objetivando o trancamento da ação penal, em curso no Juízo da 8! Vara Criminal da Capital, sob o fundamento de que ocorrera a prescrição da ação penal, porque entre a data da decretação da falência Brasília, 24 de fevereiro de 1984 — Soares MIlik)Z, Presidente — Alfredo Buzaid, Relator. R.T.J. — 109 (274-79) e o recebimento da denúncia havia transcorrido mais de quatro anos, tudo nos termos dos artigos 199 e 132, § 1?, do Decreto-lei n? 7.661, de 21 de Junho de 1945. A ordem foi denegada, em acórdão assim fundamentado: «A prescrição, cuidando-se de delito falimentar, opera-se em dois anos, contados do dia em que deveria estar encerrada a falência, ou em quatro anos de sua declaração» (RT 529/299), verifica-se que o prazo de prescrição dos delitos pelos quais responde o paciente não se completou» (fl. 27). Ouvida a douta ProcuradoriaGeral da República, em parecer da lavra do doutor Alvaro Augusto Ribeiro da Costa, aprovado pelo eminente Professor Francisco de Assis Toledo, DD. Subprocurador-Geral, assim se manifestou, verbis: «1. Cuida-se de impetração em favor de paciente que responde a processo-crime como incurso no art. 188, incisos III e VIII, da Lei de Falências (Decreto-lei n? 7.661, de 21-6-45). Alega-se que ocorreu a prescrição, porque decorridos mais de quatro anos entre o termo legal da quebra (27-4-79) e o recebimento da denúncia (17-5-83). Incensurável, todavia, afigura-se-nos a denegação do writ, pelo acórdão de fls. 26/27. As alegações do recorrente fundam-se em manifesto equivoco. Com efeito, está na Súmtila n? 147 que «A prescrição de crime falimentar começa a correr da data em que deveria estar encerrada a falência, ou do trânsito em Julgado da sentença que a encerrar ou que Julgar cumprida a concordata». 149 O § 1? do art. 132 da Lei de Falências (Decreto-lei n? 7.661/45), por sua vez, dispõe que «Salvo caso de força maior, devidamente provado, o processo da falência deverá estar encerrado dois anos depois do dia da declaração». Ora, no caso, a falência foi decretada a 27-6-79 (v. fl. 7). Sendo assim, e considerandose que os crimes falimentares prescrevem no prazo de dois anos (v. art. 199, caput, da Lei de Falências), a prescrição ocorreria a 276-83. No entanto, o recebimento da denúncia — interrompendo o prazo prescricional (v. Súmula 592 e art. 117, I, do C. Penal) — ocorreu a 175-83 (v. fl. 16). 10. Não se configurou, portanto, a pretendida extinção da punibilldade. Pelo improvlmento do recurso, em face do exposto, é o parecer» (fls. 46/47). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Relator): Adoto o parecer da douta Procuradoria-Geral da República como razão de decidir. Perfilho ainda os fundamentos do voto proferido pelo eminente Ministro Rafael Mayer, no RHC n? 58.110-MT (RTJ 96/1062). Dessarte, nego provimento ao recurso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RHC 61.577 — Rel.: Ministro Alfredo Buzaid. Recte.: Horácio de Oliveira Netto (Adv.: Dilmar Derito). Recdo.: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 150 R.T.J. — 109 Decisão: Negou-se provimento ao recurso de habeas corpus. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Muiloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 24 de fevereiro de 1984 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 75.729 — PR (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Ernesto Demétrio Calliari — Recorrido: José Eduardo Henning. Responsabilidade civil. Dano moral. Não resultando da prova dos autos que o recorrente se encontrava ao amparo dos preceitos legais que prevêem a indenização por danos causados a outrem, não se tem como amparado na letra a do permissivo constitucional (art. 119, III) o apelo derradeiro. Incabível, outrossim, conhecer-se do extraordinário sob o pálio da letra d do mesmo artigo 119, III, da Constituição, se os acórdãos trazidos para demonstração do dissídio pretoriano não se revelam discordantes do aresto impugnado. Naqueles foi admitida a possibilidade de ressarcimento por dano moral, o que não foi negado neste. Apenas as circunstâncias da espécie é que não permitiram ás instâncias ordinárias a concessão do pretendido ressarcimento, a tal titulo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal por sua Segunda Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso. Brasília, 9 de setembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Aldir Passarinho, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Trata-se de ação ordinária de reparação de danos aforada por Ernesto Demétrio Calliari contra José Eduardo Henning, a fim de ser indenizado pelos prejuízos que sofreu resultante de protesto judicial, e duas ações que lhe foram propostas pelo réu na Comarca de Mafra. Diz o autor, em resumido, que fora alvo de protesto judicial e de ações cominatória e ordinária de indenização, propostas pelo réu, medidas estas que abalaram o seu crédito, visto que seus bens ficaram implicitamente vinculados a inexistente obrigação levantada em Juizo e fora dele. Afirma que grande foi o abalo que sofreu, causado por aquelas medidas, as quais foram repelidas à unanimidade pelo Egrégio Tribunal de Justiça de Santa Catarina, tendo chegado a ficar impedido de exercitar sua profissão de empreiteiro de construção de estradas, por longo tempo. Destaca que os efeitos do dano moral se refletiram profundamente no seu patrimônio, eis que se viu priva- R.T.J. — 109 do de alienar seus bens e de receber créditos, por culpa exclusiva do procedimento do réu que, por mero capricho levantou a existência de uma falsa sociedade, da qual resultara uma indevida prestação de contas e indenização de danos fantasticamente por ele criados. A ação foi julgada improcedente, à consideração de que não restaram caracterizados os requisitos do artigo 159 do Código Civil, ensejadores de reparação de danos. No Tribunal de Justiça do Paraná, a sentença foi confirmada em acórdão retratado nesta ementa: «Ação ordinária para reparação de danos, com fundamento no art. 159 do Código de Processo Civil, julgada improcedente. Apelação não provida. Agravo no auto do processo prejudicado». ( fls. 201). Irresignado, interpôs o vencido recurso extraordinário com suporte nas letras a e d da permissão constitucional, alegando que o v. acórdão Impugnado negara vigência ao art. 76, do Código Civil, 2? e 3? do Código de Processo de 1939, além de ter discrepado de julgados de outros Tribunais, que trouxe a cotejo. Alega o recorrente que o seu pleito não é a reparação de danos em decorrência de ter o recorrido perdido a demanda, mas sim pelo uso indevido do protesto judicial nos termos em que foi redigido, no sentido de impedir que o recorrente alienasse seus bens e recebesse créditos oriundos de sua profissão, como se vêas fls. 19v. Observa que esse procedimento veio a contrariar o seu interesse econômico e moral e encontravase consignado no edital inserto no Diário de Justiça de Santa Catarina — fls. 21, e no Jornal «O noticiário», editados nas cidades de Mafra e Rio Negro — fls. 69. Foi o recurso admitido pela letra d. 151 este o relatório. VOTO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Este recurso extraordinário se prende a questão iniciada em abril de 1969 e decorrente de protesto judicial formulado em 1960, e de duas ações, procedimentos esses ajuizados contra o autor, ora recorrente As ações foram julgadas improcedentes. A seu turno, o autor, ora recorrente, ajuizou protesto, em junho de 1960, tendo feito notificar o réu, e ora recorrido, para que se abstivesse de alienar bens, porque contra este seria promovida, oportunamente, ação de reparação de danos causados ao patrimônio econômico e moral dele, autor. Como se viu do relatório, a demanda foi julgada improcedente nas instâncias ordinárias, e dai o presente recurso extraordinário, no qual o autor-recorrente alega ter sido negada vigência ao art. 76 do Código Civil, sendo aplicável a norma prevista no art. 3? do Código de Processo Civil de 1939, então vigorante, além do que divergira o v. acórdão impugnado de arestos de outros Tribunais. extraordinário não é de ser conhecido. Ninguém nega — e as decisões nas instâncias ordinárias não o fizeram a possibilidade de indenização por dano causado a terceiro, ainda quando não tenha ele sido de natureza econômica. Os acórdãos trazidos à balha, como prova do dissídio, são pela aludida possibilidade, conforme se vê dos excertos colacionados pelo recorrente, mas a tese posta em tais arestos não foi negada quer na 18 instância, quer no C. Tribunal de Justiça do Paraná. Na verdade, justificando o improvimento da ação, declarou o MM. Juiz, após algumas considerações sobre a indenização decorrente do art. 152 R.T.J. — 109 3? do Código de Processo Civil (1939) e do ato ilícito a que se refere o artigo 160, 1, do Código Civil: «Sobre o assunto preleciona Pedro Batista Martins (Código de Processo Civil, vol. I, pág. 47): «Para que o exercício da ação gere para o seu autor a obrigação de indenizar os prejuízos causados ao réu, não basta, é claro, a circunstância de decair da ação. E preciso ainda que se demonstre o concurso de certas circunstâncias de fato, das quais transpareça o dolo (intenção de prejudicar) o erro grosseiro, equivalente ao dolo, ou, pelo menos, o espirito de aventura ou temeridade do autor». Ora, no caso em julgamento o Réu viu atendidas em primeira instância as suas reivindicações (certidões a fls. 58/61), consubstanciadas nas respectivas ações de indenização e cominatória, reformadas, posteriormente, em grau superior (certidões de fls. 7/12). Entendo, que não se possa falar em lide temerária, isto é, a que se intenta sem razão e com abuso de direito, ou como alegou o autor por capricho, quando o proponente chega a ter vitoriosa a sua demanda no juízo a quo, máxime quando não seja imputado ao juiz haja incorrido em dolo ou fraude, no exercício de suas funções. Quanto ao protesto judicial que, segundo o Autor, teria na época abalado o seu crédito, também ali havia o legitimo interesse econômico, porquanto o Réu socorreu-se daquela medida para acautelar seu interesse, que chegou a ser reconhecido em sentença de primeira mão. Outrossim, não conseguiu, igualmente, provar o Autor os outros pressupostos necessários para que emergisse a responsabilidade do Réu, e que são: a relação de causalidade e a existência concreta dos danos. As testemunhas ouvidas, unânimes, alegam desconhecer tenha o Autor sofrido qualquer prejuízo com a demanda intentada pelo Réu» (fls. 175). E o C. Tribunal de Justiça do Paraná, chamado o manifestar-se por via da apelação interposta pelo autor, ora recorrente, deixou expresso no seu v. acórdão, em harmonia com o entendimento da r. sentença, que: «Não existe nos autos prova alguma de que o apelado «agiu sem motivo legítimo, imoderado e inconsideradamente, não visando como justa, à proteção de um interesse jurídico, mas agindo por erro tão ostensivo e leviandade tão manifesta que somente seriam admissíveis por um espírito de aventura ou por temeridade». Pelo contrário, resultou provado, que o recorrido foi vencedor nas duas ações, em primeira instância, e os arestos do Tribunal de Santa Catarina não fazem a menor referência, à atuação abusiva do mesmo, intentando as demandas.» ( fls. 202). E acrescenta, a seguir: «O preceito do artigo 159 do Código Civil não socorre o apelante, ante o apurado na execução». Ora, como se verifica, não há de se admitir tenha sido negada vigência aos artigos indicados pelo recorrente, nem dissídio com os arestos invocados, até porque, com relação a estes/não chegou a ser efetuada a prova analítica da divergência, como exige o enunciado da Súmula n? 291, pois, como se disse, neles apenas se encontra mencionada a possibilidade de ressarcimento por dano moral, e isso não negou o v. acórdão impugnado. Apenas, não considerou ser ele cabível na espécie, em face do exame das circunstâncias que a cercaram, tendo considerado, inclusive, ter o réu sido vencedor em primeira instância naquelas ações por R.T.J. — 109 ele intentadas contra o autor, ora recorrente. E por isso tudo é que as instâncias ordinárias negaram provimento à demanda, não havendo cheque com os acórdãos trazidos a confronto. Pelo exposto, não conheço do recurso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 75.729-PR — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Ernesto Demétrio Canta/1 (Advs.: Antonio Maria 153 Rodrigues e outro). Recdo.: José Eduardo Henning. (Adv.: Onélio Bacóvis). Decisão: Não conhecido. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 9 de setembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 80.575 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Carteira Hipotecária e Imobiliária do Clube Militar — Recorrido: Raul Luna. Cláusula «rebus sic stantibus». Reajustamento de preço de apartamento, á base da cláusula referida. Carteira Hipotecária e Imobiliária do Clube Militar. Descabe o reajustamento do preço do apartamento vendido pela Carteira Hipotecária e Imobiliária do Clube Militar, à base da Cláusula «rebus sic stantibus» se á época da operação imobiliária (1962), o fenómeno inflacionário já era uma infeliz realidade, não podendo dizer-se, portanto, ter ele surpreendido o vendedor. ria e Imobliária do Clube Militar ACÓRDÃO contra Raul Luna, com o objetivo de Vistos, relatados e discutidos estes reajustar o preço do apartamento autos, acordam os Ministros do Su- 1003 da rua Guimarães Natal n? 16, premo Tribunal Federal, por sua Se- para Cri 28.452,00, invocando a cláugunda Turma, na conformidade da sula rebus sic stantibus. ata do julgamento e das notas taquiNo Juízo de 1? grau, a ação foi julgráficas, por unanimidade de votos, gada improcedente, e mantida por não conhecer do recurso. maioria de votos pela 7? Câmara Brasília, 20 de setembro de 1983 — Civel do Tribunal de Justiça do exDjaci Falcão, Presidente — Aldir tinto Estado da Guanabara, em Passarinho, Relator. acórdão que porta esta ementa: RELATÓRIO «Não há como prevalecer na espécie a cláusula rebus sic stantlbus sobre a avençada pelos contraenO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Trata-se de ação ordinátes acerca da irreajustabilidade do ria proposta pela Carteira Hipotecápreço. Inocorrência de alteração 154 R.T.J. — 109 questão entre a Carteira Hipotecária e Imobiliária do Clube Militar e compradores de apartamentos do mesmo edifício, o extraordinário foi admitido. Após longas e bem lançadas considerações sobre o problema Interpostos embargos infringentes inflacionário e a necessidade da corcom fulcro no voto dissidente, os reção monetária, inclusive quanto Juizes do 1? Grupo de Câmaras ao aspecto moral, invocou, para proCíveis Reunidas do Tribunal de Jus- va do dissídio, os arestos deste Tritiça rejeitaram-nos unanimemente. bunal no RE n? 64.122, in RTJ 47, pág. 500/501; RE n? 62.218, In RTJ, acórdão ficou sintetizado nesta 46, pág. 564; outro — sem indicação ementa: do número e natureza do processo — publicado na RTJ, vol. 36, pág. 680, «Para que se aplique a cláusula e, por fim, Rec. Rev. n? 94.361, In rebus slc stantibus, é necessário Rev. dos Tribunais, vol. 419, pág. que as novas circunstâncias que te- 240. nham subvertido a economia do contrato tenham sido imprevisíveis Entretanto, em nenhuma das hipóno momento do contrato bem como não tenha ocorrido culpa por parte teses trazidas a confronto há identidade do tema jurídico com o versado do interessado nessa mudança» nos presentes autos. Contra essa decisão, recorreu extraordinariamente a vencida com Aqui, discute-se a possibilidade do supedâneo tão-somente na letra d da permissão constitucional, sustentan- reajustamento do preço de venda de do que o v. acórdão impugnado dis- imóvel pela regra rebus sie stantisentiu dos julgados dessa Corte, en- bus, quando o contrato estipulava contrados nas RTJ( s) n?s 47/500, expressamente que o preço era cer46/564 e 36/680 e do Rec. de Rev. n? to e ajustado, tendo considerado o v. 94.311, in Rev. dos Tribs. vol. acórdão ora impugnado que o fenômeno inflacionário já existia, não 419/240. podendo, por isso mesmo, ser alegaInadmitido o recurso, subiram os do como fator inesperado para inautos a esta Corte, em virtude de ter fluir no preço fixado, mas nos outros sido provido o agravo interposto pela arestos as questões giraram sobre outros pontos, como se verá. recorrente. E este o relatório. No RE n? 64.122 (RTJ 47, págs. 500/501, a própria ementa do acórVOTO dão, transcrita a fls. 208 proclama, demonstrando a desidentidade das Sr. Ministro Aldir Passarinho hipóteses. (Relator): O extraordinário foi interposto apenas com apoio na letra d do «Rescisão de contrato de compra permissivo constitucional. e venda. A correção monetaria constitui forma de ressarcimento recorrente diz, inicialmente, que em caso idêntico, na Ap. Cível n? das perdas e danos postulados na 62.860, também do Estado do Rio de inicial, consectário jurídico da resJaneiro, e que se referia, inclusive a cisão por culpa do vendedor.» radical do ambiente objetivo existente à época do contrato. O fenômeno inflacionário então (1962) já se apresentava, entre nós, vertiginoso, desenfreado, incontrolável» R.T.J. — 109 155 E do voto do relator é transcrito trecho que mais acentua a dessemelhança, bastando dar-se este passo, pelo qual se vê que ali Por último, é mencionado o Rec. Rev. n? 94.361 (RT n? 419) que diz respeito, porém, a ação de repetição de indébito. «consideraram as decisões recorridas que a restituição pura e simples do preço da coisa vendida, decorridos mais de dois anos da transcrição, seria insuficiente para compor os prejuízos do comprador.» Não é demais esclarecer — quanto à indicação que faz o recorrente sobre ter sido dado seguimento, pelo ilustre Presidente do C. Tribunal de Justiça, a extraordinário que versava questão idêntica, envolvendo também a Carteira Hipotecária do Clube Militar e compradores do mesmo edifício de apartamento que o ilustre Relator, neste Tribunal, Ministro Antonio Neder, com base no art. 22, § 1?, do anterior Regimento Interno, negou seguimento ao recurso (RE n? 71.656-4-RJ), conforme despacho de 5 de maio de 1978, publicado no DJ de 17-5-78. Ora, na espécie dos autos não houve negativa de que pudesse haver correção monetária na indenização por perdas e danos, no caso de rescisão contratual, de molde a compor os prejuízos do comprador, pois aqui se discute a aplicação da cláusula rebus sie stantibus. No RE n? 62.218, Relator o Sr. Idinistro Hermes Lima — outro aresto trazido à balha — foi assinalado no seu voto, conforme tópico transcrito, que «são muitas as decisões judiciais em que a desvalorização da moeda deu lugar à necessidade de medidas para que o valor das perdas e danos não frustrasse o direito do credor. Assim se tem decidido». Assinala o recorrente que então se tratava de caso de responsabilidade contratual: cobrança do pagamento de uma prestação em dinheiro, estipulada em um contrato de permuta. Basta isso para que se veja serem desiguais os casos confrontados. Menciona, ainda, o recorrente voto do Ministro Aliomar Baleeiro, em acordão publicado na RTJ 36/680, em que justifica a correção monetária, sem nenhuma indicação ao caso a que se refere. Mas, consultando-se a RTJ indicada, vê-se tratar-se de indenização decorrente de acidente. Pelo exposto, não tendo sido comprovado o dissídio pretoriano, não conheço do recurso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 80.575-RJ — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Carteira Hipotecária e Imobiliária do Clube Militar (Adv.: Carlos Eduardo P. Cardoso). Recdo.: Raul Luna (Adv.: Paulo Fontenelle). Decisão: Não conhecido. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 20 de setembro de 1983 — Secretário. Hélio Francisco Marques, R.T.J. — 109 156 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 81.088 — RS (Segunda Turma) res. Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Sylvio José Rangel Pires — Recorrida: Julieta Almeida Pi1 — Processual. Reexame dos fatos na oportunidade dos embargos infringentes. Divergência jurisprudencial comprovada. II — Guarda dos filhos. Desatualizacão dos fatos. Comprovada a divergência pretoriana, quanto a poderem os fatos ser reexaminados na oportunidade dos embargos infringentes, justifica-se o conhecimento do extraordinário sob o fundamento da letra d do artigo 119, III, da Constituição Federal. Incabível, porém, dar-se provimento ao extraordinário para possibilitar-se novo julgamento de tais embargos, quando as circunstâncias, através de longos anos, já se alteraram profundamente, encontrando-se inclusive o menor, sobre cuja guarda se discute — já agora com mais de treze anos —, quando na época da divergência entre seus pais contava com pouco mais de um ano de vida. Recurso extraordinário conhecido, mas não provido. ACÓRDÃO ção social, e mencionou posicionamentos reveladores de desvio de Vistos, relatados e discutidos estes conduta, tudo a caracterizar a injúautos, acordam os Ministros do Su- ria grave, bastante para autorizar o premo Tribunal Federal, por sua Se- desquite proposto, perdendo, em congunda Turma, na conformidade da seqüência, a requerida o direito ao ata do julgamento e das notas taqui- uso do nome do marido, a guarda do gráficas, por unanimidade de votos, filho menor (nascido em 6-6-70) e a conhecer do recurso, mas negar-lhe receber prestação alimentícia. provimento. Contestou e reconveio a demandaBrasília, 25 de outubro de 1983 — da. Na sua defesa negou as acusaDjaci Falcão, Presidente — Aldir ções e insinuações que foram assacadas contra a sua pessoa, revelanPassarinho, Relator. do certo aspecto da vida intima do RELATÓRIO casal, referindo que as insinuações constantes da inicial significaram O Sr. Ministro Aldir Passarinho gravíssima injúria. Aduziu ser o es(Relator): Trata-se de ação de des- poso adúltero, e, em reconvenção, quite litigioso proposta por Sylvio Jo- pleiteou a dissolução da sociedade sé Rangel Pires contra a sua mulher conjugal. Julieta Almeida Pires, com fundaA sentença proferida reconheceu mento no artigo 317, inciso III, do culpados ambos os cônjuges, e deu Código Civil. pela procedência da ação e reconSalientou o autor, na inicial, diver- venção. Entendeu haver Julieta cosos aspectos do relacionamento pú- metido injúria grave, e Sylvio haver blico da esposa e do convívio íntimo praticado adultério. Atribuiu aos do casal, além de referir atitudes in- avós paternos a posse e guarda do ficompatíveis da ré com a sua situa- lho menor, nos quais reconheceu as R.T.J. — 109 melhores qualidades para sua criação e educação. Cada um dos cônjuges contribuirá com um salário mínimo para as aludidas despesas perdendo a mulher o direito de usar o nome do marido. Em grau de apelação, a Egrégia 2? Câmara Especial, à unanimidade, entendeu comprovada a culpa de ambos os cônjuges, e, no aspecto fundamental, desacolheu, sem discrepância, as inconformidades. Todavia, no que diz com a guarda do filho menor do casal, a sentença de 1? grau foi mantida apenas por maioria, pois o ilustre Juiz relator da matéria, nesse aspecto, acolhia o recurso da ré e reconvinte, e a ela atribuía a referida guarda. Inconformado, Sylvio José Rangel Pires interpôs recurso extraordinário, com fundamento nas letras a e d da permissão constitucional, alegando que o v. aresto recorrido teria negado vigência ao parágrafo único do art. 319 do Código Civil, e discrepado de julgados de outros Tribunais que aponta. Julieta Almeida Pires, igualmente irresignada, arrimada no voto vencido, opôs embargos infringentes. O 2? Grupo de Câmara Cíveis, em decisão unânime, acolheu-os para assegurar a embargante a guarda do filho do casal. O acórdão está assim ementado: «Embargos Infringentes. O voto vencido, ensejador do recurso, é que define o tema a ser investigado. Fora dos lindes da divergência não é tolerável qualquer exame. Cônjuges culpados. Guarda de filho menor. Em principio, segundo a vontade da lei (CC, art. 326, § 1?), quando ambos os cônjuges são culpados, a mãe fica com o direito de ter sob a sua guarda os filhos menores; essa preferência só deixará de ser ob- 157 servada se o juiz verifiçar que de tal solução possa advirprejuízo de ordem moral para os filhos, em face de razões graves. Motivos graves (CC, art. 327), na doutrina e na jurisprudência, são apenas aqueles que podem comprometer a saúde, a segurança ou a moralidade dos filhos, caracterizados pela comprovada negligência, incapacidade, abuso de poder, maus exemplos, perversidade ou crime dos pais. O motivo grave —, apontado pela maioria, como justificativo da outorga da guarda do menor a terceir a pessoa, — foi o da mãe exercer a profissão de médica e, nessa atividade, permanecer fora do lar a maior parte do dia. Na análise doutrinária e na interpretação jurisprudencial, jamais se observou qualquer alusão á perda do direito que a lei outorga à mãe (CC, art. 326, § 1?) pelo fato desta exercer profissão ou emprego, e, no caso concreto, o seu afastamento do lar é mínimo, conforme esclarece a prova documental coligida. Embargos acolhidos». Inconformado com a decisão proferida nos embargos infringentes, Sylvio José Rangel Pires interpôs. embargos de declaração. O 2? Grupo de Câmaras Cíveis, por maioria de votos, não conheceu dos embargos. Ainda inconformado, Sylvio José Rangel Pires interpôs recurso extraordinário, agora, da decisão proferida nos embargos infringentes e do acórdão prolatado nos embargos declaratórios. Quanto ao primeiro, fundamentase nas letras a e d da permissão constitucional, pois o aresto impugnado teria negado vigência ao art. 530, combinado com o art. 465, I e II, do CPC, os quais teriam sido interpretados em discrepância do entendimento que lhes tem dado outros Tribunais do pais; quanto ao segundo, 158 R.T.J. — 109 embargos infringentes, da matéria de fato, pois inclinam-se a jurisprudência e a doutrina no sentido de que, embora os limites sejam os do voto vencido, poderá ser adotado outro fundamento no acórdão dos embargos Nesse sentido, e como exemplo, o aresto no AgRg no Ag. n? 72.339 (2? Turma, Relator o Sr. Ministro Moreira Alves), e cuja ementa assim ficou enunciada: «Embargos infringentes. Ambito de apreciação da divergência. A decisão em embargos infringentes está adstrita aos limites da divergência, mas pode julgá-la com base em fundamentação diversa da em que se estribou o voto vencido. Agravo regimental a que se nega provimento» (RTJ 87/476). VOTO Nos embargos declaratórios, preO Sr. Ministro Aldir Passarinho tendeu o embargante — e que é ora (Relator): Examinemos, por primei- recorrente — que o Grupo de Câmaro, o recurso extraordinário oposto ras esclarecesse sobre a extensão da pelo ex-marido ao v. acórdão que matéria objeto do julgamento dos julgou a apelação, e no qual procura embargos infringentes, bem como no sustentar considerar-se perdoado o tocante ao suprimento da eventual cônjuge adúltero pelo perdão da mu- omissão, mediante o julgamento inlher Dele não conheço, pelas mes- tegral da prova. mas razões que fundamentaram o r. De certa forma, portanto, os emdespacho do ilustre então Presidente bargos de declaração visaram aplaido C. Tribunal de Justiça do Rio nar aquela dúvida do embargante e Grande do Sul, atualmente eminente que ensejara o seu recurso extraormembro desta Corte, o Sr. Ministro dinário ao acórdão nos embargos inSoares Mufloz, ao mostrar que não fringentes. pode ter-se como havendo perdão se A respeito, decidiu o Grupo, conapós a manifestação de tolerância do outro cônjuge fatos posteriores vie- forme consta do acórdão, ( as. ram a ocorrer, não tendo havido, em 514/516): relação a esses outros, manifestação «1. Traz Sylvio José Rangel Pide o cônjuge culpado ser perdoado. res embargos de declaração ao E, no referente aos acórdãos traziacórdão de fl. 473, alegando que os dos como divergentes, bem assinalou votos dos Desembargadores Emílio o mesmo r. despacho que as hipóteA. M. Gischkow, Antônio V. A. ses em confronto não eram iguais e, Braga, Peri Rodrigues Condessa e em conseqüência, não poderia caracLadislau F. Rühnelt, constituindo a terizar-se a divergência. maioria do Grupo julgador, «não esclareceram se o juizo que profeNo referente aos embargos infrinriam abrangia, ou não, a totalidagentes, opostos pelo ora recorrente, de da prova ». por certo que caberia o exame, nos fundamenta-se no permissivo da letra a, pois o acórdão recorrido teria negado vigência ao art. 535, II do CPC. O então Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Des. Soares Mufloz, hoje Presidente da 1! Turma desta Corte: a) não admitiu o recurso extraordinário interposto do julgamento da apelação; b) admitiu o recurso interposto do julgamento dos embargos infringentes; c) admitiu o recurso extraordinário interposto dos embargos de declaração. Ouvida, manifestou-se a Procuradoria-Geral da República pelo não conhecimento dos recursos. E este o relatório. R.T.J. — 109 Daí pretender «a definição do Grupo, especialmente da maioria constituída pelos quatro Desembargadores mencionados, que votaram em último lugar, quanto à aceitação, ou não, da tese do eminente Relator, a respeito do exame restrito dos embargos infringentes». Deferido esse pronunciamento, no sentido do voto do Relator, tem o embargante «que houve omissão no acórdão, quanto ao julgamento de matéria de fato relevante, para solução do problema da guarda menor, qual seja o exame da totalidade da prova, a respeito da idoneidade da Ré». Nos termos dos embargos oferecidos, busca o embargante «dupla declaração»: «a primeira, quanto à extensão da matéria objeto do julgamento dos embargos infringentes, e a segunda, quanto ao suprimento da eventual omissão, mediante o julgamento integral da prova». 2. Impende do exposto, verificar, prefacialmente, do cabimento, ou não, destes embargos, no seu primeiro aspecto, suporte pretendido para o «suprimento de eventual omissão, mediante o julgamento Integral da prova». Ao sentir da maioria, não é caso de embargos de declaração o propósito de obter explicitações de votos que realmente não interessam ao julgado, observado que todos convergiram para uma única conclusão, qual seja de atribuir a guarda do menor à sua genitora. A execução do acórdão é possível, sem margem para qualquer perplexidade ou hesitação, suscetível de possuir eficácia e autoridade de coisa julgada. Nem demonstra o embargante destoar o acórdão dos termos da 159 ata e dos votos. E se isso não se verifica dos embargos de declaração não cabe conhecer. Certo que argumenta com o exame restrito, feito pelo Relator, e um exame de toda a prova colhida, sugerido pelo eminente Desembargador Emílio A M Gischkow, como a apontar que os votos que ao deste se seguiram, não esclarecem «se o juizo que proferiram abrangia, ou não, a totalidade da prova, isto é, se aceitavam a tese restritiva do Relator». Mesmo assim descabem embargos de declaração, ainda que não se tenha por harmônicas as motivações dos votos que integram o acórdão e definido um pronunciamento majoritário em sentido contrário ao do Relator, quando sintonizam, na conclusão de atribuir a guarda do menor à sua genitora. Sabido é que os embargos de declaração cabem em caso de obscuridade, dúvida ou contradição, ou no caso de ser omitido ponto sobre que deveria pronunciar-se o órgão julgador. Todos os votos, no caso, convergiram, por uma ou outra motivação, para o acolhimento dos embargos infringentes. Incablvel declaração particular de votos, que chegaram às mesmas conclusões, coincidentes, pois, com o fecho e a ementa do acórdão, o qual nenhuma dificuldade pode proporcionar à execução do veredicto, que não destoa do julgamento, nem se contradiz com ele. Foram votos vencidos os eminentes Desembargadores Relator, Revisor e Emílio Alberto Maya Gischkow, sob o fundamento de que existindo contradição entre os fundamentos ou os argumentos nos votos integrantes do acórdão, inobstante a conclusão seja objetiva e precisa, cabe conhecer dos 160 R.T.J. — 109 embargos de declaração, para expungir assertiva que não se coaduna com a conclusão.» Na verdade, penso que se o objetivo precipuo dos embargos infringentes era o relativo à guarda do filho do casal desavindo, e se os fatos podem ser reexaminados nos embargos infringentes e eles seriam de inegável valia para a conclusão do julgamento, caberia o pronunciamento sobre tais fatos. Entretanto, no caso em espécie, e apesar das considerações que formulo, embora conheça do recurso — e o faço pela letra d — porquanto pela letra a a doutrina é vacilante, pelo que se há de considerar ter sido a interpretação pelo menos razoável (Súmula n? 400), o que não enseja o extraordinário, não lhe dou provimento, pelas razões que se seguem. Na época dos fatos, o menor apenas contava com pouco mais de um ano de idade. Agora, tem mais de treze anos, e não tem sentido que ele, nesta altura, em idade em que até já poderia manifestar sua vontade sobre com quem gostada de ficar, viesse a ser obrigado a mudar de residência, para viver na companhia de seus avós, provavelmente bastante idosos agora, à base de circunstâncias ocorridas há tanto temPo. Como se sabe, decisão sobre guarda dos filhos pode ser alterada a qualquer tempo, desde que se modifiquem as condições existentes à época em que foi ela proferida. Assim, não se torna possível tantos anos depois, quando o filho, cuja guarda se discute, já se encontra crescido, e sem que se tenha qualquer conhecimento atualizado dos fatos, inclusive quanto à possibilidade de os avós ainda poderem atualmente suportar o encargo, e sem que se possa saber quais os traumas que a mudança poderia implicar na sua personalidade ou na sua educação. Nem mesmo a mim convenceram não é demais acrescentar, as imputações formuladas contra a recorrida, embora, observo, não seja este tema que pudesse ser examinado e discutido na oportunidade do extraordinário. Assim, parece-me sem qualquer sentido, sem propósito, que se anulasse a decisão do v. acórdão nos embargos infringentes para que o C. Tribunal a quo viesse a rejulgar a demanda à base daqueles mesmos elementos, antigos, ultrapassados, tanto mais que, como disse, a guarda dos filhos é tema que pode ser revisto a qualquer tempo, desde que se verifiquem serem prejudicais ao menor as condições em que ele se encontre. Pelo exposto, conheço do recurso mas lhe nego provimento. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 81.088-RS — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Sylvio José Rangel Pires (Advs.: Hugo Mósca e outros). Recda.: Julieta Almeida Pires ( Advs.: Pedro Gomes Nunes, Lauro Newton Zak e outro). Decisão: Conheceram do recurso, mas lhe negaram provimento. Unânime. Falou pelo Recte.: O Dr. Hugo Mósca. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 25 de outubro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. R.T.J. — 109 161 RECURSO EXTRAORDINARIO N? 81.510 — PR (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Estado do Paraná — Recorrido: Madeireira Santana Colonizadora Ltda. Tributário. ICM. Defesa do Estado recorrente com fundamentação diversa daquela que alicerçou as notificações fiscais. Matéria de fato. Tendo as notificações fiscais dirigidas á firma recorrida se baseado em que as toras de madeira haviam sido por ela adquiridas «com efeito á produção e vendagem apresentadas» — conforme delas consta — e vindo o Estado a sustentar, na ação, que o imposto é devido pela simples transferência do estabelecimento produtor a um outro estabelecimento da mesma empresa, embora no próprio Estado, de logo se tem que as notificações não podem subsistir. E que tal fundamento não pode prevalecer, mas sim se as toras foram ou não adquiridas de terceiros, conforme afirmativa dos fiscais. Além disso, tendo as instâncias ordinárias, face á prova dos autos, entendido inocorrer o fato gerador — o que dependeria para decisão sobre tal ponto de reexame de matéria de fato — incabível o extraordinário para tal fim. • da, que o que acontece é bem diferenACÓRDÃO te. Ela sempre foi produtora de maVistos, relatados e discutidos estes deira, em vários Estados da Federaautos, acordam os Ministros do Su- ção Possui estabelecimentos induspremo Tribunal Federal por sua Se- triais próprios e era também progunda Turma, na conformidade da prietária de todos os pinheiros que ata de julgamento e das notas taqui- industrializava. Jamais adquirira tográficas, por unanimidade de votos, ras de terceiros. não conhecer do recurso. O MM. Juiz sentenciante julgou Brasília, 19 de agosto de 1983 — procedente a ação para declarar nuMac' Falcão, Presidente — Aldir las as notificações fiscais e determiPassarinho, Relator. nou o cancelamento de todos os efeitos delas decorrentes. RELATORIO No Tribunal de Justiça local, a deO Sr. Ministro Aldir Passarinho cisão monocrática foi mantida, em (Relator): Trata-se de ação ordiná- acórdão sintetizado nesta ementa: ria proposta por Madeireira Santana «Comprovada a inexistência de Colonizadora Limitada contra o Esfato gerador, falece direito à cotado do Paraná, a fim de declarar brança do ICM. nulas as notificações feitas a ela, por Recurso improvido.» (fls. 249) falta de pagamento do ICM, referente à aquisição de terceiros, de toras Recorreu extraordinariamente o de pinho, transportando-as em ma- Estado do Paraná, com supedâneo deira serrada e feito sua comerciali- tão-somente na letra a da permissão zação. Alegou a autora, ora recorri- constitucional, 'alegando que o v. 162 R.T.J. — 109 belecido o conceito de contribuinte daquele mesmo imposto no qual se inclui o produtor (art. 6?), e que «Os Estados poderão considerar como contribuinte autônomo cada estabelecimento comercial, industrial ou produtor, permanente ou temporário, do contribuinte, inclusive veículos utilizados por este no comércio ambulante.» Traz á balha, ainda, os arts. 1? e 16 da Lei Estadual n? 5.463, de 31-1266, segundo os quais: o imposto sobre circulação de mercadoria tem como fato gerador a salda desta do estabelecimento comercial, industrial ou produtor (art. 1?) e que se considera «contribuinte autônomo cada estabelecimento permanente ou temporário, de comerciante, industrial ou produtor, inclusive os veículos utilizados no comércio de ambulantes.» Assim, acrescenta o Estado recorrente, o v. acórdão entendendo inexistir fato gerador, «quando da remessa de madeiras, de imóveis de propriedade do contribuinte, situados inclusive em outros municípios para a serraria autuada (esta situada em Marmeleiro), deixou de dar vigência à lei federal, inclusive violada a norma constitucional invocada, pelas decisões recorridas, que expressamente dispõe a respeito da lel considerar como contribuinte autônomo, cada estabelecimento comercial, industrial ou produtor, permanente ou temporário, do contribuinte». Observa que não se trata de saídas de materiais destinados a uso ou consumo de outros estabelecimenVOTO tos da mesma empresa, nos quais não incidiria o ICM, e também não O Sr. Ministro Aldir Passarinho era o caso de incidência sobre maté(Relator): No seu apelo último, invo- ria prima, quando se trata de indúsca o Paraná, os arts. 23, inc. II, e o tria integrada, instalada em área Decreto-lei n? 406/68, art. 6? e § 2? continua, embora em mais de um deste, aquele referente á fixação da município, e, assim, não era possível competência dos Estados para insti- a anulação dos débitos. No caso, tuir o ICM e o último, em que é esta- tratava-se de quaestlo iuris e não de acórdão impugnado contrariou os arts. 13 e 23 da Constituição da República, e negou vigência ao art. 6? e seu parágrafo 2? do Decreto-lei n? 906/68. Diz o Estado que o acórdão recorrido entendendo não se caracterizar o fato gerador pelo fato de não ter havido aquisição de madeira, contrariou os dispositivos legais indicados que expressamente fixam o conceito de estabelecimentos autônomos, inclusive o de produtor para fins de incidência do ICM, caracterizando-se assim a saída da madeira como operação sujeita a tal tributo, o que foi negado pela decisão recorrida. Dizia a autora que ao extrair as madeiras de suas reservas, não havia a circulação, a saída do produto, porque não havia transação e esta madeira, assim, não circulava. Entretanto, ficara «demonstrado que a recorrida, tendo propriedade com reservas florestais em Francisco Beltrão, dava saída de madeira para a sua serraria em Marmeleiro, considerado assim, ex-vi-legis estabelecimento produtor autônomo, e ,assim, sujeito a recolher o tributo objeto do lançamento fiscal que se pretende anular.» Inadmitido o recurso, subiram os autos a esta Corte, em razão de ter sido provido o agravo interposto pelo Estado recorrente. A douta Procuradoria-Geral da República manifestando-se, foi de parecer que não fosse conhecido o recurso. E este o relatório. R.T.J. — 109 quaestio facti, a ser dirimida, baseando-se no princípio da valorização da prova, como vinha entendendo o STF. No caso, ficara caracterizado que a recorrida, tendo propriedade com reservas florestais em Francisco Beltrão, era produtora de madeira em diversos Estados da Federação, dava saída de madeira para sua serraria situada no Município de Marmeleiro, pelo que considerando-se o estabelecimento produtor autônomo, estava ele sujeito ao ICM. Entretanto, como bem acentuou o ilustre Presidente do C. Tribunal de Justiça do Paraná, ao indeferir o recurso extraordinário: «Tanto a decisão de primeira instância, como a de segundo grau que a confirmou por seus próprios fundamentos, ao darem pela procedência da ação proposta o fizeram por entender, face à prova carreada para os autos, inocorrer, na espécie, fato gerador que autorizasse o lançamento das notas com as quais pretendia o fisco estadual cobrar o ICM, e o reexame desta mesma prova, outro não é o principal fundamento do recurso, despropiciando, destarte, o apelo extremo frente ao compendiado no n? 279, da Súmula.» Na verdade, não merece prosperar a irresignação derradeira e, para isso, mais não precisaria ver-se que, como muito bem assinalou a recorrida na sua impugnação ao recurso, a demanda anulatória fora proposta sob o fundamento da inexistência de fato gerador, uma vez que ela, autora, nunca adquirira toras de terceiros e, por conseguinte, eram nulas as notificações emitidas, e o réu orientara sua defesa por outro caminho, alegando que a firma era produtora de madeira e como tal sujeita ao pagamento do imposto. E, realmente, vê-se das notificações fiscais que as autuações se referem à aqui- 163 lição de toras de madeira «com efeito à produção e vendagem apresentadas». E é certo que passa a sustentar o Estado que o imposto é devido pela simples transferência do estabelecimento produtor para um outro estabelecimento seu, em outro município, embora no próprio Estado. Salienta a recorrida que embora seja um absurdo o raciocínio do Estado, o que se está dintindo aqui não é esse aspecto, mas sim se a recorrida adquiriu ou não as toras de terceiros, conforme afirmativas dos fiscais, constantes das notificações. Acresce que o v. acórdão recorrido adotou os fundamentos da r. sentença de 1? grau, conforme está expresso no seu texto, e nesta última não foram discutidas as normas legais Invocadas pelo recorrente, na conceituação ampla que procura dar ao termo contribuinte. E com propriedade, manifestandose a respeito, anota a douta Procuradoria-Geral da República: «3. O Recorrente discute questão de direito não ventilada na decisão impugnada. Por outro lado, o Eg. Tribunal de origem baseou-se exclusivamente em matéria de fato; a apreciação do apelo implicaria em revisão vedada no grau excepcional. 4. De acordo com a Súmula n?s 279 e 282, opinamos não seja conhecido o recurso.» (fls. 344) Pelo exposto, não conheço do recurso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 81.510-PR — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Estado do Paraná (Adv.: José Manoel de Macedo Caron ). Recda.: Madeireira Santana Colonizadora Ltda. (Adv.: Hugo Mósca). 169 R.T.J. — 109 Decisão: Não conhecido. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 19 de agosto de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 83.474 — BA (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Companhia Atiantic de Petróleo — Recorrida: Prefeitura Municipal de Salvador. Tributário. Taxa de localização e funcionamento. Município de Salvador. Inconstituclonalidade. O Supremo Tribunal Federal, pelo seu Plenário, no RE n? 77.473 (In RTJ n? 71, pág. 515) já decidiu caso idêntico, em acórdão cuja ementa assim ficou redigida: «Taxa de localização e funcionamento, Instituída pelo Código Tributário do Município de Salvador (arts. 200, 201 e 206, da Lei n? 1.934/66). Sua ilegitimidade ante o disposto no art. 19, 1i 2? da Constituição Federal de 1967 (hoje art. 18, 2?, após a EC n. 1/69), ao lado da vulneração da regra do parágrafo único do art. 77, do Código Tributário Nacional. Recurso extraordinário provido, a fim de se conceder o mandado de segurança impetrado.» No caso, a solução há de ser a mesma. Recursto conhecido e provido para conceder-se a segurança. Petróleo impetrou mandado de seguACÓRDÃO rança contra ato do Sr. Prefeito MuVistos, relatados e discutidos estes nicipal de Salvador e do Sr. Chefe do autos, acordam os Ministros do Su- Departamento de Tributos Diversos, premo Tribunal Federal, por sua Se- visando eximir-se da cobrança da tagunda Turma, na conformidade da xa de localização e funcionamento, ata de julgamento e das notas taqui- calculada sobre o seu movimento gráficas, por unanimidade de votos, econômico e sobre o valor locativo conhecer do recurso para lhe dar anual. Sustenta a impetrante, em síntese, a inconstitucionalidade da provimento. Brasília, 30 de setembro de 1983 — referida taxa instituída pela Lei n? Djaci Falcão, Presidente — Aldir 1.934/66, do Município de Salvador Passarinho, Relator. As instâncias ordinárias negaram RELATORIO a segurança postulada, sob o fundamento de que a mencionada taxa O Sr. Ministro Aldir Passarinho municipal de licença, para localiza(Relator): Companhia Atlantic de ção e funcionamento «assenta em R.T.J. — 109 bases não vedadas pelas normas legais que regem a matéria» (fls. 69/75 e 105/verso). Irresignada, recorreu, extraordinariamente, a Companhia Atlantic de Petróleo, com fulcro nas alíneas a e c do permissivo constitucional, invocando, preliminarmente, contrariedade ao disposto no art. 116 da Constituição Federal, porque a decisão recorrida não fora proferida pelo Plenário; e, no mérito, alega, também, contrariedade ao previsto no §, 2?, II, do art. 18, da Carta Magna. Quanto ao fundamento da letra c, sustenta que o aresto recorrido importou em contestar o parágrafo único do art. 77 do Código Tributário Nacional, ao julgar válidos e constitucionais os incisos I e II do art. 206 da Lei Municipal n? 1.934/66 (Código Tributário e de Rendas de Salvador). 165 VOTO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Matéria idêntica já foi examinada pelo Plenário desta Corte, sendo inclusive as partes as mesmas, no julgamento do RE n? 77.473BA — (In RTJ n? 71, pág. 515, tendo a ementa do respectivo acórdão assim ficado redigida: «Taxa de localização e funcionamento instituída pelo Código Tributário do Município de Salvador (arts. 200, 201 e 206 da Lei n? 1.934/66). Sua ilegitimidade ante o disposto no art. 19, 2?, da Constituição Federal de 1967 (hoje art. 18, 2?, após a EC n? 1/69), ao lado da vulneração da regra do parágrafo único do art. 77 do Código Tributário Nacional. Recurso extraordinário provido, a fim de se conceder o mandado de segurança impetrado.» Impugnando, na oportunidade, o recurso, pede afinal a Municipalidade de Salvador que o Supremo TribuNo seu, como sempre, cuidadoso nal Federal «reexamine a questão de maneira a reformular o seu entendi- voto, bem analisou o então Relator, mento a respeito, modificando a Sr. Ministro Djaci Falcão todos os orientação que adotou ao julgar o aspectos legais e constitucionais que envolviam a hipótese, tendo acentuaRE n? 77.473» (fls. 136/139). do, na oportunidade: Admitido o recurso pelo despacho presidencial de fl. 140/verso, processou-se regularmente, recebendo razões de ambas as partes (fls. 150/156 e 158/163). Nesta instância, a douta Procuradoria-Geral da República pronunciou-se pelo conhecimento e provimento do recurso, tendo em vista que, em matéria idêntica á presente (RE n? 77.473), o Supremo Tribunal declarou a ilegitimidade da taxa em questão (fl. 167). o relatório. «Ao que se vê, a base do cálculo da taxa em causa é representada pela sofra de duas parcelas, uma a compreender o valor locativo anual, e outra tendo em vista o salário mínimo, em função do movimento econômico do estabelecimento. Assim sendo, é fora de dúvida que toma em consideração os valores do movimento econômico do contribuinte, a indicar a sua capacidade contributiva. Acontece que em se tratando de taxa não há que se perquirir da capacidade econômica do contribuinte. A base de cálculo na taxa deve guardar 166 R.T.J. — 109 relação de proporcionalidade com o serviço que a justifica. Ora, o movimento econômico constitui critério para a incidência do IPI e do ICM (art. 47, II, a, do CTN, e art. 2?, I, do Decreto-lei n? 406/68). E, como é sabido, para a cobrança de taxa não é permitido se tomar como base de cálculo a que tenha servido para a incidência de imposto (art. 19, § 2?, da Constituição de 1967, hoje art. 18, § 2? e parágrafo único do art. 77 do CTN).» E finalizou, após citação de ensinamento de José Washington Coelho, em que foi ressaltado que o exercício do poder de policia, em si e por si, não constituía fato gerador da taxa: «Na espécie não se indica o exercício regular do poder de polícia, nem tampouco serviço público específico e divisível, prestado ou posto à disposição do contribuinte». Em casos símiles, já tem igualmente decidido esta Corte pela impossibilidade da cobrança da discutida taxa, valendo a respeito citar o RE n? 69.957-ES (Plenário), Relator também o Sr. Ministro Djaci Falcão (In RTJ n? 59, pág. 799), e o RE n? 91.535-SP (Plenário), Relator o Sr. Ministro Dedo Miranda, mandado de segurança em que era recorrida a Prefeitura Municipal de Igarapava, e cujo acórdão assim ficou ementado: «Tributário. Taxa de localização e funcionamento. Instituída pelo Município de Igarapava à base de fatores que servem de base de cálculo a outros tributos, e sem correspondência com efetivo exercício de poder de polícia ou serviço pres- tado, é inconstitucional a taxa. Contrariedade aos artigos 18, § 2?, da Constituição e aos artigos 77, seu parágrafo único, e 78 do Código Tributário Nacional (Lei n? 5.172, de 25-10-66). Divergência com o acórdão no RE n? 69.957 (RTJ n? 59/799), relativo a idêntico tributo do Município de Vitória» (RTJ n? 96/349). Pelo exposto, é de concluir — tal como o fez o Plenário desta Corte ao ensejo do julgamento do antes aludido RE n? 77.473 — que a taxa em questão, prevista nos arts. 200, 201 e 206, da Lei n? 1.934/66, do Município de Salvador, é inconstitucional. Em conseqüência, conheço do recurso com base na letra c do art. 119, III, da Constituição, e lhe dou provimento, para conceder a segurança. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 83.474-BA — Rel.: MM. Aldir Passarinho. Recte.: Companhia Atlantic de Petróleo (Advs.: Gustavo Cesar de Barros Barreto e outro). Recda.: Prefeitura Municipal de Salvador (Adv.: Gilberto Pedreira). Decisão: Conhecido e provido nos termos do voto do Ministro Relator. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 30 de setembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. R.T.J. — 109 167 AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 87.401 (AgRg) — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Agravante: Casa Mar e Terra Comestíveis S.A. — Agravado: Luiz Carlos Cardoso. Agravo regimental. Argüição de relevância da questão federal. Tendo o Egrégio Conselho rejeitado tal alegação, não cabe à Turma o reexame da matéria. Incidindo o óbice do art. 325, VIII do Regimento Interno, concernente ao valor da causa, só poderia ser ele afastado por ofensa à Constituição ou manifesta divergência com a Súmula, já que o Egrégio Conselho, órgão competente do Supremo Tribunal Federal, rejeitou a alegação de relevância da questão federal. 3. Nega-se provimento ao agravo regimental. ACORDA0 Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em negar provimento ao agravo regimental. Brasília, 30 de junho de 1983 — Soares Mufioz, Presidente — Alfredo Buzaid, Relator. RELATÓRIO No entanto, a argüição de relevância em apenso foi rejeitada pelo Eg. Conselho, e a quaestlo constitucional foi bem afastada pelo r. despacho agravado nos seguintes termos: «Procurando contornar o aludido óbice, a recorrente, em ambos os recursos, alegou ofensa ao artigo 107 da Constituição e argüiu a relevância da questão federal, esta a ser apreciada, privativamente, pelo Pretório Excelso. O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: R o seguinte o teor do despacho, com o qual neguei seguimento ao presente agravo de instrumento: Sucede que o Colendo Primeiro Grupo não ventilou a matéria suscitada, faltando, assim, o requisito do prequestionamento (Súmula, verbetes 282 e 356), quanto ao recurso de fls. 178/90). «Incidindo, na espécie, o óbice previsto no art. 325, VIII (valor da causa não atinge a alçada recursal), do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, somente por ofensa á Constituição Federal, manifesta divergência com a Súmula, ou relevância da questão federal poderia prosperar o presente recurso. Por outro lado, a Egrégia Sexta Câmara Cível, ao rejeitar o agravo contra decisão que indeferira o pedido de denunciação à lide, deu ao invocado artigo 107 da Constituição interpretação ao menos razoável, como se verifica da primeira ementa transcrita (Súmula, verbete n? 400) (fls. 113/114) R.T.J. — 109 168 Isto posto, nego seguimento ao agravo. Publique-se». ( fls. 130) Inconformada, Casa Mar e Terra Comestíveis S.A. Interpõe agravo regimental, alegando que: «Data venta, a matéria versada no bojo do Agravo, como se constata até em exame perfuntório da questão, tem requisitos jurídicos que não foram considerados relevantes porque o Conspícuo Jurista e Eminente Senhor Ministro, que proferiu o respeitável Despacho recorrido encarou o elenco do artigo 325, inciso VIII, do Regimento Interno e admitiu tratar-se de caso trivial, recurso idêntico a quantos não comportam solução outra que o indeferimento do extraordinário». (fl. 132) «Concessa maxima venta, o valor da causa como lhe atribui o Insigne Ministro que proferiu o respeitável Despacho recorrido, para indeferir o recurso de agravo de instrumento, não pode apresentar relevo porque a questão de direito exuberantemente trazida no contexto do recurso extraordinário e no agravo de instrumento é de tal ordem que enseja a permissão da subida do recurso extraordinário para melhor apreciação da matéria de direito, consoante os proficientes votos dos conspícuos e saudosos Ministros que compunham a Cúpula do Egrégio Supremo Tribunal Federal». ( fl. 133) Ilustrando tais afirmativas cita acórdãos proferidos em julgados desta Corte, dos quais foram Relatores os eminentes e saudosos Ministros Orozimbo Nonato, Castro Nunes e Luiz Gallotti. Finalmente, alega que «para prequestionar a matéria jurídica que havia sido aflorada na douta Sentença do Juiz de Direito da 12? Vara Cível e nas suas razões de Apelada, impetrou embargos de declaração perante o 1? Grupo de Câmaras Reunidas do Estado do Rio de Janeiro, para não ver postergados os seus direitos que iria demonstrar, à saciedade, como realmente demonstrou, no recurso extraordinário». (fl. 135) É o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Relator): 1. Matenho a decisão agravada por seus próprios fundamentos. Alega a agravante, em primeiro lugar, que a matéria submetida ao Supremo Tribunal Federal é relevante, pelo que devia ser considerada no despacho que negou seguimento ao recurso. Mas a relevância da questão federal foi argüida tempestivamente, tendo-a rejeitada o Egrégio Conselho, que é o órgão competente para apreciá-la. Por isso, sem desapreço ás considerações expendidas a fl. 133, invocando votos de eminentes e saudosos Ministros da Corte, o certo é que o óbice regimental do art. 325, VIII do Regimento Interno, concernente ao valor da causa, só poderia ser afastado por ofensa Constituição ou manifesta divergência com a Súmula, já que foi rejeitada a argüição de relevância da questão federal 2. Sustenta, em segundo lugar, que, para prequestionar a matéria, a cujo respeito pretendia interpor recurso, ofereceu embargos de declaração ( fls. 60/63). A verdade que, nesta oportunidade, citou, de passagem, o art. 107 da Constituição mas R.T.J. — 109 sem qualquer pertinência com a decisão proferida em grau de embargos infringentes, cuja ementa diz: «A responsabilidade civil é independente da criminal, mas há coisa julgada, ou, segundo outros, preclusão, a impedir se questione, no cível, a decisão criminal proferida sobre a existência do fato e sua autoria (C. Civil, art. 1.525). Indenização por perdas e danos. Responsabilidade da empresa por atos de seus prepostos».( fls. 57) 3. Vou transcrever o seguinte passo do v. acórdão, no que diz respeito ao invocado artigo 107 da Constituição: «Dai, concluir pela inexistência do fato anunciado como delituoso, fl. 32. 169 Sucede que o Colendo Primeiro Grupo não ventilou a matéria suscitada, faltando, assim, o requisito do prequestionamento (Súmula, verbetes 282 e 356), quanto ao recurso de fls. 178/90. Por outro lado, a Egrégia Sexta Câmara Civel, ao rejeitar o agravo contra decisão que indeferira o pedido de denunciação à lide, deu ao invocado artigo 107 da Constituição interpretação ao menos razoável, como se verifica da primeira ementa transcrita (Súmula, verbete n? 400 )». (fls. 113/114). Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. o meu voto. Nesta ação ordinária de indeniEXTRATO DA ATA zação, a ré requereu sua exclusão da lide, entendendo que, se houve erro, por ele deveria responder o Ag. 87.401 (AgRg)-RJ — Rel.: Min. Estado do Rio de Janeiro, fl. 41. Alfredo Buzaid. Agte • Casa Mar e Terra Comestíveis S.A. (Advs.: Davi Indeferido o pedido de denuncia- Moreira Ferreira e Outro). Agdo.: ção, fl. 90, a ré agravou, mas reti- Luiz Carlos Cardoso (Adv.: Alvaro do o recurso, dele não se conheceu G. Leite). na oportunidade da apelação (fls. 58/59) Decisão: Negou-se provimento ao agravo regimental. Decisão unâniAo agravo retido, negou provimen- me. to, por unanimidade, a Egrégia Sexta Câmara do Tribunal de Justiça, sobre a única matéria constitucional, Presidência do Senhor Ministro assim se manifestou o ilustre De- Soares Mufloz. Presentes à Sessão os sembargador Roque Batista, Vice- Senhores Ministros, Rafael Mayer, Presidente do Tribunal: Neli da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral «Procurando contornar o aludido da República, Dr. Francisco de Asóbice, a recorrente, em ambos os sis Toledo. recursos, alegou ofensa ao artigo 107 da Constituição e argüiu a relevância da questão federal, esta a Brasília, 30 de junho de 1983 — ser apreciada, privativamente, pe- Antônio Carlos de Azevedo Braga, lo Pretório Excelso. Secretário. 170 R.T.J. — 109 RECURSO EXTRAORDINÁRIO CRIMINAL N! 91.547 — MA (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Francisco Laércio Balneio Borges — Recorrido: Ministério Público Estadual. Criminal. Flagrante: nulidade não configurada. Depoimentos dos policiais: validade. Cerceamento de defesa: falta de intimação do réu para o depoimento de testemunhas e omissão de providência para inquirição de outras. Anulação parcial do processo. Não é de ter-se como nulo o flagrante por ter sido a prisão do réu efetuada apenas por policiais que, após revistarem seu carro nele encontraram significativa quantidade de maconha. Nem sempre as circunstâncias locais possibilitam que o crime seja presenciado por terceiros e nem é de ter-se como imprestáveis depoimentos dos policiais que efetuaram a prisão. Caracteriza-se, porém, cerceamento de defesa se foram omitidas as formalidades previstas no lf 2? do art. 23 da Lei n? 6.368/76 e não foram ouvidas testemunhas arroladas pela Defesa, evidenciando-se, no caso, prejuízo para esta, ante as alegações por ela formuladas. Recurso extraordinário a que se dá provimento para anulação do processo, parcialmente a partir de quando foram descumpridas as formalidades previstas no * 2? do art. 23 da Lei n? 6.368/76. Maranhão, como incurso nas sanACÓRDÃO ções do art. 12 da Lei n? 6.368, de 21 Vistos, relatados e discutidos estes de outubro de 1976, a três anos de reautos, acordam os Ministros do Su- clusão e multa, por terem sido enpremo Tribunal Federal, por sua Se- contrados em seu poder cerca de gunda Turma, na conformidade da dois quilos de maconha, do que reata de julgamento e das notas taqui- sultava não se destinar ela a uso gráficas, por unanimidade de votos, próprio. conhecer do recurso para lhe dar Inconformado, apelou o réu, pleiprovimento. teando a nulidade do processo, por Brasília, 6 de setembro de 1983 — não terem sido ouvidas todas as tesDjaci Falcão, Presidente — Aldir temunhas arroladas pela defesa e, Passarinho, Relator. ainda, por não haver sido intimado para todos os atos processuais; ou, então, seja ele absolvido ou, enfim, RELATORIO desclassificado o crime do art. 12 pao art. 16 da Lei n? 6.368/76, O Sr. Ministro Aldir Passarinho ra concedendo-se-lhe o beneficio do (Relator): Francisco Laércio Benício Borges foi denunciado e condenado sursis. perante o Juízo de Direito da 2? Vara O v. acórdão recorrido, do Colendo da Comarca de Caxias, Estado do Tribunal de Justiça do Estado do R.T.J. — 109 Maranhão, em apelação, a confirmar a sentença singular, por votação unânime, rejeitou as preliminares suscitadas pelo apelante de nulidade do processo, e negou provimento ao recurso, pelo que foi mantida, em conseqüência, a pena mínima do art. 12 da Lei n? 6.368, cominada ao acusado (três anos). Os termos do decisório estão resumidos em sua ementa, verbis: «Não se pronunciará nulidade, se dela não resulta prejuízo para a Acusação ou para a Defesa ou que não haja influído na apuração da verdade substancial, ou na decisão da causa (arts. 563 e 566 do CPP). Ouvida de testemunhas sem a presença do réu e de seu advogado ou a omissão no ouvir duas testemunhas arroladas pela Defesa, constituíram, na espécie, mera irregularidade, que só se converteria em nulidade, se provado o prejuízo real sofrido por uma das partes, o que não foi feito. Preliminares rejeitadas à unanimidade. No mérito, confirmação da sentença por resultar dos autos certeza de que o réu trazia consigo substância entorpecente de sua propriedade, sem ser para uso próprio.» Decisão também unânime.» No recurso extraordinário interposto com base nas alíneas a e d do permissivo constitucional, alega o recorrente que, em assim decidindo, o aresto recorrido contrariou o disposto no art. 153, §§ 4?, 15 e 16 da Constituição Federal, e negou vigência ao previsto nos arts. 353, 366, 401, cc os arts. 396 e 564, IV, e 6?, III, todos do Código de Processo Penal, bem como invoca divergência com vários julgados, que indica, inclusive desta Corte, e dos quais transcreve trechos, e com a Súmula n? 456. Admitido o recurso por ambos os fundamentos, processou-se ele regularmente, recebendo razões das partes. 171 A douta Procuradoria-Geral da República, em parecer exarado pelo Dr. Alvaro Augusto Ribeiro Costa, propugnou pelo não conhecimento do recurso, ou seu improvimento, por não ocorrer a argüida contrariedade aos dispositivos legais e constitucionais (fls. 363/366). o relatório. VOTO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Para trazer maiores elementos ao exame do recurso, leio o r. despacho do ilustre então Presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, Dr. Kleber Moreira de Souza, que admitiu o processamento da irresignação excepcional, e o parecer da douta Procuradoria-Geral da República contrário ao conhecimento do extraordinário. do seguinte teor aludido despacho: «Francisco Laércio Benício Borges não se conformando com a decisão proferida na Ap. Criminal n? 244/79 Caxias (MA), constante do texto dO Acórdão n? 4.084/79 (fls. 279/285), da 2? Câmara Criminal do TJ/MA, decisório unânime que confirmou decisão de primeiro grau, que condenou o ora recorrente á pena mínima do art. 12 da Lei n? 6.368/68, por seu procurador, vem recorrer, para o Supremo Tribunal Federal, baseando o seu recurso nos artigos 632, I, II, IV e seguintes da Lei Penal Adjetiva e art. 119, III, letras a e d, da Constituição Federal vigente, da referida decisão (Acórdão n? 4.084/79), proferida no dia 25-5-1979. Resumindo, alega o recorrente que o acórdão ora atacado pelo presente RE divergiu do entendimento do STF e de outros Tribunais, ferindo, inclusive a Magna Carta, em seu art. 153, 4?, 15 e 16 e negando vigência à Súmula n? 172 R.T.J. — 109 456, do já mencionado Tribunal Federal e, contrariando, também, a Lei Penal Adjetiva, em seus artigos 353, 366, 901 combinado com o art. 564, n? IV e, finalmente, que não apreciou o que fora decidido pela Suprema Corte e por outros aeropagos pátrios do que resultou não ter sido feita a devida Justiça, ao ora recorrente. Entre julgados citados para respaldar o seu recurso, o patrono do recorrente, cita os seguintes: «Notificação apenas do defensor, inadmissível. Nulidade. No HC n? 48.474, sendo relator o eminente Ministro Amaral Santos, assentou com precisão, a 1? Turma do STF que a notificação apenas do defensor Mio supre a exigência constitucional do contraditório, especialmente quando para ato ocorrido após o encerramento da instrução e quando o Juiz ordenou a notificação pessoal do acusado» (in RTJ vol. 58, pág. 169). «O direito de estar presente à instrução criminal conferido ao réu e ao seu defensor, assenta no principio do contraditório. Ao lado da defesa técnica, confiada a profissional habilitado, existe a denominada autodefesa, através da presença do acusado aos atos processuais» (In RTJ vol. 46, pág. 653).» Transcreve o recorrente ainda outros julgados, não só do STF, como também de Tribunais Estaduais, entre eles o de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. Intimada, a recorrida impugnou o recurso com as razões de fls. 311/317, baseando o mesmo, simplesmente na argumentação de que o recorrente não atendera; no seu apelo, ao disposto no art. 305 do RI do STF e, ao final, pede que seja negado seguimento ao RECr. n? 02/79. Examinando-se os autos, como enfatizou o recorrente, constata-se que apesar de constar do mesmo o endereço do réu, ora recorrente, não foi ele intimado, uma só vez, para as audiências realizadas, nas quais foram ouvidas testemunhas de defesa e de acusação e, também, que não tendo sido intimadas duas de suas testemunhas não foi o seu defensor cientificado de que as mesmas não haviam sido intimadas, por não se encontrarem mais nos endereços citados, o que no nosso entender era necessário pois poderia o mesmo, alegando serem as mesmas testemunhas-chave para a defesa de seu constituinte, insistir para que fossem intimadas, dando a conhecer os seus novos endereços ou, então, substituindo-as por outras que tivessem a mesma importância. Com isso houve desatendimento a dispositivos legais citados pelo recorrente. No que concerne ao desrepeito, ou melhor, ao dissídio jurisprudencial, o recorrente cita as decisões das quais diverge o julgado atacado, com relativa precisão, não havendo o desrespeito ao art. 305 do RI do STF, como assegura a recorrida, a não ser que se queira ser mui rigoroso no entendimento como tal norma deve ser cumprida e, na Justiça, o rigorismo excessivo é prejudicial à própria Justiça. A vista do exposto, pela ocorrência das hipèteses previstas nas letras a e d do item III, do art. 119 da Constituição Federal vigente, admito o presente recurso dandolhe seguimento.» (fls. 320/321) E é este o parecer da douta Procuradoria-Geral da República: «1. Com argüido apoio nas alíneas a e d do permissivo constitucional (art. 119, III, da CF), o recorrente impugna o aresto de fls. 279/286, ao fundamento de que o mesmo teria violado os arts. 6?, III R.T.J. — 109 353, 366, 564, IV, 401 e 396 do CPP, e os ff 4?, 15 e 16 do art. 153, da vigente Lei Maior, bem como incidido em divergência pretoriana, frente aos arestos colacionados às fls. 290/292 e 296/297, tendo, além disso, negado «vigência à Súmula n? 456 do STF» (sie v. fls. 299). Preliminarmente, verifica-se que, no tocante ao argüido dissídio jurisprudencial, o recorrente não cuidou de atender às exigências do art. 305, In fine, do Regimento Interno da Suprema Corte (vigente ao ser interposto o recurso), pois não demonstrou, como ali previsto, identidade ou semelhança entre as hipóteses em cotejo. No que concerne às alegativas de afronta aos dispositivos do CPP e da Constituição Federal invocados pelo recorrente, a argumentação por ele desenvolvida se prende aos seguintes pontos: a) falta de intimação do recorrente e de seu advogado, relativamente à expedição de precatória para ouvida de testemunhas, arroladas na denúncia, bem como para os atos processuais posteriores ao interrogatório; b) falta de oportunidade à defesa para desistir ou insistir no depoimento das testemunhas que não foram localizadas em Belém do Pará; c) omissão das autoridades policiais no tocante à convocação de elementos estranhos à Policia, para servirem de testemunhas da apreensão da maconha cuja posse foi atribuída ao recorrente. Quanto às argüições concernentes ao primeiro dos pontos acima identificados, o recorrente indica como violados, pelo aresto recorrido, os arts. 353, 366 e 564, IV, do CPP, e os § 4?, 15 e 16 da Lel Fundamental. Impertinente se mostra, porém, a invocação dos arts. 353 e 173 366 do CPP, de vez que o primeiro deles cuida de citação do réu, enquanto o segundo trata de revelia, temas que não foram discutidos no acórdão em foco. Com respeito ao art. 564, IV, do CPP, trata-se de norma que o aludido aresto não contrariou, pois não afirmou ser desnecessária a intimação do réu e de seu advogado para os atos do processo e ciência da expedição de carta precatória; nem considerou prescindível a intimação da defesa relativamente à expedição de carta precatória. O que fez o Acórdão, no particular, foi negar a existência de prejuízo defesa em virtude da falta cuja ocorrência reconheceu, aplicando, em conseqüência, os arts. 563 e 566 do CPP e não incidindo em qualquer ofensa aos 4?, 15 e 16 da Lei Maior, nem aos dispositivos do estatuto processual tidos pelo recorrente como violados. No que diz respeito ao segundo ponto do recurso — concernente à argüida falta de oportunidade à defesa para insistir (ou não) no depoimento das testemunhas não localizadas em Belém do Pará — o recorrente invocou o art. 401, c/c o art. 396 do CPP. Tais dispositivos, contudo, não concernem à questão suscitada pelo recorrente, pois não cogitam da hipótese de não serem encontradas as testemunhas. Não poderiam, em conseqüência, ter sido vulnerados pelo decisório em apreço. 8. Por fim, no que se refere ao derradeiro ponto do apelo extraordinário, o recorrente diz afrontado o art. 6?, III, do CPP. Trata-se de dispositivo que impõe à autoridade policial, logo que tiver conhecimento da prática de infração penal, «colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias». 174 R.T.J. — 109 No Acórdão recorrido, entretanto, consta a seguinte passagem: «Laércio e Jef ferson foram presos no Posto de Policia Rodoviária, fora dos limites da cidade e onde só se encontram normalmente policiais. A sua prisão não se efetivou, como repetidamente o afirma, em vários passos do processo, a Defesa, na Estação Rodoviária, razão porque não há como exigir-se que populares e circunstantes depuzessem como testemunhas do evento, o que é mais um motivo para que se aceitem como autênticos os testemunhos dos dois policiais que prenderam o apelante.» Assim, a questão de se saber se a autoridade policial atendeu (ou não) ao disposto no aludido preceito legal somente poderia ter deslinde mediante o reexame da prova, incabível no recurso extraordinário (Súmula n? 279). 11. Não se verifica, então, em face do exposto, a argüida contrariedade aos dispositivos legais e constitucionais apontados pelo recorrente. O parecer, em conseqüência, sugere o não conhecimento do apelo; ou o improvimento do mesmo.» (fls. 363/366) Examinando os autos, não posso deixar de assinalar que fiquei surpreso, chocado mesmo, com as expressões não apenas deselegantes, mas até grosseiras, usadas pelo advogado da Defesa em relação ao nobre Juiz de 1? grau. A competência demonstrada pelo diligente advogado não poderia — por isso mesmo — conduzi-lo aos excessos de linguagem que repetidamente cometeu, correndo, inclusive, o risco de indisp or os Juizes contra o seu constituinte, não fosse a serenidade e equilíbrio dos nobres Desembargadores do Tribunal do Maranhão. realmente lamentável. Feito esse reparo — que a mim tanto desagrada fazer — e que chega a entenebrar o brilho da sustentação da Defesa, passemos á análise dos autos, no quanto é permitido fazê-lo nos lindes do recurso extraordinário. Procurando demonstrar o dissídio jurisprudencial quanto às irregularidades formais que dariam margem à nulidade do processo, invoca a Defesa os acórdãos, mencionando: 1?) relativamente a Acórdão publicado na RTJ 46, pág. 326, o seguinte tópico: «Ao lado da técnica, existe a denominada autodefesa através da presença do acusado aos autos processuais» (RTJ n? 46, pág. 326). Não esclarece, porém, o recorrente se tal tópico, que se encontra a fls. 290 e repetido a fls. 327 dos autos, parte do voto do Relator ou de algum dos integrantes da assentada, se é trecho da ementa do Acórdão, enfim nada que possibilite a comprovação do dissídio; 2) Outro tópico transcrito, este também às fls. 290/327 dos autos: «Notificação apenas do defensor, inadmissível. Nulidade. No HC n? 48.474, relator o eminente Ministro Amaral Santos, assentou, com precisão, a 1? Turma do STF que a notificação apenas do defensor não supre a exigência constitucional do contraditório, especialmente quando para o ato ocorrido após o encerramento da instrução e quando o Juiz ordenou a notificação pessoal do acusado». Menciona como repositório a RTJ vol. 58, pág. 169. Entretanto, na RTJ aludida o que se encontra publicado é o próprio Acórdão do HC n? 48.474, não havendo qualquer indicação, portanto, do órgão oficial ou do repo- R.T.J. — 109 sitório autorizado que publicou o excerto acima transcrito nem se é ela parte da ementa de alguma sentença ou de Acórdão, de onde é esse aresto e nem o número do processo a que ele se refere; 3?) Ainda com menção à RTJ 46, pág. 653, é transcrito o se• guinte (fls. 291/327 dos autos): «O direito de estar presente à instrução criminal conferido ao réu e seu defensor, assenta no principio do contraditório. Ao lado da defesa técnica, confiada a profissional habilitado, existe a denominada autodefesa, através da presença do acusado aos atos processuais». Entretanto, ainda ai não há referência ao número do Acórdão, se o tópico transcrito é da ementa ou de algum voto e mesmo se, naquele caso, houve ou não nulidade. Ainda nas razões do recurso há referência a outro acórdão, mas ai o repositório é o Boletim de Jurisprudência ADCOAS n? 52.716, pág. 667 — ano de 1977, Boletim esse que, porém, não é repositório autorizado. Assim, não se encontrando atendidos os requisitos previstos no art. 322 do RI desta Corte, os Acórdãos trazidos como paradigmas não se prestam á comprovação do dissídio, impossibilitando o conhecimento do extraordinário pela letra d do permissivo constitucional, no que diz respeito á ausência do réu ou do seu advogado a atos processuais. 175 Aliás, este Tribunal não tem como inválida prova porque apenas decorrente de depoimentos dos próprios policiais. No referente á letra a do permissivo constitucional, alega o recorrente violação aos arts. 353, 366 e 564, IV, ambos do CPC; negativa de vigência ao art. 153, §§ 4?, 15 e 16 todos da Constituição, contrariedade aos arts. 401 c/c o art. 396 do CPP, e mais negativa de vigência ao art. 6?, III do CPP e discordância com a Súmula n? 456-STF. O acusado — ora recorrente — veio a ser citado para o interrogatório e a ele compareceu, acompanhado de seu advogado, tendo sido a citação efetuada por precatória expedida para a cidade de Belém. Na sua defesa prévia, foram arroladas seis testemunhas, com indicação de endereços, residentes todos em Belém do Pará, sendo a última em substituição a alguma das cinco, que faltasse. O processo é de ser anulado. Verifica-se que tendo sido expedida carta precatória para a Comarca de São Luís a fim de que ali fossem interrogadas as testemunhas arroladas pela Defesa, não foi intimado o advogado de tal expedição, e no Juízo deprecado, embora tivesse haNo referente á imprestabilidade do vido determinação para que fosse inflagrante e à própria validade das timado o acusado, tal não se deu, á provas de acusação, eis que formula- base da informação do Oficial de das elas apenas pelos policiais que Justiça de que ele não residia em efetuaram a prisão, após revista no São Luis, mas sim em Belém, não carro em que se encontrava o acusa- tendo, outrossim, sido intimado o addo, ocasião em que encontraram a vogado da defesa. E certo que o maconha, os trechos transcritos pos- MM. Juiz nomeou, para o ato, advosivelmente de votos em Julgamentos gado dativo, mas se o acusado posde Tribunais não atenderam àqueles sui advogado por ele constituído, não mesmos requisitos de análise neces- poderia outro ser nomeado, em sua sários à prova da dissidência. substituição. 176 R.T.J. — 109 Na conformidade do disposto no analisada no v. acórdão que, entreart. 23 da Lei n? 6.368, de 12-10-76, o tanto, invocou as Súmulas 563 e 566 réu deverá ser intimado para a au- para tirar importância à alegação. diência da instrução e julgamento, Outrossim, sem dúvida procedenquando serão ouvidas as testemunhas, bem como o defensor e o Mi- tes as alegações da Defesa quanto à nistério Público, daí resultando que falta de inquirição de duas testemudevendo as testemunhas ser arrola- nhas, pois das cinco arrroladas e das em outra comarca — no caso a ainda uma sexta para substituir qualde São Luis — pelo menos, com apli- quer das cinco que faltasse, só três cação da regra do art. 222 do CPP, foram ouvidas, sendo que das duas deveria haver a intimação da expe- restantes daquelas cinco uma foi indição da precatória, sob pena de nu- timada e a outra não foi localizada, cabendo, então, assim, ter sido pedilidade. da a manifestação do acusado ou do Ora, no caso, inaceitável será di- seu defensor. zer-se que não houve prejuízo para Pelo exposto, tenho que o processo a defesa em tal omissão, porquanto é de ser anulado a partir de quando um dos pontos básicos da Defesa foram, em São Luis, ouvidas as tessempre foi — e agora mesmo reite- temunhas, sem as formalidades rado no extraordinário — o de procu- previstas no § 2? do art. 23 da Lei n? rar não só invalidar o processo por 6.368/76, devendo ser também inquiserem as testemunhas da acusação ridas as testemunhas arroladas pela apenas os policiais que prenderam o Defesa, residentes em Belém do Paacusado, como insistir em que a de- rá, salvo havendo desistência, ou claração deste último de que fazia não sendo localizadas. uso de tóxicos, embora a acusação fosse de tráfico, ainda assim aquela E o meu voto. fora obtida à base de sevícias. E é de notar que nenhuma pergunta foi EXTRATO DA ATA formulada pelo advogado dativo nomeado para o ato à testemunha de 91.547-MA — Rel.: Min. Alacusação Nélio Santiago de Araújo e dirRECr. Passarinho. Recte.: Francisco as poucas que foram formuladas à Laércio Benicio Borges (Adv.: José testemunha Francisco Flávio Brito Jesus Jansen Pereira). Recdo.: Furtado nenhuma delas se referiu às de Ministério Público Estadual. sevícias. Decisão: Conhecido e provido nos Impende assinalar que nas suas termos do voto do Ministro Relator. razões, na conformidade do § 2? do Unânime. art. 23 da Lei de Tóxicos, a Defesa Presidência do Senhor Ministro do ora recorrente já insistia em que Djaci Falcão. Presentes à Sessão os se fazia presente a nulidade prevista Senhores Ministros Moreira Alves, no inciso IV do art. 564 do CPP pela Decio Miranda, Aldir Passarinho e falta de notificação para os atos pro- Francisco Rezek. cessuais, e bem justificou o prejuízo Geral da República,SubprocuradorDr. Mauro Leite dai decorrente, não sendo de esque- Soares. cer que o acusado não era revel. Brasília, 6 de setembro de 1983 — A invocação do art. 564, IV, do Hélio Francisco Marques, SecretáCPP, sempre prequestionada foi rio. R.T.J. — 109 177 AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 91.691 (AgRg) — SP (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Agravante: Rede Ferroviária Federal S.A. (Superintendência Regional de São Paulo — SR-4) — Agravado: Oswaldo de Oliveira. Trabalhista. Ferroviário. Enquadramento errôneo. Se a questão foi posta ao enfoque de errôneo enquadramento no quadro de pessoal da Rede, com base no Plano de Classificação daquela ferrovia, ao fundamento de desatendimento às regras pertinentes, e sob tal ângulo foi decidida favoravelmente ao reclamante, não é de acolher-se ao argumento da RFFSA de que a reclamação foi julgada ã base do principio da insonomia, o qual era incablvel de aplicarse na hipótese. Na verdade, a referência a outros colegas do reclamante — diferentemente do que tem ocorrido em multas outras demandas — objetivou mostrar o erro na sua classificação, e não que lhe fosse dada melhor classificação apenas por a terem obtida os companheiros indicados. Agravo regimental a que se nega provimento. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, por sua Segunda Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao agravo regimental. Brasília, 13 de setembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Aldir Passarinho, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): A Rede Ferroviária Federal S.A., agrava regimentalmente para esta Turma, mostrando-se inconformada com o despacho que exarel nos autos do agravo de instrumento por ela interposto e pelo qual mantive a decisão do ilustre Presidente do C. Tribunal Superior do Trabalho denegatória do seguimento de recurso extraordinário em que a Rede Ferroviária figura como recorrente e Oswaldo de Oliveira como recorrido. O despacho ora impugnado é do seguinte teor «O ilustre Presidente do C. Tribunal Superior do Trabalho não deu seguimento ao extraordinário, por entender não se encontrarem configurados os pressupostos que o justificariam. Salientou ele que a matéria prescricional só fora argüida no recurso de revista, não o sendo nas instâncias ordinárias, o que destoava da Súmula n? 27 daquela Corte, que proclama: «Não se conhece de prescrição não argüida na instância ordinária.» Ademais, segundo o despacho aludido, aplicava-se á hipótese o Prejulgado n? 48, hoje transformado em Súmula, por se tratar de hipótese de prestações de trato sucessivo. Ademais, a prescrição não rendia ensejo ao' extraorinário, por não se tratar de matéria constitu- 178 R.T.J. — 109 dona!, a respeito do que menciona acórdão no RE n? 95.153-9, Relator o Sr. Ministro Djaci Falcão. Quanto ao enquadramento pleiteado, menciona o despacho indeferitório que a Rede sempre procurava desviar o tema para o instituto da equiparação salarial, mas tal alegação não fora feita na contestação, nem no recurso ordinário por ela interposto, constituindo-se, portanto, em inovação não permitida. Não havia, deste modo, violação a preceito constitucional. Embora considere que, no caso, o lapso prescricional se deva iniciar-se, em regra, a partir da divulgação do enquadramento do servidor, pois se constitui ele em ato expresso e inequívoco do empregador, e contra o qual o empregado se insurge — não sendo, assim, o caso de renovação do prazo a cada novo pagamento dos salários —, por certo que a matéria não é de índole constitucional, mas, sim, decorre do disposto em preceito de lei ordinária, qual seja, o art. 11 da CLT. Deste modo, o fundamento não enseja o extraordinário, à vista do art. 143 da Constituição. Quanto à questão nuclear, é necessário que se distingam as duas hipóteses, isto é, se a decisão se deu considerando o instituto da isonomia, ou se a ação foi julgada procedente, admitindo terem sido desatendidas as regras prefixadas para o enquadramento. Ora, no caso, embora tivesse sido observada a classificação de colegas do reclamante, o que foi admitido é que seu posicionamento no quadro se dera erroneamente, não tendo sido decidida a demanda, com base no art. 461, § 2? da CLT, embora seja certo que a Rede procura dar como tendo sido violado aquele dispositivo da lei trabalhista. Como se vê do acórdão do TRT da 2? Região, foi ali declarado que como o Recorrente, «na realidade, vinha exercendo outra função, ou seja, Agente Especial de Estação, nivel 65, e por força da Resolução n? 364/76 tinha direito ao enquadramento de nível 69, isto é, Agente Especial de Estação III, face ao tempo em que vinha atuando como Agente de Estação». E no E. Tribunal Superior do Trabalho, ao ensejo da revista, é do respectivo acórdão contrário ao conhecimento do recurso: «Quanto ao enquadramento, também não conheço do recurso. As razões discrepam do decidido pelo Colegiado da Segunda Região. No Acórdão prolatado e especialmente no voto — fls. 128/129 — vê-se que a controvérsia foi dirimida com base em fatos consignando-se preterição.» Deste modo, se apenas se tratou de enquadramento — e não apenas disfarçando pretensão de igualdade salarial, segundo o art. 461, § 2? da CLT — não há base para a invocação, no caso, da regra do art. 85, I, da Constituição. Nem tampouco do seu art. 153, § 2?, este último trazido à balha para dar suporte ao tema prescricional que, entretanto, se situa no âmbito da legislação ordinária. Pelo exposto, nego provimento ao agravo» (fls. 135). No seu agravo regimental, a Ferrovia insiste em que houve violação ao art. 143 da Constituição Federal, o que justificava o extraordinário, eis que se encontrava configurada violação ao art. 461, § 2? e 85, I, combinado com o art. 153, § 2? da Lei Maior, a par de divergência com inúmeros acórdãos deste Tribunal. Alega que o art. 153, § 2?, foi apontado no Recurso Extraordinário e no Agravo de Instrumento interpostos, à vista de ofensa ao princípio da le- R.T.J. — 109 galidade, eis que foi admitido o enquadramento do postulante com base apenas no principio da isonomia. Observa que o V. acórdão do C. Tribunal Regional do Trabalho levou em consideração apenas a situação dos paradigmas ao corrigir o enquadramento pleiteado, dai havendo autêntica equiparação, pois não foi apontada violação de lei pela Ferrovia, sendo do aresto regional: «Pondere-se, ainda, que seus colegas mencionados na peça inicial foram promovidos anteriormente ao Reclamante, apesar de mais novos na função.» Ora, continua a agravante, ainda que a Ferrovia houvesse errado ao enquadrar os colegas do autor, um erro não justificaria outro. Invoca, outrossim, a Rede Acórdãos deste Tribunal no sentido do descabimento do enquadramento, com base da eqüidade ou da isonomia. Adianta que o acórdão não considerou haver quadro de carreira ao conceder a equiparação salarial e dai a violação dos preceitos trazidos à balha em respaldo do extraordinário. E o relatório. VOTO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Não encontrando razões para reconsiderar-me, trago o agravo regimental para submetê-lo ao julgamento da Turma. inicialmente de ver-se que o exame do extraordinário há de fazer-se ao enfoque das questões debatidas nas vias ordinárias. Recorrente, ora agravado, na sua petição inicial, na reclamatória, pleiteou revisão na sua reclassificação por defeito no seu enquadramento, tendo apenas mencionado a situação de outros companheiros para .demonstrar a erronia no que lhe dizia respeito. De fato, assinalou: 179 «Embora desviado das funções de Telegrafista para as de Agente de Estação, assim se manteve em razão de ordens e conveniência da empresa. Se ela, nos planos anteriores, por negligência ou ainda. por conveniência, não lhe deu tratamento adequado em seu enquadramento, jamais poderá lhe impor prejuízos por suas omissões, ou imperfeições administrativas. Se já se situava em nível mais elevado que o de Agente de Estação nos quadros da União, seu nível era o 16 e a carreira de Agente variava de 9A a 14, e no Plano Simplificado esteve em referência mais elevada, como já dito, é evidente que, no atual Plano, só lhe poderiam, e ainda com alguns prejuízos, classificá-lo na melhor referência da classe de Agente de Estação, ou seja nível 74 e não 65 como acabaram por fazer.» ( fls. 28). A r. sentença julgando, parcialmente procedente a reclamatória, o fez por considerar errôneo o seu enquadramento tal como ocorrera, ao dizer: «O novo Plano de Classificação levou em conta o que constava do antigo Plano Simplificado, mas neste, erroneamente, o reclamante continuava figurando como telegrafista, e não como Agente de Estação, função que de fato exercia desde 1944. Não se tratava, portanto, de simples desvio de função, como procurou justificar a reclamada. o enquadramento do reclamante, na carreira de Agente de Estação, no nivel inicial. Não se afigura justo nem legal que, por falha administrativa da reclamada, que não corrigiu oportunamente nos assentamentos do reclamante sua função real, o reclamante, no novo Plano, viesse a ser posicionado no nivel inicial do cargo que já vinha exercendo desde 1944» ( fls. 31). 180 R.T.J. — 109 A menção, quer na inicial, quer na sentença, a outros colegas do Recorrente sempre se deu não para demonstrar que ele deveria ser enquadrado por se encontrarem outros desempenhando trabalho igual, ganhando maior remuneração, mas, sim, para mostrar o erro na classificação funcional do Reclamante. O mesmo ocorreu na fundamentação do v. acórdão do Tribunal Regional do Trabalho, como se vê dos seguintes passos do voto do Relator: «Contra esta decisão insurge-se a Recda., voltando a alegar que o Recdo., antigo funcionário público federal, quando cedido à Rede Ferroviária, ocupava o cargo de Telegrafista, passando automaticamente a ser classificado como rádiotelegrafista, situação em que permaneceu até a aplicação do Plano de Classificação de Cargos (PCC)» (fls. 33). Apenas como reforço de argumentação, e em um exame comparativo, é que acrescentou o voto: «Pondere-se, ainda, que seus colegas mencionados na peça inicial, foram promovidos anteriormente ao Recte., apesar de mais novos na função». (fls. 33). A situação posta nos autos difere, assim, fundamentalmente, daquelas outras referentes à alteração na classificação à base no principio da isonomia. E, por isso e com razão, sem dúvida se encontra o ilustre Ministro-Presidente do C. Tribunal Superior do Trabalho a acentuar no seu despacho indeferitório do seguimento do extraordinário, como antes referido: «Quanto ao enquadramento requerido, a Empresa, como sempre, busca desviá-lo para o instituto da equiparação salarial, esquecendose que tal alegação não foi feita na contestação, nem no recurso ordinário por ela interposto, constituindo-se, assim, em inovação não permitida.» Pelo exposto, nego provimento ao agravo. É o meu voto. EXTRATO DA ATA Ag. 91.691 (AgRg)-SP — Rel.: MM. Aldir Passarinho. Agte.: Rede Ferroviária Federal S.A. (Superintendência Regional São Paulo — SR-4). Adva.: Valéria Medeiros de Albuquerque). Agdo.: Oswaldo de Oliveira (Adv.: José Alberto Couto Maciel). Decisão: Negado provimento ao agravo regimental. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 13 de setembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. EMBARGOS NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 92.816 — SC (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Embargante: Indústrias Reunidas Castelli S.A. — Embargados: José Alberto Costa, sua mulher e outros. Ação rescisório. Decadência. Prazo. Coisa Julgada formal. O prazo para propor ação rescisória conta-se da data do trãnsito em julgado da decisão no último recurso interposto do acórdão rescindendo. Embargos de divergência conhecidos e rejeitados. R.T.J. — 109 ACORDA° Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, conhecer e rejeitar os embargos. Brasília, 13 de abril de 1983 — Cordeiro Guerra, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): José Alberto Costa, s/m, e outros, moveram, a 17-12-76, contra Indústrias Reunidas Castelli S.A., com sede em Caçador, SC, ação rescisória de sentença do MM. Juiz de Direito da comarca de Caçador, «que, em processo de concordata preventiva, anulou escritura de compra e venda de imóvel procedida pela suplicada aos suplicantes», e do acórdão da Primeira Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, ao não conhecer de agravo de instrumento interposto da referida decisão de primeiro grau. A Terceira Câmara Civil do Tribunal de Justiça catarinense julgou os autores carecedores da ação rescisória, estando o acórdão assim ementado (fls. 273): «Ação rescisória de sentença de 1? grau. Decadência por ter sido interposta fora do prazo de dois anos. O recurso contra a decisão de 1? grau interposto em lugar do previsto, isto é, agravo em lugar de apelação e por isso rejeitado, não impede a passagem em julgado da decisão que não foi apelada. Prazo novo de decadência quando é aplicado à decisão ocorrida anteriormente». No aresto, explicita-se (fls. 275/276): 181 «A ré ao contestar o pedido, no que se refere à: rescisão da sentença do 1? grau, argüiu a decadência da ação, tendo em vista o decurso do prazo de dois anos a partir da passagem em julgado da sentença em questão. E irrecusável que o prazo começou a fluir após o qüinqüídio da data em que o recurso de apelação era viável, ou seja, 19 de janeiro de 1974. É que o agravo de instrumento, recurso inviável como foi declarado pelo acórdão que o apreciou, não impediu o trânsito em julgado, pois o recurso era de apelação e este não foi interposto. Fluindo a partir da data da juntada do AR e da notícia da sentença aos autores, o prazo do recurso terminou em 12 de fevereiro e, desta data até o ingresso da rescisória — 17 de dezembro de 1976 — decorreram mais de dois anos. Tendo o prazo de decadência terminado em fevereiro de 1976, de conseqüência a presente rescisória ingressou em juizo a destempo, donde seu não conhecimento. Não obstante a decisão ter sido proferida ao tempo do Código de Processo Civil anterior, o novo prazo de decadência deve ser aplicado, por mais favorável a quem argüiu». Interposto recurso extraordinário (fls. 285/292), inadmitiu-o o despacho presidencial, de fls. 336/340. Subiu o recurso, para melhor exame, em face do provimento do Agravo de Instrumento n? 78.839-5-SC. A Primeira Turma, por unanimidade, conheceu do recurso e lhe deu provimento, em aresto, com a seguinte ementa (fls. 419): «Ação rescisória. Prazo. Coisa julgada formal. O prazo para propor a ação rescisória começa a correr da data do trânsito em julgado da decisão rhscindencla, quan- 182 R.T.J. — 109 do não mais exercitável ou não exercitado recurso ordinário ou extraordinário, de que seja ela passível. Recurso extraordinário conhecido e provido». Em seu douto voto, o Relator, ilustre Ministro Rafael Mayer, anotou (fls. 411/413): «Cuido que os Recorrentes lograram demonstrar o dissídio jurisprudencial do acórdão recorrido com o julgado paradigma desta Corte, constante do RE n? 87.420, ambos versando e dissentindo no ponto essencial, a saber, o momento da formação da coisa julgada formal quando não conhecido o recurso interposto da decisão que substancialmente vai transitar em Julgado. Com efeito, constam de acórdão paradigma, desta Corte, as seguintes proposições destacadas no recurso: «SÓ depois de passada em julgado a decisão é ela irrecorrivel, e portanto, daí deve começar a correr o prazo para a rescisória. A rescisória é de decisão definitiva, e, portanto, pressupõe esgotados todos os prazos para que seja irrecorrivel a decisão rescindenda. Assim entendeu o eminente Ministro Theinístocles Cavalcante com apoio da Turma, no RE n? 60.042, de Minas Gerais, em 24-468 — 2? Turma». E ainda: «De fato, não transitou em julgado o acórdão rescindendo, senão quando transcorrido o prazo do agravo regimental do despacho do relator, fls. 27, que indeferiu o agravo de instrumento interposto tempestivamente». Finalmente: «De qualquer modo, a meu ver, a interposição de recursos cabi- veis, extraordinário e agravo de instrumento, embora indeferidos, afastaram o trânsito em julgado do acórdão rescindendo. Tenho, por isso, como inocorrente a decadência da ação proposta». Há outros precedentes desta Casa, no mesmo sentido, como se vê da referência do acórdão paradigma e do Pleno, a AR n? 963, de cuja ementa se lê: «Ementa: Ação rescisória. Argüição de decadência rejeitada, pois, o prazo para propor ação rescisória conta-se da passagem em julgado do último recurso interposto do acórdão rescindendo (RE n? 87.420-PR — RTJ 84/684)». Anote-se, aliás, que seria de extremo rigorismo aplicar a doutrina de que, no caso, o recurso interposto da sentença de primeiro grau, objeto de rescisão, seja evidentemente inadmissível, ainda que o Tribunal de Justiça dele não tenha conhecimento. Certo é que ela foi prolatada ainda na vigência da lei processual anterior e em processo falencial, cuidando a instância a quo que o recurso devera ser de apelação ao invés do agravo de instrumento, aliás tempestivo. Se prevalecem as normas recursais pertinentes ao tempo da decisão atacada, deve ser considerado que o CPC/1939 adotava explicitamente o principio da fungibllidade de recurso (art. 810) e a Lei de Falências só excepcionalmente contemplava a hipótese de apelação, em casos que não o da espécie, que, pelas indicações dos autos, estaria razoavelmente sujeita a recurso de agravo de petição (art. 77, 4?), quando não mesmo o de instrumento por não dever subir nos próprios autos da causa (art. 207). Sujeita a recurso, tempestivamente exercitado, embora dele não R.T.J. — 109 se tenha conhecido, a decisão de primeiro grau constituiu-se em coisa Julgada mas somente quando não mais exercitado, pelo decurso do prazo, o recurso extraordinário que ainda era cabível.» Pelo exposto, conheço do recurso e lhe dou provimento a fim de que, afastada a preliminar de decadência, o Egrégio Tribunal a quo prossiga no Julgamento da ação, como de direito». A ré, Indústrias Reunidas Castelli S.A., interpôs embargos de divergência (fls. 421/430). Depois de referir os arestos da mesma Turma, nos Recursos Extraordinários n?s 92.391-8/GO, Relator o Senhor Ministro Soares Muiloz, In DJ de 19-12-1980, e 90.986-AM, Relator o Senhor Ministro Rafael Mayer (RTJ 95/852), aponta, ainda, o aresto na Ação Rescisório n? 1.061-2SP, Relator o ilustre Ministro Dedo Miranda, em decisão plenária, com esta ementa (fls. 426), como paradigma: «Processual civil. Ação rescisória. Prazo de decadência. Não aproveita ao prazo o lapso de tempo decorrido entre o teórico trânsito em Julgado do acórdão rescindendo e o despacho que inadmitiu embargos de divergência, por incabíveis». O voto do ilustre Relator do Julgado paradigma, ao acolher a argüição de decadência, em 29-4-81, sustentou (fls. 426/ 427): «O acórdão rescindendo foi publicado 18-6-76 (sexta-feira). O único recurso cabível seria o de embargos de declaração, a serem opostos no prazo de cinco dias, que fluiria a partir de 21-6-76, segunda-feira. (Regimento Interno, arts. 314, § 1?, e 100, 3?). O teórico trânsito em Julgado se realizaria, pois, ao findar-se o expediente de 25-6-76. 183 E o prazo decadencial da ação rescisória, iniciado a 26-6-76 (sábado), se completaria a 25-6-78. No entanto, a petição da rescisória somente deu entrada no protocolo do Supremo Tribunal Federal a 9-8-78. O autor contou o prazo a partir de 10-9-76, sob o seguinte raciocínio: o acórdão rescindendo foi publicado a 18-6-76; mas houve embargos do autor, repelidos por despacho do Relator, publicado no DJ de 3-9-76 (sábado); C) daí, concluiu que o trânsito em Julgado somente teria ocorrido a 10-9-76, certamente computando o prazo para embargos de declaração nesse momento (fls. 5). Dá-se, porém, que, inadmissíveis os embargos opostos ao acórdão rescindendo, como ficou visto no despacho que os repeliu (fls. 40), não poderiam alongar o inicio do prazo decadencial do art. 495 do Cód. Proc. Civil. A petição inicial viu a falha, tanto que procurou amparo no que decidira o STF na AR n? 920 (RTJ 75/29), o que, entretanto, somente lhe poderia aproveitar se estivesse procurando rescindir o despacho que repeliu os embargos, o que não é o caso». Aduz a embargante que o acórdão embargado, «para entender que a ação rescisória proposta estaria dentro do prazo a que se refere o art. 495, do Cód. de Proc. Civil, admitiu como suspensivo do trânsito em Julgado, o tempo que decorreu do recurso inadequado interposto, até o seu Julgamento» (fls. 427), enquanto o aresto divergente, seguindo a lição de Pontes Miranda, que cita, deixa explícito que, se o recurso foi «declarado não cabível, a decisão transitou em Julgado ao ser proferida, ou ao 184 R.T.J. — 109 se expirar o prazo para outro recur- decisão embargada que o prazo para so, que pudesse ser interposto eficaz- propor a ação rescisória começa a mente interponivel, de prazo maior» correr do trânsito em julgado da decisão rescindenda, quando não mais (fls. 428). O eminente Ministro Leitão de exercitável ou não exercitado recurAbreu, para discussão, admitiu os so ordinário ou, extraordinário, de que seja ela passível (ementa ). Aqui embargos (fls. 440). o recurso era cabível e não foi exerContra-razões dos embargados, ás citado; no pretendido paradigma, o fls. 442/443. recurso que foi exercitado não era A douta Procuradoria-Geral da cabível». República ( fls. 455/457) opinou no Também é de ponderar que, na essentido do não conhecimento dos em- pécie dos autos, o acórdão embargabargos, ou de sua rejeição, se conhe- do teve em conta, ainda, para recucidos. sar a argüição de decadência, espeE o relatório. cial consideração atinente ao caso concreto, assim deduzida no voto dele condutor (fls. 412): VOTO «Anote-se, aliás, que seria de exO Sr. Ministro Néri da Silveira tremo rigorismo aplicar a doutrina (Relator): Não servem a fundamende que, no caso, o recurso interpostar a divergência os acórdãos nos to da sentença de primeiro grau, Recursos Extraordinários n?s 92.391 objeto de rescisão, seja evidentee 90.986, porque, ambos, da Primeira mente inadmissível, ainda que o Turma. Tribunal de Justiça dele não tenha conhecido. Certo é que ela foi proQuanto ao aresto, na Ação Rescilatada ainda na vigência da lei sória n? 1.061-SP, o Plenário deste processual anterior, e em processo Tribunal, a 29-4-1981, acolheu a prelifalencial, cuidando a instância a minar de decadência, a partir da quo que o recurso devera ser de consideração de serem os embargos apelação ao invés do agravo de de declaração o único recurso então instrumento, aliás tempestivo. Se cabível, sendo inadmissíveis os emprevalecem as normas recursais bargos de divergência opostos ao pertinentes ao tempo da decisão acórdão rescindendo e a interposição atacada, deve ser considerado que destes não poderia, assim, dilatar o o CPC/1939 adotava explicitamente início do prazo decadencial do art. o princípio da fungibilidade de re495, do CPC, que ocorreria ao térmicurso (art. 810) e a Lei de Falênno do qüinqüídio para os embargos cias só excepcionalmente contemde declaração. Tratou-se, pois, de replava a hipótese de apelação, em curso em processo da competência casos que não o da espécie, que, originária do Supremo Tribunal Fepelas indicações dos autos, estaria deral. razoavelmente sujeita a recurso de Observou, em face disso, o parecer agravo de petição (art. 77, § 4?), da ilustrada Procuradoria-Geral da quando não mesmo o de instruRepública que «a hipótese dos autos mento por não dever subir nos próé outra: primeiro, porque não se exaprios autos da causa ( art. 207). mina rescisória de competência do Supremo Tribunal Federal», acresSujeita a recurso, tempestivacentando (fls. 457): «A matéria asmente exercitado, embora dele não cendeu por via de recurso extraordise tenha conhecido, a decisão de nário e, neste, concluiu a veneranda primeiro grau constituiu-se em coi- R.T.J. — 109 sa julgada mas somente quando não mais exercitado, pelo decurso do prazo, o recurso extraordinário que ainda era cabível». Inobstante esses aspectos destacados no parecer da ProcuradoriaGeral da República, penso que, na espécie, não é de se examinarem as hipóteses, com o rigor acima pretendido. No essencial, quanto à definição do termo a quo do prazo de decadência da ação rescisório, os acórdãos em confronto divergem. Assim sendo, conheço dos embargos. VOTO (MERITO) O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Observou, no voto-vista, proferido, no julgamento do recurso extraordinário, o eminente Ministro Soares Mufioz (fls. 415): «Militam, porém, a favor do acórdão paradigma, razões de ordem prática resultantes da aplicação do principio da utilidade que informa a teoria dos prazos processuais. Os prazos são estabelecidos na lei para serem utilizados por aqueles no interesse dos quais são instituídos. Atendendo a esse escopo é que se diz que os prazos devem ser hábeis. A prevalecer a orientação do acórdão recorrido, o prazo decadencial de dois anos ficará encurtado, quando não consumido, pela eventual demora do Tribunal ad quem em julgar incabivel o recurso». No RE n? 87.420, anotou-se: «Só depois de passada em julgado a decisão é ela irrecorrivel, e portanto, daí deve começar a correr o prazo para a rescisório. A rescisório é de decisão definitiva, e, portanto pressupõe esgotados todos os prazos para que seja irrecorrivel a decisão rescindenda». 185 Assim também entendeu a Segunda Turma, no RE n? 60.042-MG, já a 24-4-1968, Relator o saudoso Ministro Themistocles Cavalcanti. Consolida-se a orientação esposada no acórdão embargado, a partir do fundamento bem destacado pelo ilustre Ministro Cordeiro Guerra, no RE n? 86.982-PR, verbis: «Rejeito, outrossim, a argüição de decadência formulada pelos recorridos, por entender que o termo Inicial da contagem do prazo decadencial é o trânsito em julgado do despacho que indeferir o recurso extraordinário neste Tribunal, tal como se decidiu no RE n? 87.420PR, de que fui relator, e que está assim ementado: «Ação Rescisório. Decadência. O prazo para propor ação rescisório conta-se da passagem em julgado do último recurso interposto do acórdão rescindendo». (RTJ 84/684-687). (In RTJ 90/100). No voto proferido no recurso extraordinário, condutor do acórdão embargado, o eminente Ministro Rafael Mayer sinalou (fls. 412/413): «Há outros precedentes desta Casa, no mesmo sentido, como se vê da referência do acórdão paradigma e do Pleno, a AR n? 963, de cuja ementa se lê: «Ementa: Ação rescisório. Argüição de decadência rejeitada, pois o prazo para propor ação rescisório conta-se da passagem em julgado do último recurso interposto do acórdão rescindendo (RE n? 87.420-PR — RTJ 84/684 )». Anote-se aliás, que seria de extremo rigorismo aplicar a doutrina de que, no caso, o recurso interposto da sentença de primeiro grau, objeto de rescisão, seja evidentemente inadmissível, ainda que o Tribunal de Justiça dele não tenha conhecido. Certo é que ela foi pro- Ias R.T.J. — 109 latada ainda na vigência da lei processual anterior, e em processo falencial, cuidando a instância a quo que o recurso devera ser de apelação ao invés do agravo de instrumento, aliás tempestivo. Se prevalecem as normas recursais pertinentes ao tempo da decisão atacada, deve ser considerado que o CPC/1939 adotava explicitamente o principio da fungibilidade de recurso (art. 810) e a Lei de Falências só excepcionalmente contemplava a hipótese de apelação, em casos que não o da espécie, que, pelas indicações dos autos, estaria razoavelmente sujeita a recurso de agravo de petição (art. 77, 4?), quando não mesmo o de instrumento por não dever subir nos próprios autos da causa (art. 207). Sujeita a recurso, tempestivamente exercitado, embora dele não Se tenha conhecido, a decisão de primeiro grau constituiu-se em coisa julgada mas somente quando não mais exercitado, pelo decurso do prazo, o recurso extraordinário que ainda era cabível)). Do exposto, acolhendo a tese do acórdão recorrido, rejeito os embargos. EXTRATO DA ATA ERE 92.816-SC — Relator.: Ministro Néri da Silveira. Embte.: Indústrias Reunidas Castelli S.A. (Advs.: José Cid Campêlo e Hugo Mósca). Embdos.: José Alberto Costa, sua mulher e outros (Advs.: Gabriel Mendes Carazzai e outros. (Dec.: embda. 1? Turma, em 12-5-81). Decisão: Conheceram e rejeitaram os embargos, unanimemente. Falou pelos Embtes. o Dr. José Cid Campêlo. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufioz Decio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Procurador-Geral da República, Professor Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 13 de abril de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. AGRAVO DE INSTRUMENTO Nt 93.187 (AgRg) — MG (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Agravante: Viação Agida Branca S.A. — Agravado: Estado de Minas Gerais. Processual penal. Agravo regimental. Inexistindo no quadro da policia funcionário perito criminal, pode o juiz nomear pessoas que lhe são estranhas, na forma do art. 159 do Código de Processo Penal. Nega-se provimento ao agravo regimental. ACORDÃO Brasília, 23 de agosto de 1983 — Multoz, Presidente — Alfredo Vistos, relatados e discutidos estes Soares autos, acordam os Ministros da Pri- Buzaid, Relator. meira Turma do Supremo Tribunal RELATÓRIO Federal, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Nenegar provimento ao agravo regi- guei seguimento ao presente agravo por entender, como a V. decisão remental. R.T.J. — 109 corrida que a «alegação da autora não tem eco na lei, pois que o art. 159, em seu 1?, do CPP, autoriza a autoridade policial, desde que não haja perito oficial, no local, nomear outras pessoas, para o desempenho do menus, desde que sejam idôneas e escolhidas, de preferência, junto a pessoas que possuam habilitação técnica. E é exatamente isto que foi feito pela autoridade policial que presidia a ação penal iniciada na própria policia por força do que dispunha a Lel n? 4.611/65, que vigia na época do envento e, cumprindo a lel, o Delegado nomeou para serem peritos ad hoc, na infração em que se envolveram um veiculo e motorista ligados à empresa autora, com outro veiculo particular, as pessoas, suas conhecidas e de sua confiança, para desempenharem as funções próprias de perito» (fls. 18/19). Inconformada, Viação Aguia Branca S.A. interpõe agravo regimental, alegando que: sempre foi prequestionado, neste litígio, ato administrativo que se atritou com o artigos 82, 130, 145, III e IV do Código Civil»; r. despacho de exame de recurso extrarordinário aceitou o decisório do Tribunal de Minas Gerais, dando como aplicável a Súmula n? 400, o que, data venha, nada tem que ver com a tese do litígio, pois o tema é um só, a designação de dois cidadãos, sem preparo técnico nenhum para fazer uma perícia, quando há, no município, perito oficial, com a devida aparelhagem para realizar um trabalho de tanta responsabilidade, como o da espécie dos autos»; c) «não nos parece justo afirmar que não houve prequestionamento por parte do agravante protestando contra a nomeação dos dois peritos ad doc, quando sempre foi esse o fato alegado nestes autos» (fls. 95). E o relatório. 187 VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzald (Relator): 1. A controvérsia gira em torno da aplicação do art. 159 do Código de Processo Penal, segundo o qual os exames de corpo de delito e outras perícias serão, em regra, feitos por peritos oficiais. Não havendo peritos oficiais, o exame será feito por duas pessoas idôneas, escolhidas de preferência as que tiverem habilitação técnica. «Como no Município de João Monlevade», diz o v. acórdão, «palco do ato tido como delituoso, não havia nos quadros da polícia o funcionário público perito criminal, nada impedira, cumprindo-se a lei processual penal, fossem nomeadas pessoas estranhas ao quadro do funcionalismo público, não havendo nenhuma ilegalidade na nomeação dos que serviram o menus (fls. 19/20). No meu despacho de fls. 88, neguei seguimento ao agravo, por ser imensurável a decisão que indeferiu o recurso extraordinário (fis.8), interposto com base no art. 119, III, c da Constituição da República. 2. O agravante não impugnou o fundamento do despacho. Limitou-se a dizer que foi prequestionado «ato administrativo que atritou com os arts. 82, 130 e 145, III e IV do Código Civil» (fls. 95). Ora, esta matéria não foi objeto do despacho agravado, que na verdade não foi impugnado em seu fundamento. Pelo exposto, nego provimento ao agravo regimental. E o meu voto. EXTRATO DA ATA Ag. 93.187 (AgRg)-MG — Rel.: Min. Alfredo Buzald. Agte.: Viação Aguia Branca S.A. (Advs. José Francisco Lenis Horta e Hugo Mósca). Agdo.: Estado de Minas Gerais. (Advs.: Marcos Gomes e outro). 188 R.T.J. — 109 Decisão: Negou-se provimento ao Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral agravo regimental. Decisão unâni- da República, Dr. Francisco de Asme. sis Toledo. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufioz. Presentes à Sessão os Brasília, 23 de agosto de 1983 — Senhores Ministros, Rafael Mayer, António Carlos de Azevedo Braga, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 93.679 — RJ (Tribunal Pleno) Relator Ad Hoc: O Sr. Ministro Moreira Alves. Recorrente: Instituto Nacional da Propriedade Industrial — INPI — Recorrida: Pfizer Inc. Invenção de processo para fabricação de medicamento. Constitucionalidade do art. 9? da Lei n? 5.772/72. Sua aplicação aos pedidos em andamento, tendo em vista o disposto no artigo 117 da mesma Lei, não viola o § 3? do artigo 153 da Constituição Federal. Recurso extraordinário conhecido e provido. «Invenção de processo para faACOFtDA0 bricação de medicamento. DeposiVistos, relatados e discutidos estes tado ao tempo da Lel que permitia autos, acordam os Ministros do Suo seu deferimento, lei posterior não premo Tribunal Federal, em Sessão podia interferir para determinar o Plenária, na conformidade da ata do indeferimento.» julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos, conhecer Irresignado, o Instituto Nacional do recurso e dar-lhe provimento. da Propriedade Industrial — INPI — Brasilia, 1? de fevereiro de 1982 — interpôs recurso extraordinário com Xavier de Albuquerque, Presidente fundamento na letra a do permissivo — Moreira Alves, Relator Ad Hoc. constitucional, alegando violação dos arts. 9? e 117 da Lei n? 5.772, de 1971. RELATORIO A Procuradoria-Geral da RepúbliSr. Ministro Cunha Peixoto: opina no sentido de ser conhecido Trata-se de mandado de segurança ca e provido o recurso. impetrado por Pfizer Inc. contra o o relatório. ato do Secretário de Patentes do Instituto Nacional da Propriedade InVOTO dustrial que indeferiu seu pedido de Sr. Ministro Cunha Peixoto (Reprivilégio de invenção, depositado em 12-2-68, para «Processo para pro- lator ): duzir o 6-de-oxi-Tetraciclinas», sob 1. O recurso extraordinário ataca fundamento de que esse produto o acórdão do Tribunal Federal de Recursos sob o fundamento de que, não é privilegiável. Juiz de primeiro grau Indeferiu tendo concedido mandado de segumandado, mas o Tribunal Federal rança para determinar o deferimende Recursos reformou essa decisão to do pedido de privilégio de invenpara dar provimento à apelação da ção do 6-DE-OXI-TETRACICLINAS, impetrante, em acórdão assim violou os arts. 9? e 117 da Lei n? 5.772, de 1972. ementado: — 109 O primeiro estabelece não ser o produto em questão privilegiável: «Não são privilegiáveis: c) as substâncias, matérias, misturas ou produtos alimentícios, químico-farmacêuticos e medicamentos, de qualquer espécie, bem como os respectivos processos de obtenção ou modificação.» E o segundo estatui: «O disposto neste Código se aplica a todos os pedidos em andamento, inclusive os de prorrogação e recurso.» 2. Não se pode dizer ser o artigo 9? inconstitucional. Na verdade, a Constituição de 1967, em seu art. 153, § 24, estabeleceu que garantia aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, regra que a Emenda Constitucional n? 1, de 1969, reproduziu, substituindo apenas a palavra «garantia» por «assegurará». Portanto, o Constituinte não assegurou, de logo, em qualquer hipótese, ao autor do invento industrial, o privilégio temporário para utilização deste, e, assim, cometeu ao legislador ordinário o disciplinamento da matéria, de sorte que a garantia que previu fosse concedida quando atendidas determinadas condições, dentre as quais a de não contrariar a invenção o interesse público. As leis anteriores, sem que tenham sido acoimadas de inconstitucionalidade, estabeleceram a não privilegiabilidade das substâncias, matérias, misturas ou produtos alimentícios, químico-farmacêuticos e medicamentos. A atual apenas estendeu esta exceção aos respectivos processos de obtenção ou fabricação. Na verdade, em relação a estes produtos, o interesse de todos deve prevalecer sobre o interesse individual. As invenções, nesses casos, são res comuns omnium. 189 A legislação brasileira, nesta parte, seguiu o exemplo da Itália (Lei de 1936), da Alemanha (Lei de 1936) e da França (Lei de 1944), para citarmos apenas estes países, por terem eles contribuído bastante nesse campo de atividade científica. Paulo Grego, Justificando a recusa de privilégio de medicamentos, escreve: ai fine di evitare che produttl cosi necessari alia salute pubblica come quelli destinati a guarire malattle e a lenire sofrenze umane, potessero essero monopolizzati con ia consequenzla di ilmitare ia loro quantia Se elevari ll prezzo». (I Diritto Sul Beni Immateriali, pág. 402, n? 195). 2 o interesse da comunidade, pois, que comanda a concessão dos privilégios e, assim, inexiste nenhuma inconstitucionalidade na restrição estabelecida pelo art. 9? do atual Código de Propriedade Industrial. 3. O direito do inventor, realmente, nasce com a própria invenção, podendo ele, a partir dessa data, dispor dela como bem entender. Assim, seu direito existe antes de qualquer exploração, mas o direito à exclusividade desta, o direito de propriedade industrial, só aparece com o deferimento da patente. Há três períodos na vida da invenção• o que vai do ato de invenção ao pedido de registro e o competente depósito; o que vai do pedido e respectivo depósito à patenteação; o que começa na data do deferimento do registro. No primeiro, há apenas uma faculdade que pode ou não ser usada. Se ele não a utiliza, mesmo sendo sua invenção muito anterior á de outro, o direito é de quem primeiro requereu e fez o depósito. Este tem por efeito primada! fixar a data do invento, de modo a marcar no tempo o direito de prioridade do seu autor. E conhecido o exemplo histórico do azar de Grey, que teve seu pedido de invento R.T.J. — 109 190 do telefone recusado porque o apresentou poucas horas depois do de Bell. O terceiro é que confere ao autor do invento o direito comercial. A patente é que contém o privilégio, que a Constituição prometeu e assegurou. Mas isto dependendo, como diz o dispositivo constitucional, de lei que o assegure. A lei é que define os requisitos para a concessão do privilégio, o tempo de sua duração, as condições de sua transferência e da concessão do seu uso e da sua extinção, inclusive por caducidade ou nulidade. Pode, pois, estabelecer a privilegiabilidade ou não do produto e a duração da concessão, e, sendo lei de ordem pública, pode alargar ou diminuir, até a concessão do privilégio, as listas de produtos suscetíveis de patenteação. A matéria é de interesse público. Assim, não se pode considerar inconstitucional o art. 9? da Lei n? 5.772/71 e, como é jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal que a modificação com relação aos inventos pode ser feita até o momento de sua concessão, não houve, na hipótese, também, contrariedade ao 3?, do art. 153 da Constituição Federal. Nestes temos, conheço do recurso e lhe dou provimento para restabelecer a sentença de primeiro grau. EXTRATO DA ATA RE 93.679-B4 — Rel.: Min. Cunha Peixoto. Recte.: Instituto Nacional da Propriedade Industrial — INPI. (Advs.: Luiz Carlos Pujol e outros). Decisão: Pediu vista o Ministro Firmino Paz, após o voto do Relator conhecendo do recurso e dando-lhe provimento. Presidência do Senhor Ministro Xavier de Albuquerque. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira Alves, Cunha Peixoto, Soares Mufioz, Décio Miranda, Rafael Mayer, Firmino Paz, Clóvis Ramalhete e Néri da Silveira. Procurador-Geral da República, Dr. Inocêncio Mártires Coelho. Brasília, 19 de novembro de 1981 — Jonas Cello Monteiro Coelho, Secretário. VOTO (VISTA) O Sr. Ministro Firmino Paz: Decidiu-se, no venerando acórdão recorrido extraordinariamente, do Egrégio Tribunal Federal de Recursos, em abreviado, que consta da respectiva ementa, o seguinte, verbis: «Invenção de processo para fabricação de medicamento. Depositado ao tempo da lei que permitia o seu deferimento, lei posterior não podia interferir para determinar o indeferimento» (Ementa, fl. 137. Grifei). Ai, precisamente, a tese objeto do recurso extraordinário. 2.0 facto de inventar, sendo facto jurídico, gera, para o inventor, o poder jurídico de requerer a respectiva patente de invenção. Requerida a patenteação, vale dizer, exercido o poder jurídico de requerer, exercício que é facto jurídico, nasce, então, ao requerente, inventor, o direito subjetivo a que o Estado, devedor, presta ao inventor, requerente, acto, positivo ou negativo, de exame prévio. Verificará se o invento é novo e útil. Esse direito subjectivo ao acto de prévio exame, nascido com o requerimento de patenteação, não pode, realmente, ser, na expressão constitucional, prejudicado por lel nova. 2 direito adquirido, protegivel por ação de mandado de segurança. Na espécie sob julgamento, a autoridade administrativa, sem mais, não prestou o acto devido de R.T.J. — 109 exame prévio. Nada disse sobre novidade e utilidade do invento. Declarou-o imprivllegiável, sem prestar o acto devido, tem de prestá-lo, antes do mais. A ele tem direito a recorrida, A respeito da aplicação da lei nova ao caso (Lei n? 5.772, de 21 de dezembro de 1971), por força do seu artigo 117, convém que, previamente, se estude a natureza jurídica da decisão administrativa final, no processo de patenteação de invento industrial. Se desfavorável ou f avorãvel. Sobre o assunto, expediu Pontes de Miranda, o magistério seguinte, verbis: «A decisão desfavorável é sempre declaratória. quanto à decisão favorável, é declarativa do direito formativo gerador e constitutiva da realidade do direito de propriedade industrial (Tratado de Direito Privado, XVI, 326, 1.933, n? 1, ed. 1956. Grifei ). Vê-se, portanto, de fácil, que a aquisição do direito de propriedade do invento, quanto do direito ao acto declarativo de privilégio de utilização exsurge da decisão final, positiva, da autoridade administrativa. Não basta a previsão legal da possível prática do acto administrativo final, que pretende a empresa recorrida. No caso, essa decisão final não ocorreu. Negou-se, arbitrariamente, até, à recorrida o acto de exame prévio do invento. Ante o exposto, fácil é concluir ser aplicável á espécie a lel nova, sem ofensa qualquer a direito adquirido á patenteação do invento. Esse direio adquirido não nasceu, á mingua da decisão final, facto jurídico, que lhe é causal. Não há falar-se, outrossim, em expectativa de direito, existente e 191 decorrente do depósito do pedido de patente (Parecer, fls. 119; Voto, fls. 130). Expectativa de direito é facto psicológico. esperança de adquirir direito subjectivo. Não tem sentido colocar-se a chamada expectativa de direito no rol de efeitos jurídicos. erro, e crasso. Não é ela efeito jurídico de coisíssima nenhuma. facto do mundo fáctico. Facto psicológico. Nada mais. Argüiu-se, realmente, na petição inicial, a inconstitucionalidade do artigo 9?, c, da Lei n? 5.772, de 21 de dezembro de 1971. O venerando acórdão, todavia, a respeito, fora omisso. E não houve embargo de declaração, para se prequestionar a matéria. Não me é possivel, portanto, julgar o que, no acórdão, não está posto. Estou em que, declarando inaplicável á hipótese o que se dispõe na Lei n? 5.772, de 1971, o venerando acórdão recorrido negou vigência ao previsto no artigo 117 desse diploma legal, em que se diz, verbis: «O disposto neste Código se aplica a todos os pedidos em andamento, inclusive os de prorrogação e recurso.» Negou-se, no acórdão recorrido, incidência dessa disposição legal. 9. Diante do exposto, conheço do recurso e lhe dou provimento, para declarar aplicável ao caso o previsto na Lei n? 5.772, de 21 de dezembro de 1971. Assim, voto. VOTO (PRELIMINAR) O Sr. Ministro Clovis RaMalhete — Quando na Turma teve início o julgamento deste processo, tive oportunidade, com homenagens ao eminente Ministro Cunha Peixoto, de dele dissentir, a propósito da parcial inconstitucionalidade do art. 9?, letra 192 R.T.J. - 109 do código de Propriedade Industrial, que declara não serem privilegiáveis «as substâncias, matérias, misturas ou produtos alimentícios, químico-farmacêuticos e medicamentos, de qualquer espécie». Até ai, sim, o texto é constitucional, pois que não são passíveis de privilégio substâncias e matérias encontrados na natureza Ninguém pode obter privilégio, outorgado pelo Estado, sobre hidrogênio ou cobalto, matérias da natureza. Mas a parte final da norma retira privilégio do que é «invento,», criação do espírito, quando diz: «bem como os respectivos processos de obtenção ou modificação». Ora, o processo de obtenção de matéria parece-me puramente criação do homem. E a atividade industrial, passível de privilégio, nos termos da Constituição, que assegura ao inventor e remete ao legislador fixar o prazo do privilégio da invenção. Mas, já que esta matéria, conforme adverte o eminente Ministro Firmino Paz, não foi prequéstionada no acórdão, indago-me se agora, — no Plenário, de repetir as fundamentações que omiti naquela ocasião, na V Turma, quando ali entendi inconstitucional esta parte do item c do art. 9?, isto é, na parte em que declara não serem privilegiáveis também «os respectivos processos de obtenção». Esta parte me parece inconstitucional e inclusive, contrária a interesses nacionais. Não havendo privilégio à invenção, não há estimulo à indústria farmacêutica brasileira, para pesquisas. Além de ser frontalmente inconstitucional, vejo que a norma tem efeitos anti-sociais, na economia brasileira. Quanto ao fato de assim também não privilegiar, os inventos estrangeiros, a circunstância não conta porque o nosso atual desenvolvimento tecnológico não instrumenta as indústrias brasileiras para devassar esses segredos c, medicamentosos não privilegiados no Brasil. A norma somente deixa de produzir o estimulo à pesquisa, pelos laboratórios brasileiros. O Sr. Ministro Xavier de Albuquerque (Presidente): Talvez o voto de V.Exa. suscite uma ponderação. O recurso é do Instituto, que saiu vencido no Tribunal Federal de Recursos. A segurança foi concedida ao requerente da patente. O fundamento da concessão foi o de que o indeferimento do pedido, feito oportunamente, antes da lei que estabeleceu a imprivilegiabilidade, agrediu o direito adquirido do requerente. Recorreu o Instituto, dizendo que, ao julgar pela concessão do mandado de segurança, o Tribunal Federal de Recursos teria negado vigência aos arts. 9? e 117 do código da Propriedade Industrial vigente,, o primeiro, que torna imprivilegiável o processo que V.Exa. acaba de mencionar, e o segundo, que torna aplicáveis aos processos pendentes as suas disposições. Este é o fundamento do recurso extraordinário. O eminente Relator considerou que não havia direito adquirido e que a norma do art. 9? não era inconstitucional. O Senhor Ministro Firmino Paz abstrai a questão da inconstitucionalidade e, examinando apenas o fundamento básico do acórdão recorrido, — reconhece que não houve direito adquirido maltratado. Portanto, conhece e dá provimento ao recurso para cassar a segurança. Mas, se V.Exa. considera que o art. 9? da lei é inconstitucional, pode, a meu ver, apreciar a inconstitucionalidade, porque ela está inserida na fundamentação do seu voto. V.Exa. pode deixar de aplicar a lei invocada pela parte, porque a considera inconstitucional. Ai, é irrelevante a falta de prequestionamento. De outro modo, V.Exa. ficará jungido a aplicar uma lei que tem como inconstitucional, R.T.J. — 109 apenas porque o acórdão recorrido entendeu desnecessário apreciar a inconstitucionalidade. A inconstitucionalidade do preceito, invocada pela parte, pode ser suscitada por qualquer Ministro do Supremo Tribunal, no curso da votação. art. 9? é a base do indeferimento, e o art. 117 é o que torna aplicável o art. 9?. Sr. Ministro Clovis Ramalhete: artigo 117 do Código da Propriedade Industrial estabelece a eficácia imediata da lei, alcança os pedidos de privilégio ainda em processamento. Sr. Ministro Xavier de Albuquerque (Presidente): Faço esta ponderação, porque me parece que a falta de prequestionamento não impede V.Exa. de apreciar a questão constitucional. Sr. Ministro Clovis Ramalhete: Senhor Presidente, passo a fundamentar o meu entendimento, quanto inconstitucionalidade, para não conhecer do recurso. Sr. Ministro Moreira Alves -V.Exa. me permite só uma ponderação? Temos que examinar isso, quando do conhecimento do recurso pela letra a do inciso III do art. 119 da Constituição Federal, pois pela técnica seguida pelo Tribunal, 1-.) co-. nhecimento pela referida letra a implica, ipso facto, o provimento do recurso. Sr. Ministro Xavier de Albuquerque (Presidente): A meu ver, o voto do Ministro Clovis Ramalhete, que reconhece a inconstitucionalidade, conclui pelo não conhecimento, porque S.Exa. acaba por entender que a não aplicação do art. 9? foi correta. Sr. Ministro Clovis Ramalhete: ato de a autoridade não ter deferido o privilégio, fundado no artigo 9?, letra c, não pode ter eficácia, à vis- 193 ta, a meu entender, da inconstitucionalidade parcial deste item c do art. 9?. Há até mesmo uma contradição no Código da Propriedade Industrial, que me parece caprichosa. Enquanto não melhor explicado, pouco entendo a diferença do Código entre o disposto no item b e o item c, do mesmo artigo. Pelo item b, não são privilegiáveis as substâncias, matérias, produtos por meio de processo químicos. Mas ai a norma ressalva a privilegiabilidade dos processos de obtenção. As matérias e substâncis obtidas por processos químicos, não são privilegiáveis, nem são elas de serem privilegiadas. Mas o processo de sua obtenção , o item b, o declara privilegiável. Nesse passo entendo que o item b, do árt. 9? está ajustado ã Constituição, que garante, no 24, a privilegiabilidade dos inventos por prazo certo. E assim entendo porque há invenção no processo de obtenção da matéria. Ainda quanto ao item b, — onde está o invento? O invento não está na substância, nem na matéria, que pertencem à natureza. No item b, o invento está no processo de obtenção, e a norma reconhece sua privileglabilidade, a dos processos de oblenção,ou modificação; que &criação da mente humana. item b, que é integralmente constitucional, entretanto não é repetido pelo item c, quando este trata de produtos alimentícios e químicofarmacêuticos. produto químico, puramente produto químico, pode ter o seu processo de obtenção privilegiado, diz o item b do art. 9? Entretanto, dispõe o item c que não são privilegiáveis, — «substâncias, matérias, misturas ou pratos alimentícios, químico-farmacêuticos e medica- 194 R.T.J. — 109 mentos, de qualquer espécie, bem como os respectivos processos de obtenção ou modificação.» Nos processos de obtenção ou modificação destas matérias ou substâncias há uma criação do espirito humano, encontra-se um invento. O invento não está na substãncia, nem na matéria, que é produto da natureza, não é passível, portanto, de privilegiamento. A invenção está no modo de obter a matéria, é criação intelectual do cientista. Ora, este processo de obtenção, que não é priviliegiável pelo item c, no entanto é privilegiável pelo item b, mas deveria estar na lei, como sendo também privilegiável, pois que processo é invento. Toda a leitura do art. 9? em seus itens apoia o esboço de doutrina, que desenvolvo no meu voto. Veja-se. Não é possível constituir-se em marca de comércio ou de indústria, aquele vocábulo que, no idioma, defina a substância produzida ou comerciada. Não é registrável a marca de aguardente que consista na palavra «cachaça». Se está no léxico, é propriedade comum do povo; e não é criação da mente do industrial ou do comerciante para distinguir, de outros, o seu produto. Mas uma expressão de fantasia pode denominá-la. Tudo o que se encontra em estado natural, que não provém de criação do espirito humano, a todos pertence, não é passível de privilegiamento. Mas tal não é o processo de obtenção, seja da substãncia química (alínea b), seja de um medicamento (alínea c). O processo é criação intelectual do cientista, é uma contribuição do cientista, não existe em estado natural antes que o cientista tenha concebido. Por esse motivo, parece-me que processo de obtenção contém uma invenção. Trata-se de uma invenção, se é uma criação artificiosa da men- te humana. A lei já a encontra protegida pela Constituição. E a Constituição atribui ao legislador o poder apenas de fixar prazo de privilegiamento. Não pode ele discriminar a invenção que protege e outra que deixa exposta ao uso comum. Não é preciso alongar-me nesse sentido. A Constituição, no art. 153, 24, assegura o direito dos inventores, o privilégio da sua exploração. A lei, a Constituição deixou só o poder de fixar o prazo do privilegiamento. Entendo que, por conseqüência, que estritamente na parte do art. 9?, item c, nega privilégio ao processo de obtenção, esta norma é inconstitucional. Onde está, juridicamente, a diferença entre o b e o c, senão num propósito do legislador, de discriminar, onde não o podia fazer? Como dizia, é possível que tenha ocorrido ao legislador, após o desembarque neste Pais, das grandes empresas multinacionais de produtos farmacêuticos, o propósito de retirar a privilegiabilidade dos seus medicamentos para abertura de oportunidade aos laboratórios nacionais. Entretanto, errou. Primeiro, contrariou a Constituição. Segundo, não estimulou os laboratórios nacionais à pesquisa de produtos próprios. Terceiro, não alcançou o seu fim, pois os laboratórios nacionais não estão fabricando aqueles inacessíveis segredos da indústria farmacêutica internacional, sofisticados e avançados. Pelo contrário, abriu-se o flanco dos laboratórios nacionais para esses outros, mais poderosos. E, de certa forma até anti-social, e nociva à economia brasileira, a manutenção do item c do art. 9?. Dilatei um pouco o meu voto, na apreciação dos efeitos sociais da norma. Mas a partir da confrontação, da norma da lei com a Constituição, concluo pela inconstitucionalidade parcial do item c, quando não deixa R.T.J. — privilegiar processo de obtenção de produto farmacêutico, que é um invento. Entendo, por estas razões, a inconstitucionalidade parcial do item e, do art. 9?. Concluir o meu voto, no sentido de que não é de se aplicar o art. 117, ao processo em curso, porque esse art. 117 foi aplicado ao processo em curso, para declarar, liminarmente, a não privilegiabilidade do produto farmacêutico requerido. Ora, esse produto farmacêutico requerido estava privilegiado anteriormente. O requerimento, se não me engano, é de prorrogação de prazo. O art. 117 autoriza, seja a prorrogação do prazo do privilégio, seja a concessão inicial de privilégio. O processo, já começado foi alcançado pela lei nova. O art. 117 é fundamento exclusivo, de eficácia imediata, da lel nova. O fundamento de mérito, no entanto, está no art. 9?, alínea c, quando entendeu não privilegiável o processo de fabricação de produto farmacêutico. Como, no entanto, entendo eu que processo é invento, o processo é portanto para ser privilegiado, porque é invento. Concluo pelo não conhecimento do recurso, dada a inconstitucionalidade parcial dessa provisão da lei. E o voto. 109 195 A fundamentação de S. Exa. me satisfaz inteiramente. O § 24 do art. 153 da Constituição não contém reserva alguma: assegura aos autores dos inventos industriais privilégio temporário para sua utilização. Argumento de ordem prática quanto à conveniência de se permitir exceção quanto a produtos farmacêuticos , além de não contemplado na norma constitucional, ofereceria dificuldade de aplicação precisa, desde que o inventor sempre poderá defender-se alegando que inventou um processo novo de obtenção de produto químico, que só por acaso tem utilidade farmacêutica. Há exemplos numerosos de produto que é, ao mesmo tempo, para uso generalizado industrial e para uso especializado, farmacêutico. E o exemplo histórico mais evidente é a nitroglicerina, produto básico de fabricação da dinamite, mas também utilizado pela medicina, na cardiologia. Como distinguir, em relação ao processo que o inventor diz haver descoberto para produção de nitroglicerina destinada à produção de dinamite, o aproveitamento desse mesmo processo para obter um produto químico-farmacêutico? Na prática, o preceito, se levado a rigor, encontrará perplexidades na sua aplicação. Além de tudo, e como salientou o eminente Ministro Clovis VOTO SOBRE QUESTÃO Ramalhete, longe de ser um detriCONSTITUCIONAL mento aos consumidores, aos necessitados dos produtos farmacêuticos, O Sr. Ministro Dedo Miranda: Sr. a privilegiabilidade é estimulo às Presidente, peço vênia aos eminen- descobertas, favorecendo progressos tes colegas, que se acham em dis- no tratamento das doenças. Esse resenção, antecipada ou a posteriori, verso da medalha não pode deixar com o voto do eminente Ministro de ser ponderado, se não bastasse a Clovis Ramalhete, para acompanhar explicitude do texto constitucional, a este, que reconhece a inconstitu- que, sem estabelecer exceções, decionalidade do art. 9?, que exclui da termina que a lei ordinária assegure privilegiabilidade os processos para aos autores de inventos industriais a obtenção de produtos qui mico- privilégio temporário para sua utilifarmacêuticos. zação. 196 Acompanho o voto do eminente Ministro Clovis Ramalhete. Não conheço do recurso. VOTO O Sr. Ministro Moreira Alves: Sr. Presidente, em relação à questão referente ao direito adquirido, a 2? Turma, em acórdão de que fui Relator, ao julgar o RE 94.386, em 11-981, examinou caso análogo a este. A ementa do acórdão a que acabei de referir-me declara o seguinte: «Termo inicial dos prazos previstos no art. 24 do Código da Propriedade Industrial, Lei n? 5.772, de 2112-71. Falta de prequestionamento. Súmulas 282 e 356, questão de inconstitucionalidade, com base no art. 153, § 24, da Constituição Fede. ral não viola o. principio constitucional do princípio do direito adquirido, decisão que manda contar esses prazos a partir da data em que entrou em vigor a referida Lei n? 5.772. Dissídio de jurisprudência não demonstrado.» Não há direito adquirido, no meu entender, neste caso. A lei nova aplica-se de imediato, e, conseqüentemente, com base nela pode ser indeferido requerimento que tenha dado inginsso antes dela.. O eminente Ministro Clóvis Ramalhete, no entanto, ao examinar a aplicação dos artigos 9? e 117 da Lei n? 5.772/71, trata da questão da inconstitucionalidade, não do art. 117, mas do art. 9?, com base na circunstância de que o § 24 do art. 153 da Constituição Federal declara que a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégios temporários para sua utilização, bem como a propriedade das marcas de indústria e comércio e exclusividade do nome comercial. S. Exa., acompanhado ,nesse particular, pelo eminente Ministro De- — 109 cio Miranda dá a esse texto valor absoluto. Considera que, ao dizer a Constituição que a lei assegurará privilégio temporário para sua utilização, com isso estaria impedindo que a lei ordinária considerasse, em certos casos, que o invento não seria susceptível de privilégio. Pelo entendimento do eminente Ministro Clóvis Ramalhete, esse dispositivo seria de natureza absoluta , não podendo a lei ordinária deixar de assegurar a nenhum invento privilégio temporário. Data venta, não interpreto o dispositivo constitucional desse modo. Entendo que a Constituição, ao declarar que a «lei assegurará», estabeleceu norma geral, que não é, porém, insusceptível de exceções, quando interesses relevantes as imponham, como os relativos á saúde. Sr. Ministro Decio Miranda: Nesse caso, pode haver a desapropriação, por preço justo. Sr. Ministro Moreira Alves: se desapropriasse, passaria o privilégio para o Estado, e não para o domínio público. Em face do exposto, e com a devida vênia dos eminentes Ministros Clovis Ramalhete e Decio Miranda, acompanho o eminente Relator. • VOTO SOBRE QUESTÃO CONSTITUCIONAL Sr. Ministro Flrmino Paz: Sr. Presidente, recusei-me a votar sobre a inconstitucionalidade à base de que não constava do acórdão prequestionamento nenhum. Como, porém, os meus Colegas a estão focalizando, peço licença a V.Exa. para proferir meu voto em relação a essa parte. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr. Presidente. Mantenho o voto ante- R.T.J. — 109 rior, no sentido de conhecer do recurso e lhe dar provimento, tendo em conta, como destaca o Ilustre Ministro Pirmino Paz, que a questão constitucional não foi discutida no acórdão recorrido. E certo que o eminente Ministro Clovis Ramalhete não conhece do recurso, por entender que procede o fundamento invocado pelo recorrente, qual seja, a inconstitucionalidade da alínea c, do art. 9?, da Lei n? 5.772, na sua parte final. Em não aplicando esse dispositivo, defere S. Exa. a segurança, para reconhecer o direito à patenteabllidade dos processos de obtenção e modificação de produtos químicofarmacêuticos e medicamentos. Foi o que entendi do voto de S. Exa. Parece-me que S. Exa., em assim votando, não propõe ao Tribunal uma questão de constitucionalidade, constituindo tal, apenas fundamento do voto com base no qual não conhece do recurso do INPI. A matéria ao que compreendi está equacionada, nesses limites. 2. Devendo entretanto, pronunciar-me a propósito da constitucionalidade do art. 9?, letra c, parte final, da Lei n? 5.772, recuso sua inconstitucionalidade. Faço-o, acolhendo os fundamentos do voto do eminente Ministro Moreira Alves. Em realidade, a norma do § 24, do art. 153, da Constituição, ao estabelecer que a lei assegurará, aos autores de inventos industriais, privilégios temporários para sua utilização, não garante; evidentemente, a patenteabilidade, a privllegiabllidade de qualquer invento. A Constituição deferiu ao legislador ordinário disciplinar a matéria. Certo está que os limites da legislação ordinária hão de ser verificados em face da Constituição, tendo em conta o espírito da norma constitucional assecuratória aos autores do privilégio temporário, quanto a seu invento. O legislador, a propósito da propriedade industrial, nos Códigos diversos, tem adotado 197 sempre a mesma técnica de definir o que não é privilegiável. O que tem variado, ao longo do tempo, nos Códigos que já estiveram em vigor no País sobre a propriedade industrial, é apenas o rol do que não é patenteável. No caso da Lei n? 5.772, de 1971, no seu art. 9?, o legislador definiu o que não é objeto de privilégio, segundo técnica que se pode depreender da leitura da lei. O art. 9? estabelece, em sua alínea a, norma de índole geral: não são privilegiáveis as invenções de finalidade contrária às leis, á moral, à saúde, à segurança pública, aos cultos religiosos, aos sentimentos dignos de respeito e veneração. E regra de caráter amplo, que o legislador adotou. Ninguém haveria de lembrar o § 24, do art. 153, da Constituição, para afirmar que se deveria garantir privilégio temporário ao inventor de qualquer método ou processo que pudesse comprometer, por exemplo, a saúde. Reveste-se, à sua vez, de índole marcadamente subjetiva o juizo, ad exemplum, quanto á vedação de privilégio a invento que atente contra a moral. Não estão definidos, é certo, quais os valores morais a serem preservados, nem a legislação ordinária, no caso, deles cuida. Então, indago, por que não pode o legislador definir, também, como tem feito em Códigos anteriores, o que não é patenteável, seguindo critérios técnicos? O legislador de 1971 estabeleceu, na alínea b, do art. 9?, predito, verbis: «Art. 9? Não são privilegiáveis: a) As substâncias, matérias ou produtos obtidos por meios ou processos químicos, ressalvando-se, porém, a privilegiabilidade dos respectivos processos de obtenção ou modificação.» A sua vez, o art. 9?, na alínea c, veda a privilegiabilidade de 198 R.T.J. — 109 Substâncias, matérias, misturas ou produtos alimentícios, químicofarmacêuticos e medicamentos, de qualquer espécie, bem como os respectivos processos de obtenção ou modificação. » igual, dos processos e técnicas de sua obtenção, consoante, de explicito, ai, se prevê. Na alínea b, no que diz com substâncias, matérias ou produtos obtidos por meios ou processos quinacos, a lei ressalvou a privilegiabiliNa hipótese da alínea c referida, dade dos processos de obtenção e por igual, o legislador, na conformi- modificação. Respeitantemente, podade da faculdade que lhe assegurou rém, à letra c, o legislador interditou a privilegiabilidade também dos proa norma constitucional, definiu outro campo interditado à privilegiabilida- cessos de obtenção ou modificação, de. Tudo aquilo que concerne a subs- seguindo critérios objetivos que potâncias, matérias, misturas e produ- dia utilizar, na disciplina da matétos alimentícios, produtos químico- ria, conforme a previsão constituciofarmacêuticos e medicamentos. Este nal. item c concerne, imediatamente, à Dessa sorte, havendo a Constituipreocupação do legislador com a ção reservado à legislação ordinária preservação da saúde. dispor sobre a espécie, não andou o legislador com afronta ao espírito da O eminente Ministro Clovis Rama- Constituição, em estabelecendo, lhete entende que é constitucional a quanto a alimentos, produtos primeira parte do dispositivo. Sus- químico-farmacêuticos e medicatenta, todavia, a inconstitucionalida- mentos, a vedação à privilegiabilidade da parte final. Mas, ai, penso que de, como acima aludida. S. Exa., com a devida vênia, não 3. Assim sendo, rejeito a inconstitem razão, porque se se entende que tucionalidade do dispositivo, mantena primeira parte é constitucional, do o voto proferido, sentido de coacolhe-se o intuito do legislador de nhecer do recurso no e lhe dar proviexcluir do campo do privilégio tem- mento. porário todas aquelas substâncias, matérias, misturas referentes a proVOTO SOBRE QUESTÃO dutos alimentícios, químico-farCONSTITUCIONAL macêuticos e medicamentos. No caso concreto, trata-se de produtos Sr. Ministro Rafael Mayer: Sr. quimico-f armacêuticos e medicamentos. A impetrante defende o seu Presidente, ao votar de acordo com direito à patenteabilidade da modifi- o eminente Relator que, se bem me cação do processo respectivo de ob- recordo, se manifestou sobre este tenção. Se o legislador definiu, como ponto, entendendo, igualmente, que fez, com apoio na Constituição, que as matérias versadas são conexas, as substâncias, matérias, misturas e dou pela constitucionalidade do disprodutos alimentícios, químico- positivo. farmacêuticos e medicamentos, de VOTO SOBRE QUESTÃO qualquer espécie, estão excluídos da CONSTITUCIONAL privilegiabilidade, não cabe destacar esta segunda parte do dispositivo e examiná-la, independentemente. Se Sr. Ministro Cordeiro Guerra: legislador, efetivamente, quis Sr. Presidente, a Constituição da Reexclui-los do campo da patenteabili- pública, a Lei Magna, é sempre, por dade, essa norma há de sua própria natureza, altamente compreender-se abrangente, por complexa. Tem normas que afir- R.T.J. — 109 mam até uma concepção política e ideológica de vida. Por exemplo: nos preâmbulos em que o Congresso Nacional invoca a proteção de Deus e promulga a Constituição. Outras normas afirmam que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Evidente que são normas que inspiram o sistema, mas não têm a eficácia prática. E há outras normas que São categóricas, positivas, cogentes de imediato. Umas são normas de eficácia plena ou fixas de eficácia contida. São normas de eficácia imediata ou que exigem a complementação de uma lei para tomá-las atuantes. Quando o constituinte quer estabelecer um direito fundamental, inalienável e incontornável, ele dá um comando Imperativo, absoluto, não dependente de lel. Ele diz assim, no art. 153, 22 da Constituição: «E assegurado o direito de propriedade, salvo o caso de desapropriação por necessidade ou utilidade pública ou por interesse social, mediante prévia e justa indenização em dinheiro...» Sempre que se pretende violar o direito de propriedade, salvo os casos em que a Constituição prevê, nem as leis podem alterar isso. Há outros casos, porém, como, por exemplo, o do 23: «E livre o exercício de qualquer trabalho, oficio ou profissão, observadas as condições de capacidade que a lel estabelecer». Ora, se se fosse interpretar textualmente, qualquer trabalho, ofício ou profissão seria assegurado pela Constituição. Claro que não. Está implícito: «qualquer trabalho, ofício ou profissão» lícitos. Assim, no g 24, quando a Constituição diz que «A lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como a propriedade das marcas de indústria e comércio e a exclusividade do 199 nome comercial», pressupõe uma regulamentação, uma disciplina. Não diz que é assegurado o direito de privilégio temporário para sua utilização, como se diz na propriedade. Deu-se liberdade ao legislador de regulamentar o direito à utilização dos privilégios temporários. Isto é feito em todo o mundo. A legislação, inclusive, acompanha a evolução industrial, as invenções técnicas e, conforme os interesses da evolução científica, ela privilegia, ou não, os processos. No caso, por exemplo, o legislador entendeu de assegurar aos autores de inventos industriais privilégios temporários para sua utilização, mas entendeu também que determinados privilégios não podiam ser concedidos, a saber, os privilégios imorais, ilícitos. Está na própria lei. A Constituição não diz que são assegurados para todos os inventos. Ela diz que «A lei assegurará aos autores de inventos «na forma em que o legislador, que é o representante da soberania popular, entender conveniente ao bem comum. De modo que, não sendo uma lei de eficácia imediata, mas de eficácia contida, o poder regulamentar do legislador (aquele que os americanos chamam the power or the Congress e Nelson Hungria dizia, com muita graça, «o poder diabólico da lei») diz que isso não pode. Então, argumenta-se muito se isso é conveniente, ou não, aos interesses nacionais. Nossos laboratórios, antigamente, faziam lisados, elixires, xaropes antigripais ... Tinham grande sucesso, mas, com a descoberta dos antibióticos, toda a indústria farmacêutica desapareceu. Quando eu era menino, tomava Agua Inglesa Granado ou Silva Araújo, que era vinho-do-porto com ferro e outros elementos. Hoje, com a descoberta das vitaminas, ninguém mais toma Agua Inglesa e o laboratório passou a operar com uma tecnologia superior. 200 R.T.J. — 109 De modo que não é com privilégio que se desenvolve um pais. E com o aprimoramento da ciência, da cultura, da educação. Parece-me que, num pais em desenvolvimento, que importa cultura, know-how, só excepcionalmente, privilégio para processo de fabricação industrial ou de medicamentos pode favorecer o interesse nacional. Acho bom deixar isso claro, embora não tenha nada a ver com a norma de eficácia contida, que é o fundamento do meu voto. A União Soviética, por exemplo, salvo caso excepcional, não reconhece patente. E, quando assim, tergiversa ... Não estou elogiando a interpretação do § 24, do art. 153, da Constituição Federal, mas, na realidade, não vejo por que sair em defesa de privilégio de tecnologia para cuja criação ainda não atingimos suficiente estágio cultural. Assim, dou pela constitucionalidade da lei. texto constitucional. Não vejo a manifesta afronta à lei maior e, em conseqüência, dou pela constitucionalidade do preceito impugnado. VOTO O Sr. Ministro Xavier de Albuquerque (Presidente). Peço licença aos eminentes Ministros Clóvis Ramalhete, Decio Miranda e Firmino Paz para aderir aos votos, cujos fundamentos acolho, dos Colegas que rejeitam a argüição de inconstitucionalidade do dispositivo legal em causa. Quanto ao direito adquirido, estamos todos de acordo que não se configura na espécie. Tal como a maioria, conheço do recurso e lhe dou provimento. EXTRATO DA ATA RE 93.679 —RJ — Rel.: Min. Cunha Peixoto. Recte.: Instituto Nacional da Propriedade Industrial — INO Sr. Ministro Djaci Falcão: Sr. PI. (Advs.: Luiz Carlos Pujol e ouPresidente, acompanho o eminente tros). Recda.: Pfizer INC. ( Advs.: Relator e os votos que o seguiram. João Rodrigues Leal e outro). No caso, não há direito adquirido. Decisão: Conheceu-se do recurso e A lei nova tem aplicação imediata, deu-se-lhe provimento, vencidos os consoante decidiu a 2? Turma, no Ministros Clovis Ramalhete, Decio RE n? 94.386. Miranda e Firmino Paz. Votou o Presidente. Quanto ao art. 9?, letra c, da Lei n? 5.772/71, não me parece ocorrer a arPresidência do Senhor Ministro güida inconstitucionalidade. O pará- Xavier de Albuquerque. Presentes à grafo 24, do art. 153 não apresenta Sessão os Senhores Ministros Djaci caráter absoluto, a abranger toda e Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira qualquer invenção de processo de fa- Alves, Soares Minioz, Decio Miranbricação de medicamento. Não se da, Rafael Mayer, Firmino Paz, CIOpode perder de vista os interesses vis Ramalhete e Néri da Silveira. maiores, como o interesse da saúde, Procurador-Geral da República, Dr. etc. Inocêncio Mártires Coelho. O preceito da lei ordinária, a meu Brasília, 1? de fevereiro de 1982 — ver, pelo seu alcance, demonstra a Jonas Célio Monteiro Coelho, Secreinexistência da alegada afronta ao tário. VOTO • R.T.J. — 109 201 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 93.745 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social — IAPAS, representante do Instituto Nacional de Previdência Social — INPS — Recorridos: Nair Garcia Parada e outros. Imóveis de Brasília. Corra monetária. Decreto-lei n? 19/66 e Lel n? 5.049/66. Não há o que reformar no acórdão recorrido, se decidiu ele na conformidade da acertada jurisprudência do Tribunal Federal de Recursos, consubstanciada no enunciado da sua Súmula nt 68, verbis: «A correção monetária não incide nas aquisições de unidades residenciais do INPS, quando a opção de compra tiver sido anterior á vigência do Decreto-lei n? 19, de 1966, sendo &relevantes, em face da Lei n? 5.049, de 1966, o valor ou a área do imóvel,. Recurso extraordinário não conhecido. ACÓRDÃO correção monetária sobre as parcelas mensais de amortização e Vistos, relatados e discutidos estes saldo devedor respectivo dos imóautos, acordam os Ministros do Su- veis de que são promitentes compremo Tribunal Federal, por sua Se- pradores, por contratos de promesgunda Turma, na conformidade da sa de compra e venda celebrados ata do julgamento e das notas taqui- com a autarquia. gráficas, por unanimidade de votos, Na hipótese trata-se de apartanão conhecer do recurso. mentos com área inferior a 100 Brasília, 4 de outubro de 1983 — m2 e valor abaixo de 200 salários Djaci Falcão, Presidente — Aldir mínimos da época, sustentando o Passarinho, Relator. INPS ser legítima a estipulação da correção monetária, ex vi do art. RELATÓRIO 6?, letras a e b, da Lei n? 4.380, de 1964. O Sr. Ministro Aldir Passarinho A Sentença que concedeu a Segu(Relator): O despacho do então Prerança e anulou os contratos de pros idente do Tribunal Federal de Remessa de compra e venda, ordecursos, o ilustre Ministro Jarbas No- nando que outros fossem assinados bre, que admitiu o apelo derradeiro, aos preços da reavallação e sem eu o leio, como relatório, por bem cláusula da correção monetária, espelhar a controvérsia ora submetifoi reformada parcialmente por da ao crivo deste Tribunal (fls. Turma julgadora deste Tribunal, 210/212). para declarar, tão-somente, a null«Nair Garcia Parada e outros dade da cláusula de inserção da impetraram Mandado de Seguran- correção monetária nos contratos ça visando garantir a aplicação do de que se trata, em acórdão emenart. 30, § 3?, da Lei n? 4.864, de 29- tado nestes termos: 11-65, ás operações imobiliárias «Imóveis Residenciais. realizadas entre os impetrantes e o Instituto Nacional de Previdência Promessa de compra e venda. Social, isto é, sem a incidência da Correção monetária incabivel, 202 R.T.J. — 109 nas opções manifestadas no prazo da Lei n? 5.049/66, e antes da vigência do Decreto-lei n? 19/66». Inconformado, recorre extraordinariamente o Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social, sucessor legal do INPS, com apoio nas letras a e d da norma constitucional autorizadora, assinalando que o aresto recorrido negou vigência ao art. 6?, alíneas a e b, da Lei n? 4.380, de 1964, bem como dissentiu do Julgado do Colendo Supremo Tribunal Federal no RE n? 75.018-DF, cuja ementa transcreveu, indicando o repositório em que foi publicado (DJ de 15-3-74, pág. 1385). O aresto impugnado afirmou que a isenção da correção monetária beneficia a todos os ocupantes legítimos de unidades residenciais alienáveis, com preço de custo reavaliado, independente de área e valor, que fizeram opção ou promessa no prazo legal. No RE n? 75.018-DF invocado na Sentença e agora indicado, o Alto Pretório efetivamente admitiu que os contratos de alienação de imóveis dos antigos IAPs cujos ocupantes optaram pela aquisição até a publicação da Lei n? 5.049, de 206-66, podiam consignar cláusula de correção monetária, se atendidas as exigências do art. 6?, alíneas a e b, da Lei n? 4.380, de 1964. Com efeito na ementa do acórdão a matéria está bem elucidada: «INPS — correção monetária na alienação de imóveis pelo Instituto. Leis n?s 4.380, 4.864 e 5.049 e Decreto-lei n? 19. Os Institutos de Aposentadoria e pensões não eram órgãos componentes do Sistema Financeiro de Habitação. Os contratos de alienação de Imóveis cujos ocupantes optaram pela aquisição até a publicação da Lel n? 5.049, de 29-6-66, somente podiam consignar cláusula de correção monetária se atendidas as exigências do art. 6?, a e b, da Lei n? 4.380, de 2 de agosto de 1964. Os contratos referentes a imóveis cujos ocupantes optaram pela aquisição a partir da vigência da Lei n? 5.049 até a vigência do Decreto-lei n? 19, de 3018-66, estão isentos de correção monetária, nos termos do parágrafo 3?, art. 30, da referida lei.» Do exposto, tenho como configurada a divergência entre o que decidiu o acórdão recorrido e a orientação adotada pelo Supremo Tribunal Federal no que concerne á admissibilidade da estipulação da correção monetária do preço nos contratos de promessa de compra e venda de imóveis com área inferior a 100 m' e valor abaixo de 200 salários mínimos, tal como na hipótese sucede. Dou seguimento ao recurso pelo invocado apoio na letra d, o que oferece ensejo ao seu processamento. também, pelo fundamento da letra a (Súmula n? 292).» Subindo os autos, após oferecimento das razões do recorrente e contrarazões dos recorridos, velo a manifestar-se a douta ProcuradoriaGeral da República pelo conhecimento e provimento do recurso. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Aidir Passarinho (Relator): Dois fatos devem inicialmente ser destacados no pórtico deste voto: o primeiro, o de terem sido as opções manifestadas pelos impetrantes e ora recorridos anteriormente à Lei n? 5.049, de 29 de junho de 1966, como declara a autarquia recorrente na sua apelação, no item 5.8 de fls. 162; o segundo, que os imóveis adquiridos pelos mesmos impe- R.T.J. — 109 trantes possuíam área construída inferior a 100 metros quadrados e seu valor era inferior a 200 salários mínimos. No C. Tribunal Federal de Recursos a questão foi por muitas vezes debatida, vindo a ali predominar o entendimento que veio a ser fixado no enunciado de sua Súmula n? 68, a saber: «A correção não incide nas aquisições de unidades residenciais do INPS, quando a opção de compra tiver sido anterior à vigência do Decreto-lei n? 19, de 1966, sendo irrelevantes, em face da Lei n? 5.049, de 1966, o valor ou a área do imóvel.» A jurisprudência do Tribunal Federal de Recursos, sobre assentar-se na melhor exegese dos textos legais pertinentes, foi, sem dúvida, do maior alcance social, pois extinguiu o incabível critério adotado na Administração, inclusive com apoio em parecer da Consultoria Geral da República, e segundo o qual, mesmo após a vigência do Decreto-lei n? 19/66, continuariam aqueles que houvessem adquirido seus imóveis antes da Lei n? 5.049/66, sendo eles os de menor valor (área de construção a 100 metros quadrados e valor inferior a 200 salários mínimos) a sofrer a incidência da correção monetária, enquanto aqueles que houvessem adquirido os melhores imóveis, ou seja, área construída e valor superior ao acima referido, continuariam livres de tal correção, vindo, em conseqüência, os de menor poder aquisitivo a pagar, por imóveis de pequeno valor, muitas vezes mais que os compradores das melhores unidades residencias. A justificativa, na época da promulgação da Lei n? 4.380, de 21-8-64, de cujo art. 6?, letras a e b, de que resultava tão estranha discriminação, era a da necessidade de estimulo á construção de imóveis residen- 203 ciais para as classes menos favorecidas economicamente, o que, entretanto, a meu ver, fora a injustiça social que dai advinha, perdia sentido e finalidade em se tratando de imóveis já construídos, pertencentes a órgãos da administração pública e que seriam vendidos aos próprios moradores. Tal aspecto já o focalizei quando ainda Ministro do Eg. Tribunal Federal de Recursos, em mais de uma oportunidade, como por exemplo, ao ensejo do julgamento da AMS n? 82.547, de 4-10-78. Na hipótese em exame, a dilucidação da controvérsia não oferece dificuldade maior, eis que, em caso que tenho como idêntico, já se manifestou esta C. Turma, ao julgar o RE n? 91.287-DF, Relator o ilustre Ministro Djaci Falcão, em assentada de que participaram os Srs. Ministros Cordeiro Guerra e Moreira Alves, e em que demonstrou S. Exa. que o acórdão desta Corte (RE n? 75.018—RTJ 68/468) trazido à colação como divergente — e que é exatamente o mesmo que também agora embasa este recurso extraordinário — não entrava ás testilhas como o aresto recorrido. O Sr. Ministro Djaci Falcão, no aludido RE n? 91.287-DF, no seu voto, transcreveu — adotando a fundamentação do excelente voto do Sr. Ministro Paulo Távora, então no Tribunal Federal de Recursos, e que ora leio, para inclusive, mostrar a identidade com a espécie ora sub judies: (lê, RTJ 94, págs. 1278/1280). Pelo exposto, não conheço do recurso. o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 93745-RJ — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social — IAPAS, 204 R.T.J. — 109 representante do Instituto Nacional de Previdência Social — INPS (Advs.: Elizabeth R. L. Manzur e outros). Recdos.: Nair Graça Parada e outros (Advs.: Waldir Morgado e outros). Decisão: Não conhecido. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Dedo Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 4 de outubro de 1983 — Francisco Marques, Secretário. Hélio AGRAVO DE INSTRUMENTO PI? 94.031 (AgRg) — MG (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda. Agravantes: José de Oliveira Andrade, sua mulher e outros — Agravados: Dalmo de Andrade Cunha e outros. Processual regimental. Recurso extraordinário. Falta de preqüesUonamento. Indemonstração do pressuposto recursal quanto a um dos preceitos invocados. Dissidência jurisprudencial argüida sem a devida demonstração dos pontos de atrito. quais devesse considerar-se vulneACÓRDÃO rado, limitando-se a indicá-lo como ferido. Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do SuNo que respeita à dissidência premo Tribunal Federal, em Segunjurisprudencial, não se obedeceda Turma, na conformidade da ata ram aos ditames do art. 322 do do julgamento e das notas taquigráRISTF e da Súmula n? 291» (fls. ficas, por unanimidade de votos, em 109). negar provimento ao agravo regiVem a parte com agravo regimenmental. tal, em que sustenta: a) no conceito de preqftestionaBrasília, 6 de dezembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Decio mento, dado pelo Verbete n? 282 da Súmula da Corte, não se inclui a Miranda, Relator. exigência de alusão expressa, pelo acórdão recorrido, aos números das RELATORIO disposições legais invocadas como vulneradas; b) por outro lado, a O Sr. Ministro Dedo Miranda: Nequestão levantada pelo acórdão reguei seguimento ao agravo, median- corrido, relativa ao não-desembolso, te despacho em que se lê: pelos agravantes, de importância em para pagamento da torna, «Dos vários artigos de lei tidos dinheiro envolve violação dos arts. 128 e 460 por negados em sua vigência so- do Cód. Proc. Civil; c) indevida, mente o 1.164 do Código Civil foi também, a consideração despareferido no acórdão, aplicando-se, cho agravado de que nãodofeita, na quanto aos demais, as Súmulas n?s petição do extraordinário, a demons282 e 356. tração analítica da divergência jurisprudencial (fls. 111-117). Quanto àquele, não foi explícito o recorrente quanto motivos pelos E o relatório. 205 R.T.J. — 109 VOTO O Sr. Ministro Decio Miranda (Relator): Não têm razão os agravantes. O prequestionamento da questão federal, como tantas vezes se tem decidido, exige discussão sobre o tema legal ou constitucional proposto, e deste o mais evidente contorno é dado pelo próprio dispositivo, identificado pelo artigo, parágrafo, alínea, que o contenha. No segundo ponto, a petição de recurso extraordinário reclama que a petição inicial da ação deveria ter preqüestionado a matéria (fls. 78 médio). Contraditória, pois, a insistência em dispensar-se o preqüestionamento justamente no acórdão de que se veio a recorrer. No terceiro item, a própria transcrição, que faz a peça do agravo regimental, dos termos em que foi posta a alegação de divergência na interposição do recurso extraordinário, fls. 115/116, é prova eloqüente da ausência de contraste analítico da referida divergência, o que ain- da mais acentuadamente se apura quando se lê a petição recursal extraordinária, fls. 80 fine U ísque 83 princ., Inteiramente vazia de tal contraste. Isto posto, nego provimento ao agravo regimental. EXTRATO DA ATA Ag. 94.031 (AgRg)-MG — Rel.: Ministro Dedo Miranda. Agtes.: José de Oliveira Andrade, sua mulher e outros (Advs.: Luiz Fernando Melo de Lemos, José de Magalhães Barroso e outros). Agdos.: Dalmo de Andrade Cunha e outros (Advs.: Oswaldo de Freitas e outro). Decisão: Negado provimento ao agravo regimental. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda e Aldir Passarinho. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Francisco Rezek. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 16 de dezembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.256 — SP (Primeira Turma) Relator: O Senhor Ministro Soares Mufioz. Recorrente: Chu Ming Silveira — Recorrida: Telecomunicações do Rio de janeiro S.A.— TELERJ, denominação atual da ex-Companhia Telefônica Brasileira — CTB. Reclamação trabalhista. Empregada pleiteia vantagens decorrentes de invenção. — Reclamação julgada Improcedente por ter a Invenção resultado da participação coletiva de vários empregados, inclusive da reclamante, no desempenho de suas funções contratuais. Fundamento esse suficiente em si e que, por não conter questão constitucional, não abre ensejo à instauração da instância extraordinária nas hipóteses previstas no art. 143 da Carta Magna. Recurso extraordinário não conhecido. 206 R.T.J. — 109 ACORDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Primeira Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso. Brasília, 20 de setembro de 1983 — Soares Mura Presidente e Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Soares Munõz: A titulo de relatório, vou reproduzir o parecer da ilustre Procuradora Dra. Anadyr de Mendonça Rodrigues, aprovado pelo eminente Subprocurador-Geral da República Dr. Mauro Leite Soares, in verbis: «Trata-se de Recurso Extraordinário interposto em processo trabalhista, com alegação de ofensa aos artigos 153, §§ 2?, 3? e 24, da Constituição, 2?, 21, § 2?, 40 e 42 da Lei n? 5.772, de 1971 (Código de Propriedade Industrial), 136 do Código Civil e 836 da Consolidação das Leis do Trabalho. Resuma-se a controvérsia dizendo que a Recorrente, Arquiteta vinculada empregaticiamente à Recorrida, postulou, com fundamento no art. 454 da CLT, as vantagens econômicas decorrentes da invenção dos protetores de telefone vulgarmente chamados «orelhinha» e «orelhão», explorados industrialmente pela empregadora. A Junta de Conciliação e Julgamento, para rejeitar a pretensão, houve por bem reconhecer a inconstitucionalidade dos artigos 40, caput, e 92, da Lei n? 5.772, de 1971, «por não assegurar a Constituição Federal de 17 de outubro de 1969, nos termos do art. 153, § 2?, direito de propriedade ao inventor» (fls. 466). Submetida tal decisão às superiores instâncias trabalhistas, por haver a Recorrente alegado a vulneração do art. 454 da CLT e do § 24 do art. 153 da Constituição, afirmou o E. Tribunal Regional, por voto majoritário, que o art. 454 da CLT -- no qual se fundara a postulação houvera sido revogado pela Lei n? 5.772, de 1971, além do que, face ao depoimento de uma testemunha, entendeu que a invenção resultara de participação coletiva, no desempenho das funções contratuais da empregada (fls. 590/597). Inconformada, a Recorrente interpôs Revista, para o E. Tribunal Superior do Trabalho, na qual renovou a argüição de ofensa constitucional e já então também alegando contrariedade dos artigos 136 do Código Civil e 153, § 2?, da Carta Magna, por haver sido admitida a superposição da prova testemunhal sobre a documental própria, constituída pelo depósito de patente feito perante o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (fls. 283/327). Argüiu, ainda, a Recorrente, violação de coisa julgada, em afronta ao § 3? do art. 153 da Lei Fundamental e ao art. 836 da CLT, porque, ao deliberar anteriormente, a fls. 555/557, sobre a questão da competência da Justiça do Trabalho, teria o E. Tribunal Superior do Trabalho, apreciando a prova documental de fls. 282/327, reconhecido definitivamente, como da Recorrente, a autoria do invento. A E. Corte Superior Trabalhista negou conhecimento à Revista e, majoritariamente, aos Embargos posteriormente opostos, prestigiando as decisões anteriores (fls. 637/639 e 674/677). Tem-se, pois, que está satisfeito o requisito de prequestionamento das questões suscitadas. Examinadas, uma a uma, as apontadas vulnerações constitucio- R.T.J. — 109 nais, conclui-se, primeiramente, que o § 24 do Art. 153 da Lei Maior efetivamente parece contrariado, ao negar-se vigência ao art. 454 da CLT e ao darem-se por inconstitucionais os artigos 40, caput, e 42 da Lei n? 5.772, de 1971. Com efeito, dispõe a Carta Magna, em seu art. 153: § 24. A lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como a propriedade das marcas de indústria e comércio e a exclusividade do nome comercial.» Diante de tal garantia constitucional, resulta evidente que não tem consistência a negação do «direito de propriedade ao inventor», assim como da sobrevivência dos dispositivos a seguir transcritos: «Art. 454. Na vigência do contrato de trabalho, as invenções do empregado, quando decorrentes de sua contribuição pessoal e da instalação ou equipamento fornecidos pelo empregador serão de propriedade comum, em partes iguais, salvo se o contrato de trabalho tiver por objeto, implícita ou explicitamente, pesquisa cientifica.» (Consolidação das Leis do Trabalho). «Art. 40. Pertencerão exclusivamente ao empregador os inventos, bem como os aperfeiçoamentos, realizados durante a vigência de contrato expressamente destinado a pesquisa no Brasil, em que a atividade inventiva do assalariado ou do prestador de serviços seja prevista, ou ainda que decorra da própria natureza da atividade contratada.» «Art. 42. Salvo expressa estipulação em contrário, o invento ou aperfeiçoamento realizado pelo empregado ou pelo prestador de serviços não compreendido no 207 disposto no art. 40, quando decorrer de sua contribuição pessoal e também de recursos, dados, meios, materiais, instalações ou equipamentos do empregador, será de propriedade comum, em partes iguais, garantido ao empregador o direito exclusivo da licença de exploração, assegurada ao empregado ou prestador de serviços a remuneração que for fixada. (Código de Propriedade Industrial, Lei n? 5.772, de 1971). Em verdade, afiguram-se perfeitamente compatíveis, não só o art. 454 da CLT e os artigos 40 e 42 da Lei n? 5.772, de 1971, entre si, como também os três em relação à garantia expressa no § 24 do art. 153 da Constituição. A longa R. sentença de fls. 391/466 alicerça seu entendimento, de que a Constituição de 1969 não mais garante o direito de Propriedade da invenção, na circunstãncia de que, enquanto os anteriores textos constitucionais o asseguravam expressamente a par de conferir aos inventores o privilégio temporário, já a vigente só se referiu ao mesmo privilégio temporário, abstraindo-se da alusão expressa ao direito de propriedade, o qual, por essa razão, não mais existiria, conduzindo ao reconhecimento da inconstitucionalidade dos dispositivos apontados. Veja-se, no entanto, que o privilégio é um dos atributos da Propriedade da Invenção, e, por isso mesmo, é-lhe inerente: só o proprietário da invenção pode deter seu privilégio, sendo verdadeira a reciproca de que não há privilégio, sem propriedade. Assim sendo, ao invés de reconhecer-se ou declarar-se a inconstitucionalidade dos dispositivos em exame, só porque falam 203 R.T.J. — 109 em propriedade da invenção ao passo que a Constituição expurgou tal termo de seu texto, mais jurídico será entender que a Carta Magna de 1969 o fez para eliminar uma redundância constante dos textos anteriores, já que, se garantiam o privilégio ao inventor, estava também, implícita e concomitantemente, reconhecendo seu direito à propriedade do invento. Em abono do que foi dito, tragase a palavra insuperável de Pontes de Miranda in Comentários ti Constituição de 1967, com a Emenda n? 1, de 1969, 2? ed., Tomo V, pág. 547: «O g 24 somente cogita do momento em que se inventa: é regra jurídica constitucional de aquisição da propriedade, que a define pelo privilégio temporário. Adquirida, como todas as outras, passa a ser expropriável segundo as leis. Dal dizer João Barbalho (Comentários, 331) que o direito do inventor não é rigorosamente propriedade, ou é propriedade sul generis. Mas sem razão. A propriedade industrial, como a propriedade intelectual, é propriedade como outra qualquer. A doutrina brasileira e, o que é expressivo, a legislação superaram, de muito, as discussões em torno de ser ou não ser de propriedade o direito dos inventores, como o dos escritores e artistas.» (grifos do original) Assim posta a questão, parece que o V. Acórdão recorrido realmente vulnerou o g 24 do art. 153 do texto constitucional, ao dar abrigo às decisões antecedentes que tiveram por inconstitucionais ou artigos 40, caput, e 42 da Lei n? 5.772, de 1971, e negaram a vigência do art. 454 da CLT, pelo que, nesta parte, merece conhecimento e provimento o Recurso Extraordinário. Põe-se a exame, a seguir, a questão relativa à imputada violação do 2? do art. 153 da Carta Magna, em razão de ofensa ao art. 136 do Código Civil, dada a prevalência outorgada a um testemunho sobre a prova documental própria, o depósito de patente feito perante o INPI. Neste passo, importa consignar que, como está posta a questão, não se trata de exame de prova vedado na instância extraordinária, a teor da Súmula n? 279 — mas, sim, de tema exclusivamente referente à valoração da prova, o qual é suscetível de apreciação por essa Excelsa Corte: «Se se trata de examinar o critério legal de valorização da prova, o caso não é de simples apreciação desta, de acordo com a Súmula n? 279.» (RTJ 56/65 e RTJ 72/472). Vale, ainda, ressaltar que tal questão é autônoma e demanda apreciação independente, porquanto constitui um dos fundamentos suficientes em que assentou o V. aresto recorrido. principio constitucional da legalidade, dado como ofendido, em verdade pode ser maculado pela desobediência à letra da lei. Código de Processo Civil, em seu art. 332, com felicidade explicitou a regra que deve nortear a apreciação da prova: «Todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos em que se funda a ação ou a defesa.» é o art. 136 do Código Civil que especifica os meios legais de prova: «Os atos jurídicos, a que não se impõem forma especial, poderão provar-se mediante: R.T.J. — 109 I — Confissão. II — Atos processados em juizo. III — Documentos públicos ou particulares. IV — Testemunhas. V — Presunção. VI — Exames e vistorias. VII — Arbitramento.» A enumeração do art. 136 do Código Civil não importa em ordem de prevalência, assim como a prova por um dos meios indicados não exclui a apreciação daquela produzida através de outro meio legal. Assentado isto, tem-se que é possível a violação do principio da legalidade se o Juiz, ao desincumbir-se de seu encargo de apreciar o conjunto probatório, dá valor a um determinado tipo de prova e deixa de considerar — ainda que para refutar-lhe a eficácia — outro tipo da prova produzida, porque, então, estará negando a vigência do art. 136 do Código Civil, que deu, tanto á primeira como à segunda, a condição de meio legal de prova. Transportadas estas considerações para a espécie e analisados o V. Acórdão recorrido e as anteriores decisões pelo mesmo albergadas, verifica-se que o E. Tribunal Regional — soberano na apreciação da prova, no processo trabalhista — efetivamente utilizou como esteio de sua convicção, para concluir que o invento resultara de participação coletiva, no desempenho das funções contratuais da obreira, apenas o depoimento de uma única testemunha, embora reconhecendo, aliás, que outro testemunho contraditava tal depoimento (fls. 590/593). Nem uma palavra, todavia, dedicou o V. Acórdão regional á prova documental exibida pela Recorrente e, em especial, ao depósito de 209 patente feito junto ao INPI (fls. 283/327), ainda que fosse para recusar-lhe o valor probatório. A sonegação da prova, na consideração do E. Tribunal Regional, equivaleu a conferir-lhe valoração nula, em procedimento que não se compadece com o disposto no art. 136 do Código Civil e, via de conseqüência, nega-lhe a vigência; o que, por sua vez, constituiu afronta ao principio da legalidade estatuído no 2? do art. 153 da Carta Magna. Eis por que, no tocante á questão ora considerada, o parecer é de que o Recurso Extraordinário igualmente comporta conhecimento e provimento. Resta o estudo da derradeira imprecação: a de que se reconheça a mácula ao 3? do art. 153 da Lei Maior, em face da desobediência ao disposto no art. 836 da CLT, visto como haveria o E. Tribunal a quo ofendido a coisa julgada, formada quando, ao decidir em grau de recurso sobre a competência da Justiça do Trabalho para processar e julgar o feito, enfrentou a questão da autoria do invento, para reconhecê-la como sendo da Recorrente. Verifica-se, ao exame do V. Acórdão de fls. 555/557 — no qual se teria formado a coisa julgada argüida — que é do seguinte teor, no que respeita à autoria da invenção: «Por outro lado, os documentos de fls. 282 usque 327, oferecidos pelo empregador do Departamento Nacional da Propriedade Industrial, não deixam margem a dúvidas quanto à vinculação do invento ao contrato de trabalho, na espécie, não importando o fato de que ao mesmo tenha se dedicado a reclamante fora das horas de serviço. 210 R.T.J. — 109 Havendo destarte a pendência te, o julgamento do feito, porque com fulcro na relação jurídica de haveria, então, supressão da insemprego, competente é a Justiça tância própria. do Trabalho para fornecer a preO parecer é, por conseguinte, de tendida prestação jurisdicional.» que o Recurso Extraordinário seja (fls. 556). provido para que voltem os autos à instância regional, própria para A transcrição que se fez afiguraapreciação da prova, a fim de que, se suficiente para demonstrar que, removidos os obstáculos ao recona realidade, não houve como não nhecimento do direito de propriepoderia haver, em se tratando de dade da invenção e considerandodecisão restrita à questão de comse todo o conjunto probatório e, em petência — res judicata no que tanespecial, a prova documental oferge à autoria do invento. tada, julgue a causa como de direiA passageira abordagem do teto» (fls. 736/746). ma da autoria não se fez na parte E o relatório. dispositiva do V. aresto sob exame a única, aliás, suscetível de criar a VOTO coisa julgada — mas, ao invés, entre os fundamentos de decidir, os O Sr. Ministro Soares Munõz (Requais não levam à res judicata, co- lator): parecer bem examinou a mo está expresso no art. 469 do questãoOrelativa à ofensa à coisa julCPC: gada. Realmente, o acórdão que rejeitou a exceção de incompetência «Não fazem coisa julgada: do Trabalho não fez coisa I — os motivos, ainda que im- da Justiça no tocante ao mérito da reportantes para determinar o al- julgada cance da parte dispositiva da clamação. sentença; Os trechos daquele aresto em que se apóia o recurso extraordinário II — a verdade dos fatos, esta- não integram a sua parte dispositibelecida como fundamento da va, mas a sua fundamentação. Ora, sentença:» consoante dispõe o art. 469, I, do Códe Processo Civil, não fazem Forçoso é concluir, em conse- digo julgada os motivos, ainda que qüência, que não houve violação do coisa para determinar o alart. 836 da CLT nem, como decor- importantes da parte dispositiva da svntenrência, do 3? do art. 153 da Lei cance Fundamental, razão por que, nesta ça. parte, é de negar-se conhecimento Na espécie sub judice, o alcance ao Recurso Extraordinário. da parte dispositiva do acórdão prona exceção é inequívoco no Examinados os três temas susci- ferido sentido que não compreendeu o tados pela Recorrente, deve levar- mérito dadereclamação, verbis: se em conta que os dois primeiros alusivos às negativas de aplicação, Acordam os Ministros da Primeiao caso sub judice, da legislação ra Turma do Tribunal Superior do protetora da propriedade da invenTrabalho, sem divergência, conheção e de apreciação da prova docucer do recurso e dar-lhe provimento para que baixem os autos á insmental produzida —, embora ensejem conhecimento e provimento do tância de origem e julgue o mérito apelo extremo, no que lhes pertine, como entender de direito» (fls. não permitem, a essa Excelsa Cor557). R.T.J. — 109 A sentença de primeiro grau, encontrando incompatibilidade entre o art. 153, § 24, da Constituição Federal e os arts. 454 da CLT e 40 e 42 da Lei n? 5.772 (Código de Propriedade Industrial), considerou revogado o primeiro dispositivo em referência e inconstitucionais os outros. Os acórdãos, tanto do Tribunal Regional quanto do Tribunal Superior do Trabalho, embora tenham mantido a sentença, não incorporaram ás respectivas motivações aqueles fundamentos de natureza constitucional. Eis o acórdão regional: «Na inicial a reclamante esclarece que foi admitida como «auxiliar técnica» lotado no departamento de obras, em 25 de abril de 1966, fazendo contrato por tempo indeterminado, e, em seguida, que em princípios de 1972, sem qualquer vinculação ao contrato de trabalho, inventou •dois novos modelos de protetor de telefone, sendo um para uso interno e outro externo, conhecido como «orelhão,» postulando, em conseqüência, 50% das vantagens econômicas da exploração dos inventos, ao mesmo tempo em que fundamenta o seu pedido no art. 454 da CLT — fls. 3. Esse dispositivo, base legal da pretensão, foi revogado pela Lei n? 5.772, de 21 de dezembro de 1971. Ainda que assim não fosse, verifica-se pelo depoimento pessoal da reclamante que esta ocupava a chefia da seção de projetos da Companhia Telefônica Brasileira os quais coordenava — fls. 160. Pelo depoimento da testemunha Edwaldo Ferreira Rebello, engenheiro, verifica-se que o desenho do protetor foi UM resultante de diversos trabalhos, idéias, colaborações de outros funcionários e que até mesmo a «concha» surgiu no Rio 211 de Janeiro, conforme bem salientou a r. decisão recorrida — fls. 427/429. Houve, assim, participação cole tiva, na qual se incluiu a reclamante, para tanto remunerada como arquiteta, em cuja função se inclui a apresentação de novas idéias. Ainda que uma testemunha tenha informado que o desenho foi executado fora das horas de trabalho — fls. 265 — verdade é que foi feito de encomenda com a colaboração de outros, constando até mesmo ter vindo de outra cidade» (fls. 592/593). E o teor do acórdão proferido pela Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho que não conheceu do recurso de revista é o seguinte: «A sentença originária, com base na doutrina, na lei e nos fatos, conclui pela improcedência da reclamação. Voltando a apreciar a demanda, já em cumprimento ao acórdão desta Turma, a 2? instância partiu não só do exame de fatos e provas, mas também de diversos fundamentos, não abrangidos pela jurisprudência trazida a confronto. Em face dos próprios termos do acórdão recorrido, não se configura a violação de norma constitucional ou legal, em que pretende apoio a recorrente. Não conheço. Isto posto. Acordam os Ministros da Primei- ra Turma do Tribunal Superior do Trabalho, sem divergência, não co-nhecer da revista» (fls. 639). Do mesmo modo, a essa fundamentação se arrimaram as decisões posteriores que desproveram o agravo de instrumento e os embargos infringentes, nos quais foi questionada a ofensa ao art. 153, §§ 2?, 3?, 4? e 24, da Constituição Federal. 212 R.T.J. — 109 Despiciendo, portanto, é o exame da alegada má aplicação do 24 do art. 153 da Constituição Federal e dos arts. 454 da CLT e 40 e 42 do Código de Propriedade Industrial, porque, abandonando tais questões, o acórdão recorrido julgou improcedente a reclamação por outro fundamento suficiente em si, ou seja, o de que o invento «foi uma resultante de diversos trabalhos, idéias, colaboração de outros funcionários e que até a «concha» surgiu no Rio de Janeiro; houve, assim, participação coletiva, na qual se incluiu a reclamante, para tanto remunerada como arquiteta, em cuja função se inclui a apresentação de novas idéias» (fls. 593/639). Ataca-se esse fundamento do acórdão recorrido, dizendo-se que ele afrontou o principio constitucional da legalidade, dando valor exclusivo ao depoimento de uma testemunha e deixando de considerar as demais provas, inclusive as documentais, e, dessa forma, negou vigência ao art. 136 do Código Civil. 86.017-7/SE — 1? Turma — Rel.: Min. Soares Munõz). Ou, em outros termos: «Se para provar a contrariedade à Constituição, tem-se, antes, de demonstrar a ofensa à lei ordinária, é esta que conta para admissibilidade do recurso extraordinário em face das restrições regimentais» (RTJ 94/462). Sobreleva notar que a conjugação do art. 136 do Código Civil como o art. 153, 2?, da Constituição e o resultante fundamento que acabo de examinar não constam da petição recursal. Foram eles deduzidos no parecer da Procuradoria-Geral da República, em questionamento evidentemente ineficaz. Ante o exposto, não conheço do recurso extraordinário. EXTRATO DA ATA RE 94.256-SP — Rel.: Min. Soares Munõz. Recte.: Chu Ming Silveira. (Advs.: Oswaldo Sant'Anna, Andréa Tarsia Duarte e outros). Recdo.: Telecomunicações do Rio de Janeiro S.A. — Telerj, denominação atual da Entretanto, se houve esse erro nas ex-Companhia Telefônica Brasileira decisões impugnadas, não foi ele de — CTB. (Advs.: Sérvulo José Drunatureza constitucional. A ofensa à mond Franklin, Antonio Villas Boas Constituição, apta a instaurar a ins- Teixeira de Carvalho e outros). tância extraordinária nas hipóteses Decisão: Não se conheceu do reprevistas no art. 143 da Carta Maior, pressupõe vulneração, direta e fron- curso extraordinário. Decisão Unânital, a um determinado dispositivo da me. Falaram pelo Recte.: Dr. OswalConstituição. A infração da lei ordi- do Sant'Anna e pelo Recdo.: Dr. Annária não configura ofensa à Consti- tonio Villas Boas Teixeira de Carvatuição. Ainda que o acórdão tivesse lho. negado vigência ao art. 136 do CódiPresidência do Senhor Ministro go Civil, o que admito apenas para Soares Munõz. Presentes à Sessão os argumentar, nem por isso estaria Senhores Ministros, Rafael Mayer, ofendido o art. 153, 2?, da Constitui- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e ção Federal. «Se assim não fosse, Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral redundante seria a alínea a do per- da República, Dr. Francisco de Asmissivo constitucional, contemplando, como hipóteses distintas, o ato de sis Toledo. «contrariar dispositivo da ConstituiBrasília, 20 de setembro de 1983 — ção» e o de «negar vigência de trata- Antônio Carlos de Azevedo Braga, do ou lei federal» (Ag-AgRg. n? Secretário. R.T.J. — 109 213 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.269 — PR (Primeira Turma) S.A. Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Sachiko Miyasaka Matsubara — Recorrido: Banco do Brasil Execução por titulo extrajudIclal. Caráter provisório, em havendo recurso ordinário ou extraordinário. Exegese do art. 587, do Código de Processo Civil. Precedente do STF. Recurso extraordinário conhecido e provido. ACORDA() Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, conhecer do recurso extraordinário e lhe dar provimento. Brasília, 23 de maio de 1983 — Soares Mulloz, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Em agravo de instrumento interposto pelo Banco do Brasil S.A., contra o despacho do Dr. Juiz de Direito da Comarca de Bandeirantes-PR, que indeferiu o prosseguimento da execução, porque pendente apelação interposta contra decisão que julgou Improcedentes os embargos do devedor opostos por Sacha() Miyasaka Matsubara, a Terceira Câmara Civel do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná deu provimento ao agravo, por unanimidade do voto, em acórdão que tem a seguinte ementa (fls. 55): «E definitiva a execução de titulo extrajudicial, ainda que pendente recurso da decisão que julgou improcedentes os embargos do devedor». Irrestgriado, recorreu, extraordinariamente, Sachiko Miyasaka Matsubara, com apoio no art. 119, inciso III, alíneas a e d. da Constituição Federal, sustentando que o aresto recorrido negou vigência ao art. 587, do Código de Processo Civil, além de se apresentar em divergência com os julgados do Tribunal de Alçada do mesmo Estado e do Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. Alega a recorrente que havendo recurso pendente, a execução em causa não pode ser considerada definitiva, e, sim, provisória, visto que o efeito devolutivo da apelação «mantém o processo no mesmo estado, suspenso por efeito dos embargos». O ilustre Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, ao admitir o processamento do recurso, asseverou (fls. 78/79): «Como o dissídio que suscitou está sobejamente comprovado (máxime com relação ao julgado prolotado pelo Tribunal de Alçada deste Estado), a recorrente tem assegurado o acesso de sua inconformação última à Suprema Corte. O argumento inserido na impugnação de fls. 74/76 de que in specie é aplicável a Súmula n? 369, data venta, não procede. E que o Tribunal de Justiça e o Tribunal de Alçada do Estado do Paraná não compõem um mesmo Tribunal, sendo de todo admissivel a utilização dg julgados de um e de outro para a comprovação de dissídio jurisprudencial. R.T.J. — 109 214 Tal qual este, o caso apreciado pelo Tribunal de Alçada versou sobre a questão do caráter (se definitivo ou provisório) da execução de titulo extrajudicial na pendência de recurso ordinário (apelação) interposto contra sentença que julgou improcedentes os embargos do devedor. Naquele caso a Corte que o julgou decidiu-se pelo caráter provisório de tais execuções e esta Casa, em franca divergência e julgando caso idêntico, apoiou o cunho definitivo. A profunda controvérsia que esta matéria provoca faz que a divergêcia, in casu demonstrada, deva, a meu ver, receber a apreciação do Pretório Excelso, não só em função de sua comprovação como também no interesse das partes que a debatem exaustivamente.». Razões da recorrente às fls. 85, reportando-se à petição do recurso extraordinário, apresentando o recorrido as contra-razões de fls. 87/105. A douta Procuradoria-Geral da República manifesta-se, às fls. 112/116, pelo conhecimento e provimento do recurso. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Preceitua o art. 587, do Código de Processo Civil: «Art. 587. A execução é definitiva, quando fundada em sentença transitada em julgado ou em titulo extrajudicial; é provisória, quando a sentença for impugnada mediante recurso, recebido só no efeito devolutivo.» Acerca desse dispositivo, anotou Alcides de Mendonça Lima: «Execução é definitiva. E aquela em que o credor tem sua situação reconhecida de modo imutável, decorrente da própria natureza do titulo em que se funda a execução, salvo a incidência rara da ação rescisória, mas que não impede a execução da sentença rescindenda. O direito já lhe foi assegurado. Nada há, em principio, o que discutir, o que provar e o que decidir. Entretanto, isso é apenas verdadeiro quando o titulo executivo for o judicial ou, no teor legal, «sentença transitada em julgado, que, evidentemente, se acha sob a égide da coisa julgada, cujo conceito se acha consignado no art. 467 deste Código, que, em essência, reedita o do art. 6?, § 3?, da Lei de Introdução ao Código Civil. Se a sentença não foi impugnada por nenhum recurso ou, se o foi, os meios se esgotaram, a coisa julgada se operou e, conseqüentemente, o credor tranqüilamente pode promover a execução definitiva do julgado. 925. A regra geral, no direito brasileiro, é, portanto, a execução definitiva, desde que haja coisa julgada. Quando a lei nada prescrever em contrário, não haverá execução de sentença na pendência de recurso que contra a mesma haja sido interposto.» ( in Comentários ao Código de Processo Civil, Forense, VI vol., Tomo II, págs. 469/470). Noutro passo, anota: «938. A execução provisória, pela disposição expressa deste artigo, é Inerente exclusivamente ás sentenças, não se estendendo aos títulos extrajudiciais, como seria absurdo. Tudo gira em torno da politica do legislador, no sentido de entender mais conveniente à ordem social e aos interesses do vencedor-credor-recorrido a execução provisória da sentença do que as possíveis mudanças que venham a ocorrer se, em grau de re- R.T.J. — 109 curso, o julgado for reformado, tanto total como parcialmente (....). Mas, para assumir o risco, o exeqüente terá de agir segundo art. 588 do próprio Código. (op. cit., págs. 475/76). De outra parte, tendo em conta a situação do devedor, escreve: «Na execução de titulo extrajudicial, a lei procura proteger o devedor, exatamente porque o direito do credor ainda poderá ser discutido nos embargos: somente a inércia do devedor é que lhe causará prejuízo, se não usar da faculdade de apresentar defesa, como o Código lhe concede, até de modo amplo (art. 745, combinado com os arts. 741 e 300 e 301). A efetivação, portanto, do direito alegado pelo credor dependerá da atitude do devedor: a) não se defendendo, o credor usufruirá de imediato todas as vantagens: b) defendendo-se, tudo ficará adstrito ao julgamento dos embargos. De qualquer maneira, a lei não confere força total ao direito emanado no titulo a favor do credor, salvo se o devedor não opuser embargos nas condições prescritas no Código». No RE n? 89.242-SP, a Segunda Turma decidiu, em aresto com a seguinte ementa: «Execução por titulo extrajudicial. Caráter provisório, em havendo recurso ordinário ou extraordinário. Interpretação do art. 587 do Código de Processo Civil. RE não conhecido» (RTJ 86/922). Manifesta a divergência, com esse acórdão, conheço do apelo. A douta Procuradoria-Geral da República bem anotou, no particular, reportando-se aos fundamentos do aresto-padrão, que adoto, onde referidos outros precedentes da Corte (fls. 112/115), In verbis: «1. O Banco do Brasil S.A. interpôs agravo de Instrumento con- 215 tra despacho que denegou prosseguimento de execução de titulo extrajudlcial, em caráter definitivo, tendo em vista o efeito devolutivo em que foi recebida a apelação interposta à decisão que deu pela improcedência dos embargos da devedora. O acórdão impugnado tem a ementa assim redigida, fls. 55: «E definitiva a execução de titulo extrajudicial, ainda que pendente recurso da decisão que julgou improcedentes os embargos do devedor». Em recurso extraordinário, pelas letras a e d, alega a recorrente negativa de vigência ao art. 587, do Código de Processo Civil. 5. Ocorre que a decisão recorrida está em manifesta discordância com o decidido pela Egrégia Segunda Turma no RE n? 89.242 — Relator Ministro Cordeiro Guerra, RTJ 86/922, trazido a confronto fls. 60, verbis: «Prima fade, o art. 587 do Código de Processo Civil, equipara a execução por titulo extrajudicial á execução de sentença transitada em julgado, dando-lhe o caráter de definitiva. E, assim, se pronunciou por maioria, o Simpósio de Curitiba: «E definitiva a execução de titulo extrajudicial, ainda que pendente de recurso de decisão que julgou improcedentes os embargos do devedor» (Conclusão — L I, em RT 482/272). Penso, porém, que razão não assiste ao ilustre professor Theotônio Negrão — quando observa: «tal execução somente se tornará definitiva se não forem opostos embargos à execução, ou após transitar em julgado a sentença que os rejeitar. Se os embargos à execução, não rejeitados liminarmente, têm efeito suspensivo — 216 R.T.J. — 109 (art. 741), desde o seu recebimento para discussão está suspensa a execução, e será provisório tudo quanto se fizer enquanto pendentes. Quanto aos embargos rejeitados In limine, a solução poderá ser diversa, mas, no sistema do Código de Processo Civil, enquanto pende qualquer recurso que pode alterar a situação a execução é provisória». De fato: «Não há embargos do devedor sem efeito suspensivo» (Simpósio — Conclusão — LIX) — e em se tratando de execução por titulo extrajudicial, o devedor poderá alegar, em embargos, além das matérias previstas no art. 741, qualquer outra que lhe seria licito deduzir como defesa no processo de conhecimento», é o que dispõe o art. 745 do Código de Processo Civil. «A tonto" diz o mesmo jurista, os embargos à execução tem efeito suspensivo, quando esta se fundar em título extrajudicial e for alegada matéria de defesa que o devedor poderia deduzir no processo de conhecimento». De fato, «denomina-se coisa julgada material a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário», art. 467 do Código de Processo Civil. Como bem observou o acórdão recorrido, não pode o art. 587 do Código de Processo Civil, ser interpretado isoladamente, mas sistematicamente. Dai o acerto da conclusão de Celso Neves: «Enquanto esse processo não tiver termo final está sobrestada a atividade ]uris-satisfatória, própria do processo executório que só se restabelece na hipótese de trânsito em julgado da sentença que rejeite os embargos opostos...». A suspensividade dos embargos, no caso de execução fundada em titulo extrajudicial, corresponde à regra geral, decorrente da circunstância de, nessas hipóteses, não ter havido processo de conhecimento (Comentários ao Código de Processo Civil, VII, Forense — 1? Ed., págs. 237/238). Acresce a isso, que esta Corte já decidiu: «Execução. Em face do novo Código de Processo Civil, é provisória a execução de sentença enquanto pende o julgamento do recurso extraordinário» — RE n? 84.334, SP, Relator Ministro Moreira Alves. Ora, se assim é, com maior razão, em se tratando de recurso ordinário, capaz de negar valor ao titulo extrajudicial. Nessa conformidade, bem decidiu o acórdão recorrido. Não conheço do recurso». Do exposto, conheço do recurso e lhe dou provimento. EXTRATO DA ATA RE 94.269-PR — Rel.: Min. Néri da Silveira. Rectes.: Sachiko Miyasaka Matsubara. ( Advs.: Celso Manoel Fachada e outros). Recdo.: Banco do Brasil S.A. (Advs.: Luiz Fernando Küster e outros). Decisão: Conheceu-se do recurso extraordinário e se lhe deu provimento. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mtuloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros, Rafael Mayer, Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Alfredo Buzaid. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 23 de maio de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. R.T.J. — 109 217 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.283 — SP (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Dedo Miranda. Recorrente: Estado de São Paulo — Recorridos: Adhemar Ferreira e outros. Administrativo. Funcionalismo. Militares estaduais reformados. Proventos iniciais que incorporaram gratificação em certo percentual. A aplicação que se deu à lel nova, n? 10.423, de 6-12-71, do Estado de São Paulo, dirigida aos policiais militares em atividade, relativa a aumento do percentual da gratificação, além de atritar-se com os princípios fixados nas Súmulas 339 e 359 do Supremo Tribunal Federal, ofende os 1? e 2t do art. 102 da Constituição. ACORDA() Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em segunda Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e lhe dar provimento. Brasília, 4 de novembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Dedo Miranda: O despacho que deixou de admitir o recurso extraordinário expõe as questões trazidas a debate, ao dizer: «1. Trata-se de Ação Ordinária movida por Policiais Militares reformados, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, contra a Fazenda do Estado, com o objetivo de obter a correção do cálculo das gratificações de «Instrutor» e «Auxiliar de Instrutor», na forma do aumento concedido pelo art. 3? e seu parágrafo único da Lei n? 10.423/71, bem assim o pagamento das diferenças daí decorrentes, vencidas e vincendas. A demanda foi acolhida em ambas as instãncias ordinárias (fls. 370/371). Irresignada, a Fazenda do Estado recorreu extraordinariamente, com apoio no art. 119, inc. III, letras a e d, da Constituição Federal. Sustenta que o v. acórdão violou o art. 102, § 1?, da Carta Magna, tendo, ainda, divergido da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que trouxe à colação ( fls. 373/380). Houve impugnação ( fls. 382/393). 2. O apelo extremo, porém, não reúne condições de admissibilidade. A propósito, salientou o v. aresto censurado, A Lei n? 8.311, de 25-9-64 em seu art. 4? estabeleceu os percentuais máximos das gratificações devidas aos «Instrutores» e «Instrutores Auxiliares», determinando, em seu parágrafo único, que seriam regulamentados pelo Executivo. Tal regulamentação vem através do Decreto n? 45.317, de 28-965, que fixou o valor certo daquelas gratificações em seu art. 1?, isto é, passaram os autores a percebê-las, alguns na base de 20%, outros em 15 e 10%, percentagem calculada sobre o valor das respectivas referências numéricas 218 R.T.J. — 109 A Lei n? 10.423, de 8-12-71, em seu art. 3?, elevou o teto máximo dessas gratificações para 40%, determinando, em seu art. 7?, que tal gratificação seria arbitrada, anualmente, pelo Secretário da Segurança Pública. Dando cumprimento a esse dispositivo, o Secretário da Segurança Pública, pela Resolução n? 11, publicada no Diário Oficial de 11-2-72, fixou essas gratificações em 20% e, posteriormente, através da Resolução n? 006, de 27-176, manteve-se idêntico percentual e, a partir de 26-1-77, foi elevado para 40%. O que se verifica é que os percentuais diversos previstos no Decreto n? 45.317 foram fixados pelo Sr. Secretário da Segurança Pública em 20% no primeiro período de 40%, ao depois, atendendo á determinação da Lei n? 10.423, em seu art. 7?. Essa Lei, elevando o teto do percentual das gratificações contém medida de ordem geral em relação aos que tenham direito às mesmas, devendo, por isso, estender esse direito aos inativos, que já as incorporaram a seus proventos. Ao elevar o teto das gratificações referidas, o texto legal não se referiu apenas aos servidores em atividade. Possibilitando sua fixação em percentagem maior pelo Secretário da Segurança Pública, esta Lei beneficiou também os aposentados, que as têm incorporadas. Consoante o ensinamento do Hely Lopes Meirelles (Direito Administrativo Brasileiro, pág. 449), as gratificações de serviço não se incorporam automaticamente ao vencimento, nem são auferidas na disponibilidade ou aposentadoria, salvo quando a lei expressamente o determina, por liberalidade do legislador, como no caso dos autores ( fls. 370/371). Vale dizer, admitiu que, à vista das circunstâncias especiais do caso e da legislação estadual citada, não houve ofensa ao princípio constitucional que proíbe a revisão dos proventos da Inatividade, salvo se, por motivo de alteração do poder aquisitivo da moeda, se modificarem os vencimentos dos funcionários em atividade (Constituição Federal, art. 102, 1?). Tal entendimento constitui interpretação mais que razoável, pois aquilo de que se cuida, na verdade, não é a revisão de proventos da inatividade, mas a correção do percentual das gratificações aludidas, que na atividade já possuíam os autores, apenas em base menor. Ora, se o valor dessas gratificações foi elevado como medida de caráter geral, extensiva a todos os servidores da mesma categoria profissional, inegavelmente haveria que abranger também os inativos. Não se cogita de vantagem nova, mas de direito que os inativos já tinham incorporado ao seu por ocasião da passagem para a reserva. Portanto, a elevação do quantum, ainda que depois da inatividade, nas condições do caso em exame, à evidência que beneficia os autores, máxime se se considerar que nenhuma restrição a eles se fez. A espécie, portanto, além de encerrar razoável interpretação do preceito constitucional invocado, não extravasa da simples interpretação e aplicação do direito local, o que desautoriza a via excepcional (Súmulas n?s 400 e 280). Assim, pela letra a do permissivo constitucional, o recurso não pode ter seguimento. R.T.J. — 109 Melhor sorte não encontra a recorrente pelo segundo fundamento (CF, art. 119, Inc. III, letra d), uma vez que não logrou demonstrar a efetiva ocorrência do dissídio pretoriano a que aludiu. Com efeito, ao contrário do que afirma, os proventos da inatividade continuam a regular-se pela lei vigente ao tempo da passagem dos recorridos para a reserva, ocasião em que já tinham incorporada, repita-se, a respectiva gratificação de serviço. O direito permanece o mesmo; apenas o quantum do percentual foi alterado para mais, como medida de caráter geral. Inaplicável, por isso, o princípio genérico enunciado na Súmula n? 359. De outra parte, a mera transcrição das ementas dos arestos relacionados com os Recursos Extraordinários n?s 77.305-SP e 78.235-SP (fls. 377), não se presta à configuração da divergência, como exigem o art. 305 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal e a Súmula n? 291 (RJTJ 54/225). Por fim, a hipótese apreciada no recurso extraordinário n? 75.799, também não se identifica e tampouco se assemelha ao caso dos autos. Aqui os recorridos, ao se transferirem para a reserva já possuíam as gratificações de serviço incorporadas, que pela natureza mesma, ensejaram o aumento do percentual concedido pela Administração; lá a decisão censurada pelo Excelso Pretório estendeu a inativos gratificação concedida a servidores em atividade. Ademais, não esclarecem as transcrições feitas (fls. 378/379), qual o exato objeto da hipótese examinada nesse aresto padrão, bem como a natureza ou espécie de vantagem que teria sido majorada. 3. Isto posto, indefiro o processamento do recurso» (fls. 399/406) 219 Processou-se todavia o recurso, pelo provimento que dei, para melhor exame, ao Agravo de Instrumento n? 81.761. Nas razões, o Estado recorrente insiste na violação ao art. 102, § 1?, da Constituição, e também no dissídio jurisprudencial, inclusive divergência com as Súmulas n? 359 e 339, esta última somente então referida. Os recorridos argúem, em preliminar, o perdimento do objeto do recurso, uma vez que o Governador do Estado já teria determinado a satisfação do pedido mediante providências da Procuradoria-Geral do Estado, «objetivando o estancamento das ações judiciais eventualmente existentes e relacionadas com a matéria» (fls. 436 princ). Diante de tal despacho governamental, não subsistiriam os poderes outorgados aos Procuradores do Estado para prosseguir no feito. Sobre tal ponto, já o processo nesta Suprema Corte, peticionaram alegando o fato novo do «estancamento» das ações, juntando dois acórdãos em que a matéria teria sido cogitada. Determinei fossem juntos por linha a petição e os documentos que a acompanharam. Nas razões opostas ao recurso extraordinário, procuram os autores, no mérito demonstrar que a ação nada tem a ver com «revisão de proventos de aposentadoria, em decorrência de alteração do poder aquisitivo da moeda» (fls. 439), nem sobre tal aspecto foi apreciada pelo acórdão recorrido. Também argumentam com a falta de similitude da causa em exame com a matéria da Súmula n? 339, porque aqui não se pedira equiparação por isonomia, mas seriam os autores detentores de direito próprio, 220 R.T.J. - 109 Dos autos não consta o texto da lei em publicação oficial, mas os autores dele transcrevem, na inicial, a parte precipua, ou seja, o art. 3? da Lei Estadual n? 10.423, de 6-12-1971, que assim dispôs: «Os oficiais ou praças que, nos estabelecimentos de ensino da Corporação ou em Cursos de Formação ou Especialização de Oficiais e praças, exercerem as funções de Instrutor ou de Auxiliar de Instrutor, farão jus à gratificação mensal fixada em até 40% ( quarenta por cento), a qual será calculada exclusivamente sobre o valor do respectivo padrão numérico. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se também aos oficiais e praças que, no órgão Assessor de Ensino do Comandante Geral e estabelecimentos de ensino da Corporação, exercerem funções ligadas ao ensino» (fls. 8 fine-9 e 230 fine-31). Daí, pedirem que se lhes deferisse o aumento da gratificação, embora inativos argumentando: «Inegável a medida de Ordem Geral espressa nesses tópicos da Lei n? 10.423/71. O aumento de valor das gratifiVOTO cações de instrutor e de auxiliar de instrutor destina-se a todos que a O Sr. Ministro Dedo Miranda ( Repercebam, configurando, ao meslator): Os 69 autores, oficiais intemo tempo, inegável aumento de grantes da Policia Militar do Estado, proventos e vencimentos para os percebiam, em atividade, gratificadetentores de tais gratificações, esção decorrente da função de Instrupecialmente se tivermos em conta tor ou de Auxiliar de Instrutor. que as mesmas se tornam parte inDe acordo com a legislação estategrante de seus vencimentos, após dual, por terem exercido por cinco sua incorporação, como acontece anos ou mais aquela função, tiveram no caso dos AA. a gratificação incorporada aos vencimentos e levaram a vantagem paO valor das mencionadas gratifira a inatividade. cações, que pela Lei n? 8.311/71, era de até 20%, pela Lei n? Já na inatividade, lei estadual aumentou o percentual da gratificação 10.423/71, passou a ser até 40%)) pelo exercício das referidas funções. ( fls. 9 princ.) pois já tinham incorporado a vantagem a seus patrimónios, por ocasião da passagem para a reserva. No que se refere á divergência com a Súmula n? 359, o despacho indeferitório do recurso já a afastara com vantagem. Quanto ao dissídio, sustentam que os acórdãos trazidos a confronto referem-se a Gratificação de Regime Especial de Trabalho Policial — RETP, vantagem que seria distinta da que ora se aprecia. Nos casos trazidos a confronto, pretendia-se uma vantagem criada após a passagem para a reserva, enquanto aqui os autores recorridos já tinham incorporado a gratificação, ao passar á inatividade. Argumentam ainda com a restrição contida no art. 325, IV, d, do Regimento Interno uma vez que se aprecia relação estatutária, sem que esta atinja «a própria relação jurídica fundamental», e com a Súmula n? 280, porque mais não fizera o acórdão do que interpretar leis estaduais. A Procuradoria da República opina pelo conhecimento e provimento do recurso ( fls. 464/9). E o relatório. 221 R.T.J. — 109 As instãncias ordinárias acolheram o pedido, dizendo-se no acórdão recorrido: Essa Lei, elevando o teto do percentual das gratificações contém medida de ordem geral em relação aos que tenham direito às mesmas, devendo, por isso, estender esse direito aos inativos, que já as incorporaram a seus proventos. Ao elevar o teto das gratificações referidas, o texto legal não se referiu apenas aos servidores em atividade. Possibilitando sua fixação em percentagem maior pelo Secretário de Segurança Pública, esta Lei beneficiou também os aposentados, que as têm incorporadas» (fls. 371) A matéria constitucional foi debatida, tanto que os ora recorridos, ao falar sobre a contestação, rebatem a alegação de ofensa aos § § 1? e 2? do art. 102 da Constituição ( fls. 236 medio-237). No relatório da sentença, ressaltou-se o argumento do Estado, de que os aposentados não poderiam perceber mais do que os em atividade (fls. 321 fine). A sentença, porém, entendeu que «o que se incorporou a seus proventos foi a gratificação e não o seu quantum ou sua percentagem» (fls. 325). Tenho para mim que a decisão recorrida se atrita com as Súmulas n?s 339 e 359 e ofende o disposto nos go§ 1? e 2? do art. 102 da Constituição. Quanto ao § 1?, porque o aumento da gratificação não se pode equiparar a aumento de caráter geral em virtude de alteração do poder aquisitivo da moeda. Quanto ao § 2?, porque, não aplicavel o § 1?, passariam os inativos a perceber na inatividade certa faixa de remuneração por eles não percebida na atividade. Ao serem reformados, os reco:intdos tiveram integrada em seus proventos, em decorrência de lei, a gratificação no percentual de 20%. Já inativos, lei nova majorou o percentual da gratificação aos que «exercerem as funções de Instrutor ou Auxiliar de Instrutor» (art. 3? da Lei n? 10.423/71). Os recorridos tiveram dereito a incorporar a gratificação de 20% aos proventos. Quando houve a majoração da gratificação, destinada aos que «exercerem as funções», portanto aplicável somente aos da atividade, já estavam reformados. Não colhe o argumento de que a incorporação se referia à gratificação e não ao seu quantum; ou ao que tinham direito, aa_passar para a inatividade, e lhes foi concedido, era a gratificação em determinado percentual. A questão, que se diz nova, de ter o Governo Estadual determinado o «estancamento» da ação, porque a resolveria administrativamente, não impõe, como querem os recorridos, o perdimento de objeto do recurso. Tal questão já se levantara muito antes, como se vê das razões de apelados dos ora recorridos ( fls. 344 mecho). Somente a desistência do apelo, que não houve, poderia ter as conseqüências pedidas. Conheço do recurso extraordinário, pela letra a, e lhe dou provimento, para julgar improcedente a ação. Custas e honorários de advogado, estes no percentual de 10% sobre o valor da causa, pelos recorridos. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 94.283-SP — Rel.: Min. Decio Miranda. Recte.: Estado de São Paulo (Adv.: Marcia Rodrigues Machado). Recdos.: Adhemar Ferreira e outros (Adv.: Ubirajara Silveira). 222 R.T.J. — 109 Decisão: Conhecido e provido nos termos do voto do Ministro Relator. Unânime. Ausente, ocasionalmente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Dedo Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, ocasionalmente, o Senhor Ministro Moreira Alves. Subprocurador-Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 4 de novembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.991 (AgRg-EDc1) — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Soares Mufioz. Agravantes: Cyrene Canedo Estelita e outros — Litisconsortes: Esmeralda Marques de Barros e outros e Ney Gomes de Carvalho — Agravado: Estado do Rio de Janeiro. Prazo. Pauta de julgamento. — Na contagem do prazo previsto no art. 552, 1?, do Código de Processo Civil, incide a regra geral estabelecida no 2? do art. 184 do mesmo Código, de sorte que, publicado o anúncio do julgamento de recurso extraordinário no Diário da Justiça de sexta-feira, o julgamento não pode realizar-se na terça-feira subseqüente. Embargos declaratórios recebidos para anular-se o acórdão. ção da nulidade do acórdão profeACORDA° rido no mencionado recurso no dia 24 de novembro último, visto que o Vistos, anúncio do julgamento se fez no DJ Acordam os Ministros do Supremo de 20 do referido mês, sexta-feira, Tribunal Federal, em Primeira Turnão tendo decorrido entre as duas ma, à unanimidade de votos e na datas o prazo previsto no art. 83 do conformidade das notas taquigráfiRegimento Interno do Supremo cas, conhecer do agravo regimental, Tribunal Federal. Desassiste, popara receber os embargos declaratórém, razão aos requerentes. O prarios e anular o acórdão, determinanzo de 48 horas é contado de minuto do que o recurso seja incluído novaa minuto (RE 95.230), de sorte que, mente em pauta para julgamento entre os dias 20 e 24 decorreram por esta Turma. mais que 48 horas. Indefiro, pois, a Brasília, 13 de abril de 1982 — petição de fls. 302. Publique-se. Soares Mufloz, Presidente e Relator. Brasília, 4 de março de 1982» (fls. 308). RELATORIO As razões do agravo regimental O Sr. Ministro Saores Mutloz: Vou deduzidas em telex autenticado, susler o despacho que deu ensejo ao tentam: agravo regimental: «Cyrene Canedo Estellita e ou«Vistos etc. tros, recorridos no RE n? 94.991-7RJ, dos quais o signatário e um Cyrene Canedo Estellita e oudos advogados, vem oferecer agratros, no RE n? 94.991-7, pedem, na vo regimental, via telex, contra o qualidade de recorridos, a declara- R.T.J. — 109 respeitável despacho publicado DJ onze corrente mês, com o que objetivam reinclusão processo em pauta, publicada que foi 20 novembro, sexta-feira, e julgado recurso terça-feira seguinte, dia 24. Mesmo contado o prazo minuto a minuto, o julgamento ocorreu, data venia, sem a antecedência legal e regimental, porque, a teor do art. 184, parágrafo 2? CPC e art. 1? 4, parágrafo 2?, RISTE", publicada a pauta numa sexta-feira, o prazo passou a fluir do primeiro minuto de segunda-feira, sem o decurso, portanto, de 98 horas até terçafeira seguinte, quando foi julgado, com inquestionável prejuízo dos recorridos em pretensão envolvente de centenas de antigos funcionários. Na hipótese improvável de não ser reconsiderado o despacho de Vossa Excelência, requerem os recorridos, ora agravantes, seja o seu recurso submetido à colenda Turma, para os fins de direito» (fls. 310). o relatório. VOTO Sr. Ministro Soares Munoz (Relator): Adotei no despacho agravado a orientação do precedente nele citado, da Segunda Turma, no RE n? 93.230, do qual foi relator o eminente Ministro Moreira Alves. Entretanto, anteriormente, a Primeira Turma, ainda na vigência do Código de Processo Civil de 1939, decidiu: Ementa: Prazo. Publicada a pauta numa sexta-feira, o prazo começaria a correr da segunda-feira seguinte. Audiência realizada na terça-feira pela manhã. Contrariedade aos preceitos do art. 874, § 4?, do Código de Processo Civil, e da 223 Lei n? 1.408/51. Recurso extraordinário conhecido e provido». (RTJ 34/453). Foi relator do acórdão o eminente Ministro Evandro Lins, acompanhado pelo não menos eminente Ministro Pedro Chaves, que, em seu voto, observou: «A publicação se fez, no Diário Oficial, numa sexta-feira, que só tem circulação aos sábados, quando o foro está fechado» (ob. cit. pág. 455). Ficou vencido o saudoso Ministro Cândido Motta, o qual entendeu que o edital foi publicado em tempo útil, vale dizer, no dia 26-4-63, e o julgamento realizou-se a 30-4-63. A hipótese desse precedente não é idêntica á espécie sub judice, pois o Diário da Justiça circulou no mesmo dia em que foi editado — sexta-feira. Mesmo assim, tenho que a melhor orientação é a propugnada pelos agravantes Não há dúvida de que o prazo por horas é contado de minuto a minuto, mas menos verdade não é que sobre ele incide, como em todos os prazos processuais, a regra do § 2? do art. 184: «Os prazos somente começam a correr a partir do primeiro dia útil após a intimação.» Comentando o art. 552, § 1?, do Código de Processo Civil, Sergio Bermudes pondera que, na contagem do prazo de quarenta e oito horas, a regra do § 2? do art. 184 deve ser considerada (vol. VII, pág. 374). De seu turno Pontes de Miranda, interpretando o art. 874; § 4?, do Código de 1939, dispositivo que corresponde ao art. 552, § 2?, do atual, escreveu: «O art. 874, § 4?, exige que entre a data da publicação do edital e a sessão do julgamento medeiem, pelo menos quarenta e oito horas. Portanto, que, entre a meia noite 224 R.T.J. — 109 do dia em que foi publicado o edi- sos no Tribunal. Mas, sem dúvida altal e o minuto em que começou o guma, esse lapso de tempo previsto, dia para o qual se marcou a sessão entre a noticia do julgamento e a sua e se realizou, hajam decorridas, realização, tem o objetivo certo de pelo menos, quarenta e oito horas permitir às partes o exercício da de(in. Coments. do Cód. de Proc. Civ. fesa no momento do julgamento do processo no Tribunal. A lei estabelede 1939, pág, 321, 2? ed.). medeie, no mínimo, o espaço art. 125, § 4?, do Código Civil, ce que 98 horas. Esse tempo de que cogiconsoante o qual «os prazos fixados de a lei não pode ser tratado sem a por hora contar-se-ão de minuto a ta aplicação da norma geral que o Cóminuto», não afasta, nos prazos pro- digo estabelece, para a fluência de cessuais, a incidência do § 2? do qualquer prazo, no interesse das parart. 184 do Código de Processo Civil, Assim sendo, aplicando o § 2? do já que este dispositivo não abre ne- tes. art. 184, à hipótese, e o § 1? do art. nhuma exceção, aplicando-se a qual- 552, ambos do CPC, há de se considequer espécie de prazo processual rar esse espaço de 48 horas, a partir (STF, RF 160/163 e 164). do primeiro dia útil após a publicaAnte o exposto, conheço da petição ção, contando-se o mesmo como prade fls. 310 como agravo regimental zo de defesa das partes. ao despacho de fls. 308, que, de seu turno, importou rejeição liminar do Assim sendo, a publicação da paupedido de fls. 302, como se fossem ta feita às sextas-feiras não viabiliza embargos declaratórios, e estes re- o julgamento do feito em sessão de cebo para anular o acórdão de fls. terça-feira. 282/301 e determinar que o recurso seja incluído novamente em pauta para julgamento pela Primeira TurEXTRATO DA ATA ma. RE n? 94.991-(AgRg-EDcI)-RJ — VOTO Rel.: Min. Soares Muãoz. Agtes.: Cyrene Canedo Estellita e outros. Sr. Ministro Néri da Sllveira: Sr. (Advs.: Vicente de Faria Coelho e Presidente. Também entendo que a outro). Litisconsortes: Esmeralda norma do art. 189, § 2?, do CPC, con- Marques de Barros e outros. (Advs.: soante à qual os prazos somente co- Waldemar Zveiter e outro) Ney Gomeçam a correr a partir do primeiro mes de Carvalho. (Adv.: Celso Gadia útil após a intimação, aplica-se à briel de Rezende Passos). Agdo.: Eshipótese de publicação das pautas tado do Rio de Janeiro. (Adv.: Ricarpara julgamentos, nos Tribunais, a do Cesar Pereira Lira). teor do que estabelece o art. 552, § 1?, do mesmo diploma legal. Sem Decisão: Conheceram do Agravo dúvida, o prazo previsto nesse dispo- Regimental, para receber os Embarsitivo tem o objetivo de garantir às gos Declaratórios, e anular o acórpartes o acompanhamento do feito dão, determinando que o recurso setambém no instante em que ele deva ja incluído novamente em pauta paser julgado. E prazo que se reserva ra julgamento por esta Turma. Deciàs partes para a defesa de seus inte- são unânime. resses. Sua natureza não é recursal. Código vigente, como o anterior, Presidência do Senhor Ministro inscreve essa norma entre as que Soares Mufioz. Presentes à Sessão os dispõem sobre a ordem dos proces- Senhores Ministro Rafael Mayer, R.T.J. — 109 225 Néri da Silveira e Alfredo Buzaid — Brasília, 13 de abril de 1982 — Subprocurador-Geral da República,. Antônio Carlos de Azevedo Braga, Dr. Francisco de Assis Toledo. Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.046 — SP (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: João Vicale — Recorrida: Olga Ribeiro. Desquite. Casamento contraído sob regime de absoluta separação. Partilha de bens adquiridos pelo marido na constância do casamento. Coisa Julgada. Em anterior Julgado, referente ao desquite litigioso dos deman- dantes, que eram casados pelo regime da separação absoluta, foi negada a partilha dos bens pleiteada pela desquitanda, ao fundamento de que se tal partilha fosse admitida, estaria sendo negada vigência ao art. 256 do Código Civil. Em tal oportunidade foi expressamente decidido que não tinha a mulher direito de acionar seu ex-marido para exigir a partilha dos bens porventura adquiridos na constância do casamento e incorporados ao patrimônio daquele, embora sob o fundamento que teriam defluído do trabalho comum de ambos (sociedade de fato), pois não era possível admiti-ia na constância do casamento. Configura-se, assim, «coisa Julgada» a decisão quanto àquela impossibilidade, a impedir demanda, proposta pela ex-esposa, que vise exatamente a obter a partilha dos bens adquiridos na constância do casamento e que integrem o patrimônio do ex-marido. Recurso extraordinário conhecido e provido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, por sua Segunda Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, conhecer do recurso para lhe dar provimento. Brasília, 4 de outubro de 1983 — E:0cl Falcão, Presidente — Aldir Passarinho, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): O despacho que admitiu o recurso extraordinário, da lavra do ilustre Desembargador Henrique Augusto Machado ( fls. 393/397), bem esclarece a controvérsia e sobre ela disserta, verbis: «1. No desquite contencioso do casal João Vicale e Olga Ribeiro, esta pretendeu a partilha dos bens adquiridos na constância do casamento, embora contraído sob o regime de absoluta separação. Não obteve êxito, porque, em grau de recurso extraordinário, o Egrégio Supremo Tribunal Federal decidiu que a partilha não podia ser feita, sob pena de ser negada vigência ao artigo 256 do Código Civil. 2. Pela presente ação ordinária, ela reclamou a partilha por mea- 226 R.T.J. — 109 ção dos bens adquiridos em nome dele e pelo esforço comum de ambos. A sentença de fls. 211/217 reconheceu a ocorrência de coisa julgada e em conseqüência julgou extinto o processo, nos termos do artigo 267, V, do Código de Processo Civil. Em grau de apelação, porém, essa decisão foi reformada pelo acórdão de fls. 259/260 que afastou a coisa julgada e determinou proferisse o MM. Juiz sentença de mérito, tendo o acórdão de fls. 371/373 rejeitado os embargos infringentes contra ele opostos. Inconformado, João Vicale interpôs o recurso extraordinário de fls. 378/382 com fundamento nas letras a e d do permissivo constitucional, insistindo na ocorrência da coisa julgada e alegando que o acórdão vulnerou o artigo 153, 3?, da Constituição Federal, e violou os artigos 256 e 259 do Código Civil, pondo-se em divergência, ainda, com a referida decisão da Suprema Corte, de fls. 117/145. A recorrida ofereceu impugnação (fls. 384/391). 5. A questão não se apresenta de fácil solução, diante das divergências que suscitou perante o Egrégio Supremo Tribunal Federal. Assim é que o eminente Relator, Ministro Thompson Flores, embora não admitisse a partilha no desquite em casamento contraído sob o regime de absoluta separação de bens, ressalvava à mulher o direito de reclamar meação nos bens havidos pelo esforço comum» ( fls. 122), com o que se pôs de acordo o eminente Ministro Leitão de Abreu, pois Sua Excelência não conhecia do recurso por admitir a razoabilidade da interpretação dada pelo acórdão recorrido, aduzindo: «Acresce que a decisão recorrida perfilha, também, a jurisprudência da 4? Cãmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, segundo a qual o enunciado da Súmula n? 377 teve em mira, sem dúvida, a existência de aquestos que procedessem do esforço conjugado dos nubentes, da sua colaboração comum, do seu trabalho harmônico e não dos que proviessem da atividade isolada de um deles. O esforço comum é, pois — reza esse julgado — que imprime aos aquestos a força de sua comunicabilidade» ( fls. 140). Do lado oposto, entretanto, se colocaram os eminentes Ministros Moreira Alves (fls. 123/124) e Cordeiro Guerra (fls. 127/130), que se opuseram à ressalva, sob o fundamento de que, com ela, se criaria precedente sério, como «... o de se admitir sociedade de fato entre casados pelo fato de serem casados» (fls. 123). 6. Aliás, ficou assim redigido o resultado desse julgamento: «Conheceram do recurso, contra o voto do Ministro Leitão de Abreu, e lhe deram provimento, unanimemente, sendo que os Ministros Relator e Leitão de Abreu o faziam com ressalva à recorrida» ( fls. 144). E esta é a ementa consignada: «Casamento. Regime de absoluta separação de bens, estipulado através de pacto antenupcial. Desquite. A determinação do acór- R.T.J. — 109 dão recorrido de proceder-se à partilha dos bens adquiridos na constância da sociedade conjugal importa em negação de vigência do disposto no artigo 256 do Código Civil. Recurso extraordinário conhecido e provido» (fls. 145). 7. Diante de tais manifestações, convém se manifeste a Suprema Corte, agora admitida a alegação de ter o acórdão recorrido contrariado o apontado dispositivo da Constituição Federal e negado vigência aos indicados artigos do estatuto civil. Defiro, em conseqüência, o processamento do recurso extraordinário.» 2. Nesta Suprema Corte, pronunciou-se a douta Procuradoria-Geral da República, em parecer do Dr. Mauro Leite Soares, no sentido de que seja conhecido e provido o recurso extraordinário, a fim de que, reformado o acórdão recorrido, fique mantida a decisão singular, que reconheceu a ocorrência de coisa julgada (fls. 424/429). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): O parecer da douta Procuradoria-Geral da República é do seguinte teor: «3. O Tribunal a quo, por maioria, reformou a sentença de primeira instância, para, afastada a coisa julgada, ser a causa apreciada pelo mérito, entendendo que, fls. 259, verbis: «Não ocorreu, todavia, coisa julgada, considerando-se que, embora idênticas as partes e a coisa pedida, outra era a causa petendi, uma vez que, naquela ação, não se cogitou da aquisição de bens pelo esforço comum dos 227 cônjuges ou do locupletamento ilícito, matéria do Direito das Obrigações, mas, tão-somente, de mera partilha de bens em execução de ação de desquite, matéria essa relativa a Direito de Familia. Além disso, o despacho saneador, transitado em julgado, já havia rejeitado, implicitamente, a questão da coisa julgada.» Interpostos embargos infringentes, estes foram rejeitados por maioria. Apoiado nas letras a e d do permissivo constitucional, alega o recorrente contrariedade ao art. 153, § 3?, da Constituição e violação dos arts. 256 e 259 do Código Civil. Com efeito, em ação de desquite movida pela recorrida contra o recorrente, em grau de Recurso Extraordinário, n? 80.496. assim se expressou, fls. 54, o Eminente Relator Ministro Thompson Flores: «Conheço do recurso e lhe dou provimento, ressalvando à recorrida o direito de acionar o recorrente para exigir a partilha dos bens porventura adquiridos na constância do casamento e incorporados a seu patrimônio, os quais teriam defluído do trabalho comum de ambos (sociedade de fato)» Ocorre que o recurso foi provido sem a ressalva feita pelo Ministro Thompson Flores. Declarou o Eminente Ministro Moreira Alves, fls. 56, verbis: «Entendo, como V. Exa., que o recurso deve ser conhecido e provido. Com efeito, em face do art. 259, conjugado com o art. 258, parágrafo único, do Código Civil, é indubitável que o regime da separação de bens se distingue em regime de separação convencio- 228 R.T.J. - 109 nal e regime de separação legal, também denominado regime de separação obrigatória. Por outro lado, da simples leitura do art. 259, verifica-se que o regime da separação convencional se subdivide em regime de separação absoluta e regime de separação convencional relativa. Absoluta, quando constar do pacto antenupcial que os nubentes estipularam a separação de todos os bens passados, presentes e futuros; relativa, quanto ao pacto não constar essa cláusula de exclusão de bens futuros ou adquiridos posteriormente ao casamento. Até aí, estou de inteiro acordo com V. Exa., porém, divirjo de V. Exa., quando faz a ressalva relativa à sociedade de fato, porque, com isso, se criará um precedente que, a meu ver, é sério: o de se admitir sociedade de fato entre casados pelo fato de serem casados. A ressalva feita por V. Exa., vincula, ao Direito de Família, a possibilidade do estabelecimento de sociedade de fato, tão-só pelo vínculo matrimonial. Dirá V. Exa. que, com isso, estarei cometendo uma iniqüidade, porque dou mais à concubina do que à mulher legítima. Não, não estou por esta razão: dá-se à concubina participação — e daí a tese que sempre defendi —, não em decorrência de suas relações pessoais com o concubino, mas pela circunstância de que, com base no direito das obrigações, se estabeleceu entre eles uma sociedade de fato.» 8. De igual, vale transcrever passagem do voto do Eminente Ministro Cordeiro Guerra, fls. 61, verbis: ((Na hipótese, ficou bem convencionado um regime de sepa- ração absoluta de bens. Verificase, pela simples convenção, que os contratantes eram pessoas alertas, de condição social esclarecida, porque dispunham para o futuro com todas as cautelas. Assim, é de se presumir que não tenham feito uma negociação promíscua e comum; é uma presunção que decorre do contrato. Para mim, não é possível uma sociedade de fato entre cônjuges. No casamento existem relações patrimoniais que são reguladas pelo regime de bens, e a conjugação de esforços não deflui da affectio societatis, mas do dever de mútua assistência, da colaboração, e a administração do marido decorre, não de uma administração societária, mas da própria lei, como chefe da sociedade conjugal, etc. ...» No mesmo sentido, fls. 76, o voto do Eminente Ministro Xavier de Albuquerque. Assim, com acerto reconheceu a sentença de fls. 211/217 a ocorrência de coisa julgada. Opondo-se a ela, como o fez o acórdão recorrido, desatendeu ao principio erigido em garantia individual na própria Constituição, art. 153, § 39. 11. Isto posto, somos pelo conhecimento e provimento do recurso extraordinário a fim de, reformando o acórdão recorrido, mantida ser a sentença inicial.» Entendo eu, de acordo com o parecer que vim de ler, que se encontra caracterizada a coisa julgada material, a impedir a propositura de nova ação — que é a presente — e que, afinal, sob roupagem nova repetiria o pedido inicial, tanto é certo que, R.T.J. — 109 assim compreendendo, os votos majoritários eliminaram a ressalva contida no voto do Sr. Ministro Thompson Flores. 229 E o Sr. Ministro Xavier de Albuquerque, a seu turno, expressamente enunciou, no seu voto: «De sorte que, não só conheço do recurso e lhe dou provimento, coNão foi apenas pela fundamentamo excluo, à semelhança do emição do acórdão que se teria como hanente Ministro Moreira Alves, a vendo sido examinada a questão. E ressalva que o eminente Ministro que a expressa ressalva do voto do Leitão de Abreu houve por bem Sr. Ministro Thompson Flores, seconsignar.» (fls. 76) gundo a qual poderia a então recorrida «acionar o recorrente para exiDeste modo, indiscutivelmente a gir a partilha dos bens porventura decisão majoritária expressamente adquiridos na constância do casa- excluiu a ressalva posta no voto do mento e incorporados ao seu patriMinistro Thompson Flores, e ao mônio, os quais teriam defluído do Sr. qual aderira o Sr. Ministro Leitão de trabalho comum de ambos (socieda- Abreu. Assim sendo, ficou decidido de de fato)» foi também expressa- que não se encontrava aberta a pormente inadmitida nos votos de três ta à demandante para pleitear partiIlustres integrantes da assentada jul- lha de bens porventura adquiridos gadora, os Srs. Ministros Moreira na constância do casamento e incorAlves, Cordeiro Guerra e Xavier de porados ao patrimônio do marido. Albuquerque. Pelo exposto, conheço do recurso e Na verdade, o ilustre Ministro Mo- lhe dou provimento, para reformar o reira Alves assim concluiu o seu vo- v. acórdão e restabelecer a r. sentença de primeiro grau. to: E o meu voto. «Dou provimento ao recurso e data venta de V. Exa. inadmito a EXTRATO DA ATA ressalva, dizendo mesmo que não é possível haver sociedade de fato RE 95.046-SP — Rel.: Min. Aldir entre cônjuges, dentro do lar» (fls. Passarinho. Recte.: João Vicale 65). (Advs.: Mozart Leite de Sá e outro). Recda.: Olga Ribeiro ( Advs.: AntôO Sr. Ministro Cordeiro Guerra, nio de Arruda Sampaio e outros). após as considerações que expendeu Decisão: Conhecido e provido nos e já acima lidas, declarou expressamente, ao concluir seu pronuncia- termos do voto do Ministro Relator. Unânime. mento: Presidência do Senhor Ministro «Eles contrataram a absoluta se- Djaci Falcão. Presentes á Sessão os paração de bens, não pode haver Senhores Ministros Moreira Alves, comunicabilidade desses bens. Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorAssim, ressalvando meu ponto Geral da República, Dr. Mauro Leite de vista, louvando o espírito cria- Soares. dor do Eminente Ministro Leitão de Abreu, não adiro a tal entendimenBrasília, 4 de outubro de 1983 — to com a devida vênia. Também Hélio Francisco Marques, Secretáexcluo a ressalva » (fls. 75) rio. R.T.J. — 109 230 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.078 — BA (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Rede Ferroviária Federal S.A. — Recorrido: José Campos Cerqueira. Reclamação trabalhista. Funcionário público federal, cedido à RFFSA, não optante pelo regime da CLT, com o advento da Lei n? 6.184/1974, e devolvido à União. Exercendo o mandato de Vereador, pretende complementação salarial, a partir de outubro de 1975. Não cabe à Justiça do Trabalho o processo e Julgamento do feito, por não ser esta competente para Julgar reclamação, de natureza salarial e assento estatutário, formulada por funcionário público federal, Já devolvido à União. Recurso extraordinário conhecido e provido, para cassar a decisão, por incompetência da Justiça do Trabalho. ACÓRDÃO cargo», porque exerce a vereança remunerada, mas não foi dispensaVistos, relatados e discutidos esdo do serviço pela Empresa, que tes autos, acordam os Ministros da lhe toma o trabalho a baixo preço. Primeira Turma do Supremo TribuNão sendo funcionário público na nal Federal, na conformidade da ata reclamada, o seu pedido deve ser de julgamentos e notas taquigráficas, tratado segundo a filosofia que insà unanimidade, conhecer do recurso pira a tutela trabalhista». extraordinário e lhe dar provimento, Inconformadas com a decisão, innos termos do voto do Ministro- terpuseram as partes recurso de reRelator. vista, que, inadmitido pelo despacho Brasília, 15 de outubro de 1982 — de fls. 18/19, sob o argumento de falRafael Mayer, Presidente — Néri da ta de fundamentação, ensejou agraSilveira, Relator. vo de instrumento interposto pela reclamada, ao qual a 2? Turma do TriRELATORIO bunal Superior do Trabalho, em votação unânime, negou provimento, O Sr. Ministro Néri da Silveira afirmando o acórdão de fls. 44/45, (Relator): Julgando procedente, em que a decisão do Tribunal Regional parte, recurso ordinário interposto «foi tomada à luz da prova e com bapor José de Campos Cerqueira, fun- se em fatos», não vislumbrando, ascionário cedido à Rede Ferroviária sim, o julgamento ultra petita, alegaFederal S.A., em que postulou paga- do pela RFFSA. Não prosperandD os mento de diferenças e complementa- embargos opostos (fls. 53), interpôs ção salarial; em face de exercer o a Empresa agravo regimental, a que mandato eletivo de Vereador à Câ- negado provimento por unanimidade mara Municipal de Rio Real — BA, (fls. 62). o Tribunal Regional do Trabalho da Irresignada, recorre, extraordina5? Região sintetizou seu entendi- riamente, a Rede Ferroviária Fedemento nesta ementa (fls. 7): ral S.A com apoio nos arts. 119, «Não tem aplicação, no caso, o art. Item III, alínea a, da Constituição 99, 2? da C. Federal, porque o Federal, no qual, sustentando a inEmpregado pleiteia «complemen- competência da Justiça do Trabalho, tação», jamais a «remuneração de por envolver funcionário público, R.T.J. tem como vulnerados os arts. 110, 121, item I, e 142, da Constituição Federal, bem assim os arts. 99, 2?, 104, §§ 1 ? e 3?, e 153, 2?, da mesma Lei Fundamental. Indeferido o processamento do apelo excepcional, pelo despacho de fls. 81, subiram os autos a este Tribunal, por ter sido provido o Agravo de Instrumento n? 82.306-9/BA, em apenso. Manifestando-se no feito, opinou a douta Procuradoria-Geral da República pelo conhecimento e provimento do Recurso Extraordinário, por entender incompetente a Justiça do Trabalho para apreciar a espécie (fls. 95/97). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): A ilustrada ProcuradoriaGeral da República fundamentou seu entendimento, acerca da incompetência da Justiça do Trabalho, na espécie, matéria questionada, desde a instância inaugural, como se vê da sentença, nos seguintes termos ( fls. 96/97): «4. Parece-nos procedente a impugnação derradeira quanto à incompetência da Justiça especializada. 5. Os fatos são certos no referente á condição jurídica de servidor público cedido do ora recorrido. O acórdão de fls. 7 diz da sua condição de funcionário público federal, cedido e devolvido ao órgão público de origem; a recorrente, às fls. 14, transcreve documento que ratifica o alegado anteriormente e o mesmo acórdão regional, fls. 9, declara que o servidor cedido deve ser tratado como empregado subordinado, não se lhe aplicando o Estatuto dos Funcionários Públicos da União. Ora, à evidência, não é a devolução do servidor público cedi- 109 231 do aos quadros do Ministério dos Transportes que caracteriza a condição de servidor público. Tal condição preexistente é garantida pela lei, em favor do próprio servidor cedido, conforme Lel n? 3.115/57. 6. Portanto, não se trata de reexame de matéria de fato, mas, sim, de sua qualificação jurídica, conforme acentuou o Egrégio Supremo Tribunal no RE n? 91.647, Relator Ministro Moreira Alves, sessão de 26-6-81: «Esse exame, com relação à competência, não pode ser afastado do âmbito de apreciação desta Corte, pela circunstáncia de a Justiça Trabalhista, contra fato certo que ela própria reconhece, dar a ele qualificação Jurídica diversa da inequivocamente correta, para vislumbrar relação de emprego, e, portanto, decidir a questão como estando situada no âmbito de sua jurisdição constitucional, que é restrito às relações realmente de trabalho». 7. Finalmente, ao lado do invocado RE n? 91.652, Relator Ministro Xavier de Albuquerque, temos, dos mais recentes, o acórdão proferido no CJ n? 6.322, Relator Ministro Néri da Silveira, ementado no DJ de 6-8-82, declarando a incompetência da Justiça do Trabalho para a causa em exame, envolvendo reclamação de funcionário público federal cedido à recorrente». No Julgamento do CJ n? 6.322-9 — São Paulo, o Plenário decidiu, em aresto de que fui relator, assim ementado: «Competência. Funcionários públicos federais, cedidos à RFFSA, não optantes pelo regime da CLT, com o advento da Lei n? 6.184, de 1974, e devolvidos á União. Suas irresignações e reclamações, decorrentes das conseqüências da nãoopção prevista 'na indicada Lei, 232 R.T.J. — 109 vo e do quadro a que pertence, não devem ser processadas e julinclusive, se for o caso, para efeigadas pela Justiça do Trabalho, to de sua posterior redistribuimas, sim, pela Justiça Federal. As 00». conseqüências da não-opção pelo regime da CLT, que alegam lhes Por conseguinte, comprovada a foram desfavoráveis, não resultanão integração dos reclamantes ram de ato da RFFSA, mas da inaos quadros da reclamada, não cidência de norma de índole estalhes será lícito por certo postular tutária regente do serviço público direitos trabalhistas junto à Justida União. ça Especializada, por não ser esta competente para julgar reclamaConflito conhecido, para declarar a competência da Justiça Fedeção formulada por funcionário púral». blico federal que, ex vi legis, voltou a ser colocado à disposição da No caso concreto, a «complemenUnião Federal, com quem efetivatação salarial» pretendida consiste mente mantém vínculo de ordem na diferença entre a remuneração estatutária, e não contratual». recebida na Câmara Municipal e a retribuição de seu cargo, como serPor sua vez, o Decreto n? 75.478, vidor público federal. de 14 de março de 1975, determinou Com efeito, a Lei n? 6.184, de 1974, que a RFFSA deveria enviar ao DASP a relação do pessoal não inteestabeleceu, em seu art. 3?, verbis: grado, como no caso do reclamante, «Os funcionários que permanece- para posterior redistribuição. rem no regime estatutário poderão Reza,sua efetivamente, seu art. 3?: concorrer à inclusão no Plano de «Efetivada a integração, as entidaClassificação de Cargos de que trades a que se refere este Decreto ta a Lei n? 5.645, de 10 de dezemencaminharão ao Orgão Central do bro de 1970, para o preenchimento Pessoal Civil da Administração Fede claros na lotação dos Ministéderal — SIPEC, a relação: rios, órgãos integrantes da Presidência da República e Autarquias I — OMISSIS; Federais, na conformidade das II — do pessoal não integrado, normas legais e regulamentares com indicação do cargo respectipertinentes». vo e do quadro a que pertence, Por sua vez, o Decreto n? 75.478, inclusive, se for o caso, para efeide 14 de março de 1975, impôs á reto de sua posterior redistribuiclamada a obrigação de enviar ao Ção». DASP a relação do pessoal não inTratando-se, no caso, de completegrado, como no caso dos reclamantes, para sua posterior redis- mentação salarial, a partir de oututribuição. E o que se lê do seu art. bro de 1975, bem de ver é que tal já sucedeu, na vigência do Decreto n? 3?: de 14 de março de 1975, não «Efetivada a integração, as enti- 75.478, ao reclamante postular o dades a que se refere este Decre- cabendo que pretende, perante a Justiça esto encaminharão ao Orgão Cen- pecializada do Trabalho, por não ser tral do Pessoal Civil da Adminis- esta competente para julgar reclatração Federal — SIPEC, a rela- mação formulada por funcionário ção: público federal, que, ex vi legis, reI— tornou à disposição da União FedeII — do pessoal não integrado, ral, com quem efetivamente mancom indicação do cargo respecti- tém vínculo de índole estatutária. 4 R.T.J. — 109 Do exposto, conheço do recurso e lhe dou provimento, para reconhecer a incompetência da Justiça do Trabalho, na espécie. EXTRATO DA ATA RE n? 95.078-BA — Rel.: Min. Néri da Silveira. Recte.: Rede Ferroviária Federal S.A. (Advs.: Osmar Fialho e outros). Recdo.: José Campos Cerqueira (Advs.: Rubem José da Silva e outros). Decisão: Conheceu-se do recurso extraordinário e se lhe deu provi- 233 mento, nos termos do voto do Ministro Relator. Decisão unânime. Presidiu o julgamento o Ministro Rafael Mayer, na ausência, ocasional, do Ministro Soares Mufloz. Presidência do Senhor Ministro Soares Mutioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 15 de outubro de 1982 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 95.149 (AgRg) — DF (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão. Agravante: Benedito Felipe Ráuen — Agravado: União Federal Ministério Público Militar. Provimento. em comissão, do cargo de Subprocurador da Justiça Militar. Lei n? 6.788/80, reestruturadoras das carreiras do Ministério Público da União. O desdobramento de cargo de carreira e cargo de provimento em comissão, por integrante da carreira do Ministério Público, como prevê a lei impugnada, que reestruturou as carreiras do Ministério Público da União, não afronta o texto constitucional, que se refere ao Procurador-Geral da República como Chefe do Ministério Público e ao ingresso na carreira mediante concurso de provas e findos. Não se apresenta relevante a argüição de afronta ao § 1? do art. 95 da Lel Magna. Inviabilidade do recurso extraordinário. Correto o despacho que o inadmitiu. Agravo regimental improvido. ACÓRDÃO RELATÓRIO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros componentes da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, à unanimidade de votos e na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, em negar provimento ao agravo regimental. O Sr. Ministro Djaci Falcão: Cuida-se de agravo regimental, oportu- Brasília, 3 de fevereiro de 1984 — Djaci Falcão, Presidente e Relator. namente interposto, contra o seguinte despacho: «Lê-se no despacho que inadmitiu o recurso extraordinário: Trata-se de Mandado de Segurança impetrado por Benedito Felipe Ráuen, Procurador de Primeira Categoria da Justiça Militar, contra ato do Senhor Mi- R.T.J. — 109 234 nistro da Justiça, que nomeou o Procurador de Primeira Categoria da Justiça Militar, Dr. Antonio Brandão Andrade, para exercer o cargo, em comissão, de Subprocurador-Geral da Justiça Militar. Sustenta, na inicial, o seguinte: «No tocante à aplicação do art. 14 da Lei n? 6.788/80, é flagrante a sua inconstitucionalidade, porque não observados os princípios que regem a matéria. Assim é que o artigo 95, § 1?, da Constituição vigente declara que os membros do Ministério Público da União, do Distrito Federal e dos Territórios ingressam nos cargos iniciais de carreira, mediante concurso público de provas e de títulos, ao mesmo tempo em que o artigo 2? da Lei n? 1.341, de 30 Jan. 51, estabelece que os cargos do Ministério Público da União, salvo o de Procurador-Geral, serão providos em caráter efetivo e constituem carreira, nos termos desta lei, o que vale dizer que o cargo de Subprocurador-Geral constitui o final da carreira no Ministério Público.» Com o advento do Decreto-lei n? 267, de 28 de fevereiro de 67, estatuiu-se que: «Art. 4?. O cargo de Subprocurador-Geral será provido em caráter efetivo, por escolha do Presidente da República, dentre os Procuradores que hajam ingressado na carreira e nela contem mais de dez anos de serviço, situação essa que não foi alterada, a não ser no tocante ao provimento do cargo, por força das disposições da Lei n? 5.843, de 6 de dezembro de 72, isto é, Art. 8?. E criado um cargo em comissão de Subprocurador-Geral junto à Justiça Militar, cujo provimento é condicionado à vacância do atual cargo efetivo de igual denominação, que se extinguirá quando vagar, o que não alterou o principio estabelecido pelo parágrafo único do mencionado artigo 2? da Lei Orgânica do Ministério Público, in verbis: Parágrafo único. O cargo de Subprocurador-Geral da República será provido por merecimento, dentre os procuradores colocados nos dois primeiros terços da categoria imediatamente anterior por ordem de antigüidade, principio esse que vinha norteando todos os provimentos de cargos semelhantes do Ministério Público da União. De outra parte, o artigo 14 da Lei n? 6.788/80, em que se arrimou a nomeação, apenas declara que Art. 14. Os cargos de Subprocurador-Geral da República, Subprocurador-Geral da Justiça Militar e Subprocurador-Geral da Justiça do Trabalho são de provimento em co-missão, cujo exercício é deferido exclusivamente a Procuradores da República, Procuradores Militares e Procuradores do Trabalho, no âmbito da respectiva instituição, o que em nada alterou o Processo de provimento dos cargos, que continua sendo o estabelecido pela Lei Orgânica do Ministério Público e pelo Decreto-lei n? 267/67, que tanto R.T.J. — 109 se ajusta aos cargos de provimento efetivo, assim como aos de provimento em comissão. Assim, foi nomeado para o cargo de Subprocurador-Geral o Procurador Humberto A.S. Ramos com fundamento na citada Lei n? 1.341/51 e no art. 4? do Decreto-lei n? 267/67, combinado com o art. 8? da Lei n? 5.843/72, em que se observa que a forma de provimento mudou, mas não alterou os procedimentos da escolha, quando era Diretor do DAJ do Ministério da Justiça o hoje eminente Ministro Washington Bolívar, o que vale dizer que aquela Secretaria de Estado reconheceu a vigência da legislação, que não poderia ter sido revogada pela recente Lei n? 6.788/80, cujo artigo 14 em nada a contraria. Todavia, para a nomeação do Procurador Paulo Duarte Fontes e agora para a do Procurador Antonio Brandão Andrade, o Exmo. Sr. Ministro de Estado da Justiça houve por bem omitir o referido enquadramento, sem que a Constituição e as leis vigentes o autorizassem a tanto. Na verdade, dispõe o art. 153 do Estatuto Supremo que todos são iguais perante a lei (* 1?), ao mesmo tempo em que o Código Civil declara que a lei posterior revoga a anterior quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior (Lel de Introdução, artigo 2?, 1?), de modo que o tratamento desigual e a infração aos dispositivos constitucionais e legais, sem sombra de dúvida, prejudicaram o Impetrante.» (fls. 4/6) 235 Foi determinada a citação do Dr. Antonio Brandão de Andrade, litisconsorte necessário. Solicitadas as informações, prestou-as a ilustre autoridade ministerial, afirmando, em síntese, a inexistência de direito líquido e certo a amparar a pretensão do impetrante e a ausência de vicio de ilegalidade no ato atacado. O Plenário desta Corte indeferiu o mandado, conforme acórdão assim ementado: «O Direito Constitucional, Administrativo e Processual Civil — Mandado de Segurança — Legitimação ativa — art. 95 1? da Constituição Federal — art. 14 da Lei n? 6.788/80 — Delegação de Competência para nomear — Subprocurador-Geral da Justiça Militar — provimento em comissão requisitos. Tem legitimidade para impetrar mandado de segurança que apóia o pedido em direito de concorrer á escolha, para efeito de nomeação para o cargo. Precedentes do Alto Pretorio. Conciliabilidade da Lei n? 6.788/80 com o 1? do art. 95 da Constituição Federal já que o requisito da estruturação em carreira pode ser satisfeito com sua limitação às duas categorias atualmente existentes. Constitucionalidade do art. 14 referido, no ponto em que erige o cargo de SubprocuradorGeral da Justiça Militar em cargo em comissão ou em confiança. Validade da delegação de competência ao Ministro da Justiça, para promover a nomeação respectiva (art. 81, 236 R.T.J. — 109 VIII, da Constituição Federal; Decreto n? 83.840, de 14-8-79, letra a art. 1?). Os pressupostos de escolha reclamados pelo impetrante foram previstos em lei que estabelecia o provimento em caráter efetivo para o cargo em foco — ( art. 4? do Decreto-lei n? 267/67 e art. 2? da Lei n? 1.341/51, sendo que hoje o provimento o é em comissão, dispondo o último diploma legal, no particular, apenas, que o exercício de cargo é privativo dos Procuradores Militares, sem outras exigências (Lei n? 6.786). O cargo em comissão, no direito brasileiro, sempre se qualificou pelas notas de livre nomeação e exoneração, a teor de função gratificada, sendo assim, ontologicamente incompatível com mecanismos de seleção rígidos e múltiplos, próprios à investidura efetiva. Segurança indeferida.» Dessa decisão manifestou o impetrante embargos de declaração, os quais foram recebidos, nos seguintes termos: *Direito Constitucional e Processual Civil — SubprocuradorGeral da Justiça Militar — art. 95 e I 1? da Constituição Federal — art. 14 da Lei n? 6.788/80. O pensamento central que anima o aresto embargado, tomado por maioria, é o de que a estruturação em carreira referida no § 1? do art. 95 enfocado pode conter-se validamente no escalonamento em duas categorias, como está na Lei n? 6.788/80, não impedindo a norma constitucional que, no quadro do Ministério Público da União, coexistam cargos de carreira e isolados de provi- mento em comissão, esses nos moldes dos de SubprocuradorGeral da Justiça Militar. O cargo de SubprocuradorGeral da Justiça Militar integra o quadro do Ministério Público da União — conceito mais abrangente do que o de carreira e o seu titular — enquanto comissionado, permanece membro da instituição, embora afastado do cargo que compõe uma das categorias da carreira. No contexto do acórdão embargado, o quadro do Ministério Público da União — junto à Justiça Militar, — desdobra-se em cargos de carreira — Procuradores Militares de Primeira e Segunda Categoria — e cargos isolados de provimento em comissão — Subprocuradores-Gerais, uns e outros membros da instituição estrutura que não afronta o art. 95 e seu § 1? da Constituição Federal. A alusão a desdobramentos das _tarefas do Procurador, Geral da República com a criação de tribunais superiores, a partir desta Corte — a primeira a contar com Subprocurador-Geral — vale como argumento, independente de texto normativo, como simples decorrência da realidade do Poder Judiciário, entre nós. Receberam-se os embargos, nesses termos» (fls. 232). Inconformado, recorre extraordinariamente o impetrante com fundamento no art. 119, III, alínea a da Constituição Federal, argumentando que o aresto recorrido teria violado a Constituição, uma vez que seu art. 95, § 1?, é conflitante com o art. 14 da Lei n? 6.788/80: sustenta, ainda, negativa de vigência do art. 7?, III, da Lei n? 1.341/51. R.T.J. — 109 Improcede o apelo, pois se me afigura correta a exegese oferecida pelo aresto recorrido aos dispositivos legais aplicáveis á espécie, resultante do seguinte pronunciamento do Relator do feito, Ministro Sebastião Reis: «Postas as dúvidas levantadas nesses termos, reportando-me ao voto que proferi como Relator, detendo-me nos itens transcritos extraídos da ementa respectiva, declaro que o pensamento central que anima o aresto embargado, tomado por maioria, é o de que a estruturação em carreira referida no § 1? do art. 95 enfocado pode conter-se validamente no escalonamento em duas categorias, como está na Lei n? 6.788/80, não impedindo a norma constitucional que, no quadro do Ministério Público da União, coexistam cargos de carreira isolados de provimento em comissão, esses nos moldes dos de Subprocurador-Geral da Justiça Militar. A luz do raciocínio desenvolvido no aresto embargado, concluiu-se que o cargo de Subprocurador-Geral da Justiça Militar integra o quadro do Ministério Público da União — conceito mais abrangente do que o de carreira — e o seu titular, enquanto comissionado, permanece membro da Instituição, embora afastado do cargo que compõe uma das categorias da carreira. Aceitas tais premissas, não há exigir-se texto expresso da Lei Maior autorizando o provimento em comissão para o cargo em apreço, e a alusão a desdobramento das tarefas do Procurador-Geral da República com a criação de tribunais superiores, a partir desta Corte 237 — a primeira a contar com a Subprocuradoria-Geral — vale como argumento, independentemente de texto normativo, como simples decorrência da realidade do Poder Judiciário, entre nós. A luz desses pressupostos, declaro que, no contexto do acórdão embargado, o quadro do Ministério Público da União, junto à Justiça Militar, desdobra-se em cargos de carreira — Procuradores Militares de Primeira e Segunda Categoria — e cargos isolados de provimento em comissão — Subprocuradores-Gerais — uns e outros membros da instituição, estrutura que não afronta o art. 95 e seu § 1? da Constituição Federal» (fls. 228/229). Demais a tese ora posta pela recorrente já foi objeto de apreciação neste Tribunal, no julgamento do MS n? 90.247, tendo sido indeferido o wrlt. Pelo exposto, e tendo em vista mesmo o princípio enunciado na Súmula n? 400 do Pretório Excelso, não admito o recurso. Publique-se. Brasftia, 16 de agosto de 1983 — Ministro Lauro Leitão, VicePresidente (fls. 117/121 ). A Interpretação dada pela maioria, repelindo a argüição de inconstitucionalidade do art. 14 da Lei n? 6.788/80, por afronta ao art. 95 e seu § 1? da Lei Maior, não propicia o recurso extraordinário, eis que não se me afiguram relevantes as considerações desenvolvidas pelo ilustre recorrente. O desdobramento de cargo de carreira e cargo de provimento em comissão, por integrante da carreira do Ministério Público, como prevê a lei impugnada, que reestruturou as carreiras do Ministério Público da União, 238 R.T.J. — 109 não afronta o texto constitucional, Quando a constituição quis que que se refere ao Procurador-Geral um membro do Ministério Públida República como Chefe do Minisco fosse nomeado em comissão, tério Público e ao ingresso na carfoi expressa (CF art. 95, caputreira mediante concurso de provas voto em anexo) (fls. 139/141).» e títulos. Diante do exposto nego seguiVOTO mento ao presente agravo» (fls. 135/138). O Sr. Ministro Djaci Falcão (RelaDiz textualmente o agravante: tor): A irresignação do agravante reside na circunstância de que o art. 14 «2. Inobstante ser o controle de constitucionalidade das leis do da Lei n? 6.788/80 seria inconstitucioPais exercido de modo difuso, pela nal, haja vista que o art. 2? da Lei n? relevância da matéria em discus- 1.341/51 (Lei Orgânica do MP) estasão, e muito menos pelas conside- belece que apenas o cargo de rações tecidas pelo Agravante, é Procurador-Geral é de provimento que o recurso extraordinário deve- em comissão, o que equivaleria a diria subir ainda que para melhor zer que o de Subprocurador-Geral constitui-se em final de carreira no exame. Público e, como conse3. Com efeito, sem prejuízo da Ministério seu provimento dar-se-ia admiração e respeito ao eminente qüência, caráter efetivo e não em comisRelator, o Agravante se permite em são, como decidiu o TFR. A decisão ponderar que o desdobramento de causa teria ofendido o § 1? do cargo de carreira e cargo de provi- em mento em comissão, diferentemen- art. 95 da Lei Maior. Não vejo como prover o presente te do entendimento de V. Exa., afronta e agride não só o § 1? do agravo. Lè-se no art. 2? da Lei Orgâartigo 95 da CF, como, de resto, to- nica do Ministério Público: da a estrutura em carreira do Mi«Art. 2?. Os cargos do Ministénistério Público. rio Público da União, salvo os de Procurador-Geral, serão providos Se a constituição permite no artigo 95 a nomeação, em comissão, em caráter efetivo e constituem carreira, nos termos desta lei.» do Procurador-Geral da República, excepcionando a estrutura em carPor sua vez, dizia o seu parágrafo reira do Ministério Público estabele- único: cida em seu parágrafo primeiro, é «Parágrafo único. O cargo de evidente que aquele dispositivo, Subprocurador-Geral da República por conter exceção à regra, deve será provido por merecimento,. ser interpretado restritivamente, dentre os Procuradores colocados consoante traduz o preceito clássinos dois primeiros terços da cateco exceptiones sunt strictssimoe goria imediatamente anterior por interpretationes — interpretam-se ordem de antigüidade.» as exceções estritamente (Carlos Acontece que sobreveio a Lei n? Maximiliano, In Hermenêutka e Aplicação do Direito, Forense, 9? 6.788, de 25-5-80, reestruturadora das carreiras do Ministério Público da ed. 2 tir., pág. 225). União, junto à Justiça Comum, do Não fosse isto suficiente, basta- Trabalho e Militar, e estabeleceu em ria trazer a afirmação do eminente Ministro Carlos Mário Venoso, seu art. 14: «Art. 14. Os cargos de Subque, sintética, mas, inteligenteprocurador-Geral da República, mente, exaure a questão: R.T.J. — 109 Subprocurador-Geral da Justiça Militar e Subprocurador-Geral da Justiça do Trabalho são de provimento em comissão, cujo exercício é deferido exclusivamente a Procuradores da República, Procuradores Militares e Procuradores do Trabalho, no âmbito da respectiva instituição.» Desse modo, ficaram revogadas as disposições em contrário. Ademais, conforme ressaltei no despacho agravado: «O desdobramento de cargo de carreira e cargo de provimento em comissão, por integrante da carreira do Ministério Público, como prevê a lei impugnada, que reestruturou as carreiras do Ministério Público da União, não afronta o texto constitucional, que se refere ao Procurador-Geral da República como Chefe do Ministério Público e ao ingresso na carreira mediante concurso de provas e títulos» ( fls. 138). 239 Portanto, não se apresenta relevante a alegação de ofensa ao § 1? do art. 95 da Lei Magna. Ante o exposto, nego provimento ao agravo. EXTRATO DA ATA Ag. 95.149 (AgRg)-DF — Rel.: Min. Djaci Falcão. Agte.: Benedito Felipe Ráuen ( Advs.: Maurício de Campos Bastos e outro). Agda.: União Federal Decisão: Negado provimento ao Agravo Regimental. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros. Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Brasília, 3 de fevereiro de 1984 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.173 — PR (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná — Recorrido: João Soares dos Santos. Farmácia. Oficiai de Farmácia Provisionado. Transferência do estabelecimento para outra localidade. Lei n? 5.991, de 1973, art. 57, e Decreto nt 74.170/1974. O art. 57, da Lei 5.991/1973, não teve sua vigência negada, pelo acórdão, que, no caso concreto, admitiu a transferên- cia referida, por não regular a matéria. Também não se verifica, na espécie, negativa de vigência do art. 6?, da Lei n? 3.820/1960. Precedente da Segunda Turma, no RE 93.800. Recurso extraordinário não conhecido. julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, não conhecer do recurVistos, relatados e discutidos estes so extraordinário. autos, acordam os Ministros da PriBrasília, 15 de março de 1983 — meira Turma do Supremo Tribunal Soares Mufioz, Presidente — Néri da Federal na conformidade da ata de Silveira, Relator. ACÓRDÃO R.T.J. — 109 240 RELATÓRIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): O ilustre Ministro Jarbas Nobre, Vice-Presidente do colendo TFR, ao admitir o recurso extraordinário do Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná, assim resumiu a espécie e decidiu (fls. 64/66): «A Primeira Turma deste Tribunal confirmou a sentença de primeira instância em acórdão assim ementado: «Prático de farmácia provisionado. Pedido de transferência do estabelecimento indeferido pelo Conselho Regional. Ilegalidade do ato.» O Conselho Regional de Farmácia, irresignado, recorre extraordinariamente com apoio na alínea a do permissivo constitucional, alegando contrariedade ao disposto nos arts. 6? da Lei n? 3.820, de 1960, e 57 da Lei n? 5.991, de 1973. A Lei n? 3.820, de 1960, que criou o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Farmácia, enumera, em seu art. 6?, as atribuições do Conselho Federal, dentre as quais «expedir resoluções, definindo ou modificando atribuições ou competência dos profissionais de Farmácia, conforme as necessidades futuras.» Com amparo nesse diploma legal, o Conselho Federal de Farmácia baixou a Resolução n? 138, de 1977, que, em seu art. 4?, dispõe: «No caso de provisionamento resultante da Lei n? 3.820/60 e de licenciamento pelo Decreto n? 20.877, de 1931, o CRF fará anotação pertinente ao direito de locomoção, direito esse que só alcança os provisionados por estas duas proposições legais.» O art. 57 da Lei n? 5.991, de 1973, só admite e autoriza o provisiona- mento de práticos e oficiais de farmácia «para assumir a responsabilidade técnica do estabelecimento» de que é proprietário em 11 de novembro de 1960, vale dizer, de determinado estabelecimento que não se confunde com empresa ou firma que constitui uma universalidade de bens, sem existência autônoma e sem personalidade jurídica. Do que se vê do texto, a lei ao se referir a «estabelecimento», como que restringiu a responsabilidade do não diplomado relativamente a farmácia de sua propriedade na data indicada, e não a outra qualquer atividade, esta privativa de farmacêutico titulado. Chego a esta conclusão com base no 1? do citado artigo 57 a dizer que o «prático e o oficial de farmácia nas condições deste artigo não poderão exercer outras atividades privativas da profissão de farmacêutico.» Não esquecer que a própria Lei n? 5.991, de 1973, define o estabelecimento: «unidade da empresa destinada ao comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos» (art. 4?, item IX). Ao prever o licenciamento de estabelecimento sob a responsabilidade técnica de prático ou oficial de farmácia, o 3?, art. 15 da Lei em citação, é expresso em esclaMcer que a exceção se faz «em razão do interesse público, caracterizada a necessidade da existência de farmácia ou drogaria, e na falta de farmacêutico». No caso de mudança do estabelecimento para local diverso do previsto no licenciamento, o artigo 28 impõe condições, a saber, licença Prévia do órgão sanitário competente, e atendimento das normas exigidas para o licenciamento. R.T.J. — 109 Do que se pode observar, o provisionamento se faz em razão do interesse público, e a conferência da responsabilidade técnica a não titulado constitui um favor e, não, um direito. Na espécie, o interessado não tem direito de transferir o seu estabelecimento para outra localidade, como deseja. Isto posto, dou seguimento ao recurso.» Sem novas razões das partes, pediu a União Federal, como assistente do Conselho, o conhecimento e provimento do recurso (fls. 70/71). A douta Procuradoria-Geral da República, entretanto, opinou no sentido do não conhecimento do recurso (fls. 76/79). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): A douta ProcuradoriaGeral da República assim examinou a controvérsia, nos limites do apelo extremo (fls. 76/78): «1. O acórdão impugnado confirmou a segurança concedida pela decisão de primeiro grau, com a ementa assim redigida, fls. 54: «Prático de farmácia provisionado. Pedido de transferência do estabelecimento indeferido pelo Conselho Regional. Ilegalidade do ato.» Em recurso extraordinário, pela letra a, alega o Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná negativa de vigência ao disposto nos arts. 6? da Lei n? 3.820/60 e 57 da Lei n? 5.991/73. O caso versado é idêntico ao decidido pela Egrégia Segunda Turma no RE n? 93.800, Relator Ministro Moreira Alves, RTJ 101/811, verbis: 241 «Alega-se negativa de vigência do artigo 57 da Lei n? 5.991/73, que reza: «Art. 57. Os práticos e oficiais de farmácia, habilitados na forma da lei, que estiverem em plena atividade e provarem manter a propriedade ou co-propriedade de farmácia em 11 de novembro de 1960, serão provisionados pelo Conselho Federal e Conselhos Regionais de Farmácia para assumir a responsabilidade técnica do estabelecimento. O prático e o oficial de farmácia nas condições deste artigo não poderão exercer outras atividades privativas da profissão de farmacêutico. O provisionamento de que trata este artigo será efetivado no prazo máximo de noventa dias, a contar da data de entrada do respectivo requerimento, devidamente instruido.» Como se vê, o dispositivo em apreço não trata, expressamente, da questão em causa: a de saber se os provisionados a que ele alude podem mudar seu estabelecimento para município diverso do que se encontravam quando do provisionamento. Para concluir pela afirmativa, a decisão recorrida lançou mão da interpretação sistemática não só da Lei n? 5.991/73, mas também do Decreto n? 74.170/74. Não há, portanto, como pretender-se tenha sido negado vigência (o que equivale à violação literal) ao art. 57 da Lei n? 5.991/73, que não regula a hipótese. Ademais, a interpretação sustentada pelo acórdão recorrido e que foi também a interpretação acolhida na AMS n? 77.444 do mesmo Tribunal Federal de Recursos, relator o Sr. Ministro 242 R.T.J. — 109 Amanho Benjamin, sendo que, neste caso, a própria Subprocuradoria-Geral da República se manifestou no mesmo sentido, retificando opinião anterior — a interpretação sustentada pelo acórdão recorrido, repito, é, pelo menos, razoável, motivo por que se aplica à espécie a Súmula n? 400.» 4. Também, no citado art. 6? da Lei n? 3.820/60 não se trata expressamente da questão em causa mas tão-somente de conferir ao Conselho Federal de Farmácia competência para expedir resoluções relativas ao exercício das atividades dos profissionais de farmácia.» O voto condutor do aresto recorrido, da lavra do ilustre Ministro Peçanha Martins, anotou, com propriedade (fls. 52): «Nego provimento ao recurso para confirmar a sentença. 2 que o ato impugnado não podia escudarse em Resolução, mas na lei reguladora da espécie, a de n? 5.991, de 1973, que não restringe, como bem dito no parecer da Procuradoria da República, a atividade do Provisionado á localidade onde se estabeleceu pela primeira vez. Não sendo bem sucedido, ou lhe sendo possível continuar no local, não está impedido de transferir-se, dependendo, a transferência, exclusivamente, do órgão competente para autorizá-la, de âmbito estadual.» Acerca da mesma matéria, como já referido, a Segunda Turma, no RE n? 93.800-MG, Relator o Senhor Ministro Moreira Alves, decidiu em aresto, com a seguinte ementa (RTJ, 101/811): «Oficial de farmácia ou prático de farmácia provisionado com base no artigo 57 da Lei n? 5.991/73. Admissibilidade da mudança de seu estabelecimento para outro município. Interpretação razoável (Súmula n? 400). Recurso extraordinário não conhecido.» Alega-se negativa de vigência do art. 57 da Lei n? 5.991/73, que reza: «Art. 57. Os práticos e oficiais de farmácia, habilitados na forma da lei, que estiverem em plena atividade e provarem manter a propriedade ou co-propriedade de farmácia em 11 de novembro de 1960, serão provisionados pelo Conselho Federal e Conselhos Regionais de Farmácia para assumir a responsabilidade técnica do estabelecimento. 1 ?. O prático e o oficial de farmácia. nas condições deste artigo não poderão exercer outras atividades privativas da profissão de farmacêutico. I 2?. O provisionamento de que trata este artigo será efetivado no prazo máximo de noventa dias, a contar da data de entrada do respectivo requerimento, devidamente instruído.» Bem de ver é, assim, que o art. 57, da Lei if 5.991/1973, não regula a situação examinada no acórdão, como, de resto, nesse sentido, já decidiu a Segunda Turma, no RE n? 93.800. Não cabe, pois, ver, na decisão recorrida, negativa de vigência da norma legal em apreço. Por igual, a disposição do art. 6?, da Lei n? 3.820/1960, não resulta violada, In casu, porque não negou o acórdão tenha o CFF competência para expedir resoluções, o que se há de entender, nos limites da lei. Do exposto, não conheço do recurso extraordinário. EXTRATO DA ATA RE 95.173-PR — Rel.: Min. Néri da Silveira. Recte.: Conselho Regional R.T.J. — 109 de Farmácia do Estado do Paraná. (Advs.: Rubens de Barros Brisolla e outra). Recdo.: João Soares dos Santos. (Adv.: Rubens Corrêa). Decisão: Não se conheceu do recurso extraordinário. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os 243 Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 15 de março de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 95.367 ( AgRg) — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Soares Mufloz Agravante: Drastosa S.A. Indústrias Têxteis — Agravado: Yves Saint Laurent S.A.R.L. Registro de marca. Ausência de colidência ou de contusão entre as marcas das litigantes. Ação anulatória do Registro julgada improcedente. Recurso extraordinário não admitido. Agravo desprovido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Primeira Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao agravo regimental. Brasília, 3 de fevereiro de 1984. — Soares Mufloz, Presidente e Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Soares Mutioz: Eis o teor do despacho ora agravado: «O presente agravo é idêntico ao AI 95.364, cujo seguimento indeferi pelo seguinte despacho: «Como bem salientou o despacho denegatório do recurso extraordinário, «o fundamento da decisão atacada, no tocante á não colidência e à distinção das marcas discutidas, resul- tou de questões debatidas pelas partes, sem violação, pois, dos dispositivos invocados, respeitantes ao efeito devolutivo da apelação. Finalmente, quanto ao arrimo na letra d, não se demonstrou qualquer divergência do padrão com a decisão deste Tribunal». ( fls. 67). Nego, pois, seguimento ao agravo de instrumento». Publique-se Brasília, 24 de novembro de 1983.» (fls. 156) Nas razões do agravo regimental, a agravante sustenta que «a irresignação fundamental está no julgamento extra petita efetuado pelo acórdão recorrido, visto que a agravada não tratou da não colidência, ou da distinção entre as marcas, e sim discutiu aspectos semânticos do patronímico. Essa matéria foi devidamente impugnada nos embargos declaratórios e aflorada no Recurso Extraordinário. Somente enveredando por essa questão não suscitada na apelação, Pode o acórdão recorrido decidir 244 R.T.J. — 109 por outro caminho, não aquele discutido na causa. Por isso, a afirmação do despacho agravado sobre o resultado das questões debatidas terminar na não colidência das marcas, é apenas um aspecto que surge do acórdão visto isoladamente, sem relação com a apelação. Assim, evidencia-se o flagrante prejuízo à Agravante, não acusada de rever matéria de fato, mas sim assentada numa decisão que trata a não colidência como a razão principal da sua conclusão. Espera-se, que o Eminente Relator, preciso e sempre arguto nas suas decisões, reconsidere o despacho, para permitir melhor exame dessa questão.» (fls. 158/159) E o relatório. vel da controvérsia. Não verificada a primeira e reconhecida a segunda, a ação tinha de ser julgada improcedente, como o foi, pois as marcas não são idênticas quanto aos respectivos dizeres; uma, a da agravante, é St Laurent, enquanto que a da agravada é Yves Saint Laurent. Nego seguimento ao agravo regimental. EXTRATO DA ATA Ag. 95.367 (AgRg)-RJ — Rel.: Min. Soares Mufloz. Agte.: Drastosa S/A Indústrias Têxteis (Advs.: Waldemar do Nascimento, Roberto Rosas e outros). Agdo.: Yves Saint Laurent S.A.R.L. (Advs.: João Guilherme de Moraes Sauer e outros). Decisão: Negou-se provimento ao VOTO agravo regimental. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro O Sr. Ministro Soares Muiloz (Relator): Não assiste razão à agravan- Soares Mut-1oz. Presentes à Sessão os te. A impugnação da marca adotada Senhores Ministros Rafael Mayer, pela agravada teve por pressuposto Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e a eventual confusão que ela poderia Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral estabelecer com a marca anterior da República, Dr. Francisco de Asregistrada em nome da impugnante. sis Toledo. Portanto, a colidência entre as marBrasília, 3 de fevereiro de 1984 — cas e a distinção entre elas consti- Antônio Carlos de Azevedo Braga, tuem matéria implícita e inarredá- Secretário. AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 95.521 (AgRg) — RS (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda. Agravantes: Jorge Surreaux e outros — Agravado: Juiz Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 4? Região. — Constitucional. Magistrados. Previdência social. Decisão que considerou inviável a pretensão de afastar a aplicabilidade, aos aposentados, do parágrafo único do art. 32 da LOMAN, a estabelecer que a irredutibilidade dos vencimentos dos magistrados não impede os descontos fixados em lei, em base igual à estabelecida para os servidores públicos, para fins previdenciárlos. Recurso extraordinário denegado. Confirmação. R.T.J. — 109 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Segunda Turma, na conformidade da ata do Julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em negar provimento ao agravo regimental. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Mui Falcão, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Dedo Miranda: Neguei seguimento ao agravo, mediante o seguinte despacho: «Opõe-se recurso extraordinário à decisão proferida pelo Colendo Tribunal Superior do Trabalho em mandado de segurança, que não encontrou ferimento a direito de magistrados aposentados na imposição de desconto previdenclário, instituído depois de suas aposentadorias. 245 mento integral de proventos, sem descontos previdenciários, segundo decorreria do art. 165, XVI, da Constituição, pois o aposentado não se acha em nenhuma das posições ai mencionadas. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): Improcede o agravo regimental. Válido o parágrafo único do art. 32 da LOMAN, ao estabelecer que a irredutibilidade dos veodmentos dos magistrados não impede os descontos fixados em lei, em base igual á estabelecido para os servidores públicos, para fins previdenciários. A disposição abrange, evidentemente, os aposentados, que se beneficiam de certas prestações da previdência social, tal como na atividade. Nego provimento ao agravo. EXTRATO DA ATA Alega-se contrariedade aos arts. 113, III; 153, §§ 3? e 4?; e 165, XVI, Ag. 95.521 (AgRg)-RS — Rel.: todos da Constituição Federal. Min. Decio Miranda. Agtes.: Jorge Surreaux e outros (Advs.: Márcio Parece evidente, todavia, que ne- Gontijo e outros). Agdo.: Juiz Presinhuma disposição constitucional ou dente do Tribunal Regional do Tralegal autoriza construção interpre- balho da 4? Região. tativa segundo a qual os magistrados aposentados ficassem definitiDecisão: Negado provimento ao vamente livres de contribuir para agravo regimental. Unânime. a assistência médica previdenciária que lhes é prestada e que, além Presidência do Senhor Ministro de tradicional, encontra reconheci- Moei Falcão. Presentes à Sessão os mento expresso no art. 32 da Lei Senhores Ministros Moreira Alves, Orgânica da Magistratura Nacio- Dedo Miranda, Aldir Passarinho e nal. Francisco Rezek. SubprocuradorIsto posto, nego seguimento ao Geral da República, Dr. Mauro Leite Soares. agravo.» (fls. 63) Vêm os recorrentes com agravo regimental, em que sustentam a Incolumidade de seu direito ao recebi- Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Hélio Francisco Marques, Secretário. — 109 246 EMBARGOS NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.857 — RJ (Tribunal Pleno) Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda. Embargante: Orlando Orfei — Embargada: Miralda Bonora Orfei. Processual Regimental. Desquite no Brasil. Divórcio na Itália. Recurso extraordinário na ação de desquite, convertida em ação de separação judicial, cumulado com pedido de alimentos. Relacionamento temporal da sentença de desquite com a homologação da sentença de divórcio, proferida no estrangeiro. Embargos não conhecidos, por Indemonstrada a divergência de julgados. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em não conhecer dos embargos. Brasília, 16 de novembro de 1983 — Cordeiro Guerra, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Decio Miranda: Nos autos deste recurso extraordinário, defrontam-se duas sentenças relativas à separação dos cônjuges que ora figuram como embargante e como embargada: uma de alimentos e separação judicial, resultante de ação proposta pela mulher no Brasil, em 5-7-77, fls. 2/4, e outra de divórcio, pronunciada na Itália em ação ajuizada pelo marido, com sentença que veio a ser homologada pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal, confirmada em julgamento de agravo regimental em 9-4-81. Na ação que teve curso no Brasil, desenvolvida nos presentes autos, apreciou-se, por último, recurso extraordinário do marido, em acórdão de que foi relator o eminente Ministro Rafael Mayer, cujo relatório e voto de mérito passo a transcrever: «O Sr. Mligatrà Rafael Mayer: Ação de allmelitoS e de desquite, esta última convertida em ação ordinária de separação judicial, propostas por Miralda Sonora Orfei contra Orlando Orfei, foram julgadas procedentes em primeiro grau a 22-2-78. A apelação interposta veio a ser julgada em 6-11-79, após várias prorrogações para o cumprimento de rogatórias, na Itália, formulando o Apelante, inclusive, o pedido de extinção do processo, por ter sido julgado definitivamente pelo Tribunal de Torrara, conforme certidões, o divórcio dos cônjuges. A apelação foi improvida, dizendo o acórdão em sua parte substantiva: Não tem procedência o pedido formulado pelo apelante a fls. 217, de extinção do processo, nos termos do art. 267, incisos V e VI do Código de Processo Civll. Efetivamente, o divórcio dos litigantes foi decretado por Tribunal italiano, tendo a sentença transitado em julgado. Acontece que ela não foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal e assim, nenhum efeito produz no Brasil O art. 483 do Cód. de Proc. Civil é claríssimo . «a sentença proferida por tribunal estrangei- R.T.J. — 109 ro não terá eficácia no Brasil senão depois de homologada pelo Supremo Tribunal Federal» Aliás, a preliminar de incompetência de justiça brasileira, em virtude do processo de divórcio existente na Itália, foi repelida fundamentadamente no saneador, do qual não houve recurso. Quanto ao mérito, o dr. Juiz decidiu com acerto e fez justiça ao considerar o R., ora apelante, cônjuge culpado. Os depoimentos das testemunhas ouvidas na Itália, e constantes da carta rogatória, não infirmaram a maciça prova, colhida na audiência de instrução e julgamento. O próprio apelante, no depoimento pessoal confessou o seu concubinato com D. Herta Herling, dizendo «que tem D Herta como sua companheira desde fins de 1968, vivendo com ela como se casados fossem». O incidente ou melhor, o escãndalo a que aludem as testemunhas que depuseram na carta rogatória, não é negado pela própria apelada em seu depoimento pessoal, onde fala que «de certa feita, na cidade de Trento, na Itália, a depoente, no dia de páscoa, ao ver Orlando Orfei em companhia de sua amante Herta Herling, irritou-se e jogou fora da carreta onde habitava Orlando, as roupas do marido». • Esse procedimento, multo embora revele uma criatura de temperamento exaltado, é perfeitamente justificável, não sendo possível condenar uma mulher sofrida, desprezada pelo marido, que ao vê-lo publicamente com a amante, não pode controlar a revolta de que se acha possuída. Em face do exposto, mantêm a sentença de 1? grau, pela sua 247 própria fundamentação, que fica integrando este julgado, na forma regimental. Houve embargos de declaração do sucumbente, que foram rejeitados e tidos por protelatórios, cominada multa. Vem o recurso extraordinário pela letra d, com a demonstração de dissídio no tocante á produção de efeitos, no Brasil, de sentença estrangeira de divórcio ainda não homologada (RE n? 51.906) e pela letra a, invocando negativa de vigência do art. 90 do CPC, pois não há litispendência quando intentada a ação, mas há quando Julgada. Houve argüição de relevância que não foi conhecida. Indeferido o extraordinário formou-se o Agravo de Instrumento n? 82.684, que me foi distribuído a 12-6-81. Logo o Agravante fez juntada da certidão do julgamento pelo plenário, em Agravo Regimental, a 9-4-81, da homologação da sentença de divórcio das partes. Mandei, então processar o recurso extraordinário para melhor exame. Em suas razões de recurso, o Recorrente insiste em que se julgue extinto o processo, reconhecendose como coisa julgada a sentença italiana de seu divórcio. O recurso foi com vista à Procuradoria-Geral da República, vindo com parecer pelo não conhecimento em razão do valor da causa. E o relatório.» ( fls. 362/4) Voto O Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator): De certo modo, o fato superveniente retirou substãncia ao recurso interposto. Mas, de um modo ou de outro, se denuncia a sua inviabilidade. A não-litispendência, em competência internacional, definida pelo art. 90 do 248 R.T.J. CPC, que se invoca na petição de recurso, não foi versada no acórdão recorrido senão que o foi a coisa julgada pretensamente emergente de sentença estrangeira. De qualquer modo, a interpretação do art. 90 do CPC, contra o qual ora se insurge o Recorrente, é o mesmo que o beneficiou na homologação da sentença estrangeira por ele requerida. Por outro lado, dissídio jurisprudencial não se demonstra com os paradigmas trazidos à colação, pois sequer indicada a existência de condições de identificação ou semelhança das situações em confronto. A matéria de relevância que realmente existe é a pertinente às implicações da homologação da sentença italiana que decreta a cessação dos efeitos civis do casamento que fora contraído na Itália. Dai o pleito último do Recorrente de que se reconheça a coisa julgada para decretar-se a extinção do processo. Mas a decisão recorrida é de todo correta pois não se pode tomar em consideração o trânsito em julgado na Itália, sem que tenha eficácia no Brasil. Entretanto, correta a proposição do Recorrente de que a todo tempo é alegável a coisa julgada, a sua alegação no tocante à ocorrência de sua homologação não pode ser versada, pois a regra não se aplica ao extraordinário, pois não estaria preqüestionada, como se vê da elucidativa ementa do ERE n? 87.879, julgado à unanimidade, pelo Pleno, sendo Relator o eminente Ministro Cunha Peixoto: «Coisa julgada não preqüestionada perante as instâncias ordinárias. Embora, em principio, possa a coisa julgada ser argüida a todo tempo perante qualquer instância, ou mesmo ser reconhecida de oficio, excetua-se da amplitu- 109 de da regra geral a via recursal extraordinária, vez que, nos termos da Constituição, este recurso, por sua natureza, pressupõe sempre o preqüestionamento da matéria ventilada na petição do apelo. Embargos de divergência conhecidos mas rejeitados.» Diante do exposto, não conheço do recurso.» (fls. 366/7) A esse acórdão opõe o marido embargos de divergência, nos quais, além de sublinhar que a peculiaridade do caso recomenda o acolhimento do recurso, alega divergência com o acórdão do RE n? 66.128, relator o saudoso Ministro Barros Monteiro, proferido pela lt Turma em composição totalmente diversa daquela que prolatou o acórdão ora embargado. Nesse padrão de divergência, diz o embargante, assegurou-se a prevalência, em qualquer tempo, e por declaração ex officio, da cousa julgada. Ei-lo, no trecho abaixo transcrito: «Militando, pois, em favor da recorrente, a coisa julgada, que pode ser reconhecida em qualquer fase do processo, mesmo de oficio, como se tem entendido, conheço do recurso e lhe dou provimento, para restabelecer a sentença de fls. 41/43.» (fls. 381 medio) Tal afirmação, acrescentou o embargante, foi feita a despeito de se perceber, seja pela leitura do relatório, seja pela leitura do voto do saudoso Ministro Barros Monteiro, que a então recorrente não alegara a existência de cousa julgada na petição de recurso extraordinário, vindo a ser proclamada exclusivamente pela consideração de que pode ela «ser reconhecida em qualquer fase do processo, mesmo de ofício como se tem entendido». (fls. 381 fine). R.T.J. — 109 Por último, acrescenta o embargante que a peculiaridade do caso recomenda o acolhimento dos seus embargos de divergência, eis que, se na data da interposição do recurso extraordinário não estava definitivamente homologada a sentença Italiana de divórcio, tal requisito logo após se completou. Por outro lado, na decisão dos presentes embargos ante a peculiaridade do caso, é de esperar que o Supremo Tribunal os acolha, dado que a cousa julgada se apresenta como Jus superveniens e o art. 462 do Cód. Proc. Civil determina que seja o fato novo tomado em consideração. (fls. 383). E assim resumem sua pretenção os embargos de divergência: «Demonstrou-se que a decisão recorrida preqüestionou o problema da coisa julgada; mostrou-se que o eg. Supremo Tribunal Federal, não raras vezes, conhece do recurso extraordinário por outro fundamento que não o invocado; demonstrou-se que o acórdão embargado divergiu do v. acórdão proferido no julgamento do RE n? 66.128 e que, no caso, tratando-se de jus superveniens, provindo de uma decisão do eg. Supremo Tribunal e tratando-se de coisa julgada, devem os presentes embargos , ser conhecidos e recebidos para o fim de declarar extinta a ação de separação proposta pela embargada contra o embargante.» (fls. 384) E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Dedo Miranda (Relator): O Supremo Tribunal Federal julgou em face do acórdão local que rejeitara a alegação de cousa julgada, precisamente porque, ao tempo de sua prolação, ainda não se consti- 299 tuira tal cousa julgada, a decorrer de futura e apenas imaginada homo- logação da sentença estrangeira. Esse acórdão local negara até mesmo a litispendência, antecedente necessário do trânsito em julgado. Basta conferir-lhe o texto. Em embargos de declaração, disse, com efeito, a instância ordinária: «Os presentes embargos não merecem acolhida, pois inexiste obscuridade ou omissão no acórdão. acórdão pronunciou-se sobre a coisa julgada, atendendo a requerimento do apelante, na petição de fls. 217, em que invocava até o disposto no art. 267, inciso VI do Código de Processo Civil. Reconheceu-a inexistente na espécie, com suporte no art. 483 do Código de Processo Civil, pois a decisão que julgara procedente a ação de divórcio na Itália, não fora homologada pelo Colendo Supremo Tribunal Federal. próprio embargante proclama agora a juridicidade do acórdão recorrido. E da conclusão certa extrai um argumento disparatado: se não há coisa julgada, há litispendência. Não lhe assiste a mínima razão. A litispendência já havia sido rejeitada anteriormente no Juizo de 1? grau, que no despacho saneadór, do qual não houve recurso é portanto ficou precluso, declarou a competência da justiça brasileira. art. 90 do Código de Processo Civil é de solar clareza: «a ação intentada perante Tribunal Estrangeiro não induz litispendência nem obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas». pedido feito na parte final dos embargos para que se sustem os efeitos e eficácia do acórdão, até que o Pretório Excelso decida so- 250 R.T.J. — 109 bre pedido de homologação do Tribunal de Bolonha, não tem fulcro jurídico.» (fls. 290) A cousa julgada decorrente de sentença estrangeira teria de aferir-se em relação ao acórdão na apelação — em cuja data já se viu que ela não existia — e não em face do acórdão do Supremo Tribunal Federal que apenas manteve aquele aresto local. O acórdão local havia de apanhar, e de fato assim procedeu, a alegação de cousa julgada no momento em que ele era proferido e é sobre a situação assim definida que atua o recurso extraordinário, o qual não haveria de provocar a apreciação de cousa julgada ulteriormente formada. Com efeito, o acórdão local é de 6 de novembro de 1979 (fls. 277) e a homologação da sentença italiana de divórcio pelo Supremo Tribunal Federal somente foi confirmada pela Corte a 9 de abril de 1981, em julgamento de agravo regimental contra o despacho presidencial homologatório (fls. 84/96 do apenso Agravo de Instrumento n? 82.684). Assim, somente após transitada em julgado aquela decisão de 9-4-81 (confirmatória da homologação da sentença estrangeira) é que decisão da Justiça Brasileira sobre a mesma relação jurídica, na fase ordinária do procedimento, haveria de encontrar o escolho da cousa julgada decorrente da sentença estrangeira. Ora, no caso dos autos, o julgamento da apelação na ação de desquite e alimentos foi pelo Tribunal de Justiça proferido, como já se disse, a 6-11-79. (fls. 274/277). E o acórdão do Supremo Tribunal Federal, no recurso extraordinário oposto a esse acórdão, é evidente que não haveria de apreciar o acórdão recorrido à luz do fato novo, da homologação da sentença estrangeira, superveniente à decisão então re- corrida, senão á vista do que se cuidara na decisão atacada e do que contra ela se irrogara no recurso extraordinário interposto a 7 de abril de 1980 (fls. 293 e segs.). Veja-se que, na data da interposição do recurso extraordinário sequer se pedira no Brasil a homologação da sentença italiana de divórcio, pois tal pedido não é mencionado em todo texto da petição de recurso extraordinário, datada de 7 de abril de 1980. (fls. 293/303). Afirmou-se, simplesmente, a litispendência entre a sentença brasileira e a sentença italiana ainda não homologada. (fls. 298 medio). É certo que, nas razões do recurso, já se diz, em agosto de 1981, ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal a sentença estrangeira. (fls. 336 fine e 338). Mas homologada após a interposição do recurso extraordinário, ao que se deduz da leitura dos autos. Inteiramente judiciosa, portanto, e adaptada às circunstâncias de fato da causa, a consideração nuclear do acórdão embargado, ao proclamar que não se pode tomar em consideração o trânsito em julgado na Itália, sem que tenha eficácia no Brasil. (fls. 366 fine). Certo, aduziu o acórdão embargado que, «correta a proposição do recorrente de que a todo tempo é alegável a coisa julgada, a sua alegação no tocante à ocorrência de sua homologação não pode ser versada, pois a regra não se aplica ao extraordinário, pois não estaria preqüestionada», como se via de ementa de certo acórdão, que citou. Em verdade, a primeira afirmação do acórdão embargado bastava sua conclusão, pois, ao proferir-se acórdão então recorrido (o de fls. 274/277), datado de 6-11-79, não estava comprovado trânsito em julgado de decisão brasileira que tivesse ho- R.T.J. — 109 mologado a sentença italiana decisão brasileira essa consubstanciado no Ag. Regimental na Sentença Estrangeira n? 2.727, em acórdão de 94-81. (fls. 84 dos apensos autos de Agravo n? 82.684). E o próprio Orlando Orfei, ora embargante, em petição 20-5-81, fls. 83 dos autos do Ag. n? 82.684 em apenso, reconheceu que, «homologada, como foi, pelo egrégio Supremo Tribunal Federal, a sentença estrangeira de divórcio (...) a decisão da Justiça italiana passou a se constituir coisa julgada». Em face de tais circunstâncias, nenhuma a divergência do acórdão embargado com o do RE n? 66.128, da 1? Turma a dizer que a cousa julgada pode ser reconhecida na instância do recurso extraordinário. Não tem fomento nos autos, data venta, tal divergência. Com efeito, atribui-se ao acórdão indicado como divergente o conhecer da exceção de cousa Julgada independentemente de preqüestionamento, por dizer o voto condutor, na sua conclusão: «militando (...) em favor da recorrente a coisa Julgada, que pode ser reconhecida mesmo de ofício, como se tem entendimento». (fls. 381 medio). Ora, essa afirmação, da possibilidade do reconhecimento ex officio da cousa Julgada, era inteiramente despicienda no caso que então se apreciava, pois nele a cousa Julgada decorria, segundo o voto do mesmo relator, de 'que, no recurso extraordinário, a parte interessada a alegara. Lê-se, com efeito, no relatório que conduziu ao aludido voto: «Por sua vez inconformada, contra essa decisão manifestou D. Elazir Machado de Souza o recurso extraordinário de fls. 87, em que, com apoio nas alíneas a e d, alega que dona Dorothy Monteiro de Castro, a que se refere o documento de 251 fls. 64, rescindiu o contrato de compra e venda, como se vê do documento de fls. 75/76, adquirindo outro imóvel do IPASE. Além disso, Já na AC n? 19.181, teve a recorrente assegurada a continuidade da locação do imóvel, como legítima sucessora do falecido, pelo próprio Tribunal Federal de Recursos, em acórdão que traz essa ementa: (e transcreve) .» (fls. -379 fine) Foi, portanto, em face dessa última alegação que se procedeu. Alegação de cousa Julgada: «Já na AC n? 19.181». A expressão «mesmo de ofício», expletivo e desnecessária, não compunha a fundamentação consistente do acórdão-padrão, de modo a ser utilizada na demonstração de divergência, pois em verdade não era ex officio que se procedia, mas em virtude de pedido expresso. Não caracterizada a divergência entre o acórdão embargado e o paradigma com que foi afrontado, deixo de conhecer dos embargos. E o meu voto. VOTO (PRELIMINAR) O Sr. Ministro Aldir Passarinho: Sr. Presidente, o aresto trazido como divergente, não se identifica com o ora embargado. Do voto do Ministro Relator do acórdão ora impugnado, vê-se este passo que bem mostra a dissemelhança entre os casos confrontados. «Indeferido o extraordinário, formou-se o Agravo de Instrumento n? 82.684, que me foi distribuído a 12-6-81. Logo o Agravante fez Juntada da certidão de Julgamento pelo Plenário, em Agravo Regimental, a 9-4-1981, da homologação da sentença de divórcio das partes. Mandei, então, processar o recurso extraordinário para melhor exame.» R.T.J. — 109 252 Ora, vê-se que só na oportunidade cio agravo regimental é que foi anexada aos autos a decisão referente à homologação da sentença estrangeira. Basta isso. Acompanho o eminente Relator, não conhecendo do recurso. EXTRATO DA ATA ERE 95.857-RJ — Rel.: Min. Decio Miranda. Embte.: Orlando Orlei (Advs.: José Gerardo Grossi e outros). Embda.: Miralda Bonora Orfei (Advs.: Mauro Attilio Mellone, Luiz Carlos Bettiol e outros). Decisão: Não se conheceu dos embargos, unanimemente. Falou pelo Embte. o Dr. José Gerardo Grossi. Impedido o Sr. Ministro Francisco Rezek. Presidência do Senhor Ministro Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Djaci Falcão, Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio Miranda, Rafael Mayer, Neli da Silveira, Oscar Corrêa Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, licenciado, o Senhor Ministro Alfredo Buzaid. Procurador-Geral da República, Professor Inocência Mártires Coelho. Brasília, 16 de novembro de 1983 — Alberto Veronese Aguiar, Secretário. AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 95.898 ( AgRg) — PR (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Agravantes: Importadora de Frutas Filomena Ltda. e outro — Agravado: Banco Central do Brasil. .10F. Operações de câmbio. Fato gerador. Decreto-lei n? 1.783/80 (art. 1?). Art. 63 do CTN. O Decreto-lei n? 1.783 institui a cobrança do I0F/câmbio, descrevendo a hipótese de incidência do tributo (art. 1?), pela remissão ao art. 63 do CTN, como a operação de câmbio consistente «na efetivação pela entrega de moeda nacional ou estrangeira, ou de documento que a represente, ou sua colocação à disposição do interessado, em montante equivalente à moeda estrangeira ou nacional entregue ou posta à disposição do interessado», pelo que ficam atendidos os preceitos constitucionais e o art. 114 do CTN. — Agravo regimental improvido. ACÓRDÃO RELATÓRIO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em conformidade com a ata de Julgamentos e notas taquigráficas, à unanimidade, em negar provimento ao agravo. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Soares Mtuloz, Presidente — Rafael Mayer, Relator. O Sr. Ministro Rafael Mayer: A Quinta Turma do Egrégio Tribunal Federal de Recursos deu provimento ao recurso voluntário e à remessa necessária para cassar a segurança concedida em primeiro grau em acórdão que tomou a seguinte ementa: «Tributário. IOF. Operações de Câmbio. GATT. ALALC. R.T.J. — 109 Conforme ficou assentado em decisão plenária na AMS n? 91.322SP (Matéria Constitucional), o Decreto-lei n? 1.783/80 não contrariou a Constituição. Houve inconstitucionalidade somente nas Resoluções do Banco Central do Brasil, determinando a cobrança do imposto no mesmo exercício de 1980. Outrossim, não há incompatibilidade entre o citado diploma ou Decreto-lei n? 1.844/80, que o modificou, e as normas do GATT ou da ALALC; nem o art. 98 do CTN pode restringir o poder do legislador constituído.» Em embargos de declaração, foi proposta a consideração da tese em que os impetrantes se dizem arrimados, referente à inexistência da lei instituidora e definidora do fato gerador do IOF sobre operações de câmbio, vindo o acórdão que os rejeitou com a seguinte ementa: 253 sim dos §§ 2? e 29 do art. 153 da Constituição, com a seguinte argumentação: «Há, então, imposição de que o fato gerador de cada tributo seja definido por lei ordinária Também sua instituição. Limitando-se, como visto, o Decreto-lei n? 1.783/80 a fixar a aliquota, insatisfeita se encontra a exigência do CTN. Tal insatisfação implica, à sua vez, necessariamente, na violação tanto do art. 97, III, do CTN, como na dos próprios parágrafos 2? e 29, do art. 153, da Constituição Federal. Ambos os preceitos constitucionais exigem lei anterior que determine o cumprimento de uma obrigação, sendo que o último (§ 29) se refere, especificamente, à previsão legal em matéria tributária, completamente diversa do principio da «Processual Civil. Embargos de anualidade. Declaração. IOF sobre Operações Na espécie, exclusivamente Rede Câmbio. solução do Recorrido (Banco CenEmbora no acórdão embargado tral), a de n? 619, de 29 de março voto do Relator não haja menção de 1980, é que procurou definir o explícita ao ponto trazido a debate fato gerador, o que, à evidência, como omissão, deles, no entanto, não satisfaz as normas legais em ressai ter sido repelida a objeção vigor.» em causa, seja por ter considerado item IV do art. 1? do Decreto-lei Indeferido o recurso extraordinán? 1.783/80 como descrição sufi- rio e interposto agravo de instruciente do fato imponivel e estatui- mento, a este neguei seguimento ção da base de cálculo e aliquota, se- com este despacho: ja por entender que o Plenário des«Em que pese a douta argumenta Corte, no leading case menciotação, a novidade do recurso exnado, quando apreciou precisatraordinário não colhe o pretendido mente hipótese sobre operações de suporte para lograr prosperidade. câmbio, ao dar pela legitimidade O acórdão recorrido bem enfrentou da cobrança do IOF, sob reserva a questão, ora enfatizada pela Redo princípio constitucional da antecorrente, ao ter como definido o farioridade, implicitamente reconheto gerador do IOF nos dizeres do ceu, por igual, a sua estruturação Decreto-lei n? 1.783 ao estabelecer adequada.» a incidência do imposto sobre operecurso extraordinário foi interrações de câmbio, o que represenposto pela letra a do permissivo ta, nessa dicção, um pressuposto constitucional, invocando contrariede fato inequívoco. Como diz dade ao art. 97, III, do CTN, bem asAmilcar Falcão, «a caracterização 254 R.T.J. — 109 do fato gerador nem sempre, entretanto, se faz extensivamente na Lei», limitando-se, muitas vezes, o «legislador a mencionar um simples nomens juris, ou a fazer uma enumeração meramente exemplif cativa, deixando ao intérprete a tarefa de, com base na norma, conceituar concretamente o fato gerador em cada caso» (In Fato Gerador da Obrigação Tributária, 4? ed. pág. 43). Ora, cabe dar à normá' do-Decreto-lei esse sentido interpretativo, notadamente sob o prisma sistemático, em conexão com o que dispõe o art. 63, II do CTN. Assim, a interpretação do acórdão recorrido soa razoável (Súmula n? 400). Desse modo, o argumento trazido pela Recorrente não tem força para afastar o tranqüilo entendimento desta Corte quanto à legitimidade e constitucionalidade do tributo em causa. Nego, pois, provimento ao agravo.» Daí o agravo regimental, com a insistência no argumento sobre «a inexistência de lei definindo o fato gerador do '0F/câmbio» (fls. 95). Mantido o despacho pelos seus fundamentos, vem o agravo a julgamento da Egrégia Turma. E o relatório. butária. E o meio pelo qual o legislador institui um tributo. Está criado um tributo, desde que a lei descreva a sua h. I., a ela associando o mandamento pague. Ao intérprete cabe reconhecer e identificar os diversos aspectos da h. i., aplicando as noções cientificas no seu trabalho exegético. Não incumbe ao legislador desdobrar sinoticamente, de forma didática, seus comandos e preceitos, esquematizando-os para facilitar o trabalho do hermeneuta» (Ob. cit., págs. 64/82). Por ai se vê que nem beneficia aos Agravantes a doutrina por eles preconizada, que, na verdade, assenta, como devido, no próprio conceito legal de fato gerador, dado pelo art. 114 do CTN, como a situação definida em lei como necessária e suficiente á sua ocorrência, originante da obrigação tributária. Ora, o Decreto-lei n? 1.783/80 não está sujeito a equívoco quanto á instituição do imposto sobre operações de câmbio, posto que determina claramente a sua cobrança, segundo as aliquotas que menciona, bem como faz perfeitamente identificável o fato gerador, ou hipótese de incidência, ou fato imponivel, ao dizer assim tributáveis as operações de câmbio, reVOTO metendo, adequadamente, para a sua configuração, ao art. 63 do CTN. O Sr. Ministro Rafael Mayer (ReOra esse dispositivo de remissão, lator): Para referir o ilustre Autor que passa a integrar necessariamende preferência dos Agravantes, cuja te a lei que a ele se remete, descreve doutrina é contraposta sem razão ao de modo amplo e preciso, o fato gedo não menos ilustre tributarista rador do IOF, quanto ás operações mencionado no despacho agravado, de câmbio, como «a sua efetivação cito os trechos pertinentes da pre- pela entrega de moeda nacional ou ciosa obra, Hipótese de Incidência estrangeira, ou de documento que a Tributária, do renomado professor represente, ou sua colocação à dispoGeraldo Ataliba, a seguir: sição do interessado, em montante «A hipótese de incidência contém equivalente à moeda estrangeira ou a descrição hipotética e abstrata nacional entregue ou posta à disposide um fato. E parte da norma tri- ção do interessado». R.T.J. — 109 255 Como se vê é perfeitamente apreEXTRATO DA ATA ensivel, nessas disposições legais, o fato jurigeno do imposto cuja coAg. 95.898 (AgRg)-PR — Rel.: Min. brança é determinada pelo prefaladO Rafael Mayer. Agtes.: Importadora decreto-lei. de Frutas Filomena Ltda. e outro (Advs.: José de Magalhães Barroso Esse diploma legal, completando a e outros). Agdo.: Banco Central do sua missão instituidora do tributo Brasil (Advs.: Manoel Lucívio de em causa, não só define assim a hi- Loiola e outros. pótese legal (art. 1?), como a seguir Decisão: Negou-se provimento ao define quem sejam os contribuintes agravo regimental. Decisão unâni(art. 2?), bem assim as entidades me. responsáveis por sua cobrança e rePresidência do Senhor Ministro colhimento (art. 3?). Soares Mutioz. Presentes à Sessão os E de ver que a argumentação dos Senhores Ministros Rafael Mayer, Agravantes se põe em nível teórico e Alfredo Buzaid, Néri da Silveira e doutrinário, sem que aponte, especi- Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral ficamente, a falha do texto legal, na da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. tipificação da espécie tributária. Brasília, 10 de fevereiro de 1984 — Pelo exposto, nego provimento ao Antônio Carlos de Azevedo Braga, agravo. Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 96.022 — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. 1?s Recorrentes: Mário Whittlesey Tebyriçá e outros — 2! Recorrente: União Federal — Recorridos: os mesmos. Encampação de empresa. Indenização. Decreto-lei n? 4.352/42. Art. 868 e ff do Código Civil. — Razoabllidade da interpretação dada pelo acórdão recorrido aos dispositivos legais em causa, face às circunstâncias da causa. Recursos Extraordinários não conhecidos. ACORDA0 RELATORIO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em conformidade com a ata de julgamentos e notas taquigráficas, por maioria de votos, em não conhecer dos recursos O Sr. Ministro Rafael Mayer: 1. Mário Whittlesey Tebyriçá e outros, ex-acionistas da Cia. Brasileira de Mineração e Siderurgia S.A., incorporada ao patrimônio da União Federal pelo Decreto-lei n? 4.352/42, ajuizaram ação ordinária contra a mesma objetivando compeli-la: «a) a transferir para o nome de cada um dos Autores, ou a entregar a cada um deles, no caso de Brasília, 28 de fevereiro de 1984 — Soares Mufloz, Presidente — Rafael Mayer, Relator. 256 R.T.J. - 109 ações ao portador, proporcionalmente às ações que possuíam na Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia S.A., encampada pelo Governo Brasileiro, tantas ações da Companhia Vale do Rio Doce, quantas, por força dos desdobramentos e bonificações de 7.000 ações do capital inicial desta sociedade de economia mista, devam corresponder, na data da execução da sentença, a essas 7.000 ações; a pagar, a eles Autores, todos os dividendos correspondentes às ações transferidas ou entregues; ao pagamento de honorários de advogado, à base de 20% sobre o total da condenação, juros de mora e custas judiciais.» A pretensão teve por fundamento o citado decreto-lei, o qual assegurou aos acionistas, entre outras disposições, o seguinte: «a) mandou pagar uma importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da mencionada Companhia, ou seja, a quantia de 7.000 contos de réis (artigo 2? ); que «não implica em uma obrigação de transferência mas, tão-somente, uma autorização.» ( ) «Em conseqüência, além de defender a transferência de um ajuste sobre as indenizações devidas, a determinação do número de ações a transferir, até o limite de 7.000, estaria na dependência da fixação do valor da indenização e do valor de cada ação e a quantidade das ações seria o quociente da indenização pelo valor atribuído a cada ação». (...) «No caso, a União Federal concorda em transferir apenas 7.000 ações, e, assim, admitido que a autoridade legal permite a transferência das ações correspondentes aos desdobramentos, não será possível concluir pela existência do direito pretendido pelos autores, quanto a estes, não sendo possível condenar a ré a transferilas» (fls. 323/347). 3. O Tribunal Federal de Recursos, por maioria de votos, reformou a sentença ( fls. 400/442) e, após, recebeu parcialmente embargos de declaração, estando a ementa redigida nestes termos (fls. 472): «Incorporação ao Patrimônio Nacional dos bens da Companhia b) que o tesouro nacional lhes Brasileira de Mineração e Siderurtransferisse «até 7.000 ações da nogia S.A. va companhia prevista no art. 6? O art. 2?, § 1?, do Decreto-lei n? para liquidar o ajuste que fizer 4.352, de 1942, previu dois pagasobre indenizações devidas» ( art. mentos: a) o equivalente em di2?, § 1?).» nheiro, ao Capital realizado da Procrastinado por mais de 20 anos companhia; b) a transferência de o cumprimento da obrigação refeaté 7.000 ações da Companhia Vale rente às ações, entendem os autores do Rio Doce. lhes ser devido o justo valor dos No referente à entrega desses bens encampados. Assim, sendo o títulos deu-se que a União Federal capital inicial da empresa de 200.000 incorrera em mora, pelo que terá contos de réis, as 7.000 ações referique prestar com o acréscimo de das no decreto-lei devem, 24 anos prejuízos (art. 1.059 do Código Ciapós, guardar correspondência com vil), isto é, os frutos das prestao capital atualizado da empresa. ções. 2. A sentença julgou improcedente a ação, ao considerar que o Porque o Capital da Vale do Rio decreto-lei não mandou transferir Doce sofreu majorações pela atua7.000 ações, mas até 7.000 ações, o lização do seu ativo imobilizado e R.T.J. — 109 pela incorporação de reservas, os antigos acionistas da Companhia incorporada deverão receber, além das mencionadas 7.000 ações, também, em proporção, as que foram emitidas em decorrência dos aumentos de capital acima referidos. Embargos recebidos parcialmente para esclarecer que os dividendos reclamados são devidos com acréscimo de juros de mora, a partir da citação. Sem custas, vez que por elas a União Federal não responde. Ademais, o acórdão embargado é de 31 de agosto de 1973, ocasião em que ainda não entrara em vigor o novo CPC.» Contra o acórdão de fls. 442 a União Federal opõe embargos int ringentes (fls. 445) e recorre extraordinariamente ( fls. 475). Os embargos foram recebidos, por maioria, com a seguinte ementa (fls. 532/595): «Encampação de Empresa. Indenização. Pactuado o pagamento em ações da companhia sucessora, celebrou-se, sem dúvida, obrigação de dar coisa certa, assim configurada desde a posterior fixação do quantum daquelas ações. Entretanto, não reclamada a tradição da coisa, senão que com a citação para a ação, a contar dai com a constituição do devedor em mora, é que passaram a pertencer aos credores os frutos e acréscimos. Inteligência do art. 868 e parágrafos, do Código Civil, conforme as peculiaridades da hipótese.» Opostos embargos de declaração pelos autores, foram rejeitados (fls. 600). Daí o segundo recurso extraordinário da União dos autores aos acórdãos de fls. 532/600. O recurso extraordinário de fls. 475, da União, alega negativa de vigência do art. 460 do CPC — deci- 257 são extra petita, quanto à concessão dos juros de mora sobre os dividendos e dissídio jurisprudencial. O segundo recurso extraordinário, adesivo, da União, de fls. 651, com relevância da questão federal, sustenta violação dos arts. 122, n? 14, e 153, 22, da CF e ao Decreto-lei n? 4.352/42, por entender o acórdão recorrido que este diploma consubstancia uma obrigação de dar coisa certa ou se constitui em contrato com a administração. O recurso extraordinário dos autores sustenta ofensa ao art. 122 n? 14 da CF/37, porquanto a obrigação de indenizar seria\ a partir da data da incorporação, quando a União entrou na posse dos bens, e não, como entendeu o acórdão da citação, quando, então, seriam devidos os filhotes; negativa de vigência do 1? do art. 2? do Decreto-lei n? 4.352, porque o cálculo da indenização deveria ser contemporâneo do dano, não se compreendendo ficasse dependente do momento em que o devedor resolvesse a proceder à liquidação; negativa de vigência ao art. 863 do CC, porque o pagamento da indenização em ações havia que ser proporcional ao capital atual, e não ao do inicial; ao art. 115 do CC, por ter o acórdão admitido que a União pudesse suspender o pagamento até a liquidação, ou fazê-la quando bem entendesse; aos arts. 952 e 960, 2? parte, do CC, ao negar o acórdão a natureza jurídica e os efeitos de interpelação ao «fato de que, desde 1944, os credores tenham perseguido a entrega da coisa»; ao art. 955 do CC, porque recusando-se os credores a receber prestação diversa da devida, não incorreram em mora, como pretendeu o acórdão. O recurso alega, também, dissídio jurisprudencial com acórdãos de outros tribunais. 10. Inadmitidos os recursos, e rejeitada a argüição de relevância, subiram pelos provimentos dos Agra- R.T.J. — 109 258 vos n?s 84.279 e 84.280. A douta Procuradoria-Geral da República, em parecer do Subprocurador-Geral da República Dr. Mauro Leite Soares, opina pelo não conhecimento, ou não provimento. 2 o relatório. VOTO O Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator): Toda a controvérsia reside na interpretação e aplicação do art. 2? e seu parágrafo único do Decreto-lei nP 4.352, de 1942. Em virtude da incorporação ao patrimônio da União dos bens da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia, para a formação subseqüente da Companhia Vale do Rio Doce, ficou estabelecido nesse diploma legal que o Governo Federal indenizaria os acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia S.A., com importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da mencionada Companhia (art. 2?), e que o Tesouro Nacional ficaria autorizado a transferir aos acionistas da Companhia até 7.000 ações da nova Companhia, para liquidar o ajuste que fizer sobre indenizações devidas (Parágrafo único). Há uniformidade de entendimento no sentido de que se trata de dois títulos de pagamento, e é fato incontroverso que o primeiro item, pertinente á indenização dos acionistas com importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da companhia incorporada, já se cumpriu. De modo que a discussão gira em torno do segundo Item, em relação ao qual se circunscreve o pedido. A contraposição de entendimentos a respeito dessa interpretação resulta de modo claro e definido dos votos proferidos na instância da apelação. Do Relator vencido, Ministro Armando Rolemberg, no sentido de que não há obrigatoriedade da transfe- rência aos acionistas, das pref aladas 7.000 ações, senão condicionada ao ajuste que todavia não se verificou, In verbis: «A norma do § 1? do art. 2? do Decreto-lei n? 4.352, como vimos, não determinou que se fizesse a entrega, aos autores, de 7.000 ações, e sim autorizou que se lhes transferisse até tal número de ações podendo a transferência variar, conseqüentemente, de 1 a 7.000, de acordo com o ajuste que fosse feito. O convite aos acionistas feito em 1964, portanto, desde que nada se acordara antes, importou em proposta de ajuste, podendo-se entender que, ao fixá-la no máximo autorizado pela lei, a Administração considerara, para fazê-lo, a desvalorização da moeda ocorrida desde a organização da Cia. Vale do Rio Doce até a época da proposta, pois, se se tratava de compensação ou bonificação sobre o capital da empresa encampada, como considerara a Comissão dos Acordos de Washington (fls. 93/94), em cujos documentos apoiou-se a Administração para entender que a transferência deveria ser efetuada, tal bonificação ou compensação poderia corresponder, na época, a percentual mínimo de ações da nova sociedade. Ora se se tratava de proposta de ajuste e não foi aceita nos termos em que foi formulada, não houve ajuste, como acertadamente concluiu a sentença recorrida, do qual houvesse decorrido a obrigação, por parte da União, de entrega das ações. Cumpre acrescentar, além disso, que se considerado, como sustentaram os apelantes, que do art. 2?, § 1?, do Decreto-lei n? 4.352, decorrera para a União a obrigação de transferência de ações da Cia. Vale do Rio Doce, tal obrigação seria indeterminada pois se referia à R.T.J. — 109 transferência de até 7.000 ações e, ou corresponderia a indenização a ser apurada e, neste caso não se poderia saber o total de títulos a transferir senão depois de fixado o valor a ser indenizado, ou corresponderia a bonificação ou compensação cuja fixação ficaria ao arbítrio do devedor. No primeiro caso não se poderia acolher a ação porque não demonstrado o direito à obtenção de indenização e nem quais os elementos a serem considerados para fixá-la. No último, a obrigação realmente somente se tornaria certa se, feita a oferta pela União da transferência de 7.000 ações, houvesse sido aceita pelos autores tal qual formulada. Em qualquer hipótese, portanto, não assiste aos autores o direito pleiteado de obterem a transferência para os seus nomes de ações em número que corresponderiam a 7.000 ações do capital inicial da Cia. Vale do Rio Doce com os acréscimos conseqüentes de reavaliação de ativo e incorporação de reservas. Nego provimento ao recurso.» Enquanto isso, o entendimento do Relator designado para o acórdão, Ministro Jarbas Nobre, está assim consubstanciado: «O Decreto-lei n? 4.352, é lei no sentido formal. E ato administrativo. E contrato com a Administração. Contrato que é, ter-se-á, no caso que examinar a intenção das partes no firmá-lo, no momento exato em que isto ocorreu. o Decreto-lei sob exame deixa nítida a vontade real das partes, qual seja, a da União, a de indenizar os acionistas da «Mineração e Siderurgia», uma parte em dinheiro, e outra, em ações da «Vale do Rio Doce», no máximo de 7.000. A primeira parte foi cumprida. 259 A segunda, passados tantos anos, pende de solução. Ao que tenho, os acionistas, quando se acordaram na encampação da Mineração e Siderurgia, objetivaram receber as 7.000 ações de imediato, como de logo perceberam a parte da indenização em dinheiro Como, constituída a nova Companhia, suas ações não foram entregues, como era de esperar, segue-se que a União caiu em mora e, deste modo, terá que prestar com o acréscimo dos prejuízos, assim entendidos, na forma do disposto no artigo 1.059, do Código Civil, tudo o que o credor efetivamente perdeu, e o que razoavelmente deixou de lucrar. Pacífico que a União Federal devia dar 7.000 ações da «Vale do Rio Doce», como complementação da indenização dos acionistas da empresa encampada. Constituída em mora, como ficou, está a devedora na obrigação de entregar aos credores, os frutos da prestação. Ora, o capital da «Vale do Rio Doce» sofreu majorações pela atualização do seu ativo imobilizado e pela incorporação de reservas. Em decorrência, novas ações foram emitidas e entregues aos seus acionistas, com exclusão dos autores, já sócios, de fato. Aí, os frutos pendentes. Tenho, assim, que a União, em verdade, deve aos seus credores, não mais simplesmente as 7.000 ações da «Vale do Rio Doce», mas, também, em proporção, as ações que foram emitidas em decorrência dos aumentos de seu capital, processados pelo modo acima referido, até o efetivo pagamento da indenização devida.» 260 R.T.J. — 109 No voto médio, que veio a prevalecer, do eminente Ministro José Dantas, integrado no voto proferido nos embargos de declaração, estes em que se pedia para «declarar que a União foi constituída em mora desde a vigência do Decreto-lei n? 4.352 ou pelo menos desde 28-12-44 data em que os embargantes reclamaram a entrega das ações», se vê que a interpretação do dispositivo em foco guarda consonância, em princípio, com o que lhe deu a sentença, bem como o voto vencido no juízo de apelação. Como se vê: «Penso que essa colocação foi precisa em definir o termo a quo da mora, no caso de entrega da coisa certa. Primeiro, porque afirma que somente a partir da fixação do quantum das ações prometidas — até 7.000 — a obrigação tornou-se certa na definição do gênero e quantidade da coisa; segundo, porque, forrada na prova dos autos, afirma que os credores se negaram a receber a coisa, por força do querer recebimento a mais, como seriam os frutos e acréscimos. Perde valia pois, em tema dos declaratórios, desejarem os ora embargantes que se haja ignorado o fato de que, desde 1944, os credores tenham perseguido a entrega da coisa, por via equiparável à interpelação. Na realidade, o que eles acionaram na via administrativa desde aquela data i foi a formalização do ajuste previsto no Decreto-lei n? 4.352/42, segundo o qual caberia à União, sem prazo para tanto, estabelecer o número das ações devidas. Fixado esse número em 7.000, o máximo autorizado pela lei, os credores foram convocados por edital de 11-5-64, mas se negaram ao ajuste, pleiteando, via de pedido de reconsideração ao Exmo. Sr. Presidente da República, maior número de ações, as quais resultariam dos sucessivos aumentos do capital da empresa. A pretensão foi indeferida, conforme aprovação presidencial do Parecer n? 222-H, de 28-7-65, da lavra do Sr. Consultor-Geral da República ( fls. 84). Considerados esses fatos pelo voto médio, não há dizer-se que o acórdão foi omisso quanto à «interpelação» constitutiva da mora solvendi, pois, na verdade, tal «interpelação» não houve após o acerto da obrigação, de fixação quantitativa deixada a cargo do devedor. Pelo contrário, a este acerto sucedeu a mora accipiendi, na recusa ao recebimento da coisa certa oferecida pelo devedor, e cuja tradição somente veio a ser reclamada na via judicial, cumulada ã pretensão dos frutos e acréscimos. Mas, tais frutos e acréscimos, repetimos, pertencem ao devedor, nos termos do art. 868 do Código Civil, pelo que, salvo melhor juízo, não podem ser adjudicados ao credor senão que a partir da litispendência instaurada com a citação que manifestou a pretensão do credor á tradição da coisa certa oferecida pelo devedor. Nesse campo conceptual da constituição das obrigações certas, ligadas à tradição da coisa para efeito de agregação dos frutos, é que residiu a divergência mediadora entre o meu voto e os que rejeitaram totalmente os infringentes; tudo isso no plano de uma simples questão de direito, aclarada e debatida, sem mácula de omissão, obscuridade, dúvida ou contradição do acórdão. Rejeito, pois, os embargos declaratórios.» Ora, a interpretação do questionado dispositivo não conduz, nem por sua letra, nem por sua significação comparativa com o caput do artigo a outro entendimento. Enquanto no caput se dispõe sobre uma indenização incondicionada e imediata, fica estabelecido, no parágrafo, que a 261 R.T.J. — 109 forma de ressarcimento ali prevista, pela entrega das ações, primeiro, não é de quantidade líquida e certa, pois é o desenganado sentido da expressão até 7.000 ações; segundo, et pour cause, não é incondicional e imediata, pois depende de negócio jurídico de acertamento ou reconhecimento, que é a natureza do ajuste a que a lei se refere. Não vejo, portanto, como se possa negar razoabilidade ao entendimento do acórdão recorrido, pois resguardou o sentido da lei, de qualquer modo, com a construção jurídica mediadora, e não há recusar o senso do equilíbrio e do justo na solução encontrada. Aceito esse entendimento sobre a razoável interpretação dada pelo acórdão ao parágrafo em causa, perde consistência e oportunidade a invocação de negativa de vigência dos dispositivos legais trazidos no recurso dos autores, do mesmo modo que ficou superado o debate de questões como as que são trazidas nos paradigmas judiciais, para efeito do dissídio. Entretanto, quanto a esses pontos me reporto ao douto parecer da Procuradoria Geral da República, que bem analisou-os. Quanto aos recursos da União, adoto o leal e claro entendimento do ilustre Subprocurador-Geral. Nestes termos, não conheço dos recursos. EXTRATO DA ATA RE 96.022-RJ — Rel.: Min. Rafael Mayer. Rectes 1°) Mário Whittlesey Tebyrlçá e outros (Advs.: Cláudio Lacombe, Seabra Fagundes e outros). 2?) União Federal. Recdos.: Os mesmos. Decisão: Depois do voto do Ministro Relator que não conhecia dos Recursos Extraordinários, o julgamento foi adiado em face do pedido de vista do Ministro Oscar Corrêa. Impedido o Ministro Néri da Silveira. Falou pelo 1? Recte. e Recdo.: Dr. Seabra Fagundes. Falou pelo Ministério Público Federal Dr. Francisco de Assis Toledo, SubprocuradorGeral da República. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. — SubprocuradorGeral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 28 de setembro de 1982 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. VOTO (VISTA) O Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. Solicitei vista dos autos, após o voto do Eminente Relator, Ministro Rafael Mayer, em face de dúvidas que me afloraram ao espírito, ante o debate que se estabeleceu, alto e proficiente, neste plenário. No seu seguro pronunciamento, o Eminente Relator assim fixou os lindes da controvérsia (fls. 6 do voto). «Toda a controvérsia reside na interpretação e aplicação do art. 2? e seu parágrafo único do Decretolei n? 4.352, de 1942. Em virtude da incorporação ao patrimônio da União dos bens da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia, para a formação subseqüente da Companhia Vale do Rio Doce, ficou estabelecido nesse diploma legal que o Governo Federal indenizaria os acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia S.A., com importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da mencionada Companhia (art. 2?), e que o Tesouro Nacional ficaria autorizado a transferir aos acionistas da Companhia até 7.000 ações da 262 R.T.J. — 109 nova Companhia, para liquidar o ajuste que fizer sobre indenizações devidas (Parágrafo único). Há uniformidade de entendimento no sentido de que se trata de dois títulos de pagamento, e é fato incontroverso que o primeiro item, pertinente à indenização dos acionistas com importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da companhia incorporada, já se cumpriu. De modo que a discussão gira em torno do segundo item, em relação ao qual se circunscreve o pedido » 2. A seguir, lembra o voto do Exmo. Ministro Armando Rolemberg, que negava provimento ao recurso, o do Exmo. Ministro Jarbas Nobre, que lhe dava provimento, e o do Exmo. Ministro José Dantas, que veio a prevalecer e com o qual concorda, ao não conhecer dos recursos, admitindo-o como razoável interpretação. O voto do Exmo. Ministro José Dantas assim resolveu a pendência (fls. 576): «Senhor Presidente, desde o Início dos debates, ficou-me a impressão de que se discute em torno de obrigação de dar coisa certa, obrigação cuja existência esteve na Lei que autorizou o Tesouro Nacional a compensar, mediante coisa certa, ações da nova companhia; obrigação que, aparentemente incerta porque até aí definida apenas pelo gênero, veio a se tornar certa, desde quando a opção deixada ao devedor na fixação do quantum da coisa foi exercida mediante termos aos quais não se pode negar a formalização de um verdadeiro contrato. Desde quando a União devedora convocou os credores para o recebimento da obrigação, perdeu relevo discutir-se se a União atendeu ou não à motiva- ção daquela autorização legal para acertar o número de ações a transferir. Dos debates, percebi que nesse ponto as partes estão de acordo já que os credores próprios se disseram conformados com a fixação daquele máximo de 7 mil ações. A União, por sua vez, não nega o compromisso de dar as 7 mil ações. Logo, deste quadro, há de se tirar determinadas conseqüências. Dele parto para o art. 868 do Código Civil, na verificação de que, até à tradição, pertence ao devedor a coisa, com os seus melhoramentos e acrescidos, pelos quais poderá exigir aumento no preço e também nos frutos. Diz o parágrafo: (lê). Se fixado o acordo, se formalizado o contrato mediante repetidas manifestações da vontade da União, encontrada até num parecer aprovado pelo Presidente da República, pergunto: e os frutos e acréscimos? Eis a questão posta nos autos. A controvérsia teria solução favorável aos credores, se no nosso regime de direito se admitisse o principio consagrado em termos do direito de saisine, segundo o qual, desde o contrato, a propriedade pertence ao credor. Mas, entre nós, na regra de direito positivo que acabei de ler, tal não acontece. A tradição, então, não se efetivou. Há de se dizer: a União estava em mora com a tradição, e dai o dever de indenizar os prejuízos da mora. Respondo: Se a União, até 1965, quando fixou o quantum da coisa, estava na faculdade de uma opção, porque não lhe foi imposto prazo certo de fixar a sua vontade, não esteve em mora nesse período. Teria estado a partir daquele parecer definitivo que fixou a quantidade da coisa? Também não esteve, porque os devedores é que se negaram a receber a coisa. R.T.J. — 109 Então, ainda no rumo desse raciocínio, desde quando há de se fir- mar o termo da tradição, para efeito de se reconhecer os acréscimos e frutos em favor dos credores? Parece-me, salvo engano, que essa tradição se tornou figurada no ato da litispendência; com a citação, pela qual os credores exigiram da União a tradição da coisa. Desde ai frutos e acréscimos passaram a lhes pertencer, porque ai se exercitou o direito à coisa prometida, com o dever da devedora transmiti-la, independentemente da discussão sobre os frutos e acréscimos. Sr. Presidente, sem condições de dar cor e brilho ao meu voto, resumo a solução, recebendo parcialmente os embargos e definindo a obrigação da União em transferir 7 mil ações da nova companhia e, a partir da citação, todos os acréscimos e frutos da coisa, pois frutos me parecem ser os dividendos, e acréscimos sem dúvida que são os chamados «filhotes de ações» derivados da reavaliação do ativo ou de incorporação de reservas, se for a espécie, tudo como se vier a liquidar na execução. Também em referência à mora, fixo-a a partir da citação. Nestes termos, com a devida vênia dos eminentes Ministros que me antecederam, recebo parcialmente os embargos para, assim, solver a questão sub juclice.» 3. Nos embargos de declaração, aduziu S. Exa. os seguintes esclarecimentos ( R S. 611/613): «Penso que essa colocação foi precisa em definir o termo a quo da mora, no caso de entrega da coisa certa. Primeiro, porque afirma que somente a partir da fixação do quantum das ações prometidas — até 7.000 a obrigação tornouse certa na definição do gênero e quantidade da coisa; segundo, por- 263 que, forrada na prova dos autos, afirma que os credores se negaram a receber a coisa, por força do querer recebimento a mais, como seriam os frutos e acréscimos. Perde valia, pois, em tema dos declaratórios, desejarem os ora embargantes que se haja ignorado o fato de que, desde 1944, os credores tenham perseguido a entrega da coisa, por via equiparável à interpelação. Na realidade, o que eles acionaram na via administrativa desde aquela data foi a formalização do ajuste previsto no Decreto-lei n? 4.352/42, segundo o qual caberia à União, sem prazo para tanto, estabelecer o número das ações devidas Fixado esse número em 7.000, o máximo autorizado pela lei, os credores foram convocados por edital de 11-5-64, mas se negaram ao ajuste, pleiteando, via de pedido de reconsideração ao Exmo. Sr. Presidente da República, maior número de ações, as quais resultariam dos sucessivos aumentos do capital da empresa A pretensão foi indeferida, conforme aprovação presidencial do Parecer n? 222-H , de 28-7-65, da lavra do Sr. Consultor-Geral da República (fls. 84). Considerados esses fatos pelo voto médio, não há dizer-se que o acórdão foi omisso quanto à «Interpelação » constitutiva da mora solvendi, pois, na verdade, tal «interpelação» não houve após o acerto da obrigação, de fixação quantitativa deixada a cargo do devedor. Pelo contrário, a este acerto sucedeu a mora accipiendi, na recusa ao recebimento da coisa certa oferecida pelo devedor, e cuja tradição somente veio a ser reclamada na via judicial, emulada à pretensão dos frutos e acréscimos. Mas, tais frutos e acréscimos, repetimos, pertencem ao devedor, nos termos do art. 868 do Código Civil, pelo que, salvo .melhor juízo, não podem ser adjudicados ao credor 264 R.T.J. — 109 senão que a partir da litispendêneia instaurada com a citação que manifestou a pretensão do credor à tradição da coisa certa oferecida pelo devedor Nesse campo conceptual da constituição das obrigações certas, ligadas á tradição da coisa para efeito de agregação dos frutos, é que residiu a divergência mediadora entre o meu voto e os que rejeitaram totalmente os infringentes; tudo isso no plano de uma simples questão de direito, aclarada e debatida, sem mácula de omissão, obscuridade, dúvida ou contradição do acórdão.» Posta nestes termos, a controvérsia resume-se no exato alcance do artigo 2? e seu parágrafo primeiro do Decreto-lei n? 4.352/1942. Rezam artigo e parágrafo 1?: «O Governo Federal indenizará os acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia S.A. com importância em dinheiro equivalente ao capital realizado da mencionada Companhia. § 1 ? . O Tesouro Nacional fica autorizado a transferir aos acionistas da Cia. Brasil de Mineração e Siderurgia S.A. até 7.000 ações da nova Companhia prevista no art. 6? para liquidar o ajuste que fizer sobre indenizações devidas.» Este parágrafo 1? o ponto crucial da disputa: pretendem os Autores que essa obrigação remonta ao Decreto n? 4.352 e à constituição da Cia. Vale do Rio Doce — e, pois, 7.000 ações do seu capital inicial; pretende a Ré que se julgue improcedente a ação ( fls. 651 e seguintes), e, pois, se lhes recuse o direito pleiteado. O v. acórdão, concedeu-o a partir da citação para a ação. Sem penetrar em outros aspectos da discussão, amplamente travada nos autos, vamos diretamente ao que nos parece decisivo no debate: o § 1? do artigo 2?, ou seja, a transfe- rência das ações para liquidar o ajuste que fizer sobre indenizações devidas. O quantum das ações não é mais objeto de dúvida, desde que, em 11-51964, a Recorrida convocou os exacionistas, ora recorrentes, a se manifestarem sobre a entrega, nessa época, das referidas 7.000 ações. A época em que deveria dar-se essa entrega é a questão fundamental. E há de ser, obviamente, a data que se entenda como aquela em que se liquidar, ou se houver liquidado o ajuste sobre as indenizações devidas O § 1? condicionou a entrega e a fixação do número de ações ao ajuste. Vale dizer: a União pretendeu, antes de mais, examinar a situação da empresa, para aquilatar do quantum complementar de indenização que deveria dar aos seus acionistas. Não há de ser, assim, a data do decreto, pois, então, não se conheciam esses dados. Não é de admitir-se, também, ficasse ao arbitrio da União oferecêlo quando lhe aprouvesse. 6. Verifica-se que, desde logo, pleitearam os acionistas esse recebimento — e isto se vê dos autos, em especial de fls. 86 — pelo menos desde 28-2-1944 e mesmo antes, como afirmam recebimento que a União procrastinou. Não colhe, pois, a assertiva do v. acórdão recorrido de que «não reclamada a tradição da coisa, senão que com a citação para a ação, a contar dai com a constituição do devedor em mora, é que passaram a pertencer aos credores os frutos e acréscimos.» A fixação, em verdade, só se deu em 1944, quando o Diretor Executivo da Comissão de Controle dos Acordos de Washington considerou «regulares os registros contábeis da Companhia incorporada» e afirmou que «se poderá determinar... a entrega das sete mil ações, na conformidade da lista de acionistas que acompa- R.T.J. — 109 nha a comprovação apresentada» (fls. 91), isto em 18-4-1944 (fls. 91v). E, em 7-2-1945, em oficio do Superintendente da Vale do Rio Doce, Israel Pinheiro da Silva, ao Ministro da Fazenda, Artur de Souza Costa, referendando ofício anterior, de 29-12-1943. 7. A nosso ver, a data a ser fixada como a da liquidação do ajuste sobre indenizações devidas — como prevê o § 1? do artigo 2? do Decretolei n? 4.352/42, deve ter em vista que, no referido expediente de 29-12-1943 (fls. 103/104), se diz: «...Submeto à apreciação de Vossa Excelência a minha prestação de contas, relativa ao crédito de cinqüenta e cinco milhões de cruzeiros (Cr$ 55.000.000,00), de que trata o artigo quarto do Decretolei número quatro mil, trezentos e cinqüenta e dois, de primeiro de junho de mil novecentos e quarenta e dois. O crédito em referência foi calculado com base nos balanceies apresentados pelas Companhias Brasileiras de Mineração e Siderurgia e Itabira de Mineração (em organização), dos quais constavam responsabilidades decorrentes da incorporação num total de sessenta milhões de cruzeiros (Cr$ 60.000.000,00). Aconteceu, entretanto, que, a Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia Sociedade Anônima, na parte relativa ás obras da construção ferroviária de Desembargador Drumond a Itabira, baseou sua estimativa, apenas, nas medições provisórias que haviam sido realizadas até aquela data. Providenciada, de acordo com o Decreto-lei, a medição definitiva, da qual ficou encarregada a comissão nomeada pelo Excelentíssimo Senhor Ministro da Viação verificou-se o primeiro aumento das responsabilidades assumidas pelo Governo Federal, em relação à primitiva estimativa. Idêntica situação encontrou-se na parte referente às obras de cons- 265 trução do ramal ferroviário e do embarcadouro especial de minério, no Porto de Vitória. Por outro lado, quando do levantamento dos balanços definitivos das companhias incorporadas, e depois de procedidas as análises morais e quantitativas de todos os seus títulos, verificou-se um déficit de que resultou uma conseqüente alteração a maior no passivo a descoberto considerado. Somadas todas essas importâncias, constantes, aliás, das análises que acompanham o presente, constatou-se a necessidade de um crédito suplementar da importância de dezoito milhões, quinhentos e setenta e sete mil , duzentos e cinqüenta e oito cruzeiros e sessenta centavos (Cr$ 18.577.258,60) para liquidação total das incorporações de que trata o mencionado Decreto-lei. — Este crédito suplementar deverá ser aberto a favor da Companhia Vale do Rio Doce, que vem procedendo a liquidação do Ativo e Passivo restantes das Companhias. Juntos, encaminho, também, a Vossa Excelência um volume contendo os balanceies e análises das companhias incorporadas, levantados pela Sociedade Técnica de Contabilidade e Administração, e com valor em dezessete de junho de mil novecentos e quarenta e dois, bem como uma explanação e correspondentes análises, das indenizações determinadas pelo Decreto-lei quatro mil, trezentos e cinqüenta e dois. O mencionado Decreto-lei, no seu artigo segundo, parágrafo primeiro, autoriza o Tesouro Nacional a transferir aos acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia Sociedade Anônima, sete mil ações preferenciais da nova Companhia e, verificado, pela tomada de contas procedidas, serem regulares os registros contábeis da Companhia incorporada, poderã Vossa Excelência, se 266 R.T.J. — 109 assim julgar oportuno, determinar a entrega das ações em causa de acordo com a lista de acionistas junta. Os comprovantes originais de todos os lançamentos constantes da escrituração procedida, encontram-se arquivados na Companhia Vale do Rio Doce, aguardando o destino que Vossa Excelência determinar. Tenho a subida honra de apresentar a Vossa Excelência as minhas respeitosas saudações. a) Israel Pinheiro da Silva — Superintendente.» Em virtude disso, em 20-2-1945, opinava a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, como se vê do parecer do Dr. Consultor-Geral da República (fls. 86): o...é melhor aguardar o resultado da verificação dos comprovantes sobre o excesso de despesa.» E, como conseqüência, em 15-1245, baixava-se o Decreto-lei n? 8.378, abrindo ao Ministério dá Fazenda o crédito especial de Cr$ 18.562.309,90 «para pagamento (serviços e Encargos) à Companhia Vale do Rio Doce S.A., destinado à final liquidação de despesas decorrentes das incorporações de que trata o Decreto-lei n? 4.352, de 1-6-42». A partir dessa data — 15-12-45 — surgiu para a União a obrigação de efetivar o ajuste, convocando os acionistas ao recebimento. Parece-nos, pois, claro que: I — a fixação do número de ações a serem entregues aos exacionistas só poderia dar-se após a liquidação a que a União procederia, na vida da empresa; II — esse número não excederia 7.000 ações da nova Companhia; III — ao fixar os limites do ajuste a União teria em conta a indenização devida, comparativamente ao valor das ações, para que lhes fixasse o número, entre 1 e 7.000, de modo a entender à indenização; IV — a época do ajuste não poderia, evidentemente, ficar ao arbítrio da União, como não poderia ser a data do Decreto-lei n? 4.352/42, visto como: aquela, importaria em ilegal e injusta entrega da decisão a uma das partes, unilateralmente; esta, em antecipar liquidação, que não se fizera ainda e que só ela poderia estabelecer o limite da indenização em ações; Quando, pois, em 1945, os órgãos administrativos da União, terminaram levantamento da situação da Companhia, concluíram que, diante dela, poderia a União entregar as 7.000 ações, e se baixou o Decreto-lei n? 8.378, de 15-12-1945, para acorrer a essas despesas, aí estava a União obrigada a propor o ajuste aos acionistas, convocando-os. E fixando o número em 7.000, como podê-lo-ia fazer de 1 até 7.000, obviamente admitiu ser este, à época, o quantum devido. Nem é de aceitarse pudesse a União protelar essa entrega até maio de 1964; e, menos ainda, que só a partir do ajuizamento da ação, e da citação, em 14-9-1967: significaria isto injusto favorecimento do devedor relapso, em desfavor do credor que tentava, suasoriamente, resolver a obrigação. Estamos, pois, em que, desde 1512-45, quando se liquidou — isto é, apurou, quantificou o ajuste, em face do levantamento feito e se abriu o crédito para atendê-lo, estava a União na obrigação de convocar os acionistas ao recebimento das ações. Não o fazendo, ofendeu os termos do Decreto-lei n? 4.352/42, art. 2?, § 1? e incidiu em mora. Não preciso, para isso, examinar a ofensa ao art. 122, 14? da Constituição de 1937 — referente à prévia indenização — porque dependente, no caso, da liqui- R.T.J. — 109 dação a ser procedida; como não dou pela negativa de vigência do art. 863 do Código Civil, se a coisa devida dependia, na época do Decreto-lei, dessa individuação. Mas acolho a invocação do art. 115 do Código Civil — eis que não se poderia sujeitar a fixação do devido ao arbítrio de uma das partes; como a admito quanto à mora no cumprimento da obrigação, evidenciada a ocorrência de reclamações dos recorrentes, pleiteando esse cumprimento, que equivaleu à interpelação que constitui em mora o devedor (artigo 960, e segunda parte); no que, aliás, dou por existente, outrossim, o dissídio jurisprudencial com as decisões invocadas (fls. 643/644). Não conheço do recurso da União, com base no Decreto-lei n? 4.352/42 e no 0 2? do art. 153 da Constituição, porque não prequestionado este; e, porque a nosso ver, o Decreto-lei deve ter a explicitação que lhe dá este voto. Nestes termos, não conheço do recurso da União e conheço do recurso de Mario Whittlesey Tebyriçá e outros; e, conhecendo, dou-lhe provimento, para julgar a ação procedente, em parte, isto é, condenada a União a transferir aos Autores, na medida das ações que possuíam na Companhia encampada, quantas, por força de desdobramentos e bonificações do capital da Cia. Vale do Rio Doce, excluídas as que tenham sido objeto de subscrição por chamada de capital, equivalerem a 7.000 (sete mil ações) de 15-12-1945, na data da execução da sentença; mais dividendos a elas correspondentes; juros de mora, custas e honorários de advogado, na base de 5%, tendo em vista o quantum da condenação e ser a Fazenda Pública vencida (art. 20, 4?, do CPC). o voto. 267 EXTRATO DA ATA RE 96.022-RJ — Rel.: Min. Rafael Mayer. Rectes.: 1?) Mário Whittlesey Tebyriçá e outros. ( Advs.: Cláudio Lacombe, Seabra Fagundes e outros). 2?) — União Federal. Recdos.: Os mesmos. Decisão: O julgamento foi adiado a pedido do Ministro Alfredo Buzaid, após os votos dos Ministros Relator, que não conhecia dos dois recursos, e do Ministro Oscar Corrêa que não conhecia do 2? recurso e conhecia em parte do 1? e nessa parte lhe dava provimento. Impedido o Ministro Néri da Silveira. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira. Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa — SubprocuradorGeral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 1 de março de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. VOTO (VISTA) Recurso Extraordinário dos Autores: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: 1. Mário Whittlesey Tebyriçá e outros, não se conformando com os acórdãos proferidos em grau de embargos infringentes e de embargos declaratórios, deles interpõem recurso extraordinário para o Egrégio Supremo Tribunal Federal, com fundamento no art. 119, III, a e d da Constituição da República, alegando, em resumo, que: «Todas as decisões do Egrégio Tribunal Federal de Recursos reconheceram a procedência da ação e, conseqüentemente, o direito de os ora recorrentes receberem 7.000 ações da Companhia Vale do Rio Doce, com o acréscimo das que foram atribuídas aos acionistas em resultado de incorporação de re- 268 — 109 servas e correção monetária do ativo (os chamados «filhotes das ações»), bem como os dividendos distribuídos e juros de mora sobre eles. evidente que o presente recurso não versa sobre estes pontos, favoráveis aos recorrentes Enquanto, porém, o acórdão proferido em grau de apelação condenava a União aos acréscimos dos «filhotes de ações» e dividentos a partir de 1942, data da incorporação, os acórdãos proferidos em embargos infringentes e declaratórios destes fixaram o termo a quo desses acréscimos a partir de 1967, mais especificamente, da data da citação, por entenderem que só então estava a ré constituída em mora. apenas este ponto que constitui objeto do presente recurso» (fls. 626/627). Assim decidindo, prosseguem os recorrentes, as decisões referidas: a) ofenderam o art. 122, n? 14 da Constituição de 1937; b) negaram vigência ao parágrafo 1? do art. 2? do Decreto-lei n? 4.352, de 1? de junho de 1942; c) negaram também vigência aos arts. 115, 863, 952, 953 e 960 do Código Civil e do principio da boa fé; d) divergiram de decisões de outros tribunais. A controvérsia, quanto ao recurso extraordinário dos autores, cinge-se à fixação do termo inicial do acréscimo de filhotes de ações e de dividendos a partir de 1942; as decisões recorridas fixaram-no a partir da citação da União Federal, porque só então estava a ré constituída em mora. 2. Quanto à primeira alegação de ofensa ao art. 122, n? 14 da Constituição de 1937, tenho para mim, acompanhando neste ponto o r. despacho, que negou seguimento ao recurso extraordinário (fls. 671), que esta matéria não foi prequestionada, aplicando-se, pois, as Súmulas n?s 282 e 356. Na verdade, como observa o douto parecer da ProcuradoriaGeral da República: «O invocado principio constitucional do «direito de propriedade, salvo a desapropriação por necessidade ou utilidade pública, mediante indenização prévia» não possui pertinência com o caso constante dos autos, simplesmente porque não houve desapropriação de qualquer bem, mas, sim, incorporação mediante acordo prévio entre as partes, com pagamento em dinheiro à época e mais outra parcela, constituída de até sete mil ações, que seria objeto de entendimento em face do tombamento e avaliação do património transferido da antiga empresa, entendimentos esses que se prolongaram no tempo e sem que se possa dizer ou atestar de quem a culpa pela não conclusão dos mesmos ou se houve apenas desinteresse por qualquer das partes» ( fls. 704/705). 3. A segunda alegação dos recorrentes, autores da ação, e que as decisões recorridas negaram vigência ao parágrafo 1? do art. 2? do Decreto-lei n? 4.352. Este fundamento do recurso extraordinário está em intima correlação com o primeiro fundamento, alegando no número precedente. Desenvolvem os recorrentes esta matéria, dizendo: «Como foi explicado acima (n? 4 seg.), não obstante este diploma haver decretado uma desapropriação, os respectivos trabalhos preparatórios mostram que, quanto às condições da incorporação, ele resultou da negociação de um acordo entre o Governo e os interessados. Com efeito, em 8 de abril de 1942 (dois meses antes da publicação do diploma ), a Comissão de Controle dos Acordos de Washington reuniuse com os representantes da Companhia e comunicou-lhes ser inten- R.T.J. — 109 ção do Governo adquiri-la, mediante o pagamento de «sete mil contos de réis e mais uma compensação em ações da nova companhia, atendendo-se ao fato de haverem mantido um empreendimento que possibilitara agora ao Brasil o acordo com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha» (fls. 92v.). «Ficou acertado que os diretores da Companhia... enviaram, depois, um novo memorial à Comissão sobre o assunto» (fls. 93). E, no relatório apresentado ao Ministro, em 29 desse mês, refere a Comissão que aqueles entregaram efetivamente uma «proposta» com as condições para a alienação das suas ações, que incluíam o pagamento de 7.000 contos em dinheiro e, atendendo ao preço por que fora adquirido o acervo da estrada de Ferro Vitória-Minas, a transferência de ações da companhia a criar; em contrapartida da atribuição destas ações, os acionistas desistiriam da garantia de juros atrasados, devidos pelo Governo. Em face disto, a Comissão sugeriu ao Ministro que o Governo aceitasse a solução proposta pelos acionistas, salientando as vantagens da «desapropriação amigável» (fls. 93v.), que ela adota no projeto de diploma legal (futuro Decreto-lei n? 4.352), que junta (fls. 94/96v.). Pode, obviamente, . criticar-se o rigor jurídico desta «desapropriação amigável»; mas a fórmula revela bem que houve a intenção de operar, através de um diploma legal de desapropriação, a venda já ajustada. E, como nesta funciona o principio, decorrente da natureza sinalagmática da relação, da simultaneidade do pagamento do preço e da entrega da coisa (art. 1.130 CC), só afastável por declaração expressa das partes, é legitimo afirmar que a interpretação do 269 Decreto-lei n? 4.352 leva a concluir que a obrigação de pagar a indenização se vencia com o desapossamento dos bens alienados à União» (fls.) E certo que todas as Constituições republicanas garantiram o direito de propriedade, salvo a desapropriação mediante indenização prévia (de 1891, art. 72, § 17; de 1934, art. 113, n? 17; de 1937, art. 122, n? 14; de 1946, art. 141, § 16; de 1967, com a Emenda n? 1 de 1969, art. 153, § 22). Ocorre que, no caso dos autos, não houve decreto de declaração de utilidade pública, nem de desapropriação de ações da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia. Houve isso sim, um acordo, tal como foi descrito pelos recorrentes (fls. 631/632), de que resultou o Decreto-lei n? 3.452/42, cujo parágrafo 1? do art. 2? autoriza o Tesouro Nacional «a transferir aos acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia até 7.000 ações da nova Companhia prevista no art. 6?, para liquidar o ajuste que fizeram sobre indenizações devidas». Bem se vê, pois, que não houve verdadeira desapropriação, quer de bens, quer de ações da referida Companhia. 4. A terceira alegação dos recorrentes-autores sustenta a negativa de vigência do art. 863 do Código Civil. Argumentam que: «Os acórdãos recorridos, porém, entenderam que a obrigação versada sobre ações de 1967, que representam direitos de conteúdo diferente daquelas. Quer dizer: os acórdãos recorridos permitiram ao devedor que se liberasse da sua obrigação entregando coisa diferente da devida — o que envolve manifesta negativa de vigência do art. 863 do Código Civil» (fls. 633). Penso que esta norma legal não foi prequestionada nos acórdãos recorridos. O v. acórdão, proferido em embargos à Apelação n? 26.624, refere- 270 R.T.J. — 109 se à inteligência do art. 868 do Código Civil, nos embargos de declaração, a norma sobre que se questionou foi a do art. 868 do Código Civil, como se pode ver do voto do eminente Ministro José Dantas: «Considerando esses fatos pelo voto médio, não há dizer-se que o acórdão foi omisso quanto à «interpelação» constitutiva da mora solvendi, pois, na verdade, tal «interpelação» não houve após o acerto da obrigação de fixação quantitativa deixada a cargo do devedor. Pelo contrário, a este acerto sucedeu a mora accipiendi, na recusa ao recebimento da coisa certa oferecida pelo devedor, e cuja tradição somente veio a ser reclamada na via judicial, cumulada à pretensão dos frutos e acréscimos. Mas, tais frutos e acréscimos, repetimos, pertencem ao devedor, nos termos do art. 868 do Código Civil, pelo que, salvo melhor juízo, não podem ser adjudicados ao credor senão que a partir da litispendêneia instaurada com a citação que manifestou a pretensão do credor à tradição da coisa certa oferecida pelo devedor» (fls. 612/613). Todavia, ainda que se tivesse prequestionado o art. 863 do Código Civil, ele não viria em abono da tese dos recorrentes. O art. 863 do Código Civil dispõe sobre obrigação de dar. Ora, como ensina Washington de Barros Monteiro, «Essa obrigação, como já advertia Pothler, só confere ao credor simples direito pessoal (jus ad rem) e não real (jus in re). Assim, por exemplo, pelo contrato de compra e venda, relativos a coisa certa, o vendedor não transfere desde logo o domínio; obriga-se apenas a transmiti-lo. Em tais condições, se o alienante não torna efetiva a obrigação assumida, deixando de entregar a res certa avençada, não pode o adquirente requerer-lhe a reivindicação. Falta-lhe o domínio e sem esse requisito substancial não pode vingar a ação para entrega da coisa vendida. Assiste-lhe, tão-somente, direito de mover ação de indenização, a fim de ser ressarcido dos prejuízos que sofreu com a inexecução da obrigação, nos termos do art. 1.056, do Código Civil» (Washington de Barros Monteiro, Curso de Direito Civil, vol. IV, 118 ed., pág. 55/56). E mais adiante: «Até à tradição, pertence ao devedor a coisa, com os seus melhoramentos e acrescidos, pelos quais poderá exigir aumento do preço. Se o credor não anuir, poderá o devedor resolver a obrigação ( art. 868) Em tais condições, se a coisa ao invés de deteriorar-se, como foi exposto precedentemente, obtém aumento de valor, mercê de acrescidos e outros melhoramentos, beneficiar-se-a a parte que lhe suportava os riscos (commodum ejus esse debet, cajus et periculum). O mesmo acontece em todos os casos que a coisa se desdobre ou dilate. Suponha-se, exemplificativamente, que o objeto da obrigação seja um animal que depois venha a ter cria. Se o devedor se obrigou a entregar o semovente A, não pode ser compelido a entregalo com o respectivo produto. Ao devedor assiste, nesse caso, direito de exigir aumento do preço, pelo acréscimo que teve a coisa. Caso o credor não deseje anuir, poderá o devedor resolver a obrigação. Excetua-se a hipótese prevista na Lei n? 492, de 30 de agosto de 1937, art. 12, § 2?. Igualmente, os frutos percebidos são do devedor, cabendo ao credor os pendentes (art. 868, parágrafo único). No primeiro anteprojeto brasileiro do Código das Obrigações não se invocou a respeito, consoante se verifica dos arts. 187 R.T.J. — 109 271 a 189. No moderno, o devedor só é União a partir da citação inicial. Asobrigado a entregar os frutos pen- sim decidindo, não negou vigência dentes (art. 97)» (Ob. cit., vol. IV, ao art. 863 do Código Civil. pág. 64). Em sua quarta alegação, afirEsta é também a lição de Caio mam os recorrentes — autores — que os acórdãos recorridos negaram Mário da Silva Pereira: vigência ao art. 115 do Código Civil, «O problema ligado aos efeitos que, em sua parte final, reza: da &Abono dandi é de solução va«Entre as condições defesas se riável em razão da diversidade incluem as que privam de todo o conceituai dominante em um ou efeito o ato, ou sujeitarem ao outro sistema jurídico. Reportanarbítrio de uma das partes». do-nos ao Direito Romano, ali vemos que traditionibus et usucaEsta matéria é correlata com a pionibus non nudis pactis domi- anterior que versou sobre a mora nia rerum transferuntur, o que accipiendi dos autores, a qual soem vernáculo significa não ser mente cessou quando a União foi cipossível a transmissão dominial tada para a ação. Por isso não podas coisas solo consensu. No direi- dem ser invocados utilmente os arts. to moderno, duas correntes de 952 e 960, segunda parte, do Código idéias informam as legislações. De Civil, porque na verdade não houve um lado a tradição romana, vigen- interpelação anterior à propositura te no sistema brasileiro, como no da ação. Foi o que acentuou .o v. alemão, segundo a qual a proprie- acórdão recorrido: dade se não transfere pelo contra«Perde valia, pois, em tema dos to, porém exige, além deste, a tradeclaratórios, desejarem os ora dição para as coisas móveis, ou a embargantes que se haja ignorado transcrição para as imóveis. De o fato de que, desde 1944, os credooutro lado a sistemática francesa, res tenham perseguido a entrega a que se prendem outros códigos, da coisa, por via equiparável à inmesmo modernos como o italiano terpelação. Na realidade, o que de 1942, atribuindo ao contrato o eles acionaram na via administraefeito translatício do domínio. tiva desde aquela data foi a formalização do ajuste previsto no Para o Direito brasileiro, portanDecreto-lei n? 4.352/42, segundo o to, a obrigação de dar executa-se qual caberia à União, sem prazo pela traditio, e somente com esta para tanto, estabelecer o número nasce o lus in re, distinguindo-se das ações devidas» (fls. 612). portanto o direito real do lus ad rem, originário diretamente do Por estas mesmas razões, bem se contrato. No sistema francês há vê que não houve violação do art. 955 uma simplificação dessas opera- do Código Civil. ções, pelo fato do contrato, por si Pretendem os recorrentes-ausó, ter o efeito de criar o direito real» (Calo Mário da Silva tores comprovar o dissídio 'urisPereira, Instituições de Direito Ci- prudencial, invocando o v. acórdão vil, vol. II, 3? ed., 1972, n? 133, proferido pela Primeira Câmara do Egrégio Tribunal de Justiça de Mipágs. 53/54) . nas Gerais (Rev. For., vol. XC, 1942, O Egrégio Tribunal Federal de Re- pág. 798), o acórdão da Egrégia cursos, em estrita observância das Quarta Câmara Civil do Tribunal de normas legais, se acabam de ser co- Alçada de São Paulo, em 6-8-42 mentadas, só considerou em mora a (Rev. Trib., vol. 142, pág. 570) e o 272 R.T.J. — 109 acórdão da Primeira Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, em 12-10-59 (Rev. Trib., vol. 304, pág. 754). Empenhado foi, sem dúvida, o esforço dos recorrentes, mas as peculiaridades do caso sub judice não se assemelham nem a identificam com os padrões de confronto Por todo o exposto, não conheço do recurso extraordinário dos recorrentes-autores, data venia do eminente Ministro Oscar Corrêa, acompanhando o eminente Ministro Rafael Mayer. Recurso Extraordinário da União: 7. Dois são os recursos extraordinários interpostos pela ré União Federal. O de fls. 475 tem por objeto o v. acórdão, proferido em embargos de declaração, que mandou incidir os juros da mora sobre os dividendos. O segundo de fls. 647 e seguintes sustenta que o v. acórdão recorrido negou vigência ao Decreto-lei n? 4.352, porque «de regra jurídica que transcende a esfera individual foi transformada em contrato consubstanclador de um negócio jurídico» (fls. 660). Sobre ambos os recursos, assim se pronunciou a douta ProcuradoriaGeral da República: «Quanto aos dois recursos da segunda recorrente, fls. 475/651, fundados nas letras a e d, respectivamente, não procedem igualmente. O primeiro deles, alegando negativa do art. 460 do Código de Processo Civil, quanto à concessão dos juros de mora sobre os dividendos, porque tal verba foi expressamente solicitada na petição inicial, fls. 42, ratificada no recurso de apelação fls. 369, e, assim, os embargos de fls. 468 declaratórios constituíram-se em simples meio adequado para suprir a omissão anterior, em conseqüência lógica à condenação determinada pelo acórdão então embargado. O segundo, proposto adesivamente, na forma do art. 500 e seguintes do Código de Processo Civil e solicitando a improcedência total da ação, porque negado foi o Decretolei n? 4.352/42, também não merece conhecimento nos termos do anteriormente aduzido em relação à interpretação do art. 2?, 1?, do diploma legal em questão, ao lado de não se ter trazido ao dissídio nenhum acórdão» ( fls. 708/709). Pelas considerações que vêm de ser feitas, não conheço também dos recursos da União, acompanhando os eminentes Ministros Rafael Mayer e Oscar Corrêa. E o meu voto. VOTO O Sr. Ministro Soares Mufioz (Presidente): Recebi memoriais a respeito dessa causa e, ainda há poucos dias, uma cópia do memorial oferecido pelos autores, ora primeiros recorrentes, acompanhada de pareceres do eminente Ministro Victor Nunes e do saudoso Ministro Carlos Medeiros. Li esses memoriais — a matéria é muito interessante, complexa e de grande relevância, principalmente pelo vulto da questão — e me capacitei, data venha do voto do eminente Ministro Oscar Corrêa, do acerto do voto do eminente Relator, Ministro Rafael Mayer, agora confortado pelo pronunciamento do eminente Ministro Alfredo Buzaid, que demonstrou, com argumentos convincentes, ter o acórdão recorrido decidido corretamente, ao considerar como em mora a União tãosomente a partir da citação, em face da natureza jurídica da obrigação, bem traçada nos votos que versaram o assunto. No que diz respeito ao recurso da União, a matéria já não se apresenta com a complexidade do recurso dos — autores, e neste ponto houve unani- 273 R.T.J. — 109 midade dos votos até agora pronunciados, com os quais também concordo. Acompanho, assim com a vênia do eminente Ministro Oscar Corrêa, os votos dos eminentes Ministros Rafael Mayer e Alfredo Buzaid. Decisão: Não se conheceu dos dois recursos extraordinários vencido em parte o Ministro Oscar Corrêa que conhecia parcialmente do 1? recurso e lhe dava provimento nessa parte. Impedido o Ministro Néri da Silveira. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os EXTRATO DA ATA Senhores Ministros. Rafael Mayer, Alfredo Buzaid, Néri da Silveira e RE 96.022-RJ — Rel.: Min. Rafael Oscar Corrêa — SubprocuradorMayer. Rectes.: 1? Mário Whittlesey Geral da República, Dr. Francisco Tebyriça e outros. (Advs.: Cláudio de Assis Toledo. Lacombe, Seabra Fagundes e ouBrasília, 28 de fevereiro de 1984 — tros). 2? União Federal. Recdos.: Os Antônio Carlos de Azevedo Braga, mesmos. Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 96.105 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda. Recorrentes: 1?) Paulo Arthur Leite Bastos e outros — 2?) Sérgio Dourado Empreendimentos S.A. — Recorridos: os mesmos, Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (falida), Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (massa falida), representada pelo seu síndico Manoel Bezerra Leite. Civil. Incorporação imobiliária. Falência do incorporador. Interrompida a Incorporação pela falência do incorporador, os titulares de promessas de venda decorrentes dessa incorporação têm opção para prosseguir, eles próprios, desde que em maioria, na construção e operações faltantes da Incorporação (art. 43, III, da Lei n? 4.591, de 16-1264) ou habilitar-se na falência do Incorporador, privilegiadamente, pelas quantias pagas. Não lhes é dada a faculdade de consignar em pagamento ã Massa Falida do incorporador simplesmente o que consideram saldo do preço da quota de terreno objeto da Incorporação, para o efeito de obter o cumprimento da promessa de venda da aludida quota. Tal providência importaria em isolar, em detrimento da massa falida, uma parte do negócio estabelecido com o incorporador, sem assumirem os consignantes a outra parte, isto é, a posição de continuadores da incorporação e da construção. ACORDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em segunda turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em não conhecer de ambos os recursos. Brasília, 13 de dezembro de 1983 — Djaci Falcão, Presidente — Decio Miranda, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Decio Miranda: A Procuradora da Justiça Dra. Mariza Clotilde Villela Perigault, em preâm- 274 R.T.J. - 109 bulo a seu parecer, pronunciando-se sobre as apelações em cinco ações conexas, faz minucioso relatório sobre as questões em debate, a dizer: «1. Versa a espécie cinco ações conexas, postuladas contra a Massa Falida de Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. e outros, com pertinência à incorporação e construção pela falida Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. de dois edifícios em terreno à Avenida Rainha Elizabeth n? 403, e julgadas conjuntamente pelo MM. Dr. Juiz a quo pela sentença de fls. 163/177. Assim, em janeiro de 1973 ajustou a firma Graça Engenharia Comércio e Indústria SÃ. com a Sérgio Dourado Imobiliária Ltda. o lançamento da referida incorporação (V. fls. 187/208 do 9? apenso, processo 99.391), lançamento que, efetivado, resultou em singular sucesso, com alienação das respectivas unidades nos termos do art. 41 da Lei n? 4.591, de 1964, que dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias, em principio do mesmo ano de 1973 (V. contratos de fls. 85/91, 94/100, 107/113, 116/121, 12,6/131_136/141, 146/151, 155/160, 164/169, 172/177, 181/186, 192/197, 200/205, 209/214, 220/225, 231/238, 241/246, 255/260, 263/268, 274/279, 283/288, 293/298, 302/307, 312/318, 321/326, 330/335, 338/343, 346/351, 354/359, 368/373, 376/381, 385/390, 393/398, 401/406, 410/415, 418/423, 426/431, 435/440, 447/452, 457/462 e 472/477 do 6? apenso, 110.033 e respectivas cláusulas 2.2). 2. Tendo sido decretada em 15 de abril de 1974 a falência da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (V. certidão de fls. 81 do 4? apenso, Processo n? 99.391), cinqüenta e nove promissórios compradores de unidades daquela incorporação, encabeçados por Paulo Arthur Leite Bastos, ajuizaram no Juízo falimentar, em novembro de 1974, contra a Massa Falida dá Graça Engenharia Comércio e Indústria S/A. o Banco Baú S.A. José Adolpho da Silva Gordo . e Sebastião do Espirito Santo, ação ordinária de indenização de perdas e danos, que recebeu o n? 98.558 e na qual pleiteiam receber: o quantum satis para custeio da diferença entre o preço efetivo estabelecido nos contratos de promessa de compra e venda, para aquisição das frações ideais do terreno e as eventuais diferenças, de tal sorte que não dispendam mais do que aquilo que as escrituras lhe impõem com vistas à obtenção das respectivas escrituras definitivas; o quantum satis para pagamento das cotas de construção, levando em conta os valores predeterminados nos respectivos contratos, as variações das UPCs e as épocas dos vencimentos contratuais daquelas prestações, suportando os RR. as variações das citadas UPCs e os aumentos da construção civil, até final conclusão dos edifícios e concessão dos respectivos «habite-se»; o valor correspondente aos alugueres pagos por aqueles que, não residindo em casa própria, estão obrigados a suportá-los, até o momento da conclusão das obras, tendo em vista a data prevista para entrega de suas unidades de acordo com os respectivos contratos e a ser apurado em execução; lucros cessantes e danos emergentes conseqüentes da paralisação das obras em face do retardo na sua conclusão; 5?) condenação acessória em honorários e custas. ( V. fls. 29/30 do Processo n? 98.558. 9? apenso). R.T.J. — 109 Posteriormente, Mario Burdman, que Inicialmente integrara o pólo ativo daquela ação de perdas e danos e desistira da postulação (fls. 2, 294/296 verso do citado Processo n? 98.558, 9? apenso) ajuizou com sua mulher, em março de 1975, no mesmo Juízo (alimentar, contra a Massa Falida de Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A., Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., Banco liai S.A., José Adolpho da Silva Gordo, Sebastião do Espírito Santo e terceiros interessados, ação ordinária de rescisão do contrato de promessa de venda de uma das unidades daquela incorporação, celebrado com a Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A., com a anulação da obrigação principal nele contida e das obrigações adjetas, ou seja, as notas promissórias emitidas pelos AA. em razão do mesmo contrato e a condenação solidária dos RR. a restituir o valor corrigido do que pagaram em razão do dito contrato, além das condenações acessórias em honorários de advogado e custas, processo que recebeu o n? 99.391 (3? e 4? apensos). Mais tarde, já em março de 1976, os mesmos 59 condóminos encabeçados por Paulo Arthur Leite Bastos, autores da ação de indenização de perdas e danos, Processo n? 98.558, ajuizaram contra a Massa Falida embargos de terceiro objetivando o terreno da mencionada Incorporação, à Avenida Rainha Elizabeth n? 403, arrecadado pela Massa em novembro de 1974, processo que recebeu o n? 104.337 (10? e 11? apensos, V. fls. 2/33). 5. Posteriormente, em setembro de 1977, quarenta daqueles condôminos encabeçados por Paulo Arthur Leite Bastos que postularam os embargos de terceiro, ajuizaram contra a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e In- 275 ~iria S.A. ação consignatória das importâncias que consideravam saldo do preço das respectivas frações ideais de terreno aos mesmos prometidos vender na citada incorporação, processo que recebeu o n? 110.033 (5? e 6? apensos). 6. Afinal, em outubro de 1977, a Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., na qualidade de cessionária dos direitos pertinentes às promessas de venda das unidades 503 do Edifício Arpoador e 503 e 603 do Edifício Castelinho, todas da mesma incorporação, também ajuizou contra a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. ação consignatória da importância de Cr$103.802,00, que considera o saldo do preço da aquisição das frações ideais de terreno correspondentes às ditas unidades, objetivando a decretação da extinção das obrigações de pagamento dos preços das referidas frações de terreno, processo que recebeu o n? 111.270 (os presentes autos e o 1? apenso). Com referência a essa ação de consignação é de ser esclarecido que a Autora, Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., muito embora se qualifique como cessionário dos direitos à aquisição das unidades 503 do Edifício Arpoador e 503 e 603 do Edifício Castelinho, instruiu a inicial com as escrituras de promessa de cessão dos mesmos direitos ( fls. 18/20 e fls. 30/33 e 41/43), datada a primeira de 30 de janeiro de 1974 e as duas últimas de 20 de dezembro de 1973, registrada a primeira (apartamento 503 do Edifício Arpoador), no 5? Oficio do Registro Geral de Imóveis em 2 de junho de 1977 (fls. 21/22) e a segunda, pertinente ao apartamento 503 do Edifício "Castelinho, no mesmo 5? Ofício do Registro de Imóveis, em 7 de junho de 1977 (fls. 32 e 34 do.1? apenso). 276 R.T.J. — 109 No que se refere ao apartamento 603 do Edifício Castelinho, a escritura de promessa de cessão de fls. 41/43 foi registrada no Registro de Imóveis em 16 de agosto de 1977, conforme noticiam as certidões de fls. 44/45 do 1? apenso. Ditas certidões ainda fazem menção de que por escritura de 10 de agosto de 1977, os promitentes cedentes Israel Grodetzky e sua mulher efetivaram a cessão dos direitos pertinentes ao dito apartamento 603. Todavia, não veio aos autos traslado ou certidão dessa escritura de cessão, salvo erro de nossa parte. Cumpre ainda ser esclarecido que o cedente dos direitos pertinentes aos apartamentos 503 e 603 do Edifício Castelinho, Israel Grodetzky, não obstante os termos das escrituras que outorgou em 20 de dezembro de 1973 à Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., fls. 18/20 e fls. 30/33, do 1? apenso, em caráter irrevogável irretratável, com quitação de preço, imissão de posse e total subrogação de direitos e obrigações dos contratos originários de promessa de compra e venda daquelas unidades da incorporação, — figura entre os Autores da ação de perdas e danos, Processo n? 98.558 dos embargos de terceiros, Processo n? 104.337, ajuizados postedormente às mesmas (V. Processo n? 98.558, 9? apenso, fls. 2, 3/9 e Processo n? 104.337, 11? apenso, fls. 2, 3/193). 7. Processadas ditas ações na forma de que os respectivos autos dão noticia, foram decididas conjuntamente pelo MM. Dr. Juiz a quo pela sentença de fls. 163/177, que julgou: — procedentes in totum as ações de consignações em pagamento movidas pela Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários e por Paulo Arthur Leite Bastos e outros, declarando extintas as obrigações constantes das respectivas iniciais, condenada a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. em custas e honorários de advogado; procedentes os embargos de terceiros formulados por Paulo Arthur Leite Bastos e outros para excluir da arrecadação as frações ideais de terreno dos embargantes, condenada a Massa Falida em custas e honorários de advogado; procedente em parte a ação ordinária de indenização de perdas e danos proposta por Paulo Arthur Leite Bastos e outros, para condenar a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. a pagar aos Autores a indenização por estes pleiteada na inicial, abrangendo ressarcimento por perdas e danos, danos emergentes e lucros cessantes, a serem apurados em execução e acrescidos de condenação em custas e honorários de advogado e improcedente dita ação com referência aos 2?, 3? e 4? Réus, condenados, em conseqüência, os Autores ao pagamento de 75% das custas e em honorários de advogado a serem rateados entre ditos Réus; procedente em parte a ação ordinária proposta por Mario Burdman e sua mulher, para declarar rescindido o contrato de promessa de compra e venda da unidade da incorporação de que eram aqueles titulares, por culpa da Massa Falida, com a anulação das notas promissórias emitidas em razão do mesmo, condenada a Massa Falida a restituir .a importância em dinheiro correspondente a 1.580,06634 UPCs, pelos mesmos dispendida, com os juros da mora mais custas e ho- R.T.J. 109 norários de advogado — e improcedente dita ação contra os demais Réus, condenados, em conseqüência, os Autores ao pagamento das custas em proporção a esses outros Réus e honorários de advogado a serem rateados entre os mesmos. Inconformados com essa decisão, da mesma apelaram Paulo Arthur Leite Bastos e outros, a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A., Mario Burdman e sua mulher e a falida Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. Pleiteiam os primeiros apelantes, Paulo Arthur Leite Bastos e outros a reforma da decisão de primeiro grau na parte em que julgou improcedente a sua ação ordinária de indenização de perdas e danos, com relação ao Banco Mal S.A. e demais co-réus, José Adolpho da Silva Gordo e Sebastião do Espírito Santo, antigos diretores do Banco Português do Brasil e Banco Português de Investimento, para o efeito de serem os mesmos Réus, como efetivos participantes de sociedade formada com a falida Graça Engenharia Comércio e Indústria para a exploração da malsinada incorporação, solidariamente condenados com esta a ressarcir os prejuízos causados (fls. 232/245). 10. Pleiteia a segunda apelante, Massa Falida de Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. representada pelo Síndico, a reforma da sentença para os seguintes efeitos: serem julgadas improcedentes as ações — de consignação em pagamento e os embargos de terceiros, com a condenação dos respectivos Autores nas penas da sucumbência; ser excluída da condenação pertinente á ação ordinária pro- 277 posta por Mario Burdman e sua mulher, a restituição em dinheiro da quantia equivalente a 1.580,06634 UPCs mais os juros da mora legais e a verba honorária, habilitando-se ditos Autores como credores privilegiados da Massa Falida pelas quantias efetivamente pagas, conforme os termos do art. 41, III, da Lei n? 4.591; —, ser julgada totalmente improcedente a ação ordinária da indenização de perdas e danos postulada por Paulo Arthur Leite Bastos e outros (fls. 247/258). Pleiteiam os terceiros apelantes, Mario Burdman e sua mulher, a reforma da sentença de primeiro grau na parte em que julgou improcedente contra a Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A. a ação ordinária pelos mesmos proposta, para o efeito de ser dita empresa condenada, solidariamente com a Massa Falida da Graça Engenharia Comércio e Indústria, a ressarcir os prejuízos causados (fls. 259/264) . Pleiteia a quarta apelante, a falida Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. como assistente da respectiva Massa Falida, a reforma integral da sentença apelada para o efeito de serem julgadas improcedentes as duas ações consignatórias, os embargos de terceiros e as ações ordinárias postuladas por Paulo Arthur Leite Bastos e outros e por Mario Burdman, com a condenação dos respectivos autores em honorários de advogado e custas, e o reconhecimento de que os mesmos têm direito à habilitação dos seus créditos, como privilegiados, no passivo falimentar da Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (fls. 271/310). 13. Contra-razões pelo apelado Banco DEI S.A. a fls. 323/333 e fls. 278 R.T.J. — 109 415/419, pelos apelados José da SilNa segunda apelação, provida, a va Gordo e Sebastião do Espirito Massa Falida da incorporadora peSanto a fls. 336/359 e fls. 360/384, dia a improcedência das ações conpelos apelados Paulo Arthur Leite signatórias, ajuizadas para entrega Bastos e outros a fls. 385/408 e fls. do saldo devedor correspondente ao 451/475 e pela apelada Sérgio Dou- preço ajustado para a venda das frarado Empreendimentos Imobiliá- ções ideais do terreno; a improcerios S.A. — a fls. 410/414 e fls. dência dos embargos de terceiro, 446/449. acolhidos pela sentença para afastar à Massa, das quotas Oficiou a fls. 484 verso a douta adearrecadação terreno prometidas à venda, e Curadoria de Massas opinando pela também para ser excluída da condeconfirmação da sentença recorri- nação na ação proposta por Mario da.» (fls. 488/498). Burdman e sua mulher. A 5? Câmara Civel do Colendo TriNa terceira apelação, a que tambunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, à unanimidade, acolhendo bém se negou provimento, Mario Burdman e sua mulher opunham invoto do relator, Desembargador Cláu- conformidade à exclusão de Sérgio dio Lima, negou provimento às 1! Dourado Empreendimentos Imobie 3? apelações; julgou extinto o liários S.A. de sociedade com a Masprocesso da ação ordinária de indenização, sem apreciação do mérito; sa Falida, pedida na referida ação excluiu da relação processual o ca- ordinária de ressarcimento. sal de Israel Grodetzky e deu proviNa quarta apelação, também promento às 2? e 4? apelações, assim vida, pediu a Falida, como assistenjulgando improcedentes as ações te da Massa, a improcedência das consignatórias e rejeitando os em- ações ordinárias de indenização, das bargos de terceiro. (fls. 513/523). ações consignatórias e dos embargos Para melhor compreensão desse de terceiro. emaranhado de ações, que decorreO acórdão assim fundamenta a deram de incorporação imobiliária pa- cisão: ra construção de dois edifícios resi«A R. Sentença apelada, de fls. denciais na zona litorânea-sul da ci163 da primeira consignatória dade do Rio de Janeiro, não levado a (Processo n? 110.033/77) julgou em bom termo e contemporaneamente comum, observada a ordem cronodeclarada a falência da incorporadológica de seu ajuizamento (1) uma ra, que também detinha a qualidade ação ordinária de indenização de proprietária dos terrenos onde os (Processo n? 98.558/74), (2) uma prédios seriam construidos e ainda a outra ação ordinária de rescisão de construtora das edificações projecontratual (Processo n? 99.391/75), tadas, merece esclarecer-se, na se(3) Embargos de Terceiro (Procesqüência indicada na ata de julgaso n? 104.337/76) e mais duas ações mento (fls. 525), o objeto de cada de Consignação em Pagamento (4) uma das apelações apreciadas. (Processo n? 110.033/77) e (5) (ProA primeira apelação, a que se necesso n? 111.270/77). A presente apegou provimento, dizia respeito à ação lação se prende à incorporação de ordinária dos condôminos Paulo Ardois edifícios, no regime de conthur Leite Bastos e outros, que não se domínio relativo, à Rua Rainha conformaram com a exclusão de coElizabeth, antigo n? 403 (Edifícios réus, apontados na ação de indenizaArpoador e Castelinho), incorporaçáo de perdas e danos contra a inção que não chegou a termo, sobrecorporadora. vindo a falência da incorporadora R.T.J. — 109 Graça Engenharia Comércio e Indústria S/A., decretada a 15 de abril de 1974 (fls. 81 — Processo n? 99.391/75). Na primeira ação ordinária, Paulo Arthur Leite Bastos e outros candidatos à compra de unidades dos edifícios referidos, em número de 59, alegando esta condição e a de detentores de direito real à aquisição das frações ideais correspondentes às unidades comprometidas por escrituras irretratáveis e irrevogáveis, devidamente registradas, pediram indenização de perdas e danos contra a Massa Falida da incorporadora. Na segunda ação ordinária, casal desistente da primeira, postula a rescisão do contrato de promessa de venda, com as conseqüências legais, anulação de notas promissórias emitidas em decorrência do contrato e condenação solidária, ao pagamento de perdas e danos da Massa Falida, de Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., ao ver dos autores a incorporadora, do Banco Itaú S/A., financiadora do empreendimento e seus diretores, apontados sócios ocultos da falida. Os embargos de terceiro se voltam contra a arrecadação do imóvel em que se fazia a incorporação, opostos pelos autores da primeira ação ordinária. As ações de consignação em pagamento, dos condóminos referidos, 40 dos autores da primeira ação ordinária, na primeira consignatória, e os autores da segunda ordinária na outra consignatórla, pretendem a quitação judicial das prestações do preço das promessas de venda de frações do terreno, exclusivamente. A R. Sentença apelada julgou procedentes as ações ordinárias contra a Massa Falida, excluindo os demais réus da condenação, as consignatórias, acenando com a adjudicação compulsória das frações prometidas vender do imóvel, e acolheu os embargos de terceiro. Os recursos 279 são para a procedência total das ações ordinárias (1, e 3, apelações) e improcedência total de todas as ações (2 e 4? apelações). A nobre Procuradoria da Justiça, no fulgurante Parecer de fls. 436, observou, com a habitual acuidade, a ilegitimidade de parte do casal Israel Grodetzky, ex-candidato à aquisição dos apartamentos 503 e 603 do Edifício Castelinho, visto que prometeu ceder, ou mesmo cedeu, os mencionados direitos aquisitivos a Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A. (fls. 23/30, 35/41/44 e 32/45 do Processo n? 111.270/70). Ao mesmo tempo em que esta transferência de direito deu condição de agir, na espécie, à referida empresa, retirou do mesmo casal a legitimidade para a ação ordinária de Indenização, em que figura, na parte ativa, outorgando a procuração, aliás, no mesmo dia 20-12-1974, em que faria a promessa de cessão. Atendendo a que o douto Juiz a quo julgou antecipadamente a lide, não precluindo, assim qualquer despacho saneador, que tornasse preclusa a questão da legitimidade de partes, é de se reconhecer o casal em apreço como parte ilegítima, julgando extinto o processo, quanto ao mesmo, sem entrar no mérito (art. 267, VI, do C.P. Civil). Relativamente às ações ordinárias, contraditoriamente julgadas (em verdade, em uma rescindindo-se o contrato de incorporação e em outra, ao mesmo tempo, tendo-o como válido, acenando até com a possibilidade de adjudicação compulsória) há considerações elementares e fundamentais, que tornam irrelevante esta contradição, no que se refere não só à Massa Falida, ré, como aos seus pretensos sócios ocultos. Intentadas as ações ordinárias após o decreto de falência (a 15-4-1974 — fls. 81 — Processo n? 99.391) a 13=12-1974 e 19-3-75. 280 R.T.J. — 109 quando ajuizadas estas demandas, por força do art. 24 da lei de falências, já encontraram suspensas «as ações ou execuções individuais dos credores, sobre direitos e interesses relativos á massa falida, inclusive as dos credores particulares de sócio solidário da sociedade falida». Miranda Valverde, em seus comentários à Lei de Falências, observa que, declarada a falência, «todas as demais vias judiciárias se fecham, ou se suspendem, ressalvadas as exceções legais» (Pág. 158, n? 162 — 1? edição, 1948 — Forense). Quando o art. 23 da lei falimentar dispõe que «ao Juizo da falência devem concorrer todos os credores do devedor comum, comerciais ou civis, alegando e provando os seus direitos», estabelecendo a universalidade do Juizo falimentar, firma, também, a unidade do processo falimentar, todo ele submetido á referida lei, salvo expressa exceção que, no caso, não ocorreu. Assim, as exceções ao principio de suspensão de ações e execuções contra a Massa Falida são previstas, expressamente, na mesma lei, no mesmo art. 24, principalmente, e em outros. O art. 43, cogitando dos efeitos da falência quanto aos contratos do falido, comanda: «Os contratos bilaterais não se resolvem pela falência e podem ser executados pelo sindico, se achar de conveniência para a massa». Mas condiciona, em seu par. único: «O contraente pode interpelar o síndico, para que, dentro de 5 (cinco) dias declare se cumpre ou não o contrato. A declaração negativa ou o silêncio do síndico, findo esse prazo, dá ao contraente o direito à indenizaçãó, cujo valor, apurado em processo ordinário, constituirá crédito quirografário». Este artigo veio a ser alterado pela Lei n? 4.591, de 16 de dezembro de 1964, que dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias, em seu art. 43, III, ao prever: «em caso de falência do incorporador, pessoa física ou jurídica, e não ser possível à maioria prosseguir na construção das edificações, os subscritores ou candidatos à aquisição de unidades serão credores privilegiados pelas quantias que houverem pago ao incorporador, respondendo subsidiariamente os bens pessoais deste». A modificação está na eliminação do processo ordinário, para apuração do crédito, que não é mencionado no novo texto, e na classificação do mesmo crédito que, quirografário na lei de falências, passa a privilegiado pela alteração em foco. A situação, no caso de falência do incorporador, conjugando-se, os textos transcritos, admite as seguintes alternativas: 1? Interpelação do síndico para que, em 5 (cinco) dias, declare se cumpre ou não o contrato, havendo resposta positiva, caso em que a incorporação prossegue com o síndico, não se resolvendo o contrato bilateral; 2? Interpelação do sindico, nos termos supra, com resposta negativa, ou, o que a tanto equivale o silêncio do síndico, hipótese que se desdobra em duas subalternativas: a) a maioria dos subscritores ou candidatos à aquisição de unidades tem possibilidade de prosseguir na construção, caso em que prosseguirá a mesma com os condôminos; b) a maioria, referida, não tem possibilidade de prosseguir na construção, quando, então, como credores privilegiados, devem os condôminos se habilitar na falência (forma de apuração do crédito no direito falimentar, desde que eliminado o processo ordinário mencionado anteriormente no art. 43, par. único da mesma lei pelo art. 43, III, da Lei n? 4.591); 3? Ausência de interpelação do síndico, caso em que não se pode cogitar da continuação da R.T.J. execução do contrato bilateral com mesmo, e que se equipara à 2? alternativa com as suas duas subalternativas, supra. No caso dos autos, em que não houve a interpelação do síndico, é de se verificar que não revelaram os condôminos condições para, por sua maioria, prosseguir na incorporação. Demonstrou isto, de forma brilhante objetiva, o douto Parecer da nobre Procuradoria da Justiça, quando argumenta: fls. 508: «Alegam os embargantes que não prosseguiram com a obra, conforme previsto no citado dispositivo legal, porque foram surpreendidos com a arrecadação do imóvel pela Massa, impossibilitando a sua iniciativa naquele sentido. Todavia, a leitura dos autos evidencia que, decretada a falência da incorporadora em 15 de abril de 1974 (V. certidão de fls. 81 do Processo n? 99.391, 4? apenso), não prosseguiram os condôminos com as obras na forma previs- • ta no citado inciso legal. E não se alegue que foram impedidos de fazê-lo em razão da arrecadação do imóvel pela Massa. Essa arrecadação somente se efetivou mais de sete meses após a decretação da falência, ou seja, em 28 de novembro de 1974, como se vê de fls. 33 do Processo n? 104.337, 11? apenso sem que dessem os condôminos prosseguimento às ditas obras. E não o fizeram porque insuperáveis dificuldades nas «dèmarches» a respeito de recursos para o prosseguimento das obras e quitação ou sub-rogação do vultoso ônus hipotecário que gravava o imóvel, ao par da inadimplência da grande maioria dos condôminos, dificuldades essas historiadas por Mario Burdman e outra na inicial da ação ordinária de rescisão de contrato que propôs contra a Massa Falida e outros — (V. processo n? 99.391, 4? ap enso, fls. 3/6) e já pressentidas na assembléia de condô- 109 281 minos realizada em 18 de abril de 1974 (V. fls. 90/91 do Processo n? 104.337 — 11? apenso), não o permitiram. Dai não ter sido postulada de inicio, junto ao juízo !alimentar, a exclusão do empreendimento da Massa Falida, conforme previsto na referida ata da assembléia de condôminos de 18 de abril de 1974 (V. fls. 90 do cit. Processo n? 104.337, 11? apenso). E ao tempo da arrecadação, em novembro de 1974, mais de sete meses após a decretação da falência, se limitaram os condôminos Terceiros Apelados a ajuizar contra a Massa, o credor hipotecário Banco Baú S.A. e outros, ação ordinária de indenização por perdas e danos (V. Processo n? 98.558, 9? apenso, fls. 2 e seguintes). Em conseqüência, salvo erro de nosso entendimento, temos por evidenciada a ocorrência da hipótese prevista no citado inciso III do art. 43 da Lei n? 4.951, verbis: «não ser possível à maioria prosseguir na construção das edificações», possibilidade essa a se configurar ao tempo da decretação da falência e não anos após a mesma. E não tendo sido possível à maioria prosseguir com a obra e tanto que não prosseguiu e não tomou de início qualquer medida judicial nesse sentido, não obstante prevista na citada assembléia de condôminos de 18 de abril de 1974 ( cits. fl. 90 do Processo n? 104.337, 11? apenso), cabia à Massa Falida arrecadar dito bem, nos termos do art, 70 da Lei de Quebras, ressalvada aos condôminos a sua habilitação como credores privilegiados, junto à mesma, pelas quantias pagas ao incorporador». A notificação que fizeram os condôminos à falida, e não ao seu síndico, é inócua e este errado endereçamento torna mesmo inútil referir a discussão se se efetivou a interpelação antes ou depois do decreto de falência. Pior se antes da falência, 282 R.T.J. — 109 quando não havia síndico, como canhestra e empenhadamente querem fazer crer os condôminos. A hipótese, portanto, é de habilitação dos condôminos, como credores privilegiados, nunca de propositura de ação de indenização contra a Massa Falida, como se pudessem os mesmos se furtar à universalidade do Juízo falimentar, a par conditio creditorum e á moeda da falência, como, parece, pretendido. Pois que suspensas ações e execuções contra a Massa, a ação em apreço não se inclui nas excepcionalmente admitidas, nem mesmo nos procedimentos referentes aos contratos do falido, que, como exceção, não se ampliam. Conseqüentemente, quanto à Massa Falida, é de se verificar que aos autores da ação ordinária não têm condição de ação, não havendo possibilidade Jurídica, na ordem processual vigente, da prestação jurisdicional pedida. Neste sentido, se Julgam extintos os processos das ações ordinárias quanto a Massa Falida (art. 267, VI, do C.P. Civil). No que se refere aos demais réus destas ações ordinárias, o Banco, credor hipotecário e financiador da incorporação, e seus dois diretores, o fundamento estaria em que teriam firmado contrato de sociedade em conta de participação com a falida, na qual, assinale-se, seriam sécios ocultos. Pelo art. 326 do C. Comercial, «na sociedade em conta de participação, o sócio ostensivo é o único que se obriga para com terceiro; os outros sócios ficam unicamente obrigados para com o mesmo sócio por todos os resultados das transações (rectius — operações) e obrigações sociais empreendidas nos termos precisos do contrato». E da própria essência do cogitado tipo de contrato, que não gera sociedade com personalidade distinta das pessoas dos sócios (art. 325 do C. Comercial) co- mo de sabença elementar. Consoante preleciona Carvalho Mendonça, citando Vivante (Tratado do Direito Comercial, 6? edição, R. Bastos, vol. IV, pág. 227, n? 1.426), os terceiros não podem alegar a existência da referida sociedade, «ainda que saibam ou conheçam a sua formação». Se assim não fosse, todavia, é de se atentar para o fato de que se invoca a sociedade por conta de participação que teriam feito os mesmos réus com a falida para outra operação. E o que está provado às fls. 380 dos autos da primeira ação ordinária de Paulo Arthur Leite Bastos e outros (Processo n? 98.558) com a cópia do contrato de sociedade conta de construir para participação edifício na rua da Candelária n?s 22 e 24 e rua da Alfândega 10, 12 e 14 (cláusula 1!. fls. 38). Não há prova alguma de sociedade igual relativamente ao terreno da rua Rainha Elizabeth, antigo n? 403, de que se trata. Patente, pois, a inexistência do direito de ação dos condôminos também contra os réus (segundos apelados) que não são os pretendidos sócios ocultos da falida e, ainda que o fossem não podem ser acionados pelos negócios da sócia ostensiva. De resto, é de se ver, a desnecessidade de focalizar, ainda, que Já se pronunciou a Justiça pelo V. Acórdão de fls. 479 dos autos da primeira ação ordinária, desta Câmara, na Apelação Civel n? 1.260, Rel.: Des. Graccho Aurélio, que o credor habilitado na falência — qualidade que não têm os autores da referida ação ordinária — conta com ação para apurar a responsabilidade solidária do sócio oculto da falida, e para torná-la efetiva, no caso de omissão do síndico, omissão, de resto não provada na espécie. Assim, também há impossibilidade Jurídica de acionar o terceiro sócio oculto da alegada, e não provada, R.T.J. — 109 ainda por cúmulo, sociedade em conta de participação. Quanto a terceira ação — os embargos de terceiro dos condôminos contra a arrecadação do terreno, de que seriam titulares, precários, de frações — é de se tirar a conseqüência de todo o visto. Se os condôminos se mantiveram inertes, não interpelaram o síndico para saber se cumpriria ou não o contrato de incorporação, se não se dispuseram, (ou não tiveram possibilidade, como antes demonstrado) de prosseguir no empreendimento, se não se manifestaram, como podem se opor à arrecadação, efetivada a 28 de novembro de 1974 mais de ano depois, a 26 de março de 1976. Resolvido, como se expõe, o contrato de incorporação, o alegado direito real dos condôminos sobre as frações do imóvel dá aos mesmos (art. 43, III, da Lei n? 4.591/64), apenas, a condição de credores privilegiados, sujeitos, como assinalado acima, à habilitação, regular, de seus créditos. Os embargos de terceiro de forma alguma poderiam ser admitidos, notadamente quando não são terceiros os condôminos e insistem, até, na sua condição de contratantes da incorporação, contrato que ficou, como notado, resolvido com a falência. A segunda ação ordinária também é intentada contra Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., que se tem como a incorporadora dos edifícios considerados. Nãp se pode pretender esta qualidade, à vista de que os autores da referida ação firmaram o contrato de incorporação com a Massa Falida (fls. 21 do Processo n? 99.391/75). A circunstância de ter interferido Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., como corretora, no planejamento e venda de unidades dos edifícios, não leva a que se possa presumi-la solidária, como se incorporadora asso- 283 ciada fosse. Nem se enquadra na definição legal do art. 29 da Lei n? 4.591/64. Improcede, mesmo, em toda a linha, a segunda ação ordinária contra ela. Finalmente, no que se refere às ações de consignação em pagamento, com uma pretensão além, muito além, do uso de uma das modalidades de pagamento, qual seja o pagamento em consignação, há que se ponderar o seguinte: «A sentença (na ação de consignação em pagamento) não resolve sobre a substância do contrato; não adscreve ao pagamento nenhum efeito determinado In concreto: o pagamento valerá o que valer o pagamento do débito em relação ao contrato e à lei» (Amorim Lima, C.P. Civil Brasileiro, pág. 135 e segs., apud Machado Guimarães, Comentários ao C.P. Civil, vol. IV, pág. 324, Forense). Diz mais o mesmo processualista que a sentença que julgar efetuado o pagamento tem puro e simples efeito liberatório. Julga efetuado o pagamento para os fins de direito, como previsto no direito material. Tais direitos, no entanto, não são definidos, nem acertados e nem constituídos pela sentença (Machado Guimarães, ob. cit., pág. 324, n? 339). Na expressiva menção do mesmo e saudoso mestre, o pagamento em consignação é meio próprio para o devedor pagar o que julga devido e não para deixar de pagar o que julga não devido (Machado Guimarães, ob. cit , pág. 316, in fine). No caso dos autos, na justa ponderação do douto Parecer da nobre Procuradoria da Justiça, o objeto das ações consignatórias não corresponde ao objeto do pagamento devido. Arbitrariamente os devedores cindiram a dívida, espertamente pretendendo separar o contrato de incorporação, para oferta (aliás não há em nenhum dos autos das consignatórias certidão relativa a efetiva 284 R.T.J. — 109 oblação nos dia e hora designados) significa a declaração de que a de parte do débito, apenas do que se consignação parcial era subsistenrefere às prestações da quota do te e correta. Valesse tanto e nem terreno, com vistas a algo mais do haveria necessidade de julgar o que a quitação, mas a uma declamérito, o que se revela absurdo. ração de solvido o contrato para Com a douta Procuradora se pode efeito de adjudicação compulsória arrematar: «No que se refere às do domínio. O primeiro absurdo, ações ordinárias de indenização data venha, é desconhecer que, por por perdas e danos, também entenlei, hoje, a incorporação é um condemos que merecem provimento trato típico (art. 28, par. un. da Lei às 2? e 48 apelações. Salvo melhor entendimento, antes de propô-las n? 4.591, de 16-12-1964). Jã antes da deveriam ter os respectivos autolei em apreço, Pontes de Miranda, res interpelado o Síndico da Massa em repetidíssima lição, escrevia: Falida quanto ao cumprimento dos «Ao negócio jurídico ou a série de respectivos contratos, na forma do negócios Jurídicos que preparam a preceituado no parágrafo único do comunhão pro diviso chamou-se art. 43 da Lei de Quebras. Não o fiincorporação. O uso escolheu o terzeram. Assim sendo, SMJ não lhes mo». «O negócio Jiirldico ou série cabe direito à indenização pleiteade negócios Jurídicos que faz a inda e concedida pela sentença, mas corporação, é, de regra, negócio tão e só o direito de se habilitarem jurídico ou série de negócios jurídicomo credores privilegiados, pelas cos inominados; porém, contém, quantias pagas ao incorporador, necessariamente, promessa, opnos precisos termos do inciso III ção, ou compra e venda de apartado art. 43 da Lei n? 4.591, de 1964». mentos, ou contrato de divisão maRazões por que se deu provimento, terial e Jurídica do bem comum, no mérito, às segunda e quarta com discriminação do que é diviso apelações, julgando improcedente e do que é indiviso». (Pontes de as consignatórias, rejeitando os Miranda, Tomo XII, Tratado de embargos de terceiro, negando-se Direito Privado — 2? edição, Borprovimento às primeira e terceira sói 1.325, n?s 4/5). O autor do apelações, condenando os vencidos projeto que se converteu na Lei n? em custas e honorários de advoga4.591, o douto Caio Mario da Silva do de 20% dos respectivos valores Pereira, em sua obra consagrada das causas em que sucumbiram.» Condomínio e Incorporação, acen(fls. 528/40). tua: «A lei n? 4.591, de 16-12-64, tipificou este contrato. Nem poderia Três os recursos extraordinários ser de maneira diversa, uma vez interpostos, os quais, impugnados e que se destina a regular o con- com parecer contrário da Procuradomínio e incorporações». Preten- doria-Geral da Justiça (fls. 655/78), der que os Agravos de n?s 6.104 e foram admitidos por despacho onde 2.155 decididos por esta Câmara, a se diz: respeito de matéria diversa e limi«Contra esse acórdão que se tada — valor da causa — tenha adacha a fls. 526/40, foram interposmitido a cisão do contrato de incortos três recursos extraordinários: poração, é ir além do concebível. Não se podia, então, prejulgar a a) o priffteiro (fls. 542/69) por ação, decidindo-se um mero inciPaulo Arthur Leite Bastos e outros, com fundamento nas dente. Se a parte pretendida consignar uma parcela, o valor da alíneas a e d do permissivo, alegando, além de dissídio pretoriacausa era o desta parcela. Isto não R.T.J. — 109 no, negativa de vigência dos artigos 43, II, III e VI, e 35 § 4? da Lel n? 4.591/64, dos artigos 44, VI, e 80 da Lei de Falências, da Lei n? 649/49, do artigo 963, I, do Código Civil, do artigo 890 do Código de Processo Civil, dos incisos VI e VII da Lei n? 4.864/65 e do Decreto-lei n? 745/69; o segundo (fls. 596/603) por Mario Burdman e sua mulher, com base na alínea a do permissivo constitucional, alegando violação dos artigos 904 e 1.092 do Código Civil; o terceiro (fls. 605/11) por Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., com fulcro nas alíneas a e d do permissivo pretoriano, alegando, além de dissídio pretoriano, violação dos artigos 467, 468, 471 e 890 do Código de Processo Civil, dos artigos 973, I, e 1.092 do Código Civil, do artigo 41 da Lei n? 4.591/64 e do artigo 1? do Decreto-lei n? 745/69. Os três apelos extremos foram tempestivamente interpostos e reúnem os pressupostos suficientes à sua admissão pela alínea a do permissivo. Preliminarmente, e como bem demonstrou e douta ProcuradoriaGeral da Justiça no parecer de fls. 655/78, inexiste óbice regimental ao cabimento dos recursos. Superado esse aspecto da questão, de observar-se que o fundamento do dissídio pretoriano, invocado no primeiro e no terceiro recursos extraordinários, não pode, no presente caso, prevalecer, por falta da regularidade formal, por isso que desatendidas as prescrições da Súmula n? 291. Mas, quanto à alínea a, recomendável se torna o seguimento dos três recursos, até final apreciação pelo Excelso Pretório. 285 Em realidade, as importantes teses que se controvertem — e que foram bem desenvolvidas nas aludidas petições recursais — afastam a matéria do mero terreno de fato, e, conseqüentemente a incidência do verbete n? 279 da Súmula. Cuida-se de matéria estritamente jurídica e que, em tese poderia acarretar a violação das invocadas normas legais. Nada mais certo que o seguimento do feito. São estas as razões que me levam a admitir os três recursos pela alínea a.» (fls. 694/6) Na petição recursal, detêm-se os primeiros recorrentes, Paulo Arthur Leite Bastos e outros, na conceituação do contrato de incorporação, procurando demonstrar que sua Unicidade não afasta a força autônoma dos négocios que nele são integrados, principalmente o de promessa de venda das frações ideais do terreno, ajustado de forma irrevogável e registrado no Registro de Imóveis, conferindo aos outorgados direito real. Não se poderiam rescindir tais contrato., de promessa de venda sem caracterização da mora dos compradores na forma da lei, em benefício da massa falida e com ofensa aos direitos dos integrantes da incorporação, protegidos por norma especial. Os acórdãos trazidos a confronto para justificar o conhecimento pela alínea d, todos desta Suprema Corte, dizem da necessidade, nas ações relativas a contratos de promessa de venda de Imóveis, da Interpelação prévia do devedor para ser constituído em mora. Nas razões da recorrente Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., insiste-se na violação dos arts. 467, 468, 471 e 890 do Código de Processo Civil; 973; I, e 1.092 do Cód. Civil; 41 da Lei n? 4.591/64 e 1? do Decreto-lei n? 745/69, e também 286 R.T.J. — 109 no dissídio com acórdão do Supremo Tribunal Federal sobre a necessidade de constituir-se previamente o devedor em mora, nas ações de rescisão de promessa de venda de imóveis. Já no prazo para razões, Industrial Estruturas Metálicas Ltda. e Ferragens CBC Ltda., na qualidade de credoras habilitadas na falência de Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. pelo fornecimento de materiais às obras das incorporações, pediram, com apoio no art. 30 da Lei de Falências, admissão como assistentes litisconsorciais da falida. Em longo arrazoado, defendem a intervenção postulada e colocam-se ao lado do acórdão recorrido. Alegam ainda que, subtraídas da Massa Falida as frações ideais dos terrenos, nada restará para satisfação dos créditos quirografários, os quais já têm a precedê-los os créditos especiais trabalhistas e de impostos, estes satisfeitos por outros recursos da falida (fls. 748 médio), o crédito hipotecário e os próprios créditos dos condôminos, pelas importâncias já pagas. Sustentam que o afastar da arrecadação bens da Massa, como foi pedido nos embargos de terceiro, e a acolhida das ações de consignação em pagamento viriam beneficiar, principalmente, a recorrente Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., que, diretamente ou por interpostas pessoas, se transformara em cessionária dos direitos aquisitivos de grande número dos que se filiaram às incorporações. Aberta vista aos interessados para dizer sobre . o pedido de assistência, pronunciaram-se favoravelmente a Procuradoria-Geral da Justiça, com base no art. 50 do Código Proc. Civil ( fls. 793/4) e a Falida; os recorrentes a ela se opuseram. Anoto ainda que o recurso extraordinário de Mario Burdman e sua mulher foi julgado deserto. (fls. 822) Será apreciado, como preliminar do recurso extraordinário de Paulo Arthur Leite Bastos e outros, o Agravo de Instrumento n? 86.622, onde se pede a admissão de seu recurso também pela alínea d, que o despacho presidencial afastara, somente o deferido pela alínea a. Houve argüições de relevância, de Paulo Arthur Leite Bastos e outros (n? 12.660) e de Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A. ( n? 12.661), ambas não conhecidas. o relatório. VOTO O Sr. Ministro Decio Miranda (Relator): Aprecio, preliminarmente, o Agravo n? 86.622, autos apensados, onde os recorrentes Paulo Arthur Leite Bastos e outros se esforçam em demonstrar que seu recurso extraordinário deveria ter sido admitido não apenas pelo pressuposto da alínea a da permissão constitucional, mas também pelo da alínea d. Além de inócuo o agravo, ante o entendimento dado pela Súmula n? 292, não têm razão os agravantes. Para caracterizar o pretendido dissídio, foram arrolados na petição recursal os acórdãos proferidos nos ERE n? 60.692 e nos RREE n?s 77.275 e 63.309. Tais acórdãos trazidos a confronto não se prestam a caracterizar a divergência, uma vez que, concluindo pela necessidade de prévia interpelação para constituir em mora o promitente comprador, neles não se apreciou a matéria no aspecto especial do caso em estudo, ou seja, da aplicação da Lei n? 4.591/64, no ponto em que regula as incorporações imobiliárias, e da Lei de Falências. R.T.J. — 109 Nego provimento ao agravo, o que se deve anotar nos autos respectivos. Passo a apreciar os recursos extraordinários de Paulo Arthur Leite Bastos e outros e de Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários S.A., interpostos ao pressuposto da alínea a da permissão constitucional, tãosomente quanto às consignatórias e aos embargos de terceiro. Afasto, de logo, a alegada ofensa aos arts. 467, 468 e 471 do Cód. Proc. Civil, feita pela segunda recorrente (fls. 608), adotando, neste ponto, o parecer da douta ProcuradoriaGeral da Justiça (fls. 677 princ.), onde bem se demonstra que a decisão em agravo, ao dirimir incidente de impugnação ao valor da causa, não faz coisa julgada material. No restante do mérito, merece atenção ponto capital do acórdão recorrido, destacado na ementa, onde se diz: «Cogitando-se de contrato típico, por lei, a incorporação não admite cisão das suas distintas convenções, para ensejar pagamento em consignação de apenas parte das suas prestações». (fls. 526) Partindo-se da tipicidade e decorrente unicidade do contrato de incorporação, afasta-se a possibilidade do pedido de desmembrar-se do todo a promessa de venda, para pedir-se o pagamento do saldo do valor ajustado para as quotas do terreno, em quantias certas, e conseqüente adjudicação, a par de excluírem-se tais frações da arrecadação à massa fali, da. Realmente, a Lei n? 4.591/64, no art. 41 e parágrafos, leva à compreensão de que os ajustes englobados no contrato geral que se denomina de incorporação formam unidade incindivel, em que não é possível, na rescisão, proporcionar autonomia de vida á promessa de compra e venda da quota de terreno. 287 Nesse contexto, a promessa de compra e venda de quota de terreno e o compromisso de construir ou de promover a construção de prédio e a instituição do condomínio são obrigações intimamente ligadas, tanto para o incorporador quanto para o adquirente de quota, no regime da Lei n? 4.591, de 16-12-64. Com efeito, nessa lei o parágrafo único do art. 28 declara que se considera «incorporação imobiliária a atividade exercida com o intuito de promover e realizar a construção, para alienação total ou parcial, de edificações ou conjunto de edificações compostas de unidades autônomas». Em vez de afirmar a autonomia do negócio de compra e venda da quota de terreno, a lei em verdade institui a figura mais complexa da incorporadora imobiliária. Diz, a esse propósito, o parágrafo único do art. 29, presumir-se «a vincul ação entre a alienação das frações do terreno e o negócio de construção, se, ao ser contratada a venda ou promessa de venda ou de cessão das frações de terreno, já houver sido aprovado e estiver em vigor, ou pender de aprovação de autoridade administrativa, o respectivo projeto de construção, respondendo o alienante como incorporador». Se esse é o regime na constituição do condomínio, não é de admitir que, na desconstituição do pacto por inadimplemento ou pela falência do incorporador, os incorporados possam livremente isolar do contexto contratual o negócio da promessa e pleitear em seu benefício apenas o cumprimento desta, embora inserida no contexto mais amplo, constituído pelo conjunto negociai submetido ao juízo falimentar. E o que bem exprime o parecer por último lançado nos autos pelo R.T.J. — 109 Ministério Público local, desta vez de autoria do Dr. Claudio Ramos, a dizer: «Em vista da profusão das questões que lastreiam o apelo extremo pela alínea a, parece de bom aviso, brevitatis causa, dispensar-se o exame analítico das alegações dos recorrentes, para adoção de método de trabalho que consista em examinar se o conteúdo de cada capítulo do acórdão recorrido é suscetível ou não de contrariar, direta ou indiretamente, preceito de lei federal. Anote-se, previamente, que o decisório recorrido, na apreciação da matéria empírica da causa, à luz da prova dos autos, selecionou como pertinentes e relevantes os seguintes fatos litigiosos: 1?) os recorrentes celebraram com a Falida contrato típico de incorporação imobiliária; 2?) sobrevindo a falência da incorporadora, quedaram-se inertes, eis que nem interpelaram o Sindico para que declarasse se cumpriria ou não o contrato, nem tampouco, providenciaram, através das medidas cabíveis, inclusive judiciais, o prosseguimento das obras com a maioria dos subscritores das unidades da incorporação; 3?) não foi possível à maioria dos subscritores dar continuidade ao empreendimento, por conta própria, máxime em razão de dificuldades invencíveis na obtenção de recursos financeiros para, simultaneamente, custear as obras e liberar o imóvel da hipoteca que o grava em garantia de onerosíssimo crédito com cláusula de paridade cambial (Resolução n? 63 do Banco Central) Ora, os fatos assim verificados, segundo o entendimento do acórdão recorrido, repelem, necessariamente, a incidência das regras jurídicas invocadas pelos recorrentes em prol de suas pretensões. É que, integrados juridicamente, implicam, em última análise, a resolução do contrato de incorporação, com o consectário inafastável de investir os subscritores da incorporação em situação jurídica que lhes assegura apenas concorrerem à falência como credores privilegiados (interpretação conjugada dos artigos 23, 24 e 43 e seu parágrafo único da Lei de Falências e 43, inciso III, da Lei n? 4.591, de 1964). Nessa ordem de idéias, dispôs o acórdão, no concernente à ação de reparação civil, que os recorrentes, ao cobrarem perdas e danos da Massa, formularam pedido juridicamente impossível e, por isso, não estão a exercer de modo legítimo o direito de ação que lhes assiste, pois a decretação da falência torna defesa a propositura de qualquer ação que vise a direito e interesse da Massa, salvo as exceções legais, que não estão presentes. Por sua natureza mesma, a matéria do julgado, no ponto em foco, obsta a que ocorra a negativa de aplicação de qualquer das disposições legais citadas pelos recorrentes. A questão foi dirimida no plano do direito de ação. E, como é até intuitivo, o juízo de carência da ação (rectius, de ilegitimidade do exercicio do direito de ação), em termos de lógica jurídica, não é suscetível de malferir senão a norma implícita no sistema do Código de Processo Civil, segundo a qual o Juiz deve pronunciar-se sobre o mérito da causa, para compor efetivamente a lide, quando coexistam os pressupostos processuais (que não vêm ao caso) e as chamadas condições da ação. Logo, é de excluir-se, a priori, a possibilidade de violação dos dispositivos apontados pelos recorrentes. 7. Nem se cogite de infringência de qualquer regra jurídica no R.T.J. — 109 capítulo do julgado que deu pela improcedência do pedido de embargos de terceiro. Reconhecidas a inexistência de interpelação do Síndico e a impossibilidade do prosseguimento das obras com a maioria dos subscritores de unidades imobiliárias, a resolução do contrato de incorporação seria, e foi, conseqüência indefectível de tais fatos, sobre os quais incidiram as normas legais do Estatuto Falimentar. Operada a resolução de um contrato que, por definição legal, engloba, em unidade complexa, prestações próprias de três espécies contratuais, como a promessa de compra e venda da fração ideal do terreno, a construção das acessões e a instituição do condomínio, segue-se que os subscritores das unidades imobiliárias perderam a qualidade de titulares de direito real sobre as respectivas frações de terreno. Não havia, pois, como e porque evitar a arrecadação do imóvel para integração da massa. O imóvel é de propriedade da Falida e, nessa ordem, há de compor a massa. Não colhe argumentar com a autonomia do contrato de promessa de compra e venda das frações ideais correspondentes às unidades autônomas subscritas na incorporação. A lição de Orlando Gomes é, como sempre, elucidativa: «Na determinação da natureza jurídica do contrato de incorporação Imobiliária cabem breves considerações a respeito de sua unidade. A incorporação abrange distintos atos jurídicos que podem ser objeto de contratos diversos • compra e venda ou promessa de venda de coisa comum e de coisa privativa, construção de edifício ou de um conjunto de edificações, instituição de condomínio especial. Todos eles se reúnem num só instrumento para um só fim. ( ...) A verdade é, porém, que se trata de prestações 289 típicas de três contratos unificadas por uma causa típica. Essas prestações não perdem a individualidade, mas se fundem numa unidade complexa que adquire tipicidade ao ser definida, nomeada e disciplinada na lei. (...) Embora certas disposições legais deixem a impressão de que a venda da fração ideal do terreno, a construção do edifício e a instituição do condomínio conservam a independência como contratos distintos, tão interpenetrados se acham como meios jurídicos para ser alcançada certa e invariável finalidade, que se não pode duvidar de sua unificação numa espécie contratual de traços inconfundíveis. A incorporação imobiliária é hoje objeto de contrato típico.» (in Contratos, pág. 550-1, 1978). Por igual teor reza o ensinamento de Calo Mario da Silva Pereira já transcrito nestes autos. Assim, desfeito o contrato por força da resolução resultante da quebra da incorporadora, não é curial proclamar-se a subsistência de um dos negócios que estruturalmente o integram. Desfeito o todo, inevitável é o desfazimento conseqüente de suas partes constitutivas. A questão, antes de tudo, é de lógica. Vale observar, neste passo, que a questão da possibilidade do prosseguimento das obras com os ora recorrentes, em que se põe tanta ênfase na petição recursal, envolve, inequivocamente, matéria de fato, a cujo deslinde, como se sabe, é infensa a via recursal extrema. De afirmar-se, pois, que o decidido no capitulo sob exame do julgado da instância ordinária em nada adversou das disposições legais indicadas pelos recorrentes como vulneradas. 8. Por último, registre-se que o juízo de improcedência da consignatária não importou em negativa 290 R.T.J. — 109 de aplicação das regras jurídicas mencionadas no recurso. E bem de ver-se que, resolvido o contrato de incorporação e, por força de compreensão, o de promessa de venda da fração de terreno que lhe é elementar, não se há de pensar em sobrevivência de débito dos subscritores da Incorporação, os quais se tornaram credores privilegiados, na falência, pelo valor pago à Falida. Em suma, não há o que consignar com eficácia de pagamento. Além do mais, como salientou o acórdão, a cisão das partes integrantes do contrato de incorporação, para o fim de consignar apenas o débito atinente ao preço da quota de terreno, significa fazer tabula rasa da disciplina normativa do contrato, a que a lei atribui unicidade, a despeito da complexidade de seu conteúdo. Destarte, ainda que existisse débito a solver, depósito seria insuficiente, na medida em que se abstraiu da parcela do débito referente á construção da edificação. Dai por que diferem, essencialmente, no dizer do acórdão, o objeto do pagamento e o objeto da ação consignatória proposta, o que de si só produziria a improcedência do pedido de depósito. A consignatória foi usada fora de sua finalidade própria e específica, com vistas a alcançar não efeito liberatório do pagamento, mas a declaração de estar solvido preço do contrato de promessa de venda da fração ideal do terreno para fins de adjudicação compulsória da respectiva propriedade. 9. Por conseguinte, descabe o recurso extraordinário por qualquer de seus fundamentos. O acórdão recorrido não perpetrou violação de dispositivo legal algum, nem consubstanciou dissídio de jurisprudência. Em boa e simples verdade, o órgão julgador da ins- tância ordinária decidiu a matéria sub judice por aplicação das normas jurídicas que incidiram sobre os fatos litigiosos demonstrados pelo complexo instrutório, repelindo a pretensão dos recorrentes de se furtarem à moeda da falência e à par conditio creditorum, como bem realçou o ilustríssimo Relator do acórdão recorrido.» (fls. 668/674). Em resumo, não é possível decompor, a benefício de uma das partes e com sacrifício dos demais credores da outra, o contrato de incorporação, para instituir, com individualidade específica própria, o negócio de aquisição da quota de terreno ao incorporador e fazer executar só este contrato, deixando o ônus da solução dos demais a cargo do juízo falimentar. O negócio é uno e indivisível, a chamada incorporação imobiliária, em que não se visa a adquirir uma quota de terreno como negócio autônomo e isolado, mas a adquirir uma unidade residencial ou comercial no conjunto de sua essência e funcionalidade. Se se frustra esse desiderato primeiro, não se podem separar partes da mesma e una operação — a aquisição da cota de terreno e a aquisição, pelo mesmo contrato, do direito à construção do imóvel — para tratamentos diversos, como se se cuidasse de execuções autônomas. No contrato complexo de incorporação imobiliária, regulado unitariamente em lei especial, não se há de extremar, para efeito de execução separada, a parte relativa à promessa de venda de quota de terreno, como se fora negócio autônomo a ser tratado isoladamente, e, de outro lado, as prestações reciprocas do frustrado contrato de construção, indissoluvelmente ligado ao de aquisição da quota de terreno. Dai, a exata solução dada pelo acórdão recorrido à espécie, solução R.T.J. — 109 sintetizada, quanto aos vários pedidos formulados, na respectiva ementa, a dizer: «Falência da incorporadora: Revelando-se impossível a maioria dos participantes prosseguir na Incorporação, na falência da incorporadora, não se fazendo a interpelação a que se refere a Lei de Falências ( art. 43, par. único), os candidatos à aquisição de unidades não têm ação ou execução contra a falida, devendo se habilitar na falência, como credores privilegiados, pelo que houverem pago ao incorporador, em principio — Não é ilegítima a arrecadação do terreno da incorporação, resolvida com a falência — Cogitando-se de contrato típico, por lei, a incorporação não admite cisão das suas distintas convenções, para ensejar pagamento em consignação de apenas parte das suas prestações — Descabimento da ação de indenização de candidatos. A incorporação, contra a Massa Falida da incorporadora e contra pretensos sócios ocultos dessa — Improcedência e insubsistência de depósitos, assim mal consignados, e rejeição de embargos de terceiro contra a arrecadação de terreno.» ( fls. 526/7). Tal solução não ofende o art. 44, VI, da Lei de Falências, a dizer que, na promessa de compra e venda de imóveis, no âmbito da falência, aplicar-se-á a legislação respectiva. Na espécie, a promessa de compra e venda de imóvel não é negócio isolado, autônomo, mas simples instrumento de realização de um contrato mais amplo, em que, aquele indissoluvelmente se insere, o de incorporação imobiliária. Nem vulnerado ficou o art. 79 da mesma lei de quebras, permissivo de pedido de restituição ou de embargos de terceiro a quem «sofrer turbação ou esbulho na sua posse ou direito, por efeito de arrecadação ou do seqüestro» na falência. 291 Decorrentemente, os arts. 973, I, do Código Civil, e 890 do Cód. Proc. Civil, atinentes à consignação em pagamento, não têm aplicação ao caso. De nenhuma atinência ao caso, por igual, o art. 1?, nos incisos VI e VII, da Lei n? 4.864, de 29-11-65, ambos a disciplinar a rescisão do contrato por inadimplemento do adquirente. Todos esses dispositivos, invocados pelos primeiros recorrentes, Paulo Arthur Leite Bastos e outros, e os da lei civil e da lei processual civil trazidos à colação também pela segunda recorrente, Sérgio Dourado Empreendimentos S.A., nenhuma pertinência têm com a hipótese da arrecadação, pela Massa Falida do incorporador dos bens e direitos ligados aos negócios de incorporação de condomínio Imobiliário. Tais negócios de incorporação se sujeitam a regras específicas, definidas na Lei n? 4.591, de 16-12-64, entre as quais, para o caso de que tratam os presentes autos, se destaca a do art. 43, inciso III, a dizer que, «em caso de falência do incorporador, pessoa física ou jurídica, e não ser possível à maioria prosseguir na construção das edificações, os subscritores ou candidatos a aquisição de unidades serão credores privilegiados pelas quantias que houverem pago ao incorporador, respondendo subsidiariamente os bens pessoais deste». Não foi este o mecanismo que os interessados suscitaram para solução do caso — prosseguir a maioria na construção das edificações. Pretendem, simplesmente, isolar o negócio da promessa de venda de cota do terreno que lhes foi feita pela incorporadora, sem assumir o outro papel de continuadores da incorporação e da construção. E isso o que a lei não autoriza: decompor o negócio çle incorporação e nele isolar, para cumprimento, ape- 292 R.T.J. — 109 nas o negócio de promessa de compra e venda de parcela ideal do imóvel. Isto posto, por indemonstrados os pressupostos das alíneas a e d, deixo de conhecer dos recursos extraordinários de Paulo Arthur Leite Bastos e outros e de Sérgio Dourado Empreendimentos S.A. E o meu voto. rias para realizar a incorporação e, embora com prejuízo que, no caso, pode ser sensível, eles têm de se servir mesmo do preceituado no inciso III do art. 43 da Lei de Condomínio. Assim, acompanho o Sr. Ministro Relator, não conhecendo de ambos os recursos. VOTO (PRELIMINAR) O Sr. Ministro Djaci Falcão (Presidente): A vista da minuciosa e exaustiva exposição em torno da matéria questionada e da inexistência dos pressupostos essenciais ao conhecimento do recurso extraordinário, acompanho o eminente Ministro Relator, não conhecendo de ambos os recursos extraordinários. O Sr. Ministro Aldir Passarinho: Sr. Presidente. A meu ver, a hipótese deve cingir-se à aplicação do art. 43, inciso III da Lei do Condominio. Verifica-se dos autos que os subscritores das unidades não puderam continuar com a incorporação. Não nos cabe, na oportunidade, Indagar dos motivos que os levaram a isso mas não podemos dissociar as diversas fases da operação, porque elas todas, de fato, tiveram um objetivo comum e final. O art. 43, inciso III, da Lei de Condomínio não deixa margem a maiores especificações quanto àqueles pagamentos que tiveram sido feitos ao incorporador. Há de se compreender que se compraram frações ideais do terreno, e os subscritores, reunidos, não puderam levar avante a operação. A fórmula encontrada pela lel (que nem sempre, é a verdade, acaba favorecendo os subscritores) visou a beneficiá-los (embora, esta é a verdade, nem sempre isso ocorra), a fim de que não ficassem com aquelas frações ideais, presas às quantias já pagas e sem poderem levar avante as construções. Então, possibilitou a lei reunirem-se, formando o terreno uma única área, para levar avante a construção e para que cada um continuasse com a sua fração ideal vinculada a uma unidade autônoma, ou receberem as quantias que houvessem pago ao incorporador. Resulta dos autos que, infelizmente, os subscritores não puderam reunir as condições necessá- VOTO (PRELIMINAR) EXTRATO DA ATA RE 96.105-RJ — Rel.: Ministro Decio Miranda. Rectes.: 1?) Paulo Arthur Leite Bastos e outros (Advs.: José Soares Arruda, Luiz Carlos Bettiol, Rosa Maria Motta Brochado e outros). 2?) Sérgio Dourado Empreendimentos S.A. (Advs.: Alfredo Zide e outro). Recdos.: Os mesmos, Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (Massa Falida) (Advs.: Alvaro Leite Guimarães, Hélio Proença Doyle e Antonio Carlos Sigmoringa Seixos), Graça Engenharia Comércio e Indústria S.A. (Massa Falida), representada pelo seu Síndico Manoel Bezerra Leite (Adv.: Geraldo Lírio). Decisão: Não conheceram de ambos os recursos. Unânime. Falou pelo 1? Recta: o Dr. José Soares Arruda. Falou pela Recda.: o Dr. Antonio Carlos Sigmaringa Seixos. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. Ausente, justificadamente, o Senhor R.T.J. — 109 293 Ministro Moreira Alves. Subprocura- Brasília, 13 de dezembro de 1983 — dor-Geral da República, Dr. Mauro Hélio Francisco Marques, SecretaLeite Soares. rio. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 96.920 — GO (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrentes: Cristiano dos Reis Calçado e sua mulher — Recorridos: Augusto Urias da Cruz e outros. Prescrição: compra e venda. Indenização. Venda «ad corpus» e não «ad mensuram». Divergência não configurada. Repositório não autorizado. Não incide a prescrição prevista no art. 178, i 9?, V, b, do Código Civil, nem tampouco a do I 5?, inc. IV, do mesmo artigo, se a condenação foi de indenização, e não a de rescisão do contrato. Aplicação do disposto no art. 177 do Código Civil, ante a regra do art. 179 do mesmo Código. Não é de considerar-se a alegada divergência jurisprudencial, se um dos dois acórdãos citados como paradigmas não discute a mesma tese de direito, e o outro sequer pode ser considerado por ter sido publicado em boletim não autorizado. Constando do contrato, expressamente, que a troca se fazia por área com dimensão estipulada, é de ser considerada a operação como «ad mesuram* e não «ad corpus», mas se dúvida houvesse, no particular, incabível dirimi-la na via do extraordinário, ante o enunciado da Súmula 459-STF. les dos Reis, alegando que em maio ACÓRDÃO de 1974, celebraram com os réus um Vistos, relatados e discutidos estes negócio jurídico envolvendo a perautos, acordam os Ministros do Su- muta de duas glebas de terras dos premo Tribunal Federal, por sua Se- segundos por uma dos autores. Em gunda Turma, na conformidade da conseqüência desse negócio, foi, priata do julgamento e das notas taqui- meiramente, lavrada escritura de gráficas, por unanimidade de votos, permuta em 29 de maio, nas notas não conhecer do recurso. do 1? Oficio de Cristalina, em virtude Brasília, 6 de setembro de 1983 — da qual os autores, Juntamente com Djaci Falcão, Presidente — Aldir José Camilo de Andrade e sua mulher permutaram a fazenda denomiPassarinho, Relator. nada «Paulista», com a área de 500 alqueires, devidamente medidos, peRELATÓRIO la fazenda denominada «Mimoso», O Sr. Ministro Aldir Passarinho lugar denominado «Floresta», com (Relator): Trata-se de ação ordiná- área que os réus alegaram ser de 530 ria proposta por Augusto Urias da alqueires. Acrescentam que, posteCruz e sua mulher Ireni Alvares da riormente, adquiriram a parte de JoCruz, Amadeu Camilo de Andrade e sé Camilo de Andrade, tornando-se sua mulher Amélia Alvares Bon- proprietário exclusivo do aludido tempo contra Cristiano dos Reis imóvel. Afirmam que o negócio Calçado e sua mulher Andréa Meire- jurídico entre eles abrangia outro 294 R.T.J. — 109 imóvel, e foi concluído no dia 30 de maio de 1974, mediante a assinatura de um compromisso particular de compra e venda, pelo qual se obrigaram os réus a dar escritura também dos terrenos relativos aos direitos hereditários sobre os bens deixados por Manoel José Leandro e Carolina de Oliveira Barreiro. Assim, o negócio jurídico que deu causa á permuta compreendia não somente os 530 alqueires da Fazenda Floresta, como também os direitos hereditários acima citados. Sob a alegação de que a Fazenda Floresta tinha maior número de alqueires do que a Paulista, exigiram os réus que os autores lhes pagassem mais Cri 100.000,00, o que foi feito, sendo Cr$ 78.000,00 em cheques contra o Banco do Estado de Goiás e Cr$ 22.000,00 em gado. Alegaram não conhecerem bem a região, a par de serem inexperientes em negócios de terra. Assinado o compromisso e a escritura de permuta, os réus não providenciaram o término do Inventário para outorga da escritura definitiva, conforme se obrigaram pela cláusula 2? do aludido compromisso, perdurando até hoje a omissão, com desctunprimento do pactuado. O inventário a que se referem é o dos bens deixados por Manoel José Leandro e Carolina de Oliveira Barreiro, cujos direitos hereditários sobre terras também haviam adquirido na referida transação, como já mencionado. Mais adiante os autores afirmam que passaram a ter dúvida sobre a área, contrataram um profissional habilitado que, procedendo a medição encontrou apenas 272,5 alqueires e não 530, como afirmaram os réus na escritura de permuta, havendo, pois, diferença para menor, de 275,5 alqueires equivalentes a 48,5% da área permutada, isto sem falar na parte relativa aos direitos hereditários, partes integrantes do mesmo negócio jurídico, fato que torna absolutamente certo que a área dada em permuta pelos réus, por eles mesmos estimada em mais de 500 alqueires, não alcança sequer a metade da que efetivamente venderam e afirmaram dolosamente possuir. Invocaram os autores o art. 1.136 do Cód. Civil e pedem a condenação dos réus, a complementarem a área vendida ou os indenizarem quanto aos alqueires inexistentes, pelo valor contemporâneo da execução da sentença. Na primeira hipótese, pedem ainda, os autores a condenação dos réus a lhes outorgarem a escritura dos direitos hereditários, relativos aos bens deixados por Manoel José Leandro e Carolina de Oliveira Barreiro, e não sendo isso possível, sejam então, rescindido dito compromisso e a escritura de permuta, restituindo as partes ao status quo ante, com indenização, pelos réus, de todas as benfeitorias já executadas pelos autores na Fazenda Floresta, mediante avaliação judicial; restituição dos Cr$ 100.000,00 pagos pelos inexistentes números de alqueires a mais, da Fazenda Floresta, além de perdas e danos, condenação dos réus nas custas, honorários de 20% sobre o quantum a se apurar na execução de sentença, correção monetária, juros e demais pronunciações de direito (fls. 2/6). Na sua contestação alegam os réus que houve permuta de coisa por coisa. Na descrição da área «Mimoso» ficara englobado tudo quanto se achava dentro das respectivas cercas perimétricas, de posse dos contestastes, inclusive as terras objeto do inventário, adquiridos pelos réus através de cessão de herança, sendo estimada a área total em cerca de 530 alqueires. Quanto ás terras provenientes do inventário, não fora fixado prazo para o término deste, e quando ele fosse concluído é que deveria ser lavrada a escritura. De R.T.J. — 109 qualquer sorte, aos autores caberia, antes, ter promovido notificação aos réus para terminarem o inventário. Repelem terem os autores mandado medir as terras sem que eles tivessem conhecimento prévio, dizem que a mora depende de prévia interpelação, o que não houve; que os autores tiraram proveito da posse das terras permutadas onde, inclusive, havia mais benfeitorias do que as por eles referidas e que a permuta se fez sem ser levada em conta as áreas e o contrato se fez sem cláusula de arrependimento. Impugnam o pedido de pagamento dos Cr$ 100.000,00 e, por fim, alegaram a carência da ação, e que nos termos do artigo 178, parágrafo 9?, item V, letra b do Código Civil, em 29 de maio de 1978, prescreveu o direito de anular ou rescindir o contrato celebrado pelos litigantes, mesmo que estivesse ele eivado de erro, dolo, simulação ou fraude. Os réus pediram o chamamento ao feito de Manoel Machado e sua mulher, como denunciados á lide, que lhes haviam vendido o imóvel. Após realização de perícia, a ação foi julgada procedente, a fim de condenar Cristiano dos Reis Calçado e sua mulher a pagar aos dois primeiros autores o valor correspondente área faltante de 254,4 alqueires, pelo valor das referidas terras ao tempo da execução e liquidação da sentença, ,com acréscimo de honorários de 20% sobre o valor da causa demais cominações permitidas em lei. A essa decisão, opuseram os autores embargos de declaração alegando que houve omissão na parte decisória da sentença, no que tange à condenação dos réus para outorgarem aos autores a escritura referente aos direitos hereditários relativos aos espólios de Manoel José Leandro Carolina de Oliveira Barreiro. Por outro lado, houve omissão na sentença, a qual deveria condenar os réus 295 a pagar aos autores Amadeu Camilo Andrade e sua mulher o valor atualizado dos 254,5 alqueires, em forma de indenização. Os embargos foram recebidos, tendo o nobre magistrado condenado os réus a outorgarem a escritura aos autores, relativa aos espólios de Manoel José Leandro e Carolina de Oliveira Barreiro. Condenou ainda os réus a indenizarem Amadeu Camilo de Andrade e sua mulher no valor correspondente aos 254,5 alqueires, atualizado, ou seja, ao preço do tempo da execução e liquidação da sentença. Obviamente há de se entender como tal valor devendo ser pago aos dois casais autores. Inconformados, apelaram as partes: autores, pleiteando a elevação da verba honorária, para que o percentual incidisse sobre o quentura da execução, e os réus, alegando a prescrição da ação com base no artigo 178, $ 9?, V, letra b, do Código Civil, e que a venda se fez ad corpus e não ad mensuram, não se aplicando a regra do artigo 1.136 do Código Civil. Lembram o agravo retido quanto a não ter o Juiz tomado conhecimento da denunciação à lide, e observam que, em face do decidido nos embargos declaratórios, teriam que pagar a indenização em dobro. Também não tinham culpa na demora da conclusão do inventário. A par disso, não tinha cabimento que a indenização fosse paga na base do valor da época da execução, pois não se justificava tal correção monetária. No Tribunal de Justiça local, a 2? Turma da 3! Câmara Cível, à unanimidade de votos, conheceu das apelações e do agravo retido. Negou provimento a este e à primeira apelação, ou seja, a dos autores, e deu provimento parcial à segunda, nos termos do voto do relator. O acórdão ficou ,exteriorizado nesta ementa: 296 R.T.J. — 109 «Prescrição. Ação exempto. Tratando-se de ação ex-empto, decorrente do artigo 1.136, do Código Civil, a sua prescrição está regulada pelo artigo 177 e não pelo artigo 178, § 9?, inciso V, letra b, do mesmo Código. Contrato. Cláusula duvidosa. Sua interpretação. Se existe qualquer cláusula duvidosa ou ponto obscuro sobre o objeto do contrato, deve este ser interpretado a favor do comprador e contra o devedor, que é quem está em condições de conhecer melhor a coisa vendida. Sentença além do pedido. Nulidade. A sentença que ultrapassa os limites do pedido não é nula; cabe ao Segundo Grau de Jurisdição moldar a condenação nos termos do pedido. 4. Pedido alternativo. O pedido alternativo assegura ao réu o direito de cumprir a obrigação de qualquer modo.» Ficou esclarecido no acórdão que não haveria pagamento em dobro. Dai o recurso extraordinário dos réus, com fundamento nas letras a e da previsão constitucional, sob a alegação de que o v. acórdão impugnado vulnerou o artigo 179 do Código Civil que limita a aplicação do artigo 177 da lei substantiva, apenas aos casos de prescrição não previstos pelo Código. Assim, não se poderia aplicar à espécie o disposto no artigo 177 do C. Civil. A ação estava prescrita na forma do artigo 178, § 9?, V, letra b, do Código Civil. Ademais, era inaplicável à espécie art. 1.136 do Cód. Civil, invocado pelos recorridos, pois trata ele de compra e venda e aqui se tratava de permuta. O art. 1.092, parágrafo único, do Cód. Civil, em que igualmente buscavam amparo os recorridos versava sobre rescisão do contrato com perdas e danos, que na espécie era apenas uma das alternativas ad- mitidas pelos próprios autores. E não são os artigos de lei que fixam o rito ou natureza da lide, mas o conteúdo do pedido, e a causa de pedir só pode ser modificada com consentimento do réu (artigo 264 do CPC). E todo o pleiteado pelos autores é que os réus teriam se valido de simulação, dolo, ato ilícito, quando efetuaram a permuta, mas a respeito nada conseguiram provar, e nisso se inspirara o pedido. Acrescentam, ainda, que a venda se fizera ad corpus e não ad mensuram, e sustentam que o acórdão contrariou o art. 176 do Cód. Civil; e, por último, com fundamento na letra d, afirmam que ao dizer-se que a venda foi ad mensuram, contrariou o aresto a jurisprudência dos Tribunais, a respeito do que menciona dois acórdãos, como divergentes, ambos publicados no Boletim ADCOAS. Ofereceram os recorridos sua impugnação, afirmando que, de qualquer sorte a decisão fora razoável e que restara também fundamento inatacado, qual o de que se o contrato possuía a cláusula duvidosa devia ser interpretada em favor do comprador. Inadmitido o recurso, por ter entendido o ilustre Presidente do Tribunal de Justiça que ele fora intempestivo, subiram os autos a esta Corte, em razão de ter sido provido o agravo interposto pelos recorrentes. Aqui, propugnou a ProcuradoriaGeral da República pelo não conhecimento do recurso, embora o considerasse tempestivo. este o relatório. VOTO Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): O recurso, diferentemente do entendimento manifestado no despacho do Sr. Presidente do C. Tribunal de Justiça de Goiás é tempestivo, posto que sendo o v. acórdão im- R.T.J. — 109 pugnado posterior à Lei Complementar n? 35 (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), não se inicia a contagem do prazo recursal durante o período de férias nos Tribunais conforme passou a decidir esta Corte, e segundo anotado pela douta Procuradoria-Geral da República no seu parecer, dando exemplos (RE n? 94.537-GO, RTJ 98/1.237; RE n? 94.653-SP, DJ de 14-8-81, pág. 7.717). Não têm razão os recorrentes, porém, no mérito. Sustentam eles a não aplicação do disposto na primeira parte do art. 1.136 do Cód. Civil, à espécie, porquanto aqui não se trata de compra e venda, mas sim de permuta. Entretanto, esqueceram-se os recorrentes de que no caso incide o aludido artigo 1.136, em face da expressa determinação contida no art. 1.164, também do Cód. Civil que manda aplicar à troca,' que é o contrato também denominado permuta, escambo ou barganha, as disposições referentes à compra e venda. O fato de ter havido uma complementação em dinheiro — Cri 100.000,00 — não altera a natureza do contrato, pois a reposição foi acessória, preponderando o valor da troca. E o entendimento que prevalece na doutrina (Carvalho Santos, Cód. Civil Brasileiro Interpretado, vol. XVI, pág. 279). Sustentando incorrer a prescrição, diz a douta Procuradoria-Geral da República, In verbis: «Assim, se efetivamente prescrito estava o direito dos recorridos de postular a anulação da transação em face da alegada simulação, à vista do que estabelece o art. 178, § 9?, V, b, do Código Civil, o mesmo não se deu quanto à invocação do art. 1.136, visto como, não havendo previsão legal de prescrição para a ação conseqüente, aplica-se-lhe aquela estipulada no 297 art. 177, em face do artigo 179, que, assim, não sofreu qualquer violação.» E acrescenta: «Acresce dizer que, quanto à aplicabilidade do art. 1.136 do Código Civil, a questão sub judiee, reconhecida pelo v. acórdão recorrido, trata-se de decisão à qual se chegou através da Interpretação de cláusulas contratuais e do exame da prova, motivo pelo qual não cabe a essa Excelsa Corte revê-la, a teor das Súmulas n? 279/454.» Ora, para efeito prescricional, tanto a permuta como a compra e venda têm os mesmos prazos para a rescisão ou anulação do contrato. No caso, de fato, se trata de permuta. O prazo prescricional, no caso de erro, dolo, simulação ou fraude, em não havendo estipulação de prazo menor, é o de quatro anos, contados do dia em que se realiza o ato ou o contrato, conforme estipula o art. 178, § 9?, item V, letra b, do Código Civil. Toda a argumentação dos autores visa a sustentar exatamente que houve dolo e simulação — e de qualquer sorte haveria erro — pelo que para obter a rescisão do contrato o prazo seria realmente de quatro anos. E se não tivesse como configurada qualquer das hipóteses previstas no art. 178, § 9?, inc. IV, o prazo não seria maior, mas sim menor, pois, então, incidiria a regra do artigo 178, § 5?, Inc. IV, também do Código Civil, que fixa em apenas seis meses o prazo prescricional. De observar que não foi posta questão sob o enfoque de fraude à lei. Entendo, porém, apesar de tais considerações, que o prazo prescricional não incidiu, tendo em vista que o pedido dos autores foi alternativo, ou seja, rescisão do contrato, com perdas e danos, ou indenização pelos alqueires Inexistentes, pelo valor contemporâneo ao da época da 298 R.T.J. — 109 execução da sentença, e foi essa a fórmula adotada pela decisão de 1? grau e pelo v. acórdão recorrido. Ora, na hipótese, igualmente não há como dizer-se incidente o inc. IV, do § 4? do art. 178 do Cód. Civil, pois, não ocorreu vício redibitório. E que não se pode caracterizar como vício ou defeito oculto do imóvel ter sido declarado na escritura ser a área da gleba maior que a real. Assim, a meu ver, a ação, em face da alternatividade posta na inicial, e acolhido o pedido para a indenização sem que fosse concedida a rescisão contratual — e como as regras prescricionais hão que ser interpretadas restritamente — considero que a prescrição é a prevista no art. 177 do Cód. Civil, ante a regra do art. 179 do mesmo diploma legal. Aliás, de qualquer sorte, como não foi pedida somente a rescisão do contrato, e o acórdão concedeu o pagamento relativo à diferença de áreas, não incidiria mesmo o art. 178, § 9?, V, b, que expressamente diz respeito à anulação ou rescisão do contrato. Incabível, portanto, o extraordinário pela letra a do permissivo constitucional. Quanto à letra d, não podem servir os arestos trazidos a confronto para demonstração do dissídio, posto que apenas aquele do RE n? 72.007-SP foi mencionado com indicação do repositório oficial, mas, assim mesmo, a simples transcrição da ementa não se torna suficiente para que se veja ocorrência de dissídio, sendo esta a ementa transcrita do acórdão: «Prescrição. Ação declaratória. Simulação. Prazo. Negócio fiduciário. Existência de simulação fraudulenta, o que leva a prescrk, vão de ser regulada pelo art. 178, § 9?, V, letra b, do Cód. Civil. Prazo contado do dia da realização dó contrato. Negócio fiduciário não prequestionado. Recurso extraordinário não conhecido» (RTJ, vol. 70, pág. 127 — Rel. Min. Bllac Pinto — Recurso Extr. n? 72.007-SP). Referentemente a outro, a par de se tratar de anulação do contrato, o que, como se viu, não se ajusta à hipótese dos autos, o repositório jurisprudencial é o Boletim ADCOAS, que não é autorizado nesta Corte (RE n? 86.179, RTJ 89/210). Quanto à alegação de que a venda se fizera ad corpus e não ad mensuram, ainda ai não têm razão os recorrentes, porquanto, conforme se verifica do contrato, a operação foi efetuada tendo em conta possuírem os réus gleba de 530 alqueires. É o que ali se encontra declarado. E, tanto isso é certo que ainda receberam Cr$ 100.000,00 como compensação da diferença de áreas. De Qualquer sorte, havendo dividas, impossível seria o extraordinário para dirimi-las, a teor da Súmula n? 454 deste Tribunal. Pelo exposto, não conheço do recurso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 96.420-GO — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Rectes.: Cristiano dos Reis Calçado e sua mulher (Advs.: Sebastião Oscar de Castro e outro). Recdos.: Augusto Urias da Cruz e outros (Adv.: Benedicto Vaz). Decisão: Não conhecido. Unânime. Falou pelos Recdos.: o Dr. Benedicto Vaz. Ausente, ocasionalmente, o Senhor Ministro Francisco Rezek. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda e Aldir Passarinho. Ausente, ocasionalmente, o Senhor R.T.J. — 109 299 Francisco Rezek. Brasília, 6 de setembro de 1983 — Subprocurador-Geral da República, Hélio Francisco Marques, SecretaDr. Mauro Leite Soares. rio. Ministro EMBARGOS NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nt 96.802 (AgRg) — RJ (Tribunal Pleno) (RE na RTJ 105/1196) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Agravante: Salim Jorge Saud Filho — Agravada: Zoom Modas e Presentes Ltda (Massa Falida), representada por seu síndico Reinaldo José de Almeida. Constitucional. O prequestionamento supõe não apenas que, na petição do recurso, a parte vencida mencione os cânones constitucionais violados, mas que a matéria tenha sido ventilada e discutida no Tribunal a quo, onde ficaram vulnerados. O recurso extraordinário é um meio de impugnação, cuias condições e motivos estão expressamente designados no art. 119 da Constituição e só tem lugar nos casos que especifica. O prequestionamento é uma das condições de admissibilidade do recurso extraordinário. Inteligência do prequestionamento. Direito comparado. Não servem aos embargos de divergência os acórdãos já invocados para demonstrá-los, mas rejeitados como não dissidente no julgamento do recurso extraordinário (art. 331 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal). ACÓRDÃO Saud Filho opôs embargos de divergência ao v. acórdão da EgréVistos, relatados e discutidos estes gia Segunda Turma, alegando a inautos, acordam os Ministros do Su- tempestividade da ação, bem como premo Tribunal Federal, em sessão a necessidade da citação da falida plenária, na conformidade da ata do como ré. Em abono da primeira tejulgamentó e das notas taquigráfi- se, invoca o embargante os arestos cas, por unanimidade de votos, em proferidos nos Recursos Extraordinegar provimento ao agravo regi- nários n?s 70.901, de que foi Relamental. tor o eminente e saudoso Ministro Luiz Gallotti (RTJ 60/755) e 87.322, Brasília, 12 de maio de 1983 — de que foi relator o eminente MiCordeiro Guerra, Presidente — nistro Djaci Falcão (RTJ 90/605). Alfredo Buzaid, Relator. E em abono da segunda tese invoca os v. acórdãos proferidos nos RELATÓRIO Recursos Extraordinários n?s 82.968, de que foi relator o eminenO Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Nos te Ministro Thompson Flores (RTJ embargos de divergência opostos por 80/611) e 64.463, de que foi relator o alim Jorge Saud Filho contra deci- S eminente Ministro Djaci Falcão são da 2? Turma deste Colendo Tri- (RTJ 56/705). bunal, proferi o seguinte despacho, verbis: 2. Cabem embargos de diver«1. Com fundamento no art. 330 gência à decisão de Turma que, do Regimento Interno, Salim Jorge em recurso extraordinário ou em 300 R.T.J. — 109 agravo regimental, divergir de julgado de outra Turma ou do Plenário, na interpretação do direito federal (Regimento Interno, art. 330). Não serve para comprovar divergência o acórdão já invocado para demonstrá-la, mas repelido como não divergente no julgamento do recurso extraordinário (Regimento Interno, art. 331, parágrafo único). Para o exame da divergência, cumpre partir do julgamento proferido no Recurso Extraordinário n? 96.802, verificando quais as teses jurídicas que esposou. A ementa deste v. aresto está assim redigida: «Falência. Legitimação do síndico para propor a ação antes da publicação do aviso a que alude o artigo 55, caput, do Decretolei n? 7.661/45. Declaração de ineficácia relativa e decretação de revogação por fraude contra credores. E, pelo menos, razoável o entendimento de que o disposto no artigo 55, caput, do Decreto-lei n? 7.661/45 não retira a legitimação do síndico para propor a ação antes da publicação do aviso ali referido. Súmula n? 400. Dissídio de jurisprudência não comprovada. A revogação por fraude contra credores é fundamento suficiente para a procedência da ação, e se baseou ela na prova constante dos autos, não cabível o recurso extraordinário para o seu reexame (Súmula n? 279). Prejudicada, assim, a alegação de negativa de vigência do artigo 52, VII, da Lei de Falências relativa ao outro fundamento. Recurso extraordinário não conhecido» (fls. 280). 3. Vê-se desde logo que neste v. acórdão não se discutiu a segunda tese, isto é, a necessidade da cita- ção da falida, como ré, para integrar o processo na qualidade de litisconsorte necessário. E certo que contra o v. acórdão foram opostos embargos de declaração, mas a Egrégia Segunda Turma os rejeitou com os seguintes fundamentos: «Com efeito, a questão ora levantada não o foi como deveria ter sido na petição de interposição de recurso extraordinário. Ora, esse recurso está restrito aoS pressupostos constitucionais do inciso III do artigo 119 da Constituição Federal razão por que esta Corte só aprecia as questões que nele são invocadas. Por outro lado, não tem aplicação à espécie a Súmula n? 528, pois seu limite não ultrapassa as questões discutidas no recurso extraordinário, ainda que o despacho de admissão só tenha acolhido as alegações sobre parte delas. Em face do exposto, rejeito os embargos» (fls. 292). Diante disso, afasto o exame da primeira tese. 4. A segunda tese versa sobre a legitimidade ativa do sindico para propor a ação antes da publicação do aviso, a que alude o artigo 55, caput, do Decreto-lei n? 7.661/45. Quanto a esta tese, o embargante oferece como padrões de confronto, para caracterizar a divergência, os mesmos acórdãos, que já foram examinados no recurso extraordinário pela Egrégia Segunda Turma, que assim decidiu: «Por outro lado, o dissídio de jurisprudência a esse propósito, não está demonstrado como o exige o artigo 322 do Regimento Interno deste Tribunal. Com efeito, no tocante ao acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo, o trecho transcrito não é desse aresto, mas sim de ementa feita R.T.J. — 109 pela Revista dos Tribunais, a qual, além disso, dá a entender que a questão então discutida era a de saber quando o credor poderia propor a ação, não se tratando, pois, de ação proposta pelo síndico, como ocorre no caso presente. No que diz respeito ao acórdão do Tribunal do Rio Grande do Sul, o trecho transcrito é o teor do artigo 55 da Lei de Falências, e o aresto diz respeito à legitimidade do credor e não do síndico. No concernente ao RE n? 70.901 a frase transcrita não é a do acórdão que não trata de prazo para a propositura da ação pelo síndico, e afirma, apenas, que a ação revocatória «cabe ao síndico e, após decorrido o prazo legal, a qualquer credor». E, no RE n? 87.322, a questão discutida era outra: a de saber se o síndico, depois dos trinta dias aludidos no artigo 55 da Lel de Falências, poderia ainda propor a ação revocatória» (fls. 277). Não estando comprovada a divergência nos termos dos artigos 330 e 331 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, Inadmito os embargos de fls. 296 e seguintes» (fls. 309/311). Irresignado, interpôs o mesmo, como fundamento no art. 317 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, agravo regimental, alegando que a «douta decisão agravada reputou não demonstrada a divergência nos termos dos arts. 330 e 331 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, visto não haver sido discutida a tese da necessidade da citação da falida na interposição de recurso extraordinário, considerando Inaplicável, na espécie, a Súmula n? 528» (fls. 313). No entender do agravante, trata-se de nulidade de ordem pública, que deveria ser decretada de oficio, consoante o art. 267, § 3?, c/c os arts. 245, parágrafo único, 301, § 4?, 303, II e 267, IV, do 301 Código de Processo Civil. Por outro lado, diz que o verbete 282 da Súmula contraria o disposto no art. 119, III, a, da Constituição da República, «ao restabelecer um pressuposto de admissibilidade do recurso extraordinário há muito revogado. E por derradeiro, quanto à questão do prazo para a propositura da ação revocatória, com base no art. 55 da Lel de Falências, reporta-se a ensinamentos da doutrina e a acórdãos do Supremo Tribunal Federal. Por tudo isso, pede a reconsideração do r. despacho que indeferiu os embargos divergentes, ou seja, aquele submetido ao julgamento do Plenário desta Eg. Corte. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Relator): 1. Irresignado com a decisão de fls. 309/311, que inadmitiu os embargos de divergência, Salim Jorge Saud Filho interpõe agravo regimental. A primeira questão versa sobre a necessidade de citação da ré para integrar o processo na qualidade de IItisconsorte. E afirma o agravante que: «Embora não discutida na interposição do recurso extraordinário, por motivos óbvios, não poderia deixar de ser objeto de apreciação pela Colenda 2? Turma do Supremo Tribunal Federal, como se acentuou nos embargos declaratórios oferecidos ao V. acórdão embargado, que, por omissão, data venta, deixou de conhecer de oficio da matéria ventilada» (fls. 314) Funda-se o agravante no art. 267, § 3?, do Código de Processo Civil, segundo o qual o juiz, antes de julgar a causa, tem de conhecer e decretar de ofício as nulidades processuais. E conclui que o enunciado da Súmula n? 282 contraria o disposto no art. 302 R.T.J. — 109 119, III, da Constituição da República (fls. 315), oferecendo um estudo realizado no Instituto dos Advogados pelo Dr. Maury Rodrigues de Macedo e parecer do Dr. Danilo Homem da Silva (fls. 320 e segs.). O agravante suscita agora questão nova, a saber, o Verbete n? 282 da Súmula é inconstitucional. Esta matéria não pode ser objeto de embargos de divergência. Dispõe o art. 330 do Regimento Interno que cabem embargos de divergência à decisão da Turma que, em recurso extraordinário ou em agravo de instrumento, divergir de julgado de outra Turma ou do Pleno na interpretação de direito federal. Ora, os embargos de divergência não apontam, quanto à interpretação de direito federal, divergência entre as Turmas. Basta esta resposta para rejeitar os embargos de divergência. O que pretende o agravante é argüir a inconstitucionalidade do Verbete n? 282 da Súmula. Este verbete dispõe que «é inadmissível o recurso extraordinário, quando não ventilada na decisão recorrida, a questão federal suscitada». O que este verbete consagra é o principio do prequestionamento, instituído entre nós já na Constituição de 1891, ao dispor no art. 59: «III — Das sentenças das Justiças dos Estados, em última instância, haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: a) quando se questionar sobre a validade ou a aplicação de tratados e leis federais e a decisão do tribunal do Estado for contra ela». 4 Este preceito foi repetido na Reforma de 1926 (art. 60, § 1?, a) e nas Constituições de 1934 (art. 76, III, b), de 1937 (art. 101, III, b) e de 1946 (art. 101, III, b). Depois disso não constou mais de cânon constitucional, porque a Constituição de 1967, com a Emenda n? 1, de 1969;e Emenda n? 7 de 1977, atribuiu ao Re- gimento Interno do Supremo Tribunal Federal e competência para dispor sobre o processo e julgamento dos feitos de sua competência originária ou recursal. O recurso extraordinário é um meio de impugnação, cuj as condições e motivos estão expressamente designados no art. 119 da Constituição e só tem lugar nos casos que especifica. O prequestionamento é uma das condições de admissibilidade do recurso extraordinário. 5. A idéia do prequestionamento, tal como foi consagrada nos cânones constitucionais acima citados, tem a sua origem na Lei Judiciária (Judiciary Act) norte-americana, de 24 de setembro de 1789. Esta lei admitiu das decisões da Justiça estadual recurso para a Corte Suprema, recurso que recebeu o nome de writ o? error. Cooley observa que «é essencial, para a proteção da jurisdição nacional e para prevenir conflito entre Estado e autoridade federal, que a decisão final sobre toda questão surgida com referência a ela fique com os tribunais da União; e como tais questões devem surgir freqüentemente primeiro nos tribunais dispôs-se pela Estados, dos Judiciary Act deslocar para a Corte Suprema dos Estados Unidos a decisão ou resolução final, segundo o direito ou segundo a eqüidade, proferida em qualquer causa pelo mais alto tribunal do Estado, onde se questiona acerca da validade de tratado, lei ou ato praticado por autoridade da União e a decisão é contrária a essa validade; ou onde se questiona sobre a validade de uma lei ou de um ato cometido por autoridade de algum Estado, sob o fundamento de que repugna à Constituição, tratados ou leis dos Estados Unidos e a decisão é favorável à validade; ou onde se questiona sobre algum título, direito, privilégio ou imunidade, reclamado segundo a Constituição, tratado, lei federal ou ato feito ou autoridade R.T.J. — 109 exercida pelos Estados Unidos e a decisão é contrária ao título, direito, privilégio ou imunidade reclamado por qualquer das partes com base na Constituição, tratado, lei, ato ou autoridade» (Cf. Cooley, A treatise of constitucional limitations, 6? ed., Boston, 1890, páginas 18 e 19; ver ainda: Pedro Lesas, Do Poder Judiciário, Rio de Janeiro, 1915, página 101; Matos Peixoto, Recurso extraordinário, páginas 89 e seguintes). A doutrina prevalecente nos Estados Unidos, é que a questão federal tenha sido suscitada e resolvida pelo Tribunal do Estado. Não basta, pois, alegá-la no wrlt of error. E o que ainda ensina Cooley: «Mas para autorizar a reforma sobre aquela Lei (Lei Judiciária de 1789), força é que conste dos autos, ou expressamente ou por manifestação clara e necessária, que qualquer uma das questões enumeradas tenha surgido no tribunal do Estado e ai foi rejeitada» (Cooley, ob. cit., pág. 19). A doutrina brasileira, invocando precisamente a seção n? 25 da Lei Judiciária, nunca hesitou em consagrar tal orientação (Cf. Pedro Lessa, Do Poder Judiciário, pág. 101; Matos Peixoto, Recurso extraordinário, página 89 e seguintes). 6. De feito, a apresentação das questões antes da sentença e a sua apreciação definitiva pela decisão de último grau é um problema de lógica jurídica, fundado na congruência que há de existir entre o pedido da parte e a resposta do juiz. O recurso extraordinário difere dá apelação. Esta poderá ter por objeto de julgamento todas as questões de direito e de fato suscitadas e discutidas no processo, ainda que a sentença não as tenha julgado por inteiro, especialmente quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e o juiz acolher apenas um deles, caso em que a apelação devolverá ao Tribunal o conhecimento dos demais 303 (Código de Processo Civil, art. 515, ff 1? e 2?). O recurso extraordinário, como a própria denominação indica, só tem por fundamento as questões de direito, que a Constituição da República especifica no artigo 119, III, letras a, b, c e d, desde que a transgressão a esses dispositivos tenha ocorrido no tribunal de origem, onde as questões foram ventiladas. Por isso, Bielsa, tratando do recurso extraordinário na jurisprudência da Corte Suprema da Argentina assinalou que «o recurso extraordinário é improcedente, quando é suscitado no escrito de interposição, por as questões devem ter sido apreciadas no juizo» (Bielsa, La proteccion constitucional y el recurso extraordinário, Buenos Aires, 1958, pág. 248). Não escapou à observação desse ilustre publicista a indagação de que a questão tenha surgido na decisão definitiva já não mais sujeita à revisão na respectiva jurisdição (Bielsa, ob. cit., pág. 246). O direito brasileiro resolveu este problema, determinando que a parte, antes de inte rpor o recurso extraordinário, ofereça, embargos de declaração, consoante a Verbete n? 356 da Súmula: «O ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram opostos embargos declaratórios, não pode ser objeto de recurso extraordinário, por faltar o requisito do prequestionamento». Através dos embargos declaratórios se prequestiona no tribunal de origem a questão federal, a qual fica, portanto, ventilada, independente da solução dada, atendendo assim à exigência do Verbete n? 282 da Súmula. O principio dominante é, pois, que o recurso extraordinário deve versar sobre questão que foi oportunamente suscitada e defendida nas instâncias ordinárias (Fernando de La Rua, El recurso de casacion, 1968, pág. 440). 7. O Código de Processo Civil da República Federal da Alemanha preceitua no parágrafo 561, I: «A corte de revisão só julgará as alegações 309 R.T.J. — 109 das partes que constem da sentença ceitua que «não serve para comprode apelação ou do protocolo». Co- var divergência acórdão já invocado mentando esta regra legal, ensinam para demonstrá-lo, mas rejeitado coSteln-Ionas-Schõnke que ela dispõe mo não dissidente no julgamento do para a instância da revisão dois recurso extraordinário». princípios fundamentais: 1?) a limiEm face do exposto e subsistindo tação da matéria do processo ao fato as razões que me levaram a inadmideclarado em apelação, pelo que é tir os embargos, nego provimento ao excluída nova alegação da espécie agravo regimental. de fato; 2?) e ainda a vinculação à E o meu voto. declaração do fato do Tribunal de apelação reservada a uma violação EXTRATO DA ATA da lei de que foi causa. Estes princípios não são apenas uma deduERE 96.802( AgRg)-RJ — Rel.: Mição do parágrafo 549, mas também nistro Alfredo Buzaid. Agte.: Selim complemento independente do mes- Jorge Saud Filho (Adv.: Américo Lúmo parágrafo (Stein-Ionas-Schünke, zio de Oliveira ). Agda.: Zoom Modas Kommentar zur Zivllprozessord- e Presentes Ltda. (Massa Falida), nung, 17? ed., obs. n? 1 ao § 561). representada por seu síndico ReinaiLent-Jauernig assinalam que «prin- do José de Almeida (Advs.: Luiz Orcipio fundamental do exame é a lando Marinho Gurgel e outro). alegação de fato da parte como resulta Decisão: Negou-se provimento, do fato da sentença impugnada unanimemente. ou do protocolo» (Len-Hauerning, Presidência do Senhor Ministro Zivllprozessrecht,14!, ed pá g. 217 ) . Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão 8. Não é mais feliz o agravante Senhores Ministros Djaci Falcão, em relação á segunda questão, ou os Alves, Soares Mufioz, Decio seja, a do prazo para a propositura Moreira Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silda ação revocatória. A este respeito, veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa, oferece o agravante como padrões Aldir Passarinho e Francisco Rezek. de confronto, para caracterizar a di- Procurador-Geral da República, vergência, os mesmos acórdãos que Professor Inocêncio Mártires Coelho. já foram examinados no recurso exBrasília, 12 de maio de 1983 — traordinário pela Egrégia Segunda Turma no tópico transcrito a fls. 310. António Veronese Aguiar, SecretáO art. 331 do Regimento Interno pre- rio. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 97.054 — RS (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Recorrentes: Cia. ULTRAGAS S.A. e outras — Recorrido: Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios, Combustíveis Minerais e Solventes de Petróleo do Rio Grande do Sul. Direito do trabalho. Dissídio coletivo. A regra do art. 142, 1? da Constituição da República é regra jurídica de competência. Inexistência de violação do referido preceito, quando o que o recorrente argúi é ofer—a à Lei n? 6.147/74. A violação imputável ao Tribunal Superior do Trabalho há de ser de texto da constituição e não de lei ordinária. 3. Recurso extraordinário não conhecido. R.T.J. — 109 305 ACORDA() Concedido o reajuste salarial em índice superior ao estabelecido em Vistos, relatados e discutidos estes lei, é de se reduzir o percentual à autos, acordam os Ministros da Pritaxa oficial, acrescidos de 4% a meira Turma do Supremo Tribunal titulo de produtividade com as Federal, na conformidade da ata do compensações efetuadas apenas julgamento e das notas taquigráfisobre o referido índice oficial» (fls. cas, por unanimidade de votos, em 139). não conhecer do recurso. Opostos embargos de declaração Brasilia, 14 de junho de 1983 — pela Companhia Ultragás S.A. e S.A. Soares Mufloz, Presidente — Alfredo Gaúcha de Gás, foram rejeitados Buzald, Relator. (fls. 147). Irresignadas, as embargantes inRELATORIO terpuseram recurso extraordinário, O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Pe- com fundamento no art. 143 da Consrante o Eg. Tribunal Regional do tituição, alegando que a decisão reTrabalho da 4? Região, o Sindicato corrida havia violado os arts. 142, § dos Trabalhadores no Comércio de 1? e 153, § 2? da Constituição. Minérios, Combustíveis Minerais e Pelo despacho de fls. 178/179, foi Solventes de Petróleo do Rio Grande deferido o recurso. do Sul propôs ação de revisão de Ouvida a douta Procuradoriadissídio coletivo, pretendendo um au- Geral da República, em parecer da mento geral para a categoria de lavra do ilustre Procurador José An75%, com redução de 2%, com vigên- tônio Leal Chaves, aprovado pelo cia a partir de 1? de setembro de eminente Professor Mauro Leite 1979, observadas as prescrições con- Soares, DD. Subprocurador-Geral, tidas no Prejulgado n? 56 quanto às assim se manifestou, verbis: compensações e salário normativo, «1. Trata-se de recurso extraoralém do reconhecimento aos cofres dinário interposto de r. acórdão do Sindicato da importância de Cr$ prolatado pelo Egrégio Tribunal 30,00, por empregado integrante da Superior do Trabalho, arrimado no categoria profissional, para os fins art. 143 da Constituição Federal, de encargos sociais. sob alegações de afronta aos arts. A decisão do Eg. Tribunal Regio142, § 1?, e 153, § 2?, da Lei das nal está assim ementaria: Leis. «Revisão de dissídio coletivo. O apelo foi admitido pelo Concessão de aumento salarial de eminente Vice-Presidente da Egréconformidade com a vontade das gia Corte a quo, o Exmo. Sr. Minispartes. tro Carlos Alberto Barata Silva, Aplicação do Prejulgado n? 56 e pela motivação constante do r. desdesconto para os cofres do suscipacho de fls. 178/179. tante por autorizado em assemImpende assinalar, in limibléia» (fls. 91). ne, que a r. decisão recorrida não Nos recursos interpostos pela Proapreciou a questão em debate à luz curadoria Regional do Trabalho da dos dispositivos ditos violados pe4! Região, Companhia Ultragás las recorrentes, qual se depreende S.A., Liquigás do Brasil S.A. e ouda leitura dos rr. arestos residentros, o Tribunal Superior do Trabates às fls. 130/134 e 147/148. lho decidiu: 4. Aliás, a circunstância realça«Reajuste salarial. da é de debitar-se, por inteiro, às 306 R.T.J. recorrentes, porquanto estas descuraram dos preceitos constitucionais pertinentes aos temas ventilados em seu recurso ordinário de fls. 100/102, que limitou-se a fazer, apenas, vaga menção «à estrutura constitucional da harmonia dos Poderes» (fls. 102, item 5, 7? e 8? linhas). A oposição dos embargos de declaração de fls. 135/138 não foi de molde a prequestionar a matéria constitucional, como desejavam as recorrentes, vez que tais embargos veicularam a denúncia da existência de contradição no r. aresto embargado, e não apontaram neste nenhum ponto omisso, digno de ser sanado. O singelo registro da alegação dos embargantes, inserido no d. relatório do r. acórdão de fls. 147/148, de que teria o Egrégio Tribunal a quo extrapolado a sua competência constitucional não espelha, de forma alguma, prequestionamento legítimo nenhum, pois os embargos de declaração foram rejeitados, à consideração de sua imprestabilidade para a reforma da r. decisão embargada, por ser remédio impróprio para tanto. Assim sendo, à mingua do necessário efetivo prequestionamento, hão de se ter como incidentes e aplicáveis in casu as diretrizes traçadas nas Súmulas N? 282 e 356, bastantes, por si só, a tornar incognoscivel o derradeiro recurso interposto. Ultrapassado, porventura, o óbice vindo de aduzir, impende sopesar se a derradeira súplica exibe condição de prosperar. 9. Rebelam-se as recorrentes contra a concessão de aumento salarial de 4%, a titulo de produtividade, a ser acrescido ao índice oficial de reajustamento salarial fixado através de Decreto n? 83.956, de 12-9-79, sustentando haver o Egré- 109 gio Tribunal Superior do Trabalho exorbitado de sua competência e imposto às recorrentes uma obrigação que não encontra apoio na legislação específica. Parcial razão assiste às recorrentes ao argüir a vulneração do disposto no § 1? do art. 142 da Constituição Federal, consubstanciada no deferimento de reajuste salarial em nivel superior ao estipulado em lei, para vigorar a partir de 1? de setembro de 1979, pois, no particular, divorciou-se o r. julgado recorrido da legislação vigente à data citada. Todavia, de 1? de novembro de 1979 em diante, quando entrou em vigor a Lei n? 6.708, de 30-10-79, que dispôs sobre a correção automática de salários e modificou a política salarial anterior, tornou-se licito deferir aumento de salário, com fundamento no acréscimo verificado na produtividade da categoria profissional, na conformidade do estatuído no art. 11 do citado diploma legal. De arredar-se, de pronto, a idéia, acenada pelas recorrentes, de que, anteriormente ao advento da nova lei, já tendo sido incluído no fator de reajustamento salarial o coeficiente relativo a participação no aumento da produtividade nacional (art. 2?, letra c, da Lei n? contradição 6.147/74), seria conceder-se mais um aumento de 4%, a titulo de produtividade. A Lei n? 6.708/79, ao modificar a política salarial, conferiu aos reajustes salariais o novo rótulo de correção automática do valor monetário dos salários, alterando sua base de cálculo, que passou a ser o indico Nacional de Preços ao Consumidor (art. 1?), e previu e autorizou, em seu art. 10, aumentos de salários, aumentos estes a serem estipulados, consoante seu art. 11, «com fundamento no acréscimo ve- R.T.J. — 109 rificado na produtividade da categoria profissional», algo bem distinto do «coeficiente correspondente à participação no aumento da produtividade da economia nacional no ano anterior, fixado pela Secretaria de Planejamento da Presidência da República» (Lei n? 6.147/74, alínea c do art. 2?), previsto para constituir um dos componentes parciais do fator de reajustamento salarial a ser utilizado a partir de 1? de janeiro de 1975. Ao parecer, a contradição antevista pelas recorrentes inexiste, pois o índice de 46%, aplicável e aplicado ao reajustamento salarial para viger a partir de 1? de setembro de 1979, aumento não era e não foi, visto ter significado, apenas, a recomposição do valor monetário dos salários, corroído pela inflação dos doze meses antecedentes, e o plus de 4%, concedido com base no art. 11 da Lei n? 6.708/79, este sim, aumento efetivo, teve como fundamento o acréscimo verificado na produtividade da categoria profissional. A circunstância de só haver sido revogada a Lei n? 6.147/74 em 30 de outubro de 1979 e o fato de não haver a inicial veiculado pedido específico de aumento salarial vinculado à taxa de produtividade não tornam ilegítima, por inteiro, a concessão do malsinado aumento. In casu, desde 1 de novembro de 1979, irreprochável se apresenta o deferimento do aumento salarial de 4% aos componentes da categoria profissional representada pelo recorrido, por amparado em texto expresso de lei, qual é o art. 11 da Lel n? 6.708, de 30-10-79. Quanto à ausência na inicial de pedido de aumento salarial com base no acréscimo verificado na produtividade da categoria profissional, importa gizar que o postula- 307 do foi, com evidente erro terminológico, «um aumento geral de 75% (setenta e cinco por cento)» (fls. 3, item 4, alínea a), que a Justiça do Trabalho não poderia deferir, e que não deferiu, por inexistência de suporte legal, mas pedido de aumento salarial constou da inicial, com clareza e, até mesmo, evidente excesso. Oportuno relembrar, por derradeiro, que o dissídio coletivo de natureza econômica, ou dissídio coletivo de interesse, qual o destes autos, destinado a estabelecer normas e condições de trabalho, de acordo com as hipóteses especificadas em lei, é um processo legítimo de composição e, bem distinto de processo civil comum, de criação, previsto não apenas para aplicar a lei incidente no passado ou para deslindar questão jurídica pretérita, mas, ao revés, tendo conto objetivo primacial regular, por um período determinado do tempo futuro, as relações entre integrantes de categorias econômicas e profissionais correspondentes e, dessarte, sendo a Lei n? 6.708/70 disciplina de ordem pública, destinada a ter efeito imediato e geral, desde o inicio de sua vigência incidiu sobre seus suportes Táticos próprios e tornou-se passível de aplicação quando presentes os pressupostos para tanto, inclusive, em dissídio coletivo a pender de julgamento, com o aqui contido, independentemente de específica determinação em tal sentido. Isto posto, o parecer é, preliminarmente, pelo não conhecimento do recurso, e, se acaso conhecido pelo seu provimento parcial, apenas para excluir da cláusula de reajustamento salarial o plus de 4% nela inserido, à míngua do seu necessário suporte legal, de 1? de setembro a 31 de outubro de 1979, sem prejuízo, entretanto, da 308 R.T.J. — 109 manutenção do dito percentual, deferido a titulo de aumento fundado no acréscimo verificado na produtividade da categoria profissional, de 1 de novembro de 1979 em diante, tendo em vista ostentar tal aumento o expresso apoio de lei ordinária precedente, qual é a Lei n? 6.708, de 30-10-79 (fls. 188/194). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Relator): 1. O litígio versa sobre a concessão de 4% (quatro por cerdo) aos operários a titulo de produtividade. Sustentam os recorrentes, que, assim decidindo, o Egrégio Tribunal Superior do Trabalho foi muito além da sua competência, atropelando violentamente o § 1? do artigo 142 da Constituição, sendo ainda invocável igualmente norma constitucional prevista no parágrafo segundo do artigo 153 da nossa Carta Magna (fls. 151). Estou em que nenhum destes preceitos constitucionais foi violado pelo v. acórdão recorrido. O § 1? do artigo 142 dispõe: «A lei especificará as hipóteses em que as decisões, nos dissídios coletivos, poderão estabelecer normas e condições de trabalho». O que ai estabeleceu a Constituição foi uma regra de competência, que atribuiu à Justiça do Trabalho poder normativo nos dissidios coletivos; mas a lei especificará as hipóteses em que as decisões, nos dissidios coletivos, poderão estabelecer non Inas e condições de trabalho (Constituição da República, artigo 142, § 1 ?). 2. Pontes de Miranda, comentando o art. 142 e seu parágrafo 1?, observou: «As regras Jurídicas do artigo 142 e do § 1? são regras jurídicas da competência da Justiça do Tra- balho, mas na regra jurídica do § 1?, que só se refere aos dissidios coletivos, há duas regras jurídicas de competência — uma que se refere à legislatura federal e é aquela em que si diz que «a lei especificará as hipóteses» — e outra, atinente á Justiça do Trabalho, que é a em que se alude ao estabelecimento de «normas e condições de Trabalho» (Pontes de Miranda, Comentários á Constituição de 1967 com a Ementa n? 1 de 1969, Revista Trimestral, 2? ed., vol. IV, pág. 280). Desta exegese do preceito constitucional se infere que há o poder normativo da Justiça do Trabalho, ainda que limitado pela lei (Coqueijo Costa, Direito Judiciário do Trabalho, Forense, 1978, pág. 86). Cabe, pois, à lei ordinária a regulamentação do exercido de tal competência (Cf. Mozart Victor Russomano, Comentários á Consolidação das Leis do Trabalho, Forense, 1982, 9? ed., pág. 920). 3. Várias leis, até o advento da de n? 6.708, de 30 de outubro de 1979, matéria, disciplinaram esta operando-se uma profunda transformação que vem da política das fórmulas até o sistema de salário móvel. E isso sempre se processou por lei, como a de n? 4.725, de 13 de Julho de 1975, o Decreto-lei n? 15, de 29 de julho de 1966 e outros documentos legislativos relacionados e estudados pelo eminente Ministro Mozart Victor Russomano (06. cit., págs. 920 e seguintes). Que se trata sempre e invariavelmente de legislação ordinária, não há duvidar. Os próprios recorrentes o reconhecem, ao dizerem na petição de interposição do recurso extraordinário: «A propósito, é de bom alvitre salientar que a Lei n? 6.147/74, comando disciplinador dos dissidios coletivos e fonte legal do Prejulga- R.T.J. — 109 do 56 do Eg. Tribunal Superior do Trabalho, só foi revogada em 30 de outubro de 1979, pelo artigo 21 da Lei n? 6.708/79, que entrou em vigor em primeiro de novembro daquele ano» (fls. 151). E mais adiante, ao ensejo de impugnar o percentual de produtividade, sublinharam os recorrentes: «Não bastasse a concessão do percentual da produtividade ao completo arrepio da norma constitucional e da legislação especifica aplicável à espécie, poder-se-ia invocar também que o Eg. Tribunal Superior do Trabalho decidiu ultra petlta, uma vez que pela leitura da inicial não se verifica nenhum pedido relativamente à taxa de produtividade. Como se vê, é facilmente verificavei que o Tribunal Superior do Trabalho, ao julgar dissidlos coletivos anteriores à Lei n? 6.708/79, estava jungido a aplicar apenas os fatores de reajustamento fixados por Decreto com base na Lei n? 6.147/74, e em estrita obediência à norma constitucional que lhe fixa Competência» (fls. 151/152). Nos embargos declaratórios alegaram os recorrentes contradição no acórdão, repetindo, quanto ao mais, alegações anteriores, não havendo, contudo, nenhuma referência a julgamento ultra petita, que só aparece no recurso extraordinário (fls. 152). 4. Ora, por todo o exposto bem se vê que não ocorreu ofensa ao artigo 142, § 1? da Constituição da República. O que os recorrentes argúem, na verdade, é ofensa à Lei n? 6.147/74, sob a alegação de ser o direito vigente, quando foi suscitado o dissídio coletivo. Mas tal matéria não pode ser objeto de recurso extraordinário contra decisão do Tribunal Superior do Trabalho, porque, nos expressos termos do artigo 143 da Constituição, 309 das suas decisões «somente caberá recurso para o Supremo Tribunal Federal quando contrariarem esta Constituição». A violação imputável ao Tribunal Superior do Trabalho há de ser de texto da Constituição e não de lei ordinária (RE n? 94.673, DJ de 8-4-83, Rel.: Ministro Néri da Silveira). Por outro lado, o tema suscitado pelos recorrentes não foi prequestionado no Tribunal de origem, porque os embargos declaratórios não apontaram ofensa ao artigo 142, § 1? da Constituição. Destarte, não havendo ofensa à Constituição, quer do art. 142, I, quer do art. 153, § 20, e nem tendo sido prequestionado este tema, nos termos do verbetes n?s 282 e 356 da Súmula, não conheço do recurso. É o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 97.054-RS — Rel.: Min. Alfredo Buzaid. Rectes.: Cia. Ultragás S.A. e outras (Advs.: Maurício de Campos Bastos e outros). Recdo.: Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios, Combustíveis Minerais e Solventes de Petróleo do Rio Grande do Sul (Advs.: Ulisses Riedel de Resende e outros). Decisão: Não se conheceu do recurso extraordinário. Decisão unânime. Falou pelos Rectes.: Dr. Mauricio de Campos Bastos. Presidência do Senhor Ministro Soares Muilioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 14 de junho de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. 310 R.T.J. — 109 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 97.870 — PB (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos — ECT — Recorrido: Eliomar Tomaz de Brito. ECT. Servidores do ex-DCT, que optaram pelo regime da CLT. Lel n? 6.184, de 11-12-1974. Qüinqüênios por tempo de serviço: vantagem própria do regime estatutário. Feita a opção do servidor por novo regime jurídico de trabalho, desvincula-se do anterior, passando a ter seu tratamento pecuniário, direitos e vantagens, na conformidade do sistema novo, não podendo simultaneamente, beneficiar-se das duas disciplinas legais, salvo se a lei, que dispõe sobre a alteração do regime do servidor, ou prevê a opção por novo sistema, de explicito, resguardar situação jurídica constituída tlt sombra da disciplina de regência do emprego, antes seguida. E certo que se há de ter como implicitamente resguardada contraprestação não inferior; não, porém, a subsistência de vantagens especiais do regime anterior. A não incidência dos dois sistemas legais sobre a mesma relação empregaticla resulta da diferença na enumeração dos direitos e obrigações, em virtude da legislação específica de cada qual. Qüinqüênios, por tempo de serviço anterior, não subsistem, após a opção pela disciplina da CLT. Precedentes do STF. Recurso extraordinário conhecido e provido. tempo de serviço, referentes aos dois ACÓRDÃO anos anteriores à rescisão do seu Vistos, relatados e discutidos estes contrato, acrescidos de Juros e corautos, acordam os Ministros da Pri- reção monetária, custas e, ainda, a meira Turma do Supremo Tribunal complementação do salário contriFederal, na conformidade da ata de buição, do mesmo período ( fls. 27). julgamentos e notas taquigráficas, à A mencionada sentença foi mantiunanimidade, conhecer do recurso da pela 3? Turma, do Tribunal Fedeextraordinário e lhe dar provimento. ral de Recursos, ao apreciar recurso Brasília, 29 de abril de 1983 — ordinário da empresa, em acórdão Soares Mitiloz, Presidente — Néri da assim ementado (fls. 57): Silveira, Relator. «Trabalhista. Qüinqüênios adquiridos antes do regime celetista. RELATÓRIO Os qüinqüênios adquiridos no regime estatutário pelos funcionáO Sr. Ministro Néri da Silveira rios, que optaram pelo regime ce(Relator): Eliomar Tomaz de Brito, letista, incorporam-se ao patrimôantigo funcionário público estatutánio do servidor, não podendo ser rio, do ex-Departamento de Correios absorvidos pelo novo padrão salae Telégrafos, optante pelo regime da rial da empresa pública.» CLT, propôs reclamação trabalhista contra a Empresa Brasileira de CorInconformada, interpôs a Empresa reios e Telégrafos, julgada pelo Dr. Brasileira de Correios e Telégrafos o Juiz Federal da Comarca de João presente recurso extraordinário, Pessoa, Estado da Paraíba, que con- com apoio no art. 119, inciso III, denou a reclamada a pagar os qüin- alíneas a e d, da Constituição Fedeqüênios, relativos ao adicional por ral, alegando negativa de vigência à R.T.J. —109 Lei n? 6.184, de 11-12-74, e ao art. 457, § 1?, da Consolidação das Leis do Trabalho, bem assim, ofensa ao art. 153, §§ 2? e 3?, da Carta Magna, divergência com a Súmula n? 207 e com julgados do Tribunal Federal de Recursos e do Tribunal Superior do Trabalho. Argüiu, ainda„a relevância da questão federal. Sustentou a recorrente, em resumo, que ao recorrido falece o direito de continuar percebendo a gratificação por qüinqüênios de serviços prevista no regime estatutário, a partir do momento em que optou pelo regime celetista, inacumuláveis, portanto, os benefícios dos dois regimes, ainda mais que, na fixação do salário decorrente da nova situação, não houve redução do valor que recebia. Negado seguimento ao recurso pelo despacho de fls. 83/87, com o argumento de que incidem, na espécie, os óbices do art. 325, itens IV, b, e VIII, do RISTF, e as Súmulas n?s 282, 356 e 369, subiram os autos a este Tribunal, por força do acolhimento da Argüição de Relevância n? 14.513-0-PB, em apenso, conforme decisão adotada pelo Conselho, às fls. 73. Razões da recorrente as fls. 94/105, não oferecendo o recorrido suas contra-razões, embora regularmente intimado às fls. 106. A douta Procuradoria-Geral da República manifesta-se, ás fls. 110/116, pelo conhecimento e provimento do recurso. E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Subiram os autos a este Tribunal, em face do acolhimento da argüição de relevância da questão federal (fls. 73 dos autos apensos). Questionada a matéria, no acórdão, à luz da Lei n? 6.184/1974, reconhecendo-se a existência de di- 311 reito adquirido, por parte do reclamante, aos qüinqüênios anteriores à opção, conheço do recurso extraordinário, afastados que se fizeram os óbices regimentais, em face do acolhimento da argüição de relevância da questão federal. Dele conhecendo, dou-lhe provimento, para julgar improcedente a reclamação trabalhista. Faço-o, na conformidade da jurisprudência da Turma, assentada no julgamento dos Recursos Extraordinários n?s 97.868, 98.402 e 97.868-2, concluídos a 4-3-1973. Nessa oportunidade, assim me pronunciei: «2. Assegurou -se ao servidor estatutário, que optou pelo regime da CLT, de acordo com a Lei n? 6.184, de 1974, o direito à gratificação adicional por tempo de serviço, adquirido antes da opção. O eminente Ministro Aldir Passarinho, no julgamento dos ERO n? 3.317/MG, no TFR, a que fiz menção, reportando-se a pronunciamento anterior, assim se manifestou: «Os reclamantes eram funcionários públicos da União, servindo no Departamento Nacional dos Correios e Telégrafos. Extinto DCT, em virtude da criação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, vieram eles a optar pelo regime da CLT, que veio a ser o implantado na nova entidade, em decorrência mesmo de sua natureza de empresa pública. Pretendem os postulantes seja acrescido aos seus salários o valor do adicional de tempo de serviço que já vinham percebendo quando funcionários públicos. A tal não têm direito contudo, como bem decidiu o nobre julgador a quo. A Lei n? 6.184/74, que disciplinou a matéria, não lhes asse- 312 R.T.J. — 109 gurou a manutenção da vantagem. Por outro lado, não tiveram eles redução de seus ganhos, mas antes significativo aumento, conforme relação apresentada pela reclamada. Tal aumento superou o que percebiam como funcionáinclusive rios públicos, considerando-se os adicionais a que faziam jus. Em alguns casos o aumento foi bastante substancial até. Não é possível, assim, atender-se à pretensão que visa soma de vantagens de dois regimes diferentes. Não é de esquecer-se, por exemplo, que os servidores sob o regime da legislação laborai consolida percebem 13° salário, vantagem que não possuíam quando funcionários públicos. Somente seria, deste modo, cabível conceder-se o vindicado se a lei houvesse expressamente autorizado a permanência dos adicionais, mas tal não ocorreu». Noutro passo de seu douto voto, anotou o Senhor Ministro Aldir Passarinho: «Quando me referi que a lei não previa a concessão dos qüinqüênios quis com isso significar que nela não poderia embasar-se a pretensão, mas não que ela lhes retirava o direito de obterem o valor dos qüinqüênios já alcançados. Entretanto, sendo o valor dos salários maior que o total, não lhes podia ser concedido novo acréscimo a esse novo salário. A espécie, Sr. Presidente, de um certo modo, se assemelha à questão dos militares reformados, que reiteradamente na Turma e já no Supremo Tribunal Federal nós temos enfrentado: eles, à base de um sistema legal fixado em Código de Vencimentos e Vantagens, recebem determinadas gratificações. Quando vem um novo Código, eles passam a perceber as gratificações do regime novo e sempre se tem reconhecido que, sendo esse Código novo de maiores vantagens, lhes é proporcionada uma remuneração de maior vulto. Eles não podem e isto não tem sido admitido — ficar vinculados ao regime anterior percebendo determinadas vantagens e, à base do regime novo, recebendo outras. Sempre julgou-se incabível esse somatório de vantagens. Isso é tranqüilo deste Tribunal como do Egrégio Supremo Tribunal Federal. Eles teriam direito adquirido a permanecer dentro do sistema do Código anterior, mas não lhes é possível integrarem-se no novo Código, recebendo as vantagens e gratificações nele previstas e continuarem a receber também aquelas, já revogadas, do Código anterior, em soma de vantagens. Nós sabemos, inclusive, que os Códigos de Vencimentos e Vantagens dos Militares se têm alterado com alguma freqüência e, então, a admitirmos a possibilidade de serem somadas as vantagens de todos eles, teríamos militares integrados no último Código, mas recebendo a soma daquelas todas previstas nos Códigos anteriores. Na hipótese dos autos, se o servidor estatutário deixa a disciplina da Lei n? 1.711/52 e passa para a da CLT, deve enquadrar-se na sistemática desse novo regime. Certo que não poderia ter qualquer prejuízo financeiro — e nisso tem e terá direito adquirido — mas se com a mudança para o regime celetista se tem que o novo salário foi superior à soma de seus vencimentos com o valor dos qüinqüênios, então foi ele beneficiado e não prejudicado. Se houvesse diferença para menor R.T.J. — 109 teria ele direito pelo menos à complementação agora, e a teria no futuro, mas não é isto o que ocorre». 3. Compreendo, da mesma forma, na linha do entendimento supra e no do voto do ilustre Relator. Feita a opção do servidor por novo regime jurídico de trabalho, desvincula-se do anterior, passando a ter seu tratamento pecuniário, direitos e vantagens, na conformidade do sistema novo, não podendo, simultaneamente, beneficiar-se das duas disciplinas legais, salvo se a lei, que estabelece a alteração do regime ou prevê a opção por novo sistema, de explicito, resguardar, no plano novo, situação jurídica constituída à sombra da disciplina de regência do emprego, antes seguida. R certo que se há de ter como implicitamente resgt—irdada a auferição de contraprestação não inferior, não, porém, a subsistência de vantagens especiais do regime anterior, na hipótese de a retribuição pecuniária, segundo o sistema adotado, implicar soma maior remuneratória. A não-incidência dos dois sistemas legais sobre a mesma relação empregando resulta da diferença na enumeração dos direitos e obrigações, em virtude da legislação especifica de cada qual. No caso, a modificação do regime jurídico, a que voluntariamente se submeteram os recorridos, traz como conseqüência, á míngua de norma expressa, resguardandolhes tais vantagens, não venham a perceber os qüinqüênios por tempo de serviço, próprios do regime estatutário, bem assim o saláriofamília, nos moldes previstos para os servidores submetidos ao Estatuto do Funcionário Civil da União. De outra parte, explicita-se, na sentença, que o novo salário dos recorridos, no regime da CLT, res- 313 tou superior ao que percebiam, no montante de suas vantagens, segundo os parâmetros estatutários. Quanto ao salário-família, há disciplina especial para os que se encontram regidos pela CLT. E de ressaltar que a Lei n? 6.184, de 11-12-1974, em seu art. 2? e parágrafo único, de expresso dispôs que seria computado, para o gozo dos direitos assegurados na legislação trabalhista e de previdência social, inclusive para efeito de carência, o tempo de serviço anteriormente prestado á Administração Pública pelo funcionário, que, por motivo de que trata o artigo 1?, Integre ou venha a integrar quadro de pessoal de sociedade de economia mista, empresa pública ou fundação, nada prevendo quanto a qüinqüênios por tempo de serviço, direito que não se compõe no elenco da disciplina celetista. Além disso, dispondo, ainda, sobre a contagem de tempo de serviço anterior, para os efeitos dos direitos assegurados na legislação trabalhista e de previdência social, também, de forma expressa, no parágrafo único do referido artigo 1?, a Lel n? 6.184 determinou que dita contagem se desse, «segundo as normas pertinentes ao regime estatutário, inclusive computando-se em dobro, para fins de aposentadoria, os períodos de licença especial não gozada, cujo direito tenha sido adquirido sob o mesmo regime». A evidência, estivesse no espirito da Lei em apreço resguardar os qüinqüênios por tempo de serviço, a isso teria disciplinado ou, ao menos, feito expressa menção. Do exposto, acompanho o eminente Relator, conhecendo do recurso da ECT e lhe dando provimento, para julgar improcedente a reclamação, quanto a essa parte, nos termos da sentença.» R.T.J. — 109 314 EXTRATO DA ATA RE 97.870-PB — Rel.: MM. Néri da Silveira. Recte.: Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos — ECT. (Advs.: Ginaldo de Vasconcelos e outros). Recdo.: Eliomar Tomaz de Brito. (Advs.: Antônio Olímpio Rosado Mata e outro). Decisão: Conheceu-se do recurso extraordinário e se lhe deu provimento. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 29 de abril de 1983 — Antônio Carlos de Azevedo Braga, Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 97.880 — RJ (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer. Recorrente: S.A. Cortume Carioca — Recorrida: União Federal. Imposto de renda. Pessoa jurídica. Declaração de rendimentos. Fundo de manutenção do capital de giro próprio (dedução). Lel n? 4.357/64, art. 27, 2?. — Razoável o entendimento dado ao art. 27, 2? da Lei n? 4.357/64 no sentido de que o quantitativo do imposto de renda pago pelo contribuinte ser incluído no fundo de capital de giro próprio, que é dedutivel do lucro bruto, para efeito de determinação do lucro tributável. Recurso extraordinário não conhecido. ACORDA0 Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, por maioria de votos, não conhecer do recurso. Brasília, 7 de fevereiro de 1984 — Soares Mufloz, Presidente — Rafael Mayer, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Rafael Mayer: Oferecido no Juízo de apelação, o minucioso relatório do saudoso Ministro Amanho Benjamin resume, com fidelidade, a causa: «S. A. Cortume Carioca moveu ação ordinária contra a União Federal objetivando anular o Acór- dão n? 63.339, proferido pelo 1? Conselho de Contribuintes no Pedido de Reconsideração n? 8.507, do n? Administrativo Processo 24.272/68, e, em conseqüência, as decisões por ele confirmadas, a fim de ser cancelado o lançamento suplementar do Imposto de Renda e levantada a quantia depositada como garantia de instância. Alegou que apresentou com a documentação e demonstrações legalmente exigíveis, sua declaração de rendimentos do exercício financeiro de 1966, correspondente ao ano-base, período de 1-7-64 a 30-6-65. Pelo balanço comercial chegou a um lucro de Cr$ 732.815,102 (cruzeiros antigos) ao qual, de acordo com os arts. 42, 43 e 50, da Lei n? 4.506, de 30-11-64, acrescentou, para obtenção do lucro operacional tributável, as importâncias corresponden- R.T.J. — 109 315 tes ao Imposto de Renda pago, Cri «Imposto de Renda — Declara481.830,925 (cruzeiros antigos) e a ção de rendimentos de pessoa provisão para as taxas estaduais jurídica — Consideração do *Funde Cri 117.645,00 (cruzeiros antigos) do de Manutenção do Capital de tudo num total de Cri 599.484,925 Giro Próprio» — Revisão. Legali(cruzeiros antigos), obtendo de dade do procedimento fiscal. acordo com o que determina a ciTendo-se em vista que a diligêntada lei, um lucro operacional de cia levada a efeito apurou que a Cri 1.332,300,027 (cruzeiros anticontribuinte atribuiu ao «Fundo» gos), de cujo montante deduziu a valor superior ao que, realmente, parcela de Cri 5.978 (cruzeiros anfoi constituído, há de se concluir tigos), relativa à venda já tributapela regularidade da revisão proda na fonte, conforme a sua declacedida e do lançamento suplemenração de rendimentos, constante tar subseqüente. Por outro lado, se dos Processos Administrativos que o imposto de renda pago não é de tomou os n?s 148.519/67, 208.402/67 modo algum dedutivel, toma-se e 24.272/68. Tendo cumprido e saevidente que a parcela do tributo tisfeito os requisitos do art. 2?, da não podia ser Incluída e produzir Lei n? 4.663, de 3-6-65, tem o direito efeitos no cálculo do lucro de se beneficiar dos favores conceoperacional. Não existe lei que didos pelo art. 3?, da mesma Lei. abone essa consideração, nem se Ocorre que, em setembro de 1967, pode compreender, logicamente, foi lavrado o auto de infração de que uma despesa integre vanfls. 13, no qual afirmam os fiscns tagem». ser o lucro operacional tributável de Cri 813.828,34, não podendo, porEmbargos infringentes foram retanto, ser abatida a importância do jeitados à unanimidade, resumido na Fundo de Manutenção do Capital ementa do acórdão o entendimento de Giro Próprio, de Cri prevalescente, In verbis: 1.092.212,87. «Imposto de renda — Fundo de Manutenção de Capital de Giro Contestando, a fls. 28/31, a União Próprio. Dedutivel que é do lucro sustentou que o lançamento suplebruto, para o efeito de determinamentar impugnado teve origem na diligência levada a efeito na em- . ção do lucro tributável, nos termos da Lei n? 4.663/65, art. 3?, inciso II, presa interessada, em 26-9-66, e tendo em vista a forma como é quando se confirmou a existência definido no 2?, do art. 27, da Lei de irregularidade na dedução do n? 4.357/64, não se pode admitir Fundo de Manutenção do Capital que nele seja incluído o imposto de de Giro, uma vez que a sociedade renda pago no ano-base.» abateu do lucro operacional importância superior ao valor do Fundo Recurso extraordinário interposto realmente constituído, em 30-9-65. pela letra a, sob a invocação de ofenReportou-se aos acórdãos do sa ao art. 27 da Lei n? 4.357/64, e art. Conselho de Contribuintes, juntos 50 da Lei n? 4.506/64, foi admitido por cópia, fls. 34/39». e regularmente processado. Nesta instância, a ProcuradoriaA ação foi julgada improcedente. Geral da República, em parecer do Por maioria, a Segunda Turma do ilustre Procurador Miguel Frauzino Tribunal Federal de Recursos negou Pereira, devidamente aprovado pelo provimento á apelação em acórdão eminente Subprocurador-Geral Mauque tomou a seguinte ementa: ro Leite Soares, opina: 316 «Versou o litígio sobre a formação do fundo de manutenção do capital de giro próprio, que era facultado pelo art. 27 da Lei n? 4.357/64 e podia ser abatido do lucro excedente, tributável pelo imposto adicional de renda, instituído pelo art. 1? da Lei n? 2.862/56. Em embargos infringentes, decidiu o acórdão impugnado que não pode ser incluído naquele capital o imposto de renda pago no anobase, por não ser deduzível do lucro tributável. O recurso extraordinário arrimase na letra a, alegando simplesmente que o acórdão «negou aplicação aos arts. 27 da Lei n? 4.357/64 e 50 da Lei n? 4.506, ao dar-lhes sentido contrário aos seus próprios e lúcidos textos». Sua argumentação baseia-se no voto divergente do ilustre Ministro Decio Miranda, daí apresentar-se o apelo com caráter Infringente. O acórdão limitou-se a interpretar o § 2? do mencionado art. 27, que dispunha: «Para os efeitos deste artigo considera-se capital de giro próprio, no início do exercício, o ativo disponível mais o ativo realizável, diminuído do passivo exigível depois de excluídos: I — do passivo exigível... II — do ativo realizável...» Correto o entendimento, pois é noção elementar das ciências contábeis que o imposto de renda pago não constitui ativo disponível ou realizável nem passivo exigível, mas despesa, registrada nas contas de resultado pendente do ativo, conforme dispunha a alínea a do art. 135 da então vigente lei das S.A. (Decreto-lei n? 2.627/40). O outro dispositivo legal, tido como violado, não foi objeto da decisão impugnada. — 109 Assim, opinamos não seja conhecido o recurso.» E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Rafael Mayer (Relator) • Toda a controvérsia dos autos tem origem na constatação, pelo Fisco, no exame da escrita da empresa, de existência de irregularidade, inserida na declaração de rendimentos apresentada no exercício de 1966, consistente na dedução do Fundo de Manutenção do Capital de Giro, uma vez que a sociedade abateu do lucro operacional importância superior ao valor do Fundo realmente constituído. Partindo da consideração de que a Lei n? 4.663/65 dispôs que a empresa poderia deduzir do lucro bruto, para o efeito de determinação de lucro sujeito ao imposto de renda, a importância correspondente à manutenção do capital de giro próprio, de que tratava o art. 27 da Lei n? 4.357/64, o douto voto condutor do acórdão recorrido busca definir o que seja esse capital de giro, segundo os conceitos postos na lei específica. Diante do § 2? do art. 27, acima referido, segundo o qual, considera-se capital de giro próprio, no inicio do exercício, o ativo disponível mais o ativo realizável, diminuído do passivo exigível, o acórdão recorrido propõe esse equacionamento: «Ora, o quantitativo relativo a imposto de renda pago pelo contribuinte não é ativo, pois não representa valor, e nem passivo exigível, porque débito já liquidado, com o que não poderia, de acordo com o disposto na regra legal transcrita, ser incluído no capital de giro próprio.» Ora, esse é o dispositivo legal que, veiculado pelo recurso extraordinário, alcançou prequestionamento no acórdão recorrido, e diante da clare- R.T.J. — 109 za do seu texto não cabe a impugnação à interpretação dada, como comprometedora de sua vigência, pois, ao contrário, é a que se mostra como atributiva de um sentido congruente à norma. 917 VOTO (VISTA) O Sr. Ministro Oscar Corrêa: O Eminente Relator Ministro Rafael Mayer resumiu a controvérsia no seu voto, verbis: (lê) 2. Pedi vista dos autos, atento ao O acórdão recorrido não se deteve na consideração do art. 50 da Lei n? voto do Eminente Relator e ao Me4.506/64, que o recurso extraordiná- morial e defesa oral do Recorrente, rio tem por violado, e aqui se aplica- por seu ilustre advogado, e nos terria a Súmula n? 282. De qualquer mos do voto vencido que, no C. Trimodo, o disposto nesse artigo nada bunal Federal de Recursos proferiu, mais é do que a determinação de na época, o então Juiz daquela Cornão ser dedutivel o imposto de renda te, o hoje Eminente Ministro Decio pago pela empresa, qualquer que se- Miranda, neste E. Supremo Tribunal ja a modalidade de sua incidência, o Federal. que antes se coaduna com o sentido E, sobretudo, lendo e relendo o ardo preceito anterior. tigo 27 da Lei n? 4.357/64, que assim Vindo o recurso apenas pela letra estabeleceu: a, e não convincente o argumento de «Art. 27. A partir do exercido negativa de vigência do dispositivo financeiro de 1965, para o cálculo questionado, aplicado, sim, com rade imposto adicional de renda, em zoabilidade, não conheço do recurso. relação ao capital das pessoas jurídicas, de que trata o art. 1? da EXTRATO DA ATA Lei n? 2.862, de 4 de setembro de 1956 (11), será facultado às pessoas RE 97.880-RJ — Rel.: Min. Rafael jurídicas abater do lucro excedente Mayer. Recte.: S.A. Cortume Cariotributável a importãncia corresca. (Advs.: Gustav Livio Toniattl, pondente à manutenção do capital José Marcos Domingues de Oliveira de giro próprio durante o ano-base e outros). Recda.: União Federal. da sua declaração. Decisão: Depois do voto do MinisO montante da manutenção tro Relator que não conhecia do redo capital de giro será determinacurso extraordinário, o julgamento do pela aplicação, sobre o capital foi adiado a pedido do Ministro Osde giro próprio da empresa, no car Corrêa. Falou pelo Recte. Dr. inicio do exercido, das percentaJosé Marcos Domingues de Oliveira. gens de correção publicadas periodicamente pelo Conselho Nacional Presidência do Senhor Ministro de Economia, que deverão traduzir Soares Mufloz. Presentes á Sessão os o aumento de nível geral de preSenhores Ministros Rafael Mayer, ços, no período correspondente ao Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Auano-base. sente, licenciado, o Senhor Ministro Para os efeitos deste artiAlfredo Buzaid. Subprocuradorgo, considera-se capital de giro Geral da República, Dr. Francisco próprio, no inicio do exercido, o de Assis Toledo. ativo disponível mais o ativo realiBrasília, 2 de dezembro de 1983 — zável, diminuído do passivo Antanio Carlos de Azevedo Braga, exigível depois de excluídos:«...» Secretário. (fls. 133/134). 318 Com efeito, dessa leitura e releitura deduzo que o capital de giro próprio da empresa é o que, no inicio, do exercício — frisam-no os §§ 1? e I 2? do artigo 27 — se apura, considerando-se o ativo disponível; mais o ativo realizável, menos o passivo exigível, depois de excluídas as parcelas enumeradas nos itens I e II do § 2?. Ora, no inicio do exercício, o montante do imposto de renda devido sobre o ano-base (anterior), ainda não foi pago e, desta forma, é ainda capital de giro próprio. A nosso ver, data venta, o equívoco advém de considerar como «débito já liquidado» — como se vê no voto do Eminente Relator dos embargos infringentes no CTFR (fls. 134), o quantitativo do imposto de renda, porque ainda não pago — no Inicio do exercício. Não pago, esse quantitativo integrava o Ativo; e a reserva para manutenção do capital de giro teria de incluí-lo, ao contrário do que determinou o v. acórdão recorrido. E, ao final do exercício esse imposto, já pago, integrava o lucro tributável, 'lucro, por ficção legal, e irredutível, nos termos da lei. 5. Por isso, argumenta o Recorrente no seu memorial: «Se o quantitativo do imposto a pagar, ativo no início do exercício, fosse deduzido do cálculo da reserva de capital de giro, e incluído, por força da lei, quando já pago, no lucro tributável, apurado no encerramento do exercício, o resultado seria a tributação duas vezes do mesmo quantitativo». No sentido do recurso o voto do Eminente então Ministro do C. Tribunal Federal de Recursos Decio Miranda (fls. 109/110), que o explicitou, nestes termos: «Considera-se que o imposto de renda pago em determinado ano — 109 não diminui o lucro operacional desse ano, pois, em realidade, corresponde ao rendimento do exercício anterior. Logo, o que se pagou de imposto de renda compõe o lucro operacional. E se a lei manda deduzir do lucro operacional assim composto o quantitativo autorizado para manutenção do capital de gero próprio, agiu corretamente a autora, ora apelante, no assim proceder. A fiscalização entendeu que para esse efeito não compõe o lucro operacional o imposto de renda que se pagou. Poderia estar certa do ponto de vista puramente lógico, pois não comportaria integração em capital de giro aquilo que não está mais no acervo da empresa, por haver sido despendido no pagamento do imposto de renda. Mas não está certa do ponto de vista legal, se a lei adotou a ficção de que não se retira do lucro o que se despendeu com o pagamento do imposto de renda do ano anterior. E mais, considera a lei essa ficção válida para os dois efeitos: para o efeito de sofrer tributação a quantia, no exercício de que se cuida (art. 164, § 1?, Decreto n? 58.400, de 10-5-66); para o efeito de deduzir-se do lucro, como componente de reserva de manutenção de capital de giro próprio, no ano de que se trata (artigo 3?, II, da Lei n? 4.663, de 36-65 ). Resulta de engano a declaração de que a empresa escriturou Cri 518.471,67 e não Cri 1.092.212,87, eis que esta última quantia, antes do exame dos fiscais, havia sido mandada integrar no capital, do que dá noticia a ata da assembléia geral de fls. 18, o que, de resto, era pre- R.T.J. — 109 319 visão da mesma Lei n? 4.663, de 3- ti, José Marcos Domingues de Oli6-65, que, no art. 7?, também favo- veira e outros). Recda.: União Federecia a incorporação ao capital das ral. reservas correspondentes à manuDecisão: Não se conheceu do retenção de capital de giro próprio». curso extraordinário, vencido o MiNestes termos, data venta do Emi- nistro Oscar Corrêa. Presidência do Senhor Ministro nente Relator, conheço do recurso e Soares Muiloz. Presentes à Sessão os dou-lhe provimento. Senhores Ministros Rafael Mayer, E o voto. Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral EXTRATO DA ATA da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. RE 97.880-RJ — Rel.: Ministro RaBrasília, 7 de fevereiro de 1984 — fael Mayer. Recte.: S.A. Cortume Antônio Carlos de Azevedo Braga, Carioca (Advs.: Gustav Livio Toniat- Secretário. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DP 98.436 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid. Recorrente: Ministério Público Estadual — Recorrido: Herminio Marques. Penal. Continuidade delitiva. Para caracteriza-1a, cumpre verificar que o crime subseqüente é, na verdade, a continuação do crime precedente. Reconhece-se a continuidade delitiva de roubos praticados contra vitimas diferentes, desde que entre eles haja conexão temporal, espacial e modal, evidenciando-se que os subseqüentes são a continuação do primeiro. 3. Recurso extraordinário conhecido e provido. ACÓRDÃO A controvérsia está assim deduzida na petição de fls. 89 e seguintes, Vistos, relatados e discutidos estes do Ministério Público paulista, autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal verbis: «Herminio Marques requereu a Federal na conformidade da ata do unificação de penas cumulado de julgamento e das notas taquigráfipedido de prisão albergue. Sua precas, por unanimidade de votos, em tensão era unificação de penas nos conhecer do recurso e dar-lhe provifeitos em que fora punido por roubo mento. e latrocínio (Feitos n?s 5809/70 e Brasília, 8 de abril de 1983 — 2633/79), já que outras penas já haSoares Minloz, Presidente — Alfredo viam sido unificadas (Feitos n?s Buzaid, Relator. 959/70 e 1132/70. O pedido foi deferido pela r. senRELATÓRIO tença de fls. 54/55, ficando unificaO Sr, Ministro Alfredo Buzaid: das as penas individualizadas nos Trata-se de recurso extraordinário Processos n? 2633/79 (6? execução), com fulcro no art. 119, III, letra d da 5809/70, 6967/70 e 5807/70 (5? execuConstituição da República. ção) e 96/71 (4! execução). A pena- 320 R.T.J. — 109 base para o cáulculo foi a do latrocínio - 15 anos - aplicado no Processo n? 2633/79, sobre a qual foi acrescentado 1/3 (um terço), «ante a quantidade de delitos (contidos em três execuções), restando, para cumprimento, 20 anos de reclusão, inalteradas as sanções pecuniárias». (cf. fls. 55). Irresignada com essa r. decisão, interpôs a Justiça Pública recursocrime, que, regularmente processado, foi julgado pela Colenda Terceira Câmara Criminal desse Augusto Tribunal, que confirmou a r. sentença de primeiro grau, explicitando, à fls. 84, que: não há como negar o nexo da continuidade entre o roubo e o latrocínio, uma vez que esta última figura é, na projeção conceituai do crime complexo, o próprio roubo que descambou, dolosa ou até culposamente, para o resultado morte. Ora, mesmo sendo diverso o resultado não há como negar, sem ferir a mens legis que informa a fictio juris consubstanciada no art. 51, § 2?, do Código Penal, que o roubo e o latrocínio não sejam crimes da mesma espécie» (fls. 89/91). Ouvida a douta ProcuradoriaGeral da República, em parecer da lavra do ilustre Procurador Cláudio Lemos Fonteles, aprovado pelo eminente Prof. Francisco de Assis Toledo, DD. Subprocurador-Geral da República, assim se manifestou, verbis: «1. Irresigna-se a acusação pública estadual com a deliberação colegiada que deferiu a unificação de penas, por estabelecer a continuidade delitiva, no atinente a um delito de roubo, e outro de latrocínio, ambos perpetrados por Herminio Marques. 2. Calca-se no dissídio jurisprudencial à demonstração da in- subsistência do julgado, e os casos relevados condenam, todos, a possibilidade da unificação no delito de roubo, em si. O dissídio, cremos, presta-se ao conhecimento da matéria. Isto porque, a Suprema Corte, quando concede a possibilidade do reconhecimento da continuidade delitiva, fá-lo em tese, o que sugere o exame de cada caso e sempre no núcleo penal, identificado substancialmente: vale dizer, de roubo para roubo; de furto para furto. E orientação a que aderimos, por assim temperar-se a diretriz puramente objetivada na compreensão do delito continuado, resquício da tradição positivista, que não mais se compraz na realidade hoje experimentada, que não permite obscureça-se o móvel, a finalidade no agir humano. Mas é claro, e coerente com a boa análise da motivação no pautar-se humano, que não podemos vê-la continuada quando o posterior próprio fato-crime destaca-se do primeiro consumado, para qualificar-se autonomamente, como se dá em relação ao roubo e latrocínio; ao furto e roubo. Há um plus na volição criminosa, que não mais as identifica, também na perspectiva subjetiva, e assim injuridico cogitar-se de delito continuado. Somos, em conclusão, pelo provimento do recurso para que se assente que em relação ao crime de roubo e o de latrocínio, impossível é a constatação do crime continuado» ( (15.141/142). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Alfredo Buzald (Relator): 1. O recorrido, no primeiro R.T.J. — 109 grau, pleiteou unificação de penas de crimes de roubo, sendo que um deles agravado pelo resultado morte. Houve apelo do Ministério Público, embora improvido pelo Tribunal. A jurisprudência deste Eg. Tribunal, quanto à admissibilidade ou não da continuidade delitiva no roubo, entende, à luz do art. 51 § 2? do Código Penal, que cada espécie deve ser julgada à luz dos fatos, da conduta do agente ativo e, principalmente, de seus desígnios sem esquecer a sua própria personalidade. Assim, é que no RECr. ri? 95.242-0BA, cujo Relator foi o eminente Ministro Cordeiro Guerra, ficou decidido: «Crime continuado. Não basta para o reconhecimento do crime continuado a presença de todos os requisitos legais, se lhes falta a verificação de ser um crime a continuação necessária de outro. E preciso que o crime subseqüente seja tido como a continuação do primeiro. A reiteração de crimes pelos delinqüentes habituais não constitui continuação delitiva, mas atestado de temibilidade do delinqüente. Recurso extraordinário não provido» (DJU 16-2-82, pág. 1291). 2. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, depois do julgamento nos RREE n?s 88.396 e 87.767, se firmou no sentido de reconhecer a continuidade delitiva de roubos praticados contra vítimas diversas, desde que haja entre os fatos os requisitos do art. 52, § 2?, do Código Penal, ou seja, conexão temporal, espacial e modal, evidenciando que os subseqüentes são continuação do primeiro. Reafirmando o decidido pelo Plenário está o RE n? 96.697-8-FtJ dentre outros, cujo relator foi o eminente Ministro Soares Minloz, tendo o v. acórdão a seguinte ementa: «Roubo. Crime continuado. O Plenário do Supremo Tribunal Fe- 321 deral, nos RREE n?s 88.396 e 87.767, firmou sua jurisprudência no sentido da possibilidade da continuidade delitiva de roubos praticados contra vítimas diferentes, desde que haja entre os fatos conexão temporal, espacial e modal, evidenciando que os subseqüentes são continuação do primeiro. Aplicação da Súmula n? 286. Recurso extraordinário de que se não conhece» (DJ de 28-2-82). Herminio Marques praticou vários roubos contra vitimas diversas, em espaço de quase seis meses, estando nessa seriação criminosa um latrocínio, que, dentre outras diferenças na execução da conduta, está o modus operandi, quebrando, assim, os pressupostos objetivos que evidenciam o crime continuado e que estão presentes nos demais crimes cometidos pelo recorrido. 3. Por tais fundamentos, conheço do recurso extraordinário e lhe dou provimento, a fim de desconstituir o v. acórdão a quo na parte que integra na continuação delitiva, para os fins de unificação, o latrocínio. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 98.436-SP — Rel.: Min. Alfredo Buzaid. Recte.: Ministério Público Estadual. Recdo.: Herminio Marques. (Adv.: Aparicio Bacarini ). Decisão: Conheceu-se do recurso extraordinário e se lhe deu provi-• mento. Decisão unânime. Presidência do Senhor Ministro Soares Mufioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 8 de abril de 1983 — Antônio Carlos 4e Azevedo Braga, Secretário. R.T.J. — 109 322 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 98.589 — RJ (Segunda Turma) Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Recorrente: Estado do Rio de Janeiro — Recorrido: Manoel Barreiros Terra (Espólio de), representado por sua inventariante Maria Lúcia Terra Carrilho Santoro. Tributário. Imposto de transmissão «causa mortis». Súmula 113-STF. Decreto-lei do Rio de Janeiro n? 413, de 13-2-79, que alterou o Decreto-lel n? 5/75 (art. 83 e seu 2?). Dizendo a Súmula 113 que o imposto de transmissão «causa mortis» é o calculado sobre o valor dos bens na data da avaliação, referindo-se, como fontes legislativas, aos arts. 483 e 499 do CPC de 1939, que correspondem aos arts. 1003 e 1013 do CPC de 1973, bem como ao art. 38 do CTN, e determinando este último que «A base de cálculo do imposto é o valor venal dos bens ou direitos transmitidos», tem-se que é possível ser fixada por lei estadual a data da transmissão ou posterior em relação a qual devem ser avaliados os bens. A Súmula 113 (1962) é anterior à lei da correção monetária (1964), pelo que o objetivo a que ela visava, de evitar distorções prejudiciais ao Fisco, se encontra atendido com a aplicação da correção monetária. E que, antes, não interessava ao contribuinte pagar á Fazenda, prontamente, o imposto que era devido, mas com a correção monetária a distorção foi evitada. Inexistência, de divergência, assim, entre a Súmula 113 e o art. 83, do Decreto-lei n? 5, com a redação do Decreto-lei n? 413, de 1979, ambos do Estado do Rio de Janeiro, pois se dispõe o art. 83 aludido que «a base do cálculo do imposto é o valor venal dos bens ou direitos relativos a imóveis, no momento da transmissão», de outra parte determinou a aplicação da correção monetária se o pagamento não se realizasse dentro de um ano. ACÓRDÃO reiros Terra, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por Vistos, relatados e discutidos estes maioria de votos, determinou que o autos, acordam os Ministros do Su- imposto de transmissão causa premo Tribunal Federal, por sua Se- mortis fosse calculado com base no gunda Turma, na conformidade da valor venal dos bens, no momento da ata de julgamento e das notas taqui- transmissão, com aplicação da corgráficas, por unanimidade de votos, reção monetária, se dentro de um não conhecer do recurso. ano contado a partir do óbito, o paBrasília, 23 de setembro de 1983 — gamento do tributo não fosse efetuaDjaci Falcão, Presidente — Aldir do ao Estado do Rio de Janeiro. E este o teor do aresto impugnado: Passarinho, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): Nos autos de inventário dos bens deixados por Manoel Bar- «2. A Súmula n? 113, do E. Supremo Tribunal, conquanto exteriorize respeitável posição da alta Corte, sabidamente não é dotada de efeito normativo. E, no conflito R.T.J. — 109 entre o verbete e a lei (no caso, posterior), obviamente prima a segunda. Custa crer que o próprio Estado se insurja contra a lei que edita: «a base do cálculo do imposto é o valor venal dos bens, ou direitos relativos a imóveis, no momento da transmissão...» Essa, aliás, a correta doutrina. Pelo principio da saisina, é no instante seguinte ao do Óbito do autor da herança que os bens ingressam no patrimônio dos herdeiros. Se nesse momento se dá a transmissão, a base do cálculo do imposto só poderá ser a que corresponder ao valor dos bens na ocasião em que são transmitidos. Logo, a avaliação deve protrair à data do Óbito. Como conseqüência, não sendo recolhido o tributo dentro do prazo legal (um ano), a correção monetária será aplicada e terá, como dies a quo, aquele do óbito, considerado para avaliação dos bens. Quanto à legitimidade da exigência legal (pagamento em um ano, sem consideração ao estado do inventário), cabe recordar que o tempo de pagamento do tributo é tema de direito material tributário. Logo, cabe à lei, na esfera de atuação do respectivo poder tributante, sobre ele prover. Irrelevante, assim, que o Código Civil tenha fixado o prezo de um mês para abertura do inventário e de três para concluí-lo (art. 1.770). Ou que os Códigos de Processo revogando essa disposição tenham provido a respeito (Código de 1939, art. 467; Cód. de 1973, art. 983), ou, ainda, que o pagamento, por ser em juizo, não possa ser efetuado antes do julgamento do cálculo do imposto. Incumbe à parte diligenciar no sentido de ultimar o inventário a tempo de recolher o tributo no pra- 323 zo assinado pela lei tributária. Se o não faz, suporta a apenação que a mesma lei estabelecer. No caso dos autos, o imposto a que se refere a guia de fls. 147, foi pago aos 23-4-81. E o óbito é de 199-79» (fls. 173/174). Votou vencido o ilustre Desembargador Marcelo Santiago Costa, nestes termos, verbis: Data venta da douta maioria, neguei provimento ao recurso porque as razões do apelante não abalaram, a meu ver, os fundamentos da sentença. A Súmula n? 113 do Egrégio Supremo Tribunal Federal seria aplicável se a legislação do Estado do Rio de Janeiro (art. 83 e seu parágrafo 2? do Decreto-lei n? 5/75, com as alterações introduzidas pelo Decreto-lei n? 413/79) não fosse expressa, como o é, no sentido de determinar que «a base do cálculo do imposto é o valor venal dos bens ou direitos relativos a imóveis, no momento da transmissão». A correção monetária não é devida, quer porque se instaurou a questão do valor do imposto, com a impugnação ao cálculo pelo Estado, quer porque este não a pediu em seu recurso» (fls. 175). Contra essa decisão, interpôs o Estado do Rio de Janeiro recurso extraordinário, com fundamento na alínea d da permissão constitucional, a sustentar manifesta divergência com a Súmula n? 113 do Supremo Tribunal Federal (fls. 177/178). Entende o Estado recorrente que, na conformidade do enunciado na Súmula n? 113 desta Corte, o imposto de transmissão deve ser calculado sobre o valor dos bens na data da avaliação, e não na data do óbito. Foi o recurso admitido pelo despacho de fls. 187/188, e, na oportunidade, o recorrente apresentou suas razões (fls. 190/197). R.T.J. — 109 324 A douta Procuradoria-Geral da República, em parecer da lavra do Dr. Mauro Leite Soares, opinou pelo não conhecimento do recurso ou, se conhecido, pelo seu não provimento, tendo em vista a Jurisprudência desta Corte, no mesmo sentido da decisão recorrida (fls. 205/207). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Aldir Passarinho (Relator): O extraordinário se fundamenta em divergência com a Súmula n? 113 desta Corte, e com base na letra d do permissivo constitucional, com o que seria ultrapassado o óbice regimental (art. 325, VIII do RI/STF), de vez que o valor atribuído à causa não permitiria a subida dos autos ao exame deste Tribunal. Diz o enunciado da Súmula invocada que, verbis: «O Imposto de transmissão causa mortis é calculado sobre o valor dos bens na data da avaliação». No caso, impende assinalar pela sua significação no deslinde da controvérsia: o óbito do pai da autora ocorreu no dia 19 de setembro de 1979, e o pedido de abertura do inventário se verificou em 19 do mês seguinte (outubro de 1979). Já então vigia o Decreto-lei Estadual n? 413, de 13-2-79, que alterou o Decreto-lei n? 5/75, dispondo o seu art. 83 que «a base de cálculo do imposto é o valor venal dos bens ou direitos relativos a imóveis, no momento da transmissão», e o g. 2? do mesmo artigo que «Para efeitos deste artigo, não se distingue a transmissão intervlvos da transmissão causa mortis. Ora, a Súmula n? 113 se refere, como fonte legislativa, aos arts. 483, 499 do CPC de 1939 que correspondem aos arts. 1.003 e 1.013 do Código de Processo Civil de 1973, bem como ao art. 38 do Código Tributário Nacional. Nenhum dos dispositivos da legislação processual disciplinam a questão tributária e o art. 38 do CTN dispõe, verbis: «A base de cálculo do Imposto é o valor venal dos bens ou direitos transmitidos». Não há, portanto, na legislação invocada em fundamento da Súmula 113, qualquer referência sobre se deve ser considerada a data da transmissão como aquela em relação á qual deve efetuar-se a avaliação, ou se é possível ser ela posterior. Tal ponto, assim, foi deixado em aberto, podendo, em conseqüência, ser disciplinado por lei estadual, e isso se deu, eis que o Decreto-lei n? 413/79, fixou expressamente, como se viu, que o valor venal do imóvel na data da transmissão seria o tomado como base do cálculo do imposto. Conforme assinala Baleeiro: «O fato gerador não definido especificamente no art. 35 do CTN é a transmissão do domínio e da posse dos bens do de cujos pela abertura da sucessão «desde logo», aos herdeiros legítimos e testamentários (CC art. 1.572). Ocorre, pois, com o óbito e no dia deste, aplicando-se a alíquota nesta data (Súmula n? 112).» Deste modo, não havendo lei expressa que tivesse estabelecido qual a data a ser considerada para efeito da avaliação, certo que podeila fazêlo, como ficou dito, a lei estadual, ao determinar ela que fosse para tanto considerada a do momento da transmissão. Em ilustrativo voto, na oportunidade do Julgamento do RE n? 97.530, Relator o Sr. Ministro Alfredo Buzaid, e em que o Estado do Rio de Janeiro era recorrente, e que se dis- R.T.J. — 109 cutia exatamente a aplicação da Súmula n? 113, já após a vigência do Decreto-lei Estadual n? 413/79, á vista do seu art. 83, inobstante ter havido remissão do débito ali cobrado, ante o seu valor, em face do Decreto n? 2.686/79, não se furtou de formular considerações que, por sua oportunidade, a seguir transcrevo: «Não houve divergência com o Verbete 113, da Súmula deste Colendo Tribunal. Este verbete é anterior (1962) à lei de correção monetária (1964). Assim, o inadimplemento do contribuinte, sem causa justa, depois do advento daquela, seria apenada pela correção monetária, incidente sobre o valor do tributo não pago na data exigida. A Súmula, com o seu verbete, corrigia distorção prejudicial ao fisco. Não se corrigindo o débito, em virtude do processo inflacionário, não interessava ao contribuinte pagar á Fazenda o que por lei lhe era exigido. Valeria mais especular com o dinheiro até o último momento de satisfazer sua obrigação fiscal. Com o advento da lei de correção monetária, essa distorção foi amplamente contornada, pois, em qualquer tempo que o contribuinte comparecesse á repartição para pagar qualquer tributo, este passou a ser exigido com o valor corrigido até a data. Dessarte, In casta, tanto importaria ao fisco que o imposto de transmissão causa moras 'fosse pago sobre o valor venal do imóvel à data do óbito como multo tempo ,depois, já que a correção monetária incidiria sobre o resultado da aliquota do tributo aplicada em relação ao valor venal do imóvel. De sorte que não faria diferença, se o imposto se calculasse tendo por base o valor da avaliação». Em outra oportunidade, ao ensejo do julgamento do RE n? 85.976 325 (AgRg), o mesmo eminente Ministro, ainda sobre o tema em comento, disceptou com inegável propriedade (RTJ 101/649): «1. A meu ver, não há divergência entre a Súmula n? 113 e o art. 83 do Decreto-lel n? 5, com a redação do Decreto-lei n? 413, de 1979. Com efeito, a referida Súmula foi elaborada com base nos arts. 483 e 499 do Código de Processo Civil de 1939, revogado pelo Código de Processo Civil de 1973, que a respeito do valor do imposto de transmissão causa mortis nada dispõe. Os arts. 1.003 e 1.013 do Código de Processo Civil de 1973 aludem à avaliação e ao cálculo, não inserindo nenhuma norma de direito tributário. Por outro lado, estabelece o Código Tributário Nacional, no art. 38, que «a base de cálculo do imposto é o valor venal dos bens ou direitos transmitidos». Ora, segundo consta da ementa do v. acórdão da Egrégia 5? Câmara Civel do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o mais correto entendimento do art. 38 do Código Tributário Nacional é que a base de cálculo do imposto de transmissão causa mortis é o valor dos bens transmitidos no momento da abertura da sucessão. E, por derradeiro, é da competência do Estado instituir imposto de transmissão sobre bens imóveis, ainda que ela resulte de sucessão aberta no estrangeiro (Const. Fed., art. 23, I e § 2?). Esta matéria é, pois, estritamente de direito local, não ensejando recurso extraordinário (Súmula n? 280). Por todo o exposto, nego provimento ao agravo regimental». Desejo observar que poderia parecer contraditório com tal entendimento o decidido pela mesma C. 1? Turma em julgamento anterior, no RE n? 92.010-PR (RTJ 92/937), em 326 R.T.J. — 109 que foi admitida até nova avaliação pela distância, no tempo, em relação á anterior, mas é de ver que, então, sequer foi mencionado haver disposição legal que estabelecesse a mesma regra do discutido art. 83 do Decreto-lei n? 413/79, do Estado do Rio de Janeiro. Por último, ao ensejo do julgamento do RE n? 97.459-8, Relator o Sr. Ministro Djaci Falcão, julgou esta C. 2? Turma, de acordo com o espelhado na respectiva ementa (DJ de 1211-82 -- Ementário n? 1.275): EMENTA: O imposto de transmissão causa mortis. O valor do bem para o cálculo do imposto é o da data da abertura da sucessão. Aplicação da legislação estadual (art. 176 da Lei n? 1.165, de 13-1266, e art. 87 do Decreto-lei n? 5, de 15-3-1975). Incidência da correção monetária na hipótese de atraso no recolhimento do tributo. Inexistência de dissídio com a Súmula n? 113. Recurso extraordinário não conhecido». Pelo exposto, não conheço do re- curso. E o meu voto. EXTRATO DA ATA RE 98.589-RJ — Rel.: Min. Aldir Passarinho. Recte.: Estado do Rio de Janeiro (Adv.: Luiz A.G. Dutra). Recdo.: Manoel Barreiros Terra (Espólio de), representado por sua inventariante Maria Lúcia Terra Carrilho Santoro (Advs.: Bernardo Buarque Schiller e outros). Decisão: Não conhecido. Unânime. Presidência do Senhor Ministro Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Moreira Alves, Decio Miranda, Aldir Passarinho e Francisco Rezek. SubprocuradorGeral da República, Dr. Mauro Leite Soares. Braslia, 23 de setembro de 1983 — Hélio Francisco Marques, Secretário. RECURSO EXTRAORDINARIO N? 98.806 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Caixa Econômica Federal — CEF — Recorrido: Dirceu Monteiro de Oliveira. Caixa Econômica Federal. Mútuo com garantia hipotecária. Imóvel vinculado ao Sistema Financeiro da Habitação. Taxa de Serviço. Limite de sua cobrança, de acordo com o Decreto n? 63.182/1968, art. 2?, letra d. Lei n? 4.595/1964 e Súmula 596. Jurisprudência do STF, acerca da cobrança de «taxas de serviço», desde o julgamento do RE 78.953, a 5-3-1975 (RTJ 72/916). O STF não tem acolhido a limitação da taxa de serviço, com base no art. 2?, do Decreto n? 63.182, de 1982, conforme resulta das decisões nos Recursos Extraordinários Ws 93.247-RJ, 93.817-SP e 87.722, dentre outros, invocando-se a orientação consagrada no RE 78.953 e Súmula 596. Recurso extraordinário conhecido, com fundamento no art. 119, III, letra d, da Constituição, e provido. R.T.J. — 109 ACORDA0 Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamentos e notas taquigráficas, á unanimidade, conhecer do recurso e lhe dar provimento. Brasília, 8 de março de 1983 — Soares Mufioz, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): Trata-se de recurso extraordinário interposto pela Caixa Económica Federal, com apoio no art. 119, item III, alíneas a e d, da Constituição Federal, contra acórdão da 2? Seção, do colendo Tribunal Federal de Recursos, que exibe esta ementa (fls. 100): «Caixa Econômica Federal — Taxa de serviço — Imóvel vinculado ao Sistema Financeiro da Habitação — Aplicação do limite previsto no art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. I — A «Taxa de Serviço» cobrada pela CEF, nos contratos de mútuo com garantia hipotecária regidos pelo Sistema Financeiro da Habitação, está sujeita ao limite de 2% ao ano, previsto no art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. II — O referido limite é aplicável, a partir do citado Decreto n? 63.182/68, aos contratos assinados anteriormente á sua vigência. III — Embargos rejeitados.» Sustenta a recorrente que o mencionado aresto negou vigência à Lei n? 4.595, de 1964, bem assim que se encontra em divergência com a Súmula n? 596, deste Tribunal, que tem este enunciado: «596. As disposições do Decreto n? 22.626/33 não se aplicam às ta- 327 xas de juros e aos outros encargos cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privadas, que integram o sistema financeiro nacional.» No voto condutor do acórdão, anota o relator designado para sua lavratura, ao se reportar a entendimento anteriormente esposado, a respeito da matéria em debate (fls. 95/96): «Estamos diante de uma particularidade, ainda não examinada, qual seja a de que há um contrato firmado antes da vigência desse decreto e um outro, após a sua vigência. Então, indaga-se: incidirá o mencionado decreto sobre os contratos já celebrados? A minha resposta é afirmativa, porque se trata de norma de Direito Público e, portanto, de eficácia imediata, atingindo os contratos já firmados. Haja vista que se refere a imóveis vinculados ao Sistema Financeiro da Habitação. Por conseguinte, cuida-se de decreto de índole eminentemente social. E não é pelo fato de um dos contratos ter sido assinado 15 dias antes da sua promulgação, que vou negar esse limite de taxa fixado em 2% ao ano.» Deferindo o processamento do apelo extremo, o ilustre Ministro Aldir Passarinho, então Vice-Presidente do TFR, concluiu o seu despacho, de fls. 127/131, nestes termos: «Assim, na conformidade do entendimento pelo qual se inclinou este Tribunal; o que tem sido considerado excessivo é a cobrança da «taxa de serviço» no que exceder a 2% ao ano, em face do disposto no Decreto n? 63.182, de 1968, e não poder ou não ser cobrado um total superior a 12% a.a. o que, ai sim, se situaria no âmbito da Súmula 596 do Pretório Excelso. Entretanto, é certo que em casos simples — embora e como mencionado, não tenha visto ser a questão 328 R.T.J. — 109 discutida na Corte Suprema ao enfoque do disposto no Decreto n? 63.182, de 1968 — foi ali admitida a cobrança da mencionada «taxa de serviço» em valor que se mostra superior à taxa de 2%. Além disso, no caso, um dos contratos, que se mostra superior à taxa de 2% conforme salientado no voto de Relator, foi assinado anteriormente à vigência do Decreto n? 63.182-68. Assim, dou seguimento ao recurso.» Razões da recorrente às fls. 133, onde se reporta á petição do próprio recurso extraordinário, não apresentando o recorrido suas contra-razões (fls. 133v.). E o relatório. clulndo juros e taxa de serviço» ( fls. 70/71). Em seu voto condutor do acórdão, no julgamento da apelação, o ilustre Ministro Decio Miranda, que tanto ilustrou aquele egrégio Tribunal, assim analisou a controvérsia (fls. 69/70): «Como se vê dos contratos (fls. 7/10 e 11/14), trata-se de dois mútuos, com garantia hipotecária, para financiamento de construção de prédio residencial; um de Cr$ 13.100,00 e outro Cr$ 3.000,00, a serem pagos no prazo de dez anos, em 120 prestações mensais acrescidas dos juros de 10% ao ano e sujeitas à correção monetária. Obrigaram-se ainda os devedores ao pagamento de taxa de serviços; no primeiro mútuo, 'de Cr$4.587,60, em prestações menVOTO sais, iniciais, de Cr$ 38,23; no segundo mútuo, à razão de 2% ao O Sr. Ministro Néri da Silveira ano, além da comissão de abertura (Relator): Na inicial, o autor, que de crédito, em prestações mensais celebrou contrato de mútuo com gade Cri 6,93. Sobre as taxas incide rantia hipotecária com a Caixa Ecocorreção monetária. nômica Federal, pretende a declaração de nulidade de cláusula referenEvidencia-se que a cobrança de te a «taxa de serviços», de 0,6% ao juros de 10% ao ano mais a taxa de mês, ou seja, 7,2% a.a., entendendo serviço totalizam importância suque, somada aos juros de 10% a.a., perior aos juros máximos legais de excede o limite previsto no art. 1? do 12% ao ano. Decreto n? 22.626, de 7-4-33, sendo, A sentença bem apreciou a maassim, nula (fls. 3). téria, para concluir que a taxa de Em primeiro grau, prosperou a deserviço é atentatória à Lei de Usumanda, nos termos da súplica inira (Decreto n? 22.626, de 27-4-33) e cial, apenas excluída correção moneassim nula de pleno direito. Não tária, na restituição pela CEF das vou tão longe. importâncias recebidas indevidaE de anular-se a taxa de serviço, mente (fls. 40). mas somente no que, somado aos No colando Tribunal Federal de juros, venha a exceder o máximo Recursos, proveu-se, em parte, a dos juros permitidos (12% ao ano), apelação da Caixa Econômica Fedecalculados sobre o principal, conral «para reconhecer a nulidade parsoante o art. 2? do Decreto n? cial da cláusula e conformar o 63.182, de 27-8-68, já que os contraquantum da chamada taxa de servitos destes autos se inserem no Sisço a 2% (dois por cento) ao ano sotema Financeiro da Habitação. bre o capital, de tal sorte que, somada à taxa de juros, autorize o pagaAos juros de 12% ao ano, a presmento à Caixa Econômica de um totação inicial, para pagamento de tal equivalente a 12% ao ano, InCri 13.100,00 no prazo de 10 anos R.T.J. — 109 seriam de Cr$ 187,95 e, pelo contrato, se está cobrando uma prestação inicial mensal de Cr$ 211,34. No segundo contrato, a prestação seria de Cri 43,05 e se está cobrando Cr$46,57.» O acórdão restou assim ementado (fls. 75): «Sistema Financeiro da Habitação. Empréstimo hipotecário. Caixa Econômica Federal. E nula a cobrança de taxa de serviço, no que exceder a 12% ao ano, quando somados os juros e a dita taxa (art. 2? do Decreto n? 63.182, de 278-68).» Em face do voto vencido, em parte, do Senhor Ministro Jarbas Nobre (fls. 72), que provia, também, parcialmente, o apelo da CEF, «mas tão-só para dessa taxa excluir a incidência da correção monetária,» .nterpós a Caixa Econômica Federal embargos infringentes, que foram rejeitados, estando o acórdão com a seguinte ementa (fls. 100): «Caixa Económica Federal — Taxa de serviço — Imóvel vinculado ao Sistema Financeiro da Habitação — Aplicação do limite previsto no art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. 1 — A «Taxa de Serviço» cobrada pela CEF, nos contratos de mútuo com garantia hipotecária regidos pelo Sistema Financeiro da Habitação, está sujeita ao limite de 2% ao ano, previsto no art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. II %)— O referido limite é aplicável a partir do citado Decreto n? 63.182/68, aos contratos assinados anteriormente à sua vigência. III — Embargos rejeitados.» Dessa maneira, o colendo Tribunal a quo sujeitou a «taxa de serviço», na espécie, por se tratar de mútuo com garantia hipotecária regido pelo Sistema Financeiro da Habitação, ao 329 limite de 2%, previsto no art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68, a partir da vigência deste diploma, também, quanto a contratos assinados anteriormente á sua vigência. Ora, no recurso extraordinário, a CEF teve como negada vigência à Lei n? 4.595/1964 e em dissídio o aresto com a Súmula 596, invocando o entendimento deste Tribunal, acerca da cobrança de taxas de serviço, desde o julgamento do RE n? 78.953SP, a 5-3-1975 (RTJ 72, pags. 916/920). Aponta, ainda, como divergentes, os acórdãos nos Recursos Extraordinários n?s 81.692 (DJ de 1712-1975); 87.722, de que relator o Senhor Ministro Thompsom Flores; 93 247 (DJ de 21-11-1980), relator o Senhor Ministro Xavier de Albuquerque, e 93.817, relator o Senhor Ministro Soares Muãoz. Conheço do recurso, com fundamento na alínea d, do permissivo constitucional. Com efeito, no RE n? 93.247-0-RJ, esta Turma, a 31-10-1980, relator o ilustre Ministro Xavier de Albuquerque, adotou a orientação firmada pelo STF, em Plenário, no RE 78.953SP, a 5-3-75, e reiterada em julgados posteriores. Tratava-se também, de hipótese de mútuo, com garantia hipotecária, a cerca do qual a colenda Corte a quo decidira, em acórdão assim ementado (fls. 115): «Administrativo. Habitação. Mútuo. Juros. Taxa de abertura de crédito. Limitação. Lei n? 4.380, de 1964, art. 6?. Decreto n?63.182/68, art. 2?. I — Mútuo realizado pela Caixa Econômica Federal, na qualidade de agente do Sistema Financeiro da Habitação. Limitação dos juros a 10% (dez por cento) ao ano (Lei n? 4.380/64, art. 6?). Facultada a cobrança de taxas de serviço, até o limite de 2% (dois porcento) ao ano, na forma do art. 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. Ilegalidade 330 R.T.J. — 109 da cobrança de comissões a Titulo de abertura de crédito, porque representam juros disfarçados. II — Inaplicabilidade da Súmula n? 596 do Egrégio Supremo Tribunal Federal III — Recurso desprovido.» Também, no RE ri? 93.817-6-SP, esta Turma reformou, na linha de sua jurisprudência aludida, acórdão do TFR, com a seguinte ementa (fls. 121/122): «Administrativo — Habitação — Mútuo — Juros — Taxa de Serviço — Limitação — Lei n? 4.380, de 1964, art. 6?; do Decréto n? 63./82/68, art. 2?. I — Mútuo realizado pela Caixa Econômica Federal, na qualidade de agente do Sistema Financeiro da Habitação. Limitação dos dos juros a 10% (dez por cento) ao ano (Lei n? 4.380/64, art. 6?). Facultada a cobrança de taxas de serviço até o limite de 2% (dois por cento) ao ano, na forma do artigo 2?, letra d, do Decreto n? 63.182/68. II — Inaplicabilidade da Súmula 596 do Egrégio STF. HI — Recurso provido, em parte.» Em seu voto condutor do acórdão, a 24-2-81, assim se pronunciou o eminente Ministro Soares Mufloz ( fls. 124): «Um dos acórdãos-paradigma, o concernente ao julgamento do RE n? 87.772, desta Primeira Turma, relatado pelo eminente Ministro Thompson Flores, versou hipótese idêntica ao caso decidido pelo aresto recorrido, vale dizer, redução da taxa de serviço ajustada no contrato, de modo que, somada ela aos juros, o total não exceda 12% ao ano. Entretanto, no paradigma em referência ficou assentado que, des- de o advento da Lei n? 4.595/64, que revogou o art. 1? do Decreto n? 22.626/33, no tocante às operações realizadas por instituições públicas ou privadas que integram o Sistema Financeiro Nacional (Súmula 596), os juros e outras formas de remuneração contratadas nessas operações regem-se pelas normas e limites fixados pelo Conselho Monetário Nacional. O acórdão recorrido negou vigência à Lei n? 4.595/64 e divergiu da Súmula 596 e da decisão proferida no RE n? 87.722. Ante o exposto, conheço do recurso e lhe dou provimento.» Dessarte, verifica-se que este Tribunal não tem acolhido a limitação posta nos julgados do colendo TFR, com invocação expressa ao disposto no Decreto n? 63.182/68, que estabelece normas a respeito dos planos de financiamento para a aquisição da casa própria, no Sistema Financeiro da Habitação, dando outras providências, cujo art. 2? reza: «Art. 2? As entidades a que se refere o artigo anterior não poderão operar a taxas médias efetivas superiores as aprovadas pelo BNH, permitida, além da correção monetária, apenas a cobrança de: Comissão de abertura de crédito; devida no inicio da operação; juros, até o limite de 10% ao ano; seguros, na forma regulamentada pelo BNH; taxas anuais de serviços até o limite de 2% ao ano; No despacho em que admitiu o apelo extremo, o eminente Ministro Aldir Passarinho, então VicePresidente do Tribunal a caio, anotou (fls. 128/131): «Limita-se a discussão, pois sobre a possibilidade de cobrar-se «taxa de serviço» além de 2%. R.T.J. Despachando o recurso extraordinário na AC n? 40.786-SP; sobre a mesma questão ora em exame, assim me manifestei: «A Caixa Econômica Federal, sem qualquer sombra de dúvida, faz parte do sistema financeiro nacional, por força do disposto no art. 1?, inciso V, da citada Lei n? 4.595, de 1964, verbis: «Art. 1? : O Sistema Financeiro Nacional, estruturado e regulado pela presente lei, será constituído: V — das demais instituições financeiras públicas e privadas.» Em conseqüência, a Caixa Econômica Federal está sujeita às limitações e á disciplina do Banco Central do Brasil, inclui ve quanto às taxas de juros e demais encargos autorizados. Dentro das normas do Banco Central, observada a Lei n? 4.595, licito era convencionar o mútuo como foi feito. Nesse sentido já se pronunciou a Corte Suprema, ao julgar, entre outros, os Recursos Extraordinários n?s 78.953, 87.722 e 81.692. Entretanto, tenho para mim que em relação aos contratos firma& 3 posteriormente ao Decreto n'? 63.182, de 27 de agosto de 1968, a chamada «taxa de serviço» não poderia ser cobrada além de 2% a.a. E se sobre o valor dessa taxa incidir a. correção monetária, o percentual de 2% será excedido, pois apenas cabe cobrar 2%. Tal decreto estabeleceu normas a respeito dos Planos de Financiamento para a aquisição de casa própria, no Sistema Financeiro da Habitação, e a operação foi efetuada pela Caixa, exatamente na sua condição de integrante do sistema, conforme — 109 331 se vê da escritura juntada por cópia às fls. 10 (parte final da cláusula II). O art. 2?, letra d, do decreto aludido, dispõe, in verbis. «Art. 2? As entidades a que se refere o artigo anterior não poderão operar a taxas médias efetivas superiores às aprovadas pelo BNH, permitida, além da correção monetária, apenas a cobrança de: a) d) taxas anuais de serviço até o limite de 2% ao ano.» Assim, é de ver que, segundo penso, não poderiam normas outras, de menor hierarquia — as quais seriam as porventura existentes, do Banco Central ou do BNH — estabelecer percentuais de taxas de serviço superiores àquela de 2%. Creio mesmo que é forçoso distinguir as operações realizadas pela Caixa Econômica Federal quando o faz como integrante estritamente do Sistema Financeiro da Habitação, para execução do Plano Nacional de Habitação, de outras em que funciona em limites mais amplos, até porque aquele primeiro Caso prevê o mencionado Decreto n? 63.182, de 1968, o controle pelo Banco Nacional de Habitação, a este cabendo, inclusive, a fixação das taxas médias efetivas e adoção de outras diversas medidas, todas estabelecidas pela mencionada entidade, não se podendo, inclusive, dizer que extrapassa seus limites o decreto em relação á Lei n? 4.595, de 1964, o que, aliás, jamais foi sequer alegado. E por isso mesmo é que a mim sempre pareceu que a Súmula n? 596 do Pretório Excelso não dizia respeito aos financiamentos proporcionados pela Caixa Econômica Federal como en- 332 R.T.J. — 109 tidade integrante do Sistema Nacional da Habitação e, de qualquer sorte, em relação a contra tos posteriores ao Decreto n? 63.182/68. O aspecto exato referente à limitação a 2 % da chamada «taxa de serviço», conforme fixado no art. 2?, letra d do Decreto n? 63.182, de 27 de agosto de 1968, ainda não o vi discutido no Pretório Excelso — embora tal possa ter ocorrido — tendo sempre observado fazer-se a fundamentação com respaldo na Lel n? 4.380/64, ao argumento de que o art. 1? do Decreto n? 22.626/33 estava por ela revogado. Entretanto, é certo o dissenso jurisprudencial, pois não resta dúvida que o E. Supremo Tribunal Federal tem iterado seu ponto de vista na admissão da cobrança de «taxas de serviço» em valor superior a 2%, mesmo no caso de financiamentos para aquisição de casa própria, embora, como disse, não tenha verificado fazer-se o exame também sob o enfoque do aludido Decreto n? 63.182/68. A decisão no presente recurso extraordinário por certo trará a manifestação, pelo Pretório Excelso, do aspecto precipuo que me pareceu oportuno focalizar, para que as dúvidas a respeito sejam definitivamente afastadas. E meu ponto de vista, conforme manifestado em mais de uma oportunidade, que apenas o excedente à taxa de 2% é que se torna incabível de ser exigido pela ora recorrente. Assim votei como relator, por exemplo, nas AC n?s 34.168-SP (Sessão do dia 26-3-79 — 3? Turma) e 40.442-SP (Sessão do dia 17-11-78 — 3? Turma), tendo ficado os respectivos acórdãos assim ementados: «Taxa de serviço. Caixa Econômica Federal Se a taxa de serviço cobrada pela Caixa Econômica Federal excede o limite de 2%, nas operações de financiamento para aquisição de casa agindo aquela entidade como agente do Sistema Financeiro da Habitação, deve dita taxa ser reduzida àquele percentual, na conformidade do disposto no art. 2? do Decreto n? 63.182/68. Nos contratos anteriores, os limites deveriam atender as normas do Conselho Monetário Nacional ou do BNH. Inaplicação à hipótese do entendimento consubstanciado na Súmula 596 do Pretório Excelso.» (AC 34.168). «Caixa Econômica Federal. Taxa de serviços. Financiamento pela CEF como integrante do sistema financeiro de habitação. Decreto n? 63.182/68. Tendo sido o contrato de financiamento para aquisição de casa própria firmada com a CEF, esta ai na qualidade de integrante do Sistema Financeiro da Habitação, já após a vigência do Decreto n? 63.182/68, cabível a cobrança da taxa de Serviço até o de 2% a.a. sobre o saldo devedor (art. 1?, letra d). Se, entretando, já foi excedidó tal limite, deve a Caixa restituir o que cobrou a maior.» (Ac n? 40.442). Assim, na conformidade do entendimento pelo qual se inclinou este Tribunal, o que tem sido considerado excessivo é a cobrança da «taxa de serviço» no que exceder a 2% ao ano, em face do disposto no Decreto n? 63.182, de 1968, e não poder ou não-ser cobrado um total superior a 12% a.a., o que, ai sim, se situaria no âmbito da Súmula 596 do Pretório Excelso. R.T.J. — 109 333 Entretanto, é certo que em casos n? 22.626/33. Não parece modificar símiles — embora e como mencioos termos da discussão a invocanado, não tenha visto ser a questão ção que se fez, no acórdão ora rediscutida na Corte Suprema ao encorrido, ao Decreto n? 63.182/68, foque do disposto no Decreto n? entendendo-se, outrossim, que não 63.182, de 1968, foi ali admitida a se incluem, no âmbito de compreencobrança da mencionada «taxa de são da Súmula n? 596, as transerviço» em valor que se mostra sações realizadas, pela Caixa Ecosuperior à taxa de 2%. Além disso, nômica Federal, no sistema do no caso, um dos contratos, que se Plano Nacional de Habitação.» mostra superior à taxa de 2% conEm realidade, conforme resulta forme salientado no voto do Relator, foi assinado anteriormente à dos precedentes indicados e analisavigência do Decreto n?63.182-68. dos, não vem este Tribunal estabeleAssim, dou seguimento ao recur- cendo a distinção que, no acórdão, se pretende e lhe dá ênfase o despacho so.» de admissão do apelo extremo, quanEm realidade, como antes obser- to a operações da CEF, enquanto vei, nos precedentes desta Corte, in- agente do Sistema Nacional da Habidicados como paradigmas, os ares- tação ou como uma das entidades intos do TFR eram fundamentadas no tegrantes do Sistema Financeiro NaDecreto n? 63.182, de 1968, art. 2?. In- cional. vocaram as decisões deste Tribunal, exposto, conheço do recurso entretanto, a orientação consagrada e Do lhe dou provimento, em face da no RE n? 78.953-SP (RTJ 72/916-920) orientação adotada por esta Corte, e na Súmula n? 596, verbis: no tratamento da matéria, para julgar improcedente a ação, invertidos «596. As disposições do Decreto os ónus da sucumbência. n? 22.626/33 não se aplicam às taxas de juros e aos outros encargos EXTRATO DA ATA cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privaRE 98.806 - SP —Rel.: Min. Néri da das, que integram o sistema finan- Silveira. Recte.: Caixa Econômica ceiro nacional.» Federal — CEF (Advs.: Nilo Arêa Já no RE n? 96.715-0-SP, como re- Leão e outros). Recdo.: Dirceu Monteiro de Oliveira (Advs.: Luis Vassilator, a 1-6-82, observei: mon Barbosa e outros). «Ao que se compreende dos deConheceu-se do recurso e bates efetuados, ao ensejo do jul- seDecisão: lhe deu provimento. Decisão unâgamento do RE n? 78.953-SP, foi ti- nime. da por legitima, em 1975, a cobrança de taxa de serviços , em operaPresidência do Senhor Ministro ções que tais, cuja soma com os ju- Soares Mufioz. Presentes à Sessão os ros pactuados excedeu os 12% ao Senhores Ministros Rafael Mayer, ano estabelecidos no art. 1? do De- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e creto n? 22.626/33. O acórdão então Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral recorrido reputara ilegítima na da República, Dr. Francisco de Asmedida do execesso verificado a sis Toledo. referida taxa. Brasília, 8 de março de 1983 — A controvérsia foi posta, na ini- António Carlos de Azevedo Braga, cial e contestação, à luz do Decreto Secretário. R.T.J. 334 109 RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 99.290 — MG (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Soares Muftoz. Recorrente: Estado de Minas Gerais — Recorrido: Lúcio Otávio Ribeiro Moreira. Execução trabalhista contra a Fazenda. Demora verificada no pagamento depois da expedição do precatório. Fluência de Juros moratórios. — Execução trabalhista contra a Fazenda. Imposição de juros moratórios e correção monetária ao Estado de Minas Gerais, relativamente ao período compreendido entre a expedição do precatório e o pagamento da divida. Ofensa ao art. 117 da Constituição Federal. Alegação que se rejeita porque o dispositivo invocado não trata da questão. Recurso extraordinário não conhecido. ACORDA0 Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Primeira Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas tàquigráficas, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso. Brasília, 12 de setembro de 1983 — Soares Mutioz, Presidente e Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Soares Muiloz: Estado de Minas Gerais, condenado, em execução, pelo Tribunal Regional do Trabalho da 38 Região, a pagar juros moratórios e correção monetária relativamente ao período compreendido entre o dia da expedição do precatório e do efetivo pagamento da divida, interpôs recurso de revista e, não admitida esta, manifestou agravo de instrumento, improvido; embargos infringentes, indeferidos; agravo regimental, não acolhido e, finalmente, recurso extraordinário insistindo em que a condenação complementar que lhe foi imposta ofende o art. 117 da Constituição Federal. O apelo derradeiro não foi admitido pelo eminente Presidente do Tri- bunal Superior do Trabalho, por não comportar matéria o recurso extremo ( fls. 138). Interposto agravo de instrumento, dei-lhe provimento determinando a subida da inconformidade derradeira para melhor exame. O parecer da ilustre Procuradora Dra. Anadyr de Mendonça Rodrigues, subscrito pelo eminente Subprocurador-Geral Dr. Mauro leite Soares, é no sentido de que o recurso extraordinário seja conhecido e provido para o efeito de a revista ser admitida e processada como de direito, verbis: «In casu, presentes estão os pressupostos fácticos que, em consonância com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, tornavam cabível o Recurso de Revista inadmitido. A imputada ofensa ao art. 117 da Constituição, por sua vez, constitui matéria cujo exame competia ás instâncias trabalhistas e que deixou de ser feito em função do indevido trancamento do Recurso de Revista. Sua apreciação por essa Suprema Corte, neste passo, em que pese o disposto na Súmula 456 R.T.J. — 109 e no art. 324 do Regimento Interno, importaria em supressão das instâncias ordinárias» (fls. 172). E o relatório. VOTO 335 O Estado como empregador se equipara ao empregado particular, à empresa privada e, por isso, não goza de qualquer privilégio quanto à atualização dos débitos trabalhistas» (fls. 55). Não há, nessa fundamentação, ofensa ao art. 117 da Constituição Federal, nem vulnera esse dispositivo a expedição de mais de um precatório. Não procede o argumento segundo o qual a fluência de juros e correção monetária após o precatório tomaria indefinida a expedição deles, e não procede o argumento porque um só precatório complementar é suficiente para cobrir o período compreendido entre a data da expedição do Primeiro e a do respectivo pagamento. O Código de Processo Civil regula, nos seus artigos 730 e 731, o processo da execução contra a Fazenda Pública. Nada dispõe, entretanto, no sentido de que não seja possível a fluência de juros e correção monetária após a expedição do precatório. A omissão se justifica, uma vez que o precatório não constitui forma de pagamento; é apenas requisição de pagamento. A disciplina do art. 730, elucida Celso Neves, «atende às particularidades de um processo, executório em que não pode haver a penhora de bens sobre os quais verse a atividade juros satisfaUva que lhe é própria» (in Comentários ao Código de Processo Civil, vol. VII, pág. 166). E, realmente, outras não são as particularidades que caracterizam a execução contra a Fazenda Pública. Ante o exposto, não conheço do recurso extraordinário. O Sr. Ministro Soares Mufloz (Relator ): Dispõe o art. 117 da Constituição Federal que: «Os pagamentos devidos pela Fazenda Federal, estadual ou municipal, em virtude de sentença judiciária, far-se-ão na ordem de apresentação dos precatórios e á conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos extraorçamentários abertos para esse fim». Não há nesse dispositivo nenhuma alusão a juros moratórios, nem a correção monetária, no caso de verificar-se demora no pagamento da divida, depois de expedido o precatório, nem ele impede que seja expedido precatório complementar para possibilitar o pagamento do acréscimo em referência, tal como se fez na espécie sub Judice. Não se trata, portanto, de questão constitucional que, nos termos do art. 143 da Constituição Federal, torna cabível o recurso extraordinário. Cuida-se de incidente da execução resultante da demora no pagamento da divida, após a expedição do precatório. Como assinala o acórdão do Tribunal Regional, «A lei não faz qualquer ressalva a que os juros e correção monetária, devidos por ente público, devam cessar com a expedição do precatório. A expedição do precatório não EXTRATO DA ATA faz cessar a incidência da correção monetária. E mero substituto da RE 99.290-MG — Rel.: Min. Soaexecução por mandado. res Mufloz. flecte.: Estado de Minas Gerais. ( Advs.: Francisco Deiró Cou- R.T.J. — 109 336 to Borges e outro). Recdo.: Lúcio Otávio Ribeiro Moreira. ( Advs.: Itália Maria Viglioni e outro). Decisão: O julgamento foi adiado a pedido do Ministro Alfredo Buzaid, após os votos dos Ministros Relator e Oscar Corrêa que não conheciam do recurso extraordinário. Falou pelo Recte.: Dr. Francisco Deiró Couto Borges. Presidência do Senhor Ministro Soares Mutoz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco de Assis Toledo. Brasília, 3 de maio de 1983 — António Carlos de Azevedo Braga, Secretário. VOTO (VISTA) «A lei não faz qualquer ressalva a que os Juros e correção monetária, devidos por ente público, devam cessar com a expedição do precatório. A expedição do precatório não faz cessar a incidência da correção monetária. E mero substituto da execução por mandado. O Estado como empregador se equipara ao empregador particular, á empresa privada e, por isso, não goza de qualquer privilégio quanto à atualização dos débitos trabalhistas» (fls. 55). Não há, nessa fundamentação, ofensa ao art. 117 da Constituição Federal nem vulnera esse dispositivo a expedição de mais de um precatório. Não procede o argumento segundo o qual a fluência de juros e correção monetária após o precatório tornaria indefinida a expedição deles, e não procede o argumento porque um só precatório complementar é suficiente para cobrir o período compreendido entre a data da expedição do primeiro e a do respectivo pagamento». (fls. 3/4). O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: 1. O Estado de Minas Gerais, não se conformando com a decisão do Egrégio Tribunal Regional do Trabalho da Terceira Região, que o condenou a trabalhista, o débito pagar computando-se juros e correção monetária até a data do efetivo pagamento (fls. 54), exauriu todas as instâncias da Justiça do Trabalho sem 2. Realmente a decisão recorrida sucesso e, a final, interpôs recurso extraordinário, alegando ofensa ao não malferiu o art. 117 da Constituiart. 117 da Constituição da Repúbli- ção da República. A sua razão de ser, como observou Pontes de ca. (Comentários à ConstituiO eminente Relator, Ministro Soa- Miranda ção de 1967 a Emenda n? 1 de res Mufloz, disse em seu brilhante 1969, vol. III,com pág. 646), foi «a de ter voto: concorrido para moralização da admi«Não se trata, portanto, de ques- nistração pública no Brasil E o tão constitucional que, nos termos principio constitucional contra uma do art. 143 da Constituição Fede- das formas mais correntes da advoral, torna cabível o recurso ex- cacia administrativa». Assim tamtraordinário. Cuida-se de incidente bém Manuel Gonçalves Ferreira da execução resultante da demora Filho (Comentários á Constituição no pagamento da dívida, após a ex- Brasileira, 3? ed., pág. 466): «O dispedição do precatório. Como assi- positivo em exame consubstancia nala o acórdão do Tribunal Regio- norma de alta moralidade, pois impede favorecimentos». nal, R.T.J. — 109 O Código de Processo Civil contém norma, na parte em que cuida da execução contra a Fazenda Pública, assegurando-lhe a possibilidade de embargos (art. opor 730), equiparando-a a qualquer devedor. O Código de Processo Civil de 1939 era omisso a respeito (Celso Neves, Comentários, 2t ed., vol. VII, pág. 195). O Código vigente supriu a lacuna. Ora, o art. 117 da Constituição e o art. 730 do Código de Processo Civil trataram exclusivamente de processo de execução contra a Fazenda, cujos bens não estão sujeitos à penhora. O art. 731 insere norma, pela qual o Presidente do Tribunal, se o credor for preterido no seu direito de preferência, pode ordenar, após audiência do Ministério Público, o seqüestro da quantia necessária para satisfazer o débito. 337 decisão recorrida. Acompanhando o voto do eminente Ministro Soares Muftoz, não conheço do recurso. E o meu voto. VOTO PRELIMINAR O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr. Presidente. Reservando-me examinar, em outra oportunidade, a matéria concernente à correção monetária dos débitos da Fazenda Pública, quando o pagamento se sujeita ao art. 117 da Constituição, durante o período em que se atende ao disposto nessa norma maior, em face da extensão a dar-se a esse artigo, acompanho, no caso concreto, o eminente Relator, tendo em conta as peculiaridades da espécie, enunciadas no voto de S. Exa., e, agora, no pronunciamento do ilustre Ministro Alfredo Buzaid. 3. Se o primeiro precatório for insuficiente para pagar o principal, juEXTRATO DA ATA ros, correção monetária e honorários, outro seria expedido, tantos quantos forem necessários para a liRE 99.290-MG — Rel.: Min. Soaquidação da dívida. O instrumento, res Mufloz. Recte.: Estado de Minas que a Constituição criou no art. 117, Gerais. (Advs.: Francisco Deiró Couvisou à moralidade administrativa e to Borges e outro). Recdo.: Lúcio jamais a causar dano ao credor pela Otávio Ribeiro Moreira. (Advs.: Itádemora no pagamento imputável lia Maria Viglioni e outro). fazenda, demora com que se locupleta a devedora, sobretudo em uma Decisão: Não se conheceu do reépoca de inflação vertiginosa. curso extraordinário. Decisão unânime. Quanto aos débitos de natureza trabalhista, rege o art. 1? do Presidência do Senhor Ministro Decreto-lei n? 75, de 21 de novembro Soares Mufloz. Presentes à Sessão os de 1966, que manda computar, decor- Senhores Ministros Rafael Mayer, rido o prazo legal, correção monetá- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e ria, a qual só cessará quando satis- Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral feito o direito do trabalhador pelo da República, Dr. Francisco de Aspagamento integral do crédito reco- sis Toledo. nhecido judicialmente. Brasília, 12 de setembro de 1983 — Em suma, a norma do art. 117 da Antônio Carlos de Azevedo Braga, Constituição não foi contrariado pela Secretário. R.T.J. — 109 338 RECURSO EXTRAORDINÁRIO CRIMINAL N? 99.344 — RS (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Oscar Corrêa. Recorrente: Danilo de Couto Camino — Recorrido: Ministério Público Estadual. Júri. Homicídio. Decisão absolutória, pela excludente da legítima defesa própria, anulada em grau de apelação. Artigo 593, III, d, do CPP. Valoração da prova. Concluir se a decisão é ou não manffesmente contrária à prova dos autos, importa valoração, e não reexame de provas. Precedentes da Corte. In casu — existência de duas versões, autorizando ao Júri opção válida por uma — a absolutória. Recurso Extraordinário conhecido e provido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata do Julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e lhe dar provimento. Brasília, 13 de maio de 1983 — Soares Muftoz, Presidente — Oscar Corrêa, Relator. RELATORIO O Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. Adoto, para conhecimento dos fatos, o Relatório do Exmo. Desembargador Relator no Colando Tribunal de Justiça (fls. 459/460): «Danilo Couto Camino foi denunciado na comarca de Passo Fundo, como incurso nas sanções do art. 121, caput do CP, porque no dia 9/3/77, pelas 11,30hs, nas proximidades da Vila Ernestina, município de Passo Fundo, rodovia RST-153, entre os kms 33 e 34, usando de um revólver, calibre 38, efetuou disparos contra a vitima Ingo Enir Grahel, vindo ocasionar-lhe a morte. O réu foi interrogado (fl. 45), apresentando após, através de defensores constituídos, defesa prévia e rol de testemunhas (fl. 47). Foram inquiridas, durante a instrução do processo, duas testemunhas de denúncia ( fl. 93 e v) e duas de defesa (fls. 94/95) e por precatória foram ouvidas seis testemunhas de defesa (fls. 75/76, 129 e v., 131 e 137 e quatro de denúncia (fls. 108/109, 130/130v e 156/157). No prazo do art. 406 do CPP, o MP pediu a pronúncia do réu (fls. 16 e v.), enquanto que a defesa deixou transcorrer in albis o prazo legal (fls. 162). A seguir, proferiu decisão o magistrado Julgando procedente a denúncia para pronunciar Danilo Couto Camino como incurso nas sanções do art. 121, caput do CP (fls. 163/166). O representante do MP, à fl. 177, ofereceu libelo acusatório, pedindo a condenação do réu nos termos do art. 121 do CP. A defesa apresentou contrariedade requerendo diligências ( fls. 179/180). Submetido a Julgamento perante o Tribunal do Júri, por 5 votos con- R.T.J. — 109 tra 2, admitindo a tese da legitima defesa própria, declararam Danilo Couto Camino absolvido das sanções do art. 121, caput do CP (fl. 327). Irresignado, apelou o MP com base no art. 593, III, letras a e d do CPP, requerendo a nulidade do processo a partir do recebimento da denúncia inclusive, ou a nulidade do julgamento por ter integrado o conselho de sentença o Jurado Danilo Zimmermann e ainda a sujeição do reú a novo julgamento, eis que a decisão dos jurados foi manifestamente contrária á prova dos autos (fls. 344/357). Em contra-razões, a defesa manifestou-se pela confirmação da sentença absolutória (fls. 380/409). Nesta instância, emitiu parecer o Dr. Procurador da Justiça, opinando pelo improvimento do apelo do MP (fls. 453/457)». O Colendo Tribunal de Justiça deu provimento ao apelo, nos seguintes termos (fl. 462): «Júri. Homicídio. Argüição de nulidade decorrente de Impedimento do juiz. Rejeição. Ainda que impedido de funcionar no processo, á vista de parentesco com um dos defensores do réu, não é de se decretar a nulidade se a atuação do juiz cingiu-se a atos de mero expediente. Decisão manifestamente contrária à prova dos autos. Assim se entende a decisão absolutória, pela excludente da legitima defesa própria, quando a prova fotográfica, aliada ao depoimento da única testemunha que presenciou todos os lances da refrega, deixa ao inteiro desamparo tal alegação invocada pelo réu. Apelo provido, à unanimidade, para mandar o réu a novo julgamento». Inconformada, a defesa do réu interpôs recurso extraordinário (fls. 473/496), pelas letras a e d, alegando 339 vulnerados os dispositivos do art. 593, III, letra d e § 3? do CPP e § 18 da Constituição Federal além de divergência com inúmeros arestos, que indicou. O recurso foi indeferido pelo r. despacho de fls. 503/506, fundandose, quanto ao § 18 da Constituição Federal na Súmula n? 282 e, quanto ao mais com base em parecer do Dr. Procurador-Geral da Justiça, na Súmula n? 279. Oposto agravo de instrumento a esse despacho, dei-lhe provimento, para que, subindo os autos, se fizesse deles melhor exame, com as razões do recorrente (fls., 527/538) e o parecer do Dr. Procurador-Geral da Justiça (fls. 540/544). 6. A douta Procuradoria-Geral da República, em parecer do Ilustre Procurador Cláudio Lemos Fonteles, aprovado pelo Eminente Professor Subprocurador-Geral, Francisco de Assis Toledo, opinou pelo não conhecimento do recurso (fls. 549/551). E o relatório. VOTO O Sr. Ministro Oscar Corrêa: (Relator ): 1. Dois são os fundamentos do recurso: pela letra a: I -- a vulneração do artigo 153, § 18, Ida Constituição Federal; e, II — a violação do artigo 593, III, d e § 3? do CPP. Quanto á ofensa constitucional alega o Recorrente que se o «§ 18 do artigo 153» reserva para o Tribunal do Júri competência exclusiva para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida», a «Colenda Câmara Criminal, cassando o veredicto do Júri, que não é manifestamente contrário à prova dos autos, acabou violando o próprio preceito constitucional» (fl. 495). 2. Na realidade, a Constituição de 1967 (artigo 150, § DD na linha da de 340 R.T.J. — 109 1946 (artigo 141, § 28) expressamente referia sua soberania. O texto de 1969, ainda que o não tenha explicitamente afirmado, mantendo-lhe a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, repetiu-o; principalmente se se levar em conta — e aqui o segundo fundamento do recurso, que o artigo 593, III, fixou os casos em que cabe apelação das decisões do Tribunal do Júri: «a) ocorrer nulidade posterior à denúncia. for a sentença do Juiz Presidente contrária à lei expressa ou a decisão dos jurados; houve erro ou injustiça no tocante à aplicação da pena ou da medida de segurança; d) for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos». As alíneas b e d, sobretudo, parece-nos, pretendem assegurar, salvo irremediável erro, a decisão dos jurados. Na mesma linha, o § 3? do artigo, ao exigir para a reforma do veredito pelo Tribunal ad quem decisão manifestamente contrária à prova dos autos; e, mais ainda, ao vedar, por esse mesmo motivo, segunda apelação. Vale dizer; nem a manifesta contrariedade à prova dos autos — assim parecendo à acusação — pode levar à segunda apelação. 3. Por isso mesmo, referindo-se ao alcance da proclamada soberania do Júri, diz o Eminente Professor José Frederico Marques, em face do Juiz togado e dos Juizes superiores: (Elementos do Direito Processual Penal, III, Forense, pág. 235): «O problema se situa, apenas, no campo da competência funcional. Sobre a existência do crime e responsabilidade do réu, só o Júri pode pronunciar-se, o que faz através de veredictos soberanos. Sobre a aplicação da pena, decide, não soberanamente, o Juiz que preside ao Júri. Aos tribunais superiores, o objeto do juízo, na sua competência funcional, se restringe à apreciação sobre a regularidade do veredicto, sem o substituir, mas pronunciando ou não pronunciando o sententia rescindenda sit. No tocante à decisão do Juiz togado, a competência funcional será de grau, podendo assim a jurisdição superior retificá-la (artigo 593, §. 1?). O Tribunal, portanto, não decide sobre a pretensão punitiva, mas apenas sobre a regularidade do veredicto» (pág. 235). 4. O exame, pois, da questão cinge-se ao alcance da decisão do Colendo Tribunal de Justiça: se se pronunciou dentro dos limites da lei processual penal, ou se os excedeu, com o que lhe teria negado vigência, como sustenta a defesa. Para manter-se dentro desses limites só pode cassar a decisão dos jurados quanto à existência do crime e a responsabilidade do réu — para repetir José Frederico Marques — se manifestamente contrária à prova dos autos. E, para defini-lo vale invocar o ensinamento de Ary Azevedo Franco, Professor e Juiz da Corte, no seu estudo sobre O Júri e a Constituição Federal de 1946. «Manifesto, segundo Cândido de Figueiredo é sinônimo de patente, público, evidente. E Domingos Vieira afirma «o que é manifesto é evidente para todos» (Dic. vol. IV, pág. 103). «Que se poderá entender por manifesto, por evidente, senão aquilo que se impõe à percepção de todos, que todos vêm necessariamente, e sobre o que não é admissivel, em sã consciência, a possibilidade de afirmações dispares? Onde exista, porém, matéria sujeita ao critério da observação pessoal do julgador, dependente, para R.T.J. — 109 firmar-se, não da força dominadora da realidade indubitável, mas da apreciação subjetiva de cada um — não se pode cogitar de evidência. Assim, sempre que o fato se apresente Suscetível de ser divisado à luz de critérios divergentes, capazes de lhe emprestarem diversa fisionomia moral ou jurídica, qualquer que seja a orientação vencedora, refletida na decisão do Tribunal, não poderá ser havida como manifestamente contrária à prova». Esse entendimento é geralmente acatado. Mas, quando se cuida de aplicá-lo às hipóteses, influem os julgamentos subjetivos que marcam o juizo humano e a que não são alheios, obviamente, nem os membros do Júri, nem os dos Tribunais que lhes apreciam os vereditos. 5. Ora, funda-se a impugnação, pelo Recorrente, da conclusão do v. acórdão, em que, a prova dos autos não é contrária manifestamente à decisão dos jurados. Dir-se-la que, como tal, não se comportaria o reexame nesta instância extraordinária, e isto se diz no r. despacho indeferitório do recurso. Não nos parece' o fato de a lei exigir manifesta contrariedade à prova dos autos indica, sem sombra de dúvida, que o Juiz deve ponderar, com segurança,elementos probatórios; e autoriza que, em face de recurso, possa o Tribunal, se a evidência não se ilumina e patenteia nos dados, desde logo, apresentados, verificar, reexaminar se essa contrariedade é manifesta, evidente, clara, notória, flagrante. Esta é, precisamente, hipótese na cipal pode apresentar-se ao Juiz a necessidade da valoração da prova; por que não se trata de saber se há prova nos autos — o que escaparia da competência da instância ex- 391 traordinária, mas de se concluir se essa prova é manifesta, o que importa em juizo de valor inegável, que não escapa aos critérios do Tribunal. 6. Por isso mesmo, inúmeras as oportunidades nas quais a Corte o tem reexaminado, para impor veredicto conclusivo. Cito, apenas, o RE n? 78.312-PR, em que a matéria vem explicitamente tratada, com invocação da orientação e dos precedentes da Corte, no Relatório e no voto do Exmo. Ministro Oswaldo Trigueiro (RTJ 71/247). Proficientemente se examina o alcance da apelação, na doutrina e na jurisprudência. Lembro, apenas, trechos mais expressivos: aquele em que na Carta Testemunhável n? 11.744 se decidiu de acordo com o voto do Eminente Mestre Ministro Orosimbo Nonato: (fl. 250). «Convenho em que o poder do Tribunal togado de reformar a decisão do Júri tem marcas e raias cujo alargamento pode convir à política criminal mas ainda se acha desautorizada em lei. Não é qualquer desencontro na apreciação de provas que o justifica. Faz-se mister haja o Tribunal do Júri proferido decisão que não encontre qualquer apoio na prova.» Ou. o ensinamento de Eduardo Espínola Filho (pág. 250/251): «Quanto ao Júri, não: é-lhe assegurado o privilégio de escolher, na prova feita, aquilo a que dispensar consideração, desprezando o mais, tão-somente quando o veredicto do tribunal leigo é arbitrário, porque se dissocia integralmente da prova dos autos, isto é, não há qualquer elemento de prova, que ampare, que apóie a solução adotada, surge a possibilidade de, repelindo o arbítrio, entrar o tribunal de recurso no mérito para, reformando a sentença , condenar o injustamente 342 absolvido ou absolver o i njustamente condenado» (Código de Processo Penal, vol. V).» E, após citação de Bento de Faria, a convocação da Jurisprudência da Corte, e, sobretudo, ao acentuar: (pág. 251) Em casos dessa natureza, não se trata apenas do reexame da matéria de fato, vedado à instância extraordinária. A esse propósito, o voto do Sr. Ministro Luiz Gallotti, no RE n? 37.300 (RF, CLXXIX/336) esclarece: «Se se tratasse do julgamento de uma apelação comum, em que o conhecimento da causa se devolve inteiro ao Tribunal Superior, não seria possível conhecer do presente recurso, para decidir se o acórdão recorrido julgara bem ou mal, concluindo por considerar não provada a legítima defesa. Trata-se, porém de apelação de sentença do Júri, cabível com o fundamento de que absolvição seria manifestamente contrária à prova dos autos. Não se trata, pois, de mera questão de fato ou de prova, como à primeira vista poderia parecer, mas de questão de direito, qual seja, a relativa ao cabimento ou não da apelação.» Na hipótese dos autos, com efeito, não se cuida da reapreciar a prova, a fim de que o Supremo Tribunal diga se o crime foi ou não, agravado pela qualificativa do motivo fútil. Diversamente, trata-se de verificar se, diante dos fatos e suas circunstâncias, era permitido ao Júri concluir pela existência daq uela qualificativa». 7. A essa questão de valoração da prova, explicitamente se refere a petição de extraordinário, invocandoa em decisões da Corte ( fl. 491) e as razões o renovam ( fl. 530). — 109 E poder-se-ia lembrar ainda, especificamente sobre o tema, o RE n? 71.879-BA — Relator o Exmo. Ministro Amaral Santos (RTJ 63/151), em trecho da Ementa: (pág. 150) «No caso, dada a existência de duas versões decorrentes da prova produzida, a proferida pelo Tribunal do Júri, acolhendo uma das versões, não podia ser qualificada de manifestamente contrária à prova dos autos» (pág. 150). E, recentissimamente no HC n? 59.287, Relator o Eminente Ministro Néri da Silveira (RTJ 100/611), em habeas corpus, decidiu unânime a Colenda Turma, deferindo o pedido: «HC Júri. Absolvição. Código de Processo Penal, artigo 593, III, letra d. Não cabe anular a decisão dos jurados, embora tomada por maioria de votos, se esta não for manifestamente contrária à prova dos autos. Por mera conveniência de nova manifestação de outros jurados, da mesma sociedade, diante da dúvida que exista quanto à inocência do réu, não se anula decisão absolutória. HC concedido, para que o paciente não seja submetido a novo Julgamento pelo Júri.» E o Eminente Relator invoca os mesmos ensinamentos que aqui se lembraram, de Orosimbo Nonato, Espínola Filho e Bento de Faria (pág. 615). Isto, saliente-se, em habeas corpus informando que o réu fora absolvido por quatro a três. 8. Impõe-se, pois, breve exame da espécie. O v. acórdão de fls. 462/471, como se viu da Ementa e se lê em seu texto, considerou-a manifestamente contrária à prova dos autos, sintetizando-o naquela Ementa: «Assim se entende a decisão absolutória, pela excludente da legítima defesa própria, quando a prova fotográfica, aliada ao depoimento R.T.J. — 109 da única testemunha que presenciou todos os lances da refrega, deixa ao inteiro desamparo tal alegação invocada pelo réu». Não ignorou o v. acórdão os limites da sua competência de rever a matéria e reconheceu que «havendo duas versões na prova, licito é aos jurados escolher uma delas, ainda que mais frágil e menos convincente». Considerou, entretanto: «Mas, no caso dos autos, não há propriamente ( grifo nosso) duas versões, mas sim a versão acusatória, apoiada na testemunha Ivan Eleutério Kaiser e em outros elementos circunstanciais, de um lado, e o relato do acusado, sem apoio em qualquer subsidio probatório minimamente idôneo, quanto ao momento culminante do fato, de outro lado». (fl. 467). 9. Ora, funda-se o v. acórdão na versão do companheiro da vítima e «elementos circunstanciais» e recusa, a outra versão, que é, propriamente, outra versão, do acusado e de sua mulher, apoiada também em outros elementos. Se o da mulher não apóia o do marido, pelo mesmo motivo, o do companheiro da vitima não há de ser, pelo menos, intocável, que considere incontrastável sua versão pela outra. Tanto mais quanto é o próprio acórdão que invalida outras provas, como a perícia produzida apenas mais de três anos depois. E inúmeras circunstâncias restam inexplicadas, aceita a versão do companheiro da vitima, que tanto impressionou o Colendo Tribunal ao acolhê-la. De qualquer sorte, não há falar em versão única, nem em decisão do Júri manifestamente contrária à prova dos autos. E isto vem muito bem es- 343 clarecido na petição de recurso e nas bem elaboradas razões que o sustentaram. 10. Repetem as razões, trecho do decreto de pronúncia do MM. Juiz (fl. 165): «Do exame dos pontos fundamentais da prova emergem duas versões antinômicas. Segundo a narrativa do réu e sua mulher teria havido luta e o disparo foi acidental, mas pelo que conta o acompanhante da vitima o acusado disparou intencionalmente sem qualquer discussão ou esforço físico. No momento processual presente evidencia-se a impossibilidade de aceitação pura da primeira variante, uma vez que a mesma é contraditada por uma segunda, e nessas condições, quando ao julgador singular se apresenta mais de uma alternativa decisória, cumpre remeter a apreciação do mérito da causa aos juizes de fato, que são, por mandamento constitucional, os competentes para os julgamentos dos crimes dolosos contra a vida. Em homenagem ao principio In dublo pro societate impende ao denunciado, através de seus defensores, a sustentação de suas teses perante o Conselho de Sentença que, como foi dito, detém a competência para a apreciação da espécie». O parecer do Dr. Procurador da Justiça (fls. 453/457) acolhe essa conclusão ao repetir: «Por fim, como já assinalou o Juiz da Pronúncia. «Do exame dos pontos fundamentais da prova emergem duas versões antinõmicas». e, ainda que considerada a versão da acusação «mais robusta, harmônica e convincente», não se escusa, de dizer: «E certo, também, que a versão do réu é pouco verossímil, máxime quanto ao desfecho dos fatos (cena do tiro). 344 R.T.J. — 109 «No entanto, é certo, outrossim, que ela encontra elementos de apoio no conjunto probatório, donde, a teor da jurisprudência, não ser possível a cassação do veredicto dos jurados, eis que não manifestamente contrário à prova dos autos». Pelo que concluiu pelo não provimento da apelação (fl. 457). 11. A existência de duas versões figura na própria denúncia do Dr. Promotor (fl. 3), bem como ao recusar a versão do acusado (fl. 161 e v). Versão esta, da defesa, acolhida por 5 a 2 pelo Conselho de Sentença. E, a seguir, enuncia os seus argumentos em favor da tese que sustenta e em que se entrincheira e que nos escusamos de analisar, mas, em verdade, arrimados em outros elementos dos autos, que a fortalecem. Isto mesmo, detidamente, se estuda, com segurança, nas razões de fls. 527/538, inclusive com a invocação de arestos que lhe esteiam a irresignação. Do exame desses elementos, aqui explicitados e de outros (de fato, constantes dos autos) — que nos parece despiciendo referir, convencime da existência das duas versões; e da validade da opção, que a Constituição e a lei permitem ao Tribunal do Júri, incontestavelmente admitida, entre versões existentes, inclusive, como na doutrina e na jurisprudência, a que não pareça, depois, ao julgador, a melhor. Optou o Júri pela absolvição. Sua decisão não é manifestamente contra a prova dos autos, acolhendo versão que surge desde a própria denúncia de fls. 2/4. Não cabe indagar os motivos que o levaram a preferi-la, quaisquer que sejam, e que a lei não perquire, nem pondera, preferindo valorizá-los, aceitando-os. É o que faço. Conheço do recurso e dou-lhe provimento, para, cassando o v. acórdão, restabelecer a decisão do Tribunal do Júri. E o voto. VOTO O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr. Presidente. Estou de inteiro acordo com o brilhante voto do eminente Relator, que, inclusive, me honrou com a referência feita a voto, que proferi, no HC 59.287-MG, definindo meu entendimento a propósito da matéria. Na espécie, como bem sinalou o ilustre Relator, do acórdão, onde examinado o conjunto probatório, resulta explicita a existência de duas versões do fato, examinadas pela Corte a quo: uma, a versão da acusação, que encontra apoio em um elemento testemunhal, o companheiro de viagem da vitima, o auxiliar do caminhoneiro; a outra, a do acusado, que logra amparo no depoimento de sua esposa. As versões invocam, em seu prol, elementos de índole circunstancial e indícios, que o Tribunal do Júri, à evidência, considerou, preferindo, por fim, a versão da defesa. Ao fazê-lo, o Júri não decidiu, em manifesta contrariedade à prova dos autos. O eminente Ministro Eloy da Rocha, em voto lapidar que proferiu, nesta Corte, no HC n? 44.252-RS, a 25-8-67, teve ensejo de, a tal propósito, anotar: «O acórdão atacado pelo habeas corpus declara, de começo, que houve, na espécie, duas versões. A declaração pode, à primeira vista, causar estranheza, mas é sabido que, via de regra, em qualquer processo-crime, há duas versões: a do réu e a da acusação. Só por isso não se pode reconhecer que o acórdão tenha julgado contra o texto da lei e, portanto, seja nulo. Por outro R.T.J. — 109 345 lado, o que compete ao Tribunal de optara por uma delas. De sorte que Justiça é somente conferir a deci- não cabia ao Tribunal de Justiça susão do Júri com a prova dos autos. bestimar esse veredito. Dentro da soberania do Júri, no Conheço do recurso e lhe dou prosistema constitucional brasileiro e segundo o texto do Código de Pro- vimento. cesso Penal, a decisão dos JuraEXTRATO DA ATA dos, para ser cassada, deve ser manifestamente contrária à prova. RECr. 99.344-RS — Rel.: Min. OsOra, pela leitura do acórdão, por seus fundamentos, não se conclui car Corrêa. Recte.: Danilo do Couto que esse tenha sido o caso. A deci- Camino. (Advs.: Otávio Francisco são dos Jurados pode ter-se apoia- Caruso da Rocha, Maria Ester Metia do em prova suspeita, ou fraca, Barreto Camino e outros). Recdo.: sem, no entanto, contrariar, mani- Ministério Público Estadual. festamente, a prova dos autos». Decisão: Conheceu-se do recurso extraordinário e se lhe deu proviTais fundamentos, penso, na espé- mento, nos termos do voto do Miniscie, por inteiro, são invocáveis. tro Relator. Decisão unânime. Falaram pelo Recte.: Dr. Otávio FrancisCom essas breves considerações, co Caruso da Rocha e Maria Ester acompanho o voto do eminente Rela- Mena Barreto Camino e pelo Recdo.: tor. Conheço do recurso e lhe d iu Dr. Francisco de Assis Toledo, provimento. Subprocurador-Geral da República. Presidência do Senhor Ministro VOTO Soares Mutioz. Presentes à Sessão os Senhores Ministros Rafael Mayer, da Silveira, Alfredo Buzaid e O Sr. Ministro Soares Muãoz (Pre- Néri Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral sidente): Também estou de acordo da República, Dr. Francisco de Ascom o eminente Relator. sis Toledo. Desde que li o memorial da defeBrasília, 13 de maio de 1983 sa, convenci-me de que nos autos António Carlos de Azevedo Braga, havia duas versões e que o Júri Secretário. RECURSO EXTRAORDINARIO N? 99.467 — SP (Primeira Turma) Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira. Recorrente: Ministério Público Estadual — Recorrido: Carlos Alberto Ramos. Crime continuado. Firmou o Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária de 21-5-1980, no RECr n? 91.317 (RTJ 98/357), que não se configura crime continuado, quando há roubo e furto, porque esses delitos, embora da mesma natureza, não são, entretanto, da mesma espécie, com se exige no artigo 51, 9 2?, do Código Penal. Recurso extraordinário conhecido e provido. R.T.J. — 109 340 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, na conformidade da ata de julgamento e notas taquigráficas, conhecer do recurso extraordinário e lhe dar provimento, vencido o Ministro Soares Mufioz. Brasília, 22 de abril de 1983 — Soares Muãoz, Presidente — Néri da Silveira, Relator. RELATÓRIO O Sr. Ministro Néri da Silveira (Relator): O Ministério Público estadual, em São Paulo, recorre, extraordinariamente, do acórdão do colendo Tercerio Grupo de Câmaras do Tribunal de Alçada Criminal do mesmo Estado, que deferiu, em parte, pedido de revisão criminal formulado por Carlos Alberto Ramos ou José Carlos dos Santos ou Mario Sérgio Ramos, in verbis (fls. 27/40): «Acordam, em Terceiro Grupo de Câmaras do Tribunal de Alçada Criminal, por votação unânime, deferir, em parte, a pretensão revisionai para unificar as penas impostas nos Processos n?s 256/74, 311/74 e 374/74, das Décima, Oitava e Décima Varas Criminais de São Paulo, de forma a totalizar a pena unificada de seis anos, onze meses e seis dias de reclusão, mantidas as medidas de segurança. 1. Carlos Alberto Ramos ou José Carlos dos Santos ou Mário Sérgio Ramos requereu (fls. 2/3 do oitavo apenso), ao Dr. Juiz de Direito da Vara das Execuções Criminais, a unificação das penas impostas nos Processos n?s 1.390/72 (10? Vara Criminal), 311/74 (8? Vara Criminal), 374/74 (10? Vara Criminal) e 195/74 (6? Vara Criminal) e o pedido unificatório foi indeferido (fls. 32 do oitavo apenso). Inconformado, recorreu em sentido estrito e a Quinta Câmara do Tribunal de Alçada Criminal, sendo Relator o Juiz Octávio E. Roggiero, negou provimento, por votação unânime, ao recurso (fls. 49/51 do oitavo apenso). Em novo requerimento, Carlos Alberto Ramos ou José Carlos dos Santos ou Mário Sérgio Ramos requereu a unificação, em duas penas impostas em seis processos, dois por furto qualificado e quatro outros, por roubo. Conforme sua solicitação, os dois furtos (Processos n?s 216/74 e 256/74, das 3? e 10? Varas Criminais) deveriam formar a primeira série e os quatro roubos (Processos n?s 389/73, 311/74, 374/74 e 195/74, das 11?, 8?, 10? e 6? Varas Criminais) deveriam formar o segundo grupo (fls. 2/3 do nono apenso). Através da decisãode fls. 49/50, o pedido referente à unificação de penas impostas nos Processos n?s 311/74, 374/74 e 195/74, foi havido por prejudicado, uma vez que a matéria já se achava preclusa em face do julgamento anterior. Deferiu-se, no entanto, a unificação das penas relativas aos Processos n?s 216/74 e 382/74, excluindo-se da unificação o Processo n? 256/74, em face da ausência do fator temporal (fls. 49/50). A unificação de penas foi feita entre um delito de roubo e um delito de furto e a matéria transitou em julgado para o Ministério Público. Pretende, agora, por via revisional, que os Processos n?s 256/74, 311/74, 374/74 e 195/74 sejam incluídos na série unificada por considerar que os delitos foram praticados em curto lapso de tempo, ou seja, em onze meses. . O parecer do Dr. Procurador da Justiça foi, preliminarmente, pelo não conhecimento da revisão por se tratar de reiteração de pedido R.T.J. — 109 anterior e, no caso de conhecimento, pelo indeferimento da pretensão revisional (fls. 22/23). Conhece-se da revisão. Não se cuida, no caso em tela, de reiteração de pedido revisional. O peticionário viu insatisfeita sua pretensão inicial de unificação de penas impostas em quatro processos e tal decisão foi mantida em Segunda Instância. Quando objetivou nova unificação, já agora, em duas séries, acrescendo duas outras condenações, teve atendido, em parte, seu pedido, com a exclusão, no entanto, de três das condenações já requeridas no anterior pedido unificatório, por estar a matéria preclusa. Tendo havido, contudo, unificação de duas penas — uma, por furto e outra, por roubo — intentl agora, por via revisional, a unificação de todas as penas numa única série, envolvendo mais um furto e três outros roubos. Trata-se, portanto, de matéria nova, que ainda não foi versada, em sede revisional. Não é admissivel o deferimento integral da revisão para efeito de unificação, numa única série, das penas impostas em seis processos movidos contra o peticionário. Entre o último fato da série já unificada e o primeiro delito, que lhe é subseqüente, houve um espaço temporal de quatro meses, aproximadamente, o que obsta o reconhecimento de uma continuidade delitiva. No entanto, entre os fatos criminosos praticados nos dias 11 de agosto de 1973 (Processo n? 256/74, da 10! Vara Criminal), 29 de agosto de 1973 (Processo n? 311/74, ch13! Vara Criminal) e 27 de setembro de 1973 (Processo n? 374/74, da 10? Vara Criminal), é, sem dúvida, 347 possível vislumbrar os requisitos exigidos pelo § 2? do artigo 51 do Código Penal, mesmo sendo o primeiro, furto e os dois outros, roubos. Já; no que se refere ao Processo n? 195/74, da 6? Vara Criminal, sobre fato criminoso praticado em 15 de março de 1974 e, portanto, quase seis meses após o fato que ensejou o Processo n? n? 374/74, da 10? Vara Criminal. o vínculo requerido pelo crime continuado, entre os vários fatos que o compõem, desapareceu pela carência da necessária conexão temporal. 4. A jurisprudência maciça, pacifica, tranqüila é dotada de terrível força inibidora, que conduz à inércia e à acomodação. Porque os julgados se reiteram numa mesma direção, é mais fácil segui-los do que questionar a argumentação, que lhes serviu de base. Não poucas vezes o julgador se deixa enredar nas teias dessa influência paralisante e contribui, pessoalmente, para o reforço da diretriz jurisprudencial (RT 496/326). Tem-se negado — e de forma persistente — a possibilidade da continuidade delitiva entre furto e roubo (julgados do Tribunal de Alçada Criminal, vols. 67/227, 65/256 463, 44, 53/269 51/56, 370 e 399, 50/155, 49/143, 47/348, 46/138 e 140, 43/41 e 151, 42/45 e 98, 41/51, e 151, 42/45 e 98, 41/51, 133 e 291, 40/33 e 39, 39/40, 37/135; Revista dos Tribunais, vols. 551/411, 541/398, 533/365, 517/359, 496/326; Jurisprudência Penal e Processual Penal, do Desembargador Azevedo Franceschini, vol. 3?, 1980, n?s 2.712-C, 2.721, 2.725, 2.750, 2.751, 2.758-A, 2.800, 2.813, 2.851) e tal matéria não oferecia, à primeira vista, margem a qualquer abordagem contestatória. Os votos dos Juízes Melo Freire e Adauto Suannes, na Revisão Crimi- 348 R.T.J. — 109 nal n? 107.766, puseram em xeque a validade do entendimento jurisprudencial, que acarreta a análise, sob novo enfoque da questão, já que todo e qualquer julgador deve ter, por regra inafastável, a de que não está comprometido com nenhuma posição anteriormente assumida. E sabido que, dentre os requisitos essenciais para o reconhecimento da continuidade delitiva, está compreendido o de que os crimes havidos em regime de crime (mico devem pertencer, nos explícitos termos do § 2? do artigo 51 do Código Penal, à mesma espécie. E, consoante a orientação jurisprudencial já enunciada, furto e roubo não participam do conceito de crimes da mesma espécie. Mas, o que se deve, em verdade, entender por mesma espécie? Os dois vocábulos necessitam ser submetidos isoladamente ao crivo critico. E, feita tal separação, já se pode. desde logo, concluir que as figuras criminosas do furto e do roubo não se apartam, antes se compõem, por força da expressão espécie. Furto e roubo são espécies de um gênero, posto que é comum o bem jurídico, por eles tutelado, bem jurídico esse, que abarca um conjunto de espécies diferenciadas, que nele se identificam. Gentis continet differentiam potentia, non actu (Aluisius Peixoto Fortuna, «Lógica», pág. 237, Ed, Nova Friburgo, 1947). O gênero contém potencialmente as diferenças. As espécies expressam-no na realidade. Furto, roubo, apropriação indébita, estelionato, extorsão, dano, etc., são todos espécies diversificadas que se congregam na proteção do gênero «patrimônio». E, como espécies, destacam o gênero que está presente em cada uma delas. As diferenças entre as espécies guardam, no entanto, gradações, umas maiores, outras menores. E, portanto, sob o ângulo dessas gradações, que umas espécies se aproximam e outras se distanciam. A expressão mesma não significa apenas e exclusivamente identidade. A continuidade delitiva não ocorre somente na hipótese de crimes idênticos, isto é, de crimes que caracterizam um