1 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES Vitor Rodrigues da Silva Estresse e trabalho: O nó górdio das organizações contemporâneas. Niterói, 2010. 2 Vitor Rodrigues da Silva Estresse e Trabalho: O nó górdio das organizações contemporâneas. Trabalho de conclusão do curso de Gestão de Recursos Humanos para a obtenção do título de especialista em Recursos Humanos pelo Instituto A Vez do Mestre. Niterói, 2010. 3 Vitor Rodrigues da Silva. Estresse e Trabalho: O nó górdio das organizações contemporâneas. Trabalho de Conclusão de Curso de Pós graduação para a obtenção do título de especialista em Recursos Humanos pelo Instituto A vez do Mestre. Professor(a) Guimarães Niterói, 2010. Orientador(a): Ana Cristina 4 Vitor Rodrigues da Silva. Estresse e Trabalho: O nó górdio das organizações contemporâneas. Monografia apresentada como pré-requisito para obtenção do título de especialista pelo Instituto A Vez do Mestre. Niterói, março de 2010. 5 Dedico esta obra ao DEUS vivo por sua misericórdia a mim; aos meus avôs, paternos e maternos, que não tiveram a oportunidade de lê-la e todos aqueles que de alguma forma, fazem do seu trabalho uma eterna pedra de Sísifo. 6 AGRADECIMENTOS Agradeço ao DEUS todo poderoso por ter me sustentado em saúde e sabedoria para que este trabalho pudesse ser concluído. À Rosângela Rodrigues da Silva, José Eugênio Rodrigues da Silva e Maurício Rodrigues da Silva, pelo exemplo, paciência, respeito, compreensão, justiça..., pelo amor incondicional que tens. A saber, minha amada família! Aos tios, tias, primos, familiares e amigos, que compartilharam desta obra. A Dr.ª Juliana Silva Venturi, pelo carinho, paciência e compreensão e por estar sempre ao meu lado em todos os momentos. 7 O poder é melhor exercido, enquanto não bem percebido. (Michel Foucault) 8 RESUMO O referido trabalho de conclusão de curso tem como principal importância contribuir para um ambiente profissional mais adequado e satisfatório para o ser humano que se depara diariamente com seu trabalho. Milhares de trabalhadores em todo o mundo tem se afastado dos seus afazeres profissionais por conta do que é hoje denominado de o mau-do-século, a saber, o estresse. Por fim, uma empresa, uma família, uma sociedade menos estressada será certamente mais produtiva, mais justa e menos violenta, portanto, contribuindo para o bem-estar mútuo e proporcionando melhor qualidade de vida na relação do homem com o trabalho dentro das organizações em nossa contemporaneidade. Palavras-chave: contemporaneidade. Trabalho, Estresse, Homem, organização, 9 METODOLOGIA Este trabalho trata de uma pesquisa bibliográfica. Os principais autores utilizados na realização deste trabalho foram inicialmente nos seguintes: DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Aboré, 1987. DOLAN. S. Estresse, auto-estima, saúde e trabalho, tradução de J. Simões. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2006. FRANÇA, A. C. L. & RODRIGUES A. L. Stress e Trabalho: uma abordagem psicossomática. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2007. 10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO11 CAPÍTULO I – A HISTÓRIA TRABALHO.........................................14 I.I O Surgimento do Trabalho na Bíblia...................................14 I.II O Trabalho de Sísifo: um belo conto de mitologia Grega.......15 I.III Os primórdios do Trabalho............................................17 I.IV A escravidão como forma de Trabalho............................17 I.V O Trabalho na Idade Média....................................................19 I.VI O Trabalho na Revolução Industrial.....................................21 I.VI.I O Capitalismo.......................................................................22 I.VI.II O Taylorismo...................................................................24 I.VI.III O Fordismo.....................................................................26 I.VI.IV Do Toyotismo aos dias de hoje....................................28 CAPÍTULO II – A GÊNESE DO ESTRESSE...............................................31 II.I O pai do estresse................................................................31 II.II Burnout e estresse................................................................33 II.III Fatores determinantes do estresse ocupacional.................36 CAPÍTULO III – O HOMEM E O TRABALHO: UMA FUSÃO COMPLEXA PARA A ORGANIZAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE.......................39 III.I Trabalho e Estresse X Trabalho e Saúde....................................41 III.II Motivação: poderosa arma contra o estresse no trabalho.......44 CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................50 11 ITRODUÇÃO A presente monografia alude às causas e reações do estresse nas áreas da vida humana, mais especificamente na relação do homem com o trabalho nas organizações. Atento à complexa mudança que tem acontecido no mundo do trabalho em nossa contemporaneidade, cogita-se em aprofundar-se no estudo do estresse causado por esta vertente. A medida que avançamos em direção ao futuro somos, cada vez mais, aterrorizados por essa mazela que se tornou a síndrome do progresso tecnológico empresarial. A herança deixada por esse empasse: estresse x trabalho, tem colocado em enorme desvantagem o Homem como Homossapiens e consequentemente as empresas. Todos nós em algum momento da vida passamos ou passaremos por situações estressantes em maior ou menor grau, haja vista quando deparamos com este mundo deixando o conforto da vida intra-uterina e no corte do cordão umbilical, seria esta a primeira experiência desconfortante perpetuada a todos que se presam ao nascer. INTRODUÇÃO CAPÍTULO I – A HISTÓRIA DO TRABALHO O presente capítulo irá esboçar sobre as diversas formas de trabalho presente desde os primórdios pré-civilizados aos dias agitados do mais puro e radical – do ponto de vista matemático, repartido – capitalismo. Diversos tipos de pensamentos perpassam através dos séculos sobre o significado da palavra trabalho, cada qual se encaixará na 12 época devida e no momento político-social mais apropriado ao decorrer da história. INTRODUÇÃO CAPíTULO II – A GÊNESE DO ESTRESSE Denominado como o mau do século, o estresse está presente de forma sutil em nosso dia a dia, em casa, na escola, no trânsito, nos noticiários da tv, nas filas e principalmente no trabalho, onde passamos cerca de oito, nove ou até dez horas diárias, fator de desgaste para muitos, é dicotômico da qualidade de vida e do bem-estar. Os males relacionados ao estresse são considerados um grande problema por que resultam, tanto para empresa quanto para o trabalhador, em perdas incontáveis de dias por faltas ao trabalho; em baixa produtividade; em decisões equivocadas. A condição do mercado de trabalho tão competitivo – muitas das vezes desleal – submete o profissional à extrema pressão, freqüentemente associada ao local de trabalho, e decorre ao longo do tempo, com prejuízo da motivação e, conseqüentemente, do desempenho, levando-o ao estresse. CAPITULO III - O HOMEM E O TRABALHO: UMA FUSÃO COMPLEXA PARA A ORGANIZAÇÃO NA MODERNIDADE. O perfil do que se diz ser de um bom profissional para as empresas, passa por características de “semi-deuses”, onde devem existir absolutamente todas as características de um ser perfeito: criativo, ótima comunicação, competente, disposto, grande poder de concentração, sabe mandar e sabe receber ordens, saber ouvir e se colocar, sabe estimular o crescimento do grupo 13 e dos indivíduos além de almejar também para si e para a empresa, o crescimento. Tem muito boa aparência e alto grau de compreensão do comportamento humano e tem facilidade em lidar com ataques histéricos dos patrões, sem se abalar quando chamado de incompetente, ou quando for colocado sobre seus ombros a responsabilidade de um erro a respeito de algo que na verdade não lhe competia, pois tem alto poder de análise e um emocional impecável e saberá discernir, esclarecer e apaziguar o conflito, sem se abalar. E por aí segue a lista dos poderes dos “super-heróis” imaginários e o que é pior, exigidos que apareçam e encarnem em todos os funcionários. Esse mesmo padrão utópico, profissional, é estabelecido também para diversos setores de nossas vidas, pois existem padrões estéticos onde a beleza física é um padrão irreal, que existe apenas nas revistas e passarelas. Existem também inúmeros padrões para os comportamentos e sentimentos, onde são estabelecidos padrões para o relacionamento ideal dos pais com os filhos, de filhos com os pais, padrões para as amizades, para os relacionamentos amorosos, enfim, temos modelos ideais em todos os setores de nossas vidas, onde devemos nos encaixar de uma forma ou de outra. É realmente impossível viver feliz sem o carro do ano ou um celular? O homem trabalha no que realmente gosta? Podemos ser amados pelo que realmente somos em vez de sermos amados pelas nossas aparências? Quem realmente somos? Quê conseqüências esse ideal de vida irá afetar para a saúde mental do Homem? Com isso, o estresse tem se tornado cada vez mais popular e íntimo do homem moderno. Ao decorrer da história tivemos enormes avanços tecnológicos no campo do trabalho, mas ao mesmo tempo em que é uma conquista, traz, para quem trabalha no berço capitalista, o germe do seu desgaste e sofrimento. 14 CAPÍTULO I – A HISTÓRIA DO TRABALHO I.I - O surgimento do trabalho na Bíblia Segundo Gênesis (2005), o Senhor Deus formou da terra todos os animais, ele os levou a Adão para que pusesse nomes neles, mas não se achava uma companheira que fosse com ele. Então o Senhor Deus fez com que Adão caísse num sono profundo. Enquanto ele dormia Deus retirou uma de suas costelas e depois fechou o corte naquele lugar. Dessa costela o Senhor formou uma mulher e a levou ao homem já acordado, e Adão falou: - “Agora sim! Esta é carne da minha carne e ossos dos meus ossos. Ela será chamada de Eva porque Deus a tirou do homem”. (GÊNESES, 2005, p. 4). Os dois viviam no que a bíblia chama de paraíso, um lugar perfeito para o ser humano, em harmonia direta com a natureza, viviam juntos sem estresse, sem a preocupação do amanhã, enfim, tudo parecia em perfeita ordem. Até que num determinado dia uma serpente, que era o animal mais esperto existente ali, perguntou a Eva o porque ela não poderia comer nenhuma fruta do paraíso. Esta respondeu que não, o Senhor Deus havia dito que eles poderiam comer os frutos de qualquer árvore, menos o fruto da árvore que estava no meio do jardim, mas a serpente retrucou imediatamente dizendo que era mentira, que Deus disse isso por que se eles comessem do fruto seu olhos se abririam e seriam como Deus. A mulher viu que a árvore era muito bonita, que seus frutos eram lindos e perfeitos, começou a ficar seduzida com tanta beleza e pensou como seria ser como Deus, então apanhou uma fruta e comeu, como se não bastasse tamanha curiosidade deu ao seu companheiro Adão que também comeu. 15 Então o Senhor Deus furioso disse à cobra: - Por causa do que você fez serás severamente castigada! Entre todos os animais só você receberá esta maldição: de hoje em diante você irá andar se rastejando pelo chão e vai comer o pó da terra. Eu também farei com que você a e mulher sejam inimigas uma da outra e assim também serão inimigas a sua descendência e a descendência dela. (GÊNESIS, 2005, p. 4). Disse Deus a mulher: - Irei aumentar seu sofrimento na gravidez e com muita dor você passará a gestação e assim também será no parto, apesar disso você terá desejo de estar com seu marido, e por causa disso, ele a dominará. E para o homem disse Deus o seguinte: - Você fez o que a sua mulher disse e comeu a fruta da árvore que eu o proibi de comer, por causa da desobediência de vocês a terra será maldita! Terás de trabalhar a vida inteira afim de que a terra produza alimento suficiente para vocês. Terá que trabalhar no pesado, você e sua descendência, e suar para fazer com que a terra produza algum alimento; isso até que você volte para a terra, pois dela você foi formado, feito de terra e para a terra retornará. (GÊNESIS, 2005, p. 4). I.II - O TRABALHO DE SÍSIFO: UM BELO CONTO DA MITOLOGIA GREGA Mestre da malícia e dos truques entrou para a história como um dos maiores ofensores aos deuses. Sísifo casou-se com Mérope, uma das sete plêiades, tendo com ela um filho, Glauco. Certa vez, uma grande águia sobrevoou sua cidade, levando nas garras uma bela jovem, Sísifo reconheceu a jovem, que se chamava Egina, filha de Asopo, um deus-rio, e viu a águia como sendo uma das metamorfoses de Zeus. 16 Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino, sísifo logo fez dessa situação um acordo: em troca de uma fonte de água para sua cidade ele contaria o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada recebeu o nome de Pirene e foi consagrada às Musas (CAMUS, 2007). Com isso, segundo Camus (2007), Sísifo despertou a raiva do grande Zeus, que logo enviou o deus da morte para levá-lo ao mundo subterrâneo, porém o astuto Sísifo conseguiu enganar o enviado com palavras macias, e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. O colar, na verdade, não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a morte aprisionada e conseguindo assim driblar seu próprio destino. Durante muito tempo não morreu mais ninguém, Sísifo enganara a morte, mas arrumou novos problemas, desta vez com Hades, nada mais que o deus dos mortos, e com Ares, o deus das guerras, que precisava dos trabalhos da morte para consumar as batalhas. Quando teve conhecimento, hades libertou a morte e ordenou-lhe que trouxesse Sísifo imediatamente para os infernos. Tendo ocorrido o feito e quando Sísifo se despedia de sua mulher, teve o cuidado de pedir secretamente que ela, de maneira nenhuma, enterrasse seu corpo. Já no inferno, segundo Camus (2007), Sísifo reclamou com Hades sobre a falta de respeito de sua esposa em não o enterrar, então suplicou pelo prazo de mais um dia para se vingar da mulher ingrata e assim cumprir com os rituais fúnebres. Hades lhe concedeu o pedido, Sísifo então retomou seu corpo e imediatamente fugiu com sua esposa. Assim enganou a morte pela segunda vez. Passados muitos anos, Sísifo veio a falecer, morreu de velhice, Zeus enviou Hermes para conduzir sua alma ao Hades, este considerou Sísifo extremamente rebelde e lhe deu um castigo. 17 Por toda a eternidade Sísifo foi condenado com um trabalho, tinha que rolar uma grande pedra de mármore com as próprias mãos até ao topo de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o pico desta, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto inicial por meio de uma força irresistível, e assim dia a dia o velho e desafortunado Sísifo ia cumprindo com seu legado (CAMUS, 2007). I.III OS PRIMÓRDIOS DO TRABALHO Segundo Martins (2000), a palavra trabalho tem sua origem no vocábulo latim “tripalium”, denominação de um objeto de castigo formado por três (tri) paus (palium), parecia ser uma espécie de instrumento de tortura ou ainda um objeto que o homem fazia pesar sobre os animais. Os escravos e os pobres que não pagavam os impostos eram torturados pelo tripalium. Nos primórdios da civilização o homem trabalhava para suprir suas necessidades básicas. O ser humano, na época, lutava contra as adversidades do meio ambiente e também para se defender dos animais ferozes. Levava sobretudo tipicamente uma vida contemplativa. Posteriormente reunia-se em comunidades maiores, a partir daí é que despertou para as lutas, por hegemonias, por territórios, começava então um maior desenvolvimento dos seus mecanismos de defesa e ataque, visando às pequenas e grandes conquistas. (ANDRADE, 1986). I.IV A ESCRAVIDÃO COMO FORMA DE TRABALHO 18 De acordo com Martins (2000), a primeira forma de trabalho foi à escravidão, o escravo não tinha nenhum tipo de reconhecimento, um ser que não tinha alma, nascera para o trabalho. O escravo, portanto não era considerado sujeito de direito, pois era propriedade do “dominus”. Nesse período, constatamos que o trabalho do escravo continuava no tempo, até de modo indefinido, ou mais precisamente até o momento em que o escravo tivesse ou deixasse de ter essa condição. Entretanto, não tinha nenhum direito, apenas o de trabalhar. (MARTINS, 2000, p.34). Identifica-se a escravidão, como forma de trabalho, em vários estágios na história da humanidade, principalmente entre os gregos, os egípcios e os romanos. A exploração do homem pelo próprio homem é o que se predominava entre essas nações, estrutura que considerava o trabalho algo humilhante, corroborada pela própria filosofia da época, tendo respaldo de grandes intelectuais e pensadores como Aristóteles e Platão. O escravo era considerado uma coisa, um objeto, e ao seu trabalho, portanto, não se tinha nenhum tipo de direito, por exemplo, em Roma. (ANDRADE, 1986). Aristóteles e Platão, por exemplo, entendiam que o trabalho tinha um sentido pejorativo. Não existia uma correlação entre trabalho e o intelecto. A dignidade estava em participar dos negócios da cidade e por meio da palavra, o que era de trabalho duro e pesado não cabia a esses homens e sim aos escravos que não tinham liberdade. O trabalho também não tinha o significado de realização pessoal, pois as necessidades da vida tinham características servis, sendo que os escravos é que deveriam desempenhá-las, assim as atividades mais nobres como lazer e fazer política eram privilégios dos intelectuais e dos nobres (MARTINS, 2000). Ainda segundo Martins (2000), a ideologia do trabalho manual como atividade indigna do homem livre foi imposta pelos conquistadores dóricos (que pertenciam à aristocracia), porém nas classes mais pobres o trabalho começava 19 a ser considerado uma atividade dignificante, pois ainda os nobres não trabalhavam. Sem a escravatura, o negro não teria abandonado a África, sem a escravatura, o Brasil não seria decerto o que hoje é, porque foi o trabalho dos escravos que o transformou e lhe deu a riqueza. Economicamente, o Brasil é um filho da escravatura. Foi ela que nos deu o ouro, foi ela que nos deu mais tarde o açúcar e o café e nos fez erguer à altura de uma das maiores potências agrícolas de todo o mundo. (JACKSON, 1958. p. 223). I.V O TRABABALHO NA IDADE MÉDIA Na idade média encontramos um novo jeito de relacionamento entre aquele que trabalha e aqueles que detêm os meios de produção, chegara à era feudal. Os senhores feudais davam proteção política e militar aos servos, que não eram livres, porém tinham que prestar serviço (trabalhar) nas terras do senhor feudal. Com isso os servos tinham que entregar parte do que produziam aos senhores feudais em troca da proteção que recebiam e pelo uso da terra. Nessa época o trabalho era considerado um castigo, os nobres não trabalhavam. (MARTINS, 2000). O sistema predominante era a servidão, muito embora o ser humano não fosse mais considerado um bem ou um escravo, ou objeto, o seu trabalho nem por isso passou a ser melhor, não existia proteção jurídica e nem passou a ser reconhecido como deveria. Os trabalhadores agrícolas trabalhavam duro em troca de alimentação básica, habitação e vestuário, porém não possuíam sequer a liberdade, pois alguns direitos civis, como ter o direito de ir e vir e o casamento eram-lhes restringidos. (ANDRADE, 1986). No final da Idade Média começou a desaparecer a servidão e de um novo cenário nascia às corporações, se no regime de escravidão, o que 20 predominava, era uma economia tipicamente familiar, já na Idade Média, com a servidão e a ascensão das corporações, os sistemas de produção e as formas de trabalho começaram a ficar mais abrangente. Isso desapareceu de fato quando as corporações se consolidaram, onde se encontram nessa época, os primeiros agrupamentos profissionais e econômicos. A idéia de punição e repressão embutida no trabalho, como já vimos era de uso comum na antiguidade, e atravessou quase toda a Idade Média. Só no século XVI começou a ter o sentido genérico que lhe atribuímos nos dias de hoje, ou seja, o de aplicação das forças humanas (talentos, habilidades, treinamento, etc.) para alcançar um determinado fim. (ANDRADE, 1986). Segundo MARTINS (2000), ainda na Idade Média, irão surgir às corporações de ofício, que se dividirá por três personagens: os mestres, os companheiros e os aprendizes. No início das corporações de ofício só existiam os mestres e os aprendizes, só no século XIV surge então o grau intermediário dos aprendizes. Os mestres eram os donos das oficinas, os companheiros eram trabalhadores que recebiam dos mestres alguma recompensa em dinheiro e os aprendizes eram aqueles que recebiam dos mestres o ensino da profissão. Nesta época havia mais liberdade ao trabalhador, porém os interesses das corporações eram prioritários, a proteção e a saúde do trabalhador estavam em segundo plano. Os objetivos dessas corporações eram regular uma capacidade produtiva, promover uma estrutura hierárquica e regulamentar a técnica de produção. Os aprendizes começavam a trabalhar bem sedo, a partir dos 12 anos, e em alguns países o início ao trabalho era em idade bem inferior. Os mestres podiam impor castigos corporais aos aprendizes, os pais destes pagavam altas taxas para os mestres ensinar seus filhos, e se o aprendiz 21 superasse as dificuldades dos ensinamentos, subia ao grau intermediário de companheiro. (MARTINS, 2000). Os companheiros só passavam ao grau de mestre se fossem aprovados no exame de obra-mestra, prova que era muito difícil e se pagava taxas muito altas para se fazer o exame. A jornada de trabalho era muito grande, chegando à média de até 18 horas no verão, porém com o pôr do sol os trabalhos eram cessados, por questão da queda de qualidade do trabalho e não por proteção dos aprendizes ou dos companheiros. Em 1792, quando foi criado o lampião a gás por William Murdock, o trabalho passou a ser prestado em média entre 12 e 14 horas por dia, com isso houve um crescimento dos trabalhos noturnos aderidos pelas indústrias. As corporações de ofício tiveram sua decadência com a revolução francesa, em 1789, pois foram reprimidas pelo ideal de liberdade individual do homem, também a liberdade do comércio e o encarecimento dos produtos das corporações promoveram o seu fim. Em 1791 houve na França o início da liberdade contratual, garantindo a liberdade de trabalho, a Lei Chapelier, de 1791, proibia o estabelecimento das corporações de ofício, abolindo de vez as corporações dos cidadãos. (MARTINS, 2000). I.VI O TRABALHO NA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL O trabalho se transformou em emprego na Revolução Industrial. Em geral os trabalhadores passaram a trabalhar por salários, instaurou-se uma prática de exploração do trabalho em que se troca determinado número de horas trabalhadas por determinada quantia em dinheiro, com a mudança, uma nova cultura teve que ser apreendida e uma antiga cultura teve que ser desconsiderada. 22 De acordo com Arruda (1986), a Revolução Industrial foi uma das mais importantes entre todas as revoluções verificadas no processo histórico, cooperando radicalmente para uma transformação na vida do trabalhador. Ela se divide basicamente em três partes, a primeira tendo em sua utilização da máquina a vapor e a carvão, aproximadamente tendo sua duração entre 1750 e 1850, neste período se dá o início a formação de grandes conglomerados industriais. Esta visão de Revolução Industrial rompe com as antigas relações sociais de produção, instaurando o completo domínio da máquina e do capital sobre a sociedade em processo de adaptação. A segunda fase da Revolução Industrial foi marcada pelo surgimento da emergia elétrica e pelo motor de explosão, tendo seu início no final do século XIX, a terceira fase, em curso no século XX, é marcada pela difusão da energia atômica, mas também chega a se falar de uma revolução Cibernética na pós-modernidade com o advento dos computadores e da ciência da informática. I.VI.I O CAPITALISMO Com o crescimento do capitalismo houve um aumento do comércio e da manufatura (um processo de produção de bens em série padronizada, ou seja, são produzidos muitos produtos iguais e em grande volume), portanto o velho sistema feudal de produção deixou de ser a única fonte de riqueza, aparecendo assim o dinheiro, este surgiu quando os homens começaram a viver em grupos mais urbanos, sendo que os produtos não eram vendidos, o comércio era inicialmente a base de troca, ou seja, através da atividade chamada escambo. “A Revolução Francesa, em 1789, consolidou esse novo sistema econômico, baseado na troca de mercadorias, com o objetivo primordial de obter lucros, bem como uma nova ordem social, que se tornou hegemônica”. (GERAB e ROSSI, 1997 ,p. 11), antes desse movimento, dois acontecimentos 23 importantes prepararam o terreno, que foram: a reforma Protestante iniciada na Alemanha (1517), e a Revolução Gloriosa (1689), esta última possibilitou aos comerciantes ingleses partilhar o poder político com a aristocracia rural, surgindo caminhos para que a burguesia impusesse um novo ordenamento político, respaldado na representatividade. O dinheiro passou a ter expressão de poder e riqueza, segundo Gerab e Rossi (1997) quem utilizava o dinheiro obtinha muitas vantagens, dentre elas a facilidade de troca por qualquer outra mercadoria, a comodidade e possibilidade de transportá-lo, e mais do que isso, a opção de guardá-lo e acumulá-lo, o que era mais simples e por meio dos empréstimos a juros ele podia gerar mais riquezas. Era evidente e percebível, nas grandes cidades, o anseio e a necessidade de se descobrir novas formas que facilitassem e multiplicassem a produção e fabricação de bens, principalmente na Itália, Portugal e Holanda, mas foi perto dali que ocorreu a evolução capaz de atender às demandas da época, na Inglaterra. Muitos fatores ajudam a entender o pioneirismo inglês na criação de máquinas capazes de ampliarem significativamente a produção nas fábricas, com isso aumentando o número de trabalhadores. Assim, a burguesia, parte dela de origem burguesa, assumiu o comando do país ainda no século XVII, tendo sido ali superadas as barreiras feudais bem antes que em outros países; esse movimento deu grande impulso na economia do país, alavancando a indústria têxtil e a criação de engenhos que facilitavam o difícil trabalho nas minas de ferro, carvão e cobre. De acordo com Gerab e Rossi (1997) foram criados vários “protótipos” de máquinas no intuito de aperfeiçoar e agilizar o processo de produção nas fábricas, mas só em 1769 foi inventada a máquina a vapor, no início muito utilizada pala indústria de minério da Inglaterra, mais tarde, em 1776, o inventor inglês James Watt a patenteou e teve o seu invento amplamente reconhecido. Ao final do século XVIII, a máquina a vapor estava praticamente em todas as 24 áreas de produção da Inglaterra, tornando-se a primeira nação industrializada do mundo, tendo como responsabilidade, a estimulação de crescimento econômico, também de outros países e internacionalizando assim a revolução Industrial, Mas como nem tudo é um “mar de rosas” a Revolução ocasionou várias modificações no mundo do trabalho, e quem velou a pior nessa história foram os trabalhadores. Como os indivíduos não possuíam mais os bens necessários à produção, a única forma de sobreviver era vendendo o que possuíam: a sua força de trabalho. O assalariamento foi, assim, se tornando a prática dominante, sendo a remuneração do trabalhador sempre inferior ao valor dos bens que ele produzia. Esse aviltamento do trabalhador muitas vezes o deixava próximo da situação de escravidão, sendo inúmeros os casos de crianças com menos de 5 anos que trabalhavam em fábricas para ajudar no sustento familiar. A mortalidade, a fome, a miséria generalizada, enfim, faziam acreditar que, em vez da melhora de vida, aquela fase de grande atividade e prosperidade da indústria e do comércio significava miséria e sofrimento para a classe trabalhadora. (GERAB e ROSSI, 1997 p. 14). Com isso, aumentou a oferta de mão-de-obra barata, frente ao deslocamento de homens e mulheres que saíam do campo para os centros urbanos, aumentando também o número populacional nos grandes centros que possibilitou num imenso avanço tecnológico, verificado tanto no trabalho rural quanto no trabalho urbano. Assim os fatores essenciais para o acúmulo de riquezas e as condições de trabalho, iam se ajustando com a crescente demanda do capitalismo. Todavia, somente com o “casamento” de grandes máquinas automotoras com os trabalhadores assalariados é que se pode considerar o capitalismo como um sistema político econômico e social consolidado. Entretanto, desse momento até hoje, o capitalismo passou por várias etapas que modificaram o modo de trabalho do ser humano, este foi fortemente influenciado pelo crescimento da produção em massa e depois pelo consumismo. 25 Desde o advento das máquinas, muitas pessoas, particularmente empresários, dedicaram-se a estudar e a propor formas mais eficientes e racionais de organizar o processo fabril. Todas elas visavam atingir o grau máximo de produtividade, com o menor custo possível, o que implicava a exploração de trabalhadores. Estes, por sua vez, reagiam, mobilizando-se, organizando-se e lutando por melhorias tanto nas condições de trabalho como de vida em geral. (GERAB e ROSSI, 1997, p. 16). I.VI.II O TAYLORISMO No fim do século XIX, entra em cena Frederick W. Taylor, de acordo com Gerab e Rossi (1997), um ex-torneiro-mecânico preocupado em administrar o processo de produção em massa. Preocupação esta – totalmente capitalista que visa o aumento da produtividade do trabalhador, objetivando submeter esse trabalhador ao ritmo da máquina com o mínimo de interrupções possíveis, portanto, essa nova maneira de organizar a produção ficou conhecida por Taylorismo. O Taylorismo representou a entrada da ciência ao processo de trabalho, a contribuição de Taylor para a administração se divide basicamente em dois momentos: o primeiro, de acordo com Chiavenato (2001), corresponde à época da publicação do seu livro (Administração de Oficinas), em 1903, no qual se preocupa com as técnicas de racionalização de trabalho do operário, por meio do estudo de tempos e movimentos do mesmo. Taylor começou seu trabalho, junto com os operários, decompondo os seus movimentos e processos de trabalho, aperfeiçoando-os e racionalizando-os gradativamente. O objetivo da Administração de Taylor é, segundo Chiavenato (2001), pagar melhores salários e ter o menor custo de produção possível. Para vencer esse desafio, Taylor teve que aplicar métodos científicos na Administração e estabelecer processos padronizados que permitiam o controle de operações, os empregados tinham que ser cientificamente colocados em serviços com materiais e condições de trabalho adequado, eram treinados para aperfeiçoar 26 suas aptidões e executar uma boa tarefa para cumprir a meta de produção normal. O segundo momento se dá em 1911, com a publicação do livro Princípios da Administração Científica, quando Taylor concluiu que a racionalização do trabalho operário deve ser acompanhada de uma estruturação geral da empresa para tornar coerente a aplicação de seus princípios. A partir daí é que se desenvolveu o estudo sobre a Administração Geral, mais conhecido por Administração Científica, tendo como objetivo principal o de assegurar ao máximo a prosperidade do patrão e, ao mesmo tempo, ao empregado (CHIAVENATO, 2001). Taylor também deu alguns princípios à Administração Científica: o primeiro é o princípio do planejamento, isto é, substituir a improvisação pela ciência, por meio do planejamento dos métodos e procedimentos científicos; em segundo o princípio de preparo, diz respeito à aplicação do método racional, com o objetivo de selecionar cientificamente os trabalhadores de acordo com suas aptidões, prepará-los e treiná-los para produzirem mais e melhor de acordo com o método planejado; em terceiro, o princípio de controle, que prioriza controlar o trabalho para certificar que está sendo executado de acordo com as normas estabelecidas pelo patrão, bem como o plano previsto e por último, o princípio da execução, que irá distribuir as atribuições e as responsabilidades, para que a execução do trabalho seja, de fato, feito pelos operários (CHIAVENATO, 2001). Desse ponto em diante, o avanço da ciência tecnológica passaria a acompanhar o processo de produção em massa, o mundo teria de adotar a essa nova realidade. No início do século XX, algumas mudanças na área técnica e ideológica alavancaram os princípios da “administração científica” do Taylorismo e com o conjunto dessas inovações se deu ao início de um amadurecimento deste sistema, a saber, o Fordismo. 27 I.VI.III O FORDISMO De acordo com Gerab e Rossi (1997), o fordismo - modelo de produção criado por Henry Ford, em 1909 – revolucionou o sistema de produção nas fábricas, também introduzindo elementos para o aumento da produtividade, os quais foram um marco na história da indústria e do trabalho. Ford se preocupa com o planejamento constante dos movimentos dos trabalhadores e com o aperfeiçoamento de novas máquinas, com o objetivo de acelerar cada vez mais o processo de produção. Em 1903 fundou a Motor Company, visando fabricar carros com preços mais acessíveis a população, estabeleceu o sistema de vendas Ford e o serviço Ford, com isso os carros da Ford recebiam fama de resistentes, duráveis e bem construídos. A fábrica produzia algumas peças, mas na verdade era uma atividade de montagem ainda rudimentar. Seu fundador trabalhava com a idéia de fabricar um modelo universal. Em 1905 e 1906 se fabricavam somente dois modelos de carro: um de quatro cilindros de 2.000 dólares e outro destinado ou turismo de 1.000 dólares. Em 1907 Ford decidiu mudar o rumo dos negócios, parou de fabricar o carro de turismo, fabricou um carro de 600 dólares, conseguiu vender cerca de 1.423 carros. A partir dessa experiência, ele resolveu fabricar somente um modelo, que posteriormente, vendeu 10.000 carros e se adquiriu um novo espaço para a construção de uma nova fábrica, aperfeiçoando a linha de produção (MAXIMINIANO, 2002). Já com as novas instalações das fábricas, entre 1910 e 1911, foram vendidos mais de 34.500 carros, a partir daí se iniciou uma sistemática redução de preços. Em 1914, algo iria revolucionar o campo do trabalho, Ford estabeleceu o salário mínimo dos operários e pagava cinco dólares por oito horas/dia de trabalho, enquanto nos outros países se trabalhava em jornada de 10, 12 horas e por salários bem menores. Com essa bela tática de incentivo aos 28 funcionários, em 1915 saíram das fábricas de Ford cerca de um milhão de carros. Em 1926 possuía 88 usinas e Ford empregava mais de 150 mil trabalhadores, porém em 1927, encerrou-se a fabricação do modelo T, a partir daí, no ano seguinte, foi lançado o modelo “A”, que iniciava uma nova fase dos carros da Ford (MAXIMINIANO, 2002). As medidas tomadas por Ford representam um aperfeiçoamento do taylorismo e consistiram, de modo geral, em introduzir o uso de esteiras móveis em toda a fábrica, recurso característico do esquema de produção denominado linha de montagem, e em implantar um modo de gestão da força de trabalho que levava em conta até mesmo aspectos da vida pessoal dos operários. Na operação da linha de montagem, o ritmo da esteira é que determina o ritmo de trabalho; o trabalhador fica fixo num certo posto, sendo as ferramentas e o objeto a ser trabalhado transportado até ele. (GERAB e ROSSI, 1997, p. 18). Com o avanço da computação foi possível automatizar as máquinas, a ponto de máquinas comandarem outras máquinas, é chegada a era da cibernética, conhecida como a 3ª revolução industrial, e o modelo para que se dê conta desse processo é justamente o ser humano. O fordismo teve seu ápice nas décadas de 60 e 70 (anos dourados), o que acontecia era inimaginável há alguns anos, com os trabalhadores dividindo-se em meio às máquinas robotizadas. Mas com as mudanças no mundo, cada vez mais competitivo e com o surgimento da globalização, o fordismo teve um limite, sua decadência começa com os efeitos do trabalho ferindo diretamente o equilíbrio físico e mental dos trabalhadores, bem como a impossibilidade de distribuir igualitariamente o tempo de trabalho entre os operários, e por último, surgem novas formas de incentivo aos trabalhadores, que possibilitavam maior competitividade e oportunidade de ganhos financeiros, já no sistema fordista não poderia acontecer isso, uma vez que a linha de montagem tende a uni-los numa luta geral contra melhores condições de trabalho. 29 I.VI.IV DO TOYOTISMO AOS DIAS DE HOJE. É chegada à era da informática e da robótica, nunca em algum outro momento da história do trabalho a tecnologia avançou tanto, acarretando na inovação da qualidade ao sistema de produção. Contudo, o Homem viverá a amarga experiência de ser substituído por sua criação. Observando no atual quadro do sistema produtivo o procedimento da terceirização, pelo qual uma parte dos serviços de uma empresa é delegada a outras, atendendo a convivências de ordem financeira e técnica, nos confrontos com os novos conceitos de otimização da produção e otimização de custos. Assim, a meta de muitas empresas no mundo todo, inclusive no Brasil, é, hoje, ser absolutamente informatizadas e robotizadas, com estoques quase zerados (tanto de insumos e matérias-primas quanto de produtos acabados) e funcionários em números reduzidíssimos. (GERAB e ROSSI, 1997 p. 19). Desenvolvido pelos japoneses, especificamente pela fábrica da Toyota, no final do século XX, teve a composição de várias características para acompanhar o mundo globalizado e tecnológico, com isso o emprego de trabalhadores eram poucos, por que tinham que estar bem-adaptados às novas tecnologias das empresas (GERAB e ROSSI, 1997). De acordo com Gerab e Rossi (1997), o Toyotismo introduziu significativas mudanças e características técnicas no processo de produção, como: a introdução dos Círculos de Controle de Qualidade (CCQs), o crescimento da terceirização nos maquinários de tecnologia sofisticada – acarretando a contratação de poucos trabalhadores diretos, a utilização de um cartão (chamado de kanban) que transmite informações a respeito dos procedimentos que os funcionários devem exercer na linha de produção e a “introdução do just in time (no momento certo), critério de procedimento que permite inverter o fluxo de comando de serviço, submetendo a produção à demanda dos setores de venda e montagem.” (Gerab e Rossi, 1997 p. 19). Uma espécie de Engenheiro de produção. 30 Com isso, o Toyotismo, utilizando estratégias para o aumento da margem de lucros, os empregados uma vez cooptados, são induzidos a cair na armadilha de abandonar o sindicato da categoria, trocando-o por associações das empresas. Assim, pressiona também no sentido de cessar com a organização e a consciência da classe dos trabalhadores, deixando de fora dos interesses patronais. Em suma, de acordo com Gerab e Rossi (1997), o Toyotismo veio para servir e suprir o capitalismo no seu período neoliberal, que vai ser caracterizado pela situação do mercado, agora globalizado, em que a oferta é controlada por um restrito grupo formado de grandes empresas. Eis, assim, que hora vivenciamos, passados mais de duas décadas sob o império das leis do mercado, a emergência de um fenômeno global de contraposição à lógica dos lucros crescentes, defendida pelo grande capital transnacional e sua correlata dinâmica de exclusão sócia. Trata-se, em breves palavras, da formulação, ainda que primária e tímida, de uma resposta e de uma estratégia coletiva com vistas à superação do neoliberalismo. A razão mobilizadora desse fenômeno é a crise estrutural, econômica e financeira, com todos os resultados nefastos já salientados. Inicialmente, o movimento, ainda desconexo, irrompeu em resistências raivosas e espontâneas. Foi o que se viu nas hordas constituídas de diversas matrizes ideológicas, quase carnavalescas, nas ruas de Seattle, Praga, Gênova e, mais recentemente, em Barcelona. Os protestos significaram uma ruptura com o silêncio, como nó na garganta. Denunciavam, sobretudo, o mundo frio e indiferente dos grandes negócios, os fundamentos econômicos e morais de uma ordem social orientada exclusivamente para a busca do lucro. (COSTA,2002 p. 99 e 100). Finalizando, nesse atual período da história do trabalho, observamos que todo aparato de inovações, algumas mirabolantes, e avanços tecnológicos que estariam à disposição do Homem para melhor se relacionar com o trabalho, têm, em contra partida, levado ao alto índice de desemprego, pobreza crônica, arrocho salarial, fragilização das micro e pequenas empresas e alimentando os 31 demais problemas sociais, como: a fome, a falta de segurança e o aquecimento global. 32 CAPíTULO II – A GÊNESE DO ESTRESSE A sua nomenclatura é relativamente nova, porém seus sintomas são mais antigos, mas o que é de fato o estresse? “Conjunto de reações do organismo a agressões de origens diversas, capazes de perturbar-lhe o equilíbrio interno” (FERREIRA, 1993, p. 233). Etimologicamente, o estresse tem muitas conotações e o significado de sua palavra teve diferentes vestimentas sistemáticas ou científicas ao decorrer dos séculos, como por exemplo: “stresse (dureza, desconforto) do inglês antigo; estresse (estreiteza) do francês antigo; strictia e strictus (apertado, estreito), do latim, e também do princípio de stringere (tornar apertado, apertar).” (LEVI, 1996, p. 26 citado por FRANÇA e RODRIGUES, 2007, p. 66). A palavra estresse, no século XVII, também tinha um pé no campo das ciências físicas, de acordo com França e Rodrigues (2007), embora não de forma sistemática, o que veio a acontecer somente no século XIX. II.I O PAI DO ESTRESSE Para se falar de estresse não se pode deixar de citar Hans Salye, de acordo com Arantes e Vieira (2002) este nasceu em Viena em 1907, faleceu em 1982 e se tornou conhecido como o pai do estresse. Era estudante de medicina na Universidade de Praga, adorava observar os estudos de reações do organismo, chamadas de reações inespecíficas ou não-específicas. A medicina da época buscava justamente o oposto, ou seja, as reações específicas, aquilo que era específico na doença, visando unicamente a sua cura através dos sintomas apresentados, portanto, o que não era específico ficava de lado. 33 Algo aguçava a curiosidade do jovem Salye, o que ele chamava de síndrome de se sentir doente lhe era mais instigante do que buscar uma cura específica para uma doença específica, assim optou por “nadar contra a maré”, preferiu tentar entender os mecanismos do adoecer. Posteriormente desenvolveu estudos endocrinológicos em laboratório, queria saber sobre o papel dos hormônios sexuais em ratos. Com isso, observa que diante de qualquer agressão provocada há mecanismos de adaptação do organismo semelhantes entre si, então começa a estudar os efeitos de diversos agentes agressores, ou seja, um conjunto de respostas não-específicas provocadas por um comportamento físico, com isso, Salye formula o que denominará de Síndrome da Adaptação Geral ou Síndrome Geral da Adaptação. Continuando seus estudos e aumentando a contribuição de suas descobertas para os seres humanos, Salye descreve o modelo de Síndrome Geral da Adaptação em três estágios distintos de padrões de reações: Estágio 1 – Reação de alarme; Estágio 2 – Resistência e Estágio 3 – Exaustão. Com isso, distinguiu dois tipos de estresse em seres humanos (todos associados com várias reações hormonais): Eustresse e Distresse. O Eustresse é o estresse positivo, aquele que condiciona energiza e entusiasma; já o Distresse é o estresse negativo, ele subjuga, reprime e leva os acontecimentos para além dos limites racionais levando ao descontrole. (ARANTES & VIEIRA, 2002). O tempo passa, e Salye se muda para o Canadá em 1935 onde trabalha como bioquímico na Universidade de McGill, tem o seu primeiro orientando, tom McKeown,que irá lhe ajudar na pesquisa em animais para ver as correlações neuroendocrinológicas durante a gravidez. Perceberam que os animais apresentavam distúrbios no ciclo sexual, revelando uma falsa gravidez, o que era totalmente diferente dos resultados esperados. Eram reações nãoespecíficas e por isso foram deixadas de lado, porém não deixaram de lado o empenho para entender o mecanismo deste desarranjo sexual, concluindo, portanto, que eram “manifestações inespecíficas de estresse causadas 34 exatamente pelos procedimentos que esperavam desaguasse em um resultado distinto”. (ARANTES & VIEIRA, 2002 p. 21). Assim foi, a primeira vez que se fez uso da palavra estresse com o seguinte significado: “estado de tensão não-específico de um ser vivo, que se manifesta por mudanças morfológicas tangíveis, em diferentes órgãos, e particularmente nas glândulas endócrinas.” (SALYE, 1952, citado por ARANTES & VIEIRA, 2002p. 21). II.II BURNOUT E ESTRESSE De acordo com Arantes e Vieira (2002) o termo Burnout saiu do campo das ciências tecnológicas de foguetes e migrou para o campo das ciências da saúde nos anos 70. Expressão muito usada no período da segunda guerra mundial, para se referir às falências dos motores dos jatos e foguetes da época, o termo foi transferido para o campo da saúde – mais especificamente para o campo da psiquiatria - em 1973, por Herbert Freudenberger, tinha o objetivo de direcionar a expressão do estresse em seu grau máximo de angústia, sofrimento e esgotamento. Burnout passa a ser identificado pelos sintomas de “esgotamento da resistência física ou emocional, ou da motivação, geralmente resultado de estresse ou frustração prolongados” (FELTON, 1998, citado por ARANTES & VIEIRA, 2002, p. 87). Burnout é geralmente provocado pelo estresse no trabalho, em geral, são mais afetados os profissionais da área de serviços humanos, ou seja, o contato direto com outras pessoas, em suma, é o que foi descrito por Hans Salye nos anos 50, como a resposta não-específica ou inespecíficas de estresse causadas por um procedimento interno ou externo. Tem-se falta de coragem (desânimo) no local de trabalho. É visto também como um conjunto de respostas patológicas (tensão) para o estresse específico decorrente da interação constante com pessoas carentes (FELTON, 1998, citado por ARANTES & VIEIRA, 2002, p. 88). 35 Burnout seria também a resposta emocional negativa frente à situação de estresse crônico decorrente das intensas relações com outras pessoas no ambiente de trabalho, dando o máximo de si para o trabalho, objetivando o desenvolvimento profissional através dos seus esforços. Porém, por causa de diferentes impedimentos, não alcançam o reconhecimento e o retorno esperado, no entanto, começa ai a frustração, a exaustão emocional, a impaciência e, conseqüentemente, a redução qualitativa do profissional (FRANÇA & RODRIGUES, 2007). Com base no que foi apresentado, Arantes e Vieira (2002), insistem em dizer que o aparecimento do Burnout se dá, majoritariamente, nas ocupações mais vulneráveis, ou seja, os indivíduos que trabalham com o público em geral estão mais expostos aos percalços que acarretarão o Burnout. Destes, em geral os que lidam com populações específicas, tais como pessoas portadoras de doenças graves e terminais, de pessoas com deficiências ou comprometimentos físicos e mentais, que trabalham com detentos, crianças e população carente. Essas situações são hoje consideradas como indicativas do que é chamado de Burnout. Dos citados, os que mais sofrem são os profissionais da área da saúde, já que o principal objetivo da sua ocupação é cuidar de um indivíduo que deposita nele a solução da sua demanda, ou seja, a cura ou a solução da sua queixa. Porém, na maioria das vazes esse profissional da área da saúde têm menos oportunidade de desenvolver estratégias defensivas mais eficazes. Dentro desse emaranhado, encontram-se os profissionais do serviço de emergência, atendentes de doenças terminais, profissionais da saúde mental, fonoaudiólogos, profissionais especializados em serviços a idosos e bebês, terapeutas em geral e as demais áreas de reabilitação e instituições similares. Numa entrevista realizada pela revista Latino-americana de Psicologia Fundamentada, Christophe Dejours diz: Hoje falamos muito de Burnout, no mundo inteiro, um esgotamento profissional que encontramos em muitas profissões e, mesmo que critiquemos este termo, ele tem a vantagem ao menos de mostrar que 36 o que está no centro desta nova patologia é a relação entre aquele que trabalha e o cliente; a relação como cliente é uma cilada psíquica, pois as pessoas são pegas numa relação que, de um lado, traz um excesso de carga de trabalho imposta pela própria relação e que, ao mesmo tempo, cria uma forte agressividade reativa que é, entretanto, barrada pela forte culpabilidade que faria descarregar a agressividade contra o cliente (DEJOURS, 2001, citado por ARANTES & VIEIRA, 2002 p. 95). Portanto, o Burnout se instala de forma traiçoeira, sutil, quase imperceptível. É um estado que vai superficialmente corroendo a relação do indivíduo com outros indivíduos em suas atividades profissionais. Muitos fatores externos irão determinar o Burnout e, consequentemente, o estresse, conforme a Figura 1.1, pode ser também uma relação de colateralidade, ambos, no sentido biopsicossocial (FRANÇA & RODRIGUES, 2007). Personalidade Estratégia de enfrentamento Expectativas do ambiente Contextos organizacionais Constituição orgânica Estresse Avaliação da percepção Expectativas da pessoa Figura 1.1 Fatores que determinam o estresse (FRANÇA & RODRIGUES, p. 49, 2007). 37 II.III FATORES DETERMINANTES DO ESTRESSE OCUPACIONAL Especificamente, nessa relação do Homem com a organização, existem diversos agentes estressores (individual, grupal e organizacional), os agentes estressores individuais mais comuns são: insegurança nas decisões, medo do outro, irritabilidade permanente, fácil explosão emocional, maior desenvolvimento de doenças, aumento do nível de tensão e sentimento de onipotência e desconfiança. A situação estressante também pode ser estabelecida pelo grupo, como: dependência do líder, politicagem, discussões não objetivas, competição não saudável, falta de comunicação, hostilidade na relação e grande nível de insegurança. Por fim, situações estressantes referentes à organização: constantes atrasos no pagamento dos funcionários, prazos irracionais, alta rotatividade de funcionários, cultura desfavorável ao mercado, sabotagem e desonestidade e, costumes caracterizados por desconfiança, desrespeito, rivalidade e prepotência aos funcionários (FRANÇA e RODRIGUES, 2007). Com todas as adversidades encontradas na relação do Homem com o estresse, será que podemos extrair algo de bom nesse vínculo? De acordo com França e Rodrigues (2007), para que as pessoas e as organizações tenham um bom desempenho profissional, o grau de estresse tem que estar em perfeito equilíbrio, nem a mais nem a menos. O estresse positivo é chamado de Eustresse, é aquele que motiva e estimula, é uma espécie de “mal necessário” para que as pessoas e a organização se encontrem em equilíbrio. Por outro lado existe o Distresse, leva ao desequilíbrio, desmotiva e visa sempre o lado negativo, ocorrendo um baixo nível de desempenho de ambos (ver Figura 1.2). 38 DESEMPENHO EFICIENTE ESTRESSE moderado Estresse e desmotivação Estresse alto tarefa chata e sonolenta = grande tensão DESEMPENHO INEFICIENTE Figura 1.2 Pressão versus desempenho no trabalho (FRANÇA e RODRIGUES, p. 50, 2007). O estresse é um dos fatores majoritariamente responsáveis pelas diversas doenças, físicas e psíquicas, que atinge a humanidade, onde a importância do seu estudo dentro das organizações é de extrema importância, para isso, é preciso tomar conhecimento dos fatores determinantes que o estresse produz. Em meados da década de 90 houve um maior interesse de se melhor entender as possibilidades que podem tornar o local de trabalho mais humano e menos danoso para os que dele dependem. É de fato impossível descrever uma lista de estressores e de suas conseqüências, principalmente se for levado em conta o fato de que cada indivíduo é singular, portanto, terá uma reação específica num determinado momento específico. Contudo, se pode identificar um conjunto de estressores em diversos níveis: estressores organizacionais e estressores extra-organizacionais. O primeiro é de valor mais individualizado, esses fatores individuais compreendem características particulares nos níveis perceptivo e cognitivo, que exercem influência sobre a percepção subjetiva do que se considera estresse. Estressores extra- 39 organizacionais são os estressores que surgem fora do ambiente de trabalho, como: desajuste familiar, política, problemas sociais e econômicos (DOLAN, 2006). 40 CAPITULO III - O HOMEM E O TRABALHO: UMA FUSÃO COMPLEXA PARA A ORGANIZAÇÃO NA MODERNIDADE. Em nossos dias, mais precisamente no final do século XX e início do século XXI, a concepção de estresse germinada dentro da idéia de desgaste, traz para o cotidiano do ser humano o empobrecimento de suas atitudes mais simples como: ir e vir, do simples estar acordado, da relação com outras pessoas... A necessidade de dar conta do relógio do tempo é maior que a suposição e a limitação de um relógio biológico que, torna-se refém de um programa a ser executado. As obrigações profissionais se tornam majoritárias em relação à amizade, ou até mesmo das relações familiares (ARANTES e VIEIRA, 2002). Aquilo que o trabalhador recebe como recompensa do seu trabalho (salário) é o que vincula o Homem à vida e à produção, com permanente desgaste físico e mental. O que poderia ser produzido como um bem, a possibilidade de tirar do trabalho o sustento para si e para os seus, sustenta-se num campo de continuados e notáveis conflitos, já que, geralmente, o trabalhador sempre trabalha para alguém que lhe paga, e quem lhe paga sempre trabalha para não deixar de pagar a outros e obter os lucros, ou seja, ambos são reféns do trabalho. A diferença entre os interesses e as esperanças de cada um são marcadas nas últimas décadas. A organização do trabalho se torna fonte do desgaste crônico, pois envolve a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa, um sistema hierárquico de poder e a distribuição das modalidades. À organização do trabalho se soma as condições de trabalho, estas, mais ainda, fontes de adoecimento por serem de péssima qualidade. Condições de trabalho aliadas à organização do trabalho se tornaram objeto de preocupação e de investigação para uma gama de profissionais de diversas áreas da saúde, principalmente da saúde mental, atentos com o sofrimento ocasionado pelo trabalho (ARANTES e VIEIRA, 2002). 41 Embora o conceito de estresse não tenha nascido do vínculo de uma análise do trabalho, a própria expressão derivada de vários conceitos em diferentes épocas, significando uma deformação ou desconforto produzido por alguma força, uma pressão, por analogia foi ampliada para nomear qualquer manifestação de desgaste, tanto somática quanto mental, passando também de uma concepção física para uma concepção médica e psicológica, abrindo o leque para a escuta clínica do sofrimento em nossos dias, tanto somática quanto psíquica, decorrentes, especificamente do trabalho (ARANTES e VIEIRA, 2002). De acordo com Dejours (1987), o trabalhador contemporâneo está exercendo suas atividades profissionais com a presença do medo no seu dia-adia, este surge em conseqüência das condições desfavoráveis e o alto risco em que são submetidos nos ambientes de trabalho. Ao se referir às condições de trabalho, diz que é de primordial importância se levar em conta, antes de tudo, o espaço físico, que é composto de vibrações, barulho, temperatura, pressão, irradiação e altitude; o ambiente químico (poeira, produtos manipulados, gazes, vapores e fumaças), o ambiente biológico (bactérias, fungos, parasitas), as condições de higiene e as condições de segurança no trabalho. A angústia é uma produção individual, cujas características só podem ser esclarecidas pela referência contínua à história individual, à estrutura de personalidade e ao modo específico de relação objetal. Mas nosso assunto aqui é o medo, um conceito que não é propriamente psicanalítico, e que responde por um aspecto concreto da realidade e exige sistemas defensivos específicos, essencialmente mal conhecidos até hoje. A psicopatologia do trabalho encontra-se muito bem colocada para ressaltas esta problemática nova, na medida em que constituiu uma abordagem específica da relação do homem com a realidade (DEJOURS, 1987,p. 63). O conteúdo de trabalho, segundo Dejours (1987), pode proporcionar uma sublimação. Sublimação esta que é gradativa à organização do trabalho que vai contra seus desejos, suas necessidades e sua integridade física e psíquica, isto é, a ele se soma uma alienação no sentido psiquiátrico. Esta observação levou 42 Dejours a desenvolver um estudo compreensivo das manifestações decorrentes do arranjo que acaba sendo feito pelo trabalhador para resolver o conflito a que está diariamente submetido. A criação de modos de funcionar à maneira de um robô, desprovido de afeto e emoções, utopicamente normal, um jeito de se vincular ao trabalho exageradamente e de maneira compulsiva, vão dar origens a alterações e modos de funcionamentos que se tornam formas de adições ao trabalho, também chamados de “desafetados”. Como pode um trabalhador ir para o seu ambiente de trabalho temendo o risco de sua integridade física? O mesmo ocorre em relação à análise do clima organizacional e o desgaste que, pelo péssimo desempenho e o mau controle de qualidade, que facilitará o aparecimento dos acidentes que, majoritariamente, são fatais. O acidente de trabalho individual quanto o acidente de trabalho em grupo, quando estes envolvem riscos físicos e de morte, pode ser entendido com um estresse organizacional que envolve o indivíduo e a empresa. Por fim, uma análise cuidadosa pode prevenir um acidente, mas o caminho para a fatalidade está além, é vista prioritariamente por um acompanhamento de sintomas organizacionais, perceptíveis pelo olhar de especialistas da área de saúde, médicos, psicólogos, técnicos em segurança do trabalho e assistentes sociais em contato direto com os trabalhadores dentro da empresa (ARANTES e VIEIRA, 2002). III.I TRABALHO E ESTRESSE X TRABALHO E SAÚDE Para início de exposição, parece óbvio que no mundo empresarial, ou seja, no ambiente de trabalho do século XXI não é possível trabalhar sem a presença do estresse. Seria um exagero essa afirmação? Também se entende que os fatores geradores de estresse estão em alta, existem ambientes de trabalho nos quais o estímulo é inexpressivo e, embora isso não seja o principal fator gerador de 43 estresse, acaba gerando tédio, dando lugar a uma política de acomodação (DOLAN, 2006). Segundo a sabedoria popular, um alto nível de estresse irá causar uma queda de produtividade em todas as áreas da vida do indivíduo. Tentar se tornar um “super-herói” de maneira crônica provoca desgaste e significativos danos no corpo e na alma, ultrapassar os limites resulta em saúde ruim e, consequentemente, num desempenho ruim. Sofrer estresse excessivo no trabalho também interfere na vida fora dele, o que resulta na queda da criatividade e da paciência o que torna praticamente impossível a tentativa de equilibrar o trabalho com a vida particular, por isso, é de vital importância administrar as cargas de trabalho e outras fontes geradoras de estresse (DOLAN, 2006). Tanto as condições de trabalho quanto a organização em si são referências das fontes geradoras de estresse no trabalho, com isso, ARANTES e VIEIRA (2002) aponta seis fontes de estresse, são elas: 1. em relação à função exercida; 2. em relação ao papel dentro da organização; 3. em relação ao desenvolvimento na carreira; 4. as relações de trabalho; 5. relações entre a estrutura e o clima organizacional; 6.a interface trabalho-família (apud STORA, 1991, citado por ARANTES e VIEIRA, 2002, p. 77). Como se não bastasse, não se pode ignorar o fato de que existem empresas que ostentam auto-estima e demonstram entusiasmo em excesso, demonstrando falta de humildade e caindo na arrogância comercial. Isso traz uma limitação no desenvolvimento por que muitos colaboradores (clientes) de potencial podem ser desprezados em razão dessa postura. Tal comportamento é equivalente às pessoas cuja auto-estima é baixa, mas é preciso reverter esse quadro, criando modelos conceituais e práticos para reagir a um dos maiores desafios dos últimos tempos: O que fazer para se ter uma saúde próspera no ambiente de trabalho? Uma vez que as oportunidades de empregos estão cada 44 vez mais em ambientes globalizados e hipercompetitivos. A importância da harmonização entre o aumento da produtividade e a qualidade de vida no trabalho é evidente para qualquer pessoa que já tenha trabalhado ou que irá trabalhar numa empresa. Trabalhadores e empresas passaram muitos anos com a convicção de que estavam protegidos contra a concorrência global. Para piorar, criaram poucos incentivos para aumentar a produtividade, com isso, esse recorte vem se agravando continuadamente por conta da globalização dos mercados, das culturas e da informação, ocasionando numa concorrência internacional cada vez maior e os longos ciclos de recessão econômica que os mercados financeiros vêem passando (DOLAN, 2006). Para a maioria das pessoas o trabalho é de fundamental importância para a existência humana. É por meio dele que há possibilidades dos indivíduos produzirem os bens e os serviços necessários e indispensáveis a vida moderna, como também se compõe no sistema de relação interpessoal formando a sociedade num todo. Portanto, o trabalho tem que ser visto como aliado da saúde humana, como algo digno ao Homem, através de empregos eficientes e produtivos, as pessoas aumentam a qualidade de vida institucional e social, assim os trabalhadores encontram a satisfação necessária de que precisam na vida privada, familiar e social (DOLAN, 2006). Em recente publicação da revista Época (2008), em agosto, tendo em sua capa a seguinte manchete: ”As 100 melhores empresas para trabalhar: o guia essencial para sua carreira”. Refere-se a uma extensa pesquisa feita pelo Great Place to Work Institute (GPTW), através de um questionário com 57 perguntas aplicadas para cerca de 100 mil pessoas, representando mais de um milhão de colaboradores de empresas no Brasil. Com o mesmo rigor metodológico em 41 países, o objetivo é de destacar os melhores exemplos de gestão de pessoas no mundo corporativo, com isso melhorar as empresas e os colaboradores em direção das melhores práticas de trabalho, proporcionando a inovação com melhor qualidade de vida para todos. Só puderam se inscrever as empresas com 45 mais de três anos de existência e com mais de cem empregados. O questionário, a que os empregados foram submetidos, era de absoluta confiabilidade, com perguntas que quantificaram sua satisfação em relação aos chefes (superiores), à empresa e aos colegas de trabalho. Numa segunda fase do processo de seleção, os analistas avaliaram o desempenho dos recursos humanos de cada empresa. Por fim, através do conjunto das duas pesquisas é revelada a nota final (ÉPOCA, 2008). Segundo a Época (2008) a empresa campeã no ranking da GPTW é a Chemtech, empresa de consultoria e prestação de serviços em engenharia e tecnologia da informação. Seu presidente é o carioca Luiz Eduardo Rubião, que está no comando de aproximadamente 550 funcionários. Ao ser interrogado o quanto a empresa gasta em treinamentos com seu pessoal, diz: Nós investimos cerca de 5% do nosso faturamento, o que não é pouco se considerarmos que o lucro da empresa é de 8%..., reservamos metade de um andar em nossa sede no Rio de Janeiro para a nossa universidade corporativa. São várias salas de treinamento, que ficam cheias durante 100% do tempo. Oferecemos treinamentos técnicos, comportamentais, MBA e até mestrado. Ter gente capacitada é vital para o nosso negócio (RUBIÃO citado por ÉPOCA, 2008, p. 83). III.II MOTIVAÇÃO: PODEROSA ARMA CONTRA O ESTRESSE NO TRABALHO De acordo com Bergamini e Coda (1990), assim como muitos outros conceitos em psicologia, é no mínimo interessante observar como no dito popular são formados os significados do que seja motivação. Aparentemente todos demonstram saber muito a respeito desse assunto, ancorando-se em opiniões seculares e crenças impregnadas no senso comum, ouvimos expressões do tipo: como devemos agir para motivar as cozinheiras, os chefes... Ou no fim de semana haverá um treinamento motivacional na empresa. Tomando por base o que foi definido por leigos no assunto, atentemos à sua vasta complexidade, de fato, o que é motivação? Os 46 “conjuntos de fatores psicológicos (conscientes ou inconscientes), fisiológico, intelectual ou afetivo, os quais agem entre si e determinam a conduta de um indivíduo”(FERREIRA, 1993, p. 374). Tais suposições foram sendo introduzidas no acervo da sabedoria popular e foram ficando, ficando, e ficando, hoje, infelizmente, fazem parte de premissas ditas como verdade científica. Existe uma enorme confusão, onde as pessoas misturam fenômenos individuais a respeito das ações motivacionais, com aquelas que são simples conseqüência da ação de variáveis existentes no meio ambiente e que nada tem a ver com o aspecto comportamental em questão, pois “a motivação tem sido confundia com tipos de comportamentos que em nada se assemelham àqueles conceitos cientificamente aceitos sobre a motivação humana” (BERGAMINI e CODA, 1990, p. 70). Há um perigo, até certo ponto preocupante, em se reduzir ao mesmo denominador comum tais comportamentos condicionados com outros tipos de ações dos seres vivos. Quando se assume, por exemplo, que seja possível motivar as pessoas, está-se confundindo motivação com condicionamento. Uma vez que se fala em condicionamento, está-se sabendo que, quando as forças condicionantes desaparecem , sejam elas reforçadores positivos ou negativos, essas pessoas param, precisando de novos estímulos para que voltem a movimentar-se nesta mesma ou em qualquer outra direção (BERGAMINI e CODA, 1990, p. 75). É importante se observar que ao dar uma recompensa pelo trabalho feito, num primeiro momento, pode parecer um reforço positivo. Isso ocorre por que o funcionário, acostumado com uma quantia fixa todo mês (salário), agora ele se depara com algo novo, ou seja, está fazendo por onde ganhar “algo mais” pelo mesmo trabalho anterior, portanto, a reação inicial que era positiva começa a ficar ameaçada por que esse bônus se torna uma rotina. Quando se da um prêmio ao funcionário, consequentemente, se tem um efeito colateral, o bem ou o valor monetário embutido nessa recompensa precisará ser substituído por outra ainda maior, acarretando em altos custos para a empresa. Em outras 47 palavras, não se pode motivar as pessoas com incentivos ou promoções, pelo contrário, isso pode ter um efeito extremamente negativo nos outros funcionários que não foram premiados, causando uma divisão interna na empresa (BERGAMINI e CODA, 1990). Mas como se faz para manter uma equipe em seu trabalho todo o tempo motivada, se levando em conta o intenso ritmo de trabalho imposto pelo mercado? Essa foi a pergunta feita pela revista Época (2008) ao presidente da Chemtech, Luiz Eduardo Rubião, que respondeu: É claro que o salário precisa ser bom para o funcionário se sentir melhor. Ele quer ter uma vida digna, decente e confortável, e tem esse direito. A Chemtech paga salários que refletem a sua realidade. Somos totalmente favoráveis ao vínculo formal de emprego pela CLT e evitamos ao máximo buscar no mercado profissionais que atuam como pessoas jurídicas ou autônomas. Por outro lado, nossa política de bônus procura reconhecer os funcionários que apresentam bom desempenho e que contribuem para que a empresa atinja suas metas. Mas eu não vejo o bônus como um fator motivacional por causa do dinheiro e, sim, por que o funcionário sente que está sendo reconhecido e que a empresa percebe a importância do seu trabalho. Nada motiva mais um profissional que ele sentir orgulhoso do projeto no qual está envolvido. Fazer parte da construção de uma refinaria é algo fantástico. É aquele tipo de trabalho que você vai contar para seus filhos e netos com o peito estufado (RUBIÃO citado pela ÉPOCA, 2008, p.84). Com isso, as empresas têm desperdiçado muito tempo e dinheiro na tentativa de oferecer recompensas e benefícios, de igual modo, o ser humano tem sido influenciado por um maciço modelo de comportamento globalizado no mundo do trabalho, que tem seu fundamento na riqueza material, isto se contrapõe veementemente aos princípios de juízo de valor inerentes aos contextos afiliares, sociais e culturais, portanto, se cai na ilusão de que isto motiva o trabalhador. Motivação tem haver com os fatores intrínsecos do indivíduo, fazendo parte do seu desejo, porém os fatores que estão fora das pessoas só podem ser entendidos como reforçadores de comportamento, sendo possível serem condicionáveis e não motiváveis (BERGAMINI e CODA, 1990). 48 Não há dúvidas de que pagar para que se tenha um melhor desempenho seja aparentemente mais fácil e simples. Sendo desta forma, os empresários se sentem desiludidos quando percebem que programas concebidos com a finalidade de remunerar (através de bônus para esse fim) aqueles que tenham estado abaixo ou acima da média, de uma forma ou de outra, perderão a qualidade do desempenho obtido. Isso tem ligação direta com o superior, pois o tipo de relação estabelecida entre os empresários e os funcionários também irá afetar no desempenho motivacional da organização. Na relação de chefia, é exercido o poder de forma hierárquica, caracterizando o chefe àquele que faz uso de constantes premiações e recompensas, objetivando o retorno positivo imediato dos seus “súditos” pensando erroneamente que está “motivando-os”. Em contra partida, o líder evita tal prática, tendo uma relação mais amistosa com seus colaboradores (funcionários), sempre pensando no coletivo, o líder se preocupa em fazer com que seus seguidores não percam a motivação, isso acarreta em valorizar as forças motivacionais em ebulição no interior de cada um, sendo assim, dificilmente o estresse terá lugar nesta relação do Homem com o trabalho, proporcionando melhor lucratividade para o empresário e melhor qualidade de vida para o trabalhador (BERGAMINI e CODA, 1990). CONSIDERAÇÕES FINAIS 49 É importante ressaltar que é no campo profissional que o estresse pode atuar de forma mais intensa e, como vimos, pode causar diversos prejuízos à organização e ao Homem. É importante se ter uma manutenção das reações de cada indivíduo dentro do seu ambiente de trabalho, com o gerenciamento do estresse. Com base nesta realidade no ambiente de trabalho humano, o estresse pode se apresentar como responsável às exigências do dia-a-dia que interferem na subjetividade e compromete a qualidade de vida. Para o Ministério da saúde (2008) o estresse é uma epidemia global. Vivemos num tempo de enorme exigência de renovação, somos constantemente chamados a lidar com novas informações. O homem cada vez mais se vê diante de inúmeras situações às quais precisa adaptar-se. Ao se perceber, isoladamente, a permanência solipsista de análise do trabalho, o conceito de atividade é suficiente. Porém, quando nos deslocamos ao nível da dimensão coletiva do trabalho e passamos para o registro da distância entre a organização do trabalho real prescrita do trabalho, é necessário abraçarmos os elos intermediários da libertação coletiva, da confrontação de opiniões e do espaço de discussão. A atividade coletiva que se desenvolve nesse nível não decorre da aplicação do conhecimento experimental. Passa-se por uma atividade propriamente forçada, isto é, de construção de normas, regras e valores, sem os quais não há trabalho nas condições sociais e históricas das sociedades industriais modernas. Para concluir, qualquer trabalhador sabe que as exigências impostas pelas empresas são importantes fontes de estresse em nossa contemporaneidade. As saudações como: “bom dia”; “tenha um ótimo fim de semana”; “vamos chegar ao entendimento?”. Estão se esgotando e sendo 50 substituídas cada vez mais pelas: “precisamos do projeto para ontem!”; “esse mês temos que bater a meta de qualquer jeito”; “a barca vai passar na semana que vem”. De Segunda a Sexta, em alguns casos até os Sábados, prazos, emergências, relações diárias com superiores que regem a vida dos empregados de todos os níveis hierárquicos. Antigamente, nas sociedades reconhecidas como não civilizadas as pessoas competiam umas com as outras sob forma brutal, a violência física era o cargo chefe para se garantir a sobrevivência. Hoje somos uma sociedade que não aceitamos mais a violência física, há um controle através das leis e dos códigos sociais, porém testemunhamos de uma nova forma de violência, ela é invisível ainda por que muitos a ignoram, a saber, é a violência psicológica. Sendo mais sutil e indireta, cujos resultados são exatamente iguais; no fim das contas, do mesmo jeito o ser humano está sofrendo, adoecendo e até morrendo em função dela. Em curtas palavras, isso se dá pelo surgimento do estresse na relação do Homem com o trabalho. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICA 51 ARANTES, M. A. A. C. & VIEIRA M. J. F. Estresse, São Paulo: Casa do psicólogo, 2002. ARRUDA, J. J.A. Revolução industrial e capitalismo, São Paulo: Brasiliense, 1986. BERGAMINI, C. W. e CODA. R. Psicodinâmica da vida organizacional, São Paulo: Pioneira, 1990. CAMUS, R. O mito de Sísifo, tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. CHIAVENATO, I. Introdução a Teoria Geral da Administração. 7ª ed. 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