Proposta de um Modelo de Análise do Processo de Comunicação Organizacional a
partir das Proposições da “Escola de Montreal”
Autoria: Adriana Machado Casali
Resumo
Neste artigo apresenta-se uma proposta de análise dos processos de comunicação
organizacional inspirada em conceitos elaborados no âmbito da “Escola de Montreal”, uma
corrente de pensamento que explica as organizações por meio da comunicação. Para tanto,
são descritas as origens históricas, os pressupostos básicos e duas das principais proposições
teóricas dessa escola: a teoria da co-orientação e a dinâmica texto/conversação. A partir
dessas formulações, apresenta-se o modelo proposto, no qual compreende-se o processo de
comunicação organizacional como uma série de interações entre agentes em relação a um
objeto, as quais constroem a realidade social a medida que definem e redefinem as relações
entre sujeitos, bem como as relações sujeito/objeto, quer por meio da dinâmica
texto/conversação, quer pela contínua alternância entre instâncias de constituição e de
transmissão de significados.
Introdução
O objetivo deste artigo é apresentar um modelo do processo de comunicação
organizacional construído a partir dos estudos da “Escola de Montreal”. Nesta proposta
conceitual, a comunicação organizacional é analisada não apenas sob seu aspecto funcional,
mas também sob seu caráter constitutivo das ações organizacionais. Tal compreensão, de
natureza predominantemente interpretativa, é pouco explorada no Brasil (BLINKSTEIN;
ALVES; GOMES, 2004).
Inicialmente, apresenta-se a “Escola de Montreal” evidenciando seu diferencial como
perspectiva pioneira no desenvolvimento de uma teoria comunicacional das organizações.
Preocupada em explorar a equivalência entre comunicação e organização, esta corrente de
pensamento da comunicação organizacional investiga a emergência das organizações pela
comunicação. A exposição das contribuições teóricas da “Escola de Montreal” realizada não é
extensiva e limita-se as formulações que possibilitam a construção do modelo de análise dos
processos de comunicação organizacional formulado neste artigo. Tal modelo é uma das
diversas leituras possíveis a partir das contribuições da “Escola de Montreal”, além de ser
uma síntese de suas principais formulações.
1. A “Escola de Montreal”
A “Escola de Montreal” é uma abordagem da comunicação organizacional ainda
pouco conhecida no Brasil mas amplamente difundida na América do Norte, Europa e
Oceania. A princípio esta designação referia-se ao fato de que a maioria dos pesquisadores
afiliados a esta corrente de pensamento concentravam-se no Departamento de Comunicação
da Universidade de Montreal. Com efeito, esta perspectiva desenvolveu-se no programa de
doutorado deste departamento, sobretudo pelo trabalho pioneiro de James Taylor, seus
estudantes e colegas, dentre eles: Carole Groleau, Daniel Robichaud, François Cooren,
Hèlene Giroux, Loren Lerner, Lorna Heaton, Mulamba Katambwe e Nicole Giroux
(FAIRHURST; PUTNAM, 1999; TAYLOR, 2000; TAYLOR, 2006).
A denominação “Escola de Montreal” vem sendo institucionalizada a medida que é
utilizada em publicações científicas (ANDERSON; BAXTER; CISSNA, 2004; HEATON et
al, 2004; MAY; MUMBY, 2005; COOREN; TAYLOR; VAN EVERY, 2006; MUMBY,
2007). No entanto, esta escola “ não está mais localizada em uma cidade em particular, mas
constitui uma rede de pesquisadores localizados em diversos países e cinco continentes, todos
envolvidos pela mesma busca: descobrir como a organização emerge da comunicação”
(TAYLOR, 2006, p. 12, tradução livre).
A “Escola de Montreal” oferece uma perspectiva única da comunicação
organizacional porque propõe uma teoria comunicacional das organizações. Essa abordagem
diferencia-se pela construção de uma teoria das organizações baseada na comunicação, bem
como uma teoria da comunicação centrada nas organizações. Suas investigações se voltam
para a emergência das organizações pela comunicação, considerando aspectos subjetivos e
objetivos desse processo, atribuindo igual valor a manifestações lingüísticas e materiais. Tais
análises permitem a compreensão da gênese das organizações, sua permanência e
transformações no tempo e no espaço.
Com a finalidade de contextualizar a apresentação dos construtos teóricos da “Escola
de Montreal”, a serem utilizados posteriormente, serão expostas a seguir as origens históricas
desta corrente de pensamento, o pressuposto de base de suas análises e as proposições teóricas
que orientam o presente trabalho.
1.1 Origens Históricas
O surgimento da “Escola de Montreal” não está dissociado da evolução das pesquisas em
comunicação organizacional. A comunicação organizacional é um campo de investigação híbrido,
que se situa na interseção das ciências administrativas e da comunicação (GIROUX, 1994;
LARAMÉE, 1993). Ambos, comunicação e administração, são domínios de conhecimento
interdisciplinar formados por heranças de múltiplas ciências sociais, tais como: Sociologia,
Psicologia, Filosofia, Economia, entre outras. Situada nas fronteiras de suas disciplinas de origem,
a comunicação organizacional é uma disciplina em desenvolvimento (TAYLOR, 2004).
Os estudos em comunicação organizacional, praticamente iniciam com os estudos em
administração, tanto que Fayol (1949) sublinha em seus princípios administrativos, que as
comunicações deveriam ser mantidas dentro da cadeia de comando. Até a década de 1950 os
estudos estavam voltados à “comunicação empresarial e industrial” e aos poucos
consolidaram-se como campo acadêmico (LARAMÉE, 1993). No entanto, a busca pela
cientificidade tornou-se extrema, a tal ponto que as décadas de 1960 e 1970 foram
identificadas como um período de hegemonia ‘tirana’ por utilizar critérios extremamente
limitados do que era considerado ‘pesquisa significativa’ (MUMBY, 2000). Até a ‘revolução’
crítico-interpretativa do início da década de 1980 (TAYLOR et al., 2000; TOMPKINS;
WANCA-THIBAULT, 2001), tradições positivistas eram o modo de pesquisa dominante em
comunicação organizacional (MILLER, 2000).
No final dos anos 80, ao mesmo tempo em que a área ainda buscava a conceituação do
seu objeto de estudo tradicional, também procurava maneiras de acomodar estudos
emergentes (TOMPKINS; WANCA-THIBAULT, 2001). Por esta razão a discussão de
paradigmas em ciências sociais proposta por Burrell e Morgan (1979) encontrou grande
receptividade entre os pesquisadores em comunicação organizacional, pois legitimou
programas de pesquisa fundamentalmente diferentes e permitiu o desenvolvimento de
diferentes critérios de avaliação dessas pesquisas (DEETZ, 2001). A distinção entre os
paradigmas funcionalista, interpretativo, estruturalista-radical e humanista-radical
(BURRELL; MORGAN, 1979) adquiriu prestígio e tradição, sendo utilizada como referencial
em diversos estudos sobre a pesquisa em comunicação organizacional (PUTNAM, 1982;
1983; SMIRCICH; CALÁS, 1987; MILLER, 2000; DEETZ, 2001).
Os anos 80 e 90 foram marcados pela incomensurabilidade entre os paradigmas
(CORMAN; POOLE, 2000), onde prevalecia a crença de que “cada paradigma deve,
logicamente, desenvolver-se separadamente, perseguindo sua própria problemática, ignorando
as problemáticas de outros paradigmas, considerando-os inválidos” (JACKSON; CARTER,
apud CLEGG; HARDY, 1999, p. 33). Após este período de incomensurabilidade, as
pesquisas em comunicação organizacional iniciam o século XXI com uma teoria
2
comunicacional dos processos organizacionais (TOMPKINS; WANCA-THIBAULT, 2001).
É nesta acepção que se destacam os trabalhos da “Escola de Montreal”.
O desenvolvimento da “Escola de Montreal” coincide com um período de intensas
mudanças na academia e no universo das organizações (TAYLOR, 2006). No ambiente
acadêmico, os pesquisadores afastam-se da pesquisa positivista e passam a utilizar métodos
relativistas para compreender os significados das ações sociais sob a ótica dos atores sociais.
Propagam-se idéias oriundas da etnografia, fenomenologia, semiótica e hermenêutica,
principalmente a partir do histórico encontro de 1981 em Alta, Utah (TOMPKINS; WANCATHIBAULT, 2001) e do lançamento do livro “Communication and organizations: an
interpretive approach” de Putnam e Pacanowsky (1983). Assim, a “Escola de Montreal”
desenvolve-se sob a luz do movimento interpretativo, influenciada pelas obras Garfinkel,
Goffman, Berger e Luckmann, entre outros.
No mundo dos negócios, conceitos tradicionais começavam a ser questionados
(TAYLOR, 2006). As organizações experimentavam profundas mudanças em seus processos
de gestão e produção em função da turbulência ambiental advinda da globalização, do
desenvolvimento tecnológico e do aumento da competitividade, e atravessam.
Neste ambiente de mudanças surge a “Escola de Montreal”. Como nenhuma corrente
de pensamento está isenta do contexto sócio-histórico, político e cultural em que se origina, a
“Escola de Montreal” é fiel a sua procedência Canadense, em particular do Quebec. O
arcabouço teórico que fundamenta suas pesquisas é uma síntese da produção intelectual
encontrada na Europa e nos Estados Unidos. Dentre as influências européias se encontram a
Teoria da Tradução de Michel Callon, a Sociologia do Conhecimento Científico de Bruno
Latour, a Teoria da Atividade de Yrjö Engeström, a Teoria da Estruturação de Anthony
Giddens, a noção de linguagem como ato performativo do inglês John Austin, a semiologia do
suíço Ferdinand de Saussure, entre outros. A herança norte-americana pode ser identificada
pela inspiração nas obras do geógrafo e economista canadense Harold Adams Innis, no
Pragmatismo americano, na Teoria dos Atos da Fala de John Searle, na Análise do Discurso,
na Cibernética e na Psicologia Social. Esta fusão conceitual gerou uma concepção teórica
distinta da comunicação organizacional com ênfase na linguagem e no discurso sem
abandonar os aspectos objetivos e materiais da realidade.
1.2 O Pressuposto Básico
Genericamente é possível afirmar que o objeto de estudo da comunicação organizacional é
a relação comunicação/organização. Deetz (2001) sugere três concepções de comunicação
organizacional: a primeira enquanto área particular de especialização ou de pesquisa; a segunda
concepção foca a comunicação como um fenômeno que existe nas organizações; por fim, a
terceira perspectiva parte da comunicação para descrever e explicar as organizações. De forma
similar, Smith (apud PUTNAM; PHILLIPS; CHAPMAN, 1996) apresenta três relacionamentos
entre organizações e comunicação: containeri, produção e equivalência.
No relacionamento do tipo container, a comunicação é uma variável da estrutura
organizacional, um elemento das organizações. Logo, sob esta perspectiva investiga-se a
“comunicação nas organizações”. Deetz (2001) explica que, nesta análise objetiva, a
organização é reduzida a um ‘local’, e a comunicação limita-se à interação social,
conceitualmente reduzida a atos empíricos de transferência de informação, o que é o mínimo
denominador (ou dominador) em comunicação organizacional.
Por outro lado, a noção de “comunicação como organização” engloba duas formas de
relacionamento entre comunicação e organizações: produção e equivalência (PUTNAM;
PHILLIPS; CHAPMAN, 1996). A relação de produção examina a forma como as
organizações produzem comunicação, ou como a comunicação produz as organizações, ou
3
ainda a co-produção de ambos. Não existe organização sem comunicação e não existe
comunicação sem organização. Surge assim, o dilema da precedência de um em relação ao
outro, ou do desenvolvimento concomitantemente.
A relação de equivalência postula uma mudança radical no relacionamento
comunicação/organização. Esta abordagem trata comunicação e organização enquanto
processos isomórficos (PUTNAM; PHILLIPS; CHAPMAN, 1996). Isto é, comunicação é
organização, assim como, organização é comunicação. Segundo Fairhurst e Putnam (1999), o
trabalho de Taylor e seus colegas explora a equivalência entre comunicação e organização.
Taylor (2006) também identifica-se com este pressuposto básico. De acordo com Taylor e
Cooren (1997), a existência de todo sistema de organização social humano é condicional à
comunicação, assim como tal sistema é uma estrutura na qual a comunicação ocorre. As
organizações não apenas constituem-se pela comunicação, mas também se expressam em
comunicação (TAYLOR; COOREN, 1997).
Desta forma, o pressuposto básico da “Escola de Montreal” é a equivalência entre
comunicação e organização. Como afirma Taylor (2004), a comunicação está na organização,
assim como a organização está na comunicação. Um ato de comunicação envolve a
organização de palavras, idéias, conceitos ou outros elementos de expressão oral ou corporal,
este arranjo por si só comunica a compreensão dos elementos organizados. Segundo Taylor e
Cooren (1997), a comunicação organizacional é universal, pois não existe comunicação que
não organize ou organização que não comunique.
1.3 Proposições Teóricas
Partindo do desafio de explorar a equivalência entre comunicação e organização a “Escola
de Montreal” desenvolve uma proposta teórica única da comunicação organizacional.
Primeiramente, a “Escola de Montreal” entende a comunicação como algo mais que a simples
transmissão de mensagens. Em segundo lugar, esta abordagem recusa a idéia de que organizações
são realidades dadas, entidades materiais, cuja existência tem prioridade sobre a ação social.
O pensamento da “Escola de Montreal” incorpora a análise interpretativa dos
fenômenos sociais como processos simbólicos. Sob esta ótica as organizações são construções
plurais instituídas nas práticas cotidianas de seus membros. Ao compreender as organizações
como sistemas de indivíduos em interação ativamente envolvidos em processos de criação e
re-criação de uma organização social original, é possível reconhecer como a comunicação
perpassa todas as práticas organizacionais.
Segundo Tompkins e Wanca-Thibault (2001), Taylor e Van Every (1993; 2000), assim
como Weick (1979, 1995)ii, propõem uma reconstrução da teoria das organizações com base
na comunicação. Primeiramente, as proposições teóricas destes autores reduzem a prioridade
conceitual da separação entre organizações e seu ambiente, identificando práticas discursivas
como a principal característica do relacionamento entre organizações e seu contexto
ambiental. Em segundo lugar, estes autores advogam uma abordagem da relação organizaçãoambiente enraizada em práticas e processos discursivos. Weick (1979, 1995) sugere que o
ambiente é decretado por indivíduos e organizações a medida que estes percebem,
selecionam, interpretam e armazenam alguns aspectos de suas experiências. Taylor (2004;
TAYLOR; VAN EVERY, 2000) sugere que indivíduos e organizações não apenas criam os
ambientes em que atuam, mas criam também as próprias organizações. Assim sendo, a
“Escola de Montreal”, assim como Weick (1979, 1995), tem como objeto de estudo o
contínuo processo de organização (organizing).
Muitas das investigações da “Escola de Montreal” são guiadas por uma pergunta de
pesquisa aparentemente elementar: “O que é uma organização?”. A resposta, supostamente
simples, é a de que uma organização é um tecido de comunicação (TAYLOR, 1988). No
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entanto, a compreensão das organizações como atores sociais acrescenta certa complexidade a
esta questão. O agir organizacional é resultado dos processos de comunicação. Por meio da
comunicação indivíduos e organizações são investidos de agenciamento. Ao comunicar e
meta-comunicar (ROBICHAUD; GIROUX; TAYLOR, 2004) os indivíduos tornam-se
representantes de interações passadas, de grupos e organizações, sendo capazes de agir em
nome dessas interações. Desta forma o que normalmente é designado como ação
organizacional é uma ação individual legitimada por processos de comunicação. A medida
que a comunicação se realiza, esta produz organização e a organização se concretiza pela
comunicação.
Para compreender as organizações e suas ações, desenvolveram-se diversas
proposições teóricas no âmbito da “Escola de Montreal”. Serão detalhadas a seguir a teoria da
co-orientação e a dinâmica texto/conversação, pois estes construtos são a base da modelagem
do processo de comunicação organizacional apresentada neste artigo.
1.3.1 Teoria da Co-orientação
Uma das proposições da “Escola de Montreal” é de que a unidade mínima de
comunicação e organização é a co-orientação, representada pela relação A/B/X (figura 1). Tal
relação é a unidade básica de análise da comunicação organizacional. Segundo Taylor e Van
Every (2000) a co-orientação representa uma relação de troca, onde no mínimo dois agentes
(A/B) tem sua atenção focada em um mesmo objeto X. Agentes são indivíduos ou
organizações que utilizam recursos de linguagem para interagir. Os objetos de comunicação
representam elementos do ambiente material e social passíveis de interpretação e que
incorporam significados.
A
B
X
Figura 1: Sistema de Co-orientação
Fonte: Adaptado de Taylor et al (2001)
A noção de A/B/X enquanto um sistema de comunicação é original de Newcomb
(1953). Alguns poderiam interpretar superficialmente essa unidade de comunicação e supor
que essa relação representa apenas uma releitura do modelo formal de Shannon e Weaver
(1949) onde uma fonte A envia uma mensagem X para um destinatário B. A noção clássica da
comunicação como um processo onde emissores e receptores operam codificações e
decodificações de mensagens transmitidas por veículos/meios de comunicação restringe-se
aos aspectos simbólicos da comunicação. Todavia, a comunicação é tanto simbólica como
subsimbólica (TAYLOR; VAN EVERY, 2000).
Segundo Taylor e Van Every (2000), em um sistema simbólico,
a comunicação serve como meio pelo qual o pensamento das pessoas, transcrito em
forma escrita ou falada (o que é geralmente denominado mensagens e textos), pode
ser transferido por algumas pessoas para outras pessoas para que elas os interpretem
e encaixem em sua estrutura de referências. Este conceito de comunicação é
conhecido como teoria da transmissão (p.3, tradução livre).
O aspecto simbólico da comunicação diz respeito à representação e evidencia seu
caráter referencial (ao se comunicar os indivíduos fazem referência, dentre outros, a fatos,
objetos e conceitos preexistentes) (TAYLOR; VAN EVERY, 2000). No entanto, a dimensão
simbólica da comunicação não considera o relacionamento existente entre A e B, tampouco o
contexto no qual a comunicação se produz. Contudo, a dimensão subsimbólica da
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comunicação refere-se à produção de conhecimento, evidenciando a importância da
comunicação nos processos de construção da realidade social (contexto) e de constituição da
identidade do ser, do outro e da sociedade (relação entre A e B).
No aspecto subsimbólico, a comunicação possibilita que, em conjunto, as pessoas
possam construir conhecimento interativamente, o qual torna-se propriedade comum e não
pode ser definido como realização individual de nenhum dos membros da interação que o
produziu. Nenhum participante da interação seria capaz de compreender individualmente a
situação. A apreensão da realidade é um processo social que se desenvolve coletivamente pela
comunicação (TAYLOR; VAN EVERY, 2000). Desta forma, informações também são fruto
de interações sociais. Informações não são apenas transportadas em processos de
comunicação, mas, acima de tudo, são construídas por processos de comunicação (TAYLOR;
VAN EVERY, 1993).
A comunicação é sempre social, tanto em sua forma simbólica como subsimbólica,
pois envolve processos sociais de representação e produção de conhecimento. A comunicação
em sua dialética simbólico/subsimbólico está presente na essência de todas as manifestações
sociais (TAYLOR; VAN EVERY, 2000). Como sugerem Conrad e Poole (2002), a
comunicação é um processo pelo qual os indivíduos, atuando conjuntamente, criam, mantém
e geram significados por meio de signos e símbolos verbais e não-verbais em um contexto
particular.
Nos estudos da “Escola de Montreal” o contexto de análise da comunicação é o
organizacional. De fato, uma característica marcante da modernidade é a vida organizacional,
o que Etzioni (1962, 1964) identificou como “sociedade organizacional”. Segundo Deetz
(1992), as organizações tornaram-se uma instituição central da sociedade. Como afirma
Boden (1994), as organizações formam a matriz da sociedade. Assim sendo, os pesquisadores
da “Escola de Montreal” transformaram o sistema de comunicação de Newcomb (1953), em
um sistema organizacional e desenvolveram a noção de co-orientação como pedra
fundamental de todas as estruturas e processos organizacionais (TAYLOR; VAN EVERY,
2000; TAYLOR et al, 2001; TAYLOR; ROBICHAUD, 2004).
Considerando a definição primária de organizações como “duas ou mais pessoas
trabalhando juntas e de modo estruturado para alcançar um objetivo específico ou um
conjunto de objetivos” (STONER; FREEMAN, 1994, p. 4) percebe-se o cunho organizacional
da relação A/B/X, onde agentes A/B interagem na persecução do objetivo X. Por exemplo,
esta relação pode simular a interação entre comprador e vendedor na negociação de um
produto/serviço, ou de dois departamentos na definição de um projeto. Segundo Motta e
Perreira (1991) organizações são sistema sociais racionais e a racionalidade é a relação lógica
entre meios e fins. A unidade A/B/X também representa uma relação de meios e fins, entre
agentes e beneficiários onde os meios de uns constituem os fins dos demais (TAYLOR,
2006).
Para co-orientarem suas ações em torno de um objeto comum X, os agentes A/B
simultaneamente articulam aspectos subjetivos e objetivos o seu universo de ação (figura 2).
Segundo Taylor e Robichaud (2004),
para formar uma unidade organizacional os indivíduos precisam alinhar as formas
pelas quais eles manipulam o mundo objetivo enquanto, simultaneamente, situam-se
no mundo social. Se estes indivíduos estão simplesmente envolvidos em uma ação,
mas não possuem uma orientação em comum, eles não estão organizados (p.401,
tradução livre).
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Ambiente de
linguagem
A
B
X
Ambiente
material/social
Figura 2: Modelo de co-orientação
Fonte: Adaptado de Taylor e Robichaud (2004)
A teoria da co-orientação reconhece a intersubjetividade das relações entre sujeitos
(A/B), mas também ressalta que a comunicação possui um objeto material/social (X), sendo
que estes três agentes desempenham papéis equivalentes nos processos de comunicação. As
interações humanas possuem sempre um objeto social ou material: quem fala, fala de alguém
ou de alguma coisa. Na dinâmica A/B/X os mundos objetivos e subjetivos interagem. Ao
comunicar os sujeitos recorrem a um universo lingüístico que permite a leitura e interpretação
dos objetos materiais e sociais. Mas assim como os sujeitos agem sobre o mundo objetivo, o
mundo objetivo também age sobre os sujeitos. O ambiente é então resultado e condição das
constantes interações entre agentes humanos e não-humanos (CALLON, 1986;
ENGESTRÖM, 1987; LATOUR, 1991, 1994).
Para que qualquer tarefa organizacional possa ser realizada, os atores nela envolvidos
devem possuir um foco único e comum (TAYLOR et al, 2001). Segundo estes autores, em um
processo de co-orientação os agentes podem ser individuais ou coletivos; as propriedades da
co-orientação repetem-se em qualquer escala, como um fractal; e as relações de agenciamento
criadas pela co-orientação tendem à imbricação, isto é, uma organização representa a
sobreposição de diversas unidades relacionais A/B/X.
Quando A/B/X torna-se uma unidade e passa a interagir com outros agentes em
relações da mesma natureza, ocorre uma imbricação de relações que se sucedem e geram as
organizações. Por exemplo: uma relação A/B/X se forma quando o diretor de marketing (A)
reúne-se com o diretor de produção (B) para discutir a demanda de um produto e definir o
programa de produção do mês seguinte (X). Após esta reunião tanto A como B passarão a
representar a interação em que definiram X. Cada qual dentro da sua especialidade, passa a
agir em nome da interação anterior em outras interações. Seguindo o exemplo, o diretor de
marketing A vai interagir com seu chefe de vendas (C) sobre as formas de comercialização
(Y) do volume produzido X. A relação A/C/Y não só possui as mesmas características da
unidade relacional A/B/X, como a relação A/B/X encontra-se imbicada em A/C/Y uma vez
que A está agindo em nome da interação original. As atividades organizacionais são, portanto,
sucessivas imbricações de interações de dois agentes A/B em relação a um objeto comum X.
Em função da imbricação, múltiplas interações A/B/X aumentam em escala e formam
organizações, pois agentes e objetos passam a representar interações anteriores. Retomando o
exemplo acima, o programa de produção (X) estabelecido entre A e B, pode ter agenciamento
próprio, deixando de ser objeto e assumindo o papel de agente em outras interações. Isto pode
ocorrer quando o programa de produção (X) é formalizado e afixado em um quadro mural, e
em torno dele se reúnem os operadores de máquina D e E para definirem Z (a produção diária
dos seus respectivos turnos).
Desta forma, a teoria da co-orientação explica como as organizações são permeadas
por processos de comunicação, pois a maioria das atividades diárias dos indivíduos nas
organizações envolvem comunicações, ou melhor, agentes (A/B) interagindo com vistas a um
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objetivo (X). Reuniões, conversas ao telefone, negociações, contatos pessoais, apresentações,
memorandos, relatórios, isto sem mencionar as novas tecnologias de comunicação e
informação que permeiam o dia-a-dia das atividades organizacionais.
Por vezes, as empresas imaginam trabalhar bem a comunicação organizacional porque
possuem um sofisticado aparato instrumental para realizá-la. No entanto, qualquer instrumental é
inócuo quando seu conteúdo não o justifica. Como salienta Marcondes Filho (2004), no século XXI
os indivíduos dispõem de uma variedade de tecnologias de comunicação e informação, mas
comunicam-se cada vez menos. Isto porque, comunicação implica compartilhar significados e não
apenas transmitir informações. Embora os indivíduos recebam um significativo volume de
informações, a comunicação se realiza apenas quando tais informações adquirem sentido para esses
indivíduos, ou seja, quando os agentes em interação A/B constroem objetos comuns X.
Sendo assim, a teoria da co-orientação elucida a forma pela qual a comunicação deixa
de ser instrumental e torna-se elemento constitutivo das organizações na construção e
compartilhamento de significados. Por meio da imbricação de diversas unidade relacionais
A/B/X observa-se a emergência das organizações pela comunicação.
Em função de suas raízes interpretativas, a teoria da co-orientação reconhece a
realidade social como um processo simbólico continuamente criado e recriado. A premissa
básica é de que o mundo social é interativo, dinâmico e emergente, definido a partir das
práticas que o constituem. Quando o objeto de análise social é o fenômeno organizacional,
observamos que organizações são constituídas por práticas comunicativas. A construção e a
reconstrução das organizações se dá a medida que unidades relacionais A/B/X são imbricadas
e formam um tecido de interações permeadas pela comunicação. A teoria da co-orientação,
assume que nas interações A/B/X o uso da linguagem produz organização e que a
comunicação se torna uma instância de produção de sentidos, agenciamento e posicionamento
social, ao mesmo tempo que atua sobre o mundo material.
1.3.2 Dinâmica Texto/Conversação
Na seção anterior foi apresentado o exemplo de um programa de produção que adquire
agenciamento a partir de sua formalização. Tal exemplo, além de ilustrar como um objeto
torna-se representante da relação de co-orientação que o gerou, demonstra que as interações
A/B/X manifestam-se de duas maneiras, por meio de textos e conversações. Conforme Taylor
e Robichaud (2004) a co-orientação é mediada por textos e realizada por meio de diálogos, os
quais podem se manifestar sob a forma de conversações.
Conversações representam a essência dos processos “organizantes”. Para Boden (1994) a
estrutura seqüencial das conversações constitui o lócus primário da ação organizacional. Enquanto
as manifestações lingüísticas produzem-se essencialmente em interações, as conversações tornaramse unidades de análise da comunicação e das organizações. Segundo Boden (1994), as conversações
organizacionais tanto modelam como são modeladas pela estrutura organizacional. Ações
organizacionais são realizadas por meio de conversações e são criadas em seu contínuo dinamismo.
Conversações não são apenas conversas, são um modo e um meio pelo qual as estruturas
organizacionais são constituídas e reconstituídas, definindo um sistema organizacional.
Conversações são o lócus empírico das ações organizacionais (BODEN, 1994).
As conversações ocorrem em múltiplos níveis, localizadas e realizadas
simultaneamente em diversas instâncias de intercâmbio verbal. Conversações são intensivas,
em sua orientação local, e extensivas, pois o sangue das organizações flui por meio delas.
Desta forma, conversações diárias e os negócios que se realizam por meio delas são
duplamente contextuais. Conversações criam sua própria lógica local a medida que os
interlocutores se revezam em suas intervenções. Ao mesmo tempo, as interações diárias criam
contextos e interpretam contingências nas quais futuras ações irão se desenvolver. As
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propriedades “organizantes” das organizações são localizadas na organização das
conversações que nelas se produzem e que as produzem (BODEN, 1994).
Apesar de extremamente ricas, as considerações de Boden (1994) se limitam às
interações verbais produzidas em conversações. No entanto, a comunicação não se restringe a
intercâmbios conversacionais. Ampliando essa análise Taylor e Van Every (1993; 2000)
apresentam o modelo bi-dimensional texto/conversação. Para estes autores, conversações
compreendem o universo total de interações compartilhadas por linguagem das pessoas que em
conjunto identificam-se com uma determinada organização. A noção de texto é empregada para
capturar a simples idéia de que discursos são construídos por palavras e frases coordenadas de
maneira mais ou menos sistemática, para produzir uma expressão de linguagem coerente e
compreensível (TAYLOR; VAN EVERY, 2000). Textos representam conversações
cristalizadas, estruturadas e inscritas em um discurso. No entanto, os textos podem ser
constantemente questionados por novas conversações, ou modificados em função de novas
interpretações decorrentes de sua equivocidade. Esta noção é representada na figura abaixo.
Conversações
Texto 1
Figura 3: Dinâmica texto/conversação
Fonte: Adaptado de Taylor et al. (1996)
Texto 2
A dinâmica texto/conversação representa um processo contínuo e circular em que
conversações transformam-se em textos e textos são traduzidos em conversações (TAYLOR
et al., 1996). As organizações emergem desta dinâmica e são resultado destas traduções.
Neste processo a comunicação é simultaneamente o contexto de emergência e o local de
manifestação das organizações. Assim, Taylor e Van Every (2000) definem organizações
como uma “forma de vida”, um modo de estruturar o mundo social e cultural para produzir
um ambiente onde estas formas expressam a vida social e criam o contexto para que elas se
desenvolvam.
A comunicação organizacional representa o contínuo fluxo de textos e conversações.
Neste fluxo, se produzem artefatos materiais e se reproduzem as estruturas sociais que
constroem o ambiente. Assim, as organizações integram universos objetivos e subjetivos.
Como expressam Clegg e Hardy (1999 p. 30-31)
organizações são objetos empíricos [...], uma ‘organização’ com recursos e
capacidades específicos, constituída de regras; com uma linha demarcatória
imaginária que a define com rigor mais ou menos impreciso; com uma história, com
funcionários, clientes, vítimas e outros agentes interessados. Entretanto, essas
fronteiras, regras, história, agentes devem ser acionados e interpretados, se o
objetivo for a formação de uma base para a ação
Logo, segundo duas das principais formulações da “Escola de Montreal”, as
organizações resultam tanto da dinâmica texto/conversação, bem como da imbricação de
unidades relacionais A/B/X. Para compreender como o processo de comunicação
organizacional se realiza e assim cria e recria as organizações, apresenta-se a seguir uma
proposta de modelação deste processo.
2. Modelo do Processo de Comunicação Organizacional
A presente análise dos processos de comunicação organizacional fundamenta-se nos
conceitos da “Escola de Montreal” apresentados anteriormente. A articulação destes
elementos teóricos foi contrastada com dados empíricos oriundos de uma pesquisa (CASALI,
9
2006) realizada sob os princípios da grounded theory (GLASER; STRAUSS, 1967). A
modelação é a quinta etapa da análise dos dados na grounded theory, (PAILLÉ, 1994). A
modelagem representa as formas pelas quais são relacionadas e integradas as categorias de
análise dos dados empíricos e referenciais teóricos. Definiu-se, nessa análise, que os
processos de comunicação organizacional constituem uma série de interações entre agentes
em relação a um objeto, as quais constroem a realidade social. Essa construção ocorre a
medida que as interações definem e redefinem as relações entre sujeitos, bem como as
relações sujeito/objeto, quer por meio da dinâmica texto/conversação, quer pela contínua
alternância entre instâncias de constituição e de transmissão de significados, conforme
esquematizado na figura 4, comentada a seguir.
PROCESSO DE COMUNICAÇÃO:
Processo contínuo de criação, manutenção e transformação do coletivo
CONCEPÇÃO/TRADUÇÃO/REALIZAÇÃO
Conversações
Ambiente de
linguagem
A
B
Texto 1
Texto 2
X
Ambiente
material/social
Sensemaking Sensemaking
Sensegiving
Sensegiving
Sensemaking
Sensegiving
Figura 4 – O processo de comunicação organizacional
Fonte: Síntese elaborada pela autora
Detalhando a figura apresentada acima, o conceito primário desta análise é o de que os
processos de comunicação organizacional são constituídos por uma série de interações. Esta
série é representada pela linha pontilhada, na qual cada ponto corresponde a uma interação.
Na microanálise de um ponto específico, observa-se que cada interação refere-se à coorientação, unidade mínima de comunicação e de organização, onde, no mínimo, dois agentes
A/B interagem em relação a um objeto X (TAYLOR; VAN EVERY, 2000).
A interação entre A/B/X define, ou seja, organiza a relação entre sujeitos, bem como
as relações sujeito/objeto. Ao organizar as relações entre A/B/X, a comunicação atribui
capacidade de agenciamento tanto a sujeitos como a objetos. A co-orientação entre A/B/X
representa uma unidade relacional em que os agentes exercem influência mútua no processo
de intercâmbio e construção de significados. Assim, a análise da comunicação organizacional
concentra-se na identificação dos agentes do processo de comunicação (A/B/X), e não nos
papéis que esses agentes desempenham. Pois, os agentes alternam-se nos papéis de emissores,
receptores, meios e mensagens, ou esses papéis podem mesclar-se durante o processo de
comunicação.
10
A interconexão e interdependência entre os agentes do processo comunicativo
constitui a base das ações organizacionais. Agentes e objetos possuem igual capacidade de
agenciamento. Exemplo disto é o poder das normas organizacionais, dos métodos de gestão,
ou dos decretos-lei, tais objetos desencadeiam uma série de ações para satisfazer os preceitos
instituídos por eles, os quais constituem instrumentos de comunicação que constituem e
representam a expressão de idéias e (ou) vontades alheias.
Na relação entre A/B/X, a interação entre os agentes do processo é mediada por
instrumentos e (ou) atividades. O esquema apresentado por Taylor e Robichaud (2004), figura
2, observa que o principal instrumento de mediação dos processos de comunicação é a
linguagem utilizada pelos agentes ou meios utilizados. Por exemplo, a linguagem corporal
torna possível diversas formas de comunicação não-verbal.
Durante a interação A/B/X, os agentes A/B atribuem significado ao objeto X,
elemento material e (ou) social da relação (TAYLOR; ROBICHAUD, 2004). Como sintetiza
Baldisera (2000), a comunicação é um processo de construção e disputa de sentidos. Uma vez
em interação, os atores envolvem-se em uma atividade de interpretação e construção da
realidade. Tal atividade lhes permite compreender a situação que vivenciam, imprimindo
significado à situação e a seus agentes (A/B/X). Este processo de construção de sentidos,
definido por Weick (1979, 1995) como sensemaking, permite que os agentes criem o
ambiente em que atuam, o que Weick (1979, 1995) denominou enactment.
Além de analisar a essência de uma interação, a figura 4 ilustra como essas interações
desencadeiam-se, compondo o processo de comunicação organizacional como uma série de
interações. Em uma macroanálise as repetidas interações constituem um “processo contínuo
de criação, manutenção e transformação do coletivo”iii (GIROUX, 1999-2000, p. 18, tradução
livre). Nesse processo realizam-se sucessivas atividades de concepção, tradução e realização
das ações organizacionais. A seqüência de interações gera um processo de construção da
realidade que é ao mesmo tempo recursivo, retrospectivo e reflexivo, conforme Weick (1979,
1995) e Giddens (1984). Segundo estes autores a produção de significado é um exercício
cognitivo recorrente, post-factum e que se volta sobre si mesmo.
Como ilustra a figura 4, em uma série de interações ocorrem duas dinâmicas
específicas. A primeira corresponde ao encadeamento de traduções – conversações em textos
e de textos em conversações (TAYLOR et al., 1996). Em segundo lugar, observa-se que
sucessivas interações alternam instâncias de construção de sentidos (sensemaking) e
transmissão de sentidos (sensegiving) (GIOIA; CHITTIPEDDI, 1991).
Gioia e Chittipeddi (1991) apresentam a mudança estratégica como um processo de criação
e atribuição de sentidos (sensemaking e sensegiving). Para esses autores, os indivíduos interagem
para entender a situação em que se encontram e para comunicar a outros agentes a forma pela qual
compreendem a experiência que vivenciam. Isso porque, as mudanças organizacionais somente são
possíveis quando os indivíduos as reconhecem como legítimas (DEMERS; GIROUX, 1993;
DEMERS; GIROUX; CHREIM, 2003), ou seja, quando os indivíduos entendem a lógica da
mudança e entendem sua necessidade. Assim sendo, a legitimação ocorre quando o sentido
atribuído à situação (sensegiving) é compreendido e aceito pelos indivíduos (sensemaking). Em
outras palavras, os membros da organização entendem que a mudança “faz sentido”. Quando os
indivíduos são informados dos sentidos atribuídos (sensegiving), eles mesmos passam por um
processo de construção de significados para que possam compreender o que lhes foi informado
(sensemaking). A dinâmica sensemaking/sensegiving além de alternada também pode ser recursiva,
retrospectiva e reflexiva (WEICK, 1979, 1995; GIDDENS, 1984).
Considerando a mudança enquanto uma constante organizacional (WEICK, 1979;
1995; MORGAN, 1996), verifica-se que os processos sensemaking/sensegiving estão
presentes em qualquer ação organizacional. Dos sentidos transmitidos e (ou) atribuídos às
11
situações derivam emoções e comportamentos individuais e coletivos, os quais influenciam a
dinâmica organizacional. Processos de transmissão de sentidos (sensegiving) são realizados
pela comunicação simbólica, ou seja, a comunicação em seu aspecto instrumental,
informativo. A construção de sentidos (sensemaking) realiza-se por processos de
comunicação subsimbólica, isto é, a comunicação constitutiva das relações sociais.
A alternância entre os processos de sensemaking e sensegiving pode ocorrer em uma
única interação ou em uma seqüência de interações. Em múltiplas interações observam-se
tanto a dinâmica texto/conversação proposta por Taylor et al. (1996), conforme apresentado
anteriormente, como instâncias de produção e transmissão de significados.
As sucessivas interações, ou seja, repetidas relações entre agentes (A/B) com referência
a objetos (X), a princípio, são conversações “informais” que se cristalizam e se transformam em
textosiv “formais”, os quais passam a ser objeto de novas interações que geraram novas
conversações e novos textos em um processo de contínuas traduções. Na dinâmica
texto/conversação os atores conferem continuidade e perenidade aos processos organizacionais.
Além disso, cada interação (A/B/X) pode ser um instante de criação ou atribuição de sentido,
seja por meio de conversações, seja pela materialização destas em textos.
Em síntese, caracteriza-se a comunicação organizacional como um processo social
dinâmico, pelo qual aspectos objetivos são acessados por recursos subjetivos, esse processo
contínuo cria e recria a realidade social simultaneamente estável e mutante. A concepção dos
processos de comunicação organizacional apresentada na figura 4 integra as noções de
“comunicação nas organizações” e de “comunicação como organização”, além de
compreender que a comunicação é tanto instrumental como constituinte das organizações.
Desse modo, conclui-se que os processos de comunicação organizacional constituem
uma série de interações (A/B/X) que constroem a realidade. Esta construção ocorre a medida
que as interações definem e redefinem as relações entre sujeitos e as relações sujeito/objeto,
seja por meio da dinâmica texto/conversação e (ou) pela contínua alternância entre
constituição e transmissão de sentidos. Essa conceituação dos processos de comunicação
organizacional permite compreender que as informações são frutos de interações, e são
transmitidas e recriadas em contínuas interações. Este processo de comunicação ocorre em
qualquer ação organizacional e integra as noções de comunicação informativa e constitutiva.
Considerações Finais
Neste artigo foram apresentadas, de forma sucinta, as origens históricas, os
pressupostos básicos e algumas das principais proposições teóricas da “Escola de Montreal”.
Fiel as suas origens interpretativas e a sua procedência canadense-francesa, a “Escola de
Montreal” possui uma identidade singular e integra diversas heranças européias e norteamericanas. A construção teórica dessa perspectiva única tanto em estudos organizacionais
como da comunicação ainda é uma tarefa inacabada e cada vez mais pesquisadores tem se
afiliado à elaboração de uma teoria comunicacional das organizações. Compreender
comunicação e organização como processos equivalentes é um desafio intelectual e
acadêmico que tem fascinado estudiosos em vários continentes. A “Escola de Montreal” está
se internacionalizando a medida que forma mestres e doutores de diversos países, mas
também por identificação espontânea a medida que outros pesquisadores reconhecem a
afinidade teórica existente entre suas pesquisas e aquelas realizadas em Montreal.
Da teoria comunicacional das organizações formulada pela “Escola de Montreal”
foram apresentadas aqui apenas duas de suas proposições fundamentais, a teoria da coorientação e a dinâmica texto-conversação. Ambas buscam compreender as organizações por
meio da comunicação. Conforme a teoria da co-orientação as organização surgem da
imbricação de inúmeras relações entre agentes (A/B) em relação a um objeto (X). Entre textos
12
e conversações as organizações emergem das constantes traduções de conversações em textos
e de textos em conversações. Embora relevantes estas proposições não resumem a amplitude
das propostas teóricas da “Escola de Montreal”.
Neste artigo foram apresentados apenas os elementos teóricos elaborados no âmbito da
“Escola de Montreal que serviram de subsídio para uma modelagem dos processos de
comunicação organizacional. No modelo proposto, define-se que a comunicação
organizacional é um processo social que aciona universos objetivos e subjetivos na criação de
um ambiente ao mesmo tempo estável e mutante. Portanto, os processos de comunicação
organizacional são uma série de interações entre agentes (A/B) em relação a um objeto (X).
Nestas interações, os agentes constroem a realidade social a medida que definem e redefinem
as relações entre sujeitos, bem como as relações sujeito/objeto. Isto se realiza por meio da
dinâmica texto/conversação e (ou) pela contínua alternância entre instâncias de constituição e
de transmissão de significados.
Espera-se que esta proposta possa estimular os leitores a explorarem outros aspectos
teóricos da “Escola de Montreal” e realizarem leituras e usos diversos da produção acadêmica
dessa perspectiva inspiradora. Acredita-se que este texto, deva produzir inúmeros diálogos, e
que das interações e conversações em torno deste objeto, instituam-se outros textos que levem
a contínua, construção e reconstrução dos estudos organizacionais das organizações. Da
mesma forma, espera-se que as proposições aqui apresentadas sejam discutidas e retrabalhadas, no contínuo processo de construção de conhecimento, compreendendo que este
também é um legítimo processo de comunicação organizacional.
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1979. ix, 294 p.
i
O vocábulo equivalente em língua portuguesa, contêiner, designa um cofre de carga utilizado para
acondicionamento e transporte de mercadorias (HOUAISS, 2006). Neste texto, optou-se pelo uso da expressão
inglesa container, para preservar o caráter metafórico em que o termo é empregado na literatura especializada.
ii
Para Weick (1979, 1995) os seres humanos se organizam primariamente pela necessidade de reduzir incertezas.
A redução de incertezas e a contínua constituição das organizações se realiza pela comunicação. Para o autor, as
organizações são sistemas de produção de significados “sensemaking”, que realizam processos interpretativos.
iii
Este coletivo pode representar, tanto uma instância de interação entre dois indivíduos, como uma organização
complexa, ou até mesmo sociedades.
iv
Vale recordar que textos não são apenas manifestações escritas, também podem ser scripts ou padrões de
comportamento estabelecidos e socialmente aceitos (TAYLOR; VAN EVERY, 2000).
16
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Proposta de um Modelo de Análise do Processo de