CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL JAMILLE XIMENES MENDONÇA A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO NAS EMPRESAS DE CALL CENTER FORTALEZA-CE 2013 JAMILLE XIMENES MENDONÇA A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO NAS EMPRESAS DE CALL CENTER Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à coordenação do curso de bacharelado em Serviço Social da Faculdade Cearense – FaC, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharelado em Serviço Social. Orientadora: Prof.ª Ms.ª Rúbia Cristina Martins Gonçalves FORTALEZA-CE 2013 JAMILLE XIMENES MENDONÇA A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO NAS EMPRESAS DE CALL CENTER Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como pré-requisito para a obtenção do título de Bacharelado em Serviço Social, outorgado pela Faculdade Cearense – FaC, tendo sido aprovado pela banca examinadora composta pelos professores. Data da aprovação: ____/____/____ BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Prof.ª Ms.ª Rúbia Cristina Martins Gonçalves(Orientadora) _______________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Cristiane Porfírio de Oliveira do Rio _______________________________________________________________ Prof.º Ms. Emanuel Bruno Lopes de Sousa A minha mãe, pai e irmã, por estarem sempre ao meu lado. A eles meu amor sublime. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, a Deus pela vida, e por manter sempre vivos em mim a fé e a esperança. Aos meus pais, Maria Delourdes e Darival e a minha irmã Paolla por estarem sempre ao meu lado me apoiando e incentivando meus alicerces. A minha orientadora, Prof. Msª. Rúbia Martins, que com sua sabedoria e delicadeza orientou meus estudos de modo preciso. Obrigada pela paciência e dedicação. E aos professores Dr.ª Cristiane Porfírio e Ms. Emanuel Bruno, que aceitaram participar da mesa examinadora. Aos operadores de call center, que se disponibilizaram a participar da minha pesquisa. As minhas primas e amigos, que nas horas de descontração me fazem sorrir e ver a vida de forma mais leve. Aos colegas de turma. E em especial a Maíra, Jessica, Inácia, Vilderlane, Germana e Janiele que estiveram comigo durante toda minha jornada acadêmica, nos últimos quatro anos, compartilhando dúvidas, certezas, conhecimentos, angústias e principalmente alegrias. “O homem da sociedade comunista será o homem total, livre das alienações e mutilações impostas pela divisão do trabalho reinante na sociedade burguesa e apto a realizar suas múltiplas potencialidades.” (MARX e ENGELS, 2007, p. XVI). RESUMO O presente estudo busca compreender o contexto de precarização e flexibilização do trabalho em que estão inseridos os operadores de call center, ressaltando a importância do trabalho na construção do ser social e as mudanças no mundo do trabalho desde a primeira revolução industrial, destacando a influencia do modelo de produção fordista e toyotista na formação da sociedade capitalista. O interesse pela temática surgiu durante o curso de graduação em serviço social e a partir de uma experiência pessoal de trabalho em um call center de Fortaleza-CE. Além da pesquisa bibliográfica, que busca explicitar o trabalho na sociedade capitalista, foi realizada uma pesquisa de campo de ordem qualitativa, o instrumental utilizado para coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada, realizada com cinco operadores de uma grande empresa de call center de Fortaleza-CE, em que foram abordados temas, como o controle de horários e a pressão por metas, que nos fazem perceber o real contexto de precarização do trabalho nesses espaços, pois, nos depoimentos os operadores expressam a insatisfação com sua condição de trabalho e deixam claro que não pretendem continuar por muito tempo na empresa em questão. Palavras Chaves: Trabalho; call center; Operadores de call center. ABSTRACT This study seeks to understand the context of casualization and flexibilization of work where they live call center operators , considering the importance of work in the construction of social being and the changing world of work since the first industrial revolution , emphasizing the importance of Fordist production and toyotist model the formation of capitalist society . The interest in the topic arose during the undergraduate course without social service and from a personal experience of working in a call center of Fortaleza. Besides the literature that seeks to explain the work in capitalist society , a field survey was conducted of qualitative nature , the instrument used for data collection was semi - structured interviews conducted with five operators of a large company call center Fortaleza - Ce , in which subjects were discussed , such as the control of schedules and the pressure for goals that make us realize the real context of precarious work in these spaces , because the statements operators express dissatisfaction with their working conditions and let course not intend to continue long into the company in question . Keywords: Work, call center, call center operators. LISTA DE FIGURAS Tabela 1 - Estimativas do Número de Ocupados, segundo Setores de Atividade Econômica. Região Metropolitana de Fortaleza 2010-2011..............................30 Tabela 2 - Estimativas do Número de Ocupados, segundo Setores de Atividade Econômica. Região Metropolitana de Fortaleza 2011-2012..............................31 SUMÁRIO INTRODUÇÃO................................................................................................11 1 O TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA.........................................17 1.1 A categoria Trabalho..................................................................................17 1.2 O mundo do trabalho e suas modificações................................................20 1.3 Precarização e terceirização do trabalho: o surgimento do setor de serviços............................................................................................................27 2 O NASCIMENTO DO CALL CENTER E SUAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NA SOCIEDADE CONTEMPORANEA......................................33 2.1 O surgimento do call center.......................................................................33 2.2 Da flexibilização a rigidez. Como funciona um call center?.......................36 2.3 O operador de telemarketing e suas condições de trabalho na contemporaneidade..........................................................................................39 3 COM A PALAVRA OS OPERADORES DE CALL CENTER........................43 3.1 O sentido do trabalho..................................................................................43 3.2 Flexibilidade e controle................................................................................45 3.3 Perspectivas................................................................................................50 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................53 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS.................................................................55 APÊNDICES......................................................................................................59 11 INTRODUÇÃO O presente trabalho de conclusão de curso busca discutir a percepção dos jovens operadores de teleatendimento a cerca de suas condições de trabalho dentro de uma empresa terceirizada de call center e tem como principal objetivo investigar a precarização do trabalho dentro destas empresas, promovendo uma discussão sobre trabalho, terceirização e flexibilização, analisando a compreensão de trabalho sob a visão dos sujeitos entrevistados. Grande parte dos operadores de telemarketing são jovens que em sua maioria estão no primeiro emprego, pois as grandes empresas de atendimento ao cliente não exigem experiência e oferecem treinamento específico para a área que o funcionário foi designado a atuar. Jeolás e Lima (2002) em seu artigo Juventude e trabalho: entre “fazer o que gosta” e “gostar do que faz”, ressaltam a percepção dos jovens a cerca do trabalho, em que, um dos aspectos da valorização do trabalho pelos jovens passa pela importância do mesmo enquanto instância socializadora do indivíduo, pois remete a disciplina, a maturidade e a responsabilidade. As Centrais de Atendimento ou call center tem a função de ligar o cliente à empresa, atuando como uma ponte, estabelecendo a comunicação entre ambos, algumas empresas possuem seu próprio call center, outras recorrem a empresas terceirizadas que são especialistas em desenvolver esse papel de ligar cliente e empresa. Além de ser uma receptora de solicitações dos consumidores, a estrutura montada para atender essa demanda é também utilizada para viabilizar aumento dos serviços prestados como uma forte alternativa de venda de novos produtos ou serviços. Para tanto, foram desenvolvidas técnicas específicas de abordagem ao consumidor através de ligação telefônica e sofisticados sistemas de acesso e controle das ligações feitas e recebidas. (ARGOLO E RAMOS: 2000, p. 89) A terceirização desse serviço acaba deixando a desejar quanto à satisfação do cliente, pois ele é atendido por uma pessoa que não faz parte da empresa, que atende ao cliente. Porém as empresas de call center dispõem de diversos mecanismos que controlam as ligações recebidas e efetuadas, o tempo de cada ligação é controlado e deve ser o menor possível, para garantir a agilidade do atendimento. As ligações são gravadas e algumas são 12 monitoradas em tempo real, e devem ser marcadas de acordo com a reclamação ou solicitação do cliente para que seja criada uma espécie de estatística. A empresa também é dividida em setores como setor de vendas, setor de cobrança, setor de retenção e setor de reparo, ou seja, cada trabalhador é especializado para atender a um tipo de demanda. O controle exercido sobre os trabalhadores merece destaque nesta discussão, pois, além da relação de trabalho, terceirizada, precarizada e instável o trabalhador é controlado de todas as formas. Os operadores de telemarketing têm hora para entrada e saída, que se não for obedecida implica no absenteísmo do funcionário e o atraso é descontado em folha de pagamento, o mesmo acontece com os intervalos de pausa lanche e pausa descanso. “... A causa de uma baixa aderência a escala é ausência de operador na linha, o que remete ao problema de dimensionamento da operação e seus desdobramentos...” (ARGOLO E RAMOS: 2000, p. 89). O interesse pelo objeto surgiu durante o curso de graduação em serviço social, no qual o tema trabalho é bastante discutido, desde sua concepção mais antiga, passando pelas mudanças que ocorreram no mundo do trabalho até a concepção de trabalho nos dias atuas. Trabalho este que não corresponde apenas a questão econômica, mas a questões que envolvem os indivíduos enquanto seres que fazem parte de uma sociedade “... Trata-se de uma categoria que, além de indispensável para a compreensão da atividade econômica, faz referência ao próprio modo de ser dos homens e da sociedade...”. (NETO, 2009, p. 29) A partir desse contato com a temática trabalho e de uma experiência pessoal, de trabalho em um grande call center de Fortaleza, durante três anos e quatro meses, no período de setembro de 2007 a janeiro de 2011. Instigoume a discussão sobre a precarização do trabalho, a terceirização e o controle da empresa sobre os funcionários, que em sua maioria são jovens que estão em seu primeiro emprego. Entre as diversas mudança que acontecem atualmente no mundo do trabalho, está o trabalho terceirizado, no qual algumas tarefas são designadas a outras empresas. Grande parte das empresas de call center prestam serviços de terceirização a outras empresas, fazendo o papel de “ponte” entre a empresa e 13 o cliente, com isso a qualidade no atendimento é afetada, pois, aquele funcionário que atende o cliente não é funcionário da empresa em questão, e sim de uma empresa terceirizada. Para manter o controle dos funcionários nessas empresas de call center, são impostas várias regras que precarizam o trabalho, como o controle na entrada e saída dos funcionários, o controle do tempo das ligações, o controle da qualidade no atendimento, feito através de gravação ou monitoramento das chamadas, o controle de pausas durante o atendimento entre outros. Para isso a empresa é estruturada com uma avançada tecnologia, tanto para a distribuição de chamadas, como para o controle do funcionário. Está estruturada em rede, recorre ao uso intensivo de tecnologias de informação e comunicação (TIC), possui uma grande flexibilidade e integra-se numa lógica específica de organização da produção. O uso intensivo das TIC é desde logo um princípio base, já que a plataforma tecnológica constitui um dos principais fatores de sucesso de um call center. Para das aplicações de software utilizadas diretamente pelos operadores, os call centers apoiam-se em tecnologias específicas e muito próprias, não só no que diz respeito à tecnologia de distribuição de chamadas,1 mas também a diversas outras tecnologias hoje bastante comuns. (MARQUES e SANTOS, s.d., p. 68) Diante desse contexto, é importante o estudo das relações de trabalho dentro dessas empresas, assim como é importante compreender a perspectiva dos funcionários sobre suas condições de trabalho. Marx (s.d., p. 5) afirma: “... o trabalho, atividade vital, vida produtiva, agora aparecem ao homem apenas como meios para a satisfação de uma necessidade, a de manter sua existência física...”, ou seja, o trabalho ao invés de humanizar, desumaniza o homem. É importante, também, ressaltar a percepção dos funcionários das empresas de call center a cerca do controle, da cobrança e da vigilância que enfrentam no dia a dia e as consequências disso em suas vidas cotidianas. Antes de explicitar o percurso metodológico desta pesquisa é importante destacar o que é metodologia. Na concepção de Demo (2011) metodologia é uma disciplina instrumental do cientista social, mas, apesar da instrumentalidade, é condição necessária para a competência científica, poucas coisas cristalizam despreocupação metodológica. incompetências mais gritantes que a 14 É válido ressaltar também o que é pesquisa. Para Demo: “[...] pesquisa, significa a produção crítica e autocrítica de caminhos alternativos, bem como a inquirição sobre caminhos vigentes e passados [...]” (2011, p. 59). E conforme Gil: “Pode-se definir pesquisa como o processo formal e sistemático de desenvolvimento do método cientifico. O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas [...]” (2011, p. 26). Já a Pesquisa Social é o: [...] processo que, utilizando a metodologia científica, permite a obtenção de novos conhecimentos no campo da realidade social [...] envolvendo todos os aspectos relativos ao homem em seus múltiplos relacionamentos com outros homens e instituições sociais [...] (GIL, 2011, p. 26) O método utilizado foi o qualitativo, pois, “[...] centra-se especificamente no tratamento metodológico da dimensão qualitativa da realidade social [...] o desafio é como realizar metodologicamente a qualidade política. Sem desprezar a qualidade formal” (DEMO, 2011, p. 241). Com isso, o contato com os sujeitos foi indispensável já que, “Não é possível fazer avaliação qualitativa a distancia, ou de modo intermitente, esporádico, por encomenda, por terceiros. Convivência é o mínimo que se exige.” (DEMO, 2011, p. 244). O estudo em questão foi realizado em dois momentos, a princípio foi realizada uma pesquisa bibliográfica, em que foram utilizados livros e artigos que tratam dos temas relacionados à pesquisa, tais como trabalho, precarização e flexibilidade. Segundo Gil (2011) a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado e a principal vantagem dessa pesquisa é o fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. No segundo momento, foi realizada uma pesquisa de campo em frente a uma grande empresa de call center de Fortaleza-CE, cujo nome não será citado, onde foram aplicadas as entrevistas semi-estruturadas (apêndice 1), formalizadas por meio do termo de consentimento (apêndice 2), pois, “[...] são desenvolvidas de forma mais espontânea, sem que estejam sujeitas a um modelo preestabelecido de interrogação.” (GIL, 2011, p. 111). 15 Durante o período que trabalhei na empresa em questão, de setembro de 2007 à janeiro de 2011, observei o comportamento dos operadores, que costumavam ficar fora da empresa, antes do horário de trabalho e até mesmo depois do horário, percebi que tal comportamento se dá pelo fato de que os operadores precisam bater o ponto rigorosamente no horário estabelecido para entrada, pois caso não façam dessa forma, terão o atraso descontado em folha de pagamento, sendo assim, eles chegam cedo e ficam do lado de fora esperando a hora exata de entrar. Foi nesse espaço fora da empresa, onde se podem encontrar barracas de lanche, churrasquinhos, vendedores ambulantes, além de sombras de árvores, banquinhos e etc., que encontrei a maioria dos sujeitos entrevistados, e onde foi realizada a entrevista com a maior parte deles. Quanto ao contato com os sujeitos da pesquisa, contei com a ajuda dos novos meios de comunicação, como as redes sociais, através destas entrei em contato com antigos colegas de call center, que me indicaram pessoas que ainda estavam na empresa e poderiam colaborar com minha pesquisa de campo. Outra parte dos entrevistados foi abordada pela pesquisadora na parte exterior da empresa, nesse momento percebi que a maioria das pessoas ficava com receio de parar para conversar com uma estranha sobre sua relação de trabalho, muitas pessoas abordadas se recusavam a participar, e ficavam ainda mais receosos com o fato da entrevista ser gravada. Devido à dificuldade de aceitação dos sujeitos em participar da entrevista, foram entrevistados, no total, apenas cinco operadores, cujos nomes serão preservados, divididos em três setores da empresa, retenção, setor de reparo e setor de informações gerais. Quatro dos entrevistados são estudantes universitários e o quinto pretende iniciar o curso superior em 2014. A idade dos sujeitos varia de 18 a 25 anos. A monografia foi dividida em três capítulos. O primeiro capítulo intitulado “O trabalho na sociedade capitalista” busca apresentar a categoria trabalho, as modificações no mundo do trabalho e o surgimento do setor de serviços. No segundo capítulo “O nascimento do call center e suas condições de trabalho na sociedade contemporânea” são discutidas questões como o surgimento do call center, a dinâmica de funcionamento do mesmo destacando os processos de flexibilidade e rigidez e as condições de trabalho do operador 16 de telemarketing. Já no terceiro e último capítulo “Com a palavra os operadores de call center” primeiro é apresentada a metodologia da pesquisa e em seguida são analisadas as falas dos sujeitos entrevistados na pesquisa de campo, são discutindos pontos, como o sentido do trabalho, flexibilidade e controle, e, por fim, as perspectivas dos operadores. 17 1. O TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA O que distingue os indivíduos humanos é que produzem seus meios de vida, condicionados por sua organização corpórea e associados em agrupamentos. Os indivíduos humanos são tais como manifestam sua vida. O que são coincidem com sua produção, tanto com o que produzem quanto com o modo como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto das condições materiais de produção. (MARX e ENGELS, 2007, p. XXIV). As discussões sobre as metamorfoses do mundo do trabalho assumem destaque na literatura especializada contemporânea, e o tema é bastante oportuno, pois, o trabalho faz parte do processo de constituição do indivíduo social e também faz parte da produção da vida material na sociedade capitalista. Outro fator relevante que incentiva a produção de literatura nesta área é a crise do trabalho que se acentua desde a década de 1970. (IAMAMOTO, 2011). Neste primeiro capítulo apresentamos a categoria trabalho, expondo as concepções de alguns autores mais importantes que discutem a temática. Eles ressaltam a importância da centralidade do trabalho no mundo dos homens, seres pensantes que vivem em sociedade e usam o trabalho para transformar a natureza a seu favor. Outro ponto a ser discutido nesse capítulo são as modificações no mundo do trabalho, que sofre uma significativa transformação, a partir da primeira revolução industrial, momento em que a manufatura é substituída pela máquina a vapor. Outro momento importante nesse processo de transformação do trabalho ao longo da história é o surgimento do setor de serviços, nesse período o trabalho que antes era essencialmente fabril abre espaço para um novo setor da economia, o setor de serviços. 1.1 A categoria Trabalho Iniciamos essa discussão pela análise do conceito de trabalho para alguns dos principais autores que discutem a temática. Na concepção ontológica de Lukács, o trabalho é a atividade humana que transforma a natureza nos bens necessários à reprodução social. Nesse sentido, é a 18 categoria fundante do mundo dos homens. (LESSA, 2002). Netto e Braz dizem que o trabalho “[...] torna possível a produção de qualquer bem, criando os valores que constituem a riqueza social [...]” (2009, p. 29). Marx (2004), define trabalho como: [...] O trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. [...] Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colméias. Mas o que distinguem, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no inicio deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente.[...] O processo de trabalho [...] é a atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer a necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre homem e a natureza, condição natural eterna da vida humana e, [...] comum as suas formas sociais. (p. 149-153) Para Iamamoto, (2011) o trabalho é, [...] atividade racional orientada para um fim, à produção de valores de uso, a assimilação de matérias naturais para a satisfação de necessidades humanas. É originalmente metabolismo entre homem e a natureza, da qual se apropria para satisfação das necessidades humanas. (p. 40) A existência dos indivíduos enquanto seres que vivem em sociedade é muito mais que trabalho. O trabalho em si é uma categoria social, ou seja, faz parte de um complexo composto, por ele, pela falta e pela sociabilidade (o conjunto das relações sociais). A relação dos homens com a natureza requer a relação entre homens. (LESSA, 2002). Para que os homens consigam fazer historia, é absolutamente necessário, em primeiro lugar, que se encontrem em condições de poder viver; de poder comer, beber, vestir-se, alojar-se etc. A satisfação das necessidades elementares cria necessidades novas e a criação de necessidades novas constitui o primeiro ato da história. Em cada momento dado, os homens utilizam as forças produtivas de que dispõem e organizam formas de intercâmbio correspondentes. (MARX e ENGELS, 2007, p. XXV). O trabalho também é o elemento que torna possível a produção de bens, criando valores que geram a riqueza social. Trata-se de uma categoria 19 indispensável para compreender as atividades econômicas, além de corresponder ao modo de ser dos homens e da sociedade e implica em um movimento de dois planos indissociáveis, o subjetivo que se configura do âmbito do sujeito, e o objetivo, que resulta na transformação da natureza (NETTO e BRAZ, 2009). O homem diferente dos outros animais, primeiro idealiza o produto do seu trabalho, e transforma a natureza, a fim de satisfazer suas necessidades sociais e materiais de existência. É importante ressaltar a diferença entre trabalho e trabalho abstrato (que será abordado no tópico a seguir “O mundo do trabalho e suas modificações”), como afirma (LESSA, 2002, p. 28): [...] para Marx e Engels há uma clara distinção entre trabalho abstrato e trabalho: o primeiro é uma atividade social mensurada pelo tempo de trabalho socialmente necessário e produtor de mais-valia. (...) O trabalho, ao contrário, é a atividade de transformação do real pela qual o homem constrói, concomitantemente, a si próprio como individuo e a totalidade social da qual é partícipe. O trabalho deve ser pensado como atividade executada essencialmente por homens, membros de uma sociedade, atividade esta que transforma a natureza em produtos que atendem a suas necessidades, ou seja, o trabalho não é apenas uma atividade de homens em sociedade, mas é também elemento do processo histórico pelo qual surge o ser desses homens, o ser social (NETTO e BRAZ, 2009). O homem como ser pensante idealiza o produto de seu trabalho antes de executar sua atividade laborativa, é a capacidade teleológica do homem. Desse modo, para compreender as conexões entre teleologia e causalidade é importante ressaltar o pensamento de Lukács. A teleologia está ligada a finalidade, a casualidade é dada pela materialidade fundante, ou seja, pelo movimento que se desenvolve em suas próprias bases. O trabalho pode se distinguir em dois componentes, o pensar, que coloca a finalidade e concebe os meios para realizá-la, e o produzir, que concretiza o fim pretendido (ANTUNES, 2000). [...] A partir da definição do trabalho enquanto categoria exclusivamente social, perseguimos a demonstração do filosofo húngaro da tese segundo a qual a teleologia dá origem a uma nova e peculiar forma de objetividade que tem por lócus a subjetividade humana, a qual exerce uma efetiva função de direção na incessante 20 conversão, pelo trabalho, da causalidade em causalidade posta [...] a proposição da teleologia enquanto uma categoria social real, objetivamente operante (ainda que apenas no interior da categoria trabalho), associada à outra proposição acerca da irredutibilidade ontológica entre teleologia e causalidade, conduz Lukács à afirmação da previa-ideação enquanto uma ‘objetividade’ com uma existência distinta da realidade material[...](LESSA, 2002, p. 121) A teleologia faz parte da categoria do trabalho e é indissociável o vinculo que há entre ela e a causalidade, mantendo um vínculo de reciprocidade e interação. “[...] teleologia e causalidade permanecerão, sempre e a todo instante, ontologicamente heterogêneas.” (LESSA, 2002, p. 122). A capacidade teleológica do homem enquanto ser social é um elemento fundamental para a reprodução humana e social, pois, põe finalidade às ações e contribui para o desenvolvimento do trabalho. Na fala de Lessa (2002, p. 122) [...] O surgimento do ser social marca a gênese de uma nova objetividade, existente apenas enquanto momento ideal da categoria do trabalho, a qual se consubstancia enquanto portadora da finalidade posta em cada ação humano-social. O desenvolvimento ontológico, neste momento, adquire uma nova qualidade: a consciência se converte em elemento fundamental à nova esfera ontológica; a teleologia passa a ser uma determinação decisiva, objetiva, da reprodução social [...] O trabalho é a categoria fundante dos valores, embora, os valores não se encontrem na relação entre práxis e valores, mas na contínua mudança do ser social. (LESSA, 2002). Tais mudanças no modo de ser dos homens em sociedade implicam, também, nas mudanças nos modos de produção do sistema capitalista que será abordado a seguir. 1.2 O mundo do trabalho e suas modificações O trabalho ganha um novo sentido após a primeira revolução industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII, a partir de então o trabalho que era essencialmente artesanal passou a ser mecanizado. A grande descoberta da época foi a máquina a vapor, a burguesia industrial em busca de maiores lucros lançava estratégias para reduzir os custos e aumentar a produção. A 21 inclusão das máquinas como estratégia de aumentar o ritmo da produção reduziu o preço das mercadorias. No capitalismo a mercadoria é considerada a forma elementar da riqueza, é um objeto externo, uma coisa que por suas propriedades satisfaz as necessidades humanas de qualquer natureza, seja como meio de subsistência, objeto de consumo ou como meio de produção. (MARX, 2004) A mercadoria se expressa de duas formas, uma delas é o valor-deuso, que corresponde à utilidade de uma coisa, se realiza com a utilização ou com o consumo da mercadoria, a outra é o valor-de-troca, relação quantitativa entre valores de uso diferentes na proporção em que se trocam. (MARX, 2004) No sistema capitalista o trabalho livre é produtor de valor de troca e sua potencialidade é voltada para a acumulação capitalista, ou seja, para a produção de mercadorias úteis ao consumo como afirma Marx (2004, p. 69) “As mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores-de-uso [...] Todavia só são mercadorias por sua duplicidade, por serem ao mesmo tempo objetos úteis e veículos de valor”. O trabalho é atividade humana, resultante do dispêndio de energia física e mental, direta ou indiretamente voltada à produção de bens e serviços, contribuindo para a reprodução da vida humana, individual e social. [...] o trabalho que constitui a substancia dos valores é o trabalho humano homogêneo, dispêndio de idêntica força de trabalho. Toda força de trabalho da sociedade [...] Cada uma dessas forças individuais de trabalho se equipara às demais, na medida em que possua caráter de uma força média de trabalho social e atue como essa força média, precisando, portanto, apenas do tempo de trabalho em média necessário ou socialmente necessário para a produção de uma mercadoria. (MARX, 2004 p. 61) Em contrapartida com o desenvolvimento das forças produtivas e com a emancipação do capital, cresce o antagonismo entre as classes sociais e os trabalhadores se sujeitavam a condições de trabalho precárias, pois, nas fábricas do início da Revolução Industrial, o ambiente era insalubre e desagradável, entre os empregados estavam mulheres e crianças cuja mão de obra era mais barata, os trabalhadores enfrentavam jornadas de 14 a 16 horas de trabalho e os salários de maneira geral eram baixíssimos. 22 O advento da Revolução industrial trouxe inúmeras consequências para a economia e para o mundo do trabalho como, a criação de grandes empresas, aumento no número de trabalhadores, surgimento dos sindicatos, aumento do êxodo rural, em que a população saia do campo em busca de trabalho nos centros industriais, gerando o crescimento desordenado das cidades e os problemas sociais, aumento de doenças e acidentes de trabalho, criação de ferrovias e outras vias de transporte entre outros. A revolução industrial não foi um acontecimento que se deu de forma isolada na história, e sim um fenômeno que ultrapassa os limites do tempo cronológico, pois seus desdobramentos ocorrem em momentos diferentes, em que a tecnologia só tende a se modificar e a se aperfeiçoar. Com isso, na segunda revolução industrial que ocorreu em meados do século XIX, é marcada pela introdução de novas fontes de energia como o petróleo e a eletricidade, propiciando o dinamismo e a diversificação, fazendo surgir novos segmentos industriais. É nesse momento que surge o telefone, o telegrafo, o automóvel, entre outros, e é nesse momento também que a divisão do trabalho se intensifica, juntamente com a produção que passa a ser em série. Com a invenção do automóvel surge o modelo de produção Fordista criado por Henry Ford, no século XX, que revolucionou o sistema de produção. O Fordismo introduziu uma serie de normas e métodos de racionalizar a produção visando o aumento significativo dos resultados. [...] Entre 1905 e 1910, Ford promoveu a grande inovação do século XX: a produção em massa. Embora não tenha inventado o automóvel nem mesmo a linha de montagem, Ford inovou na organização do trabalho: a produção de maior número de produtos acabados com a maior garantia de qualidade pelo menos preço possível (...) (CHIAVENATO, 2000, p. 65). Os métodos de Ford eram inspirados na teoria administrativa de Frederick W. Taylor, o Taylorismo, que consiste em controlar o tempo e os movimentos dos trabalhadores, fracionando as etapas do processo produtivo, em que o trabalhador executava tarefas repetidas com o objetivo de acelerar a produtividade. O Fordismo trouxe outra perspectiva à divisão do trabalho, a especialização, em que a mão de obra era especializada em exercer uma só 23 função dentro da divisão técnica do trabalho fabril. O controle da produção era outro ponto forte, pois era necessário manter o controle de todo o processo de produção, desde a matéria-prima até a distribuição ao mercado consumidor. A racionalização da produção proporcionou a linha de montagem que permite a produção em série ou em massa, o produto é padronizado, bem como o maquinário, o material, a mão-de-obra e o desenho do produto, o que proporciona um custo mínimo. Daí, a produção em grandes quantidades, cuja condição precedente é a capacidade de consumo em massa (...) (CHIAVENATO, 2000, p. 65). Após a segunda guerra mundial, nos principais países capitalistas, houve um crescimento acelerado do capital produtivo caracterizando um regime de acumulação intensa. E esse crescimento foi acompanhado pelo consumo em massa, garantindo o escoamento da produção. (SALVADOR, 2010). Apesar de a ideação do fordismo – produção em massa associada ao consumo de massa – ter origem em 1914, quando Henry Ford estabeleceu o dia de trabalho de oito horas e a recompensa de cinco dólares para os trabalhadores da linha de montagem automática, em sua fábrica localizada em Michigan, o fordismo só consegue se viabilizar após a Segunda Guerra Mundial associado às idéia de Keynes. (SALVADOR, 2010, P. 61) A partir da intervenção do Estado é que o modelo de produção fordista se consolida como regime de acumulação, o que ocorreu em associação com o keynesianismo, ocasionando um forte desenvolvimento econômico em diversos países. Na história do capitalismo, as lutas dos trabalhadores por melhores condições de vida e de trabalho levaram a construção de padrões de regulação do trabalho e dos sistemas de proteção social. Ou seja, a regulação da força de trabalho e da proteção social conta com a participação fundamental da intervenção do Estado. (SALVADOR, 2010). O modo de acumulação fordista, no início, enfrentou resistência dos tabeladores, principalmente por causa da alienação do trabalho. Mas, com o aumento constante dos salários reais e a garantia de um determinado padrão de produção social, ocorreu, de certo modo, a adesão do movimento sindical ao sistema fordista-keynesiano.” (SALVADOR, 2010, P. 63) O Keynesianismo, modelo de estado intervencionista, foi adotado por alguns países industrializados após a segunda guerra mundial, pois para viabilizar a produção fordista era preciso criar uma estrutura socioeconômica 24 para expandir o capitalismo. O principal foco era o combate ao desemprego e o aumento gradativo dos salários. As fábricas e indústrias produziam mais, as pessoas consumiam mais e consequentemente o Estado arrecadava mais impostos. Com essa arrecadação alguns países implantaram uma rede de proteção social o Estado de Bem-Estar Social que trouxe muitas conquistas sociais e trabalhistas. Como ressalta Pereira (2000, p. 123): Se o Welfare State teve suas origens no século XIX, de par com o surgimento da questão social, dos direitos sociais, dos direitos políticos e das primeiras conquistas no campo dos direitos sociais, o seu apogeu só ocorre no período compreendido entre 1945 e 1975 [...] os 30 nos gloriosos do capital, de que fala a literatura especializada. Isso porque foi nesse período que o Estado capitalista passou a exercer um decisivo papel regulador da economia e da sociedade e a se constituir na principal fonte de provisão e de financiamento do bem estar social [...] O Estado de Bem-Estar Social e o modelo de produção fordista entram em declínio na década de 1970 com a crise estrutural do capital, nos termos de Mészáros. A lucratividade entra em declínio devido às pressões dos sindicatos por melhores condições de trabalho, mas a produtividade não crescia de modo a atender tais reivindicações. Com isso os custos da produção subiram juntamente com o preço dos produtos, o Estado passou a adotar medidas para conter a inflação aumentando a taxa de juros, consequentemente as taxas de crescimento econômico reduzem. No que diz respeito às mudanças estruturais e econômicas, ressalta o avanço tecnológico, associado ao declínio do trabalho no setor industrial, provocando a ampliação do setor de serviços e a flexibilização do trabalho e da produção para atender a mudanças nas condições do mercado e nas preferências do consumo. Uma das implicações mais sensíveis dessas mudanças para o sistema de proteção social prevalecente foi o fato de o uso capitalista de alta tecnologia inviabilizar o compromisso com o pleno emprego e o aumento das atividades industriais intensivas em trabalho. Isso logicamente estimulou o desemprego e, pior, o elevou à condição de estratégia necessária à recuperação da economia, abalada pela queda da produtividade, pelo déficit público, pela estagnação, ao mesmo tempo em que a atuação sindical perdia força e eficácia [...] (PEREIRA, 2000, p. 125) É nesse contexto de crise que surge o modelo de produção flexível, o toyotismo. As empresas passaram a utilizar novas tecnologias, como os robôs, e novos métodos de organização como o sistema Just-in-time, ou seja, 25 produzir somente o necessário e no tempo necessário, outra inovação do toyotismo foi o CCQ (Círculos de Controle de Qualidade) que reduziu os defeitos de fabricação, pois o controle era feito ao longo do processo produtivo, e não somente no final da produção, como era feito no fordismo. A especialização do trabalho foi substituída por um sistema flexível, ou “especialização flexível” que segundo Antunes (2007, p. 25): [...] articula, de um lado, um significativo desenvolvimento tecnológico e, de outro, uma desconcentração produtiva baseada em empresas médias e pequenas [...]. Esse novo paradigma produtivo expressaria também, [...] um modelo produtivo que recusa a produção em massa, típica da grande indústria fordista, e recupera uma concepção de trabalho que, sendo mais flexível, estaria isenta da alienação do trabalho intrínseca à acumulação de base fordista. Outra característica do toyotismo é a acumulação flexível que Antunes (2007) citando HARVEY define como um confronto com a rigidez do modelo fordista, em que se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados, os produtos e do consumo. As principais características são o surgimento de novos setores de produção, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e taxas intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível contribui também para a movimentação de empregos no setor de serviços. Desta forma, o toyotismo é o modelo de produção que segundo Antunes (2007, p. 315): [...] maior impacto tem causado, tanto pela revolução técnica que operou na indústria japonesa, quanto pela potencialidade de propagação que alguns dos pontos básicos do toyotismo têm demonstrado, expansão que hoje atinge uma escala mundial. O modelo japonês cria um modelo de produção que se adapta às demandas do mercado reduzindo os custos da produção. Essas mudanças estruturais nos modelos de produção e da divisão sociotécnica do trabalho refletem na organização social, econômica, política e cultural de diversas sociedades. Quanto desregulamentados, necessários para aos direitos flexibilizados, adequar a sua do trabalho, dando nova ao estes capital fase, os direitos se tornam instrumentos historicamente conquistados são eliminados do sistema de produção. (ANTUNES, 2007) Com essas mudanças na estrutura do capital, o mundo do trabalho passa por metamorfoses, pois, com a incorporação de novas tecnologias no 26 sistema de produção, consequentemente, há uma redução na massa de trabalhadores do setor fabril “[...] houve uma diminuição da classe operaria industrial tradicional. Mas, paralelamente, efetivou-se uma expressiva expansão do trabalho assalariado, a partir da enorme ampliação do assalariamento no setor de serviços [...]” (ANTUNES, 2007, p. 49). O Brasil teve um processo de industrialização tardio, que se intensifica na década de noventa com a globalização, com a abertura para o capital estrangeiro e o neoliberal. O referido processo não vem acompanhado de uma estrutura social que garanta os direitos dos trabalhadores e um estado de Bem Estar Social, isso faz com que as empresas lucrem e a população que depende do trabalho permaneça em condições precárias de vida. A terceirização, no Brasil, pode ser vista como um processo que integra amplas mudanças, voltadas para a adaptação da economia à reestruturação industrial e empresarial em curso a nível internacional. Integra estigmas empresariais de sustentação de margens de lucro, numa conjuntura de grave crise econômica e política, marcado por mudanças radicais na competição internacional e divisão internacional do trabalho que tende a colocar o país numa posição extremamente desvantajosa. (BORGES e DRUCK: 1993, p. 20) O mercado de trabalho exige que os trabalhadores sejam qualificados e versáteis, qualificados para que possam concorrer às vagas disponíveis, pois, quem tem mais qualificação tem mais chance de ser contratado. E versáteis porque o sistema capitalista exige que o trabalhador seja flexível como afirma SENNETT (2005): “Em termos simples, a especialização flexível tenta pôr, cada vez mais rápido, produtos mais variados no mercado.” (p. 59) para desenvolver várias tarefas dentro do local de trabalho, assim como esteja disponível para atuar em diversas áreas de acordo com a necessidade da empresa. Conforme ANTUNES (2007): “Novos processos de trabalho emergem, onde o cronometro e a produção em série e de massa são ‘substituídos’ pela flexibilização da produção, pela especialização flexível, por novos padrões de busca da produtividade [...]” (p. 24). Paralelamente a essa redução de trabalhadores no setor fabril, há o crescimento de ofertas de emprego no setor de serviços, que corresponde a 27 novas formas de fornecimento de serviços em setores como o comercial, tecnológico e organizacional. 1.3 Precarização e terceirização do trabalho: o surgimento do setor de serviços No contexto de ampliação do emprego no setor de serviços se acentua a precarização do trabalho, o subemprego e o desemprego como ressalta ANTUNES: O mais brutal resultado dessas transformações é a expansão, sem precedentes na era moderna, do desemprego estrutural, que atinge o mundo em escala global. Pode-se dizer, de maneira sintética, que há uma processualidade contraditória que, de um lado, reduz o operariado industrial e fabril; de outro, aumenta o subproletariado, o trabalho precário e o assalariamento no setor de serviços. Incorpora o trabalho feminino e exclui os mais jovens e os mais velhos. Há, portanto, um processo de maior heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora. (2007, p. 50) Outra consequência das mudanças nas relações de trabalho é a redução do engajamento dos trabalhadores nos movimentos grevistas ou do surgimento de um novo sindicato, o sindicalismo de empresa. É importante ressaltar que em 1950 houve um expressivo movimento grevista contra um processo de demissões em massa na Toyota, porém esse movimento foi derrotado, sendo assim a primeira derrota do sindicalismo no Japão. [...] Após a repressão que se abateu sobre os principais líderes sindicais, as empresas aproveitaram a desestruturação do sindicalismo combativo e criaram o que se constituiu no traço distintivo do sindicalismo japonês da era toyotista o sindicalismo de empresa, o sindicato-casa, atado ao ideário e ao universo patronal. [...] sendo [...] dissolvido e substituído por um novo sindicado inserido no “espírito Toyota”, na “Família Toyota”. [...] essas práticas subordinam os trabalhadores ao universo empresarial, criando as condições para a implantação duradoura do sindicalismo de envolvimento, em essência um sindicalismo manipulatório e cooptado. (ANTUNES, 2007, p. 32-34). Houve uma redução significativa dos movimentos sindicais, pois com a flexibilização do trabalho, as relações ficaram mais individualizadas, para SENNETT (2005): 28 [...] as incertezas da flexibilidade; a ausência de confiança e compromisso com raízes fundadas; a superficialidade do trabalho em equipe; acima de tudo, o aspecto de não fazermos nada de nós mesmo no mundo, de não ‘arranjarmos um galho’ com o nosso trabalho. Todas essas condições levam as pessoas a buscar outra cena de ligação e profundidade. (p. 165). Já para ANTUNES (2007): [...] a precariedade do emprego e da remuneração, a desregulamentação das condições de trabalho em relação às normas legais vigentes ou acordadas e a consequente regressão dos direitos sociais, bem como a ausência de proteção e expressão sindicais, configuram uma tendência à individualização extrema da relação salarial [...] (p. 52). O sistema capitalista torna o vínculo entra as pessoas fragilizado, a dinâmica apressada do dia a dia dos indivíduos não permite que as mesmas se conheçam a ponto de ter confiança no outro, as relações interpessoais são frágeis e superficiais. Ninguém entende as máquinas, as pessoas entram e saem em horários flexíveis têm outros empregos e responsabilidades. Em vez de desconfiança mútua, há uma falta de confiança; não há base para ela. A falta de confiança também pode ser criada pelo exercício flexível do poder. (SENNETT, 2005, p. 169) No contexto das relações trabalhistas dentro das organizações ou dentro das empresas, seja no setor de serviços ou no setor produtivo o funcionário é visto como um objeto que faz parte do processo de trabalho seja ele direta ou indiretamente produtivo. O sistema irradia indiferença. Faz isso em termos dos resultados do esforço humano, como nos mercados em que o vencedor leva tudo, onde há pouca relação entre risco e recompensa. Irradia indiferença na organização da falta de confiança, onde não há motivo para se ser necessário. E também na reengenharia das instituições, em que as pessoas são tratadas como descartáveis. Essa prática óbvia e brutalmente reduzem o senso de que contamos como pessoa, de que somos necessários aos outros. (SENNETT, 2005, p. 174) Apesar da crise do capital, da reestruturação produtiva e do desemprego estrutural não se pode afirmar que o trabalho perdeu sua centralidade, pelo contrário, a sociedade continua produzindo bens de 29 consumo, produzindo mais valia e as pessoas continuam vendendo sua força de trabalho para manter sua subsistência. Ao contrário daqueles autores que defendem a perda da centralidade da categoria trabalho na sociedade contemporânea, as tendências em curso quer em direção a uma maior intelectualização do trabalho fabril ou do incremento do trabalho qualificado, quer em direção à desqualificação ou a sua subproletarização, não permite concluir pela perda dessa centralidade no universo de uma sociedade produtiva de mercadorias. (ANTUNES, 2007, p. 82). O sistema se modificou, mas o trabalho não perde o sentido de suas duas dimensões, o trabalho concreto e o trabalho abstrato, que continua fetichizado e estranho ao trabalhador, como coloca ANTUNES (2007): Uma vez que se conceba o trabalho desprovido dessa sua dupla dimensão, resta identificá-lo como sinônimo de trabalho abstrato, trabalho estranho e fetichizado. A consequência que disso decorre é, então, na melhor das hipóteses, imaginar uma sociedade de tempo livre, com algum sentido, mas que conviva com as formas existentes de trabalho estranho e fetichizado. (p. 91). Mas uma consequência da referida crise é a exclusão social que se configura através do desemprego em massa, dos subcontratos, do trabalho flexibilizado, das estratégias empresarias para reduzir os benefícios dos trabalhadores entre outros fatores. [...] através da brutal exclusão social, das explosivas taxas de desemprego estrutural, da eliminação de inúmeras profissões no interior do mundo do trabalho em decorrência do incremento tecnológico voltado exclusivamente para a criação de valores de troca, são barreiras sociais que obstam, sob o capitalismo [...] (ANTUNES, 2007, p. 99). Após um longo período de acumulação capitalista, o apogeu do modelo de produção fordista, que se deu no período do pós segunda guerra mundial até inícios dos anos 1970, o capital entra em um período de crise estrutural, devido a uma série de fatores, como a queda da taxa de lucro, o aumento do preço da força de trabalho, crise fiscal do estado, entre outros, e é nesse contexto de crise que aumentam as privatizações e a flexibilização do processo produtivo ganha destaque. 30 Com a terceira revolução industrial e a implantação de novas tecnologias no sistema de produção das fábricas, muitos trabalhadores são substituídos pelas máquinas. Surgem novos campos de trabalho no setor de serviços, o subemprego, o desemprego estrutural, a expansão do trabalho parcial, temporário, precário, os subcontratos e o processo de terceirização são característicos desse momento. A terceirização é o processo em que uma empresa contrata outra empresa para prestar algum serviço, como serviço de limpeza, serviços de conserto em máquinas, computadores, elevadores, serviço de cozinha e no caso da terceirização de call center, a empresa contrata esse serviço para fazer a comunicação entre cliente e empresa. Para ilustrar esses processos contraditórios do mundo do trabalho, de expansão do setor de serviços, apresentaremos alguns dados em nível da região metropolitana de Fortaleza-Ce, sobre alguns setores da economia. Tabela 11 Estimativas do Numero de Ocupados, segundo Setores de Atividade Econômica Região Metropolitana de Fortaleza 2010-2011 Setores de Atividade Total Indústria de Transformação Construção Civil Comércio Serviços/Outros (1) Estimativas (em mil pessoas) 2010 2011 1.595 1.633 293 307 112 321 869 122 314 887 Variações Absoluta Relativa (em mil pessoas) (%) 2011/2010 2011/2010 38 2,4 14 4,8 10 -4 18 8,9 -1,2 2,07 Fonte: Convenio IDT/Sine-CE, Fundação Seade-Dieese e TEM/FAT (1) Incluem Serviços Domésticos etc. 1 Fonte: PESQUISA DE EMPREGO E DESENVOLVIMENTO. O mercado de trabalho na metropolitana de Fortaleza em 2012. Disponível em: http://www.sineidt.org.br/PortalIDT/arquivos/ped/2011pedfor.pdf. Acesso em: 26 de out. de 2013. região 31 Tabela 22 Estimativas do Numero de Ocupados, segundo Setores de Atividade Econômica Região Metropolitana de Fortaleza 2010-2011 Setores de Atividade Total Indústria de Transformação Construção Cívil Comércio Serviços/Outros(1) Estimativas (em mil pessoas) 2011 2012 1.595 1.633 308 303 132 370 822 134 388 832 Variações Absoluta Relativa (em mil pessoas) (%) 2012/2011 2012/2011 38 2,4 -5 -1,6 2 18 10 1,5 4,9 1,2 Fonte: Convenio IDT/Sine-CE, Fundação Seade-Dieese e TEM/FAT (1) Incluem Serviços Domésticos etc. Analisando os dados das tabelas 1 e 2 constamos que há um aumento do nível ocupacional (2,4%) na tabela 1, refletindo na geração de postos de trabalho na Indústria (14 mil ou 4,8%), Construção Civil (10 mil ou 8,9%) e nos Serviços/Outros (18 mil ou 2,07%) e uma redução nos setores de Comércio (4 mil ou 1,2%). Já na tabela 2 observamos um adicional de 25 mil pessoas ocupadas na RMF, refletindo na geração de postos de trabalho no Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas (18 mil ou 4,9%), Serviços/Outros (10 mil ou 1,2%) e Construção Civil (2 mil ou 1,5%), e redução na Indústria de Transformação (-5 mil ou -1,6%). Percebemos o aumento gradativo do número de trabalhadores no setor de serviços, este fator aponta que na medida em que aumentam as ofertas de emprego neste setor, aumentam também as relações de trabalhos precarizadas pela subcontratação, pela flexibilidade e pela terceirização 2 Fonte: PESQUISA DE EMPREGO E DESENVOLVIMENTO. O mercado de trabalho na região metropolitana de Fortaleza em 2012. Disponível em: http://sineidt.org.br/PortalIDT/arquivos/ped/Boletim_PED-RMF_Anual2012.pdf. Acesso em: 26 de out. de 2013. 32 característicos do setor de serviços, em que grande parte das empresas recorrem a terceirização com o objetivo de baratear os custos, como ressaltam BORGES e DRUCK 1993: “[...] o recurso à terceirização, cuja justificativa central nem sempre esta explicita é a redução de custos (de mão-de-obra de encargos sociais e das políticas de benefícios), a qualquer preço.” (p. 13). Com essa estratégia o trabalho tende a ser precarizado pelos baixos salários e pela redução de benefícios, e o trabalhador que necessita do salário para consumir e garantir sua subsistência e de sua família se submete a essa forma de contratação. [...] a industrialização e o crescimento econômico assumem um caráter fortemente excludente. Isto por que incorporou segmentos relativamente reduzidos ao mercado de trabalho organizado e criou um mercado consumidor extremamente selecionado e restrito. Constituindo-se, assim, num modelo essencialmente concentrador de renda [...] (BORGES e DRUCK, 1993, p. 7). Outro fator relevante quanto à terceirização é a qualidade dos serviços prestados, pois, como é enfatizado por BORGES e DRUCK 1993: “A inexistência de parceiros qualificados é destacada, inclusive, por consultores de empresas que fazem proselitismo da terceirização como peça-chave da modernidade e da conquista de competitividade [...]” (p. 15) com isso as empresas recorrem a mecanismos de controle de qualidade e de monitoramento a fim de garantir o controle e qualidade dos serviços. Antigamente a maioria das empresas só utilizavam a terceirização para serviços secundários, hoje a terceirização “[...] vem atingindo não apenas áreas/atividades da empresa que não são consideradas estratégicas [...] mas, pelo contrario, estende-se também a produção de produtos e serviços considerados essenciais e nucleares do processo produtivo” (BORGES e DRUCK, 1993, p. 15). O recurso a terceirização é usado por várias empresas, mas principalmente por empresas de mineração, indústria e de telecomunicações, é o caso dos call centers que será abordado no capitulo seguinte. 33 2. O NASCIMENTO DO CALL CENTER E SUAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NA SOCIEDADE CONTEMPORANEA “[...]a rotina e o modo de vida daqueles que, apesar de arruinarem frequentemente suas vozes ao transformá-las em poderosos instrumentos de acumulação de capital, raramente são ouvidos.” (ANTUNES e BRAGA, 2009, p. 13) No segundo capitulo desta pesquisa entraremos na dimensão do objeto central desde estudo, o call center e seus operadores. No primeiro momento contaremos um pouco da história e de como surgiram os call centres, em segundo vamos expôr um pouco da dinâmica desse espaço de trabalho, dando ênfase a pontos expressivos como a flexibilidade e a rigidez do call center. E por último falaremos do operador de telemarketing, ressaltando suas condições de trabalho na contemporaneidade. 2.1 O surgimento do call Center No ano de 1876 o telefone é inventado por Alexandre Graham Bell3 (Zambon, 2002). E só após quatro anos, em 1880, data o registro mais antigo do uso do telefone para fins empresariais. Nesse ano um fabricante de doces tem a idéia de oferecer seu produto por telefone. Formou uma equipe com cerca de cem pessoas, que entravam em contato e cadastravam os clientes, criando assim o primeiro televendas, ou seja, o uso do telefone simplesmente para oferecer um produto ou serviço. (MANCINI, 2006). Na década de 1950, após a segunda guerra mundial se inicia um excelente período para a mídia, em que os anúncios incorporavam números de telefone para que o cliente pudesse entrar em contato com a empresa. Sendo a 3 Alexander Graham Bell patenteou na Inglaterra o primeiro telefone, mais que o lançamento de uma nova tecnologia que em não muito tempo seria largamente utilizada pelo mundo, ele lançou também, mas não intencionalmente uma nova forma de fazer negócio. É preciso que fique claro que não é somente após o termo telemarketing ter sido aplicado que o telefone passou a ser visto e utilizado como ferramenta de negócio. (Zambon, 2002). 34 Ford 4 a primeira a investir em uma campanha de marketing por telefone e rapidamente a estratégia se disseminou. Nos anos de 1970 nos Estados Unidos, cerca de 50% dos americanos recebiam contatos por telefone. E é somente na década de 1980 que o termo telemarketing surge oficialmente. (MANCINI, 2006). Conforme MANCINI (2006) podemos definir alguns conceitos, como, o de televendas e telemarketing respectivamente: [...] engloba os procedimentos mais simples que envolvem o telefone e a apresentação de um produto ou serviço para o cliente em potencial, visando efetivar a venda. Foi à primeira função incorporada à tecnologia do telefone, logo após sua invenção. [...]. (p. 29) No telemarketing o telefone deixa de ser apenas um meio simples e barato para efetivar vendas e passa a ser manuseado como uma ferramenta do marketing mix. Ele continua oferecendo os mesmos benefícios das televendas, mas agrega outras funções: detectar necessidades, monitorar o mercado, interagir com o cliente, realizar pós-venda, pesquisas, propaganda etc. Ou seja: é um instrumento de “inteligência e informação” voltado para atender às demandas, cada vez maiores, do público. (p. 29) E ainda os conceitos de Call Center e de Contact Center: O call center, portanto, já é um conceito ampliado do telemarketing, pois sua estrutura faz parte da (e confunde-se com a) própria missão da empresa. O call center surge no momento em que a organização sente necessidade não só de atender as demandas do mercado, mas também de antecipar-se a elas, ultrapassando as expectativas do cliente. [...] Em um call center típico, um conjunto de pessoas (agentes) atende às chamadas de clientes, relacionadas aos diversos serviços que podem ser oferecidos, tais como: suporte técnico; vendas de produtos; sugestões; solicitação de informações; reclamações [...] (p. 30) Este é o conceito mais recente de relacionamento com o cliente. Neste modelo, todas as relações da empresa com o mundo externo, não importando a mídia, o veículo utilizado (telefone, correio, computador etc.) são administradas e geridas por um único pólo. Tudo e todos, na empresa, trabalham para que ela ocupe um lugar de sucesso e destaque no mercado. (p. 30) Os serviços de teleatendimento surgiram como estratégias de competitividade entre as empresas, na busca de maior eficiência no contato com o cliente. Porém o atendimento a clientes em call center é feito por pessoas e para pessoas e envolve emoções, problemas, necessidades entre 4 Ford Motor Company: Empresa fundada pelo empresário norte-americano Henry Ford, cuja principal característica é a fabricação em massa. 35 outros elementos da subjetividade humana, com isso a utilização de modelos de controle para garantir a qualidade na prestação do serviço torna-se difícil e complexa. (CORDEIRO, 2011). No Brasil a telefonia surge no inicio do século XX, a CTB (Companhia Telefônica Brasileira) foi a primeira empresa a oferecer serviços de telecomunicações. Na década de 1970 as empresas regionais ganham emancipação e tornam-se autônomas passando a compor o sistema Telebrás. As centrais de teleatendimento são consideradas organizações novas no mercado, a estimativa é de que 96% delas tenham sido criadas a partir de 1990 e 76% após 1998, ano da privatização do sistema Telebrás. (CORDEIRO, 2011). A busca pela máxima rentabilidade dos serviços ativos nessas empresas produziu um ciclo aprofundado de terceirização, comportando múltiplas formas de precarização do trabalho, além de modos exacerbados de intensificação dos tempos e movimentos no ato laboral. Em termos práticos, é da confluência entre a terceirização e a precarização do trabalho com um novo ciclo de negócios associados às tecnologias informacionais e à mercadorização dos serviços sob o comando da mundialização financeira que nascem os teleoperadores brasileiros. (ANTUNES E BRAGA, 2009, p. 10) O telemarketing surge no Brasil na década de 1980 com a implantação das primeiras centrais de atendimento filiadas a empresas multinacionais, a editoras e as operadoras de telefonia. Nos anos 1990 houve um grande crescimento das centras de teleatendimento no país, mas a maior evolução no setor acontece somente nos anos 2000 com a chegada da internet aos call centers. Conforme dados da Associação Brasileira de Telesserviços (2008), o Brasil conta com, aproximadamente, 700 mil operadoras de telemarketing. (CORDEIRO, 2011). No final dos anos 1990, no contexto da política neoliberal, ocorre a privatização das telecomunicações no Brasil. Nesse momento são criadas as operadoras de telefonia, nesse período há uma redução no custo das linhas telefônicas e uma ampliação nas redes de atendimento. Porém esse salto não se refere à prestação de serviço de qualidade nem a redução das tarifas. (VENCO, 2009). 36 Nesse processo de desenvolvimento no setor de telecomunicações são criados novos serviços, com novas formas de venda e de atendimento aos clientes, são as centrais de teleatividade, também conhecidas como call centers, que passam a prestar serviços antes realizados pelas empresas contratantes e valendo-se de uma forte tendência de terceirização de serviços na economia. (VENCO, 2009). 2.2 Da flexibilização a rigidez. Como funciona um call center? Os call centers evidenciam-se pelo uso de tecnologias inovadoras que racionalizam os serviços, atingindo tanto os funcionários das próprias centrais de atendimento, como eliminando postos de trabalho de diversos setores, pois substituem o atendimento presencial. (ANTUNES E BRAGA, 2009). O call center executa tarefas antes realizadas na própria empresa. (...)concretizam a racionalização do trabalho na medida em que uma única unidade de trabalho atende à totalidade das necessidades de um determinado conjunto de empresas de um mesmo ramo, como as operadoras de telecomunicações (...).(OLIVEIRA, 2009, p. 114) É importante ressaltar a presença do toyotismo e do taylorismo nos call center pois associa aspectos de caráter quantitativo e qualitativo. Ou seja, há uma organização do trabalho pautada na prescrição dos procedimentos, acompanhada de um forte controle sobre os operadores, propiciado por inovações tecnológicas e exercido por vários agentes que atuam na produção. (VENCO, 2009). O atendimento funciona da seguinte forma, quando o cliente entra em contato com a central de atendimento, primeiramente, ele é atendido por uma URA (Unidade de Resposta Audível) que oferece opções ao cliente, em forma de menu eletrônico, com o objetivo de tentar resolver a solicitação do mesmo, sem a necessidade de passar pelo atendimento humano. Porém, caso a solicitação não possa ser atendida o cliente é transferido para um atendente. Na passagem do “eletrônico” para o “humano”, todos os dados do cliente já estão disponíveis para o atendente ou operador, como são denominados os trabalhadores. Essa etapa de transferência é 37 realizada por um aparelho de distribuição automática de ligações (DAC), o qual faz uma seleção dos funcionários que estão há mais tempo ociosos, colocando-os sistematicamente em ação. Tal equipamento permite, além do aumento da produtividade, impedir que haja escolha, por parte do cliente, de um determinado funcionário. Essa conduta fundamenta-se em diferenciar o atendimento a distancia em relação ao pessoal e visa distanciar o operador do cliente, de forma polida. (...).(OLIVEIRA, 2009, p. 115) Sobre o monitoramento das chamadas é importante ressaltar que, a maiorias das ligações são monitoradas em tempo real, “As cadências e os ritmos são estabelecidos e as normas e procedimentos são fixados, eliminando-se qualquer possibilidade de autonomia” (OLIVEIRA, 2009, p. 122). Nesse processo o tendente é submetido a uma enorme pressão, pois são avaliados aspectos como a duração das chamadas medida através do TMA (Tempo Médio de Atendimento), o tom da voz também é avaliado, assim como a forma como é conduzida a relação e a interação com o cliente. Durante as chamadas, o operador utiliza um script que somado as ferramentas de controle do supervisor, racionaliza o tempo utilizado no atendimento das chamadas. Na PA (Posição de atendimento) onde os atendentes ficam, não é permitido a presença de nenhum papel, bolsa, livro ou comida. (ANTUNES E BRAGA, 2009). A maioria das empresas recorrem a terceirização de alguns serviços, para baratear os custos, com mão de obra, com encargos sociais, e com as políticas de benefícios (BORGES e DRUCK 1993). Isso só torna a relação entre empregador e empregado ainda mais precarizada. Devido à terceirização muitos trabalhadores tornam-se meros “prestadores de serviços”, sujeitos a subcontratação, o caráter predatório da terceirização criou uma ampla rede de serviços, mas com salários bastante reduzidos. Com a precarização das condições de trabalho e das condições de contratação salarial, vivi-se um momento de perda de direitos e de busca de recomposição das margens de acumulação do valor. (ALVES, 2007). (...) a precarização do trabalho, num primeiro momento, torna mais difícil o desenvolvimento da consciência de classe necessária, tendo em vista que surgem no seu bojo, pressões sociais (e culturais) em prol de práticas neocorporativas e de fragmentação vinculadas a interesses particularistas oriundos de clivagens salariais. (ALVES, 2007, p. 88) 38 Além da relação de trabalho terceirizada5 e precarizada6 o controle sobre os funcionários nas empresas e em especial nas empresas de call center se dá de forma expressiva, em que a empresa dispõe de diversos mecanismos e estratégias para garantir a eficácia e eficiência do tempo de trabalho uma delas é destacada por Antunes 2007: “(...) a fragmentação do trabalho, adicionada ao incremento tecnológico, pode possibilitar ao capital tanto uma maior exploração quanto um maior controle sobre a força de trabalho (...)” (p. 28). O call center é dividido por setores, como setor de vendas, setor de cobrança, setor de informações entre outros, com isso temos operadores especializados em atender determinada demanda. O horário de trabalho é flexível, pois a carga horária do operador de call center é de apenas 6 horas por dia, porém, há um rigoroso controle de entrada e saída, assim como nos intervalos ao longo da jornada de trabalho, que no caso de atrasos, afeta umas das metas do operador, o absenteísmo, o atraso também é descontado em folha de pagamento. Além disso, existem câmeras que tem a função de “vigiar”7 o comportamento dos operadores que devem permanecer sentados, com o ret set na cabeça e sem conversar uns com os outros. E ainda tem-se o tempo8 de atendimento que também é uma meta a ser atingida, devendo ser o menor possível. A essência do controle é garantir que cada operador estará disponível para atender as ligações o máximo de tempo possível, além de executar o atendimento no menor tempo possível. Esse é o desafio, alta taxa de ocupação com baixo tempo de atendimento, dentro dos 5 É a transferência de funções de uma empresa a outra que presta serviço especializado em uma determinada área. 6 Precarização é a degradação física e psicológica do trabalho, é consequência da flexibilidade das relações trabalhistas, que estão cada vez mais instáveis, deixando os trabalhadores vulneráveis a dinâmica do capital. “(...) significa um esforço para ajustar os mecanismos de poder que enquadram a existência dos indivíduos: significa uma adaptação e harmonia dos instrumentos que se encarregam de vigiar o comportamento cotidiano das pessoas, sua identidade, atividade, gestos aparentemente sem importância; significa uma outra política a respeito dessa multiplicidade de corpos e forças que uma população representa.” (FOUCALT 2010, p. 98). 7 “O tempo medido e pago deve ser também um tempo sem impureza nem defeito, um tempo de boa qualidade, e durante todo o seu transcurso o corpo deve ficar aplicado a seu exercício. A exatidão e a aplicação são, com a regularidade, as virtudes fundamentais do tempo disciplinar.” (FOUCALT 2010, p. 145). 8 39 limites da qualidade do atendimento. (ARGOLO E RAMOS, 2000, p. 89) A qualidade do atendimento, outra meta, é controlada através do monitoramento das ligações, em que uma equipe especializada escuta as ligações aleatoriamente sem que o operador saiba que sua ligação esta sendo monitorada, essa é uma maneira de garantir ao cliente o bom atendimento, pois, caso não seja de acordo com os padrões da empresa a qualidade do atendimento é afetada. Através das câmeras de vigilância o operador é vigiado durante seus horários de intervalo e com a modernidade há empresas que observam o comportamento do trabalhador através de sites de relacionamento, ou seja, o trabalhador é observado dentro e fora de seu local de trabalho, sendo esta uma forma de dominação e até de coerção. O controle do tempo e do espaço de trabalho pela gerência são formas de dominação que se manifestam por diversas formas de vigilância, tanto no local de trabalho quanto fora, pois é criada uma forma de agir congruente com os padrões estabelecidos pelo sistema de dominação. O uso do tempo e do espaço passa a obedecer a padrões sociais que foram forjados pela necessidade de consumo, existindo um lugar para cada coisa e um tempo definido para cada atividade, seja profissional ou pessoal. (ARGOLO E RAMOS, 2000, p. 86) Esses mecanismos de controle são utilizados para garantir o bom comportamento do trabalhador dentro e fora da empresa, dentro da empresa para garantir a eficiência do tempo sem desperdícios e fora dela para garantir a boa imagem da mesma. 2.3 O operador de telemarketing e suas condições de trabalho na contemporaneidade O setor de teleatendimento e os trabalhadores dessa área são representantes de uma das mais importantes transformações pela qual atravessou a economia nos últimos anos, trata-se de um setor que emerge do ciclo de privatizações que foi uma das formas encontradas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso para criar um ciclo de negócios no país, a fim de 40 potencializar a acumulação de capital em detrimento dos interesses públicos (ANTUNES E BRAGA, 2009) Na tese de doutorado da Prof.ª Dr.ª Mônica Duarte Cavaignac (2011), a autora discorre sobre as relações de trabalho no call center, cujos operadores de telemarketing, na condição de trabalhadores terceirizados, mantêm relações de trabalho instáveis, caracterizadas pela subcontratação, alta rotatividade, salários baixos e desrespeito em relação à saúde e ainda estão sujeitos a um estilo de gestão que combina modernas tecnologias de controle da produtividade com antigos meios de vigilância, marcados pela cobrança de resultados, pressão psicológica, assedio moral e constante ameaça de demissão. O setor de telemarketing é um dos setores da economia que mais gera emprego no Brasil, desde os anos 1990, conforme ressalta Antunes E Braga (2009, p. 09) “[...] trata-se de um grupo de trabalhadores que tem crescido de maneira exponencial desde o inicio do ciclo de privatizações pelo qual passou o setor de telecomunicações no país na segunda metade da década de 1990.” Gerando assim uma massa de trabalhadores no setor, “[...] os teleoperadores representam uma das maiores categorias profissionais brasileiras, sendo um dos setores que mais se ampliam dentro da classe trabalhadora.” (ANTUNES E BRAGA, 2009, p. 09) Ainda segundo Antunes e Braga (2009) o trabalho no setor de telemarketing é rigorosamente condicionado por características do processo contraditório da reprodução, em que são articuladas tecnologias do século XXI com condições de trabalho do século XIX, junta estratégias de intensa e brutal emulação do trabalhador do setor em questão, ao modo da flexibilidade toyotista, com técnicas gerenciais tayloristas de controle sobre os operadores, associando o trabalho em grupo com a individualização das relações, estimulando a cooperação e ao mesmo tempo fortalecendo a concorrência entre os trabalhadores, sendo responsável pela ampliação das formas mais complexas de estranhamento e alienação contemporânea do trabalho. Os call centers são exemplos de um trabalho informacional, com alto controle sobre seus funcionários, por exemplo, o controle racional do tempo e 41 do trabalho por meio da informática, produtividade máxima em detrimento das boas condições físicas e psicológicas dos trabalhadores, que podem adquirir doenças como LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e depressão. Essas e outras doenças laborais são comuns nos call centers, mas as empresas já estão preparadas e “Para garantir níveis altos de produtividade, as empresas de call center mantêm um pequeno exército de reserva.” (ROSENFIELD, 2009, p. 178). [...] o operador no inicio de suas atividades em uma determinada empresa apresenta altos índices de rendimento (o que reverte em comissões ou pontuações, gerando ganhos monetários). Há, no começo, um forte investimento pessoal movido por um sentimento de autosuperação. Com o passar do tempo, a fadiga, o esgotamento físico e psicológico, a perda da paciência e o aumento constante das metas (o que significa a redução do rendimento e um esgotamento da autossuperação) se traduzem em queda da produtividade. Para a empresa, significa que o “prazo de validade” do operador se esgotou e ele precisa ser substituído. (ROSENFIELD, 2009, p. 178). O operador de telemarketing deve ser autônomo e deve trabalhar dentro das normas, ou seja, ao invés de ser sujeito volta à condição histórica de objeto. No call center o que vale é garantir a qualidade do atendimento e a satisfação do cliente, ser gentil, educado, responder com bom-humor, em um ritmo acelerado para não comprometer o tempo, e fazer o cliente crê que o que é oferecido é um bom negócio, mesmo quando o operador sabe que não é. (ROSENFIELD, 2009) Cavaignac (2011) aponta, ainda, que a categoria profissional em questão, é formada, por jovens, em sua maioria do sexo feminino, que concluíram o ensino médio e que estão em busca do primeiro emprego, e ainda são atraídos, pela flexibilidade da jornada de trabalho do call center, que permite conciliar o trabalho com outras atividades. Porém devido ao alto nível de stress a qual estão submetidos os operadores de telemarketing, a maioria deles não tem perspectiva de crescimento na empresa, e acabam trabalhando por temporada, ou seja, passam pouco tempo nas empresas, entre os principais motivos que levam a demissão, está o não atendimento das metas que leva a empresa a desligar o funcionário, com a justificativa que o mesmo não corresponde mais ao perfil da empresa e o desgaste do operador que acaba pedindo desligamento. “São mercadoria com curto prazo de validade, 42 pois, com pouco tempo de uso, começam a desenvolver problemas físicos e psicológicos, devido ao ritmo intenso e estressante do trabalho” (CAVAIGNAC, 2011, p. 47). É importante ressaltar que muitos dos trabalhadores do setor de telemarketing se sujeitam a tais condições de trabalho, (terceirizada, fragilizada, instáveis e precarizada) porque temem o desemprego e a lógica excludente do mercado. E nessa conjuntura se submetem a exigências da empresa que chegam a ferir até os direitos humanos como coloca Cavaignac (2011): Em troca do direito ao trabalho – numa sociedade em que os trabalhadores “livres” temem ser “castigados” pelo desemprego -, os teleoperadores têm de se comportar como verdadeiros escravos da empresa, abrindo mão não só de direitos sociais, mas também de direitos humanos, como o direito de repousar quando doentes, de alimentar-se adequadamente, de satisfazer suas necessidades fisiológicas e, inclusive, o direito à liberdade de ir e vir no momento desejado. (p. 53) O recurso a terceirização de fato reduz os operadores de telemarketing a custo de produção, desqualifica e desvaloriza um serviço que do ponto de vista do cliente é de grande importância, pois o call center funciona como ponte e como porta de entrada da empresa, e nesse contexto o atendente é a personificação. (CAVAIGNAC, 2011). A partir dessa discussão sobre a realidade do trabalho em call center buscou-se analisar a relação de trabalho que se estabelecem nessas empresa e para isso foi realizada uma pesquisa de campo com alguns operadores de uma grande empresa de Fortaleza-Ce, que será apresentada no capitulo a seguir. 43 3. COM A PALAVRA OS OPERADORES DE CALL CENTER No terceiro e último capítulo deste estudo, ressaltaremos as falas dos sujeitos que serão relacionadas com suas percepções a cerca do sentido do trabalho, será exposto também as relações de trabalho destacando a flexibilidade e o controle, assim como serão expostos os sentimentos dos operadores através das falas sobre suas perspectivas para o futuro. 3.1 O sentido do trabalho A questão inicial abordada nas entrevistas com os operadores de call center foi a relação com o trabalho, pois é necessário entender o que é o trabalho para os sujeitos, para então analisar a relação de trabalho deles com a empresa em questão. Na longa historia da atividade humana, em sua incessante luta pela sobrevivência, pela conquista da dignidade, humanidade e felicidade social, o mundo do trabalho tem sido vital. Sendo uma realização essencialmente humana, foi no trabalho que os indivíduos, homens e mulheres, distinguiram-se das formas de vida dos animais. [...] Esse fazer humano tornou a história do ser social uma realização monumental, rica e cheia de caminhos e descaminhos, alternativas e desafios, avanços e recuos. E o trabalho converteu-se em um momento de mediação sociometabólica entre a humanidade e a natureza, ponto de partida para a constituição do ser social. Sem ele a vida cotidiana não seria possível de se reproduzir. (ANTUNES, 2009, p. 230). Todos os entrevistados entendem o trabalho apenas como uma relação salarial, para ganhar dinheiro, adquirir bens materiais e para se sustentar, ou seja, os sujeitos não compreendem o trabalho como algo prazeroso, fundante do ser social, ou seja, como uma atividade que transforma a natureza nos bens necessários à reprodução social, como algo que irá lhe trazer satisfação pessoal e profissional. Os operadores de call center representam uma parcela da “[...] totalidade dos assalariados que vivem da venda de sua força de trabalho [...] como mercadoria em troca de salário.” (ANTUNES, 2009, p. 238), caracterizando assim, o trabalho alienado. 44 Trabalho pra mim é uma atividade, que você faz e que é remunerada [...] eu trabalho pra ter independência financeira. (operador 1). É uma maneira de ter independência financeira, adquirir experiência, realizar meus desejos fúteis. (operador 2). É uma maneira de ganhar um dinheirinho pra gente ter a nossa estabilidade, e não estar dependendo só dos pais, esse foi meu primeiro trabalho, nunca trabalhei antes de carteira assinada, e pra criar um pouco mais de maturidade também. (operador 4). O trabalho, que por um lado é considerado um momento fundante da vida humano, ponto de partida para o processo de humanização, por outro, no contexto da sociedade capitalista, foi transformado em trabalho assalariado, alienado e fetichizado, convertendo-se em meio de subsistência, de modo que a força de trabalho é a mercadoria que permite a criação de novas mercadorias, valorizando o capital. (ANTUNES, 2009). Quando questionados a respeito da relação de trabalho com a empresa e sobre a satisfação em exercer a função de operador de call center as opiniões são diferentes, dos cinco entrevistados apenas dois não estão satisfeitos com as vantagens da empresa, e afirmam. Com certeza não estou satisfeito, pelo stress do trabalho, principalmente por que a empresa em si, ela não da vantagens para a gente ter satisfação no que a gente faz. (operador 4). Satisfeita não estou, mas no momento é dessa forma que pago minhas contas. (operador 3). Já os outros ressaltam a questão de trabalharem apenas por 6h, as amizades que são feitas no ambiente de trabalho e colocam as comissões como uma motivação a mais para continuarem na empresa. A carga horário é muito boa, a remuneração variável da ânimo para trabalhar, o ambiente também ajuda muito, você acaba vendo seus colegas de bateria todos os dias e acaba criando laços de amizades que se estendem até fora da empresa, minha relação com a empresa por enquanto é boa, sei que terá um momento que não vou querer estar ali, e depois de trabalhar anos, claro que ninguém quer pedir as contas, a empresa é conhecida por dificultar a saída do funcionário de uma forma amigável [...] então no momento que eu quiser sair da empresa, vou ser obrigado a deixar essa relação desagradável. (operador 2). O bom dessa profissão são as 6 horas que exerço, trabalho de manhã e tenho o resto do dia livre pra resolver outras coisas. (operador 5). 45 Outra questão abordada nesse primeiro momento das entrevistas foi em relação ao salário, questionou-se a opinião dos sujeitos sobre a satisfação com o que ganham para exercer a função de operadores de call center. Nesse momento as opiniões são divididas, pois uns acreditam que merecem muito mais e perceberam isso após ingressar em cursos universitários, fato que teria “aberto os olhos” (operador 5) para seus direitos enquanto trabalhador. Não, principalmente por que agora que eu faço faculdade de RH e conheço meus direitos, eu vejo que lá, a gente ganha menos do que a gente merece. (operador 4). Não, até por que sei que existem call centers que pagam bem mais e também tem outras vantagens como o vale alimentação que é quase três vezes maior, o auxilio babá também é maior. (operador 3). Já os que estão satisfeito ressaltam novamente a questão da remuneração variável (comissões) como fator motivante. Mas, vale salientar que essas comissões não são comuns a todos os operadores. Sim, a empresa tem vários setores, e as avaliadoras na seleção para entrar viram em mim, um perfil para o setor de cancelamentos ou retenção. Esse setor á conhecido por ser mais “tranquilo” e com a melhor remuneração, claro que tem suas dificuldade para atingir a bonificação máxima ou “top”, que acaba às vezes tendo um pouco de estresse, mas a remuneração acaba “sobrepondo” tudo isso. (operador 2). antes não achava, mas agora, estou satisfeita com o que ganho, nunca estamos satisfeitos, sempre queremos mais, mas, em comparação com o que ganhava antes, agora tá bem melhor com certeza. (operador 1). A remuneração variável ou comissões, como são mais conhecidas, são características apenas de alguns setores como o setor de vendas e o setor de cancelamento, o setor de reparo e de informações não tem esse tipo de premiação para os operadores. E para que o trabalhador ganhe comissão, é preciso atingir as metas, assunto que será abordado no tópico a seguir. 3.2 Flexibilidade e controle As empresas de call center dão a seus empregados a vantagem de uma carga horário flexível, em que o funcionário trabalha apenas 6 horas por 46 dia, sendo este horário somente pela manhã, somente pela tarde ou noite e até no horário da madrugada, existe também os horários intermediários que corresponde a parte da manhã e parte da tarde, por exemplo, mas mesmo assim, sempre deixam o funcionário com um turno do dia livre, para fazer outras atividades como estudar. Entre as distintas formas de flexibilização [...] podemos destacar, por exemplo, a salarial, de horário, funcional ou organizacional. A flexibilização pode ser entendida como “liberdade da empresa” para desempregar trabalhadores; sem penalidade, quando a produção e as vendas diminuem; liberdade, sempre para a empresa, para reduzir o horário de trabalho ou recorres a mais horas de trabalho; possibilidade de pagar salários reais mais baixos de que a paridade de trabalho exige [...] mudando os horários e as características do trabalho [...] dentre tantas outras formas de precarização da força de trabalho. (ANTUNES, 2009, p. 234). Porém o controle dos horários e a pressão por resultados são caracteristicas desse segmento, pois a empresa utiliza as mais diversas ferramentas de controle para garantir o máximo de produtividade, alcance das metas e a acumulação de capital. Não é por acaso que os padrões rígidos de controle do tempo, da produtividade e da qualidade do trabalho estejam também incluídos os scripts e os fluxogramas de atendimento. Muitas empresas de telemarketing padronizam os diálogos objetivando facilitar o trabalho das teleoperadoras, através da prescrição de uma norma de comportamento que direciona inclusive a entonação da voz, já que a resposta dada ao cliente é muitas vezes aceita ou não dependendo da tonalidade usada pelas teleoperadoras, mas, sem duvida, o central desse padrão é garantir as metas da produtividade e, dessa forma, obter a segurança da acumulação de capital. (NOGUEIRA, 2009, p. 196) A respeito das metas, os entrevistados admitem que sim, a empresa estabelece muitas metas, mas as opiniões se dividem em relação à forma de lidar com elas, por exemplo, no primeiro depoimento o (operador 1) admite que elas existem e informa que não tem problemas em atingi-las. Sim, no setor que estou atualmente tenho metas a serem atingidas. Trabalho por produtividade, não sei nem como explicar, é mais ou menos assim: trabalho no setor de reparo de linha fixa, tenho que tratar algumas solicitações de reparo por dia e resolver algumas também. Não tenho problema quanto às metas, consigo atingir todas. (operador 1) Já os operadores 2 e 4 concordam que as metas que a empresa estabelece são irreais e colocam que é quase impossível atingi-las da forma que a empresa quer, ou seja, fazendo tudo da forma certa. O que compreendi 47 através das falas é que é quase impossível atingir as metas, e que para atingir essas metas “irreais” é preciso apresentar resultados “irreais”. Os operadores para permanecer na empresa, para ganhar as premiações, acabam aprendendo formas de burlar os resultados para atingir as metas e dar a empresa o que ela quer. Tudo gira em torno de metas, que por sinal são irreais, e você acaba sendo coagido pelo sistema, ou você entrega resultados irreais para metas também irreais ou você entrega resultados reais e seu supervisor acaba dificultando algumas coisas para você, como exemplo, saída antecipada, horário mais cedo no final de semana, pausas no horário de trabalho. Eu, como todos ali que desejam um salário melhor no final do mês, acabei aprendendo a entregar o que eles pedem e não se sentir mal por isso. Até vejo isso como um aprendizado, pois você tem que ter um “jogo de cintura” bem maior e acaba levando isso para situações fora da empresa. Pode parecer um pouco “desonesto”, mais é algo inevitável. (operador 2) São metas completamente absurda de serem batidas, antigamente as metas já eram complicadas, houve uma reformulação, pra quem não batia e não ganhava RV(remuneração variável) ganhar também, mas ai acabou piorando ainda mais. [...] por que antigamente a gente ganhava RV por venda e agora é por ligação atendida, quanto mais atendia mais ganhava, mas aumentaram as taxas bruscamente de 14% caiu para 8%, funcionava assim a cada 100 ligações atendidas a gente só podia cancelar 14 linhas e se batesse essa meta agente ganha um tanto em dinheiro e agora de 100 ligações só podemos cancelar 8, então piorou bruscamente. (operador 4) O mercado exige cada vez mais dos trabalhadores, exige que se destaquem em relação aos outros para ter seu trabalho reconhecido e valorizado, isso torna as relações cada vez mais individualizadas, todos querem ser o melhor, mesmo que para isso tenha que ser flexíveis em relação ao seu caráter. A rotina dos espaços de ocupacionais e a cobrança por metas ameaça degradar o caráter humano. “O caráter gira em torno do cumprimento do dever” (SENNETT, 2005, p. 41). Durante as entrevistas, os operadores foram questionados quanto aos horários de entrada e de pausa, nesse ponto as opiniões também são diferentes, mas apenas uma operadora admite que gosta do horário como está, já os outros relatam que apesar da jornada ser de apenas 6 horas por dia e o horário ser bastante flexível, há muitas mudanças, isso acaba interferindo na rotina dos mesmos fora da empresa. Sim, estou satisfeita, consigo conciliar o trabalho com a faculdade. Entro 17:40 h e saio 00:00 h. O horário do lanche é tranquilo, tenho 48 duas pausas de 10 minutos e uma de 20 minutos, posso tirar essas pausas no horário que eu achar melhor. (operador 1) Nos últimos meses o horário estava muito ruim, chegamos a entrar no ultimo horário, mas o supervisor conseguiu melhorar um pouco, não sabemos por quanto tempo isso vai durar, mas já e alguma coisa. (operador 2) A questão do horário não é tanto problema, Porque pra mim é flexível, só no final de semana que é bem mais tarde a entrada e só tenho folga um domingo praticamente, e a pausa lanche que é só de 20 minutos, pra mim é pouco que tenho que almoçar. (operador 3) Os horários variam muito, às vezes estão bons, às vezes estão ruins, todo mês muda. Quando eu entrei, no meu contrato, era de 8h da manha até 10h da noite eu aceitava trabalhar, ai a retenção passou a ser 24h, ai faltando 10 dias para acabar o mês do nada mudaram meu horário pra mim sair meia noite a partir do próximo mês, mas eu não aceitei, eu fiz uma confusão, disse que não tava no meu contrato, ai eu consegui ficar no horário que eu tava. Os horários de lanche eram razoáveis, só o tempo que é pouco. (operador 4) Nessa questão das mudanças de horário, muitos operados acabam questionando com o supervisor e não aceitam as mudanças, principalmente em relação ao final de semana. De acordo com os depoimentos a questão de trabalhar no sábado e principalmente no domingo é o ponto negativo da escala de trabalho em call center . Sobre os descontos, os operadores de call center entendem que é uma forma que a empresa tem de controlar seus empregados principalmente em relação aos horários e as metas, em um dos depoimentos a seguir o entrevistado se mostra conformado com os descontos e acha natural, no outro o operador também acha natural haver descontos, mas relata sobre descontos também nas comissões, no caso desse relato em especifico o desconto foi devido a um procedimento incorreto durante o atendimento. Creio que em todo emprego tem descontos no salário, como INSS, desconto do vale transporte, vale lanche, quando utiliza o plano de saúde também é descontado. Não tive outros descontos. (operador 1) No salário tem aqueles descontos básicos de INSS, vale transporte, vale alimentação, raramente descontos de consultas médicas. Grande desconto que tem em relação à remuneração variável, quando se tira nota baixa ou acaba recebendo reclamação na ANATEL, no começo do mês tive duas ANATEL de uma vez, que fez eu perder 80% da remuneração que receberia em dezembro, isso me deixou muito chateado, pois estava contando com esse dinheiro para 49 meu final de ano, isso também desmotiva o mês inteiro, não adianta fazer algo para perder um percentual tão grande. (operador 2) Já no depoimento a seguir o entrevistado se mostra bastante insatisfeito com os descontos, e informa que a empresa desconta tudo, atraso de entrada, atraso de pausa e desconta coisas que a pessoa não sabe nem de onde veio. De mais, ali desconta coisa que a gente não sabe nem o que é, teve um caso que não depositaram minha RV eu tive que levar extrato e contracheque, mas até hoje não depositaram, vai fazer um ano, elas desconto tudo, já descontaram atraso de pausa, atraso de entrada, tudo. (operador 4) Em relação ao controle da empresa sobre os funcionários, todos os entrevistados admitem que existe, apenas um acha natural que haja cobrança, os demais acreditam que é um exagero o fato da empresa estar sempre vigiando e cobrando resultados. Não, acho que qualquer pessoa que tenha um vínculo empregatício saiba o que tem que fazer. E é isso, faço apenas o meu trabalho, se estou fazendo corretamente não tenho porque me sentir pressionada. (Operador 1). Há um controle em relação a procedimentos da operadora, pressão para entregar metas irreais que acaba lhe coagindo a fazer alguns procedimentos indevidos. Acho que não influencia muito, pois as pessoas de meu convivo acabam passando pelas mesmas situações que eu. (Operador 2). Demais, demais, isso me atrapalha bastante, eu sou muito reativa, eu explodo rapidinho com as coisas lá dentro, bato de frente com supervisor, quando eu não concordo com algumas coisas eu chego e digo na cara, eu chego em casa estressada, desconto as coisa em quem não tem nada haver. (Operador 4). A indústria de call center e de teleserviços se alinha a precarização do trabalho neste século, não apenas pelo trabalho informal, temporário, parcial, e nem apenas pela terceirização, principal responsável pelo quadro dominante de uma estratégia de controle, racionalização e exploração, o conjunto desse sistema tem características que repetem no século XXI aspectos do controle da padronização e da racionalização do trabalho, ou seja, são responsáveis pelo trabalho sem significado para o trabalhador, que só pretende garantir sua subsistência. (NOGUEIRA e BASTOS, 2009). 50 3.3 Perspectivas Através do contato que tive com os operadores, pude perceber que a maioria deles não pretende construir uma carreira profissional na empresa, muitos alegam que estão fazendo faculdade, ou pretendem iniciar um curso superior em outras áreas, que não tem relação com o trabalho nas centrais de atendimento por isso só pretendem continuar na empresa durante o período que estiverem estudando, pois o horário flexível permite conciliar estudo e trabalho. Os mesmos só permanecem na empresa para custear os estudos em faculdades particulares e não tem perspectivas de crescimento e logo que concluírem o curso superior pretendem trabalhar na área de sua formação e deixar o call center. Sobre a oportunidade de crescimento na empresa, percebo um certo desanimo nas falas, os operadores contam que existe processo seletivo, mas é muito difícil conseguir subir de cargo, pois para concorrer é preciso estar com todas as metas em dia e na seleção há um certo favoritismo, ou seja, não é uma seleção justa na concepção de alguns operadores. E sobre a vontade de permanecer na empresa a opinião é a mesma, só até concluir os estudos. Sinceramente, não avalio não que não tenha essa possibilidade, é por não querer mesmo. Para crescer teria que abdicar de algumas coisas, como deixar de fazer algumas cadeiras na faculdade, como meu curso é integral, o único horário que dá pra conciliar é esse que estou atualmente. Até o momento não vejo motivos para não permanecer, sei que um dia terei que sair, até mesmo para seguir a carreira profissional que eu escolhi que é ser uma médica veterinária. (operador 1). Em certo ponto a empresa da algumas possibilidades de crescimento, mas geralmente as pessoas que trabalham como operador de telemarketing estão nessa função não por escolha, mais sim por necessidade. Uma parcela das pessoas que estão ali fazem faculdade em áreas totalmente diferentes da função exercida. Não vejo perspectiva de crescimento em relação a minha pessoa, pois quero começar minha faculdade de design de moda ou publicidade, e estou ali apenas para pagar meus estudos [...] minha meta e ficar ali enquanto termino ou pelo menos chego nas cadeiras de estagio na faculdade, porque a carga horária ajuda na vida de universitário (operador 2). Para subir de cargo lá dentro é mais por indicação, tem que se tornar uma pessoa submissa, e tem que aceitar e acatar todas as mudanças da empresa, e particularmente essa pessoa não consigo ser. (operador 3) 51 Eu já tentei quatro seleções lá dentro, só que elas favorecem a quem elas conhecem, eu acho que é esse o método que ela usa e isso acaba desanimando, eu levei uma suspensão injusta em março e não posso participar de seleção, só posso concorrer agora em março do próximo ano [...] estou com quatro anos de empresa e desde os seis meses que quero sair, por que eu comecei a adoecer. Quando a gente entra na empresa, pensa meu Deus é a melhor coisa do mundo, depois a gente percebe que não é, e com seis meses eu comecei a tentar processo seletivo, e comecei a ser barrada nos processos, eu não quero passar o resto da vida ali no atendimento. (operador 4). Uma questão abordada na entrevista me chama atenção sobre a satisfação dos sujeitos entrevistados sobre o trabalho que realizam no call center, é o fato de que nenhum dos operadores pretende exercer novamente a função de operador de call center caso sejam demitidos da empresa, e só exerceriam essa função novamente em caso de necessidade. Quero investir na minha formação e trabalhar na minha área. (operador 5). Olha por opção eu diria não, mas se eu me ver em uma situação de necessidade, quem sabe, essa função é muito cansativa e estressante, você acaba ouvindo muita coisa que não merece ouvir, em um dia que não está tão legal, você pode absorver aquilo pra si, sempre procuro deixar o que escuto de ruim no trabalho, no meu posto de atendimento na PA(posto de atendimento). (operador 2). Quero sair o quanto antes e não quero voltar mais para essa área [...] por motivo de saúde mesmo, sinto muitas dores musculares. (operador 3). Isso demonstra a insatisfação dos mesmos a respeito da função que exercem, como trabalhadores perante a sociedade, não se reconhecem como operadores de call center, estão apenas vendendo sua força de trabalho para garantir sua sobrevivência na sociedade capitalista. Sobre o futuro os entrevistados colocam que: “Quero me formar e conseguir passar em algum concurso na minha área, talvez IBAMA, Ministério da Agricultura. Muita pretensão? Talvez seja (risos), mas vou lutar para que isso aconteça.” (operador 1). Continuar correndo atrás das premiações, pois quero aproveitar todas as oportunidades. Mas no momento o que penso mais é minha faculdade. (operador 2). Trabalhar na minha área, investir bastante no meu futuro, nos meus estudos, e trabalhar com pessoas que é o que eu mais gosto. (operador 4). 52 Quando questionados sobre as suas perspectivas para o futuro fica claro que não veem a hora de concluir os estudos e exercer a determinada profissão escolhida, na esperança de trabalhar por prazer e por realização profissional. Os operadores de call center formam uma categoria de trabalhadores jovens, que, por falta de oportunidade em outras áreas e por falta de qualificação para ocupar outros cargos, vendem sua força de trabalho em troca de um salário para garantir sua sobrevivência na sociedade capitalista e que estão precocemente insatisfeitos com essa condição de trabalho. 53 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o presente estudo realizou-se uma análise da concepção de trabalho para o ser social, sendo este uma categoria essencial para a existência humana, pois o homem através do trabalho transforma a natureza de forma a atender suas necessidades vitais. Foram analisadas, também, as transformações que ocorreram no mundo do trabalho na sociedade capitalista, em que o trabalho passa a ser uma atividade geradora de lucro, onde uma pequena parte das pessoas é dona dos meios de produção e dos lucros, daí surge a necessidade do homem vender sua força de trabalho para manter-se na sociedade capitalista. Após o período de crise do capital, há uma redução de trabalhadores no setor fabril, e um enorme crescimento de empregos no setor de serviços, como o setor de comercial, o tecnológico e o organizacional. Neste momento o contexto de precarização das relações de trabalho se acentua, de forma que crescem o número de ofertas em subempregos assim como crescem também o número de desempregados. Os vínculos empregatícios são cada vez mais frágeis e flexíveis, o trabalhador vive sob a constante pressão de ser demitido a qualquer momento e se submetem a vender sua força de trabalho por salários baixos e condições precárias de realização da atividade laboral. No setor de telecomunicações, esse contexto de precarização fica claro quando analisamos as falas dos operadores entrevistados, os quais em sua maioria são jovens que estão no primeiro emprego e trabalham para pagar os estudos em faculdades particulares. Percebe-se que eles veem o trabalho apenas como um meio de ganhar dinheiro, seja para custear os estudos ou para ajudar a família, e além de não terem satisfação na atividade que realizam, estão sob a constante cobrança por horários, metas e resultados. A empresa em que foi realizada a pesquisa é uma prestadora de serviço, ou seja, terceiriza mão de obra para outras empresas, o lucro e a satisfação do contratante são a prioridade da prestadora de serviço e os resultados positivos devem ser obtidos a qualquer preço, por isso os entrevistados se sentem pressionados na empresa. 54 Outro ponto discutido foi o controle que existe no call center, os operadores são vigiados pelos supervisores e pelas câmeras, isso nada mais é que um meio de garantir que eles produzam e que não haja desperdício de tempo. O call center é um espaço ocupacional que utiliza tecnologia moderna e praticas antigas que se assemelham ao modelo toyotismo de controlar produção. Essa dinâmica dos call centers não da perspectivas aos seus funcionários e faz com que eles não tenham nenhuma intenção de permanecer na empresa, ou de crescer com a empresa. Com as entrevistas podemos perceber que é unânime a vontade de permanecer na empresa apenas até o momento que estiverem encaminhados em outra profissão, ou até terminarem um curso superior. Devido a alta rotatividade de funcionários no setor em questão, a organização política, em sindicatos da categoria, assim como, a luta por melhores condições de trabalho ficam comprometida. O trabalho é visto como algo negativo, apenas como uma obrigação, isso afeta a produtividade do operador, que acaba adquirindo doenças físicas pelo esforço repetitivo e doenças psicológicas pela carga de pressão que recebem, este é um dos motivos que leva a grande quantidade de demissões neste setor. Analisar a dinâmica do trabalho em call center nos faz perceber que a emancipação do homem por meio do trabalho está cada vez mais distante da realidade da sociedade capitalista, onde as pessoas trabalham porque precisam e não porque gostam. 55 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Giovanni. 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Centrais de teleatividades: o surgimento dos colarinhos fruta-cores? in ANTUNES, Ricardo e BRAGA, Rui. Infoprotetários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009. 59 APÊNDICES 60 Apêndice 1 Entrevista “O sentido do trabalho” 1. O que você entende por trabalho? 2. Que motivos te levam a trabalhar? 3. Está satisfeito com seu emprego como operador de telemarketing? Justifique. 4. Como você analisa sua relação de trabalho com a empresa? 5. Você acha que ganha o suficiente pelo trabalho que realiza na empresa? Comente. “Flexibilidade controlada” 1. A empresa estabelece metas? Cite-as? Como você lida com elas? 2. Você esta satisfeito com seus horários (entrada, saída, lanche, outros)? Comente. 3. Você já teve desconto em seu salário? Por qual motivo? Comente essa pratica da empresa. 4. Você se sente controlado/pressionado/coagido na empresa? Isso repercute nas suas relações interpessoais? “Perspectivas” 1. Como analisa a possibilidade de crescimento dentro da empresa? 2. Pretende permanecer na empresa? Justifique. 3. Caso seja demitido, pretende continuar a exercer a função de operador de telemarketing? Justifique. 4. Quais suas expectativas para o futuro? 5. Deseja acrescentar algo que não foi abordado nas perguntas? 61 Apêndice 2 TERMO DE CONSENTIMENTO DE LIVRE ESCLARECIDO Prezado (a) participante, Eu Jamille Ximenes Mendonça, sou estudante do curso de graduação de Serviço Social da Faculdade Cearense- FAC. Estou realizando uma pesquisa sob a orientação de Rúbia Cristina Martins Gonçalves, cujo objetivo é analisar as condições de trabalho que se estabelecem nas empresas de call center. Sua participação será através de uma entrevista, que será gravada, se assim você permitir. A participação neste estudo é voluntária e se você decidir não participar ou quiser desistir de continuar a qualquer momento, tem absoluta liberdade de fazê-lo. Na publicação dos resultados desta pesquisa, sua identidade será mantida no mais rigoroso sigilo. Serão omitidas todas as informações que permitam identificá-lo (a). Mesmo não tendo benefícios diretos em participar, indiretamente você estará contribuindo para a compreensão do fenômeno estudado e para produção do conhecimento cientifico. Atenciosamente, _________________________________ _____________________ Nome e ass. da estudante Local e data Consinto em participar deste estudo e declaro ter recebido uma cópia deste termo de consentimento. ________________________________ Nome e ass. do participante Contatos: (85) 88313530/ [email protected] _____________________ Local e data