1.
INTRODUÇÃO
Enquanto brinca, a criança está pensando, criando e desenvolvendo, dentre outros
fatores, o pensamento crítico. Pode-se dizer que a brincadeira é uma linguagem universal da
criança. Portanto, torna-se imprescindível nas escolas, principalmente de Educação Infantil,
para que a criança possa se manifestar e se expressar. Consta no RCNEI (BRASIL, 1998 a, p.
23) que a Educação Infantil deve oferecer condições para satisfazer as necessidades básicas da
criança. Propiciar a aquisição da cultura que enriquece o seu desenvolvimento e sua inserção
social, além de estabelecer condições de bem-estar físico, afetivo-social e intelectual, de modo
a estimular a curiosidade infantil, estabelecendo novas descobertas por meio de brincadeiras e
as adivinhas pedagógicas intencionais orientadas pelos adultos.
É importante salientar que essa atividade, como instrumento de aprendizagem, é vista
com extremo zelo pelos estudiosos da Psicologia, pois para eles a brincadeira como recurso
pedagógico é fundamental para aprendizagem e desenvolvimento infantil. Portanto, todo
profissional que trabalha diariamente com crianças, seja professor, psicólogo, pedagogo,
dentre outros, deve buscar ampliar seus conhecimentos a fim de adequá-los à prática diária. A
atividade lúdica é um excelente recurso para observação dos interesses e ações da criança. Por
essa atividade, ala evidencia saberes e interesses, além de propiciar condições para
aprendizagens. Na dimensão lúdica, a aprendizagem ocorre por meio da prática de jogos,
brinquedos e brincadeiras. Pode-se dizer que a brincadeira não é apenas uma dinâmica interna
da criança, mas uma atividade dotada de um significado social que necessita de
aprendizagem.
Desse modo, deve-se evidenciar a brincadeira como sendo de grande importância,
principalmente no período pré-escolar, pois contribui para o desenvolvimento do potencial
integral da criança. Sendo também a situação que proporciona liberdade criadora,
oportunidades de socialização entre as crianças, afetividade e um encontro com o seu próprio
mundo, descobrindo-se de maneira prazerosa. A maioria dos pensadores e educadores que
trabalham com este tema ressalta a sua importância no processo de aprendizagem e
socialização. Ao contrário do que muitos pais e professores pensam tanto os jogos quanto as
brincadeiras são atividades sérias, pois por meio deles são oportunizadas situações em que,
além do vínculo com os diferentes tipos de objetos, podem ser trabalhados aspectos
cognitivos e conflitos emocionais.
5
Às vezes aquilo que a criança não consegue aprender sozinha, ela consegue aprender
por meio da mediação de uma brincadeira no qual seja possível trabalhar conceitos e
habilidades de forma lúdica (exemplo: consciência de coletividade, organização espacial e
temporal etc.). Além disso, aprende a controlar sua impulsividade e a aceitar mais facilmente
as regras impostas pela sociedade, também permitem vivências de autonomia, organização,
criatividade e flexibilidade de pensamento, atributos necessários tanto na vida em geral
quanto em futuros trabalhos escolares.
Diante dessa perspectiva, o objetivo do presente trabalho é o de investigar as
contribuições da brincadeira como recurso didático no desenvolvimento cognitivo, afetivo e
social das crianças de 3 a 5 anos, na Educação Infantil. Acreditamos que além de proporcionar
momentos lúdicos e prazerosos, a brincadeira faz com que a criança classifique, ordene,
estruture, resolva pequenos problemas e sinta-se motivada a ultrapassar seus próprios limites.
Em decorrência disso a presente pesquisa fundamentou-se em estudos bibliográficos de
natureza descritiva de autores de referência na área, entre eles: Vygotsky (1991), Leontiev
(2006) e Kishimoto (2011). Adotamos assim como referencial teórico metodológico a
perspectiva histórico-cultural, segundo a qual a criança, desde cedo interage com a cultura em
que está inserida por meio do brinquedo e brincadeiras.
O trabalho concluído ficou assim organizado: primeiro a introdução. A segunda parte
denominada, “Definindo brinquedo, brincadeira e jogo”, fez-se necessário uma revisão
bibliográfica de alguns autores como: Kishimoto (2011), Borba (2007), entre outros, na
tentativa de apresentar algumas discussões sobre o que os autores pensam sobre a importância
da brincadeira para a aprendizagem e desenvolvimento infantil. A terceira parte a qual
chamamos de “A concepção de Vygotsky e Leontiev sobre o brincar” discutimos, a
importância da brincadeira como recurso pedagógico, nos centros de Educação Infantil,
segundo a teoria histórico-cultural, que trata da temática em questão e a sua importância no
processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças desde a educação infantil.
Na quarta parte intitulada “Documentos oficiais que norteiam a educação infantil e a
importância dada ao brincar”, foram analisados alguns documentos oficiais brasileiros que
norteiam a Educação Infantil, tais como, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
9.394/96 (LDB), o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) entre
outros. Nessa parte da pesquisa discorremos, de forma sucinta, como esses documentos
interpretam a ação do brincar dentro da instituição de educação infantil e qual a importância
dada a essa atividade.
6
2.
DEFININDO BRINQUEDO, BRINCADEIRA E JOGO.
Diante das investigações realizadas em torno brincadeira como atividade fundamental
para o desenvolvimento infantil pode-se constatar que, por meio dela, a criança interage com
a realidade, se relaciona com as outras crianças e adultos, entre outros. Desse modo, cabe-nos
discutir como essa atividade vem sendo interpretada por alguns estudiosos da Psicologia,
dentro dos espaços escolares, mais especificamente na educação infantil.
Inúmeros termos são utilizados quando nos referimos ao fenômeno lúdico, tais
terminologias muitas vezes não são muito claras e diversos autores apontam para a
dificuldade em defini-las, entre eles está Kishimoto (2011) que aponta a dificuldade em
discernir o jogo, brinquedo e brincadeira.
Para Kishimoto (2011), jogo, brinquedo e brincadeira são conceitos que variam de
acordo com o contexto em que estão inseridos. Por exemplo, a boneca é um brinquedo quando
uma criança brinca de "filhinha", todavia este mesmo objeto em certas tribos indígenas tornase um símbolo de divindade, objeto de adoração.
Como ressalta a referida autora, uma mesma conduta pode ser interpretada como um
jogo ou não, essa relação varia de acordo com as diferentes culturas, dependendo do
significado a ela atribuído. Portanto, faz-se necessário entendermos claramente os
significados de cada termo.
A autora destaca o brinquedo como sendo todo objeto que dá suporte à brincadeira. O
brinquedo estimula a representação e a expressão de imagens que reproduz na imaginação
aspectos da realidade.
Já a brincadeira concomitantemente com o brinquedo traz vantagens para o
desenvolvimento da criança nos níveis social, cognitivo, afetivo e psicomotor, pois além
propiciar a interação entre as crianças, pela brincadeira elas se comportam diferentemente do
comportamento habitual, em suas praticas diárias.
O jogo, no entanto, pode ser definido como sendo o resultado de um sistema
linguístico que funciona dentro de um contexto social, formado por um sistema de regras que
se materializa em um objeto, ou seja, o jogo estabelece as regras que organizam as ações da
criança na brincadeira. As brincadeiras, portanto, podem apresentar-se regras explícitas, como
nos jogos com regras ou implícitas na representação dos jogos simbólicos.
Diante dessas premissas, entende-se que por meio da brincadeira as crianças podem
descobrir novos desafios, levando-as a questionar sobre o seu comportamento diário, na
7
tentativa de compreender os problemas impostos pelo meio pelas pessoas e a realidade com a
qual interagem.
Assim, o brincar, segundo Kishimoto (2011), desenvolve a iniciativa, a imaginação, o
intelecto, a curiosidade e o interesse, o corpo e estrutura psíquica, o senso de responsabilidade
individual e coletiva, a cooperação, colocar-se na perspectiva do outro, a capacidade de
trabalhar com limites, a memória, a atenção e a concentração por longo período de tempo.
Atualmente novos conceitos vêm sendo formados em função da atividade lúdica.
Diante de qualquer resultado é indispensável no processo educativo, compreender o processo
de desenvolvimento cognitivo, social, afetivo, e psicomotor, os quais devem ser relativamente
incorporados à educação.
Uma criança quando brinca, segundo Kishimoto (2011), deixa explícita a
representação dos objetos diante da atividade desenvolvida. A representação de papéis tornase evidente, pois em uma situação de brincadeira a menina torna-se mãe, irmã, professora, o
menino por sua vez vira o papai, o índio, o policial entre outros.
Segundo Bomtempo (2011), há varias denominações para retratar a representação de
papéis das brincadeiras infantis, descrevendo-as da seguinte maneira: jogo imaginativo, o jogo
de faz de conta, joga de papéis ou jogo sociodramático. Dentre os termos apresentados pela
autora o que mais se destaca é o jogo de faz de conta, devido à sua eficácia na promoção do
desenvolvimento afetivo, social e cognitivo da criança.
Nesse sentido, para muitos estudiosos da Psicologia, que tem o jogo da fantasia como
essencial para o desenvolvimento revelam que essa atividade possibilita observar os sonhos,
as fantasias na fase adulta. Nesse sentido, entende-se que o faz de conta é uma atividade
lúdica que estabelece a imaginação criadora, de modo a conduzir a criança ao
desenvolvimento cognitivo e afetivo-social, a capacidade de planejar as regras inerentes a
cada situação de brincadeira.
Para Kishimoto (2011), as brincadeiras infantis podem ser classificadas como:
brincadeiras tradicionais infantis; brincadeiras de faz de conta e brincadeiras de construção.
Cada uma dessas brincadeiras, de acordo com suas modalidades, é contida de valores
culturais, regras de convivência, vínculos afetivos e sociais, além da presença do imaginário, e
a criatividade da criança em representar seus sonhos e fantasias por meio da ludicidade.
As brincadeiras tradicionais infantis são consideradas parte da cultura popular,
pertencente ao folclore, essas brincadeiras fazem parte da cultura infantil e guarda a produção
espiritual de um povo de determinado período histórico, esta atividade está em constante
8
transformação. Incorpora à mentalidade popular e são transmitidas pela oralidade de geração
em geração por meio de conhecimentos empíricos, provenientes de fragmentos de romance,
poesias, mitos e rituais religiosos.
Nesse sentido considera-se que a tradicionalidade e universalidade de tais brincadeiras
apoiam-se no fato de que povos das gerações passadas como os da Grécia e do Oriente,
tinham em suas brincadeiras, a amarelinha, empinar papagaio, jogar pedrinhas e, essas
permanecem até os dias de hoje nas atividades das crianças.
Sobre as brincadeiras tradicionais infantis, Kishimoto (2011, p.42-43) ressalta:
A brincadeira tradicional tem a função de perpetuar a cultura infantil e
desenvolver formas de convivência social e permite o prazer de brincar. Por
pertencer à categoria de experiências transmitidas espontaneamente
conforme motivações internas da criança, a brincadeira tradicional infantil
garante a presença do lúdico, da situação imaginaria.
As brincadeiras de faz de conta, também são conhecidas como simbólica, de
representação de papéis ou sociodramática. Essa modalidade de brincadeira é pontuada pela
autora, como sendo a brincadeira que mais evidencia a presença do imaginário, procedente
das experiências vivenciada pelas crianças em diversos contextos, além da manifestação de
regras implícitas que se consolidam nos temas das brincadeiras.
Seu surgimento ocorre em torno de dois a três anos de idade, juntamente com o
aparecimento da representação e da linguagem. Momento em que a criança começa a alterar o
significado dos objetos, e expressar seus sonhos e fantasias, de modo a interpretar papéis
pertencentes ao contexto social. É importante ressaltar que o brincar de faz de conta permite a
criança desenvolver e criar novos símbolos, desenvolver sua identidade e autonomia.
Já as brincadeiras de construção são consideradas de grande importância pela autora,
pois essa modalidade de brincadeira enriquece a experiência sensorial, estimula a criatividade
e desenvolve as habilidades das crianças.
De acordo com os conceitos abordados por Kishimoto (2011) o brincar, é provedor da
imaginação, do desenvolvimento cognitivo, da aquisição do conhecimento e da socialização
entre as crianças. O brincar em grupo institui regras de convivência, vínculos afetivos e
sociais.
Borba (2006, p. 34) afirma que a brincadeira sempre foi uma atividade significativa na
vida dos homens em diferentes épocas e lugares. Para a autora o conhecimento adquirido pelo
brincar cruza diferentes tempos e lugares, passado, presente e futuro, determinado
simultaneamente pelas mudanças e continuidades. Mas, segundo a autora, esse conhecimento
9
não é simplesmente reproduzido e sim recriado a partir do que a criança traz de novo, com sua
capacidade de imaginar, criar, reinventar e produzir cultura. Portanto, a criança reflete uma
capacidade de mudanças e de renovação de experiências, que na maioria das vezes passam
despercebidas aos adultos. Borba (2007, p. 12) entende a brincadeira como “uma atividade
que, ao mesmo tempo, identifica e diversifica os seres humanos em diferentes tempos e
espaços”.
É nesse contexto que a autora convida os professores a refletir sobre a importância do
brincar, no processo de ensino aprendizagem, tomando por base alguns fatores fundamentais
como: a individualidade da criança no seu modo de ser e relacionar-se com o mundo; a
representação do brincar como função humanizadora e o diálogo entre adultos e crianças,
além da compreensão de que a escola é composta por sujeitos plenos, crianças e adultos,
responsáveis pela aquisição de conhecimentos, culturas e subjetividades.
Nas sociedades ocidentais, porém, essa atividade é vista como algo de pouca ou
nenhuma importância, ao menos no que diz respeito à educação formal, que assumidamente
tem o significado oposto tanto no contexto escolar quanto no familiar, de modo a reduzir o
brincar a uma pratica a parte, paralelo a formação escolar das crianças.
[...] Brincando, elas se apropriam criativamente de formas de ação social
tipicamente humana e de práticas sociais específicas dos grupos aos quais
pertencem, aprendendo sobre si mesmas e sobre o mundo em que vivem. Se
entendermos que a infância é um período em que o ser humano está se
constituindo culturalmente, a brincadeira assume importância fundamental
como forma de participação social e como atividade que possibilita a
apropriação, a ressignificação e a reelaboração da cultura pelas crianças.
(BORBA, 2007, p. 12)
Nessa mesma perspectiva pedagógica Wajskop (1995) afirma que devido ao seu
caráter provedor do desenvolvimento e aprendizagem e a capacidade de interação com o meio
social, cognitivo e imaginativo a brincadeira pode ser o espaço de reiteração de valores
ultrapassados e conservadores, com as quais boa parte das crianças se depara cotidianamente.
A autora enfatiza que ao mesmo tempo em que a brincadeira é um espaço de
constituição infantil é também lugar de superação infantil. Portanto, pode-se dizer que “a
brincadeira deixa de ser concebida como uma característica inata da natureza infantil e passa a
ser vista como uma atitude e uma linguagem que é aprendida nas relações sociais e afetivas
desde a mais tenra idade” (WAJSKOP 1995, p. 67).
10
3.
A CONCEPÇÃO DE VYGOTSKY E LEONTIEV SOBRE O BRINCAR
Segundo estudiosos da psicologia, o brincar é atividade importante para a
aprendizagem e desenvolvimento infantil, pois, por meio da brincadeira a criança cria
situações de distrações e interação com o meio em que vive. Contudo, nem todas as pessoas
reconhecem o brincar como atividade que proporciona aprendizado e desenvolvimento da
criança. Diante desse apontamento, cabe investigar como a teoria histórico-cultural concebe o
papel do brincar no processo de aprendizagem e desenvolvimento infantil.
De acordo com Vygotsky (1991) e Leontiev (2006), a idade pré-escolar da criança é
marcada por desejos irrealizáveis imediatamente, porém permanece nela uma tendência para
resolver imediatamente tais desejos. Para resolver esse conflito, a criança em idade préescolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário em que os desejos não realizáveis podem
ser concretizados e, esse mundo é o que chamamos de brincadeira. Enquanto brinca a criança
compreende à sua maneira que faz parte desse mundo, esforçando-se para agir como um
adulto: por exemplo, nas suas brincadeiras ela pode dirigir um carro, andar a cavalo, remar
um barco, ser mamãe ou preparar uma comida.
Partindo desse pressuposto, os autores justificam que o brincar, surge nas atividades
das crianças em idade pré-escolar como uma forma compensatória dos desejos que não podem
ser imediatamente satisfeitos. Porém, utilizando-se da imaginação criadora a criança manipula
o objeto (brinquedo) de modo a realizar seu desejo momentâneo.
As contribuições de Leontiev (2006) em relação aos princípios psicológicos da
brincadeira pré-escolar indicam que a brincadeira ocorre da necessidade de a criança agir, não
apenas com os objetos que lhe são acessíveis e que fazem parte de seu ambiente físico, mas
com objetos a que ela ainda não tem acesso, e que pertencem ao mundo dos adultos.
Para Vygotsky (1991), as necessidades da criança incluem tudo aquilo que é motivo
para a ação. Todo avanço está conectado com uma mudança acentuada nas motivações,
tendências e incentivos.
A maturação das necessidades é um tópico predominante nessa discussão,
pois é impossível ignorar que a criança satisfaz certas necessidades no
brinquedo. Se não entendemos o caráter especial dessas necessidades, não
podemos entender a singularidade do brinquedo como uma forma de
atividade. (VYGOTSKY, 1991, p.106).
11
A brincadeira é essencial para o desenvolvimento cognitivo das crianças nos níveis
social, cognitivo, afetivo e psicomotor, pois por meio da brincadeira os processos simbólicos
e representativos a levam ao pensamento abstrato. Para Vygotsky (1991) ao brincar, a criança
age além do seu comportamento do cotidiano habitual. A brincadeira também propicia à
criança a capacidade de lidar com os limites, a atenção, a concentração e a cooperação e
interação com outras crianças.
Vygotsky (1991), também discorre em sua teoria sobre o desenvolvimento da
brincadeira infantil como mediadora nas relações sociais da criança com o mundo do adulto.
Segundo ele, na idade pré-escolar ocorrem algumas modificações no processo de
desenvolvimento da criança. Como demonstra Leontiev (2006) o mundo infantil já conhecido
pela criança, está continuamente se expandindo e, a contradição existente entre a necessidade
de a criança agir com os objetos do mundo adulto e a impossibilidade de executar tais ações
sendo solucionada por meio de suas brincadeiras.
É na atividade lúdica e, sobretudo, no brinquedo que a criança supera os limites da
manipulação dos objetos que a cercam e se insere num mundo mais amplo, onde ela passa a
ter interesse por uma esfera mais ampla da realidade e sente necessidade de agir sobre ela.
Propiciando a criança a principal forma de conhecê-las e compreendê-las.
Para ambos os autores, um fator importante a ser considerado é que o brincar
preenche necessidades que mudam de acordo com a idade da criança e, um brinquedo que
interessa a um bebê pode não interessar a uma criança mais velha. Partindo desse pressuposto
é que o autor define que o brincar decorre da situação imaginária criada pela criança.
Segundo Vygotsky (1991), a imaginação é uma atividade consciente que não está
presente na criança muito pequena. Como todas as funções da consciência, ela surge
originalmente das ações da criança. A brincadeira que comporta uma situação imaginaria
também contém regras. Não uma regra explícita, mas criada pela própria criança.
O autor ressalta que à medida que a criança se desenvolve, há uma modificação: a
princípio predomina a situação e as regras estão implícitas, conforme vai crescendo, a regras
começam a predominar, tornando-se explícitas, a partir desse momento a situação imaginária
fica oculta.
Embora a brincadeira não seja único aspecto predominante na infância, é ela que
proporciona o maior avanço na capacidade cognitiva da criança. É por meio da brincadeira
que a criança se apropria do mundo real, domina conhecimentos, se relaciona e se integra
12
culturalmente, indo além do seu comportamento habitual, de modo a atuar num nível superior
ao que realmente se encontra.
Ao brincar e criar uma situação imaginária, a criança pode assumir diferentes papéis:
pode se tornar um adulto, outra criança, um animal, ou um herói televisivo; pode mudar o seu
comportamento e agir e se comportar como se fosse mais velho do que realmente é, pois ao
representar o papel de “mãe”, a criança irá seguir as regras de comportamento maternal,
porque agora ela pode ser a “mãe”, e ela procura agir como uma mãe age.
Vygotsky (1991) e Leontiev (2006), afirmam que a brincadeira da criança não é uma
atividade instintiva, mas sim objetiva, pois por meio dela se apropria do mundo real dos seres
humanos da maneira que lhe é possível. Nesse estágio do desenvolvimento a fantasia e a
imaginação, são componentes indispensáveis à brincadeira infantil. Estas não têm a função de
criar para a criança um mundo diferente do mundo dos adultos, mas propiciar à criança a
possibilidade de apropriar-se do mundo dos adultos, tendo em vista que a criança não é capaz
de desenvolver as mesmas tarefas que os adultos.
O interesse pela brincadeira se dá no momento em que a criança sente necessidade de
agir não apenas com os objetos que lhes são acessíveis e que fazem parte de seu ambiente
físico, mas de agir com os objetos que ela ainda não tem acesso, e que pertencem ao mundo
dos adultos. Para satisfazer essa necessidade à criança brinca, e durante a atividade lúdica ela
compreende, à sua maneira, o que faz parte desse mundo, esforçando-se para agir como um
adulto, por exemplo, dirigir um carro, andar a cavalo, remar um barco ou preparar uma
comida.
A importância do brincar para o desenvolvimento infantil reside no fato de esta
atividade contribuir para a mudança na relação da criança com os objetos, pois estes perdem
sua força determinadora na brincadeira. Para Vygotsky (1991, p. 110) a criança, enquanto
manipula um objeto, em situação imaginária de brincar age independentemente daquilo que
vê. Na brincadeira, o pensamento imaginativo está separado do significado real dos objetos e
a ação surge das idéias e não das coisas, por exemplo: a criança usa um pedaço de vassoura,
como cavalinho de pau na situação de brincadeira.
Sobre o processo transitório entre objeto/significado, Vygotsky (1991, p.112) diz que:
No brinquedo, a criança opera com significados separados dos objetos e
ações aos quais estão habitualmente vinculados; contudo, surge uma
contradição muito interessante, uma vez que, no brinquedo, ela inclui
também ações reais. Isso caracteriza a natureza de transição da atividade do
brinquedo: é um estágio entre as restrições puramente situacionais de
13
primeira infância e o pensamento adulto, que pode ser totalmente
desvinculado de situações reais.
Tanto Vygotsky (1991) quanto Leontiev (2006), afirmam que a brincadeira de uma
criança em idade pré-escolar se diferencia de uma criança em idade escolar ou em um adulto,
pois, as brincadeiras evoluem de acordo com cada fase vivenciada pela criança. Contudo, é
necessário levar em conta as especificidades de cada estágio de desenvolvimento, sem limitarse a afirmativas gerais.
Ao analisar cada estágio específico do desenvolvimento das brincadeiras pré-escolares
os autores ressaltam que os brinquedos se diferem em seu conteúdo e origem. Existem vários
tipos de jogos, por exemplo: os que são disputados em determinada circunstância e
desaparece no momento que a disputa termina. Esses jogos são individuais não podendo ser
repetidos.
Em relação à ação da criança numa situação de brinquedo, Leontiev (2006, p. 127),
discorda que a sua ação surge da situação imaginária, segundo o autor é a imaginação que
surge da ação; desse modo “não é a imaginação que estabelece a ação, são as condições da
ação que tornam a imaginação necessária favorecendo a sua origem”. Em função dessa
discrepância o autor, faz o seguinte questionamento: como uma situação imaginaria surge nas
brincadeiras e, como uma vara pode se transformar em um cavalo para a criança enquanto
brinca? E logo em seguida diz que:
1. Há a ação que surge como um processo dirigido a um objetivo
reconhecido em conexão com um motivo definitivo; este é o aspecto da
atividade interiormente associado com a “unidade” da consciência, que nós
designamos pelo termo “sentido da personalidade”.
2. Distinguimos o conteúdo ou aspecto da ação que corresponde a suas
condições; esta é a operação. Uma “unidade” singular da consciência, isto é,
o significado, está também associado a este conteúdo da atividade.
(LEONTIEV, 2006, p.127-128).
Mesmo sendo livre e não estruturada, todo tipo de brincadeira, segundo Vygotsky
(1991), contém regras, até mesmo o faz-de-conta possui regras que conduzem o
comportamento das crianças. Por exemplo: Uma criança que brinca de ser a mamãe com suas
bonecas assume comportamentos e posturas pré-estabelecidas pelo seu conhecimento de
figura materna. Portanto, o que na vida real passa aparentemente despercebido pela criança
torna-se uma regra de comportamento na brincadeira.
14
[...] sempre que há uma situação imaginária no brinquedo, há regras – não as
regras previamente formuladas e que mudam durante o jogo, mas aquelas
que têm sua origem na própria situação imaginária. Portanto, a noção de que
uma criança pode se comportar em uma situação imaginária sem regras é
simplesmente incorreta. Se a criança está representando o papel de mãe,
então ela obedece às regras de comportamento maternal. (VYGOTSKY,
1991, p. 108).
Constata-se que o atributo essencial da brincadeira é que a regra torna-se um desejo.
O brinquedo cria na criança uma nova forma de desejos. Ensina-a a desejar,
relacionando seus desejos a um eu fictício, ao seu papel no jogo e suas
regras. Dessa maneira as maiores aquisições de uma criança são adquiridas
no brinquedo, aquisições, que no futuro tornar-se ão seu nível básico de ação
real e moralidade. (VYGOTSKY, 1991, p. 114).
Confirma ainda que todas as modalidades de brincadeiras contêm regras e faz-deconta. Assim, uma brincadeira que interessa a uma criança de três anos pode não despertar
nenhum interesse a uma criança de seis anos ou mais; isso ocorre porque a brincadeira não é
uma atividade estática, ela evolui e se modifica na medida em que a criança cresce. Não
importa a idade da criança e o tipo de brincadeira, estes dois aspectos sempre estarão
presentes.
Outro aspecto importante a ser examinado na brincadeira infantil e sua função no
desenvolvimento da criança é o conceito de “zona de desenvolvimento proximal”, ou “zona
de desenvolvimento imediato”. Na perspectiva de Vygotsky (1991), tanto pela criação da
situação imaginária, como por meio da definição de regras específicas, a brincadeira gera a
zona de desenvolvimento proximal da criança.
Com a brincadeira a criança comporta-se de forma mais elaborada do que nas
atividades habituais da vida real e aprende a separar os objetos e o significado. Também a
brincadeira promove à criança a interação e a convivência com outras crianças estabelecendo
o convívio em sociedade.
De acordo com o autor é preciso ir além das determinações dos níveis de
desenvolvimento, para compreender as relações reais entre o processo de desenvolvimento e a
aprendizagem infantil.
Sobre esse aspecto, Vygotsky (1991) descreve dois níveis de desenvolvimento,
denominado nível de desenvolvimento real e nível de desenvolvimento potencial. Para o
autor, o nível de desenvolvimento real refere-se a tudo aquilo que a criança já tem
consolidado em seu desenvolvimento e, é capaz de realizar e resolver situações utilizando seu
15
conhecimento de forma autônoma sem a interferência de um adulto ou de uma criança mais
experiente.
O nível de desenvolvimento potencial é determinado pelas habilidades que encontra-se
em processo. Isto significa que a aprendizagem que gerou o desenvolvimento real, gerou
também habilidades que se encontram em um nível menos elaborado que o já consolidado.
Desta forma, o desenvolvimento potencial é aquele que poderá ser construído.
O autor postula a zona de desenvolvimento proximal tomando-se como premissa do
nível de desenvolvimento real como aquilo que o sujeito consolidou de forma autônoma e o
nível de potencial pode ser deduzido com base no que a criança consegue resolver com ajuda.
Assim, a zona de desenvolvimento proximal fornece os indícios do potencial, permitindo que
os processos educativos atuem de forma sistemática e individualizada.
Para o autor a zona de desenvolvimento proximal refere-se aos processos mentais que
estão em construção na criança, ou que ainda não amadureceram. A zona de desenvolvimento
proximal é, pois, um domínio psicológico em constantes transformações, trata-se
precisamente do campo intermediário do processo entre o nível de desenvolvimento real e
nível de desenvolvimento potencial, ou seja, aquilo que a criança é capaz de fazer com a ajuda
de alguém hoje, ela conseguirá fazer sozinha amanhã.
A brincadeira cria na criança uma zona de desenvolvimento proximal, que é
por ele definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real, que
se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o
nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de
problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com
companheiros mais capazes. (VYGOTSKY, 1991, p.117)
Desse modo, pode-se compreender que, a brincadeira é a atividade em conexão com as
mais importantes mudanças no desenvolvimento psíquico da criança no qual se desenvolvem
processos psíquicos que preparam o percurso de transição para um novo e mais elevado nível
de desenvolvimento.
No desenvolvimento infantil a brincadeira e sua função estão em constante mudança.
Na idade pré-escolar, a brincadeira do faz-de-conta é a principal atividade da criança.
Contudo, na idade escolar, os jogos com regras e os esportes passam a ser mais importantes.
Eles têm um papel específico no desenvolvimento, porém não tão importantes quanto o fazde-conta na idade pré-escolar.
16
4.
DOCUMENTOS OFICIAIS QUE NORTEIAM A EDUCAÇÃO
INFANTIL E A IMPORTÂNCIA DADA AO BRINCAR
A presente pesquisa, além de buscar respaldo na teoria de Vygotsky e Leontiev,
também tomou como base alguns documentos oficiais brasileiros que norteiam a questão da
educação infantil. Entre eles, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 9.394/96
(LDB), a Constituição Federal de 1988, o guia intitulado Referencial Curricular Nacional para
a Educação Infantil (RCNEI), entre outros.
Segundo Corrêa (2007) O atendimento à infância no Brasil, em seu início foi marcado
pela ideia de “assistência”, ou “amparo” aos pobres e necessitados. Desta forma estava
vinculado às associações filantrópicas ou aos órgãos de assistência e bem estar social e não
aos órgãos educacionais. Mas este caráter assistencial não impediu que as instituições
tivessem um projeto educacional voltado ao seu atendimento.
A década de 1980 de acordo com a autora é marcada por importantes mudanças no
que se refere à educação infantil. Essas mudanças ocorreram devido à organização da
sociedade civil, em defesa de uma lei que garantisse o direito às crianças de zero a cinco anos
de idade o atendimento em instituições de educação infantil, creches e pré-escolas. Essa Lei,
portanto foi instituída pela Constituição Federal de 1988.
No entanto, a conquista pelo direito de um espaço destinado à educação infantil,
procede de um processo histórico marcado por intensa mobilização que contou com a
participação da sociedade civil, especialmente com o movimento de mulheres trabalhadoras, o
Fórum em Defesa da Criança e do Adolescente (DCA) e o Grupo Ação Vida, entre outros. Se
nos períodos anteriores o atendimento a criança de zero a cinco anos era tida tão somente na
condição de assistência ou de amparo, com a Constituição Federal de 1988, passa a ser visto
com outro olhar, agora garantida pelo Estado.
De acordo com a Constituição Federal de 1988, Art. 208, inciso IV, a oferta de
educação infantil em creches e pré-escolas é um dever do Estado e um direito de todas as
crianças de zero a cinco anos. Porém, não se constitui como obrigatória, ou seja, é obrigação
do poder público oferecê-la, mas não há obrigatoriedade dos pais a matricularem seus filhos.
A educação infantil no Brasil segundo Corrêa (2007) é norteada pela LDB 9394/96, e
pelo Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 (ECA).
17
A autora relata que a inclusão da educação infantil na LDB foi um avanço e a garantia
de que as crianças estarão amparadas pelo cumprimento da lei, ainda inspira cuidados devido
o pouco interesse político para com essa modalidade de ensino.
Segundo o art.(59, p. 20) do Estatuto da Criança e do Adolescente: “Os municípios,
com apoio dos estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços
para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude”. No
entanto, somente após a LDB de 1996 a Educação Infantil passou a ser reconhecida como
primeira etapa da Educação Básica e no ano de 1998 foi elaborada a primeira Diretriz
Curricular Nacional para a Educação Infantil.
A LDB 9394/96 institui de forma eficaz o vínculo entre a inserção das crianças de zero
a cinco anos e a educação. Com varias referências específicas à educação infantil, ao longo do
texto. Os artigos 29,30 e 31 direcionados a educação infantil, declara que:
Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como
finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em
seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, completando a ação da
família e da comunidade.
Art. 30. A educação infantil será oferecida em:
I – creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de
idade;
II – pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade.
Art. 31. Na educação infantil a avaliação far-se-á mediante acompanhamento
e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para
o acesso ao ensino fundamental (BRASIL, 1996).
Contudo, o que teve maior visibilidade e divulgação entre os professores foi o guia
intitulado Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI).
O RCNEI, composto por três volumes, tem o intuito de servir como um guia de
reflexão sobre objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais que atuam
diretamente com crianças de zero a cinco anos, respeitando seus estilos pedagógicos e a
diversidade cultural brasileira. Esse guia é resultado de um amplo debate nacional, do qual
participaram professores e diversos especialistas que contribuíram com conhecimentos
diversos provenientes tanto da vasta e longa experiência e prática de alguns, como da reflexão
acadêmica, científica ou administrativa de outros.
Admite-se no RCNEI (BRASIL, 1998 a) que todas as crianças que frequentam a
instituição de educação infantil, sem discriminação devem ter acesso à cultura que
enriquecem o seu desenvolvimento e inserção social. Cabe à instituição cumprir um papel
socializador, de modo a proporcionar o desenvolvimento da identidade das crianças, por meio
18
de aprendizagens diversificadas, realizadas em situações de interação, por meio das
brincadeiras e advindas de situações pedagógicas intencionais ou orientadas pelos adultos.
De acordo com o vol. I desse guia as brincadeiras de faz-de-conta devem estar
presentes no cotidiano da instituição infantil a fim de que se tornem uma prática que
possibilite às crianças aquisição de seus conhecimentos. Portanto, o professor não deve
intervir nesta atividade, ela deverá acontecer de forma espontânea, tendo por função o
oferecimento dos recursos e do ambiente adequado para que esta prática se desenvolva
naturalmente e de maneira diversificada, desse modo à criança poderá elaborar
independentemente suas brincadeiras no que condiz aos materiais utilizados, companheiros e
regras.
O volume II Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL,
1998b, p. 22) enfatiza:
Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da
identidade e da autonomia. O fato de a criança, desde muito cedo, poder se
comunicar por meio de gestos, sons e mais tarde representar determinado
papel na brincadeira faz com que ela desenvolva sua imaginação. Nas
brincadeiras as crianças podem desenvolver algumas capacidades
importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação.
Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da
interação e da utilização e experimentação de regras e papéis sociais.
Em consonância com o RCNEI, o DCNEI, foi elaborado com o propósito de incentivar
e orientar projetos pedagógicos, na busca de tentar alcançar o desenvolvimento integral da
criança, por meio da sua interação com o adulto, com a finalidade de conquistar o direito de
viver de forma digna (PARANÁ, 1999).
O direito à educação e cuidados para crianças de zero aos cinco anos e a afirmação do
binômio educar e cuidar como funções indissociáveis nesse atendimento foram, pela primeira
vez, incorporados à legislação brasileira na Constituição Federal (BRASIL, 1988). A LDB
confirma a função educativa desse atendimento e regulamenta seu funcionamento.
O RCNEI (BRASIL, 1998b) aborda os aspectos relacionados à interação social, que a
criança estabelece com as pessoas a sua volta desde o seu nascimento. Em função disso, faz
referência sobre a fase em que a criança reflete, por meio da imitação, sua percepção e
compreensão diante das suas relações sociais.
A imitação é compreendida no guia como resultado da capacidade de a criança
observar e aprender com os outros, ou, até mesmo, do próprio desejo de se identificar com
eles, ser aceita e de diferenciar-se. É entendido aqui como um processo de reconstrução
interna e não meramente uma cópia ou repetição mecânica.
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A brincadeira é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da
identidade e da autonomia, principalmente o faz-de-conta, apontada pelo guia como uma das
atividades que as crianças aprendem a agir em função da imagem de uma pessoa, de uma
personagem, de um objeto e de situações que não estão imediatamente presentes. É
responsável também por influenciar na aquisição das capacidades essenciais, como: promover
a socialização, que se dá por meio das relações estabelecidas com os adultos e as outras
crianças, além da imaginação, atenção, imitação, memória, aquisição de regras,
experimentação de papeis.
[...] Brincar constitui-se, dessa forma, em uma atividade interna das crianças,
baseada no desenvolvimento da imaginação e na interpretação da realidade,
sem ser ilusão ou mentira. Também tornam-se autoras de seus papéis,
escolhendo, elaborando e colocando em prática suas fantasias e
conhecimentos, sem a intervenção direta do adulto, podendo pensar e
solucionar problemas de forma livre das pressões situacionais da realidade
mediata. Quando utilizam a linguagem do faz-de-conta, as crianças
enriquecem sua identidade, porque podem experimentar outras formas de ser
e pensar, ampliando suas concepções sobre as coisas e pessoas ao
desempenhar vários papéis sociais ou personagens. (BRASIL, 1998b, p. 23)
Diante da importância dada à atividade do brincar o referido guia, evidencia que a
instituição de Educação Infantil deve criar um ambiente de acolhimento que dê segurança e
confiança às crianças de zero a três anos, garantindo oportunidades para que sejam capazes de
interagir, umas com as outras.
O Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (BRASIL, 1998a, p.27),
define a brincadeira como:
Uma linguagem infantil que mantém um vinculo essencial com aquilo que é
o não brincar. Se a brincadeira é uma ação que ocorre no plano da
imaginação isto implica que aquele que brinca tenha o domínio da
linguagem simbólica. Isto quer dizer que é preciso haver consciência da
diferença existente da brincadeira e a realidade imediata que lhe forneceu
conteúdo para realizar-se. Nesse sentido, para brincar é preciso apropriar-se
de elementos da realidade imediata de tal forma a atribuir-lhes novos
significados. Essa peculiaridade da brincadeira ocorre por meio da
articulação entre a imaginação e a imitação da realidade. Toda brincadeira é
uma imitação transformada, no plano das emoções e das idéias, de uma
realidade anteriormente vivenciada. (BRASIL, 1998a, p. 27).
Já para as crianças de quatro a cinco anos, os objetivos estabelecidos para a faixa
etária de zero a três anos deverão ser aprofundados e ampliados, garantindo-lhes, ainda,
oportunidades para que as crianças sejam capazes de:
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• ter uma imagem positiva de si, ampliando sua autoconfiança, identificando
cada vez mais suas limitações e possibilidades, e agindo de acordo com elas;
• identificar e enfrentar situações de conflitos, utilizando seus recursos
pessoais, respeitando as outras crianças e adultos e exigindo reciprocidade;
• valorizar ações de cooperação e solidariedade, desenvolvendo atitudes de
ajuda e colaboração e compartilhando suas vivências;
• brincar;
• adotar hábitos de autocuidado, valorizando as atitudes relacionadas com a
higiene, alimentação, conforto, segurança, proteção do corpo e cuidados com
a aparência;
• identificar e compreender a sua pertinência aos diversos grupos dos quais
participam, respeitando suas regras básicas de convívio social e a
diversidade que os compõe. (BRASIL, 1998b, p. 27-28)
O volume III do RCNEI, por sua vez menciona a necessidade do professor em realizar
um trabalho complementar envolvendo brincadeiras e outros conteúdos, de modo a promover
o desenvolvimento da cultura humana, por meio de: trabalho com movimento, com música,
com artes visuais, com a linguagem oral e escrita, com a matemática, com a natureza e
sociedade.
Diante desses apontamentos, vale salientar que a brincadeira não pode se desvincular
do cotidiano das instituições de educação infantil. O trabalho com movimento deve ser
norteado por objetivos estabelecido de acordo com a faixa etária na qual a criança se encontra.
Os conteúdos deverão priorizar o desenvolvimento das capacidades
expressivas e instrumentais do movimento, possibilitando a apropriação
corporal pelas crianças de forma que possam agir com cada vez mais
intencionalidade. Devem ser organizado num processo contínuo e integrado
que envolve múltiplas experiências corporais, possíveis de serem realizadas
pela criança sozinha ou em situações de interação. Os diferentes espaços e
materiais, os diversos repertórios de cultura corporal expressos em
brincadeiras, jogos, danças, atividades esportivas e outras práticas sociais
são algumas das condições necessárias para que esse processo ocorra.
(BRASIL, 1998c, p. 29)
Ao considerar que a sociedade na qual a criança está inserida e se organiza em torno
da linguagem oral e escrita, às instituições de educação infantil deve criar um ambiente que
possibilite o trabalho com essa linguagem. Segundo consta no RCNEI (BRASIL, 1998c) uma
das atividades primordiais nesse processo é o contar histórias.
Para que o trabalho com a leitura e a escrita possa ser diversificado, de modo a tornalo atrativo, o interessante é criar ambientes para brincar dentro e fora da sala de aula, com
materiais variados para que a criança possa brincar de faz-de-conta. Além de ambiente para
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leitura, com variados tipos de livros, história em quadrinhos, entre outros fazer uso de jogos
de escrita variados como caça-palavras, forca, cruzadinha.
CONSIDERAÇÕES FINAIS.
Atualmente, muito tem-se falado sobre a importância da atividade lúdica, (jogos
brincadeiras, brinquedos, artes, música, etc.,) e seu reconhecimento como fator que favorece a
aprendizagem das crianças nos espaços escolares, mais precisamente na educação infantil, que
foi o foco dessa pesquisa
De acordo com as leituras propostas para a efetivação dessa pesquisa, compreendemos
que o brincar é uma atividade humana criadora, na qual por meio da imaginação, da fantasia e
a imitação da realidade a criança expressa seus sentimentos e desejos não realizáveis,
buscando saciar sua curiosidade com relação ao mundo e a sua vivência. Assim ela interage
na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação, bem como
novos modos de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos.
Nessa perspectiva podemos afirma que brincar é uma importante forma de
comunicação. A fantasia e a imaginação são funções essenciais na representação da
brincadeira de faz de conta, pois por meio dessa atividade a criança reproduz o seu cotidiano e
interage com outras crianças e adultos, de modo a adquirir noções do seu próprio tempo e
espaço, tendo a consciência da partilha que se deve fazer com o outro, por exemplo: saber
esperar a sua vez e compartilhar os brinquedos disponíveis com as outras crianças.
Diante de tais indagações compreendemos que educação infantil, deve oportunizar as
crianças situações que estimulem o aprendizado e desenvolvimento, tendo a consciência que,
durante a atividade espontânea e imaginativa da brincadeira, as crianças recriam e
concretizam aquilo que sabem sobre as mais diversas esferas do conhecimento. E o professor
por sua vez, deve fazer uso das brincadeiras e jogos, sejam eles espontâneos ou direcionados.
Portanto faz-se necessário que a educação infantil tenha um ambiente organizado de
forma a disponibilizar brinquedos e materiais para as crianças, oferecendo-lhe diferentes
possibilidades de interação. Contudo esses espaços devem se alegres aconchegantes, coloridos
e acolhedores. Segundo (Borba, 2007, p.13), os brinquedos e objetos, “tais como caixas,
panos, objetos para construção, bonecos, papéis de diferentes tamanhos, fantasias, além de
objetos variados da vida social”, precisam estar sempre ao alcance das crianças para que
22
possam manuseá-los, pois esses materiais devem servir de apoio e incentivo a socialização e
interação entre as crianças.
Por fim, compreendemos que o brincar, como instrumento de aprendizagem, é visto
com extremo zelo pelos estudiosos da Psicologia, pois para eles a brincadeira como recurso
pedagógico é fundamental para aprendizagem e desenvolvimento da criança. Em função disso
a intervenção do professor, na instituição de educação infantil, é necessária para que as
crianças possam, em situações de interação social ou sozinhas, ampliar suas capacidades de
apropriação dos conceitos, dos códigos sociais e das diferentes linguagens, por meio da
expressão e comunicação de sentimentos e idéias, presente na situação imaginaria das
brincadeiras infantis.
Brincando a criança desenvolve potencialidades; ela compara, analisa, nomeia, mede,
associa, calcula, classifica, compõe, conceitua e cria. O brinquedo e a brincadeira traduzem o
mundo para a realidade infantil, possibilitando a criança a desenvolver a sua inteligência, sua
sensibilidade, habilidades e criatividade, além de aprender a socializar-se com outras crianças
e com os adultos.
De acordo com as afirmativas acima entendemos que é importante que a sociedade
esteja presente na formação social da criança desde a educação infantil, ou seja, o bebe recémnascido já precisa receber cuidados especiais, para o seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e
social, esses cuidados, portanto pode ser transmitido por meio das brincadeiras mais simples,
porem direcionadas.
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SANTANA, Jane. Brincadeiras como recurso pedagógico