UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL NÚCLEO DE ANTROPOLOGIA E CIDADANIA Estrutura e Composição dos Abrigos para Crianças e Adolescentes em Porto Alegre (Vinculados ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e participantes da rede própria, conveniada e conveniada não governamental) Pesquisadores: Claudia Fonseca Patrice Schuch Pilar Uriarte Diego Soares Bolsistas de Pesquisa Jonas Castilho Mariana Aydos Recena Porto Alegre, dezembro de 2005. Sumário I- Apresentação..................................................................................................................... II- Novos dilemas, Velhas Questões: Os Usos da Institucionalização de Crianças e Adolescentes no Brasil e suas Interpretações.............................................................. III- Os Abrigos: Particularidades e Relacionalidade..................................................... 2 I- Apresentação 1.1. Ressaltando a Diversidade Este trabalho é uma pesquisa de inspiração antropológica sobre a estrutura e composição dos serviços de abrigamento para crianças e adolescentes em Porto Alegre, participantes da rede governamental própria, conveniada e não conveniada à Fundação de Assistência Social e Cidadania. A finalidade da pesquisa é subsidiar o planejamento, ressaltando a heterogeneidade e diversidade das estruturas de abrigos para essa faixa etária em Porto Alegre, refletindo acerca desses serviços de modo relacional, isto é, tentando perceber cada equipamento nas suas especificidades, mas também nas relações que estabelece com os demais serviços existentes. Entendemos que há uma relação de complementaridade entre os diversos serviços e, ao mesmo tempo, uma heterogeneidade e diversidade de seus elementos. Desta forma, a análise da particularidade de um equipamento deve ser complementada com a sua posição frente aos demais recursos possíveis. Privilegiando-se o prisma da relacionalidade dos recursos, enfatizamos a perspectiva de conjunto, sem projetar, contudo, uma perspectiva de igualitarismo entre os equipamentos: como veremos, há uma intensa diversidade nas estruturas administrativas, nos valores e práticas em questão, muitas vezes subsumida na generalização terminológica dos “abrigos de Porto Alegre”. Em Porto Alegre, as informações disponíveis acerca das estruturas dos abrigos e sua população, em geral, ou se dirigem ao mapeamento de apenas um ou dois abrigos que compõem à rede de atendimento (ex: FASC, 2004 e IBDFAM, 2004), ou são pesquisas sobre a amplitude dessas estruturas, mas sistematizadas de forma generalizante (Tavares dos Santos, 2005). O que se percebe, em ambas as situações, é uma lacuna com relação ao mapeamento da própria diversidade dos equipamentos e sua articulação num sistema. Há estudos nacionais que propõem analisar a realidade dos abrigos (ex. IPEA, 2005), mas ainda assim o que se verifica 3 é uma falta de um conhecimento particularizado dos recursos de Porto Alegre. Ou seja, as pesquisas existentes não apresentam dados que permitam uma análise comparativa entre os abrigos, sua heterogeneidade e complementaridade. O conhecimento dessas múltiplas realidades constitui uma ação essencial para o planejamento de ações, projetos e políticas em relação à criança e ao adolescente. Por isso, entendemos a demanda do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), órgão financiador da pesquisa, como um desafio que nos propomos a enfrentar. Fomos motivados por um interesse acadêmico de conhecimento da realidade das políticas de proteção da criança e do adolescente – e, nesse sentido, já contamos com um arcabouço significativo de pesquisas, dissertações e teses sobre o assunto1 –, mas também por uma vontade de estreitar os laços entre o Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI) e as pessoas e instituições que fazem o dia a dia dos projetos de atendimento, construindo práticas e saberes que, efetivamente, constituem o que na linguagem da política e denomina-se “cidadania” e implantação de “direitos”. No campo de estudos sobre a implementação de “direitos” e da “cidadania”, a antropologia se especializou no conhecimento e interpretação do que as pessoas envolvidas na consecução prática de projetos, instituições e ideais têm a dizer sobre a sua experiência. Nesse sentido, a análise parte habitualmente do modo como as pessoas que praticam e participam do exercício da implantação dos “direitos” e “cidadania” dão sentido as suas ações e as efetivam nos seus contextos específicos. Isso significa enfatizar o “ponto de vista do ator” - as estruturas conceituais de significação através dos quais os homens dão forma à sua experiência (Geertz, 1989). O que nos conduz a uma preocupação essencial não com o “deve ser” normativo das leis e dos “direitos”, mas com o modo como esses “direitos” são efetivamente implantados e concebidos: o que está em questão, para a antropologia que praticamos, não é a construção de parâmetros normativos de Entre muitos centros de pesquisa nas diferentes universidades da grande Porto Alegre, UNISINOS, ULBRA, PUCRS e UFRGS, ressaltamos, por exemplo, Fonseca (1995 e 2001), Barcellos e Fonseca et al (2001), Schuch (2003 e 2005), Uriarte (2005), e Cruz (2005).. 1 4 “certo” e “errado”, mas a comunicação entre pessoas que podem ter visões diferentes quanto aos próprios significados dos “direitos” e da “cidadania”. A definição abstrata e descontextualizada dos “direitos” no Brasil não ajuda, necessariamente, a compreender o que acontece de fato. O que é interessante e produtivo é justamente descobrir como essa noção de “direitos” é construída na prática, suas conseqüências e significados particulares. Um corolário deste entendimento é que a lei e o Estado não são neutros, mas importantes produtores de identidades e subjetividades e que a formulação de “direitos” depende de relações de poder forjadas em contextos específicos, sendo que seus efeitos podem ser complexos, múltiplos e contingentes. Sem negligenciar ou desconsiderar os avanços legais dos “direitos” no Brasil e especificamente promovidos pela recente legislação de proteção de direitos das crianças e adolescentes no Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), entendemos que chamar atenção para os paradoxos e dilemas envolvidos na execução e aplicação das leis e direitos no Brasil, assim como prestar atenção sobre o modo com que construímos a nossa “cidadania” e “democracia”, é abrir a possibilidade de revisão constante de nossos princípios e valores, mesmo os expressos nas leis. Em suma, é entender termos abstratos como “direitos”, “cidadania” e “democracia” não como coisas já dadas, mas como construções processuais – e nesse sentido constantes e contínuas (Schuch, 2005). 1.2. Trajetória da Pesquisa Esta pesquisa surgiu de uma solicitação, formulada ao NACI pelo CMDCA no mês de abril de 2005, de um estudo sobre as estruturas para abrigamento existentes no município de Porto Alegre. Tal demanda foi realizada em função de um processo mais amplo de reconfiguração dos serviços de atendimento a crianças e adolescentes no Brasil, inaugurado pela implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990. Neste processo de reestruturação de serviços e 5 aparatos de proteção à infância e juventude, diversos agentes e/ou entidades militantes dos direitos da criança e do adolescente têm apontado a necessidade de certas modificações, que teriam por finalidade a adequação das estruturas vigentes aos princípios legais propostos pelo ECA, em termos de estruturas físicas, políticas de atendimento e finalidades do abrigamento. No intuito de discutir tais propostas, desde por volta de maio de 2005, o CMDCA constituiu um “Grupo de Trabalho sobre o Reordenamento dos Abrigos”, composto por representantes de diversas entidades vinculadas aos abrigos em Porto Alegre, como a Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), dirigentes de abrigos conveniadas e não conveniados à FASC, representantes dos Conselhos Tutelares, etc. A proposta da pesquisa foi resultado de uma das propostas desse Grupo de Trabalho, pois houve um consenso a respeito da necessidade de conhecer a realidade dos abrigos existentes no município de Porto Alegre, para que o processo de planejamento do reordenamento possa se dirigir para a singularidade da rede de serviços, na sua heterogeneidade e variabilidade. Uma pesquisadora do NACI participou, entre abril e maio de 2005, das reuniões do Grupo de Trabalho constituído pelo CMDCA, com o objetivo de mapear as principais demandas da pesquisa. Fundamentalmente, as interrogações se dirigiam para a compreensão das variadas estruturas existentes e das necessidades do público atendido pelos abrigos em Porto Alegre, no que se refere à correspondência dos serviços oferecidos e as necessidades das crianças e adolescentes usuários dos serviços. As questões eram múltiplas e pertinentes: os equipamentos existentes seriam adequados para as características das crianças e adolescentes atendidos? Quais os serviços que têm uma demanda maior? Quais são as características das crianças e adolescentes que utilizam os serviços de abrigo? Quais os motivos de ingresso e seus significados? As crianças e adolescentes permanecem quanto tempo nos abrigos? Que tipo de equipamentos existem na cidade de Porto Alegre? Quais são os recursos humanos e quais suas expectativas de trabalho com as crianças e adolescentes abrigadas? Essas foram 6 algumas das interrogações que os componentes do Grupo de Trabalho discutiram ao longo dos encontros. A necessidade de um conhecimento mais aprofundado e de um planejamento da “cidade como um todo” foram primordiais para a justificativa da pesquisa. Se a necessidade de “planejar a cidade como um todo” foi um certo consenso nas reuniões, o mesmo não se pode dizer acerca da implantação de determinados “modelos” de atendimento e sobre as prioridades nas políticas de abrigamento. Apesar de existir também um certo consenso quanto à relativa vantagem de equipamentos menores, houve dúvidas quanto à possibilidade de, num curto prazo, extinguir os abrigos de médio ou grande porte. Outras questões também se manifestaram: em termos de prioridades práticas, é preciso mais abrigos ou é preciso investir em políticas básicas de educação, saúde e geração de renda para “barrar” o ingresso de crianças e adolescentes nos abrigos? Para os administradores dos abrigos, faz mais sentido investir no “desabrigamento” ou investir na melhoria e construção de mais abrigos? O próprio conteúdo das discussões revelava as tensões e dilemas envolvidos no planejamento e execução das políticas de abrigamento: investir no abrigamento de crianças e adolescentes não seria des-responsabilizar os pais e familiares de tais crianças? De outro lado, como evitar, com a falta de recursos sociais e governamentais adequados, que algumas famílias efetivamente tenham que recorrer aos abrigos como uma possibilidade educativa? E se os abrigos devem existir, quais os formatos ideais para sua existência? Deveria haver um “perfil” particular para cada abrigo? É preciso “padronizar” estruturas e rotinas? Mas como, efetivamente, construir essa padronização num terreno em que nem sempre há uma convergência de valores, ideais e opiniões? 7 1.3. Método de Trabalho Nesse contexto heterogêneo de disputas e visões, optamos por realizar uma pesquisa que, dentro do curto espaço disponível – 3 meses -, pudesse esboçar um primeiro conhecimento das estruturas e da composição dos abrigos em Porto Alegre2. Assim, escrevemos um projeto absolutamente vinculado às demandas discutidas nas reuniões do Grupo de Trabalho do reordenamento de abrigos e que pudesse ser executado num período de três meses, para que fosse possível sua incorporação nos debates sobre as políticas a serem implementadas, tendo como objetivo mapear três grandes focos de interrogações: - Estrutura administrativa dos equipamentos existentes (valor per capita de cada abrigo, fonte de recursos, data de instauração, número de vagas e ocupação); - Recursos humanos (quantidade de trabalhadores, idade, gênero, tempo de trabalho no abrigo); - Características das crianças e adolescentes abrigados (Composição: sexo, idade, procedência, cor; situação jurídica: destituição ou suspensão de poder familiar, cadastro para adoção, etc; situação Institucional: motivo de abrigamento, tempo de abrigamento, modo de encaminhamento ao abrigo; vinculação familiar e comunitária: existência de visitas de familiares, ligação com comunidade através da escola, cursos, etc). A investigação etnográfica de informações sobre estruturas administrativas, recursos humanos e características das crianças e adolescentes consistiu na primeira fase da pesquisa, que durou 2 meses. Para a compreensão das visões existentes quanto aos modos de “abrigar”, contamos com uma metodologia de 2 A pesquisa foi planejada para ser realizada durante 3 meses, mas foi efetivada entre os meses de julho e novembro de 2005, com períodos de interrupção em função de dificuldades administrativas de provimento dos recursos necessários para a condução do estudo. 8 pesquisa essencial para os nossos propósitos: o método etnográfico, que aprofundamos numa segunda fase da pesquisa, que durou aproximadamente 2 mês. O método etnográfico pode ser descrito brevemente como a produção de conhecimento sobre as culturas humanas e a vida social através da descrição e interpretação de práticas, valores e saberes de populações situadas local e temporalmente. Em sua versão clássica, previa um intenso relacionamento do pesquisador com as pessoas estudadas, no dia a dia das práticas e eventos, das conversas cotidianas, dos rituais, etc, sendo que tais estudos geralmente eram realizados em comunidades distantes das sociedades do próprio pesquisador (Malinowski, 1976; Geertz, 1989). No entanto, com a expansão disciplinar da antropologia, novos temas e objetos fizeram com que a própria sociedade do pesquisador se tornasse objeto de estudo antropológico, ampliando o escopo dos universos de pesquisa, mas também seus desafios: como estudar instituições centrais das sociedades contemporâneas, como o sistema jurídico, a política, a religião? O desenvolvimento da disciplina vem mostrando a utilidade do ângulo de visão antropológico iniciado desde os primeiros estudos etnográficos: o investimento na informalidade, a busca pela extrapolação das atividades formalmente definidas e o privilégio dos chamados “imponderáveis da vida real” (Malinowski, 1976), acontecimentos microscópicos e, por vezes, imprevistos, que revestem de cor e dinamicidade a prática social. Trazer à luz relações e configurações que permanecem obscuras a partir de um ponto de vista analítico puramente formal – uma aplicação de questionário com questões de múltipla escolha previamente definidas, por exemplo – continua a ser o grande objetivo da etnografia, mesmo a que tem por objeto instituições formais da sociedade, como os órgãos do Estado, o sistema judiciário, as entidades de assistência social, etc. Mas isso implica a necessidade de contatos freqüentes com as organizações pesquisadas, uma permanência significativa dos pesquisadores com as pessoas 9 investigadas e a criação de negociações para o acesso aos dados e aos espaços das práticas e rituais. Especificamente para essa pesquisa sobre a estrutura e composição dos serviços de abrigamento em Porto Alegre, o estabelecimento da metodologia da pesquisa implicou uma série de reflexões, na medida em que, de um lado, nos vinculamos à tradição disciplinar que preza o trabalho de campo microscópico e contextual e, de outro lado, aceitamos o desafio de contribuir para o planejamento das ações que têm um “tempo” específico e, geralmente, curto para a elaboração de projetos. A solução encontrada foi utilizar um roteiro de entrevistas que possibilitasse a apreensão das informações administrativas, de recursos humanos e as características das crianças e adolescentes e o método etnográfico para ter acesso aos fenômenos menos formais do funcionamento de alguns dos abrigos da rede, na impossibilidade de aprofundar tal funcionamento na totalidade dos abrigos investigados no tempo previsto para a pesquisa3. O universo da pesquisa foi definido como abarcando todos os abrigos do município de Porto Alegre, vinculados à rede própria, registrados no CMDCA, assim distribuídos: a) Rede Própria; b) Rede de Unidades Conveniadas ao Município; c) Rede de Unidades Não Conveniadas ao Município. A equipe da pesquisa propôs originalmente incluir ainda cinco Abrigos Residenciais da Rede Estadual (RS), para proporcionar uma comparação das estruturas e demandas dos serviços. No entanto, a Fundação de Proteção Especial (FPE), órgão responsável pela administração dos abrigos estaduais, demorou muito para autorizar a entrada dos pesquisadores nas suas unidades e o acesso aos dados. Assim, nossa pesquisa ficou restrita ao âmbito da administração municipal. O roteiro de entrevista, assim como o questionário de coleta de dados sobre as crianças e adolescentes atendidos nos abrigos encontra-se no anexo 1 desse documento. 3 10 1.4. A Pesquisa de Campo Do total de equipamentos investigados, apenas um abrigo não aceitou participar da pesquisa, o Lar Orfanato Clínica Esperança. Segundo informações dadas ao pesquisador no momento da visita para a coleta dos dados, a decisão sobre a não participação deu-se anteriormente ao próprio início da pesquisa. Também a Fundação de Proteção Especial, responsável pelos abrigos residenciais do estado do Rio Grande do Sul, apesar da visita da equipe e solicitação por escrito, não possibilitou o acesso dos pesquisadores aos equipamentos em tempo hábil para a efetiva incorporação nesse relatório. A FASC também não disponibilizou, em tempo hábil para incorporação no relatório, os dados de per capita de crianças e adolescentes das suas unidades da ”rede própria”. Em mais de um caso, ao anunciarmos que a pesquisa seria financiada pelo CMDCA, detectamos entre nossos interlocutores uma evidente preocupação com os usos da pesquisa. Deduzimos que tais preocupações, assim como a resistência em participar da pesquisa, decorre do contexto de transformação das estruturas existentes e demonstram a heterogeneidade das concepções sobre o “abrigar” e das opiniões sobre os modelos a serem seguidos. Voltava sempre a mesma desconfiança expressa na pergunta: “Qual é a finalidade da pesquisa?” Uma funcionária de uma unidade chegou a contatar a coordenadora da pesquisa, por email, no intuito de expressar suas dúvidas com relação à execução da pesquisa e sua utilização para o reordenamento das políticas. A disputa entre diferentes visões sobre o “abrigar”, somada à frustração com os parcos recursos disponíveis para a realização de modificações almejadas, cria um clima nem sempre propício à penetração da pesquisa no “campo”4. Usamos esse termo para nos referirmos, além do “campo de atendimento” e a “pesquisa de campo”, ao “campo” conceituado pelo sociólogo Pièrre Bourdieu (1989 e 1996), o qual refere-se a universos sociais relativamente autônomos, nos quais agentes enfrentam-se, tendo como alvo a imposição de princípios legítimos de visão e de divisão do mundo social. 4 11 Também houve, conforme orientações éticas e jurídicas usuais, uma preocupação imensa com a revelação de informações indevidas sobre as crianças e adolescentes. Para a apreensão dos dados administrativos, de recursos humanos e das crianças e adolescentes, construímos um roteiro de entrevista, além de aplicar um questionário. Originalmente, propusemos a coletar dados sobre os jovens abrigados diretamente do prontuário, mas tal procedimento se mostrou muito difícil devido ao receio de divulgação dos dados. Mesmo explicitando nosso comprometimento a não publicar nenhum modo de identificação da criança ou adolescente pesquisado, na maioria dos locais não tivemos acessos aos prontuários. Desta forma, tivemos que nos adequar às possibilidades existentes de receber as informações a partir de conversas com as assistentes sociais e psicólogas das unidades. A coleta de dados junto aos funcionários enriqueceu a pesquisa com inúmeras histórias sobre os diferentes “casos” de abrigamento. Por outro lado, muitas vezes também dificultou a coleta de dados, uma vez que os profissionais tinham que reservar um tempo para o recebimento do pesquisador, em meio aos compromissos e rotinas de seu trabalho cotidiano. Não raro, o preenchimento dos questionários através das entrevistas com os técnicos também estendeu os encontros em cada abrigo, inicialmente previstos para dois encontros, possibilitando um maior contato do pesquisador com a unidade investigada. Cabe acrescentar que é um envolvimento emotivo e carnal que parece dar sentido ao trabalho de grande parte dos agentes envolvidos com o abrigamento das crianças e adolescentes, sendo freqüentes as “narrativas da salvação” (Vianna, 2002) e, inclusive as de uma “conversão” pessoal. De um lado, a existência de tais construções de solidariedade parece demonstrar que a noção de “ajuda” constitui uma dimensão fundamental do conteúdo da noção de “direitos” e do “abrigar” para tais agentes. De outro lado, a valorização do “envolvimento” pessoal e a necessidade de sua constante afirmação, por parte desses atores sociais, aumenta seu prestígio social, peça fundamental para o bom andamento da instituição. Especialmente na rede de unidades não conveniadas, é justamente a reputação ou 12 status do coordenador que propicia o aumento das relações sociais e práticas de interdependência entre adolescentes e funcionários e entre as próprias instituições e as redes comunitárias mais amplas. São essas relações, por sua vez, que propiciam a obtenção de verbas públicas, doação de produtos, voluntariado e possibilidades de financiamento diversas. “Correr atrás” de tais recursos faz parte do esforço cotidiano, da luta diária para o atendimento das crianças e adolescentes nos abrigos. É nesse contexto que entendemos as constantes demandas por uma “devolução” dos dados da pesquisa, acompanhada, em geral, de um convite para apontarmos ações “práticas” de curto prazo, como, por exemplo, acessar maiores recursos financeiros do próprio CMDCA. Nesse sentido, ao aceitarmos pesquisar os equipamentos existentes, fomos também “envolvidos” numa rede complexa de dependências mútuas que, da mesma forma que nos mostrou a importância das redes locais para o sucesso na manutenção das estruturas existentes, nos desafiou em termos das trocas possíveis entre a pesquisa acadêmica antropológica e as políticas de intervenção social. A resposta que possuímos no momento, sempre provisória e contextual, aponta para uma opção de contribuir para as políticas de atenção à criança e ao adolescente através da descrição dos próprios paradoxos e dilemas envolvidos na sua efetivação cotidiana, dos distintos interesses que articulam, vinculados às diferentes posições de cada agente e equipamento frente aos demais recursos e agentes. É o conjunto desses diversos relacionamentos, significados e práticas que constitui a dinâmica do “abrigamento” de crianças e adolescentes em Porto Alegre, alvo dessa pesquisa. 13 II – Novos dilemas, Velhas Questões: Os Usos da Institucionalização de Crianças e Adolescentes no Brasil e suas Interpretações5 Antes de passar ao exame dos dados de campo recolhidos na pesquisa sobre os abrigos de Porto Alegre, cabe realizar uma pequena revisão histórica sobre a questão do abrigamento de crianças e adolescentes no Brasil. Isto porque é significativo que algumas das questões discutidas contemporaneamente já vêm sendo discutidas há um longo tempo no Brasil. O que nos parece estar em jogo, no âmbito das discussões atuais sobre o formato das instituições de abrigo, sua estrutura e existência, é todo um processo de racionalização estatal do atendimento de crianças e adolescentes no Brasil, que deve ser percebido no conjunto das discussões sobre o governo das populações brasileiras e as diferentes formas de efetivação. Sem dúvida, alguns outros estudos já realizaram tal tarefa (ex: Fonseca, 1985; Pilotti e Rizzini, 1995; Vianna, 1999 e 2002; Rizzini e Rizzini, 2004) e não nos cabe repetir tal percurso nesse momento. Essa literatura aponta para o fato de que a institucionalização de “menores” tem sido uma das práticas mais discutidas, em termos críticos, do chamado “paradigma menorista”, muito em função de que tal modelo serviu aos propósitos “civilizadores” do início do século no Brasil. Entretanto, o que é pouco documentado e comentado são as motivações das próprias famílias e até mesmo de crianças e adolescentes, ao procurarem as instituições jurídicas e policias para o internamento de crianças. Embora não haja significativas pesquisas sobre o assunto, os estudos existentes – alguns levantamentos realizados pelas próprias instituições de internação de menores, reunidos por Rizzini e Rizzini (2004) e a pesquisa antropológica de Fonseca (1995) a respeito da circulação de crianças em grupos populares -, apontam para o fato de que as instituições de internamento faziam parte das opções educativas de parcelas importantes da população brasileira. A oportunidade da internação de crianças e A parte a seguir é retirada, com algumas modificações, de um capítulo da tese de doutorado de Schuch (2005).. 5 14 adolescentes chegava a ser, até mesmo, disputada pelos pais e responsáveis dos “menores” e não raro havia denúncias de corrupção, clientelismo e favorecimento no oferecimento das vagas – o que demonstrava também a necessidade da racionalização da demanda. Consideramos importante avaliar tais processos porque através deles podemos perceber que, a despeito de uma utilização da população do serviço de internação, esse modo de intervenção estatal foi progressivamente perdendo espaço nas políticas de controle à infância. Essas políticas passaram a enfatizar a privatização da questão da atenção à infância, através de um recrudescimento da noção de autonomia familiar e de um progressivo privilégio das intervenções jurídicas sobre a família. Considerar tais processos pode complexificar as questões em torno da necessidade de existência dos abrigos enquanto estruturas de suporte familiar. Se hoje discutimos o seu estatuto à luz de novas questões, como a legislação que salienta que o abrigamento deve ser a última opção no rol de alternativas a serem implementadas, uma análise diacrônica permite concluir que essa discussão não é nova e esteve constantemente presente na discussão das políticas públicas. Um olhar ao passado pode iluminar a análise dos processos presentes. 2.1. Os Usos da Institucionalização Em um estudo acerca dos processos de “apreensão de menores” em Porto Alegre entre os anos de 1901 e 1926, Fonseca (1995) destaca que o pedido de “apreensão de menores”, muitas vezes, era uma manobra política dos adultos, motivada pelo desejo de não perder a autoridade legal e moral sobre a criança. Na época, Porto Alegre passava por uma fase de urbanização intensa e a cidade tinha uma grande sociabilidade de rua. As famílias populares não se apresentavam na forma de uma unidade doméstica auto-contida, tendo pouco em comum com o modelo nuclear moderno: as mães não tinham como se dedicar inteiramente aos seus filhos, a unidade doméstica apresentava-se muito fluida, havia uma 15 instabilidade significativa no laço conjugal e o emprego das crianças também fazia parte da dinâmica familiar. Nessas situações, às vezes a família via-se necessitando de uma colocação provisória do filho na casa de parentes, vizinhos ou outros “benfeitores”. Irma e Irene Rizzini (2004) também destacam que, logo após a promulgação do Código de Menores de 1927 e a instauração do “juízo de menores”, a internação de crianças e adolescentes era extremamente demandada pelos pais e responsáveis, tornando-se uma alternativa aos cuidados e educação para os pobres, principalmente pelas famílias constituídas de mães e filhos. Segundo as autoras, em poucos anos, o sistema de internações saturou-se, pois não chegou a dar conta da demanda que ele próprio criou: os juízes não conseguiam atender todos os pedidos que chegavam as suas mãos. Só para se ter uma idéia da demanda, um inquérito estatístico publicado em 1939, pelo Juizado de Menores do Distrito Federal, revelou que mais de 60% dos requerimentos eram por internações de crianças e adolescentes. A maioria das solicitações vinha de mães sem companheiro e cerca de 80% eram empregadas domésticas. Surpreendentemente, até mesmo os menores solicitavam seu próprio internamento: houve cerca de 600 pedidos de internação classificados como sendo advindos dos próprios menores (Rizzini e Rizzini, 2004). Para se avaliar a motivação do internamento nessa época, Rizzini e Rizzini (op.cit.) trouxeram um estudo, publicado em 1941, acerca da “Escola de Aprendizes de Manaus”, que pesquisou 350 aprendizes e seus pais. Segundo o levantamento, em 82 famílias, a motivação para o internamento foi dita como “alimentação”, sendo também importante o desejo de “educação”. Para os alunos, a “vontade da família” foi importante, mas 98 alunos salientaram que o “almoço na escola” era decisivo. A maioria dos pais era composta de operários, enquanto as mães compunham-se, em sua maioria, de empregadas domésticas, criando os seus filhos sozinhas. O famoso “juiz pedagogo” de Manaus, André Vidal, também apresentou estatísticas acerca da população atendida e as demandas de 16 internamento dos primeiros cinco meses de funcionamento do “Juízo Tutelar de Manaus”, criado em 1935. O juiz afirmou que foram recebidas 646 crianças, sendo a maior parte composta por meninos acima de 10 anos, analfabetos e mestiços. As famílias pediam autorização ao juizado para a matrícula na “Escola de Aprendizes Artífices” – de externato - enquanto os classificados como “desocupados”, acabavam sendo enviados à “Escola Agrícola do Paredão” (Rizzini e Rizzini, op.cit.). Com a criação do Serviço de Assistência aos Menores (SAM), em 1941, a questão da criança e do adolescente tomou a forma, para o governo, de defesa nacional contra a ameaça comunista. É com a criação do SAM que começam os conflitos de poder a respeito do internar crianças e adolescentes, efetivados entre o Poder Executivo e o Poder Judiciário, assim como as denúncias de descontrole administrativo, clientelismo e más condições de vida dos jovens internos nos aparatos de internamento. É também no período posterior ao SAM que o internamento passa a ser combatido com maior ênfase, tornando-se alvo de relatórios, denúncias e artigos de jornais. Nisso, o Brasil se insere no contexto internacional marcado pela difusão de legislações com um “tom” individualizador da questão da proteção à criança (Guy, 1998). Todos esses fatores contribuíram para que o final da década de 1950 fosse particularmente tenso, no que diz respeito às políticas de internação de menores, havendo um recrudescimento das denúncias sobre abrigamentos desnecessários. Condenavam-se os pais “levianos” querendo se livrar de suas obrigações parentais, ressaltava-se favorecimentos clientelistas no oferecimento das vagas, assim como a ineficiência e irregularidades administrativas dos abrigos. Tudo contribuía para a formação de um cenário institucional perverso que contribuía para a má formação das crianças e jovens abrigados. Esses elementos marcaram o início de um processo de racionalização no atendimento estatal da infância e juventude, em direção a uma ênfase na família como lócus preferencial de cuidado, amparada pelo controle e vigilância jurídica. 17 Rizzini e Rizzini (2004) trazem o ponto de vista de Nogueira Filho, diretor do SAM até 1956 - ano em que se demitiu da instituição – sobre o problema da disputa de vagas. Segundo Nogueira Filho, as improbidades administrativas, a corrupção e o clientelismo faziam com que fossem internados “falsos desvalidos” (filhos de famílias que tinham recursos, os quais eram internados nos melhores educandários do SAM), em vez dos “autênticos desvalidos”. Para além das denúncias do modo de administração dos recursos estatais, essa insinuação de privilégios demonstra que o internamento era disputado pelas famílias, isto é, era considerado como uma estratégia não somente possível, mas desejável para a educação das crianças e adolescentes. O esforço das instituições, por outro lado, fazia-se no sentido de criar mecanismos para racionalizar o atendimento, diminuir a demanda, mapear outras formas de governo. Esse esforço encontrava resistência de parte da população, ansiosa pelo aproveitamento dos recursos estatais. Tais tensões colocavam em evidência a necessidade de negociar o internamento, tanto da parte das famílias, quanto da parte dos representantes dos órgãos públicos. Se de um lado o Estado não desejava responsabilizar-se integralmente pela educação e manutenção das crianças, também necessitava manter o poder de governo dessa população e vice-versa, no que diz respeito às famílias6. Segundo Irene e Irma Rizzini (op.cit.), o SAM contava, em 1944, com 33 educandários no Brasil, sendo apenas quatro oficiais (sexo masculino). Os demais institutos trabalhavam em regime de convênio, com o recebimento de valores per capita. No decorrer de uma década, houve o processo de expansão nacional dos serviços do SAM e, em 1956, já contavam com 300 estabelecimentos particulares articulados com a instituição, entidades que recebiam um per capita para cada criança ou adolescente. Essa situação de articulações com entidades privadas não tinha nenhum embasamento jurídico, ou seja, era realizada sem nenhuma base Vianna, A. (2002) caracteriza tal forma de governo como uma gestão tutelar, na qual há uma produção não apenas de controle dos indivíduos submetidos a essa condição legal, mas também de responsáveis por esses mesmos menores. Nesse sentido, implica a definição de tutores, capazes de responder pelas ações de tais indivíduos e de construí-los efetivamente enquanto sujeitos sociais plenos, ou seja, maiores. 6 18 contratual. No momento de sua demissão, Nogueira Filho publicou uma extensa lista de denúncias sob o título: “SAM: Sangue Corrupção e Vergonha”, onde esmiuçou a “exploração dos menores”, a corrupção dos “infragangue” (funcionários dos internatos e da sede) e da “supergangue” (funcionários do Ministério da Justiça) – que transformariam os internatos em “sucursais do inferno”. Disse o ex-presidente Nogueira Filho: “Em termos rudes, a realidade é que o SAM entrega mais de uma dezena de milhar de menores por ano a terceiros, para que cuidem de sua vida e educação, sem a mínima garantia jurídica de que lhes seja dispensado um trato razoavelmente humano” (Rizzini e Rizzini, 2004:34). A associação com as categorizações de “depósitos de menores” e “sucursais do inferno” inicia a caracterizar o discurso sobre a internação de menores, que passam a ser marcados como “perigosos” após a passagem nos abrigos do SAM. É interessante perceber como denúncias na forma de condução da instituição vão, progressivamente, transformando-se em denúncias quanto à própria clientela dos serviços. Esse “contágio” de estigmas entre “menores”, “funcionários” e instituições permanecerá informando discursos institucionais até os dias atuais7. Como salientam Irma e Irene Rizzini (op.cit.), a imprensa teve um papel relevante na construção dessa imagem, pois denunciava os abusos contra os menores, mas também colocava cada vez mais ênfase na periculosidade destes. Às vozes da imprensa, juntavam-se autoridades públicas, políticos e juristas, que condenavam o órgão e propunham a criação de uma nova instituição, o que veio acontecer em 1964, com a criação da FUNABEM. Desde a criação da FUNABEM, a prática de Ver, por exemplo, o trabalho de Barcellos e Fonseca et al (2001), realizado em 2001, na FEBEM do RS. As autoras realizaram uma pesquisa acerca do fluxo de informações e modos de estruturação institucional nas unidades de internação para adolescentes infratores, destacando a recorrente do contágio comportamental, associado à figura do monitor, profissional com maior contato cotidiano com os internos. Interessante perceber como, nesse caso, o contágio diz respeito à influência que os adolescentes internos exerceriam sobre os monitores, enquanto na época de Nogueira Filho, quando iniciou o discurso sobre os internatos como “sucursais do inferno”, o perigo foi colocado no sentido inverso, isto é, no potencial contaminador dos profissionais na direção dos “menores”. Essa tendência de inversão pode estar associada à progressiva especialização do atendimento dos “menores” em “crianças em perigo” (abrigadas) e “crianças e adolescentes perigosos” (internados para execução das medidas sócio-educativas) – que pode estar conduzindo a um recrudescimento da noção de periculosidade associada aos adolescentes infratores (ver Schuch, 2005). 7 19 internamento – vista como herança do SAM, fomentada pela justiça de menores e alimentada pelo desejo de pais irresponsáveis – passou a ser discursivamente combatida. A internação começou a ser debatida como uma prática ineficiente de atenção e controle dos “menores”. O primeiro presidente da FUNABEM, Mário Altenfelder, assim colocou o desafio para a nova política nacional de bem-estar do menor: “O que fazer com a ‘doutrina do internamento’ implantada pelo SAM, fomentada pelos antigos Juizados de Menores e estimulada pelos pais desejosos de se verem livres da obrigação de criar seus filhos?” (Rizzini e Rizzini, 2004:36). Nesse contexto político e social de fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, nós temos, de um lado, o recrudescimento da política da “segurança nacional”, com o privilégio do modelo do internamento/contenção de menores. De outro, uma ênfase na ideologia da modernização da sociedade brasileira, que deu visibilidade crescente aos processos de nuclearização da família burguesa e a promoção da idéia da família como lócus da emoção e das afetividades, característicos dos segmentos médios da população brasileira (Duarte, 1995; Figueira, 1985; Velho, 1981). Tanto assim que a diretriz do Ministério da Previdência e Assistência Social era “Modernizar para Funcionar” (Rizzini e Rizzini, 2004:47). Esses dois processos – a política da “segurança nacional” repressiva e uma ideologia da modernização que valorizava a família nuclear acabaram suscitando uma crítica à prática de internação de crianças – tanto do ponto de vista da eficácia da administração estatal, quanto do ponto de vista de uma recriminação das famílias que procuram internar seus filhos. Se considerarmos que o contexto internacional estava em pleno processo de internacionalização da retórica dos “direitos da criança”, com a abordagem individualizante que lhe é própria, temos ainda outros motivos para a condenação da internação e de um modelo que enfatiza fortemente a responsabilidade estatal no domínio em questão: o progressivo apagamento das discussões sobre o papel do Estado nas políticas de assistência e a atenção à infância e juventude e o maior valor da família e dos instrumentos judiciais de controle social. 20 Apesar das críticas à institucionalização, um grande número de famílias ainda procurava as instituições jurídico-estatais para internar os filhos. Oficialmente, os “menores” eram divididos entre os institutos de “triagem”, “reeducação” e “prevenção”. Mas a busca da internação continuava sendo motivada pelas demandas de alimentação, estudo, vestuário e inserção profissional. Em um estudo publicado em 1966 e realizado pela FUNABEM em 382 instituições no país, foi apontado que 58% dos menores abrigados estavam entre sete e treze anos de idade, ou seja, em idade escolar (Rizzini e Rizzini, op.cit.). Muitos deles tinham irmãos também internados; suas famílias já conheciam o caminho institucional para conseguir a internação dos filhos, tornando mais fácil ser bem sucedido na disputa das vagas. As denúncias de clientelismo e corrupção ainda estavam na pauta das discussões dos governantes e atores envolvidos em órgãos jurídico-estatais, demonstrando que, se em alguns casos a internação constituía-se em uma medida autoritária da parte do governo e das instituições jurídicas, em outras situações era ardentemente disputada pelas famílias, zelosas em desfrutar dos serviços estatais para a cooperação na educação filial. Por volta de 1968, o sociólogo Arthur Rios, por exemplo, denunciou o clientelismo no oferecimento das internações, afirmando na “Revista Brasil Jovem”: “(...) a ação de internar é propriedade e privilégio de uma minoria armada de relacionamentos capazes de exercer pressão sobre os órgãos estaduais” (Rizzini e Rizzini, 2004:40)8. As denúncias referidas eram de que membros das famílias, patroas, amigos “providos da gazua do pistolão” conseguiam “abrir as portas do internato”. As palavras de Arthur Rios trazem uma imagem bem diferente daquela que, geralmente, estamos acostumados a imaginar, quando tratamos de instituições próprias do chamado “paradigma menorista”: em pleno 1964, auge da ditadura militar, famílias, patroas, amigos e pistolões disputavam vagas no sistema As autoras não precisam a publicação do artigo de Arthur Rios, mas pela disposição cronológica que fazem no livro, é possível imaginar que o artigo tenha sido publicado entre os anos de 1968 e1970. 8 21 estatal de internamento; algumas famílias desejavam o internamento. Este era visto como um privilégio de poucos escolhidos. Temos certeza de que as generalizações são perigosas e nem todos os jovens internados haviam procurado a internação; muitos sofreram com o internamento compulsório, haja vista os relatos de ex-internos, como exposto no famoso livro de Sandra Herzer (1982), ex-interna da FEBEM que se suicidou após sair da instituição. Também não há dúvida de que as demandas de internação motivavamse devido à falta de condições básicas de vida, além da tentativa de amenizar conflitos familiares através desse instrumento jurídico-estatal e à falta de outras alternativas oferecidas pelo governo. Obviamente, não estamos fazendo nenhuma apologia ao modelo asilar educativo da pobreza; estamos somente demarcando a tradicional procura, por parte da população, de um serviço estatal que hoje em dia é absolutamente criticado como repressor e autoritário. Com isso, desejamos salientar que, conjugado às compreensíveis críticas ao “menor” como categoria social e ao “internamento” como solução da miséria, está também a necessidade de uma racionalização e barateamento no modo de governo da infância e juventude vigente no Brasil até a década de 1960. Sobretudo, é importante lembrar que essa racionalização se efetivou pela repressão ao uso de um serviço estatal que era visto, por muitas famílias populares, como fornecedor de novas oportunidades educativas e de socialização para seus filhos. 2.2. As Críticas ao Internamento de Crianças e a Valorização da Família Tendo em vista a transformação da perspectiva jurídico-estatal sobre a internação, a internação de crianças passou a ser, cada vez mais, associada à imagem de descomprometimento paterno. Os famosos discursos sobre as “famílias desestruturadas”, a “indiferença e insensibilidade das mães” e das “domésticas que se engajam em uniões livres e sucessivas e que revelam extraordinária indiferença ao filho”, despontavam com freqüência publicações da FUNABEM 22 (Rizzini e Rizzini, 2004). Tal associação entre internamento e descomprometimento paterno, por sua vez, estava em consonância com o contexto internacional que enfatizava a “infância universal” e que, com a publicação de uma série de legislações de proteção de direitos, tendia a desonerar a coletividade, individualizando a problemática das crianças e adolescentes. No Brasil, conjugouse ainda o contexto da forte ideologia modernizante da época, que privilegiava os processos de fortalecimento da família e de sua nuclearização. Todos esses fatores implicavam uma especialização nas funções institucionais da FUNABEM. Com a promulgação do Código de Menores de 1979, esta instituição passou a atender os “menores em situação irregular”, categoria que acentuava a situação de patologia das pessoas internadas. Essa linguagem vinculada à uma patologia nos lembra que o discurso médico ainda se constituía em forte influência no domínio da infância e juventude. Às tendências higiênicas associavam-se as influências psicologizantes, próprias da expansão do modelo familiar freudiano e da enorme ênfase nos laço pai-filho. Visto sob essa luz, seria praticamente impossível prever um bom desenvolvimento para os jovens abrigados. Embora as portas das FEBEM's ainda se mantivessem abertas para a “internação por motivos sócio-econômicos”, houve uma crescente condenação dessa prática como “irregular”. Entretanto, mais uma vez, persistiu as buscas de vagas, motivadas em grande parte pela escassez de outros programas educativos e assistenciais. O estudo de Fonseca (1995) realizado no início da década de 1980, numa Vila de invasão em Porto Alegre, mostrou a grande presença da FEBEM no imaginário dos moradores. Mesmo que, a nível teórico, a instituição parecesse assustadora, fazia parte das redes de sociabilidade acionadas no intuito de garantir melhores condições de vida para a criança em inúmeras famílias populares. A autora traça o percurso da internação. A primeira vez que a mãe entregava seus filhos para autoridades, ela o fazia sob coação, motivada por um problema concreto em relação à sobrevivência das crianças. O grande medo, por parte dessa mãe, era de justamente perder os filhos para a adoção, isto é, perder 23 seus direitos maternos. A maior familiaridade com o sistema de internamento, no entanto, explica por que as mulheres mais velhas (com mais filhos e com filhos mais velhos) acabavam recorrendo mais à internação do que as mães mais jovens. Outra questão importante é que, para as mães que entregavam seus filhos para a FEBEM, os filhos não estavam “abandonados” – pois o vínculo do “sangue” mantinha-se. Mais do que uma atitude “perversa”, a prática do internamento era vista, por muitos moradores da Vila, como prova da preocupação materna com o bem-estar da criança. Na mesma época, Fonseca (op.cit.) também ouviu os técnicos de atendimento da FEBEM. Os funcionários queixavam-se que as mães estavam utilizando a instituição como um “internato do pobre”, e entendiam o internamento por um período maior que dois anos como “abandono” do filho – não levando em conta que as circunstâncias de penúria, para essas mães, eram muitas vezes perpétuas. Assim, em função de uma experiência de vida diferente das mulheres de classe média ou alta, as mães dos grupos populares atribuíam significados diferentes aos vários termos da família: o amor materno e o primado do vínculo mãe-filho não eram incompatíveis com separações temporárias. Por outro lado, a prática de internamento era percebida, pelos administradores da FEBEM, como própria de uma “família desestruturada”, categoria que acabava culpabilizando os pais e colocando os filhos numa posição de vitimização. O estudo de Cardarello (1996) também destacou alguns paradoxos instaurados pelo progressivo discurso individualizante dos “direitos da criança”, abordando, desta vez, o contexto posterior ao ECA. A autora pesquisou a implantação dos abrigos residenciais na FEBEM do RS no início da década de 1990 e analisou um conjunto de dinâmicas sobre como a mudança de políticas legais pode acabar tendo efeitos perversos e muitas vezes imprevisíveis. Cardarello (op.cit.) demonstrou que, no intuito de não estigmatizar as crianças, os agentes institucionais - profissionais da FEBEM - aumentaram o estigma em direção aos pais. Esses pais eram cada vez mais percebidos como culpados pela situação das 24 crianças abrigadas após a promulgação do ECA, legislação que orientou sobre a impossibilidade de internar crianças apenas por motivos sócio-econômicos. A autora estudou o sistema de classificação dos motivos de ingresso das crianças nos abrigos da FEBEM antes e depois a implantação do ECA, comparando dados dos motivos de abrigamento, recolhidos nos anos de 1985 (antes do ECA) e 1994 (depois do ECA). Os resultados são surpreendentes. Em 1985, 42% dos motivos de ingresso referiam-se aos “problemas sócio-econômicos” e, excetuandose abandono (6%) e situação de abandono (13%), o restante, isto é, 81% de todos os casos poderiam ser considerados como sócio-econômicos ou em decorrência direta dos mesmos9. Em 1994, dá-se uma relação inversa: o percentual dos motivos de ingresso que, reunidos, sugeriam a ação maléfica de pais/tutores (maus tratos, abandono, negligência, etc), já era de 75%! No entanto, as conversas com os técnicos responsáveis pela classificação dos ingressos, a pesquisadora percebeu que a mudança de comportamento paterno não era tão evidente. Para Cardarello (op.cit.), o que parece ter mudado, ao invés do comportamento paterno, foram as próprias classificações para as mesmas ações paternas, que passaram a acentuar um aspecto moral mais pesado, revelando uma mudança de enfoque sobre o problema a ser enfrentado. Diz a autora, em um texto escrito junto com Fonseca (1999): A passagem do ‘problema sócio-econômico” para “negligência” revela uma mudança de enfoque na visão da infância pobre e da sua família no Brasil. Se em 1985 considerava-se que motivos como “mendicância”, “maus tratos”, “desintegração familiar” e “doenças do menor” eram decorrência direta de “problemas sócio-econômicos”, hoje, mais do que nunca, a família pobre, e não uma questão estrutural, é culpada pela situação em que se encontram seus filhos (Fonseca e Cardarello, 1999:107). Consideramos importante considerar tais dinâmicas instauradas a partir de uma relação entre elementos diversos – contexto nacional, políticas internacionais, 9 As autoras salientam que até mesmo “maus tratos” eram analisados como motivos sócio-econômicos (Fonseca e Cardarello, 1999). 25 noções e valores que se propõem universais, promulgação de leis, etc – para poder perceber a complexidade de transformações diversas em jogo, quando referimos a troca de paradigmas da “menoridade” à “proteção especial”. Muito além da simples mudança de princípios teóricos, estão em jogo a implementação de novos valores, disputas entre filosofias políticas, modos de governo, etc. Certamente, a criação na época pós-ECA de unidades com endereço sigiloso, especificamente para crianças vítimas de maus tratos, acentua a idéia de violência intencional exercida por pais (ou pais substitutos) contra seus filhos. Mas é significativo que em todas as unidades com esse perfil, as quais foram pesquisadas, os funcionários ressaltaram a heterogeneidade da clientela. Em particular, frisavam que a grande maioria de abrigados não corria risco de agressão e, apesar disso, em geral por falta de vagas em outros estabelecimentos, eram consignados em local sigiloso com possibilidade reduzida para contato familiar. Nesse caso, é a própria estrutura da rede de abrigos que produz pessoas classificadas como “mal tratantes”, dificultando a manutenção dos vínculos familiares. Isso faz com que as reflexões em torno das estruturas dos abrigos se complexifiquem significativamente. No intuito de salientar a composição de tais estruturas e sua heterogeneidade é que passamos, agora, para a análise dos dados coletados pela pesquisa em Porto Alegre. 26 III – Os Abrigos: Particularidades e Relacionalidade A finalidade da pesquisa é ressaltar a heterogeneidade e diversidade das estruturas de abrigos em Porto Alegre, ao mesmo tempo em que entendemos ser necessário ressaltar a relacionalidade entre os próprios equipamentos. Isto quer dizer que, embora cada unidade tenha determinadas singularidades quanto às estruturas, composição administrativa e de recursos humanos, características das crianças e adolescentes atendidos, tais singularidades são constituídas a partir do relacionamento com os demais abrigos e estruturas existentes. Como disse uma representante do CMDCA: “as crianças são todas nossas”. Ou seja, é preciso, de certa forma, distribuir os recursos financeiros e sociais destinados ao abrigamento das crianças e adolescentes, assim como as próprias crianças e adolescentes, nos equipamentos destinados para tal tarefa. O modo em que se realiza tal distribuição, o tipo e os modelos de equipamentos existentes constituem alguns dos dados dessa pesquisa. A visita às unidades de abrigo, a conversa com os agentes envolvidos com o exercício do abrigamento e a coleta de informações sobre as crianças e adolescentes atendidos permitem compreender como, na prática, se constituem tais particularidades e relacionalidades entre os serviços existentes. 3.1. As Unidades Pesquisadas: Tipos de Instituição e Modelos de Atendimento As unidades existentes em Porto Alegre, participantes da rede própria, conveniadas e não conveniadas à Fundação de Assistência Social e Cidadania totalizam 23 equipamentos. Destes, a pesquisa abarcou 22, pois o Lar Orfanato Clínica Esperança não aceitou realizar a pesquisa. A totalidade das estruturas pode ser diferenciada em termos de dois elementos básicos: a) o “tipo” de instituição (unidades da rede própria, unidades da rede conveniada e unidades da rede não conveniada); 27 b) o “modelo” de atendimento (abrigos, abrigos para portadores de necessidades especiais/PNE’s e casas-lar). O quadro abaixo destaca as unidades pesquisadas, diferenciando-as de acordo com os elementos propostos: Quadro 1: Unidades Pesquisadas, por Tipo de Instituição e Modelo de Atendimento: Tipo de Modelo de Instituição Atendimento Unidades da Rede Própria Abrigo Abrigo Unidades da Rede Conveniada Casa Lar Abrigo Unidades da Rede Não Conveniada Abrigo para PNE’S Casa Lar Nome da Unidade Abrigo Municipal Inga Britta (AMIB) Casa de Acolhimento Casa de Passagem Abrigo da ASA - Ação Social da Aliança Lar de São José João Paulo II* S.O.S. Casa de Acolhida Aldeias S.O.S* Casa Lar Parque dos Maias – Ação Social da Fé Casa de Nazaré Casa Lar Ação Social da Aliança (conveniada) Casa Lar Vila Elizabeth – Ação Social da Fé Samaritano** Clínica Esperança Centro de Reabilitação São João Batista Casa do Menino Jesus de Praga Lar Santo Antonio dos Excepcionais Casa do Excepcional Sta. Rita de Cássia Casa Lar Ação Social Aliança (não conveniada) Casa Amarela da Figueira Casa Lar ADRA Casa Lar Amor do Mestre Jesus Abrigo Vó Maria * Unidades que estão classificadas como tendo o modelo de atendimento de “abrigo”, mas que apresentam uma vairante importante ao modelo na forma de abrigos residenciais (10-12 jovens) de pequena porte dentro da própria estrutura do “abrigo”. * *Abrigo conveniado com o município de Nova Santa Rita. Dentre essas unidades, realizamos algumas visitas etnográficas nas seguintes unidades: Casa de Acolhimento, Casa de Passagem, Abrigo Municipal Ingá Brita, Lar de São José, Abrigo João Paulo II, Abrigo Samaritano e Abrigo Vó Maria. 28 3.1.1. Os Tipos de Instituições As “unidades da rede própria” são aquelas administradas diretamente pela FASC, recebendo recursos e estando sob o governo da prefeitura de Porto Alegre. Tais unidades são dirigidas por pessoas ligadas à prefeitura e seus funcionários são do quadro de recursos humanos da administração pública ou contratados por terceirização, através da FASC, como no caso da Casa de Acolhimento. Esse equipamento possui os educadores e os auxiliares de serviços gerais vinculados a uma cooperativa, que terceiriza tais serviços. Na Casa de Passagem, os funcionários de serviços gerais também são terceirizados. As “unidades da rede conveniada” são aquelas administradas por instituições filantrópicas, religiosas ou Organizações Não Governamentais, que recebem um recurso financeiro da Prefeitura de Porto Alegre para gerir suas estruturas. Nesse caso, a demanda para o encaminhamento do recurso municipal dever ter sido aprovada anteriormente no Orçamento Participativo, para poder integrar-se nesse tipo de destinação de recursos. A utilização do recurso é livre, por parte do equipamento, sendo que a contratação dos funcionários se dá através do próprio abrigo e não há vínculos empregatícios com a Prefeitura de Porto Alegre. O valor do repasse para os equipamentos, via Prefeitura de Porto Alegre, é variável de acordo com o tipo de demanda atendida pela unidade (bebês, crianças, adolescentes, etc). Cada uma dessas “unidades conveniadas” recebe por uma quantidade de vagas oferecidas e, mesmo que o equipamento encontre-se num determinado mês acima ou abaixo da quota estabelecida, receberá invariavelmente pelo número estabelecido de vagas. As “unidades da rede não conveniada” são aquelas que não recebem nenhum tipo de repasse financeiro da Prefeitura de Porto Alegre, embora recebam uma minguada verba federal, como de resto também recebem os demais tipos de unidades. São administradas por instituições filantrópicas, religiosas ou Organizações Não-Governamentais e mantidas por essas próprias estruturas, que 29 articulam doações e serviços de forma a possibilitar a sobrevivência do equipamento. Nesse grupo estão todas as unidades que atendem as “pessoas portadoras de necessidades especiais”/”pessoas portadoras de deficiências”, cujo orçamento também se viabiliza, em alguns casos, através do recebimento do benefício de prestação continuada, a que tais crianças e adolescentes têm direito pela sua condição de saúde. Vejamos o gráfico da distribuição dos tipos de equipamento, que mostra a maior incidência das instituições conveniadas com a FASC (11 unidades), seguidas das instituições da rede não conveniada (9 estruturas) e, por fim, dos abrigos da rede própria (3 unidades): Gráfico 1: Número de Instituições em Cada Tipo Número de Instituições em cada tipo 13,00% Unidades da Rede Própria Unidadesda Rede Conveniada 48,00% Unidades da Rede Não Conveniada 39,00% O total de crianças e adolescentes que estavam nas unidades pesquisadas no momento das visitas para coleta de dados foi de 514 pessoas. Quanto à distribuição da população, temos que as “unidades da rede própria” são responsáveis por 24,2% do total de crianças e adolescentes atendidos, enquanto as “unidades da rede conveniada” são responsáveis por 46,1% e, finalmente, as “unidades da rede não conveniada” atendem atualmente 29,1% do total de crianças e adolescentes abrigados nos equipamentos pesquisados. Vejamos o gráfico abaixo: 30 Gráfico 2: Percentual de Crianças e Adolescentes, por Tipo de Abrigo % Crianças e Adolescentes, por Tipo de Abrigo 24,40% 29,10% Unidades da Rede Própria Unidadesda Rede Conveniada Unidades da Rede Não Conveniada 46,10% Embora as “unidades da rede não conveniada” sejam as que mais possuem estruturas em Porto Alegre, a correlação entre o percentual de estruturas e o percentual de crianças e adolescentes abrigados em Porto Alegre demonstra que a maior parte das crianças e adolescentes abrigados é atendida pelas unidades da rede conveniada, como graficamente vemos abaixo: Gráfico 3: Distribuição dos Equipamentos e das Crianças e Adolescentes por Tipo de Instituições Distribuição de Equipamentos e de Crianças e Adolescentes Tipo Unidades da Rede Não Conveniada 29,10% 48,00% Unidadesda Rede Conveniada Unidades da Rede Própria 46,10% 39,00% % Crianças e Adolescentes % Equipamentos 24,40% 13,00% 0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% % 31 Considerando, todavia, a relação entre o número de vagas e o total de crianças e adolescentes presentes nas unidades no momento da coleta de dados, fica evidenciado que há uma maior diferença entre o número de vagas oferecido e a lotação nas unidades nos abrigos da rede própria. Tais equipamentos são os únicos que estão acima do total de vagas previsto para as unidades. Vejamos o gráfico abaixo10: Gráfico 4: Proporção entre vagas e lotação, por Tipo de Unidade Proporção entre Vagas e Lotação, por Tipo de Unidade 350 300 250 200 Número de Vagas 150 Lotação 100 50 0 Unidades da Rede Própria Unidades da Rede Conveniada Unidades da Rede Não Conveniada 10 Salientamos, contudo, que estamos contando como a lotação o número de crianças e adolescentes efetivamente abrigados nas unidades de abrigamento e não o total de crianças e adolescentes que deveriam estar nessas unidades, por ordem judicial. Assim, a Casa de Acolhimento, por exemplo, possui cerca de 70 crianças e adolescentes abrigados oficialmente no seu equipamento. Efetivamente, no entanto, o número é variável. Na semana da pesquisa, estiveram na unidade 43 crianças e adolescentes. 32 89 a ) C m itt A? Br FAS age S a (A ss ng to as Pa lI i n a a e p de M m ici s hi sa un col a do C M A ue o e rq rig a d a b s rP - A Ca La IB a s AM Ca 20 10 0 70 60 50 40 43 33 35 40 30 30 28 25 30 100 90 80 1518 da hi l o Ac 2525 88 88 1211 42 4239 38 7777 89 20 10 7572 20 12 86 1515 88 ) a h s a ita RA a) us et ai ag el s d R r r b n D a a a P a Je io ni iz m St ar A pc de El a A ve tre e a L s s n e c v o e d ila as su (c Ex M No asa C sa rV Je s o A a a C m o d S L d no co .C or ni r A asa io o .S m e a n d L O C M to ia rA S. sa An en do La a v a C to a on as as rS (c C C a o L n ita ar m Sa O 88 5454 9090 Distribuição de Vagas e Lotação nas Unidades Gráfico 5: Distribuição de Vagas e Lotação nas Unidades Lotação Vagas 3.1.2. Os Modelos de Atendimento Além da diferenciação efetuada pelo modo de arrecadação de recursos e vinculação com a Prefeitura de Porto Alegre – o que estamos chamando de “tipo” de instituição -- é possível visualizar ainda outra diferenciação entre as unidades para o abrigamento de crianças e adolescentes segundo o “modelo” das estruturas: separamos estes em “abrigo”, os “abrigos para portadores de necessidades especiais” e “casas-lar”. Essa denominação que estamos utilizando é proveniente do uso cotidiano dessas categorias e do estudo das regularidades estruturais dos equipamentos assim denominados. Ao classificarmos em “modelos” distintos, visamos simplificar a diversidade das estruturas existentes, no intuito de ressaltar algumas características comuns a alguns equipamentos de abrigamento. Destaca-se que essa diferenciação tem por função facilitar a análise das estruturas em questão e não ser um princípio valorativo em termos de melhor ou pior qualidade no atendimento ou estratégia de abrigamento. Assim, o modelo dos “abrigos” pode ser definido como sendo pertinente àquelas estruturas com lotação maior do que 15 adolescentes, trabalha com funcionários chamados de “educadores”/”monitores” e possui uma equipe técnica especializada no atendimento de crianças e adolescentes. Os “abrigos para portadores de necessidades especiais” têm muita proximidade com as características do modelo anterior, tendo acrescido uma diferenciação fundamental com relação ao tipo de usuários atendidos, portadores de deficiências físicas ou mentais que requerem uma infra-estrutura de atendimento com muita proximidade ao modelo hospitalar de internamento, no âmbito das estruturas físicas (camas especiais, banheiro, etc) e nos recursos humanos (fisioterapeutas, médicos, etc). O modelo das “casas-lar”, por sua vez, define-se pela utilização de um menor número de trabalhadores e do público atendido, sendo abarcado por aquelas unidades com até 15 crianças ou adolescentes e com os chamados “pais e mães sociais”. Há também unidades que, embora trabalhem com um modelo de funcionários identificados com um papel de educadores e não “pais ou mães sociais”, têm um investimento na associação do seu espaço como uma unidade familiar, como por exemplo, o Abrigo Vó Maria, que tem em seu nome a evocação de laços de parentesco. A Casa Amarela da Figueira também associa sua pedagogia a criação de um ambiente familiar de acolhimento e proteção. A noção de “família” parece ser um princípio de organização social da estrutura desses abrigos. Temos a seguinte distribuição das unidades segundo o modelo de atendimento, exposta no gráfico 6 e 7: Gráfico 6: Número de unidades, segundo os modelos de atendimento e tipo de instituição: Número de Unidades, Segundo os Modelos de Atendimento e Tipo de Instituição 7 6 6 6 5 4 3 4 3 ABRIGO 3 2 2 ABRIGO PNE'S CASA LAR 1 0 MUNICIPAL CONVENIADO NÃO CONVENIADO Tipo de Equipamento Gráfico 7: Total de Unidades por Modelos de Atendimento Total de Unidades, por Modelo de Atendimento 38% 45% ABRIGO ABRIGO PNE'S CASA LAR 17% 35 O que vemos é que os equipamentos municipais apresentam-se todos como “abrigos”, enquanto há um equilíbrio entre modelos de “casas-lar” e “abrigos” nas unidades da rede conveniada. As unidades não conveniadas são as responsáveis pelo atendimento dos “abrigos para portadores de necessidades especiais”, também apresentando um equilíbrio relativo entre os modelos dos “abrigos” e os das “casas-lar”. No geral, há também um relativo equilíbrio entre o modelo de “abrigos” e o modelo das “casas-lar”, se considerarmos separadamente os “abrigos para portadores de necessidades especiais”. Quando colocamos, porém, tais estruturas inseridas no modelo do “abrigo”, evidencia-se uma maior presença de um modelo de atendimento do tipo “abrigo”, pois aí temos a percentagem de 62% das unidades em Porto Alegre sendo classificadas no modelo de “abrigo”. Entre as próprias unidades de “abrigo”, classificamos os abrigos em estruturas de “pequeno porte” (de 15 a 25 crianças e/ou adolescentes), “médio porte” (de 26 a 35 crianças) e “grande porte” (mais de 36 crianças). Segundo as informações colhidas pela pesquisa, a maior parte dos “abrigos” é composta por unidades de “grande porte”, isto é, estruturas destinadas para o acolhimento de mais de 35 crianças. Nota-se que estamos considerando aqui as vagas oferecidas pelas Unidades e não a sua lotação. Gráfico 8: Distribuição das Unidades de “Abrigo” pelo Porte Distribuição das Unidades de "Abrigo" pelo Porte 29% 7% grande porte (mais de 35 crianças e/ou adolescentes) 64% médio porte (de 26 a 35 crianças e/ou adolescentes pequeno porte (de 15 a 25 crianças e/ou adolescentes) 36 Destacamos que todos as unidades da rede própria são de grande porte, assim como todos os “abrigos para PNE’s”. O gráfico abaixo assinala o porte das unidades de acordo com o “tipo de instituição”, mostrando ainda que as unidades da “rede não conveniada”, à exceção dos 4 “abrigos para PNE’s”, os quais são todos de grande porte, são de pequeno porte. Gráfico 9: Porte dos Abrigos por Tipo de Instituição Porte dos abrigos por Tipo de Instituição 4 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 3 Rede Própria 2 2 2 1 Rede Conveniada Rede Não Conveniada 0,5 0 grande porte (mais médio porte (de 26 pequeno porte (de de 35 crianças e/ou a 35 crianças e/ou 15 a 25 crianças adolescentes) adolescentes e/ou adolescentes) Assim como a maior parte dos equipamentos para o abrigamento das crianças e adolescentes é realizado através do modelo de atendimento do “abrigo”, a maior parte das crianças e adolescentes abrigadas está nos equipamentos classificados como “abrigos”, sendo apenas uma pequena parte abrigada nas chamadas “casas lar”. Enquanto temos 358 crianças e adolescentes em “abrigos”, temos 80 em “abrigos para portadores de necessidades especiais” e 76 crianças e adolescentes em “es”. Juntando-se o atendimento dos “abrigos” (69%) com o dos “abrigos para PNE’s” (16%), temos a elevada taxa de 85% das crianças e adolescentes em “abrigos”. Vejamos o gráfico abaixo, com a visualização dos dados: 37 Gráfico 10: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Modelo de Atendimento Distribuição das Crianças e Adolescentes por Modelo de Atendimento 15% 16% Abrigos Abrigos para PNE's Casas Lares 69% 3.2. A Diversidade dos Modelos: da Casa Lar ao Abrigo Salientamos, no item anterior, que um princípio organizacional do modelo das “es”, que o diferencia do que estamos chamando de “abrigo”, é o investimento em um tipo de atendimento com semelhanças ao que a criança e adolescente teria em uma “família”. O desejo de seus proponentes é de se evitar práticas de institucionalização que privilegiem um número grande de crianças em um mesmo local, não atendendo aos princípios da individualização do atendimento. As “casas-lar” seriam inspiradas no modelo familiar, trabalhando com poucos funcionários (em geral, incluindo um cuidador chamado “mãe” e, eventualmente “pai”, “sociais”) e um número de crianças e adolescentes também reduzido. Ao contrário do que a maioria das pessoas pode pensar, embora as casas-lar implantadas atualmente sejam mais jovens do que os próprios “abrigos” pesquisados, como vemos no gráfico abaixo, a prática de acolhimento familiar, nas suas diversas modalidades terminológicas, existe oficial e extra-oficialmente no 38 Brasil há muito tempo, assim como em diversos lugares do mundo (Uriarte, 2005; Fonseca, 1995 e 2004)11. Gráfico 11: Data da Fundação das Unidades, por Modelo de Atendimento Data da Fundação da Unidade, por Modelo de Atendimento 4 4 3 2 0 an os an qu e 14 m ai s e 12 en tre 1 0 os 0 16 an os an 10 e 8 en tre 0 1 casa lar abrigo ppds 20 0 10 8 e 6 1 os 0 an o s an o 6 en tre 4 en tre 0 11 e 0 e 4 e 2 1 s 00 an o an o 2 e en tre 1 en tre 1 s 00 2 en tre 1 s 4,5 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 Em Porto Alegre, há evidências que o acolhimento familiar, enquanto uma prática de colocação de crianças intermediada pelo Estado, já existia desde 1946, iniciada pelo Serviço Social de Menores (SESME)12. Nas “casas-lar” aqui investigadas, temos o Abrigo Vó Maria com mais de 20 anos de existência, que evidencia em sua trajetória alguns dos princípios característicos desse modelo de atendimento, como uma aproximação da comunidade, o número reduzido de funcionários e de crianças e adolescentes e, sobretudo, uma tentativa de construir o abrigamento à semelhança de uma vivência do tipo familiar. Essa unidade foi Atualmente, as foster families são responsáveis por 75% dos casos de colocação de crianças nos Estados Unidos (Fonseca, 2004). 12 O estudo de Uriarte (2005) aponta que, no âmbito do estado do Rio Grande do Sul, o programa dos “lares substitutos” representa um dos poucos antecedentes do sistema de acolhimento implementado no Brasil antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), promulgado em 1990. Em geral, tratava-se de grupos de irmãos ou crianças com possibilidades remotas de adoção. Mas, como Uriarte (2005) destaca, a partir do ECA tal programa caiu no esquecimento, paradoxalmente sendo na mesma época divulgados novos programas, como por exemplo, o das “casas lares” investigadas nessa pesquisa. 11 39 fundada anteriormente às demais “casas-lar” investigadas. Assim como atualmente, a forma de “abrigar” crianças e adolescentes no “Abrigo Vó Maria” – o que estamos chamando de “modelo” das casas-lar” - sempre coexistiu com o que chamamos de modelo dos “abrigos”, tendo cada modelo especificidades e dilemas próprios. 3.2.1. Um Novo Tipo de Família Embora tenhamos classificado determinadas unidades como “casas-lar” e outras como “abrigos”, existem diferenças importantes mesmo dentro dessas grandes subdivisões. A associação entre o local de moradia dos funcionários e o das crianças e adolescentes, por exemplo, marca uma diferenciação entre as unidades classificadas como “casas-lar”. Ao mesmo tempo em que nós temos unidades cujos “pais sociais” habitam a mesma casa que as crianças e adolescentes pesquisados, nós temos também “casas-lar” em que isso não acontece (padrão que as aproxima aos “abrigos residenciais”), como por exemplo, na Casa Amarela da Figueira e na Casa de Nazaré. O habitar na mesma casa, com seus próprios filhos e os filhos de outras pessoas é um trabalho que se reveste de tensões particulares, principalmente concentradas na necessidade e dever de “fazer família”, isto é, construir uma unidade de pertencimento e proteção. Em muitas visitas nas “casaslar” em que existe e coabitação entre crianças e adolescentes e os funcionários/”mães e pais sociais”, constata-se a complexidade desse próprio processo de “criar” uma família. Mas as soluções são criativas e baseadas, mais do que tudo, na convivência entre as pessoas envolvidas, na prática do dia a dia das descobertas progressivas do convívio entre “mães e pais sociais” e crianças e adolescentes. Os “pais sociais” da casa lar da igreja evangélica Ação Social da Fé, localizada na Vila Elizabeth e responsáveis por 8 crianças, explicitaram muito bem esse processo de construir uma família. Salientaram que conheceram o projeto das 40 casas-lar através da igreja evangélica, onde o marido trabalha como motorista. À primeira vista, a “mãe social” considerou impensável acolher crianças no seio de sua própria família, mas motivada pelo desejo do marido e pelas suas inspirações religiosas, resolveu aceitar o desafio, tendo que convencer em seguida os seus dois filhos. Quando finalmente a família integrou o projeto, houve um período de 2 meses de extrema dificuldades no tratamento das crianças e adolescentes, ao que sucedeu uma fase de descobertas do jeito de cada um, das suas trajetórias e necessidades. Aos poucos, a “ficção” da família foi sendo construída. Utilizamos a palavra “ficção” para salientar o sentido de “algo construído”: uma construção de afetos, obrigações e deveres e, sobretudo, pertencimentos. A “mãe social”, na visita da pesquisa, falou com um certo orgulho de como foram feitas reuniões entre as crianças, para decidir se eles iriam ou não chamar os “pais sociais” de “pai” e “mãe”: “A gente ouvia eles combinando, discutindo se iriam nos chamar de pai e mãe, quem ia chamar primeiro, quem ia chamar depois... Os pequenos começaram a chamar a gente de pai e mãe primeiro... Até hoje os grandes não chamam sempre... chamam de vez em quando, sem querer, e aí os outros caem em cima: haaa, chamou de mãe...viu, está chamando de mãe!!!” (mãe social da Casa Lar ASF, Vila Elizabeth). Para essa “mãe social”, a criação de um laço mais permanente entre eles e as crianças é o principal objetivo das casas-lar: “Casa lar existe para isso. O Abrigo é coletivo, tem muita mudança de profissionais, as crianças não criam laços. Aqui a gente trabalha para que eles tenham um vínculo conosco”. A principal preocupação dos “pais sociais” – o marido não é funcionário, mas aparece incluído também nessa tarefa do abrigamento - é, no entanto, quando as crianças e adolescentes fizeram 18 anos. Para o casal, a própria situação da casa lar é “complexa”, pois ao mesmo tempo em que eles realizam todo um esforço para fazer as crianças se sentirem filhos, têm que constantemente recordar-se de que há limites legais para isso, os quais fazem parte do programa em que estão inseridos. 41 Foi dramático, por exemplo, a adoção de uma das crianças, um menino de 5 anos que era muito ligado à família. Tanto a criança, quanto os “pais sociais” sofreram muito com o fato, embora atualmente saibam que a criança está muito bem adaptada aos seus pais adotivos e eles também já compreenderam a necessidade do acontecimento. Na outra casa lar da Ação Social da Fé, localizada no Parque dos Maias, a “mãe social” também revelou, na entrevista, a situação complexa de criar laços com as crianças e adolescentes e, ao mesmo tempo, esses laços serem limitados pela inserção no programa. Na época da pesquisa, a casa lar vivia uma situação delicada, pois estava com 9 crianças, uma além do limite de vagas, portanto, precisando ter que transferir uma criança abrigada. Todos, na família, estavam sentidos com o fato de terem que se desvincular de uma criança cujos laços diários se fortaleciam continuamente. Essa situação, conjugada com as declarações dos “pais sociais” da Ação Social da Fé, na Vila Elizabeth, nos faz sugerir que a constante tensão entre um “pertencer” afetivo e a condição formal como “pais sociais” marca a experiência das “casas-lar” estabelecidas nesses moldes de coabitação. 3.2.2. Integração Comunitária e Religiosa Outro dado importante é que, no universo pesquisado, as casas-lar em que os “pais sociais” coabitam com as crianças e adolescentes abrigadas estão localizadas na periferia das cidades, geralmente em bairros de classe popular, como a Vila Elizabeth, o Parque dos Maias, etc. É também nessas casas-lar que vemos uma maior proximidade de classe social entre as crianças e adolescentes abrigados e os seus cuidadores, isto é, os “pais sociais” (isso, por si só, já marca um certo distanciamento em relação a um modelo mais institucional, em que os técnicos, na maior parte das vezes, provêm de segmentos de classe diversos daqueles das crianças e adolescentes). É comum que a casa lar esteja colocada num 42 bairro onde se encontra uma rede familiar de relações da “mãe social”, possibilitando um partilhamento do trabalho educativo com outros membros da família, como as irmãs da “mãe social”, os seus pais, etc. Na casa lar da Ação Social da Fé do Parque dos Maias, por exemplo, algumas crianças e adolescentes vão passar o fim de semana na casa da filha da “mãe social”, que antes de casar morava na casa lar também. Há, portanto, um fortalecimento dos vínculos com a comunidade e a possibilidade de criar outros laços sociais que façam que, no momento do desligamento do programa, os vínculos entre crianças e as famílias acolhedoras e suas redes de relações permaneçam. É também no modelo das “casas-lar” que está mais fortemente marcada uma assumida orientação religiosa, seja na doutrina ou vinculação institucional. Das 9 unidades, 7 têm algum tipo de orientação religiosa, como vemos nos gráficos abaixo: Gráfico 12: Orientação Religiosa, Segundo o Modelo de Atendimento Orientação Religosa, Segundo Modelo de Atendimento 7 7 6 5 5 5 4 3 2 3 2 1 1 0 casa lar abrigo Com orientação religiosa Sem orientação religiosa oficial abrigo para PNE's 43 Gráfico 13: Tipo de Orientação Religiosa, Segundo o Modelo de Atendimento Tipo de Orientação Religiosa Segundo Modelo de Atendimento 6 5 4 3 2 1 0 5 3 2 1 3 1 2 2 2 evangélica 1 casa lar Católica 1 0 0 abrigo 0 0 abrigo para PNE's espírita adventista nenhuma Gráfico 14: Número de Unidades por Tipo de Vinculação Religiosa Número de Unidades por Tipo de Vinculação Religiosa adventista 1 espírita 4 evangélica 4 Católica 4 Nenhuma 10 0 2 4 6 8 10 12 Como vimos acima, o tipo de orientação religiosa varia, havendo um equilíbrio, se considerarmos o total de unidades, entre a religião espírita, evangélica e católica. Lembramos, no entanto, que o gráfico foi construído a partir da autoclassificação das próprias unidades. Deve-se levar em conta que as respostas explícitas dos administradores das unidades podem ser motivadas por critérios formais, por exemplo, do estatuto jurídico das unidades. A visita aos “abrigos para PNE’s”, no entanto, faz acreditar fortemente na vinculação católica 44 ao menos em duas unidades, a Casa do Menino Jesus de Praga e a Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia, onde imagens de santos católicos, orações e, no caso do primeiro abrigo, até uma pequena capela fazem parte do ambiente. Isso ocorreu em outros casos, onde a unidade afirmou não ter vinculação religiosa, mas o espaço se constituía muito fortemente por uma vinculação religiosa. Seria o caso, por exemplo, do Lar de São José, que inicialmente era até gerenciado pela Igreja Católica, mas que agora juridicamente não é uma instituição católica e, por isso, não se identificou como tendo uma orientação religiosa. O fato de ter ou não ter uma vinculação religiosa é relevante porque fornece uma fonte de pertencimento e de relações sociais importantes no abrigamento das crianças e adolescentes. No caso específico das casas-lar, constitui-se em uma rede de educação compartilhada, na qual as crianças e adolescentes são inseridas. Além disso, as redes religiosas, quando existem, fornecem doações diversas importantes, como veremos, para a gestão das “casas”. Até o ano passado, por exemplo, a Casa de Nazaré, que abriga exclusivamente meninas e localiza-se na zona sul de Porto Alegre, atendia todas as meninas por meio das freiras postulantes. Modificando suas estruturas, a unidade está passando por um processo de profissionalização de seus quadros de recursos humanos, com a contratação de uma assistente social e uma psicóloga. Talvez o exemplo da Casa de Nazaré seja expressivo do que podemos sugerir como sendo uma tendência de profissionalização das unidades de inspiração religiosa após a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, com a condenação dos paradigmas assistencialistas no campo da infância e da juventude. Num contexto em que se valorizam os discursos sobre os “direitos”, em detrimento de um discurso da “assistência social”, tais unidades passam a investir em táticas e estratégias de adequação de suas estruturas. O abrigo para PNE’s Casa do Menino Jesus de Praga é outro exemplo significativo do que estamos assinalando. Tendo uma trajetória longa de existência plenamente vinculada à igreja católica, atualmente a unidade investe na produção de indicadores de desempenho no atendimento das crianças e adolescentes lá 45 abrigados. Outro abrigo para PNE’s, a Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia, também vem incrementando seus quadros com técnicos do atendimento, o que é motivo de orgulho e satisfação para a sua diretora e seus funcionários. 3.2.3. Vinculação Familiar Se algumas unidades do modelo de “abrigo”, com uma trajetória de inspiração religiosa, parecem estar justamente avançando num processo de profissionalização de seus quadros de recursos humanos, por outro lado temos uma proliferação do modelo das “casas-lar”, as quais não trabalham com a idéia de uma especialização funcional, mas, ao contrário, com a valorização da família enquanto forma de organização da estrutura do abrigamento. Ao invés da gestão de uma “instituição/abrigo”, investe-se na criação de uma “casa”. A denominação de “casa” não é em vão: há uma estrutura física nas casas-lar que permite a semelhança de uma casa qualquer – cozinha, quartos, salas, jardim, etc – o que é fundamental em termos de construção da “ficção família”. Nas casas-lar, as crianças e adolescentes têm quartos que, em geral, possuem três a quatro camas, possuem seus armários e objetos pessoais; ajudam nas tarefas domésticas, comem junto com seus “pais sociais” nas cozinhas (e não em refeitórios), etc. A “mãe social” gerencia a casa, ajudada por uma funcionária que é auxiliar de serviços gerais. Como já dissemos antes, apesar da “mãe” ser a única pessoa da família que recebe um salário para o trabalho, nas casas-lar visitadas o marido e os filhos biológicos acabam se inserindo no projeto integralmente. Embora a referência do modelo seja explicitamente a família nuclear moderna - na sua idealização dos laços afetivos entre mãe, pai e filhos -, na prática as “casas-lar” funcionam através do acionamento de redes de ajuda mútua, seja das famílias extensas (tias, avós, etc) dos “pais sociais”, seja propriamente através da vinculação religiosa. No entanto, como veremos adiante, é nessas casas-lar onde há a coabitação entre “pais sociais” e crianças e adolescentes abrigados que há 46 menor vinculação das crianças e adolescentes com suas famílias de origem. Ao que parece, da forma como o sistema de abrigamento está estruturado, as crianças encaminhadas para um modelo de abrigamento que enfatiza a família enquanto forma de organização do atendimento são aquelas onde há uma ruptura em seus laços familiares de origem. Desta forma, embora haja um ganho importante no sentido de diminuir a estigmatização do processo de abrigamento – na medida em que as crianças e adolescentes têm um endereço particular e não o endereço do “abrigo tal”, assim como ficam mais próximas, em termos de classe social, de seus cuidadores e num ambiente com menos crianças e adolescentes, o que facilita a sua individualização – torna-se relevante discutir modos de inserção na família de origem no partilhamento das responsabilidades educativas. Essa discussão poderá, inclusive, iluminar os debates e o possível encontro das soluções acerca do maior problema enfrentado pelas “mães sociais”: o quê fazer com as crianças e adolescentes abrigados, após o desligamento do programa? Apesar de algumas unidades não terem as suas estruturas voltadas para uma organização à semelhança do modelo familiar e funcionarem com um maior número de crianças e adolescentes e funcionários – estruturas que estamos chamando de “abrigos” – é possível que as próprias unidades estabeleçam formas de pertencimento e inserção social que podem funcionar no sentido de provocar uma continuidade dos laços entre as crianças e adolescentes atendidos e as instituições. Isto é, privilegiem aquilo que Fonseca (2005) denominou de “modelos de continuidade”. Nesse caso, a colocação em uma instituição para o abrigamento de crianças e adolescentes não implica, necessariamente, ruptura de vínculos com suas famílias de origem. Por outro lado, há unidades que planejam a manutenção de vínculos com as crianças e adolescentes, mesmo após o desligamento formal destes abrigos. É o caso do Abrigo Lar de São José, por exemplo, que têm funcionárias trabalhando na própria unidade e que foram ex-gestantes do abrigo. A unidade possui diversos serviços na mesma estrutura organizacional, como creche, SASE, lavanderia, padaria e brechó, o que abre um leque de possibilidades 47 para manutenção de vínculos com pessoas desligadas. Trata-se de um outro “modelo” de organização que, no entanto, também pode ser eficiente para os fins desejados. 3.2.4. “Abrigo” e “Casa Lar”: Modelos de “Transição” O Abrigo Lar de São José, que recebe adolescentes maiores de 12 anos, pode ser classificado como um “abrigo de pequeno porte”, pois contava, no momento da pesquisa, com menos de 20 crianças e adolescentes abrigados. Diferente das casaslar, a unidade é visivelmente uma “instituição” e não uma “casa”. Fica localizado no bairro Santana, bairro de classe média em Porto Alegre, e conta com um grande terreno onde são aglomerados três diferentes prédios retangulares. O abrigo possui uma assistente social e uma freira católica responsável pelo abrigo, sendo atendido por 4 educadores, que se revezam um para cada turno de 12 horas. As refeições são feitas na cozinha do abrigo, sendo trazidas do refeitório do Lar de São José (que trabalha para todos os demais serviços presentes na estrutura do equipamento, como o SASE, a creche, etc) para o local. À noite, as adolescentes fazem as suas próprias refeições, revezando-se no serviço doméstico. Nos quartos, habitam cerca de 4 ou 5 adolescentes em beliches, sendo as paredes cheias de quadros e objetos pessoais dos seus habitantes. Cada adolescente tem suas próprias roupas e pertences. Essa unidade, mesmo trabalhando com um modelo de “abrigo”, garante uma individualização no atendimento, funcionando também aos modelos de uma “casa” em que todos que coabitam têm funções e espaços particulares de existência. A tentativa de criar “casas-lar” dentro de estruturas de “abrigos”, para tentar garantir essa individualização no atendimento está sendo implementada por algumas unidades. As Aldeias SOS, por exemplo, mantêm uma estrutura que contém diversas casas-lar dentro do espaço da instituição. Em cada casa, vive um número reduzido de crianças e adolescentes, de ambos os sexos. Ao mesmo tempo 48 em que temos algumas semelhanças com o modelo das “casas-lar” -- além de um pequeno número de funcionários em comum, a convivência de um pequeno número de crianças e adolescentes em cada casa sob a supervisão de uma “mãe social” que, com a exceção de um dia de folga por semana, mora no local --, há uma diferenciação importante: trata-se de um complexo arquitetural que destoa da vizinhança. Nesse aspecto, as Aldeias SOS, de certa forma, trazem o peso de terem sido os pioneiros na experiência no Brasil. Quando esse complexo de casas foi construído, o mero fato de desmembrar a instituição em pequenas unidades era revolucionário. Hoje, mesmo trabalhando com pequenas casas-lar para atender as suas 90 crianças, mantém um cercamento de seu espaço, dando a impressão de uma “aldeia” à parte. A estrutura do Abrigo João Paulo II enfrenta situação semelhante. Assim como as Aldeias SOS, essa unidade vem passando por um processo de modificação nas suas estruturas para se adequar às recomendações do ECA. Contando com três espaços institucionais distintos – um sítio em Viamão, uma casa lar na Agronomia e uma república para adolescentes de 18 a 21 anos – a unidade está se esforçando para inovar na sua forma de atendimento. Em Viamão, o Abrigo João Paulo II está instalado em um grande sítio de difícil acesso de ônibus, contando com três casaslar e também uma sede com crianças e adolescentes. Nas casas-lar, permanece a distinção por sexo, o que marca uma diferenciação fundamental, pois no ideário da aproximação com o modelo familiar trabalha-se com a mistura de sexo, idade, etc. Cada casa lar possui dois quartos grandes, com beliches e um guarda roupas do lado de cada cama. Os guarda-roupas têm os nomes dos seus donos escritos em cartazes de papel com diferentes formas: corações, flores, etc, marcando uma individualização dos espaços. Há ainda uma sala com dois sofás e uma televisão, além de uma cozinha, uma sala para o monitor e uma dispensa, que ficam permanentemente chaveados. Os funcionários não moram no local; os monitores trabalham em turnos de 12 horas. As crianças almoçam no refeitório e a noite jantam em cada casa, mas a comida também vem do refeitório – o que mantém 49 uma vinculação grande com o modelo tradicional do abrigamento. A presença do refeitório, a fila para comer e o não preparo da comida nas próprias casas-lar são pequenos detalhes que denotam que, no caso do Abrigo João Paulo II, o aproximam de um modelo de abrigamento em que a ênfase é numa “instituição” e não em uma “casa” – mesmo a instituição sendo sub-dividida em unidades menores. 3.2.5. Abrigos da Rede Própria Quando ouvimos falar em “instituição” ou mesmo em “abrigos”, geralmente relacionamos estas palavras a um conjunto de imagens: instituições “totais” que funcionam em prédios com estrutura prisional, onde os internos ficam completamente separados de qualquer possibilidade de convivência comunitária e sob o controle de um regime disciplinar bastante rigoroso. Esse estereótipo foi construído a partir da generalização de casos históricos específicos, como os antigos internatos públicos eleitos como representativos de um conjunto de unidades de atendimento classificadas como “abrigos”. Com a promulgação do ECA, no entanto, essas instituições tornaram-se cada vez mais raras. O processo de reordenamento das unidades de atendimento à criança e ao adolescente em situação de risco gerou uma maior diversificação das instituições que compõem a rede de atendimento. Como vimos nos casos anteriores, é possível particularizar-se o atendimento nos “abrigos”, assim como proporcionar vinculações comunitárias mesmo com o modelo dos “abrigos”. Determinados elementos estruturais facilitam essa atividade, como grupos menores de convivência, uma divisão flexível de espaços internos, etc. Por outro lado, espaços segregados trabalham com hierarquizações e impessoalidade. Nesse sentido, um espaço claramente institucional pode ser percebido nas unidades da rede própria da FASC. Os prédios são cercados, há vigilância nas entradas dos prédios, que ficam rotineiramente trancados até com correntes e cadeados e, em certos casos, até 50 mesmo as portas de entrada dos funcionários e das crianças e adolescentes são separadas. Na Casa de Acolhimento, por exemplo, há três casas – na verdade, alas do prédio com entrada para o pátio - dentro da mesma estrutura do abrigo, com moradores separados por sexo e idade. No entanto, todas as atividades são coletivas: o almoço é trazido da cozinha central num carrinho que passa pelo corredor em frente a cada casa, onde as crianças e adolescentes esperam a sua vez em pé, ao redor do carrinho, para receber seu prato de comida. Não há armários em cada quarto para a disposição das roupas de cada criança; a individualização dos pertences se faz – por iniciativa dos educadores – através da posse de uma pequena caixa de papelão onde se colocam as poucas roupas de cada um e objetos pessoais. Tais caixas ficam localizadas numa dispensa, onde há também um monte de roupas de uso coletivo, que ficam à disposição de cada criança e adolescente, para sua livre escolha. As toalhas e lençóis – quando existentes - também são de uso coletivo. Isso contrasta até mesmo com outros abrigos de grande porte, como a Casa do Menino Jesus de Praga, abrigo para portadores de deficiências neurológicas graves. Na Casa do Menino Jesus de Praga todos os abrigados têm suas roupas individualizadas. Armários são colocados na lavanderia para organizar a roupa, em espaços definidos com o nome de cada uma das pessoas abrigadas, particularizando-as. No Abrigo Municipal Ingá Brita (AMIB), embora haja 3 casas-lar dentro do espaço da unidade, as referências do atendimento são ainda espaços coletivos, como o refeitório, por exemplo. Nesse local, assim como nos demais recursos da rede própria, ouvimos uma série de frustrações dos próprios funcionários quanto aos recursos existentes e à organização das unidades. Uma das questões que foi muito presente, tanto no AMIB, quanto na Casa de Acolhimento, foi o próprio “perfil” estigmatizado das crianças e adolescentes lá atendidos, tidos como “o resto do resto”. A referência comum é o atendimento aos jovens com uso de drogas, com sérios problemas familiares e evasões constantes dos abrigos. Conjugado a isso, há 51 uma referência à necessidade de atender todas as solicitações de abrigamento do Juizado da Infância e da Juventude e dos Conselheiros Tutelares, sem a possibilidade de negar o abrigamento, mesmo com as vagas já preenchidas. Como disse um funcionário do Abrigo Municipal Ingá Brita: “Os conselheiros ficam empurrando para dentro mais e mais guris. O que você vai fazer com um guri que chega no abrigo com 17 anos, ele sabe que daqui a pouco vai embora? (...) Todos já têm passado de pequenos furtos, utilização de drogas Aí você tem um trabalho de tempo com um grupo, entra um ou dois e estraga tudo, é uma laranja que entra e apodrece o resto” (funcionário do AMIB). Efetivamente, as unidades da rede própria são as que padecem de maior superlotação e, como veremos, têm a maior presença de usuários de substâncias psicoativas, com crianças e adolescentes mais velhos, maior número de meninos, maior presença de negros e pardos denotando grau de pobreza e pessoas ainda com vinculações familiares, o que complexifica o atendimento. Certamente, do modo como está estruturado o sistema de distribuição das crianças e adolescentes nas unidades de Porto Alegre, é tal “perfil” que acaba sendo atendido por essas unidades, onde se dá uma maior ênfase num modelo institucional. Como disse a funcionária da Casa de Acolhimento, as casas-lar têm um “perfil mais light” e que dificulta o ingresso de certas crianças e adolescentes; estes devem poder suportar uma rotina e supervisão da família onde, na maior parte dos casos, há uma vinculação religiosa. Ao que parece, o desafio é pensar a heterogeneidade dos espaços e das crianças atendidas, flexibilizando as opções. Se o modelo das casas-lar traz uma série de benefícios para determinadas crianças, também é necessário refletir sobre outras possibilidades de abrigamento, para pessoas com passagens temporárias pelo abrigo, com vinculação simultânea a múltiplos espaços, como os abrigos, a situação de rua, a casa de parentes e amigos, etc. O avanço das discussões deve ser no sentido de ampliar as opções existentes, experimentando e aproveitando 52 soluções anteriores já discutidas e implementadas. Na experiência de pesquisa, certos detalhes mostraram fazer a diferença na prática do abrigamento: a individualização dos espaços, das roupas, dos pertences é fundamental; a vinculação comunitária é importante, pois fornece outras fontes de pertencimento; a flexibilização dos espaços internos, com a circulação de crianças e funcionários pela diversidade dos locais das unidades é também relevante. Esses são alguns elementos que devem ser discutidos à luz das experiências práticas do dia a dia, em diálogo com outras experiências em constante construção. 3.3. Recursos e o Espírito de Corpo 3.3.1. Os Variáveis Recursos Financeiros Os dados sobre o per capita das crianças e adolescentes nas unidades pesquisadas foram muito difíceis de ser coletados. Algumas unidades não nos forneceram tal informação devido ao fato de afirmarem jamais ter feito tal contabilidade. Outras, mantêm arrecadações conjuntas com verbas variadas, como por exemplo, o serviço do Serviço de Atendimento Sócio-Educativo (SASE). E as unidades da “rede própria” disseram não possuir tal informação, o que também salienta uma burocratização de papéis institucionais diversificada, se compararmos com as demais unidades, que podem gerenciar seus recursos com uma certa maior autonomia do que as unidades da FASC. Quando fomos coletar os dados com a gerência de tais unidades, na FASC, ainda assim foi dito ser impossível realizar tal cálculo facilmente, sendo-nos solicitado mais um ofício além dos já enviados à instituição, quando dos encontros com a diretoria para a concessão da permissão para a realização da pesquisa. Temporalmente, isso impossibilitou a coleta dos dados em tempo hábil para colocação no relatório, embora tenha informado sobre o próprio modo de estruturação dos recursos 53 administrativos nas unidades, sem autonomia para o seu controle e gerencialmente. No entanto, coletamos os dados informados pelas unidades, alguns sendo estimativas ou mesmo médias previstas de gastos – o que também se explica pelo fato de que as unidades “não conveniadas” têm verbas variadas, de acordo com as arrecadações das doações. No geral, um pouco mais de 50% das unidades trabalham com a renda de R$ 500 a R$ 1.500,00 por mês. A maior freqüência das faixas de per capita – 35% - localizou-se entre R$ 500,00 até R$ 1.000,00. Um pequeno percentual – 4% - trabalha com renda per capita maior que R$ 1.500,00. Esta unidade é um “abrigo para PNE’s”, o qual, assim como os demais desse modelo de atendimento, têm uma necessidade maior de atendimento especializado, o que acarreta maiores gastos com equipamentos ambulatoriais, móveis e serviços terapêuticos. Vejamos o gráfico da renda per capita das crianças nas unidades, referidos pelas unidades na pesquisa13: Gráfico 15: Renda Per Capita das Crianças e Adolescentes nas Unidades Renda per Capita das Unidades 22% 22% Até 500 por criança por mês 500 a 1.000 por criança por mês 1000 a 1.500 por criança por mês Mais de 1.500 35% Não Informado 4% 17% 13 Na pesquisa, solicitamos a informação sobre o valor de per capita dos meses do primeiro semestre de 2005. Coletamos esses dados e fizemos uma média para cada unidade, valor que estamos considerando nesse momento. 54 Como vimos anteriormente na parte referente ao “tipo de instituições”, a maior parte dos equipamentos recebe algum tipo de recurso financeiro municipal, sejam aquelas unidades vinculadas diretamente à FASC e popularmente chamadas das unidades da “rede própria”, que atendem 24,4% das crianças e adolescentes pesquisadas, sejam aquelas que trabalham no regime de convênio com a FASC, as quais recebem um valor per capita mensal para a gestão dos gastos com o atendimento de crianças e adolescentes e atendem 46,10% da população. Esse valor per capita é variável e não há uma igualdade no valor do repasse, sendo pertinente a análise das características da população atendida, em termos de sua idade, por exemplo. As unidades que não recebem nenhum repasse financeiro da FASC, as quais atendem 29,10% das crianças e adolescentes pesquisados, mantêm uma rede de doadores e instituições de financiamento que possibilitam a existência do abrigo. Como não conseguimos ter acesso aos recursos empreendidos pela FASC nas suas unidades, podemos apenas comparar os dados das unidades participantes da chamada “rede conveniada” com as unidades da “rede não conveniada”. O que percebemos é que não há significativas diferenças nesse aspecto, conforme gráfico abaixo: Gráfico 16: Renda Per Capita nas Unidades por Tipo de Instituição Renda Per Capita nas Unidades por Tipo de Instituição 6 5 5 4 3 2 3 3 3 2 2 2 2 1 1 Unidades Conveniadas Unidades Não Conveniadas Unidades Municipais 0 0 até 500 por criança por mês de 500 a 1.000 por criança por mês de 1000 a 1.500 por criança por mês mais de 1.500 Não Informado 55 Já se nos referirmos ao modelo de atendimento, fica evidenciado que, nas “casas-lar”, há uma menor renda per capita do que nos “abrigos”, o que se justifica pelo número de funcionários reduzido: no valor destinado às casas-lar, há o salário de uma “mãe social” e uma “auxiliar de serviços gerais”. Algumas casas-lar vinculadas à FASC recebem acompanhamento da FASC e sua equipe de técnicos, enquanto ainda temos alguns que têm uma assistente social que se reveza no atendimento de mais de uma casa lar. Vejamos o gráfico abaixo: Gráfico 17: Renda per Capita nas Unidades, por Modelo de Atendimento Renda per Capita nas Unidades, por Modelo de Atendimento 1 Não Informado 3 1 1 0 0 de 1000 a 1.500 por criança por mês abrigo para PNE's abrigo casa lar 2 2 0 0 até 500 por criança por mês 3 0 0 4 2 1 2 4 3 4 5 3.3.2. Doações e Integração Comunitária Como já afirmamos, assim como as unidades da “rede conveniada”, as unidades da “rede não conveniada” gerenciam administrativamente os equipamentos através do envio de projetos para instituições financiadoras, rifas, jantares, almoços e eventos beneficentes, produção de alimentos e o incentivo ao voluntariado. As unidades de “abrigo para PNE’s” ainda recebem um recurso do governo federal e, em alguns casos, também ficam com o benefício de prestação continuada das crianças ou adolescentes que podem contar com este 56 financiamento, para contribuir com sua permanência na unidade. Em geral, tanto as instituições conveniadas quanto as não conveniadas contam com um grupo de voluntários muito atuante, que acaba trazendo maiores benefícios em termos de doações e inserção do abrigo nas redes de relações pessoais dos voluntários e na comunidade onde o abrigo fica localizado. Mesmo para aquelas unidades que contam com recursos municipais, as unidades “conveniadas”, o próprio acesso a tais recursos se dá através das redes pessoais e comunitárias dos membros da unidade, uma vez que é preciso barganhar o recurso municipal no Orçamento Participativo14. O sucesso na arrecadação de recursos públicos, portanto, se dá através de alianças comunitárias eficientes, é a própria condição de acesso aos recursos públicos. Para tanto, o tempo de existência do abrigo é um fator importante, embora não causal. Mas é significativo que sejam os abrigos da rede não conveniada e os da rede conveniada que existam há mais tempo, mostrando a própria eficiência na manutenção das redes e no gerenciamento do abrigo, como vemos no gráfico abaixo. Gráfico 18: Data da Fundação das Unidades, por Tipo de Instituição Data da Fundação da Unidade, por Tipo de Instituição 5 4,5 4 rede própria 3,5 3 rede conveniada 2,5 2 rede não conveniada 1,5 1 0,5 0 entre 1 e 2 anos entre 4 e 6 anos entre 8 e 10 anos entre 14 e 16 anos não informado 14 Informação coletada através de entrevista com a funcionária responsável pela administração dos recursos conveniados na FASC. 57 Todos os “abrigos para PNE’s”, por exemplo, existem há mais de 20 anos, assim como um abrigo conveniado, o Lar de São José, que foi criado em 1953 pela vontade de uma senhora, com o intuito de atender jovens gestantes. A fundadora mobilizou suas redes de relações diversas – na Igreja católica, no Juizado de Menores, no curso de Serviço Social que freqüentava na PUCRS, na Santa Casa de Misericórdia, etc – para possibilitar a existência do serviço. Tendo uma vinculação religiosa católica forte desde o seu início, atualmente o Lar de São José vem sendo gerenciada por um grupo de senhoras, em conjunto com a igreja católica e tem sua renda pela mobilização de atividades e recursos diversos, como uma padaria, uma lavanderia, um berçário e organiza mensalmente um “brechó” para arrecadar dinheiro e contato com a comunidade. Salientamos como fundamental tais atividades porque são modos de firmar relacionamentos com a comunidade do bairro e com redes de relações sociais diversas. Quanto maiores e mais firmes as redes de relações das pessoas que estão envolvidas com as unidades de abrigamento, maiores sucesso de conseguirem acumular prestígio que é fundamental na busca de financiamentos. O exemplo da Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia também é significativo. A unidade foi criada em 1977 com o objetivo de atender crianças com lesões neurológicas graves. Conforme a diretora da instituição, a unidade nasceu da idéia de senhoras de "sociedade", que fundaram o abrigo através de doações da comunidade e de particulares. O terreno e a casa foram construídos por doações recebidas, que compõem grande parte da arrecadação da unidade. Atualmente, a unidade está com um projeto de ampliação de suas instalações, tendo recebido um recurso financeiro para isso do CMDCA, proveniente de um de seus editais de financiamento, ao que a unidade vem adicionando recursos de doações em dinheiro provenientes de firmas ou de particulares. Doações em artigos, tais como fraldas, sabonete e materiais de construção também são recebidos pela unidade. Recentemente, a diretora conseguiu uma parceria para a compra de gás, dividindo 58 o seu custo mensal entre três diferentes empresas. A casa também tem uma parceria com o Hospital Conceição para o transporte das crianças para o hospital. Todas as “conquistas” de doações, absolutamente fundamentais para a existência da unidade, são celebradas como “virtudes” e descritas como produtos de um empenho pessoal e com fortes elementos da noção de “sacrifício” por parte da diretora, por sua vez, fundamental para a continuidade das trocas, já que mantém o seu prestígio e status de legitimidade no abrigamento das crianças e adolescentes. A diretora assinala uma fórmula explicativa para a existência do abrigo: “sacrifício + sacrifício = o que existe”. Nesse caso, o “sacrifício”, enquanto sinal de uma entrega e luta por parte da diretora é um componente essencial na arrecadação de recursos, pois dá legitimidade ao serviço e constitui um sentido fundamental elaborado para o trabalho com as crianças e os adolescentes. No entanto, seria simplista pensar as relações de troca envolvidas nas doações como trocas mercantis, pois envolvem outros elementos, como gentilezas e prestígio, que fundamentam relações morais entre os agentes envolvidos nas relações sociais. A diretora da Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia, por exemplo, afirma com orgulho que recebe muitas doações quando um de seus colaboradores, um profissional ligado ao ramo da consultoria de recursos humanos, faz palestras e conta a história de vida da diretora da unidade, marcada tanto pela abnegação em prol das crianças e adolescentes atendidos na unidade, quanto por uma espécie de “conversão” pessoal que a diretora teve, ao iniciar o seu trabalho beneficente – nesse caso, sendo despida de vaidades exteriores e vestida com novos valores internos, passando a valorizar os valores espirituais, como afirmou. Uma circulação de prestígio e gentilezas perpassa as relações sociais entre a diretora da unidade e o consultor de recursos humanos, possibilitando a existência da própria unidade que, nesse caso, também expõe um outro elemento da lógica de estruturação de muitas unidades conveniadas e não conveniadas: a importância das relações do tipo pessoal, em que predominam os contatos face a face, pela troca de serviços e bens materiais e imateriais (gentilezas, prestígio, etc) 59 entre os diretores e agentes diversos ou mesmo entre a “unidade” como um corpo coeso que se torna uma referência de pertencimento dos funcionários, das crianças e da própria comunidade. Assim, fala-se em Casa Amarela, uma unidade “não conveniada” e dirigida para o abrigamento de adolescentes do sexo masculino, por exemplo, como uma estrutura de pertencimento que agrega todos os colaboradores, funcionários e adolescentes. Há um “espírito de corpo” que fundamenta tais pertencimentos, também promovido pelo fato de que é possível a escolha direta dos funcionários pelos diretores do abrigo, e uma divisão de tarefas entre os próprios funcionários em que as hierarquias existem, mas estão, de certa forma, subsumidas na idéia de que todos são “educadores”. Além disso, a própria estrutura física da unidade facilita uma menor hierarquização, pois a casa é plana, sem salas fechadas para os “técnicos” e para os “monitores”, sendo enfatizado o uso dos espaços comuns entre funcionários e entre funcionários e adolescentes. O fato de ter diretores que são, eles próprios, os fundadores da unidade – elemento que se repete em muitas unidades conveniadas e não conveniadas – também facilita o entrosamento funcional, o desenvolvimento de projetos a médio e longo prazo, o que já fica complexificado nas unidades da rede própria, por exemplo, onde troca de dirigentes se dá continuamente, colocando em risco o desenvolvimento dos projetos. A Casa Amarela, por outro lado, apesar de construir um “espírito de corpo” que perpassa funcionários, adolescentes e diretores, também é construída tendo como referência fundamental a vontade, a entrega, a luta ou, como a diretora nos expressou, o “correr atrás” de seus fundadores. A unidade não tem inspirações religiosas, presentes já citadas nas unidades Lar de São José e Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia, vinculações que são explícitas formalmente na sua vinculação institucional e doutrinária, ou informalmente em cartazes, rezas, narrativas religiosas e imagens presentes nas unidades. No entanto, a Casa Amarela também se aproxima das demais unidades descritas no sentido de que o 60 trabalho do “abrigamento” de crianças e adolescentes é constituído através de um engajamento moral e afetivo de seus fundadores – onde a noção de “sacrifício”, de “correr atrás”, “ter que se virar” - perpassa o entendimento do “abrigar”, dandolhe sentido e informando o seu exercício quase como um ato “sagrado”, na medida em que através de tais noções há uma singularização de cada criança e adolescente abrigado15. São essas noções que giram em torno da entrega pessoal, a qual implica amor e devoção, que fazem o “abrigar” crianças e adolescentes mais do que um “trabalho” no sentido de uma atividade racional de produção e, portanto, perpassadas por relações morais e afetivas entre funcionários e adolescentes e entre funcionários e diretores de abrigo com redes mais amplas de ajuda e beneficiamento. Destacamos que essas trocas to tipo pessoal são constitutivas do “abrigar” para as unidades não conveniadas e para as conveniadas, sendo muito evidentes nas unidades com uma longa existência. O Abrigo Vó Maria é outro exemplo importante. Fundado pela Vó Maria, que mesmo antes da abertura oficial do equipamento já “pegava crianças para criar”, conforme foi relatado pelo seu filho, foi resultado do empenho de sua fundadora no acolhimento de crianças do próprio bairro em que morava, as quais encontravam-se abandonadas ou “na rua”. Desde essa época, Vó Maria contou com doações de comida e roupas da vizinhança. Em 1982, conseguiu uma verba para a construção do atual local onde a unidade está estabelecida, proveniente da Sociedade Beneficente Teresópolis, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. O equipamento foi construído através de um mutirão em que participaram seus vizinhos e muitos membros da comunidade. Sendo uma figura central na comunidade onde vive, o seu filho, que também trabalha no equipamento, destaca que as pessoas são muito “agradecidas” por tudo aquilo que Vó Maria já fez pela comunidade. O “agradecimento” não é apenas moral, pois ao mesmo tempo em que Vó Maria recebe doações de pessoas da própria comunidade, ela também doa 15 Sobre isso, ver Wozniak (2001). 61 alimentos para seus vizinhos quando recebe alimentos perecíveis em grande quantidade. Durante o período de contato com a unidade, descobrimos que o Abrigo Vó Maria recentemente havia recebido uma doação de bananas da CEASA, com mais de quinze caixas da fruta madura. Como era impossível consumir tudo antes de estragar, a unidade ficou com cinco caixas e as outras dez caixas foram distribuídas para os vizinhos. Bananas, laranjas, maças, tomates, alface e outros legumes, quando são doados em grande quantidade, são distribuídos entre os vizinhos mais próximos, o que acaba criando fortes relações de reciprocidade e interdependência entre a unidade e a sua comunidade de origem. Essas relações de reciprocidade são reforçadas pelo fato de que muitas crianças da comunidade, hoje com mais de trinta anos, foram criadas por algum período pela Vó Maria, o que assinala com destaque a extensão das relações do tipo pessoalizado para o próprio funcionamento dessa unidade e o exercício de “abrigar”. 3.3.3. Os Recursos Humanos Com relação ao quadro de recursos humanos nos abrigos pesquisados, temos que as informações foram, na sua maior parte, recolhidas através de entrevista com funcionários administrativos especializados na questão, que responderam oralmente às informações solicitadas. Houve um alto índice de informações não respondidas pelas unidades nesse quesito, principalmente no que se refere ao grau de instrução dos funcionários e tempo de trabalho na unidade. Mas as informações levantadas apontam para o fato de que, entre funcionários existentes nas unidades, a maior parte é do sexo feminino, concentra-se nas unidades com o modelo de atendimento dos “abrigos”. A rede não conveniada tem, proporcionalmente, maior número de funcionários do sexo feminino, enquanto vemos que a maior concentração de trabalhadores do sexo masculino concentra-se nas unidades da rede própria. Vejamos os gráficos: 62 Gráfico 19: Percentagem de Recursos Humanos, por Sexo e Modelo de Atendimento Percentagem de Recursos Humanos por Sexo e Modelo de Atendimento 100% 80% 80% 85% 75% 60% FEMININO MASCULINO 40% 20% 25% 20% 15% 0% Casa Lar Abrigo Abrigo para PNE's Gráfico 20: Recursos Humanos, por Sexo e Tipo de Instituição Recursos Humanos, por Sexo e Tipo de Instituição Rede Não Conveniada 18% Rede Conveniada 19% 82% 29% Rede Própria 0% 20% MASCULINO FEMININO 81% 40% 71% 60% 80% 100% Quanto à idade dos trabalhadores, vemos que se concentra na faixa etária dos 40 aos 50 anos, seguida da faixa etária dos 30 aos 40 anos. Um alto percentual de trabalhadores têm até 5 anos de tempo de serviço nas unidades pesquisadas (46%), embora nesse quesito tenha havido um alto percentual de dados não informados. Da mesma forma, apesar de haver um alto índice de dados não informados, os dados existentes apontam para o fato de que os trabalhadores com 63 menor tempo de serviço são aqueles dos abrigos da rede própria. Vejamos os gráficos: Gráfico 21: Total de Funcionários, por Faixa de Idade Total de Funcionários, por Faixa de Idade 160 150 140 120 100 80 60 55 40 66 49 26 20 9 0 entre 18 e 30 anos entre 30 e 40 anos entre 40 e 50 entre 50 e mais de 60 não 60 anos anos informado Gráfico 22: Tempo de Trabalho nas Unidades Tempo de Trabalho nas Unidades 41% 46% 1% 5% entre 0 e 5 anos entre 5 e 10 anos entre 10 e 20 anos mais de 20 não informado 7% 64 Gráfico 23: Tempo de Trabalho nas Unidades, por Tipo de Instituição Tempo de Trabalho nas Unidades, por Tipo de Instituição 60% 54% 53% 50% até 5 anos 46% 44% 37% 40% entre 5 e 10 anos 33% 30% entre 10 e 20 anos 20% 7% 10% 0 1% 0 0% municipal 10% 5% mais de 20 anos 7% 2% 1% conveniado não informado não conveniado Gráfico 24: Idade dos Funcionários, por Modelo de Atendimento Idade dos Funcionários, por Modelo de Atendimento 60% 53% 50% 45% 30% 20% 10% entre 18 e 30 anos 37% 40% entre 30 e 40 anos entre 40 e 50 24% entre 50 e 60 anos 19% 19% 16% 16% 13% 11% 11% 7% 2% 5% 10% 2% mais de 60 anos não informado 9% 1% 0% Casa Lar Abrigo Abrigo para PNE's Embora a informação sobre a idade tenha sido altamente prejudicada pelo índice de dados não informados, podemos sugerir que, pelos dados presentes, as unidades da rede própria têm menos tempo de serviço nas unidades, em comparação com as unidades conveniadas e não conveniadas. Sugerimos, nos 65 próximos parágrafos, como isso influi também no sentimento de coletividade presente nas unidades. 3.3.4. A Particularização X Universalização do Atendimento, os Desafios da Rede Própria: a Segregação dos Espaços Como afirmamos anteriormente, as unidades da rede conveniada e não conveniada fazem-nos entender que a procura por doações, mobilização comunitária e as redes de relações pessoais para o provimento de recursos aos equipamentos de abrigamento de crianças e adolescentes não vêm simplesmente cobrir lacunas ou amenizar as dificuldades no gerenciamento de possíveis verbas arrecadadas nas instituições governamentais, mas são constitutivas da própria estruturação do serviço de abrigo para tais tipos de unidades, que incorporam os recursos estatais como um entre outros elementos nas suas redes de benefício e apoio. Um aspecto essencial de tais trocas de recursos, como já frisamos, é que não podem ser reduzidas a um significado puramente instrumental, mercantil, como se fosse possível descrevê-las conforme um simples cálculo de ganho de produtos, dinheiro, alimentação, etc. Tais trocas instituem obrigações morais, firmam relações sociais entre agentes diversos que envolvem a busca de prestígio e poder e a elaboração de significados sobre o próprio “abrigar” crianças e adolescentes que vão informar modos específicos de seu exercício. A pesquisa apontou que a atividade de “abrigar” crianças e adolescentes não se reduz às tarefas cotidianas de alimentação, estudo e moradia. Essa atividade também incorpora a mobilização de relações sociais para inserção da unidade em projetos comunitários e na agenda de doações de particulares ou órgãos financiadores, o que também conduz à necessidade de uma contínua construção da “criança e do adolescente” abrigado como uma “causa” moral de importância social e fornecedora de prestígio e status social para os doadores e colaboradores. 66 Tais unidades trabalham com noções de “abrigar” significativamente distantes do “abrigar” como um direito universal e mais próximas de uma noção do “abrigar” como uma entrega, dedicação e amor, as quais constroem a particularidade do trabalho como um “servir”. Tais concepções podem estar no centro do debate acerca do direito de aceitar ou não determinadas crianças e adolescentes nas unidades de abrigamento. Estando colocadas em uma estrutura que deve atender e distribuir crianças e adolescentes nas unidades com este fim em Porto Alegre, mas trabalhando com uma lógica perpassada por um entendimento dessa atividade como fundamentada em um “servir” pessoal e construído de forma particularizada nas suas lutas cotidianas por financiamento diversos – não apenas estatais – é particularmente complexo a negociação sobre o recebimento de crianças e adolescentes. Isso é ainda mais complexo nas unidades da “rede própria”, que trabalham com princípios ordenadores governamentais de universalização do acesso aos recursos, o que tende a conduzir à própria necessidade de universalização no atendimento das crianças e adolescentes e, portanto, uma maior dificuldade de negociar junto aos Conselheiros Tutelares e o Juizado da Infância e da Juventude o recebimento de crianças e adolescentes. Como já vimos, tais unidades – as da rede própria – são praticamente as únicas com aumento populacional frente ao número de vagas oferecido. Como veremos adiante, não apenas o número de vagas está extrapolado nas unidades da rede própria, mas há significativamente algumas características que compõem uma distribuição da colocação de crianças e adolescentes nos abrigos cujos dados apontam para uma maior presença de meninos, de cor negra ou parda, mais velhos e com medidas sócio-educativas nessas unidades, em comparação com as da rede conveniada e não conveniada. Chamamos atenção, nesse caso, para o próprio modo como o sistema de colocação de crianças e adolescentes estrutura-se e quais seus princípios de estruturação. Em comparação com as unidades das redes conveniada e não conveniada, as unidades da rede própria têm uma organização administrativa mais burocrática. 67 Conforme os princípios da universalização e impessoalidade, típicos de uma organização burocrática, a escolha dos funcionários não se fez através de redes pessoais de relação, mas por concurso público. Nas unidades da rede própria, há uma especialização maior das funções, manifestada na posse de uma equipe de técnicos consolidada (psicólogo, assistente social, pedagogos, etc), uma equipe de monitores/educadores e uma equipe administrativa/gerencial. Na Casa de Acolhimento da FASC, por exemplo, ainda há um convênio com uma cooperativa de trabalhadores que faz com que os próprios vínculos patronais sejam distintos, caracterizando não apenas diferenciações funcionais em termos de cargos – educadores, técnicos, auxiliares de serviço geral, etc – mas também da própria fonte patronal, uma cooperativa ou a FASC. Há uma organização administrativa que implica uma separação de espaços muito estabelecida nas unidades da rede própria, ficando marcada uma diferenciação de locais para a equipe técnica e administrativa/gerencial e a equipe de monitores/educadores e as crianças e adolescentes. Nas três unidades que visitamos, da rede própria, há portas de ferro com cadeados separando os espaços da sede administrativa dos quartos e espaços para monitores e crianças e adolescentes. O fato de que o diretor/coordenador das unidades é um “cargo de confiança”, isto é, uma nomeação política, torna ainda mais difícil uma “tradição” de trabalho coletivo. No AMIB, por exemplo, alguns funcionários e adolescentes falam em “a torre” como o espaço destinado aos técnicos e à gerência administrativa. Fundamentalmente, tal lógica organizacional trabalha com hierarquias e não com flexibilidade, além de incentivar a separação entre funcionários e crianças e adolescentes. Embora tenhamos encontrado em cada categoria funcional indivíduos criativos que investem energias na recuperação de “seus guris”, a própria organização administrativa dificulta a formação de um “espírito de corpo” envolvendo a unidade como um todo. Ao menos em duas das três unidades – na Casa de Acolhimento e no AMIB – existe uma tentativa de reordenar o modelo de “abrigo”, separando as crianças e 68 adolescentes em unidades diferenciadas, mas dentro de um mesmo espaço físico, como se fossem “casas-lar” dentro do “abrigo”, configuração semelhante à do Abrigo João Paulo II e nas Aldeias SOS. No entanto, permanece uma distinção muito grande de locais e funções profissionais, além de uma separação das crianças e adolescentes por sexo e idade -- elementos inexistentes no modelo das “casas-lar”. Nos abrigos da rede própria, a especialização intensa das funções e espaços também dificulta a conexão comunitária. As próprias práticas do recebimento de doações e do voluntariado são elementos que ocorrem mais dificilmente nas unidades da rede própria se compararmos com as unidades da rede conveniada e não conveniada. Ao contrário de uma instituição não conveniada como a Casa do Excepcional Santa Rita de Cássia, por exemplo, onde a presença de um voluntário é permitida através de uma conversa com a diretora ou a assistente social da instituição, na Casa de Acolhimento a mesma prática requer uma permissão da própria FASC, instituição à qual a unidade está vinculada, o que faz com que a própria permissão de entrada no abrigo seja feita com mais dificuldade. Nas falas dos funcionários da rede própria, fica evidenciado que o esforço do incremento dos recursos do abrigo é realizado, fundamentalmente, pelos próprios funcionários. Na Casa de Acolhimento, por exemplo, uma educadora diz trazer xampu de sua casa para prover o abrigo, assim como doações de brinquedos. No AMIB os monitores falam em fazer “vaquinha” para comprar Aspirina que falta no dispensário. Mas, ao falar das doações da comunidade, os funcionários ressaltam a sua pouca incidência. Ao contrário, na Casa de Acolhimento, por exemplo, houve relatos dos funcionários sobre a reação negativa que a unidade provocou no bairro Santo Antônio pela sua instalação, tal qual relataram ter ocorrido no endereço anterior do equipamento, no Bairro Bom Fim. É significativo que, comparado com as estruturas da rede conveniada e não conveniada, as unidades da rede própria possuam bem menos brinquedos e, inclusive, móveis nos seus espaços internos. Os espaços não são individualizados, 69 os quartos mostram poucos sinais de quem os habita. Porta retratos, bichos de pelúcia de estimação, roupas, etc, comuns em muitas das demais unidades pesquisadas, são menos presentes nas unidades da rede própria. Não estamos, com isso, condenando os funcionários que trabalham nas unidades da rede própria que, assim como os funcionários de grande parte das unidades conveniadas e não conveniadas, se esforçam para proporcionar uma certa individualização do atendimento – estimulando, por exemplo, a colocação de desenhos na portas dos quartos, trazendo produtos de suas casas para atender as crianças e adolescentes, etc. O que desejamos afirmar é que a própria estrutura organizacional e a vinculação estatal tornam mais difícil o “espírito de corpo”, que referimos anteriormente como presente em algumas unidades da rede conveniada e não conveniada. Como mencionamos acima, nos equipamentos da rede própria, os diretores são selecionados por meio de sua vinculação com o partido que gerencia o município de Porto Alegre, modificando-se constantemente. Isso facilita clivagens internas, a quebra na execução de projetos de médio ou longo prazo e o impedimento do que chamamos “espírito de corpo”. Ao falar em “espírito de corpo”, o que salientamos é a existência de alguma forma de vinculação ao equipamento que manifeste ou explicite um tipo de pertencimento ou identificação entre as pessoas que interagem nas unidades ou na própria comunidade. Como já escrevemos, festas, almoços, rifas, promoções comunitárias, etc, não são importantes apenas porque arrecadam recursos às unidades, mas porque firmam laços e relações; em última instância, promovem pertencimentos sociais – dos funcionários, das crianças e adolescentes e da própria unidade à qual estão vinculados. 70 3.4. Dois Sistemas Públicos, Duas Opções Diferentes Os Abrigos Residenciais do estado: Depois da promulgação do Estatuto da Criança e Adolescente em 1990, os estados começaram o reordenamento dos abrigos para assegurar, sempre respeitando os princípios de transitoriedade e incompletude, o oferecimento de uma situação “mais próxima à familiar”. O governo estadual do Rio Grande do Sul foi entre os primeiros a efetivar o desmantelamento das grandes instituições e a colocação de crianças abrigadas em “unidades residenciais temporárias” – casas com não mais de 12 a 14 crianças, de ambos os sexos, e de idades variadas, garantindo a convivência de irmãos. Num primeiro momento, algumas dessas casas foram construídas na propriedade frente à avenida Padre Cacique. No entanto, em pouco tempo, foi reconhecido que, enquanto estavam localizadas próximas à sede da FEBEM, essas casas ainda carregariam o estigma da instituição. Assim, as unidades foram descentralizadas, espalhadas – na sua maioria -- em casas alugadas em bairros residenciais de classe média). Com equipes razoavelmente estáveis de monitores (alguns com até 12 anos de experiência na mesma casa), e com supervisão por técnicos especializados, essas casas vêm fornecendo, desde 1994, um caso exemplar de atendimento público, laico, e humanizado a crianças e adolescentes abrigados (ver Cardarello 1994)16. Apesar do relativo sucesso desse sistema, a atual administração esetadual (Fundação de Proteção Especial) projeta uma gradativa diminuição de população abrigada, já que considera que cabe ao governo municipal a principal responsabilidade legal para o atendimento a essa faixa etária da população. A opção municipal -- terceirização: O ECA previu a municipalização do atendimento a crianças abrigadas (enquanto a responsabilidade por adolescentes em conflito com a lei ficaria com os serviços do estado). No entanto, nunca houve 16 Além da tese de Cardrello, nosso conhecimento da rede estatal (RS) vem de pesquisas realizada em 2004. Não recebemos da Fundação de Proteção Especial permissão a tempo para incluir essas casas na atual pesquisa. Dados do site do Juizado de Infância e Juventude (RS) descrevem em dezembro de 2005 39 casas, com uma média de 11 a 12 crianças e adolescentes por abrigo. 71 um repasse condizente de recursos aos serviços municipais (nesse caso, FASC) para realizar um reordenamento nos moldes previstos pelo ECA. Ao invés de multiplicar o número de pequenas unidades da “rede própria”, o município optou por terceirizar esse serviço (política certamente mais “econômica”), emitindo editais e fazendo apelo a instituições filantrópicas e religiosas que pudessem propor planos de novas “”. Ao lado dessas novas unidades, continuaram a existir – em particular para portadores de necessidades especiais -- instituições mais velhas, em geral de inspiração religiosa que, sob a supervisão da FASC, procuraram se adequar aos princípios do ECA. O município manteve três abrigos “da rede própria”, mas esses parecem ser curiosamente negligenciados nos planos de reordenamento. Assim, por uma série de razões, são as unidades mais problemáticas do sistema municipal. 3.5.A Rede Própria Negligenciada Vimos, anteriormente, certos dos fatores (por exemplo, a rigidez da organização do espaço) que prejudicam o bom funcionamento dos abrigos da rede própria. Nos parágrafos a seguir, nossas análises se misturam à voz dos próprios funcionários (do AMIB, da Casa de Acolhimento, da Casa de Passagem) que, justamente por serem dedicados à causa da infância, são os críticos mais argutos do sistema. 3.5.1. Sucateamento e sobrelotação Sem dúvida os abrigos da rede própria trazem a aparência física mais preocupante da rede. Já falamos do aspecto exterior quase prisional do AMIB e da Casa de Acolhimento – prédios institucionais com poucas (ou nenhuma) janela para a rua, portas permanentemente trancadas, com ostensiva vigilância por 72 guardas uniformizados. O “reordenamento” dessas duas casas consistiu, em um caso, em separar o prédio em alas, e no outro, em construir pequenas casas no interior do mesmo terreno, pouco fez para romper com o ambiente institucional. Na Casa de Passagem, em princípio para crianças de 7 a 12 anos, a situação está ainda mais crítica. O prédio, uma casa pré-fabricada não passa por reformas conseqüentes desde sua fundação. Por causa da sobrelotação, não há cama para todas as crianças e, entre os beliches e berços que lotam os quartos, mal cabem mais colchões colocados no chão. “Por segurança”, há basculantes em vez de janelas que dariam uma vista do jardim. A essa iluminação/ventilação precária, soma-se um telhado que aumenta o calor do sol, tornando certos espaços na casa quase insuportáveis no verão. Enquanto, de dia, um pátio de razoáveis proporções, fornece uma maneira de desafogar o espaço, de noite, na única sala de recreação, mais de trinta crianças ficam amontoadas, se dividindo entre videogame, televisão e dança ao som de rádio, enquanto cinco monitores tentam coordenar banhos e preparação para cama. Há muito tempo que a unidade extrapola o perfil planejado (crianças de 7 a 12 anos). Hoje, os educadores têm que lidar não somente com a sobrelotação, mas devem atender simultaneamente a adolescentes com 13 anos e crianças com pouco mais de um ano – jovens com interesses e necessidades absolutamente diversos. Segundo um dos funcionários, não existe sequer material para desenvolver boa parte das atividades: “O vídeo, que é um recurso indispensável para manter a atenção das crianças, está toda hora dando problema. O roupeiro das crianças está caindo aos pedaços. As instalações dos banheiros são de péssima qualidade”. É importante frisar que essa situação vem de longa data, não dependendo de um partido político ou outro. Os funcionários dizem que há mais de quatro anos que vêm se manifestando junto à administração municipal quanto às difíceis condições da casa. No entanto, como frisou um entrevistado, “A casa está caindo e a gente não percebe nenhuma atitude por parte da FASC para resolver a situação”. 73 Houve, durante certo tempo, expectativa de expandir a casa fisicamente para o terreno do lado (pertencente ao município). No entanto, segundo os entrevistados, esse terreno foi doado no último dia da última administração municipal a um grupo itinerante de pagode que pretende abrir uma casa de shows no local. Assim, não somente os funcionários viram esvaecer suas esperanças de ter mais espaço, agora apreendem um futuro em que as crianças não conseguem dormir por causa do barulho do lado. A atual administração, atenta à precariedade da estrutura física, está à procura de um novo local , mas os funcionários temem que, sem estudar bem as necessidades deste abrigo, a administração mude para uma situação ainda menos adequada – uma casa, por exemplo, sem pátio – elemento indispensável para o bom funcionamento do abrigo. 3.5.2. A Casa de Passagem: Um Perfil que Não Cabe Mais? Se a sobrelotação e a inadequação do espaço físico são características das três casas da rede própria (vide dados do levantamento), a Casa de Passagem sofre uma limitação a mais – o “sigilo forçado” em que se encontra a casa. A política de sigilo torna-se um problema devido à divergência entre o perfil teórico da casa, idealizada por planejadores dez anos atrás, e a realidade atual. A casa foi originalmente projetada para crianças vítimas de abuso e violência, que corriam sérios riscos de vida. Justificava-se assim a tentativa de esconder o endereço da casa e o paradeiro da criança. No entanto, esse perfil acabou sendo alterado nos últimos anos devido à sobrelotação do sistema. Hoje, conforme os próprios funcionários, boa parte das crianças não sofrem ameaça alguma. Entram no abrigo por razões não muito diferentes das dos jovens em qualquer outro abrigo, como explicitou um funcionário: “Na maioria dos casos, é gente miserável, desempregada, morando em lugares que não oferecem as mínimas condições de salubridade. Vivem em barracos de papelão”. 74 Se ainda existem algumas poucas crianças exigindo proteção especial (sigilo), isso não explica por que a casa inteira é submetida a um regime praticamente de internato fechado. As crianças permanecem isoladas da convivência maior com outros setores da sociedade (conforme os educadores, nos anos iniciais da casa, as crianças não iam nem para a escola pois considerava-se que isso as exporia a riscos indevidos). Ainda mais, a situação de sigilo acaba incentivando o afastamento dos pais de seus filhos pois não podem encontrar as crianças no abrigo, mas somente no Juizado da Infância e da Juventude ou, em outro local, na presença de um representante do juiz. A queixa de uma menina negra, de nove ou dez anos, observada por um pesquisador, ilustra de forma eloqüente a crueldade do sigilo forçado. Desabafando para duas técnicas que tentavam consolá-la, a menina chorava que se sentia “presa” na casa, isolada de tudo. Queria ir para um lugar mais aberto, queria ir para “um abrigo de verdade”. 3.5.3. A Transitoriedade que Não Ocorreu Afinal, o próprio nome da Casa de Passagem tem algo anacrônico, pois se originalmente foi projetado para abrigar crianças por até 90 dias, sabe-se que hoje há internos com quase dois anos de casa. Existe um esforço sistemático de reconectar os abrigados com seus familiares para assim propiciar a tão almejada reintegração familiar, mas por diversos motivos, esses esforços via de regra não surtem grande efeito. Assim, como frisa um funcionário com longa experiência de casa: “Nós somos uma casa de passagem que não funciona como casa de passagem, pois as crianças não têm para onde ir. Dos 33 que estão aqui, pelo menos 20 delas não deveriam estar, pois o juiz já decretou a destituição do pátrio poder... o que significa que não existe mais volta. Essas crianças deveriam estar em abrigo de ação continuada, onde poderiam estabelecer laços com a comunidade, conforme está estipulado no ECA. Mas, desde 2002, a gente tem dificuldade de encaminhar as 75 crianças, pois o sistema está superlotado. Não existe mais lugar. Ou, pelo menos, essa é a resposta que a gente recebe das pessoas responsáveis pelo encaminhamento. Será que realmente precisa de uma casa de passagem nessas condições? Por que não transformar a casa em abrigo de ação contínua? Que que adianta fingir que é uma coisa, quando na verdade é outra?” (Funcionário da Casa de Passagem). 3.5.4. Um Problema Burocrático de Comunicação? É necessário insistir que nossos comentários não implicam, de forma alguma, uma crítica aos funcionários dos abrigos. Trata-se, na sua maioria, de profissionais zelosos, muitos dos quais se consideram “militantes do ECA”. Ouvimos relatos de muitas atividades de iniciativa dos funcionários (saídas para o teatro, festas de Natal, passeios na praia, baile de debutantes, etc.) que, com mínimo apoio da “sede”, acabam enriquecendo a vida dos internos. Também ouvimos falar de muitos projetos de maior fôlego, escritos por funcionários e submetidos à administração da FASC, que permaneceram sem resposta, presumivelmente esquecidos no fundo de uma gaveta. Que essas queixas sejam fundamentadas ou não, é evidente que os funcionários têm uma sensação de abandono pelo sistema. Dão como ilustração do descaso a nomeação de diretores de casa que não têm nenhuma experiência no campo de abrigos. Insistem que um diretor, para trabalhar pelo bem-estar da casa, deve estar pronto a incomodar seus superiores políticos: deve saber recusar novos candidatos a abrigagem que pioram a sobrelotação, deve saber pressionar para receber mais verbas e mais atenção para uma infra-estrutura adequada. Os funcionários consideram que muitos dos diretores, nomeados por motivos políticos, têm lealdade maior ao partido político do que à casa (e, mais uma vez, essa queixa diz respeito a todas as administrações, independente do partido particular no poder). Antes de tudo, vê-se que a falta de “voz” no planejamento 76 de políticas leva os funcionários a crer que: “Não há vontade política de ter um conhecimento maior sobre a realidade institucional. Eles simplesmente não querem escutar o que os funcionários e a equipe técnica do local têm para dizer”. O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) que poderia ser uma arena onde os funcionários compartilham idéias e colocam frustrações não aparece, no atual cenário, como solução. Em primeiro lugar, não há incentivo para os funcionários e técnicas participarem das reuniões mensais do Fórum de Abrigos. Talvez em função disso (mais uma vez, falta de comunicação), os trabalhadores da rede própria têm a impressão que o CMDCA não é um aliado na busca por melhores condições: “O CMDCA tem uma política clara de investimento na rede privada e o abandono e sucateamento da rede pública. Basta dizer que a grande maioria dos projetos que são apresentados por técnicos da rede governamental não recebe o mesmo apoio que outros projetos promovidos em parceria com a rede conveniada e não-conveniada” (Funcionário da Casa de Passagem). Nessa pesquisa, não é nossa intenção endossar mecanicamente as críticas dos funcionários. Pudemos constatar, de fato, que a rede própria tem uma situação mais problemática do que as outras unidades da rede de abrigagem: a sobrelotação crônica é maior, os jovens abrigados trazem, na média, mais experiência “de rua”, no uso de drogas e na prática de atos infracionais. Ainda por cima, são essas as casas onde em geral existe maior contato com as famílias de origem – um fato que, ao mesmo tempo em que exige mais trabalho dos funcionários, abre possibilidades para a manutenção de vínculos recomendada no ECA. Por outro lado, a pesquisa não se estendeu as situações e dados que revelariam, em termos objetivos, as atitudes de ativistas e administradores na FASC e no CMDCA. O que podemos constatar é a crença, entre funcionários dos abrigos da rede própria, de uma indiferença que beira desprezo para com a situação dos abrigados nessas instituições. Vivem com a impressão de que as 77 políticas são ditadas de cima para baixo, sem conhecimento das reais necessidades da casa e sem dar ouvidos às propostas oriundas das pessoas com mais experiência – os funcionários e educadores do quadro. Assim, apesar de formar profundos vínculos com certos dos abrigados, os profissionais da rede pública ficam desencorajados com as possibilidades de desenvolver um projeto conseqüente e acabam muitas vezes pedindo transferência para outro local de trabalho. Sem dúvida, os abrigos da rede própria continuam cumprindo, dentro do sistema de abrigos, uma função insubstituível – contato freqüente com as famílias implicando possibilidade de reintegração familiar, e trabalho com adolescentes “de rua”, jovens freqüentemente considerados de perfil inadequado (por causa da dependência de drogas, freqüentes fugas, etc.) para casas da rede conveniada e não conveniada. Representam, ao lado dos abrigos e da rede conveniada e não conveniada, uma peça importante do sistema que merece ser aprimorada. Nestes abrigos da rede própria, deve haver uma atenção imediata para o fornecimento de espaços adequados para o número de crianças atendidas. Em vez de simplesmente ampliar o espaço, seria recomendado desmembrar as casas em unidades menores (10-12 integrantes), espalhadas em bairros residenciais. A experiência do estado de Rio Grande do Sul, com a construção dos Abrigos Residenciais, mostra que tal possibilidade não é privilégio só da rede conveniada. Com planejamento e investimentos também pode ser efetivada nos abrigos públicos. IV- Características das Crianças e Adolescentes nas Unidades Pesquisadas Distribuídos em vinte e três unidades que englobam abrigos, casas-lar e instituições para portadores de necessidades especiais, foram registrados pela pesquisa 514 crianças e adolescentes abrigados. É importante considerar que este número corresponde ao momento concreto em que os dados foram coletados, entre junho e novembro de 2005, isto é, não pode ser entendido como um número fixo, 78 mas dentro de uma dinâmica de ingressos e desligamentos das crianças e adolescentes. O que percebemos através dos dados coletados é que a população pesquisada apresenta uma grande diversidade de características pessoais e de situações familiares e comunitárias que fizeram necessária a aplicação da medida de abrigo. Esta diversidade reflete-se também na heterogeneidade de serviços nas quais estão distribuídos, como já apontamos anteriormente. Crianças e adolescentes ingressam nos abrigos não somente em função de características pessoais e familiares, mas das possibilidades de absorção desses diferentes serviços. Na decisão do abrigamento – que envolve técnicos, famílias e diferentes poderes públicos e judiciais, como o Conselho Tutelar e o Juizado da Infância e da Juventude - muitas questões estão em jogo. Por um lado o “perfil” da criança e adolescente influencia nas decisões, pois deve ser compatível com o “perfil” do serviço; por outro lado, a distribuição das crianças e adolescentes também atende a disponibilidade de vagas em cada tipo de equipamento. Entretanto, ao mesmo tempo em que cada abrigo tenta selecionar um tipo específico de população conforme seu “perfil”, o preenchimento de vagas vai modificando o próprio “perfil” traçado, em função das características da população atendida. Assim, as definições sobre o “perfil” de cada criança e/ou adolescente e das motivações que levam ao abrigamento, tanto quanto a demarcação de “perfis” específicos para cada instituição, estão em constante negociação. Nessa negociação, interferem determinados valores e idéias que informam concepções de infância, família e de proteção integral, constituídas em um campo atravessado por tensões, diferenciações hierárquicas e recursos escassos. Enquanto as unidades da rede conveniada e as da rede não conveniada parecem apresentar uma maior autonomia para definir e fazer respeitar a disponibilidade das vagas existentes, nas unidades da rede própria municipal isso é mais complexo, o que se reflete na maior superlotação dessas unidades, como vimos anteriormente. Contudo, este não é o único elemento determinante na distribuição da população. 79 Outros fatores também influenciam nessa distribuição, como por exemplo, o sexo, a idade, as expectativas de retorno à família de origem e as características pessoais de crianças e adolescentes (por exemplo, a necessidade de tratamento de saúde). Vejamos os dados da pesquisa. 4.1. Procedência das Crianças e Adolescentes A maior parte das crianças e adolescentes abrigadas nas unidades pesquisadas é mesmo proveniente de Porto Alegre. A percentagem de 80% (396 crianças e/ou adolescentes) das crianças e adolescentes nasceu em Porto Alegre, sendo que apenas 11% (54 crianças e/ou adolescentes) provêm da região metropolitana, 8% (40 crianças e/ou adolescentes) é proveniente de outras cidades no interior do estado e apenas 1% (3 crianças e/ou adolescentes) nasceu em outros estados. Os abrigos não conveniados absorvem 65% das crianças e adolescentes provenientes do interior do estado, restando 30% para as unidades da rede conveniada e 5% para as unidades da rede própria. Vejamos um gráfico e um quadro com esses dados: Gráfico 24: População nas Unidades Pesquisadas, por Procedência Procedência das Crianças e Adolescentes Abrigados 1% 8% 11% poa metropolitana interior outros estados 80% 80 Gráfico 25: Procedência das Crianças e Adolescentes Abrigados por Tipo de Instituição Procedência das Crianças e Adolescentes, por Tipo de Instituição 70% 65% 67% 53% 33% 5% Rede Própria Rede Conveniada Rede Não Conveniada Outros Estados 22% 7% 30% Interior do Estado 21% Região Metropolitana 26% Porto Alegre 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 4.2. Distribuição por Sexo das Crianças e Adolescentes Abrigados A maior parte das crianças e adolescentes pesquisados é do sexo masculino, responsável por 60% dos abrigados, sendo 40% do sexo feminino. Contudo, estas porcentagens não estão distribuídas de forma equivalente em todas as faixas etárias, nem nos diferentes tipos de abrigos. Encontramos uma concentração maior de homens nas unidades da rede própria em relação às unidades da rede conveniada e não conveniada e uma maior concentração de mulheres nos abrigos não conveniados. Desta forma, 70% da população dos abrigos da rede própria é do sexo masculino, sendo apenas 30% composto por pessoas do sexo feminino. Nas unidades da rede conveniada, a distribuição é mais equivalente, sendo 58% do sexo masculino e 42% do sexo feminino. Nas unidades da rede não conveniada a distribuição é semelhante, havendo 57% de pessoas do sexo masculino e 43% do sexo feminino. A leitura de tais percentagens sugere que uma maior autonomia para negociar o ingresso da população, nas unidades da rede conveniada e não conveniada, tenha relação com a maior presença de crianças e adolescentes do sexo 81 feminino em tais unidades. Ao contrário, nas unidades da rede própria, em que há uma maior complexidade na negociação da distribuição das crianças e adolescentes, percebe-se claramente uma precedência de crianças e adolescentes do sexo masculino. Vejamos os gráficos: Gráfico 26: Distribuição das Crianças e Adolescentes Pesquisados, por Sexo Distribuição das Crianças e Adolescentes Pesquisados, Por Sexo 40% Feminino Masculino 60% Gráfico 27: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Sexo e Tipo de Instituição Distribuição das Crianças e Adolescentes por Sexo e Tipo de Instituição 70% 80% 58% 60% 40% 42% 57% 43% 30% Feminino Masculino 20% 0% Rede Própria Rede Conveniada Rede Não Conveniada 82 No que refere a distribuição das crianças por sexo e modelo de atendimento, apresenta-se uma situação similar. Apesar de, na totalidade da população, termos um percentual de 40% de mulheres e 60% de homens, vemos que no modelo das “casas-lar” há uma equivalência de gêneros, apresentando um percentual de 51% das crianças e adolescentes acolhidos do sexo feminino e 49% do sexo masculino. Já no modelo dos “abrigos”, ao contrário, temos 66% da população do sexo masculino e 34% do sexo masculino. Nas instituições com perfil específico para portadores de necessidades especiais, é mais difícil estabelecer tendências a partir do sexo, já que o ingresso é fortemente condicionado pelo fato de necessitar de tratamento especializado. Vejamos os gráficos: Gráfico 28: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Sexo e Modelo de Atendimento Distribuição das Crianças e Adolescentes por Sexo e Modelo de Atendimento 225 250 200 150 feminino masculino 114 100 50 39 51 37 48 0 casa lar abrigo abrigo p/ PNE's 83 Gráfico 29: Distribuição por Sexo, no Modelo “Casa Lar” Dstribuição do Sexo no Modelo "Casa Lar" feminino 49% 51% masculino Gráfico 30: Distribuição por Sexo, no Modelo “Abrigo” Distribuição do Sexo no Modelo de "Abrigo" 34% feminino masculino 66% Gráfico 31: Distribuição por Sexo, no Modelo “Abrigo para PNE’s” Distribuição do Sexo no Modelo de "Abrigo p/ PNE's" 48% 52% feminino masculino Do total de crianças e adolescentes do sexo feminino, 19% é atendido pelo modelo das “casas-lar”, em comparação com o percentual de 12% encontrado para 84 as crianças e adolescentes do sexo masculino. Do total de crianças e adolescentes do sexo feminino, 56% é atendido no modelo dos “abrigos”, sendo que esse percentual é significativamente maior se analisarmos a percentagem do total de adolescentes do sexo masculino atendido nos abrigos, o qual totaliza 73%. Gráfico 32: Distribuição do Percentual de Crianças e Adolescentes do Sexo Feminino, por Modelo de Atendimento Crianças e Adolescentes do Sexo Feminino, por Modelo de Atendimento 19% 25% casa lar abrigo abrigo p/ PNE's 56% Gráfico 33: Distribuição do Percentual de Crianças e Adolescentes do Sexo Masculino, por Modelo de Atendimento Crianças e Adolescentes do Sexo Masculino, por Modelo de Atendimento 12% 15% casa lar abrigo abrigo p/ PNE's 73% 85 Em todos os tipos de instituição, nas unidades da rede conveniada, nas unidades da rede não conveniada e nas unidades da rede própria, encontramos diferenciações por sexo. Na rede conveniada existem duas unidades destinadas exclusivamente para meninas, sendo de inspiração religiosa católica. Uma delas é o Lar de São José, que foi criado originariamente como um lar para gestantes e na atualidade acolhe adolescentes do sexo feminino, gestantes ou não, e algumas mães com seus filhos (para os bebês não há especialização de sexo no “perfil”). A outra unidade é a Casa de Nazaré, que acolhe exclusivamente meninas. Nos casos de abrigos destinados unicamente a crianças e adolescentes do sexo masculino, há duas unidades com essa diferenciação por sexo: o AMIB (unidade da rede própria), a Casa Amarela da Figueira e o Abrigo Samaritano (unidades da rede não conveniada). Outros serviços, os quais originariamente atendiam crianças e adolescentes do sexo masculino, foram modificando suas estruturas e incorporando gradativamente crianças e adolescentes do sexo feminino. Este tipo de integração processou-se gradativamente nos três tipos de serviços. A integração de meninas e meninos em abrigos e casas lar visa a adequação dos serviços às definições propostas pelo ECA, que apontam para a implantação de estruturas de pequeno porte, o mais parecidas a uma estrutura familiar e não segmentada por sexo. Tal integração de sexos já existe para 82% das crianças e adolescentes pesquisados, que estão abrigadas em unidades mistas. Vejamos os gráficos: 86 Gráfico 34: Distribuição da Percentagem de Crianças e Adolescentes por Diferenciação de Sexo nas Unidades Distribuição da Percentagem de Crianças e Adolescentes por Diferenciação de Sexo nas Unidades 6% 12% unidades mistas unidades para o sexo feminino unidades para o sexo masculino 82% Gráfico 35: Número de Crianças e Adolescentes por Tipo de Distribuição de Sexo nas Unidades Número de Crianças e Adolescentes por Tipo de Distribuição de Sexo nas Unidades 250 221 unidades mistas 200 136 150 100 40 50 0 unidades para o sexo feminino 78 25 0 rede própria 0 rede conveniada 0 14 unidades para o sexo masculino rede não conveniada 4.3. Distribuição por Cor Trabalhar com definições de cor, mesmo sendo muito importante para entender a realidade das crianças e adolescentes abrigadas em Porto Alegre, apresenta certas dificuldades. Entender essas categorias como atribuídas, 87 negociadas e contextuais é fundamental para analisar os dados apresentados. Em alguns casos, a coleta das informações se deu através de definições elaboradas pelos próprios pesquisadores, através de alguns elementos, como por exemplo, fotos de documentos de identidade. Em outros casos, os prontuários não apresentavam informações a esse respeito e nenhum funcionário encontrava-se disponível para disponibilizar tal informação; isso fez com que se registrasse um alto número de não informados nesse aspecto pesquisado. Em grande parte dos casos, a coleta se deu através das classificações dos funcionários que informavam a raça/etnia das crianças em função de suas percepções sobre a cor das crianças e adolescentes. Nesses casos, o fato de se ver confrontado à necessidade de definir a cor de alguma criança ou adolescente gerou dúvida e desconfortos. Muitas vezes, encontramos diferenças na definição de uma mesma criança ou adolescente por parte de dois ou mais funcionários. Frente às dificuldades para estabelecer uma definição objetiva, os próprios técnicos recorriam as comparações entre diferentes sujeitos, a determinação de uma característica chave, em geral o cabelo ou a cor da criança ou adolescente ou a cor de seus genitores. Em alguns casos, as definições foram construídas no diálogo entre pesquisadores e funcionários, numa espécie de negociação entre as características reais de cada criança ou adolescente e a rigidez das cinco opções oferecidas no questionário, classificações oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): branco, pardo, preto, amarelo e indígena. Os dados que se apresentam são o resultado dessas múltiplas formas de coleta e classificação. Através dessas informações, percebemos que 41% da população abrigada foi identificada como “branca”, mesmo percentual da soma da população classificada nas categorias “preto” e “pardo”. A população indígena representa apenas 1%, sendo o percentual restante – 17% - composto de dados não informados. O gráfico abaixo explicita tais dados: 88 Gráfico 36: Distribuição das Crianças e Adolescentes Segundo a Cor Distribuição das Crianças e Adolescentes Segundo a Cor 17% 1% 41% 23% 18% branco pardo preto indígena não informado Esse tipo de distribuição de cor mantém-se em ambos sexos, mas varia quando analisamos a distribuição por tipos de instituição e modelos de atendimento. Ao analisar a cor da população em relação ao tipo de instituição, vemos que a proporção de “brancos” é maior nas unidades da rede conveniada e nas unidades da rede não conveniada, quando comparamos com as unidades da rede própria, onde há uma relativa equivalência na distribuição da cor entre as categorias “preto”, “branco” e “pardo”. Essa equivalência explicita a tendência de uma maior colocação de crianças e adolescentes categorizados como “pretos” nessas unidades, em comparação com os demais tipos de instituição, pois na média geral há uma maior percentagem de “brancos” do que de “pretos” e “pardos”. O gráfico torna visível tal informação: 89 Gráfico 37: Distribuição da Cor Segundo o Tipo de Instituição Distribuição da Cor Segundo o Tipo de Instituição 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 94 80 67 50 31 29 32 33 25 2 1 rede própria rede conveniada 15 31 21 3 branco pardo preto indígena não informado rede não conveniada Desta forma, é possível estabelecer uma tendência significativa de colocação de crianças menos brancas nas unidades da rede própria. Quando analisamos a cor em relação ao “modelo de atendimento”, também verificamos uma maior proporção de colocação de “pretos” e “pardos” em unidades do modelo “abrigo”, em comparação com a sua incidência em “casas-lar”. Gráfico 38: Distribuição da Cor, Segundo Modelo de Atendimento Distribuição da Cor Segundo Modelo de Atendimento 350 58 300 3 250 92 não informado indígena 200 preto 150 100 50 pardo 70 branco 1 3 20 16 116 30 8 8 53 36 0 casa lar abrigo abrigo para PNE's 90 Podemos observar que existe uma tendência a maior colocação de crianças e adolescentes “brancos” em “casas-lar” e, complementarmente, dos “pretos” e “pardos” nos “abrigos”. Quando analisamos cada categoria de cor separadamente, vemos que, para as pessoas classificadas como “brancos”, 56% estão em unidades do modelo “abrigo”, 18% em “casas-lar” e 26% em “abrigos para PNE’s”. Já para os “pardos”, o número de pessoas nos “abrigos” sobe para 74%, estando 17% em “casas-lar” e 9% nos “abrigos para PNE’s”. Quanto às crianças e adolescentes classificadas como “pretos”, a distribuição é semelhante aos “pardos”: 76% em “abrigos”, 17% em “casas-lar” e 7% em “abrigos para PNE’s”. O que se destaca nesses dados é a maior percentagem de brancos nos “abrigos para PNE’s”: Gráfico 39: Distribuição de Crianças e Adolescentes “Brancos”, por Modelo de Atendimento Distribuição de Crianças e Adolescentes "Brancos", por Modelo de Atendimento 26% 18% casa lar abrigo 56% abrigo para PNE's 91 Gráfico 39: Distribuição de Crianças e Adolescentes “Pardos”, por Modelo de Atendimento Distribuição de Crianças e Adolescentes "Pardos", por Modelo de Atendimento 9% 17% casa lar abrigo abrigo para PNE's 74% Gráfico 39: Distribuição de Crianças e Adolescentes “Pretos”, por Modelo de Atendimento Distribuição de Crianças e Adolescentes "Pretos", por Modelo de Atendimento 7% 17% casa lar abrigo abrigo para PNE's 76% Gráfico 39: Distribuição de Crianças e Adolescentes “Indígenas”, por Modelo de Atendimento Distribuição de Crianças e Adolescentes "Indígenas", por Modelo de Atendimento 0% casa lar 50% 50% abrigo abrigo para PNE's Verificamos que há uma maior concentração de crianças e adolescentes classificados como “brancos” nas “casas-lar”, pois enquanto esse percentual é de 48% nas casas com esse modelo de atendimento, desce para 34% nos “abrigos”, ao 92 que se acrescenta o fato de termos, no total das crianças e adolescentes, uma distribuição de 41% brancos. Assim, a porcentagem de “brancos” nos abrigos é muito menor do que nas casas-lar, embora haja uma presença significativa dos “brancos” nos “abrigos para PNE’s”. Vejamos os gráficos: Gráfico 40: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nas "Casas-lar" Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nas "Casas Lares" 27% 4% branco pardo 48% preto indígena 21% Gráfico 41: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nos "Abrigos" Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nos "Abrigos" 1% branco 17% 34% pardo preto 27% 21% indígena não informado 93 Gráfico 41: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nos "Abrigos para PNE’s" Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor, nos "Abrigo para PNE's" branco 30% 0% 8% pardo 54% 8% preto indígena não informado Embora, enquanto uma tendência, possamos falar de uma maior concentração de “pretos” e “pardos” nas unidades da rede própria e nos “abrigos”, ao contrario do apresentado no levantamento do IPEA (2005), não existe uma tendência ao aumento de crianças e adolescentes classificados como “pretos” e “pardos” com o aumento da idade. Vejamos o gráfico abaixo: Gráfico 42: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Cor e Idade 200 150 20 número de crianças-adolescentes 23 100 36 30 28 15 23 66 21 50 23 Cor não informado 22 indígena 52 16 preto 18 34 26 pardo 23 0 branco 0 -3 IDADE 4-7 8 - 11 12 - 15 16 - 18 mais 18 não infor 94 4.4. Idade A idade é uma das variáveis mais freqüentes na demarcação do perfil dos serviços de abrigamento. Com exceção das “casas-lar”, os “abrigos para PNE’s” e da unidade “S.O.S. Aldeias Infantis”, o restante das unidades propõe uma diferenciação etária para demarcar seu perfil de atendimento. Essa demarcação etária é definida, em geral, pela separação entre bebês (0 a 3 anos), crianças pequenas (4 a 7 anos), crianças maiores (8 a 11 anos) e adolescentes (12 a 18 anos). Essas faixas etárias, utilizadas para definir o tipo de serviço prestado, nem sempre correspondem à população que o abrigo de fato acolhe. A presença de irmãos que não correspondem à mesma faixa etária e, fundamentalmente, o transcorrer do tempo durante a medida de abrigamento faz com que as crianças e adolescentes permaneçam no mesmo abrigo, apesar de terem ultrapassado a faixa etária limite do perfil idealmente estabelecido à unidade. A questão da idade é particularmente preocupante com a proximidade da comemoração dos 18 anos dos adolescentes nos abrigos e a necessidade do desligamento institucional. Tanto a partir das visitas aos abrigos - nas conversas com técnicos e com os próprios adolescentes -, quanto nos dados etnográficos recolhidos nas reuniões do Fórum de Abrigos promovidos pelo CMDCA, os problemas vinculados ao desligamento e a falta de políticas para sua preparação e enfrentamento foram temáticas constantes. Nas reuniões do Fórum de Abrigos, observamos os técnicos transmitindo a insegurança dos jovens em relação a esse novo período, no qual não contam com o respaldo da instituição que, para muitos, significa uma família; assim como o desconforto com a falta de alternativas e um certo sentido de impotência por não terem condições institucionais de oferecerem alternativas à insegurança desses jovens. Apesar de ser esse um dos problemas mais presentes na rede de atendimento, os adolescentes próximos ao desligamento não são a faixa etária de maior presença no total da população abrigada. Eles representam a percentagem de 18% do total, compondo-se de 95 casos. Há ainda 2 adolescentes 95 com mais de 18 anos nas unidades, no momento da pesquisa. As faixas etárias de maior presença no total da população abrigada estão entre a faixa de 8 e 11, e entre a faixa de 12 e 15 anos. Essas faixas etárias representam 56% do total da população. A população entre 0 e 7 anos representa o restante, 26% do total da população. Gráfico 43: Distribuição das Crianças e Adolescentes por Faixa Etária Distribuição das Crianças e Adolescentes por Faixa Etária 18% 0%1% 10% 15% 30% 26% 0 -3 4-7 8 - 11 12 - 15 16 - 18 mais de 18 não informado A percentagem mais alta de adolescentes entre 16 e 18 anos encontra-se nas unidades da rede própria. Essa faixa etária representa 31% do total da população das três unidades da rede própria da FASC. A porcentagem de adolescentes entre 12 e 15 anos também é alta, mas essa faixa etária é significativamente mais freqüente nas unidades da rede conveniada. As unidades da rede não conveniada são as que apresentam uma distribuição mais regular da população por faixa etária, também tendo menos adolescentes na faixa etária dos 16 aos 18 anos, quando comparadas com as unidades da rede própria e as unidades não conveniadas. 96 Gráfico 44: Distribuição do Tipo de Instituição, por Faixa Etária das Crianças e Adolescentes Distribuição do Tipo de Instituição por Faixa Etária das Crianças e Adolescentes 90 78 80 70 62 60 50 34 37 40 31 25 30 20 7 10 43 36 35 39 29 14 23 12 4 1 2 2 0-3 anos 4-7 anos 8-11 anos 12-15 anos 16-18 anos mais de 18 anos não informado 0 Rede Própria Rede Conveniada Rde Não Conveniada Gráfico 45: Distribuição da Faixa Etária das Crianças e Adolescentes, por Tipo de Instituição Distribuição da Faixa Etária das Crianças e Adolescentes, por Tipo de Instituição 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 78 62 43 25 34 39 Rede Própria 3735 23 os s 142 Rede Conveniada Rde Não Conveniada m ai s de 18 an an o s -1 8 an o 16 -1 5 811 an os os 2 an 47 03 an os 7 12 36 29 14 12 31 97 4.5. Crianças e Adolescentes Portadoras de Necessidades Especiais Do total de crianças e adolescentes pesquisados, 24% é portador de algum tipo de necessidades especial. Gráfico 46: Percentagem de Crianças e Adolescentes PNE's Percentagem de Crianças e Adolescentes PNE's 1% 24% sim não não informado 75% A integração de jovens portadores de necessidades especiais na totalidade da rede de abrigos é vista como um ponto positivo. Contudo, ao analisar os dados da população atendida, vemos que este tipo de integração não alcança a quarta parte da população portadora de necessidades especiais. Há uma alta percentagem de crianças e adolescentes que é acolhida por instituições especializadas: 79% dessas crianças e adolescentes (ou seja, 96 crianças e adolescentes) encontram-se abrigados em instituições destinadas especificamente à atenção dessas necessidades especiais. Contudo, essa percentagem corresponde aos casos mais sérios de deficiências, as quais requerem atendimentos técnicos muito especializados. Em geral, esta população é atendida em instituições de médio e grande porte. As crianças e adolescentes abrigadas em este tipo de instituição também apresentam a mais baixa freqüência de expectativa de retorno familiar, mesmo nos 98 casos em que o vínculo familiar e as visitas às crianças, pelos familiares, se mantêm. A percentagem de crianças e adolescentes com perspectiva de retorno à família – 0,2,5% - é extremamente baixo em comparação à percentagem de crianças e adolescentes portadores de deficiências que mantêm vínculos familiares, 56% dos casos. Mesmo que nos demais modelos de atendimento (casas-lar e abrigos) a perspectiva de retorno à família não coincida com o número de crianças e adolescentes que mantém vínculos familiares, no caso dos portadores de necessidades especiais os números são significativamente distantes. Essa situação pode ser explicada pelo fato dessas crianças e adolescentes precisarem de cuidados e tratamento muito especiais, elementos que muitas famílias não possuem condições de providenciar. O abrigamento então se apresenta como uma forma que as famílias encontram de oferecer condições de desenvolvimento adequadas aos seus filhos, mesmo que isto não se reflita, necessariamente, na ruptura dos vínculos familiares. 4.6. Crianças e adolescentes portadores de HIV e outros problemas de saúde Em relação ao estado de saúde das crianças e adolescentes pesquisados, dois problemas se destacaram: a soro-positividade e os distúrbios psicológicos ou psiquiátricos. Esses últimos, como o resto dos problemas unificados na categoria de “outros”, encontram-se distribuídos de forma mais ou menos homogênea em todos os serviços. Quanto às crianças e adolescentes soropositivos, existe somente uma instituição especificamente desenhada para seu abrigamento, que atende 63% das crianças e adolescentes portadoras de HIV. Os outros 37% encontram-se distribuídos nas unidades da rede própria, conveniada e não conveniada. Não foram registrados crianças ou adolescentes soropositivos acolhidos em casas-lar ou instituições destinadas aos portadores de necessidades especiais. O quadro abaixo 99 explicita as situações de saúde mais freqüentemente encontradas na pesquisa (sem contar os PNE): Quadro 2: Situações de Saúde A criança ou o adolescente é portador de: número tuberculose HIV DST disturbios psicológicos/psiquiátricos outro problema de saúde nenhum não informado Total % 2 30 1 ,4% 5,8% ,2% 39 7,6% 77 286 79 514 15,0% 55,6% 15,4% 100,0% 4.7. Crianças e Adolescentes Usuários de Substâncias Psicoativas Do total de crianças e adolescentes pesquisados, apenas 10% são usuários de substâncias psico-ativas, como cigarros, álcool, maconha, solventes e crack. A faixa etária entre 8 e 11 anos começa a registrar o uso de substâncias psico-ativas, pois 5% das crianças nessa faixa etária já está fazendo uso destas substâncias nessa faixa etária. Este número aumenta na faixa etária seguinte, em que 12% da população entre 12 e 15 anos de idade aparece como usuária de substâncias psico-ativas. A maior concentração de usuários dessas substâncias está na faixa etária dos 16 e 18 anos, chegando ao percentual de 16% da população dessa faixa etária. Os adolescentes nessa idade representam 51% do total da população que faz uso de substâncias psico-ativas. Vejamos o quadro e o gráfico abaixo: Quadro 3: Uso de Substâncias Psico-Ativas na População Pesquisada é usuários de substâncias psico-ativas? não sim já foi não informado Total número 443 49 7 15 514 % 86% 10% 1% 3% 100% 100 Gráfico 47: Uso de Substâncias Psico-Ativas na População Pesquisada Uso de Substâncias Pscio-Ativas na População Pesquisada 5% 24% sim não não informado 71% Gráfico 48: Distribuição dos Usuários de Substâncias Pscio-Ativas por Faixa Etária Distribuição dos Usuários de Substâncias PsicoAtivas por Faixa Etária 30 25 25 18 20 15 6 10 5 10 45 3 sim já foi não informado 0 0-3 anos 4-7 anos 8-11 anos 12-15 anos 16-18 anos A distribuição da população usuária de substâncias psico-ativas apresenta duas variáveis significativas. A primeira delas é o sexo, pois 76% dos usuários das substâncias psico-ativas são do sexo masculino, enquanto apenas 24% são do sexo feminino. A outra variável significativa é o tipo de instituições em que essa população está sendo acolhida. As unidades da rede própria acolhem 61% da população usuária de substâncias psico-ativas, enquanto as unidades da rede 101 conveniada acolhem o percentual de 29% e as unidades da rede não conveniada respondem por 10% dos casos. Nas unidades da rede própria, a população usuária de substâncias psico-ativas representa 25% do total da população, enquanto que nas unidades da rede conveniada representam 6% dos casos, baixando para apenas 3% nas unidades da rede não conveniada. No que refere aos modelos de equipamento em que estas crianças e adolescentes estão abrigados, também encontramos uma distribuição diferenciada. O maior número de usuários de drogas se encontra no sistema de abrigos em contraposição às casas-lar. Gráfico 49: Distribuição dos Usuários de Substâncias Psico-Ativas por Modelo de Atendimento 500 400 80 275 número de crianças-adolescentes 300 200 modelo HIV 100 ppds 69 Abrigo 42 Casa Lar 0 não sim já foi não informado é usuários de substâncias psico-ativas? 102 Quadro 4: Usuários de Substâncias Psico-Ativas por Tipo de Equipamento Usuários de substâncias psico-ativas por tipo de equipamento TIPO municipal conveniado não conveniado Total número % tipo % usuários número % tipo % usuários número % tipo % usuários número % tipo % usuários usuários de substâncias psico-ativas não informado não sim já foi 75 30 1 12 64% 25% 1% 10% 17% 61% 14% 80% 223 14 6 3 91% 6% 2% 1% 50% 29% 86% 20% 145 5 97% 3% 33% 10% 443 49 7 15 86% 10% 1% 3% 100% 100% 100% 100% Total 118 100% 23% 246 100% 48% 150 100% 29% 514 100% 100% Gráfico 50: Distribuição dos Usuários de Substâncias Psico-Ativas por Sexo Feminino 12 / 24% 37 / 76% Masculino 4.8. Adolescentes Cumprindo Medidas Sócio-Educativas. Do total de crianças e adolescentes pesquisados, 9% estão cumprindo medidas sócio-educativas. Grande percentual - 73% - dessa população é do sexo masculino, sendo apenas 27% do sexo feminino. A totalidade dessa população está sendo atendida em unidades do modelo de “abrigos”. Nenhum destes adolescentes se encontra numa “casa-lar”. Contudo, essa população está 103 distribuída de forma heterogênea quanto ao tipo de instituições: 71% dos adolescentes cumprindo medidas sócio-educativas encontra-se abrigado nas unidades da rede própria, a rede conveniada acolhe 27% da população, enquanto as unidades da rede não conveniada abrigam apenas 2% do total dessa população. Dentro das unidades da rede própria, os adolescentes cumprindo medidas sócioeducativas representam 29% da população total; na rede conveniada, representam 5% e na rede não conveniada eles são menos do que 1% das crianças e adolescentes abrigados. Quadro 5: Adolescentes Cumprindo Medidas Sócio-Educativas Adolescentes cumprindo medidas sócio-educativas número sim não não Total % 48 454 12 514 9% 88% 2% 100% Gráfico 51: Adolescentes Cumprindo Medidas Sócio-Educativas por Sexo feminino 13 / 16% 70 / 84% masculino 104 4.9. Situação Jurídica das Crianças e Adolescentes Os dados sobre a situação jurídica das crianças e adolescentes foram coletados através dos prontuários de atendimento e através de entrevista com funcionários. Apesar de 20% serem dados não informados, através da pesquisa pode-se perceber que o maior percentual da situação jurídica das crianças e adolescentes é de destituição do poder familiar, com 30% dos casos, seguido da suspensão do poder familiar, com 18%, e da medida de proteção de abrigo, responsável por 12%. Vejamos o quadro abaixo: Quadro 6: Situação Jurídica das Crianças e Adolescentes Situação Jurídica das Crianças-Adolescentes Abrigadas Suspensão de Poder Familiar Destituição de Poder Familiar Cadastrado para Adoção Em processo no J.I.J. Medida de Proteção - abrigo Período de 30 dias Indefinido não informado Total número 92 155 27 42 63 21 11 103 514 % 18% 30% 5% 8% 12% 4% 2% 20% 100% Um dos problemas apontados pelos técnicos, nesse quesito, são as dificuldades quanto à definição da situação jurídica das crianças e adolescentes abrigados. Entre as dificuldades apontadas, a mais comum foi a demora nos processos de destituição do poder familiar, principalmente nos casos em que as possibilidades de retorno são baixas e as de adoção altas. Através das informações coletadas, percebe-se que o ingresso em determinadas unidades e a participação em programas de inserção comunitária depende, em muitos casos, da situação jurídica das crianças e adolescentes. A colocação em abrigos de ação continuada ou 105 em casas-lar, por exemplo, é privilegiada quando as crianças e adolescentes já estão com a situação jurídica de destituição do poder familiar. Constatmaos também porcentagens altas de crianças e adolescentes com destituição do poder familiar nas casas-lar e nos abrigos destinados aos portadores de HIV. Em nenhum desses dois casos encontramos crianças ou adolescentes com a “medida de proteção de abrigo” ou no período de abrigamento de 30 dias. Vejamos o quadro abaixo: Quadro 7: Situação Jurídica das Crianças e Adolescentes Segundo o Modelo de Atendimento Situação Jurídica de Crianças-Adolescentes segundo o Modelo de Equipamento Casa Lar número Abrigo número PNE número HIV número Total número suspensão de poder familiar 7 9% 56 17% 27 34% 2 11% 92 18% destituição de poder familiar 42 55% 82 24% 21 26% 10 53% 155 30% Qual a situação jurídica da Criança ou Adolescente? cadastrado em Medida de para processo proteção - período de indefinido 30 dias adoção no juizado abrigo 10 4 3 13% 5% 4% 15 37 61 21 6 4% 11% 18% 6% 2% 1 2 2 1% 3% 3% 2 11% 27 42 63 21 11 5% 8% 12% 4% 2% não informado 10 13% 61 18% 27 34% 5 26% 103 20% A utilização diferencial de serviços em relação à situação jurídica das crianças e adolescentes reflete-se na sua distribuição por tipo de serviços. Os casos de suspensão e destituição do poder familiar, por exemplo, encontram-se concentrados majoritariamente nas unidades da rede conveniada e não conveniada, enquanto que nas unidades da rede própria encontramos a maior concentração de crianças e adolescentes com medidas de proteção e no período de 30 dias referido. Essa distribuição pode ser explicada em relação aos objetivos que cada um dos serviços se propõe, mas também pode informar o estilo de atendimento. A maior concentração da suspensão e destituição de poder familiar na rede 106 Total 76 100% 339 100% 80 100% 19 100% 514 100% conveniada e não conveniada sugere um tipo de ação mais focalizada na criança e adolescente, em contraposição à família de origem. As ações destinadas à proteção de direitos estariam mais orientadas para a recolocação da criança e do adolescente na comunidade, seja através da adoção ou pela inserção nas redes institucionais das organizações que implementam os serviços. Por outro lado, a ação das unidades da rede própria estaria muito mais vinculada ao oferecimento de medidas de proteção temporárias ou destinadas a crianças e adolescentes onde, entre as causas de abrigamento, a carência de recursos materiais ainda consta alta na lista. Quadro 8: Situação Jurídica das Crianças e Adolescentes Segundo o Tipo de Instituição Situação Jurídica das Crianças-Adolescentes em cada tipo de equipamento TIPO suspensão de poder familiar número destituição de poder familiar número cadastrado para adoção número em processo no juizado número Medida de proteção - abrigo número período de 30 dias número indefinido número não informado número Total número municipal 13 11% 18 15% 1 1% 38 32% 18 15% 1 1% 29 25% 118 100% conveniado 43 17% 79 32% 24 10% 36 15% 17 7% 3 1% 8 3% 36 15% 246 100% não conveniado 36 24% 58 39% 3 2% 5 3% 8 5% 2 1% 38 25% 150 100% Total 92 18% 155 30% 27 5% 42 8% 63 12% 21 4% 11 2% 103 20% 514 100% 4.10. Modo de Encaminhamento e Duração do Abrigamento A partir das informações coletadas, vemos que quase dois terços dos abrigamentos realizam-se através do Conselho Tutelar em comparação a 23% 107 realizados pelo Juizado da Infância e Juventude. Com menor freqüência o abrigamento acontece via outras instituições, como hospitais ou postos de saúde, abrigos e albergues para adultos, etc. Essas instituições estão reunidas na categoria “outros” e representam 9% dos abrigamentos das crianças e adolescentes pesquisados. Vejamos o gráfico: Gráfico 52: Modo de Encaminhamento às Unidades Modo de encaminhamento ao abrigo outros JIJ não informado 9% 23% 64% CT Existe uma tendência que o primeiro abrigamento seja realizado através do Conselho Tutelar, enquanto que nos casos em que a criança ou adolescente é encaminhado diretamente de outros serviços, isto é, quando acontece uma transferência, o encaminhamento acontece via Juizado da Infância e da Juventude. Os casos em que o Conselho Tutelar encaminha os re-abrigamentos representam aquelas crianças ou adolescentes desligados ou evadidos das unidades. Pela pesquisa, percebemos que 58% dos abrigamentos realizados pela primeira vez acontecem via Conselho Tutelar, em contraposição a apenas 26% realizado pelo Juizado da Infância e da Juventude. Por outro lado, 61% das crianças e 108 adolescentes que já foram abrigadas antes do abrigamento atual foram encaminhadas pelo Juizado da Infância e da Juventude, em contraposição a 37% encaminhadas pelo Conselho Tutelar. Vejamos o gráfico abaixo: Gráfico 53: Modo de Encaminhamento das Crianças e Adolescentes em Relação ao Abrigamentos Anteriores Modo de encaminhamento em relação a abrigamentos anteriores 400 350 192 300 número de crianças-adolescentes 250 200 150 abrigamento anterior 123 100 31 não informado 73 50 não 20 18 0 CT JIJ outro sim não informado Modo de encaminhamento Também existe uma tendência de que os abrigamentos mais longos sejam aqueles decretados pelo Juizado da Infância e da Juventude, em contraposição aos abrigamentos efetivados pelo Conselho Tutelar: 75% dos abrigamentos de menos de seis meses e 79% dos abrigamentos que duram entre seis meses e um ano são encaminhados pelo Conselho Tutelar. Por outro lado, o encaminhamento por parte do Conselho Tutelar tende a diminuir na medida em que os abrigamentos são mais longos. Vejamos o gráfico: 109 Gráfico 54: Duração do Abrigamento em Relação à Instituição de Encaminhamento Duração do abrigamento em relação à instituição que encaminha 80 9 porcentagem de encaminhamentos 60 35 11 16 40 16 5 20 9 25 Encaminhamento 15 21 11 16 13 0 9 9 4 5 8 9 outro 9 JIJ 5 4 5 CT o ad rm fo in os n o nã 8 a s -1 o n 14 4 a s - 1 no 12 2 a - 1 os 10 an 0 -1 s 9 ano -9 s 8 ano -8 s 7 ano -7 s 6 ano -6 s 5 ano -5 s 4 ano -4 s 3 ano -3 s 2 ano ano 1 ses -2 1 es me es 6 e m 6 sd o en m Duração do abrigamento Quanto ao tempo de abrigamento, a freqüência mais alta foi encontrada na faixa entre 1 e 2 anos, com 25% dos casos. Na maior parte dos casos - 77% da população - as crianças e adolescentes têm uma permanência nos abrigos de menos de quatro anos. Vejamos o quadro: 110 Quadro 9: Duração do Abrigamento Duração do abrigamento: número menos de 6 meses 6 meses - 1 ano 1 - 2 anos 2 - 3 anos 3 - 4 anos 4 - 5 anos 5 - 6 anos 6 - 7 anos 7 - 8 anos 8 - 9 anos 9 - 10 anos 10 - 12 anos 12 - 14 anos 14 - 18 anos não informado Total 94 68 131 74 28 34 15 22 16 3 7 9 4 6 3 514 % 18% 13% 25% 14% 5% 7% 3% 4% 3% 1% 1% 2% 1% 1% 0% 100% % cumulativa 18% 32% 57% 72% 77% 84% 87% 91% 94% 95% 96% 98% 98% 100% 100% O tempo de duração do abrigamento é diferente em cada unidade. Existe uma tendência a abrigamentos de menor duração nas unidades de “abrigo” e, fundamentalmente, nas unidades da rede própria, quando comparados com as unidades da rede conveniada e não conveniada. Nas unidades da rede própria, a duração mais comum de abrigamento é menos de seis meses, representando 35% dos casos. Nas unidades da rede conveniada, a duração mais freqüente é entre um e dois anos, representando 31% do total dos abrigamentos realizados. A duração mais freqüente nas unidades da rede não conveniada, representando 19% dos abrigamentos, está concentrada na faixa entre dois e três anos. Vejamos a representação gráfica desses dados: 111 Gráfico 55: Duração do abrigamento nos diferentes tipos de Instituição: rede própria, rede conveniada e rede não conveniada 80 70 60 50 40 41 30 31 28 20 10 12 0 me nos de 6 me ses 6 1me 2 ses ano -1 s ano 23 ano s 34 ano s 45 ano s 56 ano s 67 ano s 78 ano s 89 ano s 910 ano s 10 12 ano s 12 14 ano s 14 18 ano s não info rma do duração do abrigamento 80 76 60 40 36 36 34 conveniado 20 17 13 12 7 6 0 o ad rm fo in s o no nã a 8 - 1 os 14 an 4 - 1 os 12 an 2 -1 s o 10 an 0 -1 s 9 o an -9 8 os an -8 s 7 o an -7 s 6 o an -6 s 5 o an -5 s 4 o an -4 s 3 o an -3 2 os o an an -2 -1 1 es es es m es 6 m de os en 6 m 80 70 duração do abrigamento 60 50 40 30 28 não conveniado Rede própria 24 20 17 13 10 14 9 10 9 5 0 5 6 o ad rm fo in o os nã an 8 - 1 os 14 an 4 - 1 os n 12 a 2 -1 s o 10 an 0 -1 s 9 o an -9 8 os an -8 s 7 o an -7 6 os an -6 s 5 o an -5 s 4 o an -4 s 3 o an -3 s 2 o o an n a -2 -1 1 es es es m es 6 m de os en m duração do abrigamento 112 4.11. Vínculos Comunitários e Perspectiva de Retorno à Família de Origem Segundo as avaliações dos técnicos responsáveis pelas crianças e adolescentes abrigadas, 62% do total das pessoas pesquisadas não têm perspectivas de regressar à família de origem. Do total da população investigada, somente 26% foi avaliada como com possibilidade de retorno. Quadro 10: Perspectiva de Retorno à Família de Origem Perspectiva de retorno à família de origem sim não não informado Total número 136 321 57 514 % 26 62 11 100 Os dados levantados apontam para o fato de que à medida que o tempo de abrigamento aumenta, as perspectivas de retorno à família de origem são apresentadas como menores. O maior número de crianças e adolescentes com perspectivas de retorno familiar registra-se nos abrigamentos com duração de até três anos. Nos abrigamentos menores do que seis meses encontramos 34% de possibilidades de retorno familiar; entre seis meses e um ano, 32%; entre um ano e dois anos, 30% e, finalmente, entre dois e três anos de abrigamento há um percentual de 31%. A perspectiva de retorno cai de forma abrupta após os três anos de abrigamento. Vejamos o quadro abaixo: 113 Quadro 11: Duração do Abrigamento com Relação às Perspectivas de Retorno Familiar Duração do abrigamento em relação às perspectivas de retorno familiar Duração do abrigamento menos de 6 meses 6 meses - 1 ano 1 - 2 anos 2 - 3 anos 3 - 4 anos 4 - 5 anos 5 - 6 anos 6 - 7 anos 7 - 8 anos 8 - 9 anos 9 - 10 anos 10 - 12 anos 12 - 14 anos 14 - 18 anos não informado Total número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno número % perspectiva de retorno Perspectiva de retorno à família de origem não sim não informado 32 47 15 24% 15% 26% 22 40 6 16% 12% 11% 39 80 12 29% 25% 21% 23 43 8 17% 13% 14% 5 19 4 4% 6% 7% 7 24 3 5% 7% 5% 13 2 4% 4% 3 17 2 2% 5% 4% 1 11 4 1% 3% 7% 3 1% 2 5 1% 2% 9 3% 1 2 1 1% 1% 2% 6 2% 2 1% 135 321 57 100% 100% 100% Total 94 18% 68 13% 131 26% 74 14% 28 5% 34 7% 15 3% 22 4% 16 3% 3 1% 7 1% 9 2% 4 1% 6 1% 2 0% 513 100% No levantamento de dados, os vínculos familiares e as perspectivas de retorno foram medidos como duas variáveis diferentes e resulta importante estabelecer essa diferenciação na medida em que partimos do principio que os motivos que provocam o abrigamento são diversos e nem sempre envolvem a 114 ruptura dos vínculos familiares. Relacionar essas duas variáveis pode nos ajudar a entender as causas que produzem o abrigamento e as expectativas dos usuários desses serviços em relação ao abrigamento, assim como dos técnicos e administradores. O que se evidencia através dos dados é que as freqüências de crianças e adolescentes com vínculos familiares são significativamente maiores do que as freqüências das crianças e adolescentes com expectativas de retorno familiar. Enquanto 279 (ou seja 54%) das crianças e adolescentes abrigados mantêm algum tipo de vínculo com a família de origem, 42% destes não têm perspectivas de retorno à família. Isso quer dizer que mesmo mantendo o vínculo, essas famílias não estão em condições de acolher novamente seus filhos. Por outro lado, 46% das crianças e adolescentes que mantêm vínculos com a família têm perspectivas de retorno à família de origem. As poucas crianças e adolescentes que não mantêm vínculo com a família de origem, mas têm expectativas de retorno familiar, representam 6% dos casos e são aquelas crianças e adolescentes que têm possibilidades de construir um grupo familiar com irmãos que estiveram abrigados na mesma instituição e que foram desligados após os 18 anos. Vejamos o quadro abaixo: Quadro 12: Situação do Vínculo Familiar e Perspectiva de Retorno à Família de Origem Situação do vínculo familiar e perpesctivas de retorno à família de origem com família e vínculos (visitas) número família desaparecida número sem família conhecida número com família e sem vínculos número impedimento judicial número não informado número Total número perspectiva de retorno para a família de origem não informado sim não 127 116 36 46% 42% 13% 5 1 83% 17% 7 100% 9 137 5 6% 91% 3% 35 100% 21 15 58% 42% 136 321 57 26% 62% 11% Total 279 100% 6 100% 7 100% 151 100% 35 100% 36 100% 514 100% 115 De acordo com cada tipo de instituição, as porcentagens de expectativas de retorno à família de origem são diferentes. A porcentagem mais alta de expectativa de retorno encontra-se nas unidades da rede própria, com 36%. Nas unidades da rede conveniada, a expectativa de retorno familiar é de 32%, enquanto esse percentual baixa para 9% entre as unidades da rede não conveniada. Nota-se que nas unidades da rede própria as crianças e adolescentes que mantêm vínculos com a família de origem tem um percentual maior do que nos demais tipos de instituição, havendo 69% das crianças nas unidades da rede própria com vínculos familiares, enquanto que nas unidades conveniadas e não conveniados esse percentual é de apenas 50%. Vejamos o gráfico: Gráfico 56: Perspectivas de retorno à família de origem em relação com o tipo de serviço Perspectivas de retorno à família de origem em relação com o tipo de serviço 350 117 300 250 número de crianças-adolescentes 200 147 150 100 80 TIPO não conveniado 50 19 57 42 0 sim não 19 conveniado 19 municipal não informado perspectivas de retorno para a família de origem 116 No que se refere à inserção da família em programas de assistência social, temos que, do total de crianças e adolescentes abrigados, somente 21% têm as famílias cadastradas em algum programa de assistência social. Em mais da metade dos casos - 56% - não há o recebimento de nenhum tipo de assistência pública. Nesse quesito ainda houve 23% de dados não foi informados ou essa informação não era conhecida pelos funcionários entrevistados para o preenchimento do questionário. Vejamos o gráfico: Gráfico 57: Presença de Vinculação aos Programas de Assistência Social nas Famílias de Origem das Crianças e Adolescentes Presença de Vinculação aos Programas de Assistência Social nas Famílias de Origem das Crianças e Adolescentes 21% não está não informado 23% 56% com vinculação a programas 4.12. Assistência à Escola e Vínculos com a Comunidade Para além da família de origem, existem outras formas de vinculação e integração na comunidade. Muitas crianças e adolescentes em instituições criam vínculos afetivos com outras pessoas com as quais não necessariamente compartilham laços de consangüinidade. Quando perguntados sobre quem seria a referência principal para as crianças e adolescentes abrigados, os funcionários das unidades responderam que 51% das crianças e adolescentes abrigados têm como vínculo principal alguém vinculado à família de origem: pais, irmãos, avós ou 117 família extensa. Foi dito que outros 21% mantêm vínculos personalizados com algum funcionário da instituição onde estão acolhidos: monitores, técnicos ou pais sociais. Uma baixa percentagem - 6% das crianças e adolescentes abrigados – foi classificada como mantendo seus vínculos de referência afetiva com outras pessoas, como padrinhos afetivos, voluntários de abrigos, vizinhos ou figuras da comunidade. Vejamos o gráfico: Gráfico 58: Referência Principal das Crianças e Adolescentes Abrigados Referência principal das crianças e adolescentes abrigadas não informado mãe 18% 23% nenhum outro 5% 6% pai 8% pais sociais pais 6% 13% avós 10% funcionário abrigo irmão(s) vizinho família extensa Entre as estratégias de integração à comunidade, as duas mais mencionadas foram os cursos e atividades extra-escolares, responsáveis por 13% dos casos. Nesse grupo estão incluídos cursos profissionalizantes e programas públicos, como o programa Agente Jovem e o Programa de Apadrinhamento Afetivo (PAA). Em menor medida também foram mencionados a escola, os voluntários do abrigo e as figuras afetivas provenientes da comunidade. Vejamos a representação gráfica desses dados: 118 Gráfico 59: Vínculos Comunitários mais Destacados Vínculos comunitários PAA voluntários abrigo 11% funcionário abrigo não informado cursos e atividades 13% 41% 4% escola 9% 15% nenhum outros figura afetiva Com relação à freqüência à escola, nós temos que a maior parte das crianças e adolescentes em idade escolar freqüenta a escola. Apenas 16% das crianças e adolescentes não freqüentam a escola, embora estejam em idade escolar. Mais de um terço destes são crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais. A maior parte dos outros que não freqüentam a escola são de “abrigos”, em contraposição a apenas 4% dos que não freqüentam a escola nas “casas-lar”. Para aqueles que freqüentam a escola, 31% estão em escola estadual, 20% encontram-se em escolas municipais, 4% em escolas particulares, 10% freqüentam a escola especial, enquanto 13% da população abrigada ainda não está em idade escolar. Vejamos os gráficos: 119 Gráfico 60: Freqüência a Escola das Crianças e Adolescentes Freqüência à Escola das Crianças e Adolescentes não está em idade escolar não frequenta, embora em idade escolar escola estadual 10% 0%2% 4% 13% 4% escola municipal 16% rede particular escola especial 20% curso profissionalizante 31% outro não informado Gráfico 61: Composição dos Modelos de Atendimento daqueles que Não Freqüentam a Escola Não freqüenta a escola, embora em idade escolar 4% Casa Lar 38% Abrigo 58% Abrigo para PNE's 120 4.13. Motivos de Abrigamento. Para entender a dinâmica de funcionamento dos abrigos é imprescindível entender os motivos de abrigamento e as maneiras pelas quais esses motivos se produzem. Ao pesquisar nos diferentes serviços, tanto nos prontuários quanto nas conversas com técnicos e dirigentes, observamos que os motivos de abrigamento são elementos que apresentam grande complexidade, provocando diversos comentários, explicações e necessidades de classificação e reclassificações. Um dos elementos que mais chamou a atenção durante a pesquisa foi a multiplicidade de motivos de abrigamento expressados. O questionário oferecia seis opções preestabelecidas: abandono, negligência, maus tratos, violência de rua, insuficiência da rede de proteção e pobreza. Na grande maioria dos casos essas opções foram insuficientes. Os motivos de abrigamento abarcavam outras categorias, em muitos casos envolviam mais de uma opção, simultaneamente. Assim, as respostas obtidas extrapolaram as seis opções oferecidas, apresentando uma variedade de explicações. Nas conversas com os funcionários, houve a tentativa de vincular as situações pessoais e familiares concretas aos motivos estabelecidos juridicamente como motivos legítimos para o abrigamento. Em muitos casos este trabalho de tradução e mediação de situações concretas à terminologia jurídica foi realizado por assistentes sociais e técnicos em geral. Contudo, podemos observar que, na grande maioria das unidades, o cotidiano das crianças e adolescentes e dos funcionários de atendimento não é ordenado segundo classificações jurídicas, mas em função das necessidades e realidades concretas que o abrigamento traz consigo. Para se ter uma idéia, foram abarcados 514 crianças e adolescentes na pesquisa. A partir desse número, foram registrados 142 diferentes motivos de abrigamento, os quais incluíam as seis possibilidades do questionário e suas combinações, além dos motivos que foram informados através dos relatos dos funcionários ou 121 investigação nos prontuários, os quais não coincidiam exatamente com as seis categorias propostas. Para podermos estabelecer algum tipo de classificação entre a variedade das informações apresentadas e, ao mesmo tempo, proporcionar a possibilidade de compararmos esses dados com a pesquisa realizada pelo IPEA, em 2005, consideramos importante agrupar a diversidade das categorias apresentadas nas categorias propostas pelo IPEA. Nas tabelas seguintes apresentamos os motivos de abrigamento já processados, segundo a classificação utilizada na pesquisa do IPEA. Quadro 13: Motivos de Ingresso das Crianças e Adolescentes negligência Abandono pelos pais ou responsáveis violência doméstica (maus tratos físicos e/ou psicológicos praticados pelos pais/responsáveis) vivência de rua carência de recursos materiais da família/responsável (pobreza) abuso sexual não informado submetido à exploração no trabalho, tráfico e/ou mendicância outros órfão (morte dos pais ou responsáveis) desestrutura familiar risco na comunidade problemas de comportamento insuficiência na rede de proteção pais dependentes químicos e/ou alcoólicos pais ou responsáveis detidos (presidiários) ausência dos pais ou responsáveis por doença submetido à exploração sexual (prostituição) pais ou responsáveis sem condições de cuidar, criança/adolescentes portador de HIV pais ou responsáveis sem condições de cuidar, criança/adolescente dependente químico pais ou responsáveis sem condições de cuidar, criança/adolescente portador de problemas mentais total 122 196 141 117 79 64 25 25 18 17 16 13 13 10 10 7 7 4 4 3 3 2 774 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 25,3 18,2 15,1 10,2 8,3 3,2 3,2 2,3 2,2 2,1 1,7 1,7 1,3 1,3 Motivos de Ingresso - Percentuais Gráfico 62: Motivos de Ingresso das Crianças e Adolescentes 0,9 0,9 0,5 0,5 0,4 0,4 0,3 Como podemos verificar, as freqüências mais altas entre os motivos de abrigamento expressados foram categorias gerais, que se combinam com as especificidades de cada caso. Do total de crianças e adolescentes abrigados, 196 dos casos tiveram como motivo informado a negligência dos pais ou família. No entanto, dessa população apontada como vítima de negligência, somente 8% foram classificados unicamente nessa categoria. Em geral, o rótulo de negligência é acompanhado de outras especificações, como negligência e abuso, negligência e maus tratos, negligência e situação de rua, entre outros. O segundo motivo de abrigamento mais freqüente foi o abandono por parte dos pais ou responsáveis. Do total, 18% das crianças e adolescentes abrigadas foram classificadas como tendo o motivo de ingresso o abandono, sendo que 9% foram definidas unicamente por essa classificação. Violência doméstica, categoria que inclui maus tratos físicos ou psicológicos, foi o terceiro motivo mais freqüente, com um percentual de 15%. Vivência de rua veio em seguida, com 10% dos casos, seguida da categoria carência de recursos materiais dos responsáveis, com o percentual de 8%. O restante das categorias de motivo de abrigamento não ultrapassou, em nenhum caso, 2%. Apesar da categoria negligência ser a mais freqüente e abarcar diferentes situações que provocam o abrigamento de crianças e adolescentes, esse motivo de abrigamento não está presente nas mesmas proporções nos diferentes tipos de abrigos. Enquanto nas unidades da rede própria a população negligenciada representa 22% do total de seus motivos de abrigamento, nos abrigos conveniados esse percentual representa 45% e nas unidades não conveniadas o percentual assemelha-se, ficando em 40%. A mesma situação acontece com a categoria abandono, que não está distribuída equivalentemente entre os diversos tipos de instituições. A percentagem de crianças abrigadas por abandono dentro da população acolhida nas unidades da rede própria é 8%, aumentando para 38% nas unidades da rede conveniada e representando 31% nas unidades da rede não conveniada. Quanto à presença da categoria abandono e sua distribuição dos diversos modelos de atendimento, vemos que a percentagem mais baixa de abrigamento por abandono encontra-se nos “abrigos para PNE’s”, responsáveis por 14% do total de abrigamentos por abandono, enquanto nas “casas-lar” esse percentual é de 30% e nos “abrigos” é 31%. Nas instituições destinadas para portadores de HIV esse percentual eleva-se, representando 42%. Já na categoria da vivência de rua, temos 41% das crianças e adolescentes que contam com vivência de rua como um dos motivos de abrigamento acolhidas nas unidades da rede própria, seguido do percentual de 38% acolhidas nas unidades conveniadas e 22% nas unidades não conveniadas. Dentro da população das unidades da rede própria, as crianças e adolescentes com vivência de rua representam 27%. Dentro dos abrigos conveniados e não conveniados, representam 12%. Ao analisar os motivos de abrigamento entre as unidades destinadas aos portadores de necessidades especiais e outros tipos de serviços, vemos uma incidência muito mais alta de abrigamentos produzidos por dificuldades econômicas dos pais. Nessa categoria, 55% das crianças e adolescentes abrigadas encontra-se em instituições destinadas aos portadores de necessidades especiais. No restante dos tipos de instituições o abrigamento por carência de recursos materiais de pais ou responsáveis não passa 13%. V- Considerações Finais O objetivo dessa pesquisa foi mapear a heterogeneidade dos serviços de abrigo em Porto Alegre, particularmente explorando as unidades de abrigamento vinculadas ao CMDCA. Nesse sentido, trouxemos alguns dados sobre o modo de funcionamento e sobre a lógica do “abrigar” referentes a três tipos de instituições, as unidades da rede própria da FASC, as unidades da rede conveniada à FASC e as 125 unidades não conveniadas. Também salientamos a existência de uma diferenciação fundamental entre essas unidades, referente ao que chamamos de modelo de atendimento, os “abrigos”, os “abrigos para PNE’s” e as “casas-lar”. As informações levantadas pela pesquisa mostraram que algumas das dificuldades habitualmente expressas como problemas gerais do serviço de abrigamento indisponibilidade de vagas, dificuldades econômicas, falta de capacitação e apoio para os funcionários, estruturas físicas e modos de vinculação comunitária, por exemplo - não estão distribuídas de forma homogênea entre os diferentes serviços. Apontar para essa diferenciação não significa constatá-los como algo dado, mas entender a própria dinâmica em que esta diferenciação se produz e reproduz e as formas em que ela condiciona as efetivas possibilidades de oferecer a proteção integral às crianças e adolescentes atendidos pela rede de abrigamento de Porto Alegre. Desta forma, a pesquisa apontou que existem algumas diferenciações que marcam a heterogeneidade dos serviços de abrigo existentes: a) A estrutura física das unidades: a rede de Porto Alegre é formada tanto por estruturas físicas caracteristicamente marcadas por um modelo institucional de “abrigo”, quanto por estruturas próximas ao modelo de uma “casa”. As estruturas do modelo de “abrigo” são prédios amplos, com muros ao seu redor e com condições de acolher mais de 15 crianças e adolescentes. Internamente, possui espaços coletivos como refeitório ou amplas cozinhas, quartos para mais de 4 crianças e adolescentes e funcionam com rotinas coletivas de atendimento. A estrutura física das “casas” tenta romper com os espaços despersonificados e as rotinas coletivas, investindo em equipamentos que recebem até 15 crianças, as quais comem nas cozinhas, têm quartos com até 4 pessoas, guarda roupas e roupas próprias para cada criança ou adolescente. Enquanto as estruturas físicas dos “abrigos” se localizam em regiões centrais e também periféricas da cidade de Porto Alegre, as estruturas das “casas” estão localizadas nas regiões periféricas da capital. Como vimos na pesquisa, 83% das estruturas de abrigamento de crianças e 126 adolescentes em Porto Alegre são próprias do modelo de “abrigo”. Considerando as orientações do ECA, seria adequado o investimento na presença de unidades menores, com uma maior flexibilização das rotinas e dos espaços físicos, como os que acontecem nas estruturas próximas ao modelo da “casa” aqui referido. b) A distribuição das crianças e adolescentes nos diferentes serviços de abrigamento: há uma diversidade no que diz respeito a distribuição das 514 crianças e adolescentes abrigadas em Porto Alegre no momento da pesquisa. Através da pesquisa, foi possível distinguir quatro possibilidades de colocação: casas lar com no máximo 15 vagas, abrigos de pequeno porte (de 15 a 25 crianças ou adolescentes), abrigos de médio porte (de 26 a 35 crianças e adolescentes) e abrigos de grande porte (mais de 35 crianças). Enquanto as casas lar representam 17% do total de unidades estudadas em Porto Alegre, os abrigos de grande porte predominam entre as unidades de “abrigo”, sendo responsáveis por 64% das unidades de “abrigo”. Quanto à distribuição da população atendida, verificamos que a maioria das crianças e adolescentes abrigados em Porto Alegre está em estruturas do tipo de “abrigo”, responsáveis por 85% do atendimento das crianças e adolescentes. Somente 15% das crianças e adolescentes vivem em “casas lar”. Uma característica importante do funcionamento da distribuição das crianças e adolescentes nas unidades é o fato da relação número de vagas oferecidas e ocupadas. Nesse quesito, chama a atenção a superlotação das unidades da rede própria, diferentemente do que ocorre nas demais unidades. Como procuramos destacar ao longo do relatório, a constante negociação entre a “demanda” e as vagas disponíveis nas casas deve ser aceita como problema do sistema e não de uma unidade ou outra. Efetivamente, o modo como o sistema de distribuição das crianças e adolescentes está sobrecarregando as unidades da rede própria, frente às demais. Consideramos ser necessário respeitar a tentativa dos diretores em manter a população das casas dentro do número e perfil de internos previstos. 127 c) Perfil das Unidades e das Crianças e Adolescentes: A pesquisa apontou que a maior parte das crianças e adolescentes está abrigado em instituições mistas, sendo que as crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais são os que estão mais freqüentemente abrigados em unidades especializadas ou com um “perfil” estabelecido. Por conta da necessidade de atenção especializada, essas crianças e adolescentes continuam abrigadas em instituições com um perfil destinado para o atendimento de PNE’s e nenhuma se encontra em casas lar. Por outro lado, há um “perfil” diferenciado de crianças e adolescentes abrigados em casas lar e abrigos, assim como diferenciações importantes entre as unidades da rede própria, conveniada e não conveniada. Nas unidades classificadas como “abrigos”, há mais crianças e adolescentes do sexo masculino, que são também mais freqüentes nas unidades da rede própria, quando comparados com as unidades da rede conveniada e não conveniada. O mesmo acontece com as crianças e adolescentes classificados como “pretos” e “pardos”, mais freqüentemente abrigados nas unidades da rede própria do que nas unidades da rede conveniada e não conveniada. Nas casas-lar também há menos “pretos” e “pardos” do que nas unidades de abrigo. Quanto ao uso de substâncias psico-ativas, 76% dos usuários são do sexo masculino e, na sua maior parte – 61% - estão acolhidos nas unidades da rede própria, sendo que a totalidade dos usuários de substâncias psico-ativas está acolhido nas unidades de “abrigo” e nenhum em “casas lar”. As unidades da rede própria são aquelas que abrigam crianças e adolescentes com menor tempo de abrigamento, em comparação com as unidades conveniadas e não conveniadas. É preciso reconhecer, portanto, que há uma dinâmica de encaminhamento e distribuição das crianças e adolescentes cujo “perfil” varia consideravelmente. Devemos entender como uma conseqüência do modo como funciona de distribuição das crianças e adolescentes e pensar nas diversas possibilidades de atendimento, de acordo com as possibilidades presentes e características particulares das crianças e adolescentes atendidos. 128 Como salientamos anteriormente, o trabalho a ser feito é o de pensar a heterogeneidade dos espaços e das crianças e adolescentes atendidos, flexibilizando as opções. É preciso refletir sobre o abrigamento das crianças e adolescentes com pouca vinculação familiar e perspectivas de retorno à família, mas também é necessário encontrar uma boa forma de atender crianças e adolescentes com passagens temporárias pelo abrigo, vinculação simultânea a múltiplos espaços, etc. Da mesma forma, flexibilizar os “perfis” hora constituídos: por que a cor é um critério importante para o encaminhamento das crianças e adolescentes para as casas lar? E o sexo? O que estamos chamando a atenção é para a necessidade de um trabalho contínuo de reflexão sobre o modo como a distribuição das crianças e adolescentes está funcionando. A partir do conhecimento e interrogação sobre como constituímos esse sistema distributivo poderemos encontrar soluções novas, princípios estruturantes diversificados e, quem sabe, mais eficazes no abrigamento de crianças e adolescentes. d) A autonomia gerencial e administrativa das unidades: existe uma heterogeneidade no grau de autonomia gerencial das unidades de abrigamento de crianças e adolescentes em Porto Alegre. Existem unidades que não recebem nenhum tipo de financiamento municipal, as unidades não conveniadas, assim como aquelas que recebem um per capita pelo número de vagas disponível na unidade, que são as unidades conveniadas, e por fim, existem as unidades da rede própria, financiadas diretamente pela FASC. As unidades não conveniadas são responsáveis por 29,10% das crianças e adolescentes abrigados, as unidades conveniadas são responsáveis por 46,10% das crianças e adolescentes e as unidades da rede própria atendem 24,4% das crianças e adolescentes. Durante a pesquisa, percebemos que há uma autonomia gerencial menor nas unidades da rede própria, em relação às demais unidades. Essa autonomia relativa das demais unidades – relativa porque continuam tendo que obedecer as prescrições do ECA e são fiscalizadas pelo CMDCA – incita possibilidades de acionar outras lógicas de arrecadação de recursos, lógicas que são constitutivas do 129 “abrigar” de tais unidades, como a procura pelo voluntariado, a realização de festas e promoções que objetivam arrecadar financiamento, a realização de projetos diversos. Essas atividades da rede conveniada e não conveniada promovem, ao mesmo tempo, uma vinculação comunitária importante para a manutenção da unidade e criação de laços sociais com a comunidade, tanto da própria unidade, como das crianças e adolescentes. Por outro lado, atividades como voluntariado, festas, promoções, etc, são menos recorrentes nas unidades da rede própria, em comparação com as unidades conveniadas e não conveniadas, fazendo com que a própria vinculação comunitária dessas unidades seja mais complexa, isto é, se dê prioritariamente.através das redes governamentais. e) “Espírito de Corpo”: As unidades da rede própria possuem uma lógica institucional marcada pela organização burocrática de especialização das funções, o que conduz a uma troca gerencial muito rápida, motivada por vinculações políticas, e uma vinculação institucional à FASC que caracteriza uma menor autonomia das unidades em relação ao gerenciamento de seus recursos. Isso tem como conseqüência a dificuldade em firmar um “espírito de corpo” nessas unidades, marcadas por clivagens funcionais e transitoriedade dos projetos. Nesse contexto, consideramos ser necessário garantir mecanismos que permitem o diálogo sistemático entre funcionários da rede própria, administradores da FASC e outras instâncias da rede de abrigos. No Fórum de Abrigos, por exemplo, que se reúne uma vez por mês no âmbito do CMDCA, existe uma ausência conspícua de funcionários de abrigos da rede própria. Esse funcionários, sobrecarregados no seu dia-a-dia, teriam que receber uma atenção especial para lhes permitir a participação eventual em eventos e instâncias que permitem melhor comunicação com a rede como um todo. O atendimento a crianças e adolescentes da rede própria está sendo mantido dentro de moldes aceitáveis graças, justamente, ao esforço dos funcionários. Seria, portanto, um erro imaginar que a situação seria melhorada com a troca de funcionários. Essa solução pueril a problemas institucionais já foi experimentada em administrações 130 anteriores (no RS e outros estados) com conseqüências desastrosas. O desafio é de encontrar uma maneira para criar condições que dão vazão à competência, experiência e engajamento dos funcionários já presentes no sistema. f) A Vinculação Comunitária e Familiar das Crianças e Adolescentes: a pesquisa apontou que, se a vinculação comunitária das unidades da rede própria é menos estabelecida frente às unidades da rede conveniada e da rede não conveniada, por outro lado, as crianças e adolescentes da rede própria são as que mais possuem vínculos familiares. Nas casas lar, há o maior percentual de crianças e adolescentes sem vínculos familiares e sem perspectivas de retorno à família. São essas crianças com a situação jurídica mais freqüentemente classificadas em destituição ou suspensão do poder familiar. Para essas unidades, o desafio seria tentar incorporar outras redes de pertencimento – as redes familiares, quando juridicamente possível – expandindo o leque de possibilidades de criação de laços sociais dessas crianças e adolescentes. Como vimos, uma das maiores tensões para as “mães sociais” das casas-lar onde há coabitação da família acolhedora e crianças e adolescentes é a etapa do desligamento, o que fazer com as crianças e adolescentes quando chegarem aos 18 anos. Esse período coloca em evidência um componente visto como problemático para os “pais sociais” envolvidas com a experiência das casas-lar: a necessidade de “fazer família” e criar um pertencimento afetivo das crianças e adolescentes X a situação formal de “pais sociais”. A tarefa deve ser de explorar esses paradoxos e desafios do trabalho cotidiano, formulando alternativas baseadas na prática das experiências e no diálogo com as demais alternativas existentes de abrigamento e soluções encontradas. O avanço das discussões deve ser no sentido de ampliar as opções existentes, experimentando e aproveitando soluções anteriores já discutidas e implementadas. g) Vinculação Religiosa e Profissionalização do Atendimento: A pesquisa demonstrou que o modelo das “casas-lar” é aquele com uma maior incidência de vinculação religiosa institucional formal. Das 9 casas lar pesquisadas, 7 eram 131 ligadas à instituições religiosas. Por outro lado, verifica-se uma tendência à profissionalização de unidades com antigas vinculações religiosas, especialmente nas unidades para PNE’s, o que é muito positivo no sentido de qualificação dos funcionários e do próprio atendimento realizado. A realização de projetos de atendimento com um número menor de crianças e adolescentes não deve ser realizada como uma alternativa de barateamento do atendimento, mas sim de qualificação deste. Assim, o investimento na profissionalização e qualificação dos quadros de recursos humanos é essencial para as unidades em Porto Alegre. Como os dados da pesquisa mostraram, quase a metade dos trabalhadores têm menos de 5 anos de trabalho nas unidades, o que convida a um esforço para sua incorporação dialógica em projetos e experiências no atendimento das crianças e adolescentes. Em suma, as unidades de abrigamento pesquisadas em Porto Alegre apresentam uma heterogeneidade importante, em múltiplos aspectos. Como a própria realidade é múltipla e diversificada, o esforço não deve ser de padronização das diferenças, mas uma atenção à diversidade das realidades e das opções existentes. A comparação entre experiências é produtiva, pois possibilita uma reflexão sobre os modos existentes do “abrigar” e suas possibilidades de melhoria criativa. O Brasil tem uma longa história de institucionalização de crianças e adolescentes, tendo desenvolvido diversas opções para o atendimento dessa demanda pública. No contexto social e político brasileiro, o abrigamento é uma demanda pública séria, que merece reflexões e soluções comprometidas com as práticas diárias das soluções hora existentes. O esforço deve ser o de procurar incorporar as experiências passadas à luz das problemáticas presentes, investindo seriamente na promoção de equipamentos adequados ao abrigamento. Apesar de não haver uma proposta ideal ou que deve ser um padrão para o funcionamento dos abrigos, na experiência de pesquisa ficou claro que certos elementos compõem um ambiente mais saudável e acolhedor nas unidades: a 132 personalização dos espaços, das roupas, dos pertences; a proliferação das vinculações comunitárias (cursos, igreja, vizinhança, padrinhos afetivos, redes familiares amplas, etc), que abre um leque amplo de possíveis fontes de pertencimento; a flexibilização dos espaços internos nas unidades, com a circulação de crianças e funcionários pela diversidade dos locais existentes; o número reduzido de crianças e adolescentes abrigados em cada unidade, a não rigidez dos “perfis” de atendimento em cada unidade. Todos esses fatores devem ser experimentados à luz das experiências atuais e das práticas do dia a dia, em diálogo e comparação com outras maneiras de construir o “abrigar”, prática em constante construção. 133 Referências Bibliográficas: INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO EM FAMÍLIA (IBDFAM). Infância em Família: Um Compromisso de Todos. POA, IBDFAM, 2004. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Levantamento Nacional para Crianças e Adolescentes da Rede de Serviços de Ação Continuada (SAC). Relatório de Pesquisa nº 1. Brasília, IPEA, outubro de 2003 (mimeo). FUNDAÇÃO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E CIDADANIA (FASC). Relatório Quantitativo da Rede de Programas e Serviços de Janeiro a Dezembro de 2003. POA, FASC/Assessoria de Planejamento, 2004 (mimeo). GRUPO DE PESQUISA “VIOLÊNCIA E CIDADANIA”. Relatório Final. Estudo sobre a Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente em Porto Alegre. POA, IFCH/UFRGS, fevereiro de 2005 (mimeo). MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo, Abril Cultural, 1976. TERRA DOS HOMENS. Pesquisa Reordenamento de Abrigos do Rio de Janeiro. RJ, Terra dos Homens, sem data (mimeo). 134 Contato: Patrice Schuch Fone: 3342-6037 (residencial) e 99859883 (celular) E Mail: [email protected] Claudia Fonseca Fone: 3316-6867 (Núcleo de Antropologia e Cidadania/UFRGS) E Mail: [email protected] 135