ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: A QUESTÃO DE NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS
PARA A SUSTENTABILIDADE
(Publicado em Meio Ambiente: questões conceituais. Niterói, UFF/PGCA-Riocor, 2000, pp. 123 –155)
Selene C. Herculano
[1]
(clique aqui para ver a capa do livro)
Introdução
As Organizações Não-Governamentais – ONGs - e os Movimentos Sociais têm se apresentado no cenário
brasileiro como alternativas de exercício de cidadania e como atores políticos necessários para se alcançar o
desenvolvimento sustentável, aquele que promoveria a um só tempo justiça social e equilíbrio ambiental. Sendo
organizações movidas pelo interesse público e sem fins lucrativos, ONGs e Movimentos representam um lado da
Sociedade Civil que está em contraposição ao mundo da produção que, de mãos dadas com o Estado, tem sido
protagonista até aqui de um crescimento econômico desigual, socialmente injusto e degradador do meio ambiente.
Focalizaremos neste artigo a origem e os diferentes significados socialmente construídos, relativos a estes
dois conceitos centrais ao estudo do associativismo: “ONGs (organizações não-governamentais)” e “Movimentos
Sociais”, no que diz respeito à temática do meio ambiente e ao papel que nele têm buscado desempenhar, o do
exercício diferenciado de uma cidadania ampliada.
Quem transita entre os ambientalistas e outros ativistas sociais (movimentos de moradores, de mulheres, de
etnias, etc.), ouve-os ora se auto-referirem como "ONGs" (organizações não-governamentais), ora como
"movimentos". De onde surgiram e o que significam tais termos? Há diferenças entre um e outro? Quais? Que
implicações tais diferenças trariam em termos de ações de cidadania? Como pensar sua relação com o Estado e as
parcerias que começam a surgir?
Embora o campo ambientalista incorpore também o oficial - que é formado no Brasil pelos organismos
estatais de meio ambiente que integram o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA) – além do ambientalismo
civil, formado por associações voluntárias diversificadas e com diferentes graus de organicidade, este artigo versará
apenas sobre o campo da sociedade civil, integrado por diferentes tipos de organizações:
1) um associativismo de cidadãos, que engloba desde as associações ambientalistas strictu sensu, sejam
elas conservacionistas ou preservacionistas, em defesa de florestas, áreas verdes, animais e ecossistemas,
incluindo também as associações de excursionistas, de amantes da natureza, etc., até as associações de
moradores que reivindicam qualidade de vida urbana. Enquanto nos Estados Unidos e em outros países este
associativismo é pujante, ligando centenas de milhares de pessoas (em alguns casos, milhões) a cada
associação e movimentando milhões de dólares, no Brasil as associações ambientalistas costumam ser
pequenas (na casa das poucas dezenas de filiados), com baixo grau de organicidade ou apenas
mínimamente formais (têm estatutos, mas não têm recursos financeiros nem sede, vivenciando ainda uma
situação de precariedade de equipamentos fundamentais de comunicação - telefone, fax, computador – e
funcionando em escolas, clubes, universidades, às custas de equipamentos e material particulares, cedidos
pela diretoria militante, diretoria ou coordenadoria, frequentemente mais extensa que o número de seus
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ativistas filiados). Ou então são totalmente informais e fluidas, constituídas por grupos de alunos e grupos de
vizinhança, que surgem engrossando manifestações públicas episódicas e pontuais.
2) Os institutos e fundações, com mais organicidade, são formados por profissionais predominantemente
apoiados política e financeiramente por outros institutos e fundações de âmbito internacional; podem ser
formal ou informalmente ligados a partidos políticos ou a igrejas, a federações sindicais, estar em simbiose
com gabinetes parlamentares nacionais, ou serem fundados por profissionais egressos de organismos de
governo. Têm uma ação pedagógica, atuando como assessoria à cidadania e como instrumentos de pressão,
firmando-se como interlocutores competentes diante do Estado e da imprensa, em favor de políticas públicas
diretamente ambientalistas ou em consonância com políticas ambientalistas. Exemplos: Funatura, Fundação
Onda Azul, Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Sócio-Ambiental, e ONGs de assessoria a movimentos
populares, tais como ISER, FASE, IBASE, etc.
3) Outros movimentos sociais sintonizados com a temática ambientalista, quase sempre de mais alta
organicidade e institucionalidade. No caso brasileiro, podemos citar como interfaces sociais do
ambientalismo as seguintes entidades: o Conselho Nacional dos Seringueiros, cuja defesa do extrativismo da
borracha e da castanha se harmoniza com a defesa da Floresta Amazônica, ou o Movimento Nacional dos
Atingidos por Barragens, que, ao questionar o Plano Hidrelétrico Brasileiro, construiu uma agenda com
pontos em comum com a agenda dos ambientalistas, inclusive nas críticas às irracionalidades do modelo de
desenvolvimento que vem nos (des)orientando. E ainda movimentos mais institucionalizados, como o
indígena, o negro e de mulheres, que invocam a cultura silvícola, a essência da natureza feminina e da
religiosidade negra como evidências da convergência natural destes atores sociais com as políticas
ambientalistas.
A construção das identidades dos ambientalistas como ONGs ou como associações e/ou movimentos guarda
traços de ambiguidade. Entre os norte-americanos e os europeus, por exemplo, os três tipos acima são definidos
como “ONGs”, indistintamente. No Brasil, as entidades que se encaixam no perfil da segunda categoria se
autodefinem como ONGs, chamando aos demais de “movimentos”. O critério divisor é o da competência e da
institucionalidade. Todavia, os cidadãos associados, não importa se poucos e se informais, buscam também se
definirem como “ONGs”, assim disputando espaços de influência e também de parcerias com os órgãos de Estado,
implicitamente recusando tal critério divisor.
Tentaremos esclarecer a ambiguidade do termo “ONGs” analisando seus três significados. ONGs podem ser:
1) Entidades do Primeiro Mundo, que captam recursos para o Terceiro, viabilizando políticas de
solidariedade. São as ECF (entidades internacionais de co-financiamento), que buscam carrear recursos
para a execução de programas de ação do Terceiro Mundo. São às vezes apodadas, não sem certa
mordacidade, como Trangos (ONGs transnacionais), Quongos (quase ONGs) ou Bingos (big, grandes
ONGs).
2) Institutos e fundações do Terceiro Mundo, que recebem tais recursos da rede de solidariedade das ONGs
do primeiro Mundo, e que buscam o desenvolvimento social, a animação e organização de atores políticos
coletivos. Seriam as APDs ou SMPs (associações privadas de desenvolvimento ou a serviço do movimento
popular).
3) As associações civís de cidadãos independentes, em torno de questões de interesse público.
ONGs: o conceito e sua história
As conferências da ONU e sua divulgação pela imprensa consagraram no
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mundo todo as ONGs - organizações não-governamentais - e seus fóruns internacionais de cidadãos, fazendo
contraponto e crítica à fala oficial dos governos. O próprio mundo das ONGs tem produzido uma literatura dedicada
a definir seus próprios contornos, características, objetivos e estratégias. Assim é que, dentre outros, Fernandes
[2]
(1994) e a Civicus (1995) tratam da emergência de uma Sociedade Civil a qual denominam como um Terceiro
Setor, algo que nem é o Estado, nem é o mercado: é um setor privado mas público, formado por institutos,
associações, fundações e filantropias empresariais, cujo motor comum é o interesse público e a construção do bem
comum e cuja organização almejaria a construção de uma "sociedade civil planetária", transnacional.
Na retórica das ONGs/APDs brasileiras, este Terceiro Setor referia-se inicialmente a uma Sociedade Civil
marcada predominantemente pelo confronto e pela oposição ao Estado. Assim Betinho (o sociólogo Herbert de
[3]
Souza,fundador da ONG Ibase) acentuava a oposição entre a planície - a sociedade civil, o povo - e o planalto , o
governo: haveria um mundo pujante, dinâmico e transformador, que seria o mundo da planície, da Sociedade Civil, a
se contrapor ao Estado, o mundo oficial, ao planalto, pesado, paquidérmico e perigoso:
"Enquanto o governo federal tenta destruir o Brasil e a democracia por cima, a sociedade reconstrói pela base,
ocupando os espaços sociais, políticos, econômicos e culturais das cidades, onde afinal vive e mora todo
mundo". (Herbert de Souza, Publicação CEBEP, mar/abr 92)[4]
"A luta pela democracia, porém, continuou pela Nova Constituição, o Movimento pela Ética na
Política, o impeachment, a CPI da Corrupção, a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. O
fundamental foi que tudo isso aconteceu por pressão da sociedade, da planície. No poder ainda mora o perigo.
Na planície é que cresce e se consolida a democracia, essa que muda o rumo das coisas, que tenta enterrar a
senzala e libertar definitivamente os escravos de nossa cultura, de nossa economia e da política." (Souza,
1994)[5]
Neste tipo de retórica, o Estado se confunde com o governo, algo assemelhado à máquina parasitária
bonapartista criticada por Marx, enquanto a sociedade, por oposição, é algo local, portanto não apenas mais
concreto, mas melhor, por tender essencialmente a ser mais democrática:
As ONGs, tanto quanto os Movimentos Sociais são também auto-definidos como
"espaços públicos por fora da esfera do Estado, responsáveis pela instituição de novos valores, normas e
padrões de comportamento que questionam profundamente o atual modelo de desenvolvimento" e que por
isso "são hoje, talvez, os atores potencialmente mais capazes de romper com a lógica individualista e
predatória". (Fórum das ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, 1992)
Mas, o que são exatamente as ONGs? Qual a sua história? O que é e o que não é ONG? Vejamos a seguir
a construção do seu significado no contexto internacional, onde foram gestadas, e no contexto nacional.
[6]
No contexto brasileiro, foi a partir da UNCED/CNUMAD
e suas conferências paralelas, organizadas estas
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últimas por iniciativas da sociedade civil e das "ONGs, que a sigla começou a se popularizar entre nós, passando a
ser, atualmente, uma palavra cotidiana e corriqueira na nossa imprensa.
Assim, as ONGs surgiram no contexto internacional: o termo "ONG - organizações não-governamentais" vem do vocabulário da ONU (a Ata de Constituição da ONU o menciona em seu artigo 71, ao estabelecer que seu
Conselho Econômico Social - ECOSOC - poderia fazer acordos adequados de consultoria com organizações nãogovernamentais). É, segundo Castillo (1982), um conceito genérico, que pode se referir a centros de pesquisa,
partidos, organizações sindicais, igrejas, associações profissionais, universidades, órgãos de setores populares,
entidades de cooperação financeira internacionais ou localizadas no terceiro mundo e dedicadas específicamente a
promover e realizar projetos de desenvolvimento. "Uma definição tão ampla incluiria até mesmo a Ku-Klux-Klan",
criticou o Ministro do Exterior holandês, em 1979. O termo ONG foi definido como "a broad umbrella for a
kaleidoscopic collection of organizations" e também como "um novo profissionalismo". (Cernea, 1988)
Trangos, Quongos e Bingos
Para Nerfin, "há ONGs e ONGs", isto é, há as que servem verdadeiramente à causa da emancipação
popular, bem como há aquelas que estão contentes em fazer parte do sistema de implementação de um
desenvolvimento que não é questionado, que querem é "sua ração no caldeirão das verbas" e que têm práticas que
misturam "paternalismo, subserviência e corrupção à humilhação e mentiras para sua autopreservação". Segundo
Nerfin (1991), haveria cerca de 12.000 ONGs ligadas ao sistema das Nações Unidas. As ONGs do ECOSOC da
ONU são descritas pelo autor como um "saco de gatos", obsoletas e improdutivas; as do Departamento de
Informação Pública, também da ONU (336, segundo dados citados por Castillo para 1980) são definidas por Nerfin
como "correia de transmissão da cultura intergovernamental, que é destilada de cima para uma opinião pública vista
como um receptor passivo ou como algo a ser mobilizado".
As ONGs de cooperação para o desenvolvimento surgiram a partir da criação do PNUD (Programa de
Desenvolvimento das Nações Unidas): são as ONGs do Norte, TRANGOs, segundo o autor, pois são transnacionais
que lidam com um fluxo de ajuda Norte-Sul da ordem de bilhões de dólares. Segundo Cernea, do Banco Mundial, a
ajuda das ONGs para o dito Terceiro Mundo havia aumentado de 0,9 bilhões de dólares em 1970 para 1,4 bilhões
em 1975 e 4 bilhões em 1985; segundo Assumpção (1993:9), entre 1960 e 1980 houve um aumento de 68% na
ajuda externa para o terceiro mundo, através de agências não-governamentais de países europeus, do Canadá e
dos Estados Unidos: de 2,8 bilhões para 4,7 bilhões de dólares (dólar de 1986); segundo Nerfin, a ODA - Official
[7]
Development Assistance - teria totalizado 55 US$ bilhões para o biênio 1988-89 . São recursos que, observa
Nerfin, acabam retornando aos doadores na forma de custo de especialistas, pagamento de produtos, serviços,
estudos, etc.
Segundo Onorati (1991), há ONGs européias, que ele define como "quase ONGs" - QUONGs - que foram
criadas por instituições tais como as Igrejas, os partidos políticos e as centrais sindicais, para movimentar as cotas
mais relevantes da ajuda pública para o desenvolvimento, proveniente dos governos e que saem dos impostos dos
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cidadãos. Há as BINGOs (big ONGs), com orçamentos de centenas de milhões de dólares, com ligação direta com
bancos, governos e mass media, com uma visão assistencialista e uma ação de sustentáculo dos grandes partidos
políticos europeus. Há ainda, na tradição cultural de países europeus, o sistema de fund raising para fins de
caridade. Onorati denuncia, sem citar exemplos, as vantagens desta cooperação do norte com o sul, que, nos dois
hemisférios, acaba por beneficiar camadas restritas, minoritárias e parasitárias, reforçando os instrumentos de
acumulação e de controle.
Em 1960 foi assinada a convenção de criação da OECD (Organization for Economic Cooperation and
Development), que se efetivou a 30/9/61, para promover políticas de garantia de crescimento econômico e crescente
elevação de padrão de vida aos seus membros (de início 20 signatários). Em torno dela várias ONGs surgiram e
outras a ela se vincularam: o Catálogo da OECD para 1991 arrolava 457 ONGs, dedicadas a linhas de
solidariedade: pão para o mundo, médicos, engenheiros e veterinários sem fronteiras, centros de educação
sanitária, de tecnologias agrícolas, de rede de água, redes e centros de desenvolvimento, auxílio a idosos, a
crianças, pelo desenvolvimento das mulheres, de alívio à pobreza, associações cristãs de solidariedade, sem teto,
centros de apoio à África, etc. As ONGs para o meio ambiente começaram a aparecer a partir da segunda década
de 80, predominantemente.)
ONGs ambientalistas de escala mundial
Algumas das mais antigas e mais ricas das ONGs ambientalistas que constam desde catálogo da OECD são:
Organizações
Ano de criação
País
World Wildlife Federation - WWF
Audubon Society
The World Conservation Union IUCN
World Wide Fund for Nature
1951
1905
1948
Suíça
EUA
Suíça
1963
Austria
Amici dello Stato Brasiliano dell’
Espirito Santo
World Nature Association
Rainforest Action Network
Africa 70
Center for Our Common Future COCF
Royal Forest and Bird Protection of
New Zeland
1966
Itália
1969
1985
197I
1988
EUA
EUA
Itália
Suíça
2 milhões e 638
mil
2 milhões e 514
mil
2 milhões
1 milhão, 150 mil
1milhão e 879 mil
1.296 mil
1923
Nova Zelândia
894 mil
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Orçamento em
US$, 1990
60 milhões
44 milhões
33 milhões
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Amis de la Terre
1970
FR
367 mil
Common Wealth Human Ecology
1969
UK
85 mil
Council
Fonte: Directory of Non-Governmental Environment and Development Organisations in OECD Members Coubntries. Geneve, OECD, 1992.
Os Estados Unidos arrolam, como suas maiores ONGs ambientalistas as que se seguem no quadro abaixo:
ONGS LOBISTAS, que atuam no
Congresso, por políticas
ambientais
Sierra Club
National Audubon Society
National Parks & Conservation
Association
Izaak WaltonLeague
The Wilderness Society
National Wildlife Federation
Defenders of Wildlife
Environmental Defense Fund
Friends of the Earth
Natural Resources Defense
Council
Environmental Action
Environmental Policy Institute
Total: 12
ANO DE FUNDAÇÃO
ASSOCIADOS EM 1960 ASSOCIADOS EM 1990 ORÇAMENTO EM 1990
(milhões US$)
1892
1905
1919
15.000
32.000
15.000
560.000
600.000
100.000
35,2
35,0
3,4
1922
1935
1936
1947
1967
1969
1970
51.000
10.000
-
50.000
370.000
975.000
80.000
150.000
30.000
168.000
1,4
17,3
87,2
4,6
12,9
3,1
16,0
1970
1972
s.a.
123.000
20.000
s.a.
3.103.000
1,2
1,2
217,3
Fonte: Mitchell, Mertig e Dunlap, 1992
e
ONGs NÃO-LOBISTAS, de ação direta
e construção de apoio mútuo
De Ação Direta:
Greenpeace USA
Sea Shepherd Conservation Society
Earth First!
Preservacionistas:
Nature Conservancy
World Wildlife Fund
Rainforest Action Network
Rainforest Alliance
Conservation International
Contra Dejetos Tóxicos
Citizen's Clearinghouse for
Hazardous Waste
National Toxics Campaign*
League of Conservation Voters
Sierra Club Defense Fund
Earth Island Institute
Total: 13
ANO DE FUNDAÇÃO
ASSOCIADOS EM 1990
ORÇAMENTO EM 1990
(MILHÕES DE US$)
1971
1977
1980
2.300.000
15.000
15.000
50,2
0,5
0,2
1951
1961
1985
1986
1987
600.000
940.000
30.000
18.000
55.000
156,1
35,5
0,9
0,8
4,6
1981
7.000
0,7
1984
1970
1971
1982
100.000
55.000
120.000
32.000
4.287.000
1,5
1,4
6,7
1,1
260,2
Fonte: Mitchell, Mertig e Dunlap, 1992 (apud Gifford, 1990)
As ONGS do Terceiro Mundo: APDs, CDs, SMPs; as ONGS/ SMP no Brasil
As ONGs do Terceiro Mundo, recebedoras dos recursos das Trangos, Quongos e Bingos, foram definidas
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por Castillo como APDs - associações privadas de desenvolvimento - entidades genéricas que na América Latina se
denominaram "centros de desenvolvimento", na África "entidades de animação" e na Ásia "organizações
voluntárias". Landim, para sublinhar sua especificidade e sua diferença em relação às ONGs em geral (Trangos,
Quongos e Bingos), as denomina por SMP, "a serviço do movimento popular".
Estas ONGs/APDs ou SMP caracterizar-se-iam por serem entidades não-públicas; por atuarem dentro dos
marcos do sistema, contando com personalidade jurídica e reconhecimento legal; por não terem fins lucrativos; por
terem atividades orientadas em favor do desenvolvimento participativo e em benefício de pessoas e grupos distintos
dos seus próprios membros. Buscariam melhorar as condições de vida dos setores populares, a satisfação de suas
necessidades básicas ou, mais além, a transformação total das estruturas econômicas e sociais existentes.
"As ONGs que entram no campo do desenvolvimento, elas se marcam no sentido de dizer: 'nós não
queremos emendar, queremos criar condições para o desenvolvimento'... A grande época em que tudo isso
toma forma e consistência é nos anos 60, a grande época do desenvolvimentismo, quando se constituíram
uma série de ONGs no Norte, de financiamento. Têm também instâncias ecumênicas, como o Conselho
Mundial de Igrejas, que articula boa parte das igrejas do mundo inteiro... O desenvolvimento teria que passar
através dos povos, teria que valorizar a participação dos povos, teria que ter um grau de autonomia muito
grande. Era claro o distanciamento dessas entidades de base dos grandes projetos públicos de
desenvolvimento... No começo, foi essa crença um pouco ingênua no desenvolvimentismo, de que o que
faltava no Terceiro Mundo eram quadros técnicos, profissionais e recursos financeiros. Teve um sentido de
apoio, de ir às causas e as causas eram vistas como falta de educação, de instrumentos par viabilizar a
agricultura, recursos. Nesse sentido, não foi um assistencialismo. Esse mundo das ONGs não partiu de um
pensamento comum: partiu de realidades múltiplas, diversas; o que têm em comum é a idéia de um serviço,
de ajudar o surgimento dos movimentos. Essas agências não queriam dar dinheiro para comprar
alimentação, mas ensinar o povo a produzir melhor. Havia por parte dos militantes um projeto de
Terceiromundismo, de solidariedade internacional, uma terceira via, talvez". (J.P. Leroy, FASE, em entrevista
à autora em janeiro de 1992).
Landim (1988) definiu este mundo como formado por "entidades que se apresentam como estando a serviço
de determinados movimentos sociais de camadas da população oprimidas ou exploradas ou excluídas, dentro de
perspectivas de transformação social". Mais do que não-governamentais, essas entidades foram por ela definidas
como "anti-governamentais". Em sua listagem encontrou, em 1988, para o Brasil, 1041 organismos, onde incluiu
tanto as organizações de assessoria a serviço dos movimentos populares (SMP) quanto os próprios movimentos e
grupos mais informais.
[8]
Para a autora, o mundo das ONGs é característicamente transnacional e seu objetivo é a
busca de espaço de cidadania e o desenvolvimento. Existiria, ainda, uma "gente das ONGs", que "constrói textos,
laços e idéias de forma capilar e cujo papel seria o de ser o 'novo intelectual', 'comprometido', 'a serviço', em
oposição ao 'intelectual acadêmico'".
Segundo Fernandes (in Landim, 1988) as ONGs do Terceiro Mundo remontam aos anos 50 e apresentaram
notável proliferação no Brasil na década de 1970; seus membros provém das elçites intelectuais, com origens nas
universidades, igrejas, partidos e/ou organizações de militância de esquerda que tiveram "laços mútuos de
relacionamento" baseados em "experiências passadas comuns", sendo uma alternativa ao "isolamento da
academia". Para o autor, "os quadros das ONGs são membros das elites e não perdem a sua familiaridade com as
transações de alto nível". Nas relações entre Estado e Sociedade Civil, as ONGs preferiram dar as costas ao
Estado e atentar para os poderes difusos que circulam nas bases da sociedade, em algo que lembra ao autor o
populismo russo em seu mote "vamos ao povo". (In Landim, 1988:11)
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Neste sentido, as ONGs a serviço do movimento popular são assim definidas:
"organizações privadas não-empresariais, dedicadas à ação social no espaço público, em benefício de
camadas excluídas da população". (Assumpção,1993)
ou
"canais de articulação das classes médias na esfera pública, exercendo funções de tradução e de
rearticulação dos interesses e demandas dos setores populares nas arenas institucionais de confronto e
negociações sociais." (Oliveira Neto 1991:151, apud Assumpção)
As ONGs aproximariam teoria e prática, integrando intelectuais aos movimentos sociais, promovendo
participação popular no sentido de consolidar a sociedade civil. Fernandes as define como "pequenos barcos no
oceano social" e "pequenas ilhas que se querem anunciadoras de um mundo melhor" (in Landim, 1988). Quanto ao
seu estilo de pensamento, seriam, segundo ele, "anarco-socialistas-liberais-conservadoras" e manteriam suas
características básicas - a autonomia e o anti-institucionalismo - ao mesmo tempo em que se fortaleceriam através
da existência de redes. Financiadas por agências estrangeiras, não formariam um campo de paz idílica e sim um
campo rico de tensões difusas.
Elas seriam "microorganismos do processo democrático" (Souza, 1992:143), "espécie de aparelhos para
vocações políticas individuais, onde se manteria acesa a chama da resistência, além de ser uma fonte de emprego,
e onde o não fazer nome era uma qualidade cultivada" (Assumpção, 1993: 3-4). Segundo Souza (Betinho), as ONGs
se definem pelo que não são: "não são Estado, Não são mercado nem instituições clássicas do mundo religioso,
acadêmico ou político". Foram uma "espécie de espaço alternativo para a militância política", "em oposição ao
Estado e de costas para o mercado". Buscando "democratizar o mercado", submetendo-o ao controle democrático
da sociedade, e "democratizar o Estado, desprivatizando-o e restabelecendo seu caráter público", as ONGs são
definidas pelo sociólogo como "instituições genéticamente anti-capitalistas"que recebem verbas do próprio Estado e/
ou de fundações internacionais.
[9]
No Brasil, as ONGs/SMP, de assessoria, tanto quanto os Movimentos Sociais, nasceram com uma posição
reativa e crítica em relação ao Estado, identificando-o ao poder executivo federal na sua roupagem autoritária e
ditatorial. Há justificativas históricas para tal viés anti-estatista, que acabou contaminando a perspectiva teórica a
respeito da relação Estado-Sociedade Civil, suas identidades e papéis, em uma perspectiva de traços maniqueístas,
ou seja, de um lado o mau Estado, do outro, as boas ONGs representando a Sociedade Civil. ONGs e Movimentos
Sociais têm construído um campo, o da Sociedade Civil, no qual se auto-definem como figuras ilibadas, idealistas,
competentes, frente a um Estado corrupto e incompetente.
" As ONGs são simplesmente atores sociais da sociedade civil, entre outros, trabalhando pela
construção de sociedades democráticas, ou simplesmente sofrendo com a sua ausência... O campo das
ONGs é a dimensão social do desenvolvimento (....) As ONGs brasileiras, em sua grande maioria,
nasceram em função e em consequência da luta política da sociedade civil contra o regime autoritário que
se implantou para servir ao grande capital, em 1964. Nascem contra o Estado e de costas ou à margem do
mercado...A maioria das ONGs brasileiras nasce entre as décadas de 60 e 80 e se caracteriza por uma
existência quase clandestina, ligada aos movimentos sociais de base, às Igrejas, aos movimentos sindicais
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e populares, executando tarefas fundamentalmente nas áreas de educação, saúde, habitação e consultoria
a esses movimentos chamados 'populares' (leia-se sociedade civil pobre e reprimida) ...Vivem e sobrevivem
graças à solidariedade internacional (a chamada cooperação internacional ao desenvolvimento), que chega
através das ONGs do Norte que, por sua vez, repassam recursos, mobilizadas por razões humanitárias e de
seus governos pressionados por sentimentos de culpa de quem se enriquece graças à desigualdade
internacional...As ONGs brasileiras se desenvolveram, portanto, contra o Estado... mas não querem sua
eliminação (pelo menos por agora), mas sua transformação, sua democratização...As ONGs brasileiras
também não se sentem bem em sua relação com o mercado, em razão de seu caráter excludente,
individualista, insensível aos argumentos democráticos e humanitários que devem iluminar a construção de
uma nova sociedade...O Banco Mundial descobriu as ONGs. Elas eram honestas, competentes, pequenas,
flexíveis e eficientes. Tinham todas as vantagens para substituir o Estado corrupto, incompetente, gigante,
burocrático e ineficiente...O papel das ONGs na década de 90 é pura e simplesmente propor à sociedade
brasileira, a partir de sua posição na sociedade civil, uma nova sociedade cuja novidade estará... na
condição e qualidade universal de ser democrática...Definir e propor essa qualidade é o desafio específico,
não exclusivo, que as ONgs devem responder para fazer jus à sua própria existência...Não basta não ter os
vícios do Estado e do mercado, é necessário agora demonstrar para que servem as nossas idéias e
virtudes. (Souza, Herbert, 1991) (destaques meus)
Arruda analisou a interação e colaboração entre ONGs e Banco Mundial como uma conquista da pressão
destas pela publicização e democratização das atividades das instituições multilaterais. Esta pressão se
configurou a partir de 1984, quando se instituiu o GTONG – Grupo de Trabalho das ONGs sobre o Banco
Mundial, a partir da decisão das ONGs membros do Comitê de ONGs do Banco Mundial de terem um perfil
próprio. Assim, as ONGs chamaram a si um papel advocatício, agindo como um canal, oferecendo acesso às
informações do Banco Mundial e transmitindo informações e análises em favor dos necessitados (ARRUDA,
1995:37)
Dentre as cerca de quatrocentas ONGs/SMP brasileiras, destacamos:
FASE: Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional, RJ, 1961
ISER - Instituto de Estudos da Religião, RJ, 1970
IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, RJ, 1979
INESC: Instituto de Estudos Sócio-Econômicos, Brasília, 1979
CEDAC: Centro de Ação Comunitária, RJ, 1979
CECIP: Centro de Criação de Imagem Popular, RJ, 1987
IDACO: Instituto de Desenvolvimento e Ação Comunitária; RJ, criado em 1988
Entidades ambientalistas brasileiras
Enquanto as ONGs a serviço do movimento popular (ONGs/SMP) têm alta organicidade, o movimento
ambientalista nacional, embora internamente diversificado, tende a ter um outro perfil. Listamos a seguir algumas
organizações ambientalistas brasileiras de mais antiguidade e mais projeção política, com atuação em âmbito
nacional:
Entidades ambientalistas brasileiras fundadas entre 1970-1985
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
CECNA - Centro de Estudos e Conservação da Natureza
FAMA - Federação das Associações Ambientalistas
AGAPAN - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural
CDN - Campanha em Defesa da Natureza
ACAPRENA - Associação Catarinense de Preservação da Natureza
CNFCN - Centro Norte-fluminense de Conservação da Natureza
SAPLAM - Sociedade dos Amigos das Praias e Lagoas de Maricá
APAN - Associação Paraibana de Amigos da Natureza
APANDE - Associação Amigos de Petrópolis, Patrimônio, Proteção aos
Animais, Defesa da Ecologia
APROBO - Associação dos Protetores da Natureza dos Vales da Bocaina
AMDA – Associação Mineira de Defesa Ambiental
ADEAM - Associação de Defesa e Educação Ambiental de Maringá
ASPAN - Assoc. Pernambucana de Defesa da Natureza
ARCA - Associação para Recuperação e Conservação do Ambiente
GAMBÁ - Grupo Ambientalista da Bahia
Mater Natura
RJ
RJ
RS
RJ
SC
RJ
RJ
PA
RJ
1970
1971
1971
1972
1973
1977
1978
1978
1978
MG
MG
PR
PE
GO
BA
PR
1978
1978
1979
1979
1981
1982
1983
Fonte: Herculano, 1994
Devemos também incluir entre as entidades ambientalistas influentes aquelas que, em 1991, demonstraram a
capacidade de informação e de organização para pleitearem obter cerca de 25 milhões de dólares como recursos
que viriam de mecanismos de conversão da dívida externa brasileira em projetos ambientais, segundo Resolução
1840 do Banco Central):
Associação de Defesa da Juréia (Pró-Juréia), SP;
Fundação Biodiversitas, MG;
Fundação Brasileira de Conservação da Natureza - FBCN, RJ;
Fundação Ecotrópica, RJ;
Fundação Nacional de Ação Ecológica (FNAE), Brasília (de Raquel Feldmann);
Fundação Pró-Natureza (Funatura), Brasília;
Fundação SOS Mata Atlântica, SP;
Fundação Movimento Onda Azul, Salvador;
Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE);
Sociedade em Defesa do Pantanal (Sodepan), Campo Grande, MS;
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Curitiba; Sociedade de
Preservação aos Recursos Naturais e Culturais (Sopren), Belém;
União dos Defensores da Terra (Oikos), SP.
(Algumas destas atuando como canais de pressão junto às Cãmaras Legislativas, trabalhando em sintonia com parlamentares,
como a antiga Óikos, em São Paulo, e a União dos Defensores da Terra e, mais recentemente, Os Verdes, no Rio de Janeiro.)
Destacamos também: a Fundação Vitória Amazônica – FVA, o Grupo de Trabalho Amazônico – GTA, a
Secretaria das Entidades Ambientalistas do Nordeste – SEAN, o Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento,
Meio Ambiente e Paz, que se somam à CUT, FASE e INESC na Coordenação do Fórum Brasileiro de Meio
Ambiente e Desenvolvimento. E ainda:: a Associação Ambientalista Bandeira Verde – AABV (PR, 1989); a Ação
Democrática Feminina Gaúcha – ADFG, a partir de1991 transformada em seção da Amigos da Terra; a Associação
Matogrossense de Ecologia – AME-MT; a Associação de Preservação do Alto Vale do Itajaí – APREMAVI (SC,
1987); o Conselho Nacional de Desenvolvimento e Defesa da Amazônia - CNDDA; Conselho Regional de
Acompanhamento e Fiscalização Ambiental, CRAFA-EN (SP, 1989); Grupo de Ação Ecológica – GAE (RJ); Grupo
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
de Defesa da Natureza – GDN (RJ, 1988); Grupo de Defesa Ecológica – GRUDE (RJ); Grupo de Recomposição
Ambiental – GERMEN (BA); Instituto de Estudos Amazônicos e Ambientais – IEA (PR e DF); Instituto
Sócioambiental – ISA (SP,1993); Movimento Cidadania Ecológica – MCE (RJ); Movimento Conservacionista
Teresopolitano – MCT (RJ); Movimento Ecológico Livre – MEL (SC); Movimento Popular e Ecológico – MOPREC
(SE); OS VERDES/Movimento de Ecologia Social (RJ); Pró-Tamar – Fundação Centro Brasileiro de Pesquisa e
Proteção à Tartaruga Marinha (ES, 1988); Sociedade Angrense de Proteção Ecológica – SAPÊ (RJ); União
Protetora do Ambiente Natural – UPAN (RS). Esta lista não é de forma alguma exaustiva.
W. Berna, militante e estudioso da ambientalismo, dividiu o movimento em “ONGs de combate”, que fazem
denúncias ambientais e manifestações, e as “ONGs de projetos e de assessorias”, de caráter mais profissional
[10]
.
Tal classificação, inspirada na análise de um “Ambientalismo Complexo”, de Viola e Boeira, provocou polêmica, mas
chama a atenção para um critério realista que marca o perfil das entidades ambientalistas, que é a questão do
profissionalismo e da competência técnica. Quais as ONGs ambientalistas que dispõem de assessoria jurídica,
técnica (topografia, laboratórios, etc.), pessoal especializado/apaixonado, que possa dar dedicação total a esta
labuta?
Em linhas gerais, a ainda baixa organicidade do movimento ambientalista brasileiro é contrabalançada pela
alta escolaridade da sua militância (80,74% de suas lideranças com nível superior de instrução), que trabalha
predominantemente como professores e pesquisadores de ciências naturais e humanas (76,7%), com uma forte
presença em órgãos do Estado. De 1992 até agora, ano 2000, com a maior acessibilidade dos computadores e a
disseminação progressiva da internet, algumas entidades de combate ganharam foros de profissionais e, com isso,
parcerias com o Estado. Outras entidades mais institucionalizadas se alçaram aos cargos públicos do SISNAMA (o
que é encarado como uma vitória relativa, posto que os órgãos ambientais oficiais têm, em linhas gerais, uma
estrutura sucateada e carente de recursos). Apesar da baixa organicidade e da quase ausência de recursos ser
ainda a sua realidade, as entidades ambientalistas – ONGS ou Movimentos, de combate ou profissionais - são
organizações relativamente influentes, na medida em que estão próximas ou dentro do Estado e têm acesso à
imprensa, para atuarem como formadoras de opinião (HERCULANO, 1996).
Críticas feitas às ONGs e redefinições de seus papéis no Brasil e na comunidade internacional
As ONGs sofreram críticas da esquerda mais ortodoxa: para Petras (1990:67-71), por exemplo, as ONGs
eram intelectuais institucionalizados, que teriam uma vida política vazia e estariam resguardados por programas em
moedas fortes. Elas uniriam uma crítica ostensiva do modelo econômico neoliberal ao comprometimento pelas
relações de dependência com redes de ultramar. Este mundo de centros de pesquisa financiados a partir do exterior
contrastava, segundo ele, com universidades e institutos públicos arrasados. Para Petras, os intelectuais desses
centros teriam sido paradoxalmente beneficiados pelo aprofundamento das crises econômicas que agudizaram a
miséria, assim incrementando a preocupação política das agências exteriores de financiamento. Em uma primeira
onda, dedicaram-se às violações dos direitos humanos e à crítica ao modelo econômico; numa segunda, aos novos
movimentos sociais: de etnias, de mulheres, de cidadania. Numa terceira onda, estariam concentrados no estudo da
dívida e no processo de democratização. Agora, na quarta onda, seria a vez do ambientalismo.
Petras criticava as ONGs/APDs/SMP, ou Centros, como as designava, por ignorarem a questão da luta de
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
classes. Assim, teriam proclamado que os movimentos sociais se contrapunham à política de classe e que seus
esforços estavam muito distanciados das ideologias ultrapassadas. As ONGs, enquanto intelectuais
institucionalizados dos anos 80, teriam assumido o lugar dos intelectuais orgânicos dos anos 60, que eram parte
integrante dos sindicatos, dos movimentos estudantís e dos partidos revolucionários, diretamente ligados às lutas
contra o imperialismo e o capitalismo. Petras acusava esses intelectuais institucionalizados de terem se desligado
dos conceitos-chave que iluminavam as lutas populares, hoje tidos como fora de moda - luta de classes,
imperialismo, poder popular - tendo-os substituído por "noções vazias" como a de participação popular, pactos,
criando assim a "metafísica da pós-política".
Nessa mesma linha crítica, Moller (1991:37-50) examinou as relações entre as agências (órgãos
internacionais de apoio e financiamento a projetos não-governamentais), os centros (as ONGs do Terceiro Mundo,
que o autor define como OPD - órgãos privados de desenvolvimento) e os grupos e movimentos populares. Para o
autor, tais relações se desenham como clientelísticas, com os centros atuando como intermediários dependentes em
um mercado de doações. Os centros, que teriam nascido com o objetivo de promoverem organizações populares e
estimularem a conscientização de um sujeito popular, se profissionalizaram e burocratizaram na medida em que
recebiam fundos das agências internacionais.
É muito difícil saber sobre as ONGs, principalmente as do hemisfério norte, queixava-se Tandon (1991: 6878): seu processo de tomada de decisões seria secreto, assim como sua relação com os próprios governos. Muitas
delas se denominam não-governamentais, apesar de receberem fundos diretos dos governos: as ONGs holandesas
Novib e Hivos receberiam respectivamente, segundo o autor, 100% e 70% de seus recursos diretamente do
governo; a SNV seria braço direto do Ministério do Exterior holandês); as ONGs canadenses receberia fundos da
ODA, canalizados através da CIDA (Canadian International Development Agengy). Na Alemanha, as quatro maiores
fundações estariam ligadas aos quatro maiores partidos políticos: a Fundação Konrad Adenauer, ligada ao Partido
Democrata Cristão; a Friedrich Ebert Stiftung -FES - ligada aos sociais-democratas; a Friedrich Naumann, ligada aos
liberais e, mais recentemente, a Fundação Boll, ligada aos Verdes.
No Brasil, ambientalistas criticaram, no contexto da UNCED-92, o afã com o qual as ONGs/APD/SMP teriam
passado a se definirem como ecologistas: tudo se resumiria, diziam eles, a uma questão de captação de recursos,
uma vez que, da mesma forma que o surgimento do PNUD (Programa da ONU para o Desenvolvimento) teria sido
detonador de tantas ONGs de desenvolvimento, o relativamente recente surgimento e discussão de efetiva
operacionalização do PNUMA (Programa da ONU para o Meio-Ambiente) e seu Fundo de Meio-Ambiente (GEF)
estariam sendo os catalizadores de corrida em direção a verbas ambientais.
Para Assumpção, as ONGs a serviço do movimento popular disputaram um jogo classificatório com outras
entidades que mais recentemente deram visibilidade pública e reconhecimento ao campo, afetando o monopólio da
sigla que as ONGs/SMP vinham ocupando (Assumpção,1993:16). Foi o caso das "ONGs ambientalistas".
Assumpção também nos fala da busca de reconhecimento que as ONGs/SMP iniciaram junto às instâncias oficiais,
como entidades específicas na cena política e social brasileira (1993:40). A questão da identidade das ONGs/SMP
e da redefinição de seus papéis também passa, segundo a autora, pela ambiguidade das suas relações de aliança/
concorrência com as universidades: as ONGs teriam buscado construir seu campo de atuação através de um
processo de desmoralização e de des-legitimação das obras e agentes da academia, cujos intelectuais eram tidos
como pedantes, herméticos, encerrados em torres de marfim, enquanto o pessoal das ONGs era o intelectual
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
orgânico participativo, acessível, a serviço dos movimentos. A autora nos conta que o intelectual das ONGs, recémvindo da academia, "devia passar por uma reciclagem, em que estava em jogo uma espécie de mea culpa por suas
origens em que o 'elitismo' rondava por perto... mas, se os diplomas de nada valiam, formalmente valiam muito, por
exemplo na relação com as instituições financiadoras" (Assumpção, 1993:109, nota 9)
Aqui surgidas na clandestinidade, contra governos totalitários, as ONGs/SMP brasileiras vivenciaram uma
espécie de crise de identidade quando a conjuntura política mudou: podendo mostrar sua cara e atuar abertamente,
que objetivos traçar, por qual ideário se orientar? Iriam desaparecer? Iriam se tornar pára-governamentais?
Penderiam para ser centros - assessoria - aos movimentos ou serão atores diretos?
A criação, em 1991, de seu coletivo, a Associação Brasileira de ONGs, refletiu tal preocupação, na medida
em que suas associadas declaravam sua vontade em deixar de ser assessoria e mediação e se tornarem elas
próprias atores coletivos, falando em seu próprio nome:
"As ONGs estão emergindo no espaço público como atores e elas vão falar. O IBASE quer deixar de
ser o tapete por onde passam os movimentos e ser ele próprio um ator político". (O Sociólogo Betinho Herbert de Souza - discursando durante a fundação da ABONG, Rio, 10/9/91)
A ABONG teria o papel de legitimar suas associadas e de dar a elas um respaldo que a Igreja Católica
propicia às suas Comissões Pastorais. As ONGs/SMP, embora tenham uma autonomia que as Pastorais - suas coirmãs em objetivos e motivações - não têm, são muito mais frágeis e sujeitas a instabilidades.
"O projeto das pastorais é de dar voz ao povo, permitir que vá se formando espaços, fortalecendo
suas organizações. Nesse sentido, não haveria tanta diferença entre uma Pastoral e uma ONG. Mas em
termo formais, há: para nós é muito importante termos uma associação nossa - A ABONG - porque não
temos por trás uma legitimidade da igreja". (J.P. Leroy, entrevista à autora, em jan/92)
Para Franklin Martins, jornalista estudioso e crítico das nossas ONGs/SMP, as ONGs vêm mantendo uma
relação ambígua com o Estado, já que participam diretamente das decisões sobre políticas públicas em diversas
áreas e são mantidas, em boa medida, com recursos governamentais, mas não se sentem responsáveis pelas
políticas que ajudam a aprovar. O jornalista se opunha à fala retórica de Betinho, que defendia as ONGs como
"modelos de eficiência, honestidade, espírito público e compreensão das necessidades do povo, em oposição a um
Estado ineficiente, corrupto, corporativo e impermeável aos interesses populares. Pilantras e picaretas, assim como
gente séria e competente, existem dos dois lados da fronteira". A crítica mais pertinente às ONGs diz respeito à
questão da representatividade, já que transparece em seus discursos uma fala em nome do povo, da sociedade civil,
sem que tenham recebido delegação formal que as legitimasse em suas tarefas. Um outro ponto seria o controle dos
seus representados. As pessoas que dirigem o Estado, observou Martins, são obrigadas regularmente a prestar
contas de seus atos à sociedade, podendo ser afastadas de suas funções pelo voto. No caso das ONGs, quando
muito, esse controle é efetuado pelos sócios das entidades, que no Brasil não costumam ser muitos.
"Há algum tempo, durante um almoço, Betinho disse-me que a relação das ONGs com o Estado deveria ser
como a da formiguinha que pica o elefante para que ele se mexa. A imagem é boa...A imagem reconhece que,
por mais próximas que estejam do Estado, as ONGs são externas a ele. O elefante deve andar com as
próprias patas e decidir com a própria cabeça. Só quem pode governar o Estado é quem foi eleito pelo povo
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
para isso. Parece óbvio, mas não é...Atualmente, em particular na área social do Estado, as ONGs têm
assento em numerosos conselhos que discutem questões como ação social, direitos da mulher,proteção ao
menor,saúde,etc. Geralmente detém metade desses fóruns e muitas vezes, comandam suas decisões...Isso
não chega a ser problema quando os conselhos têm caráter consultivo... mas há casos em que os conselhos
assumiram funções deliberativas, não só aprovando políticas públicas, como tentando controlar sua execução.
Trata-se claramente de uma exorbitância...Por mais bem-intencionadas que sejam, elas não representam a
sociedade. Betinho sabe disso ... e sai pela tangente ... diz que as ONGs são uma forma de cidadania
ampliada. E conclui com uma generalidade: "o cidadão é quem funda o poder do Estado. Não é o Estado
quem lhe dá legitimidade ou autorização para existir como cidadão livre e autônomo". O sociólogo confunde
duas coisas diferentes: liberdade de pensamento, expressão e de manifestação com representação política.
Qualquer um de nós tem o direito de pensar, propor, criticar,sugerir e apoiar o que quiser. Mas não tem o
direito de se arvorar em representante de outras pessoas, a menos que tenha recebido um mandato expresso
nesse sentido... As ONGs são extremamente importantes, lubrificam a circulação de idéias, organizam as
pressões. chamam a atenção para problemas ainda encobertos, atuam como fermento social. Mas não
substituem o voto e, específicamente, o Parlamento...Outras instâncias podem coadjuvá-lo, mas nunca
substituí-lo... (O Globo 8/7/96)
O "povo das ONGs", seus técnicos, assessores e militantes, tende a formar, no contexto brasileiro, uma
outra classe de cidadãos, estes que, em função de sua alta escolaridade, formação e informação, falam e agem em
nome dos que não sabem ou não podem agir, aqueles que têm uma cidadania mais formal do que real, resumida a
votar em algum representante formal sobre o qual não têm controle efetivo. Com efeito, uma das questões
polêmicas diz respeito à questão da representatividade da atuação desta militância que chamou a si a iniciativa de
lutar pelo interesse publico, sem passar pelo caminho difícil - e algumas vezes farsesco – da democracia
[11]
representativa.
Como vimos, a esquerda ortodoxa criticou nas ONGs o seu descomprometimento com as bandeiras e motes
já clássicos, tais como a luta de classes, o imperialismo etc., bem como criticou a sua falta de um projeto
globalizante e revolucionário. Com efeito, as ONGs de assessoria no Brasil traçaram suas estratégias a partir do
projeto de política do cotidiano em lugar da busca do dia D da grande revolução; buscam a organização popular e a
formação de sujeitos coletivos de uma democracia de massas, em táticas coerentes com o que vem sendo
chamado de reformismo radical (HABERMAS; COUTINHO). Trata-se de organizar setores populares e colocá-los
em movimento, articulando-os em redes internacionais para reforço mútuo, elaboração conjunta de propostas, troca
de informações etc. Como as ONGs/SMP o fizeram, ao criarem a CUT (Central Única de Trabalhadores), o CNS
(Conselho Nacional dos Seringueiros), etc. Para muitos ambientalistas, a relativamente recente inclusão das ONGs/
SMP no campo ambientalista nacional havia lhes trazido a esperança de que elas trariam organicidade ao
movimento ambientalista, que sinalizariam a criação de uma "CUT do movimento ambientalista", o que todavia ainda
não ocorreu. (O Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Soiais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, após
acaloradas discussões quando do término da UNCED/92 sobre sua continuidade ou auto-dissolução, resolveu, após
um hiato de tempo, continuar e hoje tem uma Coordenação Nacional formada pela Associação Gaúcha de Proteção
am Ambiente Natural – AGAPAN; pela Central Única dos Trabalhadores – CUT; pela Fedração de Órgãos para
Assistência Social e Educacional – FASE; pela Fundação Vitória Amazônica – FVA; pelo Grupo de Trabalho
Amazônico – GTA; pela Secretaria das Entidades Ambientalistas do Nordeste – SEAN; pelo Instituto para o
Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz; pelo Instituto de Estudos Sócio-Econômicos – INESC; suplência: Rede de
ONGs da Mata Atlântica)
[12]
.
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
As ONGs e a cidadania planetária:
O cientista político Brigagão (1991) contabilizou 8 mil ONGs "completamente independentes e autônomas" e
outras 10 mil mini-instituições com a participação substancial ou exclusiva de cidadãos privados." Somadas, essas
18 mil ONGs, além de outras 2 mil organizações intergovernamentais, formariam, segundo o autor, um total de 20
mil organizações internacionais que sinalizariam uma mudança global. Deste total, 1% seriam federações de outras
ONGs, 8% teriam representação "universal", 17% seriam intercontinentais e a grande maioria seriam regionais.
Funcionam, segundo o autor (ele também partícipe do mundo das ONGs), como uma diplomacia paralela ou grupos
de pressão, criando formas alternativas de cidadania (grifos meus), abrindo novos canais de comunicação e de
cooperação entre hemisférios Norte e Sul. As ONGs seriam, para o autor, "antídotos à desesperança". (Brigagão,
1991)
O supranacionalismo das ONGs e seu sentimento de fraternidade universal em busca de uma cidadania
planetária parecem, com efeito, uma característica marcante: segundo o cientista político Hector Leís (1992), as
ONGs seriam os únicos atores para uma política global que poderiam enfrentar a ação deletéria do mercado
internacional, uma vez que seriam promotoras de instâncias de articulação mundial e germes de uma nova
institucionalidade planetária. Seriam coletivos de cidadania transnacionais, com a missão de resolver nossa crise
civilizatória. Liszt Vieira (1997) também partilha da mesma idéia, propondo a sociedade civil planetária como a “
terceira margem do rio”. Nessa mesma linha de pensamento Boulding (1988) concebe as ONGs como construtoras
de uma cultura civil global. No Encontro Internacional de ONGs (Paris, 1991), este aspecto da cidadania
transnacional mereceu destaque:
"Démocratie participative en echelle internationale, droit international, un tribunal; refléxion sur le mode de
production et de consommation; develóppement équitable..forces dispérsées se regroupant, faire émerger une
conscience planétaire... ONGs représentants de l'opinion publique mondiale, mais tout en s'interrogeant sur la
légitimité du porte-parole.
[13]
"Nous, membres d'ONGs, décidons de nous consacrer au renforcement du pouvoir des citoyens et de créer
une organization internationale"
[14]
VACCA, em texto divulgado pelo Ibase, desenvolvia o mesmo ponto:
"O desenvolvimento pleno da democracia postula, então, a superação da ordem mundial baseada no papel
protagonista dos Estador-nações. Isso requer a cooperação entre os povos, as formas mais variadas de
integração supranacional, na interdependência e na reciprocidade; o desenvolvimento de elementos de
"governo mundial", caracterizados por institutos inéditos de democracia internacional". (Vacca, 1991:114)
No mesmo escopo trabalha a Comunidade Internacional Bahá’I, de fundo religioso, muito atuante no contexto
preparatório da UNCED/92 e que divulgou panfleto intitulado “A Cidadania Mundial, uma ética global para o
desenvolvimento sustentável”, encorajando as pessoas a se “considerarem cidadãos de um só mundo e
construtores de uma civilização mundial justa e próspera”.
Ainda no mesmo diapasão, o Movement of Citizens and Peoples of the World (MCPW), com sedes na Itália,
Sâo Paulo e Austrália, divulgou no fértil contexto da UNCED/92 seu manifesto “La Realta’ di um Movimento nel
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ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS: QUESTÕES CONCEITUAIS PARA ENTENDER O AMBIENTALISMO
Movimento della Realta’ ” no qual propunha estratégias globais de cooperação internacional direta entre os diversos
povos.
“Who speaks for Humanity?” (Quem fala pela humanidade?), perguntava um panfleto distribuído no Fórum
Global de Cidadãos, durante a UNCED, no qual se demandava um parlamento mundial, uma federação e uma
constituição planetárias. Tratava-se de uma iniciativa da World Constitution and Parliament Association, estabelecida
no Colorado, USA e que tinha no seu comitê executivo alemães, africanos, poloneses, asiáticos, mexicanos. (O
Brasil aparecia como um dos “trustees and honorary sponsors”):
‘Dear Citizens of Earth: we want to offer you and your organization an opportunityto expedite the achievements of your
objectives – many times more rapidly and affectively than before. The opportunity we offer is for your organization and yourself
to join in the global camaign for the ratification of the Constitution for the Federation of Earth, and the election od felegates to
the World Parliament, which is empowered under the Earth Constitution to devise and implement peaceful solutions to all
problems which transcend national boundaries: … disarmament … climate change crisis…development and finances … human
rights … safe energy supplies … many other urgent global problems … for adequate action in time for the survival of humanity
on Earth.”
A World Federalist Movement, sediada em Nova York, também marcou presença, defendendo também uma
federação mundial, baseada no “princípio da subsidiaridade”: “que todas as decisões sociais e políticas devam ser
feitas no nível local apropriado. Contudo, há temas tais como paz, desarmamento, direitos humanos, justiça e
proteção ambiental que são globais por natureza e requerem uma resposta da comunidade global. Esforços
nacionalistas têm piorado a situação. Assim, a WFM trabalha para dar poder político e legal a instituições mundiais
que lidam com problemas globais e simuntaneamentre apoia governos nacionais e locais nas suas questões
internas”. O propósito declarado era fortalecer os cidadãos do mundo em benefício da “família humana”.
O Fórum Global de Cidadãos, da Rio/92 foi, com efeito, fértil em propostas assim transnacionais. Ali também
se distribuiu o jornal World Citizen News, órgão do World Government of World Citizens, que também pugnava por
um governo mundial e divulgava o livro de seu organizador, Garry Davis, intitulado “Passport to Freedom: a guide
for world citizens”.
Em escala mais restrita, a Aliança dos Povos do Norte para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, uma rede
de organizações dos “21 países industrializados”, criada em outubro de 1991 em um encontro em São Sebastian,
nos Países Bascos, desenvolvia uma campanha intitulada “People for the World”, dedicada a reduzir a emissão de
dióxido de carbono nos países industrializados e a apoiar reforma agrária e direitos humanos nos países
detentores de florestas tropicais, como forma de salvá-las.
A esfera das ONGs é supranacional na origem e na sua inspiração de cidadania planetária, no que
retornam à tradição do pensamento internacionalista das esquerdas. Segundo Galtung (1980), o mundo caminharia
para um governo mundial, que já tem sua organização internacional em multinacionais privadas e governamentais
e em empresas transnacionais; em sistemas de alianças e tratados militares internacionais; em organizações
internacionais governamentais e em sistemas de comunicação internacionalizados e organizações nãogovernamentais transnacionais.
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Para Galtung, é nessas últimas que estaria a contra-tendência a este hiper-sistema de dominação global,
pois seria uma rede não-territorial, formada pelas pessoas que têm uma ação inovadora. Essas redes populares
realizariam, segundo Galtung, a utopia pluralista e igualitária de um mundo comunista com equidade e diversidade,
autonomia e auto-suficiência, onde, dentre outras coisas, a política não seria uma profissão e haveria participação
direta no processo decisório das pequenas sociedades na qual o mundo compor-se-ia. As ONGs seriam estas redes
e também suas integrantes.
O mundo proposto pelas ONGs é um mundo de ação direta, de formas novas de participação através da
cidadania coletiva. Seu modelo se afigura como uma pólis ateniense de escala mundial. Contudo, o processo de
criação dessa sociedade democrática que, segundo Herbert de Souza, implodiria o capitalismo, não é um processo
democrático no sentido da sua universalidade. Segundo ele, "a emergência popular na política pode não significar o
desenvolvimento da democracia, uma vez que o popular, o assalariado, o povo, os movimentos populares, podem
perfeitamente lutar dentro do mundo do capital":
"Para se negar o mundo do capital não bastaria estar dominado por ele e disto ter consciência, seria
necessário pensar e propôr um outro mundo e quem não fôr capaz de realizar essa proeza não será capaz de
negar o capital...Pensar um novo mundo não significa inverter o velho, mas propôr um novo. O dominado pode
não ser capaz de inventar um mundo sem dominação. O Popular pode não ser capaz de propôr a democracia,
porque a democracia não é uma invenção da dominação, mas da liberdade".(Souza, 1987: 9-28) (grifos meus)
Os Movimentos Sociais:
O uso da expressão "movimento social" pretende se referir à espontaneidade de manifestações associativas
de cidadãos, aludindo a características gerais de informalidade, baixa organicidade, intermitência, fluidez, inspiração
política das esquerdas e maior expressão numérica de participantes. Isto não quer dizer que todos os movimentos
sociais sejam de baixa organicidade (a história recente do MST - Movimento dos Sem-Terra - é exemplo da
possibilidade de alta organicidade deste tipo de associativismo, apoiado por organizações eclesiásticas nacionais e
internacionais). Mas creio que a continuidade do uso da expressão "movimentos sociais" obedece a três lógicas: 1) a
necessidade estratégica das ONGs/SMP em sublinharem sua diferença em relação às associações de cidadãos que
assessoram, ou seja, entre o corpo técnico das ONGs/SMP e sua clientela, os cidadãos assessorados; 2) a
preocupação em salientar a visão e a atuação mais crítica destes movimentos, herdeiros da influência teórica
marxista aplicada às ciências sociais, distinguindo-os das demais associações civis sem a mesma inspiração
política; 3) a naturalização da sua presença intermitente, de seus fluxos e refluxos, de seus recessos, relacionados
aos momentos diferentes dos ciclos vitais de sua militância.
Segundo Scherer-Warren (apud Doimo, 1993), a expressão teria sido criada por volta de 1840 para designar
o surgimento do movimento operário europeu, e ingressou no marxismo para "representar a possibilidade de
transformação racional das relações econômicas privadas do sistema capitalista"; posteriormente, "Movimento
Social" passou a significar novas formas de participação, "também destinadas a alterar a lógica capitalista, só que
agora espontaneamente organizadas na esfera da cultura" (grifo da autora).
A expressão “movimentos sociais” se consagrou a partir dos estudos do sociólogo Manuel Castells, na
década de 70, ao acompanhar as reivindicações e protestos urbanos das classes pobres de Madrid, no contexto do
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final da ditadura franquista. A partir de uma análise marxista, Castells procurou inovar teóricamente esta perspectiva,
vendo os movimentos sociais urbanos em busca do direito aos meios de consumo coletivo (escolas, hospitais, ruas
asfaltadas, abastecimento de água, rede de transporte, etc.) como tão contestatórios ao capitalismo, no que diz
respeito ao consumo, quanto o movimento proletário, no que diz respeito à esfera da produção.
Jordi Borja também deu destaque à expressão “movimentos sociais” ao frisar que os movimentos
reivindicativos urbanos, dos usuários da cidade, enfrentam empresários capitalistas, que deterioram a cidade, e o
Estado que, na qualidade de gestor dos equipamentos coletivos, tende a distribuí-los de maneira desigual, assim
aumentando o seu deficit .
Segundo Machado (1986), as análises sociológicas sobre os movimentos sociais, feitas no decorrer de 70 e
início dos anos 80 padeciam de certos equívocos: "estudava-se o corriqueiro, o banal, pensando no grandioso e na
ruptura". Os estudos tinham ainda uma concepção monolítica e instrumentalista do Estado como "lugar dos
dominantes, encastelados nos aparatos de Estado ou nos partidos políticos, que deveriam obstar a missão histórica
dos movimentos populares" (Eder, 1990).
Para Carvalho & Laniado (1989), tratava-se de divergir da visão da sociedade civil como sendo frágil diante
do Estado, apontando para a constituição de novos sujeitos políticos e novas práticas, então percebidos como
"dotados de atributos renovadores, positivos e de imensas possibilidades de transformação e de avanços". Os
Movimentos Sociais, porém, entraram em baixa quando sindicatos e partidos recuperaram sua antiga presença.
Assim, os Movimentos se caracterizaram por serem intermitentes, cíclicos, defensivos, incapazes de formular
projetos mais abrangentes.
Na análise de Touraine (1984), as referências aos Movimentos Sociais apareciam como "uma maneira
indireta e confusa de salvar certos aspectos do modelo revolucionário em declínio" (Touraine, 1984: 320).
A partir de 1980, a Sociologia produz nova categoria, a dos “novos movimentos sociais”. O que seriam?
De acordo com Habermas (1981), desde os anos 60 começaram novos conflitos, que não estariam mais na
área da reprodução material nem seriam canalizáveis pelos partidos e organizações. Seriam formas subinstitucionais e extra-parlamentares de protesto, buscando defender estilos de vida ameaçados. Não teriam a ver
com problemas de distribuição, mas com a "a gramática das formas de vida ", com uma nova política que enfoca
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problemas da qualidade de vida, igualdade, auto- realização individual, participação e direitos humanos. Esta nova
política teria como sujeito uma nova classe média, os jovens e os grupos de alta escolaridade. A crítica ao
crescimento econômico os unificaria. Suas expressões européias eram o movimento anti-nuclear, o movimento
ambientalista, o pacifista, os alternativos, as minorias, os movimentos de ação do cidadão (Habermas, 1981:33).
Embora perceba uma diferença nesses movimentos, entre aqueles que seriam de resistência e recuo (os
verdes) e aqueles com potencial emancipatório (as mulheres), Habermas os define no seu conjunto como
movimentos de resistência às tendências de se colonizar o mundo vivido.
Segundo Feher & Heller (1984), enquanto os anos 60 viram surgir movimentos pela liberdade, criadores de
contra-instituições, hostís à mídia e que saíam da periferia social para o centro, os anos 80 assistiram ao nascimento
de movimentos pela vida, que se situavam no próprio centro da esfera pública, imbuídos da importância da mídia e
também reconhecendo a importância do Estado e demais agentes. Esses novos movimentos seriam transfuncionais,
fluidos, de caráter público, não conspiratórios, informais, buscando mobilizar a sociedade civil e não tomar o poder.
Apesar deste novo quadro, os autores consideram ainda ser pertinente a divisão entre esquerda e direita, para
analisá-los: seriam de esquerda os movimentos que unem a busca da liberdade à defesa da vida e de direita
aqueles que opõem os dois termos (Feher & Heller, 1984: 44).
Para Evers (1984), Novos Movimentos Sociais são aqueles que renovam padrões sócio-culturais e psíquicos
do cotidiano, em direção à sociedade alternativa. O autor propõe que sejam vistos como "fragmentos de
subjetividade atravessando a consciência e a prática das pessoas e das organizações. Caracterizam-se pelo número
baixo de participantes, pelas estruturas não-burocráticas e até informais, pelas decisões coletivas e pelo nãodistanciamento entre líderes e participantes. No Brasil, seriam uma cultura de classe média e das comunidades
eclesiais, em busca de uma construção de identidades e de um projeto emancipatório. O autor então questionava se
a população pobre e marginalizada poderia vivenciar novas formas de sociabilidade.
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Os Movimentos Sociais caracterizariam, segundo Touraine (1984), um ator coletivo engajado num conflito
pela gestão social, enquanto que os Novos Movimentos Sociais não atacariam a divisão do trabalho ou formas de
organização da economia, mas sim os valores culturais, o progresso. O conceito de luta de classes seria insuficiente
para entendê-los. Marcariam o início de um momento romântico que estaríamos começando a viver. O próprio fato
de serem fracos e de influência difusa mostraria sua autonomia em relação às instâncias políticas e em relação ao
Estado. (Touraine, 1984: 321)
No Brasil, a história recente dos Movimentos Sociais costuma ser apresentada como cortada em dois
momentos, com características diversas:
a) um primeiro momento, durante a ditadura dos anos 70, quando os movimentos de mães e de moradores pobres
das periferias metropolitanas, assessorados pela Igreja e por uma militância política que não tinha outro canal de
expressão, colocavam suas reivindicações de atendimento a demandas básicas diante do Estado, e expressavam
seu descontentamento em manifestações contra a carestia (os chamados movimentos sociais urbanos);
b) um segundo momento, a partir do início da década de 80, quando novos partidos, um novo sindicalismo,
associações de bairro e suas federações se organizam, movimentos de mulheres, de etnias, movimentos
ambientalistas surgem, todos ainda tendo como traço comum a eleição do Estado como interlocutor básico, dele
demandando políticas públicas efetivas e adequadas.
Para Jacobi & Nunes (1983), os Movimentos Sociais revelavam a precariedade dos canais de representação
política no período autoritário.
No caso latino-americano, nossos movimentos sociais têm como interlocutor o Estado; são voltados para
dentro, ainda buscando constituir sua identidade através do apelo comunitário; afirmam os direitos da pessoa ao
mesmo tempo em que rejeitam a ordem social. Ficam assim marcados pela ambiguidade, conclui Touraine,
oscilando entre individualismo e comunitarismo, integração e ruptura. Isso explicaria sua oscilação entre uma
retórica anti-estatista e sua convivência próxima com um Estado que é ao mesmo tempo adversário e protetor.
Segundo Scherer-Warren (1993:20-25), a temática dos movimentos sociais deu lugar, nos estudos
sociológicos dos anos 90, a estudos sobre o antimovimento ou condutas de crise, a desmodernização, a exclusão, a
massa enquanto agregado inorgânico, numa palavra, ao desmovimento. O estudo dos movimentos sociais que
persistiu, o repensa a partir do estudo das interconexões entre o local (comunitário) e o global (supranacional,
transnacional), com ênfase no estudo das articulaçôes em redes, bem como nas análises sobre a persistência dos
vestígios das formas tradicionais de fazer política (clientelismo, paternalismo, autoritarismo populista ou estalinista)
nos celebrados Novos Movimentos Sociais.
Conclusões: co-gestão, parcerias ou esvaziamento da esfera pública?
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Como mencionado, apesar de alguns militantes se referirem indistintamente a ONGS e Movimentos Sociais,
há, no caso brasileiro, um elemento de distinção, pelo qual ONG tem a ver com uma entidade institucionalizada,
influente, inserida nos canais de diálogo com o Estado e com as organizações multilaterais, enquanto os
movimentos sociais tendem a ser grupos fluidos de cidadãos em estado de carência, ora assessorados pelas ONGs,
ora surgidos em episódios de manifestações e protestos.
Se as ONGs/SMP formam um mundo supranacional, em razão de sua organicidade e de sua história, nossos
Movimentos Sociais, cujo interlocutor é básicamente o Estado - ou, mais concretamente, os governos - são
predominantemente nacionais, locais. Tendem a ser informais ou a ter baixa organicidade e, por isso, precisam da
mediação e do apoio das ONGs, até mesmo para tecerem laços de solidariedade além fronteiras. Dessas diferenças
surgem parcerias pautadas por tensões e por relações que, embora se assumam como organizadas em redes
horizontais, mantém internamente hierarquias funcionais. Há, entre ONGs e Movimentos, uma tensão no que diz
respeito ao papel de elite das ONGs de assessoria - APD ou SMP sobre os Movimentos.
As ONGs formam uma vanguarda, seus integrantes se assumem como elite de saber. Sublinhar tal
característica não tem aqui nenhuma intenção crítica: em uma sociedade como a brasileira, onde faltam educação e
condições objetivas facilitadoras da participação, isso está no plano dos fatos e das necessidades. Há, contudo, um
caminhar no fio da navalha, pois essas elites subalternas tanto podem atuar no sentido da construção de um
“reformismo radical” e cotidiano, como é sua proposta, quanto vir apenas a se incorporar à elite dominante, trilhando
caminhos de carreira individual, renovando a elite de poder nos termos de Pareto. Neste último caso, nem sempre
atuam de forma eficaz, até porque são convidadas a ocupar espaços de uma estrutura oficial sucateada.
Mais recentemente, nos anos 90, após a democratização do processo político brasileiro, as ONGs/SMP vêm
se tornando parceiras do Estado, em programas federais como o Comunidade Solidária e outros, em função de seu
perfil de atores organizados da sociedade civil sem fins lucrativos. Assim, passaram a estar regulamentadas pela Lei
9.790/99, a chamada Lei do Terceiro Setor, e pelo Decreto presidencial nº 3.100, de 30/6/99, definidor das OSCIP
(Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, definidas por exclusão como sendo aquelas que não são
sociedades comerciais, nem sindicatos, nem organizações partidárias ou instituições religiosas).
Nestas parcerias, as ONGs são chamadas a atuar em um quadro de transferência de políticas e de serviços
públicos para a esfera privada, e de diluição da responsabilidade precípua do Estado, como bem analisou Leite.
Assim, interesses e decisões públicos passam para o âmbito do privado na medida em que a escolha dos agentes
que participarão deste processo têm características privadas – competência, confiabilidade, informalidade, baseadas
em redes de conhecimento, sem passar pelo crivo da construção da representatividade democrática.
É verdade que o Estado tem sido predominantemente paquidérmico, inoperante e tomado de assalto pelos
interesses privados. Também é verdade que o mundo das ONGs no Brasil confunde-se ainda com a biografia das
pessoas honestas, altruístas e capazes, que foram suas fundadoras históricas. Mas estes atributos de um e de outro
não lhes são essenciais.
As aludidas parcerias entre ONGs e Estado, apesar das vantagens acima apontadas, podem trazer o perigo
do esvaziamento da esfera pública, da profissionalização do exercício da cidadania, da manipulação e cooptação
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dos cidadãos por governos e/ou empresas, da omissão do Estado da sua responsabilidade pelo interesse público e
pelo bem-estar coletivo,
ONGs e Movimentos Sociais têm exercido uma cidadania diferente daquela preconizada pela democracia
liberal. O exercício desta cidadania está baseado na organização coletiva, no estudo, na busca e disseminação da
informação como elementos-chaves para a participação. É vocacional, plural, mas não é universal, pois é
professada por elites intelectuais e lideranças emblemáticas, políticamente adestradas, de maior peso individual do
que o peso advindo da relativamente pequena massa dos seus representados. As ONGs e Movimentos procuram
ser formadoras de opinião e, recentemente, co-gestoras da coisa pública. Trata-se de um exercício profissionalizado
de cidadania, que busca confrontar a lógica do lucro enraízada em uma Sociedade Civil pautada pela perseguição a
um crescimento econômico que tem sido injusto e insustentável. Até que ponto esta tarefa ciclópica que ONGs e
Movimentos Sociais se dão será convergente com a suposta vontade geral que surge dos votos dos cidadãos
atomizados?. Haverá mesmo vontade geral? Se há, a vontade das ONGs e Movimentos reflete e vocaliza a vontade
geral emudecida? Ou a suplanta e transcende?
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[1]
Professora do Departamento de Sociologia da UFF; [email protected] e [email protected]
[2]
World Alliance for Citizen Participation (Aliança Mundial para a Participação dos Cidadãos), lançada em 1993 em Barcelona.
[3]
Alusão ao planalto central brasileiro, onde fica Brasília.
[4]
Cebep: Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais, Publicação número 7 página 5: "A Conjuntura dos Movimentos Populares"
[5]
Herbert de Souza, o Betinho, no artigo "Pinochet nasceu no Brasil", Jornal do Brasil, 26/3/94; ver também "A Planície vai guiar o Planalto",
carta de Herbert de Souza ao jornalista Castello Branco, reproduzida pelo Jornal do Sintaerj, ago/93.
[6]
United Nations Conference on Environment and Development/Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992.
[7]
De acordo com relatório de Agneta (1991), havia naquele ano 19 ONGs italianas que trabalhavam com 48 projetos de ONGs brasileiras de
desenvolvimento, desde que começou a cooperação Brasil-Itália, em 1980. A dotação de recursos, contudo, da Itália para o sul em geral,
baixava: de 174,3 bilhões de liras em 1980, para 136,5 bilhões em 1990.
[8]
Na sua tese de doutorado, apresentada ao UFRJ/MNA/PPGAS (Assumpção, 1993), Landim lista, de 1952 a 1991, 147 ONGs (Quadro 1);
dentre estas, destaca 59 que participaram de eventos significativos do campo das ONGs/SMP (Quadro2) Na pesquisa de 1988, Landim listou
422 ONGs a serviço do movimento popular, 185 Ongs do movimento de mulheres e 403 Ongs do movimento ecológico, o que totalizava 1010
entidades sem fins lucrativos, trabalhando pelos chamados interesses difusos.
[9]
Entrevista de Herbert de Souza a Solange Maria de Magalhães, para o Jornal Roda Viva, da ONG Roda Viva, dez/92
[10]
Jornal do Meio Ambiente, julho de 1996.
[11]
Ver HERCULANO, S.: "Estadania e Heroismo: o exercício da cidadania pelos segmentos intelectualizados da classe média.. Encontros
com a Sociologia, Márcia Cavendish Wanderley (org.). Cadernos do ICHF n. 64, nov/94, pp 01-26.
[12]
Outros coletivos brasileiros que aglutinam ambientalistas são: a Rede Cerrado de ONGs; o Fórum Permanente de Debates do Amazonas;
o Fórum de Desenvolvimento e Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul; o CAPOIB – Conselho eArticulação dos Povos e Organizações
Indígenas, as APEDEMAS – Assembléias Permanentesde Entidades em Defesa do Meio Ambiente, etc.
[13]
Entrevista de Henri Rouillé, diretor adjunto para o desenvolvimento e a cooperação da ONG Racines de L'Avenir, em 19/12/91.
[14]
Documento do Movimento Empower People International.
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