TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE: UMA REALIDADE EM CÁCERES? 1 Fernanda Nascimento2 Jéssica Raquel Koschmieder3 Aline Rejane Caxito Braga4 RESUMO: Este trabalho teve como principal objetivo pesquisar o conhecimento dos professores da rede municipal de ensino da zona urbana de Cáceres-MT sobre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Distúrbio neurofisiológico que vem ocupando lugar de destaque na vida dos pais e dos profissionais de saúde mental, sendo considerado o principal distúrbio psicológico em crianças. Caracterizado pelos sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade, afeta de 3 a 5% das crianças. O método empregado envolveu oito momentos, sendo: levantamento de dados; entrevistas semiestruturadas; observação dos alunos; aplicação, correção e interpretação de Escalas e Testes; minicurso, construção dos pareceres psicológicos e devolutivas às escolas. Concluímos que, apesar do professor não ter conhecimento teórico suficiente para discorrer com propriedade sobre o TDAH, sua prática escolar lhe permite observar, analisar, levantar hipóteses e adaptar sua metodologia independente do que o sistema lhe oferece; possibilitando que esse aluno tenha suas diferenças respeitadas e seja realmente incluído na sala de aula regular. Palavras-chave: Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Avaliação. Conhecimento. Professores. RESUMEN: Este estudio tuvo como principal objetivo investigar el conocimiento de los profesores de las escuelas municipales en el área urbana de Cáceres-MT sobre el Trastorno de Déficit de Atención e Hiperactividad (TDAH). Disturbio neurofisiológico que viene ocupando un lugar prominente en la vida de los padres y los profesionales de la salud mental, siendo considerado el principal trastorno psicológico en los niños. Se caracteriza por síntomas de inatención, impulsividad e hiperactividad, que afecta al 3-5% de los niños. El método empleado consistió en ocho ocasiones: la recopilación de datos; entrevistas semiestructuradas; la observación de los alumnos; aplicación, calificación e interpretación de pruebas y escalas; mini-curso, construcción de opiniones psicológicas y devolución de las pruebas a las escuelas. Llegamos a la conclusión de que, aunque el maestro no tiene suficiente conocimiento teórico para proceder adecuadamente sobre el TDAH, su práctica escolar permite observar, analizar, formar hipótesis y adaptar su metodología, independientemente de 1 Artigo apresentado à Faculdade do Pantanal – FAPAN, como requisito parcial para a obtenção da graduação em Psicologia. 2 Acadêmica do 10º semestre de Psicologia da FAPAN. 3 Acadêmica do 10º semestre de Psicologia da FAPAN. 4 Psicóloga, professora doutoranda e Coordenadora do curso de Psicologia da FAPAN. 1 lo que le ofrece el sistema; haciendo posible que este alumno tenga sus diferencias respetadas y sea realmente incluido en el salón de clases regular. Palabras claves: Transtorno de Deficit de Atencion e Hiperactividad. Evaluacion. Conocimiento. Profesores. INTRODUÇÃO Esse trabalho é destinado a pesquisa sobre os casos de diagnóstico de Transtorno e Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e a avaliação psicológica das hipóteses desse transtorno nas escolas municipais de ensino fundamental da zona urbana de Cáceres e tem como objetivo principal pesquisar o conhecimento dos docentes sobre o TDAH estimulandoos a buscar, se necessário, novas práticas que auxilie o seu aluno no processo de ensino aprendizagem. As escolas foram indicadas pela Secretaria Municipal de Educação de Cáceres. A rede municipal de ensino é composta por quarenta e quatro escolas, sendo dessas vinte nove na zuna urbana e vinte e cinco na zona rural. A seleção das onze instituições para a pesquisa se deu pela mobilidade e facilidade de acesso, considerando ainda que a mesma foi realizada durante o período do estágio profissionalizante II e III obrigatório do curso de Psicologia da Faculdade do Pantanal. Sendo assim, durante o planejamento do trabalho percebeu-se não ser possível estender às vinte e cinco escolas da zona urbana e optou-se por onze. Segundo Silva e Cabral (2013) o TDAH é um problema de saúde pública, constituindo o transtorno mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para os serviços especializados. Aparece na infância persistindo na vida adulta sendo reconhecido pela Organização Mundial de Saúde e pela comunidade científica. (OMS). Estudos recentes relatam uma prevalência de 4 a 12% da população na idade de 6 a 12 anos (POLÔNIO, 2009). Diferenciar o TDAH da indisciplina escolar, da carência afetiva, da falta de limites e outros fatores operantes na mudança de comportamento é importante pois embora os reflexos sejam similares as causas são diferentes portanto exigem metodologias diferenciadas. Quando não é diagnosticado e tratado de forma adequada, os portadores apresentam um maior índice de consequências como mau desempenho, evasão escolar, aumento de risco 2 de abuso de álcool e drogas, maior número de divórcios, bem como a rotatividade de empregos entre outros efeitos negativos (SILVA; CABRAL, 2013) Sam Goldstein e Goldstein (1994) relatam que, na idade escolar, crianças com TDAH apresentam baixo rendimento acadêmico, dificuldades emocionais e de relacionamento social. Os sintomas desse transtorno tornam as crianças mais vulneráveis ao fracasso nas duas áreas mais importantes para um bom desenvolvimento na escola e no relacionamento com os colegas, sendo assim, iniciar pelo diagnóstico correto contribuirá para fornecer encaminhamentos e acompanhamentos a fim de atender as necessidades da criança com TDAH, sejam estas afetivas, educacionais e sociais prevenindo de tais fracassos. A falsa interpretação do comportamento da criança normalmente resulta em frequentes punições, fatos que acarretam agressividade e frustração que deixam o quadro ainda mais comprometido. Os pais e/ou cuidadores, por sua vez, sentem-se desgastados pela necessidade de monitorar frequentemente a criança ou adolescente com TDAH; fator que pode acarretar discussões familiares, acusações, agressões e ressentimentos segundo Mattos (2001). Fala-se então de um quadro de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. “Esse transtorno tem três características básicas: a desatenção, a agitação (ou hiperatividade) e a impulsividade.” (BENCZIK, 2011, p.14). No contexto educacional brasileiro, Benczik (2011) descreve um conjunto de problemas que contribuem para um baixo rendimento escolar, entre eles podem ser citados a superlotação das salas de aula, falta de estrutura física e defasagem da formação profissional, refletida pelo despreparo dos professores e a má remuneração financeira entre outros. Associado a esse contexto, percebe-se que tanto a escola como a criança apresentam dificuldade em adaptar-se. O aluno não consegue terminar uma tarefa e nem mesmo acompanhar o ritmo da classe, vive no “mundo da lua”, conversa e mexe-se o tempo todo, não consegue permanecer sentada durante a aula, atrapalha os colegas e professores, agem impulsivamente e está sempre com pressa. Esse conjunto de comportamentos configura um círculo vicioso e sem fim. Em casa, não é muito diferente, ele não para nem na hora das refeições, não dorme tranquilamente e não “sabe se comportar” (BENCZIK, 2011 p.13). 3 A Associação Americana de Psiquiatria define o TDAH como sendo um distúrbio neurofisiológico, caracterizado pela falta de atenção e impulsividade não adequadas ao nível desenvolvimento, prejudiciais a aprendizagem em crianças na idade escolar (POLÔNIO, 2009). O impacto é grande na vida da criança e chega a atingir as pessoas ao redor gerando consequências como dificuldades emocionais nos relacionamentos familiares bem como baixo desempenho escolar. Nesse panorama, os pais e os professores não compreendem o comportamento dessa criança e a entende como desobediente e desinteressada. Ocasionalmente os pais desconhecem o que podem fazer para ajudar o seu filho e os professores geralmente não sabem como encaminhá-lo adequadamente. Assim, observa-se a necessidade de iniciar o trabalho avaliativo no contexto da criança, nesse caso, o escolar. (BENCZIK, 2011, p.15). Segundo Benczik (2011), a importância da avaliação psicológica com crianças na fase escolar faz-se presente, pois uma avaliação bem conduzida permite a tomada de decisões adequadas, tendo em vista um melhor funcionamento em termos de saúde mental da criança e do adolescente. Além disso, em função da estreita relação entre alunos e escola, professores e professoras são peças-chave no processo de identificação e determinação do diagnóstico de seus alunos (COSTA, 2006). A partir dos anos 80, o TDAH vem ocupando lugar de destaque na vida dos pais e também de profissionais de saúde mental, sendo considerado o principal distúrbio psicológico em crianças. Estudos têm demonstrado que o transtorno aparece com maior frequência na primeira infância e é o transtorno mais comum no contexto escolar. (CARVALHO; SANTOS; CARVALHO; SOUZA, 2012). De acordo com o DSM – IV (1992) é muito mais frequente no sexo masculino, com as razões masculino-feminino sendo de 4:1 a 9:1. É encontrado com maior frequência nos parentes biológicos em primeiro grau de crianças com TDAH. Estudos sugerem que existe uma prevalência superior de Transtornos do Humor e de Ansiedade, Transtornos da Aprendizagem, Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtorno da Personalidade AntiSocial nos membros das famílias de indivíduos com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. 4 O impacto desse transtorno sem o diagnóstico e o tratamento correto e imediato é significativo, considerando-se os efeitos negativos na autoestima das crianças e adolescentes, o prejuízo de suas relações sociais na família, contexto social, prejuízo nas atividades acadêmicas e vocacionais. Nas patologias caracterizadas por deficiências cognitivas, sendo o TDAH um dos principais exemplos, encontram-se estratégias deficientes de resolução de problemas, associadas a uma imaturidade cognitiva geral. (Kendall e MacDonald apud Knapp, 2004). Para auxiliar no preenchimento das lacunas existentes na aprendizagem, é importante a presença de um psicólogo escolar qualificado que através do convívio diário possa criar vínculo, aproximando o aluno do profissional, além de juntamente com os pais e professores trabalharem nos processos sociais, cognitivos, afetivos e escolares. Para alguns autores, a combinação entre tratamento farmacológico e psicossocial é a única forma terapêutica que produz a normalização no funcionamento de crianças com TDAH (KLEIN & ABIKOFF, 1997). Sedo assim ao finalizar a pesquisa foi feito um parecer psicológico para cada aluno participante da pesquisa com o objetivo de auxiliar o professor quanto as medidas adotadas com o aluno e obedecendo o Manual do Código de ética do Profissional da Psicologia (2005) - Princípio Fundamental V - art. 1º, é dever do psicólogo: g) “Informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de serviços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisões que afetam o usuário ou beneficiário;” e h) “Orientar a quem de direito sobre os encaminhamentos apropriados, a partir da prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os documentos pertinentes ao bom termo do trabalho". Segundo Desidério e Miyazaki (2007) é importante que a orientação escolar ocorra com a finalidade de promover um convívio saudável da criança diagnosticada com os colegas e prevenir o desinteresse pela escola e pelos estudos enfatizando a participação da escola nesse processo. No Brasil é rara a terapia familiar como recurso facilitadora do processo, entretanto dados nacionais e internacionais apontam o transtorno sob a perspectiva familiar. 5 METODOLOGIA As estratégias metodológicas empregadas nessa pesquisa foram realizadas em oito momentos, incluindo levantamento de dados; entrevistas semiestruturadas; observação dos alunos; aplicação, correção e interpretação de Escalas e Testes; minicurso, construção dos pareceres psicológicos e devolutivas ás escolas. Os resultados foram organizados em duas tabelas explicativos. Esse trabalho iniciou-se na secretaria municipal de educação de Cáceres - MT com a psicóloga escolar do município, onde foram indicadas as escolas municipais de ensino fundamental da zona urbana de Cáceres para a realização da pesquisa exploratória sobre o Transtorno e Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A pesquisa buscou o levantamento de dados das crianças com diagnóstico de TDAH e a avaliação psicológica das hipóteses desse transtorno, com crianças de 6 a 12 anos do ensino fundamental. O primeiro momento foi caracterizado pelo contato inicial com as escolas, tendo como objetivo o levantamento de dados das crianças com o diagnóstico matriculadas na instituição. Os dados foram coletados juntamente com a direção, coordenação e corpo docente. No segundo momento, a equipe escolar indicou as crianças com características de TDAH, porém sem laudo, para a realização da avaliação psicológica. Foram realizadas as observações dos alunos sugeridos e foi aplicada a Escala de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, versão professores, (BENCZIN, 2011). “A Escala é destinada a avaliar os sintomas comportamentais no contexto escolar, tendo o professor como fonte de informações.” (BENCZIN, 2011, p. 09). Para se garantir a confiabilidade dos dados, a Escala foi aplicada nos professores que tinham, no mínimo, seis semanas de contato com a criança. Durante o primeiro estágio do processo de avaliação, a identificação do problema, os psicólogos devem selecionar e utilizar escalas como estratégia para delinear interesses específicos relatados sobre a criança. As escalas de avaliação são completamente sensíveis aos efeitos do ambiente, e sua utilização é importante para se obter dados sobre o modo como muitos indivíduos tem contato direto com esse estudante. Esse tipo de instrumento dá ao psicólogo uma melhor compreensão de quem vê a conduta como problemática e de como diferenças percebidas em graus de desvios variam como uma função de efeitos do ambiente. Para se garantir a confiabilidade dos dados, professores devem ter, no mínimo, seis semanas de 6 familiaridade com o estudante a ser avaliado. (EDELBROCK, apud BENCZIN, 2011, p. 20) No terceiro momento foi realizada a correção, análise e interpretação dos dados obtidos através das Escalas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (BENCZIN, 2011) aplicadas nos professores. Com os resultados das Escalas avaliativas foi possível identificar quais alunos reforçavam ou não à hipótese do Transtorno. E para obter mais informações sobre o aluno e avaliar a maturidade cognitiva das crianças pesquisadas, foi aplicado, nos estudantes que reforçaram a hipótese, o teste Desenho da Figura Humana (DFH) – Escala Sisto (2005), encerrando assim o quarto momento da pesquisa. No simples ato de desenhar a figura de um homem (de expressar seu saber da figura humana), a criança ativa diversos recursos mentais, tais como: associar os traços gráficos com o objeto real; analisar os componentes do objeto e representar; valorizar e selecionar os elementos característicos; analisar as relações espaciais (posições); formular juízos de relações quantitativas (proporcionalidades); abstrair, isto é, reduzir e simplificar as partes dos objetos em traços gráficos; e, enfim, coordenar seu trabalho viso manual e adaptar o esquema gráfico a seu conceito de objeto representado (SISTO apud BERNSTEIN, 2005, p. 20). No quinto momento, foi oferecido aos professores interessados um minicurso sobre Estratégias específicas para auxiliar o aprendizado do aluno com TDAH. Segundo o guia escola publicado pela Associação Brasileira de Déficit de Atenção (2013), o primeiro passo é dar aos professores conhecimentos científicos sobre o transtorno, pois assim eles poderão ser grandes aliados no tratamento e poderão adotar estratégias capazes de auxiliar o desempenho escolar e favorecer o aprendizado dos alunos. E ainda, Knapp (2004) afirma que a educação das crianças, pais e professores sobre o transtorno é parte fundamental, pois tem como objetivo ajudar o paciente, a família e os professores a compreenderam melhor os sintomas e prejuízos do transtorno como decorrentes de uma doença, desfazendo rótulos prévios que frequentemente acompanham essas crianças (por exemplo, preguiçoso, burro, incompetente, bagunceiro e outros). No sexto momento, foram realizadas as correções, análises e interpretações dos Testes Desenho da Figura Humana (DFH) – Escala Sisto (2005). Com os resultados foi possível 7 alcançar o penúltimo momento da pesquisa, a construção dos pareceres psicológicos específicos e individuais de cada aluno que foram apresentados as escolas correspondentes, junto à devolutiva. Teve-se como objetivo, através dos pareceres, transmitir aos educadores, professores e pais os resultados obtidos, orientando-o e fazendo os encaminhamentos necessários. Com a finalização da pesquisa, chega-se ao oitavo e último momento, a realização das devolutivas nas escolas pesquisadas Segundo Ocampo (1981), o objetivo da devolução é sintetizar ou unir aspectos reparadores e destrutivos para poder mostrar como o presente e o futuro funcionam como elementos de reparação. O presente autor também afirma que o psicólogo deve restituir aos seus verdadeiros donos o que nele foi depositado durante todo o processo, tanto consciente quanto inconscientemente, com a intenção de preservar a si próprio. A devolutiva se refere ao momento em que o psicólogo transmite à pessoa atendida o resultado do trabalho realizado, orientando-o e fazendo os encaminhamentos necessários, seguindo as orientações do Código de Ética do Psicólogo (2005). Dessa forma, caberá ao psicólogo, avaliar quais as informações que serão documentadas considerando: a situação específica, os objetivos propostos do trabalho para o qual foi contratado e a fundamentação teórica do seu trabalho. Assim, através da devolutiva, é possível transmitir à pessoa atendida contribuições da ciência psicológica ao caso específico. RESULTADOS A pesquisa buscou o levantamento de dados das crianças com diagnóstico de TDAH e a avaliação psicológica das hipóteses desse transtorno, com crianças de 6 a 12 anos do ensino fundamental. A tabela a seguir mostra as escolas municipais que participaram da pesquisa bem como o número de crianças com laudos do transtorno matriculadas. Essas informações foram fornecidas pela direção e coordenação de cada escola. Temos ainda a quantidade de alunos indicados pelos professores como tendo comportamentos característicos do TDAH e o total 8 dos indicados com os já diagnosticados. Essa coleta de dados foi feira no primeiro momento da pesquisa. Tabela 1- Número de laudos e indicações por escola. NOME DA ESCOLA LAUDOS INDICAÇÕES TOTAL Dom Máximo 02 29 31 Eduardo Ben. Lindote 00 03 03 Garcês 03 11 14 Izabel Campos 00 13 13 Jardim Paraiso 00 09 09 Novo Oriente 03 08 11 Raquel Ramão 12 03 15 Tancredo Neves 00 16 16 Vila Irene 04 05 09 Vila Real 01 27 28 Vitoria Régia 01 06 07 TOTAL 26 130 156 Fonte: As autoras (2014). Observa-se que em todas as escolas houve indicações, remetendo que o TDAH pode estar presente no imaginário dos professores, coordenadores e diretores. O número total de indicações é bem expressivo. Em relação aos laudos apenas três escolas não possuem. É importante notar os extremos nos dados da realidade educacional. Como exemplo vemos na Escola Municipal Raquel Ramão com um total de 450 alunos, doze casos confirmados e diagnosticados do transtorno, já na Escola Municipal Dom Máximo que atende aproximadamente 720 alunos tem apenas dois com laudos do transtorno. Nas Escolas Municipais Izabel Campos, Jardim Paraiso, Professor Eduardo Benevides Lindote, e Tancredo Neves não apresentam nenhum laudo. Das cento e trinta indicações apenas vinte e cinto tiveram a hipótese reforçada, conforme a Tabela 2 a seguir: 9 Tabela 2 - Número de hipóteses reforçadas. Escola Número de alunos indicados Alunos reforçados que realizaram o teste DFH Hipóteses reforçadas em alunas Hipóteses reforçadas em alunos Dom Máximo Eduardo Benevides Lindote Garcês 29 03 03 00 03 01 00 01 11 03 01 02 Izabel Campos 13 02 01 01 Jardim Paraiso 09 04 04 00 Novo Oriente 08 02 01 01 Raquel Ramão 03 01 00 01 Tancredo Neves 16 02 00 02 Vila Irene 05 00 00 00 Vila Real 27 06 02 04 Vitoria Régia 06 01 00 01 TOTAL 130 25 12 13 Fonte: As autoras (2014). Pode-se observar na Tabela 2 a exposição do número de alunos indicados e reforçados e separadamente o número de crianças do sexo masculino e feminino com a hipótese reforçada. No universo pesquisado foram confirmados treze meninos e doze meninas. Observa-se então a diferença de apenas um menino a mais que as meninas que tiveram a hipótese reforçada. Esse dado é importanto visto que segundo a Silva e Cabral (2013): Antes se pensava que era apenas mais comum nos meninos que nas meninas, na proporção 3 para 1, mas esta proporção vale apenas para as situações de consultório ou ambulatório, pois na população em geral as diferenças entre meninos e meninas com TDAH são menores. (SILVA, CABRAL, 2013, p. 12). Desse modo, os dados de Cáceres correspondem aos dados de Silva e Cabral (2013) da Assossiação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA). Com a finalização da pesquisa, aplicação e correção dos testes, observou-se que o TDAH ainda não é um tema de domínio da maioria dos professores e coordenadores da rede 10 municipal da zona urbana de Cáceres, pois ao falar do pré-projeto, muitos não sabiam o que era o TDAH ou tinham uma visão um pouco distorcida desse transtorno. Foi percebido que mesmo apresentando aos professores os aspectos comuns de uma criança com TDAH, muitos deles confundiram as características e não conseguiram responder o teste com exatidão. Observou-se ainda que a rede municipal de educação é muito carente de informações e o apoio psicológico aos alunos e professores é muito limitado, pois o serviço é realizado por apenas um profissional que precisa atender 44 escolas, inclusive a zona rural; o que pode contribuir com o número alto de crianças indicadas com a hipótese de TDAH e as poucas hipóteses reforçadas. Durante as entrevistas semiestruturadas com os professores e coordenadores percebese que a indisciplina escolar, a falta de limites, a carência afetiva, as dificuldades de aprendizagem e o TDAH ainda são muito confundidos, sobretudo em alunos que apresentam outras problemáticas. “Os professores tendem a superinformar os sintomas de TDAH, principalmente quando há presença concomitante de outro transtorno diruptivo do comportamento” (KNAPP, 2004, p. 362). O que também pode explicar o número alto de crianças indicadas e as poucas hipóteses reforçadas e a busca dos professores por um diagnóstico a qualquer custo. Durante as devolutivas percebeu-se que os resultados nos pareceres relatados não estavam de acordo com as expectativas dos professores, sendo assim fez-se necessário uma clarificação que mediasse as expectativas das hipóteses diagnósticas levantadas a partir das escalas avaliativas. A conclusão da pesquisa foi bem aceita pelos educadores. As direções das instituições declararam estar de portas abertas para futuras pesquisas e contribuições necessárias. CONCLUSÃO Com os resultados da pesquisa pode se perceber a necessidade divulgar e estudar através de formação continuada com os professores a complexidade do transtorno e possíveis estratégias de intervenções pedagógicas que facilitem e contribuam para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo da criança com TDAH. 11 Com as devolutivas feitas através de visitas, entregas dos pareceres psicológicos, e as distribuições das cartilhas elaboradas pela Associação Brasileira de Déficit de Atenção aos professores e coordenadores, acredita-se que o presente trabalho tenha contribuído não somente em nível de informação aos professores, mas também incentivar a busca de conhecimento, pois mesmo que o mesmo não consiga discorrer com propriedade sobre o assunto, é possível desenvolver um olhar crítico, observador, levantar hipóteses e discutir estratégias de metodologias mesmo que o sistema não lhe ofereça condições favoráveis. Respeitando ainda as diversidades dos alunos na sala de aula regular. Embora a pesquisa não tenha sido desenvolvida em todas as escolas na rede municipal por conta do curto espaço de tempo, as dificuldades de locomoção, e a falta de recursos financeiros acredita-se que os cento e trinta alunos que participaram da pesquisa junto com os professores entrevistados foram beneficiados tanto em conhecimentos quanto em encaminhamentos para os alunos que carecem de atendimentos especializados. No decorrer da pesquisa pode-se perceber que as contribuições dos professores sobre os alunos indicados foram de extrema importância, entretanto os resultados teriam sido mais satisfatórios se a família tivesse participado no processo de confirmação das hipóteses. Contudo entende-se que o foco da pesquisa era os professores, assim, limitou-se ao contexto escolar. A pesquisa teve como metodologia diversas estratégias complementares como escalas avaliativas, testes projetivos, entrevistas semiestruturadas, minicursos, e devolutivas. Segundo Knapp (2004) em relação às avaliações complementares, normalmente se sugere: a) encaminhamentos de escalas objetivas para a escola; b) avaliação neurológica; c) testagem psicológica. Portanto, “fica transparente a necessidade de políticas públicas que visem a diminuir as discrepâncias e promover condições escolares mínimas para que a aprendizagem possa ocorrer em um ambiente escolar mais favorável.” (NETO; JESUS; KARINO; ANDRADE, 2013). Assim, acredita-se que se o Projeto de Lei 7081/2010 que clama pelo estabelecimento de políticas públicas que reconheçam as crianças com TDAH e transtornos de aprendizagem como população que precisa de apoio psicopedagógico em sala de aula for regulamentado, já representará um grande avanço e pelo menos esta parcela da população escolar terá condições 12 mais justas de conseguir o sucesso no processo de aprendizagem. Desta forma, essa é uma preocupação para toda a sociedade, sendo necessário discutir uma política pública que identifique a aprendizagem, sem que haja exclusão ou discriminação, com um suporte educacional e psicológico voltada para as suas especificidades, afinal segundo Goldstein S. e Goldestein M. (2001) a criança hiperativa na escola é como “encaixar um prego redondo em um buraco quadrado”. REFERÊNCIAS Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 6023. Informação e documentação: referências - elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2000. 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