XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
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RESTAURANDO MEMÓRIAS EM MÚLTIPLAS LINGUAGENS
Prof.ª Dr.ª Sandra Regina Pinto Santos
Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro – FAETEC
Prof. Clóvis Bulcão de Moraes
Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro – FAETEC
RESUMO
O presente artigo versa sobre a realidade do cotidiano pedagógico de uma instituição
centenária voltada à Formação de Professores no Estado do Rio de Janeiro, cujos atuais
desafios perpassam a revitalização de seu conjunto patrimonial material e imaterial. O
primeiro, em torno do seu campus de 38 mil metros quadrados e de seu conjunto
arquitetônico em estilo neocolonial. O segundo, em torno da formação de professores da
Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível superior, ainda
na década de 30 do século XX, liderada por Anísio Teixeira (BOLETIM DE
EDUCAÇÃO PÚBLICA, 1930 e TEIXEIRA, 1988). Nesta perspectiva, restaurar
memórias em múltiplas linguagens e mídias foi um dos caminhos amalgamados pelo
ensino, pela aprendizagem e pela investigação nesta instituição, hoje Instituto Superior
de Educação do Rio de Janeiro da FAETEC (Fundação de Educação Profissional da
Secretaria de Ciência e Tecnologia), o qual congrega no mesmo espaço físico,
acadêmico e pedagógico, a Educação Básica e o Ensino Superior. Com fomento
FAPERJ (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), desenvolvemos
pesquisa fundamentada no projeto “Laboratório de Estudos e Produção de Mídias sobre
Violência, Acessibilidade e Cotidiano Escolar”. O referido laboratório reúne
multimídias, como suporte material em múltiplas linguagens, que possibilita transmitir
no tempo constituições da memória social desta Instituição. Fazer circular a memória
(NORA, 1993 e LE GOFF, 1994) congregando passado e presente e, ainda, projetando
o futuro é objetivo desta pesquisa ao construir novos conhecimentos, como práxis
investigativa do próprio cotidiano escolar, como território de mediação (MORAN,
2000) para novas práticas pedagógicas, para além da sala de aula, geradoras de novos
processos de memoração do patrimônio ameaçado.
Palavras-chave: Formação de Professores, Memória Social e Multimídias.
Dos diversos sentidos da palavra restaurar, tomaremos como inspiração para
iniciar este painel o de “[...] Pôr de novo em vigor, renovando o deteriorado, repondo o
que se gastou” (Aurélio, 2011). Quando assumimos a gestão do Instituto Superior de
Educação do Rio de Janeiro em 2007, logo de início, nos deparamos com esta palavra:
RESTAURAR. Conscientes de que recebíamos um patrimônio cultural, tanto na
dimensão material quanto na imaterial, assumimos o compromisso coletivo de restaurar
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a gênese da Formação de Professores na releitura dos “pioneiros da educação”, com
foco na obra do educador Anísio Teixeira.
Constatamos uma instituição deteriorada tanto nas suas instalações prediais
como na sua identidade corporativa, ainda que no imaginário social fluminense, o
Instituto de Educação goze de prestígio e permaneça reificado no glamour dos anos
dourados, década na qual ele teria atingido o seu “apogeu”, divulgado pela mídia
televisiva que socializou, em nível nacional, este momento histórico. Este período de
“apogeu”, de certa forma, foi enaltecido em detrimento de outros, em especial o da
década de 30 do século passado, quando é criado o desenho institucional que agrega o
espaço profissional de formação de professores em nível superior à escola laboratório,
sob o nome de Instituto de Educação. No bojo do vanguardismo do movimento
escolanovista, reconhecemos este período como fundante para uma nova história da
educação no Brasil. Desenhava-se um centro educacional que incorporava num só
estabelecimento a antiga Escola Normal e escolas anexas, Jardim de Infância e Escola
de Aplicação, com as modificações de estrutura e funcionamento fixadas pelo Decreto
3.810 de 19 de março de 1932. Essas modificações se constituíram, principalmente, na
criação de uma escola secundária e de uma Escola de Professores em nível superior,
tendo como objetivo prioritário a melhoria de qualidade na formação do magistério
primário, além de cursos de formação de orientadores e administradores escolares. A
Escola de Professores do Instituto de Educação, em nível superior de 1932 a 1938, foi
articulada à Universidade do Distrito Federal em 1935.
A primeira Escola de Educação de nível universitário que existiu no
Brasil foi a Escola de professores do Instituto de Educação do Rio de
Janeiro, criada em 1932 no ex-Distrito federal, que daquele modo
passou a designar-se, quando de sua incorporação à Universidade do
Distrito Federal; fundada em 1935 (ANÏSIO, 1988, p. 45).
Nosso desafio, quando eleitos para as gestões 2007-2012, se pautou na
revitalização do Instituto de Educação de Anísio Teixeira. A urgente restauração do
patrimônio cultural atendia às diretrizes dos órgãos estadual e municipal de
tombamento, respectivamente INEPAC e SubPC, dentre as quais se destacavam a
necessidade de elaboração de um Plano Diretor do campus ISERJ.
Retomávamos
assim, o diálogo interinstitucional com os órgãos de preservação do patrimônio que nos
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incentivaram a investigar e explorar meios para a restauração, não só do patrimônio
predial propriamente dito, mas para restauração das memórias com a comunidade em
prol de ações de educação patrimonial e revitalização cultural do todo.
Todas as possíveis estratégias para revitalização deste patrimônio convergiam
para um aprofundamento da pesquisa no âmbito da Memória Social. Assim,
entendemos que a identidade e valores de uma sociedade estariam presentes na memória
coletiva, seja no inconsciente coletivo, seja nas representações simbólicas dos grupos,
no caso em questão, da comunidade ISERJ. Consideramos, portanto, a memória como
um fenômeno social, e percebemos que as ações que ativariam as memórias
perpassariam a sua reconstrução permanente: repensando com as idéias e imagens do
presente, as experiências do passado, com vistas ao futuro.
Nora nos aponta que os locais de memória só existem porque não existem mais
meios de memória, a memória que esta ameaçada e que serve como justificativa à
construção desses lugares. O autor acrescenta ainda que “[...] a memória é vivida do
interior, mais ela tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de
uma existência que só vive através delas”. (p.7,13)
A memória coletiva em busca de sua identidade, segundo Le Goff, assume
grande relevância nas sociedades, como instrumento de luta pelo poder, pela vida, de
todas as classes, sejam elas dominadas ou dominantes. A memória, portanto, é “um
elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja
busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na
febre e na angústia” (p 475). Ainda, o caráter dinâmico e plural dos materiais de
memória social, acumulados pelas instituições de memória, são memórias virtuais
(NAMER, 1987), isto é, memórias em potencial, que poderiam ou não ser utilizadas,
dependendo das circunstâncias.
Assim, tínhamos na instituição um vasto e diverso material pronto a memorar, a
sair das prateleiras e dos espaços, aliado a uma efervescência do cotidiano escolar que
necessitava de novos registros e outros suportes para se tornarem visíveis aos olhos da
comunidade. A partir daí, começamos a traçar o planejamento de todas as ações que
pudessem atingir as famílias, o corpo discente, e os profissionais da instituição, de
forma abrangente.
Precisávamos criar um projeto institucional multidisciplinar e
encontrar o locus para este trabalho de investigação e pesquisa.
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Chegamos ao Laboratório Multimídia (LabMM), projeto investigativo
fundamentado no projeto “Laboratório de Estudos e Produção de Mídias sobre
Violência, Acessibilidade e Cotidiano Escolar” para o qual agregávamos nossos
objetivos iniciais. Com fomento FAPERJ, o referido laboratório reuniu multimídias
com foco em múltiplas linguagens para “restaurar” memórias e construir novos
conhecimentos, inaugurando uma nova era para o ISERJ, como práxis investigativa do
próprio cotidiano escolar, como território de novas práticas pedagógicas, para além da
sala de aula, geradoras de novos processos para memoração do patrimônio ameaçado.
A criação e implantação do laboratório se deram entre 2007 e 2008. Com um
fluxo aproximado de cinco mil pessoas/dia, o ISERJ ocupa em espaço de 38 mil metros
quadrados, na Praça da Bandeira, zona norte da cidade. Um número significativo dos
alunos vem de comunidades da Grande Tijuca. O Laboratório Multimídia (LabMM)
destina-se a este público alvo e tem como objetivos prioritários elaborar e produzir
práticas e conteúdos por intermédio de três mídias: rádio, vídeo e jornal; e destacar os
alunos como protagonistas sociais do zelo ao patrimônio material e imaterial da
instituição. Em estilo neocolonial brasileiro, seu conjunto arquitetônico corporifica a
brasilidade que marcou a segunda década do século passado. Os educadores Fernando
de Azevedo e Anísio Teixeira, na condição de Diretores de Instrução Pública do Distrito
Federal de 1926 a 1935, destacaram que “[...] o edifício será por si só uma fonte,
luminosa de higiene e de civismo” (Boletim de Educação Pública, 1930).
Dentre os objetivos já citados acima, o LabMM busca usar o potencial das mídias
para promover discussão e reflexão de forma de prevenir à violência.
a) habilitar os alunos a produzirem conteúdo crítico a partir das diferentes
linguagens – rádio, vídeo e jornal.
b) estimular uma consciência de preservação do patrimônio a fim de garantir a
integridade física das edificações.
Até 2009, a Prof.ª Dra. Sandra Santos, coordenadora do projeto, convidou
professores do ensino médio e dos anos finais do ensino fundamental para organizar as
oficinas de rádio, jornal e vídeo. A equipe era multidisciplinar com especialistas de
história, sociologia, filosofia, informática, artes, com pouca ou nenhuma experiência em
novas tecnologias de informação e comunicação, mas comprometidos em explorar esse
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universo a serviço da educação. Teoricamente, o projeto não se pautava em saberes préestabelecidos pela academia ou tecnicistas no âmbito dos conteúdos.
A partir da proposta de Moram (2000, p. 36) que a escola
[...] precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os
seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis
manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais
progressistas e participativos das tecnologias que facilitem a educação dos
indivíduos.
A carga horária destes profissionais foi dividida entre o espaço sala de aula
propriamente dita, e o espaço dinamizador da oficina. Ao longo de 2009, foram
desenvolvidas com alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental duas produções que
se tornaram perenes: o programa de rádio A voz estudantil e a radionovela Gotas de
amor.
A voz estudantil se transformou em um canal de discussão dos problemas da
escola. Os alunos eram orientados no sentido de problematizar qualquer questão, sem
perder de vista que quem fosse criticado seria escutado e teria o seu direito de resposta
assegurado. Foi nesse quadro que professores, alunos, faxineiros, inspetores e
merendeiras tiveram chance de debater o cotidiano da vida escolar. O programa revelou
um tipo de violência que não era evidente aos olhos do corpo docente. Os alunos,
orientados pelos profissionais do LabMM, de forma responsável, narraram as tensas
relações com os inspetores, descreveram como eram tratados pelas merendeiras e
tiveram a chance de debater o cardápio da escola com a equipe da cozinha. Também
surgiram outras questões mais evidentes, como as condições de higiene dos banheiros e
as de conservação do mobiliário escolar, que entraram como pauta do programa.
Concomitantemente, nascia Gotas de Amor, uma radionovela ambientada em
uma escola fictícia.
A criação desta rádio novela com os alunos foi uma experiência enriquecedora.
A montagem do texto e as discussões sobre os personagens e suas inter-relações eram
extensas e demandaram muitas horas de trabalho. A sonorização/sonoplastia da
radionovela também demandou um apuro técnico para além do previsto para uma rádio
escolar. Essa experiência revelou possível baixa autoestima do corpo discente. Este
indicativo justifica-se porque apesar da clientela da nossa escola ser, prevalentemente,
de estudantes de classe média baixa e de comunidades carentes do entorno, os
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personagens criados eram todos claramente de inspiração hollywoodiana. E, quase todos
os personagens, já haviam estudado fora do Brasil.
A Rádio ISERJ – “a rádio que toca a nossa escola” – se configurou como um
efetivo instrumento de apoio educativo. Mais alunos procuraram o estúdio para gravar
uma chamada de um evento ou bolar uma vinheta para chamar a atenção para algum
assunto da comunidade escolar (em geral, o tema mais abordado era a deficiência da
limpeza do ambiente). A rotina de trabalho no estúdio era enriquecedora: gravar, escutar
e avaliar era uma forma diferente de aprender/ensinar. O estúdio exigiu uma postura em
relação ao silêncio mais rígida do que na sala de aula, posto que isso fosse a condição
para uma gravação sem ruídos, e que exacerbava os erros durante a leitura. De forma
lúdica, o aluno se conscientizava de como aprimorar uma habilidade.
Mercado (2000, p.73) defende a idéia que “a pretensão da escola é fazer o
aluno pensar, estimular suas faculdades, criar oportunidades de utilizar seus talentos,
respeitando os diversos modos de aprender e de expressar”. No segundo ano de
atividade, o LabMM se aproximou do cotidiano da escola e se transformou em uma
ferramenta de apoio aos professores. A rádio passou a destinar um horário para alunos
com problemas de alfabetização. Esses alunos eram convidados a escrever pequenos
textos sobre algum problema da escola e depois gravavam. Um trabalho que demandava
muita dedicação dos professores e, principalmente, dos técnicos. O texto era repetido
inúmeras vezes buscando a forma correta.
Outra novidade do segundo ano de atividades foi na área de produção de vídeos.
Alguns nasceram de forma interdisciplinar, outros eram institucionais. Nos dois casos,
havia a participação dos alunos, fosse montando o texto, editando, narrando ou
apresentando. No entanto, a visibilidade dos trabalhos ainda apresentou dificuldades de
ampla socialização. Todos foram postados no site da escola, mas eram pouco acessados.
Os alunos ainda buscavam acessar vídeos na internet que veiculam a violência, em geral
feitos com o uso de telefones celulares e postados no mesmo dia.
Diante desta dificuldade, lançamos a questão: por que não fazer uso da mesma
metodologia? Para além das demandas tradicionais e pouco inovadoras (gravados por
câmera, com enquadramentos estáticos e edições impecáveis), a proposta do LabMM é
construir vídeos curtos (nunca ter mais de cinco minutos), filmados com celular e com
linguagens simples e, por isto, vanguardistas. Também ao longo deste processo, as
participações na criação de textos para o site da escola também aumentaram. A
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integração entre a sala de aula, o LabMM e o mundo virtual fazia com que o número de
visitas ao www.iserj.net fosse crescente.
Em junho de 2011, postamos o primeiro vídeo educativo feito com celular e
editado sem grandes preocupações estéticas. Em pouco menos de um mês o número de
acessos era expressivo. Vídeos com uma linguagem ágil e de curta duração podem ser
feitos em um dia e gerar impacto bem maior do que os concebidos de maneira
convencional.
Todos esses produtos (filmes e programas de rádio) são conectados ao mundo
virtual, pois são postados no site da escola e ficam disponíveis. Estas ações que
nasceram no chão da escola, pelo seu sentido social emancipatório, estão além do
previsto pelo Programa de Formação Continuada em Mídias na Educação,
desenvolvidas pela Secretaria de Educação a Distância, do Ministério da Educação –
SEED/MEC, segundo o Boletim 24 da própria Secretaria, pois coloca o aluno como
autor do processo e, ao mesmo tempo, interliga diferentes tipos de mídia.
Esse “construtivismo hipertextual” é um processo não linear, transitório, em
permanente mutação (hiper) textual. Além disso, os sujeitos envolvidos
passam a desenvolver uma outra dinâmica de atuação interativa que, como a
linguagem, também já não é mais linear. A transformação que isso propicia
hoje – na linguagem e na interação social –, especialmente nos jovens, é
imensa, de modo que escola e professor não podem ficar alijados desse
processo, precisam estar capacitados para apropriá-lo no ensino. (Boletim
SEED, pág. 90)
Para os alunos do ISERJ, navegar na internet, ter celulares conectados e outros
suportes eletrônicos não é tão recorrente como é para outras realidades, mas a tendência
é de se ampliar a acessibilidade às novas tecnologias. Em breve, a chegada de lousas
eletrônicas nas escolas públicas brasileiras pode marcar mudanças metodológicas, as
quais desprovidas de transformações da lógica da construção de conhecimentos
permanecerão estéreis de sentido social. O uso de textos com hiperlinks para músicas,
vídeos, mapas e todo tipo de documento torna o ensino muito mais atrativo para os
alunos, desde que a profissão professor tenha suas condições objetivas garantidas como
políticas públicas (plano de carreira, jornada de trabalho e formação permanente).
O uso das redes sociais e a sua utilização já entraram para a história. Na prova
do Enem de 2011, uma das perguntas era exatamente sobre o seu uso nas revoltas
árabes. A chamada “primavera árabe” movimento que derrubou vários ditadores do
Oriente Médio, no ano de 2011, foi toda articulada pelas redes sociais, ou seja, elas já
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fazem parte do currículo de história e provavelmente serão usadas no futuro por outras
sociedades.
As chamadas mídias pós-massivas que instauram um novo tipo de comunicação
se caracterizam por liberar o pólo de emissão, ao se conectarem com o mundo todo, de
livre distribuição e dispensarem concessões governamentais para produção de conteúdo.
Tais mídias se utilizam de ferramentas que proporcionam mais comunicação do que
informação, baseadas na livre troca de conteúdos diversos e que apesar de serem globais
podem reforçar questões locais nas diferentes dimensões sociais. Nesta nova dinâmica
pessoas e grupos podem se relacionar de forma descentralizada, colaborativa e
participativa.
As oficinas que inicialmente se incorporaram ao LabMM foram com os mais
diversos temas, dentre elas, a Oficina de Patrimônio Cultural. Essa oficina surgiu
com a necessidade de promover uma atividade que visasse socializar o conhecimento,
envolver e conscientizar a comunidade sobre sua responsabilidade na preservação de
seu patrimônio cultural e fortalecendo o perfil identitário da Instituição, além de
minimizar práticas de vandalismo predial no cotidiano escolar.
Tendo ainda, como objetivo geral a promoção e a valorização do patrimônio
material e imaterial do ISERJ, bem como o respeito e a proteção dos bens culturais.
Como objetivo específico, ampliar o conhecimento sobre a mais que centenária história
do ISERJ, gerando reflexão e ações de salvaguarda ao conjunto patrimonial.
A oficina configurou-se no seguinte formato: encontros semanais num total de
32h, direcionada aos servidores e alunos do ISERJ, a partir do 8° ano do ensino
fundamental, com aulas ministradas no espaço do LabMM e em outros espaços, aulas
excursionadas. O plano de curso foi dividido em seis módulos que abordariam o tema
de forma panorâmica e levariam ao produto final nas diferentes mídias disponibilizadas
pelo LabMM para conclusão da oficina.
As duas turmas que concluíram o programa, no ano de 2011, eram compostas na
sua totalidade de alunos do Curso de Pedagogia, do ISERJ, e que manifestaram
interesse no tema para integralização de sua formação. A primeira turma definiu como
produto final a elaboração de um folheto explicativo dos espaços do campus ISERJ.
Constatou-se que a valorização do patrimônio deveria começar pelo conhecimento do
território, identificando também pontos relevantes da história do ISERJ.
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O conteúdo
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das informações e seleção dos espaços a serem destacados partiu de várias sessões de
debates, leitura de textos sobre a instituição, visita ao Centro de Memória para contatos
com documentos e fotos de arquivo, além de visitas guiadas pelo campus em lugares
que antes passavam despercebidos.
Na segunda turma, foi proposta a elaboração de uma coluna de rádio, num tempo
máximo de 3 minutos, a ser veiculada no recreio escolar e nos intervalos de almoço e
jantar. A discussão sobre o texto/conteúdo de cada coluna também versava sobre o
patrimônio material integrado da escola, mas especificamente, do desejo de identificar a
história por trás da estatuária. As fontes foram pesquisadas no próprio ISERJ, a partir de
documentos do acervo e bibliografia indicada. A leitura dos textos finais para gravação
ainda passaram por debates calorosos entre aluno e professores do LabMM, que deram
suas sugestões, além do detalhamento com os técnicos do laboratório que participaram
proporcionando segurança e rigor na gravação do produto final.
O LabMM, por suas múltiplas linguagens e possibilidades, contextualiza marcas
sociais da primeira década do século XXI numa instituição cuja gênese se deu no século
XIX. Assim, efetivando suportes matérias de registros históricos, restauramos memórias
de formação de professor em nível superior, visitando passados, construindo presentes e
projetando futuros.
Neste recorte epistemológico, o presente artigo foi elaborado a seis mãos,
agregando as contribuições dos professores Denise Calasans da Gama Lima, Sandra
Regina Pinto Santos e Clóvis Bulcão de Moraes em torno da restaraução de memórias
em múltiplas linguagens como eixo temático do Laboratório Multimídia do ISERJ
(LabMM) no coletivo do-discente do ISERJ.
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