Thiago Gomes de Almeida PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide: um estudo exploratório Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação de Administração de Empresas da PUCRio como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Administração de Empresas. Orientadora: Profa. Ana Heloisa da Costa Lemos Rio de Janeiro Fevereiro de 2014 Thiago Gomes de Almeida PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide: um estudo exploratório Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Administração de Empresas da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. Profª. Ana Heloísa da Costa Lemos Orientadora Departamento de Administração – PUC-Rio Profª. Alessandra de Sá Mello da Costa Departamento de Administração - PUC-Rio Prof. Marco Aurelio de Sa Ribeiro PUC-Rio Prof. Eduardo Espíndola Halpern UNIRIO Profª. Mônica Herz Vice-Decana de Pós-Graduação do CCS – PUC-Rio Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2014 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e da orientadora. Thiago Gomes de Almeida Graduou-se em Administração de Empresas com ênfase em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro em 2011. Atuou por cinco anos na L’Oréal Brasil, nas áreas de Marketing e Novos Negócios, onde implantou canal de vendas direcionado à base da pirâmide entre 2011 e 2013. Atualmente é professor de graduação das disciplinas de Empreendedorismo e Marketing nos cursos de Administração e Comunicação. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Ficha Catalográfica Almeida, Thiago Gomes de Uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide : um estudo exploratório / Thiago Gomes de Almeida ; orientadora: Ana Heloisa da Costa Lemos. – 2014. 80 f. ; 30 cm Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Administração, 2014. Inclui bibliografia 1. Administração – Teses. 2. Base da pirâmide. 3. Uso de tecnologia. 4. Empreendedores de baixa renda. I. Lemos, Ana Heloisa da Costa. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Administração. III. Título. C D CDD: 658 Para Rafaela. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Agradecimentos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA À minha orientadora, Ana Heloisa da Costa Lemos, por ter aceitado o desafio de recomeçar este trabalho junto comigo. Por me orientar - ensinar, sugerir, apressar, apoiar, receber, buscar, acalmar e cobrar - sempre na medida certa. Aos meus pais, Carlos Henrique e Madeleine, pelos constantes incentivos e por acompanharem minha trajetória com tanto afinco e dedicação. Aos meus avós Sebastião e Elza, que me ensinaram muito do que sei. À minha grande amiga Diana Paes, parceira profissional na grande jornada humana que consistiu implantar um projeto de base da pirâmide no Rio de Janeiro. À minha mulher Rafaela Procópio Campos, pela espera e pelos olhares tão atentos e cuidadosos a tudo que escrevo. Resumo Almeida, Thiago Gomes de. Lemos, Ana Heloisa da Costa. Uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide: um estudo exploratório. Rio de Janeiro, 2014. 80p. Dissertação de Mestrado Departamento de Administração, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O desenvolvimento das tecnologias da informação e da internet transformou o modus operandi das organizações, tanto em níveis estratégicos quanto operacionais. Desta forma o campo de estudos da aceitação e uso de tecnologias PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA se desenvolveu e ganhou interesse da comunidade acadêmica, uma vez que seus achados contribuíram para a compreensão dos fatores que inibiem ou potencializam o uso de tecnologias no ambiente organizacional por parte dos indivíduos. Ao mesmo tempo, desde a última década, o fenômeno de empresas multinacionais desenvolvendo estratégias para mercados da base da pirâmide se intensificou. No entanto, a literatura aponta que ainda há desafios a serem vencidos pelas organizações para que estas iniciativas obtenham resultados mais efetivos em termos de escala. Grande parte destes desafios está relacionada com a integração das operações das empresas multinacionais com os parceiros empreendedores locais, oriundos dos territórios de base da pirâmide. Uma vez que tal integração passa pelo uso de tecnologias adotadas pelas empresas multinacionais, a literatura demonstra que há limitações e dificuldades por parte dos empreendedores para utilizarem tais tecnologias. Desta forma este trabalho buscou investigar o uso de tecnologia da informação por empreendedores de baixa renda no contexto de projetos orientados à base da pirâmide por empresas multinacionais. Palavras-chave Base da pirâmide; uso de tecnologia; empreendedores de baixa renda. Abstract Almeida, Thiago Gomes. Lemos, Ana Heloisa da Costa (Advisor). Use of information technology by entrepreneurs from the base of the pyramid: an exploratory study. Rio de Janeiro, 2014. 80p. MSC. Dissertation Departamento de Administração, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. The development of information technologies and the Internet transformed the modus operandi of organizations, both at strategic and operational levels. Thus PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA the field of studies of acceptance and use of technology has developed and gained interest from the academic community, since their findings contributed to the understanding of the factors that inibiem or intensify the use of technologies in the organizational environment by individuals. At the same time, since the last decade, the phenomenon of multinational companies developing strategies for the base of the pyramid markets intensified. However, the literature indicates that there are still challenges to be met by organizations to obtain these initiatives more effective results in terms of scale. Most of these challenges is related to the integration of the operations of multinational companies with partner local entrepreneurs, coming from the territories of base of the pyramid. Once such integration through the use of technologies adopted by multinational enterprises, the literature shows that there are limitations and difficulties on the part of entrepreneurs to use such technologies. Therefore, this study investigated the use of information technology for low-income entrepreneurs in the context of projects oriented to the base of the pyramid by multinational companies Keywords Base of the pyramid; use of technology; low-income entrepreneurs. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Sumário 1 Introdução 12 1.1. Problema de Pesquisa 12 1.2. Objetivos 15 1.3. Questões de Pesquisa 16 1.4. Relevância do Estudo 16 1.5. Delimitações do Estudo 18 1.6. Estrutura da Dissertação 20 2 Referencial Teórico 22 2.1. Os estudos sobre Base da Pirâmide 23 2.1.1. A primeira fase dos estudos sobre Base da Pirâmide 25 2.1.2. A segunda fase dos estudos sobre Base da Pirâmide 28 2.2. Os estudos sobre Aceitação de Tecnologia 31 2.2.1. O conceito de Aceitação de Tecnologia 31 2.2.2. Modelos e teorias para Aceitação de Tecnologia 32 2.2.3. Teoria da Ação Racionalizada (TRA) 32 2.2.4. Teoria do comportamento planejado (TPB) 33 2.2.5. Modelo de aceitação de Tecnologia (TAM) 34 2.2.6. Teoria de Difusão de Inovações 35 2.2.7. Teoria unificada para aceitação e uso de tecnologias 36 2.2.8. Prontidão para tecnologia 38 2.3. Empreendedorismo e microempreendedoroes no Rio de Janeiro 40 3 Metodologia da Pesquisa 42 3.1. Tipo de Pesquisa 42 3.2. Papel do Pesquisador 44 3.3. Seleção de entrevistados 46 3.4. Procedimentos de Coleta e Registro de Dados 47 3.5. Limitações do Método 48 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA 4 Análise dos Resultados 49 4.1. Necessidade de aprendizagem para o trabalho 50 4.2 O Papel de Amigos e Familiares como agentes facilitadores 58 4.3. Prontidão Para Uso de Tecnologia 62 4.4. Limitações de Formação 67 5 Conclusões 71 6 Referências Bibliográficas 77 Lista de figuras PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Figura 1: Gupta e Ghiji (2013) Trajetória dos estudos base da pirâmide 30 Figura 2: Teoria da Ação Racionalizada TRA 33 Figura 3: Teoria do comportamento planejado TPB 34 Figura 4: Modelo TAM Original 35 Figura 5: Teoria Unificada da Aceitação e Uso de Tecnologia 37 Figura 6: Dimensões da prontidão para tecnologia 38 Figura 7: Modelo de Prontidão e Aceitação para Tecnologia, TRAM 39 Figura 8: Integração tecnológica dos atores da base da pirâmide 74 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Lista de quadros Quadro 1: Perfil dos Entrevistados 47 Quadro 2: Roteiro da Entrevista 48 1 Introdução 1.1. Problema de Pesquisa Os estudos sobre a base da pirâmide consistem numa abordagem singular sobre a questão da participação da população de baixa renda nos mercados de consumo e de trabalho. Tal singularidade é configurada pela premissa de que são as próprias empresas interessadas em vender para estes consumidores, as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA responsáveis em criar as condições para geração de trabalho nos territórios de base da pirâmide (ou seja, territórios onde há concentração de população de baixa renda), necessárias para que a camada mais pobre da população tenha condição de se qualificar profissionalmente, acessando desta forma os mercados de trabalho e consumo (PRAHALAD, 2002). Portanto, esta abordagem desloca as empresas de suas posições tradicionais e orginais para uma nova condição, na qual elas tomam responsabilidade pela transformação sócioeconômica que precisa acontecer nos territórios de base da pirâmide, para que indivíduos sem acesso aos mercados de trabalho e consumo tenham condições de passar a acessá-los (PRAHALAD, 2005). As pesquisas sobre a base da pirâmide tiveram seu início a partir do trabalho seminal de Prahalad (2002), no qual o autor sedimenta as bases teóricas deste campo de estudos, que consiste em compreender as estratégias que as empresas interessadas nos mercados de baixa renda adotam para fazer negócios com as camadas mais pobres da população mundial (PRAHALAD, 2002). Dez anos após o trabalho de Prahalad, Gupta e Guji (2013) realizaram revisão de literatura sobre o tema, identificando as principais linhas teóricas, temáticas e abordagens que desde então emergiram no campo de estudos sobre a base da pirâmide. Suas conclusões demonstraram que nestes dez anos houve um forte predomínio de trabalhos de cunho teórico no campo, com pouco espaço para os estudos de caráter empírico. Os poucos estudos empíricos, por sua vez, foram 13 constituídos por estudos de caso com abordagens descritivas que procuraram narrar o andamento das operações de base da pirâmide estabelecidas por empresas multinacionais (GUPTA e GHIJI, 2013). Outro trabalho preocupado em analisar a produção acadêmica sobre a base da pirâmide, do ponto de vista evolutivo, foi o de Follman (2012), no qual o autor analisou o desenvolvimento e evolução do conceito de base da pirâmide a partir de revisão de literatura dos primeiros dez anos do campo. Follman observa que uma mudança marcou a abordagem dos estudos, identificando diferentes gerações de pesquisas sobre o tema. Neste sistema de classificação (FOLLMAN, 2012), o trabalho de Prahalad de 2002 é identificado como o fundador da primeira geração dos estudos sobre a base da pirâmide, onde o foco principal estava na compreensão de estratégias de base da pirâmide como sendo ações em que produtos e serviços deveriam ser adaptados em termos de atributos e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA funcionalidades para torná-los acessíveis aos pobres (PRAHALAD e HAMMOND, 2002). A partir de 2006, Follman identifica uma linha de trabalho que irá denominar de segunda geração de estudos sobre a base da pirâmide, que surge a partir do trabalho de London e Hart (2006 apud Follman, 2012). Esta nova geração de estudos realiza uma mudança de foco: de estratégias de produtos e serviços, para estratégias de integração das empresas multinacionais com seus respectivos territórios de atuação, através do relacionamento com parceiros locais, desde ONG’s, microempreendedores, lideranças comunitárias até governos locais. O ponto central desta geração de estudos reside na ideia de colaboração entre os agentes dos territórios (microempreendedores, ONG’s etc.) e as empresas multinacionais, no sentido de parceria não apenas para a execução das operações, mas também nos processos de desenvolvimento e adaptação de produtos e serviços, transformando todo o processo numa esteira de desenvolvimento colaborativo (LONDON e HART, 2006). Esta mudança de foco promovida pela segunda geração de estudos ganhou força devido a uma constatação importante: alguns anos após as primeiras iniciativas de empresas multinacionais nos mercados de base da pirâmide, os resultados alcançados foram considerados abaixo do esperado (LONDON e HART, 2010). Os projetos com a base da pirâmide não obtiveram os níveis de escala desejados e consequentemente também não alcançaram o número de consumidores desejado, tornando os 14 resultados financeiros destas operações inferiores ao projetado em seus respectivos orçamentos (LONDON e HART, 2010). De acordo com London e Hart (2010) o principal fator responsável por estes resultados ruins seria a falta de recursos técnicos e tecnológicos dos parceiros locais nos territórios de base da pirâmide, provocando uma limitação da capacidade operacional e gerencial dos projetos. Esta falta de recursos técnicos e tecnológicos está diretamente relacionada com o conceito de vazios institucionais, proposto por Khanna e Palepu (2010), que consiste na visão de que os territórios de base da pirâmide, que em sua maioria estão localizados em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, durante anos foram abandonados por seus respectivos governos locais, resultando em ofertas precárias ou inexistentes de serviços de educação, saúde, saneamento básico, energia e segurança. A fraca presença do estado nestes territórios ao longo do tempo os transformou em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA espaços pouco atrativos para o desenvolvmento de negócios. Empresas de grande porte ou mesmo multinacionais não se instalavam nestes territórios uma vez que não possuíam condições mínimas de segurança e de infraestrutura para atuar; além disso, tais territórios não apresentavam consumidores com capacidade de compra, por possuírem baixa renda. A baixa renda se dava em decorrência de dois fatores: poucas oportunidades de trabalho e baixo nível de qualificação profissional por parte das populações locais. Desta forma, as perspectivas de Khanna e Palepu (2010) e London e Hart (2010) se complementam: os primeiros afirmam que os territórios de base da pirâmide são tomados por vazios institucionais, responsáveis pelos baixos níveis de desenvolvimento econômico, educacional e social destes territórios; os segundos afirmam que as estratégias de base da pirâmide da maioria dos projetos em andamento na primeira década dos anos dois mil não obtiveram os resultados esperados devido à baixa integração com os parceiros dos territórios, que, devido ao baixo grau de instrução e qualificação profissional dos mesmos, não se mostravam aptos a operar as técnicas e tecnologias utilizadas pelas empresas multinacionais. London e Hart (2010) irão propor caminhos para o desenvolvimento das iniciativas de base da pirâmide que tenham como fundamento o desenvolvimento do capital intelectual dos territórios, através da capacitação dos parcerios locais, de forma a permitir que os mesmos possam estar aptos a receber a transferência de 15 técnicas e tecnologias das empresas multinacionais para a gestão das operações, e consequentemente integrarem-se à cadeia de valor global das mesmas. London e Hart (2010) apontam como uma das principais dificuldades para a integração das operações de base da pirâmide o uso de tecnologia da informação por parte dos parcerios microempreendedores locais. Isto se deve, principalmente, às lacunas de formação educacional dos microempreendedores, fruto dos vazios institucionais nos territórios que historicamente limitaram o acesso ao aprendizado e ao uso da tecnologia da informação, por parte da população das áreas de base da pirâmide. Sem o uso das ferramentas tecnológicas, a integração dos parceiros dos territórios com as cadeias de valor das empresas multinacionais é praticamente impossível de se concretizar (LONDON e HART, 2010). Tendo em vista as referidas considerações, a presente dissertação procurou unir duas perspectivas de desenvolvimento para os estudos de base da pirâmide, a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA partir das abordagens de Gupta e Ghiji (2013) e London e Hart (2010): a existência de poucos estudos empíricos baseados em operações reais de base da pirâmide e a necessidade de entender os fatores relacionados à integração dos parceiros dos territórios com as empresas multinacionais, com ênfase na questão do uso da tecnologia. Dessa forma, buscou-se compreender quais fatores influenciam o uso de tecnologia da informação por parte de microempreendedores de baixa renda que participam de projetos e iniciativas de base da pirâmide em parceria com empresas multinacionais. Por se abordar o uso da tecnologia, estudos sobre aceitação e uso de tecnologia da informação em contextos organizacionais (AJZEN, 1989) serviram de base teórica para a coleta de dados e análise dos resultados da pesquisa. 1.2. Objetivos O presente estudo tem como objetivo entender quais são os fatores que influenciam o uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide. 16 1.3. Questões de Pesquisa A questão central desta pesquisa é: Quais fatores influenciam o uso de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide? As subquestões, derivadas da questão central, são: 1. Entender como os empreendedores da base da pirâmide iniciaram seu contato e uso de tecnologia da informação; 2. Compreender até que ponto os empreendedores da base da pirâmide se consideram pessoas interessadas em tecnologia; PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA 3. Analisar quais seriam as principais dificuldades que os empreendedores da base da pirâmide enfrentam em relação ao uso de tecnologia da informação; 4. Identificar a percepção dos empreendedores da base da pirâmide em relação aos benefícios que a tecnologia da informação pode oferecer; 1.4. Relevância do Estudo Conforme apontado por Gupta e Ghiji (2013), os primeiros dez anos de pesquisa sobre a base da pirâmide foram marcados por estudos excessivamente teóricos e conceituais. Os autores destacaram a importância da realização de novos trabalhos, de caráter empírico, focados nas iniciativas reais de empresas multinacionais nos mercados de base da pirâmide, de modo que possam ir além da discussão conceitual, oferecendo contribuições gerenciais para o campo. A importância das contribuições gerenciais têm tido sua importância cada vez mais reconhecida nos estudos sobre a base da pirâmide, desde o trabalho de London e Hart (2010), que apontou um desalinhamento entre os resultados esperados pelas empresas multinacionais em suas iniciativas nos mercados de baixa renda e os resultados que de fato foram obtidos desde o início de seus respectivos projetos. 17 Além disso, Gupta e Ghiji (2013) também identificaram que a maioria dos estudos até 2012 procurou focar a perspectiva das empresas multinacionais. Esta opção acabou por deixar o campo com uma visão parcial e limitada sobre todo o processo e desenvolvimento das iniciativas e estratégias direcionadas aos mercados de base da pirâmide, uma vez que a perspectiva dos parcerios locais e dos territórios não foi compreendida, iluminando apenas parcialmente a cadeia na qual estas iniciativas estão inseridas. O baixo número de estudos empíricos, que retratem a perspectiva dos parceiros locais (microempreendedores, ONG’s, lideranças locais, etc.) pode estar diretamente relacionado aos vazios institucionais (KHANNA e PALEPU, 2010) que caracterizam os territórios de base da pirâmide, dificultando o acesso de pesquisadores ao campo, aos entrevistados e a própria coleta de dados em si, uma vez que as condições de segurança, acesso e transporte nestas áreas, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA tradicionalmente são precárias e limitadas. Desta forma, faz-se necessário ressaltar que parte da motivação e interesse do autor deste trabalho em desenvolver esta pesquisa está relacionada à sua experiência, durante dois anos, com a implantação de um projeto de base da pirâmide em uma empresa multinacional do setor de cosméticos, em territórios de baixa renda no Brasil, mais especificamente nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Esta experiência não apenas serviu como base para que teoria e prática pudessem ser confrotadas por parte do pesquisador, como também permitiu um acesso ao campo privilegiado, uma vez que a rotina de trabalho do pesquisador na época em que atuava no projeto consistia em estar diariamente nos territórios de base da pirâmide, recrutando, treinando e integrando empreendedores de baixa renda ao projeto da empresa multinacional, transformando-os em parceiros que passariam a atuar como microdistribuidores de cosméticos profissionais nas áreas onde residiam. Neste contexto, a presente pesquisa procurou oferecer uma contribuição justamente na direção em que a literatura sobre base da pirâmide demonstra carecer, de acordo com perspectiva apontada por Gupta e Ghiji (2013) e London e Hart (2010), que se refere à ausência de estudos empíricos desenvolvidos a partir de projetos reais de empresas multinacionais em direção aos mercados de base da pirâmide. Esta possibilidade de contribuição se mostrou factível, principalmente, 18 pela posição do pesquisador em relação ao acesso ao campo e as unidades de análise (no caso, os empreendedores de baixa renda). Por fim, a presente pesquisa também compreende que pode trazer contribuições à sociedade, no sentido de que o entendimento dos fatores que inibiem e estimulam o uso de tecnologia por parte dos empreendedores de baixa renda, podem auxiliar na formatação de políticas educacionais mais assertivas no sentido da promoção da inclusão digital. 1.5. Delimitações do Estudo Este trabalho articulou dois campos de estudo: base da pirâmide e aceitação e uso de tecnologias. As iniciativas e projetos de grandes empresas em relação aos mercados de base da pirâmide têm apresentado resultados abaixo do esperado, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA devido, principalmente, à dificuldade de integrar as operações dos territórios, gerenciadas pelos parceiros locais, com a cadeia de valor global das empresas em questão (LONDON e HART, 2010). O principal fator responsável por tal dificuldade seria a transferência de técnicas e tecnologias de informação, das grandes empresas, para os parcerios locais (LONDON e HART, 2010), devido às limitações de conhecimento e capacitação para uso de tais tecnologias por parte dos mesmos. Uma vez que o objetivo do presente trabalho consistiu em compreender quais fatores influenciam o uso de tecnologia da informação por parte de empreendedores de baixa renda, optou-se por utilizar o referencial teórico desenvolvido pelo campo de aceitação e uso de tecnologia, como instrumento para a coleta e análise dos dados. Esta opção se deveu ao fato de o campo de estudos de aceitação de tecnologia apresentar corpo teórico sólido e empiricamente testado (VENKATESH ET AL, 2003) para estudos de cunho organizacional, ou seja, pesquisas de aceitação e adoção de novas tecnologias em ambientes empresariais. O campo de estudos de aceitação de tecnologia procura compreender o processo de adoção e de uso de novas tecnologias por parte dos indivíduos. Uma vez que novas tecnologias normalmente significam melhorias em processos e resultados, o comportamento dos indivíduos em relação ao seu uso deveria 19 obedecer a uma lógica de uso e adoção (DAVIS, 1989). No entanto não é o que se observa. Para serem adotadas, tecnologias costumam passar por longos processos de estudos até que efetivamente alcancem um modelo com potencial para adoção em escala (ROGERS, 2003). Segundo Rogers (2003), em seu trabalho seminal, as tecnologias fazem sentido dentro de um contexto social e cultural e, justamente por esta razão, é que o processo de adoção acaba por ganhar contornos e complexidade, uma vez que os criadores da tecnologia precisam entender a lógica do uso não a partir da tecnologia por si própria, mas sim da perspectiva dos usuários. Isto significa que a utilidade de uma tecnologia não será determinada por seus atributos ou pelo discurso de seus criadores, mas sim pela percepção dos usuários (DAVIS, 1989). Do mesmo modo a facilidade de seu uso e aplicação somente poderá ser atestada por aqueles a quem se destina a tecnologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA No entanto os estudos sobre aceitação e uso de tecnologias têm sido caracterizados por dois fatores importantes: a predominância de experimentos quantitativos através do uso de escalas Likert, e a aplicação de questionários junto a amostras compostas por indivíduos de classes sociais elevadas, funcionários de grandes empresas adotandes de tecnologia da informação. Tais fatores mereceram ponderação durante este estudo. Uma vez que as escalas desenvolvidas para mensuração dos níveis de aceitação e uso de tecnologias apresentam níveis altos de complexidade para serem respondidos, por exigirem dos respondentes reflexões muitas vezes sofisticadas, sobre seus processos de percepção e comportamentos em relação às tecnologias (VENKATESH ET AL, 2003), este estudo optou por não aplicá-las diretamente junto aos empreendedores de baixa renda. Tal opção se deu devido ao risco de as perguntas não serem compreendidas corretamente pelos respondentes, uma vez que os mesmos apresentaram dificuldades para expressarem suas opiniões e percepções objetivamente durante o relacionamento com o pesquisador, na época em que trabalhavam em conjunto no projeto da empresa multinacional em questão. Além disso, as escalas foram desenvolvidas para mensurar os fatores responsáveis por influenciar a percepção dos respondentes em relação ao uso de tecnologias em ambientes organizacionais de grandes empresas, contexto completamente distinto do qual se encontram empreendedores de baixa renda que 20 participaram desta pesquisa. Todos os entrevistados trabalham sozinhos, em suas próprias casas, contando raramente com a ajuda de algum parente para atividades muito específicas como entrega de produtos ou pagamento de contas. Desta forma, identificou-se uma diferença relevante em termos de contexto organizacional (respondentes funcionários de grandes empresas versus empreendedores de baixa renda que trabalham em suas casas, nos próprios territórios de base da pirâmide). Por estas razões fez-se a opção de adaptar a escala do modelo de aceitação de tecnologia UTAUT (VENKATESH ET AL, 2003), para um roteiro semi estruturado, em abordagem qualitativa e exploratória, através do método da entrevista em profundidade. Os resultados de fato demonstaram coerência com esta opção metodológica e de coleta, uma vez que surgiram categorias não identificadas pelos construtos do modelo UTATUT. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Desta forma este estudo buscou compreender que fatores influenciam a adoção de tecnologia da informação por parte de empreendedores da Base da Pirâmide, residentes no estado do Rio de Janeiro, e que atuam em projeto de empresa multinacional. 1.6. Estrutura da Dissertação Este trabalho está estruturado da seguinte forma: O capítulo 1 trata da motivação do estudo, na forma do problema, objetivos e questões de pesquisa, além de descrever a relevância do estudo para a Academia (sem deixar de mencionar sua relevância para o mercado) e as delimitações do estudo. O capítulo 2 apresenta o referencial teórico utilizado neste trabalho para a análise, incluindo literatura sobre Estratégias para a Base da Pirâmide e suas trajetórias de pesquisa, teorias, modelos e conceitos de aceitação de tecnologia, e a teoria de difusão de inovações. No capítulo 3, é descrita a metodologia de pesquisa que foi utilizada neste trabalho, detalhando-se o tipo de pesquisa realizada, o papel do pesquisador, a seleção dos entrevistados para a pesquisa, os procedimentos de coleta e registro de dados e as limitações do método utilizado. 21 No capítulo 4 é realizada a análise e a discussão dos resultados da pesquisa à luz do referencial teórico apresentado no capítulo 2. O capítulo 5 apresenta as conclusões deste trabalho. Por fim, no capítulo 6 são apresentadas as referências bibliográficas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA utilizadas em todo o trabalho. 2 Referencial Teórico O objetivo do presente estudo consistiu em procurar compreender os fatores que afetam a aceitação de tecnologia da informação por parte de empreendedores de baixa renda envolvidos em projetos e iniciativas de empresas multinacionais para mercados base da pirâmide. Neste sentido a revisão de literatura procurou apresentar e articular as principais discussões referentes aos dois blocos temáticos que compõem o estudo: estratégias para base da pirâmide e modelos de aceitação de tecnologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Segundo Prahalad (2002), o sucesso de iniciativas de empresas multinacionais em relação a mercados base da pirâmide está diretamente relacionado à criação de um ecossistema social, no qual empresas multinacionais, governo, ONGs, lideranças locais, empreendedores de baixa renda, instituições de organização dos territórios, entre outros, atuam em conjunto, comungando de um mesmo objetivo, que consiste em alavancar projetos de negócios que possam, ao mesmo tempo, elevar o nível de capital intelectual dos habitantes dos territórios em questão, e gerar emprego e renda para os mesmos, criando condições para que estes indivíduos possam acessar os mercados de trabalho e de consumo. No entanto, para London e Hart (2010), quase uma década após o trabalho de Prahalad, ao se analisar as inúmeras iniciativas de empresas multinacionais em mercados da base da pirâmide, pode-se constatar que boa parte delas não apresenta resultados esperados em termos de escala e vendas, em decorrência, principalmente, do baixo nível de integração dos parceiros locais na cadeia de valor global das empresas multinacionais. Para os autores este baixo nível de integração está diretamente relacionado aos gargalos tecnológicos que envolvem estas operações. Empresas multinacionais normalmente utilizam tecnologia da informação como base para execução e gestão de processos e como fonte de dados para tomada de decisões estratégicas. Neste sentido, fala-se especificamente do uso de computadores pessoais e softwares gerenciais, que integram setores, departamentos e unidades de negócios (LONDON e HART, 2010). 23 No entanto, o uso de tecnologia da informação está diretamente associado às condições cognitivas e ao grau de intimidade que o usuário possui com a respectiva tecnologia (DAVIS, 1989). Desta forma, os vazios institucionais no campo da educação e da geração de renda, que limitam o ensino e o acesso ao uso de computadores e de softwares respectivamente, nos territórios base da pirâmide (KHANNA e PALEPU, 2010), se configuram em barreiras reais para a integração das atividades de empreendedores de baixa renda à cadeia de valor global das empresas multinacionais nos projetos para mercados base da pirâmide. Sendo assim a revisão de literatura procurou discutir os estudos sobre a base da pirâmide apresentando a primeira e a segunda geração de pesquisas, delineando em qual contexto este trabalho melhor se insere. Na sequência são apresentados os estudos sobre aceitação de tecnologia, bem como a evolução dos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA modelos conceituais de mensuração e teste dos níveis de aceitação. 2.1. Os estudos sobre Base da Pirâmide Os estudos sobre a base da pirâmide partem da premissa de que o setor privado teria um papel crucial a desempenhar em relação à diminuição da pobreza mundial (PRAHALAD, 2002). No entanto este papel estaria configurado de modo distinto das práticas que tradicionalmente as empresas realizam no que tange à pobreza: filantropia, assistencialismo e doações; do mesmo modo, este papel também não dialogaria com práticas de ONG’s e instituições de apoio à redução a pobreza (PRAHALAD, 2005). Ao contrário da visão tradicional sobre o papel do setor privado em relação ao tema da pobreza, a concepção dos estudos sobre a base da pirâmide premeditou uma nova posição para as empresas ocuparem. Uma vez que os mercados desenvolvidos indicavam sinais de saturação ao final do século XX (PRAHALAD, 2002), o imperativo de buscar novas oportunidades junto a consumidores de baixa renda, ausentes dos mercados de consumo, poderia representar uma nova força motriz da próxima etapa global de prosperidade econômica (PRAHALAD, 2002). Esta nova posição estaria relacionada com novas práticas empresariais, as quais exigiriam das grandes empresas novos 24 esforços criativos, fosse em produtos, fosse em modelos de negócios, para que de fato a base da pirâmide passasse a fazer parte de seus mercados. Porém, para fazer parte de um mercado de consumo é preciso que um indivíduo tenha renda, e renda está diretamente relacionada ao trabalho. E para ter acesso a oportunidades de trabalho, um indivíduo necessita de qualificações mínimas (PRAHALAD E HAMMOND, 2005). Este gargalo, historicamente destinado a ser um problema exclusivo de governos e ONG’s, deveria ser abraçado pelo setor privado enquanto problema de negócios (PRAHALAD, 2002). Ou seja, uma vez que o contingente enorme de pessoas vivendo em torno da linha da pobreza passasse a ter acesso à qualificação profissional, consequentemente teria condições a seguir de encontrar trabalho e obter renda. Desta forma, fazer parte do mercado consumidor seria consequência de um processo que têm início a partir do desenvolvimento sócioecnomico dos territórios PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA de base da pirâmide. É neste sentido que a atuação das empresas interessadas em fazer negócios com as camadas mais pobres da população mundial precisa ser deslocada. O campo de estudos sobre a base da pirâmide teve seu início a partir do trabalho de Prahalad (2002), no qual o autor procurou descrever as estratégias de empresas multinacionais interessadas em fazer negócios com a camada mais pobre da população mundial, de modo a permitr o crescimento de seus respectivos negócios ao mesmo tempo em que levariam desenvolvimento econômico e social para indivíduos que até então não acessavam os mercados de consumo e de trabalho. Dez anos após o trabalho de Prahalad, Gupta e Ghiji (2013) desenvolveram uma grande revisão de literatura sobre o tema, identificando quatro gerações de estudos sobre a base da pirâmide que se desenvolveram desde o trabalho de Prahalad em 2002. Esta revisão de literatura priveligiou as duas primeiras gerações, definidas por Gupta e Ghiji (2013) como sendo a visão dos practioners, ou seja, dos praticantes e executivos responsáveis pelas operações de base da pirâmide. As outras duas gerações de estudos estão relacionados ao que os autores denominaram de society, ou seja, estudos de cunho crítico e abordagem filosófica e sociológica sem relação com as implicações gerenciais. Uma vez que este trabalho desenvolveu-se perseguindo objetivos de pesquisa relacionados às implicações gerenciais, tão escassas na literatura sobe a base da pirâmide Gupta e 25 Ghiji (2013), a revisão de literatura dará destaque às duas primeiras gerações de pesquisas. 2.1.1. A primeira fase dos estudos sobre Base da Pirâmide O conceito de base da pirâmide foi cunhado por Prahalad (PRAHALAD E HART 2002; PRAHALAD E HAMMOND 2002) no início dos anos dois mil, com o objetivo de descrever os benefícios que podem surgir quando empresas multinacionais constroem operações para levar produtos e serviços aos consumidores que compõem a parte mais pobre da pirâmide econômica no mundo. Na visão dos autores, este tipo de iniciativa se apresenta como cada vez mais necessária pelo fato de: 1) os mercados desenvolvidos estarem chegando em pontos de saturação de demanda, dificultando o crescimento dos negócios das PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA empresas multinacionais; 2) Ao mesmo tempo, a maior parte da população mundial está fora dos mercados de consumo e trabalho na cadeia global, e localizada principalmente em países emergentes, justamente os territórios que se apresentam como mais promissores quando se projeta possibilidades de crescimento para as empresas multinacionais (PRAHALAD E HART 2002; PRAHALAD E HAMMOND 2002). A argumentação central dos autores está baseada na noção de que ao fazer negócios com a base da pirâmide, empresas levarão oportunidades de desenvolvimento para os territórios onde irão atuar. Isto se deve ao fato de que tradicionalmente as áreas que concentram população de baixa renda normalmente são carentes de infraestrutura e serviços básicos, como energia, segurança e saneamento básico, justamente fatores que prejudicam o ambiente de negócios e inibem a entrada de empresas multinacionais (PRAHALAD E HART 2002; PRAHALAD E HAMMOND 2002). Para fazer negócios com a base da pirâmide, os autores afirmam ser necessário construir novos modelos de negócios, que consigam promover o desenvolvimento dos territórios de uma maneira geral, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento dos negócios. Os principais atributos destes novos modelos seriam: a) escalabilidade: uma vez que os mercados da base da pirâmide são formados por muitos consumidores com capacidade de compra reduzida, as soluções mercadológicas precisam sempre 26 buscar escala, dado que provavelmente as margens serão pequenas devido aos preços acessíveis dos produtos, e devido também à necessidade de se tocar o maior número possível de consumidores; b) uma nova relação preço-desempenho: uma nova proposição de valor é importante, uma vez que deve-se partir de uma perspectiva onde Preço – Lucro = Custo e não a visão tradicional onde Custo + Lucro = Preço; c) tecnologias modernas: reduções radicais de custos não são possíveis sem o uso de tecnologias de ponta no processo de produção e distribuição; d) padrões internacionais: é fundamental que se pratique altos níveis de qualidade, segurança e sustentabilidade ecológica no processo com a base da pirâmide. Uma vez que os mercados da base da pirâmide são mal atendidos pelo setor privado organizado, têm a característica de serem locais e fragmentados. Esta configuração dificulta a construição de sistemas escaláveis, e neste sentido, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Prahalad (2005) propõem o modelo de Ecossistema Social, no qual uma rede formada por empresas multinacionais, governo, ONGs, lideranças locais e empreendedores dos territórios, trabalhando em conjunto, promovem um contexto onde são realizadas as melhorias no ambiente de negócios dos territórios. Na visão do autor, esta seria a forma mais adequada se fazer negócios com a camada mais pobre da população. Prahalad (2010) cita o seguinte exemplo: “É impossível ampliar o mercado de telefones celulares sem a construção de uma ampla rede de microempreendedores que vendam cartões pré-pagos”. O autor afirma que um ecossistema consiste na reunião e em alianças entre grandes empresas e micro empresas, internacionais e locais, de forma que todos colaborem para a mesma “missão geral de acessar e suprir o consumidor da base da pirâmide” (PRAHALAD, 2010). O ecossistema supre uma necessidade muito maior do que a sinergia de investimentos (PRAHALAD, 2010). Na realidade, sua contribuição mais importante é justamente a de unir num mesmo processo diferentes atores com diferentes níveis de conhecimento sobre os territórios e sobre as práticas de gestão, fazendo emergir estratégias mais adequadas e criativas para cada contexto encontrado. A relevância dos ecossistemas está diretamente relacionada com a hetorgeneidade da base da pirâmide (PRAHALAD, 2010). Ao se falar sobre a camada mais pobre da população, há tendência de se projetar uma imagem homogênea do que a base da pirâmide representa. No entanto, a realidade 27 apresenta exatamente o oposto. Soluções que fazem sentido em determinadas regiões da Índia, por exemplo, passarão longe das que funcionariam no Brasil. Ou mesmo, analisando-se um único país, vê-se que estratégias para o sudeste brasileiro diferem das aplicadas no nordeste, como o caso das Casas Bahia demonstra (PRAHALAD, 2010). As propostas iniciais de Prahalad e Hart (2002) influenciaram não apenas outros pesquisadores a intensificarem a produção sobre o tema (FOLLMAN, 2012), mas também produziram impactos junto a executivos e gestores de empresas multinacionais. Poucos anos após a primeira publicação, Prahalad (2005) já identificava e descrevia uma série de iniciativas em todo o mundo influenciadas pela visão de negócios com a base da pirâmide proposta pelo autor anos antes. Follman (2012) entende que a aceitação da perspectiva de Prahalad e Hart PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA se deveu em parte por solucionar um nó que limitava iniciativas de empreendedorismo social que buscavam reduzir a pobreza: a questão do lucro. Os praticantes de empreendedorismo social normalmente desenvolvem suas atividades através de ONGs, institutos governamentais ou programas de caridade, atividades que não possuem fins lucrativos. A ausência de finalidade de lucro, na visão de Prahalad (2005), é responsável por diminuir o potencial destas iniciativas, pois as caracteriza como pouco profissionalizadas, e sem aplicação de gestão em seus desenvolvimentos. Além disso, normalmente são ações praticadas em pequena escala, sem a força necessária para realmente combater a essência da pobreza na visão do autor: retirar esta parte da população de uma condição marginal dentro do capitalismo por não ter qualificação suficiente para entrar no mercado de trabalho, e consequentemente, consumir (PRAHALAD, 2005). Ao conferir um desenho empresarial e traçar objetivos de retorno financeiro para os projetos ligados a base da pirâmide, passa a se ter maiores chances de se promover impactos que de fato reduzam a pobreza, uma vez práticas de gestão avançadas estarão envolvidas nos processos, aumentando a chance de sucesso e de ação em grande escala (PRAHALAD E HART 2002; PRAHALAD E HAMMOND 2002). 28 2.1.2. A segunda fase dos estudos sobre Base da Pirâmide Ao identificar que um grande contingente de indivíduos vive em torno da linha da pobreza no mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento, Prahalad propôs a visão de que é possível erradicar a pobreza através do lucro (PRAHALAD, 2005). O autor defende a ideia de que novos modelos de negócios liderados por empresas multinacionais em parcerias com governos, ONG’s e lideranças locais, podem criar condições para que se forme um ecossistema social (PRAHALAD, 2005) que permita incluir esta população nos mercados de consumo e de trabalho. Desde então o interesse global pelo tema tem crescido e diversos trabalhos têm sido publicados buscando criticar e aprimorar a visão inicial de Prahalad (FOLLMAN, 2012); (KARNANI, 2007), contribuindo para a evolução e difusão PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA do conceito. Buscando estudar estratégias de empresas multinacionais para a base da pirâmide, Gupta e Ghiji (2013) identificam duas gerações de pesquisa sobre o tema. A primeira estaria relacionada com a visão original de Prahalad, na qual empresas multinacionais promovem novos modelos de negócios para levar produtos e serviços aos consumidores de baixa renda, e tais iniciativas tem sido registradas e descritas em pesquisas e estudos de caso preferencialmente. Justamente estes primeiros registros é que possibilitaram o surgimento da segunda geração, em que o conceito de base da pirâmide passou a incorporar valores de reciprocidade e de desenvolvimento dos stakeholders locais. London e Hart (2010) descreveram esta passagem de gerações como sendo uma transição de uma visão “encontrando riqueza na base da pirâmide”, para uma visão “construindo riqueza com a base da pirâmide”. Este confronto de visões significa expor a fragilidade da primeira geração de estratégias para base da pirâmide, que primaram por operações de adaptação de produtos e serviços tradicionais, para outros, dotados de atributos simplificados ou inferiores, de modo a permitir que um preço mais acessível chegasse aos consumidores de baixa renda (LONDON e HART, 2010). Observou-se que o sucesso de tais estratégias estava menos atrelado a questões de produtos e de marketing, e sim mais relacionado com o modelo de negócios destas operações, que tem como cerne justamente o relacionamento e a integração dos parceiros 29 locais com as empresas multinacionais, e a transferência de conhecimentos gerenciais destas para os stakeholders locais (LONDON e HART, 2010), uma vez que as iniciativas de empresas multinacionais com a base da pirâmide sempre partem de acordos e parcerias com lideranças e empreendedores dos territórios em questão. No entanto, analisando os resultados das primeiras iniciativas, pode-se observar que a existência de grandes vazios institucionais por parte do governo, seja em termos de segurança, educação e saúde, e de empresas de serviços básicos, como energia, água e telefonia, são fatores que prejudicam o ambiente de negócios nas áreas de base da pirâmide, dificultando o alcance de resultados expressivos (KHANNA e PALEPU, 2010). Desta forma, a segunda geração de estratégias voltadas para a base da pirâmide deveria ter como objetivo, na visão de London e Hart (2010), a integração das operações e parcerias locais com a cadeia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA de valor global das empresas multinacionais responsáveis por tais estratégias, pois somente desta forma seria possível preencher os vazios institucionais, através da expansão da cadeia de valor (e suas parcerias chave). Segundo os autores, desta forma as operações na base da pirâmide promoveriam a alavancagem de capital social e intelectual nos territórios, fator crítico para o sucesso das estratégias, uma vez que as fragilidades culturais e educacionais são uma constante nestas áreas (LONDON E HART 2010; KHANNA E PALEPU, 2010; PRAHALAD 2005), e têm se configurado em barreiras para que empreendedores locais implementem e pratiquem a gestão das operações a partir das técnicas e tecnologias utilizadas pela empresas multinacionais. Gupta e Ghiji (2013) realizaram uma revisão de literatura que procurou cobrir o período dos dez primeiros anos de vida dos trabalhos sobre a base da pirâmide (de 2002 a 2012), e identificaram dois blocos de pesquisas que se dividem cada um em duas gerações de trabalhos sobre o tema. Para o primeiro bloco, os autores deram a denominação de “visão tradicional”, que estaria ligado à visão dos praticantes (practioners) de estratégias para a base da pirâmide (no caso, empresas multinacionais), compreendendo duas gerações de estratégias, as 1.0, ligadas a visão inicial proposta por Prahalad (2002), e as 2.0, ligadas as proposta subsequente de London e Hart (2010). 30 Figura 1 - Gupta e Ghiji (2013) – Trajetória dos estudos base da pirâmide O segundo bloco foi denominado pelos autores como sendo a visão alternativa (society) dos estudos base da pirâmide, e compreenderiam os estudos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA sociais filosóficos e críticos, que têm a preocupação de refletir a visão da sociedade sobre as estratégias para a base da pirâmide, discutindo principalmente suas dimensões éticas, morais e de legitimidade. Na perspectiva do primeiro bloco, ou seja, dos praticantes de estratégias para a base da pirâmide, é evidenciada a importância do desenvolvimento dos atores locais para que as iniciativas possam prosperar. Na visão de Prahalad (2005), a capacidade colaborativa e a capacidade integrativa dos ecossistemas (no sentido de integrar as concepções dos atores dos terrítórios às estratégias das grandes empresas) é mais relevante e crítica do que a capacidade de investimentos. Acessar de modo eficiente os mercados de base da pirâmide exige conhecimento das particularidades dos territórios. Ter informações e sugestões oriundas de membros das comunidades locais é crucial para a formulação de esrtatégias bem sucedidas. No entanto, estas informações só terão valia se forem fruto de uma análise correta destes membros locais, e estes por sua vez, só terão condições de fazer boas contribuições se compreendedoresm corretamente a estrutura dos projetos de base da pirâmide. Para isso, é preciso que sejam formados e qualificados para enteder as operações. É nesse sentido, principalmente, que o desenvolvimento dos atores locais se apresenta como um gargalo crítico para o bom andamento das operações de base da pirâmide (Prahalad, 2010; London e Hart, 2010). 31 2.2. Os estudos sobre Aceitação de Tecnologia Tendo em vista o objetivo do presente estudo em compreender os fatores que influenciam o uso de tecnologia da informação por parte de empreendedores de baixa renda, este ítem sobre a revisão de literatura de aceitação de tecnologia irá apresentar os principais modelos de aceitação desenvolvidos e testados, bem como os principais conceitos e construtos utilizados para análise durante a pesquisa. Será apresentada evolução e desenvolvimento dos modelos com ênfase naqueles que descrevem a aceitação de tecnologia em ambientes organizacionais, em detrimento dos modelos que mensuram aceitação de tecnologia por parte do consumidor, uma vez que a pesquisa buscou investigar o uso de tecnologia da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA informação no contexto do trabalho por parte dos empreendedores de baixa renda. 2.2.1. O conceito de Aceitação de Tecnologia Os estudos sobre aceitação de tecnologia têm produzido importantes trabalhos que fornecem constructos e modelos de medição relevantes para uma melhor compreensão sobre o tema. No fim dos anos oitenta, com o objetivo de estudar as razões e motivações que levam indivíduos a adotar novas tecnologias dentro de empresas, Davis (1989) produziu importante trabalho que culminou com a proposição do modelo TAM (Technology Acceptance Model), a partir do qual o autor conceitua aceitação de tecnologia como sendo a intenção voluntária de um indivíduo em utilizar uma tecnologia, seguida na sequencia pela adoção e uso real desta mesma tecnologia. Neste contexto, a intenção do indivíduo é influenciada por sua atitude em relação à tecnologia e a percepção que o mesmo tem sobre a utilidade de seu uso, sendo assim o antecedente do comportamento concretizado do uso da tecnologia. Esta definição tem relação direta com os estágios de aceitação de tecnologia descritos pela teoria de difusão de inovações (ROGERS E SHOEMAKER, 1971; ROGERS, 2003), mais especificamente com o estágio três, chamado de Decisão, no qual o indivíduo decide ou não adotar uma tecnologia. Este estágio se dá após o estágio de conhecimento (primeiro estágio), no qual o indivíduo fica sabendo da existência da tecnologia, depois do estágio de persuasão (segundo estágio), no qual o indivíduo busca informações sobre a tecnologia 32 através de meios de comunicação variados. Estes estágios levariam o indivíduo a formar sua atitude em relação a tecnologia, podendo ser ela favorável ou não em relação ao seu uso. 2.2.2. Modelos e teorias para Aceitação de Tecnologia O foco principal das linhas de pesquisa sobre aceitação de tecnologia tem sido, historicamente, os processo de implantação, adoção e uso de tecnologia da informação (computadores pessoais, softwares, planilhas eletrônicas, internet etc) em contextos organizacionais e de trabalho (DAVIES ET AL, 1989; MATHIESON 1991; IGBARIA ET AL, 1995; VENKATESH & DAVIS, 1996; VENKATESH & DAVIS 2000; VENKATESH ET AL, 2003). Venkatesh et al (2003) realizaram extensa revisão de literatura sobre PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA aceitação de tecnologia e detectaram construtos, modelos e teorias mais utilizados ao longo dos anos. Desta forma, afirmam que a intenção de uso, e/ou o uso propriamente dito da tecnologia em questão, se configura na principal variável dependente estudada pela maioria dos pesquisadores. Afirmam que o papel da intenção de uso como antecedente do uso já foi testado e bem documentado pela literatura (AJZEN, 1991; TAYLOR & TODD, 1995). A seguir serão apresentados os principais modelos e teorias de aceitação de tecnologia descritos e testados pela literatura (VENKATESH ET AL, 2003), com maior destaque para a teoria de difusão de inovações (ROGERS, 2003) e para o modelo UTATU (VENKATESH ET AL, 2003) utilizado como referência para a análise dos dados coletados. 2.2.3. Teoria da Ação Racionalizada (TRA) O estudo de Davis (1989) foi desenvolvido com base no trabalho de Fishbein e Ajzen (1975), no qual os autores propõem o modelo TRA (Teoria da Ação Racionalizada) que procura, a partir da psicologia social, explicar o comportamento humano, e que de fato, segundo a revisão e análise realizada por Sheppard et al (1988) influenciou trabalhos que a utilizaram para a compreensão 33 de diversos tipos de comportamento. A sua aplicação para o contexto da aceitação de tecnologia se deu justamente por Davis et al (1989). Figura 2 - Teoria da Ação Racionalizada, TRA (FISHBEIN & AJZEN, 1975) Neste modelo, os construtos norma subjetiva e atitude, influenciariam na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA intenção do indivíduo, que por sua vez seria o antecedente do comportamento futuro em questão. O construto norma subjetiva diz respeito à percepção do indivíduo sobre a opinião de outras pessoas importantes para ele e de como este deveria agir ou se comportar segundo elas. Por sua vez, a atitude mede os sentimentos positivos ou negativos do indivíduo com relação ao comportamento em questão. Por fim, a intenção retrata a vontade ou pré-disposição do indivíduo em se comportar de certa maneira, com o comportamento futuro indicando a concretização de tal intenção. 2.2.4. Teoria do comportamento planejado (TPB) Já nos anos oitenta, Ajzen (1985) propõe uma expansão do TRA, através do modelo TPB (Theory of planned behavior), ao adicionar um novo construto, denominado controle percebido ao modelo original. 34 Figura 3 - Teoria do comportamento planejado, TPB (Ajzen 1985) O controle percebido engloba a dificuldade ou facilidade percebida pelo indivíduo em se comportar de determinada forma, e vai influenciar a sua intenção em relação a um comportamento futuro. O modelo TPB foi aplicado para o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA entendimento a cerca da aceitação de tecnologias diversas, e a literatura que revisa tais aplicações avalia com sucesso o poder de explicativo do modelo (TAYLOR & TODD, 1995). 2.2.5. Modelo de aceitação de Tecnologia (TAM) É justamente a partir dos modelos TRA, de Fishbein e Ajzen (1975), e TPB de Ajzen (1985), utilizados para a explicação da aceitação de tecnologia, que Davis (1989) vai desenvolver o modelo TAM, para avaliação de uso de computadores e tecnologias relacionadas. O modelo é baseado em dois construtos, utilidade percebida pelo usuário, que é classificada como sendo a probabilidade de melhoria de desempenho em tarefas relacionadas ao trabalho, que o indivíduo enxerga ser possível por meio do uso de uma dada tecnologia, e facilidade de uso percebida, que é descrita como o nível de esforço (físico e/ou mental) que um indivíduo espera ter que fazer para utilizar corretamente uma nova tecnologia. Ambos comporiam a influencia sobre a atitude do individuo em relação à tecnologia, que por sua vez influenciaria a intenção de uso voluntária por parte do mesmo. A atitude é descrita por Fishbein e Ajzen (1975) como sendo os sentimentos, positivos e negativos, que um indivíduo possui em relação a um comportamento alvo. 35 Figura 4 - Modelo TAM Original (Davies et al 1989) Uma vez que o modelo é destinado à compreensão da aceitação de tecnologia dentro de empresas, Taylor e Todd (1995) afirmam que o construto atitude tem menos relevância explicativa do que do que o desempenho da tecnologia, uma vez que no contexto corporativo sentimentos e visões pessoas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA exercem influencia menor no uso da tecnologia. 2.2.6. Teoria de Difusão de Inovações A teoria de difusão de inovações proposta por Rogers (2003) teve grande influência nos estudos sobre adoção de inovações e novas tecnologias. Após analisar diversos estudos sobre difusão de tecnologias, Rogers concluiu que seriam cinco as características de uma inovação capaz de alterar ou influenciar a taxa de adoção de uma inovação: vantagem relativa, compatibilidade, complexidade, “observabilidade” (observability), e “experimentabilidade” (triability). Tais construtos seriam os principais responsáveis por determinar o nível de velocidade de uma dada inovação em termos de adoção. Rogers (2003) explica que estes construtos possuem caráter subjetivo e representam sempre a percepção que o indivíduo tem em relação a uma inovação, e é justamente tal percepção que irá determinar a aceitação e uso da inovação. Rogers (2003) realiza as seguintes definições para cada construto: Vantagem relativa: O quanto uma inovação é percebida como superior em relação a sua precursora; Compatibilidade: o quanto uma inovação é percebida como sendo consistente com valores, necessidades e experiências passadas dos adotantes em potencial; 36 Complexidade: O quanto uma inovação é percebida como difícil de ser utilizada; Observabilidade: O quanto os resultados ou usos de uma inovação são perceptíveis para os outros Experimentabilidade: O quanto uma inovação pode ser experimentada antes de ser adotada. As definições de Rogers para os construtos se baseiam nas percepções do indivíduo sobre as inovações em si, e não sobre seu uso. Ajzen e Fishbein (1980), porém, afirmam que as atitudes em relação a um objetivo podem se diferenciar do comportamento em relação ao objeto, argumentando que a atitude positiva em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA relação a um objeto não necessariamente se traduz em um comportamento positivo em relação ao mesmo. Desta forma, uma vez que inovações se difundem porque indivíduos decidem adotá-las, o que se demonstra como relevante não é inovação em si, mas a percepção que os indivíduos potenciais adotantes possuem sobre seu uso. Desta forma, Moore e Benbasat (1991) sugerem que seja acrescentada a palavra “uso” para as descrições das definições de Rogers, evidenciando que as percepções sobre o uso das inovações e suas consequências são os elementos mais importantes para a determinação da aceitação de uma inovação. 2.2.7. Teoria unificada para aceitação e uso de tecnologias Já no início dos anos dois mil, Venkatesh et al (2003) publicam trabalho que busca construir uma teoria unificada para aceitação e uso de tecnologia (UTAUT), a partir de grande revisão de literatura, testando os oito modelos mais importantes desenvolvidos até aquele momento (inclusive TRA, TPB e TAM), identificando quatro construtos principais e mais constantes para explicar a atitude e intenção de uso de tecnologias. Assim como no caso do TAM, o modelo UTAUT também é construído dentro de uma perspectiva de uso de tecnologias em ambientes organizacionais. 37 Figura 5 - Teoria Unificada da Aceitação e Uso de Tecnologia (Venkatesh et al 2003) O construto expectativa de desempenho pode ser descrito como o grau em que um indivíduo acredita que usar uma tecnologia irá ajudá-lo a alcançar níveis PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA superiores de desempenho em suas tarefas de trabalho. Tal construto é baseado no construto utilidade percebida oriundo do modelo TAM (DAVIS ET AL, 1989) e no construto Vantagem Relativa da teoria de difusão de inovação (ROGERS, 2003). Venkatesh et al (2003) argumentam que o construto Expectativa de Desempenho (e os construtos similares de outros modelos) apresentou consistentemente maior poder preditivo de intenção de uso de novas tecnologias. Expectativa de esforço seria o grau de facilidade associado ao uso de uma tecnologia. Este construto é similar ao construto facilidade de uso percebida do modelo TAM (DAVIS ET AL, 1989) e o construto Complexidade da teoria de difusão de inovações (ROGERS, 2003). A Influência social seria o grau de percepção de um indivíduo sobre o quão importante é, para pessoas próximas e relevantes, que ele utilize a tecnologia. Este construto é similar ao construto norma subjetiva, presente na teoria da ação racionalizada (TRA) de Fishbein e Ajzen (1975) e na TPB de Ajzen (1985). De acordo com Venkatesh e Davis (2000), os efeitos da influência social se demonstram mais efetivos em ambientes onde a adoção é mandatória. E por fim, as condições facilitadoras, que medem até que ponto um indivíduo acredita que a infraestrutura organizacional e técnica existente na empresa permite e suporta a utilização da tecnologia a ser adotada. Este construto é similar ao construto controle percebido da TPB (AJZEN, 1985) e Compatibilidade da teoria de difusão de inovações (ROGERS, 2003). 38 O modelo UTATU foi testado empiricamente por Venkatesh et al (2003) com dados de quatro empresas, e os resultados apresentaram grande suporte empírico à teoria, construtos e relações apresentados no modelo, demonstrando que a intenção de uso é afetada diretamente pelos construtos: Expectativa de Desempenho, Expectativa de Esforço e Influência Social. Foram também confirmados os efeitos diretos da intenção de uso e do construto Condições Facilitadores sobre o uso propriamente dito da tecnologia. 2.2.8. Prontidão para tecnologia No início dos anos dois mil, Parasuraman (2000) propõe o conceito de prontidão para a tecnologia, que busca compreender a propensão dos indivíduos em adotar tecnologias para atingir objetivos em suas vidas profissionais e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA pessoais. Por trás do conceito de prontidão há a premissa de que existem inibidores e condutores mentais que influenciam a atitude do consumidor em relação ao uso de tecnologias. Figura 6 - Dimensões da prontidão para tecnologia (Parasuraman e Colby,2001) Parasuraman e Colby (2001) produziram uma escala para medir o que chamaram de TRI (technology readiness index), que avalia o grau de prontidão para a tecnologia de cada indivíduo. Sentimentos e crenças do indivíduo em relação à tecnologia são traduzidos em estados mentais que afetam a prontidão 39 para a tecnologia. Parte destes estados pode ser afetada por fatores condutores que levam os indivíduos em direção ao uso de tecnologias e parte afetados por fatores inibidores, que afastam indivíduos do uso. Lin et al (2007) argumentam que os fatores que afetam a prontidão são anteriores aos elementos que influenciam a intenção de uso, e são descritos no modelo TAM: utilidade percebida e facilidade de uso percebida. E desta forma propõem um novo modelo que procura integrar a prontidão ao processo de aceitação, buscando compreender como os fatores inibidores e condutores irão influenciar na utilidade percebida e na facilidade de uso percebida. A partir desta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA perspectiva propõem o modelo TRAM. Figura 7 - Modelo de Prontidão e Aceitação para Tecnologia, TRAM (Lin et al 2007) 40 2.3. Empreendedorismo e microempreendedoroes no Rio de Janeiro Segundo Shane e Venkataram (2000), empreendedorismo pode ser definido como uma atividade que envolve a descoberta, avaliação e exploração de oportunidades para se introduzir novos produtos e serviços, modelos de organização, processos e matérias primas, através de esforços organizados de um modo anteriormente inexistente. Desta forma a atividade empreendedora se diferencia da atividade empresarial na medida em que o empreendedorismo pressupõe o desenvolvimento de projetos que anteriormente não existiam. No entanto, outra definição, de Cantillon (1959), propõe que o empreendedor é o indivíduo que assume riscos e incertezas na expectativa de obter lucros. No Brasil a atividade empreendedora vem aumentando conforme demonstra a pesquisa GEM 2012, que aponta o Brasil como país na época com uma taxa de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA empreendedorismo de 30,2%, quando a média dos países participantes da pesquisa foi de 20,6%. Além disso, observa-se também o crescimento da atividade empreendedora motivada por oportunidade e não apenas por necessidade. Segundo a pesquisa, em 2002 42,4% dos empreendedimentos brasileiros eram criados por oportunidade, quando em 2012 este número passou para 69,7%. A mesma pesquisa demonstra que 85% dos empreendimentos brasileiros em 2012 eram microempresas, ou seja, organizações composta por um ou mais indivídulos, com faturamento anual máximo de R$ 360.000,00. Estes microempreendedores, que formam a maiora dos empreendedores brasileiros, têm surgido cada vez mais em regiões periféricas, de baixa renda e favelas, conforme Rocha e Silva (2008) apontam. Segundo estes autores, estes microempreendedores constituem a “elite” do morro, sendo espécie de símbolo de ascensão social nestas comunidades. No que tange ao desenvolvimento do microempreendedorismo no Rio de Janeiro, observa-se uma grande intensificação do fenômeno desde que as iniciativas de pacificação de comunidades passaram devolver às mãos do estado os territórios anteriormente comandados pelo crime organizado (Barros, Pinto e Castro, 2014). A política de pacificação tem trazido, na visão dos empreendedores, mais oportunidades de desenvolvimento para a comunidade e 41 principalmente para os pequenos negócios, uma vez que melhorias econômicas e sociais já puderam ser notadas nestes territórios (Barros, Pinto e Castro, 2014). No entanto, ainda assim, afirmam que há problemas no ambiente de negócios, tanto em termos de infra-estrutura, quanto em termos de acesso a ferramentas e tecnologias que permitam desenvolver os empreendimentos (Barros, Pinto e Castro, 2014). Do mesmo modo como demonstra o trabalho de Mariano, Moraes e Medeiros (2011), em relação ao fenônomeno do surgimento das lan houses na favela da Rocinha na cidade do Rio de Janeiro, diretamente atraelado à dificuldade de moradores em ter acesso à internet em suas próprias residências. O trabalho de Barros, Pinto e Castro (2014) demonstra que os avanços em termos de acesso a tecnologia, especificamente, ainda são muito tímidos, mas que o principal avanço se deu em termos de formalização dos empreendedores, que antes atuavam com empreendimentos sem legalização e portato sem autorização PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA para funcionamento. 42 3 Metodologia da Pesquisa 3.1. Tipo de Pesquisa Optou-se, neste estudo, pela pesquisa qualitativa de caráter exploratório. A pesquisa qualitativa busca entender um fenômeno específico em profundidade. A pesquisa qualitativa se utiliza de questões que partem de perguntas do tipo “como” e “por que”, e a necessidade do estudo é compreender o fenômeno que é observado (YIN, 2005). Ao invés de estatísticas, regras e generalizações, a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA pesquisa qualitativa trabalha com descrições, comparações e interpretações. Rossman e Rallis (1998, apud Creswell, 2007) listam as seguintes características, que devem estar presentes na pesquisa qualitativa: A pesquisa qualitativa ocorre em um cenário natural, de forma que o pesquisador vai até o participante, o que permite uma melhor visão e envolvimento do pesquisador com o participante; A pesquisa qualitativa utiliza-se de múltiplos métodos de coletas de dados, que são interativos e humanísticos, e buscam estabelecer harmonia e credibilidade com as pessoas no estudo; Uma parte considerável da pesquisa qualitativa surge durante o próprio estudo, podendo as questões de pesquisa mudar e ser refinadas, o processo de coleta de dados pode se alterar para se adequar a novas situações, como dados que se disponibilizam e dados que deixam de estar disponíveis etc.; A pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa, ou seja, ela surge da interpretação que o pesquisador faz dos dados coletados; A pesquisa qualitativa fornece uma visão ampla e abrangente dos fenômenos, ao invés de microanálises; O pesquisador qualitativo busca reconhecer os vieses que ele próprio traz à pesquisa, através de uma reflexão sistemática sobre quem ele é na pesquisa; 43 O pesquisador qualitativo usa um raciocínio complexo multifacetado, interativo e simultâneo; O pesquisador qualitativo adota uma ou mais estratégias de investigação em seu estudo. A escolha da pesquisa qualitativa se deu pela natureza investigativa e exploratória do trabalho, que tem como objetivo compreender os fatores que influenciam a adoção de tecnologia da informação por empreendedores da base da pirâmide. Para tal, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com empreendedores da base da pirâmide que participam de projetos de empresa multinacional em áreas de comunidades, favelas e concontração de população de baixa renda em geral, no estado do Rio de Janeiro. O método de pesquisa qualitativa utilizado neste trabalho foi a entrevista em profundidade. Este método consiste na realização de entrevistas a partir de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA entrevistas semiestruturadas, em que o pesquisador aprofunda seu entendimento sobre o problema a partir das perguntas que realiza para os entrevistados. É recomendável que para a formulação das questões de uma entrevista em profundidade, as mesmas devem ser escritas de forma tão abertas quanto possível. Embora cada entrevista se inicie com um conjunto de questões previamente estabelecidas, diferentes entrevistas levam a diferentes caminhos e outras questões podem surgir em cada uma delas. As entrevistas são gravadas e transcritas, permitindo que a transcrição seja o alvo da análise. As categorias de significados devem emergir dos dados coletados, a partir da análise do pesquisador, permitindo a identificação de categorias de significados. O pesquisador deve constantemente ajustar sua visão à medida que analisa novas transcrições, permitindo que novas categorias surjam a partir de similaridades e diferenças entre os conteúdos analisados, e a partir de relações entre as categorias, como um grupo (ÅKERLIND, 2005). Normalmente a análise se inicia por uma busca por significados, através das transcrições ou citações selecionadas das entrevistas, o que é complementado por uma busca por relações estruturais entre os significados. O processo se configura como iterativo e comparativo, por envolver uma contínua reordenação e comparação entre os dados e as categorias de descrição. No início, surgem a partir das transcrições ou citações selecionadas muitas novas categorias e muitas mudanças são feitas nas categorias já criadas. Mas a frequência dessas mudanças 44 vai diminuindo, até que eventualmente toda a estrutura de significados chega a uma estabilidade (ÅKERLIND, 2005). 3.2. Papel do Pesquisador O presente pesquisador atuou como Coordenador de Novos Negócios de empresa multinacional do setor de cosméticos que, desde 2011, implantou projeto para novo canal de vendas em áreas de base da pirâmide. O trabalho do pesquisador consistia em recrutar empreendedores de baixa renda para se tornarem parceiros deste canal, atuando como microditribuidores de cosméticos profissionais para salões de beleza das regiões onde residiam. Uma vez rerutados, estes empreendedores deveriam ser treinados, tanto em termos de vendas, quanto em termos de gestão, para que pudessem integrar seus respecivos negócios à PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA cadeia de valor da empresa multinacional com quem formavam parceria. O pesquisador autou nesta função até julho de 2013, tendo recrutado mais de setenta empreendedores durante quase dois anos de projeto, conhecendo a realidade e ambiente de negócios em diversas regiões de concentração de população de baixa renda no estado do Rio de Janeiro, com destaque para a baixada sul fluminense e diversas comunidades na zona norte e zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Como a implantação do canal se apresentava como uma inovação dentro da empresa multinacional, habituada a operar em canais de venda tradicionais, portanto sem relação com a parcela da população oriunda das camadas de baixa renda, o pesquisador participou de diversos treinamentos e capacitações sobre negócios com a base da pirâmide, sempre com o objetivo de aprofundar as discussões sobre um mercado no qual a empresa não possuía muitos conhecimentos sobre como atuar. Este processo desenvolveu no pesquisador a curiosidade acadêmica para explorar os estudos e pesquisas sobre a Base da Pirâmide, como forma de poder construir um melhor entendimento sobre o processo no qual estava inserido. Ao mesmo tempo, o contato diário com aproximadamente setenta empreendedores de baixa renda me oferecia visão privilegiada para confrontar a literatura com a realidade e seus gargalos que dificultavam o desenovlvimento do projeto. 45 Desta forma o pesquisador optou por estudar a aceitação de tecnologia pelos empreendedores da Base da Pirâmide, ao perceber que os mesmos enfrentavam dificuldades para se adequarem aos sistemas e processos exigidos pela multinacional. Como descreve a literatura, o uso de tecnologia se mostra fundamental para uma integração de qualidade entre as empresas multinacionais e os parcerios nos territórios que desenvolvem os projetos para Base da Pirâmide. Sendo assim, as entrevistas foram conduzidas com empreendedores recrutados pelo próprio pesquisador, ao longo de quase dois anos de projeto. Durante as entrevistas o pesquisador procurou evitar tocar em temas e situações que vivenciou junto aos empreendedores, de forma a minimizar o impacto da influência do relacionamento que possuía com os mesmos nas respostas às perguntas das entrevistas. Por outro lado, a experiência vivida durante o desenvolvimento do projeto se constituiu em importante pano de fundo para a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA realização das análises, uma vez que estas experiências foram o gatilho que estimularam a realização da pesquisa. 46 3.3. Seleção de entrevistados Os indivíduos entrevistados foram identificados a partir da rede de relacionamentos do pesquisador e a partir de contatos estabelecidos com empreendedores de baixa renda, participantes de projeto de Base da Pirâmide desenvolvido por empresa multinacional onde o pesquisador atuou durante dois anos. Somente indivíduos que atenderam aos seguintes critérios, no momento da entrevista, foram considerados para a pesquisa: 1. O indivíduo devia ser ou ter sido microdistribuidor de cosméticos participante do canal de vendas criado pela empresa multinacional em questão; 2. O indivíduo deveria residir em favelas, comunidades e áreas caracterizadas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA por concentração de população de baixa renda e/ou baixo IDH (índice de desenvolvimento humano) no estado do Rio de Janeiro; 3. Estar participando do projeto há pelo menos três meses. Participaram da pesquisa dez empreendedores de baixa renda. Desse total, dois eram do sexo masculino e oito do sexo feminno, sendo a predominância de mulheres uma característica tradicional do setor de cosméticos, que possui como maior parte da cliente, justamente pessoas do sexo femininno. Os entrevistados apresentaram idade média de trinta e sete anos, sendo o mais jovem com vinte e oito anos e o mais velho com quarenta e nove anos. O quadro 1 detalha o perfil dos entrevistados: 47 Identificação 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 E9 E10 Idade 49 ANOS 38 ANOS 38 ANOS 32 ANOS 36 ANOS 30 ANOS 35 ANOS 37 ANOS 43 ANOS 28 ANOS Tempo de Projeto 9 MESES 10 MESES 8 MESES 3 MESES 13 MESES 18 MESES 13 MESES 10 MESES 18 MESES 3 MESES Local onde reside CASCADURA – RIO DE JANEIRO BARRO VERMELHO - SÃO GONÇALO CAMPO GRANDE – RIO DE JANEIRO JARDIM BANGU – RIO DE JANEIRO CENTRO – SÃO JOÃO DE MERITI GUADALUPE – RIO DE JANEIRO VILAR DOS TELES – SÃO JOÃO DE MERITI SANTA CRUZ – RIO DE JANEIRO CENTRO – QUEIMADOS LINS – RIO DE JANEIRO Quadro 1: Perfil dos Entrevistados (Fonte: Própria) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA 3.4. Procedimentos de Coleta e Registro de Dados As entrevistas foram realizadas em área neutra para ambos, entrevistadores e entrevistados, ocorrendo todas no Centro Universitário Celso Lisboa, no bairro do Engenho Novo, na cidade do Rio de Janeiro. A opção por esta localidade se deu primeiramente pela facilidade de acesso por parte dos empreendedores, uma vez que todos recebem lá treinamento mensal da empresa multinacional da qual são parceiros, e em segundo lugar pelo local oferecer instalações adequadas para a realização das entrevistas (salas de aula vazias e disponíveis durante a tarde). O roteiro que orientou as entrevistas, elaborado pelo pesquisador, é apresentado a seguir (Quadro 2). 1. Quebra-gelo (idade, profissão, coisas que gosta de fazer, lugares que gosta de frequentar) 1.1 Fale um pouco sobre se você se considera uma pessoa que gosta de tecnologia? 1.2 Fale um pouco sobre como a tecnologia está presente no seu dia-dia? (vida e trabalho) 2. Fale um pouco sobre quando você começou a usar o seu computador (como começou a usar, os motivos, a frequência, quem influenciou) 3. Como você aprendeu a usar o computador? (tempo que levou, pessoas que ajudaram, resistência, prazer em usar, desconforto em usar). 48 4. Hoje em dia como são seus hábitos de uso do computador? (vida e trabalho, quantas vezes usa por semana, benefício percebido, utilidade percebida, facilidade de uso percebida). 5. No seu trabalho, você utiliza algum tipo de sistema de gestão? 6. Fale um pouco sobre a sua experiência em usar este sistema (facilidade de uso, benefício percebido, utilidade percebida, resultados gerados, apoio da empresa que vendeu). Quadro 2: Roteiro da Entrevista (Fonte: Própria) Todas as entrevistas foram realizadas presencialmente e gravadas em áudio para posterior transcrição. Todas foram agendadas diretamente pelo pesquisador, que conhecia pessoalmente já cada um dos entrevistados. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Conforme a prática de análise da entrevista em profundidade, categorias de significados foram criadas a partir dos trechos transcritos. Todo o processo de análise se iniciou somente após a realização e transcrição de todas as entrevistas. As entrevistas cessaram no momento em que o pesquisador julgou que ocorreu saturação nas categorias de significados. 3.5. Limitações do Método Segundo Creswell (2007), a pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa, ou seja, depende da interpretação dos dados coletados pelo pesquisador. Dessa forma, não é possível evitar as interpretações pessoais na análise de dados qualitativos. A pesquisa qualitativa também possui limitações quanto à veracidade e precisão das respostas fornecidas pelos entrevistados (inclusive quanto à sua adequação aos critérios de seleção dos mesmos). Ainda, essas respostas podem sofrer interferências da atuação do pesquisador no momento da entrevista. Cabe também destacar que, embora os sujeitos tenham sido escolhidos a partir da participação no projeto da empresa multinacional orientado para a Base da Pirâmide, esses resultados somente são válidos dentro do conjunto de entrevistados, não podendo, assim, ser generalizados. 4 Análise dos Resultados Neste capítulo são analisados os conteúdos das entrevistas realizadas com empreendedores de baixa renda que participam de projeto de base da pirâmide de uma empresa multinacional de cosméticos. Durante a análise das entrevistas foi possível identificar a emergência de quatro categorias que surgiram dos dados e que ajudam a organizar a compreensão dos fatores que influenciam o uso de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA tecnologia da informação, seja de forma positiva ou negativa, por parte dos empreendedores de baixa renda. Estas categorias foram nomeadas pelo pesquisador como: 1) Aprendizado para o trabalho; 2) Papel de Familiares e amigos como agentes facilitadores; 3) Prontidão para uso de tecnologia e 4) Limitações de Formação. Estas categorias são apresentadas e analisadas, a seguir, tendo em perspectiva a literatura sobre aceitação e uso de tecnologia, bem como a literatura sobre base da pirâmide. 50 4.1. Necessidade de aprendizagem para o trabalho Esta primeira categoria reflete um aspecto importante que emergiu na análise dos relatos dos entrevistados: o fato de a maioria destes afirmar ter iniciado o contato com computadores movidos por necessidades e demandas profissionais. Vale lembrar que os entrevistados apresentaram idade média de 37 anos, sendo o mais jovem com 28 anos e o mais velho com 49 anos de idade, portanto, todos já se encontravam na vida adulta ou próximo a ela, quando os computadores se popularizaram no Brasil e já desempenhavam algum tipo de atividade profissional. Ao se estimular os entrevistados a comentarem o contexto em que começaram a usar computador pessoal, ficou evidente que uma questão perpassava a experiência de todos: aprender a usar computador era uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA necessidade motivada pelo trabalho, gerada por três razões distintas identificadas a partir dos relatos: medo de perder a empregabilidade; opção para ter melhor desempenho; e consequência/contingência do trabalho. Nesse sentido, pode-se afirmar que além de contingências do trabalho, o uso de computadores garantia a permanência no emprego, o que remete a outro aspecto importante, ressaltado pelos entrevistados: a garantia da empregabilidade para seu usuário. O medo de perda da empregabilidade, decorrente do desconhecimento do uso dos computadores, aparece, por exemplo, no relato de E9. Seu caso é particularmente interessante, pois na época em que começou a usar computador, atuava em uma loja de tintas onde os sistemas de informação começavam a ser implantados: “Trabalhei três anos numa loja de tintas como ciclista, lá se começava assim. Foi meteórico, comecei assim e com dois anos eu atingi a gerencia da loja. Minha loja foi a primeira loja a ser automatizada. Começou toda a mudança no ramo de tinta, você não precisava mais ter trinta mil tintas no estoque, você programa a mistura das cores e mandava produzir na hora. E o único que tinha curso básico de informática era eu, não tinha computador em casa nessa época. Tinha um cara na loja de informática que ele comandava tudo, e ai na loja ele foi implantando programa para tirar nota, para fazer pedido. O caixa foi informatizado também. Nunca senti dificuldade na loja, recebi treinamento básico, era básico, mas recebi. Na época quem implantava o programa ficava na loja. Quem não aprendia ia embora”. (E9, HOMEM, 37 ANOS) 51 Em outro exemplo, a entrevistada E2 explica que o uso do computador se deu em decorrência de uma norma da empresa: todos os funcionários deveriam usar e-mail para trocar informações com clientes e com a própria empresa e, movida por esta regra corporativa, a entrevistada se viu obrigada a aprender a usar o computador, caso contrário não teria acesso a tabelas atualizadas de vendas assim como demais informações e recursos disponibilizados pela empresa onde trabalhava. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA “Não acessava muito, né, mas conforme os trabalhos, precisava sempre de e-mail pra responder. Pra receber. Das empresas, né? Tudo tinha que ser catalogado. Tinha que ser um documento por e-mail. E aí comecei (Na empresa) Precisava ter pelo menos o e-mail. Eu não entendia muito o que era, mas desde a Belatrix (empresa onde foi obrigada a começar a usar e-mail) que foi assim, que foi o caso de precisar de e-mail. Que aí precisava... eu precisava ter o e-mail, e aí a gente já chegava na empresa, eles já montavam o e-mail pra gente e já davam o e-mail de trabalho”. (E2, MULHER, 38 ANOS) As exigencias do trabalho, em algumas situações, poderiam inclusive impedir a permanência no mesmo, no caso de não aprendizado e não uso de computadores, conforme explica a entrevistada E5: “Eu não tinha computador em casa, meu primeiro contato foi em curso e trabalhando. Eu sempre recebia treinamento na empresa, a gente tinha que trabalhar não era online, você usava o programa da Volkswagen do Brasil, eles acompanhavam tudo, tinha que saber usar se não eu não trabalhava”. (E5, MULHER, 38 ANOS) Com relação ao medo de perda da empregabilidade, vemos o caso de E1 como sendo exemplo emblemático. Seu caso é interessante unidade de análise, pois na época em que começou a aprender, trabalhava na área comercial de uma cervejaria, setor em que não se usava tecnologia da informação, mas que era tocado por ela indiretamente, uma vez que as áreas de suporte já trabalhavam com computador. Desta forma o entrevistado sabia que se não aprendesse a usar computador, dificilmente conseguiria desenvolver sua carreira para além da função de vendedor que exercia na época. Mesmo já vislumbrando atuar como empreendedor, o medo de perder a empregabilidade foi o motor para começar a usar sozinho, em casa: 52 “Eu comprei o computador por que... na minha ótica, eu tinha que... acompanhar a evolução. E sem o computador eu ia ficar fora do mercado dentro de um tempo. Dentro de um determinado período. Então eu tinha que aprender a mexer no computador. Mesmo sem nunca ter mexido. Então eu comprei o computador”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) A necessidade de aprendizagem ligada a opção para melhoria de desempenho, último aspecto a ser destacado neste ítem, foi um elemento que sobressaiu durante as entrevistas e que encontra ressonância com o modelo UTAUT (VENKATESH ET AL, 2003), mais especificamente o construto expectativa de desempenho, que significa o quanto os indivíduos acreditam que o uso de uma tecnologia pode melhorar o resultado e a performance de trabalho. Este eco da teoria nas entrevistas pode ser observado a partir da fala do entrevistado E7. Para ele, a necessidade de melhorar seu desempenho na época em que atuava como taxista foi o gatilho motivador para influenciar sua atitude de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA usar computador, conforme o relato a seguir demonstra: “Comecei a usar na época que virei taxista, me rendi, e tinha programas de atendimento de taxi informatizado, ou eu passava para aquilo ali ou era mais uma coisa que eu ia desistir na minha vida, e como envolvia dinheiro, minha vida, porque hoje com um PDA no carro é muito mais rápido, você integra o cliente, a mensagem, a operadora não precisa mais ligar para o cliente, você não precisa descer do carro para tocar na porta dele, hoje você passa um SMS e o cliente já sabe”. (E7, HOMEM, 43 ANOS) Outro aspecto a emergir durante as entrevistas foi o alto nível de esforço e de dificuldade despendidos pelos entrevistados para aprender a usar tecnologia. No entanto, o que se observou é que ao mesmo tempo em que de fato o esforço para usar a tecnologia era percebido como sendo alto, tal percepção acabava por não se configurar em uma barreira que afetasse a atitude positiva de uso, não inibindo o aprendizado e o desejo de usar. Este aspecto também apresenta relação com a teoria de aceitação e uso de tecnologia utilizada pelo modelo UTATU, mais especificamente ao construto expectativa de esforço, que é definido como o grau de facilidade para uso de uma tecnologia na percepção do indivíduo. Este construto possui relação direta com o conceito de Complexidade, presente na teoria de difusão de inovações (ROGERS, 2003), que afirma ser o uso de uma inovação afetado pelo nível de complexidade percebido pelo indivíduo. 53 A entrevistada E2 explica que tinha medo e se enrolava no início, porém isto não a impediu de aprender. Ela menciona que recebia auxílio do marido, que era na época um usuário mais experiente, e quando o mesmo não se encontrava em casa, ela tentava sozinha praticar. “Eu sou uma pessoa que, assim, qualquer coisa que, pra mim, é desconhecido, eu tenho medo (...) até eu conhecer exatamente, eu me enrolava no início, nossa, era uma dificuldade. Ele que abria (o marido), ele que fazia e ia me ensinando até a hora que ele não tava perto e eu tinha que fazer”. (E2, MULHER, 38 ANOS) O entrevistado E1 afirma ser autodidata e que aprendeu sozinho, “futucando” o computador, numa atitude que demonstra vontade de driblar as barreiras de falta de conhecimento, através de um esforço pessoal. “Não fiz curso algum, eu aprendi sozinho. Autodidata (...) Se eu não sei, eu “futuco” e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA aprendo”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) Do mesmo modo E3 afirma que vê facilidades para quem usa sistemas e por isso está disposta a aprender e se considera alguém que possui facilidade para o aprendizado de coisas novas que tragam benefícios para seu trabalho. “Acho que a maior parte dos sistemas, dos programas de controle facilitam a vida de quem está alí trabalhando, já é pra isso né, então eu me adapto, me adapto muito fácil a qualquer coisa, eu aprendo fácil qualquer coisa, então se eu tiver que utilizar, se for orientada pra aquilo”. (E3, MULHER, 38 ANOS) A fala de E10 também oferece exemplo sobre como os entrevistados lidavam com a dificuldade para aprender a usar tecnologia. A maioria tinha a percepção de que seria difícil e de que estariam entrando em um novo território de conhecimentos e técnicas, porém não se sentiam inibidos ou desistiam de aprender. A entrevistada E10 afirmava que sim, julgava ser difícil usar computador, mas que através de pesquisas no Google aprendeu a montar seu blog, e posteriormente fez cursos on line do SEBRAE. Novamente o construto expectativa de esforço pode ser verificado na fala dos entrevistados, mas não se configurou em barreira inibidora ao uso. “Eu achava difícil sim, não sabia nada e aí quando comecei a usar, eu tive que ir lá no Google, ‘como fazer um blog?’. Aí eu tive que ir passo a passo. Aí eu 54 comecei a fazer até uns cursos no SEBRAE online, pra poder aprender... porque eu não sabia... de nada, né?”. (E10, MULHER, 28 ANOS) Desta forma vê-se que os entrevistados apresentaram a percepção de muito esforço a ser realizado para aprender a usar tecnologia. No entanto esta percepção não pareceu afetar negativamente a atitude dos mesmos em relação ao uso de tecnologia. Os entrevistados demonstraram grande predisposição para aprender e se capacitarem para o uso de tecnologias. O relato dos entrevistados demonstrou pouca capacidade crítica para avaliar as condições de infraestrutura das empresas onde trabalhavam na época em que começaram a usar computadores, apontando mais para fatores técnicos como os determinantes de suas experiências de uso. Apesar de receberem treinamentos ou suportes específicos circunscritos quase que exclusivamente para as necessidades de suas funções, tal apoio se configurava numa importante influência de “entrada” PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA no universo dos computadores, uma vez que permitia aos entrevistados acessá-lo pela primeira vez. Esta situação remete diretamente ao construto Condições Facilitadoras do modelo UTAUT, que procura medir até que ponto o indivíduo acredita que a infraestrutura organizacional e técnica existente na empresa suporta o uso da tecnologia a ser adotada. Este construto apresenta similaridade com o construto Compatibilidade da teoria de difusão de inovações (ROGERS, 2003), que avalia o quanto, na percepção do indivíduo, a tecnologia é compatível com seus recursos e estruturas do dia-a-dia. A fala do entrevistado E9 ilustra esta situação: “Minha loja foi a primeira loja a ser automatizada (...) Começou toda a mudança no ramo de tinta, você não precisava mais ter trinta mil tintas no estoque, você programa a mistura das cores e mandava produzir na hora (...) Tinha um cara na loja de informática que ele comandava tudo, e ai na loja ele foi implantando programa para tirar nota, para fazer pedido. O caixa foi informatizado também. Nunca senti dificuldade na loja, recebi treinamento básico, era básico, mas recebi”. (E9, HOMEM, 37 ANOS) “Comecei a usar na empresa, mas aprendi sozinha, tive o treinamento, mas foi pra usar o sistema deles, só. E o que eu fui aprendendo depois, por fora, eu aprendi sozinha”. (E3, MULHER, 38 ANOS) Os relatos de E9 e E3 demonstram que as empresas onde os entrevistados trabalhavam na época forneciam treinamento e capacitação para uso quase que 55 exclusivo de sistemas próprios. Ou seja, uma instrumentalização que não capacitava o entrevistado a explorar o uso de computador para outras instâncias de sua vida, mas que ao menos funcionava como transição para uma condição de uso nenhum, para uso diário. Em outros casos, como das entrevistadas E2, E8 e E10, a capacitação para uso foi mais genérica, devido ao fato de as empresas não possuírem sistemas específicos: “(...) Eu precisava ter o e-mail, e aí a gente já chegava na empresa, eles já montavam o e-mail pra gente e já davam o e-mail de trabalho”. (E2, MULHER, 38 ANOS) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA “Foi através do trabalho tudo. Assim, curso eu fiz, curso de informática o básico. Ai depois com o próprio trabalho eu fui aprendendo”. (E8, MULHER, 37 ANOS) “Quem influenciou foi aqui no trabalho mermo, foi o André Martins. O André que influenciou muito, o... o menino que não trabalha mais aqui... dois meninos que não trabalham mais aqui também influenciaram muito... Mas, assim, o principal, o pivô, foi o André Martins”. (E10, MULHER, 28 ANOS) As condições organizacionais foram importantes para iniciar os entrevistados ao universo digital, estimulando-os a aprender sobre novas funcionalidades conforme fossem intensificando seu tempo de uso. A questão da necessidade de aprendizado para o trabalho e das dificuldades que se colocam, nesse processo, também encontra ressonância no debate sobre o consumo na base da pirâmide. De acordo com Khanna e Palepu (2010), o principal fator limitador para a melhoria do ambiente de negócios nas regiões de base da pirâmide é a existência de vazios institucionais. Estes territórios são caracterizados por longos períodos sem o recebimento de investimentos governamentais e privados em termos de infraestrutura e serviços básicos à população, como transporte, saneamento básico, energia, água, educação, saúde e segurança (KHANNA e PALEPU, 2010). Este cenário, de acordo com os autores, é o principal responsável pelo baixo nível de desenvolvimento econômico e social nos territórios de base da pirâmide, uma vez que inibem a presença de empresas e demais agentes de desenvolvimento (entre eles o próprio governo, que muitas vezes não acessa os territórios devido a presença do poder paralelo do crime organizado), tornando escassa a oferta de trabalho, e consequentemente deixando um grande contingente de indivíduos sem 56 emprego e renda. Para os que buscam trabalho fora dos territórios, outro fator se apresenta como barreira: o baixo nível de formação educacional formal, que torna ruim a qualificação profissional destes indivíduos, limitando seus acessos ao mercado de trabalho. A questão da formação educacional deficiente aparece, de forma subjacente, nas falas dos entrevistados, ao relatarem o uso da tecnologia para atender a necessidade de aprendizado para o trabalho. Os relatos dos entrevistados revelam que os mesmos não tiveram acesso facil a capacitação para uso de computadores. Eles não possuíam computador em casa na época em que começaram a usar, portanto não tiveram a oportunidade de aprender num estágio anterior à entrada no mercado de trabalho. As razões da não posse de computador, por si só, já caracterizam o impacto dos vazios institucionais, uma vez que a principal razão desta situação decorre da falta de renda para a aquisição da máquina e na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA inexistência de pontos de venda para este tipo de produto nos territórios. Os relatos dos entrevistados demonstram que boa parte deles procurou cursinhos de informática para iniciar a capacitação digital, o que novamente demarca o vazio institucional: as escolas públicas das regiões não ofereciam este tipo de capacitação, assim como o governo também não disponibilizava este tipo de serviço através de laboratórios comuntários ou salas de informática. A fala de E5 é emblemática neste sentido: “Eu quando comecei a usar computador eu queria muito fazer um curso, e minha mãe vendeu uma televisão para poder pagar meu curso, eu gostava muito disso, se eu tivesse tido outras oportunidades na vida talvez hoje eu fosse uma programadora, eu gostava muito, é porque não tive muitas oportunidades mesmo, tive que começar o trabalho muito cedo, então não pude continuar”. (E5, MULHER, 40 ANOS) Ou seja, para ter acesso à formação e capacitação para uso de computador, a entrevistada precisou que sua família vendesse uma televisão, uma vez que não havia a oferta gratuita deste serviço na região, alem disso, sua família também era desprovida de recursos para adquirir um equipamento que permitesse o aprendizado em casa. Outra característica dos vazios institucionais ressaltada na literatura (KHANNA e PALEPU, 2010) é a necessidade de os jovens trabalharem para complementar a renda dos pais, uma vez que estes normalmente não tem acesso a empregos e/ou trabalhos formais e regulares, devido a baixa oferta 57 destes, e consequentemente a renda obtida é pequena para o sustento da família. Na visão da entrevistada E5, esta necessidade de geração de renda precoce foi responsável por sua dificuldade em estudar e se capacitar melhor, afirmando que vislumbrou ser uma programadora de sotfwares, mas acabou se tornando cabeleireira por necessidade. Ao retomarmos o relato de E7, vemos também retratada esta situação, quando o mesmo afirma que a falta de noções de uso de tecnologias da informação quase o levou a perder o primeiro emprego como taxista, responsável por seu sustento antes de se tornar empreendedor, e que, se não procurasse aprender rapidamente a usar as ferramentas digitais implantandas pela cooperativa onde trabalhava, melhorando assim seu desempenho, teria que desistir de seu PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA emprego: “Comecei a usar na época que virei taxista, me rendi, e tinha programas de atendimento de taxi informatizado, ou eu passava para aquilo ali ou era mais uma coisa que eu ia desistir na minha vida”. (E7, HOMEM, 43 ANOS) Novamente, pode-se constatar que os indivíduos acessam o mercado de trabalho sem a capacitação mínima para uso de tecnologia e isto se configura em barreira para o desenvolvimento da carreira, exigindo dos mesmos uma grande dedicação para aprender e se capacitar no próprio ambiente de trabalho para manterem seus empregos. Esta situação reflete aspectos destacados por London e Hart (2010), quando os autores afirmam ser de fundamental importância que as empresas multinacionais atuem de modo a não apenas ofertar oportunidades de trabalho, mas também ofertando oportunidades de capacitação técnica e profissional, de modo a, paulatinamente, contribuir para o desenvolvimento do capital intelectual dos territórios, melhorando ao longo do tempo a qualificação da mão-de-obra local. As falas dos entrevistados demonstram a importância deste processo, uma vez que não existem nos territórios meios formais e organizados para a capacitação profissional em relação ao uso de tecnologias. Desta forma, se as empresas não construírem os caminhos para este tipo de capacitação, não terão parceiros preparados para operar seus modelos de negócios em quantidade 58 suficiente para a obtenção de escala que normalmente projetos de base da pirâmide exigem. 4.2 O Papel de Amigos e Familiares como agentes facilitadores A segunda categoria identificada, amigos e familiares como agentes facilitadores, reflete situações em que os entrevistados explicaram ter dificuldades para aprenderem a usar computador. Mesmo motivados pelo contexto do trabalho e mesmo, em alguns casos, tendo realizado cursos de informática e treinamentos em suas empresas, os empreendedores relataram dificuldade de aprender sozinhos a usar computador. Neste sentido os amigos e familiares surgiram como agendes facilitadores que auxiliaram no processo de adoção por parte dos empreendedores. Três exemplos ilustram a importância de familiares neste processo. A PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA entrevistada E4 explica que a influência do pai, que era programador, foi fundamental para ter familiaridade com o uso de computador, uma vez que desde muito cedo conviveu com o aparelho em casa, e posteriormente em um de seus primeiros empregos, trabalhou num curso de informática, onde teve contato técnico com hardware e software. Mesmo neste caso, em que o uso se dá por influência familiar, a relação do uso de computador com o tema do trabalho e do emprego fica estabelecida, uma vez que o pai era programador e ensinou a filha a usar MSDOS, o que influenciou na conquista de um emprego em curso de informática. “Eu uso desde mil novecentos e antigamente, desde que a tecnologia implantou aqui no Brasil, na época do meu pai, porque meu pai é mestrado em inteligência artificial (...) tipo e eu uso desde aquela época que ele usava, tipo no MSDOS. Engraçado que ontem eu tava falando sobre isso, os avôs do computador, tipo meu pai, assim, ele fazia programação no MSDOS, entendeu? (...) eu já tenho o computador na minha vida desde a influência do meu pai, então quer dizer, isso eu tinha, me recordo que 15 anos. Há 21 anos atrás quando começou a vir o computador, tanto que no começo, quando eu era adolescente eu consegui trabalhar na Infocenter, peguei essa geração do curso de Windows 95”. (E4, MULHER, 37 ANOS) O segundo exemplo vem da entrevistada E2, que explica ter recebido auxílio do marido para aprender a usar seu e-mail, exigência da empresa onde trabalhava. Ela explica que se “enrolava” quando começou a usar, e sentia 59 dificuldades. A presença do marido revela um polo de segurança dentro do processo de aprendizagem, e que quando o mesmo não se encontrava em casa e a entrevistada precisava trabalhar, passava a tentar usar sozinha o computador, até que com o tempo ganhou segurança para “se virar”. “(...) Até eu conhecer exatamente, eu me enrolava no início, nossa, era uma dificuldade. Ele que abria (o marido), ele que fazia e ia me ensinando até a hora que ele não tava perto e eu tinha que fazer. E aí vai mexendo aqui, vai mexendo ali... não sou fera, mas consigo me virar (...) tinha que me virar. E tendo o Paulo (marido) em casa que... que fazia planilha, essas coisas, ficava mais fácil. Porque ele mexe em Excel, Word. Ele que faz tudo. Quer dizer, eu aprendi a fazer com ele”. (E2, MULHER, 38 ANOS) O terceiro exemplo vem da entrevistada E6, que revela ter iniciado seu contato com computadores a partir da influência do irmão, que atuava na área de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA informática, que levava itens para casa e mostrava aos familiares, despertando a curiosidade da irmã em relação ao universo dos computadores, estimulando-a a estudar informática em cursinhos especializados. “Eu comecei (a usar computador) por curiosidade, meu irmão era da área de informática, então ele sempre... há muito tempo atrás ele sempre tinha uns computadores lá porque ele trabalha nessa área de... de... ele começou na área de montagem e manutenção de micros. Então ele sempre levava alguma coisa pra casa pra mostrar pra gente e tal e aí eu comecei a minha curiosidade e aí depois, eu fui... tinha aqueles cursinhos, básicos né, chatos que não serviram pra nada. E eu fiz um curso desses de um ano e pouco e ai não parei mais. Eu acho que é fundamental, hoje eu já não me vejo sem computador”. (E6, MULHER, 36 ANOS) Neste sentido, os aspectos destacados nessa categoria apresentam relação direta com alguns dos construtos da teoria de difusão de inovação de Rogers (2003), que afirma existirem cinco características que influenciam na adoção de uma inovação: vantagem relativa, compatibilidade, complexidade, “observabilidade” e “experimentabilidade”, sendo os construtos complexidade e “observabilidade” aqueles que apresentaram maior relação com os dados coletados junto aos entrevistados. A Complexidade de uso de uma tecnologia está relacionada à percepção que o usuário possui sobre a facilidade ou dificuldade de se usar a tecnologia. Neste sentido, há relação direta com os relatos associados à categoria amigos e familiares como agentes facilitadores, pois os entrevistados afirmam sentir 60 dificuldade para aprender, porém estão sempre dispostos a se esforçar para começar a usar o computador. Neste caso, há indícios de que tal esforço não se configurou em uma barreira para o uso, justamente porque os entrevistados receberam apoio e suporte de amigos e familiares na vida cotidiana. Este apoio se mostra fundamental para reduzir a percepção de dificuldade, principalmente servir de “exemplo” para o entrevistado; alguém de seu convívio, provavelmente com história de vida e trajetória profissional similar, assim como background sociocultural também similar, demonstra capacidade de usar o computador com desenvoltura, ou seja, sendo exemplo “vivo” de que o entrevistado também poderia vencer as barreiras de dificuldade de uso. A “observabilidade” está associada a quanto os resultados do uso de uma inovação são perceptíveis para o indivíduo. Neste caso, novamente, ao observar com proximidade a desenvoltura com que os agentes familiares e amigos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA utilizavam o computador, os entrevistados tinham a oportunidade de vislumbrar os benefícios que o uso avançado da tecnologia da informação poderia oferecer a eles, e novamente, por se tratarem de indivíduos de mesmo contexto sociocultural, poderiam se sentir motivados a dedicar mais tempo para aprender mais rapidamente a usar o computador. A fala seguinte ilustra este ponto: “Tinha um amigo que consertava PCs. E eu chamei ele para fazer a manutenção. E ele fazendo a manutenção, eu acompanhava ele mexer, desmontava equipamento, montava, instalava software, que na época o Windows não se instalava sozinho, você tinha que dar os comandos. Então eu fui prestando atenção e fui aprendendo algumas coisas. Tudo dessa maneira.” (E1, HOMEM, 49 ANOS) Ao destacar as dificuldades que os entrevistados tiveram para usar computadores e a importância dos familiares e amigos como facilitadores do processo, as questões retratadas nesta categoria também encontram ressonância em aspectos descritos pela literatura de base da pirâmide, principalmente no que tange às recomendações estratégias de London e Hart (2010) sobre o incremento de capital intelectual dos territórios através da capacitação promovida pelas empresas multinacionais. Mesmo indo buscar aprendizado em cursinhos de informática e recebendo treinamento em suas respectivas empresas, os empreendedores entrevistados relataram dificuldades para aprender a usar computador com fluidez. Sendo assim, recebiam o suporte de familiares e amigos outliers em relação à população local, por se trataram de usuários com níveis de 61 conhecimentos muito acima da média nos territórios. Estes agentes normalmente possuíam atuação profissional no ramo de informática, como no caso da entrevistada E6, cujo irmão era técnico em manutenção, e sempre levava máquinas para casa, oferecendo suporte e explicando detalhes de funcionamento de hardware para a irmã; ou no caso de E4, cujo pai era mestre em engenharia e dominava o uso de computador, incentivando a filha a usar a máquina em casa quando ainda muito jovem. Da mesma forma E1, que era vendedor da cervejaria Brahma na época em que começou a usar computadores, e por desejar crescer na carreira, procurou aprender sozinho, e um amigo técnico em manutenção o ensinava a usar enquanto ia consertando máquinas em sua casa. Novamente, a falta de mecanismos formais para a capacitação para o uso de tecnologia levava os entrevistados a improvisar para a obtenção do conhecimento. O desejo de manter a empregabilidade ou de crescimento na carreira os conduzia a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA uma atitude extremamente positiva em relação à intenção de uso de computador, uma vez que tinham a percepção de que para acessar oportunidades fora dos territórios de base da pirâmide precisariam deste tipo de conhecimento. Estas evidências reforçam também a relevância das proposições de Prahalad (2005) no que diz respeito à criação de ecossistemas sociais. Para o autor, o caminho ideal para o desenvolvimento das operações de base da pirâmide, consistia na criação de alianças entre as empresas multinacionais interessadas em entrar nos territórios, governos, lideranças locais, ONG’s e empreendedores de baixa renda dos territórios. Em conjunto poderiam desenvolver modelos de negócios que fomentassem a capacitação profissional dos envolvidos nos projetos, ao mesmo tempo em que poderiam mais rapidamente adaptar os modelos de acordo com as particularidades de cada território (PRAHALAD, 2005). A necessidade do ecossistema social fica evidente ao se observar as categorias identificadas. Para melhorar o desempenho dos empreendedores, empresas interessadas em atuar na base da pirâmide precisam capacitá-los de acordo com as necessidades específicas de cada segmento de mercado, conforme demonstra a categoria necessidade de aprendizagem para o trabalho. Ao mesmo tempo, a categoria amigos e familiares como agentes facilitadores demonstra a importância de instrutores capacitados dentro dos territórios que possam oferecer suporte para esta capacitação. 62 Naturalmente empresas multinacionais não possuem expertise para formação de instrutores de informática, mas possuem demanda para oferecer trabalho aos mesmos; é neste sentido que a noção de ecossistema ganha corpo: empresas multinacionais podem buscar alianças com parcerios estratégicos, contar com o apoio do governo para implantar tais alianças e mesmo para acessar os territórios com segurança; forjar parcerias com entidades locais no sentido de permitir acesso rápido e em massa a um contingente de indivíduos nos territórios com perfil e interesse nas oportunidades oferecidas; acelerar a capacitação dos parceiros locais através desta rede. Fica evidente que isoladamente os atores não possuem fôlego e competências para acelerar os projetos de base da pirâmide; a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA sinergia promovida pelos ecossistemas sociais é crucial neste sentido. 4.3. Prontidão Para Uso de Tecnologia A prontidão para tecnologia foi definida por Parasuraman (2000) como sendo a propensão dos indivíduos em aceitar e usar tecnologias em seus cotidianos para melhorarem seus desempenhos profissionais. Neste sentido os relatos dos entrevistados apresentaram elementos que configuram prontidão para tecnologia por parte dos mesmos. Suas falas indicam que a tecnologia da informação está presente em suas vidas não apenas através do uso do computador, mas também através de celulares, tablets e de uso da internet para ações comerciais e relacionamento com clientes. A fala de E2 oferece exemplo desta situação: “E-mail recebo toda hora. Respondo na mesma hora. Minha... minhas tabelas de preço, minhas apresentações de vendas tão todas aqui (mostra o telefone celular), mostro pro cliente aqui. Eu não... eu não uso papel, anoto tudo no celular (...) Eu me considero sim uma pessoa que gosta de tecnologia, acredito que facilita, né, todo o meu trabalho apesar de não ter muita paciência. Facilita tudo o que eu faço. Por exemplo, eu tive muito pedido pelo “face”, de vez em quando eu fico postando as fotos, né, dos produtos. E sempre entra uma, duas pessoas e começa a perguntar. E, dali, eu já vou tirando os meus pedidos. Anteontem eu tirei. Duas escovas e três produtos”. (E2, MULHER, 38 ANOS) 63 A entrevistada E2 demonstra nível alto de prontidão para tecnologia. O primeiro indício é revelado por sua atitude de “responder na mesma hora” os emails de seus clientes. Além disso, chama atenção sua ênfase sobre não usar papel, e ter suas apresentações de vendas digitalizadas no telefone celular, que passa a ter um papel não apenas de comunicação com clientes, mas também de instrumento de vendas. A entrevistada afirma que se considera uma pessoa que gosta de tecnologia, pois esta facilita suas atividades no dia-dia. O tempo todo sua fala referencia a tecnologia como algo relevante para o trabalho, demonstrando relação com o conceito de prontidão de Venkatesh et al (2003). A fala de E1 demonstra uma variação em relação ao relato de E2, uma vez que o empreendedor afirma possuir curiosidade sobre tecnologia que extrapola as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA funcionalidades e usos para o âmbito profissional: “Me interessa tecnologia de um modo geral, né? Desde a parte de informática, a parte de ciências também me interessa bastante. Pesquiso muito, leio muito. Toda essa parte inerente às ciências. Pesquisas espaciais, eh... informática... Gosto bastante (...) energia quântica... essa parte de... dos colisores de hádrons que existe lá na Suécia... a pesquisa que está sendo feita”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) Em outro momento da entrevista E1 aborda o uso de tecnologia especificamente para seu trabalho, reiterando o papel de facilidade e favorecimento da tecnologia: “Necessidade, né? Você tem a necessidade de usar um equipamento no seu dia-adia, no trabalho, que vá te favorecer o teu dia-a-dia. Aí fica melhor ainda. Eu, por exemplo, tenho um tablet”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) Assim como E2 e E1, a entrevistada E8 também confirma sua percepção sobre a tecnologia como algo que facilita as atividades profissionais, citando novamente o celular como instrumento importante para seu trabalho, apesar de não conseguir ter ainda internet móvel devido a problemas técnicos enfrentados: “Atualmente o que mais uso... mais o celular mesmo... meu celular era pra ter acesso à internet e eu não sei por que até hoje não tem, não entendi. Já levei trocentas vezes... Internet uso mesmo no computador.. e uso todo dia, todo dia mesmo. Te facilita esse serviço quando você quer buscar alguma coisa em parte de conhecimento ou de curiosidade que seja, fica mais rápidas as coisas, e hoje em dia né, o tempo foi seguindo e .. é tempo! Quanto mais rápida as coisas, melhor”. (E8, MULHER, 37 ANOS) 64 Como também citado por E2, a entrevistada E8 reitera o papel comercial importante desempenhado pelas redes sociais, afirmando que já tirou pedidos de vendas para clientes través do Facebook, demonstrando a relevância da internet como ferramenta de trabalho: “Eu já tirei pedido assim, por exemplo, cliente que já é minha ai eu to la no inbox e me manda assim por mensagem “vou te passar os números das minhas colorações”, é... Uma outra que era até amiga do meu marido, que estudava com ele... Ai ela.. assim, vendi conversando com ela, que dai eu expliquei mais tudo, que ele que tinha contato com ela e eu vendi pra ela, eu nem conheci pessoalmente. Outras vezes algumas pessoas, por exemplo, que vai na minha página mesmo, lá e perguntam “ah você vende lá”, por exemplo, teve uma menina que me perguntou. É... Itaperuna. Ai eu “não, Itaperuna não, mas se você quiser te mando um contato da área “ Eu entrei até na página da Matrix oficial e peguei lá o distribuidor pra mandar pra ela”. (E8, MULHER, 37 ANOS) Novamente, evidenciando a prontidão para tecnologia, as entrevistadas E10 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA e E6, destacam em suas falas o papel relevante que a tecnologia ocupa em suas vidas e a preocupação de estarem acompanhando as inovações tecnológicas. E10 afirma não se considerar 100% tecnológica, mas afirma que precisa entender para poder “viver”. “Assim, eu uso muito a internet pra tudo, né, pra divulgar os produtos, pra estudar, então de repente eu não me considero 100% tecnológica, mas, assim, algumas coisas de tecnologia eu tenho que entender pra poder... viver, né, que hoje em dia, a gente não consegue fazer quase nada sem... internet, telefone. Mas, assim, atualmente, o que eu uso mais é o... facebook. O facebook e o Google... agora o Google tá cum tipo o facebook, não, mas ele... ele tá juntando as pessoas conhecidas, né, e você divulga no Google, todo mundo, E quando eu... divulgo no blog, aí eu já compartilho pra todo mundo que tá cadastrado no meu... no meu email... eh... que eu cadastrei no Google”. (E10, MULHER, 29 ANOS) “Olha só a tecnologia eu já sou ligada há um tempo atrás, mas na microdistribuição eu achei que ela passou a ser mais importante por conta do... porque eu acho que acho tudo é mais fácil, por questão do planejamento, por questão do acesso às pessoas, por questão até das notícias que você pode fazer, os treinamento, tá tudo ligado pra mim a tecnologia. Então hoje eu acho que sou muito mais, eu utilizo muito mais esse recurso do que eu utilizava antes (...) Uso computador, uso tablet, uso e-mail.. o e-mail uso no celular!”. (E6, MULHER, 36 ANOS) Compreender os níveis de prontidão para tecnologia dos empreendedores de baixa renda se apresenta como elemento de fundamental importância para a compreensão do uso de tecnologias por parte dos mesmos, uma vez que a 65 prontidão ilumina o espectro de amplitude da relação dos empreendedores com as tecnologias. Esta categoria ajuda a corroborar os achados discutidos na categoria aprendizado para o trabalho, a qual ilustra que os empreendedores iniciaram o uso de tecnologia da informação devido a necessidade de melhorarem empregabilidade e/ou performance profissional. Esta categoria, todavia, remete ao passado dos empreendedores, ao passo que a categoria prontidão para uso de tecnologia remete ao presente, pois reflete os hábitos atuais de uso de tecnologia dos mesmos. Desta forma fica ilustrada uma espécie de evolução ou continuidade do processo de uso de tecnologia por parte dos empreendedores, que continuaram expandindo seus aprendizados ao longo dos anos após a etapa inicial de uso de tecnologia da informação. Algumas questões que aparecem subjacentes a esta categoria, prontidão para uso de tecnologia, corroboram a visão defendida por Prahalad (2005) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA referente à importância da criação dos ecossistemas sociais, uma vez que retratam a abertura e interesse dos empreendedores entrevistados em usar tecnologias, em se capacitar e melhorar o status atual de seus respectivos níveis de conhecimento das ferramentas tecnológicas, influenciando todo o entorno de suas operações. Os entrevistados são categóricos ao descreverem o valor que enxergam na tecnologia para melhoria das condições de trabalho de seus empreendimentos atuais. No entanto um importante fator surgiu durante as entrevistas: apesar dos empreendedores demonstrarem altos níveis de prontidão para uso de tecnologia, os mesmos descreveram seus clientes como indivíduos com baixos níveis de prontidão e, consequentemente de uso. A entrevistada E6 relata que ao procurar estimular seus clientes para interagirem cada vez mais com ela através de meios digitais, muitas vezes enconta barreiras: “Eles até têm essas coisas, internet, computador, mas eles não usam. Eu falo: “Posso mandar por e-mail?”, aí eles respondem:”ah! eu até tenho um mas eu quase não uso”. Eles... eles ainda tão... muitos deles ainda tão na fase do papelzinho”. (E6, MULHER, 36 ANOS) Do mesmo modo, a entrevistada E2 fala sobre percepção em relação ao motivo de seus clientes não utilizarem tecnologias da informação do mesmo modo que ela: “De repente, como eu acho, pensa que é um bicho de sete cabeças, pensa que não vai saber fazer... e acaba que vai deixando pra lá... e acaba que pega um caderno 66 e vai colocando tudo lá e acha que tá fazendo o certo, né?”. (E2, MULHER, 38 ANOS) O entrevistado E1 afirma que o nível cultural dos clientes é o principal responsável pela dificuldade de uso de computadores e tecnologias da informação em geral: “É uma minoria que usa, Falta um pouco de experiência. Alguns até sabem que é necessário, mas preferem ficar no amadorismo. O porquê disso eu não entendo. Sabe, eu penso... não é denegrir a imagem de ninguém, mas eu penso que tá ligado ao nível cultural”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) A pouca familiaridade de seus clientes com o uso de tecnologia, destacada pelos entrevistados, reforça a questão, anteriormente destacada por Khanna e Palepu (2010) sobre os vazios institucionais. Segundo os autores, cada país PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA apresenta determinados níveis de vazios em certas áreas e segmentos. No caso do Brasil, fica evidente que as restrições em relação à oferta de educação básica e fundamental, bem como a educação de extensão complementar (idiomas e informática, por exemplo) está diretamente relacionada com a dificuldade de uso de tecnologia. Os indivíduos aprendem a utilizar determinadas tecnologias e instrumentos através de processos de aprendizado que muitas vezes se misturam com processos de socialização (KHANNA e PALEPU, 2010). Portanto, se na infância e adolescência não tiveram acesso a determinado tipo de educação e formação, na vida adulta sentirão mais dificuldade para integrar tais conhecimentos aos seus cotidianos. É o caso que se observa entre os empreendedores entrevistados. A utilização de tecnologia é limitada e muitas vezes insuficiente para que seja realizada a integração das operações nos territórios de base da pirâmide com as cadeias de valor das empresas multinacionais. Muitas vezes o uso de e-mail e redes sociais não é suficiente. O empreendedor precisa saber utilizar softwares e adequar processos de seus negócios aos processos informatizados. A dificuldade de integração, no entanto, não se dá apenas entre os empreendedores e seus clientes. Conforme a próxima sessão irá demonstrar, os empreendedores também possuem dificuldades para se integrarem às cadeias das multinacionais com quem formatam parcerias. 67 4.4. Limitações de Formação Apesar de haver sido discutido que os empreendedores entrevistados possuem níveis altos de prontidão para uso de tecnologias, foi identificada uma grande limitação para uso de determinados tipos de softwares por parte dos empreendedores. Esta limitação ficou evidenciada quando os empreendedores falavam sobre softwares para a gestão dos negócios e as dificuldades que possuíam em relação a uso destas tecnologias. A principal dificuldade, nominalmente citada, foi em relação ao uso de softwares de planilha eletrônica e aplicativos de gestão financeira. Ao serem questionados pelo entrevistador sobre as razões desta dificuldade, os empreendedores não souberam responder objetivamente, justificando apenas como sendo softwares difíceis e confusos. Uma vez que o entrevistador já tinha conhecimento prévio dos níveis de formação PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA dos entrevistados, foi possível relacionar a dificuldade de uso de softwares que exigem raciocínio lógico e matemático de modo mais intenso e menos intuitivo do que redes sociais, às limitações de formação educacional por parte dos empreendedores. “Já tentei... Já usei alguns aplicativos, só que assim, eu sempre desisto no meio do caminho porque como sempre esses aplicativos são sempre difíceis de mexer, e tem que botar muita informação senão o negócio não funciona e sempre se perde”. (E6, MULHER, 36 ANOS) “Comecei no aplicativo. Mas depois eu tive uma dificuldade porque a... a menina que me ajudava, ela não usava o aplicativo. Ela preferia aquela coisa do caderninho, de anotar e tal... Aí começou com o caderninho. Era difícil pra ela entender que era melhor que ela fizesse tudo no... no tablet que ia ser mais fácil. E ela usava o tal do caderninho e aí eu comecei a usar a planilha porque ela usava planilha, aí eu comecei a juntar tudo em planilha e planilha... e aí depois eu não consegui... não consegui ainda para pra colocar isso tudo no aplicativo, até porque é um saco... aquelas coisas que demoram, nada é fácil, quando eu uso os dois”. (E6, MULHER, 36 ANOS) A fala da entrevistada E6 é emblemática no sentido de confrontar duas visões antagônicas em relação à gestão dos negócios: o uso do “caderninho” versus o uso de aplicativo. O caderninho era da preferencia de uma ex-sócia informal que ajudava no negócio, enquanto a entrevistada possuía declarada predileção pelo uso de aplicativo para gerenciar o negócio. Como não houve 68 flexibilização de nenhuma das partes, o meio termo encontrado foi o uso de planilha eletrônica. Porém, por considerar a planilha difícil de usar, a gestão das informações acabou não sendo realizada. Outro exemplo contribui para o entendimento da categoria limitação de formação, ao demonstrar como a entrevistada E2 apresenta prontidão para tecnologia ao descrever seus hábitos diários de uso de computador, telefone e tablet, e ao explicar como realiza suas tarefas através deles, e na sequencia, comentar sua dificuldade para usar planilha eletrônica: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA “Então, eh... a gente tem um computador principal em casa, que lá fica minha... minha.... banco... essas coisas todas que eu fico olhando e administrando por lá. Eu tenho o meu computador pessoal, que é o que... sem fio que pra mim é muito prático. Agora tô cum tablet e mais o iPhone. Eh... loucura, né? Eh... mas aí o tablet, eu senti a necessidade porque a tela era maior. Esse, por ter uma tela um pouco menor... eh, assim, direto, conectado o tempo inteiro até porque eu respondo muito por e-mail, o tempo inteiro... Toda hora o face me chama, alguém me perguntando alguma coisa”. (E2, MULHER, 38 ANOS) No entanto, na sequencia da entrevista, a entrevistada começa a relatar quais são os momentos em que sente dificuldade ao usar a tecnologia: “O Excel. Deveria mexer mais, porque acaba que eu dependo de Paulo (marido) pra tá montando as minhas planilhas, pra tá fazendo as minhas coisas... Se eu pegar, eu faria, mas eu acabo que eu tô fazendo outras coisas... e não me dedico a essa parte (...). É chato ter que ficar chamando toda hora Paulo. Ou até meu filho que mexe muito bem planilha. Ter que ficar chamando toda hora pra poder mexer. Por não ter hábito, de repente, de mexer, eu acabo esquecendo. Com rede social não tenho dificuldade alguma”. (E2, MULHER, 38 ANOS) Os empreendedores em nenhum momento souberam explicar o que exatamente torna difícil a utilização de planilhas eletrônicas, mas provavelmente não dominam os elementos básicos da linguagem matemática presentes na interface deste tipo de software. Mesmo o entrevistado E1, que apresentou os mais sofisticados níveis de prontidão (ao relatar seu interesse por física quântica e suas leituras sobre pesquisas científicas), relatou dificuldade para usar planilha eletrônica, citando o software Excel: “Olha, o que ainda não sei mexer até hoje bem é Excel Porque eu nunca... fiz um curso, como eu te falei. Nunca fiz um curso especifico sobre Excel e tento aprender sozinho, e... as fórmulas ainda num domino bem. Coisa boba que talvez assim 69 cinco, dez minutos conversando com uma pessoa te explicando, eu consiga”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) Apesar de afirmar que talvez com o suporte de algum instrutor seja possível aprender a usar o Excel em cinco ou dez minutos, o entrevistado deixa claro que já tentou aprender sozinho, mas não obteve sucesso. Citou a dificuldade de compreender as fórmulas, que consistem em uma funcionalidade do sistema que oferece ao usuário formulários para facilitar o uso de funções matemáticas e de automação das planilhas. A continuação da fala de E1 retifica a análise: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA “Eu ligo ele (o computador) às cinco horas da manhã quando eu acordo para verificar os meus e-mails, ler as noticias. Todas que eu puder ler nos sites, jornais. E... ver tudo que eu tenho que fazer acerca de trabalho. Eu coloco na minha agenda (...) Utilizo também o Word. Utilizo o PowerPoint pra fazer apresentações até pra argumentar junto ao cliente”. (E1, HOMEM, 49 ANOS) Ou seja, ele demontra intimidade com outros softwares de suporte profissionl, como editores de texto, editores de apresentações, além de demonstrar estar conectada à internet boa parte do tempo de seu dia, sendo o uso de planilha eletrônica a maior barreira enfrentada por ele. Na mesma situação, E9, que narrou sua ascenção meteórica na empresa de tintas onde aprendeu a usar computador e se destaco por aprender a usar o sistema da loja mais rapidamente que todos os companheiros de trabalho, chegando a gerencia em dois anos, também fala sobre sua dificuldade com o excel e planilhas eletrônicas, reconhecendo que estas são complexas de serem utilizadas em relação as outras funcionalidades: “Hoje a tecnologia está presente em quase tudo pra mim. Uso e-mail, rede social, software uso pouco. Planilha nem chego perto, Excel no caso. Fiz um curso lá atrás, vinte anos atrás, mas nem lembro mais, mudou tudo. Eu uso mais e-mail para o trabalho, comunicação, mas planilhas eu não cheguei neste nível, prefiro fazer no papel. Eu não tenho tempo de ficar futucando nisso, acho que é mais complexo”. (E9, HOMEM, 37 ANOS) A entrevistada E5, que relatou ter tido sempre muita facilidade para usar tecnologia, principalmente quando era jovem e atuava no mercado de automóveis, deixa claro que não possui dificuldades para usar computador, porém as planilhas 70 eletrônicas se confinguram em uma barreira, devido a dificuldade de fazer e entender cálculos: “Eu uso computador todos os dias, no salão e em casa, tudo dos meus clientes e filhos está ligado a isso também. Eu tenho dificuldade em trabalhar com planilhas, eu sei o que eu aprendi sozinha, mas planilha só sei algumas coisas. As vezes eu quero fazer uns cálculos, mas não consigo desenvolver, coisas que não são básicas, coisas sofisticadas, que meu filho de 10 anos sabe muito. Internet eu sei, procuro usar as redes sociais, tá todo mundo envolvido nisso, não perco muito tempo não, uso mais para o trabalho. Para a vida pessoal uso mesmo para coisas dos meus filhos no colégio, boletim, é tudo muito informatizado”. (E5, MULHER, 40 ANOS) A mesma entrevistada foi a única entre todos que sugeriu ser sua dificuldade com planilhas eletrônicas fruto de deficiências de formação, por falta de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA oportunidades de estudo, completando o relato acima da seguinte forma: “Eu quando comecei a usar computador eu queria muito fazer um curso, e minha mãe vendeu uma televisão para poder pagar meu curso, eu gostava muito disso, se eu tivesse tido outras oportunidades na vida talvez hoje eu fosse uma programadora, eu gostava muito, é porque não tive muitas oportunidades mesmo, tive que começar o trabalho muito cedo, então não pude continuar”. (E5, MULHER, 40 ANOS) A categoria limitações de formação destacou a dificuldade que os empreendedores possuem em utilizar recursos de tecnologia da informação relacionados a planilhas eletrônicas e sistemas de gestão. A análise desta categoria demonstrou evidências concretas dos efeitos provocados pelos vazios institucionais: se por um lado, os empreendedores driblaram a ausência de oferta de capacitação gratuita para uso tecnologia através das oportunidades de aprendizado oferecidas no trabalho, por outro não conseguiram sobrepor a barreira da formação educacional frágil, que se evidencia no momento em que precisam utilizar ferramentas que exigem raciocino lógico e matemático um pouco mais apurado. 5 Conclusões Este trabalho teve como objetivo compreender os fatores que influenciam o uso de tecnologias da informação por empreendedores de baixa renda. Para isso, foram realizadas dez entrevistas semiestruturadas com empreendedores do Estado do Rio de Janeiro que participam de projeto de base da pirâmide de empresa multinacional do setor de cosméticos que atua no Brasil. Os resultados das entrevistas foram analisados, tendo como base conceitual, as teorias de aceitação e uso de tecnologias (ROGERS, 2003; VENKATESH et al, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA 2003) e a literatura sobre estratégias para a base da pirâmide (PRAHALAD, 2005, LONDON e HART, 2010; KHANNA e PALEPU, 2010). Com base nessas referencias, pode-se observar que há, de fato, problemas de integração tecnológica entre os atores que participam dos projetos de base da pirâmide e que parte destes problemas está relacionada com vazios institucionais existentes em territórios com estas característas. Da análise das entrevistas emergiram quatro categorias que ajudam a compreender os fatores que influenciam o uso de tecnologia por parte de empreendedores da base da pirâmide: necessidade de aprendizagem para o trabalho; papel de amigos e familiares como agentes facilidadores; prontidão para uso de tecnologia e limitações de formação. As três primeiras se referem a aspectos que impulsionaram o uso da tecnologia e, a última, ao principal limitador de seu uso, observado com base nos depoimentos. A categoria necessidade de aprendizagem para o trabalho foi identificada a partir dos relatos dos empreendedores sobre como iniciaram seu contato e uso de computadores pela primeira vez. Conforme já descrito pela teoria (KHANNA e PALEPU, 2010), estes indivíduos começaram a usar computadores devido a uma necessidade provocada pelo trabalho onde atuavam na época, fosse por medo não sustentar suas respectivas empregabilidades, fosse por desejo de crescer profissionalmente mais rápido. Os entrevistados relataram que normalmente recebiam treinamentos para aprender a usar sistemas específicos das empresas 72 onde atuavam, como é o caso do entrevistado que trabalhava numa loja de tintas como entregador e, quando da implementação um sistema gerencial que modificava praticamente todos os processos da loja, enxergou nesta situação uma oportunidade para ascender na carreira. Outra categoria indentificada durante a análise foi o apoio de amigos e familiares como agentes facilitadores. Os relatos demonstraram que, apesar dos treinamentos recebidos nas empresas e dos conhecimentos aprendidos nos cursinhos de informática, os empreendedores entrevistados dependeram de auxílio de familiares ou amigos, usuários mais avançados de computador, para poderem complementar o processo de aprendizado. Ou seja, necessitavam de um suporte personalizado e individual para poderem tirar dúvidas, como relatou a entrevistada que recebeu suporte do marido durante bastante tempo até se sentir segura para começar a utilizar as ferramentas tecnológicas sozinha. Estas evidências reforçam PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA também a relevância das proposições de Prahalad (2005) no que diz respeito à criação de ecossistemas sociais. Para o autor, o caminho ideal para o desenvolvimento das operações de base da pirâmide, consistia na criação de alianças entre as empresas multinacionais interessadas em entrar nos territórios, governos, lideranças locais, ONG’s e empreendedores de baixa renda dos territórios. Em conjunto poderiam desenvolver modelos de negócios que fomentassem a capacitação profissional dos envolvidos nos projetos, ao mesmo tempo em que poderiam mais rapidamente adaptar os modelos de acordo com as particularidades de cada território (PRAHALAD, 2005). A necessidade do ecossistema social fica evidente ao se observar as categorias identificadas. Para melhorar o desempenho dos empreendedores, empresas interessadas em atuar na base da pirâmide precisam capacitá-los de acordo com as necessidades específicas de cada segmento de mercado, conforme demonstra a categoria necessidade de aprendizagem para o trabalho. Ao mesmo tempo, a categoria amigos e familiares como agentes facilitadores demonstra a importância de instrutores capacitados dentro dos territórios que possam oferecer suporte para esta capacitação. Naturalmente empresas multinacionais não possuem expertise para formação de instrutores de informática, mas possuem demanda para oferecer trabalho aos mesmos; é neste sentido que a noção de ecossistema ganha corpo: empresas multinacionais podem buscar alianças com parcerios estratégicos, contar 73 com o apoio do governo para implantar tais alianças e mesmo para acessar os territórios com segurança; forjar parcerias com entidades locais no sentido de permitir acesso rápido e em massa a um contingente de indivíduos nos territórios com perfil e interesse nas oportunidades oferecidas; acelerar a capacitação dos parceiros locais através desta rede. Fica evidente que isoladamente os atores não possuem fôlego e competências para acelerar os projetos de base da pirâmide; a sinergia promovida pelos ecossistemas sociais é crucial neste sentido. A prontidão para uso tecnologia também foi identificada como categoria durante o processo de análise. Esta categoria está diretamente relacionada ao conceito de prontidão para tecnologia (PARASURAMAN, 2000), que demonstra que comportamentos do sujeito em relação a diversos instrumentos e contextos relacionados à tecnologia são fatores que ajudam a explicar a propensão do mesmo a adotar ou não tecnologias da informação em contextos organizacionais. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA Desta forma, esta categoria demonstrou que os empreendedores entrevistados apresentam altos níveis de prontidão para uso de tecnologia, uma vez que relataram uso diário de internet e computador; uso de internet no telefone celular; uso de meios digitais para realizar os procedimentos de vendas perante aos clientes; uso de redes sociais para realizar venda para clientes, e uso intensido de e-mail como ferramenta de comunicação. Os entrevistados demonstraram mais prontidão para o uso no contexto profissional do que no contexto pessoal. Apesar do alto nível de prontidão dos entrevistados, a última categoria a emergir durante a análise, limitações de formação, demonstrou que os empreendedores enfrentam uma grande barreira, a qual ainda não encontraram meios de transpor, quando se trata do uso mais avançado das tecnologias da informação, no caso, mais especificamente, de planilhas eletrônicas e softwares de gestão. A análise das entrevistas mostrou que esta dificuldade está diretamente relacionada a uma deficiência de formação educacional dos empreendedores, uma vez que planilhas eletrônicas e sistemas de gestão exigem raciocínio lógico e matemático, por parte dos empreendedores, ao contrário do raciocínio intuitivo e visual, típico das redes sociais. Esta situação dialoga diretamente com o conceito de vazios institucionais, o qual afirma que a ausência de infraestrutura e serviços básicos, entre eles de educação, nos territórios de base da pirâmide, são responsáveis por entraves ao desenvolvimento dos territórios. No caso, trata-se de entraves relacionados à formação educacional, que limita a capacidade de uso de 74 ferramentas tecnológicas importantes para a prática gerencial por parte dos empreendedores, devido a dificuldades apresentadas para lidar com questões de raciocínio lógico e matemático. A literatura sobre a base da pirâmide também ofereceu importante base para a análise dos resultados. O principal referencial teórico deste trabalho residiu na visão de London e Hart (2010) sobre a dificuldade que empresas multinacionais enfrentam para integrar os parceiros locais nos projetos de base da pirâmide às suas cadeias de valor globais. A análise das entevistas permitiu a identificação e proposição de um quadro que sintetiza os achados da pesquisa (figura 2), em que ocorrem dois níveis de gargalos em termos de integração tecnológica na cadeia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA dos projetos de base da pirâmide. Figura 8 – Integração tecnológica entre os atores dos projetos de base da pirâmide (fonte: própria) O primeiro gargalo se dá no relacionamento entre a empresa multinacional e os parceiros empreendedores locais, e se configura como um gargalo de nível médio, uma vez que a empresa se apresenta como uma unidade usuária de tecnologia de nível alto e os empreendedeores como unidade usuária de nível médio, pois apresentam prontidão para uso de tecnologia, assim como práticas gerenciais que envolvem o uso de redes sociais, e-mail e estratégias de vendas através de meios digitais, porém não utilizam planilhas eletrônicas nem sistemas de gestão. Ou seja, a integração tecnológica entre estes dois atores da cadeia se dá parcialmente, uma vez que podem compartilhar de comunicação via e-mail. No entanto, os empreendedores locais não conseguem ainda prover com qualidade e confiabilidade a empresa multinacional com dados sobre os resultados do negócio, 75 uma vez que não possuem planilhas eletrônicas ou sistemas gerenciais que computem as informações do negócio, uma vez que não digitalizam estes dados. O segundo gargalo se dá na relação entre os empreendedores locais e seus clientes. Aqui ocorre um gargalo ainda maior, uma vez que os clientes são identificados como usuários de nível baixo, por acessarem e-mail, e mesmo computador, apenas eventualmente, limitando a comunicação entre ambos. Esta situação, além de elevar os custos de operação dos empreendedores (pois precisam usar com mais frequência ligações telefônicas e visitas pessoais), também impossibilita qualquer visão sobre o comportamento dos clientes por parte da empresa multinacional. Desta forma se observa justamente o problema identificado por London e Hart (2010), no que diz respeito á dificuldade de se integrar os parceiros locais dos territórios à cadeia de valor global das empresas multinacionais. O baixo nível PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA de integração tecnológica provocado pelo primeiro gargalo, já impacta, de imediato, negativamente a operação de base da pirâmide por dificultar a visualização dos resultados dos parceiros empreendedores por parte da empresa multinacional, e consequentemente impossibilitar a tomada de medidas gerenciais que ajudem a melhorar o resultado da operação, além de limitar a visualização de indicadores de resultados. Na sequencia, o baixo nível de integração tecnológica entre os empreendedores e seus clientes gera o mesmo tipo problema, além de encarecer e gerar queda de eficiência no cotidiano da operação. As entrevistas realizadas para este trabalho estiveram circunstritas a empreendedores residentes no estado do Rio de Janeiro, que atuam especificamente no setor de cosméticos. Apesar da representatividade de tal amostra, obviamente que a ampliação dos achados deste estudo para demais mercados e regiões do Brasil poderão oferecer uma perspectiva mais assertiva e generalizante em relação às observações aqui realizadas. Novas condições influenciadores, assim como novos gargalos para a integração tecnológica das empresas multinacionais com seus parcerios locais podem emergir, principalmente devido a variação de condições de infraestrutura existente nas demais regiões brasileiras. Como conclusão final, é importante reiterar que o desenvolvimento dos mercados da base da pirâmide é de fundamental importância para o desenvolvimento econômico e social de países emergentes como Brasil. Neste 76 sentido, encontrar caminhos que ajudem a reduzir as barreiras geradoras dos gargalos que dificultam a integração tecnológica nestes projetos, se apresenta como importante fator para desenvolvimento dos mesmos. Além disso, este trabalho procurou se desenvolver a partir do hiato na literatura sobre base da pirâmide apontada por Gupta e Ghiji (2013), oferecendo contribuições empíricas para um campo marcado por estudos teóricos e conceituais. Ainda há muitas questões a serem elucidadas neste campo de estudos que acaba de entrar em sua segunda década de existência, apenas. Neste sentido esta pesquisa procurou vislumbrar meios de oferecer contribuições ás práticas gerenciais para aqueles PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212775/CA envolvidos com as iniciativas relacionadas à base da pirâmide. 6 Referências Bibliográficas AJZEN, I. From intentions to actions: A theory of planned behavior. In J. Kuhl & J. 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