UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Lucy Moreira Machado FORMAÇÃO CONTINUADA E GESTÃO DA EDUCAÇÃO: POR UMA POLÍTICA DE QUALIFICAÇÃO CURITIBA 2007 Lucy Moreira Machado FORMAÇÃO CONTINUADA E GESTÃO DA EDUCAÇÃO: POR UMA POLÍTICA DE QUALIFICAÇÃO Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação – Linha de Pesquisa Políticas e Gestão da Educação - Mestrado em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do título de mestre. Orientadora: Profª Dra. Naura Syria Carapeto Ferreira. CURITIBA 2007 TERMO DE APROVAÇÃO Lucy Moreira Machado FORMAÇÃO CONTINUADA E GESTÃO DA EDUCAÇÃO: POR UMA POLÍTICA DE QUALIFICAÇÃO Esta dissertação foi julgada e aprovada para obtenção do título de Mestre em Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação – Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Gestão da Educação - Mestrado em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba, 21 de maio de 2007. ______________________________________ Profª Dra. Naura Syria Carapeto Ferreira. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Educação Universidade Tuiuti do Paraná _______________________________ Profª Dra. Naura Syria Carapeto Ferreira. Universidade Tuiuti do Paraná Orientadora _______________________________ Prof. Dr. José Augusto Pacheco Universidade do Minho/Portugal _______________________________ Prof. Dr. Lindomar Wessler Boneti Pontifícia Universidade Católica do Paraná Dedico ao meu marido, Gualberto, pelo afeto e apoio. Aos meus filhos, Gabriel e Lucas pelo carinho e afeto. A minha mãe, Leocy pela dedicação e incentivo constante. Aos meus irmãos José e Luiz, pela amizade e incentivo. a a À minha orientadora Prof . Dr . Naura Syria Carapeto Ferreira, notável educadora, que muito contribuiu com a minha formação humana. AGRADECIMENTOS a. a. À Prof Dr Naura Syria Carapeto Ferreira, pelo empenho e ternura com que me orientou ao longo desse trabalho. Neste agradecer, fica a lembrança da paixão pelo ser humano, o carinho e a seriedade com que sempre me ensinou. A sua arte de ensinar me exigiu crescer. Aos professores do mestrado da UTP, que contribuíram com minhas reflexões. Aos professores entrevistados, pelas contribuições valiosas. Aos professores, Prof. Dr.Lindomar Wessler Bonetti, Prof. Dra.Anita Helena Schlesener por suas contribuições, que muito enriqueceram este trabalho. Ao Prof. Dr. José Augusto Pacheco que muito atenciosamente aceitou participar da banca de defesa. Às amigas Maria José Dietrich, Arlete Lopes, Ivana Oppis e Irene Zanon que sempre me incentivaram e apoiaram. Às amigas Carmen Mattos e Maria Helena Pinto, pelo companheirismo nesta caminhada. DE QUE SERVE A BONDADE De que serve a bondade Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados Aqueles para os quais eles são bons? De que serve a liberdade Se os livres têm que viver entre os não- livres? De que serve a razão Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam? Em vez de serem apenas bons, esforcem- se Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade Ou melhor: que a torne supérflua! Em vez de serem apenas livres, esforcem-se Para criar um estado de coisas que liberte a todos E também o amor à liberdade Torne supérfluo! Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo Um mau negócio! Bertold Brecht (2006, p.129) RESUMO Esta dissertação examina a formação continuada dos profissionais da educação básica, no contexto da sociedade contemporânea. Objetiva analisar as políticas públicas no Brasil no que concerne à formação continuada dos profissionais da educação no período de 1990 a 2006. Para atingir este intento, fez-se necessário: a) Compreender a problemática do homem na sociedade contemporânea; b) Analisar a Práxis humana; c) Investigar a formação continuada; d) Analisar a possibilidade da formação continuada comprometida com a omnilateralidade; e) compreender, através da leitura e experiência de intelectuais renomados a formação continuada que constituíram os objetivos específicos; Portanto, analisar a formação continuada dos profissionais da educação básica, seu conteúdo e suas necessidades, visando uma formação de maior qualidade, constitui o intento de pesquisa da presente dissertação, que foi trabalhada através das seguintes categorias de análise: formação, políticas públicas, gestão, hegemonia, cidadania. A metodologia para atingir os objetivos propostos, procedeu, com base na concepção dialética, o movimento entre a investigação teórica e a investigação empírica. Este pólo utilizouse da técnica de entrevista semi estruturada, com intelectuais nacionais e internacionais, que têm se debruçado sobre o tema objeto dessa dissertação – a formação continuada de profissionais da educação -. O referencial teórico que deu suporte às análises efetuadas destaca os autores: Kark Marx, Antônio Gramsci, Mario Manacorda, Karel Kosik, Pavel koppnin, Bogdan Suchodolski, Dermeval Saviani, Naura Syria Carapeto Ferreira e Anita Schlesener. Na análise empreendida neste estudo, foi possível evidenciar que a formação continuada tem estado a serviço do capital, na perspectiva individualista e competitiva acirrando esta categoria básica do neoliberalismo. Considera–se ser necessário a construção de uma concepção de formação continuada comprometida com a solidariedade para o desenvolvimento da educação omnilateral para todos que estão se escolarizando e todos os profissionais que são responsáveis pela formação dos educandos. Defende-se uma formação para a cidadania de qualidade, com a formação de sujeitos fortes e capazes de enfrentar as contradições do mundo atual, compromissada com uma transformação social alicerçada num humanismo responsável e solidário que atenda a universalização do ensino e da educação. Palavras-chaves: Formação, Políticas Públicas, Gestão, Hegemonia, cidadania. ABSTRACT This dissertation examines the continuous formation of professionals of the basic education, in the context of the contemporary society. It aims to analyze the public policies in Brazil towards the continuous formation of professionals of the education from 1990 to 2006. In order to reach this goal, it was necessary: a) to understand the man's problem in the contemporary society; b) to analyze the human praxis; c) to Investigate the continuous formation; d) to analyze the possibility of continuous formation committed with the omnilaterality; e) to understand, through the texts and experience of renowned intellectuals, the continuous formation that constituted the specific objectives. Therefore, to analyze the continuous formation of professionals of elementary school, its content and needs, seeking a higher quality formation, is the goal of the research of the present dissertation. It was dealt through the following analysis categories: formation, public policies, administration, hegemony, citizenship. The methodology to reach the proposed objectives proceeded, based on the dialectic conception, the movement between the theoretical investigation and the empiric investigation. This pole used the technique of semi structured interview with national and international intellectuals, who have leaned over on the theme object of this dissertation - the continuous formation of professionals of the education . The theoretical referential that gave support to the analyses features the authors: Kark Marx, Antônio Gramsci, Mario Manacorda, Karel Kosik, Pavel koppnin, Bogdan Suchodolski, Dermeval Saviani, Naura Syria Carapeto Ferreira and Anita Schlesener. In the analysis undertaken in this study, it was possible to evidence that the continuous formation has being used to praise the capital, in the individualistic and competitive perspective inciting this basic category of the neo-liberalism. It is necessary the construction of a conception of continuous formation committed with the solidarity for the development of the omnilateral education for all that are in the school and all the professionals that are responsible for the students' formation. It is necessary to have a formation for the quality citizenship, with the formation of strong subjects, who are capable of facing the contradictions of the current world, compromised with a social transformation found in a responsible and solidary humanism that assists the universalization of the teaching and of the education. Key-words: Formation, public policies, administration, hegemony, citizenship LISTA DE SIGLAS ANFOPE -Associação nacional pela Formação dos Profissionais da Educação ANPAE -Associação Nacional de política e Administração da Educação ANPED - Associação Nacional de Pós Graduação BIRD -Banco Interamericano de Recuperação do Desenvolvimento BM - Banco Mundial CEPAL - Comissão Econômica para América Latina e Caribe CNTE -Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. CONARCE - Comissão Nacional Pela Formação dos Educadores. CONCUT - Congresso Nacional da CUT CONSED - Conselho Nacional de Secretários de Educação FMI - Fundo Monetário Internacional FNT - Fórum Nacional do Trabalho INEP - Instituto nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais MARE - Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado MEC - Ministério da Educação PNE - Plano Nacional de Educação PROINFO - Programa Nacional de Informática na Educação SINAES - Sistema Nacional de Ensino Superior UNDIME - União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................11 2 COMPREENDENDO A PROBLEMÁTICA DO HOMEM NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA...........................................................................................23 2.1 COMPREENDENDO A CONCEPÇÃO DE SOCIEDADE.................................27 2.2 COMPREENDENDO O HOMEM: DO INDIVIDUALISMO À SOLIDARIEDADE, VIA CONCEPÇÃO DE OMNILATERALIDADE .................................................36 2.3 DO INDIVIDUALISMO À SOLIDARIEDADE .....................................................54 3 PRÁXIS HUMANA ..............................................................................................59 4 REPENSANDO A FORMAÇÃO CONTINUADA.................................................83 4.1 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA FORMAÇÃO CONTINUADA NO BRASIL ......88 4.2 FORMAÇÃO CONTINUADA NO NEOLIBERALISMO......................................107 5 FORMAÇÃO CONTINUADA COMPROMETIDA COM A SOLIDARIEDADE PARA O DESENVOLVIMENTO DA OMNILATERALIDADE...........................119 5.1 A CONTRIBUIÇÃO DAS DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O CURSO DE PEDAGOGIA.................................................................................123 6 O QUE A PESQUISA EMPÍRICA “ILUMINOU” ...............................................129 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..............................................................................153 REFERÊNCIAS.......................................................................................................158 APÊNDICE A - ROTEIRO DAS ENTREVISTAS ....................................................164 11 1 INTRODUÇÃO A sociedade contemporânea apresenta-se como uma síntese das sucessivas e aceleradas transformações, com “feições” que se produzem e reproduzem, cotidianamente, conforme um novo padrão de acumulação do capital, de forma cada vez mais monopolista, associada, dependente, mundializada e excludente. Tal curso da história, que é gerado pelos sujeitos que dominam as organizações que detêm a hegemonia mundial, e, por isto, “dominam” o mundo periférico, gesta um novo mundo com as feições ideologizadas pela ótica do capital e da mais valia. Tal configuração econômico-social, conseqüentemente, vai gerando uma trama de relações sociais que produzem o acirramento do individualismo e uma insatisfação que perpassa todo o tecido social atingindo o íntimo das pessoas. Para atender às demandas do neoliberalismo que produz o individualismo, sua categoria básica1, na qual se conforma e reproduz, as instituições e finalidades sociais são condicionadas a atender ideologicamente a esta “função” e configuração do individualismo2 que se constitui cada vez mais contraditório e auto- entrópico. As determinações do mundo hodierno, no grau de complexidade que se apresentam, geram tensões em todas as direções e, logicamente, no âmbito educacional, tensões entre o planejamento, as políticas internas das instituições escolares, a avaliação e a formação de profissionais competentes e capazes de 1 O individualismo, afirma Ferreira (”representa a existência individual sem restrições e orientada apenas pelo livre-arbítrio pessoal e por considerações voltadas, exclusivamente para o próprio interesse. É a categoria básica da constituição da ideologia liberal. Todas as demais categorias, bem como suas relações e contradições, constituem-se a partir da persistência e do profundo enraizamento desse elemento”. Para maiores aprofundamentos consultar: FERREIRA, N. S. C. O individualismo na contemporaneidade e o compromisso da administração da educação. In: SERRA, C. Conflito e mestiçagem. Matuto/Moçambique: Universidade Eduardo Mondlane, 2000. p. 211-239. 2 José Silvério Bahia Horta, desenvolve sobre esta categoria e suas implicações na contemporaneidade no capítulo Planejamento Educacional. HORTA, José Silvério Bahia. Planejamento Educacional. In: MENDES, D. T. Filosofia da Educação Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. 195-239. 12 formar para a cidadania, em contraposição à competitividade e à ênfase ao individualismo que de forma autoritária se impõe. As determinações do mundo hodierno também impõem, cada vez mais, e com maior impacto, exigências para a educação, que necessita atender às demandas sociais, científicas e tecnológicas de formação para a cidadania. Essas exigências, entretanto, contém, em sua maioria, a determinação das competências que obedecem à lógica do capital e da qualidade total,3 tão ao gosto do neoliberalismo atual. Fala-se em cidadania, mas exige-se competitividade e competências múltiplas que ferem a integridade humana. Fala-se em formação de qualidade e aligeira-se o tempo dos cursos de formação assim como aumentam - se as modalidades aligeiradas de “formação,” titulando sem fundamentação consistente. Tais contradições constituem-se em desafios para as políticas públicas em todos os níveis, que vão se desenvolver nas políticas educacionais escolares, gerando prementes necessidades para as políticas educacionais, para a gestão da educação, e para o trabalho dos profissionais. Nesta realidade, “espera-se” do profissional da educação uma performance de gestão e de docência que corresponda a esses padrões da competitividade impostos pelo mercado de trabalho, contrapondo-se à necessidade de formar-se para a cidadania, sujeitos competentes e cônscios de seus direitos e deveres, quando, na verdade, seria necessário reforçar a formação de sujeitos cônscios e responsáveis pela transformação social. Neste panorama, a gestão da educação necessita assegurar uma formação para a cidadania de qualidade, isto é, de sujeitos fortes e capazes do enfrentamento 3 Por Qualidade Total entende-se: A forma específica de administrar voltada ao cliente, dando ênfase à adoção de estratégias que promovam o aprimoramento permanente da instituição. Ao optar por esse modelo a escola passa a priorizar a si mesma, enquanto instituição, analisando-se e buscando a excelência. (FERREIRA, 2002). 13 competente do mundo atual. Todavia, sabe-se que esta cidadania que se quer, que se deseja, e ainda não se fez em nível nacional, já necessita se configurar e formarse no plano internacional, pelas exigências de participação no mundo que já se encontra em todas as residências que possuem internet ou televisão, assim como toda e qualquer forma de mídia eletrônica. A gestão democrática da educação possui, assim, a responsabilidade de uma atuação competente e compromissada com uma transformação social alicerçada num humanismo responsável e solidário que atenda à universalização do ensino e da educação e à formação para a cidadania. Neste sentido, torna-se necessário conhecer e compreender o compromisso das políticas públicas de formação continuada dos profissionais da educação para poder, através dessa forma de qualificação, aprimorar o ensino e a educação nos termos já afirmados. Ferreira discute este tema ao alertar que pensar em políticas públicas de ensino exige pensar em políticas de formação de professores, de profissionais da educação e, conseqüentemente, exige também pensar compromissos e responsabilidades da gestão da educação. (FERREIRA, 2006 b). Esta afirmação contém o compromisso de gerar, no processo de proposição e implantação das políticas públicas, o estabelecimento da relação consciente entre essas políticas e os fundamentos da gestão democrática, no sentido de ir além do cumprimento legal das diretrizes que compõem as bases da educação, as quais afirmam a democratização do ensino e a expansão quantitativa da escolaridade. Faz-se necessário, porém, ir além do exarado na lei e considerar que o democrático se expressa no desenvolvimento de um ensino que possibilite a assimilação e a produção de conhecimento, revelando qualidade na sua essência. Faz-se necessário, ainda, que o aluno da escola pública não seja mais considerado 14 como um número das estatísticas que somente comprovam que as crianças estão na escola. É importante que este aluno reconheça que a escola lhe permite ser mais humano, participar e realizar ações com consciência e identificar-se com a busca mediada do conhecimento sistematizado. Com essas preocupações, este trabalho tem como objeto de investigação a formação continuada dos profissionais da educação na educação básica, seu conteúdo e suas necessidades, visando uma formação de maior qualidade que necessita ser feita continuamente, de forma crítica e conscientizadora. Pretende-se investigar a base epistemológica da formação continuada, as políticas públicas que se comprometem com a formação continuada e o seu resultado efetivo no trabalho educacional realizado na escola. Pretende-se, ainda, analisar como a organização da escola e como ela se movimenta compromissada como local de formação para a cidadania. A escolha do tema a ser investigado, a formação continuada dos profissionais da educação, é decorrente de estudos e do trabalho desenvolvido como profissional da área da pedagogia no Município de Araucária. O processo de formação continuada tem gerado algumas indagações sobre o compromisso do profissional da educação com a formação humana. Algumas questões têm sido apresentadas no interior das discussões em reuniões e em momentos de formação com estes profissionais: como estão organizadas as políticas de formação? Nesta via de raciocínio, pode-se afirmar que se concebe a gestão democrática na educação no sentido de que ela constitui-se no desenvolvimento da participação consciente, a partir do conceito de trabalho coletivo e emancipador, no qual todos os envolvidos no processo educativo interagem com responsabilidades definidas, com o mesmo objetivo, construído coletivamente, formando sujeitos críticos com o 15 compromisso pedagógico de historicamente possibilitar a apropriação dos conteúdos sistematizados. A gestão democrática da educação só pode se desenvolver, na escola, por meio da construção coletiva da proposta pedagógica, que decorre e se sustenta no projeto político-pedagógico construído coletivamente, que é o documento norteador que embasa todo o trabalho educacional. Com essa compreensão, a escola que se assume como democrática constrói a organização apresentação e análise de propostas, do seu coletivo pautada em definindo as possibilidades do desenvolvimento humano e assumindo conscientemente que a escola é o local de formação humana. Desenvolver uma gestão democrática na escola pública significa comprometer-se com um ensino de qualidade, destinado, principalmente, a uma classe desprovida de elementos básicos da vida digna, que é a classe dos despossuídos, que não podem pagar a escola particular e tampouco tem condições de acesso a bens culturais que os segmentos abastados da sociedade têm com a maior facilidade. E este compromisso torna-se real quando se concretiza o objetivo principal da educação, que é a concretização da apropriação do conhecimento pelo aluno. A escola constitui-se, ainda, de princípios burgueses que conformam um pensamento burguês, o que a distancia das necessidades da população que busca a escola como único espaço para aquisição do conhecimento. Se a escola não atende a esse objetivo nega sua função essencial. Neste sentido Boneti apresenta algumas reflexões: “O pensamento tipicamente burguês, construído historicamente e concomitantemente ao aparecimento das bases ideológicas do capitalismo, e que coincide com o que se entende como pensamento científico hoje”. (BONETI apud FERREIRA, 2006 a). 16 Sabe-se que nas relações sociais o ser humano produz o conhecimento de forma coletiva. Entretanto, o acesso a este conhecimento não é promovido a todos. A escola brasileira, assim como as demais escolas dos países desenvolvidos, produz e reproduz as desigualdades existentes no seio da sociedade. Neste sentido, a escola que tem o compromisso e a responsabilidade de formar para a cidadania não consegue cumprir o seu compromisso porque não consegue transmitir e propiciar a aquisição do saber elaborado, isto é, trabalhar com os fundamentos teórico-metodológicos do conhecimento comprometido com a emancipação humana. Para compreender a formação das desigualdades acima mencionadas fazse necessário: analisar historicamente o modo de produção das relações na sociedade contemporânea, que se constitui ainda sob a égide do capitalismo, analisar as políticas públicas e relacionar às características do capitalismo, às implicações no mundo do trabalho e às suas repercussões nas propostas educacionais. Nesta direção, torna-se importante investigar as contradições da sociedade contemporânea, que têm como característica um grande avanço científico e tecnológico e produção de conhecimento, e, no entanto, contraditoriamente ao que se poderia esperar como qualidade de vida para todos, não oferece condições para uma real apropriação desses conhecimentos. É a contradição inerente ao modo de produção capitalista que é exclusivo e excludente. Prova disto é o número elevado de crianças fora da escola, a expressiva quantidade de defasagem idade-série, e o aumento do número de analfabetos funcionais. Não basta estar na escola para garantir o acesso a este conhecimento, é preciso desenvolver uma gestão pautada em princípios democráticos. Para tanto, as políticas públicas também necessitam ser elaboradas de forma que o conhecimento 17 seja apropriado pelos alunos da escola pública a partir do princípio da democratização do ensino para todos. Com este intuito, pretende-se estudar a relação, a intencionalidade e a pertinência das políticas públicas com as políticas de formação continuada no concreto real onde elas se desenvolvem, a fim de se verificar se estão subsidiando os profissionais da educação para estabelecerem com os educandos uma relação de significação4 com o conhecimento. Na mesma direção, objetiva-se compreender o compromisso do Estado em relação às políticas públicas e às formas de organizações dos planejamentos educacionais. Pode-se analisar a organização do planejamento como influência no interior das políticas públicas e como tem sido incorporado pelos documentos oficiais. E, neste sentido, faz-se necessário compreender a relação da formação continuada dos profissionais da educação com a gestão pública na estrutura da sociedade contemporânea. Faz-se necessário, ainda, compreender o compromisso e a responsabilidade do Estado, e qual a articulação que existe entre a sociedade civil e a política. Acredita-se que toda educação implica pensar em políticas públicas, no sentido de que toda sociedade se constitui em relações de poder que se constroem em bases de classes sociais antagônicas. Neste contexto, a educação é planejada no interior de um projeto de sociedade, ou seja, a sociedade planeja por meio de políticas públicas o tipo de sociedade e de homem que deseja formar. Essas são algumas reflexões que apontam a necessidade de examinar os nexos entre a gestão, as políticas e a formação continuada dos profissionais da 4 O termo “significação” é emprestado a Leontiev (1978) que explicita a significação como a generalização da realidade que é cristalizada e fixada num vector sensível, ordinariamente a palavra ou a locução. 18 educação. E também verificar quais as políticas públicas que realmente possibilitam e norteiam a formação humana. Para isso recorre-se a Ferreira (2003, p. 27), quando discorre sobre o compromisso do educador, que não se restringe a exercer um trabalho de reprodução da sociedade, mas a atuar para a transformação e reconhecer que sua função é conscientizadora, contribuindo, desta forma, para a transformação da sociedade, realizando o ato de emancipação humana. A economia está sempre forçando a política, e esta relação embasa muitas vezes as políticas públicas, embora na perspectiva neoliberal esta relação não seja admitida. Urge pensar gestão – economia – políticas públicas e formação continuada dos profissionais da educação e reconhecer o amálgama que os constitui. Nesta direção, alguns questionamentos tornam-se pertinentes, como a relação da economia com as políticas públicas de formação continuada. No âmbito desta questão, pretende-se investigar a construção histórica da formação continuada no Brasil, no período de 1990 a 2006, e a trajetória de aperfeiçoamento desta formação. Quais as políticas de formação e qual a essência das tomadas de decisões com relação à formação continuada? Estabeleceu-se este período porque os anos 90 de acordo com Freitas, foi denominado a “Década da Educação” e representou o aprofundamento das políticas neoliberais em decorrência aos problemas apresentados pela crise do desenvolvimento do capitalismo a partir dos anos 70. E a educação e a formação de professores recebem, nesse período, a importância estratégica para a realização de reformas educativas. (FREITAS, 1999). Por isto é fundamental investigar como as políticas públicas de formação continuada estão organizadas, e em qual direção caminham: objetivando formar um profissional com intelectualismo e rigidez do saber enciclopédico, constituindo-se como indivíduo justaposto na sociedade, ou como intelectual consciente, que 19 introduz o aluno num processo de conhecimento dinâmico reconhecendo-se como sujeito no processo educacional? Faz-se necessário nesta pesquisa problematizar como se definem as políticas públicas de formação continuada no Brasil. Neste sentido, estabeleceu-se como objetivo geral: Analisar as políticas públicas no Brasil no que concerne à formação continuada dos profissionais da educação no período de 1990 a 2006. Para atingir este intento, faz-se necessário: a) Compreender a problemática do homem na sociedade moderna; b) Analisar a Práxis humana; c) Investigar a formação continuada; d) Analisar a formação continuada comprometida com a omnilateralidade; e) Compreender, através da leitura e experiência de intelectuais renomados a formação continuada. Para proceder ao estudo, elegeu-se como categorias de análise: Formação, Políticas Públicas, Gestão, Cidadania e Hegemonia. Nesse trabalho, essas categorias são compreendidas como: a) Formação: compreende-se esta categoria desenvolvida na gestão educacional. (...) Nossa prática de gestão, comprometida com a formação de homens e mulheres brasileiros fortes e capazes de dirigir seus destinos, os da nação e os do mundo, tem que possuir a força do conhecimento – emancipação que possibilita o equilíbrio da afetividade nas relações, a competência em todas as atividades e a riqueza firme do caráter que norteia nossas ações. (FERREIRA, 2006 c, p. 113). b) Políticas Públicas: A política baseia-se na pluralidade dos homens. A política trata da convivência entre diferentes (ARENDT, 2004, p. 21); c) Gestão: A gestão da educação ao concretizar as direções traçadas, estuda, examina as condições e coloca em prática os objetivos das políticas públicas na complexa “trama” das relações sociais mundiais”. (FERREIRA, 2006b); 20 d) Cidadania: “é o próprio direito à vida no sentido pleno”. (FERREIRA, 2003, p. 27); Hegemonia: toda relação de “hegemonia” é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais (GRAMSCI, 1995, p. 36). Desta forma, organizou-se o trabalho como segue: O primeiro capítulo intenta, compreender a problemática do homem na sociedade contemporânea. A análise que se busca empreender sobre esta relação parte do reconhecimento de que cada sociedade educa o homem de acordo com determinados objetivos. Para desenvolver este capítulo, trabalha -se com o referencial teórico compreendido pelos seguintes autores: Antonio Gramsci (1995), Karl Marx (2004), Bogdan Suchodolski (1977), Mario Manacorda (1990) e Naura Ferreira (2004 a). O segundo capítulo, objetiva analisar a Práxis humana para compreender como o ser humano, na sua condição histórica interpreta a realidade e age sobre ela. Para desenvolver esse capítulo, trabalha-se com os seguintes autores: Karel Kosik (2002), Pavel Kopnin (1978), Adolfo Vasquez (1978), Carlos Cury (1992), François Chatelet (1992). O terceiro capítulo, é dedicado à análise documental e bibliográfica sobre as políticas públicas, a formação continuada e as concepções que norteiam a formação continuada no Brasil. No quarto capítulo, pretende-se também, analisar a organização e o desenvolvimento das políticas públicas de formação continuada no Brasil e a sua contribuição para a formação humana, apoiando-se em autores que têm contribuído para a reflexão sobre o tema escolhido para esta pesquisa. 21 Para compreender e fundamentar as categorias dialéticas, recorre-se a Karel Kosik (2002), Álvaro Pinto (1979) e Carlos Cury (1992), que têm contribuído no sentido de enfatizar a importância da compreensão dessas categorias na perspectiva crítica da educação. Para desenvolver a formação continuada serão trabalhados os referenciais da autora Naura Syria Carapeto Ferreira (2004), que afirma: A formação continuada é uma realidade no panorama educacional brasileiro e mundial, não só como uma exigência que se faz devido aos avanços da ciência e da tecnologia que se processaram nas últimas décadas, mas como uma nova categoria que passou a existir “no mercado” da formação continuada e que, por isso, necessita ser repensada cotidianamente no sentido de melhor atender a legítima e digna formação humana (FERREIRA, 2003, p. 19-20). Inicialmente, a partir do suporte teórico desses autores, acredita-se que será possível historicizar as políticas públicas, aplicando a reflexão histórica, procedendo à análise dos determinantes presentes na formação continuada, assim como as continuidades e rupturas deste processo. Destacam-se os seguintes autores que fundamentarão esta investigação: Karl Marx, Antonio Gramsci, Bogdan Suchodolski, Naura Ferreira, Anita Scheleneser, entre alguns outros intelectuais que se debruçaram sobre esse tema ou que tem reflexões pertinentes à captação da problemática. A metodologia utilizada decorre da concepção dialética da história e das metodologias decorrentes que contemplem o movimento ininterrupto entre o pólo teórico ao pólo prático, com o intuito da apreensão do real concreto para o concreto de pensamento. Examinar-se-á o objeto de estudo, a formação continuada dos profissionais da educação na atualidade, e os fenômenos que a compõem, procurando compreendê-los na sua totalidade concreta. 22 Para possibilitar a compreensão das políticas públicas na formação continuada e sua relação com a consciência crítica, faz-se necessário um aprofundamento teórico na concepção dialética que possibilite a apreensão do objeto de estudo. Será realizada a análise bibliográfica e documental. Esta investigação também ocorrerá por meio de entrevistas com intelectuais que têm como tema de suas pesquisas o objeto de estudo do presente trabalho: Prof. Dr Newton Duarte, Prof. Dr. Marcelo Soares, Prof. Dr.Vitor Paro, Prof. Dr. Erasto Mendonça, Prof. Dr. Jacques Terrien, Prof .Dr.José Augusto Pacheco, Prof. Dra. Iria Brzezinski. Cabe ressaltar que as entrevistas foram organizadas de forma semiestruturada por que essa valoriza a presença do investigador e ao mesmo tempo permite ao entrevistado ter mais alternativas para expor sua compreensão sobre o tema que esta sendo investigado. Triviños contribui para essa análise ao afirmar que a entrevista semiestruturada tem como ponto de partida alguns questionamentos básicos decorrentes de teorias e hipóteses que interessam ao pesquisador e também oferecem ao informante uma maior oportunidade de expor o seu pensamento e suas experiências com relação ao objeto de estudo. Destaca, ainda, que a entrevista semi estruturada também é resultado das informações que o investigador já recolheu sobre o fenômeno social que está investigando. (TRIVIÑOS, 1987). A partir das idéias expostas, pretende-se entender a dinâmica da temática investigada e de que forma os intelectuais que se dedicam a esse tema têm encaminhado suas pesquisas e quais as contribuições que poderão acrescentar ao presente trabalho. Com esta introdução, passa-se a desenvolver a concepção de homem e de sociedade que dá suporte a esta dissertação. 23 2 COMPREENDENDO A PROBLEMÁTICA DO HOMEM NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Quando a atividade do homem se apresenta como a humanização da natureza, como o futuro da natureza para o homem, este ao trabalhar de modo voluntário, universal e consciente, como ser genérico ou individuo social, e ao fazer de toda a natureza o seu corpo inorgânico, liberta-se da sujeição à causalidade, à naturalidade, à limitação animal, cria uma totalidade de forças produtivas e emprega-as para se desenvolver omnilateralmente. (MANACORDA, 1975, p. 71) Nos tempos hodiernos, refletir sobre a educação exige analisar a gênese histórica, as determinações e as contradições que contribuíram e contribuem para a formação humana. Por este motivo, vale a epígrafe de Manacorda que aponta para a premência do homem libertar-se das condições que o limitam ao estado primitivo, apontando para a necessidade de todo ser humano desenvolver-se enquanto ser social, agindo sobre a natureza de forma inteligente e intencional, superando o estado alienado de jugo ao meio que a sociedade alienada lhe impõe. Ressalta, ainda, a importância de realizar um trabalho educativo que permita ao homem desenvolver-se em todas as dimensões. Para explicar a importância do desenvolvimento do homem em todas as suas dimensões, Manacorda (1975, p. 106-107) trabalha com o conceito marxiano de omnilateralidade compreendida como a possibilidade histórica do ser humano de realizar-se em todas as dimensões numa totalidade de capacidades e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de possibilidades de consumo e gozo, em que se deve considerar, sobretudo o usufruir os bens espirituais, além dos materiais. Esse conceito possui em sua gênese a compreensão impressa por seu criador - Karl Marx - que assim o explicita: “O homem se apropria da sua essência omnilateral de uma maneira omnilateral, portanto como homem total.“ (MARX, 2004 a, p. 108). 24 Para o homem realizar-se em todas as dimensões é necessário conhecer a realidade por meio de ações conscientes e críticas, isto é, com capacidade de análise do conjunto dos fatos articulados que constituem a realidade. Isto significa que é necessário desenvolver-se em todas as direções através da apropriação do meio, ou, em outras palavras, da apropriação da natureza. Condições e possibilidades estas das quais, o trabalhador tem estado excluído em conseqüência do estágio imperialista em que se encontra o capitalismo, gerando uma divisão técnica do trabalho, que extrapola todo e qualquer controle humano sobre qualidade de vida e de condições de trabalho. Na acepção marxiana, o trabalho é a mediação entre o homem e a natureza e dessa interação deriva todo o processo de formação humana. Neste sentido, considera como mediação histórica o trabalho humano na formação do ser social. (MARX, 2004a). O ser humano com a crescente exploração da natureza amplia os conhecimentos culturais e os bens produzidos. Com o aumento da produção do conhecimento, inicia-se uma especialização aprofundada na produção e apropriação da cultura, simultaneamente à divisão social do trabalho. Esse processo de distribuição de cultura está associado ao inicio das desigualdades na apropriação do conhecimento. Neste movimento, os bens culturais começam a sofrer uma divisão, e neste momento, a cultura passa a não ser mais um bem igualitário, ou seja, o conhecimento, a técnica de produção, os instrumentos ficam associados ao ato de produzir e contraditoriamente não serão consumidos por aqueles que o produzem. Estes bens serão distribuídos a outro grupo que detém a propriedade da cultura, enriquecendo-se e acumulando cultura. Nesta “forma” agudizada de organização da sociedade, há um fortalecimento e intensificação das desigualdades e injustiças sociais. 25 Nesta mesma direção, Saviani explicita que nas comunidades primitivas a existência humana era produzida coletivamente e o processo de apropriação da natureza também ocorria coletivamente. A partir do momento que começou a existir a apropriação privada da terra gerou-se a propriedade privada, de forma oposta à propriedade coletiva até então vigente. A partir da propriedade privada origina-se a sociedade de classes, com uma parte da sociedade reconhecendo-se com o direito de apropriar-se do que a outra produz. Com esta nova configuração da sociedade passaram a existir por um lado a classe dos proprietários de terra e, de outro, a classe dos não proprietários, o que se estende até os tempos hodiernos. (SAVIANI, 2005). Problematizando a relação entre a divisão de classes e os interesses antagônicos existentes nesta configuração, Marx desenvolveu uma análise sobre a divisão do trabalho, afirmando que os vários estágios de desenvolvimento da divisão do trabalho revelam diferentes formas de propriedade. Isto é, de acordo com cada estágio da divisão de trabalho existe uma determinação nas relações entre os indivíduos no que diz respeito a matéria, os instrumentos e os produtos. (MARX, 1980). Nesse sentido, necessário se faz analisar a sociedade, como é historicamente determinada e quais as condições históricas que a geram numa perspectiva de movimento e de desenvolvimento. Com essa compreensão, Marx afirma ainda: ”São sempre indivíduos determinados e com uma atividade produtiva que se desenrola de um determinado modo, que entram em relações sociais e políticas determinadas”. (MARX, 1980, p. 24). Marx afirma que é necessário evitar a compreensão da sociedade como uma abstração diante do homem. Nesse sentido assevera: 26 O individuo é o ser social. Sua manifestação de vida-mesmo que ela também não apareça na forma imediata de uma manifestação comunitária de vida, -realizada simultaneamente com outros - é, por isso, uma externação e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são diversas, por mais que também – e isto necessariamente – o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais universal da vida genérica, ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou universal. (MARX, 2004a, p. 107) Nesta compreensão, o homem produz-se constantemente a si e ao outro, na dinâmica das múltiplas determinações existentes, e nesta dinâmica o homem tornase social e simultaneamente produz a sociedade. Diante destas constatações, aquilo que o homem produz, idéias, representação está ligado a atividade material, ou seja, a vida real e esta vida encontra-se condicionada pelas forças produtivas e pelo modo de relações que os homens estabelecem entre si. Como também assinala Pinto, nessa sociedade persistem lado a lado classes divergentes e antagônicas. E nessa construção histórica, a cultura passa também a ser elemento contraditório, e as classes trabalhadoras ficam privadas do direito de reconhecer como expressão da cultura as idéias que elaboram (PINTO, 1979). Nesta dinâmica, a forma intelectual compreende-se como culta, e apresentase “naturalmente” com o privilégio da apropriação. Por outro lado, o trabalho manual, pelo qual é responsável a imensa maioria dos homens, reserva-se a um plano inferior, sobretudo em dignidade. Assim, a classe trabalhadora tem a “obrigação” de produzir para a outra classe ter o direito de consumir. Nesse contexto, a classe trabalhadora não reconhece o seu direito de criar idéias com a finalidade para as ações que irão empreender. Portanto, na sociedade com classes distintas, e com interesses opostos, os dois aspectos da cultura, a produção e o consumo não se constituem em meios para a produção da emancipação de todos os homens. 27 Problematizando as relações entre os vários estádios de desenvolvimento da divisão do trabalho, e as determinações nas relações entre os indivíduos, referentes aos instrumentos e aos produtos do trabalho, Marx explica que os homens são condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhe corresponde (MARX, 1980). Compreendese, então, que o modo como ocorrem as relações de produção determinam as relações entre os homens implicando em permanências e rupturas no seu desenvolvimento histórico. 2.1 COMPREENDENDO A CONCEPÇÃO DE SOCIEDADE Compreender a sociedade e a concepção que a constitui num determinado momento histórico é fundamental para se entender a formação que se necessita dar, a formação continuada que se pretende, e a qualificação necessária para o exercício competente da cidadania. Marx enfatiza que o modo de produção da vida material condiciona, em geral, o processo social, político e espiritual da vida. Neste sentido, Marx empenhase em construir uma concepção com base na práxis revolucionária, rejeitando a supremacia do idealismo à qual se dispõe a partir do homem, a transformar a realidade. Neste sentido, Marx contrapõe à filosofia, que parte daquilo que o homem pensa e propõe uma filosofia que parte dos homens de sua vida real. Portanto, para compreender o homem necessário se faz compreender a organização da sociedade em que encontra -se inserido. (MARX, 1980). Analisa a sociedade na sua estrutura econômica, afirmando que a riqueza da sociedade, em que predomina o modo de produção capitalista, aparece como um grande acúmulo de mercadorias. Nesta direção, trabalha a relação do operário no 28 mercado de trabalho. “O operário vai ao mercado porque é forçado a vender não uma mercadoria, mas sim a sua capacidade de trabalho como mercadoria.“(MARX, 2004c, p. 23). O trabalho assalariado é reconhecido como condição necessária da formação do capital. Portanto, na sociedade organizada, na qual os meios de produção e as condições objetivas do trabalho se apresentam para o operário como algo que pertence a outrem, impõe-se ao operário entregar a sua força de trabalho, como condição de sobrevivência. E, nesta relação, o trabalhador produz uma utilidade um valor de uso, não produz para si, produz mais valia. Neste contexto, necessário se faz, desenvolver a compreensão da mais valia a partir do conceito elaborado por Marx. Existe no mercado, uma mercadoria que tem um valor especial, a força de trabalho, entendida como valor de troca, e está a serviço da reprodução. Ou seja, o proprietário da força de trabalho recebe a quantidade igual a que investiu previamente, acrescido de um excedente que provém do resultado do trabalho gerido por ele, este excedente é a mais valia. Nesta direção compreende-se capital como a propriedade que garante ao capitalista explorar o trabalho alheio (MARX, 2004c). Na dinâmica desta sociedade, o capitalista explora o trabalho alheio, de modo que a relação é inversamente proporcional: se por um lado o capital cresce, de outro lado ocorre uma relação social de espoliação. Neste contexto, a existência do ser humano está condicionada à existência do Capital, e este detém as formas de organização da vida do ser humano. Nesta compreensão, o homem é concebido como algo que rende lucro. (MARX, 2004c). Marx, expõe ainda, que a produção de mais valia, e, portanto de capital e produção de mercadorias estão presentes no processo produtivo sob a aparência de mercadorias e esta sob a forma autônoma do dinheiro. Isto significa que a produção 29 de mais valia, na sua essência, representa a apropriação de trabalho não pago, é o desfrute do trabalho de outrem, domínio das coisas sobre o homem. É importante levantar algumas questões relativas à rica análise que Marx faz sobre o modo de produção capitalista; “O processo de produção capitalista é a unidade de dois processos: o de trabalho e o de valorização”. (MARX, 2004, p. 61). Isto é, de produção de mais valia. Em sua análise, Marx afirma que a transformação do dinheiro em capital passa pelo processo de transformar o dinheiro em mercadorias, e essas se constituem fatores do processo de trabalho. (MARX, 2004c). Marx analisa, ainda, que a transformação do dinheiro em capital é decorrente de dois processos independentes, sendo de esferas diferentes, e sua existência ocorre separada um do outro. Sobre o primeiro processo, afirma que pertence à esfera da circulação de mercadorias, e conseqüentemente desenvolve-se no mercado. Quanto ao segundo processo, define como o consumo de capacidade de trabalho adquirida, ou processo de produção propriamente dito. Quanto ao primeiro processo, o capitalista e operário contrapõem-se unicamente como possuidor de dinheiro e possuidor de mercadoria. Nesta relação ocorre uma troca de equivalentes. No segundo processo, o operário é o componente vivo do capital e a aqui não existe a categoria de troca, porque o capitalista já se apropriou de todos os processos de produção, materiais e pessoais. Ressalta, ainda que, estes processos ocorrem de maneira autônoma, mas condicionam-se mutuamente. (MARX, 2004 c). Aprofundando essas relações, Marx trabalha com outro conceito, a subsunção formal do trabalho no capital, que nos serve de fundamento para esclarecer o objetivo dessa dissertação, que é a formação continuada. Não uma formação continuada para produzir a mais valia, mas uma formação continuada 30 alicerçada em princípios humanos de solidariedade e da ética humana da igualdade de possibilidades e respeito para todos. Assim, afirma o filósofo: O processo de trabalho subsume-se no capital (é o processo do próprio capital), e o capitalista entra nele como dirigente como guia; para este é ao mesmo tempo, de maneira direta, um processo de exploração do trabalho alheio. (MARX, 2004c, p. 87). É, portanto, uma forma de qualquer processo capitalista de produção, revelando que o processo de produção converte-se no próprio processo do capital. Neste sentido, a relação coercitiva existente com o objetivo de extrair mais sobre trabalho, não tem como base as relações sociais de dominação e dependência, mas resulta das diversas funções econômicas. Neste sentido, o operário produz mais valia na medida em que produz algo que não é seu, e está espoliado de toda produção material. Nesta relação de troca, onde o operário vende sua força de trabalho revelam-se as relações, que determinam as relações entre classes, sobretudo as antagonistas. No conflito de classes antagônicas, uma monopoliza a totalidade da riqueza produzida na sociedade e a outra classe encontra-se desprovida da riqueza material. (MARX, 2004a). Explica, ainda, o filósofo alemão, que o trabalhador produz uma utilidade, um valor de uso, e não produz para si, produz para outrem, tornando-se um alienado do próprio trabalho. Neste contexto, trabalha um conceito importante: a alienação. Marx afirma que: ”O sujeito da alienação não é autoconsciência como parecera a Hegel, mas o homem, o homem real ou existente. E são a propriedade privada e os meios de produção em que o homem se acha envolto”. (MARX, 2004c, p. 9). Neste sentido, as relações sociais ficam submetidas a ações unilaterais, e o homem reduz-se a uma capacidade de trabalho, ou, seja, submetido ao próprio homem, servindo à propriedade privada, transformando-o em meio, instrumento de 31 algo que o explora, domina e o determina sem considerar suas necessidades pessoais. Nesta compreensão, “o homem nada mais é do que trabalhador e como trabalhador, suas propriedades humanas o são apenas na medida em que o são para o capital que lhe é estranho”. (MARX, 2004a, p. 91). Assim entendido, os bens de produção utilizam o operário, tornado-o um bem de produção. Apresenta-se nesta compreensão a gênese do problema social das relações entre os homens. A partir da organização da sociedade, das determinações da estrutura social, o ser humano age sobre a natureza de forma contrária a sua ação inicial do processo de transformação da natureza, ou seja, sua ação é contrária a produção de cultura por necessidade existencial. Passa, então, a agir alienado, sem reconhecerse como elemento também consumidor de cultura. Nessa sociedade, reconhece-se como culto apenas aquele que se apropria da cultura produzida por outrem. Assim, rompe -se com o objetivo, a que se propõe o homem ao transformar a natureza, que era o de agir sobre a realidade, compreendendo esta atuação em prol de cada ser humano, para que ele pudesse tornar-se cada vez mais humanizado. Nesta direção Marx ressalta: Já não é o homo faber da epopéia literária burguesa que subjuga Natureza, é o monstro animado do capital que se conserva e cresce, como se tivesse o amor no corpo, com a única condição de submeter espremer até a última gota de linfa a criatura amada. (MARX, 2004c, p. 21). O homem se submete aos meios de trabalho e a jornadas excessivas para produzir mais valia, e nesta condição o trabalho passa a exigir do trabalhador, de forma que este nega sua essência e passa a ser uma ferramenta do trabalho, como os demais meios de produção. Neste processo sem medida as coisas adquirem um poder sobre os homens que passam a vê-las como fetiches dotadas de almas e vontades próprias, às quais 32 se submetem esquecendo-se de suas própria condição humana, de sua essência. Desenvolve uma personificação das coisas e coisificação das pessoas que se subordinam às mercadorias e ao mundo material. A esse respeito, Marx destaca que ocorre uma inversão do sujeito no objeto e vice versa, nesta personificação das coisas e coisificações das pessoas está o sentido da alienação do trabalho e, portanto do ser humano. ”Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta, a desvalorização do mundo do homem”. (MARX, 2004a, p. 80). Na sociedade capitalista dividida em classes, os homens, tanto o capitalista como o operário, representam a realidade sobre o que se pretendia que naturalmente agisse por meio de fetiches, com alma e vontades próprias. Assim, os agentes de produção passam a ser funcionários autônomos do capital. Ocorre uma inversão do sujeito no objeto e vice-versa. E nesta personificação das coisas, está o núcleo da alienação do trabalho. (MARX, 2004c). Pelo exposto, pode-se inferir que a compreensão da realidade não se desvincula das relações econômicas. Assim sendo, cabe destacar o que é o mundo da realidade: O mundo da realidade é o mundo da realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade devém. (KOSIK, 2002, p. 23). Nesta compreensão, o mundo da realidade é um processo no qual o homem opera a sua humanização. Entretanto, para atingir esta humanização é necessário romper com o aspecto fetichizado de um mundo de objetos fixos, e buscar a explicação do mundo de forma critica. Para chegar à compreensão crítica desta realidade, é necessário distinguir entre a representação e o conceito da coisa. Para tanto, é essencial que o homem 33 tenha uma atitude em face da realidade como sujeito que examina, age objetiva e praticamente, constituindo-se como sujeito histórico. Para que esta ação consciente se efetive, é necessário entender a aparência superficial da realidade que transita no cotidiano do ser humano. E, neste sentido Kosik alerta: O complexo dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera comum da vida humana, que, com sua regularidade imediatismo e evidência, penetram na consciência dos indivíduos agentes, assumindo um aspecto independente e natural, constitui o mundo da pseudoconcreticidade. (KOSIK, 2002, p. 15). Este mundo da pseudoconcreticidade tem como elemento central o duplo sentido, o fenômeno apresenta a sua essência e ao mesmo tempo a oculta. O fenômeno aponta para algo que não é ele mesmo existe por meio de seu contrário. Neste sentido, a essência não é revelada por si, é expressa por meio daquilo que não é. É importante ressaltar que o fenômeno não é radicalmente diferente da sua essência, e por sua vez a essência não é algo que esteja independente do fenômeno. (KOSIK, 2002). Pensar a totalidade, portanto, implica em superar a pseudoconcreticidade, ou seja, romper com o fetichismo e a aparente objetividade do fenômeno, assim como buscar o conhecimento do caráter histórico do fenômeno, como e onde ele se manifesta. Portanto, um dos objetivos do conhecimento é destruir esta pseudoconcreticidade. Por outro lado, quando o conhecimento não conduz ao desvelamento desta configuração, o ser humano se torna prisioneiro de ações fetichistas. Neste caso, o homem deixa de ser humano e passa a ser fetichizado, isto é, o resultado de suas ações passa a ser tomado isoladamente, sem considerar a categoria da totalidade, e a realidade passa a ser entendida a partir do imediato. O oposto desta compreensão é o desejo de querer conhecer a realidade além de 34 esquemas abstratos desta realidade, e não aceitar a aparente independência do mundo dos contatos imediatos do cotidiano. (KOSIK, 2002). Ressalta-se a importância da análise das condições e possibilidades que a sociedade predominantemente capitalista apresenta no decurso da história. Nesta direção, Ferreira afirma que ”teórica e genericamente, o que caracteriza uma sociedade é o modo como produz os meios materiais de existência”. (FERREIRA, 2004, p. 23). Esta definição compreende a relação do homem com a natureza e as relações dos homens entre si, resultando na produção de sua existência e, conseqüentemente, na produção da cultura humana. Neste sentido, Pinto explicita a relação da cultura com a criação do homem: A criação da cultura e a criação do homem são na verdade duas faces de um só e mesmo processo, que passa de principalmente orgânico na primeira fase a principalmente social na segunda, sem, contudo em qualquer momento deixarem de estar presentes os dois aspectos e de se condicionarem reciprocamente. (PINTO, 1979, p. 122). Ao buscar a superação às determinações da natureza e aos limites de seu aspecto orgânico, o homem torna-se prioritariamente social. Entretanto, não nega por exclusão este seu ser biológico, mas sim por superação, buscando desenvolverse em todas as dimensões. Assim sendo, o existir do homem constitui-se na mediação entre os homens entre si e entre a realidade construída coletivamente pelo conjunto dos homens em uma determinada sociedade. Cabe destacar que esta mediação precisa ocorrer de uma forma crítica para se compreender a realidade em que o ser humano está inserido. Desenvolver uma análise crítica da realidade não é algo tão simples, mas exige um desenvolvimento que permite poder exercer esta capacidade, assim como nos alerta Pinto. 35 O que torna a qualidade distintiva do ser humano é a sua função de mediação nas relações entre o homem e o mundo, que possibilitam a existência, dão-lhes as características que possui, e representa aquilo que falta na construção animal, por mais complexa e admirável que pareça. (PINTO, 1979, p. 136). Nesta dinâmica de produção de sua vida no espaço coletivo, o homem caracteriza-se por ter ações criadoras que só ao homem é possível realizar. Ao propor uma ação planeja, produz idéias, isto é, antecipa e tem a possibilidade de prever, avaliar suas ações e tomar uma direção para atingir seus objetivos. Cabe ressaltar que este modo de compreensão da dinâmica da vida está fundamentado na lógica dialética, onde as idéias constituem com a ação uma relação de reciprocidade. “A dialética é o pensamento crítico que se propõe a compreender a coisa em si e sistematicamente se pergunta como é possível chegar a compreensão da realidade”. (KOSIK, 2002, p. 20). Portanto, nesta concepção as idéias não formam um plano à parte da ação, tampouco não é o pensamento que cria o fato. Ao contrário, os fenômenos estabelecem entre si relações intrínsecas e os homens procuram compreendê-las e produzem representações sobre estes fenômenos e ainda projetam novas ações a partir dessas representações. Contribuindo com essa idéia toma-se a Ferreira suas reflexões: A busca da realização da vida,como força motriz de cada um, constitui-se para a educação não só o ponto de partida, mas no pólo para o qual devem convergir toda a intencionalidade e a ação educativa, tomada de decisões para as mediações com o mundo em que vivemos tal como ele se apresenta. (FERREIRA, 2003, p. 18). Compreende-se, portanto, que o compromisso da educação está centrado na promoção da realização da vida humana. Nessa perspectiva, necessário se faz, trabalhar com a concepção de homem como produto das múltiplas determinações a que esta sujeito em sua existência, mas que por sua vez, dentro das condições históricas este homem pode compreender a essência da dinâmica da sociedade 36 existente e propor uma outra abordagem para superar as limitações que essa sociedade lhe apresenta, de forma que possa realizar-se na sua essência omnilateral. Destaca-se a ação do homem enquanto mediadora na produção de cultura. Pinto traz mais uma contribuição ao afirmar que: “A cultura é simultaneamente ação e idéia, enquanto ação significa a mediação entre duas idéias e enquanto idéia, a mediação entre duas ações”. (PINTO, 1979, p. 136). Neste sentido, a cultura possibilita a mediação histórica que determina a produção e apropriação do conhecimento. Neste aspecto, entende-se como primordial o compromisso da educação como elemento mediador nessa construção histórica do homem como ser social. 2.2 COMPREENDENDO O HOMEM: DO INDIVIDUALISMO À SOLIDARIEDADE, VIA CONCEPÇÃO DE OMNILATERALIDADE Constata-se que o mundo está “minado” e constituído pela expropriação do modo de produção capitalista. Neste avassalador e selvagem modo de produção e de organização da sociedade em que se vive, a vida humana não está sendo respeitada em todas as suas dimensões exatamente porque o capitalismo divide o mundo entre os possuidores e os despossuídos, que não têm acesso à possibilidade de desenvolver-se omnilateralmente. Neste contexto, as pessoas agem mecanicamente, “guiadas” pelo marketing que induz e pelo consumismo que origina, ambos mecanismos de extração da mais valia a serviço do lucro e do capital. Tal constatação conduz à afirmação de que a sociedade capitalista leva, literalmente, à estagnação da consciência coisificando o ser humano como os objetos que produz. Portanto, nesta sociedade é difícil desenvolver a consciência crítica, o pensar com 37 critérios. Faz-se necessário ressaltar que esses critérios ficam obscurecidos ou inexistentes num mundo regido pelo capital. Neste mundo, produzir, produzir, produzir é um princípio que direciona a vida humana. Diante desta realidade, como o homem é concebido na sociedade contemporânea? E no processo educacional, qual a concepção de homem que permeia as políticas públicas educacionais? Tem-se como base uma formação que atue com mecanicidade na vida cotidiana e que leve à estagnação da consciência, ou a uma formação que questione o cotidiano com consciência crítica? Esta análise se faz necessária, porque de acordo com a concepção de homem que se quer formar, busca-se imprimir esta concepção e um determinado rumo às políticas públicas, às políticas educacionais e, conseqüentemente, ao processo educativo. Faz-se necessário compreender esta relação porque permite conhecer a articulação da concepção de homem com o processo educativo e como se manifesta na organização social, exigindo uma determinada formação de homem para um determinado tipo de sociedade. Para compreender a situação humana frente às mudanças decorrentes do modo de produção capitalista que se vive na contemporaneidade, procura-se situar as condições de produção do homem enquanto ser histórico, analisando o compromisso da educação neste processo de formação humana. Na compreensão do homem como sujeito revela-se a importância da escola com o seu compromisso social, e a necessidade da aquisição dos instrumentos teórico-metodológicos que possibilitem formar as crianças para a cidadania, hominizando-as.5 5 Hominização – a realização biológica do ser em curso de hominização determina as possibilidades de criação cultural que lhes são dadas em tal fase, mas estas, ao se realizarem, contribuem para o desenvolvimento e aperfeiçoamento das qualidades orgânicas, até o momento em que impelem o animal a transformar o modo de existência, tornado-o um ser produtor, a princípio inconsciente e depois consciente de si mesmo. (PINTO, 1979, p. 122). 38 Acredita-se que a teoria reveste-se de sentido quando contribui para a interpretação da realidade enquanto o homem vai se constituindo como ser humano histórico, que conhece a realidade, analisa-a e cria condições de ir além do limite natural. E, para Marx: O homem não é apenas um ser natural, mas ser natural humano, isto é, ser existente para si mesmo, por isso, genérico, que enquanto tal, tem de atuar e confirmar-se tanto em seu ser quanto em seu saber. Conseqüentemente, nem os objetos humanos são os objetos naturais assim como estes se oferecem imediatamente, nem o sentido humano, tal como é imediata e objetivamente, é sensibilidade humana, objetividade humana. (MARX, 2004a, p. 128) Compreende-se que a verdadeira intencionalidade do filósofo alemão em explicitar que o homem pode superar o seu limite natural e a cada ação consciente confirma-se como ser humano, desde que tenha a possibilidade de uma educação emancipadora, comprometida com o seu desenvolvimento em todas as possibilidades e com todas as condições. Daí se depreende a importância da educação, da sua gestão e das políticas públicas que oferecem o norte e se constituem em atividade das classes sociais, de seus partidos e associações, em trabalho dos organismos de poder estatal e do governo, determinado pelos seus interesses e objetivos, em consonância com o regime econômico e social do país. (FERREIRA, 2006 b). Sabe-se que ao compreender e refletir sobre si mesmo e sobre suas ações no meio em que vive e atua, o ser humano confirma e amplia seu saber. Desta maneira, ao realizar as suas tarefas o indivíduo tem a possibilidade de desenvolverse de forma ampla, o que lhe permite avançar mediante sua interação com o meio natural e com o coletivo dos outros homens. Em Marx, portanto, o conceito de formação humana deriva da interação homem-natureza, ou seja, por meio do 39 trabalho ocorre a mediação entre o homem e a natureza. Com o trabalho o homem transforma a natureza e transforma-se a si mesmo. Esta concepção marxiana de homem, relacionando o com o modo de produção do trabalho, denuncia que a organização social numa sociedade capitalista retira do homem o produto do seu trabalho e ele não se reconhece neste produto, tornando-se estranho a si mesmo. Neste sentido, ocorre o que Marx denomina de estranhamento genérico do ser humano sob o pressuposto do trabalho subordinado ao capital. Para compreender este estranhamento genérico é preciso entender o conceito de homem genérico em Marx: O homem é um ser genérico, não somente quando prática e teoricamente faz do gênero tanto do seu próprio quando do restante das coisas, o seu objeto, mas também – e isto é somente uma outra expressão da mesma coisa, quando se relaciona consigo mesmo como gênero vivo, presente, quando se relaciona consigo mesmo como um ser universal e por isso livre. (MARX, 2004 a, p. 83-84) Este ser genérico a que Marx se refere significa que o homem vive da natureza inorgânica6, e por viver a plenitude de homem como ser genérico é necessário romper com a produção da vida apenas como meio de satisfazer as necessidades de manutenção da vida. Ao realizar suas atividades vitais e agir conscientemente e com liberdade, distingue sua atividade vital da atividade do animal. Portanto, é possível para o homem realizar-se enquanto ser omnilateral, desde que lhe sejam fornecidas as condições e as possibilidades, pois espoliado e na condição alienante não se constituirá em ser humano com todas as condições e possibilidades de participação e construção da sociedade em que vive. Neste sentido, é preciso que sejam superadas as condições de trabalho estranhado e lhe seja possibilitada a realização de um trabalho em que atue 6 Natureza inorgânica – a natureza é o corpo inorgânico do homem, a saber, a natureza enquanto ela mesma não é o corpo humano. O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. (MARX, 2004, p. 84). 40 conscientemente, e em sua ação possa confirmar-se como homem no decorrer de sua existência social. Partindo dessas considerações, acredita-se ser necessário buscar a superação da compreensão de trabalho no sentido de alienação como resultado das condições históricas determinadas, e assim entendê-lo como elemento de emancipação humana. Neste sentido, apropria-se da questão elaborada por Manacorda: “Como pode o trabalho libertar o homem se é razão de sua escravidão”? A resposta apresentada por Manacorda é: A real participação do trabalho como processo educativo na transformação social será tanto mais eficaz na medida em que não seja uma mera habilidade didática, mas uma inserção real no processo social do trabalho, união entre estruturas educativas e estruturas produtivas. (MANACORDA, 1975, p. 74). A partir dessas considerações, depreende-se que no movimento da realidade, caracterizado por contradições, o trabalho pode configurar-se tanto como elemento alienador como elemento de superação das limitações humanas à natureza, e assim promover no homem capacidades de desenvolver um trabalho que atenda além das exigências externas, promova a realização do homem como ser humano no interior das relações sociais. A concepção marxiana de homem é desenvolvida por vários outros autores, que se engajaram na compreensão do ser humano na perspectiva histórico social. Destaca-se, entre eles, Suchodolski, quando afirma que há diversas respostas para a pergunta sobre o que é o homem: O homem é uma criatura social, racional que cria a técnica e as ferramentas e que gosta de divertir-se, que produz e realiza, que cria a ciência e arte e todas estas diferentes definições compreende os diferentes aspectos da atividade humana nas diversas formas de vida humana. (SUCHODOLSLKI, 1977, p. 21) 41 Para este intelectual, há necessidade de se refletir sobre as condições históricas da produção humana enquanto atividade crítica e transformadora. Assim entendido o conceito desenvolvido por Suchodolslki enfatiza que esta concepção não se reduza a idéia abstrata e universal de homem. Suchodolski destaca, ainda, que os diferentes elementos da personalidade precisam organizar-se por meio de diversos fatores do mundo objetivo, ou seja, no processo da vida real dos homens. A análise que este autor busca empreender sustenta-se na afirmação de que o aspecto intelectual do ser humano se desenvolve não somente pela ciência, mas também a partir da atividade profissional e social, bem como da contribuição da arte. Nesta compreensão, é necessário proporcionar aos alunos experiências nos vários aspectos que possibilitem o desenvolvimento do ser humano integralmente, ou seja, os conteúdos desenvolvidos devem contemplar o ser humano em todas as suas dimensões, permitindo a formação para uma cidadania digna, com base numa ética de emancipação humana. É necessário contrapor-se ao que esta presente na sociedade dividida em classes, Marx alerta que: “o homem procura especular sobre como criar no outro uma nova carência, a fim de forçá-lo a um novo sacrifício, colocá-lo em nova sujeição e induzi-lo a um novo modo de fruição e, por isso, de ruína econômica“. (MARX, 2004 a, p. 139). Assim, o ser humano na sociedade capitalista encerra-se na sua força de trabalho, ficando, portanto, impedido de apropriar-se do conhecimento produzido coletivamente. A existência do ser humano é considerada como que exclusivamente na conversão de suas ações em mercadoria. O entendimento dessa cisão é trabalhada por Saviani, quando explicita que há muitas contradições na sociedade, destacando as contradições entre o homem e a sociedade, entre o homem e o trabalho e entre o homem e a cultura. Com este entendimento afirma; “O trabalho, que constitui a 42 atividade especificamente humana por meio da qual o homem produz a si mesmo, se converte, para o trabalhador, de afirmação da essência humana, em negação da sua humanidade”. (SAVIANI, 2005, p. 232). Faz-se necessário ressaltar, que a idéia fundamental na perspectiva marxista é a de que o desenvolvimento contínuo do homem ocorre através da criação do próprio mundo onde vive, ou seja, o mundo pessoal em interação com o ambiente e com os outros homens. No processo de exteriorização, ao tornar objetiva as suas ações o homem desenvolve-se, e, assim, seu aspecto intelectual se desenvolve, também, assim como sua realização pessoal. Para Marx ”O homem é o mundo do homem”, ou seja, o homem é como o mundo em que vive. E isto significa que o ser humano se realiza enquanto ser humano porque ele cria um mundo no qual objetiva a realidade e, conseqüentemente, se objetiva. Neste sentido, o homem é muito mais do que o seu aspecto interior, mas também é o mundo dos objetos com os quais convive, cria e se relaciona. Deste pensamento de Marx depreende-se que todo o conhecimento produzido pelo homem é também conhecimento do homem sobre si mesmo. Isto demonstra a exigência de articular o conceito de homem com o contexto histórico concreto em que ele está inserido. É importante ressaltar que a produção do homem não ocorre de forma tranqüila e harmoniosa. Suchodolski expõe ainda que no mundo humano há uma estreita vinculação entre o sujeito e o objeto. Esta relação está permeada por contradições, o que exige uma posição crítica, continuamente, sobre a realidade. O posicionamento crítico contribui para que o homem possa desenvolver-se ao propor alterações na realidade analisada, ou seja, transformar a realidade e transformar-se também. Nesta relação o homem produz história, produz cultura. 43 Desta maneira, na concepção marxista a cultura é compreendida no interior da realidade cotidiana, relacionada com o trabalho e com a atividade social dos indivíduos. Como elemento de formação humana, a cultura desenvolve-se quando está no interior da vida real. Desta maneira, os conteúdos dessa cultura são vivos e correspondem diretamente a algum aspecto da vida cotidiana dos indivíduos. Nessa compreensão, cultura é o produto da mediação da atividade humana. Ou seja, por necessidade de agir coletivamente, o ser humano, passando da etapa essencialmente biológica à social, produz conhecimentos e os mais variados aspectos culturais. (PINTO, 1979). No mundo atual existem muitas indagações a respeito do sentido da vida e de qual é o valor da existência humana. Estas questões fortalecem-se na medida em que a sociedade é fortemente marcada pelo individualismo, o que leva muitas vezes à manifestação de uma falta de sentido da existência. Assiste-se cada vez mais, por meio de guerras e conflitos mundiais, à destruição dos homens e das relações sociais que poderiam promover o ser humano. Ao contrário, inúmeras vezes assistese a desumanização, estando às vezes perto da barbárie. Além disso, valorizam-se muito os encontros virtuais em detrimento do diálogo, com o olhar direto no outro. Essas posições levam o homem a afastar-se do seu semelhante, esvaziando-se do conteúdo da própria história que ele produziu enquanto homem histórico. Diante dessas afirmações pode-se questionar: qual é a essência da educação? Existe a preocupação, ou, ainda, o compromisso em elaborar propostas pedagógicas com objetivo de emancipação humana? Acredita-se que a educação tem a responsabilidade de cumprir a exigência de promover ações que proporcionem ao aluno ser mais completo do que o é na atualidade. E, sobretudo por ser uma atividade mediadora, proporcionar reflexões que permitam ao homem ir além de uma vida pautada apenas na luta por sua sobrevivência? 44 Marx e Engels afirmam que a vida humana não pode reduzir-se ao nível de uma mera luta por sobrevivência, e tam pouco se restringir ao mundo espiritual. Pelo contrário, o homem deve viver, lutar por sua vida. Porém, o desejo de viver precisa estar ligado a uma aspiração de realizar-se cada vez mais num mundo real, compreendendo as determinações deste mundo e lutando para superá-las. Marx lutou contra as concepções de educação que exigiam a adaptação dos indivíduos às condições presentes na sua existência, principalmente as adaptações que tinham como base na justificativa dos valores eternos, desligados do tempo e das circunstâncias reais e sociais. Entre essas concepções encontra-se a concepção humanista tradicional, que é marcada pela visão essencialista do homem. Para abordar brevemente essas concepções recorre-se a Saviani. Na concepção humanista tradicional, o homem é entendido como constituído por uma essência imutável, e à educação resta apenas conformar-se à essência humana. Há também a concepção humanista moderna que diferentemente da tradicional, é marcada pela visão de homem centrada na existência, na atividade. Nesta concepção, a existência precede a essência. Analisando as duas percebe-se que na tradicional a ênfase está no adulto, enquanto que na humanista moderna a educação tem como elemento principal a criança como um ser em desenvolvimento. Estas concepções reduzem-se a idéia abstrata e prédeterminada de homem. (SAVIANI, apud, MENDES, 1983, p. 24-25). Marx contrapõe-se ao fortalecimento daquelas concepções por entender que seria possível superar a secular contradição entre o homem real e o homem verdadeiro, neste sentido Suchodolski a partir de Marx expressa: O ”homem verdadeiro” era, segundo a denominação de Marx, o homem cuja vida era conformada de acordo com a própria natureza humana, era decidir de acordo com as leis de sua própria criação e através da criação do seu próprio mundo; Marx qualificava de “homem real” o homem formado pelas circunstâncias imperantes, pelas exigências do sistema de classes, 45 pelo poder da propriedade e do dinheiro, pelo fanatismo do poder e pela coerção. (SUCHODOLSKI, 1975, p. 89). Romper esta dualidade de homem real e homem verdadeiro é um compromisso difícil no interior de uma sociedade de classes. Entende-se que este aporte teórico contribuirá para a sociedade se converter em uma verdadeira comunidade humana, sendo possível identificar a vida do indivíduo com a vida do homem verdadeiro e do cidadão. A compreensão da concepção de homem, mundo e sociedade que dá sustentação a um determinado tipo de sociedade é fundamental ponto de partida para se proceder às políticas públicas, importante em qualquer política de educação e de ensino. Faz-se necessário ter a consciência dessas concepções, e neste sentido compreende-se um dos compromissos da educação: trabalhar para a formação da consciência crítica. Ferreira assevera, a esse respeito: A “promoção humana” só poderá tornar-se realidade quando se assumir que o papel do educador, do intelectual, não se reduz a reproduzir, em sua obra e em seu trabalho, a sociedade de seu tempo. O principal objetivo, quer pelo conteúdo, quer pela forma, é exercer uma função transformadora de conscientização, que atue revolucionariamente sobre o ambiente social, pois tal como a transformação da natureza, a transformação da sociedade é um ato de libertação de emancipação humana. (FERREIRA, 2003, p. 27). A partir dessas considerações, é possível afirmar que é necessário pensar nessa sociedade atual qual a concepção de homem e de sociedade presente nas políticas públicas educacionais e quais os autores que fundamentam a opção teórica dos gestores educacionais. Prosseguindo, nessa mesma compreensão, considera-se necessário trabalhar também com a concepção de homem desenvolvida por Gramsci a partir de Marx, na qual explicita sua concepção de homem como ele é, a partir de suas condições concretas, como o fazia Marx, de quem foi discípulo fiel e avançou em todos os sentidos concretos da realidade em que vivia. Escrevendo sobre este tema, 46 Gramsci posicionou-se em relação a duas tendências teóricas na época na Itália: o catolicismo e o liberalismo. Cada sociedade educa o homem de acordo com determinados objetivos que fazem parte das políticas daquela sociedade num momento dado de sua historicidade. Portanto, a educação é muito mais abrangente do que as ações que acontecem na escola. As interações que ocorrem na vida também dão significado à formação humana. A compreensão do compromisso da escola depende da formação social e da estrutura econômica da sociedade. Neste sentido, é pertinente ainda hoje a reflexão de Gramsci: Quem é o homem? É esta a primeira e principal pergunta da filosofia. Como respondê-la? A definição pode ser encontrada no próprio homem, isto é, em cada homem singular. Mas ela é exata? Em cada homem singular, pode-se encontrar o que é cada “homem singular”. Mas não nos interessa o que é cada homem singular, problema que significa, ademais, o que é cada homem singular em cada momento singular. Se observarmos bem, veremos que – ao colocarmos a pergunta – “O que é homem” – queremos dizer: o que é que o homem pode se tornar, isto é, se o homem pode controlar seu próprio destino, se ele pode ”se fazer”, se ele pode criar sua própria vida. (GRAMSCI, 1995, p. 38). Quando Gramsci questiona o que é o homem, incentiva a se refletir se o homem pode criar a sua própria vida. Revela que o homem não depende de um destino pré-traçado, que ele tem autonomia para produzir sua vida. Entretanto, é necessário observar com cuidado esta afirmação, porque o homem tem autonomia mas encontra-se também limitado por determinações sociais, econômicas e culturais, que influenciam na sua produção. A partir de Marx, Gramsci aponta que embora existam determinações, o homem, por sua vontade, pode lutar para transformar a realidade que se apresenta contraditória. Neste sentido, o que o homem produz como processo de seus atos significa a relação vontade e circunstância. Vontade é voluntária, e circunstâncias são as 47 condições necessárias para realizar essa vontade. Isto significa, ainda, que pode ocorrer que ao ter vontade é possível que não tenha condições sociais e econômicas para realizá-la. Portanto, com esta compreensão de Gramsci, pode-se afirmar que não é real a firmação neoliberal de que todo homem pode realizar sua vontade, basta “esforçar-se” que “vencerá“. É imprescindível compreender os elementos contraditórios presentes na sociedade e no coletivo, com outros homens, buscar alternativas para a superação desta realidade, que muitas vezes não permite a produção da existência do homem de forma consciente e crítica. Gramsci afirma, ainda, que o homem é processo e está inserido no contexto social. O processo de conhecimento está no social, e este processo se realiza na ação do homem. Ao afirmar que o homem é o processo de seus atos, isto significa que este processo ocorre na relação com outros homens e com a natureza. Neste sentido, o homem é formação histórica. Assim, opõe-se à idéia metafísica a qual pressupõe que o homem nasce com a potência de ser, e que se deve ajudá-lo a desenvolver o que está latente, que naturalmente irá revelar seu potencial. Manacorda discorre a respeito dizendo que “o homem como formação (ou criação) histórica (...) é, sobretudo espírito, isto é, criação histórica e não natureza”. (MANACORDA, 1990, p. 74). Nesta afirmação, a partir da concepção de Homem em Marx, o autor contesta a afirmação que considera o homem como resultado da vontade de um criador, e que existe uma forma de concepção e de ação igual para todos os homens, e a que o considera como produto natural em si mesmo. Esta concepção de natural é contestada porque os indivíduos não estão na sociedade por justaposição, por acaso. Suas relações com a natureza ocorrem não apenas porque ele faz parte dela, e que ele também não é um elemento passivo que se submete a esta natureza. Ao contrário, tem uma posição ativa por meio do 48 trabalho. Assim, enfatiza a criação histórica do homem, ou seja, a realidade em que ele vive não existe em si mesma, mas é uma relação histórica, e quem produz história são os homens de forma interativa. Ou seja, por meio de relações ativas os homens produzem em coletividade, conhecem a realidade, reagem a ela modificando-a, e esta modificação, esta transformação, produz fatos históricos. Portanto, o homem é processo, é histórico. Para Gramsci, a partir de Marx, o homem se conhece à medida que compreende o conjunto das relações sociais em que ele está inserido. Ao conhecer essas relações o homem conhece-se a si mesmo: Observando ainda melhor, a própria pergunta ”o que é o homem“ não é uma pergunta abstrata ou objetiva. Ela nasce do fato de termos refletido sobre nós mesmos e sobre os outros: e de querermos saber de acordo com o que vimos e refletimos, aquilo que somos, aquilo que podemos ser se realmente – e dentro de que limites – somos criadores de nós mesmos, da nossa vida, do nosso destino. (GRAMSCI, 1995, p. 38). Gramsci compreende o homem como ser social que interage dinamicamente com a realidade e com os outros homens. E no processo de produção de sua história, projeta. Por isso sua vida não está completa. Ele vive o momento atual, analisa o passado e projeta o seu vir a ser, promovendo, assim, a realização das possibilidades de transformação de si e da natureza. Ao propor coletivamente a transformação da realidade em que atua, o homem se desenvolve. Ou seja, para atuar precisa conhecer, compreender as determinações desta realidade, e no coletivo, refletir sobre a realidade vivida e conhecida para então propor superações. E este desenvolvimento aprimora-se quanto mais ligações estabelece na sociedade. Desta maneira, o indivíduo constrói-se no coletivo, e à medida que atua coletivamente tem maior possibilidade de construir uma consciência crítica, porque no conjunto com os outros indivíduos atua e reflete sobre suas ações sempre em busca de transformação de si e da sociedade em que vive. 49 A construção consistente de uma consciência coletiva crítica ocorre a partir da relação teoria e prática. Ou seja, ao agir o homem reflete sobre sua ação, produz e constrói uma concepção de mundo. Neste sentido, Gramsci (1995 ,p.20) disserta muito bem sobre a importância da consciência teórica: “O homem ativo de massa atua praticamente, mas não tem uma clara consciência teórica, desta sua ação, que não obstante é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma”. Nesta afirmação, Gramsci demonstra a importância da reflexão sobre a ação, e, sobretudo, a consciência teórica representa o significado essencial da teoria como luz para a prática. Quando as ações humanas não contemplam a reflexão teórica o homem age passivamente frente ao que “herdou” e ao que lhe impõe a sociedade no seu momento atual, sem estabelecer análise crítica. E isto interfere significativamente na sua vontade e nas suas decisões. Gramsci alerta ainda, para a necessidade da compreensão da crítica de si mesmo, Isto é, reconhecer que o ser humano, consciente ou inconscientemente, está no interior das lutas hegemônicas que ocorrem nas propostas de políticas públicas. E estas divergem em diferentes direções, influenciando na compreensão do real. (GRAMSCI, 1995). Na compreensão de Gramsci, para empreender uma autoconsciência é necessário ter consciência ética e política e compreender as relações de hegemonia que estão presentes na sociedade. Portanto, faz-se necessário praticar uma reflexão que supere a reflexão abstrata e individualista, ou seja, trabalhar no sentido que permita compreender a trama na qual são tecidas as relações sociais e as políticas que direcionam uma sociedade. Faz-se necessário estudar outro conceito que é muito bem explorado por este autor, a natureza humana: 50 A inovação fundamental introduzida pela filosofia da práxis na ciência da política e da história é a demonstração que não existe “uma natureza humana”, abstrata fixa e imutável (conceito que certamente deriva do pensamento religioso e da transcendência): mas que a natureza humana é o conjunto das relações sociais historicamente determinadas, isto é, um fato histórico comprovável, dentro de certos limites através dos métodos da filosofia e da crítica. (GRAMSCI, 1968, p. 9). Gramsci retoma o raciocínio marxiano e reforça que não existe uma essência humana. Não existe uma idéia pré-definida, o homem se constitui nas relações sociais. Assim, o homem é o processo de seus atos. Este processo se dá na relação indivíduo – natureza – outros indivíduos. A relação do homem com a natureza não se dá por ele fazer parte dela, mas sim pela transformação da natureza. Portanto, não existe natureza humana, a priori. A humanidade é constituída de história. A natureza não é o ponto de partida mas sim, é entendida como ponto de chegada. Não se pode conhecer a natureza do homem na antropologia filosófica, a qual encerra o homem na subjetividade da consciência, da raça, da sociabilidade e o separa radicalmente do universo. (KOSIK, 2002). Como se pode depreender do exposto anteriormente, conhecer o homem significa situá-lo na objetividade das relações sociais que superam o individualismo e o reconhece como sujeito histórico social. Gramsci considera renúncia à educação quando estiverem presentes os conceitos casuais, mecânico, natureza. Neste sentido, Manacorda (1990, p. 81) incorpora as palavras de Gramsci: “A educação é uma adaptação ao ambiente, sim, mas também é, sobretudo, uma luta contra esse ambiente, para não permitir que esse influa casualmente, mecanicamente”. Esta afirmação contém a essência da educação, a importância da intervenção, da mediação. Da sobreposição à naturalidade por meio da autoridade, e esta é compreendida no sentido de conhecimento, de domínio sobre o assunto. Neste sentido, valoriza-se o 51 compromisso da educação e, sobretudo, do professor, aquele que dependendo da consciência ingênua ou crítica irá tomar decisão de ter uma ação espontaneísta, deixando o aluno desenvolver-se por si, ou optar por uma ação mediadora, de intervenção, produzindo com o aluno a história. Assim considerando, a partir de Marx não é possível afirmar a existência da natureza humana, mas tão somente de um ambiente historicamente determinado. E o que é necessário realizar enquanto educação é reconhecer o seu compromisso em desvelar essas determinações históricas e propor ações que contribuam para a formação humana. Da mesma forma, ao serem elaboradas as políticas públicas educacionais é necessário considerar os alunos e os profissionais da educação como elementos de um ambiente historicamente determinado. Portanto, que esses elementos participem da elaboração dessas políticas e não sejam apenas executores de ações planejadas verticalmente. Gramsci complementa seu pensamento sobre a natureza humana com a afirmação: A natureza humana é o conjunto das relações sociais e a resposta mais satisfatória porque inclui a idéia do devenir: o homem “devém”, transforma se continuamente com as transformações das relações sociais; e, também porque nega o ‘Homem em geral´: de fato, as relações sociais são expressas por diversos grupos de homens que se pressupõem uns aos outros, cuja unidade é dialética e não formal. (GRAMSCI, 1995, p. 43). Quando afirma que o homem é devenir identifica-se com o movimento dialético em que o homem se constitui de avanços e recuos. E este movimento é dialético porque essas relações não estão cristalizadas, não seguem uma linha de raciocínio lógico-formal. E neste movimento dialético outro elemento importante se faz presente: a liberdade. Para Gramsci, o processo de devenir se efetiva com a liberdade: ”A medida da liberdade entra na definição de homem”. (GRAMSCI, 1995, p. 47). 52 Isto significa que a possibilidade de vir a ser não é realidade enquanto a liberdade não existir para permitir que se efetive o vir a ser. Portanto, a possibilidade implica em liberdade, liberdade de conhecer, analisar e saber utilizar o conhecimento adquirido e, sobretudo, querer realizar escolhas por opção consciente. Desta forma cria sua própria personalidade, realizando sua vontade com uma direção escolhida com critérios e escolhendo com responsabilidade os meios que utilizará para atingir os seus objetivos e os do grupo ao qual pertence. Assim, conhece as condições concretas que o constituem na sociedade e as possibilidades de vir a ser. Para Gramsci “o Homem deve ser concebido como bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa – objetivos ou materiais – com os quais o indivíduo está em relação ativa”. (GRAMSCI, 1995, p. 47). Nesta direção, acrescenta: “Por isso é possível dizer que o homem é essencialmente ´político´, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os homens realiza a sua ´humanidade´, a sua natureza humana“. (GRAMSCI, 1995, p. 48). Toda educação implica pensar em políticas, e ao considerar que o conhecimento se dá na vivência, à medida que o homem toma consciência que sua própria prática gera um novo saber contextualizado, estará produzindo política porque este conhecimento tem um objetivo, uma direção. E de acordo como são encaminhadas as políticas educacionais revela-se o projeto de sociedade que se almeja. Neste contexto, coloca-se a questão: As políticas públicas de formação continuada são organizadas de forma que possibilitem aos professores, funcionários e gestores, uma reflexão sobre o sentido do seu trabalho no conjunto das relações 53 sociais? Existe a consciência da inserção destes sujeitos no conjunto das relações sociais? Diante do exposto, analisa-se criticamente a sociedade capitalista. Esta sociedade educa para o trabalho, mas no modo enciclopédico. Forma um trabalhador que desempenha uma função, mas não tem uma concepção crítica na produção. Este trabalhador não se reconhece como produtor. Neste sentido, é necessário recorrer-se ao pensamento de Marx (2004), que analisa o estranhamento do homem à sua atividade prática, o trabalho, sob dois aspectos: o primeiro é a forma como o trabalhador relaciona-se com o produto do seu trabalho, “como objeto estranho e poderoso sobre ele”. E a outra forma é a “relação do trabalho como ato da produção no interior do trabalho”. Esses dois aspectos apresentados por Marx revelam que o trabalhador ao se encontrar estranho ao trabalho percebe-o como uma atividade que não pertence a ele. E isto é decorrente de uma sociedade capitalista, que promove a organização do trabalho de forma que não existam espaços para a auto-atividade, para o encontro do homem consigo mesmo e com o outro. Assim, o trabalho limita-se a mera reprodução, não há espaços para a criação, a partir da análise da sua própria ação. Portanto, a formação para o trabalho depende do modelo de sociedade. Vale lembrar Nosella quando discorre sobre a importância do trabalho para Gramsci: Se a escola é a suspensão do trabalho produtivo, não é, porém, dele fuga, negação ou esquecimento. Assim como a fábrica se enuclea ao redor do instrumento de trabalho moderno considerado objeto material de produção, a escola se estrutura ao redor desse mesmo instrumento de trabalho entendido, porém, como processo de desenvolvimento científico, criativo e ético da história dos homens. (NOSELLA, 2004, p. 42). 54 Neste sentido, a escola precisa contribuir para mudar a forma de pensar, ou seja, superar a apropriação da cultura burguesa e realizar uma nova leitura, ter um posicionamento crítico e compreender que a cultura não é acumulação de conhecimentos, mas, sim, é um pensamento sempre contextualizado. Para que se efetive esta proposta de escola é necessário mudar a estrutura da escola, centrada em objetivos políticos claros, com um novo projeto de sociedade. Quando se refere ao conceito de homem e constrói este conceito, Gramsci defende como imprescindível a inserção do homem na história das relações sociais e as transformações que produz em si, no outro e na natureza, em virtude do trabalho que historicamente organiza socialmente. Portanto, para este autor, o homem é a expressão da superação de si mesmo, e no convívio com os outros homens conhece-se a si mesmo e constrói uma consciência crítica e coletiva. Neste processo histórico, o homem luta para superar os limites que os determinantes econômicos, sociais e culturais lhe apresentam no curso de sua vida. Nesta direção, no uso de sua liberdade o homem atua para a transformação de si e da natureza. Desta maneira, rompe com a idéia dogmática da natureza humana como algo natural, e da individualidade abstrata. Gramsci trabalha com a idéia de subjetividade histórica, ou seja, o indivíduo se constitui com o outro e no coletivo produzem história. Considera ainda a individualidade não como uma interioridade, mas sim como um conjunto de relações entre o indivíduo e a natureza e os outros indivíduos. Assim, a individualidade constitui-se na interação social. 2.3 DO INDIVIDUALISMO À SOLIDARIEDADE A sociedade encontra-se atualmente com uma grande produção de conhecimento e conseqüentemente gera a necessidade da criação de novas 55 tecnologias para acompanhar o acelerado desenvolvimento imposto pela exigência de produção da sociedade capitalista. Em decorrência, são criadas novas técnicas para tornar a sociedade a mais avançada possível na desenfreada competitividade globalizada. E em meio a tanta produção é gerada riqueza para poucos acentuando a exclusão social e gerando contraditoriamente, um acelerado processo de miséria econômica e humana. A sociedade exige uma qualificação maior do trabalhador e à educação é dada a “tarefa“ de qualificar uma mão de obra que atenda as expectativas do capital e essa perspectiva não é trabalhada na perspectiva de uma formação que permita ao aluno o ingresso no mundo do trabalho. Assim, de forma alienada os trabalhadores são formados unilateralmente, com base em uma especialidade, É crescente o movimento de desumanização, o homem parece estar próximo da barbárie, onde tudo vale, tudo é permitido. A vida perde seu significado e na busca desenfreada do prazer individualista o homem domina o outro cada vez mais usando o poder para subjugar o outro. A educação sofre essas determinações e em alguns momentos reproduz discursos individualistas como “a minha sala de aula”, “a minha escola”. O nosso tornou-se elemento do passado, a coletividade parece estar, juntamente com a solidariedade, esquecida e desaparecendo tal como uma foto antiga, que já não possui mais um foco para olhar. E os educadores como reagem frente a isso? Qual o compromisso daqueles que estão a frente da formação que se espera humana? É preciso denunciar essas contradições, mas com o cuidado de não ficar apenas na constatação e perplexidade, mas sim partir para proposições coletivas e estabelecer objetivos que efetivamente expressem o compromisso de qualificar a formação humana. Lembrando Marx: Não basta interpretar a realidade é preciso transformá-la. 56 Ferreira alerta e opõe-se à reafirmação do ideário neoliberal no qual, a idéia de mercado apresenta-se como a única possibilidade do homem viver em sociedade o que promove uma sociedade e um homem cada vez mais individual e utilitário. O individualismo impera e contribui para o estabelecimento de carências, desigualdades, negação do outro ser humano. E o resultado dessa compreensão gera a banalização do ser humano, a naturalização da vida, como se tudo ocorresse de forma natural sem a determinação do homem na construção dessa sociedade desumana e individualista. Conseqüentemente, perde-se o sentido do homem enquanto ser social e perde-se também o sentido da vida. (FERREIRA, 2003) Diante desse alerta da autora, é mister que se estabeleça novas políticas na educação que procure superar as relações excludentes, competitivas e individualistas tão presentes nos projetos de educação e de sociedade que fundamentam, por exemplo, os projetos políticos pedagógicos. Nestes encontra-se muitas vezes, um trabalho alienado, os profissionais da educação executam as atividades como algo exterior e os compreendem como políticas que lhe são impostas. Portanto, dão aula, produzem o seu trabalho como uma atividade exteriorizada, para atender a necessidade que outros lhe impõe, e, no caso da educação, as políticas exaradas pelo Estado. Assim o profissional da educação e os alunos de sujeitos passam a serem objetos para quem estão a serviço, a sociedade capitalista. Necessário se faz, trabalhar com um a concepção fundamentada na realização da emancipação do homem por meio do trabalho. Superar essa contradição exige um trabalho pautado na gestão democrática onde todos se reconhecem no trabalho que planejam e executam. É compromisso da educação trabalhar na perspectiva da realização do homem enquanto emancipação humana. 57 Ferreira prossegue sua análise afirmando que se fazem necessário algumas análises que conduzam a compreensões que permitam encaminhar questões sobre a possibilidade de humanizar a formação no mundo globalizado. (...) A promoção humana só poderá tornar-se realidade quando se assumir que o papel do intelectual, não se reduz a reproduzir, em sua obra e em seu trabalho, a sociedade de seu tempo.O principal objetivo, quer pelo conteúdo, quer pela forma, é exercer uma função transformadora de conscientização, que atue revolucionariamente sobre o ambiente social, pois tal como a transformação da natureza, a transformação da sociedade é um ato de libertação, de emancipação humana. (FERREIRA, 2003, p. 27) Diante do acima afirmado, considera-se necessário conhecer a sociedade atual com suas determinações, implicações e as derivações das novas relações sociais. E a partir dessa análise, com bases nos pressupostos que afirmam a promoção humana, criar alternativas para a realização da vida, fundamentada na solidariedade e na ética., elementos fundamentais à existência e à valorização da vida. Enfim, dignificando o que essencialmente constitui a vida humana: o trabalho enquanto elemento de produção humana e produção de cultura. O processo de transformação do homem e da natureza não se dá de forma espontânea. É um processo que ocorre pela ação inteligente do homem sobre a natureza, de onde extrai os elementos que incorpora e transforma, contribuindo com o meio de forma mais elaborada. Este agir humano constitui-se no que Marx denominou de trabalho, atividade humana através da qual o homem se realiza. Diante da análise realizada sobre a concepção de homem, natureza humana e a educação como formação humana, conclui-se que o homem não é concebido individualmente, mas realiza-se e constrói sua individualidade a partir das interações com outros homens e com a natureza. Ou seja, realiza-se a partir das possibilidades presentes na sociedade. Mas para que tenha ações conscientes, e construa-se enquanto homem histórico, precisa ter liberdade e conhecimento da realidade em 58 que vive, e compreender sua situação histórica. Enfim, ter consciência crítica dessas relações. Do exposto, depreende-se, de forma convicta, que o compromisso da educação é promover condições para que o homem possa conhecer os elementos da realidade em que vive e que se apresentam de forma contraditória na sociedade. Só assim, a partir desta apropriação dos elementos do meio, de forma compreensiva, intencional e inteligente, tornar-se-á consciente para planejar ações transformadoras e interferir na sociedade e no tempo histórico em que vive. Neste sentido, a educação tem o compromisso de possibilitar que o ser humano supere o que ele é para buscar o vir a ser. Enfim, que possa cada vez mais se tornar mais humano. Compreender as concepções de homem e de sociedade é fundamental para analisar a formação continuada dos profissionais da educação, porque, ao estudar o ser humano contextualizado nas leis objetivas da realidade é possível identificar os elementos contraditórios que estão presentes no movimento educacional e que apresentam uma concepção de homem que se deseja formar para a tender a um determinado projeto de sociedade. Prosseguindo, no próximo capitulo pretende-se aprofundar a análise do elo entre a formação continuada e a práxis humana e de que maneira essa formação continuada atende a necessidade de uma formação humana emancipadora. 59 3 PRÁXIS HUMANA O conceito de práxis nos desvela algo que é inerente ao ser humano e que o tecnicismo cartesiano dividiu, fracionando o conhecimento que é um só e indivisível. A educação na concepção dialética entende o homem como um ser omnilateral que quer dizer um ser com todas as possibilidades, em todas as dimensões. É uma concepção que não contrapõe o individualismo superando numa perspectiva de possibilidades solidárias. Não entende o homem por si mesmo, como faz a concepção liberal e neoliberal. Ao contrário, o homem é compreendido como um ser de totalidade, que se humaniza no movimento real e concreto com a realidade desde que não lhe inviabilizem essa possibilidade. Essa totalidade constitui o mundo no homem e é configurada pela totalidade do homem no mundo em todas as dimensões e possibilidades para todos. Na sua condição histórica o ser humano não se restringe a sua subjetividade, mas interpreta a realidade e age sobre ela. Cria a realidade humana, histórica e social, realizando assim, a práxis. Kosik esclarece sobre práxis: O homem não está emparedado na subjetividade da raça, da sociabilidade e dos projetos subjetivos nos quais, de diversas maneiras sempre definem a si mesmo: mas com a sua existência – que é a práxis tem a capacidade de superar a própria subjetividade e de conhecer as coisas como realmente são. (KOSIK, 2002, p. 249). O homem não está no mundo naturalmente, por acaso. Ele se faz presente, a partir de sua capacidade de atuação e análise do real. Ao compreender–se nessa totalidade, supera sua própria subjetividade e conhece a realidade como realmente se apresenta. Conhece os fenômenos, suas manifestações e as causas que efetivamente o geraram. Como afirma Kosik: “o homem supera (transcende) 60 originariamente a situação não com a sua consciência, as intenções e os projetos ideais, mas com a práxis”. (KOSIK, 2002, p. 240). A atuação do homem na prática social produz significados ao que encontra e ao que originalmente cria. Realiza-se objetivamente como unidade de sujeito histórico social, constituindo-se enquanto ser humano. A compreensão da realidade subsidia o homem na tomada de decisões, quanto ao direcionamento de suas ações e as intervenções necessárias para a obtenção de seus objetivos. Assim, o homem é criador efetivo da sua história pessoal e coletiva, desde que lhe permitam e não lhe impeçam a sua liberdade como possibilidades. Vale destacar, que essa realidade só existe porque o homem faz parte dessa construção, portanto, não lhe é dado a priori como algo natural, pelo contrário o homem ao atuar sobre a realidade sofre determinações, mas também é sujeito de transformações. Ao propor transformações, vai enriquecendo seu conhecimento e supera determinadas condições históricas. A realidade não é (autentica) realidade sem o homem, assim como não é (somente) realidade do homem. É a realidade da natureza como totalidade absoluta, que independente não só da consciência do homem, mas também da sua existência, e é a realidade do homem que na sua natureza e como parte da natureza cria a realidade humano-social, que ultrapassa a natureza e na história definiu o próprio lugar no universo. (KOSIK, 2002, p. 248). A práxis humana supera a concepção de ser humano como alguém que apenas pensa e analisa a realidade numa atitude idealista e distante, ao contrário, pressupõe o homem como sujeito histórico que realiza a prática como pólo associado ao pólo teórico. Interpreta o real à luz da construção teórica, trabalha com as contradições existentes nas relações sociais e recria esse real, de forma que lhe permita tornar-se mais humano, humanizando a realidade, realizando, portanto uma práxis revolucionária. 61 Necessário se faz trabalhar com os conceitos opostos de práxis explicitados por Kosik: A práxis utilitária e a práxis revolucionária. A práxis utilitária é imediata e atende às necessidades do senso comum. Trata-se de explorar como os fenômenos se apresentam para o pensamento comum. Nesse caso os fenômenos tem a conotação da realidade como produto da Práxis cotidiana utilitária, que origina o pensamento comum acrítico. Esse pensamento comum é resultado ideológico de agir cotidianamente, aparece apenas a representação dos fatos e não constitui história superadora, ao contrário constituem -se em histórias petrificadas, cristalizadas em si sem relação. E tem como objetivo colocar o homem em condições mínimas para que possa situar-se no mundo e principalmente saber utilizar as coisas. Não trabalha com as contradições, é uma práxis unilateral. Trabalha com a consciência ingênua, a crítica, é a práxis fetichizada. Por outro lado, a práxis revolucionária é aquela que se propõe conhecer a coisa em si e sistematicamente questiona como é possível compreender a realidade, pretende destruir o que esta aparente no fenômeno, investiga a constituição da lei do fenômeno, pretende ainda destruir a pretensa independência do fenômeno da sua essência, ou seja, compreender as determinações que geraram determinado fenômeno. Caracteriza-se por trabalhar as contradições, objetiva desvelar a realidade na sua autenticidade e trabalhar com a totalidade concreta. (KOSIK, 2002) A totalidade concreta é compreendida por meio da concepção dialética do conhecimento real. Parte da destruição da pseudoconcreticidade, das atitudes fetichizadas, que permanecem na aparência, e propõe por oposição, o conhecimento autêntico. Trabalha com o conhecimento histórico do fenômeno, enfocando a dialética individual e do humano em geral. (KOSIK, 2002). Trabalhar em busca da superação da pseudoconcreticidade, é partir da compreensão de que o homem precisa situar-se na realidade que sua existência e 62 as manifestações de sua existência são interdependentes. Quando o homem não reconhece ele apenas permite-se ao acesso ao mundo dos fenômenos, conhece aparentemente,na verdade não conhece apenas fica na superficialidade, no mundo da pseudo concreticidade. Como bem explicita Kosik O mundo da pseudoconcreticidade é um claro e escuro de verdade e engano. O seu elemento próprio é o duplo sentido.O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo, a esconde. A essência se manifesta no fenômeno, mas só de modo inadequado, parcial, ou apenas sob certos ângulos e aspectos.O fenômeno indica algo que ele não é ele mesmo e vive apenas graças ao seu contrário.A essência não se dá imediatamente; é mediata ao fenômeno e, portanto, se manifesta em algo diferente daquilo que é. (KOSIK, 2002, p. 15). Trabalhar com esse conceito de pseudoconcreticidade é essencial para a compreensão do que significam as medidas concretizadas nas propostas educacionais relativas a formação continuada, que são tão usuais no atual do modo de produção capitalista. Portanto, cabe questionar para tentar responder e, num segundo estágio, entender: Qual o objetivo das políticas públicas para formação continuada. Qual o pressuposto de homem a ser formado esta presente nessas políticas? É importante destacar também quais as discussões que tem estado presente em relação a formação continuada? Quais os conteúdos que tem estado mais em evidencia nos últimos anos na Formação continuada? O que a legislação apresenta e que relação tem provocado frente as associações cientificas educacionais. Qual o método de conhecimento presente? E qual a relação do conhecimento com a atividade prática? Essas são algumas questões pertinentes que se colocam para encaminhar uma análise da formação continuada. Kopnin aprofunda o conhecimento sobre a práxis. Existe uma relação da experiência conjunta do conhecimento com a atividade prática e essa relação constitui a base em que a dialética forma suas categorias. “No sistema de categorias apreendem-se não só os resultados do conhecimento e da prática, mas também as 63 suas tarefas, razão pela qual a dialética materialista é um método do conhecimento cientifico”. (KOPNIN, 1978, p. 34) As categorias contribuem para a concepção de homem como sujeito que se realiza na atividade histórica por meio do movimento entre o pensamento e a prática e a relação entre o sujeito e objeto. Kopnin trabalha relação sujeito objeto a partir dos fundamentos marxistas: O marxismo relaciona sujeito e objeto na base real em que eles são unificados na história: a dialética subjetiva é o mesmo movimento objetivo, só que sob uma forma de sua existência diferente da natureza. Demais, subentende-se por dialética subjetiva não só o movimento do pensamento mas também a atividade histórica do homem em seu conjunto, incluindo o processo do pensamento.O sujeito é irredutível à simples consciência, logo,sua dialética não se limita à atividade do pensamento humano. (KOPNIN, 1978, p. 51). Kopnin, fundamentado, em Marx, compreende que não é possível separar o pensamento da prática. Portanto, a incorporação da prática à teoria é um avanço na concepção de homem. Assim, supera-se a idéia de considerar o homem como um sujeito que pensa sobre a natureza, mas ao contrário ele está na natureza e seu pensamento coincide com sua prática ocorrendo uma determinação mútua. O homem é concebido a partir das necessidades expressas em sua prática, mas essa prática não é a pragmática e utilitária. Ao contrário, é a prática superadora que já contem em si a possibilidade de ser transformada, pela análise que o homem realiza ao desempenhar simultaneamente suas funções do pensamento e da atividade. Kopnin alerta para o problema do homem, sendo esse um dos mais importantes na filosofia, mas é preciso ter o cuidado para não tratá-lo de forma abstrata, separado de sua evolução histórica. Para compreender o homem é imprescindível os princípios da atividade prática e teórica. Ressalta ainda, que os objetivos do homem são os objetivos da sociedade e não de um indivíduo isolado. E 64 esses objetivos tem sua determinação no conhecimento das leis e do desenvolvimento da sociedade. Ao considerar-se que os objetivos do homem estão associados aos objetivos da sociedade compreende-se que ao tratar da formação humana implicitamente esta tratando - se também do projeto de sociedade em que está inserido esse homem. Portanto ao elaborar políticas públicas para a educação necessário se faz não divagar sobre o homem e a sociedade em geral, mas sim tratar do homem situado em uma dada sociedade, considerando o desenvolvimento histórico do ser humano. O desenvolvimento histórico do ser humano realiza-se por meio da realidade objetiva em que ele está inserido e da prática refletida. A prática verdadeira, que serve de base à atividade criadora do homem necessita do pensamento que é objetivo do conteúdo, ou seja, tem objetivo definido e reflete de forma ativa sobre a realidade. (KOPNIN, 1978) Na educação, parece que a concepção unilateral está muito presente nas políticas públicas e nos elementos pedagógicos. Pensa-se muito em elaborar estratégias de ação separadas da prática social, idealizadas, sem partir dos processos e movimentos presentes na realidade. Observa-se que a escolha dos conteúdos para compor o currículo na educação básica tem como princípios o conhecimento com base no pensamento abstrato, não se originam da prática histórica. O conhecimento nesse caso é trabalhado para atingir um fim previsto, apenas no pensamento, mas não estabelece relações de análise com as contradições presentes entre a prática desenvolvida e o pensamento. Nesse caso, a concepção que está posta é a de que a realidade será a concretização do pensamento do homem. A concepção de uma educação emancipadora fundamentada na concepção dialética, contrapõe-se a essa compreensão discutida anteriormente e afirma que as 65 políticas públicas educacionais precisam partir da realidade, da compreensão das leis e contradições presentes na prática social para que seja possível ao homem compreender essa realidade, interpretá-la e revolucioná-la. Ou seja, é necessário conhecer as necessidades, as determinações presentes, lá na porta da escola, na gestão desenvolvida na sala de aula e na gestão no todo da comunidade educacional. Caso isso não seja realizado, ocorre apenas um pensamento especulativo sobre a educação, gerando políticas distantes das necessidades e prioridades da escola. Kopnin explicita que o conhecimento percorre um caminho do sensorialconcreto ao concreto no pensamento, e esse percurso é complexo e contraditório. ”O conhecimento abstrato é unilateral, daí a transição do conhecimento sensorialconcreto, multilateral ao abstrato ser em certo sentido um passo atrás, mas um passo necessário ao sucessivo avanço do conhecimento”. (KOPNIN, 1978, p. 158). Nessa afirmação, Kopnin desenvolve a idéia de que o conhecimento deve ser concebido em suas múltiplas determinações, e que não se encontra acabado e cristalizado, mas, ao contrário por ser histórico é provisório, desenvolve-se por evoluções e involuções. Partindo dessa análise, é inconcebível que na escola ainda exista um trabalho pautado na seqüência linear de conteúdos, exigindo do aluno que acumule sucessivamente os conhecimentos sem estabelecer a relação direta com a prática social, que muitas vezes apresenta-se tão oposta ao que é estudado na escola. A educação tem contemplado a formação unilateral, enfatizando um aspecto do desenvolvimento humano em detrimento dos outros, observa-se que o cognitivo tem ocupado a preocupação central. E isso está expresso nos currículos, no encaminhamento metodológico e na avaliação. O Projeto político Pedagógico é construído pensando num aluno concebido abstratamente, centralizado no seu 66 desenvolvimento intelectual, excluindo outras características do ser humano que se desenvolveram ao longo da história humana. No Brasil, país de periferia do capitalismo globalizado, adota-se uma concepção de educação centrada no conhecimento abstrato para a formação de homem unilateral. E elaboram - se políticas públicas para a formação continuada, geradas a partir de um Estado que é contraditoriamente centralizador e ausente. Ou seja, exara políticas verticalmente, porém, não fornece condições básicas para que se efetive uma formação digna, com horários para estudos, reflexões e remuneração compatível com o trabalho realizado pelos profissionais da educação. A metodologia dessa formação geralmente é organizada de forma aligeirada, sem contemplar momentos para reflexões e análises. Centraliza-se em atividades “práticas”, na acumulação do conhecimento abstrato para, conseqüentemente trabalhar com o aluno abstratamente. Propaga-se a quantidade de horas destinadas à formação e exige-se um retorno imediato do pouco investimento nessa política. Enfim, encontrase políticas que tem como finalidade última a redistribuição eficiente do orçamento público, ou seja, gerar mais valia. Kopnin acrescenta, ainda que, pela dialética compreende-se que o concreto é resultado de definições e de determinações e por isso não se reduz ao ponto de partida ,mas constitui-se como ponto de partida e como síntese na prática sócia.l Kopnin alerta para o risco de pensar a prática e a teoria como em situações opostas ou simplesmente identificá -las: Tanto a contraposição da teoria à prática quanto à identificação de ambas surgem como resultado da compreensão da prática apenas como atividade subjetiva, sem que se saiba ao certo que atividade é essa, qual o seu objeto concreto. (KOPNIN, 1978, p. 168). Esses equívocos apontados por Kopnin permite pensar o quanto essas situações estão presentes nas ações pedagógicas. Assiste-se um crescimento 67 acelerado de propostas pedagógicas que delimitam atividades, mas sem ter clareza de seu objetivo e qual o objeto concreto que estão trabalhando. Resulta assim, num trabalhado alienado, porque os “executores” dessa prática não se reconhecem no trabalho que realizam. A importância da prática é multilateral no movimento do pensamento: ela é a base do pensamento, determina-lhe o fim e atua como critério da verdade. Todos esses aspectos da prática na sua relação com o pensamento estão estreitamente interligados. (KOPNIN, 1978, p. 170). Kopnin explicita que em alguns casos quando o pensamento se encerra em si e considera-se como autônomo, e isto é uma forma negativa. Por outro lado, em alguns momentos o afastamento do pensamento da prática imediata contribui para compreender melhor as necessidades da pratica. O que é necessário ter claro assevera Kopnin é que não se pode incorporar incondicionalmente a prática ao conhecimento como se fosse degrau do pensamento. ”O marxismo não julga a prática um momento subordinado um degrau do conhecimento e não incorpora ao conhecimento, mas à teoria do conhecimento”. (KOPNIN, 1978, p. 171). As reflexões de Kopnin contribuem para alertar a respeito das políticas públicas educacionais. E o quanto se faz necessário no processo hegemônico do neoliberalismo, examinar qual a diretriz política para a formação continuada dos profissionais de educação no Brasil. Se é para incorporar a prática ao conhecimento, como se fosse um degrau, ou, a partir da teoria, do conhecimento, ter elementos que contribuam para análise do confronto entre grupos que postulam projetos de sociedade educação diferenciados e propor diretrizes superadoras, realizando uma práxis revolucionária. Outro autor que desenvolve estudos sobre a práxis, - Chatelet- entende que para definir práxis, necessário se faz, entender os conceitos de necessidade, 68 trabalho e sociabilidade. Com o termo práxis pretende designar a vida do homem na totalidade de suas determinações reais. (CHATELET, 1972). O homem luta incessantemente para alcançar sua satisfação, realiza-se por meio do trabalho que desenvolve no social com a presença de outro homem. E essa luta indica a possibilidade de compreender o homem tal como ele se constitui. Chatelet afirma, ainda, que o homem é: Um ser natural que sofre, ao qual é dado modificar suas condições de existência, um ser dependente ao qual se revela, no próprio seio de sua dependência, a possibilidade efetiva de construir uma cidade, sua obra empírica real, na qual o desejo será a promessa da satisfação e a presença do outro homem a eventualidade de uma amizade. (CHATELET, 1972, p. 217-218). Diante dessa afirmação, destaca-se a realização do homem a partir da presença de outro homem e a possibilidade de uma amizade, isto significa que o homem não se realiza na subjetividade de sua individualidade. E não basta ter um grupo de pessoas, um ao lado do outro, para se considerar social. É preciso muito mais do que estar ao lado, é necessário estar com: estar com o filho, com o amigo, com o aluno. Condições essas que nesse mundo competitivo parecem estar cada vez mais distantes, o que torna o homem encerrado num processo acelerado e contínuo de desumanização. Na sociedade contemporânea parece que o fortalecimento do individualismo tem sido um problema da humanidade, que de certa forma tem contribuído na negação da manutenção da própria vida. Em nome de um “progresso” ilusório, o homem retrocede a passos da barbárie, aumentando assustadoramente situações de violência e desigualdades sociais que contribuem para a negação do homem pelo próprio homem. Os elementos discutidos nesse capítulo apresentam também a finalidade de analisar a especificidade e a relação da práxis com fenômeno educativo. 69 Cury, - ressalta que o fenômeno educativo só pode ser tratado na sua totalidade, porque a educação é compreendida como conjunto totalizante das relações sociais, que se organiza por meio de elementos que são elos mediadores entre si, a educação e a totalidade. (CURY, 1983). Com essa compreensão, pensar a educação exige situá-la no conjunto do movimento das relações sociais de acordo com a organização de determinada sociedade. Assim, se a sociedade está organizada com base no capitalismo, a educação estará configurada com as necessidades dessa produção social, portanto necessita ser compreendida, a partir dessas determinações. Cury trabalha, ainda, os componentes básicos dos fenômenos educativos na sociedade capitalista. Inicialmente, desenvolveu como as idéias pedagógicas se manifestam na tentativa de divulgar a concepção de mundo da classe dominante para torná-la totalizante. E essas idéias são veiculadas por meio das instituições pedagógicas, atendendo as determinações da ideologia da classe dominante. As ideologias dominantes utilizam alguns instrumentos na educação para veicular suas idéias e seus pressupostos. A classe que domina, exerce influência hegemonicamente na educação, e elabora políticas de forma que as escolas e outras organizações culturais trabalham para a reprodução das relações de produção. É importante lembrar, como Marx explicitou, na sociedade “capitalista o modo de produção se caracteriza pela exploração; isto é, pela apropriação da força de trabalho”. (MARX, 1983, p. 7). O capital procura apropriar-se da força de trabalho que produz mais valia, para tanto planeja políticas que venham a tender essa sua exigência. E, nesse contexto, utiliza-se da educação como meio que prepare os indivíduos para gerarem mais valia. Assim, o ensino de qualidade é considerado aquele que encaminha para a produção e geração de lucro. 70 Atualmente, a escola tem cumprido o “papel” de preparar o aluno para o mercado de trabalho. Na sua atuação concreta, é exigido que o ensino transformese no aprender a aprender e no aprender a fazer. Aparentemente, parece atender as demandas do aluno, porque ele estaria recebendo um preparo para atuar com “qualidade” no mercado de trabalho. Porém, essa política oculta a essência do fenômeno e os determinantes que conduzem a essa política: A formação de mão de obra para atender não as necessidades do aluno, mas, sim, às necessidades do capital. Este é um exercício hegemônico executado pelas instituições educacionais, e o professor é preparado para trabalhar com o aluno padrão, com formas de aprendizagem homogênea e que correspondam ao aluno ideal e ao profissional Ideal, ou seja, o aluno ideal é aquele que aprende conforme lhe ensinam, a partir de um professor bem “preparado”, com método padronizado. Quando ocorrem situações de crise, conflitos na instituição educacional, geralmente a responsabilidade do “fracasso escolar” é transferida em primeiro lugar, ao aluno, que não foi capaz de responder adequadamente ao investimento que lhe foi dado, não atendeu às expectativas; e, em segundo lugar, responsabiliza-se o professor, por não ter executado o que estava previamente programado; e também ao gestor, porque não esforçou -se para ir na direção indicada. Na realidade, o que está sendo cobrado nessa situação não é porque o aluno não aprende, mas porque não foram atendidas as necessidades fundamentais do capital: gerar mais valia e lucro. Cury trabalha, ainda, outro elemento que tem contribuído para veicular a concepção de mundo da classe dirigente, as idéias pedagógicas. Essas idéias geralmente constituem-se de tal forma que correspondem ao objetivo de fortalecer o exercício hegemônico da classe que detém o poder, e legitimar os interesses dessa 71 classe pelo consumo acelerado de suas idéias pelo grupo social dominado. As idéias pedagógicas fazem parte de uma articulação capitalista que impõe quais os conceitos que precisam ser aprofundados na escola para que o ensino converta-se fundamentalmente em um instrumento de dominação ideológica. E isso encontra- se expresso nos currículos,nos encaminhamentos metodológicos e avaliação. Diante dessa análise, considera-se que a educação tem o compromisso de desvelar as intenções ocultas nas políticas exaradas pela classe dirigente, para que seja possível desenvolver um trabalho que almeje compreender esses elementos contraditórios que estão diretamente ligados à educação e constituem o fenômeno educativo. Portanto, da mesma maneira que a escola reproduz a ideologia dominante, pode também analisar esses elementos, apontar os limites e propor superações. Cury prossegue sua análise do fenômeno educativo enfocando que as idéias pedagógicas são utilizadas para difundir as concepções da classe dominante por meio dos materiais pedagógicos utilizados. A elaboração do material pedagógico tem gerado um crescimento da indústria do conhecimento, com o intuito de gerar mais capital e como meio para exercer a hegemonia sobre professor e aluno, formando novos adeptos para a manutenção dos padrões pré-estabelecidos para perpetuar as relações de dominação. Observa-se que esse material pedagógico, como livros e apostilas, representam uma concepção de mundo, das idéias da sociedade capitalista. Portanto, induzem à confirmação da organização social capitalista. Apresentam geralmente essa organização social como harmônica e negam as situações de crise e de conflito. Cury destaca, outro elemento no fenômeno educativo, os agentes pedagógicos. Esses elementos também representam uma concepção de mundo. 72 Considera como agentes pedagógicos, professores, pedagogos, diretores. Esses agentes organizam-se intencionalmente com o intuito do consentimento coletivo “a direção moral e intelectual que a classe dominante quer informar a toda a sociedade”. (GRAMSCI, apud, CURY, 1979, p. 113). Assim, os agentes pedagógicos tornam-se divulgadores da concepção de mundo e por meio das suas ações almejam um consentimento coletivo das classes sociais ao projeto hegemônico do capital. A ideologia da classe dominante torna-se senso comum e os profissionais da educação trabalham de acordo com essa ideologia e revelam dificuldades de expressar as contradições presentes na sociedade e no fenômeno educativo. Destaca-se a importância dos agentes pedagógicos no fenômeno educativo porque se considera serem elementos essenciais e contribuem para a manutenção ou para a transformação da sociedade. Portanto, necessário se faz analisar como são organizadas as formações para esses agentes e em qual concepção estão sendo formados. As políticas educacionais têm primado pelo especialista e não para a formação do dirigente como brilhantemente anuncia Gramsci: O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloqüência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuirse ativamente na vida prática, como construtor, organizador, persuador permanente, já que não apenas orador puro e superior, todavia, ao espírito matemático abstrato; da técnica-trabalho, eleva-se a técnica ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece “especialista” e não se chega “dirigente” (especialista mais político). (GRAMSCI, 1995, p. 8). Esse novo intelectual anunciado por Gramsci é um intelectual voltado para a especificidade da prática social. E nessa prática expressa sua intencionalidade e os princípios de uma educação emancipadora. Relacionando esse pensamento de Gramsci com a formação continuada, necessário se faz, conceber uma política de formação que tenha a finalidade de formar o intelectual e não apenas o especialista. 73 Portanto, a incorporação do político é urgente e necessária a formação dos profissionais da educação. A formação continuada que se direciona para o intelectual tradicional considera que a função do profissional da educação é independente de sua ação política, limitando-se a ser um agente que veicula as idéias hegemônicas na sociedade capitalista, bem “ao gosto” do capital, cujos detentores decidem sobre o que fazer dos seres humanos qualificando-os para o exercício de um trabalho que produza a mais valia “realizadora” – aquela que é desenvolvida pela ideologia neoliberal com todos os requintes. Esse encaminhamento produz intelectuais ingênuos que atendem à direção indicada por um projeto hegemônico da classe dominante. Não é isto que se pretende e defende-se nessa dissertação. O que se defende é a formação que concebe o profissional a partir do lugar que ocupa na sociedade, que tendo consciência de seu compromisso e de sua responsabilidade será capaz de elaborar uma análise criteriosa sobra educação e sociedade. E, dessa forma será possível também elaborar estratégias que contribuam para provocar alterações significativas na sociedade e na educação. Pensando no interior da escola e no desenvolvimento de uma gestão democrática, reafirma-se a necessidade do trabalho pedagógico envolver pais alunos e funcionários, porque a participação efetiva de todos os envolvidos com a educação conduz ao fortalecimento da gestão democrática. Com esse encaminhamento trabalha-se na perspectiva de que todos são intelectuais e que de alguma forma podem contribuir para as análises e propostas de planejamento para a unidade educacional a qual estão inseridos. Destaca-se a importância da teoria para a construção do novo intelectual, e a idéia deste novo intelectual inclui também o compromisso político, porque se assim não acontecer esta se fortalecendo apenas o especialista. Como ainda afirma 74 Gramsci: “Não existe atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens”. (GRAMSCI, 1978, p. 7). Isto significa que o homem constitui-se pelo trabalho, realizando sua atividade humana a partir da práxis. Esta é a tese central que fundamenta o objeto de investigação desta dissertação. Acredita-se que o imiscuir-se na prática, já referida por Gramsci, contribui para a elaboração de um conhecimento que se origina na prática social e por meio dela se reelabora e se constitui um novo conhecimento. Considera-se que o agente pedagógico tem o compromisso de opor-se ao conhecimento que divulga os ideais neoliberais e trabalhar na perspectiva da totalidade. Para tanto, precisa fortalecer-se com a teoria que possibilite essa compreensão da totalidade por meio da análise dos determinantes que condicionam a sua atuação pedagógica. Enfatiza-se, assim, a importância da teoria para contribuir efetivamente na leitura da realidade propondo uma práxis revolucionária. Fundamentado em Gramsci, Dias salienta o que este intelectual expôs sobre a questão de que todos somos intelectuais na medida em que é possível elaborar sobre as questões colocadas pela realidade social ”Ao proceder a tarefa pedagógica de dar acesso ao conhecimento a grandes grupos (classes, partidos, sindicatos, individualidades) se realiza uma imensa tarefa democrática”. (DIAS, 2006, p. 53-54). Só, com essa compreensão é possível definir que tipo de dirigente pretende-se trabalhar, se é com um “dirigente” que executa as ordens emanadas das instâncias superiores ou um dirigente cônscio de sua responsabilidade ética, com toda a humanidade que existe em cada ser que educa e que necessita ser formado em todas as dimensões e com todas as possibilidades. Sabe-se que é uma tarefa desafiadora e árdua a cumprir, diante da contradição em que se vive, neste 75 modo de produção capitalista acirrado, no qual o individualismo combate toda e qualquer forma de humanidade. Mas, é enfrentando estas contradições, com a força do conhecimento e a força do caráter que possui convicções, é que vão acontecer as ações. Assim, o agente pedagógico que almeja ser um dirigente democrático necessita ter a convicção que poderá contribuir para desvelar as amarras ideológicas presentes na educação, que tão fortemente conduzem à monopolização do poder. Necessário se faz, trabalhar num movimento crítico na realidade, procurando conhecer a totalidade da concepção de mundo da classe dominante e os recursos que utilizam para difundir suas idéias, como assevera Dias: “Analisar o real construir os conceitos, que o explicam, e não simplesmente os descrevem e legitimam, é garantir a possibilidade de uma intervenção rigorosa na totalidade a partir do qual a transformação social é uma possibilidade real” (DIAS, 2006, p. 58-59). Diante dessas análises, conclui-se que o agente pedagógico pode contribuir para afirmação das idéias da classe dirigente. Ou estabelecer um processo de rejeição desse projeto de sociedade e lutar para apresentar um outro modo de análise do real, explicitando, assim, as concepções de mundo contraditórias, de modo que possa contribuir por uma educação emancipadora, que assumidamente acredita que a educação deve estar para a formação do homem, e não formar para o mercado de trabalho. O agente pedagógico necessita dimensionar a função política da educação para uma outra concepção de mundo, como bem afirma Cury “o agente pedagógico tem que saber dimensionar a função política da educação dentro de uma outra concepção de mundo dada pela filosofia da práxis”. (CURY, 1979, p. 114). Vale ressaltar, que os problemas existentes no sistema educacional só podem ser analisados e, portanto, compreendidos, na medida em que estiverem 76 relacionados com o contexto social, como bem define Saviani: ”A educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora no seio da prática social global.” (SAVIANI, 1991, p. 120). Trabalhar com a concepção de que a educação é mediadora na prática social, implica situar a educação em uma dada realidade, no interior de uma determinada sociedade, construída historicamente com seus determinantes e possibilidades de superação. A educação configura-se na conjuntura em que se desenvolvem os fatos da realidade e o lugar que o conhecimento ocupa nos projetos de sociedade e de educação que se propõe no país. Isto exige, compreender a realidade na sua totalidade com todas as suas contradições. Explicitando essa compreensão, Kosik afirma que o conhecimento concreto da realidade: Um processo de concretização que procede do todo,dos fenômenos para a essência e da essência para os fenômenos da totalidade para as contradições e das contradições para a totalidade e justamente nesse processo de correlações em espiral no qual todos os conceitos entram em movimento recíproco e se elucidam mutuamente, atinge a concreticidade. (KOSIK, 2002, p. 50). Pensar dialeticamente a educação é superar a sistematização de conceitos que procede por soma. É trabalhar a partir da compreensão da totalidade, compreender qual a finalidade da educação nesse movimento recíproco das correlações entre os fenômenos. Nesse sentido Kosik contribui ao afirmar; “A práxis humana funde a causalidade com a finalidade”. (KOSIK, 2002, p. 127). Isto significa compreender a atividade humana com a finalidade que se apresenta consciente ao homem, que se posiciona como sujeito histórico frente a uma determinada realidade e que compreende a necessidade da teoria como elemento que lhe permite compreender a prática, e reconhece que essa prática está intimamente condicionando e sendo condicionada pela teoria. 77 A educação emancipadora necessita desvelar a finalidade a qual está submetida na sociedade capitalista, reconhecer nos elementos trabalhados na sala de aula os objetivos que atendem a determinados interesses sociais, e reconhecer que há uma política subjacente aos conteúdos e métodos trabalhados. A razão de estar abordando a práxis é a de esclarecer que o conceito prática tão fortemente utilizado nos discursos educacionais, tem conotação fragmentária e utilitária no seu uso cotidiano. Pensar cientificamente o trabalho pedagógico exige a elaboração de um conceito filosófico cientifico que supere a simples reprodução prática. E como compreender a práxis? “A práxis é a categoria central da filosofia que concebe ela mesma, mas não só como interpretação do mundo, mas também como guia de sua transformação.“ (VASQUEZ, 1978, p. 5) Nesta direção, a práxis assume o significado de superar a compreensão de ação humana que supera o caráter estritamente utilitário da prática imediata, para uma atividade que vai além do imediato, mas trabalhe por meio do mediado. Nesse contexto, necessário se faz combater uma educação que privilegie o imediato, que apenas trabalhe para a reprodução. Acredita-se que uma educação emancipadora necessita contestar o que está estabelecido. Para isto, será é necessário uma ampla análise das condições de trabalho nas instituições educacionais, e lutar para que a educação seja compreendida como prioritária não apenas no que está anunciado em lei, mas que se torne realidade nas atividades de ensino aprendizagem. É importante analisar as políticas de formação continuada e efetivar estudos sob os pressupostos teóricos do projeto político pedagógico das escolas, e se existe a consciência das implicações sociais do trabalho desenvolvido na unidade educacional. O homem ao transformar a natureza, supera os limites da natureza e os seus próprios limites, transforma e transforma-se. Atua com consciência e, 78 simultaneamente, projeta outra ação, constrói-se histórica e socialmente. A consciência, como sendo gerada no grupo social e na humanidade em geral, e analisada por Ferreira: Os homens guiam-se na prática por determinados motivos, idéias e intenções, colocam perante si certos objetivos e tarefas e escolhem os respectivos meios para realiza-los. Por isso a consciência do homem e da mulher não se podem realizar fora da sociedade e sem a sua permanente influência, dessa forma, a consciência social assimila tudo o que foi criado pela sociedade e pela humanidade em geral. (FERREIRA, apud, SERRA, 2000, p. 216). Os homens realizam suas consciências a partir dos interesses e objetivos construídos socialmente. Entretanto, essa organização pode ser orientada pelos ditames do individualismo em oposição a construção coletiva. Assim, os sujeitos podem estar desenvolvendo atividades proclamando que se reconhecem como sujeitos autônomos, capazes de gerenciar sua vida independentemente, sem perceberem ou terem a consciência de que estão a serviço de uma ideologia dominante. Nesta direção, Vazquez (1978, p. 205-206) afirma: ”A teoria em si não transforma o mundo. Mas se a teoria não transforma o mundo, só pode contribuir para transformá-lo exatamente como teoria”. A atividade estritamente teórica não é práxis e tão pouco a atividade unicamente prática expressa a práxis. Nesse sentido a teoria e a prática estabelecem entre si uma correlação dialética. Necessário se faz, nas discussões pedagógicas no interior das escolas, questionar o trabalho pedagógico, seus objetivos e quais as contribuições da teoria para efetivamente realizar essa análise e propor ações para reelaborá-lo. Nessa análise é necessário também destacar os estudos das dimensões do ato pedagógico, político, social e econômico que embora estando presente na educação muitos profissionais não têm a consciência dessas determinações.E esses elementos que estão implícitos a classe dominante luta para que não seja de 79 domínio de todos, pois só assim pode permanecer exercendo seu domínio hegemônico. Com Vazquez (1978, p. 6) concorda-se que a; ”práxis é atividade material do homem social”. Nessa compreensão, afirma-se que o homem só pode ser compreendido no social enquanto sujeito histórico que trava relações com outros homens nessa atividade material produz sua vida, possibilitando o desenvolvimento de si e dos outros seres humanos, tem novas perspectivas, enfim constrói e manifesta uma nova prática social. A educação contribui na construção da prática social, e nessa dinâmica configuram-se as relações entre Educação e Política. Essa relação é trabalhada por Saviani quando afirma que é necessário considerar a existência de uma relação interna entre a prática educativa e a política, e explica que: A dimensão política da educação, consiste em que, dirigindo-se aos não antagônicos a educação os fortalece(ou enfraquece) por referência aos antagônicos e desse modo potencializa(ou despotencializa) a sua prática política.E a dimensão educativa da política consiste em que, tendo como alvo os antagônicos, a prática política se fortalece (ou enfraquece) na medida em que, pela sua capacidade de luta ela convence os não antagônicos de sua validade (ou não-validade) levando-os a se engajarem (ou não) na mesma luta. (SAVIANI, 1987, p. 88). Nesta perspectiva, Saviani afirma ainda, que em sua existência histórica, educação e política devem ser entendidas como manifestações da prática social, própria da sociedade de classes. Isto significa que uma sociedade dividida em classes e com projetos antagônicos precisa ser compreendida a partir do que cada projeto propõe para a educação. E em qual concepção de homem pretende fundamentar a formação e qual a relação entre a política e educação. Nessa mesma linha de pensamento, Cury afirma que: A possibilidade da educação assumir “a função política de arma crítica” existe porque ela pode 80 desenvolver as reproduções das relações sociais de forma ampliada apresentando as contradições que ocorrem na sociedade. (CURY, 1979). Na medida em que se pretende analisar as políticas públicas de formação continuada, necessário se faz, compreender os nexos entre a educação e a política e de que forma são compreendidas no interior das unidades educacionais. Nesse sentido, questiona-se: Como a escola operacionaliza as políticas públicas? Cury prossegue afirmando: ”Ao nível do político a educação prepara as gerações segundo os padrões axiológicos estabelecidos, tenta legitimá-los e tornálos senso comum.” (CURY, 1979, p. 68). Depreende-se dessa análise, a importância desses elementos estarem presentes nas discussões e nos planejamentos no interior das unidades educacionais, porque muitas vezes os profissionais não têm a consciência que a direção empregada nas suas práticas educativa estão legitimando os padrões ideológicos impostos pelas políticas educacionais e pelos ditames do capitalismo, onde impera o individualismo e a competição. O homem ao realizar atividade que vai além do imediato, planeja, intencionaliza e organiza meios materiais para a realização de sua ação. Assim materializa a sua atividade, e nessa perspectiva por intermédio de mediações, transforma em realidade o que anteriormente era apenas o aspecto ideal. Desse modo, considera-se que a compreensão da práxis é um elemento essencial para pensar uma formação continuada com elementos que promovam a transformação e que seja instrumento de mediação para uma nova prática superadora. A educação situada a partir da práxis pode contribuir para a superação dessa sociedade competitiva, individualista, injusta e excludente, por isso a necessidade de trabalhar-se com o conceito de práxis no desenvolvimento da 81 formação continuada e aplicar o que Vazquez desenvolve: “A teoria em si não transforma o mundo. Pode contribuir para a sua transformação, mas para isso tem que sair de si mesma, e em primeiro lugar, tem que ser assimilada pelos que vão ocasionar”. (VAZQUEZ, 1990, p. 206). Portanto, ao organizar uma proposta de formação continuada não basta planejar os conteúdos, é essencial pensar a partir da análise da totalidade, de forma que o profissional possa transformar esses conteúdos em domínios da cultura produzida coletivamente, o que demanda um debate crítico em torno dessas questões. Exige ainda que os educadores reflitam sobre o compromisso que possuem frente ao atual momento político e econômico do país. Portanto, é preciso considerar a importância da teoria e seu papel fundante no trabalho pedagógico, ou seja, a teoria permite aprofundar os nexos entre a função social da escola e a dimensão da gestão educacional frente às políticas públicas educacionais. Vale a afirmação de Vazquez: Mas se a teoria não muda o mundo, só pode contribuir para transforma-lo exatamente como teoria. Ou seja, condição de possibilidade - necessária, embora insuficiente - para transitar conscientemente da teoria à prática e, portanto, para que a primeira cumpra uma função prática, é que seja propriamente uma atividade teórica - na qual os ingredientes cognoscivos e teleológicos sejam intimamente vinculados e mutuamente considerados. (VAZQUEZ, 1990, p. 207). Essa reflexão contém a essência da indissociabilidade da teoria e prática, pois a teoria para cumprir sua atribuição prática é preciso que seja necessariamente teórica. Assim, a teoria, por superação, deixa de ser apenas teórica e avança por meio de mediações na vida material e transforma esse material em uma nova prática resultante de sínteses superadoras. No âmbito dessa questão apresenta-se a relação da formação continuada dos profissionais da educação no sentido de analisar em qual concepção se situam as políticas públicas da formação continuada se na perspectiva aditiva, na qual a 82 Formação continuada é considerada um suplemento, um acréscimo a formação básica, porque os conteúdos trabalhados na graduação não foram suficientes, ou no sentido de uma formação continuada na perspectiva dialética com a graduação, na qual os conhecimentos adquiridos na graduação são superados pela incorporação de novos conhecimentos científicos. Neste sentido, vale dizer que a importância da formação continuada encontra-se no reconhecimento do seu compromisso em superar recursos meramente teóricos e centrar na atividade material, com base em elementos que a planejam com intencionalidade definida por si e não por uma intencionalidade imposta ideologicamente. Com essa compreensão, a formação continuada parte da realidade material, da análise das necessidades e condicionantes presentes na educação e apresenta propostas de superação desses determinantes e nesse caminho reflete,analisa e elabora novas teorias que contribuem para a consolidação de novas práticas. Nesta perspectiva, trabalha-se com a compreensão dialética da totalidade assim expressa por Kosik: “o todo se cria a si mesmo na interação das partes”. (KOSIK, 2000, p. 54). É nessa compreensão dialética que partilha-se nessa pesquisa e entende-se o sentido da formação continuada, ou seja uma formação que aborde os elementos contraditórios na educação, na sociedade, num movimento que permita compreender em que projeto de sociedade esta ocorrendo a formação e que homem deseja-se formar nesse desenvolvimento educacional a fim de superar a exclusão, a indignidade, a subalternidade, o desespero e a sociedade desajustada em que se vive. E ainda nesse embate político de projetos antagônicos pode se questionar qual o conhecimento da realidade que a formação continuada proporciona? 83 4 REPENSANDO A FORMAÇÃO CONTINUADA As transformações que vêem ocorrendo no mundo contemporâneo, em conseqüência dos processos de globalização, afetando a sociedade mundial e o nosso país, exigem o exame das condições objetivas destes impactos na sociedade brasileira, a fim de se poder perceber os desafios que elas nos apontam e os possíveis encaminhamentos ou respostas para as políticas públicas, a administração da educação e as políticas de formação de profissionais da educação. (FERREIRA, 2006 c, p. 97). De acordo com a autora supracitada, é importante analisar os nexos entre a gestão da educação, as políticas públicas e a formação dos profissionais da educação. Há necessidade de pensar as alterações do mundo contemporâneo, analisar as determinações históricas presentes na sociedade e o impacto que ocasionam na educação. Propõe, ainda, pensar também como estão organizadas a administração da educação e as políticas públicas de formação dos profissionais da educação, e quais as possibilidades e limites presentes nessas relações. Essa análise encaminha a uma reflexão crítica sobre as condições históricas que originaram a formação continuada, e a uma analise dos elementos que têm constituído a essência das propostas de formação, e quais as incidências no fenômeno educativo. Compreende-se que a formação continuada deve ser concebida a partir do principio da gestão democrática, para atender às demandas da educação, na perspectiva da formação integral, refletindo sobre questões éticas, políticas, sociais e econômicas. Nesta compreensão, a formação continuada constitui uma das mediações para a construção de projetos políticos pedagógicos que configurem uma formação de homens e mulheres na perspectiva da omnilateralidade. O trabalho pedagógico define-se a partir da compreensão da realidade histórica e da maneira como é interpretada essa construção histórica. Nesta direção, 84 Kosik afirma que: O conhecimento da realidade histórica é um processo de apropriação teórica – isto é, de critica, interpretação e avaliação de fatos – processo em que a atividade do homem, do cientista é condição necessária ao conhecimento objetivo dos fatos. (KOSIK, 2002, p. 54). Deve-se considerar não apenas um aspecto da realidade que constitui a formação continuada, principalmente a exarada nas políticas públicas, mas, ao contrário, buscar o duplo aspecto, ou seja, o contexto da realidade e o contexto da teoria, o que está expresso nas políticas públicas. É preciso ainda, desvelar a essência que as caracteriza, e os impactos que diretamente ocorrem no fenômeno educativo, para situar o trabalho pedagógico no contexto das práticas sociais e encaminhar uma formação que contemple a totalidade do fenômeno educativo e que, efetivamente, promova emancipação humana. Exige também analisar quais as alterações que se sucedem as propostas emanadas em lei. E se essas alterações são seguidas na escola, apenas na perspectiva técnica, para cumprir procedimentos legais e inevitáveis ou são aplicadas com critérios e buscando alternativas de superação. Reforçando esse pensamento, Cury argumenta “A educação pode tornar-se um saber instrumento que possibilite o caminho do visível ao invisível, do fenômeno ao estrutural e, com isso, superar o caráter ambíguo dessa contradição”. (CURY, 1979, p. 8). Essa possibilidade aponta para a necessidade de desvelar as posições de caráter excludente presente na sociedade capitalista, e que diretamente, por meio das políticas públicas, permeiam o fenômeno pedagógico, gerando uma gestão da educação não para a transformação, mas para a continuidade. Para tanto, é necessário partir do fenômeno manifesto, aquilo que está expresso no trabalho 85 pedagógico, na sala de aula, no material pedagógico e a relação com a estrutura desse fenômeno. Com o intuito de superar a realidade e a gestão para a manutenção da sociedade excludente, Ferreira discorre sobre a importância da educação trabalhar com a convicção do princípio da gestão democrática. A gestão da educação ao concretizar as direções traçadas, estuda, examina, as condições e coloca em prática os objetivos das políticas públicas na complexa “trama“ das relações sociais mundiais. Desta forma, a gestão da educação assume mais do que nunca, o papel fundamental na condução da educação e do ensino. (FERREIRA, 2006 c, p. 297). Com essa reflexão afirma-se cada vez mais a necessidade do trabalho docente estar fundamentado na gestão democrática, porque só a partir desse princípio é possível lutar por uma construção coletiva de um novo projeto educacional, que privilegie a participação coletiva e valorize o ser humano como sujeito histórico. Ferreira analisa, ainda, que para ressignificar a administração da educação necessário se faz, que sejam examinadas as inter-relações que existem no mundo globalizado e que geram determinações para novas formas de organização e gestão da educação. E nessa linha de pensamento pode-se analisar, a relação do que é trabalhado no processo institucionalizado de formação inicial dos profissionais da educação com as condições históricas – sociais no mundo hodierno, e as implicações futuras enquanto profissional da educação efetivamente na sala de aula. Reforçando esse pensamento Severino assegura que: A formação do educador à luz de uma concepção de educação comprometida com o processo social exige que ele seja pensado como profissional, com tudo o que isso implica no plano científico e técnico. (SEVERINO apud FERREIRA, 2004, p. 189). 86 Essa reflexão contribui para a análise das possibilidades da gestão escolar pensar a construção do seu projeto político pedagógico envolvendo os aspectos, cientifico, técnico, e acrescenta-se o político, como um elemento que necessariamente se faz presente nas relações pedagógicas, embora muitas vezes não se tenha a consciência de sua determinação. Contribui, ainda, para essa análise Vasquez, ao afirmar que para uma real mudança é preciso ir além de uma atividade teórica, ou seja, não é suficiente pensar um fato é preciso revolucioná-lo. No âmbito dessa questão, é possível apresentar o seguinte problema7. A formação continuada está sendo pensada como um fato ou objetiva revolucioná-la, está se acomodando ao existente ou está comprometida em superar o cancro do individualismo reinante rumo à solidariedade? Neste contexto, Ferreira alerta a respeito das políticas públicas da formação inicial e de formação em serviço: O estatuto e o valor da formação continuada não poderão se reduzir e se circunscrever a programas de “educação de adultos“, de “formação continuada de professores“ e de “educação compensatória“ como os que tem sido desenvolvidos, mas deverá se constituir de todos os elementos e recursos que permitam ao novo cidadão ter possibilidade de trânsito entre as culturas dos diferentes povos, com a compreensão democrática de respeito a todas as diferenças e com a permanente possibilidade de acesso aos recursos necessários a essa formação. (FERREIRA, 2003, p. 28). A partir dessa compreensão, necessário se faz, examinar também os nexos entre as políticas de formação e a cidadania. Esta categoria – cidadania - que necessariamente lembra a Revolução Francesa. Buffa (1987) encaminha uma reflexão nesse sentido e focaliza algumas questões. A burguesia, quando emergente, defendia idéias universais, entre eles a cidadania. A defesa da cidadania 7 O termo problema é emprestado a Saviani que explicita.Uma questão, em si,não caracteriza o problema, nem mesmo aquela cuja resposta é desconhecida;mas uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer, eis ai um problema. (SAVIANI, 1994, p. 21). 87 nesse projeto burguês revela também a necessidade da educação estar a serviço de seu projeto. Historicamente, o modo de produção, ao ser transformado foi alterando a forma do homem se relacionar com a natureza e com os outros homens. Com o trabalho organizado a partir da manufatura, as relações de propriedade e as relações do trabalhador com o empregador foram modificadas. O trabalhador agora é compreendido como livre, entretanto, é livre para dispor da sua força de trabalho como mercadoria. Nessa organização ocorre á divisão parcelar do trabalho. Essas transformações na produção da vida material provocam também transformações na vida política e com isso alterações na vida escolar. Buffa lembra que o discurso pedagógico burguês era definir “uma educação de base para todos porque há uma igualdade natural entre os homens, educação essa que forma o cidadão”. (BUFFA, 1987, p. 22). A idéia de nivelar a educação resulta do fato do trabalho na manufatura ter sido também nivelado. Nesta direção, o que se exigia do trabalhador não era a qualificação, mas sim um trabalhador disciplinado. E essa disciplina cabia à escola desenvolver. Vale ressaltar, que a educação comum proposta para todos era até um certo período, após haveria uma educação contínua para aqueles que seriam os dirigentes. Para a maioria, o ensino dos seis aos doze ou treze anos de idade tinha o objetivo de ensinar o básico, e que seria útil na vida, ler, escrever, contar. Isto remete a um questionamento: O que efetivamente mudou hoje? O quanto de permanência dessas condições e determinações ainda está presente na sociedade e na educação? Nessa mesma linha de análise Arroyo, afirma que na configuração da nova ordem política decorrente das alterações ocorridas no final da Idade Média, no Renascimento e no Século das Luzes veio a exigir que a educação configurasse o 88 novo homem livre para o novo mercado. Neste contexto, a educação passou a ser compreendida como elemento essencial nos mecanismos de controle na nova ordem social. Para participar dessa nova sociedade é preciso que o homem seja formado para saber conviver socialmente, que vença a barbárie e a ignorância. (ARROYO, 2001). Diante dessas análises, questiona-se a formação continuada contribui para a reflexão sobre a relação cidadania e educação, ou seus encaminhamentos não abordam essas questões e trabalham com uma visão fragmentária com pseudoconcreticidade, compreendendo a realidade com nuances de claros e escuros. (KOSIK, 2002). Portanto, compreende-se que é compromisso da formação continuada superar essa pseudoconcreticidade e trabalhar com o desvelamento do fenômeno concreto. Para compreender melhor esse duplo contexto recorre-se ao conhecimento da realidade histórica, como historicamente vem se constituindo a formação continuada no Brasil. 4.1 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA FORMAÇÃO CONTINUADA NO BRASIL Analisar a construção histórica dos programas oficiais para a formação dos profissionais da educação é lançar-se ao desafio de buscar compreender o que apresenta -se exarado na legislação e os objetivos reais que se propõem a atender as propostas de formação, bem como as origens do que hoje se denomina “formação continuada”. Assim, retoma-se historicamente como tem-se constituído a formação continuada, quais suas origens e concepções. Furter foi pioneiro na compreensão da necessidade de continuidade de qualificação humana, ao desenvolver estudos sobre 89 a educação permanente. Assim, afirma que: “A Educação Permanente fica sendo uma maneira radical de responder às mudanças profundas que ocorreram em nosso mundo”. (FURTER, 1987, p. 129). Furter destaca que é preciso ter prudência ao abordar a educação permanente, sendo necessário eliminar certas imagens e concepções equivocadas. Analisa primeiro que existe uma idéia de que a Educação Permanente englobaria o extra escolar. A educação seria completa a partir do acréscimo de conteúdos que estivessem fora da escola, daí o prefixo extra. Seria ainda, um complemento ao que tivesse adquirido no contexto formal. Seria a afirmação da dicotomia o que a escola ensina e o que a vida ensina. A educação permanente não aceita essa dicotomia, pois acredita que só existe uma cultura, que é preciso elencar quais aspectos serão trabalhados na escola como educação formal. Uma outra interpretação da educação permanente compreende-a como educação complementar àquela que vinha recebendo na sua formação. Essa idéia é confundida com o conceito de educação prolongada. Outra compreensão equivocada identifica a educação permanente unicamente com uma geração, que seria a juventude ou os adultos. E, por último, a identificação da educação permanente com uma forma de educação popular ou de promoção de cultura popular. Em síntese, conclui que a educação permanente não pode ser reduzida nem a educação extra-escolar, nem complementar, nem prolongada e nem tampouco apenas de adultos. Essas visões são interpretações fragmentadas da realidade e só tratam uma parte do problema. A educação permanente não pode ser enfocada como um apêndice. Destaca, ainda, o autor, que é preciso discutir o sistema, está faltando base para o sistema, e essas são as questões que devem ser consideradas. (FURTER, 1987). Prosseguindo na análise histórica, recorre-se a Melo, que analisa a formação dos professores da educação básica destacando dois eventos ocorridos 90 na última década: a Conferencia Mundial de Educação para Todos, realizada em 1990, em Jomtiem, Tailândia, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n 9394, aprovada em 1996. A Conferência constituiu-se em elemento importante do processo de universalização da educação proposto pelos organismos internacionais. A influência desta Conferência no Brasil revelou-se no fato de que a formação dos professores volta a ser destacada. Primeiramente, no Acordo Nacional e no Pacto pela Valorização do Magistério e Qualidade da educação, documentos sínteses das intenções e prioridades do Plano Decenal de Educação para Todos. Houve um consenso possível firmado entre o pode público, as organizações governamentais e as entidades acadêmicas e sindicais do movimento de educadores brasileiros. Esse consenso foi posteriormente ignorado pelo governo. A seguir, a formação tem novo destaque nos estudos do planejamento estratégico realizado pelo Fórum Permanente pela Valorização do Magistério e Qualidade da educação. Nesse período realizaram-se vários debates, mas não houve o cumprimento pelo presidente da República, do Acordo Nacional de 1995. (MELO, 1999). Melo alerta que a LDB apresenta contradições e ambigüidades em relação à Formação dos Profissionais da educação. Inicialmente, apresenta a contradição em relação ao artigo 21. A educação escolar compõe-se de: a) educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; b) educação superior. Como pode-se observar, a educação nacional é composta apenas por dois níveis: a educação básica e a educação superior. Portanto, a educação básica deve ser considerada como fundamental, essencial. 91 Cury destaca que é preciso analisar o conceito de educação básica, pois parte da etiologia do termo base, que provém do grego básis, eós e significa pedestal, suporte, fundação. (CURY, 2002) No Brasil a educação básica pode representar a busca por superação do modo elitista e seletivo e propõe o direito ao conhecimento pela ação sistemática da organização escolar. Neste entendimento, a LDB instaurou o conceito de educação básica como direito a cidadania e dever do Estado. Todos esses elementos atualmente, na lei, se propõem a atender uma formação cidadã. Entretanto, a presença de órgãos internacionais tem direcionado a educação no Brasil com elaboração de políticas educacionais na perspectiva neoliberal, o que tem revelado que as políticas públicas não apresentam proposições suficientes para atender os objetivos propostos na LDB. Cury alerta que na década de 90 cresceu significativamente a presença dos órgãos internacionais no Brasil, alguns deles encaminhando o financiamento, como Banco Mundial (BID e BIRD) e outros órgãos centralizados na cooperação técnica (UNICEF e UNESCO). Com esses procedimentos decorrentes da globalização, houve a minimização da atuação do Estado em vários campos, inclusive na educação. (CURY, 2002). O nível da educação básica precisaria atender o que dispõe no art. 22 da LDB: ”A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurarlhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.” Neste sentido, Melo destaca, que os programas oficiais de formação de professores precisariam considerar o que contempla a LDB, no que se refere ao real exercício da cidadania. Entretanto, as políticas educacionais fragmentam a educação básica em ensino médio e ensino fundamental. Nesta direção fratura-se a 92 educação básica, fratura-se o financiamento, fratura-se a organização dos sistemas.Que unidade restará para os programas de formação e para a identidade profissional do professor? (MELO, 1999) Com este encaminhamento, a política oficial de formação encaminhada pelo governo trata a formação dos professores da mesma forma fragmentada que trata a formação básica. Melo afirma que a LDB concede ao professor uma exigência maior formulando-lhe responsabilidades assim expressas no artigo (13,). Os docentes incumbir-se-ão de: I - Participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; Esse artigo da LDB apresenta a possibilidade do professor participar efetivamente da democratização da gestão. E esse elemento necessita estar presente nos programas oficiais de formação do professor, de forma que possa superar a idéia de que aos professores são apenas acrescentados novas incumbências, sem que sejam oferecidas condições para que se efetive o seu trabalho com qualidade. Neste aspecto, Melo destaca ainda: Convém lembrar uma das contradições que estamos vivendo na conjuntura educacional: no momento em que o ato educativo se torna mais complexo e as exigências de escolarização mais presentes, ocorre um certo empobrecimento cultural e reduzem –se as metas e os objetivos da formação docente, evidenciando grande descompasso entre as políticas de formação e os objetivos proclamados de melhorar a qualidade a educação pública. (MELO, 1999, p. 50). A partir dessas considerações, faz se necessário analisar se as políticas de formação previstos na LDB e os programas de formação que compõe as políticas públicas contemplam as condições objetivas para realizar um trabalho pedagógico na perspectiva da gestão democrática e com o efetivo aprimoramento da qualidade do ensino. 93 Melo destaca que os programas oficiais de formação atendem prioritariamente a educação básica. Nesta direção, o Ministério da Educação é pragmático e submisso aos ditames do Banco Mundial. A autora ressalta, ainda, que existe uma certa confusão sobre os programas de formação em vigor, especificamente em relação à imposição de uma identidade entre capacitação e formação de docentes: Parece haver uma redução na concepção de formação docente, de modo a colocá-la tão somente no âmbito da capacitação. Ou seja, os instrumentos, mecanismos e conteúdos escolhidos pretendem se voltar, fragmentariamente, para um dos aspectos da formação docente, que é como podemos considerar a capacitação em serviço. (MELO, 1999). A ênfase no pragmatismo tem restringido a formação a projetos aligeirados e efêmeros, em detrimento da elaboração de políticas de formação que visem a emancipação humana e se alicercem na concepção de que o investimento no profissional da educação possibilita o aprimoramento da qualidade de ensino. Da mesma forma crítica, Kuenzer analisa a LDB, e afirma que o novo modelo de formação de professores vem a atender às novas demandas do mundo do trabalho a partir da acumulação flexível, de acordo com as políticas das agências financeiras internacionais para os países pobres e que foram assumidas na integra pelo governo brasileiro. Essas políticas conduzem a uma concepção de sistema educacional que articula formação e mercado. E, nesta direção, o sistema busca assegurar que a maioria da população tenha acesso a educação fundamental, independente da qualidade. A adesão a essa política implica a adoção do princípio da racionalidade econômica, em decorrência da compreensão de que a educação fundamental é: “Um bom antídoto contra a barbárie, desde que articulada a alguma forma de preparação para a sobrevivência na informalidade”. Com base nesse princípio o conceito de universalidade do direito à educação passa a ser substituído 94 pelo da equidade, onde cada um recebe de acordo com sua diferença. (KUENZER, 1999). Analisando a construção histórica das políticas públicas de formação podese dizer que distante de promover a humanização dos profissionais da educação, essas políticas têm contribuído para reprodução de desigualdades e não atendem aos objetivos propostos. Vale destacar a contribuição de Vazquez relativa à essencialidade do processo histórico: “O homem comum e corrente é um ser social e histórico, ou seja, encontra-se imbricado numa rede de relações sociais e enraizado num determinado terreno histórico”. (VAZQUEZ, 1978, p. 9). A partir dessa afirmação de Vazquez ressalta-se a importância da perspectiva histórica na compreensão da formação continuada no Brasil, ou seja, é preciso ir além do que o fato, formação continuada, apresenta de imediato, neste sentido busca-se compreender como que no Brasil essa formação foi constituindo-se social e historicamente. Como se apresentou historicamente a necessidade da formação continuada? A que projeto de sociedade veio atender? Que perspectiva ideológica representa? Ferreira assevera em relação às políticas de formação continuada: No que concerne à formação dos profissionais da educação, percebe-se, no conjunto das reformas, o descomprometimento com a formação inicial,a supervalorização de uma política de formação em serviço que se dá, ocorre de um modo geral, deforma aligeirada e a inexistência de políticas de valorização desses profissionais.Na verdade, a política de formação continuada de professores tem se tornado uma política de descontinuidade, pois “caracteriza-se pelo eterno recomeçar em que a história é negada, os sabres são desqualificados, o sujeito é assujeitado, porque se concebe a vida como um tempo zero”. (FERREIRA, 2003, p. 28). A partir dessa compreensão de Ferreira, é oportuno afirmar que necessário se faz discutir profundamente as políticas de formação continuada, e a exigência que se faz para que os profissionais da educação não se limitem a executar o que 95 está exarado na legislação, mas, sim procurar compreender o que não está visível. E, ainda, para que se proponham a discutir a qualidade da formação e a quais interesses está atendendo, e de que forma historicamente vem se constituindo politicamente essa formação. Freitas analisa historicamente a formação do profissional da educação no Brasil e destaca que os anos 80 representaram a passagem, ou superação da tendência tecnicista que predominava na educação e no que concerne à formação para a cidadania e, conseqüentemente, para a formação de profissionais da educação. A partir desta década produziram-se trabalhos científicos baseados na concepção dialética que contemplava a totalidade do fenômeno educativo, e de uma formação que contemplasse o desenvolvimento da consciência crítica, permitindolhes interferir e transformar as condições da escola, assim como de educação e de sociedade. (FREITAS, 2002). Houve, então, a preocupação em superar a fragmentação presente na relação entre professores, especialistas, pedagogia e licenciatura. Acreditava-se que nessa superação a educação avançaria para a construção de projetos coletivos e, sobretudo, caminhava para o fortalecimento da gestão democrática na escola, pois “descobriu-se“ o que Marx já no século XIX havia escrito: a omnilateralidade, como concepção de formação humana em todas as dimensões, e a necessidade de tratamento do fenômeno educativo na sua totalidade. As categorias dialéticas fizeram-se necessárias e compreendeu-se que só a partir delas é possível formar para a cidadania na sua totalidade de possibilidades. Desta forma, elaborou-se a concepção de profissional da educação, que tem como característica básica, a docência e o trabalho pedagógico. (FREITAS, 2002) Trabalhar com a formação do profissional da educação e a especificidade da formação continuada exige a compreensão das condições econômicas, políticas e 96 sociais de uma sociedade que se apresenta com base capitalista marcada pelas relações de produção, excludente, não igualitária que impõe à maioria dos seres humanos, situações de miséria e de exploração. Por isso, é preciso situar a educação no interior dessas relações sociais impostas e desiguais, para compreender os determinantes presentes nas políticas públicas educacionais que induzem a um comportamento de reprodução da ideologia dominante no interior das unidades educacionais. A educação na perspectiva neoliberal é exclusiva e excludente, e centrada no individualismo e na competição. Como assim destaca Frigotto: Ao individualismo do credo neoliberal somam-se os argumentos fundados no credo do pós-modernismo que realçam as diferenças individuais e a alteridade. Neste particular a diferença e a diversidade, dimensões importantes da vida humana, mascaram a violência social da desigualdade e afirmam o mais canibal individualismo. (FRIGOTTO, 2005, p. 71). Diante do exposto, faz-se necessário aprofundar o princípio próprio da ideologia burguesa, o individualismo. Esse princípio é examinado por Ferreira, quando analisa a forma de organização das matrizes do pensamento liberal fundado no individualismo, relacionando com o momento atual no qual essa categoria encontra-se fortalecida gerando um quadro de desagregação profunda: As relações entre o indivíduo e a sociedade oscilam, hoje, entre dois extremos: o individualismo e o totalitarismo, graças a condições sociais particulares realizadas no mundo contemporâneo ocasionadas pelas transformações revolucionárias da ciência e da técnica.Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem e da mulher enquanto indivíduo,a sua capacidade de opor resistência ao crescimento mecânico da manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram uma redução. (FERREIRA apud SERRA, 2000, p. 225). A educação, infelizmente tem utilizado muito do que esta sendo discutido por Ferreira. O homem parece estar sendo reduzido a cumprir o que está determinado por outrem e, paradoxalmente, afirma ser livre, mas cada vez mais gera a sua 97 própria dependência a manipulação hegemônica. E a educação encontra-se fortemente sob essa influência, aceitando “pacotes” com direcionamentos que, ao invés de contribuir para a formação humana tem levado ao acirramento das políticas neoliberais no interior da escola. Portanto, ter o esclarecimento sobre essas determinações é necessário e urgente. E para que ocorra a transformação desse quadro e propor resistência a essas demandas, necessário se faz utilizar-se das transformações revolucionárias da ciência e da técnica em prol da emancipação humana. Freitas afirma que na década de 80 havia uma reação ao pensamento tecnicista da década de 1960 e 1970. Entretanto na década de 90, a ideologia neoliberal impôs uma centralidade no individualismo e na construção de competências e habilidades tornando-se estes elementos nucleadores do trabalho na escola. Neste sentido, houve uma ruptura nas discussões que foram gerados na década de 80. Freitas alerta, ainda, que nesse movimento houve um abandono da categoria trabalho, sendo substituído por categorias que representam outra concepção, conservadora neoliberal. Desta forma, portanto, tomam a dimensão de maior importância na escola as categorias prática e prática reflexiva. Neste sentido, acreditava-se que a educação passava a viver um movimento intenso de discussão e afirmação de que os alunos estariam sendo formados como sujeitos críticos. No entanto as diretrizes pedagógicas aplicadas tinham no seu núcleo a concepção neoliberal que provocava alienação e ao contrário de sujeitos críticos formava sujeitos reprodutores da ideologia dominante. (FREITAS, 2002). Na década de 80, iniciou-se também a ser difundidas as idéias de Donald Schön, as quais abordavam a concepção reflexiva na formação do professor reflexivo. Vale lembrar Facci que estabelece uma crítica ao professor reflexivo: 98 Se centrarmos nossos estudos sobre a profissão docente, considerando somente o eu pessoal e o eu profissional, deixaremos de considerar a historicidade que está presente na formação da personalidade. (FACCI, 2003, p. 62). A categoria reflexiva apresentada por Shon não é um elemento que deve ser acrescentado à formação, porque a reflexão já é um elemento básico do trabalho docente, quando o profissional da educação trabalha na perspectiva dialética. Portanto, desenvolver o ato pedagógico a partir do método dialético exige considerar as condições históricas e as determinações sociais econômicas e políticas que estão presentes na educação e na sociedade. Portanto, na concepção onde a essência do trabalho pedagógico centralizase na prática, mais ainda na prática reflexiva nega-se os estudos teóricos e a contribuição da teoria para desvelar os fetiches presentes na ideologia veiculada à escola, assim, as categorias da dialética tão necessárias para analisar a prática e propor um movimento entre o pólo teórico e o pólo prático que contribuem para superação da realidade, são negadas. Nesta negação, coloca-se outras categorias que por sua constituição contribuem para a manutenção. Neste sentido, recorre-se a Saviani, que afirmava em relação a Escola Nova: “Quanto mais se falou em democracia no interior da escola,menos democrática foi a escola (...)” (SAVIANI, 1987, p. 52). Da mesma forma parece que na década de 90 quanto mais se falou em formar sujeitos críticos mais se caminhou para formação de sujeitos alienados. Pode-se observar o quanto é difícil estabelecer uma pedagogia que ultrapasse as questões da vida cotidiana e que busque uma vida com apropriação com qualidade, na qual os educadores aceitem os desafios de trabalhar por uma superação da realidade que nega a emancipação humana e propor uma efetiva formação humana, no sentido da formação que promova o ser humano como sujeito 99 integral. Esta questão é trabalhada por Duarte ao afirmar o desafio dos educadores marxistas: 1) é preciso realizar o trabalho de educar as novas gerações tendo como perspectiva a superação do capitalismo, mas sabendo que esse trabalho educativo está sendo realizado em condições objetivas e subjetivas produzidas pela sociedade capitalista contemporânea, ou seja, realizado em meio ao processo de generalização da barbárie; 2) é preciso construir uma pedagogia marxista sabendo, porém, que tal construção não pode ocorrer a margem da luta sócio política cujo horizonte é o socialismo. 3) é preciso fazer crítica às correntes de pensamento integrantes do universo ideológico que dá sustentação às idéias educacionais sintonizadas com a sociedade capitalista contemporânea. (DUARTE apud LOMBARDI, 2005, p. 206). Ao propor esse desafio, Duarte defende um conceito de educação marxista que tem como principio a construção de uma pedagogia situada social e politicamente, com o compromisso de abranger a especificidade e complexidade do fenômeno educativo. Nesta análise histórica faz-se necessário destacar o compromisso assumido pelas associações cientificas no Brasil que tem buscado compreender os elementos que caracterizam a formação dos professores e, sobretudo, têm revelado a responsabilidade em colocar em evidencia as relações existentes entre sociedade e educação e as implicações na organização da escola. Essas associações têm disponibilizado uma discussão com os profissionais da educação, ampliando o debate a cerca desse tema fundamental a formação continuada dos profissionais da educação, e analisando as conseqüências das políticas públicas no trabalho educacional. Entre as associações cientificas destaca-se a ANFOPE - Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da educação. A ANFOPE é resultado da CONARCFE (Comissão Nacional pela Formação dos Educadores), criada em 1983, transformou-se em ANFOPE no ano de 1990. Essa associação tem estado frente a 100 movimentos em busca da superação das limitações presentes nos cursos de formações de professores. Para efetuar a análise da retrospectiva histórica da formação continuada toma-se como base também o Documento gerador para Debate nos grupos temáticos do IX encontro Nacional da ANFOPE - Campinas 1998. O movimento pela reformulação dos cursos de formação dos profissionais da educação começou em 1978, durante o I Seminário de Educação Brasileira, realizado em Campinas, no contexto das lutas contra o regime militar e pela democratização da sociedade. Em 1980, durante a I Conferência Brasileira de Educação, realizada na PUC de São Paulo, é criado o Comitê Nacional Próformação do Educador (com sede em Goiânia, criado com o objetivo de mobilizar professores e alunos em torno da reformulação do curso de Pedagogia que desde 1975, com os Pareceres do Professor Valnir Chagas, estava colocado em debate a nível nacional nas discussões sobre a formação do educador. O comitê apontava a necessidade do debate de ir além apenas do curso da pedagogia deveria ser estendido a todas as licenciaturas). Aconteceram vários encontros para delinear os princípios e as questões relevantes à formação do educador. No V encontro, foi abordada a primeira referência ao tema Formação continuada, iniciando no interior da ANFOPE, as discussões sobre formação continuada, que são aprofundadas a partir do VII encontro, que cria um Grupo Temático especifico para a formação continuada. O VI encontro (1992) aprofunda a questão da base comum nacional da formação na graduação e reafirma a importância de inserir a temática da formação do educador em uma política educacional global, que contemple o tripé: formação básica, condições de trabalho e formação continuada, como condição de melhoria da qualidade do ensino. 101 Freitas afirma que esse movimento caracteriza-se pela luta dos profissionais da educação em vincular a formação às grandes questões sociais e ao movimento dos trabalhadores pela construção de uma sociedade, democrática e justa. Nesse sentido, a busca por uma formação de qualidade parte da contextualização das condições econômicas, políticas e sociais na sociedade excludente e desigual. Nesta perspectiva, ”Pensar a escola e sua forma de organização supõe, em contrapartida e ao mesmo tempo, apresentar questões que ultrapassam a concepção reducionista de educação como formação para a cidadania”. (FREITAS, 1999, p. 141). No VI encontro ocorre uma sistematização da produção coletiva sobre a base comum nacional que depois é retomada no documento final do VI encontro em 1994 e no VIII encontro, na plenária é aprovada uma série de recomendações no sentido de “aprofundar o debate sobre a Base comum Nacional, precisando melhor os conceitos: eixos curriculares ou princípios e pressupostos teóricos- metodológicos”. Cabe destacar que o conceito de base comum nacional que havia sido construído pelos educadores e pela ANFOPE, não foi incorporado aos artigos da LDB Lei 9.394/96. A base comum foi contemplada apenas no art. 64 que trata da formação dos especialistas no curso de pedagogia ou pós-graduação, garantida, nessa formação, a base comum nacional. Essa base comum nacional proposta pela ANFOPE implicava recuperar nas reformulações curriculares, a importância do espaço para análise da educação enquanto disciplina, seus campos de estudo, métodos de estudo e status epistemológico, com a compreensão da totalidade do processo do trabalho docente e a luta contra as tentativas de aligeiramento da formação do profissional da 102 educação, com propostas tecnicistas para formá-lo nas disciplinas especificas como um profissional “prático“. Com relação à formação continuada a ANFOPE assim afirmou sua posição: A formação continuada, do ponto de vista da ANFOPE, trata da continuidade da formação profissional, proporcionando novas reflexões sobre a ação profissional e novos meios para desenvolver o trabalho pedagógico. Assim considera-se a formação continuada como um processo de construção permanente do conhecimento e desenvolvimento profissional, a partir da formação inicial e vista como uma proposta mais ampla, de hominização, a na qual o homem integral, omnilateral, produzindo-se a si mesmo, também se produz com o coletivo. (ANFOPE, 1998, p. 35). A concepção explicitada apresenta a idéia da formação integral na perspectiva de um trabalho pedagógico realizado na práxis. As questões que tem orientado os debates na construção de uma formação superadora da sociedade excludente destaca -se a partir de Freitas: Os educadores vêm construindo teórica e praticamente a concepção de base comum nacional entendendo-o como instrumento de luta contra a degradação da profissão e que hoje se manifesta como poderoso referencial para garantir a igualdade de condições de formação em oposição à concepção de igualdade de oportunidades originárias da nova concepção de equidade tão enfatizada no novo glossário da pósmodernidade e nas políticas públicas atuais. (FREITAS, 2002, p. 3). A ANFOPE avança nas discussões sobre a formação continuada, no ano de 1994, por ocasião do VII encontro, cria o Grupo Temático Formação Continuada.Isto contribuiu para dar organicidade as propostas sobre esse tema. Mais tarde em 1996, os princípios norteadores de uma proposta de formação continuada de formação de professores começaram a tomar maior consistência e foram assim explicitados: a) constituir direito de todos os profissionais da educação e dever das agências contratantes que deverão criar condições para a sua operacionalização; 103 b) ser associada ao exercício profissional do magistério,uma vez que atualiza,aprofunda e complementa conhecimentos profissionais; c) estar fundamentada nos objetivos do projeto político pedagógico da instituição em que atua o profissional que pretende se aperfeiçoar; d) respeitar a área de conhecimento do trabalho do professor; e) resguardar o direito à especialização permanente do professor; f) ser um processo de interface com o profissional em serviço, no sentido de tratar os aspectos teóricos em articulação com seus problemas concretos; g) valorizar a produção de saberes construídos no trabalho docente. A produção teórica do movimento dos educadores revela uma concepção de homem omnilateral, pois apresenta propostas de superação das dicotomias presentes na formação de professores e dos especialistas, entre bacharelados e licenciaturas e entre pedagogia e demais licenciaturas. Nesta perspectiva, evidenciase a intima relação entre a forma de organização da escola na sociedade capitalista e a formação do educador. No I encontro Nacional, realizado em 1983 com o objetivo de contrapor à idéia de formação do pedagogo generalista, foi elencado um conjunto de princípios norteadores, que vem sendo construídos, retomados ressignificados na trajetória da ANFOPE. Esses princípios são orientadores do exame, da análise e das propostas de estrutura e organização curricular e institucional dos cursos de formação de profissionais da educação, os quais podem ser assim sistematizados: a) sólida formação teórica e interdisciplinar sobre o fenômeno educacional e seus fundamentos históricos, políticos e sociais, bem como o domínio dos conteúdos específicos a serem transmitidos pela escola, que permita a apropriação do processo de trabalho pedagógico; 104 b) unidade teoria /prática que implica assumir uma postura em relação ã produção de conhecimento que impregne a organização curricular dos cursos; tomar como princípio educativo na formação profissional,revendo-se os estágios e sua relação com a rede pública e a forma de organização do trabalho docente na escola; e ênfase na pesquisa como meio de produção de conhecimento e intervenção na prática social; c) gestão democrática como instrumento de luta contra a gestão autoritária na escola,entendida como superação do conhecimento de administração enquanto técnica, afim de apreender o significado social das relações de poder que se reproduzem no cotidiano da escola, nas relações entre os profissionais, entre estes alunos assim como na concepção e elaboração dos conteúdos curriculares; d) compromisso social e político do profissional da educação,com ênfase na concepção sócio-histórica de educador,estimulando a análise política da educação e das lutas históricas dos profissionais professores articuladas com os movimentos sociais; e) trabalho coletivo e interdisciplinar entre alunos e entre professores como eixo norteador do trabalho docente na universidade e da redefinição da organização curricular;a vivência e a significação dessa forma de trabalho e da produção de conhecimento permitem a apreensão dos elementos do trabalho pedagógico na escola e das formas de construção do projeto pedagógico-curricular de responsabilidade do coletivo escolar; f) formação inicial articulada à formação continuada,assegurando solidez teórico – prática na formação inicial e diálogo permanente entre o focus de formação inicial e o mundo do trabalho,por intermédio de programas e 105 projetos de educação continuada, correspondendo à concepção de uma formação em redes de conhecimento e saberes,incluindo os programas de pós-graduação. (ANFOPE, 1998). Freitas analisa que esses princípios orientadores são construídos e reafirmados a cada encontro nacional, e constituem-se como instrumento de análise e discussão das políticas atuais no campo da formação dos professores. Percorrendo um pouco mais a historia encontra-se na LDB, Lei de diretrizes e Bases da Educação – Lei no. 9.394/96, no seu artigo 61 referência à Formação continuada: Art. 61 - A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando, terá como fundamentos: Parágrafo - I - Associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço. Destacam-se dois elementos que contraditoriamente estão presentes e ausentes nesta lei. Primeiro,, parece que está considerando com igual medida prática e teoria, não considera o trabalho pedagógico como uma práxis, e este é reduzido a uma simples associação, ligar, mas não contempla o aspecto maior que esta presente na práxis. Outro elemento é a formação continuada ser tratada a partir de “ inclusive”, ou seja, não é dada a relevância necessária e tão pouco define qual a política pública para essa formação continuada. O Plano Nacional de educação, Lei no. 10.172, de 9 de janeiro de 2001, contempla no capitulo IV - Magistério da Educação Básica - Formação dos Professores e valorização do Magistério: A formação continuada assume particular importância em decorrência do avanço cientifico e tecnológico e de exigência de um nível de conhecimentos sempre mais amplos e profundos na sociedade moderna. 106 Este plano, portanto, deverá dar especial atenção à formação permanente (em serviço) dos profissionais da educação. Esse plano contempla a formação continuada apenas no sentido de atualização, ou ainda, para atender as demandas da sociedade capitalista, com objetivos de produção, produção. E onde está a necessidade do trabalho como expressão da práxis? Esses são alguns elementos que se consideravam importante para serem destacados como essenciais na formação continuada envolvendo uma relação mediada com o trabalho docente. Neste sentido, vincula-se a concepção da organização da escola à formação do educador relacionando-se também as questões sociais. Freitas afirma, ainda, que a luta pela formação do educador esta inserida na crise educacional brasileira relacionando com as condições políticas econômicas presentes na sociedade capitalista. E acrescenta outra questão a necessidade da gestão democrática da escola e da educação estar presente como uma concepção que sustenta a organização da educação. (FREITAS, 2000). A concepção de formação continuada exige necessariamente a relação com a concepção de educação, ou seja, optar por qual concepção: Acredita-se na educação centrada na prática ou centrada na atividade prática do homem? Essas são concepções antagônicas enquanto a primeira centraliza na ação prática, a segunda por sua vez com base marxista entende a educação como práxis. Neste sentido Koppnin assevera que: O marxismo demonstrou que a base mais essencial e próxima do pensamento humano é a mudança da natureza pelo homem: a prática.A incorporação da prática à teoria do conhecimento é a maior conquista do pensamento filosófico.A objetividade do conteúdo do nosso pensamento, a coincidência das leis do pensamento, comas leis do ser é obtida e verificada pela ação prática do homem sobre a natureza. (KOPPNIN, 1978, p. 52). 107 A ênfase que o autor apresenta à incorporação da prática à teoria do conhecimento representa a possibilidade da formação continuada, com base nesse pressuposto, contribuir para a formação de profissionais da educação que concebam o ato pedagógico em função da prática social. 4.2 FORMAÇÃO CONTINUADA NO NEOLIBERALISMO Marcada por contradições imensuráveis, a sociedade burguesa proclama alguns valores como universais, que promovem a emancipação sob a égide da ideologia dominante. Porém a existência humana é marcada por seu oposto, como afirma Ferreira: Em todo o mundo, proclama-se a necessidade de solidariedade social e produz-se a exclusão social, fala-se de bem comum e acirra-se o bem individual, defende-se o progresso e vive-se a decadência humana e social. De um lado, entende-se que a modernidade constitui o caminho que leva a sociedade à conquista do progresso e ao seu bem-estar e constata-se que a conquista desta modernidade tão pretendida nos apresenta o desemprego, a marginalização de grande parte da população mundial do processo produtivo, a destruição do meio ambiente, a violência, a miséria e todas as demais aberrações da vida humana que constituem os sectores da vida social em que vivemos hoje. (FERREIRA apud SERRA, 2000, p. 212). A categoria básica da ideologia neoliberal, o individualismo, necessita ser trabalhada para analisar os projetos antagônicos da formação continuada na perspectiva neoliberal e na perspectiva da omnilateralidade que o presente trabalho esta investigando. O processo de constituição da categoria individualismo vai ocorrendo no fortalecimento do capitalismo, gerando uma forma de consciência ingênua nas pessoas que estão sujeitas às relações sociais nesse modo de organização da sociedade. É importante ressaltar que a consciência é resultado daquilo que foi criado na sociedade. Vale ressaltar, ainda, que as consciências não são unificadas 108 como alerta Ferreira ”A compreensão da consciência social quanto a sua essência não significa que as consciências são padronizadas, que não diferem uma das outras”. (FERREIRA, apud SERRA 2000, p. 216). A consciência torna-se individual a partir da consciência social, pois o homem está inserido numa dada realidade concreta que exprime valores e idéias que serão absorvidos pelos indivíduos que compõe essa sociedade. A ideologia cumpre o “papel” de vincular e formar a consciência individual. Assim, o homem procura construir sua vida, luta por seu interesse, e o outro homem que está ao seu lado passa a ser seu inimigo em potencial, porque na sociedade que prima pelo individualismo, tudo vale para manter suas idéias, seus interesses e seus ganhos particulares. Necessário se faz, conhecer as origens do neoliberalismo e sua influencia direta na educação. Os princípios do neoliberalismo retomam aqueles que haviam sido elaborados com o liberalismo no século XVIII, também denominado de doutrina da mão invisível, porém, existe uma diferença na forma de expansão. O neoliberalismo apresenta uma vigência e generalização em âmbito global o que difere do liberalismo que estava baseado no princípio da soberania nacional. A passagem da década de 70 para 80, no século passado foi marcada por alguns acontecimentos que desencadearam a expressão do neoliberalismo no mundo como a eleição de Margaret Tacher na Inglaterra em 1979 e de Ronald Regan nos Estados Unidos em 1981. Já na década de 90, ocorreu o fortalecimento do processo de internacionalização do capital, a globalização, marcado por crescimento de atividades comerciais internacionais e reordenamento do mercado, voltando-se para a Ásia. O neoliberalismo aparece como uma forma de contribuir para a inserção dos paises neste mercado internacional, acirra-se a competição. (CARCANHOLO, 1998). 109 Atualmente são elaboradas diretrizes sobre privatização, desestatização, principalmente a partir das decisões emanadas do Fundo monetário internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD). Essas diretrizes são organizadas de tal forma que as classes sociais não dominantes são induzidas a realizar e difundir tais diretrizes. (IANNI, 2003). O Banco Mundial e CEPAL, na década na década de 90, no século XX, teceram criticas ao papel do Estado na educação latino americana, e elaboraram propostas de mudanças para a educação. Argumentavam que deveria ser dada ênfase à educação básica, e, no caso do Brasil, reduzia-se ao ensino fundamental. Desenvolviam a tese que para os países periféricos seria necessário o Estado tornar-se menos provedor de financiamento e mais indutor de qualidade, criando mecanismos de controle, como avaliações externas ao sistema e o incentivo à participação dos pais e da sociedade na gestão escolar e no financiamento. Vale ressaltar que a finalidade dessa aproximação, família e comunidade da escola, não tinha como base a construção de um espaço público democrático, embora fosse dessa forma que constasse nos discursos oficiais. O objetivo real era transformar pais e alunos em clientes e os profissionais da educação em prestadores de serviços. Sob a pseudoconcreticidade da cidadania, fortaleceu-se a presença dos pais na escola e o trabalho voluntariado para substituir o compromisso do Estado com a educação, atendendo aos ditames do capitalismo. (ZIBAS, 2005). Como se pode observar, o Banco Mundial, cujas diretrizes não estão articuladas com os interesses dos trabalhadores, induz a uma padronização política e econômica que leva à ampliação da hegemonia capitalista e, conseqüentemente, ao acirramento do individualismo e da competitividade, que chega ao ponto selvagem. Onde tudo vale para conquistar o espaço individual e o que menos tem 110 valor é o ser humano como semelhante ao outro. Há um processo de estranhamento em que um ser humano não reconhece no outro o sujeito histórico que junto com ele constrói a humanidade. Nos Manuscritos econômicos, Marx assim trabalha o estranhamento do homem: ”O estranhamento do homem, em geral toda a relação na qual o homem está diante de si mesmo, é primeiramente efetivado, se expressa, na relação em que está para com o outro homem.”(MARX, 2004a, p. 86) Portanto, paradoxalmente, os seres humanos estão juntos, mas não unidos, apenas somados um ao lado do outro. Destroem-se paulatinamente, em decorrência do acirramento do individualismo e da competição. O capitalismo impõe e universaliza uma concepção de mundo individualista e excludente, e por meio de sua lógica tudo passa a ser organizado para a tender sua ideologia. No Brasil, os anos 90, no século passado, após a eleição de Fernando Collor, foram marcados por propostas que acentuaram a influência do neoliberalismo na educação. Esse período é analisado por Neves que estabelece uma relação com as políticas públicas para a educação e as conseqüências. Neves(2000), analisa que no período Collor as políticas educacionais estavam marcadas principalmente pelo Programa Setorial de Educação, Projeto Minha Gente e Plano Nacional de Alfabetização e Cidadania. No primeiro ano desse governo, as diretrizes educacionais eram definidas no Projeto Brasil Novo, o qual designava à educação o papel de resgate da dívida social. A partir de 1991, o governo Collor iniciou a fase liberal modernizante imprimindo à educação o papel de instrumento de aumento da competividade da produção nacional frente à comunidade internacional, com o Projeto de Reconstrução Nacional e o Programa Setorial de educação. Dessa forma, o projeto 111 de sociedade neoliberal de Collor coloca a educação a serviço da reprodução ampliada do capital. Neste período, as entidades que originalmente tentavam uma renovação das práticas tradicionais na educação, como CONSED e UNDIME, tomaram outros rumos. O CONSED, após 1991, altera sua composição de forças aproximando–se do MEC. A UNDIME, mantém -se fiel à sua proposta educacional democrática das massas, mas começa a dispersar-se porque entrou em crise financeira. Neste contexto, os trabalhadores, reunidos no 4º CONCUT, aceitam a proposta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) ao proporem a tese do trabalho como princípio educativo. Os trabalhadores em educação centralizam suas discussões e propostas no tema cidadania e na melhoria da qualidade de ensino. Por outro lado, os empresários brasileiros, nos anos iniciais de 90, desejavam elevar o patamar tecnológico e cientifico a ser alcançado pela classe trabalhadora para que tivessem condições de atuarem e operarem com novos equipamentos exigidos pelo paradigma da automação flexível Empresarial. A educação para a classe trabalhadora foi organizada por representantes da concepção neoliberal com finalidade empresarial. Estes representantes elaboraram e divulgaram o documento Educação Fundamental e Competividade Empresarial, que estabelecia uma relação linear entre educação e produtividade. A base dessa organização era a veiculação de conteúdos disciplinares que reduzissem a compreensão de mundo da classe trabalhadora e enfatizava a compreensão da produção informatizada. Com relação à formação dos trabalhadores, o empresariado propôs a redução dos gastos públicos com a educação superior e a introdução do ensino pago nas universidades públicas. Não considerava relevante a pesquisa nas 112 universidades e indicou que essas instituições teriam o papel de serem formadoras de quadros especializados para a produção nacional; formar profissionais capazes de operar as tecnologias. No período do governo de Itamar Franco houve um fortalecimento da estratégia modernizadora dos empresários brasileiros, acentuando –se também a disputa de questões educacionais. Exigia-se maior rapidez na renovação dos padrões quantitativos e qualitativos da educação brasileira. Entendia-se que o trabalhador deveria ser reconhecido como sujeito do processo histórico, e para que pudesse efetivamente participar na definição de estratégias necessitava ter uma qualificação técnica e política. Vale ressaltar que ainda continuava vigente no Brasil as formas de exploração da força de trabalho. Este período do governo Itamar teve como característica o crescimento econômico, mas também acirrou a miséria e as taxas de desemprego. Foi elaborado no Governo de Itamar Franco o Plano Decenal de Educação para Todos, com a finalidade de elevar o patamar mínimo de escolaridade das massas brasileiras. O período do governo Fernando Henrique Cardoso será trabalhado a partir da análise de Aguiar (2002). No seu primeiro governo de Fernando Henrique (19951998) a reforma educativa no Brasil teve grande impulso com a finalidade de tornar o Estado produtivo. Foram elaborados uma série de políticas, como a criação do ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), que conduziu a reforma administrativa. Nessa política estava bem delimitada o propósito do governo em implementar condições estratégicas para efetivar mudanças na organização do Estado. Destacam-se as alterações no Ministério da educação (MEC). A finalidade maior seria a de proceder uma grande reforma no sistema educacional, reestruturando a organização educacional e incentivando a sociedade civil a colaborar com o projeto neoliberal de modernização do Brasil. 113 Aguiar prossegue em sua análise considerando que a partir das disposições estabelecidas na Constituição Federal de 1988 houve uma ampliação das competências concorrentes entre União, Estados e Municípios e atribuídas novas competências descentralizando atribuições e recursos dos entes federados. Entretanto, as competências não são claramente desenvolvidas, acentuando os desequilíbrios fiscais, e gerando incertezas quanto à distribuição de responsabilidades. Aguiar destaca, ainda, que no primeiro governo de Fernando Henrique acentuou-se a aproximação do Conselho Nacional dos Secretários da Educação (CONSED) com o MEC, amenizando os conflitos entre esses dois órgãos, permitindo a ampliação da influência e os controles do executivo Federal na condução das políticas educacionais em todo país. O governo Federal enfatiza a necessidade de reformas na educação, impactando todos os níveis de ensino. Destaca-se a Lei de Diretrizes e Bases, a qual indica as intervenções nas áreas consideradas prioritárias. As medidas exaradas pelo governo federal dependiam dos consensos obtidos no âmbito do governo e da sociedade, para que efetivamente se concretizassem as metas propostas. Uma estratégia utilizada pelo governo foi aproximar-se de entidades como o CONSED, que passou a desempenhar uma posição de aliado aos ideais do governo. Assim, contrariando sua origem nos de 1980, quando emergiu como um fórum de resistência ao centralismo praticado pelo Ministério da Educação passa agora na década de 90 a ter uma conduta conciliatória e de parceria como o ministério da Educação. Este fato é constatado, e durante o período desse governo a maior parte das políticas foram tratadas com Secretários de Educação. Neste período, estabelece-se um eixo principal na política educacional brasileira, a política da avaliação. O governo propõe políticas relativas à avaliação 114 do Sistema educacional brasileiro é solicitado ao INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais) desenvolver e implantar métodos e modelos avaliativos. Essas propostas são concretizadas em exames nacionais de cursos, sendo uma maneira de responder às pressões internacionais. Nesse período foi criado também a secretaria de Educação à Distância, com a criação de TV Escola e o PROINFO, cuja competência para esta secretaria seria a de conduzir um programa de modernização do Estado com a introdução de novas tecnologias. A crise do capital tem conduzido a reorganização do Estado e a construção de novas formas de relações sociais. Na essência, essa reorganização tem como finalidade suprimir os antagonismos de classes. Com relação ao governo Lula, Dias discorre sobre essa nova forma de organização de capital e de que maneira o governo Lula vem se adaptando às novas exigências do capital. “A tentativa é de construir uma classe trabalhadora do capital e não apenas para o capital.” (DIAS, 2006, p. 1999). O capitalismo atual organiza-se de tal forma, que além de incorporar as subjetividades antagônicas, incorpora as ativamente à sua estrutura de poder. Assim, os que foram antagônicos no passado sentem-se como se estivessem com o poder de conduzir, mas, “na verdade são apenas administradores subalternos do bloco do poder “. (DIAS, 2006, p. 200). No âmbito da educação, o governo Lula alterou o Sistema Educacional, implantou o Sistema Nacional de avaliação do Ensino Superior (SINAES) criou a lei de inovação tecnológica. Ocorreu também a reforma sindical, elaborada a partir do Fórum nacional do trabalho (FNT). Essa reforma tem como base a negação de antagonismos entre as classes permitindo conflitos reguláveis, ocorrendo a participação dos representantes de trabalhadores, patrões e do governo no Conselho Nacional de Relações de Trabalho. 115 O processo de criação da individualidade acaba por ocultar a desigualdade, transforma os antagônicos em diferenças e aparece o reino das possibilidades (DIAS, 2006, p. 88). E nesse processo de ocultar as desigualdades são criadas políticas para trabalhar com as diferenças, transforma em iguais os diferentes problemas. Um problema é falar das desigualdades sociais, e as causas que as geram, e outro problema é tratar as diferenças individuais comuns aos seres humanos. Portanto, onde tudo se torna homogêneo, esta atendendo a uma dominação. Nessa luta pela afirmação do individualismo o ser humano é tratado como mercadoria, é concebido como valor de uso.Transformando tudo e a todos em valor de troca. A gênese desse comportamento é brilhantemente trabalhada por Marx: Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia destruiu as relações, patriarcais e idílicas. Rasgou todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus superiores naturais para só deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do pagamento à vista. Afogou os fervores sagrados da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas duramente, por uma única liberdade sem escrúpulos; a do comércio. (MARX, 2005, p. 42). O ser humano é considerado valor de troca e isso tem implicações diretas na organização da sociedade e da educação e conseqüentemente nas políticas públicas educacionais. Após essas análises sobre as políticas públicas dos três últimos governos no Brasil, constata-se que a formação continuada tem estado a serviço do capital para atender às demandas de um mercado que exige acentuadamente que seja melhorado o desempenho dos profissionais no ranking dos “melhores” e no acirramento do individualismo. E, conseqüentemente, as políticas públicas para a formação continuada passam a ter como finalidade a garantia da manutenção da ordem estabelecida pelo neoliberalismo. O ser humano na concepção neoliberal, passa a ocupar uma posição de mercadoria, e a educação destina-se a contribuir para a manutenção da ordem vigente. 116 O capitalismo aceleradamente vem se impondo em escala mundial, e a educação vem sentindo diretamente as imposições desta forma tão excludente de manipulação da economia. Isso pode ser constatado a partir das imposições que as elites dominantes aplicam ao povo em geral, como leis e ideologias, sendo que essas determinam a forma de organização da sociedade, e, especialmente na educação, determinam que homem deve ser formado. Assim IANNI trabalha as diretrizes estabelecidas pelas elites que as deliberam: O povo, as massa, os grupos e classes sociais são induzidos a realizar as diretrizes estabelecidas pelas elites modernizantes e deliberantes. Daí a necessidade de alfabetizar, profissionalizar, urbanizar, secularizar, modificar instituições e criar novas, reverter expectativas e outras diretrizes, de modo a viabilizar a execução e dinamização dos objetivos e meios de modernização, modernos, modernizantes. (IANNI, 2003, p. 101). Na medida em que se desenvolvem as diretrizes no que dizem respeito a educação, pode-se observar que o Brasil tem procurado atender a todas as que foram ditadas pelos organismos internacionais. Nos últimos anos têm crescido as campanhas para a alfabetização e, principalmente, o investimento na profissionalização. Questionam-se essas campanhas e políticas públicas que tem como objeto alfabetizar e profissionalizar. O objetivo é emancipar o individuo ou prepará-lo para o mercado de trabalho? Observa-se, por exemplo, que existem alguns programas de alfabetização de adultos, cuja finalidade única é a alfabetização, ou seja, apenas ensinar o uso do código escrito, porque assim as pessoas, ao aprenderem ler e escrever, poderão se localizar, se situar e operar os caixas eletrônicos. Portanto, na essência esses programas atendem apenas à prática imediata, formando pessoas que tenham mais valor de uso na sociedade e, conseqüentemente contribuam para a reprodução do capital. 117 Lembrando a práxis fragmentária, imediata, que Kosik desenvolve e que foi abordada nesse trabalho, no capítulo anterior, pode-se afirmar que esses programas atendem muito mais à demanda das necessidades imediatas, e às diretrizes do neoliberalismo, do que proporcionam a formação do homem integral. Vale lembrar que a formação integral repetidamente é contemplada na parte teórica das leis que regulamentam tais programas. Outro exemplo de subordinação da educação aos ditames do neoliberalismo encontra-se na presença da ideologia tecnocrática educacional assim explicitada por Horta: “Ao se preocupar com a qualidade do ensino, o tecnocrata visa garantir-lhe maior eficácia e rentabilidade, medidas em função da capacidade do sistema de ensino em ajustar a formação de “recursos humanos” (as necessidades econômicas do país. (HORTA apud MENDES, 1983, p. 229). O objetivo de garantir maior eficiência do ensino responde diretamente à adequação da educação às políticas que favorecem as elites dominantes, porque ao investir na eficiência o que está em pauta é a produção. Portanto, não há a preocupação em formar sujeitos com consciência crítica porque não existe disponibilidade para o diálogo, o importante é aumentar a produção. Lembrando ainda Gramsci, o importante nessas políticas é formar especialistas, e não dirigentes. Horta alerta, ainda, sobre a importância da explicitação das reais funções da educação no sistema capitalista, o que exige uma leitura crítica dos documentos oficiais e do discurso pedagógico. Além disso, é necessário também evidenciar as funções não manifestas na educação no sistema capitalista, no sentido de compreender como é possível propor alternativas de superação a essa educação individualista. 118 Necessário se faz para os profissionais da educação, além de conhecerem a legislação, interpretá-la à luz da teoria que esclarece os fundamentos que sustentam as leis e a que projeto de sociedade e de homem estão ajudando a construir. Saviani contribui para essa análise: “Com efeito, ao criticarmos a política educacional vigente pelas distorções decorrentes de seu atrelamento aos interesses dominantes, não será possível deixar de reconhecer seus efeitos sobre a formação (deformação) dos professores.“ (SAVIANI, 1991, p. 39). As políticas de formação continuada para os profissionais da educação tem acentuado o caráter pragmático e técnico, restringindo-se às especificidades de cada disciplina, restringindo-se, também, em experiências imediatas visando a uma formação unilateral. Essa concepção considera o conhecimento de forma parcial e fragmentada, enfatizando o indivíduo que conhece, na sua objetividade a partir de suas referências individuais. Nessa linha de pensamento predomina a subjetividade, o que revela a ausência de critérios para tratar o conhecimento na totalidade de sua produção, ou seja, no coletivo dos seres humanos inseridos na prática social. Trabalhar nessa perspectiva nega o caráter histórico e provisório do conhecimento e promove o desenvolvimento incompleto do ser humano. 119 5 FORMAÇÃO CONTINUADA COMPROMETIDA COM A SOLIDARIEDADE PARA O DESENVOLVIMENTO DA OMNILATERALIDADE A formação continuada na perspectiva solidariedade possui a convicção da formação omnilateral e postula que o ser humano tem a possibilidade de desenvolver-se em todas suas dimensões. Trabalha-se com a idéia da emancipação humana, por meio da construção de novas relações sociais, pautadas na ética, na solidariedade e que transcenda a alienação imposta pelo capitalismo. O conceito marxiano de omnilateralidade, já afirmado e assumido por esta autora, no capitulo que trata da concepção de homem é o fundamento para uma formação continuada que se defende nesta dissertação. “O homem, por mais que seja um indivíduo particular, e precisamente a sua individualidade faz dele um indivíduo e uma coletividade efetivo individual (...).” (MARX, 2004a, p. 108) O homem é tratado na sua formação integral na e pela relação social. Esse é um fato indissociável e que constitui o homem diariamente. E com essa compreensão o homem desenvolve-se em todas as dimensões. A sua existência subjetiva o constitui na existência com os outros homens na sociedade. As suas relações com o mundo existem pela apreensão de sua totalidade. Marx alerta que embora o homem possa desenvolver-se na perspectiva da totalidade, a organização capitalista tem privado o homem dessa possibilidade: A propriedade privada nos fez tão cretinos e unilaterais que um objeto somente é nosso objeto se o temos, portanto, quando existe para nós como capital ou é por nós imediatamente possuído, comido, bebido, trazido em nosso corpo, habitado por nós etc, enfim usado. (MARX, 2004 a, p. 108) O homem passou a ser tratado como a categoria do ter para o outro. É uma luta constante pela posse do que o outro possui, gerando o distanciamento dos 120 homens entre si e da completude do ser humano como ser que se desenvolve em vários aspectos. Necessário se faz denunciar essas imposições estabelecidas ao homem pelo próprio homem e, concomitantemente elaborar alternativas para a construção de relações humanas mais humanas solidárias. Na construção de uma nova sociedade, a educação tem o compromisso de ajudar a construir uma posição contra hegemônica, e os educadores de assumiremse como gestores que conduzem o trabalho docente na direção e organização de uma nova sociedade. A posição desses educadores deve ser caracterizada por realizar análises das contradições sociais que dinamicamente existem na sociedade e que se constituem na divisão de classes. O profissional da educação precisa entender que nessa sociedade existem conflitos sociais, políticos e culturais, que tanto podem ser ocultados, ou desvelados e esclarecidos. Para que isso se efetive, é necessário pensar uma nova organização de formação para os profissionais da educação e uma outra estrutura educacional. A formação, nesta perspectiva, pode ser tratada com base na formação politécnica, que Saviani assim explicita: A noção de politecnia deriva basicamente da problemática do trabalho.Nosso ponto de referência é a noção do trabalho, o conceito e o fato do trabalho como princípio educativo geral.Toda a educação organizada se dá a partir do conceito e do fato do trabalho, portanto, do entendimento e da realidade do trabalho. (SAVIANI, 2003, p. 131) Saviani trabalha o conceito de politecnia como um subsídio para pensar a direção do sistema de ensino no país, associando-o ao compromisso da educação que é a formação do homem, e lembra, ainda, que esse enunciado está apenas no conhecimento abstrato. O homem ainda é concebido abstratamente. Vale lembrar o 121 que já foi trabalhado no capitulo II dessa dissertação, a concepção de homem, onde foi explicitado que o homem, a partir da concepção marxista, é compreendido com base na realidade humana que é construída pelo homem por meio do trabalho. Portanto, o ser humano se constitui no e pelo trabalho, de acordo com o modo de produção que determinada sociedade construiu. Necessário se faz, compreender como a educação configura–se historicamente na relação com a sociedade. Inicialmente, na Grécia, a escola era o local do ócio, em uma sociedade que em seu conjunto estava organizada e se mantinha utilizando o trabalho escravo. Nessa sociedade, as funções intelectuais, e também a escola ficavam restritas a uma parte pequena da sociedade. À medida que a sociedade vai alternando sua forma de organização a escola assume novos compromissos e responsabilidades. Saviani explicita que a politecnia contribui para a superação da dicotomia entre trabalho manual e o trabalho intelectual, entre instrução profissional e instrução geral. Saviani alerta que na sociedade atual há uma contradição no fato de ser uma sociedade com fundamentos na propriedade privada dos meios de produção. A ciência é incorporada ao trabalho produtivo. Assim, o conhecimento se transforma em força produtiva e em forma de produção. A contradição está presente no que se refere ao conhecimento, ou seja, a sociedade é baseada na propriedade privada dos meios de produção, e a ciência, compreendida como meio de produção, deveria estar sob o domínio apenas da classe dominante. Entretanto, como os trabalhadores não podem estar desprovidos do conhecimento, pois não poderiam produzir de acordo com as perspectivas para contribuir para o acúmulo do capital, a sociedade capitalista organiza formas para oferecer conhecimento aos trabalhadores, mas sem negar a expropriação. Assim, o conhecimento é entregue de forma parcelada e é oferecido somente aquilo que atende aos interesses da classe dominante. 122 Saviani lembra da famosa frase atribuída a Adam Smith “Instrução para os trabalhadores sim, porém, em doses homeopáticas” o que implica em oferecer conteúdos mínimos de forma que os trabalhadores respondam eficientemente no processo produtivo. A partir dessa compreensão, a sociedade burguesa fragmenta o trabalho em especialidades autônomas. Assim, os trabalhadores são formados para serem eficientes e saberem responder adequadamente às tarefas que o mercado de trabalho lhes impõe. Nessa concepção, o trabalho é dividido entre os que concebem e controlam e aqueles que o executam. Assim, a educação é configurada como ensino profissional para os executores, e o ensino científico – intelectual - é destinado àqueles que concebem e controlam essa organização do trabalho. (SAVIANI, 2003). Em oposição a essa concepção, Saviani defende a idéia de que a Politecnia é uma forma de postular o trabalho pedagógico compreendido pela unidade indissolúvel de aspectos manuais e intelectuais. Um pressuposto dessa concepção é que não existe trabalho manual puro e nem trabalho intelectual puro. Todo trabalho humano envolve a concomitância do exercício dos membros, das mãos, e do exercício mental, intelectual. Isso está na própria origem do entendimento da realidade humana como constituída pelo trabalho. (SAVIANI, 2003, p. 138) Nesta perspectiva, a organização do trabalho considera que o homem constitui-se pelo trabalho de forma integral, e que o manual sempre contém o intelectual, porque a ação humana caracteriza-se pela intencionalidade e o planejamento. Outro elemento destacado por Saviani é a distorção do uso do tempo livre. Na sociedade capitalista o uso fruto de tempo livre só existe para um pequeno grupo da sociedade, e para os trabalhadores é reservado o tempo para a contínua 123 produção. A politecnia objetiva a superação desse tipo de sociedade, de forma que todos tenham acesso ao trabalho manual e intelectual. Necessário se faz destacar que o termo politecnia, se for analisado literalmente significa múltiplas técnicas, multiplicidade de técnica, o que pode gerar o equívoco de empregar diferentes técnicas fragmentadas em nome da politecnia. Em oposição a esta compreensão, a politecnia trata-se de possibilitar um desenvolvimento multilateral que envolva todos os aspectos da prática produtiva. 5.1 A CONTRIBUIÇÃO DAS DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O CURSO DE PEDAGOGIA A aprovação das novas diretrizes curriculares do curso de pedagogia, evidencia alguns embates ocorridos ao longo da constituição desse curso no Brasil. Essas diretrizes focalizam também alguns elementos que são comuns a formação dos profissionais da educação na sua totalidade. Assim, considera-se necessário analisar as demandas das políticas educacionais no contexto da educação brasileira. Inicialmente, considera-se necessário abordar como, historicamente constituíram -se as diretrizes para os cursos de formação de professores. Freitas discorre sobre esse tema e apresenta algumas considerações a respeito da história dessas diretrizes e as representações das associações cientificas configuradas nas lutas em prol de uma formação mais humana. O processo de elaboração das diretrizes curriculares encaminhado pelo MEC e pelo CNE a partir de 1997, tem como objetivo adequar a formação dos profissionais da educação para atender as demandas de um mercado globalizado. 124 Essas demandas direcionam a educação para formar os alunos na perspectiva de terem competências para atuarem no mercado de trabalho. Vale destacar a deliberação que criou os Institutos Superiores de Educação e as Diretrizes Nacionais para a Formação inicial de Professores para a Educação Básica em Nível Superior, homologado em 2002. Essas diretrizes abordam desde as competências e habilidades como exigências a serem desenvolvidas pelos futuros professores. Neste sentido, as diretrizes apresentam contradições e dicotomia no processo de formação, assim expressas: Professores versus especialistas e especialista versus generalista. Essa dicotomia está expressa também quando foram formuladas diretrizes apenas para a formação de professores, à parte das diretrizes para o curso de Pedagogia e para os bacharelados de outras áreas. Nesse enfoque, retira o debate de uma totalidade, que é elaborar Diretrizes para a formação dos profissionais da educação. Freitas afirma, ainda, que faz parte dessa política a ênfase na individualidade e, conseqüentemente, a responsabilização dos professores pela própria formação e pelo aprimoramento profissional. Com essa via de raciocínio, cabe ao professor identificar as suas necessidades de formação e esforçar-se para realizar o investimento na sua formação individual. Com essa compreensão, esvazia-se o debate coletivo e estimula-se a competitividade, característica da sociedade neoliberal. Sendo assim, as políticas públicas privilegiam na formação o estimulo à competição em detrimento à formação humana. Contudo, pode se afirmar ainda, que a formação não esta sendo planejada considerando a categoria trabalho. È necessário superar esse dilema, e que seja retomado a categoria trabalho, Freitas assim assevera. 125 Retomar a centralidade da categoria trabalho na dimensão do educador significa a possibilidade concreta de armar-se teoricamente no sentido de opor-se à lógica que está posta pelas políticas neoliberais e pela política educacional atual, que é a redução do trabalho, a empregabilidade. (FREITAS, 2002, p. 160). Com essa via de raciocínio, entende-se com mais profundidade a exigência de ampliar e contemplar a categoria trabalho na formação dos profissionais da educação e estendendo mais o conceito do trabalho docente e essa compreensão começa a ser contemplada nas Diretrizes Nacionais para o curso de pedagogia, ao enfatizar o trabalho docente como núcleo da concepção da formação do pedagogo. Desta forma, parte se para a análise das diretrizes curriculares para o curso de pedagogia e suas contribuições na formação do profissional da educação na totalidade das contradições presentes no mundo hodierno. Inicialmente, faz-se necessário destacar alguns elementos que estão no parecer nº 5/2005 CNE - Diretrizes curriculares para o curso de Pedagogia. De acordo com os profissionais entrevistados e pela análise realizada do parecer compreende-se que as diretrizes para o curso de Pedagogia vieram contribuir no sentido amplo da formação dos profissionais da educação. Destaca-se a contribuição das associações cientificas, comissões, grupos de estudos na implementação das políticas sobre formação de profissionais da educação. Nesse sentido esse parecer considera as proposições formalizadas nos últimos 25 anos, a partir das análises sobre a realidade brasileira em relação a formação e atuação dos professores da educação infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Da mesma forma, as associações cientificas tem estado discutindo sobre os cursos de educação profissional para o magistério e para o exercício de atividade que exijam a formação pedagógica e estudo de políticas e da gestão educacional. 126 Com base nas exigências da situação histórica, no início da década de 80 muitas universidades efetuaram reformas curriculares de modo a formar, no curso de Pedagogia, professores para atuarem na Educação infantil, na Pré-escola e nas séries iniciais do Ensino Fundamental de primeiro grau. O curso de pedagogia passou a ser objeto de severas críticas, no momento em que os temas pedagogia e pedagógico passaram a serem utilizados apenas em referência a aspectos metodológicos do ensino e organizativos da escola. O parecer relata, ainda, que havia um movimento de educadores, em busca do estatuto epistemológico para o pedagogo, resultando em uma ampla concepção do curso de Pedagogia, incluída a de que a docência nas séries iniciais do Ensino fundamental de primeiro grau, e também na pré-escola, passasse a ser área de atuação do egresso do curso de Pedagogia por excelência. Com essa concepção, de acordo com esse Parecer, as Diretrizes para o Curso de pedagogia aplicam-se: À formação inicial para o exercício da docência na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio de Modalidade Normal e em cursos de Educação Profissional, na área de serviços e apoio escolar, bem como em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. A formação oferecida abrangerá, integradamente à docência, a participação da gestão e avaliação de sistemas e instituições de ensino em geral, a elaboração, a execução, o acompanhamento de programas e as atividades educativas. Contribui para essa análise Aguiar, ao desenvolver um estudo sobre as diretrizes curriculares do curso de pedagogia, afirmando que historicamente foram dados diferentes sentidos à pedagogia e ao curso de pedagogia e, atualmente, ainda se manifesta no campo teórico a visão tecnicista em confronto com enfoques tradicionais e críticos. (AGUIAR et al., 2006) 127 Aguiar afirma, ainda, que as políticas educacionais das leis da reforma universitária (1968) e do Ensino de 1º e 2o graus (1971), revelavam interesse em servir ao mercado e definiam um modelo de formação de professores divididos: de um lado a faculdade de educação responsável pelo curso de Pedagogia e a formação pedagógica dos licenciados; e, de outro, os institutos onde se formavam bacharéis e licenciados. Questiona-se esse modelo de formação que vinha a servir ao mercado: que proposta de homem queria formar? Diante do que está afirmado, conclui-se as Diretrizes para o curso de Pedagogia, realmente significou um avanço para a formação do profissional da educação essa dimensão da docência contempla o trabalho pedagógico do profissional da educação que atua como pedagogo. E também contribuiu para a formação profissional dos outros profissionais da educação, e, nesse sentido entende-se que a educação tem como base a docência, em qualquer nível ou modalidade da educação. Pelo acima exposto, assume-se que para compreender e desenvolver o trabalho pedagógico necessita-se de uma concepção de educação que alicerce o fundamento do profissional da educação e da gestão democrática, a partir da gestão pedagógica, a gestão na sala de aula. É a concepção que dá o norte e desencadeia todo o processo do trabalho pedagógico em ação no movimento da gestão democrática, na escola na relação professor-aluno, nas suas contradições que ocorrem no real da vida e no cotidiano pedagógico. Nesse sentido toma-se a entrevista com o professor Marcelo Silva, ao afirmar que o professor no exercício da docência difunde saberes organiza o processo ensino aprendizagem, ele também elabora e re elabora saberes. E afirma, ainda, que se o exercício da docência traz essas marcas, ele vai além do ato de administrar aulas, envolvendo a reflexão, a 128 produção dos saberes, e a organização dos processos do trabalho nas instituições educativas. Remete, portanto a dimensão da gestão educacional e da pesquisa. Diante do exposto, considera-se que a formação continuada na perspectiva da práxis, isto é, que a formação do profissional da educação, bem como seu exercício profissional necessita alicerçar-se na indissociabilidade da teoria e prática, concepção e ação, sujeito e objeto, objetividade e concreticidade. Quer-se dizer, com isto, que a formação continuada tem que destacar a importância da gestão da educação como fundamento que garante essa indissociabilidade para que a concreticidade do trabalho pedagógico nunca esteja sob o risco de pseudos trabalhos que caracterizam um senso comum eivado de pseudos elementos constituintes do nada que “caracterizam” muito bem a pós-modernidade que luta por se instalar no mundo contemporâneo. 129 6 O QUE A PESQUISA EMPÍRICA “ILUMINOU” Para entender a formação continuada, objeto dessa dissertação, necessário se fez para a autora, investigar o que entendem os intelectuais que têm se debruçado sobre esta temática, enquanto práxis. Com esse intuito, foram entrevistados intelectuais nacionais e internacionais, que expuseram suas compreensões a respeito. A partir de um roteiro de entrevista semi-estruturado, procurou-se compreender como as categorias elencadas no inicio desta investigação eram desenvolvidas e trabalhadas na formação continuada, de modo geral, vista pelos entrevistados. As categorias de análise desta dissertação - formação, políticas públicas, gestão, cidadania e hegemonia -, ora foram tratadas com objetividade pelos entrevistados, ora ficaram implícitas em suas falas. Mas, de um modo geral, foram assim abordadas pelos intelectuais: Quanto à formação: Na perspectiva da emancipação humana, a formação continuada é concebida como um direito do profissional da educação, constitui-se da relação entre remuneração jornada de trabalho e momentos de estudos para que, à luz da teoria possa redimensionar seu ato pedagógico. A reflexão apresentada pelo professor Jacques Terrien8 sobre a categoria formação, parte do pressuposto que um dos grandes problemas na escola é a formação dos professores para o ensino básico. O Ensino universitário não trabalha adequadamente a docência, o pedagógico. Destaca que o problema maior não é 8 Prof. Dr. Jacques Terrien – Professor da Faculdade de educação - Universidade Federal do Ceará-Fortaleza-Ce-Brasil. 130 tanto com os professores, mas sim com o ensino universitário, porque não há na docência o pedagógico. A docência universitária nunca foi realmente desenvolvida. Salienta, ainda, que a docência tem certos pressupostos: o professor universitário domina a matéria, em outros termos, domina a informação dos conteúdos curriculares, pode ser um excelente pesquisador e repassar a informação, mas a função universitária não é repassar informação, o educador é formador também. O trabalho docente é o trabalho efetivo com o aluno. E implica uma transformação. Portanto, a dimensão da capacitação do professor não pode restringir-se a passar a informação, mas para ser efetivamente um formador. O que implica o domínio da matéria, mas também o domínio na formação pedagógica para ter o processo dialógico com o aluno. Neste aspecto, o professor Terrien explicita a sua compreensão sobre o trabalho pedagógico. Não gosto mais de falar de prática pedagógica, prefiro falar do trabalho pedagógico.na perspectiva de que trabalho pedagógico é uma prática que reúne professor, aluno, e a matéria. Então se estabelece um determinado diálogo entre os três, mas é um diálogo intersubjetivo e implica transformação. Dentro desse diálogo ocorre uma transformação da matéria, transformação em termos de produção do conhecimento, não é necessariamente um novo conhecimento, mas que busca a compreensão dos significados que tem a matéria. O professor tenta compreender o aluno, o aluno começa a tentar o diálogo com o professor, individual ou em grupo,e então tem uma dialogicidade. A dialogicidade pedagógica implica o professor procurar entender o que o aluno percebe, vê o aluno situado na turma,no contexto, na escola na comunidade e adequar o dialógo. (JACQUES TERRIEN) O professor Terrien destaca a importância do trabalho docente como superação de uma prática que se encerra em si mesma. Enfatiza que o trabalho docente necessita ser compreendido a partir da práxis e é com essa dimensão que deve ocorrer a formação dos profissionais da educação. Nesse ponto da entrevista o professor trabalha a dimensão da formação 131 A dimensão de capacitar o professor não está em prepará-lo para repassar informação, mas para ser efetivamente um formador, o que implica o domínio da matéria sim, mas o domínio, na formação pedagógica para ter esse processo dialógico com o aluno. (JACQUES TERRIEN) O pensamento do Professor Jacques Terrien permite uma análise sobre as contradições presentes na Formação continuada, que, na maioria das vezes está centralizada no repasse de informação, e não na preocupação de trabalhar a humanidade, de enriquecer a cultura humana e construir valores e sentimentos que conduzam a uma política que se constitua a partir da análise da existência do ser humano concreto, situado em dada sociedade. Contribuindo também para esta análise, o professor Luiz Carlos de Freitas9 entende que a Formação continuada tem estado ocupando um espaço de reflexão educacional, nos últimos anos. E isso se deve a um processo de permanente atualização dos professores em face às transformações que vão acontecendo. Por outro lado a reflexão sobre a formação continuada pode também ser pensada no sentido de que hoje em quatro anos é muito difícil formar o profissional pleno, por causa da grande explosão de conhecimentos. O número de disciplinas que costumam estar envolvidas na explicação do fenômeno educativo é muito grande. No caso do pedagógico tem que estudar quatro, cinco disciplinas básicas que não são a pedagogia em si, mas lhe dão a condição de entender o fenômeno pedagógico, que é o caso da sociologia, psicologia, filosofia, enfim uma série de disciplinas que ajudam a esclarecer a questão pedagógica. Sem essas disciplinas o pedagogo não tem entendimento pleno do seu objeto de estudo. Então, nesse sentido, a formação continuada é um instrumento que permite compreender melhor o processo formativo. 9 Prof. Dr. Luiz Carlos de Freitas – UNICAMP-Campinas-SP-Brasil. 132 Sobre a formação continuada, o professor acrescenta: Eu situo a importância da educação continuada no duplo sentido: Como uma expansão da formação inicial já que é um fenômeno complexo e dar conta em quatro anos não é fácil, conta-se com a formação continuada para expandir. E ao mesmo tempo a formação continuada pode servir como processo de atualização daquilo que ele aprendeu na formação inicial. Não só expandir, mas atualizar. Não vejo a formação continuada como algo conflitivo que negue a formação inicial, mas que a expande e complementa. (LUIZ CARLOS DE FREITAS) O Professor Luiz Carlos De Freitas salienta, ainda, a importância da formação continuada como expansão e complemento da formação inicial. É importante assinalar que essa compreensão nem sempre está presente nas políticas públicas de formação continuada. Muitas vezes a formação é utilizada como impulso às adequações do sistema educacional, às recomendações de organismos internacionais que impõem uma demanda de atendimento que correspondam a parâmetros estranhos a realidade nacional. Contribuindo nessa categoria, a professora Iria Brzezinski10 defende que a formação continuada dá determinadas lógicas de aprendizagens, o que permite determinados domínios de conteúdos, mas é preciso associar a formação continuada a outras atividades não formais. A formação continuada precisa ser planejada a longo prazo na instituição. E, neste sentido, afirma: Eu sou entusiasta da formação continuada e lembrando Anísio Teixeira: ‘ A formação continuada é vida não é formação para a vida. (IRIA BRZEZINSKI) A professora destaca, ainda, que um dos óbices da formação continuada são as condições de trabalho, que ainda são impeditivas, e o excesso tarefas. As 10 Prof.ª Dra. Iria Brzezinski –Professora da graduação e pós graduação na Universidade Federal de Goiás –Brasil. 133 atribuições do professor não o levam a pensar. Deveria ter mais oportunidade de diálogo e mais oportunidade para a leitura. E alerta, ainda, que: Estamos na geração da tecnologia e pouca leitura.Os clássicos foram descartados. E é impossível você ter uma formação do profissional da educação se não tiver o aprofundamento dos grandes clássicos da educação. (IRIA BRZEZINSKI) Vale destacar o pensamento da professora Iria Brzezinski ao enfatizar a necessidade da leitura e aprofundamento do conhecimento dos clássicos como elementos essenciais na formação do profissional da educação. Complementa-se que essa formação diz respeito tanto à inicial como à continuada. A leitura dos clássicos permite compreender melhor e com rigorosidade o significado das políticas educacionais e suas relações com o trabalho pedagógico. Permite, também, reconhecer as ações pedagógicas que legitimam e mantêm a políticas neoliberais. E, concomitantemente, apontar quais as possibilidades de transformação à luz da teoria. Explicitando um pouco mais, os clássicos fundamentam com cientificidade as análises sobre a realidade e permitem aos profissionais da educação elencarem os elementos teóricos - práticos necessários para desvelar as contradições, e, frente a um debate, tenham condições de discernir sobre os projetos de sociedade e de educação e para quem estão trabalhando.. Da mesma forma, o professor José Pacheco11, que brinda essa autora com a sua experiência de trabalho e compreensão de Portugal e da Europa, de um modo geral, acredita que a formação continuada é de importância indiscutível, principalmente agora, de acordo com as palavras chaves da Unesco, que diz 11 Prof. Dr. José Augusto Pacheco.Departamento de Currículo e Tecnologia EducativaUniversidade do Minho - Instituto de Educação e Psicologia - Braga-Portugal. 134 respeito ao conceito da aprendizagem ao longo da vida. Na Europa, a formação continuada tende a iniciar por uma especialização, mas depois permanece por princípio, formação continuada ao longo da vida. A seguir, o professor discorre de que maneira ocorre a formação continuada em Portugal: É considerada como formação profissional, porque na entrada de Portugal na União Européia, teve o seu quadro comunitário de financiamento no país, para que o país adquirisse um determinado nível de desenvolvimento. Na União européia formação continuada do profissional da educação foi inserida na formação profissional, portanto milhares e milhares de euros tem sido investidos desde 1986, para a formação continuada dos profissionais da educação, desde que Portugal entrou na União Européia. Na primeira fase foi pensado uma estrutura de centros de formação criados na própria escola. As escolas de educação pré-escolar, escolas de educação básica do ensino secundário, criaram seus centros de formação, agrupamentos de escolas, associações de escolas e obrigatoriamente elaboravam seus projetos de formação, seus planos de formação e candidatavam esta formação as estruturas do Ministério da educação. Esta foi uma formação centralizada nas escolas e nas práticas docentes. Atualmente a formação continuada está sofrendo uma alteração, O Ministério da Educação não acabou com os centros de formação, mas entretanto criou outras estruturas para a formação continuada entregando as universidades, através do contrato de formação continuada,nós como docentes do ensino superior.A nossa formação continuada teria de ser através da participação nesses centros. O Ministério da educação está a contratualizar com as universidades, com as instituições do Ensino Superior uma formação continuada em áreas prioritárias como, por exemplo, língua portuguesa e matemática. (JOSÉ PACHECO) Ao ser questionado sobre os resultados da formação continuada em Portugal, o professor argumenta que algumas teses de doutorados e mestrados avaliam o impacto da formação continuada. A conclusão é a de que ainda não houve um impacto significativo nas práticas de aprendizagem. O impacto é mais a nível organizacional do que didático. O modo das pessoas trabalharem mudou, há mais colaboração, o espírito de equipe se fortaleceu, mas na sala de aula ainda não houve grandes mudanças. Diante dessa analise apresentada pelo professor José Pacheco sobre a relação financiamento e as mudanças significativas na sala de aula nos leva a considerar que não é suficiente o direcionamento de verbas para a formação continuada. Necessário se faz analisar como ocorre o gerenciamento dessas verbas 135 e se os encaminhamentos decorrentes atendem às necessidades do trabalho pedagógico. A formação continuada é considerada pelo Professor Vitor Paro12 como essencial, mas que seja realizada na própria escola, como formação em serviço. O Professor afirma que é preciso mudar a escola e, no contexto da mudança realizar a formação continuada. Para tanto, o professor precisa ter dedicação exclusiva, de forma que ele tenha tempo para dar aula, mas que tenha tempo remunerado para estudar, planejar e organizar o ensino aprendizagem. Destaca, ainda, que o professor precisa aprender muito com a pedagogia, e para saber ensinar tem que conhecer cientificamente a educação. Defende também, que a filosofia da educação, a didática, a sociologia da educação, a psicologia da educação, a antropologia da educação, todas essas disciplinas que informam a prática docente são imprescindíveis para o professor. O professor Newton Duarte distingue13 formação continuada de aperfeiçoamento. Afirma a importância do aprimoramento do profissional da educação, porém, parece-lhe que o termo aperfeiçoamento responde à necessidade do profissional. Entende que o profissional deve ser considerado formado quando conclui a graduação. Quando o professor se forma, se gradua, quando recebe o diploma deve ser considerado formado. O que ele necessita é de um aperfeiçoamento. Não concorda com a idéia que o profissional estará se formando ao longo da carreira. Alerta que a formação continuada parece uma armadilha, porque a formação básica vai sendo cada vez mais minimizada em nome de uma formação que ocorrerá ao longo de toda trajetória profissional. Esta idéia contribui para o enfraquecimento e aligeiramento dos cursos de graduação. E em nome da 12 Prof. Dr Vitor Paro da USP-SP - Brasil. 13 Prof.Dr Newton Duarte UNESP- Araraquara-SP- Brasil. 136 idéia, a pretexto de que o professor estará se formando ao longo de toda carreira, a formação continuada assume uma importância maior que a formação básica. Lembra, ainda, que até pouco tempo não existia o termo formação básica. O termo era graduação, curso de graduação. Ao ser questionado quanto ao que considera importante que se constitua o aperfeiçoamento, diz o professor: Eu entendo que é importante o profissional dominar o conteúdo que ele ensina, sempre ampliar e aprofundar o domínio que ele ensina, isto é fundamental. E em segundo lugar, o estudo das teorias pedagógicas tanto no que se refere as idéias principais defendidas por essas teorias mas também no que se refere a história do pensamento pedagógico, conhecimento dos clássicos, do pensamento educacional. (NEWTON DUARTE) É fundamental essa contribuição do professor Newton Duarte ao trazer o conceito aperfeiçoamento para o âmbito da formação continuada, porque a partir de suas reflexões é possível analisar a finalidade real que existe nas propostas de formação e, sobretudo, a relação entre a formação básica e a continuada. Defendese que a formação continuada não deve estar a serviço de suprir as lacunas da formação básica, mas deve também trabalhar com esses elementos e propor alternativas para formação básica de forma que os profissionais oriundos da graduação efetivamente contribuam para a transformação na escola. A formação continuada e a formação inicial necessitam ser compreendidas a partir de embates de projetos, destaca o professor Marcelo Soares14. E aponta, ainda, que a categoria formação está vinculada a projetos de formação que se vinculam a projetos de sociedade. A partir do momento que se compreende o campo de formação de professores como um campo de disputas de projetos, há a possibilidade de afirmar que é um campo marcado por contradições. Isto coloca a 14 Prof. Dr. Marcelo Soares Pereira da Silva -UFU/ Faced - Uberlândia- MG- Brasil 137 necessidade de, ao se pensar propostas, em diretrizes para formação de professores, ter clareza quanto a serviço de qual projeto de sociedade estas propostas e estas diretrizes se colocam. O professor Marcelo Soares assim se manifesta em relação aos conteúdos da formação: Ao meu ver não só na formação continuada, mas na formação inicial também, mais que o conteúdo, tem que pensar o que é fundamental no processo formativo, dar conta de desenvolver um processo que instrumentalize teoricamente o formando, o sujeito em formação para que ele possa compreender a realidade em que ele se situa. Então colocada nessa perspectiva a resposta ultrapassa a dimensão dos conteúdos e vai na direção de tentar dar conta de fazer um mapeamento quanto a que saberes, que elementos postos pela realidade e pela prática educativa nos informam a necessidade de serem tomadas como objetos de reflexão. Na perspectiva da práxis como elemento nucleador do processo formativo, a definição desses conteúdos passa pelo voltar o olhar para a práxis educativa e nela buscar os eixos e os elementos teóricos que devem ser trabalhados ao longo de todo o processo de formação. (MARCELO SOARES) De toda a análise empreendida pelos intelectuais entrevistados, conclui-se que a categoria formação precisa ser resgatada na sua dimensão pedagógica, na práxis, porque, até o momento as propostas de formação estão centradas na unilateralidade, com enfoque no pragmatismo, e sua finalidade maior é preencher lacunas da formação básica, que está sendo organizada de forma aligeirada e com conteúdos mínimos. O que revela que a formação básica tem como objetivo formar trabalhadores o mais rápido possível para o ingresso imediato no mercado de trabalho. Vale lembrar que a formação continuada enfoca muito mais a qualificação, a formação de especialistas, do que a valorização profissional e a necessidade de uma remuneração digna para que o profissional da educação possa dedicar-se a estudos e planejamento coletivo no interior da escola. Examinar políticas públicas na atualidade exige uma análise rigorosa sobre as disputas por concepções públicas e educacionais presentes na sociedade. Exige, 138 também reafirmar o compromisso dos profissionais da educação de apontar a necessidade de reformular as políticas públicas, quando a qualidade da educação, não estiver sendo contemplada. As políticas públicas para o professor Luiz Carlos de Freitas “mudam muito de um governo para outro”. Este intelectual, então, questiona como elaborar políticas que independam da vontade dos governantes. Afirma que a Formação continuada dos profissionais da educação deveria ser matéria de políticas públicas, e não ser colocada no campo dos serviços. A formação continuada deveria ser realizada no domínio público, e não pelo mercado. Acentua, ainda, que o maior risco que a formação continuada sofre é de ser transferida para a iniciativa privada como mecanismo de prestação de serviço para o mercado, e não como uma obrigação do empregador. Para o Professor Luiz Carlos, a formação continuada é dever do empregador, compreendendo que o Estado é o maior empregador. Entende, ainda, que a formação continuada deve ser uma política pública, logo, um dever do empregador e um direito do trabalhador. A professora Iria Brzezinski apresenta argumentos semelhantes e revela sua preocupação com as políticas públicas, porque atualmente parecem estar organizadas para favorecerem estatísticas, não existindo uma ênfase no aprofundamento da qualidade. Afirmar que 97% das crianças estão na escola é uma falácia. Que escola é essa?, questiona. Expressa, ainda, que as políticas públicas devem, além de planejar, prever como realizar o que planeja. Nesse aspecto, a professora lembra Anisio Teixeira: “Não se forma nenhum profissional e muito mais da educação apenas planejando. Não se pode apenas prever, antes de prever, tem que prover. Considerando que essa é uma boa política, fazer equilíbrio entre meios e fins”. 139 O professor Erasto Fortes Mendonça15 destaca que a LDB, aprovada em 1996 é uma política pública, que apresenta avanços, embora não tenha sido aprovada pelas entidades cientificas. Houve muitas modificações com o substituto de Darci Ribeiro. Considera como avanço nessa política a exigência de formação dos professores em nível superior. Entretanto, o professor Erasto Fortes aponta que a lei apresenta contradições: estabeleceu um prazo de dez anos para que a formação dos professores, se desse em nível superior, mas admite ainda a formação em nível médio, o que de certa forma é uma contradição e apresenta um certo conforto aos sistemas educacionais. O professor assevera que o PNE, aprovado em 2001 é considerado uma política pública importante no Brasil, porque estabelece metas bem objetivas para a universalização do ensino fundamental, ampliação do ensino médio, a educação infantil e também metas para a formação de professores e gestores. Considera que são avanços que foram sendo conquistados e que as entidades cientificas tem contribuído significativamente, e nesse processo a ANFOPE tem um papel fundamental. Destaca, ainda, que em termos de educação o país está longe de conseguir uma situação ideal. Uma situação que poderia ser considerada ideal no país é ter um sistema Nacional de formação de professores. Precisaria que houvesse uma iniciativa do Ministério da educação como indutor do processo, do sistema, porque acredita que a administração da educação básica compete aos Estados, municípios e ao Distrito Federal, mas o ministério tem a função de induzir pela formulação de políticas públicas Nacionais. O professor José Pacheco relata que atualmente, em Portugal, as políticas públicas para a Formação continuada estão sofrendo alterações substanciosas. O 15 Prof. Dr. Erasto Fortes Mendonça - Professor da disciplina de Fundamentos da Educação, na Faculdade de Educação da UNB- Brasília-Brasil. 140 Ministério da Educação estabelece contratos com as universidades para que realizem a formação continuada principalmente em áreas prioritárias como Língua Portuguesa e Matemática. A formação é centralizada. O Ministério da Educação também define quais as áreas prioritárias de financiamento. Há uma estrutura descentralizada do ministério de educação que é regional. Essas regionais recebem os planos de formação e financia de acordo com determinados critérios. Atualmente, em Portugal a formação continuada é financiada por verbas da União Européia. O professor questiona se a formação continuada é mais legitimada pela necessidade de enquadramento em termos de formação profissional, por um programa de verbas da União Européia, ou se ela é mais legitimada pela necessidade de melhorar a própria escola e o conhecimento dos professores. Ou seja, a formação continuada que existe em Portugal responde mais a problemas de financiamento, de programas da união Européia, ou responde mais às necessidades identificadas ao nível do sistema educativo? O professor Pacheco acredita que as verbas estão sendo muito bem aproveitadas para a formação profissional. Por isso a formação continuada está incluída. O professor Vitor Paro assinala a importância de uma política de formação continuada que aconteça diretamente na escola. Que realize discussões internas com elementos das disciplinas pedagógicas, pedagogia, psicologia. Considera que o professor precisa entender esses fundamentos para poder realizar um bom trabalho. O professor Marcelo Soares destaca que as políticas públicas de formação devem ser inicialmente pensadas a partir da compreensão de que a formação dos professores é um campo de disputa de projetos de sociedade. Portanto, pensar Políticas públicas significa pensar a quais projetos de sociedade essas políticas se destinam. 141 Destaca que as políticas públicas de formação dos professores foram construídas para uma perspectiva de formação mais pragmática e utilitária. O Normal superior evidencia isso, assim como os programas de formação continuada, seja nos programas emanados do Mec ou nas Secretarias de Educação. Os cursos de especialização, na maioria das instituições, foram reduzidos a atualização e qualificação profissional. Esses cursos perderam a dimensão de formar para a reflexão crítica, para o debate teórico de determinado campo de saber. Assim, o professor avalia que as políticas públicas induzem a esse reducionismo no processo de formação. Nessa mesma linha de análise, o professor Newton Duarte também avalia que as políticas públicas de formação continuada estão direcionadas para a redução de custos e para uma concepção pragmática, utilitarista da escola e do conhecimento escolar, a uma visão empresarial. Considera que as Políticas públicas deveriam voltar-se para a construção do que o Professor Dermeval Saviani a tanto tempo vem defendendo, que é a construção de um Sistema Nacional de Educação, que ainda não temos no Brasil. Um sistema nacional que realmente estivesse voltado para a transformação do conhecimento em propriedade pública. O professor Newton Duarte fez referência a Dermeval Saviani no que concerne ao Sistema Nacional de educação, portanto, considera-se necessário apresentar como Saviani explicita esse conceito (...) Existe ou não sistema educacional no Brasil? “, o fato é que se age sempre como se realmente ele existisse; e mais; age-se sempre como se esse suposto sistema estivesse adequadamente organizado e funcionando satisfatoriamente. Por isso, a formação dos educadores está toda ela voltada para a microeducação. Não se sente uma preocupação maior com os problemas da macro educação.Os cursos normais preparam pessoas para atuar nas escolas tal como elas estão organizadas.Os cursos de pedagogia (e agora as faculdades de educação) preparam elementos para atuar também na organização escolar, encarada esta como um dado prévio.Não se cogita elementos capazes de enfrentar o próprio problema da 142 organização, dos seus objetivos, da sua adequação às necessidades reais do povo brasileiro.(SAVIANI, 2005, p. 5) O professor Newton Duarte prossegue suas análises afirmando que o Brasil além de não ter um sistema nacional de educação privilegia um sistema nacional de avaliação, que é próprio de políticas neoliberais. E é esse o objetivo desses processos de avaliação, a redução de gastos. Diante do exposto pelos intelectuais, considera-se que as políticas públicas educacionais refletem o momento histórico da sociedade. Portanto, necessário se faz analisar os encaminhamentos que conduzem à implementação dessas políticas e quais as implicações decorrentes. É imprescindível, também, analisar as determinações e as contradições que estão presentes na sociedade e na educação. Vale destacar que as políticas públicas no Brasil ainda seguem as determinações internacionais, negando a prática social do país. Atendendo, na maioria das vezes, a políticas neoliberais, e redimensionando o compromisso do Estado. Considera-se importante essa compreensão dos embates travados na sociedade e dos desdobramentos assumidos pelo Estado como bem analisa Dourado: Nessa perspectiva, tais embates se situam no contexto de mudanças tecnológicas e, portanto, no reordenamento das relações sociais sob á égide ideológica da economia, como sinalização objetiva do triunfo da política neoliberal, que, ao redimensionar o papel do Estado, buscando minimizar a sua atuação, redireciona as políticas sociais empreendidas por este e, conseqüentemente, rearticula o papel social da educação e da escola. A escola, nesse modelo, passa a ser entendida como importante insumo ao desenvolvimento, sendo destacado o papel da escolarização básica. (DOURADO apud FERREIRA 2006, p.77-78) No que concerne à gestão, essa categoria foi trabalhada por todos os intelectuais que enfatizaram a necessidade da gestão ser bem desenvolvida, de forma democrática, sem perder o sentido da direção, para que efetivamente desenvolva-se uma formação continuada que contemple a formação emancipadora. 143 O professor Erasto Fortes trabalha o conceito de gestão democrática além do ambiente escolar. Não considera ser possível restringir a gestão como ação que se desenvolva somente no espaço escolar, pela direção eleita, pelos conselhos escolares. É um processo mais amplo de influência na educação, desde a concepção de políticas educacionais até a avaliação. A professora Iria Brzezinski destaca que a concepção de gestão envolve a união entre fins e meios. Por isso é necessário ter como base de um planejamento a estrutura e apoio de recursos, para que se tenha efetivamente condições de executar o que consta como intenção no planejamento. O professor Vitor Paro compreende a gestão como a mediação para atingir fins. Portanto, o professor precisa ter condições para que a formação continuada aconteça na sua prática diária. E quem provê essa formação é a administração. Acrescenta, ainda, o professor, que a gestão democrática na escola tem que evoluir para uma gestão sem diretor. Considera que diretor é algo muito antigo. A escola por sua natureza democrática deveria ser autogerida e cogerida pelas próprias pessoas que estão ali, professores e alunos. Afirma que a gestão escolar deveria ser organizada de tal forma que fosse dirigida, por exemplo, por um colegiado de três ou quatro profissionais. O professor Marcelo Soares encaminha a discussão sob outro ângulo, defendendo que a gestão democrática é contraponto da administração. Hoje, o termo gestão está fortemente trabalhado na perspectiva empresarial, da busca da eficiência e de eficácia, esgotando ai o significado de gestão. O professor assevera que é necessário estar recuperando o lugar da gestão na formação do profissional da educação, seja na Educação superior ou na formação continuada. Falar em gestão democrática é ir além da busca da eficiência e da eficácia. A gestão democrática significa o fortalecimento de trabalhos coletivos, 144 dos colegiados, da pluralidade, da transparência, do dialógico, da interação entre sujeitos. Afirma ainda, o professor, que falar em gestão democrática é mais do que apenas implementar determinados procedimentos, como por exemplo, a eleição de diretores. Mas exige o fortalecimento do coletivo da construção coletiva, ai a ação colegiada ocorre como ação coletiva. Ressalta que esse é o grande desafio que está posto, porque a dimensão da gestão democrática, enquanto gestão assentada no trabalho coletivo, na ação colegiada, é plural na inter relação de sujeitos, portanto marcada pelo diálogo, pela transparência. E esses elementos não encontram -se no debate e nos processos de formação dos profissionais da educação. O professor destaca a importância de pensar-se a formação do professor como produtor de saber, e isto significa a afirmação da gestão colegiada e o trabalho coletivo na sala de aula. Entende, ainda, que a compreensão da gestão democrática deve ser o elemento nucleador do debate em educação. A garantia da formação do profissional da educação na perspectiva da qualidade, passa trazer a centralidade do tema da gestão democrática, enquanto processo de fortalecimento do trabalho coletivo, da interação de sujeitos do diálogo, da transparência e portanto da participação na organização dos processos formativos, dos processos educativos e dos processos de trabalho, na educação. Penso que precisaríamos aprofundar essas discussões, a realização dessa reflexão deveria estar presente nos nossos cursos de formação. (MARCELO SOARES) A partir das reflexões dos professores entrevistados, infere-se que a gestão está organizada com projetos econômicos e políticos de determinado grupo dominante que está distante de contribuir para a construção de uma cidadania digna e de uma formação na perspectiva omnilateral. A organização da sociedade capitalista apresenta projetos econômicos e políticos que conduzem a uma gestão educacional que atenda às demandas do 145 capital, o que se distancia da formação humana omnilateral. O referencial que fundamenta a gestão educacional está pautado em conceitos implantados pelo determinismo capitalista, como competência e competitividade. Assim, há uma preocupação em elaborar políticas públicas direcionadas para formar gestores competentes, que conduzam o trabalho pedagógico ampliando o desempenho dos professores e aumentando os índices de aprovação para responder a critérios internacionais de desempenho educacional, estando atrelado a interesses econômicos. Em oposição a este quadro analisado, defende-se no presente trabalho que a gestão educacional deva ter por princípio a democracia, porque é inconcebível pensar uma gestão que não esteja implicitamente relacionada com instrumentos democráticos, como conselhos escolares, eleição de diretores, grêmios de estudantes. Enfim, que trabalhe efetivamente com a formação de gestores em todo o âmbito escolar. Destaca-se a imprescindibilidade da concepção de gestão na formação dos profissionais da educação, ressaltando-se a necessidade de compreendê-la no contexto das transformações que são geradas no mundo do trabalho e nas relações sociais no momento atual, que se caracteriza-se pela globalização e a sociedade do conhecimento. O enfrentamento dessas determinações requer a criação de medidas educacionais que proponham também alterações significativas nessa sociedade. E, como assevera Ferreira: Essas medidas se apóiam na convicção de que a gestão democrática, a construção coletiva do projeto político –pedagógico e a autonomia da escola são os pressupostos fundamentais para o desenvolvimento da cidadania e, portanto, para a formação do profissional da educação. (FERREIRA, 2006 p. 1349) 146 Ferreira salienta que ao se possibilitar a construção coletiva do projeto político pedagógico promove uma organização escolar que permite uma leitura coletiva da dinâmica escolar e do movimento das relações entre a sociedade e a escola. Acredita-se que a gestão democrática constitui-se como fundamento básico para a formação da cidadania e a construção de políticas educacionais que promovam a humanização. Entende-se que somente a partir da gestão, com participação ativa dos elementos que compõem a comunidade escolar, pode ser constituída uma educação que assegure a qualidade na formação humana. A categoria de gestão democrática, frente ao analisado pelos entrevistados reveste-se de um significado imprescindível na formação continuada. No sentido de garantir o compromisso com a formação digna dos profissionais da educação alicerçados pela ética e valores que promovam o ser humano a uma categoria cada vez mais humana. No que concerne à hegemonia, do ponto de vista gramsciano, esta significa a crítica, pela práxis, das formas de dominação, e também a possibilidade de gerar condições para alterar as regras postas pelo grupo dominante. O professor Marcelo Soares analisa a categoria hegemonia acentuando que as propostas de formação continuada expressam um embate de projetos de sociedade, portanto, representam um campo de disputas. O projeto de sociedade e de educação que existe é hegemônico porque reduz a educação ao caráter instrumental para inserir os indivíduos na sociedade. Destaca, ainda, este professor, que as políticas educacionais são defendidas por grupos sociais e os projetos sociais em embate num determinado contexto social. Acrescenta que é na luta política que se definem as políticas, e não na luta acadêmica e muitas vezes falta ao professor pensar com essa clareza. E essa ausência de compreensão se manifesta quando o professor pesquisador se 147 acomoda e não tem o compromisso de se envolver nas lutas políticas da sociedade. A geração acadêmica atual ainda não tem a compreensão política e, sobretudo, não conhece o projeto hegemônico ao qual inconscientemente atende, que é utilitário e pragmático. As formas de organização para a reflexão coletiva desaparecem. E esse modelo hegemônico já se consolidou em vários campos de saber. O professor Marcelo Soares faz uma referencia às associações científicas como elementos que produzem e trazem uma contribuição importante, não só por suas produções e conhecimento que sistematizam, mas porque se assumem como sujeitos históricos coletivos. Conclui, reafirmando que falta para os professores a clareza política e a compreensão dos projetos de sociedade e de educação que estão postos na sociedade. Apresentando a mesma linha de pensamento, o Professor Newton Duarte assevera que as tendências pedagógicas atualmente são hegemônicas. As teorias pedagógicas da moda rarissimamente têm trazido avanços. Na maioria das vezes, elas trazem idéias que enfraquecem a própria escola e a idéia da função da escola. Portanto, ressalta o professor que é necessário um estudo dos fundamentos educacionais, incluindo a didática como fundamento, porque a didática á a teorização sobre o ensino. Esse estudo é necessário para se fazer uma análise crítica das concepções e tendências pedagógicas hegemônicas. Acentua que esse estudo contribui para a compreensão dos projetos hegemônicos de sociedade e educação. As idéias pedagógicas tomam aspecto da subjetividade do educador, que se originam da alienação da vida cotidiana e que acabam imperando nas relações entre os educadores e as idéias educacionais. Neste caso, não é uma relação de aprendizagem racional, de desenvolvimento intelectual, com argumentação. Como toda a sedução é uma relação de heteronomia, porque o seduzido é dominado, o seduzido se deixa levar.e se ele se 148 deixa levar é porque o sedutor toca em pontos de sua subjetividade. Os educadores estão vulneráveis a esse processo de sedução das idéias pedagógicas da moda. E essa vulnerabilidade é proveniente da alienação da vida cotidiana nessa sociedade atual. No Brasil, a classe dominante tem conseguido sempre colocar o Estado a serviço de seus interesses, inclusive assegurando que o percentual de verbas para a educação no Brasil seja sempre baixo, conclui, Newton Duarte. Após as análises empreendidas pelos intelectuais entrevistados, compreende-se que a hegemonia neoliberal tem direcionado as políticas públicas educacionais para o estabelecimento do consenso, para que a educação continue contribuindo para a manutenção e fortalecimento do poder instituído pela classe dominante e pelas imposições do neoliberalismo. Recorre-se mais uma vez à contribuição de Gramsci: Pode se fixar dois grande “planos” superestruturais: o que pode ser chamado de “sociedade civil”, isto é, o conjunto de organismos chamados comumente de privados” e o da sociedade política ou Estado”, que correspondem à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela que se expressa no Estado e no governo “jurídico”. (GRAMSCI, 1995.p. 10-11) Com essa análise, Gramsci destaca que a função da organização da hegemonia social e do domínio que o Estado exerce leva a uma divisão do trabalho, e com isto conduz a uma diferenciação do grau de qualificação, o que induz a atividades diferenciadas. Por um lado há exigências de trabalho com caráter manual e instrumental e por outro lado a exigência de atividades intelectuais. E mesmo nessas atividades intelectuais ocorre uma divisão: para poucos é oferecido oportunidade de ter acesso a mais conhecimentos, aprofundar, pesquisar e para outros cabe a divulgação desses conhecimentos. A estes últimos é dado a responsabilidade de veicular as idéias dominantes. 149 Schlesener, com base em Gramsci também trabalha essa questão: É no interior do bloco histórico que se explicitam as relações de hegemonia, os mecanismos de dominação e direção exercidos por uma classe social sobre toda a sociedade em determinado momento histórico, bem como se esclarece a função dos intelectuais como organizadores da hegemonia. (SCHLENESER, 1992, p. 17) A autora alerta também para o papel que os intelectuais exercem na sociedade dividida em classes, como organizadores da hegemonia. E a direção dada no caso da educação tem conduzido à elaboração e também à divulgação de idéias que permitem a manutenção do poder dos que efetivamente tem se constituído como classe dirigente. Vale lembrar Pacheco, que discute as posições hegemônicas, que notadamente marcam o currículo, e por isto é necessário considerar o compromisso e as lutas presentes na proposta pedagógica. As opções pedagógicas representam diferentes lógicas e formas de legitimação de poder. (PACHECO, 2005). Esta submissão da educação ao poder, é um véu que necessita ser retirado para que, efetivamente, os profissionais da educação compreendam, que essa dependência tem legitimado ideologias e reforçado ações que fortalecem a exclusão escolar, não atingindo, portanto uma educação de qualidade para todos. Isto é, não cumpre o princípio constitucional legitimada da Carta Magna da Educação Brasileira que estabelece a gestão democrática da educação. Diante dessas análises, afirma-se que a categoria hegemonia esta fortemente presente na formação continuada. Ou seja, para atender à uma direção dada pela classe dominante, a formação continuada tem se restringido a preparar os profissionais da educação mais no caráter preocupando-se com a formação de técnicos. instrumental e especializado, 150 Portanto, é urgente elaborar estratégias que desvelem o processo de sedução das idéias pedagógicas da moda, que estão fortemente crescendo nas unidades educacionais e que estão promovendo a aceitação e a adesão ingênua a essas correntes. É necessário fazer a crítica a esse discurso ideológico que está sustentando o trabalho pedagógico. E esse discurso ideológico esta substituindo o essencial do trabalho na escola pelo secundário. O resultado deste “modismo” é a configuração de uma escola repleta de projetos efêmeros em detrimento da essência do projeto político pedagógico. A adesão a essas concepções conduz a negação da especificidade da educação16, portanto nega ao aluno o acesso ao conhecimento historicamente produzido. Considera-se que a formação continuada pode contribuir para analisar esses elementos, discutindo os pontos contraditórios que constituem essa realidade no Brasil: de que forma são organizadas as demandas para a educação direcionadas pelas categorias da qualidade total, competitividade, com base na concepção de uma formação de um sujeito abstrato. Necessário se faz qualificar o debate sobre a educação no sentido de propor alternativas para uma educação e sociedade democráticas. Quanto à cidadania os intelectuais entrevistados embora não tenham citado a categoria cidadania, revelaram a sua importância implicitamente ao explanarem sobre as outras categorias. A cidadania é uma categoria que tem sido utilizada com diferentes perspectivas e na sociedade capitalista e apresenta-se muito mais como um discurso do que realidade. Tem estado presente em concepção ideológicas e que 16 Termo emprestado à Saviani que define a especificidade da educação como referida aos conhecimentos,idéias, conceitos, valores, atitudes, hábitos, símbolos sob o aspecto de elementos necessários à formação da humanidade em cada indivíduo singular,na forma de uma segunda natureza, que se produz,deliberadamente e intencionalmente, através das relações pedagógicas historicamente determinadas que se travam entre os homens (SAVIANI, 1991, p. 29-30) 151 surpreendentemente tem a conotação de consumismo, ou seja, o cidadão é considerado como sinônimo de consumidor nessa sociedade onde só existe e tem valor quem pode consumir. Vale lembrar Pacheco (2005, p. 160) quando afirma: A educação para a cidadania é um espaço que não pode ser secundarizado nas propostas pedagógicas, embora nesse aspecto a realidade escolar ande muito afastada da retórica da Administração, já que é um caminho no sentido da construção quotidiana de escolas democráticas. E um currículo democrático inclui experiências de aprendizagem organizadas em torno de problemas e questões de natureza cultural, social, política e ideológica. (PACHECO, 2005, p. 160) Destaca, o autor, a intrínseca relação entre conteúdos científicos trabalhados na formação com a vida em sociedade, isto é, como já foi afirmado acima a necessária mediação que a educação exerce na formação para a prática social global. Diante das grandes transformações do mundo contemporâneo, a cidadania enfrenta novos desafios e passa por disputas de projetos de sociedade, que estão a exigir um rigor na formação dos educandos e, principalmente, dos seus educadores a fim de que se possa construir uma sociedade mais justa e humana. Vale lembrar Ferreira: Neste momento em que a cidadania enfrenta novos desafios, busca novos espaços de atuação e abre novas áreas por meio das grandes transformações pelas quais passa o mundo contemporâneo, é importante ter o conhecimento de realidades que, no passado, significaram e, no presente, ainda significam passos relevantes no sentido da garantia de um futuro melhor para todos. O direito à educação escolar é, portanto, um desses espaços que não perderam e não perderão a sua atualidade nunca, pois, mais do que uma exigência contemporânea ligada aos processos produtivos e de inserção profissional, responde a valores da cidadania social e política (FERREIRA, 2006a, p. 37-38) Diante do pensamento da autora, depreende-se que a escola é um local que tem o compromisso de buscar alternativas que permitam superar a cidadania como discurso e trabalhar efetivamente para que a cidadania se realize enquanto práxis no 152 decorrer do fenômeno educativo. Isto exige do profissional de educação o reconhecimento da sua responsabilidade enquanto formador de valores humanos na perspectiva da omnilateralidade. Desta forma, os conceitos de cidadania, ética e justiça necessitam ser compreendidos, incorporados e vividos como uma segunda natureza, que fortalece os seres humanos na vida solidária, no interior das relações estabelecidas na escola, contextualizando os com a realidade circunstanciada. 153 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS O homem carente cheio de preocupações, não tem nenhum sentido para o mais belo espetáculo; o comerciante de minerais vê apenas o valor mercantil, mas não a beleza e a natureza peculiar do mineral; ele não tem sentido mineralógico algum; portanto, a objetivação da essência humana, tanto do ponto de vista teórico quanto prático, é necessária tanto para fazer humanos os sentidos do homem quanto para criar sentido humano correspondente à riqueza inteira do ser humano e natural. (MARX, 2004a, p. 110-111) A história humana constitui-se na medida em que o homem imprime um sentido social e humano às necessidades de sua existência. No movimento da história, o homem reconhece que em sua riqueza encontra-se contraditoriamente a sua carência, a necessidade de estar com o outro, que para realizar-se precisa do outro. Essa compreensão de conhecimento de si supera a formação do ser singular, abstrato e afirma a importância da interação na constituição do sujeito. Acredita-se que é nessa relação orgânica, na convivência solidária e de inclusão, que o homem reflete e intencionalmente existe. No mundo hodierno, embora o ser humano continue carente de convivência, nega e aliena-se, não reconhecendo que o que o constitui como humano são os outros humanos que vivem ao seu lado. Essa negação fortalece o individualismo, gera a competição, a intolerância e a injustiça. Portanto, faz-se necessário criar sentidos humanos na existência, e isto constitui a verdadeira riqueza da humanidade. Necessário se faz, recuperar o sentido para o mais belo espetáculo, que é o fenômeno educativo com suas contradições e possibilidades, na concepção da autora desta dissertação. Que belo espetáculo existe no interior da escola, nas relações em sala de aula, na rica convivência que oportuniza o crescimento de cada ser humano que convive entre si! E muitas vezes o professor não percebe esta riqueza do ser humano que ele é, e a riqueza do aluno com o qual interage quase 154 que diariamente. Em determinados momentos, a condução de determinadas políticas hegemônicas exige do professor resultados e produções imediatas, levando-o a agir e a reagir pelo produto do seu trabalho e não pela peculiaridade da sua relação. Na análise empreendida nesse estudo, evidenciou-se a necessidade de desmistificar o caráter individualista da formação continuada, que tem se constituído por meio e pela influência das políticas hegemônicas. Constata-se que embora as políticas públicas exaradas apontem para uma formação cidadã, a base individualista permanece. Portanto, contraditoriamente, o caráter conservador está presente, de forma que os problemas da sociedade e da educação não são tratados devidamente, o que indica a necessidade de uma análise mais rigorosa das políticas de gestão e de avaliação. Necessário se faz dar um novo sentido à formação continuada dos profissionais da educação visando a uma política de qualificação. E este novo sentido se dará quando se considerar qual o homem está sendo formado e para qual sociedade. Essa relação só é suficientemente compreendida quando se tem a concepção de que o trabalho pedagógico se efetiva pela práxis humana Com essas considerações, destaca-se como síntese dessa dissertação algumas questões propositivas acerca do objeto dessa investigação: - É necessário examinar a Formação Continuada e a problemática do homem na sociedade contemporânea para propor uma formação que supere o individualismo e direcione-se para a solidariedade via o desenvolvimento da concepção de homem omnilateral, o que exige um novo compromisso do Estado e uma reorganização da formação continuada. - Necessário se faz recuperar o sentido da compreensão da natureza e da especificidade da educação, e para tanto é importante que o docente estude as teorias pedagógicas. 155 - Defende-se que a formação continuada deva contemplar autores clássicos referentes à disciplina de atuação do profissional da educação e aos clássicos dos fundamentos da educação, não no sentido de repetir suas idéias, mas incorporá-las, contextualizando-as com a sociedade e a educação atual. Acredita-se que a partir da leitura dos clássicos podem-se criar novas metodologias de análise da sociedade e da educação, e possibilitar aos docentes redimensionar o trabalho educativo na perspectiva da emancipação humana. - É preciso que a formação continuada efetivamente apresente contribuições significativas na sala de aula. Para tanto, propõe-se que as Secretarias de Educação realizem pesquisas para investigar a relação da contribuição da formação continuada para que efetivamente promova transformações no trabalho pedagógico, e que na sala de aula ocorra uma significativa apropriação do conhecimento. - Divulgar para os profissionais da educação básica os trabalhos realizados pelas associações científicas em prol da formação continuada, principalmente os da ANFOPE e ANPED. Apresentar as posições e lutas dessas associações e suas significativas contribuições e intervenções nas políticas públicas de formação continuada. -Valorizar a formação continuada que defende a solidariedade, a justiça e o valor do ser humano, que se constituem nos verdadeiros valores da vida humana. - Destacar para todos os educadores e comunidade o compromisso da gestão democrática de analisar os elementos postos pela sociedade e pelo trabalho docente que indicam a necessidade de tomá-los como objeto de reflexão. - Defender a compreensão de que a formação continuada alicerça-se na convicção de que o professor é necessariamente um formador, daí seu compromisso e suas responsabilidades. 156 - Necessário se faz a formação continuada constituir-se de um debate teórico por meio de uma reflexão crítica de determinados campos do conhecimento e a relação com as políticas públicas e gestão. - Reafirmar que o caráter da formação continuada deve estar centrado na perspectiva da solidariedade e da formação omnilateral. - Considera-se necessário estar presente na agenda educacional da formação continuada, questões que abordem os motivos pelos quais os cursos de graduação preparam os profissionais da educação para atuarem na escola como ela está organizada. Isto é, visando apenas adaptar o profissional às condições já existentes. E, neste sentido, necessário se faz relacionar os objetivos da formação continuada com os da graduação. E, ainda, acrescentar uma questão para o debate: A formação continuada se justifica para atender as lacunas da graduação ou para qualificar o trabalho docente? - A gestão democrática deve ser o elemento nucleador do debate em educação, o que exige um compromisso dos intelectuais da educação para que seu trabalho tenha como o objetivo a formação de dirigentes, tendo como elementos básicos a formação técnica e política. A gestão da educação deve trabalhar com as contradições e a abertura à convivência, onde todos se considerem e incluam-se mutuamente, construindo a gestão democrática. A formação continuada na perspectiva de uma política de qualificação fundamenta-se na lógica dialética, compreendendo as contradições da sociedade e da educação numa perspectiva de totalidade com todos os antagonismos. Pensar uma política de qualificação da formação continuada significa sustentar-se num projeto de sociedade e de educação que incorpora o avanço histórico da produção humana com o comprometimento de ajudar a construir o ser humano em todas as 157 suas dimensões possibilitando também a construção coletiva de uma qualidade de vida socialmente digna e cidadã. 158 REFERÊNCIAS AGUIAR, M. et al. Diretrizes curriculares do curso de pedagogia no Brasil: disputas de projetos no campo da formação do profissional da educação. Revista educação e sociedade, v. 27, n. 96, 2006. AGUIAR, M. O conselho Nacional de secretários de educação na reforma educacional do governo FHC. Revista educação e sociedade, v. 23, n. 80, 2002. ARENDT, H. O que é política. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004. ANFOPE. Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação. Documento Gerador para Debate nos Grupos temáticos. IX ENCONTRO NACIONAL DA ANFOPE - Campinas ago. 1996. ARISTÓTELES. A política. 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O que o senhor considera fundamental no que concerne às políticas públicas que dizem respeito à formação continuada do profissional da educação básica? 6. Quais têm sido as maiores contribuições das associações científicas sobre as políticas de formação? 7. Quais os avanços e quais os recuos constatados pelas pesquisas sobre formação continuada dos profissionais da educação básica? 8. No seu parecer, o que compete à gestão da educação sobre a garantia da formação continuada dos profissionais da educação básica, com a qualidade necessária? 9. Qual a concepção de educação que tem estado presente na Formação continuada dos profissionais da educação básica nas diversas instituições e sistemas que a desenvolvem? 10. Qual é a sua compreensão a respeito das políticas de formação continuada dos profissionais da educação básica? 11. Na sua opinião a organização da formação continuada no Brasil propicia uma relação entre os conceitos, os referenciais teóricos e as atividades desenvolvidas no interior das unidades educacionais? 167