FORMAÇÃO CONTINUADA: ANÁLISE DO PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA PREFEITURA DE ANÁPOLIS Vívian Roseli Rios1 Odiones de Fátima Borba2 RESUMO: Este artigo apresenta uma análise da formação continuada dos professores do município de Anápolis, abordando a formação de docentes para a educação básica e a necessidade de os professores estarem em formação contínua como é proposto na LDB. A finalidade deste artigo é analisar o programa de formação continuada de professores, estando voltado para a rede de educação básica do município de Anápolis. A metodologia utilizada foi de pesquisa bibliográfica, por meio de obras relacionadas ao assunto e pesquisa de campo com aplicação de questionários para docentes, conversas informais com gestores do programa, entrevistas e análises de documentos. Os resultados mostram que a procura, dos professores, pela formação continuada tem crescido e que o Centro de Formação Continuada de Professores de Anápolis tem investido seriamente na qualificação dos profissionais da rede de educação básica. PALAVRAS-CHAVE: Formação continuada. Professor. Educação Básica. INTRODUÇÂO O presente artigo constitui-se de uma pesquisa sobre o programa de aperfeiçoamento dos professores da rede municipal de Anápolis, como forma de demonstrar os programas existentes, bem como o índice de adesão, as modalidades mais procuradas e como os professores analisam esse programa. A profissão do professor é complexa e, além de uma boa formação inicial, há que se buscar constante aperfeiçoamento. As mudanças ocorridas no mundo moderno desafiam o professor a compreender essa realidade. Por outro lado, os desafios cotidianos da prática em sala de aula, as políticas públicas para educação e toda a complexidade que envolve a escola demandam estudos, trocas de experiência e vivências com outros profissionais, daí a necessidade e função dos cursos de formação continuada. 1 2 Graduada em Pedagogia - UniEVANGÉLICA. Socióloga, Mestre em Geografia, Professora adjunto da UniEVANGÉLICA, orientadora da pesquisa. 1 A pesquisa foi desenvolvida junto à Secretaria Municipal de Educação de Anápolis, com os gestores do programa, bem como contou a participação de docentes da rede municipal. A análise da literatura reforçou os argumentos quanto à importância da educação continuada, o que foi constatado com os dados da pesquisa que demonstram o bom índice de adesão aos cursos. Os professores pesquisados informam que os cursos contribuem para o aperfeiçoamento da prática docente. No entanto, chamam a atenção para o caráter excessivamente teórico de alguns cursos e da dificuldade de tempo para o desenvolvimento das atividades extra-sala. PROFISSÃO PROFESSOR O papel do professor e sua relação com a escola e sociedade mudaram. Vários autores, como Libâneo (2007), Lima (2007), Nóvoa (1996), Pimenta (2000), têm discutido sobre essas transformações e os desafios da profissão. Segundo Lima (2007), no processo de ensino/aprendizagem “o professor é quem media o conhecimento fazendo com que o aluno construa seu próprio conhecimento”. O professor deve ser um profissional que: auxilie no crescimento e progresso do aluno, um ser com cultura, que seja crítico e reflexivo, capaz de produzir conhecimento sobre sua área, com formação em nível superior que esteja sempre em formação continuada, cumprindo com suas obrigações, sendo ético e auto avaliador do seu trabalho. Os professores não são apenas consumidores, mas também produtores de materiais de ensino; os professores não são apenas executores, mas também criadores e inventores de instrumentos pedagógicos; que os profissionais não são apenas técnicos, mas também profissionais e reflexivos (NÓVOA, 1996, p. 67). As exigências sobre o professor são muitas e como profissional da educação ele precisa estar atento e atualizado, obedecendo às normas e regras que estão sempre sofrendo alterações, principalmente quando se muda o sistema de ensino. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação os docentes incumbir-se ão de: I – Participar da elaboração da proposta pedagógica; II – Elaborar e cumprir o plano de trabalho; III – Zelar pela aprendizagem dos alunos; IV – Estabelecer estratégias de recuperação dos alunos; V – Ministrar os dias letivos e horas-aulas estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional; VI – Colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade; (BRASIL. LDB, 1996). 2 Para Gauthier e Mellouki (2004), ao entenderem o professor como um intelectual, afirmam que este é mandatário de quatro dimensões que o diferenciam de outros intelectuais: é mediador, herdeiro, crítico e interprete da cultura. Quanto à identidade profissional dos professores, parece-nos que ela vem sofrendo, como a dos outros grupos ocupacionais, fortes repercussões das transformações ocorridas no mercado. (DUBAR, 2002, apud LÜDKE; BOING, 2004, on-line). Outras dificuldades encontradas por professores como profissional da educação são os Baixos salários, com a preparação profissional deficiente, com a baixa auto-estima (...). Além disso, estão ausentes programas de formação continuada em serviço e, quando existem são inadequados e não se traduzem em mudança na sala de aula (LIBÂNEO, 1999, p. 91). O despreparo dos professores é enorme para enfrentar as mudanças gerais que estão ocorrendo na sociedade contemporânea (LIBÂNEO, 1999). Por isso, hoje algumas das exigências para o papel do docente proposta pelo Conselho Nacional de Educação são de, [...] orientar e mediar o ensino para a aprendizagem dos alunos; responsabilizar-se pelo sucesso da aprendizagem; assumir e saber lidar com a diversidade; incentivar atividades de enriquecimento curricular; elaborar e executar projetos para desenvolver conteúdos curriculares; utilizar novas metodologias; desenvolver hábitos de colaboração e trabalho em equipe (CNE, 2001 apud MACEDO, 2003, p. 47). O professor deve fazer da sua prática educativa uma mediação e assimilação de saberes, desenvolvendo as habilidades e competências dos alunos ultrapassando a sala de aula. FORMAÇÃO CONTINUADA Quando um graduando termina o curso superior, este deve continuar se aperfeiçoando, pois somente o estágio realizado durante o curso de licenciatura não lhe dará capacidade profissional para enfrentar situações inesperadas e desafiadoras. Com as mudanças ocorridas nas reformas educacionais, aumentaram as exigências para com profissional da educação. Nesse sentido, Libâneo (2007, p. 227), afirma que: A formação continuada é o prolongamento da formação inicial visando ao aperfeiçoamento profissional teórico e prático no próprio contexto de trabalho e ao desenvolvimento de uma cultura geral mais ampla para além do exercício profissional. 3 Oliveira e Nogueira (2005 apud LIMA, 2007, p. 9), afirmam que: a formação continuada no Brasil já recebeu muitos nomes: reciclagem, capacitação, treinamento, formação em serviço, por exemplo. A questão central que permanece é a mesma: a formação docente – inicial e continuada. Como o próprio nome já diz, formação continuada vem completar a formação inicial qualificando o professor para exercer seu papel com maior habilidade e profissionalismo. Prada (2007, apud LIMA, 2007, p. 8), afirma que A formação continuada é aquela que ocorre ao longo da vida do ser indivíduo-professor. Esta formação pode acontecer mediante diversas situações do cotidiano (...), porém a formação continuada precisa estar estabelecida por atividades devidamente preparadas para viabilizar a construção, socialização e confronto de conhecimentos, de tal forma que os professores como cidadãos e como professores possam avançar continuamente em seu caminho de desenvolvimento profissional. São várias as formas de realização da formação continuada. Libâneo (2004, p. 229), apresenta: A formação continuada consiste de ações de formação dentro da jornada de trabalho como ajuda a professores iniciantes, conselho de classe, (...); Fora da jornada de trabalho, ex.: congressos, cursos, palestras, (...); e do próprio professor, para que ele tome para si a responsabilidade com a própria formação. Para Nóvoa (1995 apud BIAGGI, 2007, p. 104), a formação continuada tem entre outros objetivos Propor novas metodologias e colocar os profissionais a par das discussões teóricos atuais, com a intenção de contribuir para as mudanças que se fazem necessárias para a melhoria da ação pedagógica (...) relacionando-as com o conhecimento prático construído no seu dia-a-dia. Os programas de aperfeiçoamento deveriam ser oferecidos no ambiente escolar alcançando toda equipe envolvida na educação. Mas, para que isso aconteça, as escolas teriam que oferecer condições físicas, técnicas, materiais e pedagógicas necessárias. Para Lastória (2003 apud BIAGGI, 2007, p. 109), a escola deveria proporcionar tempo e espaço para que os professores vivenciassem novas compreensões a respeito das situações concretas de ensino e aprendizagem. Sobre o tempo dos programas de formação Kilpatrick (2009, p. 30), afirma que: Os programas de formação são muito curtos e não há tempo de cobrir tudo. Mas uma coisa a fazer é transformar essa qualificação em uma pós-graduação, que teria duração maior. No fim dessa preparação, os aprovados sairiam com um diploma e teriam aprendido como ensinar conteúdos específicos. Segundo Demo (2002, apud LIMA, 2007, p. 13), “a qualidade da educação depende em primeiro lugar da qualidade do professor”, portanto se faz necessário rever o real objetivo que se 4 pretende alcançar em nível de formação continuada para que isso reflita na educação dentro da sala de aula. Como a formação continuada deve estar presente no exercício profissional, a rede municipal de Anápolis tem o Centro de Formação Continuada de Professores de Anápolis que se encontra no Bairro Jundiaí. Para compreensão da percepção dos professores da rede municipal de ensino de Anápolis, foram convidados a participar do estudo professores de 1º ao 5º ano da rede pública do município de Anápolis. A faixa etária desses professores varia de 24 a 48 anos e a grande maioria é do sexo feminino. De todos os professores pesquisados somente uma não participou de nenhum curso oferecido pelo Centro de Formação Continuada. Essa professora alegou não tenho tempo para freqüentar os cursos que são oferecidos no Centro de Formação, pois no período matutino eu cuido da minha casa, no vespertino eu trabalho e no noturno estou na faculdade, mas me atualizo por meio das mídias e de estudos na faculdade (informação oral, P6, 2009). Outra professora, ao ser entrevistada, disse ter iniciado vários cursos, mas que não terminou nenhum. Sobre os cursos ela afirmou sei que esses cursos exigem muito do aluno. Vejo meus colegas cheios de trabalhos e projetos para fazerem. Não tenho tempo, estou muito cansada da jornada de trabalho (informação oral, P3, 2009). A grande maioria dos professores pesquisados respondeu ter participado e concluído os cursos que fizeram, definindo os cursos como “excelentes” e de “boa qualidade”. Os cursos são totalmente aproveitáveis, eles oferecem um embasamento teórico e prático para o trabalho do professor em sala de aula e fora dela (informação oral, P8, 2009). Ao questionar os professores sobre o que os motivava a freqüentar os cursos as respostas obtidas foram: “para me atualizar profissionalmente suprindo as minhas deficiências didáticas melhorando a prática em sala de aula, porque os cursos são gratuitos, os professores formadores são bem preparados e no final recebemos o certificado que dá acesso à titularidade” (informação oral, P4, 2009). Sobre como os professores tomam conhecimento dos cursos oferecidos, a resposta foi unânime: por meios dos boletins informativos fixado nos murais da própria escola. Sobre o que eles pensam de como deveria ser os cursos de formação continuada uma professora argumentou 5 Em minha opinião, os cursos não deveriam ser apenas um dia na semana, isso prejudica o seguimento do conteúdo, deixando o aluno desmotivado. Alguns cursos podem ser terminados em apenas três meses (informação oral, P5, 2009). Outra opinião acerca do assunto foi de que Os cursos de formação continuada deveriam ser realizados em um local mais centralizado, perto do terminal rodoviário, facilitando para quem depende da TCA (Transporte Coletivo de Anápolis) como veículo de locomoção (informação oral, P2, 2009). Os docentes informaram que alguns cursos são muito teóricos e que gostariam que estes se tornassem mais dinâmicos e que houvesse menos trabalho para realizar em casa. Argumentaram estar sempre sobrecarregados de afazeres. Foram poucos os professores que disseram gostar das atividades que são passadas para realizar em casa. Todos os pesquisados disseram ter realizado atividades propostas pelos cursos em sala de aula. Afirmaram estar aprendendo a trabalhar com projetos nos cursos, e a repensar a prática pedagógica. A maioria dos cursos tem boa adesão e altos índices de evasão. Um dos motivos citados pela coordenadora (informação oral, 2009), é de que os alunos/professores se matriculam em vários cursos visando apenas às horas no certificado. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo revelou que como o papel do professor tem mudado, este não pode mais se contentar apenas com sua graduação a qual é teórica e não abrange os problemas enfrentados no cotidiano em sala de aula. O professor atual necessita ser crítico, reflexivo, pesquisador, atualizado, responsável, ético e capaz de aprender a ensinar, não ignorando a história de vida e conhecimento que o aluno tem. A formação continuada proporciona uma discussão e reflexão sobre metodologias diferenciadas que auxiliam no processo educativo. Esta formação continuada pode ser realizada em centros ou no próprio ambiente escolar, onde as propostas seriam direcionadas para determinado problema. A investigação realizada com os docentes da educação básica mostrou que aqueles que fizeram cursos tiveram aproveitamento em sala de aula e perceberam que se colocado em prática corretamente os resultados podem ser surpreendentes. No entanto, apresentam indicadores para melhoria nos cursos oferecidos, como melhor localização para facilitar o acesso, cursos mais 6 práticos e menos teóricos, diversidade de oferta de cursos. Argumentos que podem ser reforçado, considerando o indicado na literatura, de que o aperfeiçoamento deva acontecer também no ambiente de trabalho e com toda a equipe escolar. Independentemente do curso escolhido o importante é estar em formação contínua correspondendo às exigências prevista na lei estando preparado não só para o mercado de trabalho competitivo, pela qualificação pessoal, mas para ensinar o aluno a aprender a pensar com criticidade e ser um cidadão reflexivo sobre tudo que o cerca. CONTINUED FORMATION: ANALYSIS OF the PROGRAM OF TEACHERS' FORMATION OF the TOWN HALL OF ANÁPOLIS ABSTRACT: This article presents an analysis of the continued formation of the teachers of the local authority of Anápolis, boarding the teachers' formation for the basic education and the necessity of the teachers of being in continuous formation as it is proposed in the LDB. The finality of this is to analyse the program of continued formation of teachers, when turned for the net of basic education of the local authority of Anápolis. The used methodology was of bibliographical inquiry, through works made a list to the subject and for instruments of collections of data that they were the questionnaires, informal conversations, interviews and analyses of documents. The results show that the search of the teachers for the continued formation has been growing and that the Centre of Continued Formation of Teachers of Anápolis has been investing seriously in the qualification of the professionals of the net of basic education. KEY WORD: Continued formation. Teacher. Pedagogy. Education REFERÊNCIAS BIAGGI, Aramis Franscisco. Formação Continuada de Professores: Concepções e Práticas. REVISTA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DA UNIMEP. Ano 14, nº 1, p. 99-115. junh. de 2007. BRASIL. MEC. Diretrizes Curriculares para o curso de Pedagogia. Disponível em: <www.mec.gov.br.> Acesso em: 04 de Maio de 2009. FREIRE, Luciana E. C. P. Sousa ; MOREIRA, Verbena. Políticas educacionais, práticas escolares e alternativas de inclusão escolar. Rio de Janeiro: DP & A, 2003. GERALDI, Corinta Maria Grisolia. ; FIORENTINI, Dario. ; PEREIRA, ELISABETE Monteiro de Aguiar. Cartografias do trabalho docente. 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