1 REFLETINDO SOBRE O ESPAÇO DE FORMAÇÃO CONTINUADA NA UNIVERSIDADE (CURSO DE PEDAGOGIA) Sandra David1 Resumo: A formação continuada vem ganhando cada vez mais relevância na área da educação. O presente texto está organizado em três partes. Na primeira, apresenta as concepções que vêm sendo apontadas pelos diferentes autores para construirmos um panorama e situarmos o debate teoricamente, na segunda parte problematiza a questão a partir da discussão do papel da universidade na sua relação com a sociedade situando as questões que estariam interceptando este debate e numa terceira parte, mais objetivamente, procura-se apontar alguns indicadores que poderiam orientar processos de implantação e análise dos projetos de formação continuada desenvolvidos nas universidades nas diferentes áreas de licenciatura ou especificamente nos cursos de pedagogia. Palavras-chave: Universidade (curso de pedagogia). Formação continuada. Possibilidades de interação. “A educação é movimento e ordem, sistema e contestação. O saber que existe solto e a tentativa escolar de prendê-lo num tempo e num lugar. A necessidade de preservar na consciência dos “imaturos” o que os “mais velhos” consagraram e, ao mesmo tempo, o direito de sacudir e questionar tudo o que está consagrado, em nome do que vem pelo caminho”. (Carlos Rodrigues Brandão) Concepções sobre o tema Nas últimas décadas, o mundo transformou-se de maneira ampla e profunda. Essas transformações, de natureza científica, tecnológica, política, econômica, social e cultural, 1 Professora de educação física, especialista em educação física escolar e psicopedagogia e mestranda em educação nas ciências da Unijui – RS. 2 têm-nos levado a enfrentar sucessivos e complexos acontecimentos que modificam as nossas vidas nos mais diversos aspectos. Alguns desses acontecimentos estão relacionados com as funções sociais e econômicas que a informação e o conhecimento têm ocupado na sociedade, bem como com os avanços da telemática, que têm facilitado a produção e a circulação de grandes volumes de informação. Esses são fatos que requerem das instituições e dos profissionais adequação e atualização constantes. O conhecimento que permite o desenvolvimento mental se dá na relação com os outros. Nessa perspectiva o professor constrói sua formação, fortalece e enriquece seu aprendizado. Por isso é importante ver a pessoa do professor e valorizar o saber de sua experiência. Para Nóvoa (1997, p.26): “A troca de experiências e a partilha de saberes consolidam espaços de formação mútua, nos quais cada professor é chamado a desempenhar, simultaneamente, o papel de formador e de formando.” Há algumas décadas, acreditava-se que, quando terminada a graduação, o profissional estaria apto para atuar na sua área o resto da vida. Hoje a realidade é diferente, principalmente para o profissional docente. Este deve estar consciente de que sua formação é permanente, e é integrada no seu dia-a-dia nas escolas Atualmente, em face das funções que tradicionalmente lhes têm sido imputadas, as universidades talvez sejam as instituições mais chamadas pela sociedade a acompanhar as transformações da vida humana. Considerando que esse acompanhamento requer uma participação efetiva das universidades na sociedade e que as instituições são representadas socialmente pelos seres humanos, os professores atuantes nas instituições universitárias do nosso tempo tornam-se agentes diretamente responsáveis pelo atendimento a esse chamado. Sabendo-se que as instituições são produtos das ações humanas, podemos afirmar que tanto a integração das universidades com a sociedade quanto o nível de inovação que delas esperamos, o qual deve caracterizá-las como instituições que estão sempre à frente do seu tempo, dependem sobremaneira da atuação de um dos seus segmentos mais importantes – os professores universitários. Esses, por sua vez, apoiados em políticas educacionais pertinentes, devem estar se apropriando permanentemente do conhecimento produzido com vistas à objetivação desse mesmo conhecimento, mediante as funções de Ensino, Pesquisa e Extensão, em consonância com as exigências sociais do hoje e do amanhã. 3 O processo permanente de desenvolvimento profissional a que todos os professores tem direito envolve a formação inicial e a formação continuada2, sendo que a diferença essencial entre esses dois processos é que a formação continuada ocorre com o professor no exercício de suas atividades. O modelo convencional de formação continuada da educação brasileira vem sendo bastante questionado nos últimos anos, principalmente, pela sua ineficácia. O que seria a formação continuada? Seriam os processos que acontecem em situações específicas, após a formação inicial, considerada aqui, como a formação desenvolvida na graduação? O que dizer, nos casos dos professores da educação básica que possuem a formação do magistério no nível médio que retornam às instituições de ensino superior para cursarem a graduação? E aqueles que, em busca de aprofundamento ou titulação, retornam a universidade para fazerem mestrado e doutorado? Essas situações, às vezes, não são consideradas quando se discute a formação continuada e a idéia predominante refere-se, especialmente, àqueles projetos em que ações de formação acontecem em situações específicas, em espaços específicos, conforme propostas elaboradas a partir de demandas específicas. A maioria dos autores, quando se referem às concepções de formação continuada de professores, apóia-se em Demaly (1992) que classifica esses projetos em 4 modelos, forma universitária, forma escolar, forma contratual e forma interativo-reflexiva. Nóvoa (1992) não traz novidades, mas reorganiza esses quatro modelos em dois grupos, modelo estrutural, modelo construtivo. Um programa de formação continuada se desenvolve num campo complexo e a escolha de um melhor modelo fica condicionada à conjunção de forças desse campo. Isso significa que um bom modelo para um grupo pode não ser para outro dependendo das expectativas e desejos dos participantes. Postula Gatti (2003) que a formação continuada de professores consiste numa questão psicossocial, em função da multiplicidade de dimensões que essa formação envolve, segundo a autora, um projeto de formação continuada não pode ser construído ignorando-se o conjunto de dimensões que estão envolvidas, a natureza e as características psicossociais do ato educativo. Os contextos institucionais e sociais que enquadram as 2 Termo utilizado na declaração de Genebra, em 1996, documento elaborado por educadores. (Perrenoud, 2000) 4 práticas dos professores são diversos e as demandas por educação se constroem em campos bastante diferentes. Ainda, segundo Gatti (1997), os programas de formação utilizam dispositivos de motivação externa (pontuação, progressão na carreira certificados) que, sem dúvida são importantes, mas, não podem substituir o compromisso pessoal e institucional, com o desenvolvimento profissional permanente, a melhoria do ensino, e com a própria aprendizagem dos alunos. Para Marin (2002) a formação continuada de professores deveria transformar a escola em espaço de troca e de reconstrução de novos conhecimentos. Deveria partir do pressuposto da educabilidade do ser humano, numa formação que se dá num continuum, em que existe um ponto que formaliza a dimensão inicial, mas não existe um ponto que possa finalizar a continuidade desse processo. Assim, a formação continuada é, em si, um espaço de interação entre as dimensões pessoais e profissionais em que aos professores é permitido apropriarem-se dos próprios processos de formação e dar-lhes um sentido no quadro de suas histórias de vida. Depois de imersos no mundo do trabalho, pelas próprias condições de proletarização da docência que os abrigam a jornadas de trabalho de inacreditável duração, e pela inexistência de um hábito de buscar a educação contínua, não é tão comum quanto seria necessário o retorno destes docentes à universidade, para realizarem desdobramentos da sua formação. Nóvoa (2002, p. 23) diz que: “O aprender contínuo é essencial se concentra em dois pilares: a própria pessoa, como agente, e a escola, como lugar de crescimento profissional permanente.” Para esse estudioso português, a formação continuada se dá de maneira coletiva e depende da experiência e da reflexão como instrumentos contínuos de análise. No Brasil esta modalidade de educação já recebeu muitos nomes: reciclagem, capacitação, treinamento, formação em serviço, por exemplo, mas, a questão central permanece a mesma: a formação docente inicial e continuada precisa ser enfrentada em termos da geração de políticas públicas da constituição de uma cultura valorizadora da formação, da construção de atitudes, nos vários níveis da estrutura educacional, de valorização desse aprimoramento profissional. O papel da universidade 5 Sabemos que, neste momento histórico, tanto a dicotomia educação-trabalho é inadequada quanto a idéia da seqüência - educação para o trabalho. Um processo e o outro estão articulados e são fundamentalmente complementares. Por outro lado, a relação desinteressada da relação teoria/prática exaltada pela universidade, que historicamente, defendeu a busca pelo conhecimento como a busca pela verdade pura, perspectiva, essa, que é a marca da modernidade e a marca do prestígio concentrado nas ciências básicas, foi, também, o foco dos conflitos vividos nos anos 60 representados pelos apelos que traduziam as críticas à universidade isolada em uma torre de marfim. No entanto, até hoje não resolvemos o hiato entre as mudanças estruturais vividas a partir de então e as possibilidades de oferecer respostas às necessidades sociais emergentes. Existe ainda, uma longa caminhada a ser percorrida, especialmente no que se refere à relação da universidade e a formação continuada de professores para a educação básica. A formação continuada é uma das dimensões importantes para a materialização de uma política global para o profissional da educação, articulada à formação inicial e a condições de trabalho, salário e carreira, e deve ser entendida como continuidade da formação profissional, proporcionando novas reflexões sobre a ação profissional e novos meios para desenvolver e aprimorar o trabalho pedagógico; um processo de construção permanente do conhecimento e desenvolvimento profissional, a partir da formação inicial e vista como uma proposta mais ampla, de hominização, na qual o homem integral, unilateral, produzindo-se a si mesmo, também se produz em interação com o coletivo. (ANFOPE, 1998). A formação continuada não pode ser concebida apenas como um meio de acumulação de cursos, palestras, seminários, de conhecimentos ou técnicas, mas um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de construção permanente de uma identidade pessoal e profissional em interação mútua, é uma exigência da atividade profissional no mundo atual não podendo ser reduzida a uma ação compensatória de fragilidades da formação inicial. O conhecimento adquirido na formação inicial se reelabora e se especifica na atividade profissional, para atender a mobilidade, a complexidade e a diversidade das situações que solicitam intervenções adequadas. Assim, a formação continuada deve desenvolver uma atitude investigativa e reflexiva, tendo em 6 vista que a atividade profissional é um campo de produção do conhecimento, envolvendo aprendizagens que vão além da simples aplicação do que foi estudado. A formação continuada de caráter reflexivo considera o professor sujeito da ação, valoriza suas experiências pessoais, suas incursões teóricas, seus saberes da prática e possibilita-lhe que, no processo, atribua novos significados a sua prática e compreenda e enfrente as dificuldades com as quais se depara no dia-a-dia. Ainda não se pode perder de vista a articulação entre formação e profissionalização, na medida em que uma política de formação implica ações efetivas, no sentido de melhorar a qualidade do ensino, as condições de trabalho e ainda contribuir para a evolução funcional dos professores. Os inúmeros vínculos estabelecidos em projetos de formação continuada são mediados por uma noção de conhecimento. Assim, aqueles que assumem a noção clássica de conhecimento estarão organizados segundo perspectivas bastante diferentes daqueles que tomam por base o paradigma do conhecimento como uma produção social, localizado e produzido na relação dos sujeitos com a construção da própria vida. Neste último caso, o conhecimento fundado na reflexão das experiências é tomado como ponto de partida para o diálogo com o conhecimento já sistematizado. È uma perspectiva que se baseia na idéia da aprendizagem significativa. A relação pedagógica que se estabelece entre as partes no contexto deste paradigma diferencia os saberes da prática e da experiência dos saberes considerados científicos, relativamente à sua metodologia e sistematização, mas não os qualifica como melhores ou piores, mais verdadeiros ou menos verdadeiros. Isso, conseqüentemente, altera os vínculos que serão estabelecidos entre os diferentes sujeitos que participam do programa de formação. Assim sendo, a clareza da opção por uma das concepções construirá o alicerce do cenário das relações pedagógicas a serem estabelecidas entre implementadores e sujeitos em processos de formação. Por vezes, as interações não se efetivam por ausência de explicitação das bases do diálogo. Os formadores podem estar buscando a reflexão da prática e a re-significação dos saberes da experiência do professor, mas aqueles em processos de formação podem estar buscando respostas diretas, soluções, fundamentos ou teorias. O contrário pode também acontecer: os formadores formulam projetos, desejosos para levar à escola de educação básica aquilo que consideram a chave da mudança. 7 O debate sobre as possibilidades de se estabelecer uma política de formação continuada no campo da universidade não é algo simples. Envolve a discussão do papel social da instituição, dos pressupostos teórico-metodológicos da produção do conhecimento e dos impactos relacionados às diretrizes emanadas de outros órgãos gestores que definem processos de avaliação da produtividade daqueles que vivem a universidade e que a fazem no seu cotidiano O que se procura com os projetos de formação continuada de professores Será que podemos ter uma orientação segura quanto ao desenvolvimento das atividades de formação continuada de professores quando temos, ainda, dificuldades para precisar a concepção de formação inicial de professores que se abraça no interior das universidades? Qual o lugar da atividade de extensão no contexto da formação continuada de professores e no contexto da própria universidade no debate dessa questão? As funções primeiras da universidade estão alicerçadas no tripé ensino, pesquisa e extensão. No entanto, como se estruturaria a base sustentadora da formação de professores para a Educação Básica no interior de uma universidades que ocupam lugares de excelência nacional? Diante disso, perguntamos: Que argumentos estamos oferecendo à sociedade, que reclama por respostas e que alternativas estamos construindo? È do nosso interesse apresentá-las? Santos (1996 p.187) comenta que a instituição universitária, sobretudo no mundo ocidental, está associada à rigidez funcional e organizacional, à relativa impermeabilidade às pressões externas, enfim, às mudanças. Os tempos atuais falam de disseminação de conhecimento. Existe uma tensão latente pelo que não se sabe e espera-se que o novo venha trazer a solução. Existe o desejo pela socialização do conhecimento e sabe-se que o acúmulo de informações ou conhecimentos faz a diferença entre grupos humanos. No entanto, pouco tempo existe para nos perguntarmos, o que se sabe sobre as práticas docentes no interior de uma escola de educação básica no interior do Brasil ou na periferia de um grande centro? Que diferença faz o conhecimento produzido no interior da universidade para o contexto dessas práticas escolares? È certo que a universidade tem o que oferecer e tendemos a acreditar que nossas idéias contribuirão para a transformação da realidade. Isso é muito bom, no entanto, a produção do conhecimento se dá num percurso que só tem sentido no contexto dessa 8 produção. O repasse exige um novo percurso, que logicamente incorporará aquele já percorrido, mas novos sentidos e significados deverão ser criados para que nossas idéias realmente renasçam em novos contextos. È assim que conseguimos adeptos a elas. A resposta a essas questões torna-se fundamental para o debate sobre os projetos de formação continuada de professores porque tocam em pontos nevrálgicos do fazer universitário. Tocam em valores construídos historicamente relativos à relação ensino, pesquisa e extensão na universidade e tocam na relação que estabelecemos com o próprio conhecimento por nós produzido. Existe um lugar social de prestígio ocupado pela universidade e muitos a procuram em função das suas possibilidade em oferecer respostas. No entanto, sabemos que este lugar social se constrói num campo de luta entre concepções relativas ao conhecimento, entre a relação educação – trabalho e teoria – prática. Para Marques (2000) Todas as instituições responsáveis pela educação devem ser envolvidas nos processos da formação continuada do educador. Cumpre, no entanto, dediquemos aqui atenção especial às responsabilidades específicas da universidade. Escola da educação do educador, à universidade não é apenas o processo formativo formal. Deve a ele dar continuidade e propiciar-lhe as rupturas exigidas pelo exercício da profissão na concretude das exigências renovadas. Importa assuma como atribuição sua os estágios da formação inicial como os da formação continuada dos educadores, mesmo porque não poderia cumprir com uma das tarefas sem a outra.(Marques, 2000, p. 209) A formação dos profissionais de educação deve ser a base de qualquer tentativa de construção de um projeto de educação. São exigidos do professor conhecimentos e habilidades que, na maioria das vezes, não são ensinados durante o curso da sua formação. Em um país onde a falta de conteúdo na formação dos professores de uma maneira geral é uma realidade se faz mais do que necessário criar formas de reverter esse processo. Uma dessas formas são os cursos de formação continuada, que podem ser desenvolvidos com pequena, média e longa duração, que devem ser analisados e estudados, principalmente no que diz respeito a mudanças de comportamento na prática docente. Alguns indicadores para processos de implantação e análise de projetos de formação continuada 9 A idéia de formação continuada em questão contém o desafio de inserir a universidade no processo de requalificação do professor, assim como o de garantir novos sentidos ao compromisso assumido, rejeitando a racionalidade técnica da qual parece que a universidade, muitas vezes, torna-se refém. Com este texto, não gostaria de apresentar conclusões ou prescrições, mas, abrir possibilidades para que possamos construir outras formas de pensar, viver e fazer a universidade e a formação de professores, considerando a necessidade de inserir precocemente o professor na prática investigativa, tendo como objeto a própria ação docente. Nisso está o reconhecimento da validade dos saberes do professor, acumulados ao longo do seu trabalho na escola Observe-se que o texto não pretende confrontar, de forma estéril, os saberes escolares dos professores com os conhecimentos considerados científicos veiculados pela universidade sob a égide de verdades absolutas. Ao contrário, a proposta pretende comprometer ambos segmentos com a prática reflexiva, levando-os a formular indagações e reflexões na ação e sobre a ação desenvolvida. (Schön,1983; Zeichner,1993). O aspecto inovador da questão encontra-se na alteração da lógica dos atuais cursos de formação que, via de regra, realizam-se de forma descontinuada, com clara definição dos tempos de aprender e de aplicar, reforçando o distanciamento da academia que se descompromissa com os resultados futuros da interação iniciada. Ao ensejar encontros freqüentes dos professores em formação com os ‘formadores’ e professores em atuação no ensino básico regular, estabelece-se condições políticas e técnicas para um diálogo que supera a exterioridade da escola em relação às situações de trabalho, que separa tempo e lugar de trabalho, do tempo e lugar de aprendizagem/formação. Segundo Amiguinho et al (1997, p.103): “Tal tendência está de acordo com um progressivo reconhecimento do potencial formativo das situações de trabalho e do ambiente de aprendizagem proporcionado pelo agir coletivo no interior das organizações”. A força da proposta reside exatamente no reconhecimento do saber do professor e na inserção precoce do mesmo como investigador da própria práxis. Objetiva-se resgatar a idéia da competência docente perdida ao longo dos tempos e que contribuiu para a baixa estima profissional, importante estratégia para praticar um ensino reprodutivista, que perpetua os interesses de alguns grupos sociais. Como postula Marques (2000) 10 Deve o educador egresso da universidade voltar a ela, sempre e de novo, ou melhor, deve provocá-la a que vá a seus locais de trabalho ae a seus encontros n o seio da profissão, para que eles, os educadores, possam com ela redescobrir-se e interrogar a si mesmos e para que possa ela, a universidade, responder com eles o que lhes ensinou.(p.210) Fundamentando as mudanças ou resistências concebidas como necessárias, os professores exercitam sua capacidade analítica, dialogando sobre os problemas que examinam de forma solidária. Trata-se de horizontalizar as relações para verticalizar as decisões. Procurando uma forma de trabalho que conduza os envolvidos à independência e que mesmo assim lhes ofereça a retaguarda para os passos iniciais da ação transformadora que assumem como inadiável. As universidades mantendo lista de discussão, via internet, sobre questões relacionadas à prática acadêmica (ensino, pesquisa e extensão); organizando temporariamente oficinas didático-pedagógicas; criando um banco de dados que reúna a produção acadêmica, bem como informações sobre projetos de extensão e pesquisa científica em andamento ou concluídos pelos professores da Instituição; criando grupos de ouvidoria de professores e formandos interessados em discutir sua prática e temas relacionados com a educação atráves de parcerias com mestrandos ou professores interessados, oportunizando espaço gratuito de diálogo. O pressuposto é o de que os professores ao se envolverem com sua realidade, interrogando-a e problematizando-a, ampliam sua capacidade de visão e de dúvida epistemológica, ferramentas indispensáveis para a transformação do real. Conforme afirma Caumo: Deixam de simplesmente repetir ou de reproduzir conhecimentos que não lhes pertencem, para realizar possibilidades contidas na utopia. Saltam da ação de manejo de conhecimentos para a construção de finalidades, ativando a capacidade de pensar enquanto aprendem a fazer (1997, p.102) Se é verdadeira a máxima educacional de que se educa muito mais pelo exemplo – entendido não como um modelo, mas como uma referência ética e científica - do que pelo discurso, como se pode esperar do futuro professor que leve a sério a idéia de trabalho pedagógico coletivo e projeto político – pedagógico? É necessário que as instituições 11 formadoras de professores repensem as suas práticas para atuar de forma positiva na formação de educadores efetivamente convencidos da necessidade do trabalho coletivo na escola. Se esta deve mudar, os cursos de formação de professores precisam também passar por uma mudança profunda e radical e os educadores, necessitam, em conseqüência, atualizarem a sua formação, ou seja, dar continuidade a ela de forma que estejam preparados para um diálogo interativo entre ciência, cultura, teorias de aprendizagem, gestão de sala de aula e da escola, atividades pedagógicas e principalmente, domínio das tecnologias que facilitam o acesso à informação e à pesquisa. Só o tempo e a realidade podem confirmar ou rejeitar a validade de certas idéias. Nada nem ninguém mais. Referências bibliográficas ANFOPE, Associação Nacional pela formação dos profissionais da educação, Documento final IX., 1998, Campinas. 1998. _________ Associação Nacional pela formação dos profissionais da educação, Documento final X., Brasília. 2000 AMIGUINHO, A .et al Formar-se no projecto e pelo projecto In: CANÁRIO, R. (org.) Formação e situações de trabalho Porto: Porto Editora, 1997. CAUMO,T. 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