CARINA FERREIRA GOMES RUFINO CRUZANDO FRONTEIRAS: DESAFIOS DE COMUNICAÇÃO PARA ORGANIZAÇÕES BRASILEIRAS COM ATUAÇÃO INTERNACIONAL Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo – SP, 2010 2 CARINA FERREIRA GOMES RUFINO CRUZANDO FRONTEIRAS: DESAFIOS DE COMUNICAÇÃO PARA ORGANIZAÇÕES BRASILEIRAS COM ATUAÇÃO INTERNACIONAL Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Wilson da Costa Bueno. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo – SP, 2010 3 FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação de mestrado sob o título “Cruzando fronteiras: desafios de comunicação para organizações brasileiras com atuação internacional”, elaborada por Carina Ferreira Gomes Rufino, foi apresentada e aprovada em 7 de abril de 2010, perante banca examinadora composta por prof. Dr. Wilson da Costa Bueno (presidente/UMESP), Cicília Maria Krohling Peruzzo (titular UMESP) e Jorge Menna Duarte (titular/SECOM). ____________________________________________ Prof. Dr. Wilson da Costa Bueno Orientador e presidente da Banca Examinadora ____________________________________________ Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra Coordenador do Programa de Pós-Graduação Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Processos de Comunicação Institucional e Mercadológica 4 Ronan, Matheus e Vinícius, vocês enchem a minha vida de alegria! 5 Ponto de partida Parte do porto do próprio ser o itinerário do conhecer. Em nós mesmos navegamos. Somos barco e marinheiro, continentes e oceanos. (Helena Kolody) 6 AGRADECIMENTOS • A Deus, que ao longo desta caminhada me guiou, sustentou, fortaleceu e sempre esteve comigo, iluminando os meus passos e os meus pensamentos. Ele me guardou nas viagens e vigiou o meu lar, especialmente durante as minhas ausências, para que eu tivesse a tranquilidade de saber que estava fazendo a coisa certa. Somente a fé nos dá forças para caminhar sempre adiante. E é Deus o único que nos garante paz de espírito e equilíbrio. Ele sabe tudo o que tenho guardado em meu coração. Obrigada, Senhor, pela boa terra que me dá para cultivar. • À Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), onde tenho muito orgulho em trabalhar, e que, por meio de seu programa de pós-graduação, incentiva o desenvolvimento científico e tecnológico permanente de vários campos do conhecimento, além da agricultura. A seriedade desse programa é mais uma grande contribuição ao desenvolvimento de nosso país. Quem dera, muitas outras empresas tivessem a mesma visão e dessem o mesmo valor para a formação do pensamento crítico de seus profissionais. • À Embrapa Soja, unidade da Embrapa em que efetivamente desenvolvo minhas atividades, onde desde o início, em 2000, tive a oportunidade de trabalhar com pessoas competentes e exigentes, uma fonte inesgotável de estímulo para quem quer – na verdade, sente a necessidade – de aprender continuamente. Lá sempre tive espaço para experimentar e criar. À Chefia da Unidade e aos colegas da comunicação devo uma reverência: mesmo em momentos difíceis, decorrentes das ausências de importantes profissionais da área de comunicação, houve a preocupação em assegurar que eu fosse mantida com dedicação exclusiva aos estudos de pós-graduação. • À Universidade Metodista de São Paulo, especialmente ao Programa de PósGraduação em Comunicação, onde encontrei um ambiente produtivo e reflexivo, que me ajudou a desenvolver o pensamento crítico em comunicação. Muitas pessoas tiveram uma contribuição especial ao longo desta caminhada. Gostaria de registrar meus sinceros agradecimentos: 7 • A meu mestre, professor Wilson da Costa Bueno, pela orientação e comentários sempre estimulantes. Agradeço sua confiança e estímulo para a construção do meu “itinerário do conhecer”. Olhando para esses dois anos de convivência, lembro das palavras de Einstein, que dizia: “Tudo que é maravilhoso e inspirador é criado pelo indivíduo que pode trabalhar em liberdade”. O seu estilo de orientar não nos coloca limites, pelo contrário, estimula-nos a voar alto, a nos desenvolvermos, a aprendermos a pensar. E era justamente isso o que eu buscava ao vir fazer o mestrado. Sempre que preciso, você nos traz de volta ao mundo real. E, o melhor, no decorrer dessa caminhada, ganhei também um novo amigo. • Aos professores do programa de pós-graduação, em especial, a Isaac Epstein, que certa vez, sugeriu a possível contribuição dos Estudos Culturais à minha pesquisa, além de apresentar inúmeras outras teorias, que permitiram aprofundar a reflexão sobre o papel da comunicação na sociedade contemporânea; ao professor Antonio Carlos Ruótolo, com quem descobri a riqueza dos estudos de recepção. O aprendizado foi tão marcante que a preocupação com a construção de significados por parte do receptor quase virou uma obsessão. À Elizabeth Gonçalves que me levou a aprofundar o conhecimento sobre a construção do discurso, suas intencionalidades, o não-dito; À professora Cicília Peruzzo que, com sua delicadeza e lucidez, nos apresenta as “amarras” da metodologia de pesquisa, tornando esse aprendizado um tanto menos sofrido. A ela, outro agradecimento especial, pelas contribuições na banca de qualificação, realizada também com a presença do professor Daniel Galindo: as observações apontadas pelos dois permitiram ajustar as “velas” do barco e seguir com confiança a jornada de construção do conhecimento. Essa é a riqueza de um programa de pós-graduação. • Aos amigos, Francisco de Assis e Marcelo Volpato, que tornaram a aventura do mestrado muito mais divertida e que estiveram sempre alerta, prontos para me socorrer em diferentes ocasiões. A todos os demais colegas, meus agradecimentos pelas discussões, pontos de vista, divergências: a convivência é muito enriquecedora. • A todos os amigos da Embrapa, localizados em Londrina, em Brasília e em Gana, na África, não vou nomeá-los para não correr o risco de ser traída pela memória que, a 8 essa altura do campeonato está bastante comprometida, meu agradecimento pela força e estímulo que sempre me deram. Entretanto, não posso deixar de registrar o papel decisivo que Dr. Silvio Crestana, ex-presidente da Embrapa, Vania Castiglioni, exchefe-geral da Embrapa Soja, e Edilson Fragalle, ex-chefe da Assessoria de Comunicação Social da Embrapa, tiveram para que as questões de internacionalização se tornassem um novo desafio profissional. • Ao meu amigo e conselheiro acadêmico, Amélio Dall’Agnol, responsável por supervisionar meu desempenho na pós-graduação, registro seu apoio decisivo na liberação dos recursos para a pesquisa e viagens acadêmicas. • Ao Jorge Duarte, a quem admiro muito pela competência e, principalmente, pela ousadia. • À minha revisora, consultora, conselheira, amiga, quase-mãe, que contraria tudo o que se pode esperar de uma sogra, meu agradecimento pela atenta revisão, pelas sugestões e por ouvir muitas de minhas angústias. • Por último e, necessariamente, o mais importante: agradeço a minha família. Ela é meu porto seguro. Ao Matheus e ao Vinícius, meus filhos, que foram muito compreensivos, fizeram pequenas e até engraçadas reclamações, diante da necessária ausência, especialmente nos últimos meses. A capacidade de compreensão e de adaptação deles me surpreendeu. Amo muito vocês. Ao meu amor, Ronan, que foi muito paciente, e sempre me empurrou pra frente diante dos desafios: o seu jeito de ser me ensina, diariamente, como é bom viver com alegria. Agradeço à Marize e ao Ronaldo, dois super avós, por me proporcionarem a tranquilidade de saber que as crianças tiveram amor e cuidados especiais nos dias em que, nem eu nem o pai, estávamos presentes. À minha mãe, Rosane, pelo exemplo de que é possível se superar sempre e a meu pai, Cristiano (in memorian), com quem aprendi que os ventos só são favoráveis para quem tem rumo. À minha querida avó, Vera, figura extremamente carismática, agradeço seu carinho e colo de sempre. E ao meu padrinho, Luciano, por ter dado, há quatro anos, o pontapé que originou os primeiros passos da caminhada rumo a este tema de pesquisa. 9 SUMÁRIO Introdução.............................................................................................................................. 14 Capítulo I – O processo de internacionalização das empresa brasileiras: entrantes tardias em aprendizado permanente .................................................................. 18 1. Um panorama da evolução e das estratégias de internacionalização das empresas brasileiras ......................................................................................................... 18 2. Fatores motivadores da expansão internacional ................................................................. 21 3. Custos e riscos associados à internacionalização: reflexões para a a área de comunicação organizacional ................................................................................... 25 Capítulo II – Compreendendo a natureza global da comunicação organizacional: visões de diferentes perspectivas teóricas .......................................................................... 32 1. O atual contexto comunicativo e as implicações de transcender as fronteiras nacionais ... 32 1.1 A importância estratégica da comunicação para o processo de internacionalização ....... 38 2. Um panorama das pesquisas acadêmicas ........................................................................... 40 2.1. A perspectiva das relações públicas internacionais ......................................................... 40 2.1.1 Gestão e prática: dilemas e desafios em ambientes internacionais ............................... 49 2.2. A perspectiva dos Estudos Culturais ............................................................................... 57 2.3. Os estudos de interpretações culturais ............................................................................. 65 Capítulo III – A comunicação organizacional e as raízes conceituais que atravessam fronteiras ........................................................................................................... 74 1. Comunicação e os ativos intangíveis ...................................................................................74 2. Identidade corporativa: afinal, quem somos nós? .............................................................. 77 3. Identidades projetadas e imagens percebidas ..................................................................... 86 4. Reputação organizacional: gerando valor para os múltiplos públicos ............................... 90 10 Capítulo IV – Caminhos e desafios de comunicação nas organizações brasileiras com atuação internacional: a experiência de quatro executivos da área .............................. 96 1. Procedimentos de pesquisa................................................................................................ 96 2. Caminhos e desafios: a experiência de quatro profissionais ............................................ 98 a) Organização da estrutura de comunicação ................................................................ 98 b) Desafios e Estratégias ............................................................................................... 106 c) Forças regulatórias .................................................................................................... 115 d) Perfil Ideal ................................................................................................................. 118 3. Análise de dados................................................................................................................ 119 Considerações finais ............................................................................................................ 122 Referências ........................................................................................................................... 130 11 RESUMO RUFINO, Carina F. Gomes. Cruzando fronteiras: desafios de comunicação para as organizações brasileiras com atuação internacional. 2010. 137 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010. Esta pesquisa tem o objetivo de compreender as dimensões envolvidas no processo de comunicação das organizações com atuação internacional. É um estudo de cunho qualitativo, constituído por uma pesquisa bibliográfica, onde se identificam diferentes perspectivas teóricas que contribuem para a análise e compreensão das dimensões envolvidas no processo de comunicação internacional das organizações, e de uma pesquisa empírica, de cunho exploratório, junto a quatro executivos de comunicação brasileiros, cuja técnica de coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada. Ainda que os resultados alcançados não permitam generalizações, algumas lições importantes são extraídas, entre elas, a necessidade da compreensão da profunda articulação entre os conceitos de comunicação e cultura e sua decorrente influência para o processo de construção de significados; e a forte emergência das questões de identidade, imagem e reputação em ambiente internacional. O número de empresas brasileiras que se lançam em um processo de expansão internacional vem crescendo ano a ano. Contudo, é um assunto que ainda recebe pouca atenção de pesquisas acadêmicas no campo da comunicação organizacional. Espera-se que esta pesquisa contribua para reduzir essa lacuna ao identificar alguns dos desafios de comunicação presentes em empresas com atuação internacional. Palavras-chave: comunicação organizacional; internacionalização; multinacionais brasileiras; comunicação e cultura; identidade organizacional 12 RESUMEN RUFINO, Carina F. Gomes. Cruzando fronteras: desafíos de comunicación para organizaciones brasileras con actuación internacional. 2010. 137 f. Disertación (Maestría en Comunicación Social) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010. Esta pesquisa tiene el objetivo de comprender las dimensiones envueltas en el proceso de comunicación de las organizaciones con actuación internacional. Es un estudio de naturaleza cualitativa, constituido por una pesquisa bibliográfica, donde se identifican diferentes perspectivas teóricas que contribuyen para el análisis y comprensión de las dimensiones envueltas en el proceso de comunicación internacional de las organizaciones, y de una pesquisa empírica, de naturaleza exploratoria, junto a cuatro ejecutivos de comunicación brasileros, cuya técnica de colecta de datos fue la entrevista semiestructurada. Aun que los resultados alcanzados no permitan generalizaciones, algunas lecciones importantes son extraídas, entre ellas, la necesidad de la comprensión de la profunda articulación entre los conceptos de comunicación y cultura y su posterior influencia para el proceso de construcción de significados; y la fuerte emergencia de las cuestiones de identidad, imagen y reputación en ambiente internacional. El número de empresas brasileras que se lanzan en un proceso de expansión internacional viene creciendo año tras año. Sin embargo, es un asunto que todavía recibe poca atención de pesquisas académicas en el campo de la comunicación organizacional. Se espera que esta pesquisa contribuya para reducir ese hueco al identificar algunos de los desafíos de comunicación presentes en empresas con actuación internacional. Palabras clave: comunicación organizacional; internacionalización; brasileras; comunicación y cultura; identidad organizacional multinacionales 13 ABSTRACT RUFINO, Carina F. Gomes. Crossing frontiers: communication challenges for Brazilian organizations operating in the international market. 2010. 137 f. Dissertation (Master in Social Communication) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010. This research intends to understand the dimensions involved in the organizations' communication process which work in the international market. It is a qualitative study based on a bibliographical research where different theoretical perspectives are identified which contribute to the analyses and comprehension of the dimensions involved in the international communication process in organizations, as well as an exploratory empirical research done with four Brazilian communication executives whose data collection techniques was a semistructured one. Although the results do not allow generalizations, some important lessons are extracted from them, such as the necessity of deep comprehension of the articulation among the communication concepts, the culture and its influence on the meaning construction process and the strong emergency in the identity matters, image and reputation in the international environment. The number of Brazilian companies which start an internationalization process has been growing yearly. However, it is a neglected matter in academic researches in the organizational communication field. This research aims at the contribution for the reduction of such gap by identifying some of the communication challenges present in companies which operate internationally. Key words: organizational communication; internationalization; Brazilian multi-nationals; communication and culture; organizational identity. 2 INTRODUÇÃO Assim como vem acontecendo com outros países emergentes, especialmente a China e a Índia, o Brasil vive o movimento de formação e expansão de suas primeiras multinacionais. É um fenômeno relativamente novo. Começou a ganhar contornos mais evidentes a partir da década de 1990 e, desde então, vem crescendo em importância. Petrobras, Natura, Gerdau, Odebrecht e Vale são alguns exemplos de grandes empresas brasileiras com iniciativas em terras estrangeiras. E o número só tende a aumentar, uma vez que não são apenas as “gigantes” que estão dispostas a encarar esse desafio. Com a estabilização da economia, a intensificação da política externa brasileira, o maior acesso a capital de financiamento e a própria necessidade de buscar outros mercados, muitas pequenas e médias empresas também estão se aventurando por novos mares. A nova lógica de funcionamento dessas empresas tem colocado desafios para diferentes áreas do sistema organizacional. Há, especificamente, implicações diretas na gestão dos processos comunicacionais, cujos impactos interferem na construção de uma sólida reputação internacional a médio e longo prazo. Se atuar estrategicamente já é uma tarefa complexa no Brasil, o desafio torna-se ainda mais complicado quando o processo de comunicação ganha escala internacional, onde fatores como os valores culturais, as formas de enxergar o mundo, a organização da sociedade, a linguagem verbal e não verbal, entre outros elementos, contribuem decisivamente para modificar o processo de comunicação. É nesse ambiente, marcado por questões culturais, sociais e econômicas diversas, que ocorrem as trocas comunicativas das organizações com seus novos públicos. Ao se inserir pela primeira vez em uma determinada sociedade, a organização precisa dar início ao processo de conquista da confiança, da admiração, do respeito. Por isso, é importante concentrar esforços na capacidade de se colocar em relação ao outro, na elaboração de mensagens que façam sentido naquela cultura, na coerente apresentação da identidade organizacional, entre outras iniciativas. Sabe-se, atualmente, que a adoção de um processo de comunicação consistente, contínuo e aberto ao diálogo é decisivo para a organização que quer conquistar legitimidade perante a sociedade. Esta pesquisa tem como foco a compreensão das dimensões que afetam (e são afetadas) pelos processos de comunicação das organizações com atuação internacional. Busca compreender como conceitos fundamentais da área – identidade, imagem, reputação – podem ser aplicados em relação às particularidades da atuação internacional, procurando identificar 15 pontos de equilíbrio entre estratégias globais e locais que favoreçam a construção de um processo de comunicação coerente e consistente ao longo do tempo. Procura compreender especificamente a forma como os profissionais brasileiros estão conduzindo esse processo em suas organizações, as estratégias adotadas, os riscos e benefícios percebidos. Para isso, esta pesquisa procura responder à seguinte questão: Quais são os desafios de comunicação da organização com atuação internacional? A jornada em busca de respostas a esse problema de pesquisa é baseada em três hipóteses: • a atuação internacional pressupõe que fundamentos da comunicação corporativa sejam sempre considerados em relação às particularidades de cada sociedade, não sendo possível, portanto, a adoção de uma estratégia de comunicação única, aplicável em diferentes países e regiões; • por outro lado, é necessário que a organização se apresente de maneira coerente nos diferentes países em que atua, construindo uma identidade comum, consistente com seus comportamentos, mensagens e ações; • a comunicação das empresas brasileiras ainda oferece uma contribuição restrita ao processo de internacionalização, apresentando-se basicamente como uma área “tarefeira”, responsável pela produção e tradução de peças de comunicação dirigidas aos públicos internacionais da organização. Tanto a academia quanto o mercado têm defendido fortemente a importância da atuação estratégica da comunicação para as organizações e, obviamente, os aspectos internacionais se encaixam dentro dessa preocupação. A comunicação das empresas utiliza-se cada vez mais de ferramentas de planejamento, avaliação e acompanhamento, mas muitos profissionais ainda encontram dificuldades perante o desafio de torná-la efetivamente estratégica. A natureza internacional da comunicação corporativa é constituída de um forte componente: a articulação entre os conceitos de comunicação e cultura. Eles são determinantes para os significados que surgem do processo de troca comunicativa. Mas existem muitos outros componentes, como se poderá observar ao longo deste trabalho. A não observância das múltiplas dimensões que constituem a natureza global da comunicação pode induzir a uma simplificação da realidade, comprometendo a atuação estratégica da comunicação. O objetivo desta pesquisa é compreender as dimensões envolvidas no processo de comunicação de uma empresa no exterior. Como objetivos específicos a pesquisa se propõe a: conhecer os caminhos percorridos e os desafios enfrentados pelas organizações 16 brasileiras com presença internacional; observar como o contexto cultural determina o processo de comunicação e construção de significados; identificar fatores essenciais para as estratégias de comunicação das empresas no exterior. Esta pesquisa adota a abordagem qualitativa que se justifica, sobretudo, quando se quer entender a natureza de um fenômeno social (RICHARDSON, 1989, p. 38). Segundo Godoy (1995, p.63), pesquisadores qualitativos “partem de questões ou focos de interesses amplos, que vão se tornando mais diretos e específicos no transcorrer da investigação”. Este trabalho constituiu-se de uma pesquisa bibliográfica, onde se procurou identificar diferentes perspectivas teóricas que pudessem contribuir para a análise e compreensão das dimensões envolvidas no processo de comunicação das organizações com atuação fora de seus países de origem; e de uma pesquisa empírica, de cunho exploratório, junto a executivos de comunicação. A técnica de coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada. O Capítulo I introduz o panorama do processo de internacionalização das empresas originárias de países em desenvolvimento, procurando explorar de forma direta a experiência brasileira, a partir da literatura da área de administração e negócios internacionais. Discute conceitos-chave para a compreensão do fenômeno e suas implicações para o processo de gestão estratégica da comunicação organizacional. A expansão internacional das empresas brasileiras é considerada, na literatura acadêmica, um processo de internacionalização tardio, chamado de “late movers” ou “entrantes tardios”. Apesar de ser uma área recente, o tema vem crescendo em importância junto às escolas de negócios brasileiras. Hoje, sabe-se que a maioria das empresas brasileiras segue a escola de Uppsala, que considera a internacionalização um processo de evolução natural do modelo exportador até o investimento direto no exterior, proporcionado pela abertura de subsidiárias em outros países. O Capítulo 2 procura compreender a natureza global da comunicação organizacional, apresentando a visão de três perspectivas teóricas: relações públicas internacionais, a perspectiva dos Estudos Culturais e as pesquisas que enfocam especificamente o processo de interpretação intercultural. É neste capítulo também que se discutem as implicações de transcender as fronteiras nacionais no atual contexto comunicativo da sociedade. O Capítulo 3 aborda três conceitos importantes em comunicação – identidade, imagem e reputação - que nesta pesquisa são apresentados como raízes conceituais da área. Esses conceitos permeiam todas as áreas organizacionais e até extrapolam os limites e responsabilidades da comunicação. Entretanto, é por meio do trabalho de comunicação que esses conceitos se articulam na prática e ganham uma dimensão importante para o processo de gestão da comunicação em ambiente internacional. 17 O Capítulo 4 dedica-se a investigar, a partir da experiência de quatro profissionais, os caminhos e desafios de comunicação de organizações brasileiras. A coleta de dados teve o objetivo de conhecer como está sendo conduzido o processo de gestão das estratégias de comunicação, utilizando para esse fim a técnica de entrevistas semi-estruturadas, que permite ao pesquisador explorar as experiências, visões de mundo e outras percepções do entrevistado. Os detalhes sobre a metodologia da pesquisa, critérios de seleção da amostra e os participantes da pesquisa são apresentados logo na parte inicial do capítulo e a análise dos dados, ao final, procura fazer um apanhado dos principais aprendizados. Ainda que os resultados alcançados pela pesquisa não permitam fazer generalizações, algumas lições importantes podem ser extraídas, entre elas, a observação de uma movimentação das empresas para elevar a comunicação como setor essencial ao processo de internacionalização, juntamente com recursos humanos, jurídico e finanças; o foco inicial dos estratégias de comunicação em públicos essenciais e não em múltiplos públicos; a forte emergência das questões de identidade, imagem e reputação em ambiente internacional; a importância da comunicação da sede da empresa em se posicionar como conselheira tanto da alta administração, como das unidades operacionais; a tendência em se adotar a visão contextualizada da comunicação para o ambiente internacional e não um modelo único préconcebido a partir da experiência brasileira; a relevância da sistematização de documentos e processos como balizadores do equilíbrio entre autonomia das unidades operacionais e o controle do centro corporativo; e a valorização das estruturas horizontais como produtoras permanentes de interação. Por fim, ao encerrar este trabalho, são colocadas algumas considerações e reflexões, decorrentes tanto do processo de pesquisa bibliográfica, como do levantamento dos dados primários junto aos executivos de comunicação. Como o número de empresas brasileiras que se lançam em um processo de expansão internacional vem crescendo ano a ano, e este é um tema que ainda recebe pouca atenção de pesquisas acadêmicas no campo da comunicação organizacional, espera-se que esta pesquisa contribua para reduzir essa lacuna ao identificar alguns dos desafios de comunicação de empresas com atuação internacional. 18 CAPÍTULO I – O processo de internacionalização das empresas brasileiras: entrantes tardias em aprendizado permanente 1. Um panorama da evolução e das estratégias de internacionalização das empresas brasileiras Cresce a cada ano o número de empresas brasileiras que vêm enfrentado o desafio de internacionalizar suas atividades. A presença no exterior vem ocorrendo pela abertura de escritórios próprios em outros países, pela instalação de unidades de produção, aquisição de novas companhias, exportação de produtos, licenciamento de marcas e de representantes. A expansão internacional das atividades de uma empresa é um fenômeno antigo. A novidade é a inserção de maneira consistente das empresas originárias de países emergentes. Vistas primordialmente como exportadoras, nos últimos anos, essas empresas estão assumindo uma participação crescente na produção mundial, operam fábricas em países estrangeiros e realizam operações compartilhadas, conhecidas por Joint-Ventures (FLEURY; FLEURY, 2007, p. 4). Até o fim do século XIX, as operações de logística e transporte de bens dominavam as operações internacionais. O período de 1875 a 1938 estende as atividades anteriores, marcando o início da atividade multinacional. As empresas passam a incorporar atividades voltadas para a obtenção de recursos, procura de novos mercados e maior proximidade com clientes e fornecedores. Entre 1945 e 1970, o mundo observa uma rápida expansão de empresas de países desenvolvidos, com predomínio absoluto das empresas americanas. Na década de 1970, com a consolidação do processo de globalização, novos países, como o Japão, representantes europeus e alguns países industrializados, a exemplo da Coréia e de Cingapura, entram no jogo, reduzindo o domínio americano sobre as operações multinacionais (FLAHERTY apud BENNETT, p. 38). Nos anos de 1990, mais notadamente a partir de 2000, o fenômeno da internacionalização das empresas originárias de países emergentes começa a ganhar espaço na academia internacional. Em 2003, o relatório anual da consultoria americana Goldman Sachs chama a atenção do mundo para os países emergentes, especialmente para Brasil, Rússia, Índia e China (cujas iniciais passam a formar a sigla BRIC), seu potencial de desenvolvimento e importância crescentes em definir as regras do jogo internacional (FLEURY; FLEURY, 2007, p.xiii). Do ponto de vista acadêmico, esse movimento de internacionalização dos países emergentes, classificados como “entrantes tardios ou late 19 movers”, constituiu-se em um novo campo de pesquisa, de crescente importância e com contornos bem definidos (FLEURY; FLEURY, 2007, p.3). A entrada das empresas de economias emergentes ocorre em contextos bem diferentes das primeiras que se internacionalizaram, chamadas de early movers, ou primeiros entrantes. Alguns fatores explicam as diferenças: (i) hoje há um excesso de capacidade para a produção de bens e serviços, o que cria uma feroz competição entre os players globais e requer uma orientação permanente para a inovação; (ii) as multinacionais já bem estabelecidas provenientes de países desenvolvidos estão em processo de rever e redefinir suas arquiteturas organizacionais, focando em atividades de alto valor agregado e procurando estabelecer e comandar redes globais de valor (Gereffi et al, 2005); (iii) os governos procuram intervir fortemente no processo de internacionalização, visando atingir seus objetivos de desenvolvimento nacional (Dunning, 1993) e (iv) a economia está em um estágio na qual mecanismos institucionais que moderam o comércio internacional estão sendo consolidados em níveis globais e regionais, afetando fortemente os países em desenvolvimento (Messner, 2004) (FLEURY; FLEURY 2007, p. 5). O processo de internacionalização das empresas pode ser analisado por quatro abordagens teóricas independentes. Cada abordagem analisa determinada característica do fenômeno e é determinante para a estratégia de negócios adotada. O maior grupo de pesquisadores define o tema como “International Business” e divide-se em três grandes correntes (Fleury; Fleury, 2007, p.6). A abordagem econômica parte do pressuposto que a internacionalização ocorre para explorar vantagens competitivas ou internalizar transações que sairiam mais caras pelos mecanismos de mercado. Seu autor mais expoente é Dunning que, através de seu Paradigma Eclético, relaciona as vantagens competitivas à propriedade (recursos naturais, mão-de-obra, tecnologia, marca, imagem), à localização (subsídios) e à internalização (acesso a capital, contorno de barreiras, etc) (Fleury, Fleury, 2007, p.7). A segunda corrente trata a internacionalização como processo de aprendizagem, deslocando do mercado o foco dos processos racionais de tomada de decisão. Destaca-se, nessa corrente, o modelo de Uppsala que procura sistematizar o modo de ocorrência desse processo (Fleury; Fleury, 2007, p.8). Neste modelo, a internacionalização segue uma sequência evolutiva, lenta e gradual, iniciando-se pelos países mais próximos fisicamente, a fim de reduzir riscos e incertezas. 20 Alguns pontos levantados pela Escola de Uppsala merecem destaque: o primeiro diz respeito às noções de evolução e aprendizagem inerentes ao processo de internacionalização gradativa, iniciada com a exportação, em que se obtêm informações sobre um novo mercado, até chegar a mercados psicologicamente mais distantes. O segundo se refere à importância de fatores culturais no processo de internacionalização e ao conhecimento como recurso que influencia no comprometimento da empresa com determinado mercado e influencia seu processo de tomada de decisão (FLEURY; FLEURY, 2007, p.8) A terceira corrente da área de Negócios Internacionais trata a internacionalização como estratégia competitiva, ou seja, a expansão atende ao jogo competitivo do mercado internacional. Portanto, estratégia, estrutura e comportamento da empresa são definidos em relação aos competidores e há uma grande preocupação com a definição de estratégias globais (FLEURY; FLEURY, 2007, p.9). Yip (2003, apud FLEURY; FLEURY, 2007, p.9) propõe uma Estratégia Global Total, a ser desenvolvida em três etapas: a escolha da estratégia essencial; a internacionalização da estratégia essencial através de atividades em determinado país; globalização da estratégia internacional através da integração das estratégias entre países. Porter (1986 apud FLEURY; FLEURY, 2007, p.9) identificou três configurações que atendem a estratégia competitiva: multidoméstica, global e internacional. Bartlett e Ghoshal (1998, FLEURY; FLEURY, 2007, p.9) propõem uma tipologia quádrupla: internacional, global, multinacional e transnacional. Para as empresas de países emergentes, a adoção deste enfoque prioriza o monitoramento permanente dos competidores, alianças e parcerias, foco nas competências essenciais, a subcontratação de competências complementares e a arquitetura organizacional resultante de pressões competitivas (FLEURY; FLEURY, 2007, p.9). A segunda abordagem para o estudo do processo de internacionalização trata das competências estratégicas. Essa abordagem considera que toda empresa tem um portfólio de recursos (resource based view of the firm) físicos, organizacionais e de recursos humanos que criam as vantagens competitivas da empresa (KROGH; ROOS, 1995 apud FLEURY; FLEURY, 2007, p.10). Nesta abordagem, as estratégias competitivas são definidas a partir das possibilidades proporcionadas pelo portfólio de competências. É uma abordagem que também valoriza a noção de aprendizagem organizacional, porém integra a esse processo as competências estratégicas da empresa. A terceira abordagem está centrada nas subsidiárias e, diferentemente das anteriores, reserva uma atuação mais complexa para as subsidiárias, que deixam de ser seguir as 21 proposições das matrizes e passam a atuar como implementadores locais, contribuidores especializados ou com mandato mundial (podendo transferir conhecimento estratégico para a matriz e/ou outras subsidiárias) (BIRKINSHAW; MORRISON, 1995, apud FLEURY; FLEURY, 2007, p.11). A última abordagem discute a gestão de operações internacionais, tratando especialmente da produção ou manufatura internacional. Seu foco é o processo produtivo, portanto discute a organização de plantas de fábricas, cadeias de suprimentos, redes de fábricas. As estratégias de atuação da empresa são concebidas de forma a otimizar os processos de produção (FLEURY; FLEURY, 2007, p.12). De modo geral, as estratégias de internacionalização das empresas brasileiras estão muito mais associadas à competição à base de custos, do que às estratégias de diferenciação (ROCHA; SILVA; CARNEIRO, 2007, p.186). Um caso em pauta é o da indústria de calçados, em que a maioria das empresas utilizou a competição de preços em sua inserção no mercado internacional, delegou sistematicamente a intermediários externos as funções de marketing e não desenvolveu marcas no exterior, nem sequer uma imagem de “made in Brazil”. Em outras palavras, a indústria de calçados brasileira não desenvolveu, de forma geral, vantagens específicas de firma, continuando a competir à base de vantagens específicas de país: abundância de matéria-prima e mão-de-obra barata.[...] E embora o caso da indústria de calçados seja paradigmático, pela importância que esta indústria assumiu, esta realidade se reproduz em diversos setores” (ROCHA; SILVA; CARNEIRO, 2007, p.186-187). 2. Os fatores motivadores da expansão internacional A primeira fase do investimento de empresas brasileiras no exterior, ocorrido entre meados da década de 1960 e 1982, é caracterizada pelo predomínio da Petrobras, de instituições financeiras e de empresas de engenharia e construção (RICUPERO; BARRETO, 2007, p.11). Na década de 1990, com o ambiente mais favorável à internacionalização, houve a diversificação em termos de porte das empresas, maior concentração geográfica no cone sul e o aumento da proporção de unidades produtivas abertas no exterior. De modo geral, as multinacionais de origem latina podem ser classificadas por setores: matérias-primas, bens e serviços intermediários e de capital e empresas que atendem ao consumo final (TAVARES; FERRAZ, 2007, p. 127). Ricupero e Barreto (2007, p.13) observam que a maior parte das estratégias bem sucedidas estão concentradas em grandes 22 empresas, como a Vale, Petrobrás, Votorantin, Gerdau, Embraer, Odebrecht. Há, portanto, o predomínio dos setores de exploração e exportação de recursos naturais e os serviços de engenharia e construção. Entretanto, os autores destacam os casos de firmas pequenas e médias, que ainda estão longe das gigantes brasileiras, mas apresentam bons resultados, como a Churrascaria Fogo de Chão, nos Estados Unidos, e outras empresas como a WEG, Marcopolo, Tigre e Sabó. Vários motivos podem ter colaborado para a entrada tardia das empresas brasileiras no mercado internacional. Fleury e Fleury (2007, p. 184) apontam que uma das hipóteses é o grande mercado doméstico, especialmente quando o grau de fechamento à competição internacional é elevado. No caso brasileiro, a liberalização econômica da década de 1990 teve um papel relevante para a indução da internacionalização, uma vez que alterou as condições ambientais onde as empresas operavam, exigindo mudanças para garantir sua própria sobrevivência no mercado (FLEURY; FLEURY, 2007, p.187). Outras explicações também são levantadas, como o fator cultural predominante no quadro cognitivo dos gerentes, chamado na literatura de mind-set, que pode estar mais voltado a uma visão de mundo global ou mais restrita ao local (etnocêntrica) e à falta de estímulo para a criação de blocos econômicos que favorecessem a realização de negócios internacionais. Entre as empresas latino-americanas, por exemplo, o estabelecimento do Mercado Comum para o Cone Sul (Mercosul), foi um importante estímulo para o investimento nos países vizinhos e para a abertura do quadro de referência de gerentes brasileiros (FLEURY; FLEURY, p. 188). Fleury e Fleury (2007, p. 188-190) sintetizaram o trabalho de diferentes pesquisadores brasileiros, construindo um panorama dos principais motivos para a internacionalização: • O desejo de crescimento entre aquelas que já possuíam uma sólida parcela do mercado brasileiro, como no caso da Weg e Marcopolo. • A redução de contratos governamentais domésticos para grandes obras levou Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez a buscarem novos mercados. • Outras empresas acompanharam o processo de transformação de seus setores em indústrias globais, como Gerdau e Usiminas, no setor de siderurgia, e Votorantim e Camargo Correa, na indústria de cimentos. • Instalação de escritórios comerciais, de distribuição e armazenagem para apoiar a atividade de exportação, nos setores de mineração (Vale); aves (Sadia e Perdigão), de chapas de madeira (Duratex, Eucatex); têxtil e de calçados (Hering e São Paulo Alpargatas); máquinas e equipamentos (Schüller, 23 Fupresa, Magels, Weg, Romi); de aeronaves (Embraer); de cerâmica (PortoBello) e de utensílios (Tramontina). • Acompanhar a expansão dos clientes, caso típico dos fabricantes de auto-peças (Embraco, Sabó) e de outros fornecedores e prestadores de serviço, como Tintas Renner, agências de propaganda e bancos (Itaú). • O acesso a recursos e ativos estratégicos como: capital barato (Votorantim), matéria-prima (Petrobrás, Vale), tecnologia (Petrobrás e Oxford Cerâmica), canais de distribuição (Gradiente e Sadia). • Valorização da marca, inclusive no mercado interno, especialmente no caso de empresas menores (Florense, Fujitec, Lenny, Marisol). • Acesso a mercados protegidos, como o europeu (Andrade Gutierrez, CSN e Odebrecht). • Vontade dos dirigentes, como Amil, Blue Man, Habbib’s, Rede Globo. • Oportunidades de negócios que se apresentaram sem que houvesse por trás uma decisão tomada de internacionalizar-se, como o caso da Bematech, Churrascaria Plataforma, Pastelândia, Porcão, O Boticário. Tanure, Cyrino e Penido (2007, p. 204) apontam ainda um outro motivo pouco explorado: a aprendizagem e aquisição de competências para operar fora do país de origem: A experiência recente da Natura, com a abertura da loja em Paris é uma iniciativa estratégica nesse sentido. Além de difundir a marca e associá-la ao conceito de biodiversidade, a abertura da loja no mercado de perfumes e cosméticos mais exigente do mundo traz a oportunidade de reforçar os laços com parceiros locais e aprender com as tendências mais avançadas de consumo, incorporando essa aprendizagem às rotinas da empresa para aplicação futura. A motivação para a expansão internacional pode ser dividida em fatores positivos (aqueles que estão baseados e reforçam as vantagens competitivas da empresa, como a competência em fatores-chave, a natureza da atividade, políticas de internacionalização, proximidade cultural com país de destino, etc.) e fatores negativos (aqueles que levam a uma internacionalização defensiva, também chamada de internacionalização às avessas, como a dificuldade de acesso a capital, risco-país, risco cambial, etc.) (TAVARES; FERRAZ, 2007, p. 128). Analisando-se o processo de internacionalização sob a perspectiva geográfica, percebe-se uma forte concentração das brasileiras na América Latina, com acentuada presença nos países do Mercosul (RICUPERO; BARRETO, 2007, p.21). Os Estados Unidos também 24 recebem uma parcela significativa dos investimentos. Em menor grau estão os países europeus e africanos, além de uma participação muito pequena em países do leste asiático. Cyrino, Tanure e Penido, (2007, p.205-206) identificaram uma preferência das empresas brasileiras por países mais próximos psiquicamente. No caso da expansão para o mercado europeu, por exemplo, é notória a opção por países ibéricos (Espanha e Portugal) e/ou da Europa católica. “À medida que ganham experiência com países mais próximos, as empresas diversificam seu portfólio geográfico e exportam para locais culturalmente mais distantes. No caso dos investimentos estrangeiros, a tendência é a mesma”, observam. Entretanto, a proximidade psíquica nem sempre é garantia de sucesso. Muitas vezes, a proximidade cultural e estrutural dos mercados disfarça a complexidade das adaptações necessárias, colocando em risco as atividades da empresa. Sadia e Natura tiveram experiências iniciais bastante difíceis no mercado argentino, que culminaram com a saída prematura das empresas no país (CYRINO, TANURE, PENIDO, 2007, p.206). Ao contrário do que se pode pensar, as empresas em processo de internacionalização não estão exportando empregos ou evadindo divisas. A internacionalização é uma estratégia que garante a competitividade e a sobrevivência especialmente em mercados competitivos. Citando vários autores, Ricupero e Barreto mostram que a existência de firmas competitivas, melhora a performance econômica de um país, gera efeitos indiretos sobre a produtividade dessas firmas, compensando os efeitos negativos sobre os empregos, além de colaborar para o desenvolvimento de novas tecnologias, entre outros fatores (2007, p.32-33). O próprio governo brasileiro vem se dando conta dos reflexos positivos para o país e isso tem provocado uma mudança em suas políticas de relações exteriores. Cada vez mais, há presença de empresários em comitivas do presidente Lula e seus ministros (SAUVANT, 2007, p. 59-60). Além disso, o governo brasileiro tem procurado intensificar, em sua política externa, acordos de cooperação entre países do hemisfério sul, o que abre caminho para ampliar a expansão internacional das empresas brasileiras. Segundo Lopes e Júnior, estudiosos da área de relações internacionais, o Governo Lula tem: (...) uma intensa vontade de mostrar ao mundo a suposta vocação brasileira para liderança dentro do grupo de países em desenvolvimento. Lula parece ter encontrado, no Sul, o local; e na tática de aproximação, via eixo Sul-Sul, a oportunidade para implementar uma estratégia maior: pensar os ganhos e o relacionamento do Brasil em relação ao Sul não apenas como complementares às suas relações com o Norte. Assistimos a um momento em que ir à África ou ao Oriente Próximo parece ter um fim em si mesmo: levar negócios brasileiros além-mar e mostrar o know-how brasileiro em terras de grande potencial, conquanto subaproveitadas (LOPEZ; JÚNIOR, 2006, p. 324). 25 Independentemente dos motivos que levam à internacionalização, a convivência em ambientes de alta competitividade tem contribuído para uma visão de mundo mais ampla, assim como, a preparação do quadro executivo e técnico para lidar com a diversidade própria do contexto internacional, vem fortalecendo a posição da empresa no mercado interno (ALMEIDA, 2007, p.290). A complexidade de fatores que interferem no processo de expansão internacional indica ser primordial a estruturação da empresa de maneira aberta, transparente e focada no processo de aprendizado permanente, de modo que consiga contornar os riscos e os desafios inerentes à sua internacionalização, tema que trataremos a seguir. 3. Custos e riscos associados à internacionalização: reflexões para a área de comunicação organizacional Os inúmeros fatores que envolvem o processo de internacionalização de uma empresa antecipam alguns dos desafios que as equipes de comunicação podem enfrentar no decorrer desse processo. A compreensão dos benefícios, riscos e custos envolvidos na internacionalização de uma empresa revela-se, portanto, fundamental para o profissional que coordena e/ou executa as atividades de comunicação das empresas brasileiras no exterior. “A decisão de se internacionalizar nasce e se desenvolve marcada pela tensão permanente entre a tendência de reproduzir o já conhecido em outros contextos e a de criar soluções próprias para as características de cada mercado”, explicam Cyrino e Penido (2007, p.82). Esse é um dilema que vai perseguir os gestores de comunicação por todo o tempo que atuarem no exterior. Há uma certa confusão com o conceito de internacionalização. Cintra e Mourão (apud RICUPERO; BARRETO, 2007, p.22) atentam para o fato que “não são raras as vezes nas quais se confundem internacionalização, exportação e negociações internacionais”. Essa confusão ocorre porque, em muitos casos, são etapas de um mesmo processo. A fim de evitar que empresas meramente exportadoras fossem incluídas em suas pesquisas sobre o processo de internacionalização das empresas brasileiras, Cintra e Mourão propuseram a seguinte conceituação para o termo: “é o processo de concepção do planejamento estratégico e sua respectiva implementação para que uma empresa passe a operar em outros países diferentes daquele no qual está originalmente instalada” (2005, on-line). Para os pesquisadores a internacionalização requer: 26 (…) uma relação contínua com o exterior, não podendo ser concebida, portanto, como algo temporário ou mesmo voltado exclusivamente à superação de um obstáculo conjuntural. Mais do que isso, trata-se de um fenômeno de natureza estrutural (2005, on line, grifo nosso). Ricupero e Barreto (2002, p.22) consideram o conceito excessivamente amplo, uma vez que exclui apenas as relações de importação e exportação, porém defendem ser uma visão interessante, pois permite analisar as formas de atuação externa de uma empresa. A evolução natural do processo de internacionalização passa pela criação de um departamento internacional, seguido de uma base regional, quando se aumenta o número de subsidiárias. Quando a internacionalização atinge um alto grau de complexidade, há uma tendência de se adotar uma estrutura matricial ou de rede. “À medida que evolui, torna-se necessário aumentar a intensidade dos esforços de comunicação nos processos de planejamento e de coordenação entre as diversas subsidiárias, dificultados naturalmente em função da distância” (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 103). As opções de atuação no exterior envolvem a utilização de uma trade company, o estabelecimento de um escritório de vendas no exterior, de concessionárias ou de subsidiárias e, ainda, a formação de uma joint-venture (CINTRA; MOURÃO, 2005, on line). Definida a opção de atuação no exterior, ao dar início às atividades, a empresa se depara, do ponto de vista da comunicação, com uma série de novos fatores que serão determinantes para o sucesso de suas atividades: Pouco a pouco, as empresas vão descobrindo que a aquisição de congêneres no exterior e a formação de joint-ventures não se resumem a uma operação meramente financeira: quase sempre, está em jogo um conflito cultural, no seu sentido mais amplo (diferenças de idioma, mas também na maneira de administrar o tempo, de desenvolver e manter relacionamentos, de exercer liderança, de praticar a comunicação, etc.), que muitas organizações não têm conseguido administrar com competência (BUENO, 2003, p.20). Cyrino e Penido (2007, p.83–95) analisaram a experiência de grandes empresas brasileiras, em diferentes estágios de internacionalização e apontaram os principais benefícios e riscos do processo. Ao longo dos anos, a literatura sobre internacionalização tem enfatizado diferentes benefícios e riscos associados à diversificação internacional de mercados. O grau em que as empresas lançam mão de tais benefícios, ou aceitam correr os riscos, depende de muitos fatores, entre os quais destacamos o estágio em que a empresa se encontra no processo de internacionalização, sua localização na cadeia produtiva, o setor em que ela compete e as características do contexto econômico e institucional da sua base doméstica e nos mercados potenciais onde ela pretende atuar (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 82). 27 Os autores organizaram os benefícios identificados em relação a: a) expansão de mercados: maior capacidade de resposta aos clientes internacionais, fortalecimento da posição competitiva, a diversificação do portfólio geográfico e redução de riscos, o chamado “efeito de demonstração” (em países emergentes os consumidores ainda são muito influenciados por produtos importados e marcas estrangeiras); b) melhoria da eficiência: economias de escala e escopo, o acesso a recursos escassos e/ou a custos inferiores e ganhos de arbitragem (especialmente em mercados altamente regulados, como o europeu) c) aprendizagem: acumulação de conhecimento e desenvolvimento de competências existentes, alavancagem de competências empresariais a novos produtos e segmentos, desenvolvimento e aquisição de novas competências empresariais. Dentre os aspectos elencados, destacamos dois - a maior capacidade de resposta aos clientes internacionais e o “efeito de demonstração” - nos quais, pela proximidade e competência técnica, a comunicação corporativa poderá agregar valor ao processo de internacionalização, tornando o benefício ainda mais evidente tanto para os públicos envolvidos como para a própria empresa. O primeiro, de acordo com Cyrino e Penido, envolve questões de logística e de adaptação às características de mercado e cultura locais. Entretanto, em organizações com cultura de comunicação corporativa, essa capacidade de resposta pode ganhar contornos mais abrangentes, sobretudo em relação aos sinais que a organização emite aos diferentes públicos. “(...) Na sociedade atual, o futuro de qualquer companhia depende criticamente de como ela é vista por seus stakeholders1, como acionistas e investidores, clientes e consumidores, empregados e membros da comunidade onde opera” (CORNELISSEN, 2008, p.3, tradução nossa). Mais do que adaptar-se às características de mercado e de cultura, a comunicação corporativa pode desempenhar um papel relevante, colocando em comunicação diferentes atores. Adotando essa postura, a empresa, através de suas estratégias de comunicação corporativa, reconhece a competência comunicativa dos públicos com os quais trabalha e a natureza negociada do conceito de comunicação, que tem a missão de tornar comum, de reconhecer as diferenças e propiciar a abertura para o outro, o que, a médio e longo prazo, ajuda a proteger a reputação da empresa. Concordamos com Martín-Barbero2, quando o autor defende a cultura como uma questão de comunicação, especialmente no que 1 Públicos estratégicos que afetam e são afetados pelas atividades das organizações Professor e pesquisador do Departamento de Estudos Culturais do Instituto Tecnológico y de Estúdios Superiores de Occidente, no México. Um dos autores latino-americano mais expoentes, com grande contribuição aos estudos de comunicação e cultura e sobre a televisão. 2 28 tange à relação dos profissionais de comunicação com a comunidade. Para o autor, a tarefa do comunicador é menos a de “manejador de técnicas” e mais a de agente que coloca em comunicação as diversas sociedades e seus subsistemas internos. O comunicador deixa, portanto, de figurar como intermediário – aquele que se instala na divisão social e, em vez de trabalhar para abolir as barreiras que reforçam a exclusão, defende o seu ofício: uma comunicação na qual os emissores-criadores continuem sendo uma pequena elite e as maiorias continuem sendo meros receptores e espectadores resignados – para assumir o papel de mediador, [...] e a partir daí, trabalha para fazer possível uma comunicação que diminua os espaços das exclusões ao aumentar mais o número de emissores e criadores do que os de meros consumidores (MartínBarbero, 2005, p.69, grifo do autor). “A presença no mercado estrangeiro sinaliza aos clientes que ela veio “para ficar”, reduzindo progressivamente a condição de “forasteira” e integrando-a em condições de igualdade na comunidade de negócios” (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 82, grifo dos autores). Sob a perspectiva da comunicação, a garantia de que a empresa veio para ficar está nas atitudes de respeito e de abertura que a empresa adota ao constituir suas operações internacionais. Na visão de Riel e Fombrum (2007), adotar ao longo dos anos um processo de comunicação consistente, coerente e aberto ao diálogo é uma das maneiras para a organização se posicionar de maneira distinta nas percepções dos públicos com que se relaciona direta ou indiretamente. Os autores defendem que, mais do que dar visibilidade às ações da organização, a comunicação corporativa deve atuar procurando construir sentido e significado que levem a um maior ou menor grau de admiração, respeito, simpatia e confiança por parte de seus públicos. Por isso, construir e proteger a reputação de uma companhia no exterior passa a ser uma das principais tarefas do comunicador e um fator crítico entre os objetivos estratégicos dos gestores da organização. O segundo benefício destacado tem reflexos diretos no ambiente doméstico. O chamado “efeito de demonstração” mexe com o orgulho nacionalista de ter uma empresa operando em ambientes altamente competitivos e permite transferir o sucesso da atividade no exterior para o mercado de origem. Isso acontece especialmente em países emergentes. A abertura da loja francesa pela Natura, “independentemente do sucesso no mercado europeu, adiciona mais um ingrediente de sofisticação e diferenciação à sua imagem de marca para os clientes brasileiros” (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 89). Assim como a conversão das sandálias havaianas em objeto de desejo em países desenvolvidos contribuiu para o reposicionamento da marca no mercado brasileiro. 29 Os autores também identificam (2007, p.101) os custos e riscos associados, como os custos crescentes de coordenação e governança; as desvantagens de ser recém-chegado, as desvantagens de ser estrangeiras, além dos riscos políticos e econômicos nos mercados internacionais. Entre os custos de ser estrangeiras, no caso das empresas provenientes de países emergentes, é notória a questão da imagem (ou ausência dela) associada ao país de origem (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 105). Em geral os clientes e a comunidade de negócios associam alguns estereótipos, nem sempre positivos, ao país, que contaminam a empresa e que custam a ser desfeitos, mesmo quando a empresa se destaca por sua excelência. Muitas empresas brasileiras estão engajadas em um grande esforço de marketing para desfazer preconceitos (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 105). Riel e Fombrun (2007, p. 44, tradução nossa), acadêmicos da área de reputação corporativa, identificaram efeito semelhante em relação à imagem do país de origem no processo de acumulação de reputação das organizações. Segundo esses autores, a reputação de uma organização deriva parcialmente da reputação de outros níveis nos quais ela está envolvida e citam, como exemplo, o significado que a reputação de um país, como a Alemanha, tem sobre a reputação de suas empresas. Para eles, esse “efeito de país-de-origem” e da indústria (ou setor) onde a empresa opera são variáveis que afetam diretamente o processo de construção e acumulação de reputação, portanto, merecem atenção especial dos gestores de comunicação. A presença destacada dos esforços de marketing na observação feita por Cyrino e Penido também serve de indicativo para um outro desafio que a comunicação corporativa enfrentará em relação à sua forma de atuação no contexto internacional: o risco de ter que desenvolver suas atividades reportando-se aos departamentos de marketing e não como uma área própria, ligada diretamente à alta direção da empresa, de onde pode dar uma contribuição mais efetiva aos processos de interação com diferentes públicos. Uma filosofia empresarial restrita ao marketing certamente não dará conta do enfrentamento dos grandes desafios da atualidade. As organizações têm de se valer de serviços integrados nessa área, pautando-se por políticas que privilegiem o estabelecimento de canais de comunicação com os públicos a ela vinculados. A abertura de fontes e a transparência de ações serão fundamentais para que as organizações possam se relacionar com a sociedade e contribuir para a construção da cidadania na perspectiva da responsabilidade social (KUNSCH, 2003, p. 90) Tanure, Cyrino e Penido (2007, p.212), ao refletirem sobre as evidências de vantagens competitivas do processo de internacionalização, apontam para as dificuldades de se gerir o conhecimento e a aprendizagem em contextos multiculturais: “estruturas marcadas por forte 30 hierarquia, formas de comunicação unidirecional (matriz-subsidiárias) e falta de oportunidades de intercâmbio são alguns dos impedimentos para a gestão do conhecimento”. A identificação das dificuldades vivenciadas no decorrer do processo de internacionalização indicam uma ampla gama de contribuições que as equipes de comunicação, com sólido conhecimento técnico e pró-atividade, podem oferecer, tanto no diagnóstico desses problemas, como na adoção de fluxos de comunicação mais abertos e participativos. O desenvolvimento do quadro cognitivo dos gerentes (mind-sets) é outra barreira apontada pela academia de negócios. Sua análise permite compreender as implicações desse quadro cognitivo no perfil do gestor de comunicação corporativa e, consequentemente, nas estratégias implantadas. Estudo de Permutter e Henan (apud TANURE; CYRINO; PENIDO, 2007, p. 209) classifica a evolução do tipo de mindset das empresas em três categorias: etnocêntrico, policêntrico/regiocêntrico e geocêntrico. No mindset etnocêntrico, o país de origem é a grande referência para o gerenciamento das atividades internacionais, as decisões são centralizadas na matriz e há um alto controle das operações internacionais. No mindset policêntrico/regiocêntrico, a cultura e as práticas gerencias do país onde atuam são a referência para o gerenciamento das atividades e há uma tendência à descentralização e autonomia entre as diferentes operações globais. O mindset geocêntrico ou global envolve a criação de redes globais para seguir uma estratégia transnacional, que se caracteriza pela interdependência das operações nacionais e internacionais. “Significa ter habilidade de observar o mundo a partir de uma perspectiva ampla e transcultural, sempre procurando tendências que podem ameaçar as oportunidades para a empresa” (TANURE; CYRINO; PENIDO, 2007, p. 209). De acordo com os autores, as multinacionais brasileiras estão evoluindo de um mindset etnocêntrico para o regiocêntrico. A internacionalização das empresas brasileiras é um processo que vem mexendo com profissionais, estruturas empresariais e processos dessas companhias. Sherban Cretoiu (2007, p. 255) alerta que a internacionalização não deve ser vista apenas como estratégia, mas também como uma questão de organização. É comum que as empresas concentrem suas atenções e recursos principalmente nos aspectos mercadológicos e na elaboração das estratégias corporativa e de negócios. Todavia não é sensato negligenciar os aspectos fundamentais da organização e de estrutura que serão necessários para que as próprias estratégias formuladas possam ser implementadas (CRETOIU, 2007, p. 255). Nesse sentido, gerir a comunicação interna, buscar o entendimento entre a cultura nacional, a cultura organizacional e a cultura do país de destino, criar uma marca global que 31 tenha significados que possam ser compreendidos mundialmente, levando à formação de uma sólida reputação, são alguns dos desafios que batem à porta do comunicador que atua em empresas brasileiras em processo de internacionalização. Para saber como lidar com esses desafios, as empresas precisam de profissionais que compreendam os dilemas, os riscos e os desafios de ser uma empresa global. É preciso que os profissionais de comunicação desenvolvam habilidades e sensibilidades para lidar com o desconhecido, com o diferente ou, como propõe Edgar Morin (1992, p.30), para saber esperar o inesperado que, no contexto de atuação global, tem probabilidade ainda maior de nos surpreender. Nesse sentido, os estudos no campo das ciências econômicas, especialmente na área de negócios internacionais, “[...] podem lucrar grandemente ao receberem contribuições científicas concretas das ciências da comunicação ou relações públicas” (SIEVERT; PORTER, on line). Neste capítulo, buscou-se traçar um breve panorama da evolução do processo de internacionalização das empresas brasileiras, considerando as estratégias, os benefícios, riscos e custos inerentes. Esses fatores foram relacionados a algumas percepções e reflexões sobre o papel da comunicação corporativa nesse contexto. No próximo capítulo, investiga-se as experiências e descobertas que o próprio campo da comunicação vem identificando em relação às organizações com atuação em contextos cross-culturais. Para isso, examina-se diferentes perspectivas teóricas - relações públicas internacionais, estudos culturais e teorias de interpretação cultural - construindo uma visão interdisciplinar que permite compreender complexidade envolvida na atuação internacional de uma organização. Acreditamos ser de grande valia a observação de como o processo de comunicação em contextos internacionais vem sendo estudado e compreendido, especialmente nos países onde a internacionalização já alcançou maior grau de maturidade. 32 CAPÍTULO II – Compreendendo a natureza global da comunicação organizacional: visões de diferentes perspectivas teóricas 1. O atual contexto comunicativo e as implicações de transcender as fronteiras nacionais O processo de internacionalização das empresas desafia profissionais de comunicação que atuam em organizações públicas, privadas e não governamentais a compreenderem as implicações de atuar em contextos culturalmente e estruturalmente diferentes de seus países de origem. Fazer comunicação em ambientes cross-culturais é ir muito além da simples tradução de textos e peças de comunicação ou de desenvolver programas e projetos costumeiramente praticados no país de origem. O que acontece, ou deveria acontecer, do ponto de vista da comunicação, quando uma organização transcende suas fronteiras nacionais? A revisão de literatura de administração e negócios internacionais realizada no capítulo anterior revelou que ainda há poucas referências à importância estratégica do processo de comunicação para as organizações que se internacionalizam. Essa ausência de questões de comunicação pode ser decorrente da própria evolução histórica do campo da comunicação organizacional, cuja história, no Brasil, vem sendo construída nos últimos trinta anos. É importante lembrar que o mundo da comunicação corporativa vem passando por um processo de amadurecimento, decorrente inclusive do contexto social em que vivemos. “A comunicação empresarial encerra, agora, um conjunto de novos atributos que a tipificam como insumo estratégico” (BUENO, 2009, p.10, grifo nosso). A chegada ao patamar atual – com conhecimentos e métodos que permitem desempenhar efetivamente sua função junto ao corpo estratégico da empresa - é decorrente de um longo processo de aprendizagem. Se na década de 1970 as organizações se comunicavam por meio de jornais empresariais de prestígio, ações de comunicação isoladas, que pouco ou nenhum diálogo e participação produziam; nos anos 80 começaram a ser estabelecidas políticas de comunicação e transparência e, a partir dos anos de 1990, tem início uma virada histórica, quando “os ares da democratização oxigenaram também a Comunicação Empresarial brasileira” (BUENO, 2009, p.5). Nassar, Furlaneto e Figueiredo resumem essa “virada histórica” (2009, p.10): 33 Esse momento histórico — com o fortalecimento de protagonistas sociais, como as organizações não-governamentais, entidades reguladoras, os consumidores fortalecidos em seus direitos e a materialização das tecnologias digitais de comunicação e informação no cotidiano social — apresenta uma organização que tem diminuído o seu poder de administrar a sua dimensão imaterial. Essa perda de controle sobre parte importante de sua dimensão simbólica não é um acontecimento restrito às empresas: outras organizações têm, também, na atualidade, o seu papel controlador diminuído, entre elas a Escola, a Igreja e as instituições políticas. Essa mudança na sociedade levou a uma evolução gradativa na forma como as organizações se relacionam com seus múltiplos públicos e à reorganização do próprio processo de gestão empresarial. Na visão de Bueno, a evolução da empresa e da comunicação caminham juntas: A comunicação é o espelho da cultura empresarial e reflete, necessariamente, os valores das organizações. Se elas caminham para valorizar o profissionalismo, a transparência, a responsabilidade social e a participação, a comunicação se orienta no mesmo sentido (BUENO, 2009, p.6) Na visão de Bueno (2009, p.31), as alterações provocadas pela globalização nas diferentes instâncias de produção e comercialização, os novos modelos de gestão, a maior vigilância dos consumidores e as inovações em comunicação e entretenimento foram responsáveis pelas alterações profundas ocorridas nos últimos anos. Margarida Kunsch (2003, p. 73) aponta os novos valores para a comunicação nas organizações: É preciso levar em conta os aspectos relacionais, os contextos, os condicionamentos internos e externos, bem como a complexidade que permeia todo o processo comunicativo. Dai a necessidade de ultrapassarmos a visão meramente mecanicista da comunicação para outra mais interpretativa e crítica (KUNSCH, 2003, p.72). Apesar de o conhecimento ter avançado bastante, de modo geral, o cotidiano prático da comunicação organizacional ainda guarda muitos obstáculos a serem superados, como a visão centrada no modelo de transmissão das informações3, a atuação essencialmente técnica do profissional (BUENO, 2007, p. 100). A superação do modelo de comunicação heliocêntrico das empresas é outro desafio (BARROS FILHO, 2009). Para o professor Clóvis de Barros Filho, há um abismo entre as atuais estratégias de posicionamento e de comunicação das empresas e o novo cenário comunicativo, de profunda 3 O modelo de transmissão de informações foi proposto por Shannon e Weaver, em 1949. Também é chamado de Teoria Matemática da Comunicação. Define o processo de comunicação como um sistema de transferência de informação, com os seguintes elementos: fonte, mensagem, código, canal, receptor, mensagem e destinatário. Neste modelo, a informação é transferida de uma fonte para um destinatário, podendo ocorrer ruídos, chamados de entropia (WOLF, 2005, p.108 e 109). 34 interação. Para ele, é preciso romper com a visão heliocêntrica, onde a empresa se coloca num papel de centralidade na sociedade, e passar a assumir o fato de que a empresa é parte de uma rede discursiva pré-existente. Este é um conceito primordial que a empresa deve ter como o foco para a atuação internacional. Barros Filho, inclusive, coloca a questão da centralidade como um dos maiores desafios para a organização multinacional. O pesquisador argumenta (2008, informações verbais) que a sociedade, a cultura e as pessoas que vivem no local aonde uma multinacional se instala existem antes e independentemente da empresa4. Ele defende que o “modelo do sol”, de centralidade, é “nefasto e equivocado nos tempos atuais”. Para ele, a organização deve entender-se como um agente dentro de uma rede discursiva, dinâmica, que transcende as iniciativas de comunicação da empresa. Nassar, Furlaneto e Figueiredo também argumentam por uma nova postura da comunicação organizacional: Fica destacado, por razões tecnológicas, políticas, sociais, psicológicas e econômicas que a empresa e a instituição não são territórios separados da sociedade. A cultura e a identidade organizacional, assim como os seus produtos, bens, serviços e mercados, os seus integrantes, como elementos expressivos são estruturados, ganham inúmeros significados no ambiente das redes de relacionamento. As práticas de autodenominação organizacional, produzidas nas áreas de comunicação com objetivos persuasivos ou influenciadores, não se sustentam mais. A comunicação organizacional perdeu a sua centralidade autoritária. A empresa se estrutura, se configura (desfigura), adquire e consolida (ou desfaz) a sua identidade quando estabelece relações com as suas alteridades, que são também produtoras de conteúdos (NASSAR; FURNALETTO; FIGUEIREDO, 2009, p.11). Mais adiante, os autores completam: Ela [a comunicação organizacional] acontece, é desenhada em um ambiente relacional, enredado, em que a empresa ou instituição não é mais o centro, mas é co-participante. A organização não tem mais o poder de dizer que quer ser percebida de uma forma ou de outra, partindo-se de uma área de comunicação ou de gestão. A organização será aquilo que a rede relacional perceber; será aquilo que é produzido por um processo de negociações, alicerçado num ritual dialógico (NASSAR; FURNALETTO; FIGUEIREDO, 2009, p.11).. Em tempos de forte governança corporativa e fiscalização ativa da sociedade, esses obstáculos precisam ser superados para que a comunicação avance como função estratégica para a organização. Gareth Morgan alerta: 4 O professor Clóvis de Barros Filho apresentou essa visão em palestra durante o X Fórum de Comunicação Corporativa, da Associação Brasileiras de Anunciantes, realizado em 2008. Ele defende que o modelo do sol, de centralidade, é “nefasto e equivocado nos tempos atuais”. Para ele, a organização deve entender-se como um agente dentro de uma rede discursiva, dinâmica, que transcede as iniciativas de comunicação da empresa. 35 (...) muitos dos problemas fundamentais com os quais nos deparamos originam-se do fato de que a complexidade e a sofisticação do nosso pensamento não são comparáveis à complexidade e à sofisticação das realidades com as quais é necessário lidar. Isso parece ser verdadeiro no mundo das organizações, assim como na vida social e na sociedade em geral (MORGAN, 2007, p. 345, grifo nosso). Como velhos e novos paradigmas ainda convivem na prática da comunicação organizacional, o domínio dos atuais atributos da comunicação e sua relação com o contexto social contemporâneo são importantes condições para que o profissional desempenhe com eficiência sua função estratégica nas organizações. Como bem lembra Wilson Bueno (2009, p. 14), a importância da comunicação nas empresas está “indissoluvelmente, ligada à capacitação dos profissionais e isso tem a ver com uma formação sólida, que extrapola o aspecto meramente técnico” (BUENO, 2009, p. 14). A compreensão desse novo papel5 e o desenvolvimento das habilidades individuais para que o comunicador seja efetivamente um gestor, um estrategista com capacidade de leituras de cenários internos e externos, capaz de estabelecer espaços e canais apropriados, constituem a essência de uma estratégia de comunicação bem sucedida e adequada aos tempos atuais. Não se pode imaginar um processo que efetivamente funcione em uma organização sem que a vertente comunicacional esteja presente. As pessoas precisam conversar, as informações e os conhecimentos precisam fluir e toda a decisão estar respaldada num processo de interação. Mas, muitas vezes, o que parece simples encerra inúmeras dificuldades e desafios. Por que as coisas não são tão fáceis? (BUENO, 2007, p. 93) A comunicação das organizações sempre esteve habituada à posição de emissora da informação, onde os temas em pauta, o enquadramento, a escolha das fontes, estavam atrelados à sua agenda organizacional. Romper com esse modelo implica em sair da zona de conforto. Um desafio e tanto para profissionais e organizações! Se domesticamente o modelo de comunicação linear já vem sendo superado, com públicos de outras culturas, para quem é 5 Vários autores brasileiros (BUENO, KUNSCH, OLIVEIRA, I. MARCHIORI, M.) têm discutido o papel da comunicação organizacional na sociedade da informação. Em comum, os autores defendem que o novo contexto comunicacional requer a adoção de fluxos de comunicação mais democráticos, o reconhecimento da competência comunicativa dos públicos, maior abertura para o diálogo e amplo entendimento dos efeitos da tecnologia na compressão espaço-temporal e na profunda interconexão entre fatos. 36 preciso apresentar uma nova empresa, sua marca, identidade, valores e cultura organizacional, originária de um país de onde possuem poucas e/ou estereotipadas informações, é imprescindível a adoção de processos comunicacionais que permitam fluxos de mão dupla e de influência recíproca, princípios da comunicação excelente, defendida por Grunig (1992). No ambiente internacional, é preciso fugir obsessivamente da tentação de reproduzir o modelo tradicional de comunicação, onde o emissor transmite unilateralmente informações a vários receptores. Entretanto, a tendência natural é optar pelo que é mais fácil de se gerir, seja pelo desconhecimento da “intimidade” do outro (o público com quem a empresa está procurando se comunicar), seja por questões de custos ou mesmo despreparo dos profissionais. A tentação de traduzir para outras línguas o folder institucional produzido originalmente para o público brasileiro, assim como o conteúdo do site para o inglês ou outro idioma, sem nenhuma preocupação em adaptar ou construir especificamente uma estratégia de comunicação com os públicos estrangeiros pode levar a uma armadilha. Além disso, há uma série de outras decisões operacionais que precisam ser tomadas. “Com a velocidade de circulação de informações, as organizações, principalmente as transnacionais, verificam que a reputação necessita de um cuidado e de instrumentos novos para sua administração”, enfatizam Pereira et al (2009, p 313). O relações públicas Michael Morley, especialista em reputação organizacional, alerta que há várias razões para a organização considerar com atenção o desenvolvimento de uma “voz global”, como a globalização das corporações midiáticas, o surgimento das novas mídias e o escrutínio permanente a que são submetidas as palavras e ações das organizações (MORLEY, 2002, p. 37-39, tradução nossa6). Há muitos exemplos de companhias-irmãs em diferentes países, subsidiárias da mesma corporação-mãe, que têm sido descobertas por adotar filosofias e procedimentos aparentemente contraditórios. Há muitos órgãos de defesa oficiais e não oficiais prontos para denunciar essas anomalias para o público e colocar a corporação no ridículo, com subseqüente dano para sua imagem e credibilidade (MORLEY, 2002, p. 31). Ao ampliar as atividades para além das fronteiras nacionais, a complexidade inerente à atuação de uma corporação ganha uma nova magnitude, portanto a empresa não pode prescindir de estratégias de comunicação que sejam capazes propiciar aos públicos e organização espaços e oportunidades permanentes de interação e aprendizado. A comunicação 6 Todas as referências ao trabalho de Morley citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 37 de uma organização deve estar alinhada às estratégias de negócios, porém orientada para que empresa e os atores sociais estabeleçam relações saudáveis (BUENO, 2009, p.6). Não é uma tarefa fácil. Uma abordagem realista da organização parte da premissa de que as organizações são complexas, ambíguas e paradoxais (MORGAN, 2007, p. 327; 328). Como destaca Morgan, Que os interesses da corporação e da comunidade não sejam sempre sinônimos é uma verdade comum a todos os tipos de organização e não somente em relação às multinacionais. Todavia, a escala de operações destas últimas é tão grande que torna as conseqüências das decisões amplamente graves (2007, p. 313). Quando essa natureza organizacional se depara com variáveis como a cultura e a desconfiança do público pelo fato de ser estrangeira, a adoção de uma postura comunicacional aberta, democrática e relacional passa a ser um componente determinante para a organização que quer conquistar legitimidade social7 para suas operações e, consequentemente, estabelecer relações significativas com os públicos com os quais interage. Esse entendimento é vital para a construção, a médio e longo prazo, de uma reputação positiva. Algumas multinacionais brasileiras já perceberam que é preciso ir além das questões econômicas e de vendas, de acordo com a matéria “É preciso se apresentar com nome e sobrenome”, publicada no Anuário Valor Multinacionais Brasileiras, em 2008. “(...) Mostrar a cara e ganhar público em terras estranhas já está na agenda das multis brasileiras” (TIAGO, 2008, p.70). São elas Petrobras, Vale, Embraer, Banco Itaú, Sadia, Havaianas (São Paulo Alpargatas). De acordo com a reportagem, todas estão investindo em estratégias de gestão da marca como uma das forças do processo de internacionalização. Se o caminho é construir uma sólida reputação internacional, como o processo de comunicação deve ser analisado, concebido e estabelecido pelas organizações em processo de internacionalização? Que investimentos teóricos devem ser feitos em busca de uma melhor compreensão das implicações de atuar internacionalmente? A que fatores os profissionais devem estar atentos na construção de sistemas de comunicação no exterior? De que forma o contexto social afeta o processo de comunicação de uma organização? Essas indagações lançam alguns dos temas que envolvem a questão da comunicação e da expansão internacional das empresas. 7 Refere-se à capacidade de ser aceita pelos grupos com quem interage 38 1.1 A importância estratégica da comunicação para o processo de internacionalização A comunicação tem importante papel a desempenhar desde o momento em que se iniciam as discussões sobre o processo de internacionalização. O especialista em reputação, Mario Rosa, explica que: Já houve um tempo em que a propaganda era a alma do negócio. Um tempo em que para se diferenciar bastava ser mais conhecido. A alma do negócio hoje é a reputação. Porque não basta ser mais conhecido. É preciso ser reconhecido, respeitado, para inspirar confiança e assegurar uma escolha (2006, p.7). A atuação estratégica da comunicação abre caminho para uma melhor compreensão dos cenários com os quais a organização vai se deparar; facilita a compreensão do ambiente aonde ela está inserida, e de como esse ambiente afeta a sua forma de atuação; ajuda a construir o sentimento de pertencimento, além de favorecer o estabelecimento de mecanismos apropriados para a promoção de fluxos de comunicação entre a empresa e os múltiplos públicos com quem se relaciona. A forma como a empresa irá apresentar sua identidade, o tipo de relacionamento que pretende estabelecer em cada território, as reações dos diferentes públicos, as estratégias de comunicação que serão usadas e o próprio sistema de comunicação a ser implantado são algumas contribuições que a comunicação organizacional pode oferecer ao processo de expansão das atividades para além das fronteiras nacionais. Orientar sobre os cuidados com relacionamentos decorrentes da investida internacional também fazem parte dessas atribuições, desde que a comunicação esteja apta a ocupar assento no patamar decisório da organização. Muitas corporações que acreditam ser multinacionais são, na verdade, regionais ou super-regionais, no sentido que elas estão bem estabelecidas em mais de uma região, mas falham em ser mundiais, ou globais, em suas atividades. Além do mais, muitas são verdadeiras corporações nacionais que expandiram e adicionaram apêndices em outros países, de quem as necessidades e pontos-de-vista não têm nenhuma significância no processo decisório (MORLEY, 2002, p.28, tradução nossa) No ambiente internacional, a “sofisticação das realidades” com as quais se lida tem início no contexto aonde ocorrem as trocas simbólicas promovidas pelo processo de comunicação. Em sua maioria, ele é totalmente diferente do contexto de origem da organização que se internacionaliza, portanto, nem tudo o que funciona em um local, funcionará adequadamente em outro. Isso ocorre porque a leitura de mundo, o processo de interpretação das mensagens e do comportamento organizacional serão percebidos e se desenvolverão de maneira específica em cada local. 39 Mario Rosa alerta que, em um mundo onde velocidade passa a ser uma commodittie, os riscos também são proporcionais. Ele argumenta que: O erro é local. O dano é global! Ou seja, seu erro, seu deslize, pode comprometer sua reputação numa escala muito maior do que a que você foi treinado a prever. Simplesmente porque o mundo ficou menor. As pessoas estão muito mais próximas de nós. O desgaste pode ser maior que o erro! (ROSA, 2006, p.154-155). Colocar uma organização em comunicação com diferentes públicos – domésticos ou estrangeiros - sempre foi (e será) uma tarefa desafiadora, complexa e cheia de riscos. O papel da comunicação organizacional é encontrar e desenvolver mecanismos que possam ajudar a promover essa interação, contribuindo para que sejam estabelecidas relações significativas entre todos os atores. A comunicação organizacional deve caminhar para atuar na linha sutil de produção de significados e construção de sentidos. Tornar-se uma organização global requer falar com uma voz global. Isso não é tão fácil quanto parece, e a maioria das companhias considera difícil estabelecer as mensagens corretas e o tom correto na maneira de se expressar (MORLEY, 2002, p.28, tradução nossa). Quando desenvolve a habilidade e a sensibilidade para atuar construindo significados, ela faz um exercício de se colocar em relação ao outro e consegue fazer valer o fluxo de influência mútua e agrega valor tanto para a organização como para os atores sociais com os quais uma organização interage. Atuar em um mercado estrangeiro implica em uma comunicação organizacional madura, com políticas e práticas bem definidas. O conhecimento apenas técnico não irá dar conta dos desafios aos quais os profissionais terão que superar. Prioriza-se, neste estudo, a pesquisa bibliográfica das abordagens teóricas do campo das relações públicas internacionais que, combinadas à abordagem dos Estudos Culturais (HALL, S., 1980) e aos estudos sobre interpretação da cultura e organizações (HALL, E., 1977; HOFESTED, 2005; TROMPENARS, 1997), revelam caminhos para reflexão e condução de programas internacionais de comunicação corporativa. Juntas, as três abordagens lançam luz para o entendimento da complexidade envolvida na gestão internacional da comunicação corporativa e servem de base para os argumentos a serem desenvolvidos no Capítulo III, onde serão apresentadas as raízes conceituais que podem atravessar fronteiras e orientar iniciativas e estratégias de comunicação. 40 2. Um panorama das pesquisas acadêmicas 2.1. A perspectiva das relações públicas internacionais A discussão sobre a comunicação das empresas em ambientes internacionais é construída sobre o referencial teórico de comunicação organizacional e, no campo da comunicação social, recebe importantes contribuições da disciplina da área de Relações Públicas. Contudo, a questão da comunicação nas organizações em contextos cross-culturais não é uma prerrogativa da área. Na academia há estudos interessantes nas áreas de gerenciamento inter-cultural, diplomacia pública, branding, relações internacionais, gestão da reputação, comportamento organizacional e marketing internacional, entre outros. No Brasil, a bibliografia sobre processos de comunicação internacional, aplicados às organizações, ainda é bastante escassa, encontrando-se um pouco mais ampliada nas áreas de comunicação de massa, propaganda e marketing. Entretanto, (...) o exercício dessa atividade tem se tornado cada vez mais comum nas empresas e organizações nacionais que, em razão da inexistência de um corpo teórico sobre o tema, acabam tendo que se orientar pelo bom senso e pela observação do que se pratica em outros países ou regiões (FERRARI, 2006, p. 85). Alguns estudos realizados em cursos de pós-graduação de universidades brasileiras procuram, entre outros objetivos, realizar uma revisão bibliográfica da área de relações públicas internacionais (DIAS, 2003; RIBEIRO, 2004; SILVA, 2005), aplicando, em alguns casos, estudos sobre as experiências de empresas brasileiras. Outras pesquisas discutem estratégias de comunicação de multinacionais estrangeiras no Brasil, como a monografia de Costa (2006), ou situações envolvendo a comunicação entre culturas organizacionais de multinacionais e cultura brasileira, como o artigo de Fonseca e Castor (2006). Internacionalmente, as pesquisas nesse campo do conhecimento predominam nas universidades americanas (quatro lideram a produção acadêmica: Universidade de Missouri, Universidade da Flórida, Rutgers University e Universidade de Mariland). O segundo país gerador de conhecimento na área é o Reino Unido. (MOLLEDA, 2005, p. 48). Ainda, de acordo com o pesquisador, quatro autores destacam-se pelo volume e consistência de suas contribuições ao tema: Wakefield, Vercic, L.Grunig e J. Grunig. O trabalho do pesquisador norte-americano Robert Wakefield (1996, p.17-30), estudioso da área de relações públicas, é um dos pontos de partida para quem estuda a perspectiva das relações públicas internacionais e contribui para a compreensão dos fundamentos teóricos que cercam a atividade de comunicação em ambientes internacionais. 8 Todas as referências ao trabalho de Molleda citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 41 Sua pesquisa aponta campos teóricos relevantes para uma leitura da complexidade do ambiente onde as práticas internacionais de comunicação corporativa efetivamente ocorrem. Ao adotar uma abordagem interdisciplinar, o autor lança as sementes para orientar comunicadores e organizações na construção de relacionamentos fora de seus países de origem. Wakefield propõe que a base teórica da atuação internacional seja construída a partir de uma visão multidisciplinar e elege quatro grandes campos cujas implicações são relevantes tanto para a prática como para a pesquisa sobre a comunicação das organizações além das fronteiras9: (1) teorias do pós-modernismo e da sociedade global, provenientes da sociologia e outras disciplinas; (2) teorias culturais desenvolvidas amplamente pelos antropólogos; (3) teorias de gerenciamento derivadas das escolas de negócios internacionais e 4) teorias de comunicação (WAKEFIELD, 1996, p.21, tradução nossa). Para Wakefield, as teorias sobre a sociedade global mostram que, quando as culturas interagem, há um aumento da turbulência, por isso, é importante identificar a necessidade de estruturas adaptáveis, realizar pesquisa formativa e compreender as técnicas de resolução de conflitos. Na visão do autor (1996, p.22), as teorias culturais, como as dimensões da cultura, proposta por Hofstede (1980), a Teoria da Aculturação (ADLER; GRAHAM, 1989) e os estudos do antropólogo Edward Hall ilustram a necessidade de sistemas abertos de abordagem e a importância de questões relacionadas à diversidade de empregados e coordenação global/local das ações. Com as teorias de gerenciamento, o autor destaca a importância da combinação entre as teorias de gestão organizacional e gestão cultural, as perspectivas de interpretação da cultura - que irão mostrar a necessidade de sensibilidade cultural - e o impacto do estabelecimento de uma terceira cultura, formada pela vivência dos indivíduos em outros contextos culturais (WAKEFIELD, 1996, p. 24). E, finalmente, as teorias da comunicação, como a dependência da mídia para a construção das imagens sobre outros países, o que gera imagens estereotipadas e distorcidas; o fluxo global de informação; a mídia como conduíte para a agenda dos ativistas, entre outras, indicam a necessidade de construir relacionamentos e de atuar proativamente na arena internacional (WAKEFIELD,1996, p.25). 9 Todas as referências ao trabalho de Wakefield citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora. 42 Bons comunicadores completam as necessidades citadas anteriormente. Se eles estão qualificados e sensíveis a diversos pontos de vista, podem facilitar relacionamentos que irão aumentar os lucros por anos. Eles podem antecipar os futuros desafios e ajudar as organizações a pensar e agir em termos de balancear suas próprias metas com os desejos de uma variedade expandida de públicos internacionais (WAKEFIELD, 1996, p.27). Juan Carlos Molleda, professor da Universidade da Flórida, estudou o conteúdo dos principais periódicos científicos, onde foram publicados artigos sobre comunicação internacional, entre os anos de 1990 e 2005. De acordo com seu estudo, a pesquisa em comunicação internacional passou por dois momentos distintos. No início dos anos 90, a queda do muro de Berlim e a abertura de novos mercados nos países da União Soviética e do Leste Europeu provocaram reflexos em várias partes do mundo e motivaram as pessoas a estudar a nova era da globalização e a unificação do mundo. Nesse período, as publicações acadêmicas e de mercado passaram por experiências diferentes. Enquanto a produção acadêmica teve um crescimento explosivo no início do século 21, as publicações nas áreas de negócios decresceram e se estabilizaram em 1992. (MOLLEDA, 2005, p. 41). O autor constatou também que a maior parte da produção científica disponível não é internacional em sua essência e, de modo geral, trata de experiências geograficamente delimitadas pelas fronteiras dos países. O pesquisador também verificou que a maioria dos artigos publicados tomam por base as teorias da Excelência, da Comunicação Organizacional e de Desenvolvimento da Ética e Responsabilidade Social. Seu estudo mostrou que são raras as pesquisas que têm como foco o trabalho de comunicação das multinacionais e transnacionais no processo de abertura de novas fronteiras e o estabelecimento de relacionamento entre as nações (MOLLEDA, 2005, p. 3). Molleda destaca, ainda, que há uma confusão entre os termos que definem a comunicação internacional e a comunicação global (2005, p.9). Assim como Hugh Culbertson (1996, p.2), Molleda defende que o termo “internacional” deve ser usado quando se trata dos processos de comunicação envolvendo a relação entre duas ou mais nações que se estendem ou que transcendem as fronteiras nacionais. Para ele, os estudos sobre as similaridades e as diferenças entre regiões devem ser chamados de comunicação comparativa. Já o termo “Global” deve ser adotado quando se trata das práticas de comunicação de organizações supranacionais, que atuam em praticamente todo o mundo e tratam de questões globais. Maureen Taylor, ao eleger as oportunidades e desafios para a área, é outra autora que traz significativa contribuição. Ela destaca que há quatro tendências para se estudar as 43 relações públicas internacionais (2000, p. 630, tradução nossa10): a idéia de relações públicas como atividade de comunicação simétrica, defendida por Grunig; pesquisas contextualizadas que descrevem as práticas em diferentes nações; fundamentos éticos e educacionais da prática; desenvolvimento de novas teorias de relações públicas que buscam transcender as fronteiras nacionais. Citando Smiramesh e White (1992), a autora argumenta que os fatores societais e culturais criam uma situação única para a prática de relações públicas em cada sociedade (2000, p.636). “A linguagem também vai apresentar outros problemas. Slogans corporativos, marketing, temas de propagandas e a tradução de materiais organizacionais deverão ser todos checados e rechecados”, alerta. A relação com a imprensa e questões éticas também serão desafios de quem atua na arena internacional. Moss e DeSanto lembram que, apesar da convergência de marcas, produtos e padrões de consumo, é preciso distinguir em que aspectos os países permanecem diferentes: (...) as pessoas podem estar bebendo os mesmos soft drinks ou comendo o mesmo tipo de fast food, mas eles podem estar fazendo isso em lugares diferentes, em diferentes horários do dia e por diferentes razões. Enquanto o produto pode ser estandartizado, as normas culturais e os valores que influenciam seu consumo são um tanto diversos (2002, p. 1, tradução nossa11). Ser bem-sucedido numa escala global requer uma sensibilidade extrema para a diversidade cultural, que deve existir mesmo em países onde a superfície aparenta ser amplamente similiar em termos de desenvolvimento econômico, padrões de consumo ou sistemas políticos (MOSS E DeSANTO, 2002, p.1). Robert Heath (2000, p. 625, tradução nossa12) identificou uma mudança na forma como as relações públicas internacionais são vistas. Para ele, até pouco tempo atrás o ensino de relações públicas internacionais discutia se a melhor estratégia era o emprego de pessoas com amplas habilidades e conhecimentos interculturais, ou se o ideal seria a contratação de equipes locais. 10 Todas as referências ao trabalho de Taylor citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora Todas as referências ao trabalho de Moss e DeSanto citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 12 Todas as referências ao trabalho de Heath citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 11 44 Hoje a questão mais eloquente é como uma organização (negócios, ONG e governo) pode encontrar ou exceder as expectativas das vozes e culturas de Babel, sem perder sua identidade por tentar ser tudo ao mesmo tempo para mercados e públicos (HEATH, 2000, p.625). Já no entendimento de Wakefield, apesar dos inúmeros avanços na área, Existe pouca informação preciosa para ajudar a organização multinacional a compreender a natureza global de suas relações públicas ou para guiar suas mensagens externas com crescentes públicos cross-culturais, mas também para antecipar e responder a comportamentos destes públicos que possa afetar as organizações” (2000, p.639). O autor também enxerga uma mudança na condução da comunicação corporativa em âmbito internacional. A prática baseada em intuição proporcionou muitos prejuízos, por isso, em sua visão, “somente o sólido conhecimento das práticas cross-culturais ajuda a evitar calamidades” (WAKEFIELD, 2000, p.640). Para ele, os profissionais precisam saber como manter uma comunicação consistente e proteger a reputação de suas entidades ao redor do globo. O problema é que a pouca experiência internacional leva muitos gestores a adotarem abordagens equivocadas para a área internacional (WAKEFIELD, 2000, p. 641): ou tendem a estender suas práticas domésticas com poucas modificações para outros países, ou enxergam a atuação internacional como algo tão misterioso, que é conduzido à parte, de maneira completamente isolada dos programas domésticos. “Quando isso acontece, a organização perde consistência na reputação e nos processos de comunicação global”, explica o autor (2000, p. 641), para quem as duas abordagens estão condenadas a falhar por não considerarem a natureza da atuação internacional. De acordo com Foster (1999, apud WAKEFIELD, 2000, p. 642), muitas organizações falham por não reconhecerem que a atuação internacional é “exponencialmente mais complexa do que os frontes domésticos”. Para Maddox (1993, apud WAKEFIELD, 2000, p. 642), atuando internacionalmente as empresas enfrentam arenas regulatórias múltiplas, linguagens diferentes, empregados com outras culturas, impostos, etc. 45 Outra discussão fortemente presente na academia é quanto à adoção dos princípios genéricos13 e específicos do programa de relações públicas excelentes, proposto por Grunig. Em um estudo para a Internacional Business Communication Foundation (IABC), Dejan Vercic, Larissa Grunig e James Grunig (1996, p. 31-63, tradução nossa) propuseram que as características dos programas de Relações Públicas Excelentes fossem aplicadas globalmente. Por serem princípios normativos, ou seja, recomendações sobre como deve se implementada a prática, os autores consideraram importante identificar variáveis contextuais, que tornariam difícil ou mesmo impossível a prática desses princípios genéricos. Para isso, conduziram um estudo na Eslovênia, a partir do qual foram identificadas cinco variáveis específicas a serem consideradas de acordo com cada local de atuação: a) sistema político-econômico; b) cultura c) grau de intensidade do ativismo d) nível de desenvolvimento econômico e) sistema midiático (VERCIC; GRUNIG,L; GRUNIG, J, 1996, p.40). Os princípios genéricos foram replicados com sucesso em várias partes do mundo (por RHEE (1999), WAKEFIELD (1997; 2000; 2001) VERCIC (1996) apud GRUNIG, 2002, p.543-546), entretanto alguns autores criticam especialmente o princípio que trata da comunicação simétrica. Taylor (2000, p. 636) aponta que a extensão do modelo simétrico, que guia a prática nos Estados Unidos, pode não funcionar em determinadas culturas. Para ela, a adoção de uma visão contextualizada seria mais adequada, uma vez que considera como fatores sociais, políticos e econômicos únicos moldam a prática em diferentes países. Moss e DeSanto explicam que a prática de relações públicas desenvolveu significativamente após a Segunda Guerra Mundial, especialmente nos países ocidentais, superando suas raízes originais de relações com a imprensa para práticas mais sofisticadas, mas os autores acreditam que seria “errado sugerir que esta visão de relações públicas exista [modelo simétrico de Grunig] em todos os países e organizações, mesmo em partes mais desenvolvidas do mundo”(2002, p.4). Moss e DeSanto (2002, p.8) explicam que, enquanto estudos da área de relações públicas internacionais falharam em encontrar evidências da amplitude da prática das relações públicas simétrica de duas mãos em diferentes nações, “há um forte reconhecimento em vários países da importância da negociação e do diálogo, mesmo quando o objetivo 13 Os princípios genéricos propostos pelos autores são: envolvimento das relações públicas com o gerenciamento estratégico da organização; relações públicas reportando-se diretamente aos dirigentes máximos; integração de todas as atividades de comunicação em um único departamento; relações públicas enquanto função de gestão separada das demais áreas, especialmente do marketing e de recursos humanos; separação entre a função gerencial e função técnica; adoção do modelo simétrico de duas mãos com públicos estratégicos; adoção do sistema simétrico de comunicação interna; conhecimento sobre os aspectos intrínsecos da função gerencial de relações públicas e do modelo simétrico; diversidade de profissionais (Gênero, raça, ética, cultura, etc) (GRUNIG, J, GRUNIG, L, VERCIC, 1996, p.37-40). 46 subjacente dessa atividade possa frequentemente ser mais assimétrico do que genuinamente simétrico”. Ainda no embate acadêmico, Grunig, Grunig e Vercic justificam sua proposição de princípios genéricos e específicos: Nossa Teoria Global é uma teoria normativa. Ela inclui conceitos que explicam como as relações públicas devem ser praticadas e mantidas ao redor do mundo para serem mais efetivas. Contudo, Relações Públicas podem ser praticadas de outras maneiras e muitos autores têm positivamente descrito e explicado como e porque relações públicas são praticadas diferentemente pelo mundo (...) Como uma teoria normativa, nós afirmamos simplesmente que a prática de relações públicas que ela descreve será mais efetiva do que outras maneiras de praticar relações públicas que podem, de fato, ser praticadas com mais freqüência (GRUNIG, J; GRUNIG, L; VERCIC, D, 2004, p.152, tradução nossa14). Decorrente dessa discussão, acreditamos que as variáveis específicas têm, sim, uma importante aplicabilidade para gestores de comunicação em ambientes internacionais. O sistema político-econômico, a cultura, o grau de intensidade do ativismo, o nível de desenvolvimento econômico e o sistema midiático sempre terão influência sobre a estratégia de comunicação a ser implementada em cada país. (VERCIC; GRUNIG,L; GRUNIG, J, 1996, p.40). Por outro lado, concordamos com a crítica de Taylor sobre os princípios genéricos e seu apelo à adoção de uma visão mais contextualizada, adequada às realidades com as quais o comunicador irá se deparar. Tizon e Aloize (2004, p.2, tradução nossa15) destacam que a prática internacional é marcada por algumas questões em comum, que pressionam as instituições, como “a interdependência entre movimentos democráticos e a emergência de economias de livremercado; liberdade de imprensa; o empoderamento da opinião pública; o conflito suscitado pela cidadania mediada com regimes autoritários, entrincheirados em interesses especiais”, preferentemente em alguns países em desenvolvimento. Já Taylor e Kent (1999) encontraram evidências onde o contexto social e político determina a estratégia de comunicação a ser adotada. Em sua pesquisa, os autores questionam um dos principais pressupostos da comunicação ocidental, muito influenciada pela prática norte-americana, que sugere ações de comunicação focadas em múltiplos públicos e alertam para o risco de adotar práticas etnocêntricas no ambiente internacional. 14 Todas as referências ao trabalho de Grunig, J, Grunig, L. E Vercic, D citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 15 Todas as referências ao trabalho de Tizon e Aloiza citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 47 As teorias americanas de relações públicas têm suas raízes na democracia e no capitalismo. Entretanto, as teorias que guiam as práticas de relações públicas em outras nações são frequentemente enraizadas em valores culturais e circunstâncias muito diferentes (TAYLOR; KENT, 1999, p.133, tradução nossa16). O estudo de caso de Taylor e Kent foi conduzido na Malásia, junto a profissionais de origem chinesa, malasiana, indiana e norte-americana, onde encontraram o seguinte cenário: Os meios de comunicação são controlados pelo governo. No passado, os jornais perderam suas licenças quando editores e jornalistas publicaram críticas ao governo. A televisão e estações de rádio também são dominadas pelas demandas do governo. Na Malásia, os meios de comunicação seguem um padrão de “comunicação para o desenvolvimento” do que um padrão de “jornalismo investigativo”. Ou seja, jornalistas reportam notícias prógoverno e pró-negócios e não são ativos na cobertura de histórias potencialmente embaraçadoras (TAYLOR; KENT, 1999, p. 136). De acordo com os autores do estudo, “com o poder restrito da mídia, as condições lingüísticas e culturais [há muitos dialetos e grupos étnicos locais] e o baixo grau de ativismo do público malasiano, fez com que o governo emergisse como o público mais importante da comunicação de relações públicas” nesses países (TAYLOR; KENT, 1999, p.137). Além de procurar desenvolver relações mais próximas com agentes de governo, os autores perceberam que os profissionais locais sempre incluíam o potencial de impacto no governo das ações com imprensa local. O relato dos profissionais também indicou que, inclusive em momentos de crise, a comunicação direta e pró-ativa com o governo seguia como imperativo local. Outro autor que segue na mesma linha é Van Leuven (1996) que identificou três fases evolutivas da atividade de relações públicas em países subdesenvolvidos: projetos de construção da nação (também chamados na literatura de “comunicação para o desenvolvimento”, que reúnem esforços de informação pública); desenvolvimento de mercado (foco em ações de persuasão a partir de campanhas de propaganda) e de interdependência regional (onde começam a ocorrer mudanças da comunicação de massa para nichos de mercado e definição de públicos estratégicos (1996, p.207-218, tradução nossa). Em outro estudo, Van Leuve e Cornelius Pratt (1996, p. 98-97, tradução nossa17) identificaram práticas que diferenciam a comunicação de países mais desenvolvidos das nações menos desenvolvidas. Os fatores societais que influenciam práticas distintas são a 16 Todas as referências ao trabalho de Taylor e Kent citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 17 Todas as referências ao trabalho de Van Leuve e Cornelius Pratt citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 48 infra-estrutura de comunicação, o impacto da economia de mercado, a estabilidade política, a integração linguística e cultural. Outras duas questões também marcam as diferenças: o foco em programas versus o foco em processos e os tipos de relacionamento que são estabelecidos. Nas sociedades desenvolvidas, a ênfase tende a ser no relacionamento entre a organização e seus públicos estratégicos. Em países em desenvolvimento, os relacionamentos são estabelecidos na interface entre as metas de desenvolvimento nacional e na cultura ou valores de subgrupos em particular (VAN LEUVEN; PRATT, 1996, p.101). Tanto o estudo de Taylor na Malásia, como o de Van Leuven e Pratt em países africanos e asiáticos revelam quão diferentes são as realidades com as quais um profissional de comunicação pode se deparar ao longo do processo de internacionalização da organização. Entretanto, cabe destacar que esses estudos foram conduzidos na década de 1990, em um contexto social comunicativo bem diferente do atual. Ainda que esses cenários permaneçam – e isso efetivamente ocorre porque muitas nações não avançaram em seus níveis de desenvolvimento – de modo geral a sociedade está muito mais interconectada e atenta aos deslizes das organizações em nações menos desenvolvidas. Wakefield lembra que: Mesmo os padrões éticos parecem estar convergindo. Em países onde o pagamento pela publicidade [pagamento para publicação de notícias] foi o modus operandi no passado, as pessoas da mídia e de relações públicas estão mudando as normas éticas e eliminando a prática (2001, p.643). Portanto, o profissional deve estar atento ao equilíbrio entre a prática local amplamente vigente e sua contribuição pessoal para o desenvolvimento de novas estratégias, mais sensíveis ao interesse público, à transparência das ações e calcadas em questões éticas e valores universais, como o respeito ao ser humano e ao meio ambiente. No entendimento de Wakefield, a prática efetiva da comunicação em organizações multinacionais requer uma nova forma de pensar, que combine programas domésticos e internacionais a partir de uma função unificada globalmente, onde profissionais com experiência internacional integrem tanto equipes locais como globais: Quando eles [os profissionais] compreendem a natureza global da reputação, comunicação e ativismo, irão antecipar e responder às oportunidades e desafios em qualquer lugar do mundo. Eles irão criar estratégias para preservar a reputação de suas entidades, conservar mensagens e identidades consistentes, e antecipar e gerenciar problemas que podem cruzar as fronteiras (WAKEFIELD, 2001, p.644). O autor sugere a construção de um novo paradigma, a partir de uma abordagem mais compreensiva, que dê conta de uma “realidade aparentemente contraditória” (WAKEFIELD, 49 2001, p.641), com pensamento e ação ocorrendo ao mesmo tempo em âmbito global e local. O autor propõe algumas diretrizes para essa nova abordagem: o balanceamento entre coordenação global e local; a integração das funções em um único departamento, inclusive em relação às equipes domésticas e internacionais; formação de estruturas horizontais e com equipes originárias de várias culturas; desenvolvimento de líderes de equipe com vocação para atuar como “integradores culturais” e não apenas gerentes de comunicação. A organização da comunicação na empresa multinacional é o assunto que trataremos a seguir. 2.2 Gestão e prática da comunicação organizacional em ambientes internacionais: dilemas e desafios A literatura internacional vem identificando alguns dos desafios de comunicação para a atuação internacional das empresas. São estudos conduzidos, em sua maioria, em universidades norte-americanas e européias, a partir da experiência de suas multinacionais. Ainda são poucos os estudos que tratam de questões específicas de multinacionais originárias de países emergentes, mas a experiência acumulada pelas grandes corporações mundiais permite extrapolar para a realidade brasileira alguns dos desafios de gestão a serem enfrentados pelos profissionais de comunicação. A organização da estrutura de comunicação da empresa multinacional é um dos desafios iniciais para o processo de internacionalização. “A maneira como as organizações organizam a comunicação corporativa é de importância crucial para o planejamento estratégico e coordenação dos programas de comunicação junto aos diferentes públicos”, explica Joep Cornelissen (2008, p.120, tradução nossa18), da Leeds University Business School, da Inglaterra, autor que vem concentrando suas pesquisas em práticas de comunicação que fazem a diferença na materialização dos conceitos de comunicação corporativa estratégica. O assunto pode parecer óbvio, afinal, uma boa parte das empresas brasileiras que se internacionalizam só o fazem após terem atingido um alto nível competitivo no mercado interno, o que nos leva a pressupor que, nestas organizações, a comunicação já é uma prática organizada, com rotinas estruturadas e políticas bem definidas. Para quem vem fazendo a lição de casa bem-feita, é chegada a hora de extrapolar suas competências e assumir também as rédeas do processo de comunicação no exterior. 18 Todas as referências ao trabalho de Cornelissen citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 50 Centralizar no país de origem ou descentralizar a comunicação? Quem deve se reportar a quem? Qual será o grau de autonomia da comunicação das unidades de negócios? A estrutura será vertical ou horizontal? Os profissionais serão expatriados ou contratados localmente? Qualquer que seja a escolha feita, a multinacional sempre deve controlar internamente seu programa de relações públicas globais a partir de alguém que tenha acesso diário à alta gestão e que possa manter-se a par de constantes mudanças na organização que requeiram decisões de relações públicas ou de um conselho (WAKEFIELD, 2001 p. 646). Assim como as organizações estabelecem mecanismos e estruturas para as áreas de finanças, recursos humanos, etc., é importante organizar a comunicação de acordo com a cultura e estratégia da empresa no exterior, considerando, obviamente, a necessidade de estabelecer processos de interação com seus múltiplos públicos. “As organizações que não organizaram adequadamente sua comunicação, geralmente enviam mensagens conflitantes e falham em construir uma impressão forte e consistente junto a seus stakeholders” (CORNELISSEN, 2008, p.120). A organização que se internacionaliza não deve delegar a macro estratégia de comunicação a agências ou profissionais terceirizados em outros países. A inteligência, a linha mestre, que orienta o trabalho de todos os que atuam nas equipes de comunicação, independentemente do país em que se encontram, deve ser formulada e definida pelos gestores na sede da empresa. O documento formal que orienta e estabelece os valores e as diretrizes de ação é a Política de Comunicação. Nas palavras de Bueno: Pode-se, simplificadamente, conceituar política de comunicação como um processo articulado de definição de valores, objetivos, diretizes, normas e estruturas, que tem como finalidade orientar o desenvolvimento de Ações, estratégias e produtos de comunicação para uma organização tendo em vista o seu relacionamento com os diversos públicos de interesse. É fundamental que a política de comunicação esteja consolidada em um documento-síntese, que seja de conhecimento de todos os escalões da organização e mesmo dos públicos externos, e possa constituir-se em referência obrigatória para o trabalho da comunicação. A política de comunicação expressa mais do que uma simples intenção, ela tem a ver com o compromisso que a organização assume no sentido de promover o melhor relacionamento Possível com seus stakeholders. Trata-se basicamente de um aspecto singular que caracteriza um filosofia ou modelo de gestão e deve, nas organizações modernas, estar comprometida com a ética, a transparência, o profissionalismo, a proatividade e a cidadania (BUENO, 2009, p. 310) 51 É preciso desenvolver ou expandir a política de comunicação para o âmbito internacional, focando na gestão da reputação junto aos múltiplos públicos internacionais. Além da política de comunicação, a produção de um segundo documento, que reúna a posição da organização para algumas das rotinas que serão debatidas a seguir, contribuem para o alinhamento institucional interno e externo. Curiosamente, muito do que será abordado a seguir já é realizado automaticamente nos processos de comunicação domésticos, mas são questões que precisam ser retomadas com foco na amplitude dos novos ambientes aonde ocorrerão as trocas simbólicas da organização. A organização da comunicação passa, inicialmente, por um tema que já foi muito discutido e, hoje, encontra-se praticamente consolidado, com exceção do marketing: a integração em um mesmo departamento das funções técnicas de jornalismo, relações públicas, design, gestão de crise19. Outro pressuposto estratégico para essa organização é a participação efetiva no processo decisório da organização. Cornelissen; van Bekkum e van Ruler (2006) lembram que ainda há muita resistência dos altos escalões das empresas, especialmente pelo despreparo dos próprios profissionais de comunicação para atuarem como conselheiros, alimentando as estratégias e objetivos organizacionais: O profissional portanto precisa produzir recomendações estratégias focadas na ação estratégica corporativa; trazendo à atenção da alta gerência um amplo entendimento do processo de gestão estratégica [da comunicação] e daquelas questões que podem afetar e impactar a reputação da companhia (CORNELISSEN; VAN BEKKUM; VAN RULER, 2006, p.122, tradução nossa). A organização das estruturas verticais e horizontais de comunicação, como explica Cornelissen (2008), é determinante para promover a gestão efetiva da comunicação. A estrutura vertical refere-se à maneira pela qual tarefas e atividades (e as disciplinas que elas representam) são divididas e agrupadas em departamentos (definidos como arranjos departamentais) e localizadas na hierarquia da autoridade da organização (CORNELISSEN, 2008, p.123). A estrutura vertical organiza as tarefas, atribuições, responsabilidades e relações hierárquicas. Ela trata de questões praticamente consolidadas nas estruturas de comunicação brasileiras, mas é preciso retomá-las, organizando-as agora sob o prisma da inserção internacional da organização, a partir de onde deverão ser definas as novas questões, que Cornelissen (2008, p.127) chama de estrutura e controle, além dos fluxos de relacionamentos entre as unidades de negócio e o centro corporativo. Uma consideração estrutural e, talvez, 19 Bueno, Kunsch, Argenti, Grunig, entre outros, já discutiram exaustivamente essa questão em várias de suas obras. 52 uma das mais importantes para o processo de gestão é quanto à centralização ou delegação das atividades. Um dos problemas mais desafiadores que líderes de negócios enfrentam atualmente é encontrar o balanço adequado entre a descentralização do poder para as chamadas unidades autônomas dentro da corporação e [a manutenção do] processo decisório na sede mundial, esteja aonde estiver (MORLEY, 2002, p.29). Para Paul Argenti, “a resposta ao debate da centralização/ descentralização, em geral, depende do porte da empresa, da dispersão geográfica de seus escritórios e da diversidade de seus produtos e serviços” (2006, p. 53). Na visão do autor, dispersar a comunicação em unidades operacionais individuais, “sem qualquer tipo de supervisão central, aumenta muito o potencial de mensagens inconsistentes”. O autor defende que o ideal é “encontrar um meio termo”: (...) uma área funcional sólida e centralizada pode ser complementada por uma rede de “centros operacionais” descentralizados que adaptam a função para as necessidades especiais das unidades de negócios (2006, p.54). Cornelissen (2008, p. 131-135) alerta que essa decisão também depende da estrutura de identidade da companhia: Centralização parece ser mais eficiente no caso da estrutura de identidade monolítica (onde a empresa e suas unidades de negócio carregam o mesmo nome), enquanto a descentralização é normalmente escolhida com estrutura de identidade de marca endossada (onde as unidades de negócios assumem o perfil de seus próprios nomes) (CORNELISSEN, 2008, p.126). Morley (2002) explica os riscos de uma falta de coordenação global, o que leva à criação de mensagens dissonantes e impede a formação de uma reputação global. Pode até se argumentar que corporação multinacional descentralizada se beneficia mais. Mas é justamente ai, mais do que à moda antiga, altamente centralizada ou em novas corporações globais, que se encontra um grau de anarquia local que pode resultar em diferentes culturas e políticas corporativas e, portanto, mensagens sendo comunicadas. Para essas corporações descentralizadas, uma voz única é de grande importância na atual aldeia global. Mas, muito mais frequentemente, elas soam mais como uma Torre de Babel (MORLEY, 2002, p.32). Na prática, uma pesquisa conduzida com quatro multinacionais européias - Siemens, Nokia, Philips e Shell - confirma que o relacionamento entre a sede do grupo e suas várias unidades de negócio internacionais estão entre as questões estratégicas mais importantes: As maiores multinacionais [...] adotam uma combinação de um departamento global, centralizado na sede corporativa, com departamentos, equipes e profissionais descentralizados, atuando localmente (CORNELISSEN; VAN BEKKUM; VAN RULER, 2006, p.120, tradução nossa). 53 Outra questão decorrente da decisão da centralização ou não das políticas e estratégias de comunicação, é sobre o papel das equipes de comunicação da central corporativa. Cornelissen destaca que o departamento de comunicação da sede da empresa deve procurar se posicionar como um conselheiro de alto valor agregado, com condições de assistir aos profissionais de comunicação das unidades de negócio, “se quiser garantir um ambiente receptivo para seu envolvimento” (CORNELISSEN, 2008, p.127). Para isso, deve superar o foco em questões táticas e de rotinas e passar a orientar sobre estratégias e o desenvolvimento de ferramentas úteis para a construção de uma estratégia maior de comunicação. A quem a comunicação das subsidiárias deve se reportar? Essa é outra questão inclusa nas decisões referentes à estrutura vertical da comunicação. Cornelissen reforça a importância do relacionamento direto com a alta gestão, assim o fazem Grunig (1992), Bueno (2007), Krunsh (1997). Mas deixa escapar à sua análise a questão da dupla relação de subordinação20 a que as subsidiárias estão sujeitas: a atuação estratégica junto aos gestores locais e a participação na gestão de comunicação global da organização, efetuada junto ao centro corporativo mundial. Diferentes departamentos de comunicação e unidades dentro de uma corporação multi-divisional ou multinacional podem, em princípio, ter também diferentes relacionamentos de subordinação [reporting relationships]. O gerente de uma unidade de serviços de comunicação em uma divisão particular pode, por exemplo, se reportar ao chefe do departamento de marketing, enquanto a unidade de relacionamento com investidores, por exemplo, terá uma relação de subordinação dual com os departamentos de finança e de comunicação. É claro que esse relacionamento de subordinação é amplamente determinado pelos arranjos departamentais da comunicação (CORNELISSEN, 2008, p.134). Estabelecer os atores a quem a comunicação deverá estar ligada depende, é claro, da estrutura de comunicação montada que, por sua vez, espelha a estratégia global de inserção internacional da empresa. Entretanto, para manter uma coerência internacional, é importante que seja definida também a forma de relacionamento do responsável local pela comunicação (que pode ser uma equipe, um empregado local, um funcionário expatriado, uma agência contratada, um profissional terceirizado) e o centro corporativo de comunicação, que não deve ser necessariamente de subordinação, mas de preferência de parceria. 20 O termo técnico original em inglês é “reporting relationship” e representa um conceito um pouco mais ampliado do que a tradução proposta (relação de subordinação). Não encontramos uma tradução mais apropriada, que definisse com clareza e objetividade necessária o conceito. “Report” significa informar sobre, comunicar, prestar contas à alguém (Dicionário Oxford, 2007, p. 627). 54 Ainda dentro da organização da estrutura de comunicação, Cornelissen lembra a importância das questões horizontais, mecanismos de coordenação que são implementados para integrar processos de trabalho desenvolvidos em diferentes partes da organização (CORNELISSEN, 2008, p.136). Na área da comunicação, mecanismos horizontais são importantes quando eles permitem à companhia responder rapidamente e efetivamente às questões emergentes ou mudanças de prioridades dos stakeholders, e permitem controlar e garantir que mensagens consistentes estejam sendo enviadas por meio de vários canais de comunicação (CORNELISSEN, 2008, p.136-137). Segundo o autor, a estrutura horizontal da comunicação pode ser organizada pela formação de equipes temáticas, realização de treinamentos, forças-tarefa, encontros presenciais, documentação de processos, fácil acesso aos principais gestores de comunicação, abertura de canais informais de diálogo e relacionamento, que permitam às pessoas desenvolver relações pessoais e aumentar a identificação com a empresa, além do estabelecimento de diretrizes e documentos orientadores, como manual de uso e aplicação de marca (CORNELISSEN, 2008, p. 136-142). Particularmente nas firmas multi-divisionais operando em fronteiras geográficas, estruturas horizontais não são luxúria, mas uma absoluta necessidade. Todavia [...] o uso das estruturas horizontais em muitas grandes organizações não vem recebendo a devida atenção, assim como há, com frequência entre gerentes e profissionais, a preocupação com a estrutura vertical ao se colocar as disciplinas agrupadas em um mesmo departamento (CORNELISSEN, 2008, p.141). Peter Hirsch e Najia Shaukat (2008, p.11-17, tradução nossa21) desenvolveram uma pesquisa junto a diretores de comunicação de grandes multinacionais norte-americanas, clientes da agência de relações públicas Porter Novelli, uma das maiores dos Estados Unidos, buscando conhecer os fatores de excelência para a gestão de marcas globais. Na primeira parte do estudo, os autores identificaram as características ligadas às melhores práticas corporativas: “boa comunicação, transparência, protocolos para o gerenciamento de questões, coordenação do lançamento de produtos uniformes, gerenciamento da marca corporativa, alinhamento global, coordenação interna e uso de tecnologia” (HIRSCH; SHAUKAT, 2008, p. 13). Na segunda etapa, elaboraram um questionário para avaliar como essas características guiam a prática de empresas multinacionais. Os resultados são bastante interessantes: 21 Todas as referências ao trabalho de Hirsch e Shaukat citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 55 As redes de relações públicas globais estão focadas na baixa probabilidade de eventos de alto impacto, com sistemas orientados mais para reação do que prevenção; esses sistemas estão mais direcionados para a prevenção da destruição do valor do que para dar suporte à criação de valor na forma de gerenciamento efetivo contínuo; a marca corporativa pode ser um recurso negligenciado e pouco reconhecido; a questão das diferenças culturais nunca está muito longe da superfície (HIRSCH; SHAUKAT, 2008, p. 15). Conciliando os resultados dessa pesquisa com a experiência profissional de mais de 30 anos em consultoria para organizações globais, Hirsch e Shaukat (2008, p. 15-17) identificam cinco fontes de inércia para as redes globais de comunicação de empresas multinacionais, que detalhamos a seguir. Problemas na matriz organizacional: uma matriz global contribui para o gerenciamento da marca quando concentra suas energias e recursos em grandes iniciativas. Nessas circunstâncias, as prioridades organizacionais divergentes entre os gestores globais e locais devem ser definidas conjuntamente, a fim de evitar acusações mútuas de ausência de esforços de alimentação e sustentação da marca. Para evitar a inércia, os autores sugerem que o envolvimento das equipes de relações públicas locais sejam incluídas desde o início nas estratégias de gestão da marca e, não apenas, na fase de implementação local. O silo do marketing: a emergência de empresas especializadas em gestão de marcas globais favoreceu a coordenação das mensagens em diferentes regiões, permitindo que produtos e serviços possam ser lançados simultaneamente, além de propiciar a redução de custos. Entretanto, as rápidas mudanças nos padrões regulatórios e as novas atitudes dos públicos no século XXI requerem que as paredes do silo do marketing sejam derrubadas em nome da integração com outras funções. Um das maneiras que está sendo usada é a “criação permanente de times globais multi- funcionais que são organizados a partir de questões específicas, como privacidade, meio ambiente ou marketing apropriado para crianças” (HIRSCH; SHAUKAT, 2008, p.16). Dissonância de marca/corporação: o crescente interesse na responsabilidade social das organizações e no comportamento ético tem criado um foco mais intenso na gestão da reputação da corporação. A maior transparência na relação marca/produtos acaba destacando as instâncias onde não ocorre o alinhamento devido. As companhias globais estão criando times voltados para garantir o alinhamento, ao mesmo tempo em que estão aumentando a 56 frequência com que a marca corporativa é envolvida nos processos de mudança de seus negócios. O grito silencioso: a emergência de mercados em desenvolvimento e os diferentes perfis populacionais desses países em relação aos países desenvolvidos impõem novas pressões para a questão da customização local/global. A própria auto-estima e confiança das populações desses novos mercados aumenta a intolerância com estratégias de marca que não são customizadas para a região. Em alguns casos, a divergência entre o negócio e a cultura nacional é tão grande que tornam extremamente difícil contornar a resistência passiva e, até mesmo, a sabotagem silenciosa dos esforços de relações públicas e marketing da organização. A experiência mostra que a melhor forma de contornar essa questão é criar uma conversação explícita sobre as diferenças regionais e culturais na comunicação, em vez de deduzir quais são ou não suposições compartilhadas. Esse processo não elimina o conflito entre o centro global e a rede, mas o expõe o máximo possível a uma discussão racional em oposição à emocional (HIRSCH; SHAUKAT, 2008, p.16). Os três macacos: não ouça, não fale, não veja: uma das principais questões que surgiu na pesquisa está relacionada aos problemas que crescem por meses, em qualquer local do mundo onde a empresa opera, e passam por um processo de filtragem, quando deveriam estar sendo mitigados nos estágios iniciais, ou seja, antes que uma crise global se estabeleça. Para contornar esse problema, algumas empresas estão investindo em sistemas de alerta que claramente orientem como diferentes ameaças devem ser tratadas. O maior desafio é fazer com que as pessoas na rede de comunicação compreendam quais questões permanecem puramente locais e quais devem ser tratadas conjuntamente ou diretamente pelas lideranças globais. “Definir expectativas claras e responsabilidades ajuda criar um sistema em que as questões devem ser gerenciadas antes que atinjam níveis críticos” (HIRSCH; SHAUKAT, 2008, p. 17). As discussões acadêmicas levantadas até agora mostram que organizar o processo de comunicação da organizações que expandem suas fronteiras é uma tarefa complexa. Entretanto, os dilemas e desafios não se restringem à organização desse processo. É indispensável que o gestor de comunicação e suas equipes compreendam também como o processo de comunicação é afetado pelo contexto cultural e de que forma isso se reflete no processo de produção de significados. “Um dos mais difíceis desafios para as relações públicas no mercado global será na área de comunicação de crises”, alerta Maureen Taylor (2000, p.278). A autora justifica sua preocupação: 57 As crises são exacerbadas quando ocorrem em ambiente internacional. Quando uma organização perde competência em entender as normas culturais da nação anfitriã, então incidentes inoportunos podem se tornar enormes crises que prejudicam o relacionamento entre a organização e seus públicos (TAYLOR, 2000, p.278). 2.3 A perspectiva dos Estudos Culturais Ao transcender a fronteira nacional, a organização vive muitos encontros culturais, que não estão restritos à cultura do país de destino e aos valores de um povo. São encontros moldados também pelo ramo de atuação, pela cultura organizacional, por culturas profissionais, entre tantos outros fatores. A diferença reside justamente no fato de que, domesticamente, os códigos culturais, a língua e o contexto onde se dá o processo comunicativo são conhecidos, apesar de estarem implícitos, escritos em “linguagem silenciosa”, como define o antropólogo Edward Hall. As atividades de relações públicas das corporações multinacionais não começam no neutro. Antes de uma companhia ter iniciado uma simples tática de relações públicas, está gerando mensagens pela sua simples presença. Como a cultura hospedeira decodifica essas mensagens preliminares é o início de um processo de criação de significados. Esse processo não é linear e também não tem um ponto final (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 24, tradução nossa22). Na organização com atuação internacional, a sensibilidade para a diversidade cultural é um exercício a ser desenvolvido e aprimorado permanentemente: Encontrar maneiras de comunicar efetivamente com grupos étnicos e sociais envolve mais do que o uso correto da língua e dialeto, mas também requer uma compreensão sensível das questões culturais, padrões de consumo de mídia e influência do líder de opinião (MOSS; DeSANTO, 2002, p.2). Uma pesquisa com profissionais de comunicação de empresas européias realizada em 2007 (on line, tradução nossa23) mostra como a questão da cultura vem ganhando espaço. A pesquisa perguntou como os profissionais viam o futuro da área no novo cenário comunicativo. O resultado é que 85% acredita que estratégias de comunicação segmentada com as audiências será essencial nos próximos anos; 79,1%, que os canais on line de comunicação atravessarão fronteiras e a questão cultural ganhará importância; 71,4% 22 Todas as referências ao trabalho de Curtin e Gaither citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 23 European Communication Monitor 2007: pesquisa realizada com 1087 relações públicas de 22 países europeus. Disponível em:www.communicationmonitor.eu. Acesso em: 02.01.2009. 58 acreditam que os receptores serão mais ativos e demandarão processos mais simétricos/dialógicos de comunicação e, para 51,2% dos entrevistados, as recomendações pessoais e a comunicação boca-a-boca trarão novas orientações para as estratégias de comunicação. Segundo Pereira e Herschmann (2002, p. 27-42), o campo da comunicação, articulado com o da cultura responde pelas bases do mundo contemporâneo, pois é através de processos comunicativos que a informação e o conhecimento são produzidos, processados, veiculados e consumidos. A cultura, vista como a rede de significados, e a comunicação como o conjunto de fluxos de informação são vitais para a articulação estratégica de sentidos: é a compreensão do que os autores denominam como “logística do sentido”, ou seja, “da natureza, da distribuição e das formas de circulação de fluxos de sentido em determinado ambiente ou contexto, que nos vai permitir a construção de estratégias comunicacionais, de gestão, realmente eficazes” (2002, p. 27-42). Há muitos exemplos, dentro da própria literatura de comunicação, que mostram as diferenças no modus operanti de atividades de comunicação em diversas culturas. Jornalistas alemães gostam de pequenos resumos para a imprensa, mas jornalistas ingleses preferem entrevistas individuais. A imprensa italiana concorda com encontros no café da manhã (não muito cedo!), mas não gosta de jantares ou festas – as noites são privadas, um horário da família. A imprensa belga não gosta de cafés da manhã, mas desfruta um almoço ou jantar (incluindo a cerveja) (International Communications Consultancy Organisation, apud Curtin; Gaither, 2007, p. 14, tradução nossa). Nas culturas árabes, um release pode “parecer mais uma proclamação política do que um anúncio de notícia” (ZAHARNA, apud CURTIN; GAITHER, 2007, p. 10). Em muitas nações, os níveis de analfabetismo e as necessidades de desenvolvimento imprimem a necessidade da adoção de muitas técnicas que escapam ao padrão ocidental de fazer comunicação. Na Índia, por exemplo, usa-se muito as folk mídias, como os docudramas, danças e teatros em áreas rurais; em Gana, as músicas e as histórias contadas (storytelling); na Arábia Saudita, poesia e reuniões públicas integram os canais de comunicação mais usados (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 20). Essas diferenças podem ser explicadas pelas lentes da cultura, que se manifesta nas interações diárias a que estamos sujeitos. Dentre as Teorias de Comunicação, a corrente teórica dos Estudos Culturais dedica-se à análise das “relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, isto é, suas formas 59 culturais, instituições e práticas culturais, assim como suas relações com a sociedade e as mudanças sociais” (ECOSTEGUY, 2008, p. 152). Os Estudos Culturais (Cultural Studies) surgem, de forma organizada na Inglaterra, em 1964, quando é criado o Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), na Universidade de Birmingham. De acordo com Mauro Wolf, estudioso das Teorias da Comunicação, O interesse dos cultural studies tende sobretudo a analisar uma forma específica de processo social, relativa à atribuição de sentido à realidade, ao desenvolvimento de uma cultura de práticas sociais compartilhadas, de uma área comum de significados (WOLF, 2005, p. 102-103. grifo do autor). Na verdade, é uma tradição que extrapola o campo da comunicação (ESCOSTEGUY, p.151), onde “diferentes disciplinas interatuam, visando o estudo de aspectos culturais de uma sociedade” (ESCOTESGUY, 2008, p.159). Um dos autores mais proeminentes dessa corrente é Stuart Hall, que teve um papel primordial para o desenvolvimento do campo, constituindose como um dos seus mentores intelectuais. Segundo Escosteguy, seu trabalho “Encoding and Decoding in the Television Discurse” (1973) torna-se um marco referencial ao romper com a concepção passiva de audiência (2008, p. 165) e deslocar o foco do texto para a audiência (2008, p. 162). A agenda dos Estudos Culturais passa por várias temáticas nos anos 1980, tratando desde questões de gênero, subculturas, relações de poder até entrar, mais enfaticamente, nas discussões sobre identidades sociais que, com a intensificação da globalização, passam a sofrer um processo de desestabilização (ESCOTEGUY, 2008, p. 164). A temática da identidade conduziu a um novo ciclo reflexivo e tornou-se atualmente a principal questão desse campo de estudo. Dois temas amplamente debatidos dentro dos Estudos Culturais são bastante oportunos para uma reflexão sobre os desafios de comunicação das empresas em processo de internacionalização. O primeiro deles – o circuito da cultura – descrito na obra Encoding/Decoding, será analisado neste capítulo, logo a seguir, a partir de uma discussão proposta por Patrícia Curtin e Kenn Gaither (2007) que tratam especificamente da aplicação do modelo nas estratégias de comunicação das organizações multinacionais. O segundo tema – a questão das identidades sociais – fará parte das discussões do Capítulo 3, onde serão abordadas as raízes conceituais dos processos de comunicação de uma organização. Uma dessas raízes é a gestão da identidade organizacional, tema que ganha relevância quando a organização deixa ser uma grande empresa nacional e passa a ser uma “ilustre desconhecida” na arena internacional. 60 As pesquisas de Stuart Hall levaram-no a propor uma teoria da comunicação em quatro estágios: produção, circulação, distribuição ou consumo e reprodução, onde cada estágio – embora articulados - guarda relativa autonomia em relação ao outro. Na sua visão, o processo de comunicação se desenvolve em um “circuito contínuo” de “produçãodistribuição-produção” (Hall, S., 2003, p. 36524): Tradicionalmente, a pesquisa em comunicação de massa tem concebido o processo comunicativo em termos de um circuito. Esse modelo tem sido criticado pela sua linearidade – emissor/mensagem/receptor; por sua concentração no nível da troca de mensagens; e pela ausência de uma concepção estruturada dos diferentes momentos enquanto complexa estrutura de relações. Mas é também possível (e útil) pensar esse processo em termos de uma estrutura produzida e sustentada através da articulação de momentos distintos, mas interligados – produção, circulação/consumo, reprodução. Isto seria pensar o processo como uma “complexa estrutura em dominância”, sustentada através da articulação de práticas conectadas, em que cada qual, no entanto, mantém sua distinção e tem sua modalidade específica, suas formas próprias e condições de existência (HALL,S., 2003, p. 365) O circuito proposto por Hall inspira-se no paradigma semiótico para compreender o processo de troca comunicativa, transformando o entendimento vigente na época, sobre o processo de recepção da audiência. “A realidade existe fora da linguagem, mas é constantemente mediada pela linguagem ou através dela: e o que nós podemos saber e dizer tem de ser produzido no discurso e através dele” (HALL,S., 2003, p. 379). Desta maneira, “não há discurso inteligível sem a operação de um código” (HALL, S., 2003, P.379); e é a linguagem que significa [be signified] um evento (HALL,S., 2003, p. 366), ou seja, “paradoxalmente, o acontecimento deve tornar-se uma “narrativa” antes que possa se tornar um evento comunicativo (HALL,S., 2003, p.366-367). O circuito da comunicação tem início juntamente com a produção da mensagem. Essa produção é caracterizada pelas estruturas institucionalizadas, com suas práticas e redes de produção, relações organizadas, infra-estrutura técnica, alimentadas também por estruturas sócio-culturais e políticas externas. Antes que essa mensagem possa ter um efeito (qualquer que seja essa definição), satisfaça uma “necessidade” ou tenha um “uso”, deve primeiro ser apropriada como um discurso significativo e ser significativamente decodificada. É esse conjunto de significados decodificados que “tem um efeito”, influencia, entretém, instrui ou persuade, com conseqüências perceptivas, cognitivas, emocionais, ideológicas ou comportamentais muito complexa. Em um momento “determinado” a estrutura emprega um código e 24 O artigo original de HALL foi publicado em 1980, com o título Encoding/Decoding. Esta versão é tradução de Ana Carolina Escosteguy e Francisco Rudiger para a obra Da Diáspora: identidades e mediações culturais, editada pela Universidade Federal de Minas Gerais, 2003. 61 produz uma “mensagem”; em outro momento determinado, a “mensagem” desemboca na estrutura das práticas sociais pela via de sua decodificação (HALL,S., 2003, p.368, grifo nosso). O autor alerta que as estruturas de significado do produtor (chamada por ele de estruturas de sentido 1) e as estruturas do receptor (estruturas de sentido 2) podem não ser iguais, o que é especialmente interessante se analisarmos sob a ótica da organização com atuação em diferentes países, portanto, outras culturas. Isso ocorre porque há referenciais de conhecimento, relações de produção e infra-estrutura técnica atuando nos dois momentos do circuito. Quando aparecem diferenças estruturais de relação ou posição, surgem as “distorções” ou “mal-entendidos” decorrentes da falta de equivalência entre os dois lados da troca comunicativa. Hall destaca que muitos códigos acabam tão “naturalizados” em determinada cultura ou comunidade de linguagem, que aparentam não terem sido construídos ou convencionados. [...] não devemos deixar que as aparências nos enganem. Na verdade, o que os códigos naturalizados demonstram é o grau de familiaridade que se produz quando há um alinhamento fundamental e uma reciprocidade – a consecução de uma equivalência – entre os lados codificador e decodificador de uma troca de significados. O funcionamento dos códigos, no lado da decodificação irá frequentemente assumir o status de percepções naturalizadas (HALL, S., 2003, p. 371) Entretanto, são poucas as vezes em que os signos são usados em seu sentido literal, ou seja, plenamente naturalizados. Ocorre que os signos combinam também o sentido conotativo, aonde são embutidas ideologias que alteram seu significado. São esses códigos conotativos que “remetem os signos aos ‘mapas de sentido dentro dos quais qualquer cultura é classificada; e esses mapas da realidade social contêm inscritos uma série de significados sociais, práticas e usos, poder e interesse” (Hall,S., 2003, p.373-374). De acordo com Hall, a relativa autonomia entre os distintos momentos de produção e consumo permitem que um signo seja transformado em mais de um sentido conotativo, mas alerta: Polissemia, entretanto, não pode ser confundida com pluralismo. Os códigos conotativos não são iguais entre si. Toda sociedade ou cultura tende, com diversos graus de clausura, a impor suas classificações do mundo social, cultural e político. Essas classificações constituem um ordem cultural dominante, apesar de esta não ser unívoca nem incontestável (HALL,S., 2003, p.374). Essa ordem cultural dominante é chamada por Hall de sentidos dominantes ou preferenciais. Eles são decorrentes da “ordem social, enquanto conjunto de significados, práticas e crenças” (2003, p.374), o que implica no conhecimento das estruturas sociais, do 62 modo como as coisas funcionam, da ordem hierárquica do poder e da estrutura das legitimações, restrições e sanções. É por isso que a comunicação no ambiente internacional não deve ser vista apenas como uma questão de tradução de peças institucionais. Uma comunicação efetiva parte do conhecimento dos “mapas de sentido” de cada cultura. Quando não há esse domínio, ocorre o que Hall define de mal-entendidos (2003, p.375). Ao estruturar o processo de comunicação como um circuito permanente, Hall nos alerta que o entendimento dos “mapas de sentido” devem ser concebidos como uma via de mão-dupla: tanto a organização precisa conhecer a estrutura social de determinada cultura para poder construir mensagens que tenham significado, como deve aprender a fazer a “leitura” desses “mapas de sentido” para que as mensagens dos múltiplos públicos com os quais lida tenham significado junto à organização. A riqueza da aplicação do circuito permanente na comunicação organizacional consiste justamente em compreender a organização operando ora como codificadora ora como decodificadora das estruturas culturais que constituem o processo de troca comunicativa. Quando essa troca comunicativa ocorre no ambiente de origem da organização, os mapas de sentido são conhecidos e inseridos naturalmente no processo comunicativo, sem que seja necessária uma avaliação pormenorizada da estrutura cultural que compõe o processo comunicativo. No ambiente internacional, a falta de equivalência dos códigos torna-se mais evidente, uma vez que os mapas de sentido são culturalmente e distintamente construídos. Daí a importância de equipes multiculturais atuando em toda a organização e não apenas nas equipes de comunicação. Como nem sempre codificadores e decodificadores operam dentro do código preferencial ou dominante, é impossível atingir o ideal de “comunicação perfeitamente transparente” (HALL,S., 2003, p.376). Ao mesmo tempo em que é preciso a ocorrência de algum grau de reciprocidade entre os momentos de produção e consumo para haver a troca comunicativa, Hall explica que existe uma autonomia relativa no processo de decodificação. Ele identifica três modalidades de leitura: a posição hegemônica-dominante, a do código negociado e a do código de oposição. Apesar de focado na audiência televisiva, a retomada desse estudo é importante para compreender que “as relações de produção institucionais e sociais devem passar sob as regras discursivas da linguagem para que seu produto seja “concretizado” (2003, p.368). Como argumenta Hall (2003, p. 366), “se nenhum sentido é apreendido, não pode haver consumo. Se o sentido não é articulado em prática, ele não tem efeito”. Ao compreender as estruturas de sentidos envolvidas no processo comunicativo, a organização terá maior facilidade em promover um processo comunicativo que signifique (no sentido de 63 proporcionar significado) junto ao seus múltiplos públicos. Ao acessar as estruturas de sentidos de seus públicos, a organização passa a ter um significado perante esse público, portanto dá início ao processo de conquista à legitimidade de sua atuação em determinada sociedade, condição essencial para quem pretende permanecer um longo período em atividade no exterior. Baseados nas questões lançadas por Hall, um grupo de pesquisadores, incluindo o próprio autor, propõe o aperfeiçoamento deste modelo, nomeando-o Circuito da Cultura. Du Gray, Hall, Janes, Mackay e Negus (1997) propuseram cinco momentos articulados em um processo - regulação, produção, consumo, representação e identidade - para estudar o surgimento do walkman, aparelho de som produzido pela Sony, enquanto artefato cultural que cria significados (apud CURTIN; GAITHER, 2003, p. 37). A aplicação dessa abordagem para compreender como a cultura determina o processo comunicativo da entidade com atuação internacional nasce de um estudo de Patrícia Curtin, da Universidade de Oregon, e T. Kenn Gaither, da Universidade de Elon, ambas americanas. Insatisfeitos com os modelos prescritivos que sugerem uma abordagem global para a prática da relações públicas/comunicação organizacional, eles alertam: Metade dos empreendimentos que cruzam as fronteiras falham, em grande parte porque as organizações rotineiramente sacrificam a sensibilidade cultural e a comunicação pela aderência às estratégias de negócios e ganhos financeiros (Morosini, 2002, apud Curtin; Gaither, 2007, p. 21). Ignorar os signos culturais pode ser tão custoso no estágio inicial de um empreendimento internacional quanto o é para os negócios com uma presença muito antiga [..] (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 21) Curtin e Gaither reforçam que os momentos do circuito são discutidos separadamente, embora devam ser entendidos como manifestações de um mesmo processo comunicativo (2007, p.38). O momento da regulação é composto pelos controles legais e formais, como as regulações, leis e sistemas institucionalizados e pelos controles informais e locais das normas e expectativas culturais. Diz respeito ao contexto onde ocorrem as trocas comunicativas. “É no momento da regulação que o significado surge, governando o que é aceitável, o que é correto” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 21). Como a construção de significados é um processo contínuo, “o que é permitido ou esperado em uma cultura frequentemente é determinado por grupos com poder econômico ou político em determinada situação” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 39). Além disso, os “consumidores tendem a rejeitar qualquer coisa que desafie suas normas compartilhadas” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 47), por isso a dimensão cultural é um dos aspectos mais importantes do momento da regulação. 64 “A regulação cultural é mais difícil de decifrar” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 65) e, justamente por isso, é um dos campos que vem recebendo bastante atenção de pesquisadores. Nesta dissertação, o assunto será mais detalhado no próximo sub-capítulo. Outra forma de regulação é a visão estereotipada que trazemos de cada país: ela pode ser positiva ou negativa. Em alguns casos, útil para a comunicação, mas em outros, o excesso de simplificação ou mesmo alguns preconceitos podem regular e muitas vezes limitar nosso entendimento de uma cultura (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 54). O momento da produção destaca o processo em que a produção de uma mensagem, campanha ou planejamento de comunicação é envolvido de significados, o que Hall definiu anteriormente como processo codificador. “A produção, portanto, cria os significados a partir dos valores organizacionais, estruturas e logística” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 39). A representação é a “forma que o objeto toma e os significados codificados nessa forma”: Os produtores codificam o significado em um artefato cultural, geralmente com uma audiência-alvo específica em mente. Eles esperam convencionar um certo significado através de todos os aspectos de como eles apresentam o artefato. O conteúdo, o formato e até mesmo o método de distribuição comunicam um significado pretendido (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 40). Curtin e Gaither enfatizam que, mesmo procurando moldar seus discursos com significados no processo de codificação, muitas iniciativas falham em seus objetivos. Essas falhas costumam ser atribuídas ao significados que surgem no momento de consumo, quando a mensagem é decodificada pelo público, mas os produtores se esquecem que os consumidores da mensagem usam suas próprias redes semânticas de significado em qualquer troca comunicativa. (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 40). Ocorre um processo de negociação ativa, onde os consumidores aceitam o que consideram razoável e rejeitam o que não está adequado ao seu contexto social, padrões culturais ou sistemas de valores. O momento do consumo é “tão importante quanto a produção de significados. O consumo, portanto, não é ponto final da linha, mas um outro ponto no circuito da cultura. O próprio consumo se torna uma forma de produção à medida em que novos significados são somados a um artefato como consequência de seu uso (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 41). O quinto momento refere-se às identidades, significados que são acumulados por todas as redes sociais, considerando tanto nações, organizações como públicos. A identidade é uma “construção social emergindo das práticas discursivas e elas se formam em relação a alguma outra coisa” (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 168, grifo nosso). Elas são fluídas e, no caso da organização, não podem ser assumidas sem que as identidades antigas sejam 65 primeiramente desarticuladas (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 183). Os autores citam como exemplo o processo de estabelecimento da identidade organizacional: Durante a produção, os profissionais codificam textos [discursos] organizacionais com a identidade dominante que eles pretendem convencionar, ao redor da qual eles pretendem tentar estruturar discursos subsequentes (CURTIN; GAITHER, 2007, p. 41). Nesse processo, os produtores projetam identidades para seus públicos, esquecendo-se que esse público também cria sua própria identidade, que pode ser “múltipla, fluída e conflitante”. Por sua vez, os próprios grupos de consumidores podem criar e apresentar suas identidades para as organizações. Portanto, o desafio é construir uma identidade que possa ser compartilhada pelas organizações e seus públicos, sem deixar de considerar que ela deve ser consistente com as ações organizacionais. A partir do momento que a empresa se estabelece em determinada sociedade, ela está se inserindo em sua rede discursiva, portanto, cabe a ela adaptar-se, a fim de estabelecer processos que promovam a efetiva troca comunicativa. De que adianta elaborar a mensagem ou a estratégia de comunicação, a partir da experiência doméstica e reproduzi-la automaticamente no exterior, sem considerar os mapas de sentido, ou seja a estrutura cultural que faz com que o discurso elaborado signifique diante de um receptor? Ao compreender os diferentes momentos de articulação do circuito da cultura, o profissional de comunicação tem condições de analisar melhor os fatores que interferem na prática em ambiente internacional, ampliando seu potencial de ação na complexa tarefa de fazer a comunicação atuar estrategicamente. 2.4 – Os estudos de interpretações culturais O conceito de cultura vem sendo desenvolvido de diferentes maneiras em diversas perspectivas. Vários pesquisadores estudam como as culturas nacionais dominam ou determinam a maneira como as pessoas agem, pensam e sentem (CLAUSEN, 2007, p. 320). Portanto, ao trabalhar em contextos internacionais, os profissionais devem compreender como os elementos da cultura interferem nas estratégias de comunicação com os diferentes públicos da organização. 66 “O que está em jogo hoje é uma profunda mudança no sentido da diversidade. Até pouco tempo atrás a diversidade cultural foi pensada como uma heterogeneidade radical entre culturas, cada uma enraizada em um território específico, dotadas de um centro e de fronteiras nítidas. Qualquer relação com outra cultura se dava como estranha/estrangeira e contaminante, perturbação e ameaça, em si mesma, para a identidade própria. O processo de globalização que agora vivemos, no entanto, é ao mesmo tempo um movimento de potencialização da diferença e de exposição constante de cada cultura às outras, de minha identidade àquela do outro. Isso implica um permanente reconhecimento daquilo que constitui a diferença dos outros como enriquecimento potencial da nossa cultura, e uma exigência de respeito àquilo que no outro, em sua diferença, há de intransferível, não transigível e inclusive incomunicável (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.60-61, grifo do autor.) O trabalho do antropólogo Edward Hall é uma importante referência em comunicação intercultural, por apresentar uma análise do contexto comunicativo, onde o processo de interação humana acontece. Sua pesquisa tornou-se uma importante fonte de consulta para empresas multinacionais e governos. No livro, Beyond Culture (Além da Cultura) ele critica o analfabetismo cultural (a falta de conhecimento sobre como as dimensões ocultas da cultura regulam a vida cotidiana, influenciando estruturas e comportamentos (HALL, E., 1977, p.40) e convida o ser humano a se libertar gradualmente das amarras da cultura inconsciente (HALL, E., 1977, p. 240). [...] Não existe nenhum aspecto da vida humana que não seja tocado e alterado pela cultura. Isso envolve a personalidade, a maneira como as pessoas se expressam (incluindo as demonstrações de emoção), a maneira como pensam, como se movem, como resolvem seus problemas, como suas cidades são planejadas e desenvolvidas, como os sistemas de transporte funcionam e estão organizados, assim como os sistemas econômicos e governamentais são colocados juntos em funcionamento (HALL, E., 1977, p. 17, tradução nossa25) O autor explica que, teoricamente, não deveria ocorrer problemas quando pessoas de diferente culturas se encontram: 25 Todas as referências ao trabalho de Edward Hall citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 67 As coisas começam, mais frequentemente, não apenas com a amizade e boa vontade dos dois lados, mas com uma compreensão que cada parte tem um diferente conjunto de crenças, costumes, moral, valores ou o que for. O problema começa quando as pessoas precisam começar a trabalhar juntas, ainda que em base superficial. Frequentemente, mesmo depois de anos de uma associação muito próxima, ninguém consegue compreender o sistema de trabalho do outro. [...] As pessoas estão dentro e permanecem sob o domínio do tipo de identificação cultural. Sem saber disso, elas experimentam a outra pessoa como uma parte incontrolável e imprevisível delas mesmas (HALL, E. 1977, p.239) Para Hall, “este é certamente o maior impedimento para a compreensão cross-cultural e para a relações efetivas entre as pessoas do mundo” (HALL, E., 1977, p. 240. O autor identifica várias dimensões em que a cultura determina o modo de pensar, agir e significar das pessoas. A relação que cada povo tem com o tempo e o espaço, por exemplo, é culturalmente determinada, aliás, segundo Hall, é aprendida e arbitrária (1977, p.17): as culturas que enxergam o tempo como monocrônico, como os americanos, enfatizam a agenda, a segmentação, a pontualidade e se referem a ele como algo tangível, que pode ser salvo, gasto, perdido, aproveitado. “São metáforas que devem ser lavadas a sério, porque expressam a maneira básica em que o tempo é concebido enquanto uma estrutura inconsciente determinante, a partir da qual tudo é construído” (HALL, E., 1977, p.19), há sempre um sistema classificatório ordenando a vida, “com exceção no nascimento e da morte, todas as atividades importantes são agendadas” (HALL, E., 1977, p.19). Diferentemente, nas culturas policrônicas, como os latinos e povos árabes, as coisas podem acontecer ao mesmo tempo, não há rigidez com horários e agendas, há um grande envolvimento e participação das pessoas, por isso, muitas vezes o cumprimento de prazos fica inviabilizado. Os relacionamentos costumam ter prioridade sobre a agenda e as interrupções são socialmente toleradas. As pessoas quase nunca ficam sozinhas (HALL,E., 1977, p.17). De acordo com Hall, a relação com o tempo e o espaço, um dos sistemas culturais mais básicos, está tão integrada ao dia-a-dia das pessoas, que elas não percebem como essa relação organiza seu comportamento e tampouco imaginam outra maneira de se colocar no mundo (HALL, E., 1977, p.55). Outra importante contribuição do trabalho de Hall para a comunicação intercultural está no processo de contextualização da informação no cérebro humano e sua relação com a produção de significados. “Contextualizar internamente torna possível para o ser humano realizar a função extremamente importante de corrigir automaticamente as distorções ou 68 omissões de informações das mensagens” (HALL, E., 1977, p.117). É o mecanismo que evita a sobrecarga de informações para o cérebro. É esse mecanismo, por exemplo, que faz com que, na conversa entre dois profissionais de uma mesma área, não seja necessário explicitar ou mesmo explicar detalhes que só fazem sentido para quem pertence a essa cultura profissional. Hall explica que esse processo de contextualização ocorre em um contínuo, que varia de alto-contexto e baixo-contexto. No processo de abstração, “(...) as pessoas levam em consideração algumas coisas e inconscientemente ignoram outras” (HALL e., 1977, P.117). A intensidade com que as pessoas utilizam-se desses contextos enquanto se comunicam varia de uma cultura para outra. Algumas pessoas escolhem focar mais nos códigos verbais do que nos elementos não verbais, enquanto outras vão monitorar ativamente os elementos não verbais do contexto. Uma comunicação ou mensagem em alto contexto é aquela na qual a maior parte da informação encontra-se tanto no contexto físico, como internalizada na pessoa, enquanto muito pouco encontra-se na parte codificada [a linguagem, o discurso], explícita e transmitida da mensagem. O baixo contexto de comunicação é justamente o oposto. A massa de informação está vestida no código explícito (HALL, E., 1977, P.91). Quanto investir no processo de contextualização da informação/mensagem é uma das principais questões práticas na comunicação intercultural. Um pouco de contextualização sempre será necessário, mas não pode ser um volume inadequado, tampouco excessivo (HALL, E., 1977, p.93). Nas culturas de baixo contexto, as informações devem ser transmitidas explicitamente na mensagem, ou seja, usa-se pouco o sistema de contextualização (interno/indivíduo ou externo/ambiente). Nas culturas de alto contexto, há muita informação pré-programada, portanto, nem tudo precisa estar na mensagem, uma vez que o indivíduo recorre ao contexto para completar o significado. “Em geral, a comunicação de alto contexto, em contraste com o baixo contexto, é econômica, rápida, eficiente e satisfatória” (HALL,E., 1977, p. 101). Os reflexos são percebidos na maneira de se comunicar: As pessoas criadas em sistemas de alto contexto esperam mais dos outros do que os participantes de sistemas de baixo contexto. Quando falam sobre alguma coisa que têm em mente, o indivíduo de alto contexto vai esperar que seu interlocutor saiba o que o está incomodando, de maneira que ele não precisa ser específico (HALL,E., 1977, p. 113) Ao interagirem, pessoas de culturas de alto contexto conhecem e compreendem umas às outras, portanto algumas palavras não são necessárias para dar significado à mensagem. As palavras e frases podem ser omitidas ou encurtadas. Em condições de alto contexto, as 69 informações do ambiente físico, sócio-relacional e perceptivo já existem e não precisam ser codificadas verbalmente (NEULIEP, 2009, p. 53, tradução nossa26). Ao contrário das culturas de baixo-contexto, a responsabilidade de compreender está em cada participante do processo comunicativo, há uma tendência para a interpretação de contextos não explícitos, uma minimização de conteúdos verbais e é necessária a sensibilidade às regras sociais do outro. Apesar de existir exceções, muitas culturas de alto contexto possuem tendências coletivistas, incluindo China, Japão, Coréia e alguns países árabes e africanos. Citando Edward Hall, Neuliep ( 2009, p. 53) explica que em interações com culturas de baixo contexto, o código verbal é a fonte primária de informação. Normalmente, essas culturas utilizam códigos elaborados. Diferentemente dos usuários de códigos restritos, os usuários de códigos elaborados confiam extensivamente no sistema verbal para criar e interpretar significados. Há um reconhecimento do ambiente não verbal, porém há uma tendência a se concentrar no ambiente verbal, portanto, há a necessidade de falar e um certo desconforto com o silêncio. Também há exceções, mas a maioria das culturas de baixo contexto são individualistas, como a Suíça, Alemanha, Estados Unidos, França e Inglaterra (NEULIEP, 2009, p. 53). Muitos outros pesquisadores vêm se dedicando a compreender as diferenças entre as culturas, a fim de facilitar a interação, especialmente no mundo dos negócios. Geert Hofstede, um dos autores mais citados no Social Science Citation Index (FANG, 2003, p.347), tem grande influência nas áreas de relações públicas internacionais e nos estudos de gerenciamento cross-cultural. Sua grande contribuição foi a identificação de quatro dimensões de variabilidade cultural entre nações que, atualmente, são muito usadas em estratégias comunicacionais: distância hierárquica do poder, grau de individualismo e coletivismo, controle da incerteza, grau da masculinidade/feminilidade. Em 1991, o autor acrescenta uma quinta dimensão: a orientação para curto ou longo prazo. Essas dimensões são fruto de um extensivo estudo realizado em subsidiárias da IBM em 53 países. Os dados coletados serviram para Hofstede explicar as diferentes culturas nacionais, de acordo com suas respostas a essas dimensões. O autor explica que as diferenças culturais se manifestam nos símbolos, heróis, rituais e valores, sendo os símbolos as camadas mais superficiais e os valores as manifestações mais profundas de uma cultura (2005, p.6). Seu estudo encontrou evidências de que os povos resolvem problemas em comum de maneiras distintas nas seguintes áreas (HOFSTEDE, 2005, p.23, tradução nossa27): desigualdade social (incluindo a 26 27 Todas as referências ao trabalho de Neuliep citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora Todas as referências ao trabalho de Hofstede citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 70 relação com a autoridade); o relacionamento entre o indivíduo e o grupo; os conceitos de masculinidade e feminilidade (ou seja as implicações de ter nascido menino ou menina em uma sociedade); maneiras de lidar com a incerteza e com a ambiguidade (o que está relacionado com o controle da agressão e com a expressão das emoções). A distância do poder é a descrita a partir do sistema de valores daqueles que possuem menos poder. A maneira como o poder é distribuído explica o comportamento dos membros na sociedade. Nas organizações, por exemplo, a pouca distância do poder é marcada pela descentralização, pouca necessidade de supervisão pessoal, os subordinados esperam ser consultados, a hierarquia é estabelecida por conveniência. A alta distância do poder reflete-se nas relações emocionais entre chefes e subordinados, na centralização, na atuação baseadas em normas formais, na expectativa de que seja dito o que precisa ser feito, os privilégios e status são vistos com naturalidade (HOFSTEDE, 2005, p.59). A orientação individual ou coletivista reflete-se no baixo e no alto contexto de processamento da informação, respectivamente. Nas culturas individualistas, espera-se que cada indivíduo seja responsável por si e por sua família imediata, enquanto nas culturas coletivistas, as pessoas estão ligadas a grupos coesos ao longo de suas vidas, tendo a lealdade como um forte valor (HOFSTEDE, 2005, p. 76). As questões de gênero também influenciam: nas chamadas sociedades masculinas, espera-se que os homens sejam assertivos, focados no sucesso material, enquanto as mulheres devem ser modestas, carinhosas e preocupadas com a qualidade de vida. Nas sociedades femininas, as questões de gênero se sobrepõem e espera-se que tanto homens quanto mulheres sejam modestos, carinhosos, preocupados com a qualidade de vida (HOFESTED, 2005, p.122). Isso se reflete, por exemplo, em sociedades mais permissivas, enquanto outras são mais corretivas. O grau de incerteza/ambigüidade é definido pela extensão pela qual os membros de uma cultura sentem ao tratar de situações desconhecidas ou ambíguas. Esse sentimento pode ser expresso, por exemplo, a partir de um forte estresse e do grau de ansiedade que as pessoas demonstram. Em culturas mais ansiosas, as pessoas tendem a ser mais expressivas, falam com as mãos, é aceitável elevar o tom da voz. Em países com baixo grau de incerteza, os níveis de ansiedade são relativamente menores; as emoções não devem ser mostradas (HOFSTEDE, 2005, p. 171). A pesquisadora Maureen Taylor, utilizou as dimensões de Hofstede e sua classificação de nações para estudar o poder de dano que a má condução de questões culturais pode trazer para a reputação empresarial. Seu estudo de caso englobou a Coca-Cola, uma das poucas empresas que conseguiu construir uma marca global de alcance indiscutível, a partir da 71 estratégia “um só produto, um só mercado”. Em 14 de junho de 1999, um grupo de crianças da Bélgica ficou doente depois de beber o refrigerante (TAYLOR, 2000, p.277-293). O governo Belga ordenou a retirada de todas as garrafas do mercado e proibiu a venda de outros produtos da marca. Em seguida, governos da Espanha e França adotaram a mesma posição, enquanto países como a Dinamarca, Noruega e Suécia não proibiram a venda do refrigerante. Duas variáveis culturais, controle da incerteza e distância hierárquica do poder, são importantes estruturas culturais que ajudam a explicar a incoerência entre a comunicação da Coca-Colca antes, durante e depois da crise e a resposta dos públicos internacionais a essa crise (TAYLOR, 2000, p.279). Na análise da pesquisadora, a organização com baixo controle da incerteza pode não ter visto acidentes isolados constituindo uma crise internacional e, por isso, comunicou-se pouco com seus públicos. Já a cultura com baixa distância hierárquica do poder pode não perceber a necessidade de se comunicar com o governo local sobre determinada situação (TAYLOR, 2000, p.282). A variável cultural também afeta como os públicos respondem a uma crise. Em nações com alto controle da incerteza, as pessoas buscam regras, rituais e leis para guiar os comportamentos. Nas nações com alto distanciamento do poder, as pessoas respeitam aqueles que ocupam posições de poder. Entretanto, quando essas duas dimensões da cultura interagem, espera-se daqueles que possuem poder que sigam estritamente os padrões de conduta. Se eles quebram as normas socialmente construídas, então o público (aquele com menos poder) irá procurar retribuição e prestação de contas (TAYLOR, 2000, p.283). Apesar de ser um dos autores mais adotados, Hofstede vem recebendo duras críticas do campo acadêmico, especialmente em relação à quinta dimensão, inspirada nos ensinamentos do Confucionismo28 , aos quais o autor teria distorcido alguns de seus princípios (FANG, 2003, p.347-368). Uma das críticas ao modelo de Hofstede e de outros autores na área de pesquisa cross cultural é a adoção do paradigma funcionalista para a análise da cultura nacional (BEHRENS, 2008, p.228). O resultado seria a polarização dos aspectos em comparações ao redor de dois pólos essenciais: individual x coletivo, masculino x feminino, curto prazo e longo prazo. Para Fang, a força desse paradigma consiste na clareza e parcimônia em isolar variáveis/dimensões culturais gerais e contrastar uma cultura com a outra, o que facilita a 28 Sistema de pensamento elaborado pelo filósofo e teórico político Confúcio, que viveu na China, de 551 a.C.- 479 a.C. 72 comparação. Por outro lado, o paradigma não coopera com a diversidade, a riqueza e o dinamismo de uma cultura e suas subculturas. A sabedoria chinesa, na visão de Fang (2003, p. 365), especialmente o Ying e Yang, que prega um universo relacional, poderia dar uma contribuição importante, uma vez que muitas vezes somos “ambos/e” em vez de ser “um/ou” outro, dependendo da situação, contexto e tempo, o que facilitaria também o entendimento das subculturas. O estudo de Fons Trompenaars (1994) também auxilia o processo de interpretação cultural. Para o autor, a cultura pode ser acessada em três níveis complementares: o externo, o intermediário e o central. Nas camadas exteriores estariam aspectos de fácil observação, como o idioma, moda, arte, ou seja, os valores explícitos de uma sociedade. As camadas interiores expressariam os valores e normas de determinada sociedade, como as noções de bom e mau. Na sua visão, as camadas interiores envolvem as crenças e são menos acessíveis para quem está de fora de determinada sociedade. Trompenaars (1994, p. 28) identificou três dilemas básicos compartilhados pela humanidade: o relacionamento das pessoas com o tempo, com a natureza e com outros seres humanos. Esses dilemas são compartilhados por todas as sociedades, porém as soluções encontradas para resolvê-los diferem em cada cultura. Citando Schein (1985), Trompenaars explica que a cultura é a forma por meio da qual um grupo de pessoas resolve um problema (1994, p. 6). E propôs que, para responder aos dilemas principais, as sociedades utilizam-se de sete dimensões. Atendendo aos dilemas de relacionamento estão as dimensões universalismo x particularismo; individualismo x coletivismo; culturas afetivas x culturas neutras; específico x difusos; conquista x atribuição; atitudes em relação ao tempo e atitudes em relação à natureza (1994, p. 8-12). Shalom Schwartz é outro autor que procurou desvendar as sutilezas culturais. Em sua pesquisa, realizada com professores do nível fundamental e médio de 44 nações, o pesquisador procurou compreender a natureza da relação entre indivíduo e grupo (apud Berens, 2008, p.251). Seu banco de dados ainda está em desenvolvimento, porém sua análise concentra-se nos entendimentos que os indivíduos de determinada sociedade têm sobre: individualismo, fatalismo, hierarquia, igualitarismo. O conhecimento dos modelos de análise da cultura citados anteriormente ajudam na compreensão do ambiente onde irá se desenvolver a troca comunicativa da organização multinacional. Na visão de Behrens, economista especializado em gestão cross-cultural, “o modelo de Trompenaars parece proporcionar mais direção em relação à forma de dirigir confrontos face a face. Por outro lado, o modelo de Hofstede é mais apropriado a uma filtragem macro na preparação para a expansão internacional” (2008, p.255). E o modelo de 73 Schwartz “é muito promissor, principalmente por causa da precisão do método e mais ainda pela escolha de professores como fonte de informação” (2008, p.256). No Brasil, observa-se uma certa predileção às dimensões de Hofstede nos trabalhos recentes de conclusão de cursos de graduação e de especialização das principais faculdades de comunicação. Outros autores com citações recorrentes especialmente em periódicos internacionais são Edgar Schein (1992), que aborda aspectos sobre cultura, cultura organizacional e liderança e Nancy Adler (2000), cujo trabalho analisa o impacto da cultura nas organizações, a diversidade cultural, as relações globais e a gestão de executivos expatriados. Poucos trabalhos brasileiros exploram outras visões e perspectivas como, por exemplo, as proposições de Samovar e Porter (2008), expostas no livro Intercultural Communication: a reader, que trata especialmente da interação intercultural, em situações de comunicação face-a-face ou de Mody e Gudykunst que discutem, entre outros assuntos, as implicações dos paradigmas objetivos e subjetivos nas abordagens de questões crossculturais. Os trabalhos que foram discutidos neste capítulo reforçam a importância de uma sólida formação multidisciplinar dos profissionais responsáveis pela comunicação internacional das organizações e vão ao encontro do que pregam Nassar, Furlanetto e Figueiredo (2009, on line): O comunicador tornou-se um mediador, um gestor de equipes, um zelador do grande ritual moderno que são os relacionamentos. Hoje, a empresa é um nó de uma grande rede e deve construir sua imagem através do diálogo, o que transformou o comunicador em articulador e educador. Nesse contexto, ele tem de abraçar a bandeira da cultura: precisa ser um intelectual, capaz de lidar com o processo que leva da identidade à alteridade - ao outro, ao diferente. (NASSAR; FURNALETTO; FIGUEIREDO; 2009, on line). As perspectivas teóricas apresentadas representam pequenas trilhas por onde se pode caminhar em busca de conhecimentos que aprimorem as competências profissionais para atuação no contexto internacional. Neste capítulo, procuramos ilustrar a atuação internacional pelas lentes da diferença, chamando atenção especialmente para as questões culturais e estruturais envolvidas nos processos de comunicação das organizações com atuação internacional. A seguir, identificamos conceitos importantes que ajudam a orientar o trabalho estratégico de comunicação. 74 CAPÍTULO III – A comunicação organizacional e as raízes conceituais que atravessam fronteiras 1. Comunicação e os ativos intangíveis Da mesma maneira que o fenômeno da globalização não pode ser visto estritamente sob a ótica econômica e de integração dos mercados, a complexidade do mundo atual não permite mais que, ao passar por um processo de internacionalização, as empresas considerem apenas a visão de negócios ou as oportunidades de mercado. Como foi visto no capítulo anterior, há muitos dilemas e desafios de comunicação a serem superados pelas organizações seja no estágio inicial do processo de internacionalização, ou ao longo da consolidação de sua permanência no exterior. Na sociedade contemporânea, estar em comunicação com os múltiplos públicos do ambiente em que a organização opera, deixou se ser uma opção, passando a ser uma condição de sobrevivência. Nesse contexto, a comunicação vista apenas como ferramenta, como técnica, tem pouca utilidade. A comunicação organizacional, como pensamento e ação, não passa de uma tentativa de legitimar ou negociar uma determina interpretação diante de outras interpretações sociais. A comunicação organizacional é meta-organizacional. Ela acontece, é desenhada em um ambiente relacional, enredado, em que a empresa ou instituição não é mais o centro, mas é co-participante (NASSAR; FURNALETTO; FIGUEIREDO; 2009, on line). Cada vez mais, mercado e sociedade valorizam os ativos intangíveis, portanto, há novos espaços e funções a serem ocupadas pela comunicação, de forma que ela possa efetivamente contribuir com o processo decisório das organizações, colocando-nas em sintonia com os ambientes em que estão inseridas. Os ativos intangíveis (marca, imagem, reputação, interação com a comunidade, entre outros) têm sido percebidos, cada vez mais, como diferenciais competitivos para as organizações, e sua gestão tem exigido tempo e recursos significativos das principais corporações em todo o mundo (BUENO, 2009, p. 31). Trabalhar com foco na gestão pró-ativa desses ativos intangíveis é um desafio permanente diante da complexidade do mundo atual, de suas interações e reações. “Nos últimos anos, temos assistido a fenômenos importantes com impacto considerável no mundo da comunicação”, alerta Bueno (2009, p.43), enfatizando que: 75 Todo planejamento em comunicação em nossos dias deve estar alinhado com essas novas realidades, buscando não apenas se antecipar a elas [...] mas, sobretudo, incorporar esse novo modelo mental, essa nova cultura, que consiste em aceitar a incerteza como condição permanente e trabalhar com ela e a partir dela (BUENO, 2009, p.43) Especialmente no caso brasileiro, uma experiência tardia de inserção no mercado global, esse desafio surge sustentado por uma crescente competição enfrentada pelas empresas tanto no mercado doméstico, como no mercado internacional. “De fato, quaisquer que sejam as estratégias de internacionalização adotadas, todas remetem à necessidade de enfrentar a crescente pressão da concorrência, tanto no mercado doméstico, quanto fora do país” (SOBEET, 2007, p.96). Terá maior chance de sucesso a organização que, ao atuar em um mercado estrangeiro, possuir um processo de comunicação organizacional já maduro, com políticas e práticas bem definidas e alto grau de profissionalismo dos principais executivos de comunicação. Como destaca Bueno (2009, p.16): “A próxima etapa a ser vencida pela Comunicação Empresarial é a de sua consolidação como instrumento de inteligência empresarial”. O processo de internacionalização de uma empresa tem implicações diretas para a identidade organizacional, para a projeção de imagens e nas avaliações sobre a reputação da organização, tanto dentro do país de origem, como nos países hospedeiros. Se pensarmos que a comunicação corporativa é a plataforma a partir da qual são lançadas as bases para a imagem e reputação (VAN RIEL, 2007), que sua atuação requer planejamento, pesquisa, visão estratégica e conhecimento multidisciplinar (BUENO, 2009), logo percebe-se que, em função de sua natureza simbólica, não existe um modelo, uma fórmula universal a ser seguida e replicada enquanto programa de comunicação. Há, sim, alguns conceitos que podem inspirar a prática profissional e atravessar fronteiras geográficas e culturais, ainda que o ambiente aonde ocorre o processo de comunicação molde a maneira como as interações se estabelecem. São eles identidade, imagem e reputação. Esses conceitos permeiam todas as áreas organizacionais, extrapolam os limites e responsabilidades da comunicação. Entretanto, é o trabalho feito pela comunicação que promove a articulação desses conceitos dentro e fora das organizações. É preciso conhecer suas dinâmicas de funcionamento para usá-las com propriedade, fazendo com que a organização esteja apta a se expressar de tal maneira - tanto no momento de elaboração de suas mensagens, como ao estabelecer seus mecanismos de relacionamentos institucionais – 76 que seus discursos e suas ações sejam apropriados com significados positivos junto aos diferentes públicos. Afinal, é justamente no significado que qualquer objeto ou pessoa tem para com um indivíduo, que se estabelece seu valor emocional (admiração, respeito, reconhecimento, credibilidade, etc). A mesma regra parece ser válida para as organizações, com uma diferença: esses valores emocionais também geram resultados econômicos. Todas as entidades, seja doméstica ou multinacional, esforçam-se para preservar suas reputações de ameaças internas e externas. Todas tentam identificar e construir relacionamentos com públicos vitais. Todas antecipam problemas e tentam eliminá-los ou reduzir seus efeitos adversos. [...] Essas são metas básicas para qualquer organização e nunca devem ser descentralizadas, seja domesticamente ou internacionalmente (WAKEFIELD, 2000, p.642, tradução nossa29). De acordo com Van Riel e Fombrun (2008, p.3), “quando a orquestração da comunicação é limitada, a imagem e reputação da organização são colocadas em risco. Na visão dos autores, o reavivado interesse na comunicação integrada é resultado não apenas das inconsistências nos sistemas de comunicação, mas também pelo crescente entendimento que valor econômico pode ser criado pelo fortalecimento das marcas corporativas - as características de uma empresa que empregados, investidores, consumidores e públicos associam com a organização como um todo. No passado, esta interação esteve muito mais focada no marketing de massa das marcas, mas hoje a ênfase está no sistema de comunicação que sustenta a marca corporativa (VAN RIEL; FOMBRUN, 2008, p.4, tradução nossa30). Essas mudanças de postura são encorajadas por algumas tendências identificadas por Van Riel e Fombrun (2008, p.6): o alto volume de informação disponível atualmente cria um ambiente onde as pessoas têm dificuldade para confiar nos produtos e serviços oferecidos o que as leva, em certas circunstâncias, a conhecerem melhor a organização que está por trás desses produtos; as organizações e seus altos executivos estão sempre buscando ocupar lugar de destaque na imprensa a fim demonstrar a distintividade de suas organizações; há uma saturação do volume das mensagens produzidas pela propaganda, o que leva o público a prestar menos atenção a essas mensagens, portanto cresce a importância das ações de relações públicas, patrocínio e cidadania corporativa; os produtos se tornam cada vez mais commoditties, ou seja, aumentou a homogeneidade dos produtos e serviços que as empresas comercializam; a globalização está levando as empresas multinacionais a usarem seus halos reputacionais ao entrarem em novos mercados. 29 Todas as referências ao trabalho de Wakefield citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora Todas as referências ao trabalho de Van Riel e Fombrun citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 30 77 Quando empresas como a L’Oreal, Siemens, Ericsson, Shell ou Philips entram em um novo mercado, seus halos reputacionais são uma força maior para atrair consumidores e negociar acordos atrativos com fornecedores e reguladores locais. Empresas estrangeiras consideram benéfico usar as marcas corporativas para se estabelecer internacionalmente e competir com seus rivais locais. Marcas corporativas globais sempre atraem a atenção e pesquisas sugerem que a atenção que elas conseguem é esmagadoramente favorável e dotada de prestígio” (VAN RIEL; FOMBRUN, 2005, p. 6 e 7). Nesse sentido, um sistema de comunicação sustentado pelos conceitos de identidade, imagem e reputação lança as bases para um processo coerente de troca comunicativa entre a organização e seus múltiplos públicos. “O não alinhamento entre a percepção interna e externa gera vários gaps na construção da imagem (...)”, explica a pesquisadora Ana Luisa Almeida (2006, p.39). Por isso, “as organizações buscam investir e desenvolver competências que as tornam únicas ou melhores no mercado, difíceis de ser copiadas pelos concorrentes novos ou tradicionais” (BUENO, 2009, p. 186). 2. Identidade corporativa: afinal, quem somos nós? Quando uma empresa está sendo criada, está passando por alguma experiência de reformulação de seus direcionamentos, desenhando uma nova estratégia de negócios, realizando seu planejamento estratégico de longo prazo ou mesmo expandindo internacionalmente suas operações, é inevitável que ela se depare com uma questão existencial: afinal, quem somos nós? Essa pergunta, de resposta aparentemente óbvia, traz embutida em si algumas reflexões importantes que devem ir além da superficialidade proporcionada pela auto-afirmação do que se faz enquanto negócio: “somos uma empresa de pesquisa agropecuária”; “somos uma organização educacional que atua com princípios cristãos”; “somos uma empresa de energia que alia desenvolvimento com sustentabilidade ambiental e social”. A questão identitária é muito mais complexa e envolve os valores, os comportamentos e a cultura de uma organização. “Entender o processo de construção da identidade, pode contribuir para que a organização gerencie aspectos sob os quais ela tem condições de exercer um certo controle, o que pode vir a significar uma vantagem competitiva”, explica Almeida (2006, p.36). A resposta às questões de identidade são fundamentais para a gestão da comunicação corporativa e da reputação (VAN RIEL; FOMBRUN, 2005, p. 61). O uso adequado de processos de comunicação para expressar a identidade contribui para que a 78 organização tenha um alto nível de consciência sobre o que deseja expressar a grupos internos e externos de relacionamento (ALMEIDA, 2006, p. 36). Mas antes de trabalhar com a identidade das organizações, é preciso compreender o que representa o conceito de identidade e como ele vem ocupando espaço entre as preocupações contemporâneas. Para isso, propõe-se percorrer algumas ideias debatidas pelos Estudos Culturais e pelo sociólogo Zygmunt Bauman (2001; 2004). Estudos sobre a identidade e a diferença na sociedade têm estado no foco das preocupações atuais dos Estudos Culturais. Embora não trate especificamente das questões de comunicação nas organizações, suas reflexões permitem fazer algumas transposições interessantes. Esse campo de pesquisa foca a construção da identidade pelos indivíduos e a considera, ao mesmo tempo, um processo simbólico e social, marcado pela diferença (WOODWARD, 2000, p.10). É um processo historicamente construído, que envolve, com frequência, “reinvidicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a determinado grupo identitário, nas quais a identidade é vista como fixa e imutável” (WOODWARD, 2000, p.13, grifo do autor). Entretanto, apesar das reinvidicações essencialistas, a identidade é considerada um conceito relacional: é estabelecida pela diferença em relação ao outro, através de uma marcação simbólica relativa a outras identidades. Essa marcação simbólica é o meio pelo qual se dá sentido a práticas e relações sociais. Além disso, para os Estudos Culturais, as identidades não são unificadas: “pode haver contradições no seu interior que têm que ser negociadas” (WOODWARD, 2000, p.14). Stuart Hall, em seu modelo de circuito da cultura, propõe a identificação como um dos cinco momentos articulados do processo de comunicação, conforme visto no capítulo anterior. “Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar”, lembra Woodward (2000, p.17). Nesse processo, as identidades são geradas e as pessoas podem ou não se “identificar” com elas. Identidade e diferença são conceitos que estão em estreita relação de dependência, uma vez que as afirmações de identidade só fazem sentido se consideradas em relação ao outro. O exemplo de Tomaz Tadeu da Silva (2000, p. 74) ilustra o caráter relacional do conceito: Sou brasileiro – ponto. Entretanto, eu só preciso fazer essa afirmação porque existem outros seres humanos que não são brasileiros. Em um mundo imaginário totalmente homogêneo, no qual todas as pessoas partilhassem a mesma identidade, as afirmações de identidade não fariam sentido (SILVA, T. 2000, p. 74-75). 79 O autor alerta que a identidade e a diferença não podem ser compreendidas fora dos sistemas de significação nos quais adquirem sentido (SILVA, T. 2000, p. 78). Por isso, Stuart Hall defende que não pode ser vista a partir do “núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história (2000, p. 108). Para Hall, a questão das identidades “têm a ver não tanto com as questões ‘quem nós somos’ ou ‘de onde nós viemos’, mas muito mais com as questões ‘quem nós podemos nos tornar’, ‘como nós temos sido representados’ e ‘como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios’” (2000, p. 109). Uma outra característica analisada pelos Estudos Culturais é a tendência à fixação da identidade. Existe sempre um “movimento de fixação” da identidade, baseado na postura essencialista (que se cerca das questões essenciais relativas à determinada identidade), que entretanto nunca atinge seu objetivo final. “A fixação é uma tendência e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade” (SILVA, T. 2000, p. 84). Um exemplo do caráter móvel da identidade vem das viagens internacionais: A viagem obriga quem viaja a sentir-se “estrangeiro”, posicionando-o, ainda que temporariamente, como “o outro”. A viagem proporciona a experiência do “não sentir-se em casa”. [...] Na viagem, podemos experimentar, ainda que de forma limitada, as delícias – e as inseguranças – da instabilidade e da precariedade da identidade (HALL, S. 2000, p. 88). Zygmunt Bauman, sociólogo de origem polonesa, vem estudando as transformações decorrentes da globalização, não apenas pelos aspectos econômicos, mas especialmente seus efeitos sobre a vida cotidiana (VECCHI, 2004, p. 11). Bauman também fala da identidade enquanto algo a ser construído, fluído, um esforço, um objetivo, uma escolha, uma condição eternamente inconclusa (BAUMAN, 2004, p.22). Para ele, “a fragilidade e a condição eternamente provisória da identidade não podem mais ser ocultadas. O segredo foi revelado. Mas esse é um fato novo, muito recente” (BAUMAN, 2004, p.22). O sociólogo argumenta que a questão da identidade começou a ser refletida como um tema de extrema relevância para a sociedade após a intensificação do fenômeno da globalização. Até então, as pessoas viviam em pequenas comunidades, sociedades de conhecimento mútuo, onde nasciam, cresciam e morriam sem pensar em mudar de lugar (BAUMAN, 2004, p.24); perguntar “quem é você” era uma questão que não fazia sentido. Foi com o nascimento do Estado moderno que teve início o despertar para a necessidade de se pensar em identidades. Ser originário de algum lugar já não era mais um fato inquestionável. Era preciso construir e negociar essa nova noção de pertencimento (BAUMAN, 2004, p.24 -27). Até então, a forma de “estar no mundo” eliminava a questão da 80 identidade, as pessoas não pensavam em mudar de lugar, tampouco pensavam em “descobrir ou inventar algo tão nebuloso (na verdade, impensável) como uma ‘outra identidade’. Pertencer a uma nação foi uma convenção construída” (BAUMAN, 2004, p.29) e, naquele momento, era preciso fixar, construir a noção de pertencer a algo maior do que a referência ao local de nascimento. Hoje, o mundo passa por um outro momento, chamado por Bauman de “modernidade líquida”: Estamos agora passando da fase ‘sólida’ da modernidade para a fase ‘fluida’. E os ‘fluidos’ são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças. Num ambiente fluido, não há como saber se o que nos espera é uma enchente ou uma seca – é melhor estar preparado para as duas possibilidades (BAUMAN, 2004, p. 57). A entrada na “modernidade líquida”, também chamada de pós-modernidade ou segunda modernidade, tem como marcas centrais a globalização, a mudança na relação tempo-espaço, a maior integração e o acelerado e intenso processo de mudanças. Nessa nova fase, as “estruturas de referência” (igreja, escolas, governos, a própria noção de identidade nacional) já não dão conta de acompanhar a alta velocidade com que as mudanças acontecem na sociedade, o que provoca conseqüências diretas para o processo de formação de identidades. De acordo com o sociólogo: Quando a identidade perde as âncoras sociais que a faziam parecer ‘natural’, predeterminada e inegociável, a ‘identificação’ se torna cada vez mais importante para os indivíduos que buscam desesperadamente um ‘nós’ a que possam pedir acesso (BAUMAN, 2004, p.33). Esse sentimento é chamado pelo autor de “anseio por identidade” e é decorrente do “desejo de segurança” desencadeado pelas aceleradas e intensas transformações (BAUMAN, 2004, p.35): Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age - e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento quanto para a “identidade”. Em outras palavras, a idéia de “ter uma identidade” não vai ocorrer às pessoas enquanto o “pertencimento” continuar sendo seu destino, uma condição sem alternativa. Só começarão a ter essa idéia na forma de tarefa a ser realizada, e realizada vezes e vezes sem conta, e não de uma só tacada (BAUMAN, 2004, p. 17-18). 81 Um mundo cada vez mais fluido, imprevisível e individualista leva ao surgimento de novas realidades, a partir das quais as pessoas buscam fixar-se, pelo estabelecimento de novas identidades: Em 1994, um cartaz espalhado pelas ruas de Berlim ridicularizava a lealdade a estruturas que não eram mais capazes de conter as realidades do mundo: ‘Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia, grega. Seu café, brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro (BAUMAN, 2004, p.33). As discussões levantadas anteriormente indicam como o processo de construção de identidades permeia atualmente a vida em sociedade. O modelo do circuito da cultura de Hall elucida a importância da identidade na troca comunicativa, enquanto Bauman mostra uma sociedade que anseia por segurança, por estabilidade, já que vive uma situação de fluidez, instabilidade, imprevisibilidade. Conhecer as dinâmicas expostas permite interferir de maneira mais consciente no processo de comunicação da organização. Pensando a partir da lógica da comunicação organizacional, a gestão da identidade deve ser examinada permanentemente em busca do equilíbrio entre o que a organização é e como ela deseja ser reconhecida, considerando, para isso, tanto as percepções internas como as dos múltiplos públicos com os quais interage. Examiná-la com frequência e redefini-la com pequenos ajustes quando necessário, não significa a criação indiscriminada de novas identidades, mas, sim, a busca permanente da coerência entre a instituição e seu ambiente externo. O que não pode ocorrer ao longo do movimento de fixação da identidade (a projeção de uma imagem), é sua expressão de maneira automática, incondicional ou mesmo distorcida, desconsiderando a natureza relacional do conceito e a importância dos sistemas de significação que fazem a identidade adquirir sentido tanto para o público interno, como para ambiente externo. Como afirma Luis Carlos Iasbeck (2009, p.8): Entendemos que é possível manter sob algum controle e coordenação a identidade organizacional desde que saibamos, de um lado, otimizar os recursos de comunicação de que dispomos e, de outro, monitorar as naturais oscilações que ocorrem na recepção desse discurso por parte dos diversos públicos que o recebe. A gestão da identidade organizacional é um tópico que merece atenção especial da comunicação das empresas internacionalizadas. A apresentação institucional da empresa na arena internacional ocorre em diferentes oportunidades: um folder institucional, um site em 82 língua estrangeira, uma apresentação em power point, um vídeo, uma reunião com grupos locais. Mais ainda, a identidade se manifesta nas práticas gerenciais, no grau de envolvimento que a empresa está disposta a investir naquela comunidade, na postura dos empregados do país de origem em relação aos colegas do país de destino e nos demais relacionamentos que serão estabelecidos, para citar algumas das situações. Em cada uma dessas oportunidades, a identidade está sempre sendo colocada à mostra, evidenciada, manifestada: Quem é essa organização? De onde ela vem? Que valores ela traz? Além do natural desconhecimento sobre a nova organização, sabe-se que, no caso de empresas originárias de países emergentes, os públicos notadamente fazem associações com o país de origem e apresentam desconfiança pelo fato de ser uma empresa estrangeira (CYRINO; PENIDO, 2007, p. 105). Ao elaborar o discurso que expressa sua identidade organizacional, a empresa que se internacionaliza precisa fazer o exercício do viajante: obrigar-se a sentir-se “estrangeira”, posicionando-se como “o outro” que olha para a identidade de quem chega e assumir que é ela quem não “está em casa”. Ao fazer esse exercício a organização pode descobrir que o discurso construído para representar sua identidade só faz sentido em seu país de origem e que será necessário encontrar outras maneiras de constituir e expressar sua identidade organizacional no exterior. Isso não significa ter de deixar de ser ela mesma e assumir uma nova identidade desvinculada da doméstica, mas que é preciso descobrir os elementos da identidade organizacional que não fazem sentido em determinado local, todavia podem ser amplamente valorizados em outros e vice-versa. Outra consequência diretamente ligada às questões de identidade é o significado que o fato de tornar-se uma corporação com atuação internacional passa a ter domesticamente, especialmente no caso de empresas originárias de países emergentes. Ora, se a identidade é um processo de construção contínuo, a nova posição da organização precisa ser trabalhada internamente, junto a seu corpo de funcionários, e, externamente, junto aos públicos da organização. As respostas à pergunta “Quem somos?” ganham uma outra dimensão, a ser estabelecida, incorporada e significada junto aos públicos internos. Daí, a importância de processos de comunicação interna que contextualizem e “solidifiquem” o momento que a organização vive: ao desencadear um novo processo de identificação, compatível com o atual status da empresa, a comunicação estará contribuindo para a conquista da coerência em um mundo tão fluido. Almeida argumenta que “para as organizações, que vivem em um mundo dominado por mudanças em seu ambiente, essa questão se torna delicada, colocando em foco de que modo manter o equilíbrio entre o que é estável e o que é fluido” (2009, p. 217). 83 Em muitos casos, a empresa deixa de ser uma grande e conhecida empresa nacional e passa a ser uma “ilustre” desconhecida nos novos locais aonde se implanta. Portanto, entender a relação entre identidade, a comunicação dessa identidade e a decorrente formação da reputação é uma condição importante para o bom desempenho da organização no exterior. Como a identidade é a razão de ser da empresa e deve ser comunicada de maneira consistente e coerente aos públicos domésticos e internacionais, vários estudos vêm sendo conduzidos no sentido de orientar profissionais e gestores a lidarem com esse tema. Segundo Ana Luisa Almeida, embora não exista um consenso em relação ao conceito, “grande parte dos autores foca suas análises na noção de que uma organização tem atributos que a distinguem de outras, os quais devem representar a organização e serem comunicados a diferentes públicos” (ALMEIDA, 2009, p.218) Van Riel e Balmer (1997, p.341) identificaram três principais correntes de pensamento em relação ao conceito “identidade”: o paradigma do design gráfico, o paradigma da comunicação integrada e o paradigma interdisciplinar. O primeiro trata das questões de marca, slogans e outros símbolos corporativos; também é chamado de identidade corporativa. O segundo prioriza a consistência da comunicação formal da empresa, que deve levar sua identidade igualmente a todos os stakeholders, enfatizando a diferença da comunicação corporativa para o marketing. O terceiro paradigma propõe uma abordagem multidisciplinar e considera que a identidade é revelada por meio de comportamentos, comunicação, assim como pelo simbolismo para públicos internos e externos. Hatch e Schultz (2000) identificaram duas principais perspectivas: a identidade corporativa, que “envolve a escolha dos símbolos para representar a organização (por exemplo, logomarca, nome, slogan, uniforme)” (2000, p. 17, tradução nossa31); e a identidade organizacional, que consiste nas diferentes maneiras pelas quais os membros da organização percebem, sentem e pensam sobre o que representam enquanto organização. As autoras argumentam que, na prática, a identidade deve combinar as duas perspectivas, considerando que, desta maneira, o conceito permite compreender melhor sua relação com todos os stakeholders e sugerem que a identidade organizacional seja avaliada também em relação à cultura da empresa. A teoria da identidade organizacional proposta por Albert e Whetten (2003, p.80) defende que a identidade é definida a partir de três características: a centralidade (captura a essência da empresa), a distintividade (o que a difere das outras) e a permanência (a 31 Todas as referências ao trabalho de Hatch e Schultz citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 84 continuidade ao longo do tempo). Os autores identificam seis diferentes estágios do ciclo de vida de uma organização em que a identidade pode tornar-se uma questão ainda mais saliente: durante sua formação; pela perda de algum elemento que sustenta a identidade (como a morte prematura de um fundador); a realização de sua de razão de ser, o que a leva a trabalhar com novos focos; um crescimento extremamente rápido, uma mudança no seu status coletivo, como fusões e aquisições e uma forte retração, seguida de lenta retomada do crescimento (ALBERT; WHETTEN, 2003, p. 87-88, tradução nossa). Fombrun e Van Riel (2008, p.62-65) consideram que a identidade corporativa consiste nas características que os empregados consideram centrais para a companhia, que a torne distinta das outras companhias, e que sejam duradouras e contínuas, ligando o presente e o passado ao futuro. De acordo com os autores, a identidade é expressada nas ações de comunicação, no comportamento organizacional e nos símbolos: “eles são os meios através dos quais uma companhia manifesta sua ‘personalidade’ ao mundo” (2008, p.68). Esses três componentes da personalidade corporativa serão usados pelos públicos no processo de interpretação que leva à formação de imagens da organização (2008, p. 68, tradução nossa). A força do argumento dos autores consiste em estabelecer os três componentes - que eles chamam de mix da identidade – como processos essenciais de expressão da identidade organizacional, o que significa que a construção do discurso, os relacionamentos/comportamentos e os símbolos são os meios pelos quais a organização se manifesta e é avaliada. Riel e Fombrun complementam o modelo enfatizando que elementos estáticos, como a cultura, mudam lentamente, enquanto os elementos dinâmicos, como a comunicação e o simbolismo podem mudar mais rapidamente. Nesse sentido, Grunig (2003, p. 208, tradução nossa) alerta que: O que os públicos pensam de uma organização é produto da comunicação, assim como de suas experiências e das experiências de outros com a organização. A comunicação, como relação simbólica, pode melhorar uma relação comportamental, mas uma relação comportamental pobre pode destruir as tentativas de usar a comunicação para construir relações simbólicas ou de aprimorar o relacionamento comportamental. Almeida (2006, p.34) destaca que a identidade é um processo de auto-reflexão, de construção de sentido, que se utiliza de pressupostos valores culturais compartilhados pela maioria dos membros da organização, onde a cultura tem um papel essencial: fornecer o contexto que permite responder à questão central da organização. A identidade tem grande importância, porque é a partir dela que se inicia o processo de identificação dos empregados (VAN RIEL; FOMBRUN, 2008, p.75). 85 Um dos trabalhos mais interessantes do ponto de vista prático vem de Balmer e Greyser (2003, p.16-18, tradução nossa32), que estabeleceram um modelo, chamado de AC2ID Test33, a partir do qual sugerem que sejam analisados os cinco tipos de identidades ligados a uma organização: a atual, a comunicada, a concebida, a ideal e a desejada. Os autores sugerem o alinhamento dessas identidades para se buscar a coerência entre visão, estratégia e comportamento da empresa em relação às expectativas dos diversos stakeholders: A liderança corporativa deve reconhecer que múltiplas identidades podem co-existir confortavelmente em uma organização se elas forem sutilmente diferentes. Entretanto, incongruências significativas entre duas (ou mais) das cinco identidades podem causar problemas para uma empresa diante de seus stakeholders mais relevantes (BALMER; GREYSER, 2003, p.16) A identidade atual reúne a coleção de atributos da organização. É moldada por vários elementos de desempenho e comportamento, como o estilo de liderança, a estrutura organizacional, as atividades do negócio, a qualidade dos produtos e serviços prestados, etc. Inclui também o conjunto de valores assumidos pelos gestores e empregados, especialmente a cultura da organização. A identidade comunicada é a auto-apresentação dos atributos atuais pelas ações de comunicação corporativa e é revelada tanto na comunicação formal quanto nos processos de comunicação informal. A identidade desejada refere-se à imagem idealizada que a alta gestão da organização pretender imprimir sob sua liderança e está nos corações e mentes dos líderes e, em muitos casos, pode ser semelhante à identidade ideal, que consiste em marcar o posicionamento da organização em um dado período de tempo, a partir do planejamento estratégico e análise do ambiente competitivo. A identidade concebida refere-se aos conceitos perceptivos que os públicos desenvolvem sobre a organização, como as imagens e a reputação. Os gestores devem avaliar essas percepções em relação às demais identidades (BALMER; GREYSER, 2003, p.16-17). A análise dos cinco tipos de identidade permite conhecer os pontos em que há desequilíbrio ou inconsistência e, dependendo dos resultados, é necessário usar várias metodologias que permitam conhecer detalhadamente a fragilidade em questão. Na visão de Balmer e Greyser (2003, p.27), a avaliação da identidade não ocorre com tanta frequência, mas é especialmente importante em momentos estratégicos da empresa, como fusões, aquisições, expansões e em ambientes altamente competitivos. 32 Todas as referências ao trabalho de Balmer e Greyser citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 33 AC2ID Test é uma acronímia de Actual, Communicated, Conceived, Ideal e Desired. Faz referência a uma outra expressão ACID Test que, segundo o Dicionário Oxford, significa um teste conclusivo de sucesso e valor (apud BALMER, GREYSER, 2003, p.16). 86 Halderen e Van Riel (2006) desenvolveram um modelo para avaliar continuamente a expressividade das organizações junto aos públicos a partir das características da identidade organizacional: sinceridade, transparência e consistência das mensagens. De acordo com os autores, ao procurar estabelecer impressões de uma organização, os stakeholders buscam sinais confiáveis que informem sobre as características da identidade organizacional; nessa busca, avaliam como a empresa se comporta no ambiente e também como ela desenha as explicações sobre quem ela é (VAN HALDEREN; VAN RIEL, 2006, p.3, tradução nossa34). O modelo ajuda a organização a mapear alguns pontos e atitudes que levam à conquista da confiança, considerando: a) sinceridade: a maneira como expressa sua integridade e relaciona sua identidade com suas origens, a expressão de honestidade (diante de eventos negativos, pedido de desculpas, se assume responsabilidades); b) transparência: como os stakeholders são envolvidos nas questões organizacionais, de que maneira as estratégias e metas são divulgadas e seu desempenho acompanhados pelo público, se a entidade realiza a auditoria dos dados reportados; c) consistência: como esses comportamentos e mensagens são comunicados ao longo do tempo. Há várias metodologias para se avaliar a identidade organizacional e seu processo de comunicação, que vão desde as mais simples, que a avaliam em relação aos veículos de comunicação, às mais complexas, que buscam a consistência e o impacto, procurando considerar, por exemplo, o processo de identificação dos empregados com a empresa, a satisfação com a comunicação, a qualidade dos relacionamentos internos (VAN RIEL; FOMBRUN, 2008, p. 96-98). Van Riel e Fombrun citam algumas delas, como o Teste de Identificação Organizacional de Rotterdam (ROIT), o Índice de Clima (The Climate Index), a Pesquisa de Auditoria de Comunicação (Communication Audit Survey), o Questionário de Auditoria em Comunicação Organizacional (Organizational Communication Audit Questionare) entre outras, onde o instrumento de pesquisa já foi amplamente testado por organizações35. 3. Identidades projetadas e imagens percebidas A identidade organizacional tem uma grande importância na troca comunicativa, pois ao expressar-se, seja por meio de discursos verbais ou não verbais (comportamentais), a 34 Todas as referências ao trabalho de Van Halderen e Van Riel citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 35 Muitas dessas metodologias estão amplamente descritas na obra Communication Research Measures: a sourcebook, editado por Rebecca Rubin, Philip Palmgreen e Howard E. Sypher, pela Lawrence Erlbaum Associates, Mahwah, Nova Jersey, 2004. 87 organização está sendo permanentemente avaliada pelos diversos públicos, que irão construir significados, ou seja, irão formar uma imagem da empresa. Em muitos casos, a identidade expressada não condiz com a prática comportamental da empresa e isso pode ser percebido em pequenos detalhes, especialmente naqueles momentos onde há interação entre pessoas. Por exemplo, a empresa se diz transparente e aberta ao diálogo, mas ao ser procurada por um estudante para uma pesquisa, argumenta que não pode dar declarações por ser uma empresa de capital aberto. O comportamento não condiz com o discurso e, se ele se repete com certa frequencia, causa uma má impressão àquelas pessoas que a procuram, contribuindo para formar uma imagem negativa. Concordamos com a visão de Almeida (2009, p. 228) quando a pesquisadora afirma: A imagem refere-se a um impressão vivida e holística de uma organização, sustentada por determinado segmento de público; parte, resultado de um processo de construção de sentido, desenvolvido por esse determinado público, e outra parte, conseqüência do processo de comunicação da organização, formal ou informal, com maior ou menor controle, bem ou mal gerenciado. Dessa forma, pode-se supor que a imagem é um fator inacabado, por ser receptivo e mutante, sempre passível de modificações e adição de novas informações, podendo alterar ou não o seu significado simbólico, dependendo do modo e constância em que são emitidas novas informações e como estas são recebidas e percebidas. O fato de a imagem ser um processo de construção de significados por diferentes públicos, leva a organização a ter várias imagens, decorrentes da relação que os públicos mantêm com ela. Para Bueno, a responsabilidade da comunicação consiste em zelar para que a identidade e a imagem pretendida sejam coerentes, sobrepondo uma à outra; nesse caso, a responsabilidade ética do comunicador reside em não mascar uma realidade do comportamento institucional com um discurso de identidade que não condiz com a prática (2009, p. 190). Berens (2004, p. 16 apud ALMEIDA, 2006, p.38) define três aspectos fundamentais para o entendimento da imagem: Primeiro, é uma percepção e não um atributo físico; segundo, é uma visão do todo, “uma fotografia” ao invés de uma coleção de diversas características, e terceiro, diferentes grupos de pessoas podem ter diferentes percepções da empresa, o que pode ou não ter como base diferentes atributos. O termo imagem é bastante controverso na literatura. James Grunig, por exemplo, pedia que seus alunos não o usassem em sala de aula e também evitava sua aplicação em seus livros (GRUNIG, 2003, p.209, tradução nossa), em função dos múltiplos sinônimos aos quais 88 o conceito poderia estar se referindo e, mais ainda, em função de sua carga negativa – concebido como o oposto da realidade - para muitas pessoas. David Bernestein, por sua vez, argumenta que muito da visão pejorativa que o conceito de imagem guardou por um certo tempo foi a confusão entre imagem de produto e imagem de empresa. “A imagem pode ser construída para um produto, enquanto, na melhor das hipóteses, pode ser ajustada para uma companhia” (BERNERSTEIN, 1989, p. 13, tradução nossa36). O autor destaca que a empresa precede a imagem, portanto, seu desempenho é mais importante do que a tentativa de transmitir uma determinada imagem. Eis porque, o sistema de comunicação corporativa deve refletir a realidade. Devemos nos preocupar com a imagem, não porque queremos fabricá-la, mas porque devemos saber discernir como nossos signos estão sendo recebidos (em vez de saber se eles estão sendo recebidos) e como essas percepções estão adequadas à nossa auto-imagem. [...] A imagem só pode ser percebida. Onde podemos fazer alguma coisa sobre é na identidade da companhia (BERNESTEIN, 1989, p.15, grifo do autor, tradução nossa) Na visão de Bernestein, a imagem deverá refletir, em sua essência, o desempenho da empresa: O que a empresa faz e acredita determina como ela é percebida. O trabalho dos conselheiros de comunicação (internos e externos) é assegurar que a essência das ações e comportamentos da organização estejam sendo comunicados precisamente e que todos os signos que emanam da organização sejam consistentes (BERNESTEIN, 1989, p. 13, tradução nossa, grifo nosso). Mas é importante destacar que uma imagem não é decorrente apenas das impressões construídas a partir da identidade projetada pela empresa. Balmer e Greyser (2003, p.176) destacam que há quatro escolas desenvolvendo o pensamento sobre imagem: a que acredita que a imagem pode ser criada pela comunicação da empresa (visão de transmissão da imagem); a que coloca o receptor enquanto construtor de significados; a que se preocupa com o foco das imagens, ou seja, ocupa-se da família de imagens associadas ao negócio da empresa, como a imagem da Holding, de produtos e serviços específicos, da indústria ou segmento de atuação e do país de origem e, por último, a que analisa a imagem construída internamente a partir de percepções que o próprio ambiente interno tem da imagem que a organização acumula no ambiente externo (por exemplo: a imagem é o que o dirigente acredita que o público externo percebe). 36 Todas as referências ao trabalho de Bernerstein citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 89 A observação dos autores de que há diferentes preocupações quanto à forma de analisar a imagem, coloca outro ponto importante para discussão, relacionado aos desafios de comunicação da organização com atuação no exterior: a imagem da empresa poderá ser influenciada pela imagem que os públicos têm de outras questões em foco, o que traz implicações também para o processo de gestão da sua identidade. Lembrando das palavras de Stuart Hall, de que a identidade se constrói na diferença e marca o estabelecimento das fronteiras do eu, é importante reforçar que, ao expressar sua identidade no exterior, a imagem que será construída sobre a organização poderá ser influenciada pela imagem global de seu setor de atuação, pela imagem do país de origem, pela imagem do setor/indústria de atuação no país de origem e no país de destino. Conhecer os mecanismos de formação de imagens ajuda, portanto, na análise do momento de regulação do processo de comunicação se o concebermos a partir do circuito da cultura. Embora as imagens sejam sempre uma percepção que surge a partir dos significados construídos pelos públicos, o acompanhamento das imagens construídas é de fundamental importância para o trabalho de comunicação. Em escala internacional, este trabalho torna-se um tanto quanto mais difícil. A auditoria de imagem é o nome da técnica usada para “aferir as percepções que os públicos têm entre as organizações” (BUENO, 2006, p. 347) e, para isso, diversas técnicas de pesquisa em comunicação, como os grupos focais, entrevistas em profundidade, pesquisas de opinião, podem ser usadas. Uma das metodologias mais adotadas para se conhecer e avaliar a imagem de uma organização é a auditoria de imagem na mídia (BUENO, 2009). A técnica consiste em avaliar o retorno do trabalho de assessoria de imprensa, a presença espontânea nos diferentes veículos, a relação da empresa com a concorrência, informações de mercado, entre outras tantas variáveis que levem a uma análise sofisticada, que servirá como instrumento de inteligência competitiva (BUENO, 2006, p.347-351). A técnica tem grande valor para as empresas que se internacionalizam porque é uma das opções mais práticas e de menor custo para se levantar a forma como a empresa vem sendo vista por atores internacionais. Como toda técnica, deve seguir uma rigorosa metodologia a fim de evitar interpretações equivocadas37. Mais do que acompanhar o volume de exposição de seus produtos, tecnologias ou serviços na mídia, a auditoria de imagem na mídia (de massa ou segmentados, varia conforme o negócio da empresa) pode revelar como a identidade da organização está sendo 37 O trabalho de Wilson Bueno é a principal referência nesse quesito e pode ser acessado em várias de suas obras. A técnica em si está detalhada no capítulo Auditoria de Imagem na Mídia, publicado na obra Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação, organizado por Jorge Duarte e Antonio Barros (2005). 90 percebida por meio de comentários que são feitos, as relações que são estabelecidas ao se falar sobre a empresa, a tonalidade em relação à empresa, pontos fortes da identidade destacados, questões emergentes e até a maneira como determinados assuntos relacionados ao negócio são abordados. Enfim, há uma série de indicadores que podem ser estabelecidos e tornarem-se valiosos instrumentos para se compreender, junto a um público específico (os jornalistas), como está a imagem da instituição, de seu setor de atuação e a afinidade entre as identidades percebidas e projetadas. 4. Reputação organizacional: gerando valor para os múltiplos públicos O terceiro conceito-chave para a gestão da comunicação da organização é o de reputação da empresa. A gestão da reputação é um processo construído ao longo dos anos e tem como base as ações e comportamentos das organizações. Está intimamente relacionada ao alinhamento entre identidade (quem somos) e imagem (como somos vistos). Diferencia-se do conceito de imagem, que é considerada uma impressão que os públicos têm sobre a empresa (ALMEIDA, 2006, 2007, 2009). Desde os anos de 1990, a reputação vem recebendo uma crescente atenção em relação ao conceito de imagem, em função de duas características: sua formação ao longo do tempo e o fato de ser baseada no que a organização faz e como ela se comporta (BALMER; GREYSER, 2003,p. 177). A reputação é a consolidação do processo de formação de imagens, envolve percepções e experiências acumuladas ao longo dos anos, e representa a habilidade da organização em gerar valores para múltiplos stakeholders (FOMBRUN, 1996, p.3, tradução nossa38). É um conceito que parte da lógica de que, assim como as pessoas, as organizações também são avaliadas permanentemente e acumulam reputação tanto dentro, como fora da companhia: Na vida privada, a maioria de nós solicita regularmente indicações sobre as pessoas que contratamos, seja para construir nossa biblioteca pessoal, para organizar nossas férias, fazer o imposto de renda, tratar uma doença ou nos defender diante de uma corte. Se nos é dada uma oportunidade de escolha entre quem é bem recomendado e sobre alguém de quem sabemos pouco, a maioria de nós opta por fazer negócios com o profissional de melhor reputação. A reputação envolve a história da experiência de outras pessoas com aquele prestador de serviço. Uma boa reputação aumenta a credibilidade, tornando-nos mais confiantes de que realmente vamos alcançar o que nos foi prometido (FOMBRUM, 1996, p. 2-3). De acordo com Charles Fombrun, um dos pesquisadores mais proeminentes da área, uma reputação positiva e duradoura passa por “investimentos pesados na construção e 38 Todas as referências ao trabalho de Fombrun citadas nesta pesquisa são decorrentes de tradução desta autora 91 manutenção de bons relacionamentos com os públicos constituintes da organização” (1996, p.57, tradução nossa). Segundo o autor, uma reputação positiva proporciona benefícios tangíveis, uma vez que aumenta a lucratividade, porque atrai consumidores para seus produtos, os investidores pela segurança e os empregados, pois estes têm orgulho em se identificar com suas empresas. Van Riel sugere que a reputação é o resultado mais significativo por meio do qual se pode avaliar o sucesso de um sistema de comunicação. Em sua visão, a reputação deve estar no topo da agenda de comunicação das organizações. (VAN RIEL, 2005, p. 36). Nas empresas onde a reputação é bem avaliada, há um “grande esforço em criar, sustentar e defender essa reputação adotando práticas que (1) moldam uma identidade única e (2) projetam um conjunto de imagens coerentes e consistentes para o público” (FOMBRUN, 1996, p.6). Todo esse interesse na reputação tem um motivo: uma boa reputação é difícil de ser copiada, gera respeito e confiança, portanto, torna-se uma vantagem competitiva para a empresa. A reputação da companhia deriva de sua identidade, ou seja, da maneira como ela conduz, no dia-a-dia, as práticas gerenciais que fazem dela um bom lugar para se trabalhar, da qualidade de seus produtos e serviços, do retorno que ela dá a seus acionistas e de como ela conduz sua cidadania corporativa nas comunidades em que está inserida. Ela também se desenvolve a partir das imagens favoráveis que a organização tenta criar de si mesma, ao tentar persuadir sobre a excelência de seus serviços (FOMBRUN, 1996, p.11). “A reputação corporativa representa a “rede” de reações afetivas e emocionais – de clientes, investidores, empregados e o público em geral – diante do nome da empresa” (FOMBRUM, 1996, p.37). Essas reações, segundo Fombrum, são julgamentos/avaliações feitas pelos públicos constituintes sobre a credibilidade, confiabilidade, responsabilidade e probidade (FOMBRUN, 1996, p.72). Ao mesmo tempo, uma boa reputação cria responsabilidades (FOMBRUN, 1996, p. 10). Balmer e Greyser afirmam que uma boa reputação não é a garantia de que a empresa vai sobreviver e ter sucesso: a Olivetti tinha uma excelente reputação e era líder de mercado em máquinas de escrever, mas não soube acompanhar os desenvolvimentos tecnológicos que levaram à ampla adoção dos computadores, enquanto a Concorde, fabricante de aviões de excelente reputação em alta tecnologia, não soube ter o mesmo sucesso na área comercial, encerrando sua produção por ter conquistado apenas dois clientes (2003, p.178). Knecht (apud VAN RIEL; FOMBRUN, 1998, p. 44) distingue sete níveis onde o conceito de reputação pode ser aplicado: a classe de um produto, uma marca, uma companhia, 92 um setor, uma loja, um país e um usuário. A partir de sua classificação, Van Riel e Fombrun (1998, p.44) argumentam que “a reputação de uma organização deve ser distinguida da reputação de uma unidade operacional ou de sua subsidiária e da própria indústria em que ela opera” (VAN RIEL, FOMBRUN, 1998, p.44). Os autores também identificam o efeito de país de origem para a formação da reputação de uma empresa no exterior, assim como o efeito de residência, que engloba a influência que a presença em determinado país hospedeiro pode ter para a reputação da empresa. Esse efeito de residência definido pelos autores se aproxima muito do chamado efeito de demonstração identificado na literatura de administração e negócios internacionais (ver Capítulo 1). Ambos relacionam a característica de determinado mercado, onde por exemplo a legislação ambiental é estritamente rigorosa, com uma repercussão positiva para a reputação da organização no país de origem. A partir de uma revisão bibliográfica primorosa sobre o tema, a professora Ana Luisa Almeida (2009, p.215-242) aponta que a efetiva gestão da reputação passa pelo uso de metodologias apropriadas, como o RepTrack39, pelo alinhamento dos empregados às estratégias organizacionais, pela cobertura da mídia, pela qualidade das mensagens produzidas pela comunicação organizacional e pelo reconhecimento da área de comunicação como campo estratégico para a gestão da empresa (2009, p.234-235). Por outro lado, Cornelissen sugere que a empresa defina e conduza sua própria pesquisa em vez de confiar apenas nos rankings de reputação publicados na imprensa e sugere que diferentes técnicas (qualitativas e quantitativas40) sejam usadas para avaliar a reputação a partir de “medidas operacionais e pesquisas de opinião” (2008, p.76). Nesse processo, o autor propõe considerar que a avaliação seja feita em relação aos concorrentes, levando em conta o histórico e não um instante específico ou uma campanha temática, e que a avaliação - e também a amostra dos respondentes -contabilize os vários atributos a partir dos quais uma organização é avaliada pelos seus diferentes públicos (CORNELISSEN, 2008, p.76). Fazendo assim, a empresa estará apta a contabilizar a diversidade de opiniões de seus grupos de stakeholders e terá uma visão clara dos atributos que os diferentes grupos efetivamente consideram importantes e em qual proporção eles afetam a organização (CORNELISSEN, 2008, p.77). 39 RepTrack é uma metodologia patenteada pelo Reputation Institute e avalia a reputação de mais de setecentas em empresas em todo o mundo, estabelecendo um ranking de comparação. No Brasil, o instituto é representado pela professora Ana Luisa Almeida, da PUC- Minas. O endereço eletrônico do site é <www.reputationinstitute.com> O Instituto também publica o periódico Corporate Reputation Review um dos principais fóruns acadêmicos de discussão e avanço do conhecimento sobre o tema. 40 As técnicas sugeridas por Cornelissen (2008, p.77) são: entrevistas abertas, grupos focais, gride de repertório (Repertory Grid), que consiste em entrevista oral onde cada respondente deve escolher entre três declarações a que melhor ou pior representa a organização) e a técnica de Laddering (entrevistas orais onde cada respondente é convidado a refletir sobre suas crenças/valores sobre a organização a partir de escalas de significados), escalas de atitude e card-sorting. 93 Para Van Riel e Fombrun (2008, p.212), a escolha do método de avaliação da reputação depende essencialmente do volume de conhecimento dos diferentes públicos sobre a empresa e quão elaboradas são suas estruturas cognitivas: O melhor método é aquele que permite ao respondente com uma estrutura mais elaborada demonstrar seu sofisticado conhecimento sobre a organização. Os públicos com um grau menos elaborado de entendimento sobre a empresa devem avaliar as companhias usando métodos que não requerem um conhecimento profundo e devem ser convidados a responder questões sobre atributos mais gerais da organização (VAN RIEL; FOMBRUN, 2008, p.212, grifo dos autores). Essa ponderação dos autores origina-se de estudos de psicologia, que buscam compreender as rotas centrais e periféricas envolvidas no processamento da informação (PETTY; CACIOPPO, 1986, apud RIEL; FOMBRUN, 2008 p.53). Os autores sugerem que a reputação é formada quando uma variedade de estímulos é apresentada ao sujeito. A reputação o ajuda a organizar a informação racional, atuando como uma rota periférica, que simplifica a realidade. Do ponto de vista da comunicação, Riel e Fombrum (2008, p.51-53) explicam que, quando o sujeito possui um baixo o grau de elaboração da informação em relação à empresa, é mais difícil que ele processe a informação racional, porque não há motivação para esse processamento. Nesse caso, a rota periférica torna-se importante para a formação da opinião. Quando o envolvimento com a empresa é alto, a rota racional será usada, portanto é o conteúdo e a força do argumento que estarão influenciando a formação da opinião. A academia internacional tem focado extensivamente em estudos sobre a relevância da reputação para organizações antigas e bem estabelecidas, especialmente aquelas que já acumularam um certo nível de reputação (FOMBRUN; VAN RIEL, 1996). Por isso, trabalhos como o de Zglidopoulos, DeMartino e Reid (2003), sobre a contribuição da reputação do cluster41 para as organizações que se internacionalizam, e de Petkova, Rindova e Kotha (2005) são importantes contribuições para o campo de estudo. Em especial, a pesquisa de Petkova, Rindova e Kotha (2005, p. 3) alerta para a necessidade de estudos que contemplem a formação da reputação de empresas novas, especialmente daquelas originárias de novos segmentos de mercado, não apenas porque essas companhias não acumulam um desempenho histórico, mas também porque elas acumulam 41 Clusters são “concentrações geográficas de companhias e instituições interconectadas em um campo particular” (Porter, 1998, apud Zglidopoulos, DeMartino e Reid, 2003 p. 3, tradução nossa). 94 recursos limitados e têm poucos ou nenhum produto a oferecer. Segundo as autoras, desenvolver a reputação de uma nova empresa ajuda a reduzir a incerteza dos stakeholders em relação ao empreendimento (2005, p.32). Nesse processo, muitas empresas utilizam-se de “reputações emprestadas” de seus parceiros já estabelecidos ou de outras empresas do mesmo grupo. Analisando as ações de marketing de três empresas do emergente mercado de comércio eletrônico de livros, as autoras identificaram três atributos relevantes para a formação da reputação: a saliência (o total de ações que afetam a visibilidade da empresa), a percepção do potencial de criação de valor e uma distintividade exemplar. Esses atributos “influenciam a extensão em que os observadores tomam conhecimento da empresa, desenvolvem expectativas positivas e fazem dela o padrão de realização para sua categoria” (PETKOVA; RINDOVA; KOTHA 2005, p. 58). Observamos nesta pesquisa bibliográfica que há poucos estudos sobre a formação da reputação de empresas originárias de países emergentes. Um artigo publicado pelo Reputation Institute na revista HSManagement on line apresenta um rápido retrato de como a reputação vem sendo usada pelos públicos nesses países. O artigo também demonstra que, no ranking das 50 empresas mais respeitadas no mundo, há praticamente o mesmo número de empresas provenientes de países emergentes em comparação às norte-americanas, um indicativo de que novos estudos precisam ser conduzidos, e que elas são muito mais eficientes em conquistar relevância em seus mercados domésticos, do que as americanas, japonesas ou européias. Apesar de serem muitas vezes tratados de forma genérica, como países emergentes, é difícil apontar características comuns a todos eles quando se fala sobre reputação corporativa ou gerenciamento de stakeholders. A similaridade de maior destaque é a valorização de produtos e serviços como a dimensão mais importante para a avaliação da reputação de uma empresa, com exceção da Índia, Turquia e Tailândia, onde a governança é prioritária. Em contrapartida, há muitas diferenças. Enquanto que, em países latinoamericanos (Brasil, Chile e México), valoriza-se acima da média global a governança e o ambiente de trabalho como imperativos da reputação, consumidores da África do Sul atribuem maior importância à inovação e liderança, chineses e gregos dão maior atenção à cidadania corporativa e ao desempenho financeiro da empresa (REPUTATION INSTITUTE, 2009, on line). Ainda há muito a se conhecer sobre métodos mais eficientes para que a própria empresa trabalhe sua reputação junto a diferentes públicos, assim como métodos para levantar os parâmetros que são considerados relevantes pelos públicos em determinados segmentos de mercado, que vão além dos parâmetros gerais (credibilidade, confiabilidade, responsabilidade 95 e probidade) estabelecidos, por exemplo, por Fombrun e Van Riel. É bem possível que um cruzamento das atuais pesquisas em reputação, com os estudos desenvolvidos sobre as teorias de recepção, dentro da comunicação social, e pela psicologia possam propiciar importantes avanços sobre as respostas cognitivas, afetivas e emocionais que dão forma à reputação das organizações. Contudo, os estudos sobre reputação têm apresentado consistentes avanços teóricos e práticos que estão possibilitando conhecer melhor os antecedentes e as consequências da reputação para uma empresa, especialmente para seus relacionamentos institucionais, e, assim, lançam luz sobre os caminhos a serem percorridos. Neste capítulo, procuramos apresentar uma visão geral de três conceitos importantes para a sustentação de um programa de comunicação, seja ele doméstico ou internacional. Acreditamos que esses conceitos servem de raízes conceituais e devem ser profundamente compreendidos pelos gestores de comunicação que pretendem fazer de seu trabalho uma iniciativa efetivamente estratégica para as organizações. 96 CAPÍTULO IV - Caminhos e desafios de comunicação nas organizações brasileiras com atuação internacional: a experiência de quatro executivos da área 1. Procedimentos de pesquisa Uma parcela cada vez mais expressiva de empresas brasileiras amplia suas fronteiras para além do território nacional. Segundo dados da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, on line) cerca de 30% das empresas brasileiras já operam fora do Brasil. Naturalmente, essa nova condição coloca os profissionais diante de um importante desafio: compreender as implicações de atuar em contextos muitas vezes desconhecidos. De repente, um número crescente de empresa desvenda mares desconhecidos. E mais, elas chegam como se acostumadas fossem com a luta do desconhecido. Preparam-se com agilidade, antecipam movimentos e aceleram o passo. Como nunca, descobrem o poder da reputação, a necessidade de conhecer profundamente os territórios em que atuam, suas realidades social, cultural, histórica, não só econômica, e de entender seu efetivo lugar e sua participação nessa dinâmica. Descobrem o poder de suas marcas e o desafio de estabelecer relacionamentos de confiança com a sociedade (CARDOSO, 2009, p.85). A análise da experiente profissional Olinta Cardoso (2009, p.85), por muitos anos diretora de comunicação de uma das maiores multinacionais brasileiras, antecipa algumas das dimensões com as quais os comunicadores precisam aprender a lidar. Diante desses novos desafios, que caminhos estão trilhando e que desafios enfrentam os profissionais das organizações brasileiras com atuação internacional? Para compreender melhor as práticas desenvolvidas na comunicação internacional das organizações, buscou-se levantar dados primários junto aos principais executivos de comunicação brasileiros. A coleta de dados teve o objetivo de conhecer “como” se dá o processo de gestão da comunicação nas empresas brasileiras com atuação internacional. Esta pesquisa adota a abordagem qualitativa que se justifica, sobretudo, quando se quer entender a natureza de um fenômeno social (RICHARDSON, 1989, p. 38). Segundo Godoy (1995, p.63), pesquisadores qualitativos “partem de questões ou focos de interesses amplos, que vão se tornando mais diretos e específicos no transcorrer da investigação”. Como explica Richardson: Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar 97 processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar, em maior nível de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos (RICHARDSON, 1989, p. 39). A técnica de coleta de dados adotada foi a entrevista semi-estruturada, que permite uma certa flexibilidade ao pesquisador para, a partir de um roteiro pré-definido, explorar as experiências, visões de mundo e outras informações detalhadas do entrevistado. De acordo com Duarte (2006, p.62), a entrevista é uma “técnica qualitativa que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada” . As questões-guia elaboradas para as entrevistas criam “uma estrutura para comparação de respostas e articulação de resultados, auxiliando na sistematização das informações fornecidas” (DUARTE, 2006, p. 67). A seleção da amostra considerou 21 empresas brasileiras com ampla experiência internacional. O critério de seleção levou em conta três fatores: a experiência relatada na literatura de administração e negócios, a presença no ranking das empresas mais internacionalizadas do jornal O Valor Econômico e/ou a experiência de comunicação da empresa. Empresas essencialmente exportadoras de produtos não foram consideradas. A partir da seleção foi dado início às tentativas de contato com as equipes de comunicação por meio de informações disponíveis no site ou nas salas de imprensa. Procurando otimizar os custos de deslocamento, foram marcadas duas agendas tentativas (mas não exclusivas) para entrevistas com empresas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os profissionais de empresas cujos escritórios estivessem localizados fora desse eixo seriam entrevistados por telefone. Entre as 21 empresas listadas na amostra, obteve-se a importante colaboração de quatro gestores de comunicação: Alexandre Barbosa/Itautec, Carlos Camargo/Embraer, Flávio Chantre/Votorantim Cimentos e Márcio Polidoro/Odebrecht42. As entrevistas foram divididas em duas partes: na primeira, o entrevistado apresentava um perfil das atividades da empresa no exterior e, na segunda, os executivos eram convidados a falar sobre a experiência de comunicação e os aprendizados ocorridos ao longo desse 42 Por serem talvez as maiores empresas brasileiras, as dificuldades para acesso aos demais profissionais foram grandes, o que representa um contra-senso se consideramos que estamos falando de departamentos de comunicação. Em cinco empresas, por sugestão do próprio departamento de comunicação, as solicitações foram encaminhadas ao departamento de atendimento a estudantes ou ao cliente, que informaram da não possibilidade de participação. Em outras três, os contatos telefônicos nos levaram até as secretárias dos principais gestores, mas a impossibilidade de agenda impediu a realização das entrevistas. Oito empresas não retornaram os convites. As 21 empresas selecionadas para a amostra foram: Aracruz Celulose, Brasil Foods, Coteminas, Duratex, Embraer, Embraco, Gerdau, Ibope, Itaú, Itautec, JBS Friboi, Klabin, Marcopolo, Natura, O Boticário, Petrobrás, Sadia, São Paulo Alpargatas/Havaianas, Vale, Votorantim Cimentos, WEG. 98 processo. A duração média das entrevistas foi de 90 minutos. Para descrição e análise dos dados coletados, estabelecemos quatro categorias de análise: organização da estrutura de comunicação; desafios e estratégias; forças regulatórias; perfil ideal. De acordo com Duarte (2006, p.77), “as categorias são estruturas analíticas construídas pelo pesquisador que reúnem e organizam o conjunto de informações obtidas a partir do fracionamento e da classificação em temas autônomos, mas inter-relacionados”. Essas categorias foram construídas a partir de pontos-chave da pesquisa bibliográfica apresentada nos capítulos anteriores. Para facilitar a compreensão e a organização das ideias, seguimos a sugestão de Duarte (2006, p.79), fazendo uma breve apresentação em cada categoria. Ao final de todas as categorias analisamos os principais aprendizados. 2. Caminhos e desafios de comunicação na perspectiva de quatro profissionais A) Organização da estrutura de comunicação Nesta categoria, procura-se compreender como está organizada a estrutura de comunicação que trata da presença da empresa no exterior, a partir de dois eixos principais: a estrutura vertical (relação sede/subsidiária, adequação da comunicação à matriz organizacional, composição de equipes verticais) e a estrutura horizontal (formação de equipes horizontais, sistematização de documentos, políticas e processos). A partir dos relatos sobre o processo de internacionalização observa-se que é a estratégia de negócios da empresa que determina a existência e o grau de autonomia de equipes locais de comunicação, ou seja, a estrutura de comunicação é um reflexo da estrutura operacional e da cultura da empresa. Estamos em 30 países, com uma diversidade cultural enorme. Estamos no Oriente Médio, África, Estados Unidos, America Latina, America Central, Europa. Atuamos sempre como empresas locais, porque é a natureza do nosso negócio. A diversidade de países e situações que enfrentamos, dificulta enormemente nós sonharmos com a ideia de imagem global da Odebrecht. Esse é o tipo de sonho quase que irrealizável. Então, o que nós estabelecemos como estratégia de comunicação foi ... sendo uma empresa global, nós temos uma comunicação que é essencialmente local [...] A estratégia global serve às necessidades específicas de cada local. [...] É a peculiaridade do negócio. Uma grande empresa de engenharia como a Odebrecht não é proprietária de suas obras. O proprietário é o cliente que nos contrata. Eu não posso me apropriar da obra que eu realizo em qualquer lugar do planeta como se fosse algo que pertence à organização. O que eu aproprio é a minha capacidade de realizar aquela obra. Esse sentido dá a comunicação de uma empresa prestadora de serviço um sentido meio fluido. (Marcio Polidoro). 99 Nós [Itautec] temos escritórios na Colômbia, Argentina, México, Equador, Espanha, Portugal, Estados Unidos. São pontas de lança em mercados muito importantes que nos permitem não só acompanhar as novidades em escala internacional, como medir o nível de aceitação de soluções que possam ser trazidas para o Brasil. É feito um trabalho de prospecção, de monitoramento de concorrência e de oportunidades. Usamos o melhor de dois mundos. [...] Tem escritórios com nível razoável de autonomia, que se reportam à diretoria comercial internacional [sediada no Brasil], que coordena as operações. [...] Há um grande envolvimento da comunicação, a partir da sede, aqui no Brasil. [...] Eu preciso ter uma coordenação centralizada, porque eu não posso ter uma mensagem que seja dissonante do que desenhamos. Não é uma questão de planificação. Mas você precisa criar uma diretriz pela qual você vai ter eixos de comunicação, que você adapta para os temperos locais. [...] Ajuda muito o fato do diretor comercial internacional estar aqui no Brasil. Ele recebe os in-puts dos coordenadores dos escritórios e, na medida em que ele está em linha com a comunicação que é traçada aqui do Brasil, consegue fazer as adaptações para a necessidade de cada mercado. (Alexandre Barbosa). O processo de internacionalização da Embraer começou há trinta anos (...). Em uma indústria como a nossa (aeronáutica) você tem que estar presente no seu mercado. É um bem de consumo de alto valor agregado, que requer manutenção constante. Não é um exportador de atacado, de alimento. Estamos falando de um avião, onde ocorre um casamento de, no mínimo, quinze anos. Aliás, os aviões mais modernos, chegam a ter uma vida útil de vinte anos. Então, estar presente no exterior é uma necessidade para a Embraer. [...] Você precisa ter um time dedicado àquele país. No começo, funciona mandar equipe de vendas daqui, mas para você ter um crescimento naquele mercado, um relacionamento de longo prazo, você tem que ter o vendedor lá. Ele precisa estar em contato com o cliente da empresa área, ir tomar café, saber como está a satisfação. A linguagem de montagem do avião é universal, mas você precisa lidar com culturas diferentes nas relações trabalhistas e também nas áreas de vendas. Quando você vende um avião para um americano, para um chinês ou europeu, a comunicação dessa venda é diferente. [...] A gente poderia fazer isso aqui do Brasil? Poderia, mas seria uma coisa pasteurizada, um padrão Embraer. Não que a comunicação no exterior fuja ao padrão Embraer, mas existem pequenas diferenças que você ajusta para cada tipo de cultura. É por isso que temos equipes de comunicação em cada unidade externa. São [formadas] profissionais locais. (Carlos Camargo). O processo de internacionalização da Votorantim Cimentos começou em 2001. É bem novo, recente. Trabalhamos com cimento, concreto e agregados (areia, brita). São produtos de baixo valor agregado, ou seja, quanto maior a escala, melhor a margem operacional do negócio. Por isso, faz sentido concentrar geograficamente a localização do negócio. Seguimos o modelo de aquisição de novas operações e possuímos dois projetos de greenfield [operação do zero para construção de fábricas/unidades]. [...] As aquisições são feitas sobre marcas tradicionais, fortes e estabelecidas, como por exemplo, a Saint Mary’s que tinha 80 anos de existência. Então, não há como mexer nessas marcas. O que fazemos é muito próximo à nossa experiência nacional. Por isso, deixamos a marca comercial atuando. No 100 Brasil, por exemplo, temos cinco marcas comerciais regionais: Votoran, Itaú, a Tocantins, Aracruz e Poti. O mesmo racional é utilizado lá fora. Compramos a empresa lá fora, mantemos a marca comercial, o nome da empresa e começamos a fazer uma arquitetura de comunicação que faz a ligação entre essa empresa e o grupo Votorantim North America (VCNA), que por sua vez está ligado ao grupo Votorantim Cimentos, que responde para a holding Votorantim (Flávio Chantre). A relação entre as atribuições da subsidiária e o papel da coordenação central estão bem definidas, segundo os profissionais brasileiros. Nas quatro empresas, as estruturas de comunicação contemplam profissionais que respondem localmente pela comunicação. Chama a atenção o fato de que as equipes locais não sejam necessariamente formadas por profissionais de comunicação, o que não é considerado um problema pelos profissionais, quando há um relacionamento mais estreito entre sede/subsidiária. Eventualmente, os profissionais com formações específicas são terceirizados para algumas tarefas ou são contratadas agências locais. As estruturas de comunicação são pequenas no exterior e os fatores culturais da sociedade são os principais motivos que levam à preferência por se ter responsáveis locais para as questões de comunicação. Também chama atenção o relato de três profissionais sobre o fato da comunicação ter sido elevada recentemente à condição de setor essencial para o processo de internacionalização, ao lado de finanças, recursos humanos e departamento jurídico. Na Itautec, o maior volume de comunicação é disseminado a partir do Brasil, mas produzido em articulação com os representantes locais da empresa. Eventualmente, recorre-se à contratação de agências ou terceirização de profissionais com habilidades específicas. O gerente de comunicação externa, Alexandre Barbosa43, explica: Internalizamos muita coisa de comunicação, usamos pouco as agências. Fazemos poucos anúncios publicitários e as unidades têm autonomia para realizar os anúncios de ocasião. [...] No exterior, a equipe precisa ser um mix [de profissionais locais e representantes da sede da empresa]. Em alguns mercados é importante ter sempre uma pessoa local. Existe uma aceitação maior da sociedade quando o profissional local se apresenta como representante da empresa. É diferente quando o funcionário diz: Olá, sou Xavier Hernandes, da Itautec Espanha. [Sobre a comunicação] Temos pessoas com incumbências de desenvolver algumas coisas localmente. Essa pessoa acumula a função de aplicar a comunicação interna e desenvolver alguma ação de marketing local. Mas não são necessariamente profissionais de comunicação. [...] Eu não vejo problemas de trabalhar com agências locais. Acho, inclusive, que agrega uma vez que você vai adicionar a cadeia de valores que essa empresa pode abrir para você. No caso de uma empresa que está chegando, isso é mais importante ainda. Você precisa pedir licença 43 Entrevista concedida no dia 27/10/2009, na sede da empresa, em São Paulo. 101 antes de entrar. E a agência pode fazer essa abertura para você. (Alexandre Barbosa) A Embraer, cuja internacionalização está completando 30 anos, mantém estruturas locais de comunicação. Segundo o Diretor de Comunicação Corporativa, Carlos Camargo44, as equipes locais são mantidas em constante entrosamento com a sede brasileira, que centraliza a aprovação de materiais. Optamos por ter equipes de comunicação em cada unidade, para que pudéssemos ter um entrosamento com a cultura local muito maior. Cada unidade externa tem o seu presidente, que chamamos de “countrypresident”. Essa pessoa se reporta ao vice-presidente de comunicação e relações externas da Embraer, que fica no Brasil. A área de comunicação é centralizada no Brasil, sob responsabilidade desse vice-presidente. Nós desempenhamos as atividades do Brasil. Vamos supor que exista uma venda na França. Isso gera uma necessidade de comunicar sobre essa venda. O escritório francês vai escrever um briefing. Nós trabalhamos nele aqui no Brasil, devolvemos pra ele para aprovação da Unidade de Negócio. Depois isso volta para a aprovação final do vice-presidente de comunicação. E depois é divulgada por aqui e pelo escritório local (Carlos Camargo). Na Votorantim Cimentos, a internacionalização é um fenômeno mais recente, que teve início em 2002 e tem uma característica bastante específica: a expansão se dá por meio de aquisições de outras empresas. Há dois projetos para iniciar operações de greenfield, onde a empresa monta sua estrutura do zero. A empresa ainda está estruturando seu processo de comunicação e a prioridade é a comunicação interna. Nos últimos três anos, houve um movimento contínuo de envolvimento entre a coordenação brasileira e os profissionais locais para a realização de pesquisa de clima organizacional com todos os funcionários, a partir da qual ficou evidente a necessidade de criação de um sistema de comunicação, que vem sendo implantado gradualmente. Observa-se um grande respeito à liderança local e uma evidente vontade de construir junto com as diferentes equipes internacionais o trabalho de comunicação. O gerente de comunicação corporativa, Flávio Chantre45 detalha: Não é um segmento muito sofisticado em termos de comunicação, de gestão da reputação. Em todas as empresas que adquirimos, não existia (e ainda não existe) áreas de comunicação. Na verdade, alguma coisa era feita pelo 44 45 Entrevista concedida no dia 29/10/2010, no escritório da empresa em São Paulo. Entrevista concedida no dia 30/10/2010, na sede administrativa da empresa em São Paulo. 102 marketing, a comunicação interna feita pelo RH e algumas decisões informadas pela diretoria. Não existia nem uma área, nem atividades ou mesmo uma cultura de comunicação. [...] Naturalmente, você precisa ter uma equipe de comunicação local, com profissionais locais. Eu acho que você pode até ter uma grande interação [com a sede], até um reporte eventualmente, mas você precisa ter uma equipe local, que conheça a realidade local, que fale o idioma nativo. Se você tiver um brasileiro, que está no exterior há dez, quinze anos, tudo bem. Caso contrário, não faz sentido você deslocar um profissional pra fazer comunicação lá. Existem algumas atividades que você precisa ter um nativo local, como RH, comunicação, jurídico. Em outras áreas, como operações e finanças, não é necessário. Mas você precisa ter a coordenação global. Se você tiver um sistema de comunicação formatado, políticas e práticas estabelecidas, com uma pessoa ou equipe local, a coisa anda e anda muito bem. É claro que a estrutura local será sempre pequena e, quando necessário, contrata-se o serviço [complementar] (Flávio Chantre). A Odebrecht, que também está há mais de 30 anos no exterior, tem uma estrutura organizacional muito específica, o que se reflete também na sua comunicação. Cada obra é considerada um contrato, que é liderado por um executivo da empresa no local. Cada contrato está ligado a uma superintendência regional, que por sua vez, responde para as vicepresidências. A descentralização é uma característica muito forte e, segundo, o Diretor de Comunicação, Márcio Polidoro46, cada contrato deve cuidar de suas questões de comunicação, com equipes próprias, a partir de uma política e outros documentos orientadores produzidos pela sede corporativa. Sua equipe brasileira é pequena, formada por basicamente três gerentes: relacionamento com imprensa (Brasil e exterior), comunicação empresarial (produtos de comunicação), documentação e memória (há uma grande preocupação com a documentação histórica e a preservação da memória, como instrumento, inclusive, de formação de pessoas, de satisfação empresarial, disseminação de cultura). A nossa ação (diretoria global de comunicação) é quase que missionária, doutrinadora. Nossa ação operacional se limita ao Brasil ou nas chamadas 46 Entrevista concedida no dia 01/12/2009, na sede da empresa em São Paulo, e complementada por e-mail no dia 07/12/2009. 103 crises mundiais. O resto é absolutamente descentralizado. Não há uma relação de subordinação direta entre essas pessoas que estão na linha e a nossa área. Eles não se reportam a mim. A minha liderança é informal. A responsabilidade pela imagem é do líder [o principal executivo local]. O princípio da comunicação na Odebrecht é que a responsabilidade pela imagem é de cada um. Se existe alguém responsável por uma obra, a responsabilidade pela imagem da organização naquele espaço de impacto da obra, é do próprio líder. Ele deve mobilizar recursos para viabilizar essa comunicação, assim como faz para outras áreas, como engenharia, recursos humanos. Então, cuidar da comunicação é uma competência que se exige de um diretor de contratos na Odebrecht. Se ele não tiver a competência para gerenciar a comunicação e saber tratar da questão de imagem da mesma maneira que ele trata das outras questões, ele não é um empresário pleno, portanto, não está capacitado para assumir o negócio. [...] Teoricamente, cada vice-presidente teria que ter uma estrutura semelhante [à minha no Brasil] (Márcio Polidoro). De modo geral, percebe-se uma intenção de proporcionar autonomia para as unidades locais, o que soa, num primeiro momento, como um distanciamento da coordenação brasileira de comunicação em relação ao dia-a-dia das subsidiárias. Essa autonomia, entretanto, é relativa, pois há uma preocupação em sistematizar documentos, processos e políticas visando garantir um fio condutor comum. Cada empresa, à sua maneira, define um ponto de equilíbrio entre a autonomia local e a coordenação central. Em comum, existe a preocupação em fazer com que as unidades operacionais estabeleçam vínculo com a orientação global da empresa, o que se manifesta na organização de estruturas horizontais de comunicação. Na Embraer, por exemplo, essa integração recebe o nome de “células” e é decorrente de um processo maior de ganho de eficiência, desenvolvido com a ajuda de uma consultoria internacional em toda a empresa. [Partiu de] uma revisão de processos total na empresa. Começou na parte de produção e seguiu para outras áreas, inclusive de comunicação. A metodologia analisa o fluxo de valor, o fluxo de produção de qualquer que seja a atividade. E, para isso, você se organiza em células. Hoje, qualquer empregado está ligado a uma célula. Temos uma célula de comunicação, que juntou comunicação interna e externa. Aí percebemos que existia uma diferença muito grande entre os processos e optamos por ter uma célula exclusiva de comunicação externa. A minha é uma célula de comunicação global, portanto, Fort Lauderdale [EUA], Le Bourget [França], Cingapura e China [unidades internacionais] integram a mesma célula. Ao todo são 16 pessoas (Carlos Camargo). Na Votorantim Cimentos, foi criada uma Communication Task Force (força-tarefa em comunicação), um grupo de oito pessoas de diferentes unidades de negócios, que se reúne semanalmente há um ano e meio e utiliza um sistema de NetMeeting (internet, com telefone, que permite compartilhar arquivos de computador). A grande vantagem é que essa estrutura 104 estimula a participação e o diálogo permanente entre os responsáveis pela comunicação interna da organização: O grupo tem uma agenda, com os assuntos que serão discutidos naquele dia e quem falará sobre o tema. Discutimos qualquer tipo de assunto de comunicação, desde materiais, pautas ou outras discussões que precisam ser feitas. Começou devagar só com “bom dia”, “boa tarde” e hoje temos duas, três páginas de agenda. [...] Com esse grupo de trabalho conseguimos estabelecer a missão de comunicação, a política de comunicação interna, a política de comunicação externa, a política de utilização de marca e o sistema de comunicação. Como eles não são profissionais de comunicação, tivemos que começar do zero. Implantamos também os Communication Comitties – composto por representantes de diferentes áreas - que tem o objetivo de captar as novidades, levantar demandas, detectar o que está acontecendo na empresa. É uma reunião mensal. [...] Essas iniciativas viraram um exemplo para a empresa, porque estamos conseguindo avançar, implantar coisas novas com pouco ou baixos investimentos, sem [ a necessidade de] contratação. A experiência tem servido de exemplo sobre como você pode integrar brasileiros, americanos e canadenses a distância e fazer as coisas acontecerem. (Flávio Chantre). Como na Odebrecht a cultura de descentralização é muito forte, uma “cláusula pétrea”, segundo Polidoro, há uma preocupação em estabelecer condições para que as equipes locais o procurem, quando sentem necessidade de apoio: Eu tenho uma equipe, relativamente pequena, mas que anda pelo mundo afora. Eu tenho uma pessoa que cuida só do exterior. Esse profissional faz visitas periódicas para apoiar e acompanhar [o que está sendo feito]. Ele participa, por exemplo, da seleção de pessoas. Há quinze dias atrás, o pessoal do Panamá estava contratando um profissional de comunicação local. O nosso profissional foi pra lá, entrevistou a pessoa, avaliou as qualificações dela. Depois, essa pessoa passa por treinamentos lá e no Brasil. Trazemos esse profissional a São Paulo, levamos a Salvador para conhecer a área de memória e documentação (Márcio Polidoro). A sistematização de documentos, políticas e processos é vista como recurso fundamental para garantir a sintonia global e o equilíbrio entre as estruturas globais e locais. [...] Existe um fator cultural muito importante. Em geral, as empresas brasileiras são pouco sistematizadas, formalizadas. Nós fazemos muita coisa sem sistematizar. Fazemos muito, mas sem seguir o step-by-step, somos pouco afeitos a esse tipo de burocracia. Especialmente em comunicação. Agora, por exemplo, aprendemos a nos policiar. Não que não tenha nada. Existe, mas fica guardada lá no fundo da gaveta. Então, quando você vai para o exterior você precisa rever tudo isso, olhar para as políticas, retomar e definir quem faz o quê. São coisas que, até pelo tempo de maturação aqui [domesticamente], está no automático. É preciso rever e implementar no exterior. Fazemos muita coisa no Brasil e não formalizamos. As grandes empresas multinacionais que atuam no Brasil são muito mais rigorosas, com processos bem estabelecidos. O que acontece é que, no exterior, o funcionário segue rigorosamente o que está escrito nas políticas, nos 105 programas. Você vai fazer alguma coisa, o funcionário americano ou alemão pergunta: “na política diz que é pra fazer assim, que eu não tenho autorização, você me autoriza?”. E são coisas que nós aqui nem perguntaríamos, já teríamos resolvido. É uma questão de ter todos os processos bem estabelecidos (Flávio Chantre). Polidoro também destaca a importância de documentos que orientem sobre os princípios de comunicação, a fim de garantir uma unicidade de discurso: Temos uma política de comunicação. Ela dá as macro-diretrizes e as orientações. Em alguns aspectos, ela chega ao nível operacional, quase instrumental, sobre como fazer determinadas coisas. Mas o propósito dela é ser difusora de conceitos. Esses conceitos devem ser os balizadores da forma como cada unidade internacional se estrutura para interagir, através da comunicação, com a sociedade. [...] Temos um manual de relações institucionais. Todas as políticas relacionadas à comunicação estão dentro deste manual. Temos o código de ética, a política de relações institucionais, diretrizes para o gerenciamento de crises, diretrizes de relacionamento com os meios de comunicação, um manual de treinamento para se relacionar com a imprensa, política de contribuição social e cultural, uma política de marcas e patentes. Tudo o que o sujeito que está lá na obra no interior do Peru precisa saber está reunido aqui. Mas isso não é suficiente. Eu como diretor mundial de comunicação tenho que me responsabilizar pela aplicação correta disso tudo. [...] Parece uma coisa aparentemente banal, mas numa empresa como a nossa é indispensável, porque temos gente em Moçambique, Libéria, Djibut (na África). Para iniciar a obra, é preciso colocar uma placa. Como ele faz? Como fazer uma cartão de visita? Uma nota fiscal? Documentos? Crachá? A identificação dos veículos? Ele não vai vir ao Brasil para fazer isso, ele precisa ter as orientações para fazer por lá. Esse é o primeiro movimento que se faz. Acreditamos que, dessa maneira, as nossas pessoas de comunicação estão capacitadas a fazer a comunicação que a Odebrecht quer que ela faça no local, do modo como está estabelecido na política. A política trata dos conceitos – por que, pra que, quando, de que maneira e como se relacionar (Márcio Polidoro). Na Embraer, ao desencadear o programa de melhoria de processo que levou à formação das células, a empresa conseguiu aumentar sua eficiência. Em escala global, a normatização de prazos e o estabelecimento de processos bem definidos são condições determinantes: O que fizemos [a partir da célula global]: mapeamos todos os processos, por exemplo, a divulgação de um press release. Isso definiu como [o processo] acontece: gera-se um briefing na área de negócios, passa para a comunicação no Brasil; volta para a aprovação da área de negócios e depois volta para o vice-presidente. Foram estabelecidos prazos para tudo isso acontecer, senão vira festa. Por exemplo: você me passa o briefing, eu tenho quatro dias para devolver, você mais dois para aprovar e eu mais dois para a aprovação final. Trabalhamos nessa cadência, tentando sempre reduzir esses prazos. Mapeamos importantes processos: Press release, Revista Bandeirante, media hosting (convite à imprensa especializada para mostrar a fábrica. Essa é uma estratégia bem forte, bem presente), atendimento à imprensa, media 106 tranning, comitê de gestão de crise (temos um manual de gestão de crise, que prevê cada passo que deve ser dado em situações de emergências) (Carlos Camargo). B) Desafios e estratégias de comunicação Além da organização da estrutura da comunicação no exterior, há outros aspetos para com os quais a sede corporativa de comunicação deve estar atenta: como a apresentação corporativa da empresa, o mapeamento dos públicos com que ela vai se relacionar, o monitoramento e avaliação de imagens ou reputação. Os objetivos de comunicação estão ligados à estratégia de negócios e o relato dos profissionais dão conta de alguns desafios enfrentados: Um dos maiores desafios é conseguir estabelecer a força da marca e se apresentar em um segmento onde o Brasil não tem a força da tradição, como é a área de Tecnologia da Informação. Lá fora, o Brasil é normalmente associado a futebol, samba e commodittie e, em alguns casos, o avião. [Temos que] consolidar a marca e a referência [sobre ela]. No nosso caso, o próprio nome já é uma dificuldade: a pronúncia é muito difícil. O cuidado com o nome no exterior é muito importante (Alexandre Barbosa). A maior contribuição que a comunicação corporativa pode oferecer é facilitar os relacionamentos. Para que uma empresa chegue num país estrangeiro e realmente se estabeleça de maneira bem sucedida, ela precisa conquistar a confiança. A conquista da confiança passa por alguns fatores importantes. Primeiro: o conhecimento da realidade de onde se vai operar. O respeito à cultura, uma capacidade de trabalhar de forma muito aberta e integrada, com componentes que distinguem aquela comunidade, do ponto de vista étnico, religioso, político, hábitos, costumes, etc. Toda empresa precisa passar por esses processos para ser bem sucedida (Márcio Polidoro). Você tem um produto e diferentes consumidores. O desafio é você se fazer entender em diferentes línguas e diferentes culturas. Você não pode querer passar uma mensagem diferente do que é a mensagem corporativa. Então, você não pode mudar aquilo, mas tem que fazer a mensagem chegar àquela pessoa que você está direcionando. Mais do que fazer chegar, é fazer essa pessoa entender. O mais importante da comunicação não é passar a mensagem. Eu passo a mensagem que eu quiser. Agora, o cara entendeu? Esse é o problema. Ele entendendo, ele vai ajudar a passar aquilo à frente. Mas se ele não entendeu, ele pode até ter olhado, mas não vai passar aquilo pra frente. O grande desafio é esse: você tem diferenças culturais, mas o produto é um só, a empresa é uma só. Não dá pra separar isso (Carlos Camargo). 107 Na visão de Flávio Chantre, chega um momento em que a empresa precisa fazer um movimento maior de apresentação da marca para diferentes públicos, um trabalho que evidencie sua identidade, fortaleça a sua marca e dê a dimensão clara do trabalho e dos atributos da organização. [...] O nome é desconhecido no exterior e tem um peso gigante no Brasil e na América Latina. [...] Isso passa pela comunicação dirigida e não de massa. O nosso negócio é business-to-business e somos uma empresa de capital fechado. Não temos, por exemplo, a mesma necessidade que outras empresas têm de ser reconhecida pelo público. Também não precisamos vender ações. Por essas razões, não precisamos fazer uma campanha para o grande público. Mas temos que trabalhar com comunicação dirigida, passar para alguns públicos a noção real do tamanho da empresa. (Flávio Chantre). Observa-se que não há um movimento intenso em relação à comunicação com múltiplos públicos: o enfoque maior é no relacionamento com a imprensa e nos clientes diretos das organizações e acionistas. A Embraer, por exemplo, tem como prioridade as áreas de negócios de empresas, executivos e governos e mídia; a Itautec, as grandes corporações, públicos de feiras especializadas e a imprensa (nesse caso, aproveita também a presença de correspondentes de grandes grupos internacionais de notícias no Brasil); a Odebrecht, mídia e fortes programas de patrocínio e apoio a comunidades locais; e na Votorantim Cimentos, a prioridade é o público interno e imprensa (essa em pequena escala). São questões que ficam bem evidentes nas análises dos profissionais: Fazemos um trabalho direto com os clientes – procuramos mantê-lo informado, para ele ter cada vez mais certeza de que fez um bom investimento. Fazemos isso com press-release para a imprensa, que a área de negócios distribui para sua base de clientes, e a área de relações com investidores para os acionistas. Todo o press-release é feito em português, inglês e espanhol. Temos um americano e um uruguaio na equipe de comunicação brasileira (Carlos Camargo). A comunicação externa é zero. Concentra-se basicamente em relações com a mídia. Mas estamos bem longe, ainda. A empresa é muito conhecida no Brasil, mas fora somos pequenos, temos um peso menor e nossas fábricas não são tão conhecidas. Não temos tanta atratividade para a imprensa. Fizemos a missão de comunicação, a política de comunicação externa e interna. Entretanto, acreditamos que primeiro é preciso arrumar a casa, construir essa noção de empresa (Flávio Chantre). 108 Em alguns casos, comunicação interna, participação em feiras e eventos são responsabilidades de outros setores. Camargo ressalta a importância de dar a dimensão global para o trabalhador da empresa: No caso da Embraer, todo corte de peça tem um dono. Cada seção de fuselagem é cortada individualmente para o cliente. Por onde essa peça passa, vai uma plaquinha dizendo: “essa peça é do avião, número de série tal, adquirido pelo cliente tal”. Em seguida, vem um texto de apresentação do cliente, que informa também o número de aeronaves adquiridas por ele. Isso é legal para o empregado, que sabe qual foi o avião que ele fez. Além disso, é importante porque também reflete no programa de participação nos lucros. Todo empregado da Embraer é elegível para o programa de participação nos lucros. O funcionário sabe que se ele tratar a empresacliente bem, ela vai gerar mais lucros que irão ter reflexo na sua participação nos lucros também. Nossos clientes, em sua maioria, estão no exterior. Procuramos sempre associar o empregado ao cliente. Quando a empresa era estatal, não existia esse foco no cliente. Sobre a comunicação com funcionários no exterior, Polidoro faz uma importante observação: O desafio é principalmente lingüístico e cultural. No trato da informação não podemos descuidar das diferenças. Querer reproduzir com as unidades operacionais que estão no exterior a mesma comunicação usada no Brasil é um erro. Mesmo comunicados genéricos e destinados a todos precisam ser ajustados. Quando há algum objetivo claro a ser atingido, a comunicação não pode ter a presunção de ser universal. Com os públicos externos, os profissionais destacam a importância das estratégias de comunicação dirigida. Percebe-se também uma preocupação maior com públicos essenciais para os negócios e não é tão visível o foco em múltiplos públicos, como as empresas fazem ao tratar da comunicação doméstica. Possivelmente, isso está atrelado ao fato que, no exterior, as operações ainda são consideradas pequenas em relação aos principais competidores e/ou em relação ao porte e relevância da empresa no Brasil. Um outro fator importante, que pode estar associado a essa prepoderância da comunicação dirigida, é que as quatro empresas estão no negócio de business-to-business. Nem sempre a dispersão da mensagem vai trazer o melhor resultado. Eu trabalho com comunicação dirigida. O tempo de maturação de uma venda pode durar meses. [...] Nossa freqüência de comunicados lá fora é muito menor do que aqui (Alexandre Barbosa). [Sobre a comunicação dirigida] Especialmente importante se você não tem produtos dirigidos ao consumidor final. É preciso mapear muito bem os 109 públicos, como por exemplo, comunidade financeira, clientes, governos, meio ambiente, imprensa (Flávio Chantre). Outra questão que parece emergir com muita força quando a empresa expande internacionalmente suas atividades é a identidade e sua projeção. Em diferentes momentos das entrevistas, fica evidente que o fato da empresa ser nova, desconhecida, traz uma grande responsabilidade para a comunicação da organização. Além de ter que apresentar a organização, é essencial que essa comunicação consiga acessar a rede de significados dos públicos. Alexandre Barbosa é preciso na sua análise e, especificamente nesse caso, fica evidente a íntima relação que os conceitos de identidade, imagem e reputação têm na prática: Se no Brasil a Itautec é uma marca conhecida, no exterior ela é uma indústria desconhecida, que você precisa apresentar do zero. Isso é um desafio para nós. Até a pronúncia é complicada. Você precisa mostrar os atributos da marca. Por exemplo, dizendo que somos um grande fornecedor de um dos maiores bancos do hemisfério Sul. Precisamos explorar os predicados que a empresa tem, os prêmios que ela conquistou. É preciso trazer uma referência. É importante mostrar a flexibilidade do meu produto, preço, competitividade do produto brasileiro, conhecer bem a cadeia do negócio (...), mostrar as certificações ambientais, os clientes que adotaram, etc. (Alexandre Barbosa). Para mostrar que o nosso avião é eficiente, é moderno e seguro, nos Estados Unidos, é preciso dizer que ele é mais barato, que voa mais rápido, vai fazer ganhar tempo e economizar dinheiro. Na Europa, você também tem que falar isso, mas precisa enfatizar a questão do meio ambiente. No final a mensagem é a mesma, mas você precisa fazer com que ela tenha significado para cada público. Por isso é importante ter gente local trabalhando com você. [...] Há sempre algumas diretrizes globais da empresa .... [...] No fundo, você tem que direcionar a comunicação para aquele público que você quer atingir, tanto o púbico por conta do produto como para a região em que você está (Carlos Camargo) Apesar de não usar o termo “identidade”, Polidoro, destaca a questão dos atributos, como uma questão-chave a ser trabalhada: O primeiro contato que se tem no exterior é pautado pela desconfiança. O nativo recebe o estrangeiro, mesmo o grande empresário, com alguma desconfiança, sempre. Para se transitar desse primeiro contato – que é um contato desconfiado – para uma relação de confiança plena exige algum esforço. A comunicação corporativa cuida disso: de transmitir para a comunidade que a recebe uma imagem que faça com que aquela comunidade confie em quem está chegando. Por outro lado, os profissionais de comunicação devem ser capazes de compreender tão profundamente aquela comunidade nova que lhe permita emitir mensagens de chegada que sejam recebidas de forma aberta, compreensiva e legitimadora da presença. Não pode haver nenhum ruído, nenhuma ambiguidade, nenhuma dúvida entre a comunicação que eu tento transmitir, que possa deixá-la com alguma dúvida 110 sobre quem eu sou e o que eu quero. É preciso compreender de forma muito clara em que ambiente eu estou me envolvendo para que eu possa ser legitimado. Essa é a grande questão. A legitimidade social de uma empresa é assegurada pela comunidade com a qual interage. Eu chamo de legitimidade social a capacidade que a comunidade tem de aceitar essa nova empresa, esse elemento estranho que ali está chegando. Essa aceitação passa por um processo de respeito mútuo. E o respeito é a base da confiança. Se não houver respeito, a confiança não se estabelece. Quando se chega num país, que se traz um currículo de mal feitorias, obras não bem realizadas, denúncias públicas, ilícitos cometidos, esqueça! Como é que a sociedade vai saber o que você fez, do que você é capaz, quais são seus atributos? Através de uma comunicação competente (Márcio Polidoro). Flávio Chantre relata que enfrenta o mesmo desafio de ter que apresentar a identidade da empresa de uma maneira tal que ela faça sentido e leve à construção de significados no país de destino: É preciso pensar no funcionário da empresa que está sendo adquirida. Por exemplo, ele vem de uma estrutura de negócios familiar, onde conhece o dono ou a família. A empresa é adquirida por outra. E essa compradora é uma empresa brasileira! Ele pensa: “o que vai acontecer comigo? vão mudar tudo? vou perder meu emprego?”. É natural essa insegurança. Por isso precisamos ter um cuidado especial. Na nossa última aquisição, em 2008, durante o processo de formalização da aquisição, já procuramos trabalhar com essa questão. A empresa antiga passaria a assinar o nome junto com a marca VCNA47 e logo apresentamos quem era a VCNA: uma subsidiária norte-americana de uma empresa brasileira, tradicional, uma das dez maiores do mundo desse segmento, com outras operações no Canadá, nos Estados Unidos. O objetivo era fazer com que esse funcionário entendesse que era uma empresa de compromisso de longo prazo, muito sólida financeiramente, etc. Esse foi um aspecto muito positivo de aprendizagem nesse processo de integração (Flávio Chantre). Ao apresentar uma nova empresa, completamente desconhecida dos diferentes atores com os quais ela vai interagir, é importante ter uma visão clara sobre como a reputação afeta a percepção das pessoas e de que maneira ela pode ser trabalhada num primeiro momento pela comunicação, os graus de estereótipos envolvidos, a imagem que se tem do país e do setor de atuação, entre outros fatores. Como se viu no capítulo anterior, a reputação ajuda a chamar a atenção quando há baixo envolvimento das pessoas, servindo como uma rota periférica, que simplifica a realidade. Nesse processo, buscar “reforços de reputação” ao apresentar a identidade da empresa, pode ser uma boa estratégia para ajudar a reduzir a incerteza dos públicos com os quais ela vai interagir. 47 VCNA é a sigla de Votorantim Cement North America. 111 Depois, com o passar do tempo, a empresa com um forte programa de comunicação e envolvimento com os públicos locais, passará a desenvolver e acumular localmente a reputação. É por isso que um programa de comunicação com foco na gestão da reputação, e não apenas na transmissão de informações, pode contribuir para a consolidação da presença da empresa a longo prazo. Mesmo não falando diretamente sobre reputação, algumas declarações dos entrevistados mostram a importância de estratégias específicas que ajudam a agregar atributos à marca, como apresentar prêmios recebidos (reforço de reputação) e de ações para reduzir a incerteza dos públicos. Exige que se faça um reforço do valor entregado, das soluções ... O benefício da solução tem que ser muito claro. Pense o seguinte: você é um ilustre desconhecido que está chegando naquele lugar. A empresa que está no exterior normalmente tem uma posição sólida no Brasil e há uma mudança quando você sai. É preciso aliar humildade e competência (Alexandre Barbosa). Tem aspectos que são fundamentais .... Até a própria língua, por exemplo ... você precisa dominar. Não pense que isso é uma coisa estranha, não. Há empresas que se apresentam na própria língua em países estrangeiros. A estratégia tem que estar adequada à realidade que você vai enfrentar. Não existe um padrão. Não existe uma estratégia mundial, global. Existem estratégias locais (Márcio Polidoro). A imagem que o Brasil vem acumulando nos últimos anos no exterior tem sido apontada como um aspecto positivo, que agrega valor ao processo de internacionalização, ao invés de dificultar, como já ocorreu em outros momentos da história. Percebe-se que, de modo geral, os entrevistados valorizam a imagem do país e relatam que a imagem dos setores de atuação é que deveria ser melhor trabalhada. Influencia muito e, ainda bem, que favoravelmente, nos últimos anos. O Brasil que era um país visto com zelo, especialmente com a última crise, provou que é uma economia sólida, como uma legislação muitas vezes superior à norte-americana, com controles mais eficientes. É claro que ainda olham com diferença uma empresa alemã e uma brasileira. Assim foi também com a China, Índia (Flávio Chantre). [A imagem do setor] É um problema da indústria como um todo. No caso da indústria de cimentos, que é extrativista, você sempre precisa apresentar o que tem feito socialmente, ambientalmente. Por exemplo, quando você está no exterior, você precisa mostrar o que é feito socialmente no Brasil. Não é uma questão que afeta tanto a sociedade deles, mas ajuda a construir uma imagem responsável da empresa aqui (Flávio Chantre). 112 Depende muito da situação, do setor em que você está inserido. Na área de tecnologia, muitas vezes precisamos educar o cliente sobre o Brasil, como um fornecedor de nível internacional. Durante muito tempo fomos sozinhos. Mais recentemente começamos a ter um movimento grande de internacionalização das empresas brasileiras. Isso é até benéfico para nós [que estamos há mais tempo no mercado], porque desmitifica essa coisa da empresa brasileira não poder ser um potencial fornecedor (Alexandre Barbosa) Influencia muito e, normalmente, é favorável. A imagem do Brasil é muito positiva fora. Em todos os países onde estamos somos recebidos muito bem. [Por outro lado] ... a imagem [que a empresa tem] no país de origem sempre precisa ser trabalhada, não importa se vamos ou não para o exterior. Mas quando vamos, se as coisas por aqui não estão bem, a construção de relacionamentos lá fica comprometida e os primeiros contatos se darão em um ambiente de máxima desconfiança. Precisamos cuidar da imagem sempre, e quando partimos para uma atuação internacional, precisamos ter consciência de que não há barreiras para a comunicação. (Márcio Polidoro). A única opinião dissonante é a de Carlos Camargo, mas observe que, em sua análise, ele se refere a imagens específicas de setores de atuação e não do país, de modo geral: Influencia negativamente. Existem algumas imagens do Brasil que são negativas lá fora. Quando você pensa em ecologia, em floresta amazônica, tudo isso ... Você tem alguns produtos, por exemplo, a carne brasileira. Tem lugar que abomina a carne brasileira, porque falam que a gente desmata pra criar boi, ou que a gente não controla doenças da carne. Fazem o mesmo com a soja, criando barreiras por causa dos defensivos usados. Depende muito do que você está vendendo para influenciar o seu negócio. Se você está no ramo de turismo e derrubam um helicóptero no Rio, é péssimo. Para o nosso produto, não temos problemas, porque já nos firmamos como uma empresa de tecnologia de ponta (Carlos Camargo). Uma outra observação que chama a atenção é o status que a internacionalização da empresa tem junto à sociedade brasileira. Tanto Polidoro, quanto Cardoso e Barbosa têm experiências para comentar. “Somos muito demandados, até quando o tema não se refere diretamente ao nosso negócio. Ocorreu uma crise econômica no exterior? Liga pra lá pra repercutir. Isso é muito comum”, destaca Carlos Camargo. Barbosa lembra que muitos jornalistas brasileiros participam de feiras internacionais e, quando se deparam com a presença da empresa, acabam produzindo boas pautas para a mídia doméstica. Polidoro, inclusive, vai além e contraria até mesmo um dos “mantras” da academia internacional que prega a atuação internacional como uma atividade mais complexa do que a doméstica: 113 A atuação doméstica é mais complexa do que a internacional, porque tudo que acontece na área internacional - positiva ou negativamente - tem uma repercussão brutal no Brasil. Isso talvez pelo fato de o Brasil, ao longo da história, ter sido sempre um país voltado para si mesmo. O Brasil se internacionalizou nos últimos 30 anos. Mesmo quando saímos há 30 anos para andar por aí nas nossas obras, quem era internacional era a Varig. O Brasil se internacionalizou com suas empresas, da década de 1990 pra cá. Nós não temos a tradição da atuação pelo mundo, como têm os americanos, os europeus. A presença nossa, fora, causa sempre um interesse muito grande na imprensa brasileira. A repercussão de qualquer besteira que aconteça fora, é imensa no Brasil. Às vezes é uma coisa banal, uma coisa em que no próprio pais onde aconteceu a repercussão é mínima, porque está num contexto claro. Mas no Brasil, a repercussão é muito grande. Então, lidar com as questões da nossa presença no exterior aqui no Brasil, exige mais atenção, mais cuidado, mais presença física, mais trabalho, do que lidar com essas questões fora. Até porque, nossa presença fora não é tão grande – com exceção de Angola e Venezuela. Os outros países são operações menores, com poucos contratos. A experiência dos nossos executivos fora do Brasil - e que sabem tratar de comunicação - é colocada a serviço de resolver esses aspectos de maneira muito mais eficaz. Aliado a isso temos a tradição de boas equipes de comunicação. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos uma equipe extraordinária de comunicação, com o mesmo número de funcionários daqui, mas que trabalha com poucos contratos. Os profissionais demonstram uma preocupação em adotar sistemas de monitoramento ou avaliação de resultados, que são responsáveis por direcionar as estratégias de comunicação. Alguns processos são mais sistematizados do que outros, como poderá ser observado a seguir. Flávio Chantre, por exemplo, mostra que foi a partir da pesquisa de clima organizacional que se desenhou todo o plano de ação que levou à construção de um programa de comunicação na América do Norte. Quando chegaram os resultados [da pesquisa de clima], ficou evidente a falta de um sistema de comunicação. Os funcionários reclamavam que não sabiam o que estava acontecendo, não sabiam o que o chefe queria deles, qual a direção da empresa, para onde ela estava indo. Foi um resultado desfavorável e sabíamos que era necessário concentrar o foco em melhorar a comunicação dentro da empresa. A partir dai, passamos a atuar mais fortemente. (Flávio Chantre). Fazemos a avaliação de cada iniciativa. Em imprensa, por exemplo, comparamos com o custo de anúncio. (Carlos Camargo) Monitoramos a imagem pela internet, pelas redes sociais e pelos executivos locais. Nossa atuação de imagem no exterior não tem o mesmo peso que tem no Brasil (Alexandre Barbosa). Polidoro está desenvolvendo um modelo para avaliar o risco de imagem e o índice de favorabilidade na mídia. 114 Hoje começamos a desenvolver um modelo de introduzir a qualidade da imagem que o contrato tem na comunidade, através de medidas que vão impactar o resultado dele. O executivo tem a renda de salário e a renda variável e é na variável que a comunicação entra. A imagem é um resultado não econômico que ele é obrigado a gerar. Ele deve ter metas ainda no plano intangível. Ainda vamos ter que inventar como medir. Hoje temos o IQUEN – índice de qualidade de exposição na mídia – um acompanhamento diário, que nós fazemos. Além disso, administrativamente, a empresa adota a análise de risco de um negócio. Essa matriz engloba, entre outros fatores, mais de 120 riscos de imagem. Qualquer novo negócio passa por essa análise, até mesmo a decisão sobre a entrada em um novo país. E a equipe de comunicação é envolvida na avaliação dos riscos de imagem que determinadas operações carregam. A matriz de risco envolve: ambiente político, aprovação da população, polêmicas em relação ao projeto, se existe oposição à obra, se o cliente tem algum desgaste, se existe alguma oposição ao cliente, se há oposição política e se ela influencia a comunidade local ... São quase 120 riscos de imagem. E esses riscos foram definidos a partir de coisas que já aconteceram conosco, em situações diversas. A matriz foi implantada este ano. Os riscos são divididos em alto, médio e baixo, com graduação de 1, 2 e 3. A planilha processa a variável de risco, a partir de uma ponderação definida para cada critério e o índice resultante é o de probabilidade de divulgação pela imprensa (Márcio Polidoro). Os executivos entrevistados demonstraram preocupação em colocar a comunicação no papel de conselheira das equipes locais e a necessidade de envolvê-los pessoalmente com a sede da empresa, facilitando assim as interações futuras. O executivo local tem uma grande responsabilidade na coordenação. Mas todas as pessoas vêm pra cá em um determinado momento, no começo da carreira delas, para ver como nós trabalhamos. A adaptação pode ser local, mas é preciso que esse funcionário entenda e conheça como funciona a matriz. Essa também é uma maneira de evitar que se criem lendas. Quando você não conhece, lendas são criadas: as pessoas dizem lá no Brasil é assim, a matriz faz de determinado jeito, etc. (Carlos Camargo). 115 Hoje estabelecemos uma relação de consulta prévia naquilo que ele tem dúvida. A minha equipe está à disposição para apoiar. Mas o recurso é dele, ele sabe como funciona, qual a necessidade de comunicação. Mas tem algumas coisas que são sagradas, como a cultura, a filosofia da empresa, o uso de determinadas palavras. Se ele tem dúvida sobre o que está fazendo, a minha equipe o apóia. [...] A melhor forma de trabalhar é identificar profissionais locais e participar do processo de desenvolvimento deles naquilo que se refere à cultura da empresa. Essa é uma outra questão importante. Não podemos permitir que modos de se ver a realidade local possam afetar coisas que são princípios. Determinadas formas de relacionamento com comunidades, com imprensa são locais, são típicas, se distinguem pela própria natureza, mas há uma base que não muda nunca, que são os princípios, os conceitos da organização. Deve haver um processo de transferência disso e de aculturamento dessas pessoas, para que haja um alinhamento conceitual e cultural. C) Forças regulatórias Nessa categoria, procuramos explorar como as estratégias de comunicação e a própria atuação da empresa são influenciadas por forças regulatórias, como a cultura, questões ambientais e políticas. São temas amplamente estudados pela literatura e que se manifestam ao longo do processo de troca comunicativa da organização. No decorrer das entrevistas, as questões se manifestavam em diferentes contextos, que envolvem desde a comunicação interna até decisões sobre reformulações de linhas de produtos e na condução dos negócios. Selecionamos alguns aspectos que mais chamaram a atenção. I) O relacionamento com diferentes culturas: Um dos profissionais destaca a necessidade de humildade e respeito ao se relacionar com outras culturas, especialmente nas relações com o público interno. Em sua visão, é muito importante saber reconhecer quando essas estruturas culturais estão em jogo, sendo esse reconhecimento essencial para o bom andamento das atividades: Muitas vezes precisamos aprender o time [tempo/ritmo] de desenvolvimento do outro. Cada cultura tem um time e você precisa saber respeitar isso. Os canadenses, por exemplo, estão muito mais para europeus do que americanos. Os americanos são mais objetivos, diretos, por outro lado, o processo de decisão é mais lento. A negociação com sindicatos, por exemplo, dura meses e eles falam que é muito complexa. Na verdade, é o ritmo que é completamente diferente. Aqui, a negociação é mais tensa, só que se resolve mais rápido. Lá negocia-se mais tempo, porém o acordo é fechado por um prazo mais longo. O mural tem outra conotação: funciona mais como serviço de utilidade pública do que de informação corporativa. (Flávio Chantre). 116 E quando os princípios da empresa entram em choque com a cultura? Polidoro é taxativo: Quando os princípios de uma empresa entram em choque com os valores de um cultura a sobrevivência do negócio não ocorre. É uma convivência impossível – e se a empresa abre mão dos seus princípios para que a adaptação aconteça, seu futuro também estará comprometido, porque ficará vulnerável com a ambigüidade que se instalará em seu interior. Valores não são atemporais nem universais. A diversidade, que é um valor no ocidente, não faz parte do ambiente das empresas no mundo árabe, por exemplo. E querer impor também não está correto. Mas princípios são universais, atemporais e nobres. Por isso, não podem ser questionados mesmo que a conveniência de um bom negócio possa ser uma tentação para as pessoas. A Odebrecht não conseguiu se consolidar na Alemanha porque é um país onde a centralização de poder e a autoridade é um valor. E a descentralização, mediante o processo de delegação, é um conceito fortíssimo de nossa cultura – porque está baseado na confiança, que é um princípio. Nosso modelo, totalmente descentralizado, não deu certo lá. E nós saímos do país (Márcio Polidoro). II) Ao acessar a rede de significados da sociedade: os entrevistados destacam como a cultura age no momento da regulação dos significados e é determinante para o sucesso da iniciativa de comunicação. Eu preciso fazer um trabalho de apresentar a empresa do zero a cada vez, porque pode ser que tenha alguém que já conheça ou que esteja conhecendo a empresa pela primeira vez. Quando fazemos a tradução, nossos tradutores não fazem uma tradução mecânica, eles fazem uma adaptação também. Por exemplo: se eu estou repassando um atributo de economia de energia ou de sustentabilidade, eles vão fazer a adaptação dessa linguagem da maneira como as pessoas tratam desses assuntos em determinado mercado. É preciso que a mensagem tenha significado para as pessoas. Tem um agravante ainda: se eu faço só a tradução literal, como já vimos acontecer com concorrentes, pega super mal, porque demonstra que a empresa está fazendo a coisa de um jeito amador. É um sinal que diferencia um aventureiro de uma empresa compromissada em desenvolver o mercado (Alexandre Barbosa). Outra questão que também incorporamos no momento de produção do pressrelease e dos materiais de folheteria é a estrutura comercial de cada cultura, que tem um time [tempo/ritmo] diferente. Não só mandamos traduzir, mas adaptamos para a necessidade de cada mercado, seja essa necessidade técnica, de negócios ou regulatória (Alexandre Barbosa). 117 A comunicação sempre tem que ser clara, concisa e objetiva. Ela precisa estar focada no benefício, no valor agregado para o consumidor. As especificidades que precisam ser observadas são cultura, marcos regulatórios e conhecimento do mercado. O respeito ao tempero local é muito importante porque as pessoas que consomem têm o entendimento que elas estão girando a engrenagem econômica daquela região. Mesmo sendo uma empresa global, eu preciso mostrar que eu estou comprometido também com o desenvolvimento daquele mercado (Alexandre Barbosa). III) A natureza do sistema de mídia: as relações com a imprensa são conduzidas de maneira distintas em cada país, em função da natureza do sistema de mídia, do que é valorizado ou descartado pelos jornalistas. É mais uma oportunidade de se observar como a cultura influencia, inclusive, a cultura técnica de uma profissão, ou seja, o modo de fazer jornalismo, e reflete a importância de se trabalhar sempre com foco nas estruturas de sentido dos públicos de cada país, descartando definitivamente a fórmula one-size-fits-all [um único tamanho serve para todos]. A imprensa americana é bastante receptiva ao investimento social feito por empresa privada. Ela valoriza e realça. Isso fez com que fossemos mais próativos nos Estados Unidos para fixar a imagem de empresa que realmente age do ponto de vista da responsabilidade social de forma muito forte e densa [...] Na Líbia, a imprensa é totalmente controlada, existe um único jornal, que tira 5 mil exemplares. Não é uma sociedade leitora. Como é que vamos nos comunicar com essa sociedade? Temos que criar mecanismos próprios. A comunicação é totalmente dirigida. Nós temos um boletim, que também tem um acompanhamento do estado. Por que é assim que está estabelecido, é uma sociedade baseada em um determinado conjunto de leis. Nós temos que nos adaptar. Ou, então, não vamos fazer negócios com eles. Essa é uma realidade (Márcio Polidoro). [...] Nós temos que aprender a lidar com as diferenças. O desafio é aprender essas diferença não por nós, mas pelo profissional que está lá. Ele tem que nos ensinar essas coisas. É importante na medida em que nós passamos a ter um painel da diversidade de como se opera a comunicação no mundo todo (Márcio Polidoro). IV) Regulamentações ambientais: Assim como a cultura, as questões ambientais também atuam como uma força reguladora do processo de comunicação, especialmente em países mais desenvolvidos, onde a preocupação com o meio ambiente já está em uma fase mais avançada do que em países subdesenvolvidos. A regulamentação ambiental funciona como uma barreira não-tarifária que impede ou dificulta a entrada de empresas em determinados mercados. A Itautec enfrentou esse dilema em 2007 com suas operações na Europa e precisou adaptar no Brasil sua linha passando a produzir equipamentos isentos de uma série de substâncias tóxicas ou nocivas ao meio ambiente, como o chumbo e o cádmio, entre outras. 118 Essas questões ambientais passaram a fazer parte do cotidiano da comunicação, que precisou aprender como usá-las nas estratégias de diferenciação da marca: Por exemplo: recentemente, desenvolvemos um artigo que saiu em uma publicação portuguesa da área de automação comercial, do qual falávamos da questão da TI Verde (Tecnologia da Informação). Qual era nosso pressuposto: desenvolvo um produto mais adequado ambientalmente, mas ainda não posso cobrar mais por isso; mesmo porque no Brasil ou no exterior ainda não existe essa percepção de valor de que vale a pena comprar um produto ambientalmente correto. No mercado português, já existe um outro nível de preocupação com o mercado pós-consumo. Como é que se faz o descarte do equipamento de informática? É preciso pensar na fase de pósconsumo, como fazer esses materiais voltarem para a cadeia produtiva. Lá já existe uma consciência ambiental que, no caso do Brasil, ainda estamos maturando. É preciso ter o entendimento das necessidades do cliente português, da forma de atuação nesse mercado (Alexandre Barbosa). D) Perfil Ideal Na última categoria de análise, procuramos reunir as opiniões referentes ao perfil ideal para o executivo global de comunicação. A flexibilidade para lidar com as incertezas é um traço comum das análises feitas. Uma formação acadêmica sólida, conhecimento de idiomas e interesse são essenciais. O entendimento de contextos globais é muito importante. É muito desafiador: você precisa entender a dinâmica de altas e baixas dos mercados locais. Não é mais difícil do que incorporar as diferenças regionais. Precisa ser muito flexível e saber usar as tecnologias (Alexandre Barbosa). Acho que o fato de ser uma pessoa informal, brincalhona, etc, facilita muito. Se for uma pessoa muito impositiva, com ritmo muito acelerado, que quer tudo pra ontem, acaba criando uma barreira que impede as coisas de acontecerem. É preciso ter sensibilidade para olhar o outro, para entender o ritmo de cada um. Porque as culturas são diferentes e você precisa aprender a conviver com isso (Flávio Chantre). Você tem que saber gerir o negócio, conhecer profundamente o negócio para saber do que você vai falar. Tem que saber montar e coordenar uma equipe. Sozinho ninguém fica em pé. É preciso saber gerir as pessoas que estão à sua volta (Carlos Camargo). 119 […] É um trabalho tenso, fisicamente exigente e para fazê-lo bem o profissional precisa ter repertório cultural amplo, saber fazer (não basta saber pedir um bom texto – é preciso que saiba escrever um excelente texto) equilíbrio, disposição para influenciar e ser influenciado e humildade nos enfrentamentos com o novo, em realidades tão diversas. Não pode ser apegado a fórmulas e estar sempre aberto para aprender (Márcio Polidoro). Complementando seu raciocínio, Polidoro considera as pessoas que formam a equipe internacional como o elemento essencial para o sucesso de um programa de comunicação no exterior: A capacidade das equipes é fundamental. Até porque, hoje, os meios são universais. Na verdade, o meio eletrônico, que se usa muito nas empresas, está ai, disponível em qualquer lugar. O mais importante é as pessoas compreenderem de fato qual é o papel de um comunicador empresarial. Essencialmente, essa compreensão passa por algumas qualificações, da qual a mais importante é cultura. Nós precisamos ter pessoas na área de comunicação que tenham uma cultura que vai além da mera formação do jornalista ou do relações públicas. Não estou dizendo que as pessoas que saem das escolas de jornalismo ou de relações públicas são incultas. Mas a cultura que elas adquirem na universidade é restrita para o tipo de desafio que a atuação internacional impõe. O sujeito tem que realmente buscar ampliar sua qualificação nesse componente. O repertório cultural dos profissionais de comunicação tem que ser mais diversificado, ampliado, enriquecido. É um processo de auto-conhecimento. Um desafio para cada profissional de comunicação. Quando eu busco identificar alguém para atuar na nossa equipe fora, eu procuro focar muito nessa predisposição para autodesenvolvimento, considerando que o principal desafio hoje é o desafio da mudança. As pessoas precisam estar muito atentas a tudo que está se transformando, nos fenômenos comunicacionais do momento histórico, como a social mídia (Márcio Polidoro). 1.3 ANÁLISE DOS DADOS A pesquisa teve por objetivo conhecer como os profissionais estão trabalhando as questões de comunicação na arena internacional. A partir das entrevistas foi possível ter uma visão sobre alguns dos desafios por que passam as organizações brasileiras. Não são dados conclusivos, até porque o número de empresas participantes é pequeno e, coincidentemente, todas atuam no mercado de business-to-business. É provável que nas empresas cujo foco é o consumidor final, as experiências guardem algumas diferenças. A clareza e a franqueza com que os profissionais apresentaram suas experiências e visões, favorece a análise dos aprendizados decorrentes do processo, a identificação das similaridades e dos desafios que ainda precisam ser enfrentados. A visão contextualizada, que considera os fatores locais como determinantes para a estratégia de comunicação, tem orientado as práticas de comunicação dos 120 profissionais/empresas. Essa postura fica evidente nas colocações sobre a adequação de mensagens e do tom da comunicação, ambos baseados nas experiências dos executivos locais. Os profissionais estão procurando atuar efetivamente com a comunicação, procurando organizar estrutura e estratégias de comunicação e evitando a tática de reproduzir (ou melhor, traduzir), a atuação realizada no Brasil. Não há uma regra universal que oriente como deve ser organizado esse processo, mas fica bastante clara a relação entre estrutura organizacional e estratégias e estruturas de comunicação. Não há como ser diferente: a comunicação reflete o comportamento da empresa. Qualquer coisa diferente disso, gera uma inconsistência entre comportamento e discurso. Um fator que não havia aparecido de maneira tão evidente na pesquisa bibliográfica é a importância dada pelos próprios profissionais para a sistematização de documentos, processos e políticas que norteiam a atuação das equipes internacionais. Na prática, o que se percebe é que esses documentos funcionam como o fio condutor que equilibra a necessidade de autonomia local e uma governança global. Como afirmou um dos entrevistados, a sistematização foge um pouco do estilo do brasileiro, mas precisa ser incorporada em uma organização com atuação em diferentes sociedades. A relevância dos processos horizontais, que integram as equipes sem necessariamente envolver relações de subordinação, confirma-se na prática desenvolvida por esses profissionais e parece ser realmente uma condição para que o trabalho flua e produza interação permanente. Outro fator que merece destaque, alusivo à integração de equipes, está nas iniciativa desses profissionais em oferecer oportunidades de conhecer a sede da empresa e suas estruturas de comunicação, o que contribui para dar a dimensão do porte e da relevância da empresa para a qual estão trabalhando, além de propiciar um contato mais intenso com a cultura brasileira. Chama a atenção a força com que as questões relativas à gestão da identidade, imagem e reputação aparecem implícitas em diferentes oportunidades durante as entrevistas. Na maioria dos casos, elas não são destacadas com a precisão conceitual acadêmica, mas é possível perceber como interferem na prática cotidiana desses profissionais em relação à atuação internacional. Essas questões ganham relevância no exterior, porque a empresa se coloca em comunicação com um outro que é muito diferente do seu público usual. Essa condição, faz a organização olhar para dentro de si, a se questionar sobre atitudes e comportamentos e desperta para a necessidade de ter a clareza absoluta sobre quem ela é. E isso tudo precisa fazer sentido diante desse outro. Da condição de líder, de empresa bem conhecida, passam a ser desconhecidas e tem início um jogo que articula, na prática, os três 121 conceitos. Conhecer melhor as regras desse jogo, deixando de lado o conhecimento superficial sobre esses conceitos, certamente ajudará a desempenhar ainda mais estrategicamente o papel da comunicação. A experiência dos profissionais brasileiros mostra uma comunicação madura, mas com alguns desafios a serem superados, entre eles: a necessidade de integração das “caixinhas” do marketing, comunicação externa, interna, participação em eventos e outros programas de relacionamento; a concentração excessiva na imprensa como público prioritário para as estratégias de comunicação; a necessidade de transição de um modelo baseado na transmissão de informações para um modelo mais democrático, com mecanismos que permitam antecipar e responder às diferentes expectativas dos públicos, gerando, consequentemente, uma maior zona de influência entre públicos e organização; além de maior ênfase nas práticas de avaliação de resultados e de qualidade de relacionamentos. Sobre a questão da autonomia das unidades, é importante considerar os diferentes graus de maturação da própria comunicação organizacional nos diversos países: como há diferenças significativas na condução prática, proporcionar a participação desses profissionais em redes de aprendizado internas torna-se também um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para contribuir com o desenvolvimento e o amadurecimento desses profissionais que estão na linha de frente da comunicação, naquela sociedade. 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste estudo, procuramos conhecer as dimensões envolvidas no processo de comunicação de uma organização com atuação internacional. Ao traçar nosso “itinerário do conhecer”, buscamos diferentes perspectivas teóricas que pudessem lançar luz sobre os desafios envolvidos com a atuação da comunicação no exterior. A internacionalização das empresas brasileiras é um fenômeno que cresceu em intensidade a partir da década de 1990 e, dentro da comunicação, ainda é um fenômeno pouco estudado. Como vimos no Capítulo 1, a própria literatura de administração e negócios internacionais, ao tratar do processo de internacionalização das empresas originárias de países emergentes, não identifica a comunicação organizacional como questão essencial para a empresa que passa a atuar no exterior. Nesse caso, a maior parte das preocupações está ligada às estratégias de marketing internacional, normalmente focadas na promoção de produtos. Sabemos que a necessidade de comunicar de uma empresa vai muito além da divulgação dos produtos que ela oferece. A sofisticação dos contextos em que as empresas estão inseridas exige que elas se posicionem de forma clara e coerente diante de uma variedade significativa de públicos. O próprio cliente final – aquele que adquire seu produto ou serviço – está muito mais crítico e observa uma série de fatores que vão além do produto que ele está comprando. As pessoas estão mais bem informadas, aliás, agora elas são muito mais ativas na busca dessa informação; a velocidade com que um fato ganha o mundo, por vezes, ainda nos assusta, e existe uma expectativa cada vez mais alta em relação aos comportamentos e relacionamentos de uma organização. Surpreende o fato desse novo contexto comunicativo não receber o merecido destaque no campo que analisa e estuda como as organizações vêm conduzindo seus processos de internacionalização. A evolução por que a comunicação organizacional passou nos últimos anos está levando-a a assumir um novo patamar estratégico no dia-a-dia das organizações. E deveria ser natural que essa nova forma de atuar se apresentasse também ao longo do processo de internacionalização. De uma área tarefeira, produtora de peças de comunicação institucionais, como jornais corporativos, eventos, comunicados para imprensa, para citar algumas das atividades, ela já possui conhecimento suficientemente acumulado para se apresentar como um setor estratégico para o desenvolvimento institucional. Portanto, tem condições de oferecer uma contribuição importante para o processo de internacionalização, sem precisar ficar “guardada” sob o guarda-chuva do marketing internacional. Ela também não pode se 123 contentar a continuar exercendo seu antigo modelo de atividade meramente tarefeira, assumindo apenas a responsabilidade pela produção e tradução de peças de comunicação institucional. Isso, na verdade, não é comunicação, é transmissão de informações. E a comunicação organizacional tem uma missão que extrapola de longe essa visão reducionista. Comunicar é se envolver em uma relação dialógica com o outro, o que pressupõe falar, mas também ouvir. Essa relação não precisa ser necessariamente interpessoal. Um, pode falar com muitos, mas é preciso que esses muitos também tenham oportunidades de revelar suas expectativas, ansiedades e avaliações para e sobre esse um. Comunicar também é ir ao encontro do outro, é procurar saber como ele constrói significados a partir de uma mensagem. Comunicar pressupõe uma interação, ou seja, é preciso haver troca de informação. Mais do que isso, essas informações que são trocadas precisam ser apropriadas como discursos significativos por todos que participam do ato de comunicação. Comunicar envolve tudo isso e, na verdade, muito mais. Essa, sim, é a essência do trabalho da comunicação organizacional. Nós que estudamos comunicação, um dia, lá nos fundamentos da nossa área, descobrimos que toda comunicação contém um ato de conteúdo (informação) e outro de relação. Com o passar dos anos, fomos nos esquecendo disso e acabamos ficando apenas com a parte que nos interessa: a informação. O aspecto relacional de um ato de comunicação costuma ficar esquecido, mas ele envolve uma relação de interpretação que se constrói além do conteúdo da mensagem. É essa relação que classifica o conteúdo, que permite sua interpretação. E ela não pode ser subestimada. Muito menos esquecida pelo profissional de comunicação que trabalha em uma organização com presença internacional. Para colocar a organização em comunicação com os diferentes públicos, a comunicação organizacional utiliza-se de uma série de metodologias, que permitem analisar cenários, identificar públicos, canais mais apropriados, momentos oportunos, abordagens adequadas para que as mensagens façam sentido, além de monitorar o surgimento de questões que possam afetar o desempenho da organização e as avaliações dos públicos sobre a empresa, entre outras atividades. É um trabalho a ser desenvolvido com muita técnica, pesquisa e também sensibilidade. Daí, a importância do profissional, especialmente do principal líder, desenvolver e dominar essas competências, a fim de que a área possa apresentar-se como setor estratégico para o processo de internacionalização. Ao dar início a esta pesquisa, nosso desafio era conhecer as dimensões que afetam o processo de comunicação das organizações no exterior. Esse foi o “ponto de partida” da investigação. Acreditamos que, ao conhecer algumas dessas dimensões, o profissional tem melhores condições de compreender o cenário onde se dá o processo de colocar a organização 124 em comunicação com novos públicos, cuja maior particularidade é o fato de serem provenientes de outras culturas e sociedades. Nesta seção, onde procuramos fazer nossas considerações finais sobre esta pesquisa, destacamos, a seguir, alguns aprendizados. Ao longo dessa viagem, navegamos por diferentes mares, nos quais observamos que os fundamentos da comunicação corporativa – como planejamento, programas e avaliação – devem ser sempre considerados em relação às particularidades de cada sociedade, e que a natureza global da comunicação consiste justamente em articular comunicação e cultura, de modo que o processo comunicativo possa ter significado junto aos seus públicos. A não observância dessa condição compromete a atuação estratégica do profissional. Um caminho natural foi a análise da perspectiva das relações públicas internacionais, o que certamente já garantiria um amplo panorama dos vários aspectos envolvidos. Acabamos nos envolvendo em um outro circuito – o da comunicação e cultura, proposto por Stuart Hall, dentro dos Estudos Culturais. Com o número crescente de empresa brasileiras expandindo internacionalmente suas atividades, a necessidade de conhecer as especificidades da comunicação no exterior, é um desafio que estará cada vez mais presente na vida dos profissionais. E, nesse caso, um comunicador não pode negligenciar as condições que determinam o processo de comunicação quando há duas ou mais culturas interagindo. Nesse sentido, o modelo de Hall, apresentado no Capítulo 2, é bastante didático ao colocar diferentes momentos de um mesmo processo em articulação. Analisar o processo de comunicação a partir dos momentos de produção, representação/distribuição, regulação, identidade e consumo é uma maneira de identificar fatores que influenciam na construção de significados e, consequentemente, no processo de identificação entre empresa e públicos, e vice-versa. A análise deste modelo nos permite considerar também que o responsável global pela comunicação (ou sua equipe) não precisa, necessariamente, compreender a fundo as estruturas de sentido das sociedades em que a empresa está se inserida. Até porque isso é impossível. Ele não nasceu, não cresceu e não vive naquela sociedade. Para isso, ele pode contar com a ajudar de nativos, que o ajudem a acessar essa rede de significados, ou de profissionais de comunicação locais e agências. Mas esse profissional tem a obrigação de compreender que é da relação entre as estruturas de sentido que nasce o significado. Portanto, o sucesso da comunicação, a conquista da legitimidade, da admiração, do respeito, passa pelo acesso à rede de significados de determinada sociedade. Compreendendo a articulação entre comunicação e cultura, o gestor tem melhores condições para decifrar como processos típicos da comunicação organizacional serão afetados no exterior, a exemplo das questões de identidade, imagem e reputação. Monitorar os 125 significados que surgem quando esses conceitos são colocados em prática em outras sociedades é, talvez, uma das maiores contribuições que a comunicação possa dar para a organização com atuação internacional. Ao estabelecer como rotina o acompanhamento permanente de processos essenciais de comunicação, como os cuidados com a expressividade da identidade, o monitoramento das imagens que estão sendo formadas, a qualidade dos relacionamentos e, consequentemente, a reputação que está sendo acumulada no exterior, a comunicação estará agindo estrategicamente e estabelecendo mecanismos que ajudem a organização a ir ao encontro das expectativas dos públicos, sem abrir mão de sua identidade e de um fio condutor comum a todas as suas unidades externas. No ambiente internacional, cresce em importância a necessidade, defendida por Martín-Barbero, de se deixar de lado a figura do comunicador intermediário, aquele que defende seu ofício, o de uma comunicação de elite, feita por poucos emissores e muitos espectadores, para se assumir o papel de mediador, o profissional que ao atuar tem a preocupação de colocar em comunicação os diferentes atores sociais e, para isso, trabalha buscando abrir oportunidades de aumentar o número de emissores e criadores de mensagens. Ao adotar essa postura, o profissional contribui para que a empresa reconheça a competência comunicativa dos públicos e a natureza negociada do conceito de comunicação, o que é essencial em um contexto comunicativo onde os significados surgem da interação entre diferentes formas de ver o mundo e de organizar a informação. Nós mesmos – brasileiros – tivemos várias oportunidades de ver como organizações multinacionais podem ser arrogantes, predatórias e comprometidas apenas com seus próprios lucros. Agora, embora considerado um fenômeno tardio, temos a oportunidade de fazer diferente, uma vez que o mundo mudou – e permanece em constante e acelerada mudança. A postura autoritária das organizações não tem mais espaço em uma sociedade em que muitos adquiriram a importante capacidade, e as ferramentas apropriadas, de se tornarem ao mesmo tempo emissores e receptores da informação. Entender-se como mais um agente dentro de uma rede discursiva que constitui a atual sociedade é uma condição para a organização que pretende ter vida longa. E, se esse projeto, passa por uma presença em vários países, a consciência sobre esse fato passa a ser um valor importante para a comunicação. Outro aprendizado decorrente da pesquisa bibliográfica vem da experiência do antropólogo Edward Hall, que nos alerta para a importância do educar-se para a questão cultural. Para quem trabalha em ambientes multiculturais, é imperativo despir-se de preconceitos, aprender a reconhecer os momentos em que a sua estrutura cultural “oculta” 126 está determinando seu modo de agir, de analisar, de se comportar, de significar. É tão importante quanto saber reconhecer isso no outro. Sabemos que a própria comunicação organizacional evoluiu muito nos últimos trinta anos, quando começaram os primeiros movimentos de internacionalização das empresas brasileiras. Hoje, a velocidade com que as coisas acontecem e a profunda interconexão entre os fatos faz com que os cuidados com a reputação da organização passem a ser uma das principais metas da comunicação organizacional. E não há como falar em reputação sem pensar nos relacionamentos, por meio dos quais são construídas as avaliações sobre as atitudes, produtos e serviços de uma organização. Monitorar a reputação é uma forma de se antecipar e responder a comportamentos destes públicos que possam afetar as organizações. Talvez, por não dominarmos com precisão os conceitos, por não aprofundarmos nossos conhecimentos, não conseguimos avançar rumo a uma atuação efetivamente estratégica, que ajude a desenvolver e aprimorar a reputação das organizações em que trabalhamos. Como vimos, não existe uma fórmula padrão. Há, sim, alguns parâmetros que podem nos auxiliar a avançar, a encontrar a ponta do novelo, a navegar rumo a um propósito específico. Esses conceitos, que chamamos nesta pesquisa de raízes conceituais da área e foram discutidos no Capítulo 3, englobam as principais questões envolvendo identidade, imagem e reputação. O profissional de comunicação tem que ser hoje um profundo conhecedor da identidade da organização, conhecer seus valores mais íntimos, não apenas aqueles expostos no quadro da missão e visão; precisa saber interpretar as sutilezas da cultura interna e acessar o discurso “não-dito”, as ações implícitas. Enquanto liderança, ele deve estar preparado para orientar sobre a melhor maneira de expressar a identidade da empresa, para atuar como um conselheiro interno, alertando sobre as coerências das decisões que estão sendo tomadas. Ele também precisa conhecer e monitorar o processo de formação de imagens, zelar para que comportamento, discurso e imagem sejam consistentes. Em nosso “itinerário do conhecer” buscamos também os caminhos trilhados e os desafios enfrentados pelos profissionais brasileiros que estão desbravando na prática essas questões. Desta vez, fizemos o caminho inverso das multinacionais brasileiras: fomos em busca das experiências domésticas. Hoje, a maior parte da teoria que trata dos aspectos internacionais da comunicação vem do exterior, especialmente da academia americana e européia e é conseqüência da experiência acumulada, em boa parte, pelas multinacionais originárias dessas regiões. Ao contrário do que esperávamos, não encontramos uma comunicação meramente tarefeira, ocupada em traduzir as peças de comunicação e alicerçada 127 exclusivamente em um modelo de transmissão de informações. Deparamos com profissionais bem preparados e conscientes das particularidades da atuação internacional, em um nível de maturidade relativamente avançado. O rico relato dos quatro profissionais brasileiros entrevistados nos permitiu extrair algumas lições práticas, ainda que a abrangência do estudo nos impossibilite de fazer generalizações: • Em relação à organização da estrutura: a sistematização de políticas, processos e outros documentos orientadores são fundamentais para equilibrar a necessidade de autonomia das unidades externas com a coordenação de uma estratégia de presença global; a organização de estruturas horizontais de comunicação são uma condição para que o trabalho flua em um processo de constante interação entre a sede corporativa e a unidade operacional. Um fator que merece uma atenção especial é a observação feita por três entrevistados sobre uma mudança de postura de suas organizações que passaram, nos últimos anos, a elevar a comunicação como setor essencial a ser envolvido no processo de internacionalização, ao lado de finanças, jurídico e recurso humanos. • Em relação aos desafios e estratégias: o envolvimento dos gestores da sede corporativa com a alta administração é necessário para se acompanhar com agilidade necessária as questões que se desenvolvem em escala internacional; a adoção de uma postura de conselheiro que orienta sobre as questões de comunicação, dá autonomia e apóia, quando necessário, a equipe local, facilita os relacionamentos com as unidades operacionais e permite antever problemas/crises; • As questões ligadas à identidade organizacional tendem a emergir com muita força quando a organização está operando no ambiente internacional. Como observado nos relatos, o primeiro contato é sempre pautado por muita desconfiança. E a comunicação tem o papel essencial de revelar esse “outro” que está chegando. Nessa construção de sentido sobre “quem somos nós”, os profissionais precisam recorrer à reputação acumulada pela empresa, seja no país de origem ou por meio de outros atributos conquistados que sirvam de “reforços” de reputação. O relatos mostram que, na prática, esses conceitos articulam-se entre si, ainda que os profissionais não tenham a dimensão exata do que representam. • Ainda sobre o processo de construção de sentido das organizações, destaca-se a imagem positiva que o Brasil vem conquistando no exterior o que, de modo, geral, vem contribuindo para que as empresas sejam bem recebidas. Entretanto, cabe ressaltar a importância do monitoramento das imagens dos setores/indústrias 128 brasileiras. É possível que um trabalho mais intenso de gestão de identidade e reputação contribua ainda mais para o processo de internacionalização das empresas. É claro que essa é uma leitura ainda muito incipiente, mas é um indicativo de que esse assunto pode vir a ser mais detalhadamente pesquisado. • A comunicação é um ciclo que nunca se fecha, portanto, sempre haverá espaços para novos desafios. À medida que ocorre uma maturação do processo de internacionalização, as empresas poderão ampliar os públicos com os quais trabalham e realizar maior integração entre as áreas técnicas de sua estrutura vertical, assim como adotar ferramentas mais eficientes de avaliação do trabalho de comunicação. Esse último, aliás, é um desafio global de todos os que trabalham com a comunicação. Neste trabalho, procuramos compreender algumas implicações de se trabalhar a comunicação das organizações no contexto internacional. Naturalmente, há muitas discussões que não puderam ser aprofundadas, mas que merecem ser estudadas. A que mais nos chama a atenção é a gestão da identidade das organizações com atuação internacional. Como vimos, a identidade é um exercício de colocar-se em relação ao outro, num processo de diferenciação. Como a organização precisa ser apresentada e reapresentada inúmeras vezes no exterior, é importante estudar a maneira como as organizações estão conduzindo esse processo. Nesse sentido, desenvolver metodologias que permitam o monitorar o grau de alinhamento institucional em diferentes países, considerando que os atributos da identidade precisam ser focados nos significados que as diversas culturas constroem, pode representar uma importante contribuição da academia para os profissionais. Outros estudos podem avaliar a coerência entre a identidade percebida internamente, a identidade projetada e as imagens percebidas pelos públicos estrangeiros das organizações, o que contribui para conhecer mais detalhadamente o papel da comunicação nesse processo. Também é importante investigar em que grau o fator de origem (país de onde ela veio) vem afetando a percepção das imagens construídas sobre as empresas brasileiras no exterior. Outra questão que se evidenciou ao longo das entrevistas e que esta pesquisa deixa em aberto diz respeito à construção de imagens sobre os diferentes setores/indústrias brasileiras. A imagem do Brasil parece vir se consolidando e até contribui com o processo de internacionalização ao diminuir barreiras e quebrar resistências provenientes de estereótipos. Mas será que não está na hora de se dar início a um trabalho mais específico de gestão da identidade e reputação dos diferentes setores de atuação? Em que medida os profissionais brasileiros têm realmente que incluir a imagem dos setores de atuação em suas estratégias de 129 comunicação? Será que para as pequenas e médias empresas que estão dando início ao processo de internacionalização a imagem do setor tem influenciado suas estratégias de comunicação? Por fim, o desafio de construir uma sólida plataforma de comunicação, que dê sustentação e articule questões de identidade, imagem e reputação, em escala internacional, estará cada vez mais presente nas práticas cotidianas de muitos comunicadores brasileiros. Assumir as rédeas desse processo, oferecendo uma contribuição efetivamente estratégica, vai depender da disposição de cada um em investir em uma sólida formação técnica e cultural. O profissional deve procurar assumir um papel ativo no desafio de avançar rumo à sustentação da boa reputação corporativa. Assim como no mercado doméstico, a atuação estratégica no exterior envolve uma comunicação madura, com políticas e práticas bem definidas, que orientem as organizações para o estabelecimento de relações saudáveis e duradouras que levem, assim, à tão aclamada legitimidade social. Os desafios são muitos e estão presentes no cotidiano das organizações, prontos para serem desvendados por “barcos e marinheiros” ávidos em traçar novos “itinerários do conhecer”. 130 REFERÊNCIAS ALBERT, S.; WHETTEN, D. Organizacional Identity. In: BALMER, John; GREYSER, Stephen. Revealing the corporation. London: Routlegde, 2003. . p. 75-105. ALMEIDA, Ana Luisa C. Identidade, imagem e reputação organizacional: conceitos e dimensões da práxis. In: KUNSCH, Margarida M.K. (org). Comunicação Organizacional – linguagem, gestão e perspectiva. São Paulo: Saraiva, 2009, vol. 2, p.215-242. ________. A construção de sentido sobre “quem somos” e “como somos vistos”. In: MARCHIORI, Marlene. 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