PROBLEMATIZANDO A RE-LIGAÇÃO CRIADORA, DE MUNDOS PARALELOS,
PELA FUNÇÃO SIMBÓLICA-SEMIÓTICA-IMAGÉTICA
Margarete Axt, Dra.
PPGEDU/UFRGS
Palavras-chave: Imagem-virtual-infografia-cognição-representação
Resumo: este trabalho considera a invenção-construção, no espaço mental, de
mundos virtuais-imagísticos, problematizando a “passagem” ao plano da consciência, que,
pela interpretação, operaria sobre o acontecimento do viver, criando e transformando noção de
realidade factual-cultural. Propõe refletir sobre questões, tais como: o relativismo, em que cada
corpo/cognição cria/interpreta a sua experiência de real; a invenção cultural/convencional de
sistemas imagéticos, operadores de uma certa relação comunicativa com o mundo e
produtores de uma certa subjetividade, pelo agenciamento de processos de iconização; e o
suposto grau de “realismo” das imagens enquanto expressão de uma pretensa
“representação” da realidade, efeitos da aculturação icônica. Por outro lado, a experiência de
real articulada em mundos virtuais infográficos estaria operando, por hipótese, sobre os
próprios sistemas de aculturação icônica, agenciando novos processos de iconização e
transformando os próprios modos de sentir-perceber-agir, pensar-imaginar e dizer-expressar,
provendo um conjunto praticamente infinito de acontecimentos estéticos, os quais, ao
engendrar uma produção múltipla e polifônica de sentidos, ao mesmo tempo dariam
visibilidade à estruturação dispersante da subjetividade e sobre ela retroagiriam, viabilizando
possibilidades de novas estruturações cognitivas imaginárias.
INTRODUÇÃO
1
A arte digital constitui um modelo dinâmico de co-variação entre observador, interface
e contexto, dirá Weibel (1998): o observador pode se incorporar como parte desse contexto,
vivendo, na virtualidade, uma experiência de dispersão estrutural, pois em vez de um mundo
convencional da imagem pronta, acabada, ter-se-á um universo de “variáveis livres” povoando
mundos-acontecimentos
específicos,
o
qual
pode
ser
preenchido
ou
substituído
exaustivamente, ao gosto do observador que aí imerge. Nestes mundos-acontecimentos
propiciados pela infografia, que surgem a partir de números computáveis e que se dão a
conhecer através de imagens sempre outras, desestruturando e re-estruturando num
movimento aparentemente sem fim, Weibel reconhece uma propriedade sui generis
“diretamente contraditória” – para ele, a predizibilidade e a computabilidade crescentes (que
vêm sendo expostas a partir de teorias como a do caos) têm revelado, de fato, as limitações
intrínsecas
da
capacidade
computacional
em
estruturas
aleatórias,
acentuando,
consequentemente, o caráter absolutamente irredutível da impredizibilidade do universo.
Portanto, volta-se, neste mundo da infografia, a confrontar o acaso e a impossibilidade
preditiva característica do processo criador, gerando, com certeza, novos interrogantes para a
pesquisa em Educação. É tarefa da Educação - apoiada em parcerias multi-interdisciplinares
para a circunscrição de problemáticas e de questões orientadoras da pesquisa no cruzamento
entre filosofia e ciência - questionar-se sobre como poderá lidar com tais realidades lábeis,
voláteis (como sublinha Weibel ainda uma vez), definidas pela variabilidade e a virtualidade;
que transformações poderão provocar sobre os processos convencionais de iconicização
propostos nas culturas até o momento? estas possibilidades de criação e transformação
imagética poderão operar nos modos de aprender-conhecer-sentir-comunicar das próximas
gerações?
Pode-se pensar, nesta medida, que a experiência de real articulada em mundos
virtuais infográficos estaria operando, por hipótese, sobre os próprios sistemas de aculturação
icônica, agenciando novos processos de iconização e transformando os próprios modos de
sentir-perceber-agir, pensar-imaginar e dizer-expressar, provendo um conjunto praticamente
infinito de acontecimentos estéticos, os quais, ao engendrar uma produção múltipla e
polifônica de sentidos, ao mesmo tempo dariam visibilidade à estruturação dispersante da
subjetividade e sobre ela retroagiriam, viabilizando possibilidades de novas estruturações
cognitivas imaginárias.
Esta hipótese, porém, por uma ambigüidade de natureza intrínseca, constitutiva,
apresenta um “buraco”, pois, enquanto aponta para uma potencialização da subjetividade no
rastro da proliferação dos processos produtores de sentido que abririam em leque novos
possíveis interpretativos para a cognição pensar, viver, experienciar, construir o real, criando
novas possibilidades de estruturação do mesmo, simultaneamente destaca, com respeito a
essa mesma subjetividade, a sua tendência dispersante, desestruturante, impeditiva dos
processos reflexivos próprios à instauração de questões acerca de verdade e de realização
histórica efetiva; sinalizando um possível aniquilamento de si mesma e do mundo real, a
subjetividade em processo de fragmentação deixaria em aberto um espaço perigoso, na
medida em que qualquer coisa, ou mesmo nada, poderia vir a ocupá-lo.
Mas, por outro lado e concomitantemente, não se poderia pensar que a espécie
humana, já não tenha passado por outras rupturas similares, tão ou mais assustadoras? A
título de especulação, não se poderia pensar que, no limiar de sua emergência, o homem já
não tenha passado por impasses graves, momentos de grande instabilidade gerando uma
intensa necessidade de transformação, ou de mudança de rumos, como condição de
possibilidade? Não se poderia dizer que a cognição emerge como uma tecnologia resultante
do acoplamento organismo-meio, instituindo-se nas dobras dos múltiplos espaços-tempos que
compõem a história humana? E que, em sendo constituída, a cognição passa a ser também
constitutiva dessa mesma história, e que neste momento nos produz? Não estaria a cognição,
há já milhões de anos, lançando o homem a novos espaços-mundos? Mundos mentais,
mundos paralelos, mundos virtuais?
Com o apoio de cientistas como Cellérier e Ducret (1996) e Piaget (1978), imagine-se,
por exemplo, o conjunto extraordinariamente variado de estruturas anátomo-fisiológicas que
constituem as diferentes espécies vivas e extintas, bem como o programa genético dos
vertebrados superiores e o fato de que mesmo é quase 1000 vezes mais rico em unidades que
2
o das bactérias. . Imagine-se a evolução do vivo desde um maquinário unicelular até formas
1
Este é um texto provisório, na medida em que suas idéias ainda se encontram em fase de elaboração.
2
Piaget (1978).
de organizações extraordinariamente complexas, em múltiplos níveis hierárquicos,
verdadeiras ‘sociedades’ de bilhões de células individuais especializadas em divisão do
trabalho, agentes primitivos cooperando, assim, para a emergência de novas funções
adaptadoras do todo e que formam os organismos pluricelulares 3.
Imagine-se um sistema genético que vai acumulando e incluindo à exaustão múltiplas
sub-estruturas anátomo-fisiológicas, produzindo e integrando sempre novas variantes; e
imagine-se o número de modificações nos outros componentes, por ocasião de uma variação
de uma dessas sub-estruturas, aumentando exponencialmente o número de componentes e
ultrapassando a capacidade de cálculo do sistema genético... Imagine-se, neste contexto, a
invenção do comportamento sensório-motor como uma resposta ao impasse combinatório.
(Finalmente) imagine-se ainda a crescente complexidade da rede de esquemas instintivos
levando o sistema genético a uma nova explosão combinatória... e a vantagem, para o
construtor filogenético, da invenção
de mecanismos de construção psicogenética de
4
esquemas cognitivos que se recriem a cada ontogênese .
É exatamente esta possibilidade de invenção-construção cognitiva de mundos novos,
reapresentando o organismo vivente e o mundo vivido no espaço mental, que estaria
instituindo um Observador capaz de conceituação do mundo e de reflexão dos percursos
cognitivos próprios. Este processo, que se repete a cada ontogênese, de instauração da
função simbólica-semiótica-imagética, criadora de mundos virtuais (paralelos?) estaria
constituindo, no entrecruzamento espaço-tempo-história, lugares de produção de sentidos, em
que o viver-sentir-perceber-agir, o pensar-imaginar e o dizer-expressar se encontram, se
imbricam e operam uns sobre os outros, e uns com os outros, agenciando processos
constituidores de sujeito e objeto, capazes de recortar uma subjetividade que comparece no
plano da consciência cognitiva.
Com a incumbência de suportar os processos instituintes da mente cognitiva e da
consciência, uma complexa corporalidade sensório-motora apresenta-se como interface
entre esses mundos do vivente/vivido e do observador, acabando por instaurar, mediante
vínculos
de
necessidade
por
relação
de
implicação,
uma
duplicidade
de
sentidos-significações, geradora de uma forma de experiência em que se produzem
contínuos deslizamentos entre esses mundos de espaços e tempos distintos mas
entrelaçados, e que ao se coordenarem, poderão criar instantâneos, feitos, a um só tempo, de
intersecção, sucessividade e simultaneidade...
Esta passagem - da ação à representação – marca, para a subjetividade implicada, a um
só tempo, continuidade e ruptura: continuidade, naquilo que é peculiar à evolução reprodutora,
concentrada na conservação da organização e simultaneamente na sua ampliação adaptada,
com isso ampliando seu raio de abrangência (assim, instituir um mundo mental-virtual amplia
as possibilidades ontogenéticas de compreensão do viver e conseqüentemente de seu
3
4
Cellérier e Ducret (1996).
Cellérier e Ducret (1996).
sobreviver); ruptura, naquilo que é da natureza da evolução criadora, concentrada na produção
de formas, que garantam condições diferenciadas de permanência organizativa e maior
estabilidade no que refere às correspondências estruturais do vivo com o seu meio (e que, no
caso do humano, implica também o entorno social-cultural-simbólico), em momentos críticos
de grandes flutuações e instabilidade do sistema, devido a variações, sejam internas ao
sistema, sejam exteriores (assim, por ocasião do nascimento da função semiótica, tem-se um
período crítico, na psicogênese, em que as coordenações cognitivas do bebê extrapolam, por
velozes e por gerais, o próprio ambiente concreto no plano da sensório-motricidade; da mesma
forma, na ontogênese, a quantidade exponencial de dados a coordenar com o crescimento das
redes de esquemas instintivos, levando o sistema genético a uma nova explosão combinatória
acaba por demandar uma solução que se concretiza, por hipótese, na invenção do cognitivo).
A passagem da ação à representação, tal como abordada na psicologia genética da escola
genebrina, deve-se à função semiótica, na forma de um mecanismo formador-transformador
(comum aos diferentes sistemas de representação e expressão) instituído por, e ao mesmo
tempo instituinte de, processos interpretativos em vários níveis de complexidade,
dependentes, em diferentes graus, da sua integração à consciência reflexiva.
Esses processos interpretativos e conceituadores 5 , no movimento em que alçam
“percepção” e esquema de ação à condição reflexiva, o fazem de modo a integrá-los a um
sistema imagético-conceitual, seja ele emergente ou já complexo. Esquemas de ação e
“percepção”, quando conscientes num grau elementar, o que é típico de uma primeira
passagem – dos quadros fenomênicos ao mundo organizado dos objetos e dos sujeitos -,
permanecem evanescentes, sem interpretação, insuficientes para penetrarem no campo da
consciência/conceituação e, portanto, para ocasionarem tomadas de consciência produtoras
de representações, o sistema permanecendo sensório-motor sem consciência de si.
A função semiótica, interpretativa, instituinte da consciência de si e do mundo, e
integradora da “percepção” e da ação no domínio das coordenações mentais e da linguagem,
far-se-á pela recorrência dos significantes; estes, no processo de produzir sentido e
significações, descrevem, narram, explicam, mas primeiro no quadro da ação em curso, sem
consciência de si, e só depois por evocação e por antecipação, criando, organizando e
reorganizando sistemas conceituais mediante o exercício sistemático dos processos de
abstração, e por engendramento de sucessivas, contínuas e recorrentes tomadas de
consciência. No plano do pensamento, interno e externo a ele mesmo são de início
indiferenciados, passando a diferenciar-se no decorrer de um processo recorrente de sua
própria história de interações com os “objetos de pensamento”, tendo por suporte primeiro a
ação sensório-motora: em interação com o meio, o sujeito encontra na superfície objetal,
5
Em Piaget (1977:195), o processo de conceituação deve ser entendido no sentido mais amplo de um esquema
representativo, mas este sendo considerado naquilo que concerne à sua significação, evidentemente, seja qual for o
seu significante (ou seja, independentemente da linguagem - verbal, imagética... - utilizada).
acoplada à ação por relação de implicação, o limite máximo ao qual ele alcança pela
ação sensório-motora, e a partir de onde ele é demandado a produzir conhecimento.
Poder-se-á supor, então, que, para o sujeito sensório-motor e, logo, para o sujeito do
pensamento (observador/conceituador/explicador), “interno” e “externo” a cada sistema
organizativo de um mundo, respectivamente, se engendram mutuamente a partir de sentidos
e significações produzidos nos encontros da ação com as superfícies do mundo,
constituindo-se no entre, no entremeio, no entrecruzamento entre ambas: a separação
sujeito/mundo, daí advinda, constituir-se-á, então, apenas virtualmente, pelos saberes e, a
seguir, pelo conhecimento imagético ou conceituado, construído por este observador.
Instituem-se, assim, mundos mentais, virtuais, que não se fundem, nem confundem
com os mundos vividos do homem da ação prática, da vivência-experiência sensório-motora,
embora a cognição se esforce por os religar, relacionar, embora a cognição se empenhe em
presentar/presentificar e organizar, num espaço mental, o Real do qual o sujeito observador foi
distanciado, separado, quando desta “passagem” ao plano da consciência: pode-se dizer que
a cognição aprende a inventar um mundo paralelo, nunca idêntico, de múltiplas
reapresentações de Real, operando, pela interpretação, sobre o acontecimento do viver, do
existir, e por isso mesmo criando pari passu a noção de realidade, realidade
factual/cultural/virtual.
Como, por hipótese, opera a cognição esta re-ligação entre mundos? Teria a
subjetividade implicada cognitivamente inventado uma estratégia por assim dizer “vencedora”?
No âmbito dos estudos cognitivos cujo interesse volta-se para as relações entre a vida
orgânica e o conhecimento, em que um organismo corresponde a um sujeito cognoscente e o
entorno corresponde ao conjunto dos objetos exteriores que se trata de conhecer, Piaget
(1974:117ss) comparece com uma hipótese da fenocópia cognitiva inspirada na hipótese
biológica da fenocópia, intermediária entre o (neo)darwinismo e o lamarckismo, que se define
por uma convergência entre o resultado de uma adaptação fenotípica e uma mutação
genotípica, mediante a intervenção de processos gênicos.
6
A fenocópia cognitiva
7
atualizar-se-ia segundo três possibilidades (a primeira das quais sendo a que nos interessa):
6
A hipótese piagetiana (Piaget 1974:107ss) considera que, havendo formação de uma adaptação, ou
integração somática, sob a influência do meio externo, porém sem que se produza um desequilíbrio entre esta
formação exógena e o programa epigenético hereditário, esta variação fenotípica se repetiria sem maior efeito, a cada
nova geração, quando exposta às mesmas condições ambientais. Tal poderia ser o caso, por hipótese, das recriações
psicogenéticas nas ontogêneses. Por outro lado, em caso de um desequilíbrio entre fenótipos e programa genético,
haveria então um efeito retroativo progressivo cada vez mais próximo ao desequilíbrio, mas não mediante
mensagens que indicassem o que aí estaria ocorrendo, muito menos o que teria que ser feito enquanto solução: este
efeito se daria mediante bloqueios ou alterações locais do meio interno. Se os processos sintéticos e hierárquicos das
epigêneses não bastassem para restabelecer o equilíbrio num nível razoável, o desequilíbrio repercutiria até o ponto
de sensibilizar os genes reguladores dessas sínteses, produzindo mutações ou variações gênicas semialeatórias, mas
canalizadas às zonas de desequilíbrio. Estas variações endógenas se ajustariam neste caso aos parâmetros dos meios
interno e externo, responsáveis pela integração somática anterior, mas estes parâmetros agora só atuariam mediante
efeitos seletivos até a estabilização de novas variações. Deste modo, mediante uma reconstrução endógena
(estratégia da fenocópia), essas variações chegariam a convergir com as adaptações semi-exógenas iniciais
(fenotípicas). A estratégia da fenocópia seria, então, nesta interpretação da escola genebrina um processo de imitação
do fenótipo, pelo genótipo (e não o inverso, como em algumas definições). Sem querer alongar muito o
desenvolvimento deste tópico, talvez fosse interessante acrescentar, ainda, que o problema decisivo, com relação à
hipótese da fenocópia, proposta por Piaget, é o fato de que o novo genótipo estaria copiando o fenótipo, enquanto
este estaria sendo copiado e substituído; nessa interpretação não há nem transmissão, nem indicação aos genes
•
Pela retirada, por acoplamento das ações sensório-motoras às superfícies do mundo (e
mediante o estabelecimento de vínculos de necessidade por relação de implicação), de
significantes substantivos dos objetos de conhecimento, para transformá-los em
significantes endógenos, transfigurando-os em imagem mental (estáticas-cinéticas);
•
Pela retirada, mediante uma coordenação geral das próprias ações, de significantes
formais das ações sensório-motoras que, interiorizados e recombinados, compõem-se,
não mais por imagens, mas como sistemas de ações ou operações;
•
Pela retirada, do plano das próprias representações, de significantes substantivos e
formais, reorganizando-os em novos patamares de complexidade, obtendo assim novas
composições conceituais-formais. 8
A IMAGEM MENTAL
reguladores, nem sequer fixação dos caracteres do fenótipo (conforme as teses lamarckianas), mas uma reconstrução
endógena pelo genótipo, em vista do que este vivencia como perturbação em sua morfologia, por retroação. Em
princípio, as mutações genotípicas vão realizar-se em qualquer direção, à maneira de tentativas não orientadas.
Como então se chama a este mecanismo de ‘fenocópia’, com o novo genótipo aparecendo como uma espécie de
cópia do fenótipo? Seria porque, em princípio, ele teria que resolver os mesmos problemas que o fenótipo em seu
conflito com o entorno exterior, estando, portanto, às voltas com os mesmos parâmetros, exposto às mesmas
condições seletivas; neste sentido, estaria reconstruindo possibilidades análogas. Como a seleção orgânica que
intervêm é função do meio interno e do conjunto fortemente integrado dos aparatos da síntese epigenética, as
variações somente podem se realizar nas zonas de desequilíbrio, permanecendo as demais regiões estáveis e portanto
resistentes. Quanto à arena que se forma nas zonas de desequilíbrio, de uma parte intervêm as tendências e as forças
próprias da programação epigenética hereditária e normal; de outra parte, estas são localmente contra-atacadas ou
desviadas pelas imposições do meio externo, bem como pelo correlato interno criado pela formação dos caracteres
fenotípicos. Na relação com as variações gênicas essas limitações não constituem mais que um parâmetro no seio do
qual se inserem as mutações. Neste sentido, um tal parâmetro não exerce uma ação causal, direta, cujos efeitos se
traduziriam em caracteres positivos, mas tão somente uma ação seletiva e, neste sentido, negativa, na medida em que
apenas discrimina as variações que não se ajustam a ele e impõe, portanto uma classificação ou eleição por mediação
de uma série de ensaios sucessivos. Em outros termos, não é o entorno, nem externo nem sequer interno o que produz
as variações gênicas novas: as mutações seguem sendo completamente endógenas e exploram as zonas de
desequilíbrio até uma adequação suficiente ao parâmetro imposto; portanto até que este as aceite depois de uma
seleção, mas sem havê-las produzido. Ao mesmo tempo, o parâmetro interno atuaria com uma função conservadora,
buscando manter a integração geral do sistema e, ao mesmo tempo, uma função compensadora, orientando ou
canalizando as mutações, mas somente na zona de desequilíbrio. As variações respondem então, duplamente, com
um conjunto de mutações e, ao mesmo tempo apresentando uma reequilibração que orienta as pressões seletivas ao
mesmo tempo em que respeita a forma geral do sistema. Assim se externamente obtém-se um equilíbrio local entre
organismo e meio, internamente obtém-se um equilíbrio entre os subsistemas de uma mesma totalidade, o que
constitui um nível superior de coerência. Neste sentido as variações não se devem ao entorno, já que são endógenas,
nem são propriamente aleatórias já que estão canalizadas por um aparato seletivo (que em parte se encontra
modificado ou orientado por elas, mas constituem sucessão de ensaios que são resposta a desequilíbrios).
7
No âmbito dos estudos cognitivos, a elaboração de formas interiorizadas (operatórias) pela inteligência
corresponderia à mesma estratégia da fenocópia, que, a partir das interações e tateios de natureza empírica em que os
mesmos correspondessem a reações fenotípicas iniciais, se interiorizaria engendrando as formas operatórias, estas
sendo comparadas às estruturas genotípicas. Apostel (ap. Piaget, op.cit:132) chega a considerar, sob certas
condições, que um modelo explicativo poderia ser pensado como uma espécie de ‘cópia’ da coisa explicada. Para
Piaget, este caráter explicativo em oposição ao descritivo - próprio dos modelos operatórios, que opõem aos
conhecimentos exógenos e empíricos, uma construção lógico-matemática endógena que combina de forma
necessária a composição de relações abertas ao mundo dos possíveis e as conservações das mesmas – ilustraria,
pelo resultado obtido, o processo construtivo interno que teria dado origem à explicação em substituição a um
conhecimento de natureza descritiva ligada às propriedades empíricas/concretas do objeto.
8
Na medida em que a segunda possibilidade já se encontra ancorada na geometria do sujeito, e não mais no entorno
simplesmente, já sendo em parte um processo endógeno, e igualmente, na medida em que a terceira possibilidade
ancora-se em processos completamente endógenos, ambas são definidas por Piaget como pseudofenocópias, ficando
o nome fenocópia restrito à primeira possibilidade, mas com a ressalva de que, mesmo nesse caso, as interações
encontram-se mediadas pelo esquematismo da inteligência desde sempre. Haveria, ainda, outras possibilidades de
aplicação da estratégia da fenocópia, como por exemplo, a absorção das perturbações exógenas (e endógenas) a
título de variáveis intrínsecas ao sistema.
Enraizada em arcaicos mecanismos evolutivos de natureza ainda orgânica, a
cognição, da perspectiva da imagem mental (que é o que nos interessa aqui), em seu modo de
funcionamento remete, por suposto, no que concerne à estratégia da fenocópia, ao caráter
mimético de seus processos construtivos. Falar em imagem mental remete, portanto, ao
conceito de mímesis em Aristóteles 9.
Aristóteles, na Poética, de acordo com os autores de referência, opera, em relação a
10
Platão , um deslocamento relativo à noção de mímesis, sublinhando o caráter de processo
contido no conceito, obtido mediante o sufixo –sis, e que marcaria a atividade mimética.
Ricoeur sublinha enfaticamente, na imitação ou na representação, o seu sentido dinâmico que
remete à poiesis, ao processo de criação, à arte de compor, de produzir a representação, a
partir da ação, da ação que faz e que analisa, não havendo o que se poderia chamar de
imediaticidade da reprodução do modelo.
Constituída, simultaneamente, no terreno do jogo e da imitação, a imagem mental, nos
estudos genéticos piagetianos 11 , prolonga em seu conteúdo a acomodação imitativa aos
objetos do conhecimento; ao mesmo tempo, as significações serão criadoras operando
relações a partir de processos assimilatórios interpretativos. A função semiótica começa
quando há simultaneamente atividade cognitiva de diferenciação e coordenação entre
significantes e significações. E a imagem mental, ao inaugurar, no mundo mental, a
possibilidade do virtual, investe-se no papel de mediação entre a percepção e o conceito
representativo, mediante regulações análises, decomposições, comparações, previsões
perceptivas, que se integram num jogo de conceitos, o que, por sua vez, permite atribuir
significações aos elementos e às relações assim analisadas. Imagem é, neste sentido, não
produto de uma percepção pura, mas prolongamento da atividade perceptiva que a engendra
e, ao mesmo tempo, a constitui como um significante para o conceito. A imagem mental, então,
pode-se dizer, constitui o ponto de junção entre o sensório-motor e o representativo.
Gagnebin ressalta que a definição aristotélica também sinaliza para o ganho trazido
pela mímesis ao conhecimento, pois o último não se faz tanto sobre o objeto reproduzido
enquanto tal, como pela relação entre a imagem e o objeto. O momento significativo, na
atividade mimética, estaria no processo de produção dessa relação, cuja resultante seria uma
produção de conhecimento. Analisando o texto aristotélico, ambos autores insistem no
9
Note-se que nossas observações sobre o conceito de mímesis são retiradas de Ricouer (1994) e Gagnebin (1997).
De acordo com Gagnebin, o conceito platônico de mímesis insiste muito mais na fidelidade da representação ao
objeto representado, sendo ele, o objeto, que desencadeia, por sua beleza, o impulso mimético. A arte tenta
aproximar-se dele com respeito e precisão e, por isso, é sempre figurativa ou “mimética”. A intolerância de Platão
com relação à imagem mimética está ligada o seu projeto político de construção de uma cidade justa em a
“República”, e remete ao aspecto ontológico contraditório da imagem: ao mesmo tempo em que é dada como muito
fraca, irreal, ilusória, esta imagem que falta ao ser verdadeiro, e é apenas cópia, não deixa de ser muito forte e ativa,
fazendo chorar até homens maduros ao verem no palco o espetáculo das paixões... a esta força de arrebatamento, dirá
Gagnebin, toda a filosofia de Platão procurará resistir, demarcando uma linha clara entre realidade e ilusão, verdade
e mentira, impondo-lhe normas éticas e políticas, inaugurando, com este gesto, a crítica ideológica e a censura ao seu
império, o que, como todos sabemos, perdura até hoje, em especial no que concerne às tecnologias da imagem e aos
seus propalados efeitos danosos. A autora vai mais longe, identificando em Platão e em sua filosofia um gesto
mimético originário – que diz respeito a uma concepção mimética do pensamento de sempre traduzir e reproduzir o
paradigma ideal - que necessita ser distinguido a qualquer preço das demais atividades miméticas “ilusórias”, na
medida em que somente a sua filosofia representaria autenticamente as essências.
10
11
Piaget, 1975.
componente ativo e criativo da mímesis, inscrevendo-a na atividade humana por excelência,
no conhecer, enquanto parte da natureza do homem.
Além da característica relacionada á atividade produtiva, criativa, Aristóteles também
estaria insistindo numa outra característica da atividade mimética, o “reconhecimento”, na
medida em que os homens olham para as imagens e reconhecem nelas uma representação de
realidade.
Gagnebin chama a atenção, no entanto, para o fato de que muito mais do que estar
assentada numa relação de causa e efeito, a mímesis enraíza-se no reconhecimento de
semelhanças, mas não num sentido de semelhanças objetivas, extra-linguísticas: Piaget
12
diria imagem mental é simultaneamente produto da interiorização da imitação, implicando no
“reconhecimento” (que é da ordem da atividade) e produzindo, neste sentido, “cópias mais ou
menos semelhantes do Real”, embora assentadas sobre a singularidade de cada sujeito em
sua atividade perceptiva de registro dos observáveis, e cujo suporte lhe é dado pelo
esquematismo da inteligência; e esboço para uma imitação ou uma atualização possível,
implicando a dimensão produtiva vinculada a outros sistemas de representação/expressão,
como a linguagem, a arte... sublinhe-se que, num e noutro caso, como produto e como esboço,
a imagem mental diz respeito sempre a uma atividade criadora (mesmo no caso de
reconhecimento de semelhanças, resulta de atividades acomodatórias diferenciadoras, o que
implicaria, por suposto, a construção de invenções na forma de ícones imagísticos de
representação); a imagem mental nunca é simples prolongamento da percepção, pois resulta
de construção. E sendo fruto de uma construção é, neste sentido, que resulta individual;
supõe-se, por extensão, que a contrapartida cultural será a invenção dos convencionais de
iconicização, como a perspectiva, por exemplo, enquanto reguladores das representações
coletivas do Real.
Acompanhando Gagnebin na sua incursão em Benjamim, temos que este autor
reforça estas idéias: ele esboça, nas primeiras décadas do século XX e tal como Aristóteles,
uma teoria da mímesis comportando dois momentos principais da atividade humana –
reconhecer e produzir semelhanças. E o homem produz semelhanças, dirá Benjamim, porque
reage às semelhanças já existentes no mundo. Benjamim, nas palavras da autora que nos
serve de referência, ressalta ao mesmo tempo a natureza convencional do tratamento das
semelhanças pelo homem no decorrer dos séculos, ou seja, haveria uma história da
capacidade mimética: as semelhanças não existiriam em si, imutáveis, mas seriam
descobertas, inventariadas pelo conhecimento humano de maneiras diferentes, de acordo com
as épocas
13
e, acrescentaríamos, segundo os observáveis mais privilegiados em cada uma
delas.
12
13
Id. Ib.
Para Peirce (cf. Pinto, 1995), o signo (no caso do ícone, por exemplo) também é ativo, cria significação, em vez de
passivamente esperar que o sujeito o invista de sentido. Em outras palavras, o sujeito interpreta o signo à sua maneira
e gera nesse processo seus próprios interpretantes, mas o signo não é vazio, e o sujeito não o preenche. Mas mesmo
não sendo vazio, nunca se pode dizer com certeza que o signo tem este ou aquele interpretante, o que quer dizer que
não há transparência de significação. Seja do ponto de vista da interpretação, seja-o da perspectiva da produção
propriamente dita, em qualquer momento da cadeia sígnica, qualquer signo pode fazer parte – e geralmente o faz – de
Segundo Maldonado (1994) cada civilização tem seu próprio sistema de
representações e a nossa fez uma escolha precisa: sistemas que produzem imagens cada vez
mais fiéis à realidade, de alta fidelidade. Uma prova disso seria a escalada no que concerne às
tecnologias da imagem, a fotografia, a cinematografia, a televisão, a holografia e a infografia.
Maldonado invoca a função precursora da perspectiva no período do Renascimento. A
perspectiva linear, assim como qualquer outro dispositivo apto para reproduzir ilusoriamente o
espaço em um plano tem uma natureza em parte convencional, o que, no entanto, não impede
que a representação em perspectiva haja sido um passo revolucionário na história das
técnicas tendentes a administrar uma representação cada vez mais verossímil da realidade.
De qualquer modo uma representação em perspectiva não pode ser valorizada sem levar em
conta nossa própria plasticidade de reconhecimento. Nossa ação perceptiva, sempre
altamente participante, é, no entanto, também seletiva. Para o autor, apoiado em Gioseffi, não
importa tanto saber se há ou não correspondência biunívoca entre uma representação em
perspectiva e a realidade que ela se propõe a representar. Mais razoável é tratar de verificar se
a representação ‘funciona’ como representação plausível não de uma realidade genérica, mas
de nossa percepção da realidade. Em outras palavras, se essa representação é utilizável em
nossa relação operativa do mundo, ou, o quanto nos encontramos aculturados iconicamente
(subjetivados, poder-se-ia dizer) pelos observáveis convencionados pela cultura. Maldonado
sustenta que a tendência ao naturalismo deve ser considerada uma constante na história da
representação visual concebida como modo de conhecimento do mundo exterior e como meio
de comunicação entre nós e conosco mesmo. O autor ressalta que a experiência de perceber
um objeto está ligada com a experiência tida anteriormente com este objeto, além da
familiaridade que tenha o observador com o sistema de representação que irá representar o
representado.
Abrindo um parêntese para dedicar algumas linhas a outro sistema convencional de
representação/expressão – a linguagem - um dos lugares em que a capacidade mimética
estaria se expressando, segundo Benjamim, seria a própria linguagem, mas uma linguagem
não submetida ao arbitrário do signo. Neste sentido, Benjamim, conforme nos propõe
Gagnebin, sempre teria buscado pensar a semelhança independentemente de uma
comparação entre elementos iguais, como uma relação analógica que garantisse a autonomia
da figuração simbólica; a atividade mimética sempre seria uma mediação simbólica, jamais se
reduziria a uma simples imitação. Em vão se procuraria uma similitude entre a palavra e a
coisa baseada na imitação da coisa (mesmo que a imitação estivesse presente na origem), o
que se poderia reconhecer seria uma relação de configuração. Forjando o conceito de
“semelhança não-sensível”, Benjamim define a linguagem como o “grau último” da capacidade
mimética humana, explicando essa transformação filogenética da capacidade mimética pelo
exemplo ontogenético do aprendizado da linguagem falada e da escrita pela criança.
uma variedade de semioses, podendo, numa dada situação de interlocução, servir a interpretantes diferentes,
produzidos, ao mesmo tempo, pelos interlocutores envolvidos: no entanto, sob pena de não haver entendimento
algum, algo da ordem de um conteúdo objetivo, que ‘está entre’, vai ter que se dar.
Gagnebin acrescentará que, para Benjamim, o sentido essencial, embora mutável, do texto em
interação com seu contexto, “surgiria do semiótico assim com uma imagem fugaz e variável
aparece e desaparece no primeiro plano de um cenário” .
Tal concepção de linguagem e de produção parece encontrar ressonância em Bahktin
(1997) e, de certo modo também em Peirce 14. Poderíamos pensar que em Bakhtin o caráter
mimético da linguagem emerge pela sua relação de correspondência singular com o contexto e
com os sentidos aí em circulação, produzindo-se entre eles, no entremeio, no
entrecruzamento. Ora, isso quer dizer que se, de um lado, têm-se significações, produzidas
por sujeitos de linguagem enquanto “submetidos ao ato de cognição”; de outro, ao mesmo
tempo, são relações ou significações produzidas por muitos sujeitos (o que remete, por
suposto, aos coletivos); são, ainda, relações que podem ser compreendidas de muitas
maneiras, em diferentes contextos – sob esta ótica, eu diria que, em Bakhtin 15, são os próprios
contextos, ou situações de realidade, que suportam a produção de sentidos, em qualquer dos
três âmbitos em que podem se realizar (das relações entre os sujeitos de linguagem, entre os
textos, entre as culturas). Ou seja, os processos de produção de significações e sentidos se
engendrariam atrelados às configurações contextuais, podendo-se interpretar esta
propriedade como advinda de um suposto caráter mimético, pigmaleônico, à semelhança do
que parece propor Benjamim, e referida à concepção aristotélica de poiésis ou processo
criador. O sentido interpretativo seria dado, não pela palavra/pensamento de um ou outro, mas
antes por uma nova palavra/pensamento, decorrente, em cada contexto, da negociação, do
enfrentamento entre palavras, discursos e pensamentos: “através da palavra, através do
discurso, através dos pensamentos”; ou “entre palavras, entre discursos, entre pensamentos”.
O sentido não se atualiza sozinho, procede de dois sentidos que se encontram e
entram em contato. Não há um “sentido em si” (...) pois o sentido se situa sempre entre
os sentidos, elo de uma cadeia do sentido que é a única suscetível, em seu todo, de ser
uma realidade (Bakhtin, 1997:386).
Também em Peirce, e na esteira das leituras de Pinto (1995) e Santaella (1998), um
signo – que se define como um relato a respeito de seu correlato, o objeto referente; ou dito de
outro modo, ‘algo que está no lugar de outra coisa’ - sempre pode produzir um ou outro
‘interpretante’ (vale dizer ‘sentido’), dependendo do contexto, do sujeito interpretador e de
outras variáveis. Tal comportamento sugere que o signo constitui um lugar-entre, um
algo-entre. Ele é algo que circula, que está num momento com alguém e é logo repassado para
outrem, não pertence a ninguém ou apenas pertence na medida da duração do seu uso. É o
instrumento da troca comunicacional: mais que ser signo, é um estar signo. Assim que,
conforme coloca Pinto, um interpretante ‘imediato’ é concebido como o conjunto de
interpretantes ‘dinâmicos’ possíveis de um dado signo, representando uma gama de
possibilidades interpretativas, num mesmo momento da ‘semiose’, ou processo de produção
de sentidos. O interpretante ‘dinâmico’, dirá Pinto, é aquele sentido escolhido/produzido pelo
14
cf. Pinto, 1995. Note-se que todas as observações sobre Peirce são retiradas de Santaella (1998) e em especial de
Pinto (1995).
15
Cf Axt, 2000.
intérprete dentre as possibilidade interpretativas que o signo oferece em um determinado
momento da semiose, determinando o vetor da cadeia semiósica. Há para Peirce, segundo
Pinto, na semiose, uma tendência (sem que nunca chegue lá, por impossível, na medida em
que é da natureza do signo não poder recobrir o seu objeto correlato), apenas uma tendência
para uma representação perfeita do objeto, o que poderia se chamado de ‘verdade semiótica’.
Um objeto é um referente, não é a coisa. Há, então, para Peirce (segundo Pinto) uma diferença
entre aquilo que não se conhece e aquilo que se conhece, e a diferença está no
(não-)conhecimento delas. O que se conhece é um objeto, o que não se conhece é uma coisa.
Em outras palavras, aquela coisa que passa para a esfera do conhecimento – ou mesmo algo
inventado – torna-se objeto daquele conhecimento. A coisa é um existente, conhecido ou não,
e o objeto é um conhecido, existente ou não. Para que se conheça algo, é necessário que haja
representação, i,e., para que haja objetos é preciso haver signos. Qualquer relação com
qualquer objeto – uma ‘percepção’, por exemplo - é já uma relação sígnica e o próprio signo é
já um objeto.
Na medida em que o objeto tende a se revelar através de seus signos, a semiose seria
a busca contínua da futura restauração desse objeto. Nesse sentido, conclui-se que um
processo de rememoração não seria uma busca feita no passado, mas uma construção que se
faz na direção do futuro.
Voltando à questão da imagem, propriamente dita, Piaget
16
lembra que, na montagem
da imagem mental, acomodações e assimilações anteriores se conservam no presente, como
significantes e significações, respectivamente, interferindo com as atuais. Isto parece ter
alguma relação com o logo acima referido por Peirce quanto à restauração promovida pelo
processo de semiose. Este acúmulo/recorrência de ícones que traduzem um objeto e de
sentidos, significações que o perpassam, acabaria por instituir alguns observáveis de forma
privilegiada, na cultura, podendo constituir os sistemas icônicos de uma época.
A idéia de imagem, em Peirce está ligada ao conceito de ícone, sendo que uma de
suas propriedades é o mimetismo; a imagem teria então um caráter inegável de semelhança.
Na imagem, e substituído por ela, o ser da coisa desaparece, o artifício se torna o objeto, e a
ordem de coisa a que se costuma chamar de realidade perde seus contornos, para se tornar,
ela mesma, signo. Estabelece-se, dessa maneira, o estatuto do simulacro: realiza-se a
representação, em vez de representar-se a realidade, fazendo com que a representação seja
uma profusão de signos dissociados de seus objetos ‘reais’, num tipo de relação
representacional que não se ancora em arranjos simbólicos, para além daqueles produzidos
por e para suas próprias necessidades internas. Não se pode, portanto, pensar a imagem
somente como representação do objeto. Pensar a imagem imagisticamente é percebê-la como
qualidade (i)material da relação representacional, que faz com que o objeto seja
(des)conhecido.
16
Cf. Piaget, 1975
Pensando um pouco a respeito da infografia, poder-se-ia especular no sentido de que
a mesma não conta com o conjunto de significantes e significações anteriores acumulados,
dispondo, apenas, a cada realização, com as atualizações do momento. Neste sentido,
imagina-se, que a sua exploração precisaria se apoiar de forma muito firme nas imagens
mentais dos sujeitos envolvidos na atividade – de certo modo, o sujeito cujas imagens mentais
servem de parâmetro para atividades de análise, síntese, comparações, previsões etc.,
precisaria investir de forma talvez diferenciada em suas atividades perceptivas e conceituais,
tendo em vista a velocidade, a fugacidade, a multiplicidade, a aleatoriedade e
impredizibilidade, a incompletude dos processos imagísticos infográficos.
Ao permanecerem incompletas, na medida em que sem história de suas acomodações
e assimilações anteriores (vale dizer sem estrutura de suporte), sem encaixes hierárquicos,
portanto, e sem possibilidade de generalização, as imagens infográficas remeteriam, por
necessidade de completude e de inserção sistêmica, do ponto de vista cognitivo, a uma
atividade não apenas perceptiva, mas conceitual, diferenciada, podendo, alçar os processos
cognitivos-interpretativos a novos patamares de produção de sentido-significações.
Em síntese, a imagem infográfica, tal qual se apresenta, remete a um sistema de
expressão, enquanto outros sistemas imagísticos têm podido alternativamente constituir
sistemas, ou de representação (enquanto produto de uma imagem mental que se instaura
como esboço) ou de expressão (em que o produto artístico se apresenta como pura criação,
como um acontecimento, um “happening”, sem qualquer pretensão de evocação de um
modelo mental, como na representação.
A experiência de real articulada em mundos virtuais infográficos estaria operando, por
hipótese, sobre os próprios sistemas de aculturação icônica, agenciando novos processos de
iconização e transformando os próprios modos de sentir-perceber-agir, pensar-imaginar e
dizer-expressar, provendo um conjunto praticamente infinito de acontecimentos estéticos, os
quais, ao engendrar uma produção múltipla e polifônica de sentidos, ao mesmo tempo dariam
visibilidade à estruturação dispersante da subjetividade, mas sobre ela poderiam retroagiria,
viabilizando possibilidades de novas estruturações cognitivas imaginárias, preenchendo o
vazio, que de outra forma, talvez se instaurasse.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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descobertas da criança; um estudo sobre as microgêneses cognitivas. P.A. Artes Médicas,
1996.
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___.Linguagem memória e história. R.J., Imago, 1997.
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WEIBEL,P. El mundo como interfaz. El passeante; la revolucion digital y sus dilemas.
27-28: 110-121,Madrid,1998.
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Este estudo pretende criar condições de interlocução entre teorias