XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 AUTORIA E LITERATURA INFANTO-JUVENIL: ALFABETIZAÇÃO POR PROJETOS DE TRABALHO Marisol Barenco De Mello Letícia Castro Neves De Oliveira Resumo Este trabalho tem por objetivo discutir a possibilidade da aplicação de conceitos bakhtinianos como autoria, atividade estética e exotopia do texto literário à questão da alfabetização de crianças e jovens das classes populares. Apresenta uma experiência ocorrida no interior do trabalho que vimos realizando em uma escola pública em Niterói, RJ, com seis turmas dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, e que busca reorganizar o currículo por projetos de trabalho, perspectiva amparada pelos estudos de Hernandez & Ventura (1998), dentre outros. Ao assumirmos que, como diz Ponzio (2010), “não se pode ensinar a língua sem a Literatura”, vimos tentando construir uma perspectiva que toma a alfabetização como atividade estética e autoral, registrando as diferentes perspectivas infantis e docentes no processo de construção de um currículo inclusivo, onde a participação e a autoria são os processos centrais. Este texto apresenta algumas ideias centrais de nosso estudo, e busca dialogar com outros trabalhos que como o nosso, enfrentam o desafio do trabalho com as crianças e professoras das escolas públicas, construindo com elas a possibilidade do conhecimento como autoria e como ato responsável. Palavras-chave Alfabetização; Autorias Infantis; Exotopia; Literatura Infanto-juvenil. Introdução Trabalhando com alfabetização e formação de professoras alfabetizadoras por muitos anos, vivenciando com elas os desafios da prática alfabetizadora nas escolas públicas brasileiras, onde ainda vislumbramos os problemas especialmente na escolarização das crianças das classes populares, muitos desagrados vêm-se acumulando. Percebemos como as questões relativas aos procedimentos e práticas alfabetizadoras debatem-se em torno a antigos problemas, como a questão do método, como as diferenças culturais entre as crianças das classes populares e as crianças universais que as teorias elegeram como modelo, e como a falta de referências teóricometodológicas que ultrapassem os modelos cognitivistas. Muita confusão se faz na tentativa de inserção de novos conceitos no campo da alfabetização, que parecem advir de uma opção pela mudança de termos, mas deixando intactos alguns desafios sobre os quais a escola pública debruça-se desde que a obrigatoriedade da escolarização para todos se impôs: os filhos e filhas das classes populares não aprendem a ler na escola, e a maioria da população brasileira vive um cenário de aquisição da leitura e escrita que carece de crítica, pelo privilégio dado aos aspectos técnicos desses processos. Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001489 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Insatisfeitas com esse cenário, temos discutido, na universidade e na escola, alternativas a essa pobreza das experiências. Este trabalho pretende discutir os procedimentos teórico-metodológicos de um projeto de pesquisa e intervenção intitulado Alfabetização por projetos de trabalho, que tem por objetivo construir, na interação com professoras, crianças e estudantes a compreensão dos processos de alfabetização escolar como atividade de construção ativa e coletiva de conhecimentos, mediados pela Literatura Infanto-juvenil como atividade estética da autoria infantil. Vivenciamos, na década de 80 do século XX, o debate em torno a formas de pensar a alfabetização infantil que deslocavam o foco do ensino para a aprendizagem das crianças. Porém, naquele momento, o referencial piagetiano dominou os estudos, trazendo como característica para o movimento o foco nos aspectos cognitivos da aquisição da leitura e principalmente da escrita. Mais tarde, assumimos a alfabetização como processo discursivo, aproximando as perspectivas teóricas dos estudos de base sócio-histórica, principalmente o referencial de Luria, discípulo de Vygotsky, e os estudos bakhtinianos da filosofia da linguagem. Ainda assim, com todo avanço, vivemos um refluxo nas políticas públicas para os anos iniciais do Ensino Fundamental, e a área da alfabetização sofreu com um retorno à ênfase no ensino, com o que podemos chamar de “recaída” aos métodos fônicos e sintético-analíticos de alfabetização, agravada com os exames obrigatórios da “qualidade” do ensino, a partir do SAEB. Vivemos um triste momento em que as secretarias de educação de importantes sistemas educativos brasileiros implementam metodologias de alfabetização que, em última análise, formam uma geração de professoras para uma concepção de leitura e escrita que precisa ser colocada em análise crítica. Apesar da incorporação mais ou menos consensual da relevância do trabalho com o texto na aprendizagem da leitura e escrita – os gêneros textuais ou discursivos vem sendo incorporados nos livros base – o que percebemos é que muitos dos ganhos teóricos que empreendemos na década de 80 foram substituídos por uma concepção multifacetada da alfabetização, que mistura conceitos ligados à perspectiva de letramento como inserção nos gêneros textuais ou discursivos dos quais a cultura faz uso, com uma metodologia de compreensão do funcionamento da língua escrita que vai dos métodos sintético-analíticos ao retorno à fonetização. Sem entrar no mérito desse trabalho, o que cremos já ter sido suficientemente criticado pelos pensadores que se debruçam sobre a questão da alfabetização, gostaríamos de buscar, entretanto, outros lugares para pensar. Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001490 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 O que vamos tentar, nesse texto, é delinear as trajetórias que vimos seguindo e perseguindo, no trabalho realizado em seis turmas de alfabetização de uma escola pública da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, envolvendo seis professoras, dez bolsistas de graduação em Pedagogia, outros pesquisadores em nível de graduação e pós-graduação e 135 crianças entre 7 e 14 anos, estudantes em diferentes momentos no processo de alfabetização. Nossa tentativa é a de, no diálogo com as crianças, professoras e estudantes, compor outras compreensões, a partir de pistas, caminhos e descaminhos, inventividades cotidianas na construção e produção de leituras e escritas na escola. O que buscamos é aquilo que desvia: o que não compreendemos ao primeiro olhar, este informado pelas teorias clássicas. Com Boaventura de Sousa Santos (2003) aprendemos que as lógicas negligenciadas pela lógica hegemônica podem guardar vestígios de alternativas aos processos naturalizados como universais. Portanto, assumindo a dificuldade histórica do encontro cultural entre a escrita e seu lastro sócio-histórico e as culturas das crianças das classes populares, observamos, pensamos com elas, dialogamos com elas cotidianamente, construindo no caminhar uma metodologia de trabalho e de pesquisa, que nesse presente trabalho gostaríamos de apresentar, dialogar, e discutir os limites e possibilidades. Alfabetização e atividade estética Em novembro de 2010, fomos participar de um evento na Universidade Federal de São Carlos, intitulada Rodas Bakhtinianas. Fomos impelidas pela curiosidade, já que o evento pretendia discutir os estudos contemporâneos brasileiros realizados a partir do trabalho sobre Arte e Responsabilidade, de Bakhtin, principalmente os estudos que vem se nutrindo da relação entre ética, estética e conhecimento. Nesse evento, ouvimos o professor Ponzio e o professor Geraldi versando sobre a teoria bakthiniana de modo, a nosso ver, a trazer contribuições para outras formas de pensar o conhecimento. Muito mobilizadas por essas falas e pelo evento, de modo geral, começamos a estudar a literatura atual sobre o tema, e propusemos um projeto de pesquisa intitulado Alfabetização por projetos de trabalho: ler é conhecer o mundo, nos dispondo tanto a acompanhar os sujeitos participantes do projeto, quanto estudar as teorias que nos parecem promissoras. A fala do professor Ponzio (2010) que podemos marcar como disparadora de nosso movimento foi quando este disse que, segundo Bakhtin, “não se pode ensinar a língua sem a Literatura”. Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001491 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Segundo esse autor, quem escreve não faz mera transcrição ou toma notas, mas muito mais que isso, transcria a vida e a experiência por meio da linguagem escrita. Para ensinar uma criança a ler e a escrever, precisamos, recuar, e ver a vida não como ela é – tarefa do transcritor – mas dela tomar distância e, saindo do seu papel, ver-se no duplo que a escrita permite. As relações sociais como as escolares são, antes disso, relações humanas, ou seja, relações entre seres humanos concretos, históricos e com uma história pessoal, “sujos do mundo”, e não seres etéreos dos manuais humanistas. Cada um que cruza nosso caminho é ao mesmo tempo a alteridade radical com quem dialogamos sem sínteses, e partilha conosco um tempo e um lugar, referências culturais e pertencimentos sociais. Quase o mesmo, mas não exatamente, como dizia Bhabha. O conceito de alteridade precisa estar bem pensado ao falarmos dos encontros humanos, alteridade essa que não é sinônimo de diferença, mas de outridade. Essas relações são mediadas pela palavra, mas que palavra é essa a qual nos referimos? Para além dos discursos monológicos que a escola se encontra repleta, a opção é pela via da palavra literária. “O texto literário excede o que lhe é contemporâneo” (Bakhtin, 2000). O que ocorre é que pela e na literatura que media a instauração de outro diálogo, acontece o que Bakhtin chama da escuta como arte da palavra. Augusto Ponzio define essa propriedade única da palavra literária que instaura um sentido capaz de ultrapassar os silêncios da palavra imposta: O calar da palavra literária desvia o sentido, subvertendo não o conteúdo, mas a própria prática do sentido, desnorteando a prática da significação com a da significância. Libera os significantes, que recusam assim os percursos interpretativos, os significados habituais. (...) O universo da palavra literária é aquele da alteridade, da polifonia, do plurilogismo, do diálogo, da escuta como espaço interpessoal, no qual “eu escuto” quer dizer também “ouça-me” (Roland Barthes). (PONZIO, 2010, p. 50) A propriedade da palavra literária, para Bakhtin, encontra-se no sentido da exotopia que ela possibilita, expressando-se a alteridade constitutiva da consciência e da autoconsciência. É no distanciamento entre a palavra literária, que nunca é direta e monológica nem aspira à interpretação, que o sujeito pode ser chamado à escuta responsável, ou seja, pode pelo efeito do distanciamento suspender a inexorabilidade das condições do presente e dialogar, no grande tempo, consigo mesmo e com o outro: Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001492 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 (...) o discurso indireto livre não é simplesmente um modelo sintático; expressa também uma preferência ideológica especial, uma forma particular de consciência do intercâmbio lingüístico; indica condições socioeconômicas especiais e realiza uma comparação entre linguagens, estilos e ideologias diferentes; converte em relativos os pontos de vista; desbarata a palavra monológica. (PONZIO, 2009, p. 65) Esse feito, segundo Bakhtin (1992), é obtido por meio da atividade estética, que aqui nesse nosso caso será a Literatura Infanto-juvenil. Dessa forma, buscamos pensar uma alfabetização como processo discursivo onde a Literatura Infanto-juvenil é a ferramenta alfabetizadora por excelência, assumindo a estética como fundadora dos processos éticos e cognitivos. A partir do trabalho com a leitura e a escrita de Literatura Infanto-juvenil, buscamos a formação de um leitor escritor que dialogue os saberes literários com os saberes da vida e, nessa teia, invente a si e ao mundo, conheça a si e às coisas, aprenda a dizer, a ouvir, a ler e a escrever no diálogo transcriador. Nesse processo, o conceito de autoria é re-significado, devendo referir-se a atividade daquele que, deslocando-se do imediato que o discurso direto é signatário, pelo efeito de exotopia que o texto literário proporciona, toma distância de sua vida e a ela pode narrar. Bakhtin dedicou-se a dois estilos literários que favorecem a exotopia: a ironia e a polifonia, em seus estudos sobre Rabelais e Dostoiévski, respectivamente. Nossa tentativa, a partir da provocação que Ponzio nos conclamou, é a de investir maciçamente na leitura e escrita a partir da experiência estética com a Literatura Infanto-juvenil, buscando compreender como a criança incorpora essa linguagem em suas formas de dizer, de pensar, de fazer em sua caminhada na alfabetização. Dizendo de outra forma, ao investir na crença de que a Literatura Infanto-juvenil propicia um distanciamento estético em relação ao mundo, observar os movimentos infantis produzindo-se como autores de suas formas de dizer, dizendo seu mundo e suas vivências em leituras, escritas, dizeres e fazeres. O trabalho com as crianças Muitos são os desafios de um projeto que nasce na universidade e se destina à escola básica. As contradições que foram historicamente construídas, baseadas na divisão social do trabalho pedagógico se revelam na desconfiança da escola na entrada dos sujeitos da universidade, e os bolsistas, tão jovens na carreira universitária, já carregam as marcas dos estereótipos sobre a educação pública. Levamos mais de quatro meses para “fazer amizade”, e conquistar a confiança em ambas partes. Insistimos em Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001493 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 um modelo formativo onde professoras da escola, bolsistas do curso de Pedagogia e demais participantes compunham um grupo reflexivo e pequenos grupos de trabalho com as turmas, no interior dos quais se buscava a parceria como modelo teórico e metodológico. Partimos da implementação de projetos de trabalho como processo organizador do currículo dos anos iniciais, e enfrentamos o desafio das mudanças na lógica que esse empreendimento demanda. Primeiro, a reconfiguração da classe como espaço dialógico, trazendo a roda no chão como espacialidade possibilitadora do encontro entre adultos e crianças. Depois, a escolha dos temas dos projetos como discussão e deliberação do grupo, envolvendo adultos e crianças. O desafio maior foi a respeito da busca da construção das atividades, que deveriam obedecer aos itens listados no índice como pontos a serem investigados sobre os temas escolhidos/eleitos, e o desenvolvimento de diálogos junto com as crianças sobre os conhecimentos que circulavam nas aulas. A pesquisa como metodologia de trabalho a princípio se fez com muito estranhamento por parte dos adultos envolvidos, que pareciam não saber como compor a busca pelas fontes, mas gradativamente sendo incorporado como trabalho fundamental. Em 2011, as seis turmas participantes desenvolveram projetos diferentes e em alguns momentos articulados, que foram: os Pinguins e os pólos norte e sul; a Água; Histórias de Terror; Gibis; os Animais; a Praia. A literatura infantil foi o foco de discussões teóricas do grupo, bem como a atividade disparadora e de desenvolvimento dos projetos. A cada projeto, um acervo bibliográfico era selecionado e trabalhado, disparando subprojetos e atividades diversificadas. Em um momento específico do grupo de discussões, refletimos sobre a imposição da literatura sobre as crianças, como escolha dos adultos. Nesse momento, iniciamos um movimento de ida com as crianças às livrarias, onde essas conheciam os acervos, escolhiam os livros e os compravam, compondo assim as bibliotecas de sala. Em todas as atividades realizadas, planejadas com as crianças, diferentes obras eram lidas, apropriadas e geravam diferentes atividades de escrita. No início do trabalho, percebemos como as crianças tinham dificuldade ou não tinham prazer em escrever, algumas se negando às tarefas. Aos poucos as crianças foram fazendo uso da escrita como ferramenta de realização das tarefas que elas mesmas estipulavam para o trabalho, e pudemos observar os movimentos que a escrita ia tomando, no decorrer do semestre. Um efeito interessante foi-se constituindo, pois as professoras das turmas começaram a rever seus pontos de vista sobre as crianças, que por sua vez mostravam- Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001494 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 se a cada dia mais participativas, propositivas e afetivamente ligadas entre si e aos adultos. Diferentes trabalhos produzidos pelos participantes da pesquisa e apresentados em encontros nacionais versam sobre a cooperação crescente e as mudanças afetivas observadas nos grupos de crianças, que passaram a se comportar de modo afetuoso e integrado. Porém um desafio se mostra constante e instigador: a avaliação dos movimentos realizados pelas crianças no processo de apropriação da leitura e escrita. Observamos mudanças, mas as ferramentas que historicamente o campo da educação acumulou para esse registro do desenvolvimento focalizam especificamente os aspectos cognitivos dos processos infantis, o que nos parece insuficiente para dar conta da complexidade do que acontece no cotidiano do trabalho. Empreendemos então uma busca por essas ferramentas. Compreendemos que a alfabetização é um processo multifacetado, que envolve, além dos aspectos cognitivos, elementos de desenvolvimento ético-sociais e estético-expressivos, mas como registrar esses movimentos sem separá-los em categorias estanques? Ao mesmo tempo, observamos que os movimentos do grupo a partir da perspectiva de projetos vão além da aquisição da leitura e escrita infantis, mas envolvem o desenvolvimento da própria noção de conhecimento escolar, envolvem componentes formativos no grupo das professoras e estudantes envolvidos, e confere às aulas uma abertura dinâmica multidirecional, que rompe com fronteiras disciplinares, geracionais e hierárquicas. Especificamente em relação à alfabetização enquanto aquisição das ferramentas para ler e escrever, a autoria como atividade ética e estética se torna um conceito a ser construído. O professor Wanderley Geraldi propôs um interessante conceito, em sua fala nas Rodas Bakhtinianas: ele nos diz que a palavra monológica, tradicionalmente utilizada como o discurso a partir do qual se aprende a ler e escrever na escola, confere ao estudante que aprende a escrever o papel de transcritor. O sujeito que mergulha no discurso direto que a escola faz uso no trabalho alfabetizador não cria, mas sim acaba por transcrever a realidade. Esse tem sido o ponto das críticas de todos os que se preocupam com a qualidade da escrita produzida pelas metodologias decifradoras utilizadas na escola. O professor Geraldi vai além dessas críticas, apontando para a qualidade do discurso utilizado como fonte e base dos diálogos escolares, trazendo o conceito de transcrição como produto dessas formas ideológicas assumidas em relação ao discurso e a produção de textos. Na mesma fala, o autor nos conclama a pensar na Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001495 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 possibilidade de transformação dos discursos escolares, tendo o dialogismo e a polifonia como bases discursivas, e trazendo a literatura como possibilidade do transbordamento estético que teria como conseqüência a escrita infantil como transcriação da realidade. O que seria a nosso ver esse processo? Assumimos os pressupostos bakhtinianos sobre a exotopia do texto literário como capacidade de distanciamento da realidade diretamente vivenciada, pelo efeito estético que possibilita ver-se no duplo e, nesse distanciamento, rir-se do imediatamente vivido. Nesse espaço intervalar possibilitado por esse efeito estético, ao afastar-se do sério do vivido, as crianças podem escrever responsavelmente, ou seja, respondendo ao que lhes é interpelado pela própria realidade vista no duplo de si. A esse ato estético chamamos transcriação, que é a capacidade de falar do vivido por meio do efeito do duplo de si, atividade de autoria ética e estética utilizando a ferramenta da escrita. Será isso possível pela vivência literária? Será que podemos encontrar elementos desse movimento nas escritas infantis? Vamos narrar a seguir um episódio vivido por um grupo de crianças, buscando alguns elementos para pensar a construção da autoria infantil na perspectiva bakhtiniana que defendemos. Uma experiência ética e estética: crianças e um livro Logo no início do projeto, o grupo de professoras nos solicitou especial atenção a uma turma, que chamamos 503, formada por crianças e jovens entre nove e quinze anos, a maioria com histórico de baixos rendimentos escolares, condutas narradas como desinteressadas e agressivas, além de pouca experiência no campo da leitura e escrita. Como nos foi narrado, era uma turma formada por crianças e jovens que raramente tiveram uma experiência escolar efetiva, já que sofreram com a falta de professores e a rotatividade daqueles que ingressavam na escola e não permaneciam, prejudicando a continuidade de qualquer trabalho. Na nossa vivência inicial com eles, encontramos crianças e jovens descrentes e desafiadores. No primeiro dia de nosso encontro com a turma, um deles escreveu no quadro: “mais um projeto UFF”. A professora da turma nós encontramos francamente desestimulada, aborrecida com o acontecimento de ter ficado com a turma, com freqüentes confrontos com as crianças e jovens, além de falas constantes sobre a dificuldade do desenvolvimento de qualquer projeto pedagógico efetivo. Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001496 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 No primeiro dia de trabalho na turma, as duas bolsistas que se voluntariaram para assumir a turma fizeram uma roda com as carteiras, e quando começaram a falar, receberam boladas e outros objetos. No seu relatório, Elaine, uma das bolsistas escreve sobre esse momento: ...quando viram o espaço na sala, imediatamente, começaram a jogar futebol. Pedi que parassem, mas não me ouviam, era como se eu não estivesse ali, acertaram-me a bola, peguei um dos meninos pela mão e novamente pedi que parasse, ele começou a gritar... a Marisol chegou, fez as apresentações, após o primeiro contato, eu estava sentada no chão, assustada e hesitante, não sabia se deveria seguir com o que foi planejado, pois tudo acontecera de maneira avessa ao que foi programado, eu só pensava nas teorias que havia aprendido na faculdade e que foram diluídas em questão de segundos, naquele dia a teoria não deu conta da prática... (relatório Elaine, 17/09/2010) Mas isso iria durar cinco minutos. Nesse momento, insisti para que começassem o trabalho planejado. Elaine sentou-se ao chão e abriu um livro de literatura infantojuvenil, intitulado Os Meninos da Rua de Baixo, e começou a ler. Por mais de quarenta e cinco minutos, as crianças e jovens, bem como nós próprias e a professora ficamos em silêncio, ouvindo a leitura. O silêncio só se quebrava pelo comentário das crianças e jovens, que diziam: “nossa, esses meninos são piores que nós”, ou “e o que aconteceu?”, ou ainda risos e interjeições de susto ou interesse. Ao final da leitura, estavam dialogando com Elaine, comigo e Lita, a segunda bolsista, sobre o lugar onde vivem, sobre a possibilidade de estudarem um projeto sobre Niterói. A professora, Luzia, nos disse que foi um evento extraordinário, e que apesar de ter percebido o interesse deles por algumas atividades, nunca os tinha visto absortos em alguma tarefa. Seu rosto estava sorridente, e ao sairmos dali, nos emocionamos muito. O que aconteceu ali? Em primeiro lugar, podemos pensar que o primeiro ato foi a não aceitação, pelo grupo proponente da atividade, dos termos do diálogo inicial. Tanto a ação das crianças demonstrando que sabem o lugar da universidade na escola, pela escrita da frase, quanto a rejeição física das bolsistas, bem como a atitude de descrença da professora propunham um diálogo, que apesar de compreendermos, não respondemos nesses mesmos termos. Ao contrário, propusemos outro diálogo, baseados em outras premissas. A primeira é a de que podemos dialogar na roda e sobre a base da literatura. Negando o lugar histórico assumido pelos sujeitos da escola, dialogamos com outros sujeitos que eles são: crianças e jovens, estudantes na escola, professora Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001497 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 competente e portadora de saberes que respeitamos, ouvimos e a eles nos juntamos como outros sujeitos. No decurso do projeto com essa turma, as crianças passaram a dizer-se através da oralidade e da escrita, mas o mais fundamental foi a mudança de atitude deles em relação ao conhecimento. Os relatórios de final de ano sobre a turma mostraram outra realidade: as crianças elaboraram o roteiro de uma viagem a Petrópolis, para conhecer a história do Brasil, viajaram e relataram, ao final, os saberes que vivenciaram. Fui com as crianças e professoras nessa viagem. Um fato importante foi quando o guia do museu imperial tentava mostrar para as crianças a sala da Lei Áurea, com a pena de ouro que a Princesa Isabel assinou a carta, recém adquirida pelo museu. Na mesma sala, havia vários instrumentos de aprisionamento dos negros escravos, e as crianças sentaram-se no chão para ver e conversaram sobre eles. O guia chamava as crianças, mas elas não foram. Agachei-me perto delas e ouvi quando uma das crianças disse: minha bisavó devia ficar presa nisso aí... No retorno à escola, as crianças realizaram as tarefas de relatório da viagem com grande riqueza de detalhes, cooperando entre si no trabalho de memória e registro do acontecido e vivido. O relatório final da turma, escrito pelo grupo de professoras e estudantes falava de movimento, de mudança, de abertura. De crianças que diziam sua palavra de maneira confiante. Ainda brigavam e ainda se provocavam, mas construíam conhecimentos no coletivo. A escola toda comentava: o que aconteceu com essas crianças? Na 503 ao longo do ano percebemos que deveria haver alguma maneira de conquistá-los pelo fato ser uma turma já tão sofrida, a afetividade foi praticamente o ponto de partida para que desenvolvêssemos esse projeto. Após trabalharmos assuntos sobre a cidade de Petrópolis, fizemos uma a atividade que era um jogo de forca no sentido também de trabalhar a escrita dos alunos, muitos alunos em trio se dirigia até a mim que estava no quadro para que juntos desvendassem a palavra, percebi o quanto o trabalho de maneira coletiva já havia internalizado, o respeito entre eles já não era mais o mesmo daquele do início das atividades. Ressalto essa passagem do relatório que fizemos desse dia para dar exemplo de mais uma situação. “Enquanto isso Lita começou a montar o jogo de forca, imediatamente uns foram para o quadro brincar, no jogo expliquei que só colocaria palavras citadas no roteiro, isto é seria uma forca com os pontos turístico que iremos conhecer. Uma observação a ser feita é que, nesse momento os alunos que sentiram interessados era composto por aqueles que na hora da leitura do roteiro não quiseram ler. Um dos alunos acertou todas as palavras e falou o seguinte para Lita “Tia tá vendo como prestei Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001498 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 atenção em tudo” e pediu para que eu levasse um quadro branco no ônibus para que ao longo da viajem continuemos a brincar de forca”. Esse momento para mim foi crucial, a confiança que esse aluno depositou em nosso trabalho foi tanta que a partir dali ele já apresentava o desejo dele em relação ao nosso trabalho, ele expôs o que gostaria de trabalhar... Não só nós passamos ensinamentos para essa turma, sem nenhuma sombra de dúvida, o que aconteceu na 503, foi e eternamente será um exemplo de trabalho, modificador, onde mostra que o professores, educadores em geral, tem panos na manga o suficiente para colaborar para a melhora de uma turma, seja não só na alfabetização como era nosso objetivo, mas também na auto-estima que podemos levantar. Todo o grupo do PIBID e demais professores que estão participando dessa pesquisa se emocionam e se orgulham de ter colaborado ou apenas acreditado que esse trabalho podia dar certo, e deu! (Relatório Lita 12/12/2010) Pensando em novos passos O trabalho ainda contará com mais um ano de produções. No momento vimos implementando práticas de registro reflexivo e compondo um banco de dados para o estudo sistemático dos conceitos que nos tocam e nos quais acreditamos. Nosso desafio nesse momento é a construção de ferramentas de análise crítica dos percursos alfabetizadores. Vimos acumulando narrativas em relatórios, e produções infantis, mas gostaríamos de enfrentar a tarefa da construção de modelos avaliativos dos movimentos infantis e adultos no percurso do trabalho. O grupo conta hoje com dezenove estudantes, quatro professoras da educação básica e quatro professoras universitárias, que vem se debruçando atualmente na tarefa da leitura crítica dos dados. Aquilo que nos surpreende e nos encanta precisa tornar-se diretriz de trabalho, e para tanto precisamos da construção de parâmetros de avaliação. Os conceitos de transcriação e de autoria infantil na alfabetização tem nos dirigido o olhar para os acontecimentos registrados e em produção cotidiana no projeto. Esperamos nos próximos meses ter consolidado, em análise de produções e narrativas infantis e adultas alguns índices que possam servir de ferramentas para pensar como a atividade estética deflagra movimentos éticos e cognitivos complexos, alterando a forma de organização da aula, a concepção docente sobre os processos educativos, as relações das crianças consigo mesmas, com os colegas, com os adultos, com o conhecimento e com o mundo, e como a Literatura Infanto-juvenil interfere nesse processo. Estamos no início da jornada, mas acreditamos estar vivendo um momento ímpar, fértil e pleno de possibilidades das alternativas do pensar e do fazer em alfabetização. Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001499 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo : Martin Fontes, 2000. BAKHTIN, M. M. (2010). Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos : Pedro & João Editores. GERALDI, J. W. & PONZIO, A. (2010). Onde o estético e o ético se encontram hoje. In: Círculo – Rodas de Conversa Bakhtinianas. São Carlos : Pedro & João Editores. GERALDI, J. W. A Aula como Acontecimento. São Carlos : Pedro & João Editores, 2010. HERNÁNDEZ, F. & VENTURA, M. A Organização do Currículo por Projetos de Trabalho. Porto Alegre, ArtMed, 1998. MAGALHÃES, E. Os Meninos da Rua de Baixo. 2.ed. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico Editora, 1995. PONZIO, A. A Revolução Bakhtiniana. São Paulo : Editora Contexto, 2009. PONZIO, A. As orientações lingüísticas hoje e a escuta como arte da palavra. In: Círculo: Rodas de Conversa Bakhtinianas. Bakhtin e a Atividade estética: novos caminhos para a ética. São Carlos : Pedro e João Editores, 2010. i O Jongo é uma prática cultural afro-brasileira oriunda das populações Banto. É praticado na região sudeste do Brasil e tem o título de patrimônio imaterial brasileiro. A manifestação se caracteriza pela sua dança, música e a relação dos aspectos profanos com os sagrados. Sua música é marcada pela percussão de tambores e pelos cantos improvisados, impregnados de teor enigmático. Lopes (2005), ao comentar sobre as tradições Banto e negro-africanas em geral, destaca a importância do papel desempenhado pelas canções nesta prática, uma vez que o material sonoro com que elas operam influencia tanto no plano cósmico quanto nas práticas cotidianas. ii Ponto é a expressão utilizada para chamar as cantigas entoadas nas rodas de jongo. Esse termo também é comum em outras manifestações culturais de matriz africana. No jongo, mais especificamente, a palavra ponto caracteriza a dinâmica de improvisação e interpretação das cantigas, considerando que os jongueiros dizem: lançar ou amarrar um ponto e desatar um ponto ou nó. iii A referida roda de funk compreende, em linhas gerais, uma prática musical realizada por alguns alunos no pátio interno da escola durante o recreio. Para alegria de alguns, indiferença e indignação de tantos outros, toda sexta-feira o funk toca forte em uma caixa amplificada conectada aos softwares Virtual DJ e BPM Studio instalados em um netbook sob as mixagens e os scratchs de alguns alunos-DJs. E sob este som, diversos alunos formam uma roda em que realizam o que tem sido comumente chamado de duelo de passos ou batalha dos passinhos. iv Um exemplo desta “arte de viver no campo do outro”, é apresentado pelo próprio Certeau ao abordar a língua falada pelos lavradores de Pernambuco sobre sua situação em 1974: “O espaço distribuía o espaço de maneira a estratificá-lo em dois níveis. De um lado, um espaço sócio-econômico, organizado por ula luta imemorial entre ‘poderosos’ e ‘pobres’, apresentava-se como o campo de perpétuas vitórias dos ricos e da polícia, mas também como o reinado da mentira (...). Por outro lado, distinto desse espaço polemológico e que apresenta à perspecácia dos lavradores uma rede inumerável de conflitos, escondida sob o manto da língua falada, havia um espaço utópico onde se afirmava, em relatos religiosos, um possível por definição milagroso: Frei Damião era o seu centro quase imóvel sem cessar qualificado pelas histórias sucessivas dos castigos do céu que atingiam seus inimigos” (CERTEAU, 1994, p. 76). Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001500 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 v Indo um pouco mais além, Mailsa C. P. Passos e Rita M. R. Pereira buscam discutir o que poderíamos chamar de uma esteticização da ciência (PASSOS e PEREIRA, 2011). Em seu livro Educação Estética Experiência, por exemplo, Passos e Pereira procuram justamente estabelecer um diálogo com “pesquisadores preocupados com a construção de uma ciência que ajude a nos tornar mais humanos, entendendo essa humanidade como a capacidade de ser sensível ao outro e à expressividade de suas produções. Essa sensibilidade, que atravessa nossas experiências cotidianas, implica o desafio de estar atento às narrativas que emergem em nossos encontros de pesquisa, em nossas aulas, nos eventos dos quais participamos, e nos encontros que nos ocorrem todos os dias quando as pessoas contam-nos de si. Estamos certas de que todo tempoespaço de formação é também de produção de sentidos e que o processo de produção de conhecimento é sempre mobilizado pela busca de uma experiência-diálogo com outros indivíduos, na qual afetamos e nos afetamos, inventando novas formas de percepção e expressão” (PASSOS; PEREIRA, 2011, p. 20 – o grifo é meu). Junqueira&Marin Editores Livro 1 - p.001501