Análise sobre a Aplicabilidade da Ferramenta BSC à Administração dos Consórcios Intermunicipais de Saúde de Minas Gerais: Um Estudo de Caso no CISMEV Autoria: Juliana Caroline Coutinho Coelho Guimarães Resumo: O desenvolvimento de uma gestão profissional coerente com as demandas da sociedade, que assegure a otimização dos recursos, a eficiência dos processos e os resultados desejados é uma realidade inegável na Saúde Pública. A promulgação da Lei 11.107/2005 insere uma agenda de mudanças na realidade dos Consórcios Intermunicipais de Saúde, tornando necessário um novo olhar para a gestão dessas organizações. Diante desse cenário de mudanças, incertezas e cobranças sociais, é extremamente necessário repensar as práticas de gestão. É preciso buscar meios eficazes que unam a legalidade dos fatos à profissionalização dos atos. Uma ferramenta gerencial, que seja capaz de mensurar o desempenho e que considere a perspectiva multidimensional existente na esfera pública, vem dar vida ao principal da eficiência estabelecido na Constituição Federal em seu artigo 37. As ferramentas de suporte à gestão vêm evoluindo rapidamente nas últimas décadas, destacando-se o Balanced Scorecard (BSC), uma ferramenta de gestão estratégica e de performance organizacional. A adoção do BSC como ferramenta de apoio à gestão dos consórcios vem ao encontro da demanda existente por maior eficiência, por maior profissionalização na gestão pública, isto é, pela incorporação de técnicas do setor privado pelo setor público. O presente artigo tem por objetivo apresentar uma ferramenta de apoio à gestão para os Consórcios Intermunicipais de Saúde, alicerçada no BSC por meio de uma proposta de projeto piloto em um Consórcio selecionado para tal. Dessa forma, para a efetivação desse trabalho, foi concebido um Estudo de Caso no CISMEV – Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Rio das Velhas, sendo desenvolvida uma proposta de construção do BSC, composta por nove etapas distintas. O desenvolvimento dessas etapas mostrou-se eficiente para o alcance do objetivo proposto. Assim, foi possível identificar as principais fontes de resistência para a adoção de novos procedimentos e rotinas, destacando os desafios encontrados no processo de desenvolvimento do BSC por instituições públicas. Foram identificados também os possíveis ganhos com a implantação dessa ferramenta culminando no cumprimento da missão e construção da visão organizacional. Percebeu-se que a identificação dos motivadores para a escolha dessa ferramenta, bem como de suas potencialidades e limitações são imprescindíveis para a construção desse processo com maior criticidade. 1 1. Introdução O crescimento da concorrência, os avanços tecnológicos observados em diversas áreas do conhecimento e a globalização dos mercados contribuíram para um repensar na forma de gerenciar as organizações. Dessa forma, a informação e o conhecimento se destacam; são o cerne da busca da vantagem competitiva, do diferencial da organização. Adotada como diferencial competitivo na iniciativa privada, a gestão profissional vem sendo encarada pelo Setor Público, desde os anos 1980, como instrumento importante para a melhoria de seu desempenho, com o surgimento de um novo paradigma para a administração do Estado: a Nova Gestão Pública (PERDICARIS, FORMOSO, & NOGUEIRA, 2009). Cada vez mais, as instituições públicas necessitam apresentar resultados para a sociedade, apresentar coerência entre o planejamento e as suas ações. Tais pressupostos se tornam ainda mais relevantes quando o setor envolvido é o de Saúde Pública, cujas demandas se avolumam, os recursos são escassos e a necessidade de melhoria e profissionalização das ações são incontestáveis. O Sistema de Saúde Pública no Brasil, desde o início de sua história em 1808, vem passando por várias transformações: quanto à sua forma de atuação, de um sistema curativo para um sistema preventivo e quanto à sua abrangência, de um sistema centralizador para um sistema universal, a fim de proporcionar uma saúde digna e igualitária a todos os cidadãos brasileiros. O SUS - Sistema Único de Saúde, fruto dessas transformações, constitui o modelo público oficial de atenção à saúde em todo o Brasil, sendo considerado um dos maiores sistemas de Saúde Pública do mundo (BRASIL, 2009). Dentre os seus princípios e diretrizes, um dos que mais se destacou e demonstrou maior avanço foi o de descentralização. Com o processo de descentralização da saúde, iniciado na década de 1980, mais atribuições foram repassadas aos municípios, que deveriam, dessa forma, buscar resolver seus problemas de saúde local. Devido à falta de recursos financeiros, humanos e estruturas eficientes para assumir essas atribuições, surgiram os Consórcios Intermunicipais de Saúde – Associação de Municípios com o objetivo de realizar ações conjuntas, a fim de maximizar e otimizar os recursos disponíveis. Os consórcios estão alicerçados na Lei Orgânica da Saúde 8.080/1990, Lei 8.142/1990, e, posteriormente, através da Emenda Constitucional n.º 19 de 04/06/1998 que deu nova redação ao artigo 241, os consórcios foram inseridos na Carta Magna. Apesar dessa abertura legal para a constituição dos consórcios, inexistia uma Lei que regulamentasse o funcionamento dos mesmos, o que dificultava o seu gerenciamento e o planejamento de ações futuras. Em seis de abril de 2005, foi promulgada a Lei 11.107, a chamada Lei de Consórcios Públicos, e, em 17 de janeiro de 2007, o seu decreto regulamentador n.º 6.017, que dispõe sobre as normas gerais de contratação de consórcios públicos, que veio regulamentar o artigo 241 introduzido pela Emenda Constitucional n.º 19. A adequação dos consórcios aos ditames da Lei Federal 11.107/2005 não é uma obrigação legal, em razão do respeito ao “ato jurídico perfeito”, porém essa Lei é uma conquista, é o “marco legal dos consórcios” e tal adequação se torna necessária para o aperfeiçoamento da gestão pública e para a realização de convênios com a União. O desenvolvimento de uma ferramenta de apoio à gestão coerente com a identidade organizacional dos Consórcios, que os conduza para a definição dos objetivos e das diretrizes estratégicas, vem ao encontro dessa busca pela modernização das práticas de gestão. Nota-se que é preciso buscar meios eficazes que unam a legalidade dos fatos à profissionalização dos atos. Neste contexto, o objetivo desse artigo é apresentar uma ferramenta de apoio à gestão para os Consórcios Intermunicipais de Saúde, alicerçada no BSC, por meio de uma proposta de projeto piloto em um consórcio selecionado para tal. 2 2. Referencial Teórico De acordo com Wernke (2001), a única maneira sustentável pela qual as organizações criam valor é através de suas estratégias. Portanto, é fundamental que a organização tenha a capacidade de mensurar as estratégias implementadas. Devido às características do mundo moderno, à intensidade da competição e à cobrança dos múltiplos atores sociais, surgiu a necessidade de se aumentarem as perspectivas de controle e planejamento da organização, extrapolando o aspecto meramente financeiro. Nesse sentido, a fim de apoiar o desenvolvimento da gestão empresarial, é essencial que exista um processo de mensuração de desempenho que considere a perspectiva multidimensional em decorrência da complexidade inerente. Diante da necessidade de atender a essa perspectiva multidimensional, foi desenvolvido o Balanced Scorecard (BSC), sendo definido por Kaplan e Norton (2000) como uma ferramenta de gestão que se baseia na representação equilibrada das medidas financeiras e operacionais, organizadas de acordo com quatro perspectivas: Financeira, do Cliente, dos Processos Internos e do Aprendizado e Crescimento. Os objetivos estabelecidos nas três perspectivas anteriores demonstram onde a empresa deve se destacar a fim de obter um desempenho superior. Dessa forma, para Kaplan e Norton (1997), a perspectiva do aprendizado e crescimento reveste-se de grande relevância, pois representa a infraestrutura necessária para a realização dos objetivos traçados nas perspectivas anteriores. Niven (2005) reforça a importância dessa perspectiva ao afirmar que ela é o alicerce sobre o qual a edificação inteira do BSC será construída. Olve, Roy e Wetter (2001) compartilham desse pensamento ao dizer que a perspectiva do aprendizado e crescimento permite que a organização assegure sua capacidade de se renovar a longo prazo, um pré-requisito para sua sobrevivência. Para Lima (2008) o BSC coloca a estratégia no centro do processo, fornecendo uma estrutura para a implementação, com sucesso, das estratégias organizacionais. O BSC é considerado pelos executivos, a ferramenta capaz de traduzir a visão e a estratégia da empresa num conjunto coerente de medidas de desempenho (OLVE, ROY, & WETTER, 2001). Para Kaplan e Norton (1997), a utilização de sistemas de gestão e medição de desempenho, decorrentes das estratégias e capacidades organizacionais, é imprescindível para garantir a sobrevivência na Era da Informação. Para se construir um BSC capaz de traduzir a estratégia em medidas, Kaplan e Norton (1997) apresentam três princípios que permitem realizar essa integração: • relações de causa e efeito - Um scorecard bem elaborado deve descrever a história da estratégia, da unidade de negócios através da sequência de relações de causa e efeito. Para Niven (2005), as relações de causa e efeito definem a trilha específica que a empresa irá percorrer para conquistar a estratégia. • vetores de desempenho - Todo BSC utiliza algumas medidas genéricas. São medidas essenciais de resultados, que demonstram as metas comuns de muitas estratégias, bem como estruturas semelhantes entre setores e empresas. Essas medidas genéricas de resultados tendem a ser indicadores de ocorrências (lagging indicators). Os vetores de desempenho, chamados de indicadores de tendência (leading indicators), geralmente são específicos para cada unidade de negócio. Um bom BSC deve representar uma combinação adequada de indicadores de ocorrências e indicadores de tendência, ajustados à estratégia da unidade de negócios; • relação com os fatores financeiros - O BSC deve dar ênfase nos resultados, principalmente nos financeiros. A maioria dos executivos não vincula programas como gestão da qualidade total, redução do tempo de ciclo, reengenharia e 3 empowerment a resultados que influenciam de forma direta os clientes e geram desempenho financeiro no longo prazo. A representação visual dessas relações de causa e efeito entre os componentes da estratégia de uma organização pode ser denominada como Mapa Estratégico que é tão importante como o próprio BSC. O Mapa Estratégico do BSC fornece um modelo que demonstra como a estratégia liga os ativos intangíveis a processos que criam valor. Ele adiciona uma segunda camada de detalhes ilustrando a dinâmica temporal da estratégia e acrescenta um nível de detalhe a fim de melhorar a clareza e o foco. Enfim, o Mapa Estratégico demonstra uma maneira uniforme e consistente de descrever a estratégia, facilitando a definição e o gerenciamento dos objetivos e indicadores, representando o elo perdido entre a formulação e a execução da estratégia (KAPLAN & NORTON, 2004). Kaplan e Norton (2000; 2004) esclarecem que a elaboração do Mapa Estratégico deve iniciar-se pela perspectiva financeira e avançar sucessivamente para as demais perspectivas: do cliente, dos processos internos e do aprendizado e crescimento; porém, para as organizações governamentais e sem fins lucrativos, torna-se necessária a mudança da arquitetura original do BSC, uma vez que o sucesso financeiro não é o principal objetivo dessas organizações. Assim, o Mapa Estratégico pode iniciar-se pela perspectiva dos clientes, seguido pelas perspectivas financeira, dos processos internos e do aprendizado e crescimento. Segundo Kaplan e Norton (2000), o BSC é capaz de promover grandes mudanças estratégicas e organizacionais, capacitando as organizações a construir um novo tipo de sistema gerencial – concebido para gerenciar a estratégia estabelecida. Kaplan e Norton (2000) constataram que as empresas bem-sucedidas com a implantação do BSC revelaram um padrão consistente na consecução do foco e do alinhamento estratégico. Embora cada organização encarasse o desafio à sua própria maneira, em ritmos e sequências distintos, foi observada a atuação de cinco princípios comuns, denominados por Kaplan e Norton (2000) de princípios da organização focalizada na estratégia: Princípio 1 - Traduzir a estratégia em termos operacionais; Princípio 2 - Alinhar a organização à estratégia; Princípio 3 - Transformar a estratégia em tarefa de todos; Princípio 4: Converter a estratégia em processo contínuo; Princípio 5: Mobilizar a mudança por meio da liderança executiva. 2.1. O BSC em organizações sem fins lucrativos, governamentais e de assistência médica Observa-se que o BSC representa uma ferramenta gerencial que pode ser adotada por qualquer tipo de organização, mas, de acordo com Wernke (2001), sua operacionalização não é simples, e a necessidade da participação da alta gerência para formulação dos objetivos estratégicos a serem buscados exige elevado grau de conscientização. O desenvolvimento do BSC em organizações governamentais e sem fins lucrativos tem sido amplamente aceito e adotado em todo mundo, segundo Kaplan e Norton (2000). No entanto, para Kaplan e Norton (2000) e Niven (2005), essas organizações se deparam com sérias dificuldades na definição nítida de suas estratégias, uma vez que não compreendem o real papel da estratégia dentro da organização. Essas instituições necessitam compreender que a estratégia não significa apenas o que a organização pretende fazer, mas também o que a organização decide não fazer. Niven (2005) esclarece que um dos mais importantes atributos do scorecard é a sua simplicidade. Simplicidade não é, porém, sinônimo de simplismo. A aplicação dessa sofisticada ferramenta exige rigor e disciplina independentemente da estrutura organizacional, porém o Setor Público oferece alguns desafios inigualáveis, conforme descritos pelo autor citado: • O que executo não é mensurável - Para superar esse desafio, as instituições necessitam criar uma distinção entre resultados e produtos. • Os resultados serão usados para punir - Esse condicionamento negativo pode se transformar num grande entrave à implementação bem-sucedida do BSC. 4 • Qual é a missão? - Muitas instituições sentem pressões de serem “empurradas” para inúmeras direções, o que torna quase impossível a criação de um scorecard claro e conciso. • O público não entenderá os resultados negativos - Isso gera preocupação aos adeptos do scorecard, pois não apenas os resultados podem ser retirados do contexto, como também os resultados abaixo da meta traçada podem ser exibidos na mídia, representando a falta de competência do governo. • Por que investir em algo que durará somente até o final desta administração? Obter o apoio dos dirigentes eleitos pode ser comparado a ganhar o encorajamento e a aceitação dos executivos das instituições com finalidade lucrativa, o que comprova que não é tarefa fácil. • Cultura de não confiar nas soluções de negócios - Além do fator desconfiança, pode existir o fator medo, já que as soluções financeiras, de maneira geral, representam território novo para o funcionário típico do setor público. • Mudanças sem pressa - As organizações públicas não costumam enfrentar esse dilema, uma vez que mudar de ramo de negócio não é uma opção possível. Os funcionários públicos devem estar cientes dos desafios e como o scorecard pode demonstrar valor aos contribuintes. • Restrições técnicas - Muitas empresas do setor público estão defasadas em relação às empresas do setor privado quanto à utilização das ferramentas tecnológicas mais modernas. Essa defasagem pode ser um problema para a implementação do BSC. • Técnicas do grupo - É necessário investir tempo e energia no treinamento, a fim de garantir que os envolvidos no processo possuam as técnicas necessárias para a construção de scorecards eficientes, capazes de gerar bons resultados. • Desenvolvendo medidas inovadoras - Definidos os públicos, os processos que precisam ser melhorados, as restrições financeiras existentes e as habilidades funcionais necessárias, o gestor do setor público pode descortinar um novo mundo para as medidas criativas de desempenho que traduzem a história da estratégia. • Não mostre o dinheiro! - O scorecard deve, até certo ponto, estar vinculado a alguma forma de remuneração. A maioria das instituições do setor público não dispõe dessa tática fundamental para a adoção do scorecard. Nota-se que a adoção dessa ferramenta conduz a um repensar organizacional. Observa-se que o BSC é um instrumento que objetiva conduzir os gestores a refletirem sobre as organizações de forma bastante organizada e sistêmica; mas, para que haja essa reflexão é primordial que os gestores tenham compreendido, de fato, como a ferramenta pode ajudá-los na condução de melhores práticas gerenciais (KAPLAN & NORTON, 2000). 3. Procedimentos metodológicos Este trabalho pode ser caracterizado como uma pesquisa qualitativa. Roesch (2005) destaca que a pesquisa qualitativa é extremamente apropriada quando o objetivo é a proposição de planos, ou seja, a aplicação de modelos teóricos a situações práticas da vivência organizacional. Para Vieira (2006) a pesquisa qualitativa fornece descrições ricas, fundamentadas, e explicações referentes a processos em contextos organizacionais. Fornece ainda maior flexibilidade para adequação da estrutura teórica ao estudo do fenômeno administrativo e organizacional. Para a condução deste estudo, foi utilizada a taxionomia proposta por Vergara (1998). Dessa forma, essa pesquisa foi classificada segundo dois critérios básicos: quanto aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins, este estudo pode ser caracterizado como uma pesquisa exploratória. Apesar de estar disponível uma extensa 5 literatura sobre o BSC, existem poucos estudos que exploram o seu processo de desenvolvimento em instituições de saúde pública. Reforçando esse argumento, Vergara (1998) e Collis e Hussey (2005) esclarecem que um estudo exploratório é recomendado quando existe pouco conhecimento acumulado e sistematizado. Pode-se dizer que o desenvolvimento de um estudo exploratório proporciona maior familiaridade com o problema de pesquisa, tornando-o mais explícito. Quanto aos meios de investigação foi utilizado o estudo de caso. Para Merriam (1988) apud Godoy (2006), de maneira geral os pesquisadores utilizam o estudo de caso quando querem entender uma situação em profundidade, dando ênfase em seus significados para os diversos envolvidos. De acordo com Yin (2001), o estudo de caso representa uma estratégia apropriada para se examinarem acontecimentos contemporâneos inseridos em um contexto organizacional. “O estudo de caso como estratégia de pesquisa compreende um método que abrange tudo – com a lógica do planejamento incorporando abordagens específicas à coleta de dados e à análise dos dados.” (YIN, 2001, p. 33). Dessa forma, entende-se que o estudo de caso não pode ser reduzido a uma tática para coleta de dados, nem meramente uma característica do planejamento em si, mas uma estratégia de pesquisa abrangente (YIN, 2001). Essa estratégia de pesquisa se mostra em consonância com o objetivo que esta pesquisa pretende alcançar, sendo utilizado, portanto, o estudo de caso único. Esta pesquisa foi desenvolvida em um Consórcio Intermunicipal de Saúde, localizado na região do Médio Rio das Velhas – região Central de Minas Gerais –, constituindo, portanto, a unidade de análise. A unidade de observação foi representada pelo corpo diretivo e gerencial do Consórcio. Para Yin (2001), existem basicamente seis tipos de técnicas de coleta de dados em estudo de caso. Nesta pesquisa foram utilizadas três dessas técnicas sendo: análise documental, entrevistas e observação participante. Após a realização das entrevistas, foram feitas reuniões em conjunto com os entrevistados para se discutirem as questões inerentes à construção do scorecard, do Mapa Estratégico e para a obtenção do consenso final sobre os documentos produzidos. Para Yin (2001), o processo de análise de dados consiste em realizar análises, categorizar, classificar em tabelas ou, de outra forma, recombinar as evidências, tendo em vista as proposições iniciais do estudo de caso. Essa análise foi desenvolvida através de duas estratégias: uma baseada em proposições teóricas e outra relacionada ao desenvolvimento da descrição do caso. Dessa forma, nessa pesquisa foram analisadas as informações obtidas através das técnicas de coletas de dados descritas anteriormente, utilizando-se para essa análise uma estratégia baseada na proposição teórica inicial que deu origem a este estudo. Como técnica de análise de dados, foi utilizada a estratégia conhecida como construção da explanação, cujo objetivo é analisar os dados do estudo de caso construindo uma explanação. Esta técnica consiste em “explicar” um fenômeno, o que significa estipular um conjunto de elos causais do fenômeno em relação ao contexto real (YIN, 2001). Portanto, o método escolhido possibilitou o desenvolvimento de uma estrutura descritiva permitindo assim, a realização de comparações e ligações causais entre a ferramenta gerencial proposta ao Consórcio e os benefícios e desafios apresentados. Para iniciar esse processo de construção do BSC e do Mapa Estratégico para o Consórcio, foi feita, inicialmente, uma reunião com o Corpo Diretivo e Gerencial, quando foi explicado o que é a ferramenta, sua importância no contexto gerencial e apresentação de casos práticos. Considerando que o Consórcio em análise não possuía um Plano Estratégico formal e baseado nas etapas de construção do BSC propostas por Kaplan e Norton (1997), Niven (2005) e Olve, Roy e Wetter (2001), foram desenvolvidas nove etapas, que, acredita-se terem aplicabilidade para os demais Consórcios, sendo: • Etapa 1 - Definir os limites do Consórcio onde se iniciará o projeto 6 • Etapa 2 – Esclarecer ou definir a missão, visão e valores – essa etapa contou com a participação de todos os colaboradores do Consórcio • Etapa 3 – Analisar os ambientes: externo e interno • Etapa 4 – Formular a estratégia organizacional • Etapa 5 – Definir os objetivos estratégicos para cada uma das perspectivas do BSC • Etapa 6 – Identificar e selecionar os indicadores • Etapa 7 – Estabelecer as metas • Etapa 8 – Obter consenso sobre os documentos produzidos • Etapa 9 - Plano de implementação O desenvolvimento de cada uma dessas etapas foi fundamentado no referencial teórico, nas entrevistas, análise documental e nas reuniões com o Corpo Diretivo e Gerencial do Consórcio. 4. Resultados e Análises Os Consórcios Intermunicipais de Saúde, independentemente da personalidade jurídica adotada, possuem características específicas, pois são uma associação de prefeituras municipais, criados com o objetivo de resolver problemas de saúde local. Os valores que os regem e a missão declarada estão direcionados para o atendimento das necessidades dos municípios consorciados, ou seja, necessidades sociais. Essas características inerentes aos consórcios tornam o processo de gestão bastante complexo, o que justifica a busca de uma ferramenta gerencial que proporcione o alinhamento e orientação das ações institucionais, viabilizando o alcance do objetivo maior: atender às demandas da sociedade. Para desenvolver esta ferramenta de apoio à gestão para os Consórcios Intermunicipais de Saúde são necessárias algumas modificações na arquitetura original do BSC. Kaplan e Norton (2000) esclarecem que a missão das organizações públicas e entidades sem fins lucrativos deve ser destacada e avaliada no nível mais alto do scorecard; é nela que deverão estar direcionados os objetivos estratégicos. Considerando que o sucesso financeiro não é o objetivo principal dessas organizações e que os indicadores financeiros não revelam se a organização está cumprindo sua missão, evidencia-se a necessidade de adequação da estrutura do BSC. O BSC para os Consórcios Intermunicipais de Saúde apresenta uma estrutura composta de quatro perspectivas, sendo a Perspectiva da Sociedade colocada no alto do scorecard, seguida das Perspectivas Financeira, Processos Internos e Aprendizado e Crescimento. A ferramenta gerencial proposta introduz um sistema de planejamento que possibilita o estabelecimento da visão estratégica a longo prazo e traduz as diretrizes traçadas pela organização em ações. Possibilita, ainda, um sistema de medição do desempenho da organização baseado em indicadores que proporcionam o direcionamento adequado ao processo de tomada de decisões do Consórcio, evitando a utilização de recursos em projetos que não contribuem para o alcance da visão organizacional. Assim, foram desenvolvidas as seguintes etapas para o desenvolvimento do BSC: Etapa 1 – Definir os limites do Consórcio onde se iniciará o projeto Conforme discutido com os gestores do Consórcio sobre a abrangência do modelo proposto, ficou decidido pelo desenvolvimento do BSC corporativo, ou seja, envolvendo todo o Consórcio. Etapa 2 – Esclarecer ou definir a missão, visão e valores Para desenvolver o processo de gestão estratégica, é imprescindível que sejam formuladas a missão, visão, e valores organizacionais. A missão de uma organização expressa a sua razão de existir, implica a compreensão de seu papel dentro da realidade em que atua. A visão está 7 focada no futuro, representa a forma como a empresa quer ser vista, reconhecida. Portanto, pela definição de visão, a organização tem condições de estabelecer diretrizes no presente para o alcance do futuro almejado. Em entrevista realizada com o Secretário Executivo, foi constatado que o CISMEV não possuía missão nem visão definidas; a partir de então foram elaboradas propostas de missão e visão e apresentadas aos funcionários da organização para a obtenção de consenso. Assim, foram definidas como missão e visão: Missão: Promover a qualidade de vida da população da microrregião de Curvelo oferecendo serviços de saúde de qualidade com racionalidade e eficiência visando aos interesses comuns e em conformidade com os princípios do Sistema Único de Saúde – SUS. Visão: Ser referência em Saúde no Estado de Minas Gerais atendendo às demandas dos municípios consorciados no âmbito de sua atuação, com equilíbrio econômico-financeiro. De acordo com Tavares (2005), os valores defendidos por uma organização servem como instrumento para avaliar e dar sentido à busca da visão pelos seus membros. Os valores defendidos pelo CISMEV foram obtidos através de reuniões entre todos os membros da organização e devem pautar as estratégias organizacionais, ações e projetos. Eles necessitam estar presentes na condução de todas as atividades desenvolvidas, a fim de refletir o comportamento do Consórcio. • Respeito e Humanização • Ética e Transparência • Cooperação • Qualidade e Inovação • Orgulho Institucional Tratar as pessoas com igualdade, dignidade e cordialidade, através de um atendimento humanizado em consonância com os princípios estabelecidos pelo SUS – Sistema Único de Saúde. Desenvolver uma gestão comprometida com a divulgação de ações e resultados, em consonância com os princípios legais vigentes. Estimular o desenvolvimento de parcerias e o trabalho em equipe através do compartilhamento de responsabilidades para a consecução de metas e objetivos. Priorizar a qualidade no atendimento dos serviços, incentivando a criatividade no desenvolvimento de soluções inovadoras para a resolução das demandas existentes e para a melhoria contínua das atividades e serviços prestados. Desenvolver as atividades e serviços do Consórcio com orgulho de pertencer à instituição. Etapa 3 – Analisar os ambientes: Externo e interno Após definidas a missão, visão e os valores essenciais, o Consórcio passa a dispor de uma imagem nítida do que precisa, de fato, realizar. Assim, torna-se necessária a realização da análise interna (pontos fortes e fracos) e externa (oportunidades e ameaças). A Figura 1 apresenta a Matriz SWOT do CISMEV organizada em torno das perspectivas do BSC. (continua) Sociedade Pontos Fortes • Imagem institucional do Consórcio. Pontos Fracos Oportunidades • Aumento da capacidade de realização de políticas públicas Ameaças • Excesso formalismos realização procedimentos, causando perda eficiência disfunção burocracia de na dos da – da 8 (conclusão) Pontos Fracos • Fonte de receitas (FPM) variável sujeita a oscilações. • Capacidade de articulação entre o Consórcio, os entes e a Secretaria de Estado de Saúde. • Inexistência de um sistema operacional informatizado. • Inexistência de um sistema de gestão que dê suporte ao gestor no processo de tomada de decisões. • Grande parte do conhecimento da instituição é tácito, ou seja, não está explicitado. Aprendizado e Crescimento Processos Internos Financeira Pontos Fortes • Capacidade de otimização dos recursos para atendimento da média complexidade. • Sede própria. • Envolvimento equipe com Consórcio. da o Oportunidades • Credenciamento dos Serviços oferecidos pelo Consórcio junto ao SUS. • Ganhos de escala para o Consórcio e municípios consorciados pela realização de Licitações Compartilhadas. • Imunidade tributária quanto aos tributos IRPJ, IOF, IPTU, IPVA e ISSQN • Realização de parcerias com outros Consórcios Públicos, a fim de proporcionar cada vez mais serviços aos entes consorciados. • Celebração de convênios com a União, conforme artigo 39 do Decreto n.º 6.017 de 17 de janeiro de 2007. • Vantagens licitatórias – aumento dos limites de licitação – alteração dos artigos 23, 24, 26 e 112, da Lei 8.666/1993. • Inexistência de um programa de qualificação de pessoal. Ameaças • Limitação de mãode-obra especializada (médicos). • Inexistência de normas contábeis para padronização dos procedimentos do Consórcio, o que pode comprometer a gestão e gerar problemas aos gestores. • Perda do conhecimento tácito e devido à possível renovação do quadro funcional em virtude do concurso público. • Desarticulação da equipe do Consórcio pela renovação do quadro funcional. Figura 1. Matriz SWOT do CISMEV organizada em torno das perspectivas do BSC Fonte: Elaboração da autora Etapa 4 – Formular a estratégia organizacional Nesta etapa, é decidido o caminho a ser seguido pelo Consórcio à luz das definições de missão, visão e valores, bem como das análises interna e externa já realizadas. A estratégia do CISMEV está alicerçada sobre os seus valores essenciais:, podendo ser assim descrita: Ser referência em Saúde no Estado de Minas Gerais, atendendo às demandas dos municípios consorciados no âmbito de sua atuação, com equilíbrio econômico9 financeiro até o ano de 2015, oferecendo serviços com qualidade, eficiência e humanização à população da microrregião de Curvelo. De acordo com Kaplan e Norton (2008, p. 60), para se realizar uma boa descrição da estratégia são necessários três elementos fundamentais: • • • Objetivo (O): Os fins a serem alcançados pela estratégia. Vantagem (V): Os meios pelos quais a empresa realizará seus objetivos. Escopo (E): O domínio – ou, como o denominamos antes, o nicho – em que a empresa pretende operar. Utilizando esses três elementos, a estratégia do CISMEV pode ser assim detalhada: Ser referência em Saúde no Estado de Minas Gerais, atendendo às demandas dos municípios consorciados no âmbito de sua atuação, com equilíbrio econômicofinanceiro até o ano de 2015... (Objetivo) ... oferecendo serviços com qualidade, eficiência e humanização... (Vantagem) ... à população da microrregião de Curvelo. (Escopo) Etapa 5 – Definir os objetivos estratégicos para cada uma das perspectivas do BSC O direcionamento estratégico do Consórcio está concentrado em torno de suas áreas funcionais: Administração Geral, Atendimento Ambulatorial, Serviço de UTI Móvel e Sistema Estadual de Transporte em Saúde. Dessa forma, esse direcionamento relaciona-se à oferta de serviços, à atuação junto à comunidade, ao desenvolvimento de suas competências internas e à gestão e ao desempenho institucional. As Figuras 2 e 3, apresentam os objetivos do Consórcio, distribuídos por cada perspectiva, em seus respectivos temas estratégicos. Perspectiva da Sociedade Tema Estratégico Imagem e Reputação Relacionamento com os usuários e as SMS Qualidade da Assistência e Humanização Tema Estratégico Sustentabilidade Crescimento e Aumento do mix de serviços Redução de Custos/Melhoria da Produtividade Objetivos 3 - Fortalecer a imagem institucional do Consórcio e a comunicação com seus vários públicos. 4 - Operacionalizar canais efetivos de feedback com os usuários dos serviços e SMS. 8 - Assegurar atendimento de qualidade e humanizado. Perspectiva Financeira Objetivos 5 - Assegurar a sustentação econômico-financeira do Consórcio. 6 - Ampliar o número de atendimentos e serviços oferecidos. 11 - Desenvolver parcerias com outros Consórcios. Figura 2. Distribuição dos Objetivos por Perspectivas e Temas Estratégicos Fonte: Elaboração da autora 10 Tema Estratégico Gestão Operacional Perspectiva dos Processos Internos Objetivos 2 - Adequar a gestão organizacional do Consórcio, mediante ações inovadoras e flexíveis, às demandas externas e internas, em consonância com os princípios estabelecidos pelo SUS – Sistema Único de Saúde e pela legislação que rege as instituições públicas. 7 - Informatizar o sistema de atendimento dos usuários do Consórcio. 9 - Implantar um sistema de gerenciamento de equipamentos. 10 - Implantar um sistema de suprimentos. Internalizar Conhecimentos Tema Estratégico Desenvolvimento do Capital Humano Cultura inovadora 12 - Registrar o conhecimento existente na organização. Perspectiva do Aprendizado e Crescimento Objetivos 1 - Qualificar e valorizar os recursos humanos do Consórcio e desenvolver um processo formal de integração. 13 - Fomentar a cultura de inovação. Figura 3. Distribuição dos Objetivos por Perspectivas e Temas Estratégicos Fonte: Elaboração da autora Etapa 6 – Identificar e selecionar os indicadores Foram escolhidos indicadores para cada objetivo estratégico relacionados a cada uma das quatro perspectivas do BSC. Os indicadores refletem a essência de cada um dos objetivos estratégicos. Para o Consórcio em análise, os indicadores foram distribuídos da seguinte forma: • • • • Perspectiva da Sociedade: 6 indicadores (20%) Perspectiva Financeira: 7 indicadores (23,33%) Perspectiva dos Processos Internos: 12 indicadores (40%) Perspectiva do Aprendizado e Crescimento: 5 indicadores (16,67%) Todos os objetivos estratégicos foram formulados com o intuito de cumprir a missão do Consórcio e se atingir a visão de futuro desejada. Assim, os objetivos dispostos nas quatro perspectivas do BSC relacionam-se entre si. Foram desenvolvidas relações de causa e efeito entre os objetivos e cada uma das perspectivas do BSC, seguindo uma sequência que parte da perspectiva do aprendizado e crescimento, passando pelas perspectivas dos processos internos, financeira e da sociedade. O desenvolvimento das relações de causa e efeito entre os objetivos em cada uma das perspectivas do BSC torna evidente o elo que existe entre cada uma das ações a serem realizadas pelo Consórcio no cumprimento de sua missão e alcance de sua visão. Após o desenvolvimento das relações de causa e efeito entre os objetivos em cada uma das perspectivas, tornou-se possível o desenvolvimento do Mapa Estratégico do Consórcio. 11 Figura 4. Mapa Estratégico do Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Rio das Velhas - CISMEV Fonte: Elaboração da autora Etapa 7 – Estabelecer as metas Nesta fase foram estabelecidas metas para cada um dos indicadores. “Uma meta pode ser definida como uma representação quantitativa da medida do desempenho em algum ponto no futuro” (NIVEN, 2005, p.222). O desafio, nesta fase é criar metas que sejam desafiadoras, porém factíveis, por isso foi considerada pelos membros do Consórcio como uma das fases mais complexas. É importante que os gestores do Consórcio desenvolvam as condições necessárias para o alcance das metas. A tabela 1 apresenta as metas estabelecidas para cada um dos indicadores, distribuídos pelas perspectivas. 12 Tabela 1 Metas das Quatro Perspectivas (continua) Perspectiva da Sociedade Objetivos Estratégicos Indicadores Fortalecer a imagem institucional do Consórcio e a comunicação com seus vários públicos. • Acesso a homepage do Consórcio (n.º) • Despesas com marketing (%) N.º do Indicador S01 Metas 2011 S02 1000 acessos/mês 1% • Número de reclamações (%) S03 < 2% • Número de sugestões adotadas (%) S04 > ou = 50% • Índice de satisfação (%) S05 > ou = 85% • Atendimentos não realizados (n.º) S06 0 (zero) N.º do Indicador F01 Metas 2011 F02 >1 • Conta-Investimento (%) F03 > 10% • Receita com serviços credenciados no SUS (R$) F04 • Retorno sobre o investimento (%) F05 > ou = R$ 10.000,00/ mês > 2% • Redução de custos das aquisições (%) • Redução de custos dos serviços (%) Perspectiva dos Processos Internos Indicadores F06 > 2% F07 > 1% N.º do Indicador P01 Metas 2011 Operacionalizar canais efetivos de feedback com os usuários dos serviços e SMS. Assegurar atendimento de qualidade e humanizado. Perspectiva Financeira Objetivos Estratégicos Indicadores Assegurar a sustentação econômicofinanceira do Consórcio. • Redução dos custos do Consórcio (%) • Fluxo de Caixa Positivo (n.º) Ampliar o número de atendimentos e serviços oferecidos. Desenvolver parcerias com outros Consórcios. Objetivos Estratégicos Adequar a gestão organizacional do Consórcio, mediante ações inovadoras e flexíveis, às demandas externas e internas, em consonância com os princípios estabelecidos pelo SUS e pela legislação que rege as instituições públicas. Informatizar o sistema de atendimento dos usuários do Consórcio Implantar um sistema gerenciamento de equipamentos. de Implantar um sistema de suprimentos Registrar o conhecimento existente na organização. • Redução no tempo médio de tomada de decisão (%) > 2% > 25% • Normatização de processos e rotinas (%) • Melhoria da produtividade (%) P02 > 50% P03 > 4% • Tempo médio de espera (horas) P04 40” • Redução de custos (%) • Atendimentos não realizados (n.º) • Redução de manutenções corretivas (%) • Redução do tempo de atendimento de requisições (%) • Redução dos custos de pedido/armazenamento (%) • Atendimentos não realizados (n.º) • Número de funcionários treinados interfunções (%) P05 P06 P07 > 1% 0 > 10% P08 > 10% P09 > 2% P10 P11 0 > 50% P12 >1/funcionário • Número de registro de conhecimento por funcionário (n.º) 13 (conclusão) Objetivos Estratégicos Perspectiva do Aprendizado e Crescimento Indicadores Qualificar e valorizar os recursos humanos do Consórcio e desenvolver um processo formal de integração Fomentar a cultura de inovação • Rotatividade dos empregados (%) • Custo anual de treinamento per capita (R$) • Absenteísmo (%) • Sugestão dos funcionários (%) • Sugestões implantadas (%) N.º do Indicador A01 A02 Metas 2011 A03 A04 < 5% R$ 200,00 / ano < 1% > ou = 50% A05 > ou = 25% Fonte: Elaboração da autora. Etapa 8 – Obter consenso sobre os documentos produzidos Em reunião com o Corpo Diretivo e Gerencial do Consórcio, foram discutidos a missão, visão, estratégia, objetivos estratégicos, indicadores e metas. O objetivo da reunião foi a obtenção do consenso sobre os documentos produzidos e um provável plano de implementação do projeto. Durante a reunião foram solicitados alguns esclarecimentos sobre os objetivos estratégicos, indicadores e metas. Após o esclarecimento das dúvidas, o projeto foi aprovado. Etapa 9 - Plano de implementação Para iniciar o processo de implementação do BSC, além do envolvimento de todos os membros do Consórcio, é necessária a definição de uma equipe do projeto que poderá ser composta por três pessoas. Essa equipe terá um líder responsável pelo processo de treinamento dos envolvidos e pela coordenação geral da implementação do modelo. Para implementar a ferramenta gerencial, é importante que sejam seguidos os cinco princípios da organização orientada para a estratégia estabelecidos por Kaplan e Norton (2000). Portanto, o primeiro passo a ser dado nesse processo é Mobilizar a mudança por meio da Liderança Executiva, ou seja, esclarecer a todos os membros do Consórcio porque a mudança é necessária e apresentar, de forma didática, o BSC e a importância de sua implementação para a consecução da estratégia. Percebe-se, pois, que a presença do Secretário de Executivo é fundamental nesse processo. O segundo passo é Traduzir a estratégia em termos operacionais. Nesta fase, a estratégia do Consórcio é detalhada de maneira tal que todos os membros da organização possam entendê-la, compreendendo, assim, sua importância para o cumprimento da missão e alcance da visão organizacional. O Mapa Estratégico e o programa de mensuração do BSC fornecem uma linguagem compreensível para que todos saibam seu papel dentro do contexto de mudança. O terceiro passo é Alinhar a Organização com a Estratégia. É importante que os membros do Consórcio no desempenho de suas funções em suas áreas, compreendam que o sucesso organizacional só será atingido se todos estiverem alinhados e conectados. O quarto passo é Transformar a estratégia em tarefa de todos. Para o sucesso deste projeto, é fundamental que todos os membros do Consórcio compreendam, de fato, a estratégia formulada e que conduzam suas ações cotidianas buscando contribuir para seu êxito. Portanto, é importante o desenvolvimento de um sistema de comunicação eficaz, que demonstre aos membros do Consórcio como são capazes de influenciar a implementação bem-sucedida da estratégia, bem como a importância do trabalho em equipe. É importante que o Consórcio estude um sistema de incentivo e recompensa aos funcionários, fazendo com que compartilhem das recompensas provenientes do êxito da organização, motivando-os assim para a execução da estratégia. O quinto passo é Converter a estratégia em processo contínuo. Por fim, é importante que o Consórcio faça a integração entre o gerenciamento tático e o gerenciamento estratégico em um único processo ininterrupto e contínuo. Ao usar o BSC para 14 integrar o planejamento e o orçamento, o Consórcio se tornará capaz de superar barreiras à implementação de sua estratégia. Ao se buscar uma ferramenta que auxilie o processo de gestão, a organização deve ter em mente quais as motivações que norteiam esta decisão. Sem esta definição o processo se torna controverso e difícil de ser conduzido. Para o Consórcio em análise, os pilares que sustentaram esta busca foram o aperfeiçoamento da gestão e a busca da otimização no uso dos recursos. Durante o processo de elaboração da proposta do BSC, ficaram evidentes alguns obstáculos: Definição de Missão e Visão - Não havia clareza para a organização da importância desses conceitos para a consecução da estratégia; Aspecto Cultural Inicialmente houve uma falta de credibilidade sobre a ferramenta, sobre os possíveis resultados que o BSC poderá proporcionar ao Consórcio; Definição de indicadores e metas Houve grande dificuldade no estabelecimento de indicadores e metas. A organização, atualmente, não utiliza em seu processo de gestão instrumentos de mensuração de desempenho, portanto, a escolha de indicadores e metas para cada um dos objetivos foi um processo demorado e complexo; Estabelecimento das relações de causa e efeito - Houve dificuldade na compreensão das relações de causa e efeito entre os objetivos estratégicos e importância do estabelecimento dessas relações. Após muitas discussões, realizadas ao longo de cinco reuniões, foram estabelecidas as relações de causa e efeito em cada perspectiva e entre as demais perspectivas do modelo. Não foram apenas desafios que permearam esse processo. Foram discutidos junto ao Corpo Diretivo e Gerencial do Consórcio possíveis benefícios que a adoção dessa ferramenta poderá trazer: Melhoria/Aumento dos serviços prestados – através dessas ações, será possível aumentar o número de serviços oferecidos; Fortalecimento da imagem do Consórcio – Apesar de sua importância na prestação de serviços de saúde de média complexidade na região central de Minas Gerais, o Consórcio possui pouca visibilidade junto à população. As ações a serem desenvolvidas contribuirão para a divulgação do Consórcio e fortalecimento de sua imagem junto aos seus vários públicos; Redução de Custos – As possíveis parcerias, o processo de informatização, a implantação de sistemas de gerenciamento de equipamentos e suprimentos contribuirão para a utilização mais otimizada dos recursos; Motivação dos Colaboradores – A inserção de uma política de qualificação de pessoal, o desenvolvimento de um Plano de Carreiras, a criação de um programa de sugestão de melhorias, todas essas ações poderão contribuir para a motivação dos colaboradores do Consórcio, culminando, assim, num maior engajamento de todos para com os resultados organizacionais. Ao longo do processo de implementação do BSC, poderão surgir novos desafios, bem como após a sua implementação poderão ser detectadas novas situações que deverão ser estudadas. 5. Conclusões O desenvolvimento de uma gestão profissional coerente com as demandas da sociedade é uma realidade incontestável na saúde pública. Para os Consórcios Intermunicipais de Saúde, essa realidade se revela de forma evidente através da Lei 11.107/2005. A adaptação à Lei Federal introduz uma agenda de mudanças na instituição e para que essas mudanças não comprometam a prestação de serviços, torna-se necessário repensar a forma de gerir os Consórcios. Garantir a maximização do uso dos recursos escassos, promover a eficiência dos processos e os resultados à população são exigências que se revelam às instituições em consonância com o paradigma da Nova Gestão Pública. A proposta de aplicação da metodologia do BSC adaptada à realidade do Consórcio e alicerçada sobre os modelos propostos por Kaplan e Norton (1997), Niven (2005) e Olve, Roy e Wetter (2001), 15 possibilitou identificar as principais fontes de resistência para a adoção de novos procedimentos e rotinas, bem como possíveis ganhos com a adoção dessa ferramenta. Para a construção da proposta do BSC e Mapa Estratégico foram desenvolvidas nove etapas distintas. O desenvolvimento dessas etapas mostrou-se eficiente para o alcance do objetivo proposto. Ficou evidenciado que o trabalho em equipe, as discussões realizadas durante as reuniões, são fundamentais para o desenvolvimento do projeto. Percebeu-se que a identificação dos motivadores para a escolha dessa ferramenta, bem como de suas potencialidades e limitações são imprescindíveis pra a construção desse processo com maior criticidade. As quatro perspectivas propostas por Kaplan e Norton (1997) mostraram-se eficientes para a construção dessa ferramenta para o Consórcio, sendo realizada apenas a adaptação da arquitetura original do BSC, já proposta pelos autores. Todos os participantes desse processo optaram pela mudança do nome da perspectiva Clientes para Sociedade, por acharem mais coerente com a realidade e com a lógica do consorciamento. A adoção de uma ferramenta gerencial introduz uma nova lógica na organização, é permeada de obstáculos. É importante destacar que os obstáculos encontrados corroboram com os obstáculos apresentados por Niven (2005) no desenvolvimento do BSC em instituições públicas. Porém, esses obstáculos não são fatores impeditivos para a adoção dessa ferramenta; são fatores a serem superados. Apesar dos fatores que dificultam esse processo, foram constatados alguns possíveis ganhos com a adoção dessa ferramenta. Esses possíveis ganhos foram identificados em conjunto com os membros do Consórcio e culminam no cumprimento da missão, alicerçando o caminho de construção da visão. Ficou nítido que o envolvimento do Secretário Executivo é fundamental na realização do processo. A sua capacidade de demonstrar que essa ferramenta é algo para a organização e não para o mandato de uma Diretoria é quesito essencial para o desenvolvimento de todas as ações dentro da organização. É importante destacar que, durante a implementação do projeto, várias questões poderão ser revistas, novos obstáculos poderão surgir, mas para o Consórcio é o primeiro passo para a modernização de sua gestão. Referências BRASIL, Ministério da Saúde. O SUS de A a Z: garantindo saúde nos municípios. 3 ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2009. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/sus_3edicao_completo.pdf>. Acesso em 05 de janeiro de 2010. COLLIS, Jill; HUSSEY, Roger. 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