Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo Número de Ordem Pauta Não informado Registro: 2011.0000047593 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação nº 0070926-49.2008.8.26.0576, da Comarca de São José do Rio Preto, em que é apelante MARIA APARECIDA DE LIMA AVEIRO sendo apelado PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO. ACORDAM, em 11ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO. V. U. ", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão. O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores PIRES DE ARAÚJO (Presidente), ALIENDE RIBEIRO E FRANCISCO VICENTE ROSSI. São Paulo, 2 de maio de 2011. PIRES DE ARAÚJO RELATOR Assinatura Eletrônica Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo APELAÇÃO CÍVEL Nº 0070926-49.2008.8.26.0576 V. 22.237 Apelante: MARIA APARECIDA DE LIMA AVEIRO Apelada: PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO Comarca: SÃO JOSÉ DO RIO PRETO AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA CONSELHEIRA TUTELAR QUE SE AFASTOU DO CARGO PARA CONCORRER AO CARGO DE VEREADOR E CONTINUOU RECEBENDO OS VENCIMENTOS ILEGALIDADE AFRONTA ÀS DISPOSIÇÕES DO ARTIGO 5º DA LEI MUNICIPAL N. 8.828/02 O CONSELHEIRO TUTELAR NÃO É EQUIPARADO A SERVIDOR PÚBLICO E, PORTANTO, A ELE NÃO SE APLICA O DISPOSTO NA LEI COMPLEMENTAR FEDERAL N. 64/90 RECURSO IMPROVIDO. Cuida-se de ação civil pública por ato de improbidade administrativa promovida pelo Município de São José do Rio Preto em face de Maria Aparecida de Lima Aveiro sob o argumento que a requerida, ao concorrer a uma das vagas da vereança daquela Municipalidade, afastando-se do cargo de Conselheira Tutelar, continuou recebendo os vencimentos deste cargo, o que afrontou o disposto no artigo 5º da Lei Municipal n. 8.828/2002. A r. sentença de fls. 126/128, cujo relatório é o adotado, julgou procedente a ação para condenar a 'autora a devolver a verba requerida na inicial, devidamente corrigida e acrescida de juros legais da citação'. Condenou, ainda, no pagamento das custas, despesas Apelação Cível nº 0070926-49.2008.8.26.0576 - São José do Rio Preto - V. 22.237 (4478) Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo processuais e honorários advocatícios arbitrados em 15% sobre o valor da causa. Recorre a autora alegando, em síntese, que exerceu a função de conselheira tutelar do Município de São José do Rio Preto e, na ocasião em que se afastou para concorrer ao cargo de Vereadora daquela cidade, com parecer favorável do CONANDA, continuou recebendo os vencimentos do Conselho. Aduz que também recebeu parecer favorável do CMDCA (Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente). Alega que o Conselheiro Tutelar, ainda que eleito pela população e não vinculado aos regimes estatutário e celetista, é equiparado a um servidor público e, portanto, com base na Lei Complementar n. 64/90, tem direito à desincompatibilização, sem prejuízo dos vencimentos, quando do seu afastamento para concorrer a cargo eletivo, como no caso o de vereador. Pede o provimento do recurso (fls. 130/137). O recurso foi respondido (fls. 142/145). A douta Procuradoria Geral de Justiça é pelo improvimento do recurso (fls. 155/159). É o relatório. Tem-se que a requerida, Maria Aparecida de Lima Aveiro, detentora do cargo eletivo de Conselheira Tutelar da Municipalidade de São José do Rio Preto, ao se afastar daquele cargo para concorrer às eleições do Legislativo Municipal (vereador), continuou recebendo os vencimentos do cargo de Conselheira. Daí a insurgência do Município porque, nos exatos termos do artigo 5º da Lei Municipal n. 8.828/02, não teria a requerida direito de continuar recebendo os vencimentos do cargo de Conselheira Tutelar: Apelação Cível nº 0070926-49.2008.8.26.0576 - São José do Rio Preto - V. 22.237 (4478) Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo Art. 5º - 'O Conselheiro Tutelar quando candidatar-se a cargo eletivo, exceto para a mesma função, deverá licenciar-se 90 (noventa) dias antes do pleito, sem direito a remuneração, e será substituído pelo respectivo suplente'. De fato, nos termos do citado artigo, a requerida não teria direito a permanecer recebendo os vencimentos do cargo de Conselheira no prazo de 90 dias que antecedeu o pleito, no caso, as eleições para vereador. Todavia, recebeu os vencimentos naquele período. A alegação no sentido de que o conselheiro tutelar é equiparado a servidor público e, portanto, pode submeter-se às disposições da Lei Complementar 64/90 de forma a continuar recebendo os vencimentos quando afastado do cargo para concorrer a cargo eletivo, não prevalece. A requerida não foi contratada mediante concurso público ou nomeação e sim, eleita ao cargo de conselheira tutelar, o que afasta a pretensão de ser equiparada a servidora pública municipal e, por conseqüência, de receber os vencimentos quando afastada do cargo de conselheira, como no caso em espécie. Neste sentido é a jurisprudência desta Corte: “A impetrante, na condição de conselheiro tutelar não foi contratada mediante concurso ou nomeação. Assumiu suas funções em decorrência de eleições, passando a exercer atividade de forma autônoma e distanciada de qualquer atrelamento hierarquizado com a Administração Pública. Estas características evidenciam a dissemetria das funções desenvolvidas no Conselho Tutelar em relação Apelação Cível nº 0070926-49.2008.8.26.0576 - São José do Rio Preto - V. 22.237 (4478) Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo com os serviços de natureza estatutária. Portanto, correto o entendimento do impetrado em não receber o pedido de desincompatibilização. Quanto ao afastamento do Conselho Tutelar, evidentemente, que este inibe o pagamento do soldo mensal, pois decorre do efetivo exercício da atividade representativa. Aliás, o conselheiro não tem suas funções suspensas, mas é afastado, para que outro representante exerça tal 'munus' público”. (Apelação Cível n. 394.877-5/0-00, 1ª Câmara de Direito Público, 14/11/06, Rel. Des. Venício Salles) “Mandado de Segurança a Prefeita Afastamento Conselho Tutelar Municipal Candidata Desincompatibilização remunerado Descabimento O Conselheiro Tutelar eleito não é servidor público, não se submetendo ou aproveitando o regime estatutário Inaplicabilidade do artigo 1º, inciso II, alínea 'I', da Lei Complementar Federal n. 64/90 segurança que se impõe Denegação da Sentença mantida Recurso desprovido”. (Apelação Cível n. 934.551.5/8-00, 12ª Câmara de Direito Público, j. 21.10.09). E, ainda que a requerida ostentasse a posição de servidora pública, não seria o caso de reconhecer o direito acerca do recebimento dos vencimentos na hipótese de afastamento do cargo para concorrer a outro que, no caso, era o de vereador. A Douta Procuradoria de Justiça bem analisou esta questão ao ponderar que “não consta da Lei Complementar Federal tratamento isonômico quanto aos efeitos remuneratórios, por ser Apelação Cível nº 0070926-49.2008.8.26.0576 - São José do Rio Preto - V. 22.237 (4478) Poder Judiciário Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo situação jurídica peculiar e constitucionalmente prescrita ao Município (CF, arts. 29, caput, e 30, incisos I e II)”. Por fim, impende observar que o simples fato de órgãos administrativos, como o CONANDA e o CMDCA terem emitido pareceres em favor da requerida, não a libera de ressarcir o Erário Público, porquanto evidente a ilegalidade cometida diante da afronta de disposição legal municipal. Do exposto, nega-se provimento ao recurso. PIRES DE ARAÚJO Relator Apelação Cível nº 0070926-49.2008.8.26.0576 - São José do Rio Preto - V. 22.237 (4478)