O Ponto de Vista Feminino na Reflexão Ética: Histórico e Implicações para a Teoria de Organizações Autoria: Maria da Penha Felicio dos Santos de Carvalho, José Luis Felicio dos Santos de Carvalho e Frederico Antonio Azevedo de Carvalho Resumo O papel da mulher na dinâmica sócio-econômica das estruturas institucionais e organizacionais vem sendo relegado, através da história, às funções de subordinação ou de submissão à razão masculina dominante. No âmbito das organizações, apesar dos discretos avanços arduamente obtidos em anos recentes, tal relação hierárquica e hierática reflete-se ainda em mecanismos de segregação tão explícitos como a ampla discrepância nas oportunidades de carreira ou tão discretos como a gradual ascensão profissional da executiva ‘abelha-rainha’. Para discutir a perpetuação histórica da desigualdade – resgatada a partir do conceito filosófico do ‘essencialismo genérico’ – e para examinar eventuais perspectivas para a questão da mulher nas organizações, o presente ensaio teórico-descritivo propõe uma jornada pelos caminhos da ética, por meio de um diálogo nada conformista com o pensamento de defensores convictos da razão masculina, tais como Aristóteles, Rousseau e Kant. Introdução As diferenças entre os sexos têm sido percebidas através da história, não apenas como diferenças, mas sobretudo como sinais de superioridade do masculino sobre o feminino. Situações desfavoráveis para a mulher vêm ocorrendo senão em todas, certamente na grande maioria das sociedades historicamente conhecidas. A dinâmica sócio-econômica das instituições e das organizações precisa levar melhor em conta o papel de suas parcelas femininas. As mulheres costumam ser representadas despropositadamente – e sempre foram – pelos modelos de desenvolvimento econômico, entre os pobres, os analfabetos e os desempregados. No entanto, qualquer definição de desenvolvimento social ou organizacional que pretenda levar em consideração questões de igualdade também deve manter uma preocupação ética que seja sensível ao gênero (Habermas, 1989; Hurley, 1999; Ingham, 1993; Mavin e Bryans, 1999). Isto envolve modificações na percepção tradicional das mulheres e, em particular, a rejeição de argumentos morais e culturais que defendam a subordinação das mulheres. O tema da mulher e da relação hierárquica entre os sexos ocupa lugar importante na produção teórica contemporânea. Nas últimas décadas, vem sendo objeto de estudo em diversos campos do conhecimento: a sociologia, o direito, a teologia e a psicologia, por exemplo, fizeram avançar, cada qual a seu modo, o tratamento sistemático da questão. Na teoria de organizações, a questão do gênero vem ocupando um espaço significativo, dando ensejo a estudos cada vez mais freqüentes que discutem perspectivas comumente entendidas como tradicionais nos arranjos sociais – e empresariais – da cultura ocidental (Hurley, 1999; Oliveira et al., 2000). É preciso que as mulheres deixem, definitivamente, de ser invisíveis na gerência das organizações (Mavin e Bryans, 1999). Debatem-se temas tais como o crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho (Hallock et al., 1998; Souza e Guimarães, 2000; Wood, 1999), a subordinação dos papéis femininos aos masculinos (Haberfeld, 1992; Korac-Kakabadse e Kouzmin, 1997; Oliveira et al., 2000), a segregação ocupacional que reserva às mulheres funções menos qualificadas ou salários desiguais (Betiol, 2000; Haberfeld, 1992; Henwood, 1994; Kuhn, 1990; Leite e Shiroma, 1995; Souza e Guimarães, 2000), o trabalho da mulher como 1 continuidade das tarefas domésticas (Betiol, 2000; Korac-Kakabadse e Kouzmin, 1997; Nath, 2000; Oliveira et al., 2000; Souza e Guimarães, 2000), as chances reduzidas de ascensão funcional da mulher (Betiol, 2000; Hale, 1999; Hallock et al., 1998; Oliveira et al., 2000; Simpson, 2000; Vilkinas, 2000). Por outro lado, apesar da ocorrência de inegáveis mudanças práticas favoráveis ao sexo feminino, especialmente no âmbito jurídico, a desigualdade entre os gêneros faz-se presente em todas as dimensões das relações sociais e evidencia-se, sobremaneira, no âmbito da empresa. Com efeito, o “problema da mulher” jamais deixou de existir; as manifestações da posição de domínio masculino são, hoje, menos explícitas, todavia continuam presentes tanto no trabalho quanto no âmbito doméstico/privado. Embora já não existam obstáculos legais ao acesso das mulheres às diversas esferas da vida social, inúmeras situações de discriminação são mantidas, o que indica que da igualdade de direitos à igualdade de fato há ainda um longo caminho a percorrer (Betiol, 2000; Hurley, 1999; Mavin e Bryans, 1999). Motivação e objetivos do estudo Compreender a persistência de importantes situações de desigualdade entre o homem e a mulher no mundo contemporâneo constitui um problema crucial para uma observação atualizada do estudo científico da Administração de Empresas. Neste contexto, podemos definir a contribuição pretendida para o presente ensaio como uma pesquisa no sentido de responder a questão: Como entender o fenômeno da perpetuidade de relações desiguais entre o homem e a mulher? Diversos enfoques poderiam conduzir à compreensão da temática sugerida; entretanto, tomamos como ponto de partida para nosso estudo um conceito filosófico que identificamos como a base teórica sobre a qual as situações concretas de desigualdade vêm se apoiando. Trata-se do essencialismo genérico: concepção que sustenta a existência de naturezas desiguais no homem e na mulher; as mulheres formariam um conjunto de seres ontologicamente diferentes e inferiores. Nossa suposição é que esse conceito, formulado de maneiras diversas ao longo da história do pensamento ocidental, permanece subjacente justificando e legitimando estados de dominação/subordinação que se perpetuam a despeito de mudanças efetivas. Enquanto essencial, a condição inferior da mulher é vista como natural, universal e imutável; a dominação masculina aparece então como necessária e justa. Importa precisar que não é nossa intenção afirmar que a concepção filosófica da inferioridade essencial feminina seria a causa de situações desiguais entre os sexos ou da perpetuidade dessas situações. Pretendemos apenas que essa concepção pode constituir um suporte e um reforço significativos aos estados efetivos de dominação masculina, na medida em que confere legitimidade “racional” às situações de desigualdade por afirmar seu caráter de necessidade. A dominação masculina seria, por assim dizer, “autorizada” através da concepção que apresenta as desigualdades como fundadas na natureza. Por outro lado, a relação entre o homem e a mulher, tida como naturalmente hierárquica, por sua vez, está apoiada em outra relação, também tradicionalmente vista como hierárquica por natureza: a relação dicotômica entre a alma (razão) e o corpo. De Platão até os nossos dias, a grande maioria dos filósofos sustenta a primazia da razão sobre a corporeidade e a decorrente condição ideal de comando da primeira sobre a segunda. Ser racional não significa apenas possuir razão, mas implica ainda que a razão, por ser a dimensão exclusiva do homem - o ser superior na escala natural - é mais nobre e mais perfeita do que a dimensão sensível. Ao superior cabe comandar e subjugar o inferior, por isso, no animal racional, a razão deve exercer o controle sobre as manifestações da corporeidade. A concepção da essência inferior feminina fundamenta-se no pressuposto de que, na 2 mulher, a natural hierarquia de comandos estaria invertida. Enquanto ser humano, a mulher é também dotada de razão, contudo o exercício da razão não seria idêntico para os dois sexos; o uso pleno e adequado da razão está reservado ao sexo masculino. A natural inferioridade da mulher decorre do fato de que as razões femininas são ineficientes para exercer a soberania que lhes caberia por natureza. O primado da esfera racional sobre a sensível, apoiado pela perspectiva científica estrutural-funcionalista (Alvesson e Deetz, 1999; Capra et al., 1999; Chanlat, 1999) como o “estado natural” do ser humano, tem sido enfatizado como importante para a aquisição do conhecimento e imprescindível para possibilitar o agir moral. Assim, a principal conseqüência da qualidade supostamente diferente e inferior das razões das mulheres seria torná-las moralmente inaptas. No domínio das organizações, a dinâmica burocrática e masculina faz com que as posições sociais de menor importância assumidas pelas mulheres na vida pessoal e pública sejam reproduzidas na estrutura de trabalho. A forma mais primitiva de materialização deste papel secundário manifesta-se de modo óbvio: se as mulheres não desejam restringir-se ao ambiente doméstico, então a elas são reservados empregos com menor qualificação e salários inferiores (Oliveira et al., 2000; Simpson, 2000; Vilkinas, 2000). No entanto, tal situação – assim como seus desdobramentos – constitui um padrão social tido como aceitável pelo pensamento dominante (Nath, 2000; Wood, 1999). A igualdade de gênero foi uma das palavras de ordem do século XX, mas ainda hoje espera-se que a mulher executiva guarde no fundo de sua alma a rainha do lar (Oliveira, 2001). Uma mulher sem emprego formal, em casa, nunca é chamada de desempregada: ela supostamente emprega seu tempo nas atividades das quais muitos acreditam que ela nunca deveria ter se afastado. Nossa hipótese é que a inferioridade específica e fundamental, tradicionalmente atribuída à “natureza” feminina, seria evidenciada privilegiadamente no campo da ação propriamente humana, isto é, na ação moral. As mulheres, seres incapazes de transcender sensações e paixões corporais, encontrar-se-iam aquém da esfera da moralidade, já que esta presume, antes de mais nada, capacidade de autodomínio, ou seja, de domínio da dimensão racional sobre a dimensão sensível. O desapreço pela dimensão sensível da existência ocorre em paralelo com a desvalorização das mulheres, identificadas tradicionalmente com essa dimensão. Assim, tanto a metade “irracional” do ser humano, quanto a metade “irracional” da humanidade, em virtude de uma suposta inferioridade natural, encontram-se freqüentemente depreciadas, senão excluídas da esfera da moralidade. Na prática organizacional, por exemplo, observou-se que o sucesso das mulheres em cargos de gerência estaria intimamente ligado à supressão voluntária da dimensão feminina no comportamento profissional, um fenômeno denominado “síndrome da abelha-rainha” (Rindfleish, 2000). Aquelas executivas caracterizavam-se por negar as dificuldades naturais enfrentadas por uma mulher no trabalho e, na maioria das vezes, chegavam a ser relutantes em dar assistência a outras mulheres. Tal atitude, além de contribuir para a morte lenta da dimensão sensível nas organizações, ainda reforçaria o predomínio da razão masculina, excluindo, destarte, os muitos benefícios da diversidade no ambiente profissional (Mavin e Bryans, 1999; Sinclair, 2000). Define-se o objetivo central deste estudo, outrossim, como mostrar a importância e o valor do ponto de vista "feminino", freqüentemente ignorado, negado, tolhido ou, mais simplesmente, aniquilado, e reivindicar sua inclusão na reflexão ética, para que, a partir desta compreensão fundamental, se possa acessar com mais propriedade as outras dimensões em que se discute o papel social da mulher. 3 Metodologia de pesquisa A postura investigativa que pretendemos propor para o trabalho revela um alinhamento com a demarcação científica fenomenológica (Vergara, 2000), pois mantém-se uma preocupação ontológica e descritiva, sem que seja estabelecida uma atitude prescritiva em relação à questão da desigualdade. Por outro lado, a problemática do feminismo, a abordagem histórica do conhecimento sobre a mulher (Hurley, 1999; Korac-Kakadbase e Kouzmin, 1997), a análise do pensamento filosófico – também ensaiado por Betiol (2000) e aqui aprofundado – assim como os autores escolhidos para a revisão bibliográfica, também sugerem uma afinidade com a epistemologia pós-modernista nos estudos de gênero (Amorós, 1997; Butler, 1987), que marca forte presença também nos estudos organizacionais (Alvesson e Deetz, 1999; Kilduff e Mehra, 1997). Embora não se possa deixar de reconhecer o caráter essencialmente interdisciplinar do feminismo como tema, a pesquisa que propomos se desenvolverá a partir de um ponto de vista predominantemente filosófico, mais precisamente, no campo da ética. De acordo com os critérios de pesquisa por Vergara (2000), classifica-se o presente estudo como teóricodescritivo, apoiado por meios bibliográficos de investigação. O tema da relação entre os sexos raramente teve lugar no discurso filosófico. Os poucos filósofos que se ocuparam dessa questão, em geral, procuraram demonstrar a inferioridade da mulher, invocando uma hierarquia de valor presumida como natural. Assim, conforme havíamos anunciado na introdução, consideramos que as variadas formas de discriminação experimentadas pelas mulheres de todos os tempos, se apóiam em um pressuposto conceitual que justifica e legitima práticas desigualitárias : as distinções entre os sexos são imanentes e imutáveis, isto é, são devidas às diferenças de natureza entre o sexo feminino e o sexo masculino. Extrapolando o fato de existirem diferenças reais – anatômicas e biológicas – entre o homem e a mulher, tal concepção ontologiza a diferença, mostrando-a como constitutiva e essencial. Essa concepção filosófica tem historicamente homologado pontos de vista correntes acerca da superioridade intelectual masculina e da incapacidade intrínseca da mulher em elevar-se ao domínio moral. Escolhemos Aristóteles e Rousseau como os mais expressivos representantes da tese da diferença essencial. Consideramos Aristóteles como o "autor" da tese que defende a desigualdade entre os sexos como lei da natureza, por ter sido ele o primeiro a escrever de forma sistemática sobre a questão. A concepção sistematizada por Aristóteles da natural inferioridade feminina, revelada sobretudo na esfera moral, tornou-se um pressuposto no pensamento filosófico posterior. Rousseau, defensor apaixonado da igualdade entre os seres humanos, não só aceita, como justifica a desigualdade entre os sexos, pois a considera como um fato da natureza. O termo natureza, quando aplicado por Rousseau ao sexo feminino, não tem a conotação positiva de plenitude originária e ideal; a mulher é natureza no sentido de representar aquilo que se opõe à razão, o que precisa ser controlado e dominado. Por esse motivo, vai elaborar um projeto educacional altamente repressivo para as meninas, visando a sua "domesticação", isto é, a conversão da mulher-natureza-paixão em esposa submissa e mãe devotada. Conforme assinalamos anteriormente, a afirmação do igual valor e da igual importância dos pontos de vista "masculino" e "feminino" - tradicionalmente associados à dimensão racional e à dimensão sensível do ser humano - pode chamar a atenção para possíveis equívocos decorrentes de teorias éticas estritamente racionalistas, ou seja, teorias que limitam a esfera moral às características culturalmente associadas ao masculino. Uma parte da pesquisa será dedicada à análise da mais radical dessas teorias: a filosofia moral de Kant: propomo-nos evidenciar as categorias e os conceitos da moral de Kant que exprimem de modo mais incisivo a ausência do que temos chamado de ponto de vista "feminino" em 4 moral. E, uma vez que o objetivo central da nosso estudo é afirmar a importância e o valor do "feminino", pretendemos enfatizar a insuficiência da concepção kantiana da moral como ciência racional pura, constituída sobre a base do dualismo antropológico e de um conceito da racionalidade vista como o oposto da corporeidade e de suas manifestações. A posição discriminatória de Kant com relação às mulheres (Guisán, 1988) não é apenas subentendida ou inferida a partir da sua preocupação em suprimir os aspectos tidos como irracionais - que são aqueles culturalmente associados ao feminino - do âmbito da moral. Kant se ocupa do tema da mulher e, ao manifestar suas idéias sobre as características do sexo feminino, revela-se partidário da tese que afirma a inferioridade essencial das mulheres, evidenciada principalmente em uma suposta inaptidão natural para exercer o necessário domínio das inclinações, como se passa a estudar. Aristóteles: a desigualdade como lei da natureza A tese da desigualdade essencial entre os sexos, que ingressou na tradição filosófica e vem historicamente justificando práticas discriminatórias em relação à mulher, teve sua primeira formulação em Aristóteles, que expressa seu ponto de vista sobre a relação hierárquica entre os dois sexos na Política e nos seus tratados biológicos. Convém notar que a perspectiva discriminatória de Aristóteles (e de Platão) a respeito das mulheres, inspira-se na forma de organização política e social vigente na época. A absoluta subordinação das mulheres, assim como dos escravos, era prática estabelecida na Grécia Clássica, desta forma, a tese aristotélica sobre a natural e justa – justa porque natural – sujeição da mulher, oferece fundamentos racionais a uma situação de fato. No livro I da Política, Aristóteles afirma o caráter natural das associações humanas. O homem é absolutamente incapaz de viver isolado; ser membro de uma comunidade é essencial, não apenas para o atendimento das suas necessidades primeiras de sobrevivência, como também para a realização das suas potencialidades como ser humano. Com o objetivo de precisar as distinções específicas entre os tipos de comunidades humanas, Aristóteles começa por analisar a mais elementar entre elas – a família. A família surge em virtude de dois instintos primitivos: o instinto de procriação – que leva o homem e a mulher a unirem-se, e o instinto de autopreservação – que une o senhor ao escravo. Esta comunidade simples, constituída inicialmente por três pessoas, tem a finalidade específica de assegurar a satisfação quotidiana das necessidades elementares. Mas a satisfação dessas necessidades não é o único fim assinalado pela natureza para os seres humanos. Se a família existe para assegurar a vida, “a finalidade do Estado é possibilitar a vida boa [...] Uma cidade é a união de famílias e de aldeias numa vida perfeita e auto-suficiente, quer dizer, numa vida feliz” (Política III, 9, 1280b): A finalidade própria à esfera política é, portanto, ética, consiste em promover a realização do bem comum e de uma vida justa e feliz para os cidadãos. No Livro I da Política, Aristóteles analisa a família e estabelece as características dos dois tipos de relação que se encontram na sua base: homem-mulher e senhor-escravo; ambas hierárquicas e naturais, mas diferentes entre si, visto que “é por natureza que a mulher e o escravo são diferentes, pois a natureza não faz nada com parcimônia, mas faz cada objeto para um uso exclusivo”. (Política I, 2, 1252 b). Segundo Aristóteles, a relação de dominação que caracteriza esses dois primeiros elos sociais é justa e vantajosa para todos os envolvidos, pois ela acontece por determinação da própria natureza: aquele que exerce o domínio, o faz apoiado em uma superioridade natural. Aristóteles aplica a sua concepção da desigualdade natural e a decorrente condição ideal de comando do superior a todas as situações naturais, a começar por aquela que se passa no próprio indivíduo: cabe à alma comandar o corpo, e à parte racional da alma, dirigir a parte 5 apetitiva. A mesma relação hierárquica existe, segundo Aristóteles, entre homens e animais, entre o macho e a fêmea, e onde se encontre essa relação, a autoridade natural do superior deve ser respeitada; agir contra a natureza (invertendo a hierarquia ou defendendo a igualdade) é prejudicial para todos. Convicto da existência de desigualdades naturais entre os seres humanos, Aristóteles se acha perfeitamente à vontade para defender que relações de dominação/subordinação, quando “determinadas” pela natureza, são justas. Os “inferiores” revelam esta sua característica no corpo e, principalmente, na razão. Em se tratando do sexo feminino, no entanto, a possibilidade de se cometer injustiça é nula. O princípio da inferioridade natural se aplica a todas as mulheres, pois a feminilidade se expressa de forma inequívoca no corpo. Convicto de seu ponto de vista, Aristóteles vai sustentar que “a fêmea é um macho mutilado” (Geração dos Animais, II, 3, 737 a). A imperfeição intrínseca à natureza feminina revela-se de maneira especial no ato da procriação. Embora os princípios masculino e feminino sejam igualmente necessários para o processo da geração – a fêmea contribui com a matéria e o macho com a forma– a função do princípio feminino é inferior. Os machos fornecem a alma, princípio ativo para a geração, enquanto o princípio passivo é fornecido pelas fêmeas. De acordo com Aristóteles, a secreção femininaé desprovida de alma; a alma ou princípio vital é transmitida ao embrião exclusivamente pelo sêmen masculino. Assim, a fêmea é apenas um recipiente, quem gera a vida é o macho. A imperfeição característica do sexo feminino é mostrada como conseqüência de uma falha da própria finalidade natural: o nascimento de uma fêmea traduz um fracasso. Assim, Aristóteles observa que “a debilidade inerente ao sexo feminino deve ser encarada como um insucesso da natureza”. (Geração dos Animais, IV. 6, 775 a). A mais importante “deficiência” do sexo feminino, entretanto, diz respeito à especificidade da sua alma: as almas das mulheres são menos racionais do que as dos homens e tendem para os apetites ou elementos passionais. Essa fraqueza do elemento mais nobre da alma, típica do sexo feminino, vai determinar diferenças fundamentais de caráter entre a mulher e o homem (História dos Animais IX, 1, 608 a – 608 b). Os traços de caráter apontados por Aristóteles como peculiares ao sexo feminino expressam, de maneira direta, o seu propósito em apresentar as mulheres como seres passionais. Nesse sentido, Aristóteles procura “demonstrar” que a natureza feminina é degenerada e antinatural, já que, no sexo feminino, é o elemento inferior da alma que prevalece e exerce controle sobre o superior. Assim, por serem constitucionalmente incapazes de realizar o adequado domínio do racional sobre o passional, as mulheres subvertem a hierarquia natural (instituída por Aristóteles). Ao estabelecer bases naturais para a condição de inferioridade do sexo feminino, Aristóteles está enfatizando que tal condição é, ao mesmo tempo justa, inquestionável e imutável. A visão negativa do filósofo sobre a natureza feminina, manifestada em situações diversas, funda-se constantemente em alguma forma de impotência. Assim, a biologia aristotélica ensina que a suposta inferioridade da mulher deve-se ao fato de ela ser “impotente para produzir sêmen”. A impotência constitutiva do sexo feminino não se restringe ao aspecto biológico, mas extrapola este campo, revelando-se também no caráter: a mulher é impotente para moderar sua natureza passional. No domínio moral, a impotência característica do feminino aparece de forma especialmente grave: embora dotada da capacidade intelectual de deliberar, a mulher é impotente para dirigir suas ações de acordo com o que deliberou. Segundo a interessante interpretação de Solange Vergnières, Aristóteles situaria as mulheres em um plano moral inferior ao dos homens por considerar que “as almas femininas seriam incontinentes por fraqueza”. Assim,“a ausência de autoridade feminina não seria tanto uma inaptidão da mulher para comandar os outros, quanto uma dificuldade para se comandar 6 a si própria” (Vergnières, 1995, p. 172). Se levarmos em conta as idéias de Aristóteles sobre o sexo feminino, como mostradas anteriormente, não fica difícil perceber que, para o filósofo, a mulher, todas as mulheres, podem ser enquadradas nos tipos mais graves de incontinência apontados: além de serem incontinentes por fraqueza, ainda o são por natureza, isto é, a fraqueza feminina está enraizada na sua natureza. De acordo com a perspectiva aristotélica, a mulher deve se subordinar à autoridade legítima masculina – legítima porque pautada sobre o princípio da natural superioridade – e, além disso, deve restringir-se ao espaço doméstico, ocupando-se das tarefas que lhe são próprias. Aristóteles vai, portanto, justificar, por um lado, a dominação masculina no âmbito familiar e, por outro lado, a exclusão da mulher da participação na comunidade política. No Livro III da Política, após definir o Estado como uma comunidade superior, composta de cidadãos, Aristóteles vai examinar longamente quem pode ser considerado cidadão. Para ser cidadão não basta residir na cidade, também não é suficiente ser descendente de cidadãos, tampouco devem ser considerados cidadãos “todos aqueles sem os quais a cidade não subsistiria”(Política, III, 4, 1278 a). O fato de ser livre não é também condição suficiente; se assim fosse, as mulheres que constituem uma “metade da população livre” (Política, I, 13, 1260 b) seriam consideradas cidadãs e sabemos que elas não gozam desse direito. Passivas e impuras por natureza, as mulheres devem se limitar a cuidar do serviço doméstico e a obedecer, de preferência mantendo suas mentes quietas e bocas fechadas. Diz Aristóteles: “Ë necessário acreditar, que o verso do poeta (Sófocles) sobre as mulheres contém uma verdade geral: para a mulher, o silêncio é um adorno, mas não para o homem” (Política, I, 13, 1260 a). Rousseau: a conceituação da mulher como natureza O século XVIII vai enfatizar a importância e o valor da educação que passa a ser vista como fator chave para o aperfeiçoamento da humanidade. Surgem, no âmago dos discursos sobre a libertação do gênero humano, análises novas sobre a condição feminina, inspiradas na idéia de igualdade imanente ao conceito novo de humanidade. Trata-se, agora, de todos os seres humanos, não pode mais haver, para o homem e para a mulher, dois pesos e duas medidas. Não é razoável que a metade do gênero humano se mantenha à margem do processo emancipatório. A corrente feminista contemporânea denominada feminismo da igualdade ou feminismo ilustrado situa no Século das Luzes o surgimento de um pensamento absolutamente novo a respeito das mulheres - o único que, rigorosamente, pode ser chamado de feminista. Neste sentido, Celia Amorós (1997, p. 83) dirá que "o feminismo é um produto genuinamente moderno", pois é somente nesse período que aparecem os primeiros discursosreivindicatórios de igualdade. Amelia Valcárcel sublinha que a literatura anterior ao século XVIII sobre a mulher restringe-se a assinalar certas excelências femininas; assim, tal literatura pode conviver, sem contradição, com posições misóginas tradicionais. Às vezes, os dois pontos de vista são encontrados em um mesmo autor, como é o caso de Erasmo, que "dedica em Elogio da Loucura um capítulo inteiro para demonstrar a estupidez congênita do sexo feminino e também escreve ensaios sobre a excelência das mulheres" (Valcárcel, 1997, p. 55). O pensamento da Ilustração se baseia na concepção de que a natureza humana é universal: todos os seres humanos são iguais, têm as mesmas possibilidades racionais, a mesma organização psíquica, são movidos por desejos e interesses semelhantes. Com base na 7 premissa do universalismo, afirma-se a igualdade entre o homem e a mulher; já não se pode manter a mulher em uma situação de subordinação justificada pela concepção de uma natureza inferior. O novo discurso feminista se fundamenta, então, na idéia de igualdade de direitos para homens e mulheres; esta, por sua vez, baseia-se na concepção de uma natureza humana universal. Além de irrelevantes diferenças biológicas, não existem outras que pudessem justificar uma superioridade do homem sobre a mulher. Rousseau, como se sabe, foi um dos teóricos da Revolução Francesa, cujos princípios fundamentais eram a igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os seres humanos. Ardoroso defensor da igualdade, Rousseau, ao mesmo tempo, não só aceita, como justifica a desigualdade em certos casos. A desigualdade entre o homem e a mulher não é, para Rousseau, produto de qualquer empenho humano, mas ao invés disso, é um fato da natureza e, por esta razão mesma,é justa e intocável. No caso da relação dos sexos, a natureza determina a inferioridade feminina e tal determinação deve ser respeitada. Neste sentido, as reivindicações de igualdade e as tentativas de mudança são absurdas, pois as leis da natureza não podem ser violadas: "Cabe ao ser que a natureza encarregou de ter filhos, obedecer ao outro" (Émile, V, p. 697). Cada sexo tem funções e deveres específicos e a condição de inferioridade da mulher é como deve ser, pois "esta desigualdade não é de modo algum uma instituição humana, ou pelo menos ela não é absolutamente resultado do preconceito, mas da razão" (Émile, V, p. 697). Assim, a forte convicção de Rousseau sobre a igualdade entre os seres humanos já começa enfraquecida, uma vez que desde o ponto de partida, exclui metade da população do mundo. As diferenças entre o homem e a mulher não são meramente anatômicas e biológicas, mas "essas diferenças", adverte Rousseau, "devem influir sobre o moral" (Émile, V, p. 693). A partir da reflexão sobre as diferenças físicas, Rousseau deduz que as morais masculina e feminina são também completamente distintas: "uma mulher perfeita e um homem perfeito não devem assemelhar-se mais no espírito do que no rosto" (Émile, V, p. 693). O homem é "forte e ativo" e a mulher é "fraca e passiva"; deste fato segue-se que "a mulher é feita especialmente para agradar ao homem e para ser-lhe subjugada". Quanto ao homem, "seu mérito está na sua força, ele agrada apenas pelo fato de ser forte" (Émile, V, p. 693). A força superior do sexo masculino extrapola o plano físico e se estende até a esfera moral. Os dois sexos estão igualmente sujeitos a paixões, são igualmente assediados por fortes desejos; acontece que o homem e a mulher não respondem da mesma maneira às inclinações naturais. Aliás, segundo Rousseau, as reações distintas se devem à maneira diferenciada pela qual o Être Suprême constituiu cada um dos dois sexos. O homem, ao mesmo tempo que é solicitado por inclinações desmedidas, possui "a lei que as regula, a fim de que ele seja livre e se comande a si próprio; [o Ser Supremo] ao submeter o homem a paixões imoderadas, junta a estas paixões a razão para governá-las; ao dar à mulher desejos ilimitados, junta a esses desejos o pudor para contê-los" (Émile, V, p. 695. Grifo nosso). Quer dizer, enquanto o sexo "forte e ativo", pela razão consegue tornar-se superior às tentações, a mulher a elas sucumbe na maioria das vezes, pois o precário freio do pudor não é suficiente para controlar os desejos. A fraqueza e a passividade da mulher evidenciam-se, assim, para além do corpo físico, na incapacidade para moderar seus desejos insaciáveis. De acordo com a visão de Rousseau, por não possuírem autodomínio, as mulheres não são seres livres e, por esta razão, encontram-se aquém da esfera da moralidade, imersas no reino da necessidade e da natureza. O mérito do homem consiste primeiramente no autodomínio, e depois no domínio da mulher, que, ao contrário do homem, é completamente regulada pelo seu sexo. Na visão de Rousseau, "não há semelhança alguma entre os dois sexos no que se refere à conseqüência do sexo. O macho não é macho senão em determinados momentos, a fêmea é fêmea durante toda 8 a sua vida ou, pelo menos, durante toda a sua juventude; tudo faz com que ela se recorde, sem cessar, do seu sexo" (Émile, V, p. 697). Em razão da sua sexualidade insaciável, a mulher jamais abandona completamente sua natural propensão à desordem, conseqüentemente pode constituir séria ameaça à ordem social e política, se não for devidamente submetida ao controle racional masculino. A firme convicção de Rousseau sobre a natural impossibilidade feminina para desenvolver a moral necessária aos membros da sociedade civil, leva-o a justificar não apenas a sujeição da mulher, como também a sua exclusão da vida pública. As mulheres, seres pré-cívicos por natureza, passam a ser consideradas cidadãs quando, no interior do seu domínio próprio, cumprem as nobres funções específicas do sexo feminino: as funções de esposa e de mãe. Quer dizer, o papel da mulher como cidadã é tornar possível a existência do cidadão (Petit, 1994, p.180). Rousseau, como Aristóteles, porém de uma forma mais sofisticada e também mais explícita, coloca nas mãos da mulher doméstica as condições necessárias para o pleno desenvolvimento do homem público. Na extensa obra Émile ou de l´éducation, Rousseau vai enfatizar a necessidade e as vantagens de uma educação repressiva exclusivamente para as meninas, com base no pressuposto da existência de naturezas diferenciadas no homem e na mulher, que se evidenciam de modo privilegiado no campo da moral. Em função das distinções morais devem ser estabelecidas orientações educacionais diferentes para o menino e para a menina. Os homens, ao contrário das mulheres, são naturalmente livres; por esta razão, a educação dos meninos deve estar voltada para o desenvolvimento do autodomínio e para o futuro exercício da cidadania. Feitos para comandar, não podem estar recebendo ordens o tempo todo; uma educação repressiva para eles não é adequada, seria agir contra a sua natureza. As mulheres, seres naturalmente dependentes, devem acostumar-se ao comando desde pequenas, uma vez que “estarão sempre sujeitas ou a um homem ou aos julgamentos dos homens e nunca podem se colocar acima desses julgamentos” (Émile, V, p. 710). Para estimular o hábito da obediência, a menina deve ser contrariada com freqüência e precisa estar constantemente recebendo ordens e punições. Não importa que algumas vezes estas possam ser injustas, pois, afinal “a mulheré feita para ceder ao homem e para suportar a injustiça” (Émile, V, p. 750). No caso dos meninos, a situação é bem diferente. Uma ordem ou uma punição injusta pode ser algo extremamente pernicioso para sua formação: desperta no seu íntimo um forte sentimento de revolta, uma vez que “a natureza não os fez para tolerar a injustiça” (Émile, V, p. 751). Vimos então como Rousseau apela para a natureza para justificar a autoridade masculina e a conseqüente submissão da mulher: a desigualdade dos sexos não é resultado da arbitrariedade humana, mas deve-se ao fato de que as mulheres são seres ontologicamente diferentes e inferiores. Com base na premissa da desigualdade natural, Rousseau deduz as funções e deveres específicos de cada um dos sexos e sustenta que a educação deve ter o objetivo de preparar o menino e a menina para assumirem seus papéis próprios. O lugar do feminino na filosofia moral de Kant O primeiro passo para a reivindicação da igualdade entre o homem e a mulher deve ser, sem dúvida, a negação da existência de essências diferentes nos dois sexos. O essencialismo implica, ou melhor, justifica relações hierárquicas nas quais o sexo feminino representa sempre o pólo inferior a ser subjugado. Mas, se o essencialismo está na base de desigualdades, a afirmação da igualdade desligada de um ponto de vista crítico, "às cegas", por assim dizer, pode conduzir a uma posição equivocada. No empenho de afirmar a igualdade e de negar o essencialismo, os defensores da igualdade absoluta, freqüentemente, 9 extrapolam o seu propósito inicial e terminam por reconhecer a superioridade masculina, inicialmente contestada. O fato de negar essências não implica, necessariamente, em anular diferenças, pelo contrário, pensamos que uma afirmação consistente da igualdade deva passar pelo reconhecimento das diferenças entendidas como não essenciais e não hierárquicas. Por outro lado, interessa-nos ressaltar diferenças, importa mostrar que o ponto de vista moral "feminino", freqüentemente considerado inferior, nem é inferior, nem é exclusivo do sexo feminino, já que não existem essências. Aliás, promover o valor do "feminino" em moral e reivindicar a sua inclusão na reflexão ética é o objetivo central do trabalho. A afirmação do igual valor e da igual importância dos pontos de vista "masculino" e "feminino" - tradicionalmente associados à dimensão racional e à dimensão sensível do ser humano, respectivamente - pode chamar a atenção para possíveis equívocos decorrentes de teorias éticas estritamente racionalistas que, proclamando a neutralidade de gênero, restringem o domínio moral à razão e ao masculino. Nesse momento, vamos nos ocupar da maisradical dessas teorias, a saber, a filosofia moral de Kant, a qual pode ser vista como paradigmática do ponto de vista "masculino" excludente. Em conseqüência da valoração desigual das duas dimensões constitutivas do ser humano e da definição da razão como o oposto da corporeidade, dos sentimentos e do desejo, as decisões, os julgamentos e as ações inspiradas em considerações de simpatia, cuidado e solidariedade vão ser vistas como irracionais e, por esse motivo, não serão consideradas morais. Pela mesma razão, as pessoas tradicionalmente vinculadas à dimensão não-racional, e associadas a esse tipo de comportamento, também deverão estar excluídas da racionalidade moral. Nesse caso, nem é preciso dizer, encontram-se as mulheres. Para Kant, a desigualdade entre os sexos se revela como essencial, isto é, fundamentada na própria ordem natural. É, então, na qualidade de iniciado - ou seja, de quem consegue captar a teleologia oculta da natureza – que Kant vai afirmar a “natural” incapacidade feminina para as questões do intelecto: “o conteúdo da grande ciência da mulher é o ser humano, e entre os seres humanos, o homem. Sua sabedoria não consiste em raciocinar, mas em sentir” (Observações, III, p. 124). Kant admite que as mulheres também possuem um entendimento, mas acredita que tal entendimento seja qualitativamente diferente do masculino: não foi ele feito para se ocupar de grandes reflexões, nem de conhecimentos complexos e abstratos. O entendimento feminino é um belo entendimento, “enquanto que o nosso é um entendimento profundo, o que tem o mesmo significado que um entendimento sublime” (Observações, III, p. 122). Algumas raras mulheres, entretanto, têm a pretensão de equiparar-se aos homens no campo intelectual, mas o máximo que elas conseguem, na visão de Kant, é embaralhar a cabeça com ensinamentos que não estão ao seu alcance e, com isso, enfraquecem seus charmes naturais (Antropologia B). Àquelas mulheres que, contrariando a natureza insistem em se dedicar às ciências, Kant “aconselha” que deveriam, também, “usar uma barba, pois esta expressaria mais visivelmente ainda o ar de profundidade que elas buscam” (Observações, III, p. 122-123). Assim, inspirado no desígnios da Providência, - e mais diretamente em Rousseau Kant vai elaborar sua pedagogia. Considerando que as intenções superiores da natureza, ao moldarem o caráter feminino, visavam a "conservação da espécie e o refinamento da sociedade", deve-se procurar preservar nas meninas seus atributos próprios e reforçar sua feminilidade para que possam cumprir sua dupla função reprodutora: da espécie e do bom gosto em sociedade. Nesse sentido, as meninas precisam ser formadas com vistas ao espaço doméstico, enquanto que os meninos necessitam ser preparados para a vida pública. A educação deve ser, portanto, diferenciada, porque não é possível ignorar "a diferença charmosa que a natureza quis estabelecer entre os dois [sexos], pois não basta que se 10 represente que se está diante de humanos, é necessário também não negligenciar o fato de que os humanos são de dois tipos" (Observações, III, p. 120). É também levando em conta as sábias disposições da natureza, que Kant vai estabelecer um paralelo entre, de um lado, as características diferenciadas e as relações dos sentimentos estéticos do belo e do sublime e de outro lado, as qualidades específicas de cada um dos dois sexos. Desta forma, a mulher, naturalmente vinculada ao primeiro daqueles sentimentos, será possuidora de belos e encantadores predicados, enquanto que os atributos elevados e sublimes pertencem por natureza ao sexo masculino. Vistas por Kant como criaturas imersas no reino da emoção, dos sentimentos e das relações concretas particulares, as mulheres não podem ser aceitas no reino puro da moralidade. Com absoluta coerência, então, Kant vai negar a experiência moral das mulheres, na medida em que não reconhece que elas sejam capazes de eliminar a dimensão "patológica" da existência, pois que possuem, com esta dimensão, natural afinidade. Kant nem ao menos admite que as mulheres cheguem a possuir virtudes genuínas. As virtudes femininas serão simplesmente belas e agradáveis – “virtudes de adoção”, em termos kantianos. As virtudes do sexo masculino , vinculado que está à categoria do sublime, serão nobres, superiores, as únicas realmente morais. A verdadeira virtude, a “virtude autêntica” é aquela que assenta sobre princípios fundamentais, universais, independentes dos sentimentos; O belo sexo, segundo Kant, não é capaz de elevar-se a regras gerais; o sentido moral das mulheres é pautado segundo os comportamentos que elas podem observar ao seu redor, pois são incapazes, por natureza, de transcender a esfera do particular e do concreto. Tampouco conseguem as belas regular seus sentimentos e desejos por princípios mas, ao contrário, seu caráter, em contraste com o dos homens, é completamente definido por necessidades naturais; a falta de autodeterminação da mulher é intrínseca à sua natureza (Observações, III). Para Kant, as "boas disposições do coração" tais como os sentimentos de piedade e de complacência são, sem dúvida, "paixões benéficas", mas conduzem a resultados apenas aparentemente virtuosos porque entram em conflito com as regras universais da razão. Com efeito, esses sentimentos só podem ser dedicados a um número pequeno de pessoas e, por sua própria natureza, não podem ser generalizados. Na visão de Kant , o homem virtuoso é aquele que tem o domínio de suas inclinações, as quais o levariam a violar o dever, e uma mulher virtuosa é uma impossibilidade, um contra-senso. Incapazes de princípios, de dever, de autonomia, de virtudes autênticas, as mulheres não reúnem as condições necessárias, segundo Kant, para serem reconhecidas como agentes morais. As ações femininas seriam todas impulsionadas por uma ou mais variantes daquilo que Kant denomina, genericamente, inclinações. A mulher age segundo determinações dos desejos, das emoções, dos sentimentos do agradável e do desagradável, enfim, de toda a gama de motivos que Kant exclui do campo da moralidade por serem empíricos. A total ausência de autocontrole por parte do belo sexo é outro sinal revelador da natural incapacidade da mulher para o agir moral, isto é, agir por dever. Diz Kant: “Vencer suas paixões por princípios é sublime” (Observações, II, p. 93): Apenas o sexo naturalmente vinculado a esta característica tem a possibilidade de escutar a voz da razão e agir nobremente. As características "naturais" - atribuídas por Kant - do sexo feminino, são justamente aquelas que incapacitam para o agir moral autêntico. Apresentadas como passionais e irracionais, as mulheres são consideradas totalmente inadequadas para a moralidade. Com efeito, nas Observações aparece com bastante clareza que a voz da razão universal kantianaé masculina; fica patente a virilidade da razão pura prática. A mulher não pode se elevar ao nível superior da moralidade, pois a razão feminina é, por natureza, empiricamente (patologicamente) condicionada. As regras universais da razão e os princípios a priori da 11 moralidade só dizem respeito ao sexo sublime, o único que é capaz de agir por princípios e de silenciar suas inclinações para ouvir a voz do dever. Apenas o homem consegue entender a voz do dever, pois que este fala masculino. Além de reiterar a exclusão do campo da moralidade, na Antropologia do ponto de vista pragmático, Kant vai enfatizar um outro aspecto de exclusão, também este devido a uma deficiência intrínseca: as mulheres, como as crianças, por não serem capazes de fazerem uso por si sós de seu próprio entendimento, encontram-se naturalmente excluídas do exercício da cidadania. Escreve Kant: "As crianças são por natureza menores e seus pais são seus tutores naturais. A mulher, qualquer que seja a sua idade, é declarada civilmente menor; o marido é seu curador natural" (Antropologia, I, § 48, p. 159). Desse modo, a suposta amoralidade essencial do sexo feminino leva Kant a não reconhecer que as mulheres possam ser sujeitos políticos e a excluí-las do exercício ativo da cidadania. Contudo, elas poderão participar da vida social, contribuindo para o refinamento da sociedade com o seu bom gosto natural, essa "virtude" feminina tantas vezes ressaltada por Kant nas Observações e na Antropologia. Excluídas da vida pública, as mulheres devem permanecer no espaço doméstico onde têm importantes funções a desempenhar. Embora sejam indiferentes ao bem comum, as mulheres sabem cuidar muito bem dos próximos e esse "dom natural" deve ser aproveitado. Além do mais, uma casa precisa ser administrada e, nesse terreno, são as mulheres que devem comandar, até porque os homens têm atividades mais nobres com que se ocupar. Mas, até mesmo esse "poder doméstico" que Kant, ironicamente, concede ao sexo feminino é, ele próprio, decorrente de deficiências essenciais. Escreve Kant: "A incapacidade jurídica no domínio das questões públicas torna-as tanto mais poderosas no que diz respeito ao bem estar doméstico, porque aqui intervém o direito do mais fraco, que o sexo masculino se sente naturalmente convocado a proteger e defender” (Antropologia, § 48, p. 160). Segundo Kant, as mulheres choram com freqüência, por reconhecerem sua absoluta impotência para dominar os males causados por emoções fortes (de cólera ou de melancolia). E, ao mesmo tempo, é por meio desses "sinais exteriores de fraqueza", que a mulher reclama para si, legitimamente, a proteção masculina. Cabe ao marido protegê-las, porque "sua virilidade lhe ordena" de proteger os mais frágeis. O fato de as mulheres estarem constantemente "afogadas em lágrimas" é, para Kant, um sinal de fragilidade moral, um sinal de que não possuem o adequado controle de si próprias, o domínio dos seus sentimentos e inclinações. Podemos então considerar o discurso de Kant sobre o "direito do mais fraco" como umaoutra maneira de expor o seu ponto de vista sobre a suposta incompatibilidade da "natureza" feminina com a racionalidade e moralidade. Com efeito, Kant na verdade quer mostrar que, também no âmbito doméstico, as mulheres necessitam de "proteção" que, nesse caso, é um outro nome para direção e domínio. As supostas incapacidades intelectual e, sobretudo, moral da mulher aparecem como pressupostos "naturais", justificadores do domínio e do controle do sexo masculino sobre o feminino. O homem tem o direito e o dever de subjugar a mulher. Assim, em virtude de características essenciais, as mulheres não podem fazer parte do universo dos seres autolegisladores ou autônomos e encontram-se excluídas do domínio moral. Com efeito, ao falar sobre as mulheres nas Observações sobre o sentimento do belo e do sublime, Kant vai retratá-las como “heterônomas” por natureza, portadoras de uma amoralidade essencial que não é propícia ao exercício da cidadania. A ética kantiana desvaloriza a dimensão sensível da existência e, consequentemente, as mulheres, que, são identificadas com esta dimensão. Para ilustrar a perspectiva de Kant, parece-nos apropriado lembrar a posição de Ernst Cassirer a respeito do rigorismo kantiano apresentada em seu conhecido livro Kant, vida y doctrina. Manifestando sua admiração e 12 assinalando a importância do rigorismo para a filosofia moral posterior, Cassirer vai compreendê-lo como uma reação positiva da mentalidade de Kant, “viril até a medula”, contra a nefasta expansão dastendências sentimentais do seu tempo. (Cassirer, 1918, p. 316) A ótica desigualitária encontrada na reflexão de Kant sobre os sexos sustenta-se na convicção de uma diferença essencial. Nos escritos em que Kant aborda questões referentes à mulher e às características específicas dos sexos, o universalismo kantiano cede lugar a uma visão androcêntrica e preconceituosa. Em outras palavras, foi possível identificar aspectos de exclusão na filosofia moral universalista de kant. O gênero humano ao qual Kant se refere é, na verdade, o gênero masculino. Não se trata de gênero/espécie, mas de gênero/sexo. Conclusões A questão da desigualdade entre os sexos deita suas raízes nos primórdios da cultura ocidental. A diferença entre homem e mulher instituiu-se em tema revisitado por juristas, filósofos, antropólogos, sociólogos, e cientistas políticos. Esse tema, durante o século XX, recebeu contribuições significativas das diferentes áreas do conhecimento, o que foi decisivo para que se produzissem profundas modificações no comportamento social e na legislação. No entanto, a temática analisada em profundidade pelas diferentes ciências humanas, ocupa ainda, na reflexão científica, uma posição marginal. O interesse em compreender a persistência de importantes situações de desigualdade entre o homem e a mulher, na atualidade, e como essa desigualdade reflete percepções filosóficas diversas, constituiu o leitmotiv do presente artigo. A condição de inferioridade feminina é vista como natural, universal e imutável, uma vez que decorre de uma suposta essência diferente e inferior da mulher. Essa concepção é constituída sobre a base de um reducionista dualismo antropológico, onde proclama-se a inferioridade da mulher como conseqüência de uma afinidade "natural" com a dimensão sensível, freqüentemente desvalorizada, como vimos em diversos autores. A concepção da desigualdade natural dos sexos, sistematizada pela primeira vez por Aristóteles, tornou-se um pressuposto no pensamento filosófico posterior. Mesmo os raros filósofos que se propõem a defender a igualdade, posicionam-se em relação a essa concepção e se preocupam em demonstrar a sua inconsistência. Trata-se de uma concepção que se tornou uma vexata quaestio da tradição filosófica, necessitando, por essa razão, ser avaliada, superando-se as simplificações e dicotomias empobrecedoras. Foi o que procuramos fazer. A concepção ocidental da inferior natureza feminina que, através dos tempos, vem respaldando teoricamente situações concretas de opressão, inspira a criação de novas teorias que terminam por fortalecer a premissa da qual partiram. Exemplifica magistralmente esse ponto de vista, o livro do teólogo e médico alemão Paul Julius Moebius (1982), A inferioridade mental da mulher, publicado em 1900. O autor procura, de forma direta e explícita, converter em teoria científica a tese da natureza inferior feminina. Assim, por um lado, empenha-se em "provar" que a mulher é deficiente mental e que essa condição não só é um fato fisiológico e anatômico, como é também uma necessidade moral, para que a mulher possa cumprir a sagrada missão que lhe foi confiada pela natureza: ser mãe. Cumpre observar que esse "reforço científico" à tese da inferioridade natural da mulher surge, não por acaso, no momento em que se encontram já bastante fortes os movimentos de emancipação feminina, iniciados em meados do século XIX. A natural inferioridade já não aparece como tão natural assim; são as próprias "inferiores" que reclamam pela igualdade. É, portanto, a ocasião propícia para a construção de novas teorias que visam reafirmar a naturalidade que está sendo posta em questão. 13 Utilizamos o termo "feminino" em sentido intencionalmente abrangente, para designar, por exemplo, os sentimentos do cuidado, de simpatia e de compaixão; as experiências vividas de solidariedade; as paixões, as emoções, os afetos - estados diferentes entre si - mas que têm em comum o fato de estarem culturalmente associados à mulher e de se encontrarem desvalorizados ou excluídos da reflexão moral. Situar a investigação moral no contexto da reflexão sobre a relação dos sexos, implica repensar as oposições clássicas - razão e corpo, esfera do subjetivo particular e do objetivo universal - presentes na maior parte das teorias éticas. Essas oposições tornam-se radicais na filosofia moral de Kant. Ao iniciarmos esse estudo, acreditávamos que concluí-lo seria muito simples: o ponto de vista "masculino" em moral é insuficiente, portanto, deve ser complementado pelo ponto de vista "feminino". Entretanto, reconhecemos nesse momento, que essa complementação não deve ser entendida como um mero acréscimo. A proposta não pode ser simplesmente juntar a um enfoque estritamente racionalista da moral, um outro enfoque pautado em emoções e sentimentos. Na verdade, tal proposta seria um contra-senso: como acrescentar ao sujeito puro tudo aquilo que ele descartou para tornar-se puro? Assim sendo, chamar a atenção para o valor do "feminino" excluído, significa interpelar as noções consagradas de sujeito moral, visto como razão autônoma; do ponto de vista moral, entendido como o ponto de vista do espectador absoluto; da racionalidade, considerada como o oposto da corporeidade. Em resumo, entendemos que incluir o ponto de vista "feminino" na reflexão ética, implica reconhecer que o moral não se restringe ao racional, que razão e sensibilidade não constituem duas esferas antagônicas no ser humano e que, assim como as mulheres não são "donas" dos sentimentos e das emoções, a razão não é exclusividade do homem. Referências bibliográficas ALVESSON, Mats e DEETZ, Stanley. “Teoria crítica e abordagens pós-modernas para estudos organizacionais”. In: Cleeg, Hardy & Nord (orgs.), Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 1999. AMORÓS, Celia. Tiempo de feminismo. sobre feminismo, projecto ilustrado y postmodernidad. Madrid: Ediciones Cátedra, 1997 (Feminismos, nº 41). ARISTOTE. Politique (4 vol) Tradução de Jean Aubonnet. Paris: Les Belles Lettres, 1968, 1971, 1973, 1978. ARISTOTE. De la génération des animaux. Tradução de Pierre Louis. Paris: Les Belles Lettres, 1961 ARISTOTE. Histoire des animaux. Tradução de Pierre Louis. Paris: Les Belles Lettres, 1969. BETIOL, Maria Irene Stocco. “Ser administradora é o feminino de ser administrador ?” In: Anais do 24° Encontro da ANPAD, 2000. BUTLER, Judith. “Variações sobre sexo e gênero. Beauvoir, Wittig e Foucault”. Feminismo como crítica da Modernidade. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1987. CAPRA, Fritjof, STEINDL-RAST, D. e MATUS, T. Pertencendo ao Universo:explorações nas fronteiras da ciência e da espiritualidade, 4ª ed. São Paulo, SP: Cultrix, 2000. CHANLAT, Jean-François. Ciências sociais e management: Reconciliando o econômico e o Social. São Paulo, SP: Atlas, 1999. CASSIRER, Ernst. Kant, vida y doctrina. Tradução de Wenceslao Roces (1ª ed de 1918). México: Fondo de Cultura Económica, 1993 (col. Breviarios, no. 201). GUISÁN, Esperanza. “Immanuel Kant: una visión masculina de la ética”. In: E. GUISÁN (org.), Esplendor y miseria de la ética kantiana. Barcelona: Editorial Anthropos, 1988. HABERFELD, Vitchak. “Employment discrimination: an organizational model”. In: Academy of Management Journal, v. 35, n. 1, March 1992. 14 HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Tradução de Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. HALE, Mary. “He says, she says: gender and worklife”, In: Public Administration Review, v. 59, i. 5, Sept. 1999. HALLOCK, Kevin F., HENDRICKS, Wallace e BROADBENT, Emer. “Discrimination by gender and disability status: Do workers perceptions match statistical measures ?” In: Southern Economic Journal, v. 65, n. 2, Oct. 1998. HENWOOD, Doug. “Women Working”, Left Business Observer, v. 65, August 1994. HURLEY, Amy E. “Incorporating Feminist Theories into Sociological Theories of Entrepreneurship”, Women in Management Review, v. 14, n. 2, 1999. INGHAM, Barbara. “The Meaning of Development: Interactions Between ‘New’ and ‘Old’ Ideas”, World Development v. 21, n. 11, 1993. KANT, Emmanuel. Anthropologie du point de vue pragmatique. vol. 665, Tradução de Alain Renaut. Paris: Flammarion, coleçäo GF-Flammarion, 1993. KANT, Emmanuel. Critique de la raison pratique. Tradução de L. Ferry e H. Wismann Paris: Gallimard, 1985. KANT, Emmanuel. Critique de la raison pure. 6ª edição, Tradução de A Tremesaygues e B. Pacaud. Paris: PUF, 1968. KANT, Emmanuel. Observations sur le sentiment du beau et du sublime. Tradução de Monique David-Ménard. Paris: Flammarion, coleçäo GF-Flammarion, vol. 571, 1990. KILDUFF, Martin e MEHRA, Ajay. “Postmodernism and Organizational Research”, Academy of Management Review, v. 22, n. 2, April 1997. KORAC-KAKABADSE, Nada e KOUZMIN, Alexander. “Maintaining the Rage: From ‘Glass and Concrete Ceilings’ and Metaphorical Sex Changes to Psychological Audits and Renegotiating Organisational Scripts”, Women in Management Review, v. 12, n. 5, 1997. KUHN, Peter J. “Sex discrimination in labor markets: The role of statistical evidence”, In: American Economic Review, v. 80, 1990. LEITE, M. de P. e SHIROMA, Eneida. “Novas tecnologias, qualificação e capacitação profissional: tendências e perspectivas da indústria metalúrgica”. In: Em Aberto, Brasília, ano 15, n.65, jan/mar. 1995. MAVIN, Sharon e BRYANS, Patricia. “Gender on the Agenda in Management Education?”, Women in Management Review, v. 14, n. 3, 1999. MOEBIUS, Paul Julius. La inferioridad mental de la mujer. (1ª edição.de 1900) Tradução de A. K. Meszaros.Barcelona: Bruguera, 1982 (Liblo Blanco, n. 1511/40). NATH, Deepika. “Gently Shattering the Glass Ceiling: Experiences of Indian Women Managers”, Women in Management Review, v. 15, n. 1, 2000. OLIVEIRA, Nelio, OLIVEIRA, Rita de Cássia M. e DALFIOR, Simone Da Ros. “Gênero e novas perspectivas de trabalho: Um estudo junto a mulheres gerentes de atendimento no Banco do Brasil”. In: Anais do 24° Encontro da ANPAD, 2000. OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. “Revoluções Invisíveis”, O Globo, 8 de março de 2001, p. 7. PETIT, Cristina Molina. Dialética feminista de la Ilustración. Barcelona: Editorial Anthropos; Madrid. 1994. ROUSSEAU, Jean-Jacques. “Émile ou de l’éducation” in Oeuvres Complètes (tome IV). Paris: Gallimard, 1969. p. 239-868 (Bibliothèque de la Pléiade, vol. 208). ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes. Paris: Gallimard, 1965 (Idées, nº 90) SIMPSON, Ruth. “Gender Mix and Organisational Fit: How Gender Imbalance At Different Levels of the Organisation Impacts on Women Managers”, Women in Management Review, v. 15, n. 1, 2000. 15 SINCLAIR, Amanda. “Women Within Diversity: Risks and Possibilities”, Women in Management Review, v. 15, n. 5, 2000. SOUZA, Antônia Egídia de e GUIMARÃES, Valeska Nahas. “Gênero no espaço fabril”. In: Anais do 24° Encontro da ANPAD, 2000. VALCÁRCEL, Amelia. La política de las mujeres. Madrid: Ediciones Cátedra, 1997. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração, 3ª edição. São Paulo, Atlas, 2000. VERGNIÈRES, Solange. Éthique et politique chez Aristote- physis, êthos, nomos. Paris: Presses Universitaires de France. 1995. VILKINAS, Tricia. ‘The Gender Factor in Management: How Significant Others Perceive Effectiveness’, Women in Management Review, v. 15, n. 5, 2000. WOOD, Maureen. “Move Toward a Different Career Pattern: Are Women Better Prepared than Men For a Modern Career?”, Women in Management Review, v. 14, n. 1, 1999. 16