Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M
Artigo de Pesquisa
Original Research
Artículo de Investigación
AS PERCEPÇÕES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE SOBRE O
PROCESSO DE ACREDITAÇÃO HOSPITALAR
PERCEPTIONS OF HEALTH PROFESSIONALS ON THE PROCESS OF HOSPITAL
ACCREDITATION
LAS PERCEPCIONES DE LOS PROFESIONALES DE SALUD SOBRE EL PROCESO
DE ACREDITACIÓN HOSPITALARIA
Bruna Figueiredo ManzoI
Helen Cristiny Teodoro Couto RibeiroII
Maria José Menezes BritoIII
Marília AlvesIV
RESUMO: Esta pesquisa objetivou conhecer as percepções dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação
hospitalar. Trata-se de estudo qualitativo realizado em um hospital de Belo Horizonte, em 2009. Os dados foram coletados por
meio de entrevista com 34 profissionais de diferentes categorias e analisados com o suporte da análise de conteúdo. Os
resultados mostraram que os profissionais têm assimilado de forma mecânica as questões referentes à acreditação. Assim,
pecebe-se ausência de uma prática ancorada na reflexão e na crítica. Ademais, a dimensão objetiva do processo de
acreditação, ou seja, as esferas técnica, processual e operacional foram privilegiadas em detrimento de aspectos subjetivos,
sendo os últimos desconsiderados pelos sujeitos. A realização do estudo aponta a necessidade de sensibilização e de capacitação
dos profissionais envolvidos na acreditação, considerando a complexidade desse processo e sua influência no trabalho dos
profissionais das diferentes categorias e a importância de que seja assegurada a qualidade da assistência.
Palavras-chave: Gestão da qualidade; qualidade da assistência à saúde; acreditação; hospitais.
ABSTRACT
ABSTRACT:: This research aims at assessing the perceptions of health professionals on the process of hospital accreditation.
It is a qualitative study conducted in a hospital in Belo Horizonte, MG, Brazil, in 2009. Data were collected through interviews
with thirty-four professionals of different categories and were analyzed with the support of content analysis. Results showed
that professionals have mechanically assimilated accreditation-related issues. Their practice lacks reflection and criticism.
Furthermore, the objective dimension of the accreditation process, that is, technical, procedural, and operational spheres were
privileged at the expense of subjective aspects, the latter being disregarded by the subjects. Results indicate the need for
awareness and training of the professionals involved in accreditation, given the complexity of this process, its influence on the
work of professionals of different categories, and the importance of that to ensure the quality of care.
Keywords: Quality management; quality of health care; accreditation; hospitals.
RESUMEN: Esta investigación objetivó conocer las percepciones de los profesionales de salud sobre el proceso de acreditación
hospitalaria. Se trata de estudio cualitativo realizado en un hospital de Belo Horizonte-MG-Brasil en 2009. Los datos fueron
recolectados a través de entrevista con 34 profesionales de diferentes categorías y analizados con el suporte del análisis de
contenido. Los resultados revelaron que los profesionales incorporan de modo mecánico las cuestiones referentes a la acreditación.
Así, se percibe ausencia de una práctica basada en la reflexión y en la crítica. Además, la dimensión objetiva del proceso de
acreditación, o sea, las esferas técnica, procesual y operacional fueron privilegiadas en detrimento de aspectos subjetivos, siendo
los últimos desconsiderados por los sujetos. La realización del estudio apunta para la necesidad de sensibilización y de capacitación
de los profesionales envueltos en la acreditación, considerando la complexidad de eso proceso y su influencia en el trabajo de
los profesionales de diferentes categorías y la importancia de que sea asegurada la calidad de la asistencia.
Palabras clave: Gestión de calidad; calidad de la asistencia a la salud; acreditación; hospitales.
Doutoranda em Enfermagem. Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Professora
Assistente da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas
Gerais, Brasil. E-mail: [email protected].
II
Mestranda em Enfermagem. Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista
em Políticas e Gestão da Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo
Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected].
III
Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas
Gerais. Vice-líder do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected].
IV
Doutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas
Gerais. Líder do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected].
V
Estudo extraído da dissertação: Acreditação hospitalar na perspectiva dos profissionais de saúde. Apresentado à Escola de Enfermagem da Universidade
Federal de Minas Gerais, 2009.
I
Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011
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Acreditação hospitalar para os profissionais
INTRODUÇÃO
Na perspectiva de alcançar reconhecimento so-
cial por meio de práticas com elevado padrão de qualidade e segurança, os gestores veem empregando nos
serviços de saúde, principalmente nos hospitais, iniciativas voltadas para a acreditaçãoV. No entanto, o
alcance da acreditação exige esforço dos gestores no
sentido de desenvolver em seus profissionais competências e habilidades diferenciadas, bem como mudança na cultura organizacional. A acreditação contribui para que ocorra mudança progressiva e planejada de hábitos1, uma vez sensibilizados quanto à importância do processo, os profissionais se engajam para
melhorar a qualidade dos serviços prestados.
Desse modo, os profissionais da saúde emergem
como o cerne da política de qualidade, tendo papel
essencial na garantia e na manutenção do processo2,
pois o diferencial das organizações está no âmbito
das pessoas. Uma estrutura adequada com tecnologias
inovadoras pode ter um pequeno significado se as
pessoas não se sentirem comprometidas com a qualidade, sobretudo no que se refere ao atendimento das
necessidades dos clientes3.
Apesar de se conhecer a importância da acreditação, como um sistema de avaliação da qualidade dos
serviços prestados, bem como a influência dos profissionais de saúde na manutenção desse processo2, são
escassas as referências do entendimento dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação, havendo
uma lacuna científica entre a exposição teórica do processo e a aplicação, pelos profissionais dessa prática em
saúde. Assim, este estudo teve como objetivo conhecer as percepções dos profissionais de saúde sobre o
processo de acreditação hospitalar. A partir dos resultados obtidos, espera-se contribuir com as reflexões
sobre o processo de acreditação, à luz das percepções
dos profissionais.
REFERENCIAL TEÓRICO
No curso da história, as organizações de saúde
têm enfrentado recorrentes e significativas mudanças
de paradigmas – seja no âmbito cultural, econômico
ou social. Atualmente, as práticas realizadas nos serviços de saúde passaram a ser consideradas produtos e,
assim, passíveis de exigência de qualidade e de serem
submetidas a avaliações. Com a expansão dos serviços
privados e a competitividade própria do mundo capitalista esta exigência tornou-se notória, com participação, também, do setor público, pois os cidadãos passaram a entender a qualidade como direito social4.
Assim, no sentido dessas organizações lograrem
êxito com as novas exigências impostas pelos ambientes externo e interno, impõe-se a elas a adoção de
um modelo de gestão voltado para a qualidade, por
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meio de instrumentos que permitam realizar a análise e a medição organizacional, propiciando melhoria
contínua5. A qualidade de um serviço pode ser definida como um conjunto de características para satisfazer necessidades explícitas ou implícitas6, ou seja, é
aquele que atende de forma confiável, acessível, segura e no tempo certo às necessidades do cliente7 e
também valorize seus colaboradores.
Vários estudos8-13 mostram que os programas de
acreditação são relevantes e impulsionam o desenvolvimento contínuo da qualidade dos serviços de
saúde. No Brasil, a Organização Nacional de
Acreditação (ONA), desde sua criação em 1999, é
responsável pelo Sistema Brasileiro de Acreditação.
Em estudo recente concluiu que a gestão da qualidade nos requisitos da ONA contribuiu para aumentar
a eficiência e eficácia financeira, organizar processos,
atender requisitos dos clientes, desenvolver e satisfazer os colaboradores, levando à melhoria dos resultados e qualidade hospitalar13.
O termo acreditação não consta no dicionário, as
palavras mais próximas são acreditado que é aquele que
“[...] tem crédito, que merece ou inspira confiança [...]”14:30
e acreditar que significa “[...] dar crédito a [...], conceder
reputação a [...]”14:30. Nesse sentido, acreditação hospitalar é um programa de avaliação dos recursos
institucionais, periódica, voluntária, racionalizada,
ordenadora e de educação continuada15. Pode ser entendida em duas dimensões: processo educacional dos
profissionais para alcançar uma cultura da qualidade e
processo de avaliação e certificação dos serviços10.
Para tanto, é estabelecido níveis para demonstrar o grau de qualificação da organização: nível 1
refere-se aos requisitos básicos da qualidade; nível 2
refere-se às evidências do planejamento na organização e nível 3 contempla as políticas de melhoria contínua nas estruturas hospitalares12. Essa classificação
é realizada por uma equipe de avaliadores que se baseiam em padrões preestabelecidos no Manual das
Organizações Prestadoras de Serviços de Saúde da
ONA, procurando identificar in loco evidências de
qualidade nas instituições em processo de avaliação5.
Porém, a qualidade em saúde envolve mais do
que um conjunto de técnicas e padrões, implica amplas ações sociais construídas a partir da história pessoal dos profissionais de saúde, embora estimuladas
institucionalmente16. O diferencial das organizações
está nas pessoas, por isso todo esforço de melhoria
deve começar por meio do enfoque dos profissionais2.
Devem ser estabelecidas metas para capacitar a força
de trabalho, no que tange ao desenvolvimento de
habilidades, formação de consciência responsável e
ética, buscando responder com excelência técnica e
relevância social às exigências requeridas para a assistência, aumentando a segurança dos pacientes3,9,
bem como a segurança dos colaboradores.
Recebido em: 18/08/2010 – Aprovado em: 18/02/2011
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O processo de melhoria da qualidade é dinâmico,
influenciando e influenciado em seu planejamento e
execução, o que possibilita contribuições, construções
e reconstruções que agregam valor e resignificam conceitos, aproximando e transformando cada vez mais as
ações dos serviços de saúde16. Porém, os profissionais
não atuarão com foco na qualidade, sem antes estiver
convencido da validade do programa e tiver o claro
conhecimento da sua ação, pois, “[...] quem conhece
se convence; quem se convence se compromete; e quem
se compromete age [...]”3:57. Nessa perspectiva, as ações
das pessoas são essenciais para se implementar uma
cultura com foco na qualidade, prevenção e melhoramento contínuo17.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de caso descritivo de natureza qualitativa. Os estudos qualitativos aplicamse ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, produtos das interpretações que os sujeitos sociais fazem
a respeito de como vivem, constroem seus artefatos,
sentem e pensam18. O estudo de caso visa investigar
fenômenos contemporâneos em seu contexto real,
sendo caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, para permitir conhecimento amplo e detalhado do mesmo19.
O estudo foi realizado em um hospital privado,
de médio porte de Belo Horizonte, inaugurado em
2004 na perspectiva de ser referência de qualidade no
atendimento para todos os hospitais da rede
conveniada. Em 2006 o hospital foi acreditado em
nível de excelência, atingindo êxito em todas as etapas do processo de acreditação. A escolha dos sujeitos da pesquisa foi realizada intencionalmente, utilizando como critérios de inclusão a participação do
profissional no processo de acreditação desde a primeira auditoria e que prestavam atendimento direto
e contínuo aos usuários nos setores de internação,
bloco cirúrgico e unidade de cuidados progressivos.
Esses setores foram criados desde a inauguração do
hospital e, portanto, participaram da primeira auditoria externa. Foram excluídos os profissionais com
menos de três anos na instituição, uma vez que não
vivenciaram o processo desde a primeira auditoria.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas com roteiro semiestruturado com 34 profissionais de saúde de diferentes categorias. Utilizou-se
o critério de saturação das informações para delimitar as entrevistas, o qual pressupõe
[...] a suspensão de inclusão de novos participantes
quando os dados obtidos passam a apresentar, na
avaliação do pesquisador, certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir
na coleta de dados [...]20:17.
Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011
Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M
Os dados coletados foram submetidos à análise
de conteúdo, buscando alcançar a interpretação mais
profunda do fenômeno, além de ultrapassar o alcance
meramente descritivo do conteúdo manifesto da
mensagem21. Nos resultados as entrevistas foram numeradas de acordo com a sequência em que ocorreram e com a sigla de acordo com categoria de trabalho: enfermeira (ENF), técnico de enfermagem (TE),
médico (MED) e fisioterapeuta (FIS).
Em relação aos aspectos éticos, o estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da UFMG, com o Parecer no 2567/08. Todos os profissionais participantes do estudo assinaram o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os princípios e valores da acreditação hospi-
talar, além de serem trabalhados na dimensão
operacional e técnica, precisam envolver aspectos
subjetivos, como valores individuais e sociais, crenças e relações interpessoais dos profissionais inseridos no processo2. Uma vez que os profissionais precisam internalizar e acreditar no que estão construindo e não apenas agirem mecanicamente. Nesse sentido, quando os sujeitos da pesquisa foram questionados sobre o que eles entendem por acreditação hospitalar, observou-se preocupação em expressar seus conhecimentos com definições prontas, conforme as
falas a seguir.
É um processo, uma ferramenta que o hospital utiliza para
estar certificando que o serviço que ele presta é de qualidade, tem garantia, tem todos aqueles níveis de segurança, os
processos, que está sempre buscando melhorar. (ENF4)
É um processo para ter uma qualidade, segurança,
melhorias, envolvimento da empresa, que dá ao cliente
uma garantia de um bom atendimento [...] (TE15)
É um processo que o hospital faz para conseguir uma
excelência [...] no atendimento ao paciente e aos envolvido, [...] os clientes, tanto internos como externos. (TE12)
Os discursos apresentados condizem com aspectos preconizados pela ONA, mas essas respostas padronizadas revelam ausência de reflexão por parte dos
profissionais que executam o processo. Corroborando essa observação, os profissionais descrevem como
foco do processo de acreditação apenas os clientes,
excluindo - os dos objetivos do processo de
acreditação.
O objetivo da acreditação é melhor assistência e melhorar para o cliente. (ENF7)
É tentar dar o melhor atendimento ao paciente, cada
vez mais. (TE7)
O foco da acreditação é oferecer um bom atendimento
para os clientes. (TE6)
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Acreditação hospitalar para os profissionais
Os profissionais parecem não perceber que eles
também são importantes no processo de acreditação e
melhoria da qualidade, e interligando a isso às respostas padronizadas sobre o que é acreditação, se observa
a dificuldade do profissional em incorporar todo o sentido do processo. Apesar disso, os profissionais reconhecem que a acreditação pode gerar qualificação para
si, além de um plus para a instituição. Sendo indiscutível, na contemporaneidade, a necessidade de busca da
qualidade da prestação de serviço para se manter no
mercado de trabalho extremamente competitivo22.
É bom para o profissional, [...] quem trabalha [...]
num hospital que tem a ONA é bom para o currículo,
[...] acho que isso é um ponto positivo [...] (TE5)
A acreditação seria uma forma de qualificação do hospital para poder, [...] atender as exigências do mercado
[...] (MED3)
O hospital passa a ser reconhecido, é o nome da empresa, se destaca e garante qualidade. (TE15)
A acreditação também é vista pelos profissionais como uma forma de avaliação, acompanhamento de indicadores e padronização. Tendo em vista a
preocupação do setor saúde em promover a melhoria
da assistência prestada à população, é necessário adotar um sistema de avaliação contínuo e sistematizado
para dinamizar progressivamente a qualidade dos serviços23. Tal situação é confirmada nos relatos abaixo.
Acreditação é um processo de auditoria que visa avaliar a qualidade de serviços prestados aos clientes de acordo com alguns critérios. (TE3)
Acreditação hospitalar é uma forma de instalar no hospital, um processo de trabalho que nós podemos acompanhar mensurar, progredir, comparar, melhorar. (ENF3)
Acreditação é uma maneira de melhoria, de controlar
os processos, adequar, tendo como objetivo final de melhorar a assistência através de indicadores [...] (ENF1)
A acreditação foi criada com a finalidade de certa padronização entre todos os hospitais com intuito de tentar
manter a melhor qualidade, de você poder comparar um
hospital com o outro, tendo alguns critérios. (MED4)
A qualidade supõe a definição de padrões referentes às dimensões da qualidade avaliada pelo usuário, pelo
profissional de saúde e pelos administradores e gerência
dos serviços de saúde24. Para tanto é necessário traduzir
conceitos e definições gerais, em critérios operacionais,
parâmetros e indicadores, validados e calibrados pelos
pilares da acreditação25, bem como criar indicadores para
a avaliação dos processos, pois permite monitorar e identificar os pontos para melhorias23.
Além dos aspectos levantados, os entrevistados acreditam que o processo de qualidade é uma forma de segurança tanto para os pacientes como para
os funcionários.
Acredito que o serviço acreditado oferece um serviço
seguro, de qualidade. (ENF2)
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[...] segurança de estar trabalhando em um lugar de
qualidade, que gerencia os processos, [...] tem a segurança de que não vai faltar equipamento, [...] não vai
faltar material. (TE7)
Assim, nota-se que parte dos entrevistados consegue visualizar o processo da acreditação na sua esfera técnica, processual e operacional, ainda que não
seja de forma integral. No entanto, poucos profissionais conseguem perceber que o sistema de qualidade
abrange também aspectos subjetivos importantes,
como valores individuais e sociais dos atores e das
instituições envolvidos nesse contexto. Além disso,
o reconhecido da humanização da assistência associado à acreditação foi mencionado por apenas dois
profissionais técnicos de enfermagem e foi associado
exclusivamente com o trabalho desempenhado pela
equipe de enfermagem, sem observarem que a prática
envolve todos os profissionais de saúde.
A acreditação leva uma enfermagem mais humanizada.
(TE14)
Acreditação hospitalar? Acredito que é um serviço mais
humanizado [...] Pensando mais no cliente e também
nos profissionais que trabalham. (TE5)
O fato da maioria dos profissionais não relacionarem a humanização como elemento indissociável
ao processo de acreditação26 mostra a necessidade de
ações educativas que contemplem, além dos aspectos
técnicos científicos, a inclusão de temas voltados para
o desenvolvimento integral dos profissionais, a
sensibilização para o problema do próximo,
humanização e ética no trabalho27,28. Assim, é possível desenvolver competências profissionais para
viabilizar a acreditação, pois o conhecimento trará
segurança para que os profissionais não se sintam
vulneráveis e pressionados no cotidiano
organizacional29, evitando percepções como as relatadas abaixo por alguns profissionais que percebem o
processo como uma forma de cobrança, passível de
punição pelo descumprimento das ordens.
Na verdade para a gente é mais uma cobrança [...] Nós
plantonistas não temos retorno [...], estou sendo sincera. É só cobrança mesmo, reunião, para todo mundo
falar bonitinho uma coisa que na verdade é meio mascarada. Na verdade a ONA para o hospital é ótimo, é
mais um nome, um valor, mas para gente não. É só uma
cobrança, [...] período de stress. Medo de responder
errado quando for auditado e se perde a ONA por sua
causa, vai ser mandado embora, e aí? (FIS1)
O processo, para os funcionários é muito estressante,
porque cobra muito. (TE5)
Às vezes as pessoas acham que a acreditação é como
um fardo a mais dentro da rotina do dia a dia, porque
não aumenta salário e é só cobrança [...] Na verdade,
a ONA vira uma coisa mais de peso do que para uma
coisa que você acredita que vamos fazer, para melhorar
no dia a dia! (MED4)
Recebido em: 18/08/2010 – Aprovado em: 18/02/2011
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Ainda, há um grupo de profissionais que entendem que o processo é uma forma de mascarar uma
situação diferente da realidade, como se a acreditação
fosse válida somente no período da auditoria.
Coisa básica como manter papeleta de prontuário arrumada, ou quarto, ou sala de reunião, nunca acontece,
mas na semana da ONA está perfeita! Eu questiono
um pouco a acreditação porque eu acho que é uma
coisa muito maquiada. (MED4)
Ah, eu acho que o processo de acreditação é muito
importante, muito válido, mas poderia ser buscada de
outra forma. Porque a gente tem muito aquilo de enfeitar a casa quando recebe visita [...] teria que ser uma
coisa constante. (ENF9)
Na hora da ONA é tudo mil maravilhas, mas só na
hora da ONA. (FIS1)
Tais achados sugerem pouca compreensão dos
colaboradores da instituição, incluindo profissionais
de forma geral e principalmente as lideranças, sobre
os verdadeiros objetivos da acreditação e falta de continuidade do processo após a realização das auditorias. Desta forma, percebe-se que a falta de apreensão
acerca da natureza contínua e processual da
acreditação pode resultar em posturas de resistência
à acreditação. Tal constatação traz à reflexão a observação de que a acreditação é uma “[...] filosofia de
vida antes de ser uma filosofia de ação [...]”3:57. Assim
é reforçada a ideia de que a liderança deve sensibilizar
e envolver todos os profissionais no processo de
acreditação, possibilitando uma prática ancorada na
reflexão e na crítica, num esforço coletivo e contínuo para a melhoria da qualidade assistencial.
CONCLUSÃO
A busca pela melhoria da qualidade dos serviços prestados é o caminho para as instituições que
lutam pela permanência no mercado competitivo e
que prezam pelo atendimento de excelência. Por isso,
os hospitais procuram novos modelos assistenciais e
outras formas de gestão, a fim de alcançarem resultados capazes de otimizar recursos, incrementar o cuidado humanizado, além de garantir a melhoria do
serviço oferecido. Nesse contexto, o programa de
acreditação hospitalar, quando implementado, surge
como uma possibilidade de promover mudanças e
melhoria da qualidade das instituições, pois traz mudanças de hábitos, de valores e de comportamentos,
impõe aos sujeitos envolvidos a ruptura do cuidado
mecanizado, bem como fomenta um ambiente
organizacional de excelência.
Este estudo buscou conhecer as percepções dos
profissionais de saúde sobre o processo de acreditação
hospitalar, pois para implementação, adesão e manutenção do processo de qualidade nos hospitais é imprescindível, antes de tudo, conhecer a percepção
Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011
Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M
daqueles sujeitos acerca da acreditação, pois são eles
que executam o processo. Um obstáculo enfrentado
na realização da pesquisa foi a escassez de literatura
sobre as questões subjetivas que permeiam o processo
de acreditação. Entretanto, os depoimentos dos sujeitos da pesquisa permitiram apreender as ideias e os
significados lançados sobre o referido processo, admitindo uma melhor visão do sistema de qualidade a
partir dos conhecimentos dos profissionais.
Conclui-se que os profissionais, independentemente da categoria, não apresentam homogeneidade
quanto ao entendimento, à aplicabilidade, à necessidade e à utilidade do processo, tampouco buscam refletir seus pontos positivos e negativos. Todavia, é inegável que, diante da novidade do processo, divergências existam e elas acabam contribuindo para o aperfeiçoamento, por fomentarem discussões dos profissionais sobre a busca pela melhoria da qualidade.
Também foi evidenciada a necessidade da
sensibilização dos colaboradores em relação aos objetivos e as propostas da acreditação, visando provocar
uma melhor assimilação dos princípios da ONA. Com
efeito, à medida que esses sujeitos não agregam a filosofia da acreditação na sua prática assistencial, provavelmente não existirá a continuidade do processo, nem
mesmo a prestação do cuidado com excelência. Espera-se, portanto, que a partir do maior conhecimento
sobre as percepções da acreditação hospitalar na visão
dos profissionais que a empregam, barreiras sejam rompidas, comportamentos se alterem e o agir se qualifique. Almeja-se que este estudo possa suscitar novas
pesquisas sobre o tema, além de provocar nos profissionais de saúde e nos dirigentes motivação e compromisso para promoverem as mudanças necessárias à
melhor prestação da assistência em saúde.
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Recebido em: 18/08/2010 – Aprovado em: 18/02/2011
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10 571 6 95 11 As percepções dos profissionais.pmd