Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación AS PERCEPÇÕES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE SOBRE O PROCESSO DE ACREDITAÇÃO HOSPITALAR PERCEPTIONS OF HEALTH PROFESSIONALS ON THE PROCESS OF HOSPITAL ACCREDITATION LAS PERCEPCIONES DE LOS PROFESIONALES DE SALUD SOBRE EL PROCESO DE ACREDITACIÓN HOSPITALARIA Bruna Figueiredo ManzoI Helen Cristiny Teodoro Couto RibeiroII Maria José Menezes BritoIII Marília AlvesIV RESUMO: Esta pesquisa objetivou conhecer as percepções dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação hospitalar. Trata-se de estudo qualitativo realizado em um hospital de Belo Horizonte, em 2009. Os dados foram coletados por meio de entrevista com 34 profissionais de diferentes categorias e analisados com o suporte da análise de conteúdo. Os resultados mostraram que os profissionais têm assimilado de forma mecânica as questões referentes à acreditação. Assim, pecebe-se ausência de uma prática ancorada na reflexão e na crítica. Ademais, a dimensão objetiva do processo de acreditação, ou seja, as esferas técnica, processual e operacional foram privilegiadas em detrimento de aspectos subjetivos, sendo os últimos desconsiderados pelos sujeitos. A realização do estudo aponta a necessidade de sensibilização e de capacitação dos profissionais envolvidos na acreditação, considerando a complexidade desse processo e sua influência no trabalho dos profissionais das diferentes categorias e a importância de que seja assegurada a qualidade da assistência. Palavras-chave: Gestão da qualidade; qualidade da assistência à saúde; acreditação; hospitais. ABSTRACT ABSTRACT:: This research aims at assessing the perceptions of health professionals on the process of hospital accreditation. It is a qualitative study conducted in a hospital in Belo Horizonte, MG, Brazil, in 2009. Data were collected through interviews with thirty-four professionals of different categories and were analyzed with the support of content analysis. Results showed that professionals have mechanically assimilated accreditation-related issues. Their practice lacks reflection and criticism. Furthermore, the objective dimension of the accreditation process, that is, technical, procedural, and operational spheres were privileged at the expense of subjective aspects, the latter being disregarded by the subjects. Results indicate the need for awareness and training of the professionals involved in accreditation, given the complexity of this process, its influence on the work of professionals of different categories, and the importance of that to ensure the quality of care. Keywords: Quality management; quality of health care; accreditation; hospitals. RESUMEN: Esta investigación objetivó conocer las percepciones de los profesionales de salud sobre el proceso de acreditación hospitalaria. Se trata de estudio cualitativo realizado en un hospital de Belo Horizonte-MG-Brasil en 2009. Los datos fueron recolectados a través de entrevista con 34 profesionales de diferentes categorías y analizados con el suporte del análisis de contenido. Los resultados revelaron que los profesionales incorporan de modo mecánico las cuestiones referentes a la acreditación. Así, se percibe ausencia de una práctica basada en la reflexión y en la crítica. Además, la dimensión objetiva del proceso de acreditación, o sea, las esferas técnica, procesual y operacional fueron privilegiadas en detrimento de aspectos subjetivos, siendo los últimos desconsiderados por los sujetos. La realización del estudio apunta para la necesidad de sensibilización y de capacitación de los profesionales envueltos en la acreditación, considerando la complexidad de eso proceso y su influencia en el trabajo de los profesionales de diferentes categorías y la importancia de que sea asegurada la calidad de la asistencia. Palabras clave: Gestión de calidad; calidad de la asistencia a la salud; acreditación; hospitales. Doutoranda em Enfermagem. Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Assistente da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. II Mestranda em Enfermagem. Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Políticas e Gestão da Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. III Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Vice-líder do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. IV Doutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Líder do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. V Estudo extraído da dissertação: Acreditação hospitalar na perspectiva dos profissionais de saúde. Apresentado à Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, 2009. I Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 out/dez; 19(4):571-6. • p.571 Acreditação hospitalar para os profissionais INTRODUÇÃO Na perspectiva de alcançar reconhecimento so- cial por meio de práticas com elevado padrão de qualidade e segurança, os gestores veem empregando nos serviços de saúde, principalmente nos hospitais, iniciativas voltadas para a acreditaçãoV. No entanto, o alcance da acreditação exige esforço dos gestores no sentido de desenvolver em seus profissionais competências e habilidades diferenciadas, bem como mudança na cultura organizacional. A acreditação contribui para que ocorra mudança progressiva e planejada de hábitos1, uma vez sensibilizados quanto à importância do processo, os profissionais se engajam para melhorar a qualidade dos serviços prestados. Desse modo, os profissionais da saúde emergem como o cerne da política de qualidade, tendo papel essencial na garantia e na manutenção do processo2, pois o diferencial das organizações está no âmbito das pessoas. Uma estrutura adequada com tecnologias inovadoras pode ter um pequeno significado se as pessoas não se sentirem comprometidas com a qualidade, sobretudo no que se refere ao atendimento das necessidades dos clientes3. Apesar de se conhecer a importância da acreditação, como um sistema de avaliação da qualidade dos serviços prestados, bem como a influência dos profissionais de saúde na manutenção desse processo2, são escassas as referências do entendimento dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação, havendo uma lacuna científica entre a exposição teórica do processo e a aplicação, pelos profissionais dessa prática em saúde. Assim, este estudo teve como objetivo conhecer as percepções dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação hospitalar. A partir dos resultados obtidos, espera-se contribuir com as reflexões sobre o processo de acreditação, à luz das percepções dos profissionais. REFERENCIAL TEÓRICO No curso da história, as organizações de saúde têm enfrentado recorrentes e significativas mudanças de paradigmas – seja no âmbito cultural, econômico ou social. Atualmente, as práticas realizadas nos serviços de saúde passaram a ser consideradas produtos e, assim, passíveis de exigência de qualidade e de serem submetidas a avaliações. Com a expansão dos serviços privados e a competitividade própria do mundo capitalista esta exigência tornou-se notória, com participação, também, do setor público, pois os cidadãos passaram a entender a qualidade como direito social4. Assim, no sentido dessas organizações lograrem êxito com as novas exigências impostas pelos ambientes externo e interno, impõe-se a elas a adoção de um modelo de gestão voltado para a qualidade, por p.572 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 out/dez; 19(4):571-6. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación meio de instrumentos que permitam realizar a análise e a medição organizacional, propiciando melhoria contínua5. A qualidade de um serviço pode ser definida como um conjunto de características para satisfazer necessidades explícitas ou implícitas6, ou seja, é aquele que atende de forma confiável, acessível, segura e no tempo certo às necessidades do cliente7 e também valorize seus colaboradores. Vários estudos8-13 mostram que os programas de acreditação são relevantes e impulsionam o desenvolvimento contínuo da qualidade dos serviços de saúde. No Brasil, a Organização Nacional de Acreditação (ONA), desde sua criação em 1999, é responsável pelo Sistema Brasileiro de Acreditação. Em estudo recente concluiu que a gestão da qualidade nos requisitos da ONA contribuiu para aumentar a eficiência e eficácia financeira, organizar processos, atender requisitos dos clientes, desenvolver e satisfazer os colaboradores, levando à melhoria dos resultados e qualidade hospitalar13. O termo acreditação não consta no dicionário, as palavras mais próximas são acreditado que é aquele que “[...] tem crédito, que merece ou inspira confiança [...]”14:30 e acreditar que significa “[...] dar crédito a [...], conceder reputação a [...]”14:30. Nesse sentido, acreditação hospitalar é um programa de avaliação dos recursos institucionais, periódica, voluntária, racionalizada, ordenadora e de educação continuada15. Pode ser entendida em duas dimensões: processo educacional dos profissionais para alcançar uma cultura da qualidade e processo de avaliação e certificação dos serviços10. Para tanto, é estabelecido níveis para demonstrar o grau de qualificação da organização: nível 1 refere-se aos requisitos básicos da qualidade; nível 2 refere-se às evidências do planejamento na organização e nível 3 contempla as políticas de melhoria contínua nas estruturas hospitalares12. Essa classificação é realizada por uma equipe de avaliadores que se baseiam em padrões preestabelecidos no Manual das Organizações Prestadoras de Serviços de Saúde da ONA, procurando identificar in loco evidências de qualidade nas instituições em processo de avaliação5. Porém, a qualidade em saúde envolve mais do que um conjunto de técnicas e padrões, implica amplas ações sociais construídas a partir da história pessoal dos profissionais de saúde, embora estimuladas institucionalmente16. O diferencial das organizações está nas pessoas, por isso todo esforço de melhoria deve começar por meio do enfoque dos profissionais2. Devem ser estabelecidas metas para capacitar a força de trabalho, no que tange ao desenvolvimento de habilidades, formação de consciência responsável e ética, buscando responder com excelência técnica e relevância social às exigências requeridas para a assistência, aumentando a segurança dos pacientes3,9, bem como a segurança dos colaboradores. Recebido em: 18/08/2010 – Aprovado em: 18/02/2011 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación O processo de melhoria da qualidade é dinâmico, influenciando e influenciado em seu planejamento e execução, o que possibilita contribuições, construções e reconstruções que agregam valor e resignificam conceitos, aproximando e transformando cada vez mais as ações dos serviços de saúde16. Porém, os profissionais não atuarão com foco na qualidade, sem antes estiver convencido da validade do programa e tiver o claro conhecimento da sua ação, pois, “[...] quem conhece se convence; quem se convence se compromete; e quem se compromete age [...]”3:57. Nessa perspectiva, as ações das pessoas são essenciais para se implementar uma cultura com foco na qualidade, prevenção e melhoramento contínuo17. METODOLOGIA Trata-se de um estudo de caso descritivo de natureza qualitativa. Os estudos qualitativos aplicamse ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, produtos das interpretações que os sujeitos sociais fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos, sentem e pensam18. O estudo de caso visa investigar fenômenos contemporâneos em seu contexto real, sendo caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, para permitir conhecimento amplo e detalhado do mesmo19. O estudo foi realizado em um hospital privado, de médio porte de Belo Horizonte, inaugurado em 2004 na perspectiva de ser referência de qualidade no atendimento para todos os hospitais da rede conveniada. Em 2006 o hospital foi acreditado em nível de excelência, atingindo êxito em todas as etapas do processo de acreditação. A escolha dos sujeitos da pesquisa foi realizada intencionalmente, utilizando como critérios de inclusão a participação do profissional no processo de acreditação desde a primeira auditoria e que prestavam atendimento direto e contínuo aos usuários nos setores de internação, bloco cirúrgico e unidade de cuidados progressivos. Esses setores foram criados desde a inauguração do hospital e, portanto, participaram da primeira auditoria externa. Foram excluídos os profissionais com menos de três anos na instituição, uma vez que não vivenciaram o processo desde a primeira auditoria. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas com roteiro semiestruturado com 34 profissionais de saúde de diferentes categorias. Utilizou-se o critério de saturação das informações para delimitar as entrevistas, o qual pressupõe [...] a suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados [...]20:17. Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011 Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M Os dados coletados foram submetidos à análise de conteúdo, buscando alcançar a interpretação mais profunda do fenômeno, além de ultrapassar o alcance meramente descritivo do conteúdo manifesto da mensagem21. Nos resultados as entrevistas foram numeradas de acordo com a sequência em que ocorreram e com a sigla de acordo com categoria de trabalho: enfermeira (ENF), técnico de enfermagem (TE), médico (MED) e fisioterapeuta (FIS). Em relação aos aspectos éticos, o estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, com o Parecer no 2567/08. Todos os profissionais participantes do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os princípios e valores da acreditação hospi- talar, além de serem trabalhados na dimensão operacional e técnica, precisam envolver aspectos subjetivos, como valores individuais e sociais, crenças e relações interpessoais dos profissionais inseridos no processo2. Uma vez que os profissionais precisam internalizar e acreditar no que estão construindo e não apenas agirem mecanicamente. Nesse sentido, quando os sujeitos da pesquisa foram questionados sobre o que eles entendem por acreditação hospitalar, observou-se preocupação em expressar seus conhecimentos com definições prontas, conforme as falas a seguir. É um processo, uma ferramenta que o hospital utiliza para estar certificando que o serviço que ele presta é de qualidade, tem garantia, tem todos aqueles níveis de segurança, os processos, que está sempre buscando melhorar. (ENF4) É um processo para ter uma qualidade, segurança, melhorias, envolvimento da empresa, que dá ao cliente uma garantia de um bom atendimento [...] (TE15) É um processo que o hospital faz para conseguir uma excelência [...] no atendimento ao paciente e aos envolvido, [...] os clientes, tanto internos como externos. (TE12) Os discursos apresentados condizem com aspectos preconizados pela ONA, mas essas respostas padronizadas revelam ausência de reflexão por parte dos profissionais que executam o processo. Corroborando essa observação, os profissionais descrevem como foco do processo de acreditação apenas os clientes, excluindo - os dos objetivos do processo de acreditação. O objetivo da acreditação é melhor assistência e melhorar para o cliente. (ENF7) É tentar dar o melhor atendimento ao paciente, cada vez mais. (TE7) O foco da acreditação é oferecer um bom atendimento para os clientes. (TE6) Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 out/dez; 19(4):571-6. • p.573 Acreditação hospitalar para os profissionais Os profissionais parecem não perceber que eles também são importantes no processo de acreditação e melhoria da qualidade, e interligando a isso às respostas padronizadas sobre o que é acreditação, se observa a dificuldade do profissional em incorporar todo o sentido do processo. Apesar disso, os profissionais reconhecem que a acreditação pode gerar qualificação para si, além de um plus para a instituição. Sendo indiscutível, na contemporaneidade, a necessidade de busca da qualidade da prestação de serviço para se manter no mercado de trabalho extremamente competitivo22. É bom para o profissional, [...] quem trabalha [...] num hospital que tem a ONA é bom para o currículo, [...] acho que isso é um ponto positivo [...] (TE5) A acreditação seria uma forma de qualificação do hospital para poder, [...] atender as exigências do mercado [...] (MED3) O hospital passa a ser reconhecido, é o nome da empresa, se destaca e garante qualidade. (TE15) A acreditação também é vista pelos profissionais como uma forma de avaliação, acompanhamento de indicadores e padronização. Tendo em vista a preocupação do setor saúde em promover a melhoria da assistência prestada à população, é necessário adotar um sistema de avaliação contínuo e sistematizado para dinamizar progressivamente a qualidade dos serviços23. Tal situação é confirmada nos relatos abaixo. Acreditação é um processo de auditoria que visa avaliar a qualidade de serviços prestados aos clientes de acordo com alguns critérios. (TE3) Acreditação hospitalar é uma forma de instalar no hospital, um processo de trabalho que nós podemos acompanhar mensurar, progredir, comparar, melhorar. (ENF3) Acreditação é uma maneira de melhoria, de controlar os processos, adequar, tendo como objetivo final de melhorar a assistência através de indicadores [...] (ENF1) A acreditação foi criada com a finalidade de certa padronização entre todos os hospitais com intuito de tentar manter a melhor qualidade, de você poder comparar um hospital com o outro, tendo alguns critérios. (MED4) A qualidade supõe a definição de padrões referentes às dimensões da qualidade avaliada pelo usuário, pelo profissional de saúde e pelos administradores e gerência dos serviços de saúde24. Para tanto é necessário traduzir conceitos e definições gerais, em critérios operacionais, parâmetros e indicadores, validados e calibrados pelos pilares da acreditação25, bem como criar indicadores para a avaliação dos processos, pois permite monitorar e identificar os pontos para melhorias23. Além dos aspectos levantados, os entrevistados acreditam que o processo de qualidade é uma forma de segurança tanto para os pacientes como para os funcionários. Acredito que o serviço acreditado oferece um serviço seguro, de qualidade. (ENF2) p.574 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 out/dez; 19(4):571-6. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación [...] segurança de estar trabalhando em um lugar de qualidade, que gerencia os processos, [...] tem a segurança de que não vai faltar equipamento, [...] não vai faltar material. (TE7) Assim, nota-se que parte dos entrevistados consegue visualizar o processo da acreditação na sua esfera técnica, processual e operacional, ainda que não seja de forma integral. No entanto, poucos profissionais conseguem perceber que o sistema de qualidade abrange também aspectos subjetivos importantes, como valores individuais e sociais dos atores e das instituições envolvidos nesse contexto. Além disso, o reconhecido da humanização da assistência associado à acreditação foi mencionado por apenas dois profissionais técnicos de enfermagem e foi associado exclusivamente com o trabalho desempenhado pela equipe de enfermagem, sem observarem que a prática envolve todos os profissionais de saúde. A acreditação leva uma enfermagem mais humanizada. (TE14) Acreditação hospitalar? Acredito que é um serviço mais humanizado [...] Pensando mais no cliente e também nos profissionais que trabalham. (TE5) O fato da maioria dos profissionais não relacionarem a humanização como elemento indissociável ao processo de acreditação26 mostra a necessidade de ações educativas que contemplem, além dos aspectos técnicos científicos, a inclusão de temas voltados para o desenvolvimento integral dos profissionais, a sensibilização para o problema do próximo, humanização e ética no trabalho27,28. Assim, é possível desenvolver competências profissionais para viabilizar a acreditação, pois o conhecimento trará segurança para que os profissionais não se sintam vulneráveis e pressionados no cotidiano organizacional29, evitando percepções como as relatadas abaixo por alguns profissionais que percebem o processo como uma forma de cobrança, passível de punição pelo descumprimento das ordens. Na verdade para a gente é mais uma cobrança [...] Nós plantonistas não temos retorno [...], estou sendo sincera. É só cobrança mesmo, reunião, para todo mundo falar bonitinho uma coisa que na verdade é meio mascarada. Na verdade a ONA para o hospital é ótimo, é mais um nome, um valor, mas para gente não. É só uma cobrança, [...] período de stress. Medo de responder errado quando for auditado e se perde a ONA por sua causa, vai ser mandado embora, e aí? (FIS1) O processo, para os funcionários é muito estressante, porque cobra muito. (TE5) Às vezes as pessoas acham que a acreditação é como um fardo a mais dentro da rotina do dia a dia, porque não aumenta salário e é só cobrança [...] Na verdade, a ONA vira uma coisa mais de peso do que para uma coisa que você acredita que vamos fazer, para melhorar no dia a dia! (MED4) Recebido em: 18/08/2010 – Aprovado em: 18/02/2011 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Ainda, há um grupo de profissionais que entendem que o processo é uma forma de mascarar uma situação diferente da realidade, como se a acreditação fosse válida somente no período da auditoria. Coisa básica como manter papeleta de prontuário arrumada, ou quarto, ou sala de reunião, nunca acontece, mas na semana da ONA está perfeita! Eu questiono um pouco a acreditação porque eu acho que é uma coisa muito maquiada. (MED4) Ah, eu acho que o processo de acreditação é muito importante, muito válido, mas poderia ser buscada de outra forma. Porque a gente tem muito aquilo de enfeitar a casa quando recebe visita [...] teria que ser uma coisa constante. (ENF9) Na hora da ONA é tudo mil maravilhas, mas só na hora da ONA. (FIS1) Tais achados sugerem pouca compreensão dos colaboradores da instituição, incluindo profissionais de forma geral e principalmente as lideranças, sobre os verdadeiros objetivos da acreditação e falta de continuidade do processo após a realização das auditorias. Desta forma, percebe-se que a falta de apreensão acerca da natureza contínua e processual da acreditação pode resultar em posturas de resistência à acreditação. Tal constatação traz à reflexão a observação de que a acreditação é uma “[...] filosofia de vida antes de ser uma filosofia de ação [...]”3:57. Assim é reforçada a ideia de que a liderança deve sensibilizar e envolver todos os profissionais no processo de acreditação, possibilitando uma prática ancorada na reflexão e na crítica, num esforço coletivo e contínuo para a melhoria da qualidade assistencial. CONCLUSÃO A busca pela melhoria da qualidade dos serviços prestados é o caminho para as instituições que lutam pela permanência no mercado competitivo e que prezam pelo atendimento de excelência. Por isso, os hospitais procuram novos modelos assistenciais e outras formas de gestão, a fim de alcançarem resultados capazes de otimizar recursos, incrementar o cuidado humanizado, além de garantir a melhoria do serviço oferecido. Nesse contexto, o programa de acreditação hospitalar, quando implementado, surge como uma possibilidade de promover mudanças e melhoria da qualidade das instituições, pois traz mudanças de hábitos, de valores e de comportamentos, impõe aos sujeitos envolvidos a ruptura do cuidado mecanizado, bem como fomenta um ambiente organizacional de excelência. Este estudo buscou conhecer as percepções dos profissionais de saúde sobre o processo de acreditação hospitalar, pois para implementação, adesão e manutenção do processo de qualidade nos hospitais é imprescindível, antes de tudo, conhecer a percepção Recebido em: 10.03.2011 – Aprovado em: 07.09.2011 Manzo BF, Ribeiro HCTC, Brito MJM, Alves M daqueles sujeitos acerca da acreditação, pois são eles que executam o processo. Um obstáculo enfrentado na realização da pesquisa foi a escassez de literatura sobre as questões subjetivas que permeiam o processo de acreditação. Entretanto, os depoimentos dos sujeitos da pesquisa permitiram apreender as ideias e os significados lançados sobre o referido processo, admitindo uma melhor visão do sistema de qualidade a partir dos conhecimentos dos profissionais. Conclui-se que os profissionais, independentemente da categoria, não apresentam homogeneidade quanto ao entendimento, à aplicabilidade, à necessidade e à utilidade do processo, tampouco buscam refletir seus pontos positivos e negativos. Todavia, é inegável que, diante da novidade do processo, divergências existam e elas acabam contribuindo para o aperfeiçoamento, por fomentarem discussões dos profissionais sobre a busca pela melhoria da qualidade. Também foi evidenciada a necessidade da sensibilização dos colaboradores em relação aos objetivos e as propostas da acreditação, visando provocar uma melhor assimilação dos princípios da ONA. Com efeito, à medida que esses sujeitos não agregam a filosofia da acreditação na sua prática assistencial, provavelmente não existirá a continuidade do processo, nem mesmo a prestação do cuidado com excelência. Espera-se, portanto, que a partir do maior conhecimento sobre as percepções da acreditação hospitalar na visão dos profissionais que a empregam, barreiras sejam rompidas, comportamentos se alterem e o agir se qualifique. Almeja-se que este estudo possa suscitar novas pesquisas sobre o tema, além de provocar nos profissionais de saúde e nos dirigentes motivação e compromisso para promoverem as mudanças necessárias à melhor prestação da assistência em saúde. REFERÊNCIAS 1. Novaes H, Bueno H. Acreditação de hospitais no Brasil. Brasília med. 1998; 35:93-8. 2. Manzo BF. O processo de acreditação hospitalar na perspectiva de profissionais de saúde [dissertação de mestrado]. Belo Horizonte (MG): Universidade Federal de Minas Gerais; 2009. 3. Mezomo JC. Gestão da qualidade na saúde: princípios básicos. São Paulo: Loyola; 2001. 4. Morais AS, Braga AT, Nicole AG, Tronchin DMR, Melleiro MM. Qualidade e avaliação em saúde: publicações em periódicos de enfermagem nas ultimas décadas. 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