XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 25 GESTÃO PEDAGÓGICA E FORMAÇÃO CONTINUADA EM SERVIÇO Tania Maria Rodrigues Lope Maria Nahir Batista Ferreira Francisca Giovana Lucena De Pontes França RESUMO Este trabalho objetiva analisar questões essenciais sobre as políticas no campo da formação dos profissionais da educação, particularmente a gestão escolar. A experiência apoiada pelo MEC/SEB objetivou especializar gestores pedagógicos com foco na melhoria da qualidade do ensino, formação docente e desempenho discente. A pesquisa de natureza qualitativa teve como base a análise de documentos oficiais (leis, pareceres, decretos) e do Programa Nacional Escola de Gestores, bem como aplicação de instrumento quantitativo de coleta de dados e entrevistas semi-estruturada, com professores da turma do pólo UAB/UFC da cidade de Juazeiro do Norte. A discussão teórica foi fortalecida pelas contribuições de estudos e pesquisas desenvolvidos por Albuquerque, 2005; Alarcão, 2003; Ghedin, 2007; Libâneo, 2001; Rangel, 2000; Zanardini, 2006, dentre outros. Constatou-se pelo levantamento de dados que as formações direcionadas ao segmento foram de curta duração na modalidade aperfeiçoamento ou extensão, sendo esta Especialização experiência pioneira. Outros achados importantes foram destacados pelos coordenadores: defendem que a formação continuada ocorra num processo articulado fora e dentro da escola; a formação continuada realizada na escola ou em outro local precisa assegurar algumas condições, especialmente no campo da valorização do trabalho docente; o saber da experiência seja valorizado possibilitando o diálogo entre teoria e prática; assim como a criação de situações que analisem e critiquem as práticas do trabalho pedagógico, reflitam a partir delas, dialogue com base nos novos fundamentos teóricos e possam introduzir e produzir alterações significativas em suas ações, sobretudo que possam reverter satisfação e desenvolvimento profissional. As condições de trabalho e relações receberam destaque devido a falta de clareza sobre as especificidades e delimitações da função produzindo desencontros e gerando um clima escolar instável e de pouca confiança. PALAVRAS-CHAVE: gestão pedagógica, formação continuada, especialização em coordenação pedagógica 1. Breves considerações sobre o tema Este trabalho objetiva analisar questões essenciais sobre as políticas no campo da formação dos profissionais da educação, particularmente a gestão escolar, como questão que está relativamente bem encaminhada em termos de profissionalização, muito embora ainda se reproduzam lacunas no trabalho pedagógico das escolas pela carência do gestor pedagógico ou porque este não tem domínio no campo teórico-metodológico sobre a função. A experiência que será objeto de análise Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003642 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 26 no texto, de certa maneira incipiente, já repercute no universo escolar, pois alterou as relações e práticas no cotidiano dos sujeitos. A experiência de especializar gestores pedagógicos com foco na melhoria da qualidade do ensino, formação docente e desempenho discente são pioneiros no cenário acadêmico, no entanto, as recentes medidas de políticas educacionais centralizadas na valorização e formação dos profissionais da educação reservaram espaço privilegiado para a qualificação deste segmento. Na direção de qualificar e, consequentemente, produzir melhorias nas condições de trabalho da gestão pedagógica e resultados das escolas, o Ministério da Educação – MEC, por meio da Secretaria de Educação Básica – SEB, criou o Programa Escola de Gestores para: Fazer parte das ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e surgiu da necessidade de se construir processos de gestão escolar compatíveis com a proposta e a concepção da qualidade social da educação, baseada nos princípios da moderna administração pública e de modelos avançados de gerenciamento de instituições públicas de ensino, buscando assim, qualificar os gestores das escolas da educação básica pública, a partir do oferecimento de cursos de formação a distância (acesso em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1 2337&Itemid=693). O Programa Nacional Escola de Gestores da Educação Básica Pública é constituído por ações articuladas para fortalecer os sistemas de ensino e as escolas, na perspectiva da melhoria da Educação Básica e do reconhecimento da escola pública brasileira como força mobilizadora do desenvolvimento econômico e social. Ressalta-se que a formação continuada em serviço para os gestores foi uma prática implantada na década de 90, consolidada na primeira década do século XXI, porém sem visibilidade para formações específicas e direcionadas aos gestores Pedagógicos. Constatou-se, no entanto, que as políticas no campo da educação a partir de meados da referida década, impôs ao profissional pedagogo / coordenador uma participação efetiva nos processos de gestão da escola, especificamente em função das questões que envolvem o ensino, a aprendizagem, a avaliação e desempenho. Diante desse novo contexto, ampliou-se a demanda por formação específica para esse campo profissional. Neste sentido, a formação estruturada pela SEB/MEC tem como base estudo de temas como política educacional, gestão democrática, cultura e currículo, processos de ensino-aprendizagem, processos comunicacionais, planejamento e avaliação que se articulam na discussão sobre a Organização do Trabalho Pedagógico, Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003643 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 27 focos da intervenção do Coordenador Pedagógico, enquanto integrante da equipe gestora da escola, com base nos seguintes objetivos: Formar, em nível de especialização (lato sensu), gestores educacionais efetivos das escolas públicas da educação básica, incluídos aqueles de educação de jovens e adultos, de educação especial e de educação profissional. Contribuir com a qualificação do gestor escolar na perspectiva da gestão democrática e da efetivação do direito à educação escolar com qualidade social (MEC/SEB, 2009). As velhas e novas necessidades no cotidiano escolar impulsionaram caráter diferenciado a essa profissão, cuja essencialidade nas instituições escolares, nos últimos anos, tornou-se preponderante em razão do aprofundamento da crise que absorve a escola. Idas e vindas, alterações de nomenclatura e dificuldades na criação de uma identidade profissional são marcas resultantes do embate entre o coordenador pedagógico e os demais profissionais na escola, pois na visão de Rangel Co-ordenar é organizar em comum, é prever e prover momentos de integração do trabalho entre as diversas disciplinas, numa mesma série, e na mesma disciplina, em todas as séries. [...] implica criar e estimular oportunidade de organização comum e de integração do trabalho em todas as suas etapas (2000, p. 76). As implicações e desafios que permeiam as ações desenvolvidas pelo coordenador pedagógico são inúmeros, especialmente pela relação de reciprocidade envolvendo os demais sujeitos da escola: professores, alunos, pais e gestores, quando se percebem responsáveis pela implantação, monitoramento e validação da prática, teoria e normas, numa perspectiva de promover reflexão sobre a ação (organização em comum) de oportunidades de estudos e partilhas necessárias ao desenvolvimento de todos. 2. As políticas de formação e a formação de gestores Constituídas por sujeitos concretos, as políticas públicas são resultados de um processo histórico em que são refletidas as forças políticas, o jogo de poder e a luta entre as classes. Portanto, não podem ser resumidas a um conjunto de idéias ou a interesses de setores específicos, são propostas amplas que visam implementar um conjunto de reformas necessárias à manutenção de um determinado modelo social, político e econômico (ZANARDINI, 2006). Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003644 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 28 A partir da década de 1990, as políticas no campo educacional desencadearam várias reformas, destacando-se na dimensão da gestão escolar, como uma das ações para dar visibilidade e consolidação às reformas implementadas na Educação Básica. A escola planejada para atender ao modelo de desenvolvimento do Estado foi apresentada sob o slogan Todos pela Educação de Qualidade para Todos, organizado em torno de três grandes eixos: Todos pela Educação, Educação de Qualidade, Educação para Todos, explicitado no Plano de Desenvolvimento Sustentável (Ceará, 1995; ALBUQUERQUE, 2005), tendo na formação dos profissionais a ‘pedra de toque’. O resultado destas políticas caminhou na direção da produção do conhecimento como instrumento de desenvolvimento humano. Assim, a escola vai se consolidando como centro de atenções da sociedade, pois é legítimo o reconhecimento de que a educação na sociedade globalizada se constitui valor estratégico para o desenvolvimento social, bem como condição imprescindível para a busca e consolidação da qualidade de vida das pessoas. Nessa perspectiva, afirma Ghedin: A escola continua tendo um papel importante, um significado histórico-social na direção de fazer com que as crianças e os jovens não apenas se apropriem do conhecimento, mas que sejam capazes de produzir o conhecimento e ter condições de proceder uma análise crítica da sociedade em que estão inseridos (2007, p. 48). Dessa forma, pensar a escola implica essencialmente (RE) pensar o processo de formação dos profissionais no cenário destas políticas, que falam da ressignificação da escola, do trabalho e valorização dos seus sujeitos. Assim, falar de formação significa enfatizar a importância do trabalho, das relações, do ser profissional, quais sentidos e significados permeiam o trabalho de quem ‘co-ordena’ o cotidiano pedagógico do conjunto escolar. A qualificação do trabalho desenvolvido na escola, expressa nos documentos oficiais como meta fundamental, transformou-se em elemento orientador da formação dos gestores, haja vista que “promover a formação continuada dos gestores educacionais poderá assegurar competências de liderança e gerência, em termos de conhecimentos, habilidades e atitudes específicas, no âmbito central, regional e escolar” (CEARÁ, SEDUC, 2004). Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003645 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 29 A formação dos profissionais, especialmente dos gestores e professores, tornou-se uma exigência dos novos tempos, considerando que estes são responsáveis pela formação em todas as áreas de ocupação. A formação para a função criou algumas tensões entre as habilidades técnicas e a dimensão política, pois integram e articulam uma nova prática de desenvolvimento profissional. 3. O programa escola de gestores e a especialização de coordenadores pedagógicos As discussões que mobilizaram o País durante a elaboração da Constituição de 1988, definiram no Art. 206, a gestão democrática da escola e dos sistemas como um dos princípios constitucionais do ensino público. Assim, no Art. 205, a definição de educação como um direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Nº. 9.394/96, confirmando esse princípio no Art. 3º, reconhecendo o princípio federativo, repassou aos sistemas de ensino a definição das normas da gestão democrática do ensino, gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino (BRASIL, 1996). A gestão democrática expressa um movimento recente de renovação educacional no Brasil, em contraposição à concepção centralizadora e burocrática vigente. Entre as ações desse movimento destacam-se a implantação dos conselhos ou colegiados escolares, concurso de provas/títulos e eleição direta de gestores, a elaboração do Projeto Pedagógico, a existência de agremiações, assembléias, reuniões coletivas de trabalho, entre outros, apontando novas formas de organização e administração das escolas e do sistema. O artigo 14 desta Lei explicita diretamente os dois princípios que passaram a nortear a ação da gestão escolar, através dos incisos I e II do art. 14, respectivamente: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003646 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 30 equivalentes (BRASIL, 1996). Essas mudanças trouxeram novas exigências e desafios aos gestores, particularmente aos coordenadores pedagógicos. Apropriar-se dos fundamentos da estrutura, organização e gestão do sistema educacional e das escolas tornou-se necessária aos gestores. Estas necessidades sinalizaram demandas de formação teórico-metodológicas na perspectiva de que as concepções da profissionalização os tornassem capazes de analisar a própria prática e, assim, apreendessem e desenvolvessem ideias, saberes e experiências em situações de trabalho, particularmente nas dimensões do ensino e aprendizagem, o trabalho pedagógico. Nesse cenário, a formação tende, assim, a articular-se com a produção de mudanças de natureza organizacional sob a perspectiva de uma interlocução fecunda entre a ação experiencial e os conceitos de trajetória profissional e de percurso de formação. (CANÁRIO, 1997). Os dados levantados pelo MEC/SEB sinalizaram elevado número de Coordenadores Pedagógicos nas escolas públicas de educação básica, bem como mapeamentos colocaram em evidência as dificuldades encontradas por esse segmento na efetivação de suas atividades devido à carência ou precariedade da formação necessária à função. Nesse cenário, o Ministério convocou Instituições de Ensino Superior para desenvolver a Especialização lato sensu em Coordenação Pedagógica, na modalidade de educação a distância (EaD) (MEC, 2009). O atendimento prioritário da clientela teve como foco os professores em função de coordenação pedagógica, graduados em Pedagogia ou outra licenciatura plena, pertencentes à rede pública municipal e/ou estadual de educação básica, incluindo a Educação de Jovens e Adultos, Educação Especial e Educação Profissional (MEC, 2009). 4. Especialização e ação pedagógica escolar – cenários e contextos A história da formação de professores no Brasil envolveu um conjunto de concepções metodológicas e avaliativas, discussões teóricas focalizando diferentes necessidades econômicas, sociais, políticas, culturais e educacionais específicas no tempo, organizados especialmente em torno das ideias transplantadas da Europa e Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003647 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 31 Estados Unidos, atribuindo à educação a lógica do desenvolvimento econômico e social, e, a formação docente a salvação para os problemas da escola. Nesse contexto, iremos abordar mais especificamente como os professores que exercem função de coordenação pedagógica percebem e analisam suas experiências de vida, trabalho e formação revisitando as próprias trajetórias para descrevê-las. Deste modo, trabalharemos aspectos recortados/revisitados sobre as memórias do trabalho pedagógico, tomando como sujeitos uma turma da Especialização em Coordenação Pedagógica do pólo de Juazeiro do Norte. O recorte tornou-se essencial para caracterizarmos com detalhes aspectos da vida, trabalho e formação dos professores-coordenadores pedagógicos envolvidos no curso de Especialização em Coordenação Pedagógica. A oferta total no Ceará foi de 445 vagas distribuídas em 09 polos da Universidade Aberta do Brasil – UAB/CAPES, nas seguintes cidades: Caucaia, Fortaleza, Icapuí, Juazeiro do Norte, Quixeramobim, Jijoca de Jericoacora, Santa Quitéria, Sobral, Tauá. O curso com duração de 18 (dezoito) meses, utilizará metodologia semipresencial, com carga horária de 432h (sendo 96hs de atividades presenciais e 336hs de atividades à distância). A turma selecionada para esse estudo tem atividades presenciais no pólo UAB/Juazeiro do Norte, composta inicialmente por 50 participantes, matriculados após processo seletivo. Os cursistas residem nos municípios da região Centro sul do Ceará: Juazeiro do Norte, Crato, Araripe, Campos Sales, Santana do Cariri, Quixelô, Jardim, Barbalha, Mauriti, Farias Brito, Lavras da Mangabeira, Várzea Alegre. No estágio final da especialização contou-se com frequência de 42 alunos. Destes, 04 são do sexo masculino e 38 feminino, com faixa etária oscilando entre 25 e 55 anos de idade. A experiência da maioria ultrapassa 10 anos, sendo parte da trajetória atuando na gestão das escolas como coordenadores pedagógicos. Alguns atuam nas Secretarias Municipais de Educação – SMEs, como superintendentes de escolas ou como coordenador/supervisor pedagógico de várias escolas simultaneamente. Muitos têm na Licenciatura em Pedagogia a formação inicial. Constatamos, entretanto que a maioria, por questão de oferta nos municípios em que residem e diante a obrigatoriedade do nível superior para a docência na educação básica de acordo com a LDB 9.394/96, foram compelidos a cursarem licenciaturas específicas. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003648 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 32 Tomamos para análise sobre a formação algumas indagações que objetivam explorar não apenas a essência da profissionalização, bem como as expectativas em relação à aplicação dos saberes apreendidos no processo. Assim, buscando explorar referenciais teóricos e saberes práticos, lançamos as seguintes questões: Qual o papel da Coordenação Pedagógica na Instituição Escolar? Quais as dificuldades enfrentadas/encontradas pelo coordenador que o impede de realizar sua função? Qual a importância do planejamento pedagógico e da avaliação da aprendizagem para o sucesso dos educandos e como o coordenador pedagógico (a) pode ajudar nestas ações? 4.1 Papéis da coordenação na execução da função Tão importante quanto à articulação da escola com a comunidade, pois a escola sozinha não sobrevive, o coordenador pedagógico se consolida como ator social e agente facilitador, com possibilidades de acompanhar, orientar, inferir qualitativamente sobre as práticas pedagógicas. Dentre as várias possibilidades de atuação tem como papel desenvolver ações que envolvam o corpo docente e discente na perspectiva de ampliar e consolidar os índices de aprendizagem, para tanto o coordenador precisa dar suporte teórico-metodológico ao professor. Tal suporte visa fomentar práticas pedagógicas inovadoras / transformadoras da realidade contextual com o objetivo de propiciar aos sujeitos envolvidos no processo um aprendizado contínuo e de qualidade, considerando que o ensino - aprendizagem não acontece de forma isolada (A. M. C. e Silva e M. S. Pereira – cursistas, fragmentos de depoimentos sobre a formação, 2011). Outro papel inerente às funções do coordenador pedagógico é recuperar a verdadeira identidade profissional, muitas vezes perdida num emaranhado de situações cotidianas deixando à margem suas verdadeiras competências, necessitando, portanto desenvolver continuamente uma leitura exploratória de sua realidade e dos atores sociais que compõem e vive o saber-fazer, pois: O coordenador não sabe quem é e que função deve cumprir na escola. Não sabe que objetivos persegue. Não tem claro quem é seu grupo de professores e quais as suas necessidades. Não tem consciência do seu papel de orientador e diretivo. Sabe Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003649 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 33 elogiar, mas não tem coragem de criticar. Ou só critica, e não instrumentaliza. Ou só cobra mais não orienta (BARTMAN, 1998, p. 89). Neste cenário, como agente responsável pelas múltiplas e complexas ações desenvolvidas na escola, a formação continuada de professores caracteriza-se como um dos aspectos essenciais de sua atuação, fato que revolve sistemática e permanentemente seu saber-fazer com direcionamento reflexivo, ensinar conceitos, ajudar o professor a desenvolver capacidades e competências, ensiná-lo a explorar os conhecimentos de que dispõe para resolver os problemas que a atuação docente lhe apresenta e também ele deve fazê-lo num clima de encorajamento. (ALARCÃO, 2003). Essa postura poderá produzir numerosos conflitos que inquietam e desarmonizam a equipe docente. Assim, as formas de interação, interlocução e relações são essenciais para o equilíbrio e resultados do trabalho pedagógico, implicando para a coordenação pedagógica presença efetiva junto aos professores, na perspectiva de constituir identidades, semelhanças e parcerias, acompanhando-os nas atividades cotidianas, identificando as dificuldades que atravessam o processo pedagógico; portanto um pesquisador sistemático das limitações e possibilidades, ao mesmo tempo, estabelecendo relação pessoal e profissional pautada na ética, respeito e confiança. Os variados e complexos papéis devem ainda favorecer o trabalho dos professores por meio do planejamento, execução e avaliação de programas permanentes de formação continuada e em serviço, estratégias de assessoramento teóricometodológico, ampliação da discussão sobre o saber-fazer, na perspectiva de observar e escutar atentamente para perceber e identificar na realidade vivenciada as dificuldades e avanços do grupo. Por meio dessa observação e escuta tornar-se capaz de identificar os obstáculos, bem como as demandas de formação continuada, na perspectiva de fortalecer aprendizagens conjuntas e colaborativas, desenvolvimento de competências, habilidades e atitudes com base em aprofundamento teórico-metodológico que subsidie repensar a prática pedagógica, no sentido de produzir mudanças concretas na qualidade do trabalho escolar (M. E. de A. Costa e J. Soares, cursistas, fragmentos de depoimentos sobre a formação, 2011). 4.2 As dificuldades da função Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003650 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 34 A subjetividade expressa nos textos produzidos pelos cursistas denuncia inúmeras dificuldades, especialmente no campo das relações com os demais agentes da gestão, ou seja, o clima organizacional da escola é permeado por conflitos, tensões e interesses. Embates e disputas marcam de forma recorrente a relação, pois o coordenador acaba sendo envolvido em outras funções de gestão, excessos burocráticos e emergências que afetam o cotidiano da escola (violência explícita e oculta envolvendo os diversos segmentos). Neste cenário, o coordenador vai ‘co-ordenar’ diretamente situações que envolvem a gestão, professores, alunos, família e a comunidade escolar. Destaca-se dentre os principais problemas: a resistência de alguns profissionais às novas concepções teórico-metodológicas; falta de material didático para professores e alunos; ausência de acompanhamento contínuo da família no processo educacional dos alunos, formação fragmentada e inconsistente (não direcionada para as competências e habilidades específicas). As principais dificuldades estão relacionadas ao cotidiano escolar no que se refere ao fazer pedagógico, muitas vezes mais fazer administrativo e burocrático do que pedagógico devido às situações-problemas impostas no cenário deste profissional. Dessa forma, acaba realizando vários trabalhos e o verdadeiro saber-fazer fica comprometido, pois colocadas em segundo ou terceiro planos, as ações pedagógicas passam a ser realizadas quando sobra tempo. Assim, a falta de definição do seu campo de atuação e ações específicas acaba produzindo, por parte dos sujeitos, uma cobrança recorrente sobre indicadores como: evasão, reprovação, desistências e baixos resultados em avaliações externas da escola. Nesse cenário, o coordenador pedagógico muitas vezes sente-se perdido, sem rumo, sem direção; não pára de trabalhar sobre as questões que envolvem a prática pedagógica e fica sempre com a sensação de impotência e incompetência. Assim, pelas veredas sombrias que envolvem o seu papel acompanha o ritmo ditado pelas rotinas, muitas vezes impossibilitado pelo gestor administrativo de ensinar os professores a ensinar, enquanto objetivo principal de toda ação pedagógica (ALARCÃO, 2003). Demanda atenção o grande volume de atendimentos que compõe sua rotina, limitando-o no desempenho da função. Entretanto, a falta de identidade e segurança no Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003651 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 35 desenvolvimento do seu verdadeiro papel amplia as dificuldades (COSTA M. E. de A. Costa e T. A. Braga, cursistas, fragmentos de depoimentos sobre a formação, 2011). Corrobora na questão da identidade profissional a carência de formação ou uma profissionalização fragmentada e inconsistente, que ao contrário de contribuir, delimita mais ainda a clareza sobre seu campo de atuação na escola, tendo em conta que o seu papel consiste em ajudar os professores a analisar os dados, a atribuir-lhes significado e a tomar decisões em relação à ação a seguir (ALARCÃO, 2003). A falta de clareza sobre as especificidades e delimitações da função produziu desencontros seja no processo de trabalho ou nas relações, gerando um clima escolar instável e de pouca confiança, muitas vezes impossibilita maior dedicação a função, revertendo em indicadores distanciados das expectativas da comunidade escolar e do sistema (M. E. de A. Costa e T. A. Braga, cursistas, fragmentos de depoimentos sobre a formação, 2011). 4.3 Planejamento e avaliação: essência do trabalho pedagógico Indagados mais especificamente sobre ações do coordenador, envolvendo o binômio planejamento e avaliação, os cursistas ressoaram que está sedimentado ai as possibilidades de intervir junto ao professor, seja para tratar abertamente das dificuldades observadas no desenvolvimento da prática, seja para fazê-lo compreender os processos de formação como alternativas de reflexão e qualificação do trabalho. Assim, planejamento e avaliação compõem agenda permanente da coordenação, sempre com a perspectiva de que ambas as ações possibilitem a tomada de decisão e a melhoria da qualidade do ensino, bem como possam contribuir com ajustes e regulações constantes, no sentido de direcionar o trabalho docente. Nesta perspectiva, afirma Libâneo (2001): Os educadores comprometidos com a transformação social precisam dispor de conhecimentos para repensar formas de funcionamento das escolas, de desenvolvimento da profissionalização e profissionalidade, de participação da comunidade escolar (professores, pais, alunos) de avaliação. (p. 11) Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003652 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 36 O coordenador pedagógico é um profissional de profunda valia nesse processo, pois percebe a escola como um ambiente educativo, como espaço de formação, construído pelos seus componentes, um lugar em que os profissionais podem decidir sobre seu trabalho e aprender mais sobre sua profissão. (LIBANEO, 2001, p. 20) Nesse contexto, o coordenador pedagógico deve intervir no sentido de estabelecer uma relação de confiança, respeito e de igualdade em todos os sentidos. A constituição de relações éticas, afetivas e colaborativas contribui para que os sujeitos, coordenador e professores vivenciem momentos de reflexão sobre a prática, pois “compreender a escola como local de aprendizagem da profissão docente significa entender que é na escola que o coordenador e professores desenvolvem os saberes e as competências do ensinar, mediante um processo ao mesmo tempo individual e coletivo (LIBANEO, 2001). Considerações finais As interlocuções com os coordenadores apontaram que novos e velhos desafios afetam à gestão escolar, especialmente a coordenação pedagógica, considerando as novas demandas por qualidade que impõem à escola formatos de produtividade considerando o contexto da educação e suas relações com a sociedade desvalorizando as necessidades e prioridades da própria prática educativa. As vozes ouvidas defendem que a formação continuada ocorra num processo articulado fora e dentro da escola. Para ser bem sucedido, qualquer projeto de formação continuada realizada na escola ou em outro local precisa ter assegurado algumas condições, especialmente no campo da valorização do trabalho docente. É decisivo para o sucesso dos programas de formação continuada e em serviço que os educadores sejam valorizados, respeitados e ouvidos – expondo suas experiências, ideias e expectativas. É preciso também que o saber advindo de sua experiência seja valorizado; que os projetos identifiquem as teorias que eles praticam e criem situações para que analisem e critiquem suas práticas, reflitam a partir delas, dialoguem com base nos Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003653 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 37 novos fundamentos teóricos e possam introduzir e produzir alterações significativas em suas ações, sobretudo que possam reverter satisfação e desenvolvimento profissional. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ALARCÃO, I. e TAVARES, J. 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