Eficiência tributária dos municípios do Nordeste brasileiro Wellington Ribeiro Justo (URCA) Eliane Pinheiro de Sousa (URCA) Luís Abel da Silva Filho (Faculdade Leão Sampaio) Silvana Nunes de Queiroz (URCA) Resumo Este estudo estima os escores de eficiência tributária dos municípios nordestinos e identifica os efeitos dos determinantes dessa eficiência não apenas na média da distribuição condicional dos índices de eficiência, mas ao longo de toda a distribuição. Para mensurar os índices de eficiência técnica, utilizou-se o modelo de Análise Envoltória de Dados (DEA) para 1640 municípios do Nordeste, tendo como base de dados as Finanças do Brasil (FINBRA), divulgadas pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN), para o ano de 2009. Os determinantes da eficiência tributária desses municípios foram verificados através do modelo de regressão quantílica, utilizando também dados secundários do IBGE. Os resultados obtidos a partir do modelo DEA revelam que parcela majoritária dos municípios localizados no Nordeste brasileiro não aloca eficientemente os recursos provenientes da arrecadação tributária. Quanto ao modelo de regressões quantílicas, constata-se que as variáveis participação do PIB industrial, urbanização e dummies estaduais, com exceção de Pernambuco nos maiores índices de eficiência, exerceram influência em todos os quantis analisados, com modificação na magnitude ao longo da distribuição. Verificam-se também, possíveis ganhos de escala na gestão dos recursos públicos resultantes do efeito da população nos índices de eficiência. Ademais, a variável dummy Metropolitana não foi relevante para explicar a eficiência tributária. Palavras-chaves: eficiência tributária, municípios nordestinos, DEA, regressão quantílica. Abstract This paper estimates the scores of tributary efficiency of the Northeastern municipalities and identifies the effects of the determinants of this efficiency not only on the average of the conditional distribution of the efficiency indexes, but also along the whole distribution. In order to measure the technical efficiency indexes, it was used the Data Envelopment Analysis model (DEA) for 1,640 municipalities of the Northeast, using as data source the Finances of Brazil (FINBRA), published by the National Treasury Secretary (STN), for the year 2009. The determinants of the tributary efficiency of these municipalities were checked through the Quantile Regression Model, also using secondary data from IBGE. The results obtained from the DEA model reveal that the greatest majority of the municipalities located in the Brazilian Northeast does not efficiently allocate the resources originated from the tributary collection. As to the quantile regression model, one can observe that the variables participation of the industrial gross domestic product, urbanization and state dummies, with exception of Pernambuco in the greatest efficiency indexes, played a role over all quantile analyzed, with modification in magnitude throughout the distribution. One can also see possible economies of scale in the public resources management resulting from the population effect on the efficiency indexes. In addition, the Metropolitan dummy variable was not relevant to explain the tributary efficiency. Keywords: tributary efficiency, Northeastern municipalities, DEA, quantile regression. 1. INTRODUÇÃO O Nordeste brasileiro historicamente tipifica-se como a região mais pobre do país. Apesar da ligeira melhora nos seus indicadores econômicos, sociais e demográficos, em anos recentes, a mesma é marcada por uma grande heterogeneidade entre os seus municípios, com a produção de bens e serviços bastante concentrada. Em parte, a discrepância entre essas unidades municipais deve-se a promulgação da Constituição Federal de 1988, que permitiu maior autonomia à administração pública local, a partir da descentralização fiscal, expandindo os repasses e proliferando a quantidade de municípios (SILVA, 2009)1. Nesse sentido, além do caráter histórico de desigualdade e estagnação econômica que marca a formação econômica do Nordeste, tem-se, em anos atuais, a constituição de uma gama de municípios de pequeno porte, dotados de quase nenhuma infraestrutura e sem capacidade de responder às necessidades da população. Segundo Silva Filho et al. (2009; 2010), dado o seu baixo poder de arrecadação própria, decorrente do baixo dinamismo econômico local, estas unidades municipais “sobrevivem”, em boa parte, de recursos advindos do governo federal. Para Clementino (1998), a Constituição Federal de 1988 ao ampliar a responsabilidade municipal, na verdade, ocasionou o fortalecimento das desigualdades, pois a esfera municipal apresenta elevado grau de dependência das transferências financeiras da União, especialmente o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), e compromete a sua receita majoritariamente com gastos de custeio, quando deveria ser na área social. É preciso deixar claro que na região Nordeste também há municípios prósperos, principalmente, os que fazem parte das regiões metropolitanas, com indicadores próximos a média nacional, uma rede urbana relativamente desenvolvida e com poder de arrecadação de tributos própria, se diferenciando em relação aos municípios localizados no interior e, notadamente, quando comparado àqueles que surgiram de desmembramentos de outras cidades ou foram criados ao longo dos anos 1990 e 2000. Conforme o Banco do Nordeste do Brasil (2010), em nível regional, no ano de 2007, o estado da Bahia detinha 31,5% do PIB nordestino, seguido de longe por Pernambuco (17,9%) e Ceará (14,5%), contabilizando juntos 63,9% do total do PIB da região. A desigualdade acentua-se sob a ótica municipal, no qual o município de Fortaleza, sozinho, detém 48,6% do PIB cearense e Salvador 24,4% do PIB baiano. Dos onze maiores PIBs municipais, nove são das capitais e os demais são Camaçari e São Francisco do Conde na Bahia. E mais, somente 22 (1,2%) municípios do Nordeste agregam mais da metade do PIB da região. Sem dúvida, a contradição que marca as cidades brasileiras, em especial do Norte e Nordeste, torna-se um importante gradiente no sentido de entender o grau de eficiência tributária e a capacidade de gestão própria desses municípios. Diante dessa realidade, este trabalho tem como objetivo estimar a eficiência tributária dos municípios nordestinos e identificar os efeitos dos determinantes dessa eficiência. Dito de outra forma pretende-se analisar como as unidades municipais do Nordeste alocam os seus recursos provenientes da arrecadação tributária e qual a importância ou influência do PIB, grau de urbanização e tamanho da população sobre a gestão dos recursos públicos. 1 Dentre as cinco grandes regiões brasileiras, o Nordeste contempla o maior número de estados (nove) e a maior quantidade de municípios, perfazendo um total de 1.794 unidades municipais. (IBGE, 2010a). 1 Para atender os objetivos propostos, o artigo encontra-se estruturado da seguinte forma: além desta introdução, a segunda seção aborda considerações acerca da descentralização fiscal e da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF); a terceira seção trata de explicar a metodologia adotada, que emprega a Análise Envoltória de Dados (Data Envelopment Analysis – DEA) e a regressão quantílica; a quarta seção apresenta os resultados descritivos e econométricos e discute os principais achados nessa investigação; na última seção fazem-se as considerações finais. 2. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA DESCENTRALIZAÇÃO FISCAL E DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL As discussões acerca das finanças públicas no Brasil têm novo enfoque a partir de dois atos constitucionais distintos e interligados. Por um lado, a Constituição Federal de 1988, com seu caráter municipalista (RESENDE, 2001). Por outro, a Lei Nº 101 de maio de 2000, que diante dos problemas impostos pela proliferação de municípios dado à maior abertura à descentralização permitida pela CF de 1988, tinha como meta sugerir e orientar os municípios no que concerne à arrecadação e gastos públicos municipais. Ante isso, a discussão acerca da descentralização fiscal e da maior autonomia das unidades subnacionais tem orientado a avaliação de um dos problemas mais constantes observados nos municípios brasileiros: dependência de transferências constitucionais dos estados e da União. Essa dependência atinge os municípios de menor dinamismo econômico e com capacidade de arrecadação fortemente comprometida, dada a ausência de dinamismo econômico capaz de impulsionar o desenvolvimento. De outra feita, a descentralização promoveu ainda a proliferação de unidades municipais com elevado nível de dependência (MAIA GOMES e MAC DOWELL, 1995). Afonso e Araújo (2000) interpretaram que a descentralização fiscal no Brasil permitia maior possibilidade de uma administração pública mais eficaz e consistente. Acrescente-se que Além e Giambiagi (1999) corroboravam o pensamento dos autores e defendiam que a administração em menores governos e a criação de municípios poderia traduzir-se no acompanhamento dos problemas locais com maior eficiência. Além disso, Resende (2001) propõe a administração descentralizada como forma de tornar mais viável à administração pública brasileira e propor as instâncias municipais maior autonomia financeira. Contudo, as evidências empíricas, principalmente as que contemplam estudos nas unidades municipais de pequeno porte ou localizadas em regiões economicamente frágeis, têm demonstrado a vulnerabilidade tanto quanto agente local de desenvolvimento quanto como sujeito ativo no processo de captação de recursos necessários à manutenção, pelo menos parcial, das despesas de sua competência. Diante disso, observa-se, sobremaneira, elevado nível de convergência entre o proposto por Maia Gomes e Mac Dowell (1995) e as evidências empíricas em regiões que concentram elevada quantidade de municípios de pequeno porte. Estudos para estados do Nordeste brasileiro, utilizando-se modelos econométricos de regressão, têm permitido observar a baixa capacidade de arrecadação própria dos municípios dessa região, concomitantemente o elevado nível de dependência de recursos da União para a composição de suas receitas e manutenção de suas despesas. Conforme Silva Filho et al (2010), utilizando-se um processo de estratificação para os municípios de maiores receitas correntes, de receitas intermediárias e de menores receitas, observaram-se que, para a variação de um ponto percentual da receita corrente nos municípios baianos, pernambucanos e cearenses, somente 0,10; 0,12 e 0,09, respectivamente, são advindos de receitas tributárias. Destaca-se que estes resultados foram constatados para o conjunto de municípios de maiores receitas correntes. Para os municípios de receitas intermediárias, os resultados encontrados 2 foram de 0,04 para os baianos e pernambucanos e 0,03 para os cearenses. No último estrato, 0,03 para os primeiros e 0,02 para o último2. Silva (2009), observando o estado do Rio Grande do Norte, em seu contexto macroeconômico norteado pela LRF, percebeu que a arrecadação dos municípios do estado praticamente permaneceu a mesma. As alterações não foram, portanto, resultado das ações do fenômeno regulador, mas tão somente da dinâmica econômica local, não justificando nenhum ato constitucional para o seu acontecimento. Além disso, a relativa elevação da capacidade de arrecadação ocorreu apenas nos municípios metropolitanos e naqueles naturalmente localizados em áreas de exploração petrolífera, ou seja, com maior desempenho econômico. Silva Filho et al. (2010) observaram elevado grau de dependência dos municípios cearenses no ano de 2008. Os autores utilizaram técnicas econométricas e a construção de indicadores de desempenho tributários proposto por Riane (2002). Utilizando-se os indicadores, constataram que a capacidade de arrecadação própria dos municípios do estrato I foi de somente 4,75% enquanto que no estrato II reduziu-se para 3,97% e obtendo o pior desempenho nos municípios do estrato III com 2,89%. Quanto à capacidade de explicação da receita tributária na variação da receita corrente, essa foi de 0,09, 0,03 e 0,02 para os estratos I, II e III, respectivamente. Os dados revelaram, portanto, a forte influência da dinâmica econômica municipal como forma de assegurar maior independência financeira à luz da maior autonomia fiscal. Desta feita, a receita tributária teve maior poder de explicar a receita corrente nos municípios que se concentram atividades econômicas de maior envergadura. Porém, mesmo nesses municípios observaram-se elevado nível de dependência de transferências constitucionais. Diante disso, percebe-se quão dependentes de transferências intergovernamentais são os municípios nordestinos. Considerando-se que este estudo foi observado para os estados de maior dinamismo econômico da região, assegura-se a necessidade de ampliação da capacidade alocativa municipal como forma de reduzir a dependência financeira e se tornarem menos vulneráveis às decisões impostas pela União. Além disso, os impostos de competências municipais, dado sua restrição, sendo somente o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), Imposto Sobre Serviços (ISS) e Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) além de uma quota parte do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), limitam os municípios em arrecadação o que os tornam ainda mais dependentes de transferências (LOPREATO, 2002). Diante disso, a Constituição Federal de 1988, com seus pressupostos norteadores da descentralização fiscal, contabilizou resultados controversos na literatura, mediante os resultados empíricos constatados, no que concernem à solução de problemas de competência dessas esferas de menor autonomia. Ante isso, os resultados alcançados com a entronização da LRF deixam margens elevadas no que diz respeito à eficiência desses municípios diante dos gastos e da arrecadação. 3. METODOLOGIA 3.1. Métodos de análise Os métodos analíticos empregados neste estudo foram: Análise Envoltória de Dados (Data Envelopment Analysis - DEA), para aferir os índices de eficiência tributária dos municípios nordestinos e, regressão quantílica para identificar os determinantes capazes de explicar os níveis de eficiência desses municípios, com o objetivo de verificar se tais fatores exercem influência diferenciada entre os municípios com níveis diferenciados de eficiência. 2 A estratificação dos municípios se deu através da classificação dos 30% com maior receita corrente; 30% de receitas intermediárias; e, 40% de menor receita. O nº observado foi 2008 (SILVA FILHO et al, 2010). 3 3.1.1. Análise Envoltória de Dados (DEA) A estimação de fronteiras pode ser feita através de métodos paramétricos (modelos econométricos) e por métodos não-paramétricos. A abordagem paramétrica requer que a função de produção seja especificada, o que constitui uma dificuldade, que se torna maior quando os processos envolvem múltiplos insumos e produtos. Enquanto a abordagem nãoparamétrica não necessita da especificação de uma função a priori e envolve programação matemática em sua estimação para determinar a eficiência relativa das unidades de produção, como é o caso do método DEA (GOMES e BAPTISTA, 2004). Este método fundamenta-se no trabalho proposto por Farrell (1957) e generalizado por Charnes et al. (1978), em que se incluiu múltiplos produtos e insumos. De acordo com Cooper et al. (2002), a adoção deste método possui vantagens em relação a outros métodos, como, por exemplo, possibilita a obtenção das relações entre múltiplos produtos e insumos de forma menos complexa, identifica as ineficiências existentes em cada insumo e produto, e sinaliza as unidades referenciais que servem como parâmetro de eficiência técnica para as unidades ineficientes. O método DEA baseia-se numa amostra de insumos e produtos observados para diferentes unidades tomadoras de decisão (DMUs – Decision Making Units), em que se busca construir uma fronteira linear por partes e, empregando-se medidas radiais e de distância, avalia-se a eficiência das unidades de produção em relação à distância da fronteira construída com os benchmarks (os mais eficientes). Neste estudo, a DMU representa o município nordestino em análise. Charnes et al. (1978) desenvolveram inicialmente esse modelo, que ficou conhecido na literatura por modelo CCR, em virtude das iniciais de seus nomes, mas também é comumente representado por CRS (Constant Returns to Scale), tendo em vista que se pressupõe retornos constantes à escala. Para Coelli et al. (1998), o modelo DEA com retornos constantes pode ser expresso por: Minθ ,λ θ , sujeito a : − y i + Yλ ≥ 0, θx i − Xλ ≥ 0 e λ ≥ 0 , (1) Em que θ é o escore de eficiência de uma dada DMU; y é o produto da DMU e x é o insumo. X é a matriz de insumos (n x k) e Y é a matriz de produtos (n x m); λ é o vetor de constantes que multiplica a matriz de insumos e produtos. De acordo com Ferreira e Gomes (2009), o pressuposto de retornos constantes de escala possibilita que se represente tal tecnologia empregada através de uma isoquanta unitária. Sobre essa fronteira, o escore de eficiência é igual à unidade. Isso significa dizer que a DMU analisada é eficiente. Sob a orientação insumo, um escore menor que um indica que se pode manter a produção com uso de menos insumos e sob a orientação produto, um escore maior que um sinaliza que se pode aumentar a produção com o mesmo nível de consumo. Em 1984 surgiu o modelo BCC, que teve essa denominação baseada nas iniciais de seus formuladores: Banker, Charnes e Cooper (1984). Esse modelo considera retornos variáveis, que podem assumir rendimentos crescentes ou decrescentes de escala na fronteira eficiente e também é conhecido como VRS (Variable Returns to scale). Nesse caso, conforme Coelli et al. (1998), o modelo DEA com retornos variáveis pode ser expresso por: 4 Minθ ,λ θ , sujeito a : − y i + Yλ ≥ 0, θx i − Xλ ≥ 0, N 1 ' λ = 1 e λ ≥ 0 , (2) em que N 1 é um vetor (N x 1) de algarismos unitários. Para uma DMU ser eficiente no modelo com retornos constantes, ela deverá necessariamente ser eficiente no modelo com retornos variáveis, porém a recíproca não é verdadeira (COELLI et al., 1998). Se o escore de eficiência técnica for distinto nos dois modelos, significa que a DMU considerada contém ineficiência de escala. Conforme Charnes et al. (1994), para que uma DMU seja eficiente, nenhum produto pode aumentar sua produção, sem que ocorra acréscimo no uso de insumos ou redução da produção de outro produto, e/ou nenhum insumo pode ser reduzido sem ter que diminuir a produção de outro produto. Neste estudo, a operacionalização de tais modelos foi realizada por meio do software Efficiency Measurement System (EMS) versão 1.3 (SCHEEL, 2000). É importante ressaltar ainda que, conforme Gomes e Baptista (2004), a presença de apenas uma observação discrepante na amostra influencia todas as medidas de eficiência. Portanto, é preciso verificar se há outliers nos dados coletados para não comprometer os resultados estimados e torná-los mais robustos. Tendo em vista que as DMUs deste estudo correspondem aos municípios nordestinos, que possuem características muito heterogêneas, empregou-se o teste proposto por Sousa e Stosic (2005), para identificar a presença de outliers e erros de medidas baseados na associação do DEA com o método Jackstrap. Esse método foi elaborado com base no teste Jacknife com o Bootstrap. O procedimento é construir uma medida de alavancagem que mensura a influência de cada DMU sobre as demais, onde aquelas que apresentam maiores influências são descartadas da amostra, por apresentarem características que afetam as estimações do DEA. A operacionalização dessas técnicas foi feita através do software Jackstrap.exe. 3.1.2. Regressão Quantílica O método de regressão quantílica foi elaborado a princípio por Koenker e Bassett (1978). De acordo com esses autores, esse método apresenta vantagens em relação ao modelo dos mínimos quadrados ordinários: devido ao fato de possibilitar a caracterização de toda a distribuição condicional de uma variável resposta, a partir de um conjunto de regressores; empregar todos os dados para estimar os coeficientes angulares dos quantis; não exercer forte interferência dos outliers, já que não se considera apenas o efeito médio do impacto de um regressor na distribuição condicional de um regressando, e os estimadores resultantes da regressão quantílica podem ser mais eficientes do que os obtidos através de MQO, visto que os erros não possuem distribuição normal. Como pretende-se identificar, não apenas, as variáveis que explicam a eficiência tributária dos municípios nordestinos, porém investigar se esses determinantes influenciam distintamente os diferentes níveis de eficiência desses municípios, empregou-se essa técnica nesse estudo. Conforme Koenker e Basset (1978), a regressão quantílica θ pode ser representada a partir da solução de: 1 1 n (3) min ∑ θ yi − xi' βθ + ∑ (1 − θ ) yi − xi' βθ = min ∑ ρθ ( µθi ) β n β n i =1 : yi ≤ xt' β i: yi > xt`'β θuθi , u θi ≥ 0 em que: ρ θ é a função check definida por: ρ θ ( u θ i ) = (θ − 1) u θ i , u θ i < 0 5 (4) Segundo Justo (2008), os coeficientes da regressão quantílica podem ser interpretados por meio da derivada parcial do quantil condicional em relação a um regressor particular, ou seja, tais coeficientes podem ser interpretados como uma variação marginal no θ th quantil condicional ocasionada por uma mudança no regressor. Considerando que as variáveis explicativas não influenciam igualmente os diferentes níveis de eficiência técnica, foram estimadas regressões para os quantis: 0,10, 0,50 e 0,90, para verificar os efeitos dos fatores determinantes da eficiência técnica ao longo da distribuição, em que o θ th quantil condicional do nível de eficiência pode ser expresso por: Qθ ( yi | X i ) = X i' βθ , θ ∈ (0,1) (5) Em que y i correspondem aos escores de eficiência técnica obtidos no modelo DEA e X i referem-se às variáveis capazes de explicar esses índices de eficiência. A operacionalização desse modelo, descrito em (5), foi feita por meio do software STATA 11. Ademais, é relevante identificar se o regressor será constituído pelos escores de eficiência do modelo com retornos constantes de escala (CRS) ou com retornos variáveis de escala (VRS). Para isso, será empregada a estatística não-paramétrica de KolmogorovSmirnov (TK − S ) , que conforme Banker e Natarajan (2004), baseia-se na distância máxima entre as distribuições acumuladas dos escores de eficiência resultantes dos modelos CRS e VRS, podendo ser expresso por: TK −S = max[F (θ CRS ) − F (θVRS )] (6) Quando o valor dessa estatística TK − S exceder seu valor crítico D, rejeita-se a hipótese nula de retornos constantes de escala. Isso significa dizer que se aceita a hipótese alternativa de retornos variáveis de escala. 3.2. Variáveis consideradas e natureza dos dados No modelo DEA, consideraram-se dois produtos e um insumo. O primeiro produto compreende as variáveis receitas provenientes do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), que incide sobre o valor do imóvel localizado na zona urbana do município e o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), que incide sobre a prestação de serviços realizados por empresas ou profissionais autônomos. O segundo produto corresponde às demais receitas tributárias, que contemplam o Imposto de Renda Retido nas Fontes sobre o Rendimento do Trabalho (IRRF), o Imposto sobre Transmissão “Inter Vivos” de Bens Móveis e de Direitos Reais sobre Imóveis (ITBI), as Taxas pelo Poder de Polícia, pela Prestação de Serviços e a Contribuição de Melhoria. A escolha dessas variáveis de output foi inspirada no estudo de Araújo (2007). De acordo com esse autor, o IRRF incide sobre as despesas com o pagamento de pessoal, porém apesar de ser arrecadado pelo município, é de competência da União. Já o ITBI incide sobre o valor venal dos bens ou direitos transmitidos ou cedidos, enquanto as taxas possuem como fato gerador o exercício regular do poder de polícia ou uso de serviço público prestado ao contribuinte, e a cobrança da contribuição de melhoria está associada ao custo de obras públicas que propicie valorização imobiliária. Segundo esse autor, é relevante decompor a receita tributária nesses dois componentes para evitar a subestimação da eficiência da maioria dos municípios, em que o IPTU e o ISSQN não representam as principais fontes de receita 6 tributária. Com relação ao insumo, as despesas administrativas correspondem à variável de input adotada. Tais despesas administrativas são expressas em reais unitários correntes e constituem a despesa empenhada na função Administração no ano de 2009. A variável dependente do modelo de regressão quantílica refere-se ao logaritmo dos índices de eficiência, obtido através da aplicação do método DEA insumo orientado (LNEFRCE) à amostra de 1.640 municípios do Nordeste, após a remoção dos 35 outliers, indicado pelo método de Jackstrap. As variáveis explicativas incluídas no modelo de regressão quantílica contemplam as dummies estaduais para verificar se existe alguma diferença estadual de eficiência tributária. A variável dummy estadual que serve como referência para os demais estados e, portanto omitida do estudo, foi o estado da Bahia, sendo escolhido porque apresentou o maior índice médio de eficiência. Assim, todos os coeficientes estimados para as dummies estaduais devem ser analisados como diferenciais relativos aos estimados pelo estado baiano. Nesse contexto, as variáveis Alagoas (AL), Ceará (CE), Maranhão (MA), Paraíba (PB), Pernambuco (PE), Piauí (PI), Rio Grande do Norte (RN) e Sergipe (SE) apresentam valor igual à unidade se o município fizer parte desse estado em análise e, zero, caso contrário. Além dessas, o modelo contém as seguintes variáveis explicativas: população total (Poptot) municipal para o ano de 2009; receitas correntes per capita (Rpc); participação do PIB do setor industrial (Ppibin) e do setor de serviços (Ppibs) no PIB total do município; variável dummy Metropolitana (Metrop) e taxa de urbanização (Urban). A incorporação da variável Poptot dá-se com o intuito de verificar se a eficiência tributária está associada a fatores de escala. A variável receitas correntes per capita indica o nível de receitas de cada habitante do município, sendo considerada como proxy para a base tributária municipal. Mesmo que o setor industrial não seja tributado diretamente, inclui-se a variável Ppibin para captar o efeito do desenvolvimento econômico proveniente desse tipo de atividade sobre a eficiência tributária. Da mesma forma, considera-se a variável Ppibs para verificar se a composição setorial da economia municipal reflete na eficiência tributária. Com o intuito de mensurar se há externalidades positivas ou negativas resultantes dos municípios situados em suas regiões metropolitanas sobre a eficiência tributária, considera-se a variável Metrop, que assume valor igual à unidade se o município fizer parte de região Metropolitana e zero, caso contrário. Neste estudo, consideraram-se doze regiões Metropolitanas, a saber: Região Metropolitana de Maceió, do Agreste, de Salvador, de Fortaleza, do Cariri, de São Luís, do Sudoeste Maranhense, de João Pessoa, de Campina Grande, de Recife, de Natal e de Aracaju. O modelo também conta com a variável Urban, que corresponde ao quociente entre a população urbana e a população total em 2006. A incorporação dessa variável assume papel importante, visto que a arrecadação tributária municipal está associada à zona urbana. No tocante à natureza dos dados, trabalha-se com duas fontes de informações. A primeira refere-se à base de dados das Finanças do Brasil (FINBRA), para o ano de 2009, divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN), no qual se utiliza a variável receita, que agrega, nesse estudo, o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), o Imposto de Renda Retido nas Fontes sobre o Rendimento do Trabalho (IRRF), o Imposto sobre Transmissão “Inter Vivos” de Bens Móveis e de Direitos Reais sobre Imóveis (ITBI), as Taxas pelo Poder de Polícia, pela Prestação de Serviços e a Contribuição de Melhoria, além das variáveis população total e receitas correntes per capita. A segunda base utilizada é do IBGE, no qual foi usada a variável participação do PIB do setor industrial e do setor de serviços no PIB total do município; região Metropolitana e taxa de urbanização. 7 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 4.1. Análise da eficiência técnica dos municípios nordestinos A princípio, é relevante destacar que foram determinados os escores de eficiência tributária de 1.675 municípios nordestinos, através do método de Análise Envoltória de Dados (DEA) com retornos constantes à escala. Entretanto, identificou-se a presença de 35 outliers por meio do método Jackstrap. Esses municípios que apresentaram maiores influências foram descartados da análise e replicou-se a estimação dos índices de eficiência para os 1.640 municípios. A Tabela 1 contém as principais estatísticas descritivas das variáveis empregadas na estimação da fronteira de produção para os 1.640 municípios nordestinos considerados no estudo. Esses dados mostram que as três variáveis consideradas apresentam grande heterogeneidade entre os municípios analisados, como indicado pelos elevados coeficientes de variação. Conforme esperado, essa grande dispersão é mais expressiva na variável relativa ao valor arrecadado do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), dado que a pesquisa contempla municípios de diferentes portes, no sentido econômico, populacional e relacionados com o seu grau de urbanização diferenciados. Tabela 1 – Estatísticas descritivas das variáveis utilizadas na mensuração dos escores de eficiência técnica por meio do modelo DEA Mínimo Média Máximo Desvio padrão CV* Variáveis (%) Despesas administrativas 521.241,45 4.987.046,36 456.753.026.3 18.423.212,49 369,42 Valor arrecadado de IPTU e ISSQN 5.349,69 2.571.735,10 627.899.273,7 24.809.501,15 964,70 Demais receitas 699,10 tributárias 280,00 1.037.721,71 216.037.560,8 7.254.687,86 Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. Nota: * Representa coeficiente de variação. Essa elevada heterogeneidade das variáveis de output e inputs utilizadas na estimação da fronteira de produção é captada pelos escores de eficiência técnica, conforme indicado pela Tabela 2, em que se percebe que parcela majoritária dos municípios de todos os estados nordestinos apresentam medida de eficiência inferior a 0,25, sob a pressuposição de retornos constantes à escala. Em contrapartida, a maioria dos estados nordestinos estudados teve menos de 3% dos seus municípios com eficiência máxima, sendo que nos estados da Paraíba e Piauí, esse percentual de municípios com escore de eficiência técnica igual à unidade não chegou nem a 2%. Em termos agregados, constata-se que dos 1.640 municípios considerados neste estudo, 1.561 deles, que representa 95,18%, registraram escore de eficiência menor do que 0,25, sinalizando que a eficiência tributária dos municípios nordestinos é muito baixa. Por outro lado, dessa amostra total de municípios avaliados, apenas 49, correspondente a 3%, alcançaram a máxima eficiência. Conforme esperado, as capitais nordestinas e municípios como, Arapiraca, em Alagoas; Feira de Santana, Ilhéus, Itabuna e Juazeiro, na Bahia; Caucaia e Maracanaú, no Ceará; Imperatriz e Timon, no Maranhão; Campina Grande, na Paraíba; Caruaru, Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Petrolina, no Pernambuco; Parnaíba, no Piauí; e 8 Mossoró e Parnamirim, no Rio Grande do Norte obtiveram escores de eficiência técnica igual à unidade, atingindo, portanto, o patamar máximo de eficiência tributária. Entretanto, é relevante destacar que não necessariamente municípios com maior arrecadação tributária alcançaram a máxima eficiência, visto que municípios como, por exemplo, Salinas da Margarida no estado da Bahia e Canindé de São Francisco no estado de Sergipe, apesar de possuírem modesto valor arrecadado com IPTU e ISSQN, dado que possuem um contingente populacional menor que 25 mil habitantes, atingiram a máxima eficiência. No caso do município de Salinas da Margarida, ele é indicado no modelo DEA com retornos constantes à escala como referência para grande parte dos municípios nordestinos ineficientes. De acordo com Sampaio et al. (2006), o conhecimento dessas unidades referenciais contribui para aumentar a eficiência das unidades ineficientes, já que essas podem seguir as práticas adotadas pelas eficientes. Tabela 2 – Distribuições absolutas e relativas dos municípios nordestinos segundo classes de eficiência técnica com retornos constantes à escala Classes de eficiência técnica com retornos constantes à escala E = 1,0 E < 0,25 Estados 0,75 ≤ E <1,0 0,25 ≤ E <0,50 0,50 ≤ E <0,75 fi % fi % fi % fi % fi % Alagoas 90 95,74 2 2,13 0 0 0 0 2 2,13 Bahia 342 91,93 10 2,69 2 0,54 1 0,27 17 4,57 Ceará 175 97,22 0 0 1 0,56 0 0 4 2,22 Maranhão 177 96,72 1 0,55 0 0 0 0 5 2,73 Paraíba 203 98,07 0 0 1 0,48 0 0 3 1,45 Pernambuco 164 91,62 3 1,67 1 0,56 1 0,56 10 5,59 Piauí 194 98,48 0 0 1 0,51 0 0 2 1,01 Rio Grande do 149 94,9 4 2,55 0 0 0 0 4 2,55 Norte Sergipe 67 94,36 2 2,82 0 0 0 0 2 2,82 NORDESTE 1561 95,18 22 1,34 6 0,37 2 0,12 49 2,99 Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. Nota: E corresponde ao escore de eficiência técnica. Como se observa pela Tabela 3, os valores médios de eficiência técnica do modelo com retornos constantes à escala são extremamente baixos em todos os estados nordestinos. Isso significa dizer que, em média, os municípios pertencentes a esses estados não alocam eficientemente os recursos provenientes da arrecadação tributária. Com base nesse tipo de tecnologia de produção com retornos constantes à escala, verifica-se que os municípios localizados nos estados da Bahia e de Pernambuco apresentaram os maiores níveis de eficiência técnica, ao passo que os municípios que fazem parte dos estados do Piauí e da Paraíba registraram os piores escores de eficiência. No que concerne à dispersão dos escores de eficiência em torno da média, percebe-se por meio do coeficiente de variação que os municípios baianos apresentaram menor heterogeneidade com relação à eficiência tributária, enquanto os municípios maranhenses e paraibanos se mostraram mais heterogêneos. 9 Tabela 3 – Estatísticas descritivas dos escores de eficiência técnica com retornos constantes à escala dos municípios nordestinos Número de Mínimo Média Máximo Desvio CV (%) Estados municípios padrão Alagoas 94 0,0046 0,0652 1 0,14736 225,91 Bahia 372 0,0044 0,1162 1 0,2128 183,17 Ceará 180 0,006 0,0750 1 0,1544 205,81 Maranhão 183 0,0016 0,0653 1 0,1632 249,90 Paraíba 207 0,0023 0,0527 1 0,1277 242,33 Pernambuco 179 0,0058 0,1128 1 0,2332 206,79 Piauí 197 0,0068 0,0444 1 0,1058 238,22 Rio Grande do Norte 157 0,0045 0,0788 1 0,1623 206,06 Sergipe 71 0,0093 0,0878 1 0,1694 192,95 NORDESTE 1640 0,0016 0,0812 1 0,1754 215,91 Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. Feita a mensuração dos escores de eficiência, é importante identificar os fatores que influenciam a eficiência tributária, porém, antes disso, deve-se ressaltar que a análise da eficiência técnica deste estudo foi realizada admitindo a pressuposição de retornos constantes à escala. Essa escolha foi baseada nos resultados encontrados no teste não-paramétrico de Kolmogorov-Smirnov, em que se testaram os escores de eficiência com retornos constantes à escala e com retornos variáveis à escala para verificar qual desses tipos constituirão a variável dependente da regressão quantílica. Como o valor encontrado da estatística TK − S foi 0,8066, então se rejeita a suposição de retornos variáveis à escala. Portanto, empregou-se essa hipótese para aferir os escores de eficiência técnica determinados nesta seção como também representa a variável dependente (LNEFRCE) na estimação da regressão quantílica, que será objeto discutido na próxima seção. 4.2. Resultados das estimações das regressões O foco desta seção é estimar por meio de regressão quantílica os possíveis efeitos dos determinantes externos da eficiência tributária. A mesma regressão é estimada para três quantis (0,10, 0,50 e 0,90). Desta forma, é possível identificar os efeitos dos determinantes da eficiência tributária não apenas na média da distribuição condicional dos índices de eficiência, mas ao longo de toda a distribuição. Antes de mostrar os resultados das estimações das regressões, a Tabela 4 informa as principais estatísticas descritivas das variáveis explicativas dos índices de eficiência tributária dos municípios nordestinos considerados. Conforme definido na metodologia, além dessas variáveis, têm-se as variáveis dummies estaduais e Metropolitana, que assumem valor zero ou unitário. Com base nos dados apresentados na Tabela 4, verifica-se que a maior variabilidade entre os municípios analisados ocorre com a população total, isto porque, trabalha-se com municípios que tem menos de 2 mil habitantes, como é o caso de Miguel Leão, no Piauí, que tem 1.212 habitantes e com aquele que tem quase 3 milhões de pessoas, como é o caso de Salvador. Ao contrário, a variável relativa à participação do PIB do setor de serviços no PIB total do município registrou a menor heterogeneidade entre os municípios, como indicado pelo coeficiente de variação. Resultado também justificável, dado que no Brasil, independentemente do tamanho/porte dos municípios, em sua maioria, o setor de serviços e comércio são parte importante da arrecadação e, principalmente, na geração de empregos. 10 Tabela 4 – Estatísticas descritivas das variáveis utilizadas na estimação das regressões quantílicas Mínimo Média Máximo Desvio CV* Variáveis padrão (%) 2.998.056 120.098,67 386,90 População total (Poptot) 1.212 31.041,04 11.027,92 40,39 Receitas correntes pc (Rpc) 181,79 1.286,08 519,49 0,91 91,67 Part. PIB Indústria (Ppibin) 0 0,12 0,11 0,85 18,75 Part. PIB Serviços (Ppibs) 0 0,64 0,12 100,00 35,47 Urbanização (Urban) 8,32 55,46 19,67 Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. Nota: * Representa coeficiente de variação. Na Tabela 5, são apresentados os resultados das estimações por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO)3 e das estimações das regressões quantílicas: quantis 0,10; 0,50 e 0,90. Na regressão estimada no quantil 0,10 (menos eficientes da distribuição), todos os coeficientes das dummies estaduais, da participação do PIB industrial, da urbanização e da constante foram significantes a 1%. Os coeficientes das demais variáveis explicativas não foram significantes. Para a estimação da regressão no quantil 0,50, todos os coeficientes das variáveis explicativas foram significantes. Enquanto os coeficientes das dummies estaduais, da população total, da participação do PIB industrial e da urbanização foram significantes a pelo menos 5%, os coeficientes das demais variáveis explicativas foram significantes a pelo menos 10%. Já no quantil 0,90, estão os maiores índices de eficiência no topo da distribuição, portanto, os mais eficientes, exceto a dummy Pernambuco e Metropolitana não foram significantes. Observa-se que apenas no quantil 0,90 os municípios localizados em Pernambuco apresentam os mesmos índices de eficiência dos municípios baianos localizados no mesmo patamar de eficiência. Provavelmente, por serem as duas maiores economias do Nordeste brasileiro, com a Bahia, em 2008, participando com 4% no PIB nacional e Pernambuco com 2,3%, enquanto Piauí, Alagoas e Sergipe aparecem no extremo, contribuindo com apenas 0,6% cada (IBGE, 2010b). O efeito da população nos índices de eficiência foi de acordo com o esperado, exceto para a parte inferior da distribuição, variando de magnitude ao longo da distribuição. Este resultado aponta para possíveis ganhos de escala na gestão dos recursos públicos. O sinal da variável renda per capita, quando o coeficiente é significante, foi negativo no quantil 0,50 e positivo no quantil 0,90, portanto, não seguiu um padrão uniforme ao longo da distribuição. No caso do quantil 0,50, os resultados apontam que, para os municípios nordestinos, a base tributária não é tão relevante na eficiência tributária, o que intuitivamente é esperado, tendo em vista que na Região Nordeste encontra-se não somente a maior quantidade de municípios com maior concentração de pobres, assim como com as piores distribuições de renda. Araújo (2007), por exemplo, encontrou resultado oposto. Contudo, ele trabalhou com todos os municípios brasileiros. Os resultados da participação setorial na eficiência tributária apontam o efeito positivo do PIB industrial ao longo da distribuição. Por outro lado, a participação do PIB do setor de serviços não é significante na parte inferior da distribuição da eficiência tributária e apresenta efeito negativo do meio para o topo da mesma. Este resultado pode refletir o elevado grau de informalidade nos municípios nordestinos essencialmente neste setor ou mesmo refletir, possivelmente, uma guerra fiscal com isenções para atrair empresas para os municípios. O 3 A estimação da regressão por MQO é apenas para mostrar a robustez das estimações das regressões quantílicas. 11 coeficiente de correlação desta variável com a renda per capita é de -0,13, corroborando, assim, com esta suposição. Tabela 5 – Resultado das estimações: Variável dependente (LNEFRCE) Variáveis Explicativas AL Quantis MQO 0,10 0,50 -0.7473 -0.9763 -0.5644 (0.000) (0.000) (0.000) CE -0.4360 -0.2468 -0.3532 (0.000) (0.010) (0.001) MA -0.6702 -0.9078 -0.6123 (0.000) (0.000) (0.000) PB -0.6642 -0.6148 -0.4789 (0.000) (0.000) (0.000) PE -0.3253 -0.3767 -0.2855 (0.000) (0.001) (0.001) PI -0.5097 -0.3515 -0.4728 (0.000) (0.000) (0.000) RN -0.4646 -0.3515 -0.4233 (0.000) (0.002) (0.000) SE -0.4549 -0.3714 -0.3124 (0.000) (0.008) (0.016) Poptot 2.04e-06 1.11e-06 4.00e-06 (0.000) (0.375) (0.018) Rpc -6.83e-06 -0.0001 -0.0001 (0.871) (0.162) (0.066) Ppibin 2.2506 1.5799 2.6134 (0.000) (0.005) (0.000) Ppibs -0.2350 0.2568 -0.4653 (0.317) (0.528) (0.097) Metropolitana 0.3598 0.1963 0.1854 (0.000) (0.215) (0.100) Urban 0.0108 0.0059 0.0077 (0.000) (0.003) (0.000) Constante -3.6507 -4.4484 -3.3886 (0.000) (0.000) (0.000) o 1640 1640 1640 N de obs. 2 0,3397 R Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. 0,90 -0.3462 (0.032) -0.6328 (0.000) -0.5956 (0.000) -0.6113 (0.000) -0.2245 (0.117) -0.5244 (0.000) -0.4091 (0.004) -0.5840 (0.000) 9.70e-06 (0.000) 0.0001 (0.081) 1.8634 (0.000) -1.3176 (0.000) 0.1763 (0.403) 0.0108 (0.000) -2.3930 (0.000) 1640 Nota: Os valores entre parênteses referem-se ao p-value. O coeficiente da dummy Metropolitana foi significante apenas para o meio da distribuição da eficiência dos municípios nordestinos. Desta forma, não dá para afirmar que possam existir externalidades positivas geradas por municípios vizinhos. Uma possível explicação é que alguns municípios das regiões metropolitanas do Nordeste se apresentam com características de cidades dormitórios conforme apresentadas por Justo et al (2010). Outra explicação é que mesmo com o adensamento da rede urbana nordestina, nos últimos 40 anos, com expansão da urbanização a partir da migração rural-urbana, o crescimento econômico dos seus municípios é bastante diferenciado, localizados em pontos específicos ou 12 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 maranhao -1.50 -1.00 -0.50 0.00 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 0 .2 .4 .6 Quantile .8 1 urban 0.000.010.010.010.02 metropolitana -0.50 0.00 0.50 1.00 poptotal 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 rpc -0.00 0.00 0.00 0.00 paraiba -1.00 -0.80 -0.60 -0.40 -0.20 0.00 sergipe -1.50 -1.00 -0.50 0.00 ppibs -4.00 -2.00 0.00 2.00 0 rio_grande_do_norte -0.80 -0.60 -0.40 -0.20 0.00 0.20 .8 ppibin -1.000.001.002.003.00 .4 .6 Quantile piau_ -1.00 -0.80 -0.60 -0.40 -0.20 0.00 .2 pernambuco -0.60 -0.40 -0.20 0.00 0.20 0.40 0 ceara -1.00 -0.80 -0.60 -0.40 -0.20 0.00 alagoas -1.50-1.00-0.500.000.50 Intercept -6.00 -4.00 -2.00 0.00 em manchas descontínuas, notadamente, em suas regiões metropolitanas (LUBAMBO ET AL., 2011). O coeficiente da dummy Urban é significante em todos os quantis analisados e cresce à medida que se desloca da parte inferior para o topo da distribuição de eficiência tributária. Estes resultados podem ser explicados em virtude do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) ser uma das principais fontes das receitas próprias dos municípios e está diretamente ligado ao número de imóveis urbanos, assim como possíveis ganhos de escala associada à maior população que também está relacionada às atividades urbanas. Na Figura 1, é possível observar uma síntese dos resultados das estimações das regressões quantílicas para todos os quantis da distribuição de eficiência tributária com os respectivos intervalos de confiança assim como a estimação por MQO, o que permite observar as falhas de se estimar apenas uma regressão da média condicional. Observa-se, por exemplo, que os diferenciais negativos de eficiência das dummies estaduais em relação aos municípios baianos que é o estado que apresenta a maior média de eficiência, diminuem à medida que se desloca da parte inferior para a parte superior da distribuição. Dito de outra forma, para os municípios dos demais estados nordestinos que estão nos quantis superiores, a diferença em relação aos municípios baianos, diminui quase que de forma monotônica. Já o efeito de escala apreendido pelo coeficiente da variável Poptotal cresce monotonicamente com o aumento dos quantis. Figura 1 – Resultados das estimações das regressões quantílicas tendo como variável dependente o LNEFRCE. Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da pesquisa. 13 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste artigo, determinaram-se, a princípio, os escores de eficiência tributária de 1.675 municípios nordestinos, através do método de Análise Envoltória de Dados (DEA) com retornos constantes à escala. Entretanto, identificou-se a presença de 35 outliers por meio do método Jackstrap. Esses municípios que apresentaram maiores influências foram descartados da análise e replicou-se a estimação dos índices de eficiência para os 1.640 municípios. Os resultados estimados por esse método sob orientação insumo revelaram que a eficiência tributária da maioria dos municípios localizados em todos os estados da região Nordeste é muito baixa. Dessa amostra total analisada, apenas 49 municípios atingiram o patamar máximo de eficiência tributária, sendo que nem todos que obtiveram escores de eficiência técnica igual à unidade foram contemplados com elevados valores arrecadados com IPTU e ISSQN. Em outros termos, existem municípios nordestinos, que mesmo com reduzida arrecadação tributária, mostraram-se totalmente eficientes. Em termos médios, verifica-se que os municípios localizados nesses estados não alocam eficientemente os recursos provenientes da arrecadação tributária, sendo que os municípios com menores índices de eficiência se encontram nos estados do Piauí e da Paraíba. Em contrapartida, os municípios que fazem parte dos estados da Bahia e de Pernambuco foram os que apresentaram melhores níveis de eficiência técnica. O estudo também permitiu inferir que as dummies estaduais, com exceção de Pernambuco para os municípios mais eficientes, a participação do PIB industrial na economia do município e a urbanização constituem variáveis relevantes para explicar indistintamente os diferentes níveis de eficiência. A população total, apesar de somente ter se mostrado significante para o grupo de municípios mais eficientes, sinaliza a possibilidade de ganhos de escala na gestão dos recursos públicos. Ademais, a variável Metropolitana não exerce efeito sobre o índice de eficiência. 6. 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