1 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ CURSO DE PEDAGOGIA DIFICULDADES DE IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: RELATO DE UM CASO JOZIANE ALVES DOS SANTOS MARINGÁ 2010 2 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ CURSO DE PEDAGOGIA DIFICULDADES DE IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: RELATO DE UM CASO Artigo de conclusão de curso apresentado por Joziane Alves dos Santos, ao Curso de Graduação de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá, como um dos requisitos para a obtenção do título de Pedagoga, sob orientação da Prof ª. Drª.: Geiva Carolina Calsa MARINGÁ 2010 3 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço a Deus por ter nos dado saúde e força para eu e meus pais, vivenciarmos a concretude deste sonho, “a minha formação Universitária”; Aos meus avôs, em especial a minha avó (in memorian) Judith Maria de Jesus, que se dedicaram apoiando meus pais em minha educação, na qual contribuíram para minha formação; À minha orientadora e amiga Prof ª. Drª. Geiva Carolina Calsa, que tanto acreditou em mim e que me incentivou não medindo esforços em me orientar por dois anos. Despertando-me o interesse pelo hábito da pesquisa na área da educação, e pelo incentivo em sempre estar estudando, o que contribuiu e muito para o meu conhecimento e crescimento pessoal; Aos meus irmãos Edmar e Cristiani pela amizade, e pelo companheirismo; Aos amigos que fiz na Universidade, às companheiras dos projetos de extensão que fiz parte e me dediquei. Aos coordenadores, professores, mestres e doutores que estiveram presente em minha formação. À professora Ms. Gizeli Alencar, coordenadora do projeto ‘Atividades Alternativas, para pessoas com necessidades Especiais” pela confiança depositada em mim. Muito Obrigada! Enfim, a todos que contribuíram e semearam durante estes quatros anos. De agora em diante espero em Deus a colheita de inúmeros frutos. 4 Dedico este trabalho de conclusão de curso aos meus pais por terem me apoiado desde sempre, pela ajuda financeira e que em nenhum momento desistiram de investir na minha formação acadêmica. 5 DIFICULDADES DE IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: RELATO DE UM CASO Joziane Alves dos Santos RESUMO Este artigo parte do pressuposto de que o professor deve assumir uma postura investigativa frente às diferentes circunstâncias que podem apresentar-se em sala de aula. Acreditamos que o desenvolvimento de pessoas com necessidades especiais deve ser alvo de tais investigações, bem como o cumprimento das bases legais que subsidiam a inclusão e a prática pedagógica. Essas inquietações e o percurso realizado nos últimos três anos em um Projeto de Extensão forneceram o suporte para esta pesquisa cujo objetivo foi o de verificar as relações existentes entre a Política Nacional, Estadual e Municipal e as práticas de educação inclusiva de uma escola pública da rede municipal de Maringá/Pr. Apresentamos os dados levantados sobre a história escolar do sujeito da pesquisa, um aluno supostamente com necessidades especiais, os relatos e dados da instituição. São mostradas as dificuldades que foram sendo enfrentadas para seu atendimento como aluno com necessidades especiais. Concluímos que os profissionais e, principalmente, a rede de ensino não estava preparada para este tipo de atendimento, apesar do que preconizam as políticas institucionais de inclusão. O abismo existente entre o discurso das políticas de inclusão e as práticas pedagógicas e educacionais tornam urgente sua compreensão e implementação. Palavras-chave: Educação, Necessidades Especiais, Política Pública, Inclusão Abstract This article has the assumption that the teacher has to assume an investigative position front of the different circumstances that can be shown in a classroom. We believe that the development of people with special needs has to be the main focus of these investigations, as the compliance with the legal bases that help the inclusion and the pedagogical practice. These concerns and the researches done in the last years in an Extension Project gave the support for this research that the objective was to verify the relationships between the National, State and Municipal Policy and the practices of inclusive education of a municipal public school in Maringá/Pr. We show the research about the scholar historic of the person researched, a student with special needs, the reports and information about the institution. It is shown the difficulties that have been found for his attendance as a student with special needs. We concluded that the professionals and, mainly, the schools were not prepared for this kind of attendance, despite the institutional policies of inclusion say about it. The distance between the policies of inclusion 6 speech and the pedagogical practice and educational make the understanding and implementation, an urgent thing to be done. Key-words: education, special needs, public policy, inclusion. INTRODUÇÃO Podemos observar o crescimento das discussões em torno da inclusão social e educacional de pessoas com vários tipos de necessidades especiais. Contudo, atendimentos ocorrem, na maioria das vezes, de forma isolada. O programa de inclusão definido pelos órgãos públicos federais, sendo uma medida recente, exige interação entre diversos âmbitos da sociedade como, famílias, alunos, profissionais da educação gestores das políticas públicas. Além de modificações estruturais e funcionais da instituição escolar, a implantação do programa nacional de inclusão exige também um novo olhar sobre o aluno com necessidades educacionais especiais. A importância deste novo olhar sobre as necessidades especiais despertou nossa inquietação em relação a alunos com diagnósticos imprecisos e que não conseguem atingir o desempenho esperado na instituição escolar. Esses alunos, em geral, acabam estigmatizados, rotulados e, muitas vezes, abandonados como deficientes intelectuais ou qualquer outra denominação. Essa condição pode também vir a ter como conseqüência o abandono dos estudos pelos próprios indivíduos e familiares. Um caso específico chamou nossa atenção durante o trabalho realizado em um Projeto de Extensão da Universidade Estadual de Maringá intitulado: “Atividades Alternativas para Pessoas com Necessidades Especiais”. Neste projeto, atuando como professora/estagiária do ateliê de matemática conhecemos ED 1, um adolescente, na época com 17 anos de idade e, atualmente, com 19 anos, estudante do Ensino Fundamental - 8° série. Ao buscar informações junto a então coordenadora do Projeto fomos informadas de que não havia registro ou diagnóstico arquivados na pasta de ED. Ele já freqüentava o projeto há 1 mais de quatro anos e as poucas informações registradas foram Para preservar a identidade do participante da pesquisa foi utilizado nome fictício, sendo ele ED. 7 fornecidas por seu pai. Ele relatou que ED tinha dificuldades de aprendizagem na escola, contudo, os exames clínicos que havia feito não acusaram algum “problema” que justificasse suas dificuldades na escola. O conhecimento de sua história escolar e nossas inquietações levou-nos a investigar mais detalhadamente o caso de ED. No transcorrer dessa busca entramos em contato com dois mundos aparentemente desconexos: o mundo das crianças com supostas necessidades especiais, mas sem diagnósticos e encaminhamentos precisos por parte das instituições escolares; e o mundo das políticas educacionais inclusivas. Tomados desta sensação de desconexão pesquisamos os documentos legais que tratam das ações a serem implementadas no atendimento de alunos com necessidades especiais as comentamos a luz das peculiaridades do caso de ED. Essas contradições levaram-nos ao desenvolvimento de uma pesquisa que resultou na elaboração deste artigo, cujo objetivo foi o de verificar as relações existentes entre a Política Nacional, Estadual e Municipal e as práticas efetuadas pelas instituições educacionais por meio do estudo de um caso – o caso de ED. POLÍTICAS PÚBLICAS E NECESSIDADES ESPECIAIS O compromisso com a construção de sistemas educacionais inclusivos começa a ser delineado, em nível mundial, por meio de políticas públicas definidas na Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1948. Nessa Assembléia foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhecendo que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade (Art. 1°). Posteriormente, outros documentos foram traçados, como a Declaração de Jomtien ocorrida em 1990, a Declaração de Salamanca em 1994, e a Declaração de Guatemala em 1999. Na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em março de 1990, foi proclamada a Declaração de Jomtien, segundo a qual a educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens, de todas as idades, 8 no mundo inteiro. Os países signatários dessa Declaração assumiram o compromisso de erradicar o analfabetismo e universalizar o ensino fundamental. A Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, em Salamanca, Espanha, em 1994 – Declaração de Salamanca –, assegurou o compromisso para com a Educação de Todos, reconhecendo a necessidade e urgência de se providenciar educação para crianças, jovens e adultos com necessidades especiais dentro do sistema regular de ensino. De acordo com o documento, os sistemas educativos devem ser projetados e contar com programas que contenham diferentes características e atendam diferentes necessidades. A Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadores de Deficiência proclamou a Declaração de Guatemala, em 1999. Essa Declaração afirma que os direitos humanos e de liberdades fundamentais também são direitos das pessoas com deficiências. Denuncia a discriminação por conta de patologias do indivíduo e define em seu primeiro artigo que “o termo deficiência significa uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária causada ou agravada pelo ambiente econômico e social”. E acrescenta que essa condição não deve impedir o sujeito de aprender em uma escola regular dos sistemas educacionais de ensino. A forma de tratar a deficiência no Brasil e em grande parte de outros países passou a ter como base estrutural a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nosso país começa a definir Políticas Públicas próprias e criar instrumentos legais com o intuito de garantir tais direitos nos seguintes documentos: Constituição Federal (1988), Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (1999), Plano Nacional de Educação (2001), Convenção Interamericana para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Pessoas com Deficiência (2001) e Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001). No Estatuto da Criança e do Adolescente, no que tange ao aspecto educacional, foi estabelecido no Art. 53 que "a criança e o adolescente têm direito à educação, 9 visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho", assegurando: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, direito de ser respeitado por seus educadores e, acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência. A responsabilidade de universalização do ensino para os cidadãos de 0 a 14 anos foi contemplada na Lei de Diretrizes e Bases Nacionais, Lei n°. 9.394, de 20/12/1996. Cabe ao município formalizar as decisões políticas e executar os passos necessários, de acordo com sua realidade sociogeográfica, a educação inclusiva na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender às suas necessidades de aprendizagem; assegura também a terminalidade específica àqueles que não atingirem o nível exigido para a conclusão do Ensino Fundamental, em virtude de suas deficiências. Anos mais tarde, em 1999, o Decreto n° 3.298 que regulamentou a Lei n° 7.853/89, ao dispor sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, estabelece a matrícula compulsória de pessoas com deficiência, em cursos regulares, considerando a educação especial como modalidade de educação escolar que permeia transversalmente todos os níveis e modalidades de ensino, a oferta obrigatória e gratuita da educação especial em estabelecimentos públicos de ensino, dentre outras medidas (Art. 24, I, II, IV). O Plano Nacional de Educação – PNE, Lei n° 10.172 de 2001 – pontua a urgência de oferta de matrículas para alunos com deficiência nas classes comuns do ensino regular, de formação docente, de acessibilidade física e atendimento educacional especializado. Ainda no mesmo ano, a matrícula dos alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular é ratificada e passa a ser obrigatória por meio das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001). A Resolução CNE/CP n°1/2002 estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica e define que as instituições de ensino superior devem prever em sua organização curricular formação docente voltada para a atenção à diversidade e que contemple conhecimentos sobre as especificidades 10 dos alunos com necessidades educacionais especiais. O Programa Educação Inclusiva direito à diversidade, criado pelo Ministério da Educação em 2003 visa transformar os sistemas de ensino em sistemas inclusivos, promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização, a organização do atendimento educacional especializado e a promoção da acessibilidade. Em 2004, o Ministério Público Federal divulga o documento tendo o acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede de Ensino, com o objetivo de disseminar os conceitos e diretrizes mundiais para a inclusão, reafirmando o direito e os benefícios da escolarização de alunos com e sem deficiência nas turmas do ensino comum. Foram também lançados documentos para subsidiar o professor em sua prática pedagógica junto aos alunos com necessidades especiais, com orientações quanto aos direitos educacionais e à flexibilização curricular dos quais destacamos a coleção Saberes e práticas da inclusão – Educação Infantil e Ensino Fundamental lançado em 2006. No mesmo ano de 2006, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU, e da qual o Brasil foi signatário, estabelece que os Estados devem assegurar um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino, em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social compatível com a meta de inclusão plena. Também, em 2006, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, o Ministério da Educação, o Ministério da Justiça e a UNESCO lançaram o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos que objetiva, dentre as suas ações, fomentar no currículo da Educação Básica, as temáticas relativas às pessoas com deficiência e desenvolver ações afirmativas que possibilitem inclusão, acesso e permanência na educação superior. Em 2007, com o Plano de Aceleração do Crescimento – PAC, foi lançado o Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, reafirmado pela Agenda Social de Inclusão das Pessoas com Deficiência, tendo como eixos a acessibilidade arquitetônica dos prédios escolares, a implantação de salas de recursos e a formação docente para o atendimento educacional especializado. O Parecer CNE/CEB n° 13/2009 em seu Art. 1°, 2° e 5° definiu que os sistemas de ensino devem matricular os alunos com deficiência, transtornos globais do 11 desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas classes comuns do ensino regular e no Atendimento Educacional Especializado (AEE), ofertado em salas de recursos multifuncionais ou em centros de Atendimento Educacional Especializado da rede pública ou de instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos; complementar ou suplementar a formação do aluno por meio da disponibilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias que eliminem as barreiras para sua plena participação na sociedade e desenvolvimento de sua aprendizagem; entre outros aspectos. A concepção da Educação Especial nesta perspectiva da educação inclusiva busca superar a visão do caráter substitutivo da Educação Especial ao ensino comum, bem como a organização de espaços educacionais separados para alunos com deficiência. Essa compreensão orienta que a oferta do AEE será planejada para ser realizada em turno inverso ao da escolarização, contribuindo efetivamente para garantir o acesso dos alunos à educação comum e disponibilizando os serviços e apoios que complementam a formação desses alunos nas classes comuns da rede regular de ensino. Dado o caráter complementar dessa modalidade e sua transversalidade em todas as etapas, níveis e modalidades, a Política visa atender alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação e inova ao trazer orientações pertinentes às condições de acessibilidade dos alunos, necessárias à sua permanência na escola e prosseguimento acadêmico. (Parecer CNE/CEB nº 013/2009). O documento expõe que a partir de 2010 que o atendimento a esses alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e com altas habilidades e superdotação, se tornaram de obrigatoriedade a serem contabilizados duplamente no âmbito do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), quando matriculados em classes comuns do ensino regular e no Atendimento Educacional Especializado. Esclarece que tais Diretrizes Operacionais baseiam-se, desta forma, na concepção do atendimento educacional especializado e não devem ser entendidas como substitutivo à escolarização. No Estado do Paraná, um dos documentos emitido pela Secretaria de Estado da Educação Superintendência da Educação (PARANÁ, 2006) reconhece o enorme contingente de alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, crianças jovens e adultos. Em atendimento a essa demanda foram criados os Centros Estaduais 12 de Avaliação e Orientação Pedagógica (CEAOP). Em Maringá o CEAOP se efetivou em 2009 e conta com três psicólogos, duas psicopedagogas e um profissional especialista em educação especial. No ano de 2009, ocorreram trezentas avaliações e em 2010, até o momento, 70 avaliações. A maior demanda tem sido de alunos entre 5ª série e 8ª séries do ensino fundamental. NECESSIDADES ESPECIAIS E INCLUSÃO ESCOLAR NA ATUALIDADE Para Bueno (2008), o tema da inclusão escolar nos últimos anos vem sendo muito estudado, discutido e publicado na forma de artigos, teses, dissertações e documentos legais, especialmente no período que se estende entre 1997 a 2003. Contudo, apesar de ser bastante estudado, o autor destaca sua preocupação em relação aos conceitos e ideias expostas nos materiais publicados sobre o tema. Bueno (2008) enfatiza que na publicação, em nosso país, de documentos baseados na Declaração de Salamanca pela Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), do Ministério da Justiça, em 1994, com re-edição em 1997, algumas incoerências estão presentes. O autor destaca que essas incoerências possam ser originadas de modificações decorrentes da tradução do documento original que, em espanhol, foi publicado pela UNESCO. Comparando a versão original com a versão brasileira assinala que a primeira propõe a organização de escolas comuns com orientação integradora dos sujeitos com necessidades especiais; enquanto a segunda propõe a formação de escolas regulares de orientação inclusiva. Para o autor, essas diferenças não são apenas terminológicas, mas conceituais e políticas. A segunda versão desse documento ao deixar de ser fiel ao texto original, leva a entender que a inclusão escolar é uma proposta inovadora, que inaugura uma nova etapa na educação brasileira. No entanto, lançando um olhar ao passado o autor verifica que a proposta de inclusão já estava posta em documentos legais desde a Constituição de 1988. Segundo Bueno, o texto brasileiro aponta os fracassos das tentativas de democratização do ensino brasileiro, mas não evidencia 13 que o atendimento inclusivo de crianças com necessidades especiais não é uma novidade no país, embora com dificuldade e essencialmente pela iniciativa privada. [...] ao se colocar a educação inclusiva como um novo paradigma, esconde-se que, desde há décadas, a inserção escolar de determinados tipos de alunos com deficiência já vinha ocorrendo, de forma gradativa e pouco estruturada, em especial para crianças oriundas dos estratos sociais superiores, sob a batuta de profissionais da saúde (médicos, psicólogos, fonoaudiólogo, etc.) incorporados pela rede privada de ensino regular. Mas, mesmo entre alunos das redes públicas e assistenciais de educação especial os processos de inserção de alunos deficientes no ensino regular começaram muito antes das reformas educacionais da década de 90, em cujo bojo surgiu a bandeira da inclusão escolar (BUENO, 2008, p.46). Omote (2005) destaca que a inclusão escolar e o atendimento de pessoas com deficiência tem se modificado com o passar dos anos. Ressalta que aproximadamente desde dez anos atrás a proposta deste tipo de atendimento já ocorria ainda que em um ambiente de segregação e discriminação mais explícito. A concepção de deficiência era a de que os indivíduos com deficiência, apesar de serem reconhecidos como seres humanos e com os mesmos direitos de pessoas comuns, possuíam uma desvantagem pela diferença que apresentavam. Apesar disso, o atendimento escolar era dual: ensino comum e ensino especial, o que acabava prejudicando a efetiva participação dos “deficientes na atividade coletiva”. Era a idéia central preconizada no princípio da normalização e no processo de integração, surgidos no final da década de 50 e defendidos até a década de 80. No decorrer da década de 80, surgiram muitas indagações a respeito da integração e avaliação dos resultados alcançados com a implementação dessa política em escolas públicas. Muitas dessas discussões eram direcionadas ao sistema dual, constituído pelo ensino comum e pelo ensino especial, que era prejudicial à efetiva participação dos deficientes na vida coletiva (OMOTE, 2005, p.34). Stainback e Stainback (1984 apud OMOTE, 2005) destacam que a ideia de inclusão escolar acentuou-se por volta da década de 90. Afirmam que tem se constituído na fusão entre o ensino comum e o ensino especial no sentido de um só conjunto de recursos educacionais para o atendimento de todos os alunos. 14 Esse paradigma de atendimento escolar se inicia quando o governo brasileiro decidiu instalar um sistema de educação inclusiva com o estabelecimento de normas com este sentido. Esse novo paradigma “implica uma total mudança de mentalidade” e o “abandono de uma concepção fundamentada em alguns valores padronizados de capacidades individuais” o que não garantiu, contudo, sua total eficácia ao ser colocada nos termos da lei, ainda na atualidade. A educação inclusiva implica uma total mudança de mentalidade, requerendo o abandono de uma concepção fundamentada em alguns valores padronizados de capacidades individuais de realização. Exige que toda a comunidade escolar respeite as mais variadas diferenças que qualquer aluno pode apresentar, reconhecendo nelas a oportunidade de aprendizagem de todos. A educação inclusiva implica uma enorme mudança na concepção, que não se produz a partir de decisões tomadas em assembléias ou de vontades expressas em moções nem por meio de leis (OMOTE, 2005, p.35). Jesus (2010), ao questionar as condições de trabalho dos docentes face à “inclusão escolar” constata que tanto a estrutura das instituições escolares como a formação do educador ainda não respondem às necessidades deste tipo de atendimento e tampouco do previsto em lei. Sobre o atendimento dos alunos com necessidades especiais por parte dos Municípios, Estados e Federação ainda não se tem clareza sobre as conseqüências que possam trazer ao sistema educacional. Isto porque para dar conta deste tipo de atendimento a escola precisaria se reorganizar como um todo para que se torne, de fato, uma “conquista de todos os alunos”. Para a autora, a aplicação das políticas de inclusão previstas desde a Constituição de 1988 e a LDB de 1996 precisa levar em consideração as diferentes realidades educacionais do nosso país concluindo, como Omote (2005), Bueno (2008) e Jesus (2010), que constar na lei não é garantia de execução dessas políticas. Uma proposta de educação, na qual, o conhecimento produzido não obedece a critérios rígidos estabelecidos e limitados pelos componentes curriculares, mas ao contrário, configuram redes imprescindíveis de idéias que se cruzam formando tecidos singulares, sentidos originais. Nesse sentido, a escola precisa se organizar para que os 15 conhecimentos elaborados possam ser uma conquista de todos os alunos, sejam eles, com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação, ou não (JESUS, 2010. p.233). Jesus (2010) assinala a importância de compreender as conseqüências e as necessidades dos professores nesse processo de inclusão escolar: inserção de alunos nas classes comuns, sala de educação especial e salas de recursos para o atendimento especializado. Essa análise, afirma, é capaz de contribuir para as ações dos educadores de forma a aproximar suas práticas e teorias, visando novos modos de educar, em meio à diversidade humana. Citando Santos (2007), a autora ressalta que durante o processo de implantação das políticas de inclusão escolar, mais do que seguir determinações, é preciso estar atento a sinais e pistas do “ainda-não”, ou seja, de ações que ainda não foram pensadas ou implementadas e podem emergir do próprio cotidiano escolar. Para ela a escola precisa se configurar como espaço de aprendizagem também para o professor. Visando mapear as políticas públicas educacionais inclusivas dos municípios capixabas buscou identificar a formação dos professores, as políticas em ação, bem como os obstáculos evidenciados na garantia do aprendizado dos alunos com necessidades especiais. A estudiosa considera que essa discussão entre os professores lhes possibilita participarem de processos de formação continuada para aprofundamento de seus conhecimentos teórico-práticos sobre os princípios e fundamentos da Educação Especial/Inclusão Escolar. Vale ressaltar que tensões e desafios presentes nas instituições de formação básica inicial e continuada de professores estão postas, uma vez que as políticas educacionais exigem um processo de reflexão sobre o significado dado a escola. Nessa direção, a autora destaca a validade de o sistema educacional brasileiro encontrar-se em um momento de aprender com a experiência um do outro, de trocar saberes, compartilhar ideias, lançar um olhar reflexivo sobre as políticas instituídas em nível federal, estadual e municipal de ensino, bem como nas instituições especializadas 16 e filantrópicas. Alerta sobre a necessidade de, neste momento, formar professorespesquisadores, interessados em investigar e compartilhar saberes. Reforçando esta posição, Jesus (2010) lembra Meirieu (2002), ao defender que os professores assumam uma postura de sujeitos de seu conhecimento didático e pedagógico: o pedagogo não deve ser somente prático ou somente teórico, mas unir ou entremear ação e teoria, de modo a garantir ao seu aluno com necessidades especiais um vínculo entre conhecimento e sociedade. Vínculo esse que deve ser permanente, pois é por meio da escola que os alunos têm acesso ao conhecimento construído pela humanidade, indo além das condições de sua vivência. É por meio da escola que poderão reconhecer-se entre seus pares e compartilhar o convívio social de formação mais igualitária possível. A autora segue se perguntando o quanto o aluno com ou sem necessidade especial tem sido levado em conta no processo ensino-aprendizagem: o que fazemos com a criança que resiste ao projeto educativo que temos para ela? Procurando responder a esta questão ressalta que todo ser humano é educável, portanto, o compromisso da escola é nunca desistir desse educando, mesmo que fuja ao nosso controle e se mostre resistente em participar do planejamento que propomos a ele. No que diz respeito ao uso das denominações que se referem aos sujeitos com necessidades especiais, Manzini, e Simão (1993) destacam um momento anterior em que as deficiências eram compreendidas como de origem exclusivamente biológica e o momento atual em que estudos recentes demonstraram que as necessidades especiais também apresentam uma dimensão social. Isso, tendo em vista a maneira com que as outras pessoas reagem com relação aos indivíduos que apresentam tais necessidades, como lembra Omote (1991, p. 1414). As deficiências eram tradicionalmente tratadas como atributos da pessoa identificada como deficiente, ou seja, inerente ao seu comportamento ou ao organismo, e mais recentemente, os estudos das últimas décadas vêm concebendo as deficiências como sendo fenômenos primeiramente sociais. O Objeto de investigação passou a incluir não só as características biológicas e psicossociais dos indivíduos deficientes, mas também os modos de as pessoas comuns reagirem a tais características tidas como definidoras das deficiências. 17 Omote (2005), lembra a necessidade de levar em conta o contexto social, incluindo a precária estimulação, que pode amplificar a deficiência intelectual dos indivíduos. Neste sentido, são importantes as características e condições étnicas e culturais que constituem a identidade de cada um, com ou sem necessidades especiais. Mazzotta (1993), esclarece que a educação especial é tida como um “conjunto de recursos e serviços educacionais especiais organizados para apoiar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns que garantam a educação formal dos educandos que apresentem necessidades educacionais muito diferentes das da maioria das crianças e jovens”. Esses “educandos têm sido tradicionalmente, classificados em função do elemento tido ou apontado como principal razão da diferenciação de suas necessidades educacionais. Daí as expressões Ensino de Deficientes Mentais, Ensino de Deficientes Visuais etc”. É importante notar, segundo o autor, que, “além da população a que se destina, é a presença de elementos tais como: profissionais especialmente preparados, adaptações curriculares” que estabelece as características de uma educação que possa ser denominada especial. Todavia, é importante notar que, além da população a que se destina, é a presença de elementos tais como: profissionais especialmente preparados, adaptações curriculares ou currículos especiais, materiais, aparelhos e equipamentos específicos que caracterizam a educação especial (MAZZOTTA, 1993, p.21). De acordo com Mazzotta (1996), alguns artigos da Constituição de 24/01/1967, redação da Emenda Constitucional n°1, de 17/10/1969 e o Artigo Único resultante da Emenda Constitucional n° 12, de 17/10/1978. No Título IV, Da Família, da Educação e da Cultura, os Artigos 175, 176 e 177 prevêem a definição de leis especiais que disponham sobre a educação de excepcionais, uma vez que a educação é direito de todos e dever do Estado. Isso significa seu dever, prover o sistema de ensino com serviços que assegurem, aos alunos necessitados, condições de eficiência escolar como os alunos tidos como “normais”. De acordo com o autor, desde 1977 os documentos legais estabelecem diretrizes básicas para a ação integrada no atendimento ao indivíduo com necessidades especiais ainda denominado “excepcional”. Estes documentos prevêem serviços que seguem uma linha preventiva e corretiva, por meio de diagnósticos pré-realizados da 18 excepcionalidade. Já é regulamentada, neste momento, o atendimento educacional a ser prestado em sistemas de ensino (regular), cursos e exames supletivos adaptados, em Instituições Especializadas ou em mais de um tipo de serviço. Contudo, no que se refere ao atendimento nas classes especiais não há exigência de um professor especializado, mas se recomenda sempre que possível essa adequação. Quanto aos diagnósticos e encaminhamentos o autor reforça que tem se constituído uma tarefa complexa no campo da educação especial, com implicações éticas ideológicas e até pedagógicas que acabam por comprometer sua validade. Para ele, as referências legais ora aos “deficientes”, ora aos “excepcionais” podem tornar ambíguas essas condições educacionais e causar controvérsias ideológicas, políticas e pedagógicas no atendimento aos sujeitos com necessidades especiais. Esclarece que por volta de 1986 é abolida a terminologia “excepcional” dos textos legais e passa a ser utilizado o termo “necessidades especiais”. Tais mudanças acompanham o movimento cada vez mais forte de entendimento da Educação Especial como parte integrante dos sistemas públicos e particular, visando desenvolvimento das potencialidades do educando com necessidades especiais. Mazzotta (1996) chama a atenção também para as ações governamentais e comprometimento do poder público com a iniciativa privada com este tipo de aluno. Para a escola pública, as conseqüências deste comprometimento podem não ser satisfatórias uma vez que os recursos públicos destinados à educação especial tem sido canalizados, em elevadas parcelas para a iniciativa privada, ainda que de cunho assistencial. O autor considera importante o papel das instituições especializadas particulares neste tipo de atendimento, no entanto isso deve ocorrer, em seu ponto de vista, desde que não comprometa a sobrevivência, a expansão e, sobretudo, a melhoria dos serviços públicos nessa área. METODOLOGIA Nosso trabalho apresenta um caráter qualitativo e, mais especificamente, tratase de um estudo de caso. Segundo Lüdke e André (2003), os estudos de caso retratam a realidade de forma completa e profunda; utilizam uma variedade de fontes cujas 19 informações são coletadas em diferentes momentos, situações e informantes. Em vista disso, investigamos os encaminhamentos dados ao caso de Ed, pelas instituições educacionais desde 1998 até o final de 2009, por meio de entrevistas com a pedagoga da escola regular, com o próprio aluno, seus pais, professores e demais profissionais. Além das entrevistas foram feitas análises dos documentos da família – exames médicos – e das instituições educacionais – escolas e Secretaria de Educação. Os dados obtidos foram organizados conforme o critério temporal com assinalamento de correspondências ou contradições entre as informações fornecidas pelos entrevistados. Procurou-se também comparar os procedimentos adotados no caso de Ed com os esperados pelas instituições educativas do estado do Paraná, pela legislação e pela literatura especializada no tema em foco. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS De acordo com as entrevistas realizadas na escola de Ed o currículo adotado pela escola foi sempre flexível às limitações e que por isso a “cobrança” em termos de rendimento avaliativo era menor que a relativa aos outros alunos. Fomos informados de que Ed possuía apenas um amigo que também apresentava dificuldades de aprendizagem. Sua relação com os professores era atraente, salvo um ou outro que aparentava dificuldades para lidar com este tipo de aluno. Sempre que necessário Ed recebia atendimento individualizado por parte dos professores. Conforme opinião da pedagoga e dos professores Ed apresentava desenvolvimento intelectual abaixo da média dos outros alunos e provavelmente não terá condições de avançar no ensino médio: [...] devido ao baixo rendimento e a aprendizagem ser muito lenta e necessitar de um atendimento, muitas vezes individual, acho que será difícil ele avançar no ensino médio. Ao término do ano letivo iremos chamar os pais para uma conversa para cogitar o ensino profissionalizante voltado para alunos com necessidades especiais. (pedagoga da escola). 20 Do histórico escolar fornecido pela pedagoga da escola obtivemos as seguintes informações descritas na íntegra: 19981999- 2000- 20012002- Entrada do aluno na escola se apropriou de alguns conteúdos embora não escrevia utilizando a letra manuscrita, pois apresentou dificuldades na coordenação motora. Devido as dificuldades no final deste ano ocorreu o Encaminhamento para a Classe Especial (DM). I- Identificação Ed.(suprimimos esses dados para preservar a identidade do aluno) II- Motivo do encaminhamento: Dificuldade em reter conteúdos proposto e imaturidade. III- Relacionamento com os outros: Aceita bem os outros e respeita, mas as outras crianças não querem brincar com ele, pois é muito manipulado quando brincam com ele. - Com os materiais: desorganizado, mistura os materiais, português com história, matemática com ciências. - Com o professor: é carinhoso, carente e desinibido tem um bom relacionamento. IV- Compreensão geral, raciocínio e linguagem: lê frequentemente fazendo uso da pontuação, mas não consegue interpretar o que lê. A letra ainda é caixa alta. V- Observações complementares : gosta de cantar, contar histórias é bastante inseguro, tem horror à chuva. O pai tem problema de coração; a criança freqüenta o contra-turno. VI- Observações Específicas sobre as áreas do conhecimento: - Não se concentra, não faz as atividades propostas. Quando faz, cópia e dá respostas absurdas, em matemática consegue resolver as operações simples, subtração e adição. VII- Data do Encaminhamento: 08/12/99. Avaliação - Frente as inúmeras dificuldades apresentadas pelo aluno; sugere que ele permaneça na escola, no entanto passe a freqüentar a Classe Especial e receba atendimento psicológico clínico. Obs: Aqui foi avaliado, pois era para passar para a 3ª série, mas frente as dificuldades permaneceu na Classe Especial. Educação Especial - É um aluno que precisa ficar um pouco mais na educação especial, pois, ainda não está preparado para o ensino regular. Classe Especial - Não apresenta domínio sobre os conteúdos envolvendo raciocínio, principalmente em operações matemáticas. - Apresenta problemas emocionais de grande sensibilidade chegando a ter febre alta quando se assusta com alguma coisa. - Necessita ser trabalhado o emocional, buscando auto-afirmação e colocá-lo em situações problemas reais para buscar equilíbrio. 21 2003- 2004 – 2009 - como apresenta distúrbios emocionais bastante elevado, isso prejudica bastante a aprendizagem. - No dia 23/09/02 ocorreu avaliação de conhecimentos do aluno, foi considerado apto a freqüentar a 2ª série, porém, frente às dificuldades de aprendizagem e comportamentos infantis para sua idade cronológica, além da insegurança emocional foi sugerido que fosse trabalhado com atividades de: psicomotricidade e lateralidade; seriação; classificação; jogos envolvendo raciocínio; quebra-cabeças; noções de temporalidade no contexto da criança; dentre outros. Foram a favor de sua continuidade na Classe Especial até resolver sua questão emocional e sanar sua dificuldade de raciocínio. Classe Especial - No inicio do ano de 2003 apresentava dificuldades nos conteúdos matemáticos. - Necessidade de ser trabalhado o emocional (chora fácil, possui medo). - No final deste ano apresentou resultados satisfatórios de acordo com os objetivos propostos. - Foi realizada uma experiência de inclusão na 3ª série do ensino fundamental e uma avaliação final dos resultados em conjunto com a professora da 4ª série e Classe Especial. Concluíram que o aluno Ed. Estava apto a freqüentar a 3ª série do ensino fundamental no ano de 2004, com acompanhamento de sala de recursos no mínimo três vezes por semana. 3ª série; 4ª série; 5ª série; 6ª série; 7ª série; 8ª série. Os dados do histórico escolar comparados com as informações fornecidas pela escola fazem-nos supor que a instituição não teve informações claras e completas sobre as condições de aprendizagem de Ed, como suas passagens por classes especiais. Podemos observar contradições nas falas quando afirmam que o aluno recebe atendimento individualizado sempre que necessário e, ao mesmo tempo, destacam seu rendimento abaixo da média deixando de definir a que média se refere uma vez que o currículo destinado a ele seria flexível. Apesar das informações contidas no histórico escolar de ED, podemos afirmar que a visão da escola em relação ao seu desempenho é limitada e pautada em uma possível “dificuldade de aprendizagem” sem diagnóstico formal. Quando indica o ensino profissionalizante como uma alternativa ao ensino médio, a escola parece sugerir uma alternativa “viável” para casos especiais como os de ED. Do histórico escolar constam os encaminhamentos de ED para classe especial, mas não são referidas as avaliações educacionais que respaldaram tal direcionamento. Não há indicativos de quando, por quem, e como teria sido realizada esta avaliação educacional. 22 A falta de informação sobre a realização de avaliações educacionais transparece em vários trechos do histórico escolar como os que destacamos a seguir. No ano de 1999 é descrito no relatório que ED é encaminhado à Classe Especial: não realizava as atividades propostas, contudo consegue resolver operações simples de matemática; lê com fluência, porém sem compreensão; e escreve em “caixa alta”. Em 2000, verificamos que o aluno é novamente encaminhado para Classe Especial. Seguido a esse encaminhamento observa-se outra informação: “Aqui foi avaliado, pois era para passar para a 3ª série, mas frente às dificuldades permaneceu na Classe Especial”. Em 2002, as afirmações são mais imprecisas e hipotéticas em relação à aprendizagem de Ed: o aluno passa por uma avaliação (não se sabe por quem?) de conhecimentos (não se sabe quais?); é considerado apto para freqüentar a 2ª série regular, mas “foram” (não se sabe quem) contrários ao resultado desta avaliação. No ano seguinte Ed foi avaliado e considerado apto a freqüentar a 3ª série regular, mantendo-se neste enquadramento escolar até a 8ª série. Segundo Carvalho (2004), o atendimento deste tipo de dificuldades educacionais depende da gradativa flexibilização dos currículos escolares. Isto requer modificações no fazer pedagógico por meio das quais precisam ser removidas as barreiras que possam impedir a aprendizagem de indivíduos com necessidades especiais e favoreçam a participação efetiva destes alunos no processo de escolarização regular. No entanto, os dados obtidos não deixaram clareza quanto à efetivação da flexibilização do currículo escolar para ED. Durante o acompanhamento do aluno após sua saída do ensino fundamental podemos afirmar que por vontade própria optou em continuar seus estudos no ensino para jovens adultos (CEBEJA). Consciente de que seria melhor, comenta “é melhor estudar na educação de jovens e adultos, do que permanecer na escola normal pelo fato de já estar com 20 anos, e precisar terminar mais rápido o ensino médio para ir para o mercado de trabalho”. Podemos constatar também em sua fala a preocupação em continuar seus estudos ao menos, o ensino médio, para poder trabalhar e auxiliar sua família com ajuda financeira. Na educação de jovens e adultos foi recebido por uma especialista da área de educação especial que nos relatou, seu avanço nos estudos: “Peguei o Ed ensinando 23 os alunos na aula de química” (fala da responsável pelo atendimento de pessoas com necessidades especiais do CEBEJA). Constatamos que Ed vem se beneficiando do atendimento individualizado que o CEBEJA vem lhe oferecendo permitindo supor ter sido uma escolha acertada de sua parte ao não optar pelo ensino comum. Conforme relatos dos professores, ele vem se destacando dentre outros alunos no ensino de jovens e adultos, assim como se sobressaía nos projetos da UEM, de que participava. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados apresentados revelam que, embora as Políticas Públicas de Inclusão estejam presentes no discurso oficial há pelos menos dez anos, neste mesmo período casos como o de Ed, relatado neste artigo, podem ter assumido a mesma dimensão: distanciamento quase abissal entre políticas inclusivas e práticas pedagógicas. A demora na implementação das Políticas Públicas fazem coexistir com o discurso oficial processos de escolarização que ficam em uma espécie de “limbo educacional” no qual as perguntas ficam sem respostas e os rumos das vidas dos indivíduos não se definem, causando impactos negativos financeiros, sociais e psicológicos para os sujeitos e suas famílias. Estudos mostram o quanto a sociedade brasileira reflete o processo de integração/segregação do aluno considerado diferente: busca de homogeneização e separação daqueles que não contribuem para o seu desenvolvimento econômico e social. Nesse sentido, a educação especial pode ser considerada uma forma decisiva para a não incorporação desses indivíduos ao meio social que exige níveis crescentes de escolaridade. Os avanços em termos de políticas públicas são inquestionáveis, contudo, há que se ter clareza das propostas para não incorrermos nas armadilhas da exclusão, como por exemplo, flexibilizar o currículo a tal ponto tornando-o falho e vago. Neste caso, ao invés de instruir estaremos negando aos alunos com necessidades especiais o direito a conhecimentos científicos historicamente produzidos. 24 É neste contexto histórico-social que vários estudos alertam para o quanto esses mecanismos do sistema educacional intensificam o processo de participação/exclusão dos alunos com necessidades especiais. Pesquisas alertam o quanto o uso dos termos “excepcional”, “deficiente” ou “necessidades especiais” contém imprecisão conceitual. Os termos submetem os indivíduos a um olhar diferenciador e provavelmente segregador. Não se pode negar que a educação inclusiva em nosso país vem ganhando força, contudo, nosso estudo nos faz concluir que ainda se fazem necessárias mudanças de atitudes e de conduta dos educadores. Os caminhos por meio dos quais estamos postulando a construção de um sistema educacional inclusivo são satisfatórios do ponto de vista político, ideológico, e pedagógico? Os atendimentos educacionais inclusivos, que estão ocorrendo em grande parte das instituições, como o verificado aqui, têm assumido variados encaminhamentos políticos, teóricos e metodológicos, porém há necessidade de buscarmos alternativas teórico-metodológicas que respaldem uma formação mais sólida dos profissionais. Tendo em vista que a inclusão vem sendo expressa e até mesmo posta como uma meta da sociedade capitalista. Os dados obtidos nesta pesquisa nos fazem supor que os documentos oficiais para a inclusão ainda vão demorar um tempo significativo para alcançar sua concretude frente as inúmeras barreiras e preconceitos que estão impregnados em nossa sociedade. Isto torna mais urgente o estudo e discussão deste tema na formação de novos profissionais da área da educação para que a produção de EDs seja cada vez menor e indivíduos e famílias com necessidades especiais tenham o seu encaminhamento e futuro delineado de forma mais humana. Nosso estudo está envolvido nas tensões e possibilidades existentes no campo da educação de pessoas com necessidades especiais. Ao concluir nosso estudo de caso, nos deparamos com a criação de instâncias educacionais que, em princípio, evitariam a ocorrência de casos como o de ED, aqui relatado. Com o intuito de reverter o atendimento inadequado, como o de ED, acompanhamos a criação do CEAOP, em nosso município, considerado um avanço significativo para o diagnóstico e encaminhamento adequado de indivíduos com necessidades especiais. Fomos informadas que o centro CEAOP (Centro Estadual de Avaliação e Orientação 25 Pedagógica), foi criado no ano de 2008 após a constatação da existência de um grande número de alunos com problemas de aprendizagem nas redes de ensino (estadual e municipal) de Maringá/PR. Atualmente, as avaliações são realizadas com apoio do CEAOP que conta com parcerias de profissionais de outras áreas, inclusive da saúde, tanto para o diagnóstico como para o atendimento clínico. Ao final deste artigo, nossa inquietação se encontra parcialmente reduzida em razão do encaminhamento pessoal de ED e dos encaminhamentos institucionais criados em nossa rede de ensino, como o CEAOP. Embora ainda com um diagnóstico impreciso e uma trajetória escolar bastante dolorosa, ED vai continuando seus estudos com maior satisfação e valorização de seus esforços. Ao escolher o CEBEJA, Ed nos sugere ter escolhido um espaço no qual sofreria uma menor sensação de exclusão que poderia ocorrer dentro de um ambiente escola comum. Uma instituição que apregoa a “inclusão”, mas que ainda continua excluindo e segregando os alunos com necessidades especiais. A nossa pesquisa e o contato com o caso do aluno ED, nos proporcionou grande avanço em termos de conhecimento sobre o tema, tendo em vista a necessidade da investigação em nosso estudo da realidade concreta, procuramos unir teoria com a prática, ou o que se efetiva para os alunos com necessidades especiais. Traçamos um longo caminho de um ano e meio de estudos e investigações, tendo em vista a necessidade e a preocupação pertencente a nós em estarmos em contato com o conhecimento por meio de estudos aprofundados, visando também à importância em se formar professores investigadores nos despertando cada vez mais o prazer em seguir pesquisando para compartilhar saberes produzidos. 26 REFERÊNCIAS BRASIL. Câmara de Educação Básica. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. CNE/CP n°1/2002,. Brasília, DF, 2002. ____Ministério da Educação/Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº 013/2009. Brasília, DF, 2009. Disponível em:http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/pceb013 09 homolog.pdf. Acesso em 24/06/10. ____ Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. LDB nº 9394/96 de 20/12/1996. Brasília: 1996. ____Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Imprensa Oficial, 1988. ____Declaração de Salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas especiais. 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