1 AÇÕES EM SAÚDE PARA O ATENDIMENTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: construindo parcerias A Política Pública na perspectiva da Intersetorialidade Laura Maria Delgado Arbex* RESUMO Este trabalho tem por objetivo fazer uma reflexão sobre as Políticas Públicas e sua relação com as demandas sociais. Para tanto a partir de um referencial teórico visita práticas institucionais de uma unidade de saúde – SUS – do Município de São Paulo e analisa as estratégias para viabilizar ações de atendimento ao fenômeno da Violência Doméstica, apresentando a alternativa, definida pela equipe, de propor uma rede de serviços, na perspectiva da intersetorialidade e a partir desta, ampliar a reflexão de novas possibilidades para o trabalho, tendo em vista a fragilidade das políticas fragmentadas que isolam e enfraquecem as possibilidades de trabalho. Palavras-chave: política social; saúde, violência doméstica; rede de serviços. ABSTRACTS This work aims at making a reflection on the public policies and their relationship to the social demands.Therefore, starting from a theorethical point, it checks on the institutional practices of a health unit – SUS – of the Sao Paulo municipality and analyzes strategies to make feasible the actions of attending to the domestic violence phenomenon, presenting the alternative defined by the group to propose a service network vis-à-vis the various sectors and starting from this one, increase the reflection of new possibilities for the work, considering the frailty of the fragmented policies, which isolate and weaken the possibilities of work. Key-words : social policy, health, domestic violence, service network. 1 INTRODUÇÃO Este trabalho visa refletir as possibilidades de implementar ações que respondam às demandas sociais do cotidiano, frente as quais as Políticas Sociais vem se mostrando frágeis em contemplar com respostas que atendam a complexidade das mesmas; em face desta fragilidade, impõe-se ao cotidiano das práticas sociais/institucionais construir alternativas de otimizar esforços para a assimilação dessas mesmas demandas. A tarefa de esclarecer a essência das políticas sociais nem sempre é fácil. Neste sentido, Evaldo Vieira em Os Direitos e a Política Social reflete que “...essas políticas tem sido ligadas ao funcionamento do mercado, à capacidade de compensar as falhas deste, à ação e aos projetos de governos, aos problemas sociais, à reprodução das relações sociais, * Graduação em Serviço Social; Especialização em Saúde pública e Gerontologia; Mestrado em Serviço Social, São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 2 à transformação dos trabalhadores não assalariados em trabalhadores assalariados, ao abrandamento dos conflitos de classe, etc.”(VIEIRA, 2004, p. 13). As novas demandas, geradas a partir da racionalidade do capitalismo contemporâneo, sem a superação de antigas contradições, aprofundam as desigualdades sociais. Esse cenário exige dos profissionais um processo permanente de reflexão teóricocrítica sobre sua intervenção na realidade, seja no aprofundamento de seus conhecimentos para uma melhor compreensão da dinâmica societária, seja na avaliação das possibilidades de implementação de ações inovadoras e resolutivas na busca e na garantia de direitos. Com relação à América Latina, na qual tanto se fala em mudança, se torna inescusável esclarecer os motivos históricos da perseverança no atraso e na dependência econômica, que não estão afastados da formulação e implementação das Políticas Sociais. Frente a estas considerações buscarei, a partir de uma experiência construída num serviço de saúde do município de São Paulo, discutir a construção de redes sociais para o enfrentamento do fenômeno da Violência Doméstica, bem como identificar ações intersetoriais para o atendimento dos sujeitos envolvidos nesta problemática. 2 REFLEXÕES TEÓRICAS SOBRE POLÍTICA SOCIAL O fato de os Direitos Humanos estarem inscritos na agenda nacional e a existência de formas legais que os protegem e promovem não significa, absolutamente, que tenham vigência na sociedade brasileira. Existe, no Brasil, uma distância entre suas garantias legais e as condições reais de sua defesa e promoção. A defesa e a promoção dos Direitos Humanos só causarão impacto na nossa sociedade se se tornarem vetores de estruturação da vida cotidiana, convertendo-se em referências vitais para a maioria da população. Todos os analistas mais qualificados coincidem na conclusão de que não há defesa e promoção viáveis de Direitos Humanos quando não se investe na redução das desigualdades sociais, nem se dispõe de mecanismos de proteção social universais e de institutos políticos democráticos. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. (art. 3º da Constituição da República Federativa do Brasil – 1988). São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 3 A Constituição de 1988 indicou a possibilidade inédita em nossa história de uma espécie de Estado social. Ora, é no texto constitucional que se consagram, como tais e para além de direitos civis e políticos, os direitos sociais. No plano cultural, o cerne do desafio consiste em tornar operante na vida cotidiana o reconhecimento da problemática dos Direitos Humanos. O fato de eles estarem inscritos na agenda nacional é fundamental e significativo – mas é preciso alargar enormemente o raio da sua incidência sobre o conjunto da população, deslocando-o do foco de ação de algumas agências da sociedade civil. A Política Social na cena contemporânea é balizada pela ofensiva neoliberal, sentidas a partir da desresponsabilização do Estado no que tange a condução das Políticas Sociais no País. Esta nova estratégia do capital conduz a um novo modelo de Estado: Estado Mínimo para os trabalhadores, Estado Máximo para o Capital. Outro aspecto a ser considerado é a noção de Sustentabilidade Social que deve estar ancorada nos princípios de liberdade, equidade e igualdade na perspectiva da justiça social garantindo a participação na perspectiva da efetivação da Ética da Democracia. Esta Sustentabilidade deve trazer consigo uma proposta de Inclusão Social enquanto uma responsabilidade pública e coletiva.Deve estar vinculada a um novo padrão de desenvolvimento: o Econômico a serviço do Social. A categoria dos Assistentes Sociais, na Carta de Curitiba, produzida no encontro de 2004 do conjunto CFESS (Conselho Federal de Serviço Social) – CRESS (Conselho Regional de Serviço Social) apresenta algumas propostas da categoria, a saber: • Luta pela primazia do Estado nas Políticas Sociais Públicas; • Luta pela expansão do investimento público estatal na área social e combate às políticas focalistas, segmentadas e descontínuas; • Luta pela alteração das políticas de contra-reforma, isto é, da tendência de privilegiar o capital especulativo financeiro em detrimento das Políticas Sociais que garantam os direitos dos brasileiros, numa perspectiva de distribuição de renda, riqueza e construção de uma cultura política democrática; • Luta por uma nova ordem societária por meio da articulação dos segmentos sociais que pactuam com os princípios da liberdade, justiça social, democracia e cidadania. O Brasil está sendo obrigado a se repensar, isto é, a se perguntar pelo sentido da sociedade que ele construiu, pelos objetivos, pelos fins que marcam fundamentalmente sua formação histórico-social. Estamos vivendo uma crise profunda, que é a crise dos fins, dos objetivos básicos, do próprio modelo de desenvolvimento que construímos, a forma São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 4 como construímos e organizamos nossa sociedade. Esta crise é de sentido básico e aparece, se manifesta, em primeiro lugar pelo escândalo de um país que avançou tecnologicamente na direção das nações mais avançadas do mundo, que tem de conviver com milhões de miseráveis sem a menor decência de vida. Quer dizer, o Brasil é pequeno demais para os brasileiros, como dizia Betinho. 62 milhões de pobres num país que é, talvez, o mais avançado tecnologicamente entre os países do Terceiro Mundo, é uma coisa inexplicável. Então parece que o problema para nós não pode ser só crescer, não pode ser só o desenvolvimento, mas crescer na direção das grandes maiorias. A questão social não pode ser eliminada. Não só é preciso combinar crescimento econômico e questão social, mas que não haverá crescimento econômico se não se enfrentar a questão social. Do ponto de vista ético, a justiça social é o horizonte norteador. As desigualdades no Brasil podem ainda ser emblematicamente explicitadas nos dados a seguir: um rico no Brasil ganha o mesmo que 50 pobres; o 1% mais rico da população detém 13,8% da renda total e os 50% mais pobres possuem rendimentos equivalentes a 13,5% do total da renda. O Instituto Brasileira de Geografia e Estatística – IBGE (1999) constatou que na mesma faixa da população a média de rendimentos dos 40% mais pobres é de R$ 125,04.; por outro lado os 10% mais ricos recebem R$ 2.477,61, o que corresponde a 19,81 vezes o salário médio dos 40% mais pobres. Além disso, no Nordeste onde vivem 30% da população, residem 63% dos indigentes do país. Nessa região os 50% mais pobres detem 15,4% dos rendimentos enquanto o 1% mais rico fica com 16,4%. Os indicadores brasileiros são já por demais conhecidos, e apontam desigualdades de tal magnitude que permitem serem traduzidas na afirmação de que “o Brasil não é um país pobre, mas um país injusto”. Os indivíduos são cidadãos quando exercem seu direito legítimo de levar a sério suas demandas e quando se beneficiam da ação pública do Estado, mas também quando se preocupam com problemas locais, regionais e nacionais (e agora globais) e fortalecem as redes sociais das quais fazem parte. Cidadania implica compromisso mútuo entre autoridades públicas e indivíduos. 3 O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA A violência doméstica é reconhecida pela Constituição Federal do Brasil, em seu parágrafo 8º, art. 226, que diz: “O Estado assegurará a assistência à família, na pessoa de São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 5 cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito das relações”. Sabemos que o espaço privado, familiar, que deveria constituir-se no refúgio de paz das famílias é, por excelência, o espaço em que a violência doméstica e sexual tem o seu ponto mais alto de incidência. É bom que realmente se torne claro à opinião pública que nem todos os homens são agressores e que muitos desses homens lutam contra essa agressão e essa violência. Eu penso que as lutas importantes no mundo, dos Direitos Humanos, contra a violência, contra a tortura... são lutas que não podem ser deixadas a um grupo social. As lutas feministas não podem ser deixadas unicamente às mulheres. É preciso que os homens se solidarizem, porque são a prova viva de que repudiam essa forma de agressão e que tudo farão para que esse número de pessoas – que infelizmente é muito grande e atravessa todas as classes e todos os continentes – se vá reduzindo através da oposição democrática de homens e mulheres. (SANTOS, 2002). A violência doméstica é um fenômeno social e, portanto, deve ser enfrentado através de um conjunto de estratégias políticas e de intervenção social direta, atuando em diferentes instâncias: Educação – atividades envolvendo alunos, professores e corpo técnico administrativo de escolas da rede pública e privada de ensino, bem como elaboração e divulgação de material informativo e capacitação de professores do ensino fundamental e médio. Saúde – ações voltadas às unidades de atenção básica de saúde da rede pública, gerando estratégias que ressaltem a noção de violência doméstica como um problema de saúde pública, principalmente, no contexto da saúde da mulher. Justiça, segurança pública e direitos humanos – ações voltadas aos profissionais que atuam na elaboração e implementação de medidas jurídicas relacionadas à violência doméstica e familiar, incluindo: Centrais de penas e medidas alternativas, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, escolas de formação de juízes, promotores, defensores e conciliadores, Varas de Família e Juizados da Infância e da Adolescência; além de Academias de polícia, DEAM, Presídios, Conselhos Tutelares, Centros de atendimento ao menor autor de violência e ONG. Programas para Jovens / grupos juvenis – Aplicar a perspectiva de gênero no trabalho com homens jovens que envolve: a) engajar os homens na discussão sobre as desigualdades de gênero; b) estimular a assunção da responsabilidade no cuidado com os filhos; c) assumir a responsabilidade nas questões relativas à saúde sexual e reprodutiva; d) estimular medidas não violentas de resolução de conflito. Trabalho – atividades que envolvam trabalhadores e empresários, empresas e sindicatos, em comunidades urbanas e rurais. São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 6 Políticas públicas – Interlocução com órgãos governamentais para promover controle social e estimular a ampliação do impacto social de campanhas de prevenção à violência, particularmente no contexto das relações familiares. De acordo com dados divulgados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os custos da violência na América Latina representam 14,2% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países da região. O que significa cerca de US$ de 168 bilhões, anualmente. O Brasil é apontado como o país que mais sofre com o problema, perdendo cerca de 10,5% do seu PIB, o que representa US$ 84 bilhões anuais (HEISE, PITANGUY, GERMAIN, 1998). No geral, ainda a Violência Doméstica - Física e/ou Sexual é silenciosa, privativa das relações familiares, independente da divulgação do trabalho e dos recursos disponíveis; ainda é culturalmente questionada a intervenção do poder público nesta problemática. A eficácia das ações de prevenção e redução da violência doméstica e de gênero depende da reunião de recursos de diversas áreas, dada a complexidade do problema e as repercussões que causa. Ela é uma realidade dolorosa, responsável por altas taxas de mortalidade e morbidade. Isso exige uma resposta séria e urgente da sociedade. Os serviços de saúde não podem deixar de enfrentar, ao lado de outros setores governamentais e nãogovernamentais esse grave problema, que hoje faz parte da agenda de Saúde Pública de vários países. Já no início dos anos 90, tanto na área da saúde como na área da assistência surgiram novas ações e abordagens para o problema da violência doméstica e de gênero. Neste momento os serviços de saúde passaram a adotar políticas visando diagnosticar o problema e oferecendo atenção à saúde nos casos de violência sexual, violência contra as crianças e outros agravos. O enfrentamento à violência contra a mulher exige a soma de esforços entre os diversos segmentos da sociedade: entre os Poderes Executivos, Legislativo e Judiciário; governos estaduais e municipais; movimentos sociais, em especial, movimentos feministas, de mulheres e movimentos de direitos humanos. 4 CONSTRUINDO PARCERIAS O enfrentamento à violência contra a mulher exige o envolvimento da sociedade em seu conjunto: os três poderes, os movimentos sociais, as comunidades. Isso significa construir uma verdadeira rede – Rede de Cidadania: uma ação que reúne recursos públicos São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 7 e comunitários em um esforço comum para prevenir, atender e erradicar a violência doméstica e contra a mulher em nosso país. A superação desse fenômeno é um desafio de largo prazo histórico, cuja solução envolve esforços das instâncias estatais e de agências e movimentos da sociedade civil. Essa superação passa, prioritariamente, pelo enfrentamento adequado da “questão social”, tal como ela se apresenta no Brasil – enfrentamento que supõe a instauração/restauração de direitos sociais e sua universalização mediante políticas públicas, bem como a garantia de direitos civis e políticos. O atendimento do fenômeno VIOLÊNCIA, entre outros, carece de rede de proteção social. No Brasil é mais apropriado falar de rede de inclusão social, uma vez que a ampla maioria da população não tem meios suficientes de subsistência. Uma estrutura em rede significa que os integrantes se ligam horizontalmente a todos os demais, diretamente ou por meio dos que os cercam. O conjunto resultante é como uma malha de múltiplos fios, que pode se espalhar indefinidamente para todos os lados, sem que nenhum dos seus nós possa ser considerado principal ou central, nem representante dos demais. Há necessidade de que os componentes da rede definam coletivamente os objetivos; agreguem as pessoas, grupos ou organizações disponíveis em redor desses objetivos; definam fluxos de acordo com cada tipo de necessidade e gravidade do caso; abdiquem de créditos individuais, pois o mérito é de todo o grupo e o crédito deve ser de todos; discutam e negociem a condução do trabalho. A formação de redes solidárias tem a cooperação e complementariedade; a confiança e co-responsabilidade; a solidariedade e respeito à diversidade com seus princípios éticos. Diante dos conflitos o desafio está na capacidade de equacionar (e não de eliminar) as diferenças. Seus objetivos são a circulação de informações, a formação de laços de solidariedade e a realização de ações em conjunto.Para sua formação exige-se novas formas de democratização do poder e uma atuação descentralizada e articulada. Através desta rede, as ações deixam de ser isoladas e passam a constituir o que chamamos de políticas públicas de prevenção, assistência e combate à violência, através de colaboração e parcerias. Com este entendimento do fenômeno – Violência Doméstica – e com a estratégia de formação de redes de cidadania e também considerando a definição do Ministério da Saúde que a violência também é um problema de Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde de SP, através da Coordenadoria de Gestão cria um programa – Resgate Cidadão – que tem por objetivo atender os diversos tipos de violência, a saber: Doméstica, de Trânsito, Institucional, Urbana, etc. São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 8 O Ambulatório de Especialidades de Vila Prudente, que se constituiu como Unidade de Referência para a Violência Doméstica na região, assumiu esta tarefa e constituiu uma equipe que ficou responsável pelo trabalho, a saber: • Ana Lúcia Caroccia Pediatra • Cleusa da Silva Guimarães Enfermeira • Hilda F. F. De Lucena Kramer Ginecologista • Laura Maria Delgado Arbex Assistente Social • Maria Inês Vilas Boas Costa Psicóloga • Rute Lenci Boccia Auxiliar de Enfermagem • Silvia Elisa Pecoroni Landi Assistente Social • Lenira Poletano da Silveira - Psicóloga Casa Eliane de Grammont - Supervisão Técnica Institucional Esta equipe criou uma identidade própria, construiu um projeto de trabalho e além de definir o papel da equipe de saúde frente ao atendimento, reconheceu que esse trabalho não caminharia isolado, isto é, sem uma perspectiva de intersetorialidade e integralidade das ações, desencadeando uma discussão de construção de uma rede local/regional para o atendimento da demanda. Para tanto propôs a parceria com os diversos serviços representativos das Políticas Públicas setoriais, bem como com os serviços representativos da organização e mobilização da Sociedade Civil. Em face deste desafio formula o convite para encontrar os caminhos próprios de atuação iniciando com um convite para: - Mudanças; Trabalho; Agir; Refletir; Discutir a Vida; Viver Melhor; Estabelecer Parcerias. Considerando a experiência da violência como um problema sério para a saúde, entende-se que sua superação desafia tanto o indivíduo como as instituições do setor. Para conseguir modificar este quadro preocupante assinala que é preciso construir um processo socializador fundado na idéia do diálogo como meio insubstituível para a resolução de conflitos. A equipe apresenta, ainda, alguns indicadores que podem orientar o atendimento aos usuários/vítimas que se apresentarem aos serviços: ACREDITAR: - Ouvir com atenção e acreditar nele/a. mostrar que entende o que sente e que ele/ela não está sozinha, que muitas outras pessoas passam pelo mesmo tipo de experiência; São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 9 RESPEITAR O SIGILO: - Todas as discussões devem ser feitas de forma reservada, sem a presença de quaisquer familiares. Isto é essencial para aumentar o nível de confiança e para garantir sua segurança; RECONHECER A INJUSTIÇA: - A violência não é sua culpa; ninguém merece ser maltratado/a; RESPEITAR SUA AUTONOMIA: - Respeitar seu direito de tomar decisões relativas à sua vida, quando estiver pronto/a para isso, excetuando os casos que envolvem menores de 18 anos. É ele/ela quem mais entende de sua própria vida. PROMOVER O ACESSO AOS SERVIÇOS COMUNITÁRIOS: - Estar ciente de todos os recursos disponíveis em sua comunidade e manter o fortalecimento da rede para que o atendimento, às reais necessidades apresentadas, seja efetivado. Os profissionais de saúde, preocupados com a garantia dos direitos dos cidadãos e comprometidos com a promoção da saúde da população, muitas vezes sentem dúvidas quanto à maneira mais correta de agir. O estabelecimento de normas técnicas e de rotinas de procedimento para orientação desses profissionais torna-se, portanto, uma demanda para apóia-los no diagnóstico, registro e notificação dos casos de violência, como medidas iniciais para um atendimento de proteção às vítimas e de apoio a suas famílias. Por mais bem intencionada que seja qualquer proposta, ela só ganha sentido quando responde a necessidades reais; quando é assumida pelo grupo que trabalha com o assunto; quando, a partir dela se criam novas possibilidades de ação. 5 CONCLUSÃO As tentativas de garantia de um sistema de proteção social universalizado esbarram sempre na incapacidade de sustentação de tal sistema em uma sociedade altamente segmentada, na qual os conflitos não se manifestam como tal na sociedade, mas como pleitos a um Estado que apesar da hipertrofia carece de força para infringir algum tipo de imposição às elites políticas e às forças econômicas, obrigando-as a se solidarizarem no desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária. Não se pode deixar de reconhecer que o trabalho em rede tem muitos desafios e que sua construção mexe com paradigmas: - organização do Estado; - relações de poder; formas instituídas de ação social. As práticas sociais constituídas com a trama da reciprocidade, da equidade, da solidariedade, da liberdade individual e democracia cotidiana, provaram, contra muitos fatores adversos, sua aptidão para ser parte de uma nova racionalidade libertadora. São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 10 O Estado deve oferecer o apoio necessário para que os cidadãos exerçam seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais e reclamem dele caso seus direitos lhes sejam negados ou se forem coagidos a abrir mão de desfrutar totalmente de sua liberdade. A construção de sociedades mais participativas e solidárias exige mais do que um Estado que garanta seus direitos; é igualmente necessário haver atores sociais preocupados com os diferentes aspectos do desenvolvimento e com a ampliação das oportunidades para deliberação, para que se possa chegar a acordos e tomar decisões que afetam a vida da comunidade. A adoção de ações em diferentes áreas, de forma sistemática e continuada, garantindo acesso e qualificando a intervenção em cada área é o que deve caracterizar a promoção pelo Estado de políticas públicas, constituindo uma rede de ações e serviços. Este processo é ainda incipiente e insuficiente. Considerando que o enfoque de desenvolvimento de políticas públicas nesta área é recente, a articulação dos serviços e recursos, a integração dos profissionais e a constituição formal de redes de assistência são prioridade para a sustentação de uma ação do Estado com reconhecida qualidade e eficácia frente ao problema. A prioridade é desenvolver esta rede, articulando os serviços e também reunindo os esforços de diferentes níveis de governo, além da sociedade civil e dos movimentos sociais. Se a presença do Estado segue sendo central nos processos de ajuste estrutural e se estes demandam sua forte presença na área social, há que se buscar novas formas de articulação das políticas sociais com a economia política, o que no caso específico significa buscar novas articulações no setor, que contemplem não só demandas e necessidades sociais já acumuladas, mas também aquelas pautadas pelo novo projeto para a sociedade. REFERÊNCIAS BERQUÓ, Elza S. et al. SEMINÁRIO NACIONAL: GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER. Brasília. NEPO – Núcleo de Estudos de População/UNICAMP. Área Técnica de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde. Abril de 2004. BRAVO Maria Inês Souza; PEREIRA, Potyara A. P. Política Social e Democracia. São Paulo: Cortez Editora; Rio de Janeiro: UERJ. 2001. CANESQUI, Ana Maria (org.). Ciências Sociais e Saúde. São Paulo: Editora Hucitec, 1997. CADERNOS CIDADANIX. Publicação do Mandato da Vereadora Flávia Pereira (PT/SP). 2.ed. São Paulo, 2003. CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Equidade, Desenvolvimento e Cidadania. Rio de Janeiro: Campus, 2002. São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005 11 COLETIVO Feminista Sexualidade e Saúde. Departamento de Medicina Preventiva – Faculdade de Medicina USP. Serviço Social e Sociedade, n. 53, Política Social e Direitos. Cortez Editora, 1997. PROJETO GÊNERO, VIOLÊNCIA E DIREITOS HUMANOS. Novas Questões para o Campo da Saúde.Disponível em: <http//www.mulheres.org.br>. SILVA, Alcione Leite da; LAGO, Mara Coelho de Souza; RAMOS, Tânia Regina Oliveira. Falas de Gênero. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999. SILVA, Marco Aurélio Dias da. Todo Poder às Mulheres: esperança de equilíbrio para o Mundo. 4. ed. São Paulo: Editora Best Seller, 2001. VÉRAS, Maura Pardini Bicudo. Por uma Sociologia da Exclusão Social: o debate com Sergio Paugam. São Paulo: EDUC, 1999. VIEIRA, Evaldo. Os Direitos e a Política Social. São Paulo: Cortez, 2004. VIEZZER, Moema L. (coord.). Vem pra Roda! 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