Ângulos de Euler Considere um corpo rígido e seus três eixos principais, ê1 , ê2 e ê3 , que são ortonormais. Vamos definir o sistema de coordenadas fixo ao corpo rígido, S ∗ , com os eixos x1 , x2 e x3 ao longo dos versores ê1 , ê2 e ê3 , respectivamente. Quando o corpo rígido gira em torno de algum ponto que permanece fixo no espaço, tomamos a origem de S ∗ como sendo esse ponto fixo. No caso em que o corpo rígido não tem um ponto que fica fixo no espaço, tomamos a origem de S ∗ no centro de massa. Quando dois dos momentos de inércia principais do corpo rígido são iguais, sempre tomamos seus respectivos eixos principais como sendo ê1 e ê2 , por convenção. Também considere um sistema de coordenadas cartesianas, S, com eixos x, y e z, e seus três versores respectivos, x̂, ŷ e ẑ. A origem de S, tomamos como sendo a mesma origem de S ∗ , de forma que S não é necessariamente fixo no espaço, já que o corpo rígido pode ter seu centro de massa em movimento, o que implicaria em uma origem de S ∗ móvel. No entanto, as direções x̂, ŷ e ẑ são tomadas como fixas no espaço. Logo, são necessários três ângulos para determinar a orientação de S ∗ com relação a S. Esses ângulos podem ser tomado como os chamados ângulos de Euler, que descrevo a seguir. O primeiro ângulo de Euler chamamos de φ, que consiste de uma rotação dos eixos x, y e z em torno do eixo z, de um ângulo φ. A transformação de coordenadas para essa primeira rotação é descrita matricialmente como 0 x x y 0 = Rφ y , (1) z z0 onde Rφ cos φ = −senφ 0 senφ 0 cos φ 0 . 0 1 (2) Para entender as Eqs. (1) e (2), basta tomar um ponto no plano xy dado por (x0 , y 0 ) , nas coordenadas rodadas, e também dado por (x, y) nas coordenadas cartesianas originais. Em coordenadas polares, escrevemos (x0 , y 0 ) = (r cos ϕ, rsenϕ) . (3) Como os eixos x0 e y 0 estão rodados de um ângulo φ com relação aos eixos x e y, segue que (x, y) = (r cos (ϕ + φ) , rsen (ϕ + φ)) . (4) Mas, da Eq. (4) segue que x = r cos (ϕ + φ) = r cos ϕ cos φ − rsenϕsenφ, isto é, x = x0 cos φ − y 0 senφ, 1 (5) onde usei a Eq. (3), e y = rsen (ϕ + φ) = rsenϕ cos φ + r cos ϕsenφ, ou seja, y = x0 senφ + y 0 cos φ, (6) onde também usei a Eq. (3). Podemos colocar as Eqs. (5) e (6) em forma matricial assim: 0 x cos φ −senφ x = . (7) y senφ cos φ y0 Como cos φ senφ −senφ cos φ cos φ senφ −senφ cos φ = 1 0 0 1 , (8) podemos multiplicar ambos os membros da Eq. (7) por cos φ senφ −senφ cos φ e obter x0 y0 = cos φ −senφ senφ cos φ x y . (9) No caso de três coordenadas, mas mantendo os eixos z e z 0 coincidentes, podemos também escrever, com o auxílio da Eq. (9), 0 x x cos φ senφ 0 y 0 = −senφ cos φ 0 y , z z0 0 0 1 que explica as Eqs. (1) e (2). O novo eixo x0 também é convencionalmente chamado de eixo ξ, ou linha nodal. O segundo ângulo de Euler é chamado θ e consiste de uma rotação dos eixos x0 , y 0 e z 0 em torno do eixo x0 , de um ângulo θ. As novas coordenadas, depois dessa segunda rotação de Euler, são dadas por 00 0 x x y 00 = Rθ y 0 , (10) z 00 z0 onde Rθ 1 = 0 0 0 cos θ −senθ 2 0 senθ . cos θ (11) Note que a substituição da Eq. (1) na Eq. (10) resulta em 00 x x y 00 = Rθ Rφ y . (12) z 00 z Finalmente, o terceiro ângulo de Euler chamamos de ψ, que consiste de uma rotação dos eixos x00 , y 00 e z 00 em torno do eixo z 00 , de um ângulo ψ. As novas coordenadas, denotadas x1 , x2 e x3 , são as coordenadas do sistema S ∗ mencionado acima. Então, 00 x1 x x2 = Rψ y 00 , (13) x3 z 00 onde cos ψ = −senψ 0 Rψ senψ cos ψ 0 0 0 . 1 (14) Substituindo a Eq. (12) na Eq. (13), obtemos x1 x x2 = Rψ Rθ Rφ y . x3 z Das Eqs. (2) e (11), obtemos 1 0 Rθ Rφ = 0 cos θ 0 −senθ (15) cos φ 0 senθ −senφ 0 cos θ senφ 0 cos φ 0 , 0 1 isto é, Rθ Rφ cos φ = − cos θsenφ senθsenφ Das Eqs. (14) e (16), obtemos cos ψ senψ R = Rψ Rθ Rφ = −senψ cos ψ 0 0 senφ cos θ cos φ −senθ cos φ 0 senθ . cos θ 0 cos φ 0 − cos θsenφ 1 senθsenφ (16) senφ cos θ cos φ −senθ cos φ 0 senθ , cos θ isto é, R = cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ −senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ senθsenφ 3 cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ −senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ −senθ cos φ senψsenθ cos ψsenθ . cos θ (17) Como cada uma das matrizes Rφ , Rθ e Rψ é ortogonal, a inversa de cada uma é sua transposta e obtemos, para o produto das três, R−1 = −1 (Rψ Rθ Rφ ) t −1 t = Rφ−1 Rθ−1 Rψ = Rφt Rθt Rψ = (Rψ Rθ Rφ ) = Rt . Das Eqs. (17) e (18) segue, portanto, que cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ −senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ R−1 = cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ −senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ senψsenθ cos ψsenθ (18) senθsenφ −senθ cos φ . cos θ Não esqueça que os ângulos φ, θ e ψ são funções do tempo. Agora vamos escrever, em termos dos ângulos de Euler e suas derivadas temporais, o vetor ω. Para isso, em termos dos eixos principais, que giram juntamente com o corpo rígido, podemos escrever dê1 dt = a1 ê1 + b1 ê2 + c1 ê3 , (20) dê2 dt = a2 ê1 + b2 ê2 + c2 ê3 (21) dê3 dt = (22) e a3 ê1 + b3 ê2 + c3 ê3 . Seguindo o raciocínio da postagem Sistemas de coordenadas em movimento, vemos que o vetor ω é definido como ω = c2 ê1 + a3 ê2 + b1 ê3 . (23) Das Eqs. (20), (21) e (22), obtemos b1 = ê2 · dê1 , dt (24) c2 = ê3 · dê2 dt (25) a3 = ê1 · dê3 . dt (26) e Assim, precisamos calcular, explicitamente, ê1 , ê2 e ê3 e suas derivadas temporais. Da Eq. (15) segue que x x1 y = (Rψ Rθ Rφ )−1 x2 . (27) z x3 4 (19) Como as coordenadas de ê1 no referencial S ∗ são dadas por x1 1 x2 = 0 , x3 0 segue que, em S, suas coordenadas são dadas por x 1 y = (Rψ Rθ Rφ )−1 0 . z 0 Logo, usando a Eq. (19), podemos escrever ê1 = x̂ (cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) + ŷ (cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ) + ẑsenψsenθ. (28) De maneira completamente análoga, também obtemos ê2 = x̂ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) + ŷ (−senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ) + ẑ cos ψsenθ (29) e ê3 = x̂senθsenφ − ŷsenθ cos φ + ẑ cos θ. (30) Tomando as derivadas temporais das Eqs. (28), (29) e (30), obtemos h i dê1 = x̂ ψ̇ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) + φ̇ (− cos ψsenφ − senψ cos θ cos φ) + θ̇senψsenθsenφ dt h i + ŷ ψ̇ (−senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ) + φ̇ (cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) − θ̇senψsenθ cos φ + ẑ ψ̇ cos ψsenθ + θ̇senψ cos θ , (31) dê2 dt h i = x̂ ψ̇ (− cos ψ cos φ + senψ cos θsenφ) + φ̇ (senψsenφ − cos ψ cos θ cos φ) + θ̇ cos ψsenθsenφ h i + ŷ ψ̇ (− cos ψsenφ − senψ cos θ cos φ) + φ̇ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) − θ̇ cos ψsenθ cos φ + ẑ −ψ̇senψsenθ + θ̇ cos ψ cos θ (32) e dê3 dt = x̂ φ̇senθ cos φ + θ̇ cos θsenφ + ŷ φ̇senθsenφ − θ̇ cos θ cos φ − ẑθ̇senθ. (33) Substituindo as Eqs. (29) e (31) na Eq. (24), obtemos h i 2 2 b1 = ψ̇ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) + (−senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ) + cos2 ψsen2 θ + φ̇ [(cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) (−senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ) + (− cos ψsenφ − senψ cos θ cos φ) (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ)] + θ̇ [−senψsenθ cos φ (−senψsenφ + cos ψ cos θ cos φ) + senψsenθsenφ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) + senψ cos θ cos ψsenθ] , 5 isto é, b1 = ψ̇ sen2 ψ + cos2 ψ cos2 θ + cos2 ψsen2 θ + φ̇ cos2 ψ cos2 φ cos θ + sen2 ψ cos θsen2 φ + cos2 ψsen2 φ cos θ + sen2 ψ cos2 φ cos θ + θ̇ − cos2 φsenψ cos ψsenθ cos θ − sen2 φsenψ cos ψsenθ cos θ + senψ cos ψsenθ cos θ , ou seja, b1 = ψ̇ + φ̇ cos θ. (34) Substituindo as Eqs. (30) e (32) na Eq. (25), obtemos c2 = ψ̇senθsenφ (− cos ψ cos φ + senψ cos θsenφ) + φ̇senθsenφ (senψsenφ − cos ψ cos θ cos φ) + θ̇senθsenφ cos ψsenθsenφ − ψ̇senθ cos φ (− cos ψsenφ − senψ cos θ cos φ) − φ̇senθ cos φ (−senψ cos φ − cos ψ cos θsenφ) + θ̇senθ cos φ cos ψsenθ cos φ − ψ̇ cos θsenψsenθ + θ̇ cos θ cos ψ cos θ, isto é, c2 = ψ̇ [−senθsenφ cos ψ cos φ + senθ cos φ cos ψsenφ + senθsenψ cos θ − senψsenθ cos θ] + φ̇ senθsen2 φsenψ − senθsenφ cos ψ cos θ cos φ + senθ cos2 φsenψ + senθ cos φ cos ψ cos θsenφ + θ̇ sen2 θsen2 φ cos ψ + sen2 θ cos2 φ cos ψ + cos ψ cos2 θ , ou seja, c2 = φ̇senθsenψ + θ̇ cos ψ. (35) Substituindo as Eqs. (28) e (33) na Eq. (26), obtemos a3 = (cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) φ̇senθ cos φ + θ̇ cos θsenφ + (cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ) φ̇senθsenφ − θ̇ cos θ cos φ − θ̇senψsenθsenθ, isto é, a3 = φ̇ [senθ cos φ (cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) + senθsenφ (cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ)] + θ̇ [cos θsenφ (cos ψ cos φ − senψ cos θsenφ) − cos θ cos φ (cos ψsenφ + senψ cos θ cos φ) − senψsenθsenθ] , ou seja, a3 = φ̇senθ cos ψ + θ̇ − cos2 θsen2 φsenψ − cos2 θ cos2 φsenψ − senψsen2 θ , ou ainda, a3 = φ̇senθ cos ψ − θ̇senψ. 6 (36) Substituindo as Eqs. (34), (35) e (36) na Eq. (23), obtemos ω = φ̇senθsenψ + θ̇ cos ψ ê1 + φ̇senθ cos ψ − θ̇senψ ê2 + ψ̇ + φ̇ cos θ ê3 . (37) De acordo com a postagem Rotação de um corpo rígido e as equações de Euler, a energia cinética do corpo rígido, no sistema S ∗ , é dada por T = ← → 1 ω · I · ω, 2 (38) onde ← → I = I1 ê1 ê1 + I2 ê2 ê2 + I3 ê3 ê3 . (39) Substituindo as Eqs. (37) e (39) na Eq. (38), obtemos T = 1 1 1 I1 ω · ê1 ê1 · ω + I2 ω · ê2 ê2 · ω + I3 ω · ê3 ê3 · ω, 2 2 2 isto é, T = 2 1 2 1 2 1 I1 φ̇senθsenψ + θ̇ cos ψ + I2 φ̇senθ cos ψ − θ̇senψ + I3 ψ̇ + φ̇ cos θ . 2 2 2 No caso de um corpo com tensor de inércia tal que dois de seus momentos de inércia principais são iguais, digamos, I1 = I2 , obtemos T = 2 1 2 1 2 1 I1 φ̇senθsenψ + θ̇ cos ψ + I1 φ̇senθ cos ψ − θ̇senψ + I3 ψ̇ + φ̇ cos θ , 2 2 2 isto é, T = 1 2 1 2 2 I1 φ̇ sen θsen2 ψ + θ̇2 cos2 ψ + φ̇2 sen2 θ cos2 ψ + θ̇2 sen2 ψ + I3 ψ̇ + φ̇ cos θ , 2 2 ou seja, T = 1 2 1 2 2 I1 φ̇ sen θ + θ̇2 + I3 ψ̇ + φ̇ cos θ . 2 2 (41) Bibliografia [1] Keith R. Symon, Mechanics, terceira edição (Addison Wesley, 1971). 7 (40)