Pulsional Revista de Psicanálise
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Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIII, no 140/141, 12-21
Uma construção de caso
na aprendizagem
Marta D’Agord
ste artigo tem dois objetivos. Em primeiro lugar, apresentar a concepção
de construção do caso em psicanálise segundo as pesquisas recentes
desenvolvidas por Pierre Fédida e colaboradores. Para, em um segundo momento,
aplicar essa concepção a uma situação de aprendizagem com o objetivo de
ampliação da concepção de construção do caso.
Palavras-chave: Construção de caso, aprendizagem, psicanálise e repetição
E
his art i c l e has two purposes. First, to present the concept of case
construction in psychonalysis according to the new investigations developed
by Pierre Fédida and collaborators. Second, to apply this concept to a learning
situation with the purpose of extend this concept.
Key words: Case construction, learning, psychoanalysis, repetition
T
ara compreender o que é pesquisa psicanalítica, uma referência
fundamental é a concepção de construção do caso formulada por Fédida
(1991), segundo a qual “na psicanálise, o caso é uma teoria em gérmen,
uma capacidade de transformação
metapsicológica. Portanto, ele é inerente a uma atividade de construção”
(p. 230).
P
Fédida recupera, acima, as duas grandes
contribuições freudianas para a pesquisa: a
metapsicologia, enquanto teoria do inconsciente, e a construção em análise. A
metapsicologia é a teoria do que está além
(meta) da psicologia da consciência. Mas
é também a teoria do que é hipotético, por
isso Freud utiliza a expressão especulação
metapsicológica para se referir a uma elaboração teórica que se aproxima da ficção.
Uma construção de caso na aprendizagem
Esse processo especulativo consiste na
aplicação de “certas idéias abstratas” na
descrição de fenômenos psíquicos,
idéias que, mesmo guardando em si certo grau de indefinição momentâneo,
gerarão, mais adiante, a significação dos
conceitos e definições. A construção
teórica de Freud originou-se, sem dúvida, das ficções que ele elaborou a
partir da sua escuta dos pacientes em
análise. E não haveria outra forma senão a construção, na medida em que o
objeto da psicanálise, o inconsciente –
como o sabemos – não aparece ao observador diretamente, mas pelo
equívoco, pelo não-dito.
Uma construção em análise é o procedimento de extrair inferências a partir de
fragmentos de lembranças e de associações do sujeito em análise. Esses fragmentos de lembranças não têm sentido em
si mesmos, mas é justamente desse semsentido que eles extraem a sua importância na construção de hipóteses. Nessa
construção tudo se torna significativo,
inclusive a participação do intérprete.
Não é, então, sem relação com a metapsicologia, enquanto ficção de
conceitos, que aparece, na obra freudiana, a idéia das construções em análise.
Isto é, a clínica desafia constantemente
a teoria já construída, as formações do
inconsciente, as formas que o pensamento inconsciente encontra para se
manifestar, também assumem novas
configurações em cada caso. O pesquisador psicanalítico trabalha, então, em
condições sempre mutáveis, inesperadas
e surpreendentes. Por isso ele é desafia-
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do a construir e não a repetir, pois cada
caso exige um novo processo de teorização. E é isso que caracteriza a
pesquisa psicanalítica, a construção teórica a partir de casos, isto é, novas
interpretações para novos fenômenos
psíquicos.
É no sentido de um resgate da concepção
freudiana de construções em análise
para a definição de pesquisa psicanalítica
que interpretamos o texto “Fonctions
théoriques du cas clinique. De la construction singulière à l’exemple sériel”, de
autoria de Catherine Cyssau (1999).
Cyssau situa, primeiramente, a especificidade que adquire a observação em
psicanálise: a observação dos processos
psíquicos não é exterior aos processos
psíquicos observados, isto é, o aparelho psíquico é o objeto observado, o
instrumento de observação e, ao mesmo tempo, é ele que concebe o lugar
fictício da construção metapsicológica.
O caso psicanalítico não se confunde
com a observação clínica. A observação clínica repousa sobre a atenção perceptiva consciente do observador, pois
a meta é a descrição minuciosa dos doentes e de seus sintomas com a finalidade
de recensear os sinais dos quais se deduzirá uma visão sintética da doença. A
observação visa o estabelecimento de
fatos descritivos que serão, a partir de
então, a expressão de um tipo de doença orgânica ou mental.
Diferentemente da observação clínica, o
caso em psicanálise se inscreve em uma
clínica da escuta que privilegia os elementos de apresentação indireta sobre
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os quais a atenção – associativa do paciente, e neutra e flutuante do analista
– não é dirigida. O material que é objeto dessa atenção não dirigida nunca
corresponderá ao conjunto do material
clínico. O caso não será o conjunto da clínica, mas o acontecimento da clínica.
Encontram-se acima duas oposições: a
primeira, entre a atenção perceptiva e
consciente de sinais, e a atenção flutuante que privilegia a “apresentação
indireta”, isto é, a ambigüidade e as hesitações do sujeito falante. A expressão
“apresentação indireta” é utilizada por
Freud (1906c) justamente em um texto
cujo objetivo era delimitar a diferença
entre a psicanálise e a determinação dos
fatos nos processos jurídicos. Isto é,
entre a concepção de busca de uma verdade da qual o sujeito fez segredo e a
busca de uma verdade que está oculta
à consciência do sujeito.
A segunda oposição diferencia uma observação que pretende apreender a
totalidade dos fenômenos de uma escuta
que marca o acontecimento da clínica.
Assim, enquanto a clínica da observação privilegia as características do objeto
observado, a clínica da escuta privilegia um processo do qual faz parte o
próprio psicanalista.
A expressão acontecimento da clínica
remete à construção do caso como o
objetivo de clínica da escuta. Se, a uma
construção do analista, o paciente responde com um “nunca teria pensado
nisso” (Freud, 1937d), trata-se de um acontecimento que vem, por um lado, confirmar a verdade da construção, por
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outro, é um acontecimento no sentido
de abertura do inconsciente. Isto é, aquilo que era desconhecido ou ignorado do
paciente, encontrou o caminho da consciência.
O que surpreendia Freud é que essa forma de confirmação aparecia mais depois
de interpretações isoladas do que depois
das construções amplas comunicadas ao
paciente pelo analista. Isso vem, mais
uma vez, acentuar o aspecto de construção como acontecimento, e que Cyssau (1999) tão bem descreve entre os
três aspectos da clínica da escuta: o evento do fortuito, isto é, o que rompe um
processo; a construção singular do caso
como acontecimento da verdade; e o
exemplo serial, a repetição ou o traço que
se repete em uma série de exemplos.
O evento do fortuito é duplamente importante, pois marca tanto o acaso que
leva à formação de um sintoma quanto
o acaso da sua dissolução via tratamento. Pois é de um ato fortuito que se origina a eleição de um sintoma, e não será
por acaso que será fortuita a figuração
transferencial que apontará para o desejo
inconsciente que constituiu o sintoma.
Cyssau (1999) distingue duas etapas na
construção singular do caso: a produção de uma percepção de um acontecimento psíquico na cura e a construção
da verdade do caso. A percepção do
caso é a modificação que acontece entre o que o paciente diz e o que o analista escuta; entre a tentativa de
transmissão consciente e inconsciente
do paciente e o que o analista recebe
efetivamente ao nível manifesto e in-
Uma construção de caso na aprendizagem
consciente. O que o analista escuta decorre do fortuito e não é arbitrário do
ponto de vista do trabalho psíquico que
ele suscita no analista. Na escuta dos
fragmentos ao acaso, fortuitamente animados sobre a sua própria cena psíquica, o analista produz uma atividade
associativa mnêmica, e mesmo alucinatória e sensorial. Essa produção terá por
função abrir um outro ponto de vista,
uma outra percepção, sobre o relato ou
história do paciente. Esse processo coincidirá com a construção do caso. É,
pois, à contratransferência que o caso
deve a sua construção.
A autora francesa aponta, então, as três
direções da construção do caso em psicanálise:
Na primeira delas, a função do caso é
fazer avançar a prática clínica esclarecendo a estrutura psicopatológica subjacente. Esta é a função do caso clínico
habitualmente reconhecida no campo da
psicanálise e aplica-se, através do estudo de um caso tipo único, à demonstração de hipóteses generalizáveis para
a psicopatologia. Por exemplo, a partir
da exposição do caso Dora, a psicopatologia da histeria é esclarecida por um
funcionamento psíquico de suas leis que
responde ao critério de universalidade e
pode sustentar as regras de reprodução
do método em relação a outros casos
similares de histeria de conversão.
Na segunda via, a construção singular
de um caso está no fundamento das descobertas e da evolução conceitual da
teoria. Nesse sentido, o caso é o evento fortuito, acidental, que acontece na
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clínica e que vem desacomodar a teoria. É onde se produz a aventura da
descoberta, condição prévia incontornável da qual a formulação de hipóteses de
uma pesquisa extrairá suas fontes. O
caso não é aqui o objeto de uma generalização, ele provoca a verdade da
construção. Assim, o caso Dora permite
a Freud descobrir a transferência em ato
no tratamento e lançar as premissas de
uma evolução de seu conceito a partir
do modelo psicopatológico da histeria.
A terceira via da construção do caso em
Freud concerne ao uso do exemplo ou
de uma série de exemplos. O exemplo
torna-se o movimento demonstrativo de
uma curiosidade teórica que faz parte do
método do investigador. O caso serial
torna-se centro e argumento da especulação conceitual que o evento do caso revelou.
O evento do fortuito não é um evento
exclusivo da descoberta em psicanálise,
este tipo de acontecimento está na origem de muitas descobertas científicas,
mas pode-se dizer que a psicanálise valoriza o fortuito, pois a técnica da atenção
uniformemente suspensa (ou atenção
eqüiflutuante) faz com que o psicanalista adote uma atitude de espera de algo
fortuito, casual, acidental.
Ora, se as formações do inconsciente se
formaram casualmente, fortuitamente,
por exemplo uma associação com novos elementos teria dado um novo sentido para um evento passado. Pode-se,
então, afirmar que também fortuitamente
serão encontrados os elementos para
desconstruir essas formações do in-
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consciente. Mas isso valeria apenas para
situações psicanalíticas de tratamento,
ou poderíamos nos referir às situações
cotidianas, como Freud referiu em psicopatologia da vida cotidiana e em os
chistes e sua relação com o inconsciente?
A partir do dispositivo da escuta eqüiflutuante, isto é, da escuta em todas as
direções de sentido, vamos, a seguir,
testar a possibilidade de aplicar a concepção de construção do caso a uma
situação em que o caso é uma construção da pesquisadora a partir da
observação de uma situação de aprendizagem em um contexto escolar.
Trata-se de um grupo formado por sujeitos de onze anos de idade (alunos de
5a série do ensino fundamental) que
realizava uma atividade de projeto de
aprendizagem. O que reunira os sujeitos em grupo era o tema de pesquisa “O
espaço e o sistema solar”.
Desta observação, destacaremos enunciações que se seguiram à pergunta: “O
que fez vocês escolherem esse tema de
pesquisa?”. Um sujeito diz: “Eu ouvi o
nome galáxias, vi que tinha a ver com
o sistema solar e quis aprender o que
era”. É nesse momento que um outro
sujeito, que chamaremos R, lembra que,
na 2a série, queria ter um ioiô galax, “foi
um dos melhores ioiôs que já vi”. Ele
nunca ganhara o ioiô (porque era preciso “juntar não sei quantas tampinhas”)
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mas estava, nesse momento, estudando
as galáxias e “reencontrando” o ioiô:
“Eles botaram galax prá galáxia, porque
ele é assim ó, ele é marronzinho com
um monte de coisas brilhando, o marrom deveria ser o componente, e o
brilhando deveria ser a estrela”.
O menino que devaneava com um brinquedo recriou esse objeto através de uma
pesquisa, onde, aos poucos, foi descobrindo que “as galáxias estão se afastando mutuamente em uma velocidade
proporcional às suas distâncias; que o
universo é composto de galáxias; que
essas são compostas por estrelas, cometas, planetas, meteoros e asteróides
também. E que nós estamos no planeta
Terra, que faz parte do sistema solar que
se localiza em um dos braços (parte
mais visível) da galáxia denominada de
Via-láctea” (enunciados de R. durante o
projeto).
A lembrança de R. mostra que podemos,
hoje, desejar um ioiô. Amanhã, desse
ioiô, restarão apenas os significantes (galax) que nos convocarão a realizar uma
pesquisa (sobre as galáxias). E prosseguimos na perseguição não mais do
objeto, mas das suas metamorfoses significantes. É nesse sentido que Lacan
afirma que o objeto de desejo é metonímico: o objeto de desejo sendo objeto
do desejo do Outro, e o desejo sendo
desejo de Outra coisa.1
1. Essa formulação é proposta por Lacan (1998b) no Seminário Les formations de l’inconscient.
“Il n’y a pas d’objet, sinon métonymique, l’objet du désir étant l’objet du désir de l’Autre, et le
désir toujours désir d’Autre chose, très précisément de ce qui manque, a, l’objet perdu
primordialement, en tant que Freud nous le montre comme étant toujours à retrouver” (p. 13).
Uma construção de caso na aprendizagem
Nesse caso, o ioiô não seria o objeto originário de desejo, mas a sua entrada na
cadeia significante do discurso deve-se
a algum traço que o vinculou metonimicamente ao objeto causa do desejo, o qual
Lacan convencionou chamar de “objeto a”.
Essa análise permite, então, levantar a
hipótese de que a repetição inconsciente, no sentido de experiência de
suspensão e superação (Aufhebung),
seria constituinte do próprio processo de
aprendizagem. Uma insistência repetitiva faz o sujeito reencontrar um objeto
perdido, do qual restaram os significantes. Esses últimos vão dar forma aos
objetos substitutos, entre os quais podem estar os objetos de conhecimento,
enquanto substituição e, ao mesmo tempo, repetição do que foi perdido. A
imagem do ioiô, “um dos melhores que
já vi” atualizou-se ou tornou-se pregnante pelo poder de atração do
significante “galax” sobre as novas imagens ou pensamentos, “galáxia”. Assim,
no processo de pesquisa, o sujeito reencontra e transforma, no sentido da
metabolé grega, isto é, simboliza e elabora, suas lembranças de infância, de
forma a operar uma reescritura sobre
essas lembranças.
O que se repete não é necessariamente
uma situação vivida anteriormente, pois
o decisivo é o retorno a uma cena de
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desejo, isto é, uma cena vivida imaginariamente. Mas essa cena só poderá ser
repetida de outra maneira, e novas maneiras de repetição ainda serão
possíveis, pois o traço unário só pode
ser reencontrado na sucessão de significantes, isto é, nas novas formas em
que o objeto de desejo se constituirá
para o sujeito a cada reencontro.
Na teoria freudiana, há duas referências fundamentais para a análise desse
caso. O conceito de rememoração
como construção e o conceito de repetição ou retorno de cenas infantis. O
primeiro conceito foi apresentado por
Freud na versão de 1896 da estrutura
do aparelho psíquico: “O material presente em forma de traços de memória
estaria sujeito, de tempos em tempos, a
um rearranjo segundo novas circunstâncias – a uma retranscrição”. 2
Portanto, seriam as vivências de um
passado próximo que rearranjariam as
vivências de um passado distante.
O segundo conceito, o de repetição, tem
sua formulação primeira na hipótese de
que os traços de lembranças de cenas
outrora vividas pelo sujeito repetem-se
ou retornam, como foi formulado por
Freud (1900a): “A cena infantil, por não
conseguir uma renovação (Erneuerung),
se satisfaz com o retorno (Wiederkehr)
como sonho”.3
2. “Von Zeit zu Zeit das vorhandenen Material von Erinnerungsspuren eine Umordnung nach
neuen Beziehung, eine Umschrift erfährt. Freud, Briefe an W. Fliess, Carta 112 a Fliess,
6.12.1896, p. 217.
3. “Die Infantilszene kann ihre Erneuerung nicht durchsetzen; sie muss sich mit der Wiederkehr
als Traum begnügen” (Freud, 1900a/1972, Studienausgabe, II, p. 522).
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Assim, teríamos um núcleo formado por
traços de lembrança, isto é, significantes, pronto a exercer atração sobre
novas vivências. Se tomarmos a conceituação freudiana do poder de atração
(Anziehehung) que exercem as representações recalcadas sobre as novas
representações, poderemos formular a
hipótese de que a imagem do ioiô, “um
dos melhores que já vi” atualizou-se ou
tornou-se pregnante pelo poder de atração do significante “galax” sobre um
novo significante, “galáxia”.
O conceito de repetição está ligado ao conceito de no só-depois
(Nachträglich), expressando a hipótese
freudiana de que o acontecimento dois
é que dará sentido ao acontecimento um.
Esse conceito é fundamental na teoria
freudiana do inconsciente. Lacan
(1998a) interpreta o conceito freudiano
de Nachträglich (em francês, aprèscoup) no sentido de retroação de um significante sobre o outro. Essa interpretação está vinculada à teoria do tempo
lógico, com a qual Lacan (1998a) articula sincronia e diacronia, isto é, a sincronia do significante na retroação de
um tempo dois, que faz existir o tempo
um.
Portanto, do ponto de vista psicanalítico, não é possível afirmar que os alunos estivessem livres para escolher o
seu tema de interesse. Essa liberdade
é meramente pedagógica, pois, inconscientemente, não há livre escolha, mas
sobredeterminação. Ou seja, reencontros nunca realizados, mas sempre por
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realizar, pois o objeto causa de desejo é
um objeto perdido, mas sempre por se
apresentar de novo (toujours à retrouver). Este é o sentido da definição lacaniana da repetição como a insistência de
algo que nos constitui, apesar da impressão que sentimos de que se trata de algo
que sempre retorna. Isso se explica pelo
fato de que este objeto está inscrito na
ordem simbólica que nos sustenta e acolhe sob a forma da linguagem, e que superpõe, tanto na diacronia quanto na
sincronia, a determinação do significante
à do significado.
Para explicar essa supremacia do
significante, isto é, a determinação de
significado como efeito no só-depois
(après-coup) em uma cadeia significante, Lacan (1998a) apresenta o
modelo do jogo dos sinais (+) e (-)
lançados aleatoriamente, mas cuja
determinação se revelará como efeito
de uma memória simbólica, na medida em que a série “se lembrará” que
depois de uma tríade de tipo 1 (+ + +
ou - - -) só poderá vir uma tríade de
tipo 2 (+ + - ou - - +).
No caso galax-galáxia, uma insistência
repetitiva (tempo dois) faz o sujeito reencontrar um objeto perdido (tempo
um), do qual restaram os significantes.
A teorização lacaniana permite uma leitura do caso galax-galáxia como um
retorno do objeto (ioiô galax) enquanto
traço que se repete inconscientemente,
ou melhor, tende a perdurar enquanto
não for resolvido – lembramos aqui da
afirmação freudiana sobre o método de
Uma construção de caso na aprendizagem
decomposição e solução de sintomas.4
O significante galax atuou na gênese do
significado galáxia, e, no só-depois, foi
significado, isto é, quando o sujeito
compreendeu que “eles botaram galax
prá galáxia, porque ele é assim ó, ele é
marronzinho com um monte de coisas
brilhando, o marrom deveria ser o componente, e o brilhando deveria ser a
estrela”. A reconstrução aparece na presentificação do ioiô pela expressão “ele
é assim”.
Encontramos aqui as três funções do
tempo lógico em Lacan:
9 instante de ver: “ele é assim ó, ele é
marronzinho com um monte de coisas brilhando”;
9 tempo para compreender: “o marrom
deveria ser o componente e o brilhando deveria ser a estrela;
9 momento de concluir: “eles botaram
galax prá galáxia”.
A experiência passada e a experiência
presente de R. voltam-se uma sobre a
outra em uma forma circular, na medida em que a pesquisa sobre as galáxias
que o jovem R. desenvolve aos 11 anos
foi condição para ele compreender o significado do ioiô galax de sua meninice.
E o resto ou traço significante “galax”,
significante do objeto de desejo, repetiu-se até que sua insistência significante
fosse ressignificada. Assim, está em
questão uma dimensão lógica do tem-
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po, e não a dimensão cotidiana do tempo cronológico.
A mesma situação poderia ser analisada
do ponto de vista do efeito Zeigarnik, de
forma que a hipótese da repetição encontraria um contraponto na Gestalt,
contraponto que vem ampliar o horizonte de compreensão do problema.
O efeito Zeigarnik consiste em um achado experimental de Bluma Zeigarnik.
Essa pesquisadora, aluna de Kurt Lewin,
realizou em 1927 uma pesquisa que
testou a proposição do sistema de tensão de Lewin. O sistema de tensão é um
fator motivacional em que um determinado ato ou conjunto de atos adquire
uma influência diretiva sobre o comportamento até que se dissipe. Os
resultados do experimento mostraram
que uma tarefa não acabada deixa um
estado de tensão, uma quase-necessidade. Completar a tarefa significa resolver
a tensão ou descarregar a quase-necessidade. A vantagem da memória na
tarefa inacabada seria devido à continuação de tensão.
Lacan (1985) encontra, no efeito Zeigarnik, a prova da diferenciação da
aprendizagem animal da aprendizagem
humana. Enquanto a aprendizagem animal apresenta-se como um aperfeiçoamento organizado e finito, isto é, efeito
de maturação. O efeito Zeigarnik demonstra que a aprendizagem humana se
4. Freud expõe no capítulo II de A interpretação dos sonhos: No tocante às estruturas psicopatológicas (fobias histéricas, idéias obsessivas, sintomas em geral), sua decomposição coincide
com a sua solução (Auflösung und Lösung in eines zusammmenfällt).
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dá aos saltos, em função do desejo, o
desejo de voltar às tarefas inacabadas.
Se, afirma Lacan (1985), “no homem,
é a má forma que é prevalente. É na
medida em que uma tarefa está inacabada que o sujeito volta a ela. É na medida em que um fracasso foi acerbo
que o sujeito se lembra melhor dele”
(p. 115).
Lacan mostra que há uma lógica no efeito Zeigarnik: a lógica do resto significante a insistir:
O que na experiência analítica se denomina de intrusão do passado no presente é
da ordem da aprendizagem, isto é, do que
vai ser melhor na próxima vez. E quando
digo que vai fazer melhor da próxima vez
é que vai ser preciso que ele faça algo totalmente diferente (p. 113).
No caso galax-galáxia, algo se repete, e,
em se repetindo, se transforma, isto é,
o galax que, em se transformando em
galáxia, foi ressignificado. Essa seria a
aprendizagem que se dá aos saltos,
como intrusão do passado no presente,
ou como torção dessas duas dimensões
do tempo em que uma é condição para
a outra.
O inconsciente manifesta-se aqui segundo o modo da repetição de um traço que
perdura. Essa repetição age até a sua resolução: a resolução é a aprendizagem.
Em termos freudianos, encontramos um
derivado inconsciente atuando no mesmo sentido (gleichsinnig) que uma
formação pré-consciente. A aprendizagem, nesse caso, seria efeito de uma
formação do inconsciente, como aque-
Pulsional Revista de Psicanálise
la da formação do sonho (Bildung des
Traum).
As formações do inconsciente nas situações construtivistas de aprendizagem
convocaram a pesquisadora a uma escuta do que insistia nos enunciados dos
sujeitos participantes das situações
construtivistas de aprendizagem: o inconsciente. A escuta, no caso galax-galáxia, foi uma escuta psicanalítica
dirigida pelo olhar, como propõe Caon
(1996).
A escuta dos enunciados dos participantes das situações de aprendizagem conduziu a uma teorização (metapsicologia)
para dar conta do que se anunciava e
enunciava para além dos conteúdos ou
da intenção comunicativa dos sujeitos,
ou seja, as formações do inconsciente.
Assim, no interior do próprio processo
de pesquisa, isto é, da escuta dos enunciados que apareciam em cada uma das
situações de aprendizagem em que a
pesquisadora se inseriu como observadora participante, foi se delineando uma
interpretação dos enunciados enquanto
formações inconscientes.
Essa interpretação consistiu em uma
construção da hipótese metapsicológica
da aprendizagem como uma formação
do inconsciente. Esta hipótese surgiu
como uma elaboração a partir da escuta e da análise dos enunciados dos participantes das situações de aprendizagem. A escuta psicanalítica dirigida pelo
olhar é, então, um método que produz
um processo de elaboração metapsicológica no pesquisador. „
Uma construção de caso na aprendizagem
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____ . Edição standard brasileira das
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____ . Obras completas. Buenos Aires:
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LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 2. O
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____ . Escritos. Rio de Janeiro: Jorge
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____ . Le Seminaire. Livre V. Les
formations de l’inconscient. Paris:
Seuil, 1998b.
Artigo recebido em outubro/2000
Revisão final recebida em novembro/2000
Fique por dentro dos acontecimentos da área psi,
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