FUNDAMENTO PEDAGÓGICO DA GESTÃO DO
CONHECIMENTO, SEGUNDO PAULO FREIRE
Regina Coeli Barbosa Pereira
Doutora em Filosofia pela UFRJ
Membro do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa” da UFJF.
Professora da Faculdade de Educação da UFJF.
[email protected]
Rosilene de Oliveira Pereira
Doutora em Filosofia pela UFRJ.
Membro do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, da UFJF.
Professora da Faculdade de Educação da UFJF.
[email protected]
Paulo Freire renovou os conceitos educacionais no Brasil. O pedagogo e pensador
pernambucano entendia a educação como um processo dinâmico em que o homem se descobre a
si mesmo, se aceita como pessoa e se firma como ser livre, no inter-relacionamento com os
outros e com o mundo. Freire deitou, assim, os fundamentos para uma gestão humanista e aberta
do conhecimento, superando definitivamente o viés positivista, que tenta identificar as pessoas
como fichas a serem manipuladas pelas instâncias de poder, no seio da sociedade.
No presente trabalho analisaremos os principais aspectos da proposta educacional de
Paulo Freire, destacando os pontos que tornam dele o grande sistematizador de uma nova forma
de entender a gestão do conhecimento, alicerçada na idéia e na prática da liberdade, bem como
no contexto de um pensamento crítico que valoriza a ação libertadora dos sujeitos educandos.
Seis aspectos serão desenvolvidos: 1) O sujeito da educação, segundo Paulo Freire; 2) a
educação como prática da liberdade; 3) sujeito humano e libertação; 4) melhoria da
humanidade e pedagogia crítica; 5) a educação problematizadora; 6) técnicas educativas e
educação libertadora.
2
O pedagogo e pensador pernambucano Paulo Freire, uma
das mais destacadas figuras mundiais no universo da
educação, no século XX.
1) O sujeito da educação, segundo Paulo Freire.
No sentir do pedagogo pernambucano, não é possível pensar a educação senão
identificando o homem como sujeito do processo educativo. Sua vocação ontológica é de ser
sujeito e neste sentido só pode ser encarado como um ser ativo, dinâmico, coparticipante do
processo de sua formação.
É preciso considerar o homem do ponto de vista de sua educabilidade, de seu
aperfeiçoamento, no seu vir-a-ser constante. Sua educação deve ser um processo consciente de
tomada de decisões para que possa fazer uso pleno de suas potencialidades e capacidades.
A vida humana, para Paulo Freire, é diferente da vida animal porque o homem se
apresenta como possibilidade de transcedência, de ultrapassagem dos obstáculos que o
aprisionam à finitude do mundo sensível.
O homem não nasce com um fim determinado, estabelecido a priori, mas, goza de
liberdade plena para criar-se a si próprio, aperfeiçoar seu ser homem, conforme suas inclinações.
O sujeito humano faz parte do mundo vivido, sendo dele o seu centro. Não pode
simplesmente ser considerado um sujeito que conhece. Mas, é antes de tudo, um sujeito que vive
e age, que constrói uma cultura, que edifica uma história, que cria valores e determina os seus
rumos e os da sociedade. Portanto, deve ser caracterizado pelos seus poderes, suas capacidades,
seus projetos.
O homem não é uma coisa no meio de outras coisas, nem interioridade fechada. Realiza
o seu EU “saindo de si, existindo com o outro”.
3
Conforme Paulo Freire, à medida que os homens exercem sua ação eficaz sobre o mundo,
transformando-o pelo seu trabalho, refletindo sobre seu fazer vão tomando consciência de si e do
mundo e se constituindo em sujeito de seu próprio ser.
O homem precisa de uma educação que lhe propicie o reencontro com sua própria
natureza; uma educação do homem e não apenas do aluno, em situação escolar. Isso exige uma
ruptura, uma desestruturação e reestruturação não só dos modos de pensar a educação, mas o
estabelecimento de novos interesses, de novos valores.
Este não é um processo natural nem espontâneo, mas que requisita esforço e
determinação; confiança plena na capacidade do ser humano; competência do educador para que
possa orientar, abrir perspectivas, mobilizar forças que vão impulsionar tal processo.
O filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (17121778) formulador da pedagogia moderna, alicerçada
na idéia de educação para a liberdade.
2) A educação como prática da liberdade.
A educação em Paulo Freire deve realizar-se como prática da liberdade. Os caminhos da
libertação só comportam sujeitos livres e a prática da liberdade só pode se concretizar numa
pedagogia em que o oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se
como sujeito de sua própria destinação história.
Nas palavras de Freire, a hominização não é adaptação. É um processo que acontece
quando o homem humaniza o mundo. A intencionalidade de sua consciência tem uma dimensão
que vai além dos horizontes que o circundam e permite-lhe ultrapassar os momentos e as
situações; criar, transcender.
4
Segundo Freire o homem precisa aprender a dizer a sua palavra, o seu pensar, pois só
assim assume sua essencial condição humana.“O diálogo fenomeniza e historiciza a essencial
intersubjetividade humana”. Permite ao homem criar a sua identidade, expressar seu ser,
transportar-se do mundo sensível para o mundo inteligível, mundo humano.
De acordo com Paulo Freire, a partir do momento que o homem perde a capacidade de
optar e vai se submetendo às prescrições alheias que o minimizam e agindo pelas decisões de
outrem, ele não se integra. Acomoda-se. Ajusta-se. Entretanto, o homem integrado é o homem
sujeito. A adaptação é um conceito passivo, a integração ou comunhão, ativo. Este aspecto
passivo se revela no fato de que o homem não seria capaz de alterar sua realidade, pelo contrário,
altera-se a si para adaptar-se. A adaptação daria margem apenas a uma débil ação defensiva. Para
defender-se, o máximo que faz é adaptar-se.
3) Sujeito humano e libertação.
A dominação não comporta um homem-sujeito. A libertação requisita o respeito à
subjetividade humana. Por isso, o homem precisa fazer-se sujeito. Inicialmente vai desvelando o
mundo da opressão e vai comprometendo-se na práxis, com a sua transformação.
Fazer-se sujeito, liberar-se é o sentido maior do compromisso histórico que se tem para
com o homem é participar de uma práxis humanizadora. É propiciar à educação atingir a sua
essencialidade.
Para ser sujeito é preciso soltar as amarras, ousar vôos de liberdade. E a liberdade é
conquista que exige uma permanente busca, para que se possa superar a situação opressora. É,
portanto, um ato de coragem, de ousadia. Implica o reconhecimento crítico da situação, para que
através de uma ação transformadora possa encaminhar-se na busca do ser mais. Para ser sujeito é
necessário, portanto, sair do estado de opressão para participar do mundo humano, fraterno.
A educação é o veículo que conduz o homem na conquista de sua subjetividade, para que
possa comandar o seu destino e determinar suas ações. A subjetividade é a grande conquista do
5
homem. A tarefa do educador prima por fortalecer uma idéia de sujeito, na criação do homem
por ele mesmo,visando formar e transformar sua natureza.
Possibilitar ao homem a conquista de sua subjetividade é para Paulo Freire um ato de
amor necessário que precisa ser vivido em sua plenitude na sua existenciação, na sua práxis.
A educação é o instrumento que possibilita essa conquista e neste sentido assume amplo
significado, ou seja, torna-se uma “educação do homem”. É necessário que se crie condições que
facilitem a aprendizagem do aluno a fim de que possa liberar a sua capacidade de aprender,
adquirir por si os conhecimentos. É necessário, portanto, uma educação libertadora.
A educação ganha nova dimensão com a mudança de ênfase do sujeito no processo
educativo, pois ela não poderá mais ser baseada no domínio de livros e fórmulas, mas a partir da
construção do conhecimento pelo próprio educando.
“A educação, portanto, implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem, uma
busca permanente de “si mesmo” com outras pessoas que também procuram “ser mais” e em
comunhão com outras consciências”.1
A educação libertadora, problematizadora como situação de conhecimento exige a
superação da contradição educador – educando, sem a qual não é possível a relação dialógica.
Certamente elimina a “educação bancária” que nega o diálogo como essência da educação e
elege uma concepção problematizadora de educação que busca a emersão das consciências para
a inserção crítica do homem na realidade concreta.
A educação problematizadora oferece oportunidade para que os educandos possam
tornar-se pessoas de iniciativa, de responsabilidade, de compromisso, de determinação; que
sejam capazes de aplicar ás novas situações os conhecimentos adquiridos; que sejam críticos e
reflexivos antes de qualquer iniciativa.
1
FREIRE, P. Educação e Mudança. P.28
6
Esse tipo de educação valoriza a busca progressiva da autonomia em que o indivíduo
procura dar regras a si próprio.
O homem precisa ser educado para usar convenientemente sua liberdade, pensar e agir
crítica e reflexivamente. A educação do homem se constitui em instrumento de sua humanização,
contribuindo para que seja capaz de pensar por si, descobrir, inventar e construir. É preciso
aprender apensar para que possa orientar-se pelo próprio pensamento aperfeiçoar em si sua
autonomia e constituir-se como um ser livre, pois é só decidindo sua própria orientação que o
homem se torna livre e se faz sujeito de seu próprio ser.
A educação é possível para o homem, porque este é inacabado.
Segundo Paulo Freire:
o homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se
num determinado momento, numa certa realidade: é um
ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer
esta auto-reflexão. Pode descobrir-se como um ser
inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz
da educação.2
A educação deve acontecer de forma natural, seguindo gradativamente cada etapa da vida
do ser humano. Educação é vida e com ela se mistura de forma indissociável. Ao educador cabe
considerar o ser em formação com as particularidades próprias de cada um. O homem não nasce
pronto, ele se constrói a cada momento. Educar para a subjetividade é uma arte que requisita
habilidades específicas daquele que a pratica. A arte da educação é a arte de formar homens, é
processo que faz ao longo da vida. Por isso, o educador precisa ter consciência de suas ações,
dos efeitos que podem provocar na constituição de um novo ser; precisa agir considerando este
ser em formação como “pessoa humana”.
O homem é aquilo que a educação faz dele. Por isso é preciso oferecer a ele uma
educação que considere sua subjetividade, seu desenvolvimento pleno como sujeito humano.
2
FREIRE, P. Educação e Mudança. P.27
7
Muito se poderia avançar no progresso da humanidade se ao homem fosse oferecida uma
educação humanizadora, que visasse o desenvolvimento total de suas potencialidades. Portanto,
a direção das escolas deveria depender da decisão de pessoas competentes e comprometidas com
a educação, com o saber, com o outro e com a própria humanidade. Como podem os educadores
oferecer uma educação problematizadora, libertadora se não foram educados nesse sentido? É
necessário que o mestre apresente características que o habilitem a desenvolver uma prática
transformadora. Para educar é preciso que já se tenha sido educado, que demonstre perceber o
significado mais profundo da educação; que se comprometa com a espécie humana para um
estado futuro melhor da humanidade.
Capa da obra de Paulo Freire Pedagogia da
Autonomia, publicada pela Editora Paz e Terra, do
Rio de Janeiro.
4) Melhoria da humanidade e pedagogia crítica.
A melhoria da humanidade deve ser o princípio norteador de toda pedagogia. O homem
precisa ser educado para se construir em um membro ativo da sociedade, ter a consciência crítica
desenvolvida, usufruir de sua liberdade. Pois, é o próprio homem, por meio da educação que faz
desabrochar em si sua liberdade. O homem não pode ser livre senão por meio da educação, a fim
de que possa desenvolver suas disposições naturais, sua razão.
Uma pedagogia cuja ação é levar, transferir, depositar algo no educando, certamente se
guiará por princípios mecanicistas que negam a subjetividade do educando.
Todas as representações e conceitos pelos quais o homem conhece o mundo são criados
pelo próprio homem. Ele é o autor de seu pensamento e de suas ações. Por isso a verdadeira
educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. É preciso atuar sobre a realidade,
explorar suas mais amplas possibilidades para conhecê-las e desenvolver a si próprio.
8
A pedagogia do oprimido busca a restauração da subjetividade; se apresenta como
pedagogia do homem, que desencarna a opressão. É instrumento de humanização. E como
pedagogia humanista e libertadora comporta dois momentos:
O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o
mundo da opressão e vão comprometendo-se, na práxis,
com a sua transformação; o segundo, em que,
transformada a realidade opressora, esta pedagogia
deixa de ser oprimido e passa a ser a pedagogia dos
homens em processo de permanente libertação.3
A pedagogia dos oprimidos é importante tanto para a libertação dos oprimidos como dos
opressores. Os opressores, no momento em que proíbem que os outros sejam sujeitos não podem
também sê-los. Assim, ao se retirar dos opressores seu poder de dominação, de violência, de
opressão lhe é restaurada a humanidade perdida no uso da opressão. A educação, ao tornar o
oprimido sujeito, torna também o opressor. A prática da liberdade deve acontecer para ambos.
“somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores”.4
Essa superação faz surgir o homem novo; não mais opressor, não mais oprimido, mas o
homem livre, humanizado.
Uma educação libertadora propicia ao oprimido, através da reflexão e da ação, a
compreensão da dependência dos opressores para transformá-la em independência para ambos. A
luta na superação da contradição opressor – oprimido exige sua compreensão e responsabilidade
total daqueles envolvidos nesse processo. O compromisso do educador nessa luta é crucial, uma
vez que a educação é a ferramenta capaz de propiciar ao homem sua formação humana.
O homem tende a captar uma realidade, fazendo-a objeto de seus conhecimentos. Assume
a postura de um sujeito cognoscente de um objeto cognoscível. Isto é próprio de todos os homens
e não privilégio de alguns (por isso a consciência reflexiva deve ser estimulada conseguir que o
educando reflita sobre sua própria realidade).
3
4
FREIRE, P. Educação e Mudança. p. 41
FREIRE, P. Educação e Mudança. p. 43
9
A propaganda, o dirigismo, a manipulação, como armas de dominação não podem ser
instrumentos para a formação do cidadão crítico. Quando se tem uma opção libertadora o homem
não se persuade e nem se submete à força mítica da propaganda.
O primeiro contato do homem com o objeto cognoscível não acontece por meio da
consciência crítica. Sua primeira aproximação espontânea com o mundo se faz por meio da
consciência ingênua. O desenvolvimento da consciência crítica requisita que se ultrapasse essa
esfera espontânea da apreensão da realidade para que o homem, numa posição epistemológica,
possa adentrar-se nessa realidade e conhecê-la em profundidade.
A inserção crítica do homem na história requisita que assuma o papel de sujeito que
constrói o mundo e crie sua existência como ele lhe oferece.
Um educador precisa orientar o aluno, passo a passo, no desenvolvimento de sua
consciência uma vez que este ato não é espontâneo. Só assim será possível seu desenvolvimento
como pessoa humana e sujeito construtor da realidade.
Emmanuel Mounier, o pensador francês autor da
Teoria Personalista, que influenciou na concepção
pedagógica de Paulo Freire.
A consciência é desenvolvida por meio da educação problematizadora, cujo processo
requisita a devida competência político – pedagógica do educador. É preciso saber por que, para
quem e como ensinar, ou seja, orientar o processo educativo com fins definidos, crítica e
conscientemente.
A consciência crítica do educando se desenvolve portanto numa relação com o mundo de
forma crítica. Nessa situação os educandos vão se esclarecendo acerca das dimensões obscuras da
realidade e fazendo com que a antiga realidade intocável possa se desvelar e se transformar com
seu poder de determinação.
10
“O homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre seu ambiente
concreto. Quanto mais refletir sobre a realidade, sobre sua situação concreta, mais emerge,
plenamente consciente, comprometido, pronto a intervir na realidade para muda-lá”.5
Uma educação que procura propiciar ao educando a compreensão da realidade liberta-o ao
invés de submetê-lo. Por isso, a educação do aluno tem que ser um ato consciente, institucional,
comprometido com ele e com a sociedade.
A ação humanizante do educador tem que ser desmistificação, de conscientização sobre os
mitos que enganam e que ajudam a manter o processo da dominação na sociedade.
A educação como prática da dominação, “ mantendo a ingenuidade dos educandos, o que
pretende em seu marco ideológico (nem sempre percebido por muitos dos que a realizam) é
indoutriná-los no sentido de sua acomodação ao mundo da opressão”.6
Uma educação que considera o homem como sujeito não pode começar por aliená-lo ou
mantê-lo alienado. Não aceita uma concepção mecânica de consciência e não a vê como algo
vazio a ser preenchido.Um educador com esta visão, acredita que a consciência do homem é
desenvolvida e reconhece a responsabilidade da educação nessa empreitada; a reconhece como
consciência intencionada ao mundo; desenvolvida nas relações do homem com o mundo.
Alienar o homem de suas decisões, transferi-las a outros é fazer dele objeto, é ter com ele
um ato de violência do qual a educação não pode participar, pois perde seu objetivo que é a
humanização do homem.
Capa da edição Francesa do tratado intitulado Le
Personnalisme, do filósofo Emmanuel Mounier,
publicado pela Editora Presses Universitaires de
France.
5
6
FREIRE, P. Conscientização. p. 35
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p. 66
11
5) A educação problematizadora.
A educação problematizadora, enquanto um que-fazer humanista e libertador deve oferecer
aos homens submetidos à dominação as ferramentas necessárias à luta por sua emancipação.
A educação em que “educadores e educandos se fazem sujeitos do seu processo, superando
o autoritarismo do educador bancário”, supera também a falsa consciência do mundo.7 A
concepção problematizadora da educação não pode servir ao opressor, porque permite ao homem
ser sujeito de seu próprio existir, propiciando-lhe o engajamento à vida social de forma crítica e
reflexiva.
Educador e educandos não são considerados contrapostos. O educador “reconhece na
absolutização da ignorância daqueles a razão de sua existência. Os educandos alienados por sua
vez à maneira do escravo na dialética hegeliana, reconhecem em sua ignorância a razão da
existência do educador”.8 Essa forma de educação promove a superação da contradição educador
– educando e faz com que ambos, simultaneamente, se tornem educadores e educandos.
Uma educação que impõe a passividade ao educando estimula sua ingenuidade, impede
sua criticidade e um pensar autêntico. Quanto mais exercita o educando no arquivamento dos
depósitos que lhe são feitos tanto mais impede sua inserção no mundo do sujeito.
Nessa perspectiva, o educador considera a consciência dos homens como “algo
especializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. A consciência como se fosse
alguma seção “dentro” dos homens mecanicistamente, passivamente aberta ao mundo que a irá
“enchendo” de realidade. Uma consciência continente a receber permanentemente os depósitos
que o mundo lhe faz, e que, se vão transformando em seus conteúdos”.9
Nessa visão, os homens são passivos por natureza e cabe à educação torná-los cada vez
mais passivos, mais dóceis, mais dependentes. O que se pretende com essa educação é dificultar o
pensar autêntico do educando e colocá-lo num estágio máximo de submissão, levando-a perder a
7
8
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p. 75
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p. 59
12
posse da realidade. Pretende inibir seu poder de criar, de atuar, obstacularizando a atuação dos
homens como sujeito de ação, de opção, de tomada de iniciativa.
Conforme Paulo Freire, essa ação do educador torna o educando inibido, incapaz e infeliz.
A negação do homem abstrato, isolado, descontextualizado implica ao educador empenhar-se na
desmitificação do educando, recuperar a humanidade que lhe foi roubada; uma tomada de posição
que certamente o eternizará.
Ao propiciar ao educando a tomada de consciência da situação, o educador oferece-lhe
instrumentos capazes de desnudar a realidade, ao mesmo tempo que permite-lhe substituir a
consciência ingênua pela consciência crítica. Derruba-se o “mito de inferioridade ontológica”.10 O
homem deixa de reconhecer-se inferior para descobrir sua superioridade, seu valor como pessoa
humana, como ser social, cultural e político. Sua experiência existencial ganha nova dimensão. Já
não há mais medo, porque a coragem passa a ser “couraça” do educando consciente. Põe abaixo a
postura fatalista de homem e lhe dá a força necessária (o saber) para enfrentar qualquer desafio ou
situação que o reduza à qualidade de objeto.
Um educador humanista que identifica sua ação com a do educando, que o considera
sujeito de sua educação propicia um pensar autêntico e não lhe oferece como doação um saber
pronto, acabado. Sua ação se funda na crença do poder criador do aluno, em sua possibilidade de
transcendência. Não o considera um espectador e nem tenta domesticá-lo. Estimula sua ação.
“Mas a ação só é humana quando, mais que um puro fazer é um quefazer, isto é, quando também
não se dicotomiza da reflexão”.11
Através de metodologias que contem com a participação ativa do educando, com o seu
envolvimento na busca do saber, da descoberta da realidade, o educador propiciará ao aluno sua
condição de sujeito do processo educativo e sua libertação da dependência do domínio de outrem.
9
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p.63
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p. 40
11
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. p. 63
10
13
A educação que supera o “intelectualismo alienante” do educador bancário supera também
a falsa consciência do mundo do educando.
“Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito e somente enquanto
sujeito, que o homem pode realmente conhecer.12 O conhecimento exige uma presença curiosa,
indagadora do sujeito cognoscente. Requer sua atuação, seu fazer reflexivo, crítico para que o
homem possa conhecer não só a realidade e os condicionantes que nela interferem, mas também a
si mesmo nesse contexto.
A verdadeira aprendizagem requisita participação ativa do educando na busca do saber, a
fim de que possa aprendê-lo, reinventá-lo a situações existenciais e concretas.
Essa educação vai propiciar uma mudança substancial no educando uma vez que agindo
transforma a realidade e a si próprio. Educador e educando precisam assumir o papel de sujeitos
cognoscentes mediatizados pelo objeto na busca de sua própria transformação.
“O homem é um ser da “práxis”; da ação e da reflexão. Só a ele é dada a possibilidade de
atuar, transformar, construir a realidade, reconhecendo-se sujeito dessa transformação. Por isso, a
prática pedagógica, educativa não pode se construir em fazer mecânico. O educador deve
substituir procedimentos mágicos por técnicas que propiciem a compreensão da realidade, o que
para Paulo Freire deve se dar de forma “admiradora” e não “aderida”. O educando deve captar os
nexos que prendem um fato ao outro sem misturar-se a eles; pelo contrário, deve reconhecê-los
distanciados de si, embora presentes em sua realidade.
O que não se pode permitir é a captação da realidade de forma ingênua, desarmada de
conhecimento científico. É preciso tentar superar a aquisição do conhecimento de forma
preponderantemente sensível pelo uso da razão. Melhor dizendo, na busca do conhecimento, o
educando deve partir do sensível para alcançar a razão da realidade. É preciso que o educando vá
até as coisas, explore-as, situe entre elas para estabelecer com elas a relação sujeito – objeto. Por
isso, acredita-se que este educando deva ter a oportunidade de agir, de explorar os objetos, as
14
situações, de fazer comparações para que possa aprender de forma autêntica e se tornar sujeito de
sua educação.
O filósofo francês Jacques Maritain, autor do clássico
intitulado Humanismo Integral, que influiu na teoria
educacional de Paulo Freire.
6) Técnicas educativas e educação libertadora.
Paulo Freire aconselha ao educador o uso de técnicas adequadas ao encaminhamento do
processo ensino–aprendizagem, mas adverte-os sobre o seu uso pois, para ele, as mesmas técnicas
que humanizam o educando, podem desumanizá-los, domesticá-los. O uso adequado das técnicas
educativas vão expressar o posicionamento filosófico-ideológico do educador, sua compreensão
sobre o sujeito da educação.
A problematização, o diálogo, a experimentação, a ação reflexiva do educando é que o
torna centro do processo educativo e autor de sua aprendizagem.
É preciso uma educação do interesse, da curiosidade, em oposição ao esforço artificial, o
conhecimento como desenvolvimento interno, a educação pela ação em vez da passividade. O
objetivo do trabalho educativo deve supor sempre um propósito. Não deve ser o de ensinar muitas
coisas, mas impedir que sejam adquiridas idéias que não sejam claras, fatos que não sejam
compreendidos.
O educador que acredita que o educando possa ser sujeito da própria aprendizagem
certamente terá mais condição de propiciar sua ação sobre o objeto do conhecimento, facilitar sua
apreensão, suas descobertas, a formação de idéias.
Para Paulo Freire,
12
FREIRE, P. Extensão e Comunicação. p. 27
15
“Em todo homem existe um ímpeto criador, O ímpeto de criar nasce da inclusão do
homem. A educação é mais autêntica quanto mais desenvolve este ímpeto ontológico de criar. A
educação deve ser desinibidora e não restritiva. É necessário darmos oportunidade para que os
educandos sejam eles mesmos”.13
O educador deve ser um mediador, um facilitador na busca do saber, um indagador
constante, O pensamento crítico faz com que o sujeito não se submeta a um objeto pré-dado, mas
leva-o a elaborar o conhecimento. É preciso que se ensine a pensar ao invés de se transmitir idéias.
O verdadeiro conhecimento só pode ser produzido se alicerçado na liberdade, na verdade e na
própria ação do indivíduo. Isso faz com que a aprendizagem se torne significativa e duradoura e o
aprendiz adquira o desejo na busca do saber e se torne estimulado em produzir o próprio
conhecimento.
A liberdade é o primeiro de todos os bens e o princípio fundamental da educação. Só ela
propicia ao homem a transcendência, a independência ante os outros homens. A liberdade é a
faculdade de se determinar a agir como inteligência e faz com que o homem seja sujeito de seu
próprio ser.
Capa da edição norte-americana da obra
de Paulo Freire intitulada Education and
Democracy.
13
FREIRE, P. Educação e Mudança. p. 32
16
Referências Bibliográficas.
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
_______. Pedagogia da Esperança – um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 9a.
Edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
_______. Extensão ou Comunicação? 12a. edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
_______. Pedagogia do Oprimido. 35a. edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
_______. Conscientização: teoria e prática da libertação - Uma introdução ao pensamento de
Paulo Freire. São Paulo: Moraes, 1980.
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