GÊNERO E TRABALHO: AS NOVAS FORMAS DE (RE)INSERÇÃO DAS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO Daniela Silva Patrício* INTRODUÇÃO A história do movimento feminista nos mostra que a luta pela igualdade de gênero está sempre contextualizada de acordo com o momento histórico e os diferentes lugares em que está inserida. Nas palavras de Costa: Os feminismos, ainda que tão diferentes em suas trajetórias, mostram sua vitalidade e enorme força de propagação de idéias libertárias e igualitárias nos momentos em que o poder social das mulheres, em luta por esse ou aquele direito social, vem a público. A força desses movimentos não tem resultado apenas da precisão de noções e conceitos germinados em estudos acadêmicos, mas da consonância que guardam com aspirações femininas difusas e com certo grau de consciência de gênero em diversos lugares e épocas (2004). Desta forma, é impossível pensar no movimento de mulheres dissociado das tendências de articulação de cada sociedade, em determinada época. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, notamos que a sociedade, de modo geral, precisou encontrar uma forma de atender às demandas socioeconômicas que, nem o Estado, nem a iniciativa privada, conseguiam atender. Surge então o “terceiro setor”, ou o que chamamos comumente de organizações não-governamentais (as ONGs). Como nos informa Buarque & Vainsencher: (...) O desmantelamento das ditaduras nos países subdesenvolvidos, propiciando o surgimento de novos sujeitos políticos, a quebra do bloco socialista, a discussão referente ao papel do Estado, diante das novas territorialidades definidas pelos mercados, a revolução das comunicações transformando a informação em um bem de primeira grandeza e, em última instância, a globalização, como um processo inexorável, incidiram sobre a matriz do Sistema Internacional de Cooperação ao Desenvolvimento, e se constituíram nas grandes questões que insuflaram o debate sobre uma “terceira * Mestranda em Sociologia pela Faculdade de Ciências e Letras- Unesp/Araraquara. Email: [email protected]. via” para o desenvolvimento. Através desse conjunto de fatores, resgata-se a dimensão social do conceito de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que se idealiza a redução do papel do Estado, como ‘valor universal’(2001). Estas ONGs vêm ocupando espaço significativo nos últimos anos, incorporado demandas de grupos específicos da sociedade, como a defesa do meio ambiente, das crianças e adolescentes e das mulheres. O movimento de mulheres, através de sua incorporação por organizações não-governamentais, vem conseguindo avanços na luta contra a desigualdade de gênero. Por outro lado, entretanto, é importante problematizar a ação destas ONGs, suas formas de financiamento e seus resultados efetivos na tomada de consciência por parte da sociedade em relação às questões de gênero. Com relação ao financiamento de projetos, notamos que, desde a origem destas organizações, existe uma consonância entre elas e os organismos de cooperação internacional. Notamos também que um dos eixos centrais de atuação destas ONGs feministas está na proposta de qualificação e geração de renda, muitas vezes direcionada para a (re)inserção das mulheres, vitimadas pela violência e/ou pobreza, no mercado de trabalho. OBJETIVOS Nosso objetivo é problematizar a incorporação das temáticas de gênero pelas ONGs, através da análise de projetos selecionados, privilegiado aqueles voltados para a capacitação e educação das mulheres com objetivo de promover ações geradoras de renda. Com isso, pretendemos verificar se esta intervenção traz conseqüências positivas ou negativas para a construção de relações de gênero mais igualitárias e no limite, problematizar a lógica de (re)inserção destas mulheres no mercado de trabalho através destes projetos de qualificação e geração de renda. São exemplos concretos desta prática ONGs como a Casa da Mulher do Nordeste, cuja missão institucional é “contribuir para o empoderamento das mulheres excluídas, a partir da perspectiva feminista, através de processos educativos de geração de renda e de intervenção nas políticas públicas”. Esta perspectiva está presente em 14% das ONGs que entendem como sua “missão” tanto a educação quanto capacitação das mulheres envolvidas em seus projetos (NOVELLINO,2006). METODOLOGIA Para tanto escolhemos a abordagem qualitativa tendo por base, inicialmente, a análise de projetos de ONGs, a serem selecionados. Desta forma entendemos que será possível estabelecer um fio condutor, para entender de que forma a lógica do trabalho é incorporada por estas organizações. Num segundo momento buscaremos compreender os resultados efetivos destas ações por meio de analise de relatórios e, finalmente, entrevistas semi-dirigidas com o público-alvo das ONGs em questão.Queremos com isso perceber se há ou não divergências entre o discurso das instituições e a avaliação da comunidade a que se destina as ações propostas. RESULTADOS O Conceito de gênero O conceito de gênero permite pensar em relações que não são fixas, ao contrário, estão o tempo todo em tensão, de forma que homem e mulher têm posições de relativa mobilidade no campo social. Sendo assim, as identidades, primariamente sexuais, são construídas de uma forma cada vez mais social, na medida em que ocorre um movimento de desnaturalização do sexo. O conceito de relações sociais de sexo é utilizado pela Sociologia francesa e responde pela construção social das diferenças entre os sexos, pressupondo uma hierarquia social e uma relação de dominação e poder entre eles. O conceito de gênero, mais utilizado nos estudos de língua inglesa, também corrobora essa idéia, buscando ultrapassar as definições da ‘categoria homem/mulher como uma oposição binária que se auto reproduz... sempre da mesma maneira’, o que implica refutar sua constituição hierárquica natural (...) (SCAVONE, p.24, nota de rodapé n°9; 2004). Essas identidades, que se constroem em contraposição uma a outra, acabam por favorecer a naturalização das desigualdades socialmente constituídas, na medida em que prescreve ações “típicas” esperadas para cada sexo. Não podemos ignorar os esforços feitos ao longo dos tempos para tornar essas relações mais igualitárias. A história dos movimentos feministas se confunde com a própria história da luta pela igualdade entre os sexos. É importante ressaltar que esta divisão histórica não é estanque como nos informa Scavone: Embora possamos estabelecer esta relação temporal com períodos e lutas distintos, estas fases não são fixas e dependem da situação histórica e política de cada sociedade, o que nos leva a deduzir que a segmentação histórica não pode ser aplicada com rigor às diferentes realidades (2004, p.15-16). Entre os séculos XVIII e XIX, paralelamente a uma tendência política liberaldemocrata, o movimento feminista tinha um cunho reivindicativo, ou seja, o que se pretendia neste momento era a conquista de direitos de cidadania; Este foi o chamado feminismo igualitário, que lutava por igualdade entre os sexos na vida pública. Na década de 60, mais precisamente depois de 1968, começam a emergir as questões da vida privada, e percebe-se que o preconceito de gênero está no seio da família. O espaço da vida privada passa a ser observado como um âmbito político e econômico e conseqüentemente, campo de desigualdades, já que a divisão sexual do trabalho permeia toda a sociedade. O que hoje chamamos de feminismo contemporâneo ou pós-moderno, que tem como expressão intelectuais feministas como Judith Butler por exemplo, nos demonstra como a identidade no mundo contemporâneo não passa pela determinação biológica, mas é fluída e socialmente marcada. Segundo Butler, o gênero deve ser considerado como performativo, por não ser uma afirmação ou uma negação, mas sim uma construção que ocorre através da repetição de atos correspondentes às normas sociais e culturais. Sendo assim, um gênero é um modo de subjetivação dos sujeitos, pois, “o ‘eu’ nem precede nem se segue ao processo de atribuição de gênero, mas surge, apenas, no interior e como matriz das próprias relações de gênero”. (Butler, 1999, p. 153).A autora argumenta ainda que o sexo, assim como o gênero, é materializado através de práticas discursivas, de normas que nunca são finalizadas, pois permanecem num processo constante de reafirmação. Este processo é indispensável para a hegemonia das leis reguladoras sob pena de enfraquecer e abrir espaços para a contestação dessas leis. Dentro deste breve panorama histórico do movimento feminista devemos atentar para o fato de que a produção teórico-conceitual acerca do tema tem inicio no pós-68, com autoras feministas. Até então, as ciências sociais não haviam dedicado grandes esforços neste tipo de discussão, e a partir deste momento a conceituação criada dentro do movimento feminista foi incorporada ao espaço acadêmico, sendo-lhe atribuída maior relevância. O próprio conceito de gênero passa por essa incorporação. Breve perfil da força de trabalho feminino no Brasil Nas últimas décadas pudemos notar mudanças de diversas ordens na sociedade brasileira que influíram no perfil das trabalhadoras. Como nos mostra Brushini: Nas últimas décadas do século XX, o país passou por importantes transformações demográficas, culturais e sociais que tiveram grande impacto sobre o aumento do trabalho feminino. No primeiro caso, podem ser citados: a queda da taxa de fecundidade, sobretudo nas cidades e nas regiões mais desenvolvidas do país, até atingir 2,1 filhos por mulher em 2005 (FIBGE, 2006, p. 50); a redução no tamanho das famílias que, em 2005, passaram a ser compostas por apenas 3,2 pessoas, em média, enquanto em 1992 tinham 3,7 (FIBGE, 2006, p. 163, gráf. 5.2); o envelhecimento da população, com maior expectativa de vida ao nascer para as mulheres (75,5 anos) em relação aos homens (67,9 anos) (FIBGE, 2006, p.26) e, conseqüentemente, a sobrepresença feminina na população idosa; e, finalmente, a tendência demográfica mais significativa, que tem ocorrido desde 1980, que é o crescimento acentuado de arranjos familiares chefiados por mulheres os quais, em 2005, chegam a 30,6% do total das famílias brasileiras residentes em domicílios particulares (FIBGE, 2006, p. 163, gráf. 5.1).(BRUSCHINI,2007) Por um lado, verificamos a expansão da força de trabalho feminino pelos mais diversos setores da economia. Por outro, notamos que, apesar dos avanços alcançados na esfera quantitativa, ainda existe uma significativa precarização e sub-valorização do trabalho das mulheres: Ressalte-se, entretanto, que a inserção das mulheres no mercado de trabalho brasileiro tem sido caracterizada através do tempo pela precariedade, que tem atingido uma importante parcela de trabalhadoras. Em 2005, nada menos que 33% da força de trabalho feminina ou 12 milhões de mulheres situavam-se em nichos precários, ou de menor qualidade, no mercado de trabalho, seja como trabalhadoras domésticas (mais de 6,2 milhões), seja realizando atividades não remuneradas (3,3 milhões) ou trabalhos na produção para o consumo próprio ou do grupo familiar, (2,7 milhões)(...) (BRUSCHINI,2007) Estas considerações podem ser observadas pela diferenciação de nichos em que as trabalhadoras se destacam com maior freqüência e, principalmente pela natureza dos vínculos empregatícios, que demonstram a referida precarização das ocupações femininas (tabela 1). Outra consideração importante diz respeito à remuneração do trabalho feminino em contraponto ao masculino em cargos equivalentes, como nos mostra novamente Bruschini: O nível de ganhos dos brasileiros é reconhecidamente baixo e as mulheres brasileiras - como as mulheres de todo o mundo - ganham ainda menos do que os homens. A evolução da distribuição do rendimento do trabalho de todos os brasileiros no período analisado neste texto é indicada por um aumento das proporções de trabalhadores(as) com menores rendimentos, refletindo a queda dos ganhos advindos do trabalho na população ocupada: se em 1993, 48% dos homens recebiam até dois salários mínimos, em 2005 essa porcentagem passou a ser de 58%; quanto às mulheres, os índices encontrados foram 55% em 1993 e 63% em 2005, sendo que, nesta data, 36% das trabalhadoras auferiam rendimentos inferiores a um salário mínimo (BRUSCHINI,2007) ONGs feministas no Brasil A sigla “ONG” passou a ser utilizada na década de 40 para denominar grupos da sociedade civil organizados para atender demandas socioeconômicas que o Estado, no contexto pós-segunda guerra mundial, não era capaz de suprir. Segundo Buarque e Vainsencher, era necessário neste momento separar organizações comprometidas com mudanças sociais de instituições filantrópicas: (...) cabe registrar que a utilização do termo ONG para nomear um amplo espectro de agentes, parcialmente destituídos de interesses econômicos e voltados à promoção de mudanças socioeconômicas, impõe-se a partir de 1948, quando as Nações Unidas criaram o Sistema Internacional de Cooperação ao Desenvolvimento, dando destaque às ações no Terceiro Mundo (BUARQUE;VAINSENCHER, 2001). Desde então as ONGs, ou o chamado terceiro setor, vem se destacando na medida em que assumiu compromissos relacionados à defesa dos direitos fundamentais do homem. Com isso a defesa da cidadania passa a ser desvinculada da idéia de Estado, e a fiscalização do cumprimento dos direitos humanos deixou de ser atribuição dos governos, como observa Reis: A afirmação de que a "sociedade internacional" tem responsabilidade pela vida e pela proteção dos direitos humanos do indivíduo, independentemente de seu próprio Estado, ganha força após a II Guerra Mundial, especialmente diante da proliferação dos refugiados e apátridas – o que Celso Lafer chama de "os expulsos da trindade povo-Estado-território". A percepção do abandono em que se encontrava o indivíduo quando não estava vinculado a nenhum Estado motivou a criação de um regime internacional que representa um ponto de inflexão no direito internacional, pois pela primeira vez é reconhecida a existência do indivíduo no cenário internacional (2006). Nota-se que, desde o inicio, a idéia de ONG está vinculada a uma idéia de universalização de direitos, ou mesmo de uma ação destituída de fronteiras nacionais, na medida em que procura distanciar-se do Estado. Por outro lado, observa-se que, com a mudança na conjuntura mundial, as organizações da sociedade civil foram se especializando, tendo como foco cada vez mais, não a garantia dos direitos universais, mas sim os interesses de minorias, ou grupos sociais específicos. Assim surgem grupos dedicados a todo tipo de temática, como os ambientalistas, os defensores dos direitos de crianças e adolescentes, de portadores de doenças, como a AIDS, e aqueles comprometidos com a luta pela igualdade de gênero. Nas palavras de Buarque e Vainsencher: A assimilação das questões de gênero, como resultante de uma ação das ONGs feministas, vem esclarecer, primeiro, o caráter político das relações entre homens e mulheres e, depois, que a desconstrução das desvantagens socioeconômicas, paralelamente ao empoderamento das mulheres, representa um ponto nevrálgico para a democratização do social. Isso, por sua vez, traduz-se na própria razão de existir das ONGs. Tal desconstrução afigura-se, então, como o indício de um deslocamento nas relações de poder entre os sexos, uma vez que evidencia a influência político-transformadora das mulheres, na base concepcional da vida em sociedade. Por outro lado, a tendência de apropriação da perspectiva de gênero, pelo campo das ações técnicas e políticas da sociedade civil, mais do que pela máquina estatal, favorece a uma quebra ideológica no perfil androcêntrico da cultura, já que esses setores se encarregam, também, de conceber os ideais transformadores nos processos de desenvolvimento socioeconômicos (2001). No Brasil, as ONGs feministas surgiram no inicio da década de 80 e desde então desempenham importante papel na luta contra questões como a violência doméstica e sexual, entre outras. Por outro lado, na mesma medida em que significam uma tomada de consciência da necessidade de luta contra a desigualdade por parte da sociedade, essas organizações retiram do âmbito governamental essas questões, tornado mais distante a consolidação de um feminismo de Estado. As ONGs e o Sistema Internacional de Cooperação As ONGs, nas ultimas décadas, vêm se proliferando pelo mundo e ganhando legitimidade reconhecida internacionalmente por representarem a forma mais relevante de participação da sociedade civil nas ações de transformação socioeconômica. Esta legitimidade foi conseguida, entre outros fatores, pelo fato de que elas “estabeleceram uma parceria estável com a ONU e são consideradas como as representantes da opinião pública global. Elas podem tecer comentários sobre relatórios enviados pelos países, que farão parte do material encaminhado ao Conselho Econômico e Social e à Assembléia Geral da ONU, e algumas delas têm estatuto consultivo” (REIS,2006). Como observamos anteriormente, sempre existiu entre as ONGs e o Sistema de Cooperação Internacional, uma concordância no sentido de que as demandas socioeconômicas da humanidade precisavam ser encaradas de forma supranacional. Mais do que isso, o reconhecimento do indivíduo como portador de direitos que independem dos estados é considerado a mola propulsora da articulação de uma rede transnacional de indivíduos, movimentos sociais e organizações não-governamentais, em torno de questões de interesse global. (REIS, 2006) Ao mesmo tempo, com a especialização das diversas organizações e com a introdução de profissionais das mais diversas áreas no cotidiano destas, foi necessário que se buscasse formas de financiamento que extrapolavam as possibilidades da iniciativa privada, criando assim, além de uma identificação ideológica entre as ONGs e os organismos internacionais, uma relação financeira de fato. Por outro lado, as ações das ONGs, embora baseadas em princípios universais, respondem às demandas locais, o que parece impor um conflito de interesses visto que os organismos internacionais de financiamento comprometem-se com demandas prédeterminadas. Como nos mostra Reis: [...]de acordo com Jean Cohen, a confiança na capacidade da sociedade civil global em democratizar o sistema internacional, superestima a capacidade de ação desse ator, e subestima a sua própria necessidade de ser democratizado. Em suas palavras: "é um erro considerar que as organizações não-governamentais, associações locais e redes que povoam a sociedade civil transnacional como equivalentes funcionais das instituições representativas e da sociedade política (partidos, sindicatos) na esfera nacional em democracias constitucionais. A sociedade civil não consegue fiscalizar por conta própria as novas e poderosas instituições supranacionais ou subnacionais de governança. A verdade é que a própria sociedade civil precisa ser fiscalizada. Redes e associações civis podem ser muito excludentes, injustas, desiguais e antidemocráticas (apud COHEN, 2003,p.450). Ainda faltam estudos que discutam essa relação delicada entre os agentes financiadores e as organizações não governamentais. Mais do que isso, falta uma linha condutora das ações destas organizações, sua forma de atuação e os critérios de financiamento de seus projetos. Somente após elucidar estas questões é que a sociedade poderá apoderar-se de uma ação política, democrática e cidadã de fato. ONGs feministas e projetos de geração de renda Segundo Novellino(2006), “(...)há, no Brasil 35 ONGs feministas”, sendo que 14% delas traz como emblema a tentativa de geração de renda, seja pela qualificação, seja pela (re)inserção no mercado de trabalho por iniciativas diversas. Para o presente estudo, selecionamos dentro do trabalho acima citado algumas destas organizações que, de alguma forma, se relacionam com a questão do trabalho feminino: • ONG Comunicação, Educação e Informação em Gênero (CEMINA): Promove capacitação em Rádio e Tecnologias da Informação e Comunicação; • Casa da Cultura da Mulher Negra: Promove capacitação profissional de Mulheres e Adolescentes Negras; • O Serviço à Mulher Marginalizada: “desenvolve projetos que envolvem formação de agentes multiplicadores de combate ao tráfico de seres humanos, pesquisa, informação, participação em redes nacionais e internacionais e advocacy na Câmara e no Senado.” (Novellino,2006); • A Criola: Através do projeto “Economia Trabalho e Renda: Cooperativismo e Desenvolvimento” busca desenvolver ações e projetos voltados para a inserção de mulheres e adolescentes negras no mercado de trabalho e produção, através do incentivo de formação de coletivos, associações e cooperativas de trabalhadoras. • Católicas pelo Direito de Decidir – Brasil: Forma multiplicadoras capazes de difundir “argumentos éticos-religiosos favoráveis aos direitos das mulheres, especialmente, aos direitos sexuais e direitos reprodutivos.” • Themis-Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero: Através do projeto “Promotoras Legais Populares”, promove a capacitação legal de mulheres líderes comunitárias em assuntos legais e de direitos humanos das mulheres. • Fala Preta!: Com o “Projeto Salva Vidas” visa formar agentes comunitários capacitados em saúde reprodutiva e sexualidade para multiplicar conhecimentos sobre saúde sexual e reprodutivo, tendo em vista o combate à disseminação de DSTs na comunidade. CONCLUSÕES Como indicamos na introdução, este artigo é fruto de uma pesquisa ainda em andamento, portanto, os resultados assim como as conclusões a que chegamos, devem ser considerados parciais. É possível, entretanto, visualizar alguns pontos importantes sobre as ONGs feministas e a incorporação por parte delas das questões relativas ao trabalho feminino no Brasil. Percebemos, pelo breve panorama traçado que: 1 – A situação das mulheres brasileiras no mercado de trabalho, embora tenha evoluído de certa fora, ainda é representativa da desigualdade de gênero da sociedade em geral; 2 – É tendência das ONGs, e aqui analisamos especificamente as feministas, incorporar demandas dos movimentos sociais. Essa tendência tem resultados ambíguos e, portanto, precisariam de uma pesquisa mais aprofundada para a apresentação de respostas absolutas; 3 – Existem, pelo menos, três níveis de intervenção destas organizações nas questões relacionadas ao trabalho: a) Intervenções a nível de capacitação de “multiplicadores” de conhecimento sobre política, direitos e saúde das mulheres. Este tipo de intervenção nem sempre pode ser considerado como geradora de renda, já que em determinadas circunstâncias produz interventores (as) sociais não remunerados. No entanto, em certa medida, estas ações geram instrumentos que podem vir a se converter em instrumentos profissionais no sentido stricto senso; b) Capacitação profissional de fato, através da promoção de cursos e palestras, visando facilitar a (re)inserção das mulheres no mercado de trabalho; c) Ações baseadas na noção de Economia Solidária (SINGER,2002), como criação de cooperativas de trabalho, etc. Contudo, é preciso problematizar essas questões de forma a trazê-las para a pauta das discussões contemporâneas, já que esta nova configuração do trabalho parece modificar não somente as relações materiais, como também geram uma nova subjetividade sobre as relações de gênero na sociedade em geral. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABONG. www.abong.org.br (acessado em 17 de março de 2008) ALVAREZ, Sonia E. Feminismos latino-americanos. Estudos Feministas, v.6, n.2, p. 265-284,1998a. BOURDIEU,P. 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