GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS AUTOR: PROFª. MARIA ELISA MACIEIRA ROTEIRO DE CURSO 2010.1 Sumário Gestão Administrativa e Política das Instituições Jurídicas Públicas APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA “GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS” ..................... 4 Visão Geral ..................................................................................................................................... 4 Objetivos Gerais da Disciplina ......................................................................................................... 4 Metodologia .................................................................................................................................... 4 Desafios .......................................................................................................................................... 4 Forma de Avaliação ......................................................................................................................... 5 Atividades Extraclasse ...................................................................................................................... 5 1. INTRODUÇÃO À GESTÃO DAS ORGANIZAÇÕES .......................................................................................................... 6 1.1 As Pressões sobre as Organizações ................................................................................................ 6 1.2 Mudanças e Desafios no Mundo Contemporâneo ......................................................................... 7 Exercício: ...................................................................................................................................... 10 1.2.1 Por que mudar?.................................................................................................................... 11 Exercício: ...................................................................................................................................... 12 1.3 As Organizações ..................................................................................................................... 13 1.4 A Administração ..................................................................................................................... 14 1.5 Estratégia Organizacional ........................................................................................................ 15 1.5.2 A Gestão Estratégica na Administração Pública ...................................................................... 16 1.6 Modelagem de Processos de Trabalho ......................................................................................... 25 2. MODELOS DE GESTÃO ADMINISTRATIVA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS ......................................................... 35 2.1. A Eficiência e a Eficácia na Gestão do Judiciário ...................................................................... 35 2.2. Análise dos Modelos de Gestão Administrativa de Instituições Jurídicas Públicas ......................... 40 3. SISTEMA DE GESTÃO DE INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS .................................................................................... 47 3.1. Sistema de Gestão: Definição e Elementos................................................................................. 47 4. PAPÉIS DOS GESTORES DE UNIDADES JUDICIAIS.................................................................................75 4.1Liderança e Tomada de Decisões ................................................................................................ 75 4.2 Conceito de Liderança ............................................................................................................. 76 4.3 Estilos de Liderança ................................................................................................................. 76 4.4 Liderança Situacional .............................................................................................................. 77 4.5 Os Grupos e as Equipes ............................................................................................................ 80 4.6 Relacionamento Interpessoal e Negociação ................................................................................. 81 5. INOVAÇÃO NAS PRÁTICAS DE GESTÃO NO JUDICIÁRIO ............................................................................................. 86 4.1. Criatividade e Inovação: Conceitos e Classificação ................................................................... 86 3.2 Os Mitos da Criatividade ........................................................................................................ 89 3.3 Como Potencializar e Incentivar a Criatividade ........................................................................ 90 3.4 A Transição da Criatividade para Inovação ............................................................................... 93 3.5 Empreendedores: Definições e Características ............................................................................ 94 3.6 Identificando Oportunidades.................................................................................................... 95 6. FERRAMENTAS PARA PRIORIZAÇÃO DE IDEIAS E SOLUÇÃO DE PROBLEMAS .................................................................. 98 6.1 A lógica da organização dos assuntos desse capítulo .................................................................... 98 6.2 A necessidade de utilizar soluções estruturadas para a análise de problemas .................................. 98 6.3 Síntese da aplicação das ferramentas ....................................................................................... 100 6.4 O Ciclo P-D-C-A.................................................................................................................. 100 6.5 Brainstorming ....................................................................................................................... 102 6.6 Diagramas de Causa e Efeito.................................................................................................. 104 6.7 Pareto ................................................................................................................................... 108 6.8 GUT .................................................................................................................................... 108 6.9 A Ferramenta 5W-2H ........................................................................................................... 110 7. BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................................................ 111 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O trabalho auto-realizável “Um músico deve compor, um artista deve pintar, um poeta deve escrever, caso pretendam deixar seu coração em paz. O que um homem pode ser, ele deve ser. A essa necessidade podemos dar o nome de auto-realização.... Refere-se ao desejo do homem de autopreenchimento, isto é, à tendência que ele se apresenta de se tornar, em realidade, o que já é em potencial; tornar-se tudo aquilo de que uma pessoa é capaz.” Abraham H. Maslow FGV DIREITO RIO 3 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA “GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS” VISÃO GERAL As Instituições Jurídicas Públicas têm enfrentado, nos últimos anos, diversos desafios impostos pela sociedade brasileira para a melhoria dos serviços prestados. Uma das questões que tem sido apontada como contributiva para a melhoria da qualidade e da celeridade é a adoção de ferramentas de gestão apropriadas às Instituições. Dessa forma, conhecer os conceitos e a aplicação de ferramentas e de técnicas de gestão é imprescindível para aqueles que atuam direta ou indiretamente nessas Instituições. OBJETIVOS GERAIS DA DISCIPLINA O objetivo da Disciplina é apresentar tanto noções práticas correlatas à área de administração quanto às experiências concretas, de forma a criar a base conceitual para o entendimento do sistema de gestão de unidades jurídicas. Na sequuência é apresentado um modelo de gestão administrativa para Instituições Jurídicas Públicas brasileiras. Como temas relevantes são destacados alguns papéis e técnicas de liderança necessárias à condução da gestão. Adicionalmente, são apresentados o conceito e a prática de organização de informações e de conhecimentos gerados pelos profissionais da área do Direito. METODOLOGIA A metodologia a ser adotada considera as seguintes atividades: • apresentação dos conceitos; • leitura de material didático, disponibilizado com a devida antecedência; • aplicação de trabalhos práticos em sala de aula; • discussões em sala de aula sobre temas previamente apresentados. DESAFIOS Os desafios que os alunos encontrarão estão relacionados ao tema da disciplina, enfatizando que esta não trata do Direito, mas sim da administração das atividades necessárias à sua aplicação. Todos os conceitos apresentados são fruto de experiência adquirida na gestão de Instituições Jurídicas Públicas. FGV DIREITO RIO 4 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS FORMA DE AVALIAÇÃO Os alunos serão avaliados mediante os trabalhos realizados em sala de aula e a aplicação de provas. O calendário das provas será informado oportunamente. ATIVIDADES EXTRACLASSE Não está prevista a realização de atividades extraclasse, porém, ao longo do período, se essa metodologia for considerada relevante, os alunos receberão a orientação devida para o seu desenvolvimento. FGV DIREITO RIO 5 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 1. INTRODUÇÃO À GESTÃO DAS ORGANIZAÇÕES 1.1 AS PRESSÕES SOBRE AS ORGANIZAÇÕES As organizações necessariamente se relacionam com várias outras do seu ambiente externo, sendo impossível um funcionamento isolado ou estanque, pois vivemos em um mundo social e globalizado. Cada uma dessas organizações externas, por melhor que sejam as relações mútuas, exercem pressões de diversos tipos sobre as outras organizações, que afetam profundamente a operação da organização considerada. Para cada um dos tipos de pressão a influência pode variar desde aquelas de natureza estratégica até outras, de natureza operacional ou imediata. Além das pressões externas, há que se considerar as pressões internas à organização, como por exemplo: a competitividade entre os indivíduos (éticas ou predatórias), a busca de poder, de ganhos e de vantagens, o envelhecimento do quadro, as aposentadorias, as substituições, as crises internas etc. Tais pressões geram dificuldades de gestão, mas também abrem extraordinárias oportunidades para o desenvolvimento da vantagem competitiva que ela pode explorar. Em geral, as organizações têm boa governabilidade sobre os fatores de pressão de origem interna e pouca ou nenhuma governabilidade sobre os fatores de pressão de origem externa. Todavia, mesmo neste último caso – pressões sobre as quais ela não tem controle -, a organização pode fortalecer-se estruturalmente, melhorando a sua capacidade de gerenciar o presente e de prever o futuro. Um poderoso conjunto de ações para o seu fortalecimento estrutural é a busca permanente pela eficiência e pela eficácia no seu modelo de gestão, minimizando os riscos e maximizando as oportunidades de desenvolvimento. Uma vez fortalecida a gestão, a organização terá mais vitalidade e capacidade de gerar ações para enfrentar as pressões, sejam elas de origem interna ou de origem externa. Para efeito de análise, selecionamos os seguintes tipos de pressões sofridas pelas organizações: tecnológica, concorrência, excesso de oferta, globalização, expectativas do cliente, incentivos ou ingerências do governo, acionistas, força de trabalho constituída pelas minorias, necessidades contínuas de inovação, impacto ambiental e responsabilidade social. Além das pressões citadas, poderíamos incluir várias outras, mais ou menos significativas, em função de uma determinada circunstância. Com o objetivo de sintetizar esse capítulo, procuramos selecionar algumas ações comuns aplicáveis em praticamente todas as situações de pressões. Embora pareçam óbvias, essas ações – colocadas em ordem alfabética - podem servir como uma lista de sugestões de postura organizacional, como forma de antecipar-se aos problemas: FGV DIREITO RIO 6 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • administrar o canibalismo intraorganizacional; • alinhar (atrair, manter e distribuir) os talentos, particularmente as lideranças. • aprimorar a inovação competitiva de produtos/serviços, de comercialização, de processos, de desenvolvimento estratégico e de desenho organizacional, utilizando os instrumentos de gestão que assegurem a eficiência e a eficácia organizacional; • buscar o alinhamento entre os comportamentos e os valores das pessoas e as novas estruturas, processos e tecnologias; • construir, manter e estimular equipes de primeira linha; • criar flexibilidade para atender a sociedade; • criar métodos de gerenciamento de conflitos; • estabelecer indicadores de desempenho para os processos de trabalho vitais da organização (particularmente margens de contribuição) e gerenciálos eficazmente, mantendo-os alinhados com a estrutura e a estratégia; • manter a coerência gerencial; • prever mudanças, desenvolver antecipadamente suas estratégias e missão básica, alinhá-las com a equipe e implementá-las eficazmente; • usar intensivamente a tecnologia da informação; • desenvolver um sistema de gestão que promova a eficiência e eficácia organizacional. 1.2 MUDANÇAS E DESAFIOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO “... cada organização precisa embutir o gerenciamento das mudanças em sua própria estrutura. Os gestores devem aprender a fazer, a cada dois ou três anos, a seguinte pergunta a respeito de cada serviço, processo de trabalho, procedimento e política: Se já não fizéssemos isto, será que começaríamos a fazer agora, sabendo aquilo que sabemos?...” Peter Drucker A história das organizações é uma história de mudanças. Inúmeros relatos sobre a vida humana e sobre as teorias sociais e organizacionais tratam de mudanças e transformações. Embora seja um tema comum, a mudança vem sendo analisada por diversos autores (Alvin Toffler, Peter Drucker, Alain Tourraine, entre outros) que chamam a atenção para a velocidade que o novo cenário mundial impõe à mudança. “A mudança aparece não só como inevitável mas necessária à sobrevivência. Os fatos se alteram com rapidez, e o mesmo acontece com as ideias. Encurta-se o tempo para planejar, experimentar e agir. As mudanças terão que ser perseguidas e introduzidas antes de se saber seu total sentido e sem garantia de êxito. FGV DIREITO RIO 7 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A intensidade da presente revolução, tecnológica e administrativa, já não deixa alternativas senão a de segui-la com a própria rapidez que a caracteriza. A mudança alcança as pessoas e instituições todos os dias, de forma tão gradual e imperceptível quanto global e estrondosa. Por meio das formas lentas de mudança se percebe sua irreversibilidade; pelos seus impactos surpreendentes aprende-se a necessidade de se preparar para ela. Mesmo assim, muitos ainda não se conscientizaram da ocorrência de mudanças fundamentais; veem-nas apenas como variações de práticas passadas, cujo impacto será pequeno, e pensam poder continuar seus trabalhos da forma costumeira. Essas pessoas serão alcançadas pela mudança de maneira mais dramática: terão de enfrentá-las com mais receios, apreensões e incertezas. Mesmo os mais atentos não estão imunes aos impactos inesperados das mudanças. Na era da globalização e interdependência, pequenas mudanças alteram diariamente as relações entre empresas, regiões e países: mercados cada vez mais saturados, surpresas com produtos competitivos em qualidade e preço, e vantagens tecnológicas extremamente temporárias. Seria muito confortável se as empresas pudessem ater-se às suas práticas e produtos de sucesso; seria tranquuilo se pudessem ser leais ao status quo e preservar suas dimensões de êxito. Na verdade, por mais moderno, qualquer serviço, produto ou plano de uma empresa constitui o resultado da união de conhecimentos obsoletos. A velocidade das mudanças sociais, econômicas e tecnológicas desatualiza rapidamente o saber e as informações. Nenhuma empresa ou instituição pública pode se considerar atualizada, a não ser por alguns momentos: assim, todas deverão lutar contra parte de seu passado e contra o obsoletismo para inovar e se transformar. Mas, a mudança não é simples nem fácil. Se fosse assim, as pessoas naturalmente a procurariam. Os seres humanos têm uma forte tendência à estabilidade e às formas já estabelecidas de se adaptarem ao trabalho. Para Paulo Roberto Motta, “a mudança é um ônus, pois requer que a pessoa reveja sua maneira de pensar, agir, comunicar, inter-relacionar-se e de criar significados para a própria vida. Mudar envolve o indivíduo e seu meio, portanto é incerto e arriscado – tão promissor quanto ameaçador”.1 Embora as organizações sejam assediadas por muitas forças que exigem mudanças, é importante reconhecer que forças opostas mantêm a organização num estado de equilíbrio. Essas forças opostas apoiam a estabilidade ou o status quo. O modelo de mudança baseado na teoria de “campo de forças” de Kurt Lewin define que todo comportamento é resultado de um equilíbrio entre forças impulsionadoras, que empurram em direção à mudança, e forças restritivas, que resistem à mudança e buscam manter o status quo. Entre as forças de resistência estão a atual cultura organizacional (normas, valores, atitudes, crenças), os interesses pessoais de empregados (preocupação final do empregado é com ele mesmo, dão o medo e a insegurança) e percepções diferentes 1 MOTTA, Paulo Roberto. Transformação Organizacional, Qualitymark, 1999. FGV DIREITO RIO 8 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS a respeito de objetivos e estratégias organizacionais (falta de informação nos diversos níveis sobre onde a organização quer chegar). DIAGRAMA DE CAMPO DE FORÇAS – Kurt Lewin Forças de mudança Nova tecnologia Forças que mantêm o status quo Normas de desempenho do grupo Matérias-primas melhores Medo da mudança Concorrência de outros grupos Complacência dos membros Pressões do gestor Habilidades bem aprendidas Nível atual de desempenho Nível mais alto de desempenho Figura 1: Diagrama de Campo de Forças de Kurt Lewin Segundo a visão de Lewin, as pessoas acham difícil, e até mesmo impossível, mudar atitudes e comportamentos estabelecidos há muito tempo. Além disso, se chegam a realizar mudanças, logo voltarão aos métodos antigos caso os novos não sejam reforçados. Para impedir isso, Lewin sugere um processo de três etapas: descongelar os padrões de comportamento existentes (tornar a necessidade de mudança óbvia e o indivíduo, o grupo e a organização passam a aceitá-la); usar um agente de mudança (líder ou um grupo de dentro ou de fora da organização) para ajudar os empregados a identificar e internalizar novas atitudes, valores e comportamentos; e, em seguida recongelar os novos padrões de comportamento (transformar em norma um novo padrão de comportamento, usando mecanismos de reforço e apoio). “Por isso, a grande preocupação atual já não é tanto sobre a constatação de problemas, desejo ou rapidez da mudança, e sim sobre a possibilidade de o ser humano controlar o processo de mudança. Trata-se da inovação por meio da intervenção social planejada, auto-sustentada e direcionada; contrasta com as rupturas oriundas de forças sociais espontâneas ou de provocações revolucionárias. A mudança planejada contrasta também com a visão evolutiva natural da mudança. A perspectiva evolutiva significa a mudança organizacional de forma emergente e não-institucional; todas as organizações provocam reações e transações mútuas com o ambiente social no qual se inserem. Como influências externas e variações internas não são domináveis e os controles não são absolutos, não há estabilidade: as organizações sempre se FGV DIREITO RIO 9 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS modificam de alguma forma, mesmo sem terem noção do sentido de direção. A mudança intencional e planejada objetiva atuar sobre a evolução natural, acelerando seu passo ou rompendo com a direção estabelecida. A gestão contemporânea busca a prática da mudança tanto na área empresarial quanto no setor público. Nas empresas, as variações tecnológicas e econômicas tornam o processo produtivo vulnerável, e se conquista o progresso em meio a descontinuidades e inovações. Na administração pública, as pressões comunitárias por mais e melhores serviços provocam revisões nas funções do Estado, e questionam-se tanto as formas de ação quanto a própria legitimidade das instituições. Na busca de qualidade e eficiência, as organizações públicas se assemelham às empresas privadas. Hoje, gerenciar uma organização é gerenciar a mudança: enfrentar alterações rápidas e complexas; confrontar-se com ambiguidades; compreender a necessidade de novos produtos e serviços; garantir um sentido de direção em meio ao caos e à vulnerabilidade; em manter a calma diante da perda de significado daquilo que se ajudou a construir. Assim, em um presente intranquilo e um futuro incerto, poucos dirigentes e gestores se sentirão confortáveis com o status quo. A maioria perseguirá a inovação como alternativa de sobrevivência”.2 EXERCÍCIO: Pense em um dia seu típico. Reveja-o como um filme e tente relacionar pelo menos cinco grandes mudanças que, por fazerem parte do seu cotidiano profissional e pessoal, talvez não sejam percebidas em sua total dimensão. Mas não caia na tentação de citar coisas genéricas tais como: tecnologia, comunicação, globalização etc. Cite coisas concretas (por exemplo: o telefone celular, eliminação dos empregos etc.). Em seguida, tente verificar qual o significado dessas mudanças (por exemplo: o telefone celular significa uma capacidade de comunicação verbal nunca antes experimentada pelas pessoas comuns). MUDANÇA 2 MOTTA, Paulo Roberto. Transformação Organizacional, Qualitymark, 1999. SIGNIFICADO 1. 2. 3. 4. 5. FGV DIREITO RIO 10 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Agora marque pelo menos três dessas mudanças que, no seu entender, têm uma relação mais direta com você, e avalie o seu próprio grau de reação a respeito de cada uma delas, de acordo com os seguintes critérios: • inconsciente: só agora você se deu conta do significado e da importância dessa mudança na sua vida; • resistente: você não aceita o rumo que as coisas estão tomando e não quer nem ouvir falar no assunto; • reativo: você tenta acompanhar as mudanças, mas, de vez em quando, sente-se um pouco ultrapassado; • em dia: você efetivamente acompanha as mudanças e está em dia com essa mudança especificamente; • avançado: você entendeu claramente o que essa mudança significa e já se adiantou em relação à maioria das pessoas. MUDANÇA GRAU DE REAÇÃO 1. 2. 3. 1.2.1 POR QUE MUDAR? “... O mundo mudou e precisamos mudar com ele...” Presidente do EUA – Barack Obama Discurso de posse em 20/01/09 Mas será que realmente é preciso mudar? Será que é necessário aceitar toda e qualquer mudança? Tentar compreender a mudança, no entanto, não significa concordar e compactuar com ela, e mesmo que não concordemos é necessário compreendê-la. É claro que as mudanças constantes que hoje em dia presenciamos, normalmente são associadas à instabilidade e a impossibilidade de construção de uma base sólida para se planejar melhor o futuro, o que gera uma grande insegurança. Esta, porém, é uma visão parcial da realidade. É verdade que qualquer mudança traz dificuldades, que a volatilidade de regras, mercados, tecnologias e costumes, além das pressões da sociedade, forçam as pessoas a reverem constantemente suas metas e objetivos. Isso afeta diretamente as suas necessidades e aspirações, o que gera tensões. FGV DIREITO RIO 11 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Por outro lado, é igualmente verdade que mudanças geram oportunidades, pois ao passarmos de uma situação atual conhecida para uma outra desconhecida, temos a oportunidade de transformar, ou seja, “dar nova forma”. Mais do que simplesmente mudar, pode-se aproveitar o momento propício para criar uma nova realidade que nos atenda melhor do que a anterior. Na verdade não se trata de mudar por mudar, o que está funcionando pode ser mantido. Se a situação atual funciona, se não dá para melhorar agora, mantenha; se não funciona, se dá para fazer melhor, mude. O que importa é questionar sempre para não cair na armadilha da comodidade: ficar como está para ver como é que fica. Talvez os parâmetros e valores que valiam quando uma determinada situação foi criada, hoje não sejam mais válidos. Neste caso, e somente neste caso, mude. Só tem um detalhe: toda mudança tem que ter um caráter enriquecedor, deve ser para melhor, caso contrário é prudente aguardar outra oportunidade. Resumo: questione sempre, se a situação suportar o seu questionamento (seja cruel!), não mude. Caso contrário, busque a melhor oportunidade e a melhor estratégia para promover uma mudança enriquecedora. EXERCÍCIO: Relacione, no mínimo, três coisas que a sua organização ou você está fazendo hoje e que não deveria estar fazendo (p.ex.: imprimir e-mails). Tente fugir dos exemplos mencionados, busque a sua própria realidade. 1. 2. 3. Agora, relacione, no mínimo, três coisas que a sua empresa ou você está fazendo hoje e que deveria continuar fazendo (p.ex.: agir na direção do autodesenvolvimento). 1. 2. 3. Por fim, relacione, no mínimo, três coisas que a sua empresa ou você não está fazendo hoje, mas que deveria estar fazendo (p.ex.: analisar os custos de um serviço). FGV DIREITO RIO 12 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 1. 2. 3. Aquilo que você não está fazendo e que, realmente, não deveria estar fazendo, não merece atenção agora. 1.3 AS ORGANIZAÇÕES 1.3.1 Definições e Características Genericamente pode ser entendido como “organização” qualquer grupo de pessoas que combinam seus próprios esforços e outros recursos para alcançar um propósito comum. Mais especificamente, são exemplos de organizações: fazendas, fábricas, hospitais, escolas, oficinas, bancos, financeiras, seguradoras, concessionárias, clubes, organizações não governamentais (ONG), instituições governamentais, instituições acadêmicas etc. Mesmo uma família, que em geral não possui propósitos formalmente estabelecidos, pode ser considerada como uma organização. No caso do Brasil, podemos caracterizar uma organização formal como aquela que possui o respectivo CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). ORGANIZAÇÕES: Quaisquer grupos socialmente constituídos e organizados, tais como fábrica, loja, escola, governo (federal, estadual ou municipal), hospital, família, indivíduo, supermercado, creche, clube, escola de samba, instituição de caridade etc., com uma finalidade comum. Num sentido mais geral, as organizações são constituídas de indivíduos, que formam os grupos, que formam as organizações, que formam uma nação ou sociedade, cujo conjunto, juridicamente organizado, forma um estado ou país. Conforme definido por Maximiniano (1995), “as organizações têm características importantes que as diferenciam de outros grupos sociais, como por exemplo a família”. As principais características das organizações são: • propósito (realização de objetivos, sejam eles produtos ou serviços); • divisão do trabalho (cada pessoa e cada grupo tem um papel específico que converge para a realização da missão); e FGV DIREITO RIO 13 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • coordenação (as tarefas são interdependentes e precisam convergir; a coordenação ocorre por meio da hierarquia, da comunicação e do planejamento). Considerando o caráter de formalidade das organizações, podemos deduzir que as organizações formais são “burocracias”3. A palavra “burocracia” é sempre empregada de forma negativa, onde se vislumbra o mau funcionamento das organizações formais, no entanto, o sentido original da palavra burocracia identifica somente uma forma de regulamentação de um grupo. Para melhor compreender o que é burocracia, há que se recorrer a Max Weber, cujo conceito de tipo ideal de burocracia designa um modelo explicativo que abstrai as principais características das organizações. “O tipo ideal é uma espécie de fórmula média onde estão presentes os elementos que constituem qualquer burocracia” (Maximiniano, 1995): • formalidade (normas que definem o comportamento das pessoas); • impessoalidade (relações se passam entre ocupantes de cargos oficialmente definidos); • profissionalismo (carreira profissional exercida pelos ocupantes dos cargos). Max Weber considerava a burocracia como um estágio na evolução das organizações, e seu “tipo ideal” procurava evidenciar as características desse estágio como ele as viu em sua forma pura. O “tipo ideal”, portanto, serve para avaliar até que ponto uma organização real é mais ou menos burocratizada. No caso do Poder Judiciário, observa-se um elevado grau de burocracia, onde os aspectos característicos apontado por Weber são plenamente identificados. 1.4 A ADMINISTRAÇÃO Objetivos e recursos são as palavras-chave na definição de organização e também de administração. Se a organização é um sistema de recursos que pretende atingir objetivos, o processo de tomar decisões sobre os objetivos e a utilização de recursos é a administração. Portanto, a administração é o processo que tem como finalidade garantir a eficiência e a eficácia de um sistema. As decisões do processo administrativo, segundo Maximiano (1995), classificam-se em: • planejamento (processo de definir objetivos, atividades e recursos); • organização (processo de definir o trabalho a ser realizado e as responsabilidades pela realização; é também o processo de distribuir os recursos disponíveis, segundo algum critério); 3 Definição da palavra Burocracia do Dicionário Houaiss: sistema de execução da atividade pública, esp. da administração, por meio de um corpo complexo de funcionários lotados em órgãos, secretarias, departamentos etc., com cargos bem definidos, selecionados e treinados com base em qualificações técnicas e profissionais, os quais se pautam por um regulamento fixo, determinada rotina e uma hierarquia com linhas de autoridade e responsabilidade bem demarcadas, gozando de estabilidade no emprego. FGV DIREITO RIO 14 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • direção (processo de mobilizar e acionar os recursos, especialmente as pessoas, para realizar as atividades que conduzirão aos objetivos); • controle (processo de assegurar a realização dos objetivos e de identificar a necessidade de modificá-los). A administração é o processo que tem como finalidade garantir a eficiência e a eficácia de um sistema. A administração é uma atividade importante em qualquer escala de combinação de recursos e de intenção de realizar objetivos. No entanto, as decisões da esfera individual e familiar têm alcance limitado e atingem apenas as pessoas que dela participaram. Nas organizações, ao contrário, as decisões administrativas afetam outras pessoas e alcançam recursos que, em grande parte dos casos, estão muito além do alcance direto do tomador de decisões. Quanto maior a quantidade de recursos, mais complexo se torna o processo administrativo. É essa uma das principais razões que faz da administração uma atividade especializada nas organizações. ADMINISTRAÇÃO: Quanto maior a quantidade de recursos, mais complexo se torna o processo administrativo. É essa uma das principais razões que faz da administração uma atividade especializada nas organizações. O processo de planejamento é implementado nas organizações por meio da gestão estratégica. Os processos de organização, de direção e de controle são implementados por meio da gestão operacional (processos de trabalho). Portanto, nos próximos capítulos será enfatizado a conceituação dos temas: Estratégia Organizacional e Modelagem de Processos de Trabalho. 1.5 ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL 1.5.1 O que é Estratégia? Estratégia é um instrumento gerencial imprescindível para as organizações, tanto no setor privado quanto na administração pública, se constituindo em um meio fundamental para que uma organização execute suas ações a parFGV DIREITO RIO 15 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS tir de um horizonte pré-determinado. É, portanto, um padrão que permite manter a coerência das ações da organização ao longo do tempo. De uma forma concisa, a gestão estratégica pode ser definida, portanto, como “um processo contínuo e iterativo que visa manter uma organização como um conjunto apropriadamente integrado a seu ambiente”4. Tal definição incorpora dois aspectos que devem ser enfatizados: a) os termos “contínuo” e “iterativo” indicam que a administração estratégica, composta de um conjunto de etapas, repete-se ciclicamente; b) o objetivo de manutenção da organização como um conjunto integrado a seu ambiente pressupõe a consideração da instituição como um sistema aberto, que interage, influencia e é influenciado pelo ambiente externo. A gestão estratégica, para ser eficaz e eficiente, deve apoiar-se em um conjunto organizado de atividades, o processo de planejamento estratégico definido como “esforço disciplinado para produzir decisões e ações fundamentais, que moldam e guiam o que é uma organização, o que ela faz, e por que faz”. Em complementação, ao se discorrer sobre planejamento, “deve-se entender que está associado a dois elementos básicos: (1) o futuro e (2) a relação entre fins e meios – entre objetivos e metas e as formas para atingi-los”5. 1.5.2 A GESTÃO ESTRATÉGICA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A maior parte dos processos de gestão estratégica, nos últimos 50 anos, foi direcionado para as empresas da iniciativa privada. Desta forma, “até o início dos anos 80, o planejamento estratégico no setor público voltou-se primariamente para as organizações militares e para o apoio à formulação de políticas de governo em larga escala”6. As práticas de planejamento estratégico foram levadas para um amplo espectro de entidades do setor público somente nos últimos 25 anos, no contexto das reformas dos órgãos do estado sob o foco do “modelo gerencial puro”, conforme definido por Abrucio7 (1997). Nessa linha, a gestão no setor público passou a caracterizar-se por uma “despolitização” da administração, aliada à ênfase no conceito de eficiência governamental. Os novos caminhos do modelo gerencial passaram a ser norteados por conceitos e práticas de há muito aplicadas nas empresas privadas: flexibilidade de gestão, foco na qualidade dos serviços e prioridade às demandas do cliente. As novas práticas de gestão adotadas na administração pública, nos países do primeiro mundo, tiveram como paradigma uma série de estudos desen- 4 Certo&Peter, 1990: 6 5 Haynes & Massie, 1961:249 6 Bryson,1995:5 7 Abrucio,1998 FGV DIREITO RIO 16 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS volvidos nos últimos 25 anos, que podem ser sintetizados no livro de David Osborne e Ted Gabler, Reinventando o Governo8. Nessa obra, os autores postulam que os problemas nas entidades governamentais não residem nas pessoas, mas no sistema de gestão, e somente a reforma das instituições e dos incentivos tornará a burocracia apta a responder às novas demandas quanto à eficácia9 e eficiência na prestação dos serviços. Quanto à gestão estratégica nas instituições públicas, eles propõem dois instrumentos básicos para a transformação nos seus modelos de gestão: a) orientação administrativa por missões, a partir das quais o governo pode ganhar flexibilidade, tornando mais fácil a avaliação de cada agência, pela comparação entre objetivos inicialmente formulados e resultados efetivamente alcançados; b) antecipação das tendências futuras a partir de uma atividade não confinada à burocracia, devendo o planejamento estratégico envolver a sociedade e ser incorporado à cultura dos funcionários. Nesta linha, o elemento importante não é o plano, mas sim a sua esperada decorrência material, isto é execução do planejamento. Ao criar consenso em torno de uma determinada visão de futuro, a organização ou a comunidade promove em todos os seus membros uma percepção comum a alcançar. Levando em conta que no Poder Judiciário os postos de comando trocam a cada dois anos, é possível que ocorra descontinuidade administrativa e falta de compromisso com a Instituição. Os gestores devem estar comprometidos, de modo que os planos não sejam descartados apenas em face de uma nova vontade, diante da alternância no poder. A ideia, logo, é que cada Tribunal desenvolva o seu planejamento estratégico, validado pela sua Administração Superior, a fim de que as futuras administrações com ele se comprometam, em que pese possa e deva ser periodicamente revisado. Nesse sentido, a experiência de quem já foi presidente do Tribunal Regional da 4ª Região, o eminente desembargador federal Vladimir Passos de Freitas10, relata sobre essa questão: A administração dos Tribunais Federais, e consequentemente da primeira instância, não deve ser alterada abruptamente a cada dois anos. Quer-se com isso dizer que devem existir planos de metas por um período mínimo de 04 anos, comprometendo-se a administração posterior com o que for feito pela anterior. Não faz sentido um Presidente gastar elevadas verbas com um plano (p. ex.: qualidade total) se o seu sucessor não continuar os trabalhos. O que se tem a fazer é o Presidente da Corte submeter ao Plenário todas as ações mais ambiciosas e colher um compromisso de continuidade. Se não lograr êxito, deve ter a humildade de recuar e não tomar a iniciativa. Mas se houver a aprovação, agirá ciente de que, ao término de seu mandato, as providências continuarão. Entre a eleição e a posse deverá haver um prazo mínimo de dois meses para a transição. 8 Osborne & Gabler, 1994 9 A norma NBR ISO 9000:2000, cujo objeto é pertinente à terminologia da gestão, define eficácia como “extensão na qual as atividades planejadas são realizadas e os resultados planejados, alcançados” e eficiência como “relação entre o resultado alcançado e os recursos usados.” 10 FREITAS, Vladimir Passos de. Justiça Federal: histórico e evolução no Brasil. Curitiba: Juruá, 2003, p. 183. FGV DIREITO RIO 17 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 1.5.3 Direcionadores Estratégicos Básicos Como já mencionado, o processo de gestão estratégica constitui um esforço disciplinado para produzir decisões e ações fundamentais sobre o que uma organização é, onde quer chegar, e através de que meios. Para tanto, a organização se apoia em três direcionadores estratégicos básicos: Missão, Visão de Futuro e Valores. a) a Missão deixa claro o propósito da organização (sua razão de ser ou de existir), constituindo uma formulação objetiva e precisa, possível de ser entendida e assimilada por todas as pessoas que dela fazem parte, ou que mantém com ela relações significativas (mandatários, usuários de seus serviços e fornecedores, entre outros); b) a Visão de Futuro estabelece um cenário a respeito de como a organização deseja estar e ser vista em um determinado horizonte de tempo, constituindo um parâmetro essencial para o direcionamento dos esforços internos, e junto aos atores relevantes do ambiente externo, para o alcance do “futuro desejado”; c) os Valores clarificam as regras de conduta essenciais que devem nortear as ações da organização, tanto no âmbito interno como nas relações com o ambiente externo, constituindo-se na diretriz essencial para o exercício da prática moral nas suas diversas instâncias de decisão e de execução dos procedimentos de trabalho. Em resumo, os Valores constituem as crenças, o ideário da organização. A partir dos direcionadores estratégicos estabelecidos, o processo de planejamento tem continuidade com a formulação de intenções relacionadas às ações a serem desencadeadas, especialmente quanto a Focos e Objetivos Estratégicos. a) os Focos Estratégicos constituem os desafios fundamentais a serem enfrentados pela organização, de forma a que esta possa cumprir adequadamente a missão estabelecida e alcançar o cenário futuro desejado. A identificação dos Focos Estratégicos é o coração do processo de planejamento estratégico, eles condicionam o estabelecimento de objetivos e metas, assim como a elaboração dos planos de ação relacionados; b) os Objetivos Estratégicos representam os resultados a serem alcançados ou mantidos pela instituição, são estabelecidos no contexto dos diversos focos estratégicos, e a cada um deles estão associados metas e indicadores de desempenho que permitem sua formulação e acompanhamento de forma concreta e mensurável. FGV DIREITO RIO 18 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A vinculação lógica (rastreabilidade) entre os direcionadores estratégicos pode ser apresentada, simplificadamente, mediante o esquema: VISÃO DE FUTURO MISSÃO FOCOS ESTRATÉGICOS OBJETIVOS ESTRATÉGICOS INDICADORES DE DESEMPENHO E METAS PLANOS DE AÇÃO IMPLEMENTAÇÃO DOS PLANOS AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS Figura 2: Vinculação lógica entre os direcionadores estratégicos Finalmente, para uma compreensão da dinâmica de funcionamento da organização, ainda no nível de reflexão estratégica é elaborada a Árvore de Processos de Trabalho11 da Instituição, acompanhada de seus respectivos Indicadores de Desempenho Estratégicos. A Árvore de Processos de Trabalho, em seu primeiro nível, é formada pelos seus principais macroprocessos de trabalho, que devem representar a essência da dinâmica de atuação da Instituição. Eles são divididos em duas categorias principais: a) diretamente relacionados às atividades-fim da organização, vinculados à sua missão; b) relacionados ao apoio à consecução da missão da organização. 11 Processo de trabalho é a denominação metodológica para designar todas e cada uma das atividades de uma organização, tanto aquelas especificamente desenvolvidas pelos seus magistrados, quanto aquelas essencialmente administrativas. Os macroprocessos representam tais atividades na sua forma mais integrada, isto é, de maior nível e diferenciáveis na sua natureza. FGV DIREITO RIO 19 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O processo de reflexão estratégica, tendo como base os macroprocessos de trabalho estabelecidos, deve ter continuidade com a identificação das expectativas em relação aos mesmos, em termos de: a) efetividade (resultados e impactos) junto às entidades externas, sociedade ou unidades organizacionais internas a eles relacionados; b) fatores críticos de sucesso para alcançar a efetividade desejada. Finalmente, tendo como referência às expectativas quanto aos resultados e impactos desejados, devem ser fixados os Indicadores de Desempenho12 associados a cada um dos macroprocessos. A explicação sobre esses conceitos (Árvore de Processos de Trabalho) serão devidamente explorados no Capítulo 1.6 – Modelagem de Processos de Trabalho. 1.5.4 Instrumentos de Apoio à Gestão Estratégica Dentre vários instrumentos de apoio à execução da gestão estratégica, são a seguir apresentadas duas ferramentas que são utilizadas: análise de contexto por meio da Matriz SWOT e Balanced Scorecard (BSC). Análise de Contexto por meio da Matriz SWOT SWOT é uma abreviação encontrada na literatura especializada em planejamento estratégico, e refere-se a um processo de análise de um contexto de negócio, aplicável a organizações de qualquer natureza, sejam elas privadas ou públicas. O termo SWOT está relacionado às iniciais, em inglês, de seus quatro focos principais de análise: Strengths (pontos fortes), Weaknesses (pontos fracos), Opportunities (oportunidades) e Threats (ameaças). Para estabelecer estratégias que tenham efetividade, as organizações devem entender seus contextos interno e externo, por meio da percepção de seus pontos fortes e fracos que atuam no ambiente interno, e das oportunidades e ameaças que se configuram no ambiente externo. Este é o propósito essencial de utilização da Matriz SWOT. Os dois primeiros elementos (pontos fortes e pontos fracos) envolvem a análise da efetividade das variáveis internas associadas aos processos de gestão e de operação. Os demais elementos (oportunidades e ameaças) contemplam as variáveis do ambiente externo, e que têm influência real ou potencial sobre a entidade objeto de estudo. 12 Indicadores de Desempenho são expressões, em geral numérica, capazes de fornecer quantificação sobre os resultados de processos de trabalho, a exemplo do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), indicador adotado pela ONU para indicar a qualidade de vida das sociedades. FGV DIREITO RIO 20 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Ambiente interno Quadrante mais favorável Favorável Desfavorável Vulnerabilidade Problemas Desfavorável Alavancagem Limitações Quadrantes médios, que permitem assumir uma postura conservadora Favorável Quadrante menos favorável Ambiente externo Figura 3: Quadrantes relacionados à Matriz SWOT A partir das perspectivas externas visualizadas (oportunidades e ameaças), combinadas com a visualização dos elementos internos (pontos fortes e pontos fracos), a técnica possibilita uma avaliação bastante rigorosa e objetiva do grau de efetividade do negócio objeto de análise, tanto em relação ao cumprimento de sua missão como em relação ao potencial para alcançar o cenário futuro desejado. A matriz decorrente do processo de análise das variáveis internas e externas constitui o elemento fundamental para a formulação dos Focos Estratégicos e dos correspondentes Objetivos Estratégicos para a Instituição. Balanced Scorecard (BSC)13 O Balanced Scorecard constitui uma ferramenta de gestão adotada em organizações privadas e do setor público, que traduz a missão e a estratégia organizacional em um conjunto coerente de objetivos e medidas de desempenho, propiciando a formação de uma estrutura de medição estratégica e a implementação de um sistema de gestão eficiente. Para traduzir a missão e a estratégia em objetivos e medidas, o BSC é estruturado em quatro perspectivas diferentes: financeira, do usuário, dos processos internos, e do aprendizado e crescimento. A perspectiva financeira sintetiza as consequuências econômicas das ações realizadas, isto é, os indicadores desta perspectiva indicam se a estratégia de 13 Esta parte do texto está baseada no artigo “Fatores que interferem na implantação de um modelo de gestão estratégica baseado no balanced scorecard: estudo de caso em uma instituição pública”. Eduardo Santos Galas e Sérgio Arruda Cavalcante Forte, READ – Revista Eletrônica de Administração, UFRGS, edição 41, vol 10, set-out 2004 FGV DIREITO RIO 21 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS uma empresa, sua implementação e execução estão contribuindo para a melhoria dos seus resultados financeiros, em sintonia com as expectativas dos seus acionistas. Nas organizações governamentais e sem fins lucrativos, entretanto, a perspectiva financeira não demonstra objetivamente o cumprimento da missão na visão do acionista, devendo a mesma ser substituída por indicadores que reflitam o alcance dos mandatos estabelecidos pela Administração, tendo como foco benefícios para o cidadão de forma individual ou para a sociedade de forma global. Tais benefícios constituem o cerne da gestão pública, e estão diretamente associados ao conceito de criação de valor público, o que vai muito além do alcance de resultados do ponto de vista meramente financeiro. Nesta linha, estariam enquadrados resultados mensuráveis como a redução da pobreza e do analfabetismo, ou a melhoria das condições do meio ambiente, entre outros aspectos. Esta primeira dimensão, no entanto, também deve ser considerada, especialmente para acompanhar a efetividade da gestão no cumprimento de requisitos legais, como, por exemplo, a obediência à Lei de Responsabilidade Fiscal. A perspectiva do usuário permite a identificação dos segmentos de usuários e mercados nos quais a organização atuará, bem como as medidas de desempenho da organização nesses segmentos-alvo. Nessa perspectiva, normalmente constam medidas essenciais que indicam se uma estratégia foi bem formulada e bem implementada, tais como: nível de satisfação do usuário / cidadão com os produtos ou serviços fornecidos, índice de retenção do usuário, participação da instituição nos segmentos-alvo, a imagem da Instituição e outros indicadores da percepção dos usuários. A perspectiva dos processos de trabalho internos permite aos gestores a identificação dos processos de trabalho internos que são críticos para a organização, e que por esta razão devem ser dotados de padrões de excelência. Tanto para as empresas privadas como para as organizações públicas a perspectiva dos processos internos tem os mesmos objetivos, ou seja, identificálos e monitorar o seu desempenho, tanto no que tange às suas atividades principais como em relação aos seus resultados em termos de custos e de efetividade para o usuário ou cidadão. Finalmente, a perspectiva do aprendizado e crescimento deve estabelecer critérios objetivos para mensurar os resultados das ações relacionadas ao desenvolvimento institucional, ou das pessoas que fazem parte da organização. A partir do conhecimento das perspectivas do BSC serão associados os Focos Estratégicos estabelecidos, a partir da análise da ambiência interna e ambiência externa. Ampliando a visão, anteriormente apresentada, sobre a vinculação lógica dos direcionadores estratégicos, a figura a seguir apresentada, também simplificadamente, as relações entre os conceitos pertinentes à gestão estratégica: FGV DIREITO RIO 22 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Direcionadores Direcionadores Estratégicos Estratégicos (básicos) (básicos) Missão VisãodeFuturo Valores Avaliação da ambiência interna (pontos fracos) Avaliação da ambiência interna (pontos fracos) Avaliação da ambiência externa (oportunidades e ameaças) Avaliação da ambiência externa (oportunidades e ameaças) PERSPECTIVAS PERSPECTIVAS FINANCEIRA FOCOS ESTRATÉGICOS FOCOS ESTRATÉGICOS F F1 FF2 FFn USUÁRIO F U1 F U2 F Un PROCESSOS INTERNOS F P1 FP2 FPn APRENDIZADO E CRESCIMENTO FA1 FA2 FAn OBJETIVOSESTRATÉGICOS OBJETIVOSESTRATÉGICOS OEF1.1 OEF1.n OEFn.1 OEFn.n OEU1.1 OEU1.n OEUn.1 OEUn.n OEP1.1 OEP1.n OEPn.1 OEPn.n OEA1.1 OEA1.n OEAn.1 OEAn.n Figura 4: Relação entre os direcionadores estratégicos e o BSC. FGV DIREITO RIO 23 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Exemplos de Direcionadores Estratégicos: Tribunal Regional do Trabalho – Rio de Janeiro MISSÃO Estar à disposição da sociedade para solucionar conflitos decorrentes das relações de trabalho. VISÃO Instituição pública modelo capaz de entregar a prestação jurisdicional de acordo com as necessidades e expectativas da sociedade. VALORES Ética Eficiência e resultado Acessibilidade Credibilidade Transparência Compromisso e participação Responsabilidade Social Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro MISSÃO: Resolver os conflitos de interesses em tempo adequado à sua natureza. VISÃO: VISÃO: Obter o reconhecimento da sociedade sobre a contribuiç contribuição do PJERJ para o exercí exercício democrá democrático da cidadania. VALORES: Conhecimento atualizado Objetividade Melhoria contí contínua Foco no usuá usuário Busca de conciliaç conciliação para soluç solução de conflitos Comprometimento Transparência FGV DIREITO RIO 24 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 1.6 MODELAGEM DE PROCESSOS DE TRABALHO 1.6.1 O que são Processos de Trabalho Neste capítulo são apresentados, resumidamente, os conceitos básicos sobre processos de trabalho e a importância do seu entendimento para a melhoria da gestão das organizações. Na realidade, tudo o que fazemos, percebemos ou o que acontece na Terra, mesmo sem percebermos, são processos de trabalho. São exemplos de processos da natureza: • a chuva é o processo de transformação da água em estado de vapor d’água existente no ar atmosférico em água no estado líquido (condensação) e sua precipitação sobre a terra; • o vento é o processo de transformação energética para reequilibrar a temperatura e a pressão em toda atmosfera. Observa-se que, para cada um desses processos, pode-se estabelecer a relação fundamental: ENTRADA TRANSFORMAÇÃO PRODUTO. Com um pouco de imaginação, podemos identificar em cada processo de trabalho a presença de três agentes: • a entrada, matéria-prima ou insumo – aquilo que vai ser transformado em outra coisa; • a transformação em si; • o resultado da transformação, que chamamos de produto ou de saída. Este arranjo, mostrado na figura a seguir, é o que chamamos intuitivamente de processo de trabalho. ENTRADAS SAÍDAS PROCESSO (transformação) Materiais Serviços Informações Materiais Serviços Informações Figura 5 – Diagrama de Processo de Trabalho FGV DIREITO RIO 25 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Para efeito de gestão de organizações, o termo processo possui várias definições, todas análogas e complementares entre si e alinhadas com a descrição apresentada. Vejamos algumas delas: FONTE BIBLIOGRÁFICA DEFINIÇÃO DE PROCESSO Norma NBR ISO 9000:2000 Conjunto de atividades inter-relacionadas ou interativas que transforma insumos (entradas) em produtos (saídas). Integration Definition for Modeling of Process – IDEF0 Conjunto de atividades, funções ou tarefas identificadas, que ocorrem em um período de tempo e que produzem algum resultado. Michael Hammer (em Reengenharia – Revolucionando a Empresa e em A Agenda) 1. Reunião de tarefas ou atividades isoladas; 2. Grupo organizado de atividades relacionadas que, juntas, criam um resultado de valor para o cliente. Thomas H. Davenport (em Reengenharia de Processos) 1. Conjunto de atividades estruturadas e medidas destinadas a resultar em um produto especificado para um determinado cliente/mercado. 2. Ordenação específica das atividades de trabalho, no tempo e no espaço, com um começo, um fim, e inputs e outputs claramente identificados. Observando com atenção as definições, verificamos que é conveniente fazermos uma distinção entre processo elementar e processo complexo. Processo elementar é a unidade elementar ou célula de um processo, composta de entradas, transformação e saídas. Dificilmente um processo elementar definirá praticamente uma análise organizacional, ressalvados casos muito especiais. Muito provavelmente, nosso interesse residirá em processos complexos, compostos por uma reunião interconectada de processos elementares, tal como nas definições da ISO 9000 e de Michael Hammer. Podemos admitir que, em geral, todo processo está inserido em um processo maior, assim como, alternativamente, todo processo pode ter algum tipo de decomposição. Como consequuência, os processos não possuem fronteiras perfeitamente definidas, cabendo a quem faz o mapeamento arbitrá-las, para que se tenha a melhor solução ao seu objetivo de análise. Para delimitar os processos, meramente por convenção, adotamos as denominações de macroprocessos (os processos mais abrangentes da organização), processos (as subdivisões dos macroprocessos) e subprocessos (as subdivisões dos processos), como por exemplo: FGV DIREITO RIO 26 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS MACROPROCESSOS SÃO OS PROCESSOS MAIS ABRANGENTES DA ORGANIZAÇÃO (p.ex. Resolver Conflitos Jurisdicionais) PROCESSOS SUBPROCESSOS SÃO AS SUBSUB-DIVISÕES DOS MACROPROMACROPROCESSOS (p.ex.: Resolver Conflitos no 1o Grau) SÃO AS SUBSUB-DIVISÕES DOS PROPROCESSOS (p.ex: Receber documentos, Autuar, Atender a Solicitações etc) Figura 6 – Decomposição dos Processos de Trabalho Para se conhecer o funcionamento dos processos de trabalho, há que se realizar o seu mapeamento. Essa atividade pode ser definida como o conhecimento e a análise dos processos e seu relacionamento com os dados, estruturados em uma visão top-down (do topo da organização para a sua base), até um nível que permita sua perfeita compreensão. Isto implica na possibilidade de obtenção dos produtos para os quais os processos existem. Uma vez coletados os dados, a tarefa consistirá em construir os diagramas e a respectiva documentação, montando a lógica do processo. Aí teremos a versão inicial, que deverá ser sucessivamente ajustada com novas informações, devidamente documentada, até que o mapeamento esteja completo, considerando a situação atual. Concluída a etapa de mapeamento da situação atual, a tarefa seguinte é refazer a análise, considerando as melhorias que poderão ser introduzidas no processo mapeado. O objetivo é ajustá-lo às necessidades dos clientes, tornando-o eficiente e eficaz na sua versão desejada (to be). Após a otimização do processo de trabalho é realizada a sua implementação. Implementar um processo é a ação que permite colocar em marcha os conceitos e as diretrizes contidas no planejamento do processo, assim gerando o produto objeto desse processo. O planejamento do processo é a concepção, a elaboração prévia do que o processo deveria ser. Implementar um processo é, portanto, fazê-lo funcionar, preferencialmente refletindo a forma como foi pensado e dando materialidade ao produto planejado. É consenso internacional – que compõe o sexto princípio de gestão da qualidade ISO 9000 – que a melhoria contínua é vital para a sustentação de qualquer organização. Sem ela, a organização se degrada progressivamente, até a falência, se nada for feito. A melhoria dos processos contempla várias fases, da qual a última, e indispensável, é a documentação. É a documentação que permite estabilizar o processo, mediante a fixação de critérios objetivos para balizar a forma de fazer, de medir e de prover FGV DIREITO RIO 27 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS registros dos resultados dos processos. Um processo sem documentação é um processo frágil e volátil, sujeito a interferências e a desvios, que o deformam progressivamente. Como vimos, a documentação dos processos é o último passo da melhoria dos processos em uma organização, e a consolidação da tecnologia embutida no processo. Em geral, podemos dizer que uma tecnologia estará assegurada quando ela for consolidada numa norma técnica. É claro que podemos e devemos gerar normas para organizar a fase inicial ou de implementação dos processos. A norma será a referência escrita para o processo. Enquanto o processo vai sendo ajustado, a norma consolida as mudanças. No início haverá um grande volume de mudanças, mas na medida em que o processo vai sendo estabilizado, o volume de mudanças vai se reduzindo exponencialmente. Haverá um momento em que a norma será considerada oficial e terá de ser controlada (na realidade, esse momento mais apropriado de “oficializar” a norma vai depender da cultura da organização e de cada situação específica). 1.6.2 A Rede e a Árvore de Processos da Organização Considerando que as organizações, mesmo as pequenas, são sistemas complexos, é de muito pouca relevância prática analisarmos um processo isoladamente (processo elementar), ressalvado o caso de termos um objetivo específico. As atividades que ocorrem nas organizações, mesmo as mais simples, compõem-se de uma rede de processos interconectados. Assim é que, mesmo em níveis setoriais de operação, há uma grande quantidade de processos interconectados, com ocorrência sequuencial ou concorrente, cada qual influenciando todos os outros. É o que chamamos de rede de processos (networking) da organização. Usualmente é vantajoso organizar a rede de processos sob uma vinculação algo hierarquizada, usualmente em forma de tabela ou planilha, à qual atribuímos o nome genérico de Árvore de Processos de Trabalho; nela se leva em conta apenas cada vinculação principal, similarmente como uma árvore é estruturada pela natureza: caule (o macroprocesso), galhos maiores (processos de primeiro nível), desdobramentos dos galhos maiores (subprocessos), sucessivos outros galhos menores (sucessivos subprocessos de níveis mais baixos) etc. Na realidade das organizações é evidente que além da vinculação principal os processos podem ter várias outras vinculações secundárias, formando uma rede capilar, que não é representada na Árvore de Processos de Trabalho. O quadro a seguir apresenta um exemplo resumido de Árvore de Processos de Trabalho de um Tribunal de Justiça Estadual: FGV DIREITO RIO 28 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS MACROPROCESO PROCESSOS SUBPROCESSOS Julgar em 1º Grau Julgar Conflitos em 1º Grau Julgar em Juizados Especiais Julgar em Turmas Recursais Julgar Conflitos em 2º Grau === Julgar Conflitos no Órgão Especial === Julgar Conflitos no Conselho da Magistratura === Realizar a Fiscalização e o Apoio Cartorário Judicial Fiscalizar, Disciplinar e Apoiar Serviços Judiciais e Extrajudiciais Realizar a Fiscalização e o Apoio Cartorário Extrajudicial Gerenciar a distribuição de feitos judiciais Realizar a recepção e a distribuição de mandados GERIR PODER JUDICIÁRIOS Apoiar a Atividade Jurisdicional Examinar a Admissibilidade de Recursos para os Tribunais Superiores Remeter Recursos para Tribunais Superiores Gerenciar Arquivo Prover Conhecimento Gerenciar Biblioteca Disponibilizar Legislação, Jurisprudências, Atos etc. Gerir Pessoas Recrutar e Selecionar Capacitar Pessoas Gerir Logística Adquirir bens e serviços Suprir materiais de consumo e permanentes Prover Serviços de Tecnologia da Informação === Gerir Recursos Orçamentários e Financeiros === 1.6.3 A Agregação de Valor nos Processos Aplicando o conhecimento anteriormente desenvolvido especificamente às organizações convencionais, torna-se oportuno ressaltar duas questões muito importantes da abordagem por processos: controle de processos e a agregação de valor. FGV DIREITO RIO 29 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A primeira delas – controle de processos – diz respeito ao grau de domínio que temos sobre as causas dos processos, isto é, em que medida conseguimos determinar, conscientemente, os seus resultados; “ter as rédeas na mão” parece ser essencial à gestão competente. A segunda questão, agregação de valor, que constitui a essência da economia capitalista, diz respeito à justificativa final para a existência de um processo em uma organização: se não agrega valor, deve, racionalmente, ser eliminado do ambiente. Antes que o leitor suspeite do caráter “frio ou cruel” do significado do termo valor, adiantamos que este não necessita ser necessariamente financeiro; por exemplo, nas ações humanitárias é inadequado medir o respectivo valor do processo realizado ou a realizar em termos do benefício financeiro imediato conseguido ou esperado; todavia, o resultado da empreitada, no seu aspecto mais abrangente, deve representar alguma forma de ganho mais amplo para a sociedade (por exemplo, preservar vidas que poderão contribuir futuramente para o bem da humanidade). Valor de um produto, segundo Porter14, é “o montante que os compradores estão dispostos a pagar por aquilo que uma empresa lhes fornece”. Enfatizamos que valor é um atributo fixado pelo cliente e não pela organização que realiza o produto, independentemente do esforço em fazer o trabalho. Se um produto agradar ao cliente, provavelmente ele atribuirá maior valor a esse produto; alternativamente, mesmo que haja enorme esforço em realizar um bom produto, o cliente poderá atribuir-lhe baixo ou nenhum valor, caso esse produto não lhe seja atrativo. Valor é um atributo fixado pelo cliente e não pela organização que realiza o produto. A compreensão de que o valor é atribuído pelo cliente e não pela organização não é muito comum, uma vez que aquele que realiza o produto tem o impulso de atribuir um valor usualmente maior do que o valor que o mercado está disposto a pagar. Este pode ser maior ou menor do que o valor atribuído pelo fornecedor (organização); mas usualmente o valor de mercado é menor do que o valor atribuído pelo fornecedor. Por exemplo, suponha que você tenha à venda um automóvel usado, cujo “valor” (para você) é muito grande, porque você cuidou dele como ninguém e o automóvel está “tinindo”. Todavia, o real valor é aquele pago pela pessoa que comprar o automóvel, independentemente do valor que você atribui a ele. Em síntese, melhorar uma organização nada mais é do que melhorar a eficácia (alcançar os resultados) e a eficiência (relacionada ao custo de fazer) dos seus processos, majorando continuamente o resultado integrado ou global. 14 Michael Porter em Vantagem Competitiva, 1989. FGV DIREITO RIO 30 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS É importante esclarecer que o valor agregado não é necessariamente expresso em unidades financeiras, embora o seja na grande maioria das vezes. Se considerarmos, por exemplo, o valor agregado nos processos de uma instituição de caridade, pode não haver uma característica financeira, mas sim uma característica social, afetiva ou outras intangíveis. 1.6.4 As Necessidades dos Clientes e os Requisitos dos Processos Na condição mais favorável possível para a organização, os produtos dos processos devem ser tais que atendam plenamente às necessidades dos clientes. Quando isto acontece, dizemos que os processos são feitos com qualidade, isto é, existe a esperada agregação de valor. Quando o processo não agrega o valor esperado, a saída tem valor igual ou menor do que a entrada, e estaremos diante de um processo “não-lucrativo”, isto é, sem qualidade. Tais processos não geram “lucro” e consomem recursos, sendo portanto nocivos à organização onde são realizados. Veremos que tais processos precisam ser eliminados dos sistemas. Os produtos dos processos destinam-se ao cliente do processo. Melhor dizendo, o produto do processo é feito para atender às necessidades do cliente para o qual o processo existe. Estas necessidades devem ter sido estabelecidas a priori, antes da realização do processo. De outra forma, somente por coincidência um produto qualquer (sempre o resultado de processos) atenderia completamente às necessidades do cliente. Como saber antecipadamente o que o cliente quer, para que possamos atendê-lo? Se formos perguntar a cada momento o que o cliente deseja para depois realizarmos o processo e satisfazer às suas necessidades, provavelmente perderemos muito tempo e a concorrência será mais rápida e nos tomará este cliente. Esta é uma questão muito interessante e vamos explicá-la com um exemplo do nosso dia-a-dia. Vamos comprar um carro? Para simular esta situação, coloquemo-nos no papel de uma concessionária que se propõe a vender o carro desejado pelo cliente, com qualidade, isto é, satisfazendo às suas necessidades. O produto deste processo deverá ser “carro vendido e entregue, que atende plenamente às necessidades do comprador”. Para tanto, em primeiro lugar, precisamos compreender que o cliente tem necessidades e tem também expectativas. Necessidades são aquelas coisas essenciais que o cliente precisa ter atendidas e usualmente as declara. No caso apresentado, são exemplos de necessidade: definição do modelo do carro, preço e forma de pagamento compatíveis com os recursos disponíveis do cliente, perfeição técnica do carro na entrega (desempenho e aparência), prazo de entrega etc. Expectativas são outras coisas que o cliente deseja obter, mas que, por várias razões, ele não declara ou não as explicita. Dentre as razões pelas FGV DIREITO RIO 31 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS quais ele não declara suas expectativas, pode haver o desconhecimento (p.ex.: produtos muito complexos) ou o pressuposto (do cliente) de que as organizações são (ou deveriam ser) competentes para saber interpretá-las. São exemplos de expectativa: cortesia no atendimento, antecipação aos fatos (fornecedor proativo), informações precisas e oportunas, honestidade, bom humor, enfim, aquele “algo mais” que doure o sonho do cliente ao comprar um carro novo. Uma vez que lidamos com seres humanos – e seres humanos são sempre muito complexos –, dispomos de um caminho único para conhecer as necessidades e as expectativas: perguntar ao cliente e validá-las continuamente após cada processo (as pessoas se modificam permanentemente). Isto nos permite assegurar que continuamos no caminho certo, isto é, conhecendo, compreendendo e satisfazendo as necessidades do cliente. Quando o cliente estiver formalizando a compra, ele estará fechando um contrato com a concessionária. As cláusulas deste contrato deverão conter precisa e detalhadamente todas as necessidades dos clientes, registradas com propriedade pelo vendedor competente. Este, que faz o contato com o cliente – “hora da verdade” –, é uma das peças-chave para o sucesso da cadeia de processos que se seguirá à venda. Esperamos que o contrato contemple tudo aquilo que foi combinado. Nesta fase estaremos transformando as necessidades dos clientes em requisitos finais do contrato, que deverão ser integralmente cumpridos na entrega do carro, devidamente temperados com o “algo mais” que o cliente estará esperando. As necessidades dos clientes devem ser transformadas em requisitos de processos. Para atender plenamente o contrato com o cliente, a concessionária terá de realizar uma série de processos internos, posteriores à venda: confirmar a disponibilidade de estoque do carro, fazer a revisão de entrega, preparar a documentação exigida, preparar o faturamento, lavar e polir o carro etc. Para que a coisa toda funcione bem, é preciso que cada uma das pessoas da concessionária e outras envolvidas nos processos intermediários comuniquem, no sentido do cliente para dentro da concessionária, os requisitos tal como combinados e que representam as necessidades do cliente. Para cada elo da cadeia de processos assim formada (ou interface entre processos internos da concessionária) a partir do cliente, os requisitos vão sendo estabelecidos sucessivamente “a montante”, isto é, da direita para a FGV DIREITO RIO 32 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS esquerda, formando o conjunto dos requisitos dos processos internos, conforme mostra a figura abaixo. PROCESSAR AUTOS GUARDAR AUTOS LOCALIZAR AUTOS ATENDER BALCÃO CLIENTE Sentido de Estabelecimento dos Requisitos Figura 7 – Sentido dos requisitos por parte do cliente Cada um destes processos internos (estoque, preparação, vendas e outros) terá, portanto, os seus requisitos estabelecidos para atender às necessidades do cliente do processo seguinte. Tudo se passa como se em cada interface de processos (por exemplo, a interface vendas — preparação de carros) fosse estabelecido um “contrato”, que teria requisitos, com o objetivo de assegurar a satisfação do cliente do processo que está à sua direita (processo cliente). Especificamente no processo de preparação do carro (atividades de revisão técnica, lavagem, polimento, abastecimento etc.), há requisitos do processo seguinte (entrega do carro ao cliente, que é parte do processo de venda) que, se não forem atendidos durante o processo de preparação, muito provavelmente provocarão insatisfação no cliente final. Se, por acaso, a revisão não for feita no prazo combinado, a data de entrega do carro ao cliente não poderá ser cumprida, rompendo a cadeia da qualidade. Uma vez estabelecidos os requisitos, a concessionária terá de realizar os sucessivos processos internos no sentido “a jusante”, isto é, da esquerda para a direita, assim “produzindo qualidade”. Produzir qualidade nada mais é do que realizar cada processo da cadeia interna em absoluta conformidade com os requisitos anteriormente estabelecidos. Produzir qualidade é “entregar qualidade 100%” ao próximo cliente. Produzir qualidade nada mais é do que realizar cada processo da cadeia interna em absoluta conformidade com os requisitos anteriormente estabelecidos. Produzir qualidade é “entregar qualidade 100%” ao próximo cliente. Parece razoável imaginarmos que, se todos os requisitos foram estabelecidos com propriedade e os processos da cadeia interna foram realizados em conformidade com estes requisitos, lá na ponta haverá grande probabilidade de o cliente ficar inteiramente satisfeito, pois ele terá todas as suas necessidades e expectativas atendidas. A figura a seguir mostra esta situação: FGV DIREITO RIO 33 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS PROCESSAR AUTOS GUARDAR AUTOS LOCALIZAR AUTOS ATENDER BALCÃO Sentido de Obtenção de Conformidade dos Requisitos CLIENTE (SATISFEITO) Figura 8 – Sentido dos requisitos por parte do fornecedor A figura acima pode ser interpretada como uma rede de processos interconexos, fortemente dependentes entre si. É uma verdadeira corrente, cuja resistência é o seu elo mais fraco. Cada processo a jusante – cliente do processo anterior – dependerá da qualidade do seu respectivo processo fornecedor. Se cada processo individualmente cumprir fielmente o seu papel, o todo tem sintonia, tal como ocorre com uma boa orquestra, cujos requisitos são as partituras: o resultado final é harmônico. Cada um trabalha para o todo, sendo parte dele: é o exato sentido do termo compartilhar. Por outro lado, se alguém deixar de fazer a sua parte, a orquestra “desafinará”. Este elo se romperá e a cadeia da qualidade ficará descontinuada. Lá na ponta o cliente deixará de ter algumas ou todas as suas necessidades atendidas. Foi-se a qualidade. FGV DIREITO RIO 34 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 2. MODELOS DE GESTÃO ADMINISTRATIVA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS “... Pela primeira vez, em 250 anos da história do Judiciário Fluminense, todas as unidades administrativas e órgãos judiciais estão previstos na estrutura organizacional do Poder, de modo a estabelecer com clareza as atribuições essenciais de cada qual e as respectivas linhas de gerência. Eliminaram-se unidades desnecessárias e criaram-se outras que atendam as novas exigências de expansão e diversidade....”. . Des. Miguel Pachá – Presidente do TJERJ no Biênio 2003-2004 Discurso proferido em 08/12/2003 para apresentação da nova Estrutura Organizacional do TJERJ elaborada no âmbito do Projeto de Fortalecimento e Modernização da Gestão do TJERJ conveniado com a FGV Projetos 2.1. A EFICIÊNCIA E A EFICÁCIA NA GESTÃO DO JUDICIÁRIO 2.1.1. Conceitos de Eficiência e Eficácia Eficiência e eficácia são dois termos básicos para o estudo da gestão das organizações. A Norma NBR ISO 9000:2000 fornece a seguinte definição para o termo eficácia, quando aplicado à gestão: Eficácia: extensão na qual as atividades planejadas são realizadas e os resultados planejados, alcançados. A interpretação mais cuidadosa dessa definição determina a existência de alguns pré-requisitos. Dessa forma, para que haja uma condição de eficácia em um determinado processo, há necessidade que: • as atividades a serem realizadas sejam (previamente) planejadas; • os resultados desejados sejam, também, (previamente) planejados; • exista alguma forma de medida dos resultados; • exista algum indicador de desempenho; • exista uma meta para balizar o indicador; • os resultados alcançados sejam coerentes, à luz do indicador de desempenho adotado, com o resultado que foi previsto. O termo eficácia, portanto, pressupõe a existência de gestão do processo considerado, devendo ser aplicado com parcimônia. Coerentemente com a definição, não faz sentido utilizar o termo eficácia em um contexto no qual não existam as preocupações mínimas de gestão, de planejamento e de controle. A eficácia está relacionada aos resultados do processo, sem qualquer vinculação com a forma de executá-lo. Poderemos, portanto, ter processos igualmente eficazes tanto realizados sob custos e condições ótimas, quanto sob FGV DIREITO RIO 35 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS condições sofríveis. Uma vez que na eficácia apenas os resultados serão observados e comparados, ela não caracteriza por completo a qualidade de um processo. Isso vai requerer alguma informação adicional sobre uma outra característica importante, que é o custo com que se obtém a eficácia pretendida. Essa condição é a eficiência, assim definida pela ISO 9000:2000: Eficiência: relação entre o resultado alcançado e os recursos usados. Como ilustração, analisemos as combinações de eficiência e de eficácia de um processo de investigação policial sobre um furto de automóvel. Caracterizemos o que significa cada coisa nesse processo. Eficiência do processo: diz respeito aos custos para fazer a investigação. Nesse caso, representaremos os custos apenas pela quantidade de homens-dia para executar o processo. Eficácia do processo: identificar o autor e coletar as provas materiais do furto. Várias são as alternativas de combinação da eficácia e da eficiência desse processo. Vejamos, alguns exemplos sobre essas diferentes possibilidades no quadro a seguir: ALTERNATIVAS DE COMBINAÇÃO EXEMPLOS Processo eficiente e eficaz Uma particular investigação do furto, cujo inquérito registra a identificação completa do autor e apresenta as provas necessárias e suficientes do furto. A investigação é consumada em apenas cinco homens-dia de trabalho dos investigadores. Processo eficiente e Ineficaz Uma particular investigação do furto, cujo inquérito não registra a identificação completa do autor ou não apresenta as provas necessárias e suficientes do furto. A investigação é consumada em apenas cinco homens-dia de trabalho dos investigadores. Processo INeficiente e eficaz Uma particular investigação do furto, cujo inquérito registra a identificação completa do autor e apresenta as provas necessárias e suficientes do furto. A investigação é consumada em cem homens-dia de trabalho dos investigadores. Processo INeficiente e Ineficaz Uma particular investigação do furto, cujo inquérito não registra a identificação completa do autor, ou não apresenta as provas necessárias e suficientes do furto. A investigação é consumada em cem homens-dia de trabalho dos investigadores. FGV DIREITO RIO 36 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O quadro a seguir resume essas apreciações sobre eficiência e eficácia. QUALIFICAÇÃO AÇÃO DESCRITORA DA CONDIÇÃO Eficiência executa corretamente aquilo que é feito (não necessariamente o que é feito é a real necessidade do cliente). Eficácia alcança os objetivos que foram planejados (tem impacto). Eficiente e eficaz Faz, sob custo compatível, o que realmente precisa ser feito. A experiência mostra que, em geral, algumas organizações fazem mais do que precisa ser feito, deixam de fazer algumas coisas essenciais e as coisas que fazem não são nem eficientes nem eficazes. É uma combinação explosiva de insatisfação dos clientes (que se frustram por não terem as suas necessidades atendidas), com desperdício (realização de atividades desnecessárias, que não agregam valor). Observemos a analogia gráfica dessa assertiva, mostrada na figura adiante, na qual cinco setores do gráfico identificam as nossas áreas de interesse. 1) elipse (completa) da direita: representa o que precisa ser feito, as necessidades dos clientes do próximo processo. 2) elipse (completa) da esquerda: representa o que a organização realmente faz, isto é, todos os resultados ou produtos das atividades realizadas no dia a dia. 3) setor hachurado da esquerda da elipse: representa o que a organização faz, mas não é necessidade do cliente; expressa os desperdícios (recursos gastos sem retorno). 4) setor hachurado da direita da elipse: representa o que o cliente necessita, mas não é feito pela organização; expressa as carências, que vão gerar as insatisfações dos clientes. 5) setor de interseção entre as duas elipses (pontilhado): representa o que o cliente necessita e a organização realiza; expressa a área combinada de eficiência e de eficácia organizacional. Pressões do mercado (externas à organização) Fornecedores A organização faz, mas não é necessidade do cliente (desperdício) A organização faz e é necessidade do cliente (eficácia) É necessidade do cliente, mas a organização não faz (carência) Clientes Pressões internas da organização Figura 9 – Eficácia da organização FGV DIREITO RIO 37 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS É bastante intuitivo que a competência da organização possa ser interpretada pela sua capacidade de fazer convergir as duas elipses. No limite, a máxima eficiência e a máxima eficácia corresponderiam à congruência entre as duas elipses. Desse modo, todas as necessidades dos clientes estarão satisfeitas, mediante a realização das atividades organizacionais absolutamente necessárias, e sem gerar desperdícios. Nesse caso, tudo o que a organização faz atende a uma necessidade identificada do cliente e todas as necessidades dos clientes são identificadas e atendidas. Adicionalmente, tudo o que é feito, precisa ser eficiente, para que se tenha o menor custo possível, assim permitindo que o preço do produto final possa ser competitivo no mercado e possa, ainda, gerar o excedente de lucro (rentabilidade) e o retorno de investimento. Essa condição pode ser expressa pela seguinte equação, na qual o símbolo “∩” – interseção – significa a ocorrência simultânea das coisas que esse símbolo conecta. eficiência ∩ eficácia → satisfação dos clientes ∩ custo mínimo ∩ rentabilidade A interpretação dessa relação é a seguinte: a combinação da eficiência e da eficácia dos processos significa atender às necessidades dos clientes dos próximos processos, sob custo mínimo e obter a rentabilidade capaz de manter o negócio competitivo. 2.1.2. Eficiência e Eficácia no Judiciário Cada vez mais a sociedade exige do Poder Judiciário a eficiência. A exigência foi tal que a eficiência transformou-se em princípio constitucional, por meio da Emenda Constitucional no 19, de 04 de junho de 1998. Estabelece o artigo 37 da Constituição Federal: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.” No que se refere aos serviços públicos, o Código de Defesa do Consumidor também exigia a eficiência, artigo 22: “Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos”. Entrementes, devido à importância do tema para a Administração Pública, inseriu-se a eficiência como princípio constitucional. Assentado isso, urge a definição de eficiência. A eficiência é a relação entre recursos e resultados. Na organização eficiente, as pessoas executam com precisão suas tarefas. É o FGV DIREITO RIO 38 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS fazer certo. Ao fazer certo, evita-se o retrabalho e a realização de tarefas que não agregam valor. Salta aos olhos a ligação da eficiência e economia. Nesse viés, impende salientar que o dever de prestar contas, inserido também pela Emenda Constitucional no 19/98, se coaduna com o conceito de eficiência. Com efeito, estabelece o parágrafo único do artigo 70 da Constituição Federal: Prestará contas qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma obrigações de natureza pecuniária. Enfim, a eficiência é a otimização dos nossos recursos para alcançar os melhores resultados. Já o conceito de eficácia requer o planejamento de atividades e dos resultados. Vai ainda mais longe, exige que os resultados sejam alcançados. Planejar atividades pressupõe a escolha certa. Não há no plano da eficácia vinculação com a forma de executar os processos. A ligação da eficácia se dá com os resultados. Nessa linha de raciocínio, necessário frisar que os resultados somente são atingidos com a escolha certa (eficácia) e com o fazer certo, sob restrição de custos (eficiência). Logo, conclui-se que os dois conceitos pressupõem a gestão dos processos na medida em que se planeja, fixam-se objetivos e controla-se a execução, e esta, deve ser pautada pelo custo mais baixo. Apesar de imposição constitucional, o setor público resiste à ideia de eficiência administrativa. Aliás, o setor público, em geral, é refratário às mudanças. Talvez a maior dificuldade de adequação a uma nova forma de administrar, decorra daí. Tradicionalmente, as organizações públicas não agem pró-ativamente. Quando os problemas aparecem, tratam os efeitos, deixando à margem as causas. Dessa forma, os problemas se repetem e o clima organizacional é de sobressaltos constantes. Neste contexto, não há espaço para planejamento e avaliação porque as energias da organização ficam constantemente voltadas “a apagar incêndios”. É uma espécie de reincidência administrativa. Os gestores públicos parecem enlevados por um pensamento mágico de que as situações críticas, uma vez solvidas, não voltarão a acontecer e, após uma crise, se preparam para um longo período de calmaria e bonança. O Poder Judiciário também enfrenta algumas dessas resistências. Não raras vezes fica-se entre carimbos e formalidades desnecessárias e pouca atenção é dispensada ao atendimento do cliente. Prova disso é a ausência de uma cultura de pesquisa de satisfação e de treinamento específico para atendimento. Historicamente, o Poder Judiciário se viu como imune às críticas da sociedade, situação própria de um período ditatorial. Com a democratização e liberdade de imprensa, fica-se sujeito à avaliação da população e despreparados para os efeitos do aumento da cidadania, que reverteu em aumento gigantesco da demanda. Todos estes fatores levam à necessidade de mudança. O cenário atual é crítico e o prospectivo também. A eficiência e eficácia na prestação dos FGV DIREITO RIO 39 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS serviços revertem em melhoria da imagem institucional e, como consequuência, mais legitimação e fortalecimento. Certo é que se enfrentam limitações orçamentárias que limitam algumas iniciativas e projetos. Porém, também é certo que há um largo espaço para a mudança de cultura institucional. 2.2. ANÁLISE DOS MODELOS DE GESTÃO ADMINISTRATIVA DE INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 2.2.1. Breve Histórico sobre Estruturas Organizacionais Apesar de a grande maioria dos autores que escrevem sobre a arte de organizar, tecer seus comentários com base em técnicas desenvolvidas no início do século XX, a verdade é que há comprovação de que, desde o começo da civilização, o homem se preocupou com as técnicas de administração. Dessa forma, um estudo, ainda que superficial, revela que muito antes da chamada Revolução Industrial já havia inequívocas demonstrações da aplicação prática de conceitos e normas administrativas. Alguns exemplos são muito conhecidos, como a construção das pirâmides egípcias, onde se demonstrou grande capacidade de planejar, organizar, controlar e comandar o trabalho de milhares de escravos. Nos estaleiros navais em Veneza, desde 1436 há registros da aplicação de normas de contabilidade, controle de estoque, técnicas de montagem em cadeia, administração de pessoal etc. No entanto, é nos EUA que surge a visão de que a administração das empresas poderia ser estudada à luz de métodos racionais ou científicos. Inicialmente Daniel Mac Callum, engenheiro ferroviário norte-americano, já identificara, por volta de 1856, três princípios aplicáveis à administração ferroviária, isto é, a organização, a comunicação e a informação. Destes, o princípio da organização (ou adequada divisão do trabalho) era considerado por ele o mais fundamental dos três. “Mac Callum foi, também, o primeiro empresário de quem se tem notícia de ter utilizado um organograma (desenhado à semelhança de uma árvore) para representar a estrutura de uma empresa” (Bergamini, 1982, p. 40). O ponto central da teoria organizacional é, sem dúvida, a contribuição de Frederick Winslow Taylor e seus seguidores, que partiram da sistematização do trabalho para encontrar a “melhor maneira” (the best way) de administrar, válida para qualquer tipo de organização. Segundo Miles & Snow15, é possível destacar três formas principais de estrutura organizacional que emergiram no último século: a estrutura funcional, a estrutura divisional e a estrutura matricial. A estrutura organizacional funcional surgiu na transição do século XIX para o século XX. O que caracteriza, fundamentalmente, esta forma de estru- 15 MILES, Raymonde E. & Snow, Charles C. Causes of failure in network organizations. Califórnia Management Review. Califórnia, 34(4):53-72, Summer 1992. FGV DIREITO RIO 40 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS tura é a especialização coordenada e centralizada do trabalho. “Uma organização segue o critério funcional de departamentalização quando cada departamento corresponde a uma função principal” (Maximiano, 1990, p.205). Níveis Unidades Hierárquicos Organizacionais Presidência Gerência 1 Diretoria 1 Diretoria 2 Diretoria 3 Gerência 2 Gerência 3 Gerência 4 Gerência 5 Figura 10– Estrutura organizacional funcional – níveis hierárquicos Este desenho organizacional permitiu que diversas organizações alcançassem o tamanho necessário e a eficiência para produzir produtos e serviços em prol de um aumento de mercado interno. Um exemplo dessa organização funcional encontra-se nos hospitais. DIREÇÃO MATRIZ REGIÃO A Oper. Oper. Mkt. Mkt. REGIÃO B Fin. Fin. Oper. Oper. Mkt. Mkt. REGIÃO C Fin. Fin. Oper. Oper. Mkt. Mkt. Fin. Fin. Figura 11– Estrutura organizacional funcional A estrutura organizacional divisional aparece logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1920, Alfred B. Sloan16 a instituiu na General Motors e, com isso, desbanca a Ford, do extraordinário Henry Ford, como maior empresa mundial. A organização divisional se consolida rapidamente no fim dos anos 1940 e início dos anos 1950. A principal característica desse desenho organizacional é a combinação da autonomia divisional com um controle central de desempenho e distribuição de recursos. ”A divisionalização é um processo de descentralização de atividades e de autoridade, pelo qual cada 16 Nesta época Alfred B. Sloan também instituiu as bases do atual sistema de contabilidade industrial. FGV DIREITO RIO 41 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS unidade de trabalho passa a desfrutar de grande autonomia e responsabilidade. Essa descentralização torna-se uma necessidade quando a organização cresce, passando a atuar em grandes extensões geográficas, atender mercados muito diferentes uns dos outros, ou operar linhas muito diversificadas de produtos e serviços” (Maximiano, 1990, p.205). A terceira forma de estrutura organizacional é a matricial, que evoluiu nos anos de 1960 a 1970 e combinou elementos das duas outras formas (funcional e divisional). “Em seu modelo ideal, este tipo de estrutura consiste em uma organização funcional estável, combinada com uma estrutura horizontal de coordenação, que comanda e orienta os recursos humanos especializados para a execução de um ou mais projetos” (Maximiano, 1990, p.209). DIREÇÃO Projeto 1 X X X Projeto 2 X X X Projeto 3 X X X Departamento1 Departamento2 Departamento3 Figura 12 – Estrutura organizacional matricial “No entanto, a crise econômica dos anos 1970 sinalizou o esgotamento do sistema de produção em série e o consumidor começou a demandar produtos com maior qualidade e quantidade, os mercados se diversificaram, o ritmo de mudanças tecnológicas cresceu muito e o sistema de produção em série se mostrou rígido e custoso para as características da nova economia. Começa um novo período, o pós-capitalista, no qual o emprego do conhecimento em si supera o controle do capital em importância” (Peci, 1999, p.10). Diversos autores passam, então, a apresentar melhores alternativas para o desenho de novas estruturas organizacionais. As empresas dão sinais claros quando estão vivenciando um processo de transformação estrutural. Ao longo das duas últimas décadas, as organizações pelo mundo responderam ao crescimento da competitividade no ambiente global dos negócios pelos movimentos coordenados das empresas. Como consequuência, as estruturas organizacionais se tornaram progressivamente mais flexíveis e horizontais, paulatinamente substituindo as tradicionais pirâmides (estruturas funcionais típicas). Como decorrência natural da intensificação do uso da tecnologia da informação e de todas as gigantescas transformações associadas (globalização, FGV DIREITO RIO 42 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS comunicação, informação, competitividade do mercado etc.), vem se consolidando um novo desenho de estrutura organizacional, tipificado como estruturas virtuais. Essas estruturas são formadas por empresas independentes que compartilham seus recursos e competências, utilizando fortemente a tecnologia da informação, com o objetivo de obter vantagens em rede (maximizar competências, reduzir custos e facilitar acesso a mercados). No início de 2003, eram exemplos de estruturas virtuais: • a rede Credicard: integrada pelo próprio negócio do cartão de crédito, lojistas associados, instituições financeiras, empresas de análise de crédito/cobrança etc.; • cartões de fidelidade de clientes de companhias aéreas: integrada pela companhia aérea que transporta o cliente, lojistas associados, bancos, outras instituições financeiras etc. Na esteira das estruturas virtuais, surgem a cada dia novos desenhos de estruturas organizacionais. Como tantos outros criados ao longo da histórica econômica, os novos desenhos são frutos da criatividade empreendedora, em busca de soluções para enfrentar novas situações e desafios. Cabe a cada organização compreender o seu “negócio” e desenhar “a lápis” a estrutura organizacional mais apropriada a cada momento de sua gestão. Dizemos “a lápis” para simbolizar que a estrutura é específica de um dado momento da organização e requer que seja atualizada sempre que se caracterizar uma nova necessidade, identificada pela sua gestão. 2.2.2. A Estrutura Organizacional com base em Processos de Trabalho Apesar de reconhecer que as organizações funcionais são rígidas, a solução de abandonar esse tipo de estrutura é mais complicada do que se pode imaginar. Não se propõe que o processo seja a única base para o desenho da estrutura organizacional. Uma estrutura organizacional alinhada com os processos é importante para sinalizar quem são os responsáveis pelos grandes processos organizacionais. Como já visto anteriormente, a abordagem por processos se distingue das versões hierarquizadas e verticalizadas da estrutura típica funcional. A estrutura organizacional funcional impõe uma visão fragmentada e estanque das responsabilidades, embora indique as relações de subordinação com clareza. Em contrapartida, a estrutura por processos permite uma visão dinâmica da forma pela qual a organização agrega valor ao seu negócio. De uma forma geral, a adoção de uma estrutura baseada em processos significa atribuir menor ênfase às relações hierárquicas/funcionais da organização. Entretanto, na maioria das organizações observamos que sua gestão se FGV DIREITO RIO 43 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS orienta pela limitação dinâmica das suas principais funções (compras, operações, finanças etc.), o que é fragmentado, oneroso e não atende adequadamente ao cliente. A abordagem por processos exige que as interfaces entre as áreas funcionais sejam continuamente melhoradas. Adicionalmente, é sempre desejável que o fluxo do trabalho permeie as diversas unidades funcionais (compras, operações, finanças etc.), por meio de movimentos rápidos e eficientes de informação. Uma organização que tenha interesse em trabalhar apenas por processos deve “estar preparada para tolerar os conhecidos problemas com estruturas de matrizes, inclusive a difusão da responsabilidade, relações hierárquicas pouco claras e gasto excessivo de tempo na coordenação de atividades e reuniões” (Davenport, 1994, p.188). Uma estrutura organizacional baseada em processos é uma estrutura construída em torno do modo de fazer o trabalho, e não em torno de habilitações específicas departamentalizadas. Vários teóricos do processo organizacional argumentam que as organizações necessitam reduzir seus níveis de hierarquia e adotar estruturas baseadas em ação, e não estruturas formais. Uma estrutura baseada em processos combina uma orientação para a ação com um certo grau de estrutura formal. Uma estrutura organizacional baseada em processos é uma estrutura construída em torno do modo de fazer o trabalho, e não em torno de habilitações ou de poderes específicos. Processo de trabalho Gerência 1 Presidência Diretoria 1 Diretoria 2 Diretoria 3 Gerência 2 Gerência 3 Gerência 4 Resultado Resultado efetivo efetivodo do trabalho trabalho Gerência 5 Figura 13 – Estrutura organizacional com foco em processos de trabalho A maioria das empresas que adotou melhorias estruturais impôs um gerenciamento por processos como dimensão adicional de uma estrutura – por cima das dimensões existentes –, atribuindo a responsabilidade do processo a gerentes que também podem ter responsabilidades funcionais. “Em quase FGV DIREITO RIO 44 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS nenhuma dessas empresas a responsabilidade pelo processo recebeu legitimidade organizacional” (Davenport, 1994, p. 190). Segundo Davenport 17, a hesitação em passar para estruturas baseadas em processos vai além do simples desconhecimento do processo como uma unidade organizacional. Quando lhes perguntaram por que relutavam em passar para estruturas baseadas em processos, os gerentes orientados para processos apresentaram, entre outras, as seguintes razões: • preocupação com o fato de o nível de mudança organizacional já ser alto com a reengenharia; a conversão a uma organização baseada em processos poderia constituir uma mudança excessiva; • receio de que o fato de as funções já não constituírem a base primordial de organização, poderia fazer com que as habilidades funcionais se perdessem; e • crença de que o processo se constitui numa base instável para a organização, porque os processos mudam mais depressa do que as funções. Todas as razões podem ter algum fundamento, porém uma organização que demonstre dinamismo e capacidade de mudança tem maior chance de sobrevivência no seu negócio. A proposta não é puro e simples abandono, nem tampouco uma mudança radical na estrutura organizacional existente (seja ela funcional, divisional, matricial etc.). A proposta é conhecer e melhorar os processos de trabalho para que haja uma melhor compatibilidade com uma estrutura organizacional decididamente mais apropriada, tal que promova o melhor desempenho da organização. 2.2.3. Modelos de Estrutura Organizacional de Instituições Jurídicas Públicas É possível dividir a organização em cinco partes básicas, segundo Mintzberg18, para desenhar a Estrutura Organizacional: • cúpula estratégica: grupo encarregado de assegurar o cumprimento da missão de uma organização e de satisfazer as exigências daqueles que controlam ou exercem poder sobre a organização; • núcleo operacional: composto pelos operadores, que perfazem o trabalho básico relacionado com a produção de bens ou prestação de serviços; • linha intermediária: gerentes com autoridade formal que fazem o elo de ligação da cúpula com o núcleo operacional; • tecnoestrutura: analistas incumbidos de implementar as formas de padronização na organização; • assessoria de apoio: unidades especializadas, criadas para dar apoio à organização, fora de seu fluxo de trabalho operacional. 17 DAVENPORT, Thomas H. Reengenharia de processos, Rio de Janeiro, Campus, 1994. 18 MINTZBERG, Henry. op. cit., p. 19. FGV DIREITO RIO 45 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A partir desses conceitos e observando o Organograma19 apresentado a seguir, é possível concluir que na estrutura de um Tribunal de Justiça temos, de forma exemplificada: • na cúpula estratégica o Tribunal Pleno, o Órgão Especial, a Presidência, as Vice-Presidências e a Corregedoria Geral; • no núcleo operacional, os gabinetes dos Desembargadores e as Secretarias das Câmaras, as Varas e os Juizados; • na linha intermediária, as Diretorias Gerais; • na tecnoestrutura, as Comissões de Qualidade, Unidades de Desenvolvimento Institucional; e • na assessoria de apoio, os Gabinetes de Juízes Auxiliares, Centro de Estudos etc. Tribunal Pleno Órgão Especial Diretoria Geral de Controle Interno Conselho da Magistratura Secretaria do Tribunal Pleno e do Órgão Especial Secretaria do Conselho da Magistratura Escola da Magistratura Ouvidoria Geral Presidência do TJERJ 1ª Vice-Presidência Corregedoria Geral da Justiça Seção Criminal 2ª Vice-Presidência 3ª Vice-Presidência Câmaras Criminais Juízos Varas Juizados Especiais e Turmas Recursais Tribunais do Juri Câmaras Cíveis Cartórios Órgãos Colegiados Não-Jurisdicionais Gabinete da Presidência Gabinete dos Juízes Auxiliares da Presidência do Tribunal de Justiça Fundo Especial do Tribunal de Justiça Centro de Estudos e Debates Diretoria Geral de Apoio aos Órgãos Jurisdicionais Diretoria Geral de Gestão do Conhecimento Diretoria Geral de Tecnologia da Informação Diretoria Geral de Planejamento, Coordenação e Finanças Diretoria Geral de Logística Diretoria Geral de Gestão de Pessoas Diretoria Geral de Segurança Institucional Diretoria Geral de Desenvolvimento Institucional Diretoria Geral de Engenharia Figura 14 – Estrutura organizacional do TJERJ 19 Organograma é a representação gráfica de uma estrutura organizacional. FGV DIREITO RIO 46 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3. SISTEMA DE GESTÃO DE INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1. SISTEMA DE GESTÃO: DEFINIÇÃO E ELEMENTOS A partir dos conceitos apresentados (estratégia, processos de trabalho, estrutura organizacional etc.) é descrito neste capítulo os elementos que constituem o modelo de gestão de uma Unidade, denominado Sistema de Gestão. A definição de Sistema de Gestão é a seguinte: conjunto de elementos inter-relacionados, com o fim de organizar a gestão das unidades organizacionais, mediante o estabelecimento e a implementação de políticas, de estratégias, de objetivos e de indicadores de desempenho. Cada unidade judicial (Câmara, Turma, Vara, Juizado, Promotoria etc.) ou unidade administrativa constitui um Sistema de Gestão. A consolidação dos diversos Sistemas de Gestão dessas unidades compõem o Sistema de Gestão da Instituição. Um Sistema de Gestão é composto de quatorze elementos, a seguir apresentados, que se implementados e acompanhados pelos gestores podem prover a unidade de um modelo de gestão eficiente e eficaz: 14. Análise Crítica 1. Foco da Organização 2. Direcionadores 13. Avaliações 3. Planejamento da Gestão 4. Estrutura Organizacional 12. Tratamento de Falhas 5. Comunicação 11. Medição 6. Gestão de Pessoas 10. Registros (Resultados) 9. Normatização 8. Processos de Trabalho 7. InfraEstrutura Figura 15 – Elementos do Sistema de Gestão FGV DIREITO RIO 47 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Para que o Sistema de Gestão seja implementado, de forma eficiente e eficaz, numa Unidade Judicial é importante que os princípios abaixo sejam observados pelo gestor e pela equipe da unidade: • quebrar paradigmas, incentivando a criatividade e a inovação; • desenvolver visão estratégica das mudanças pretendidas (Direcionadores Estratégicos e Objetivos); • criar uma cultura de processos de trabalho (rotinas administrativas e indicadores), padronizando os processos de trabalho para melhorar a produtividade; • conhecer quem são os usuários dos processos de trabalho (requisitos dos usuários); • conhecer as necessidades e expectativas do usuário (Pesquisa de Satisfação e de Opinião); • desenvolver visão sistêmica; • aprimorar o processo de comunicação interna; • definir responsabilidades; • capacitar e valorizar a equipe; • harmonizar e incentivar o trabalho em equipe; • gerenciar adequadamente os materiais, sistemas e serviços providos; • organizar o ambiente de trabalho; • estimular a liderança (criar um ambiente propício à inovação, encorajar as pessoas, administrar os resultados do trabalho, permitindo o desenvolvimento profissional e pessoal, saber ouvir, implementar e melhorar continuamente o sistema de gestão, educar, educar, educar...). Para facilitar o entendimento de cada “elemento” de um Sistema de Gestão são apresentados, nos próximos capítulos: • a explicação básica sobre cada “elemento”; • o exemplo de aplicação do elemento a uma Unidade Judicial. 3.1.1. Elemento 1: Foco da Organização A única razão para a existência de uma organização são os seus clientes/ usuários, que precisam ter as suas necessidades e expectativas atendidas. Para tanto, é importante que sejam identificados o que denominamos de “requisitos dos usuários”. Por que devemos conhecer os “requisitos dos usuários”? • porque o usuário é o foco da organização; • para realizar os serviços conforme as necessidades e expectativas dos usuários; FGV DIREITO RIO 48 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • para realizar os processos de trabalho conforme o planejado; • para auxiliar na formulação de pesquisa de satisfação; • para confirmar que a organização está sendo capaz de atender plenamente às necessidades e expectativas dos usuários. O conhecimento de alguns conceitos é importante para auxiliar no estabelecimento dos “requisitos dos usuários”, a saber: • processos de trabalho - Conjunto de atividades inter-relacionadas que transforma insumos (entradas) em produtos (saídas). • produto ou serviço - Resultado de um processo de trabalho (serviços, informações, materiais e equipamentos, materiais processados). • usuário ou cliente - Organização ou pessoa que recebe um produto/ serviço (p.ex.: consumidor, usuário, usuário final, varejista, beneficiário e comprador); um usuário pode ser interno ou externo à organização. • requisitos - Necessidade ou expectativa que é expressa, geralmente, de forma implícita (prática usual) ou obrigatória (lei); no caso do sistema judicial, os requisitos estão documentados na Lei ou em normas internas (Resoluções, Atos, Provimentos, Rotinas etc.); requisitos podem ser gerados pelas diferentes partes interessadas (gestor, usuário, fornecedor, sociedade). TIPO REQUISITO DESCRIÇÃO SITUAÇÃO Estatutários e Regulamentares Estabelecidos na legislação e normas internas Obrigatório Não-declarados pelo Usuário, mas vinculados a funcionalidade ou a segurança Adicionais aos requisitos estatutários e regulamentares e não explicitados pelos usuários, mas que são necessários. Obrigatório Declarados pelo Usuário Adicionais aos requisitos estatutários e regulamentares e explicitados pelos usuários Desejável Expectativas Antecipação, na forma de requisito ou apenas pela iniciativa de um servidor da organização, com o fim de realizar um atendimento que supere a necessidade do usuário Desejável Os requisitos dos usuários são classificados em: Exemplos de “requisitos dos usuários” que devem ser observados na realização dos serviços prestados por uma Unidade Judicial: FGV DIREITO RIO 49 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O “SORRISO” NO ATENDIMENTO CONFORTO AMBIENTAL PARA CONSULTAR O PROCESSO LOCALIZAÇÃO RÁPIDA DO PROCESSO CUMPRIMENTO DE PRAZOS EXPECTATIVAS DECLARADOS PELO USUÁRIO NÃO-DECLARADOS PELO USUÁRIO ESTATUTÁRIOS E REGULAMENTARES Figura 16 – Exemplo de requisitos dos usuários 3.1.2. Elemento 2: Direcionadores Estratégicos O processo de gestão estratégica constitui um esforço disciplinado para produzir decisões e ações fundamentais sobre o que uma organização é, onde quer chegar, e utilizando quais meios, apoiado em três direcionadores estratégicos básicos: Missão, Visão de Futuro e Valores. Esse conceito já foi apresentado no Capítulo 1.5 – Gestão Estratégica. O exemplo abaixo diz respeito aos Direcionadores Estratégicos do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (vide site: www.tj.rj.gov.br/ Institucional/ Tribunal de Justiça/ Missão, Visão Valores e Política da Qualidade): Figura 17 – Direcionadores Estratégicos do PJERJ FGV DIREITO RIO 50 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.3. Elemento 3: Planejamento da Gestão A partir dos Direcionadores Estratégicos estabelecidos, o processo de planejamento tem continuidade com a formulação de intenções relacionadas às ações a serem desencadeadas, especialmente quanto a Focos e Objetivos Estratégicos. Focos Estratégicos constituem os desafios fundamentais a serem enfrentados pela organização, de forma a que esta possa cumprir adequadamente a missão estabelecida e alcançar o cenário futuro desejado. A identificação dos Focos Estratégicos é o coração do processo de planejamento estratégico. Objetivos Estratégicos representam os resultados a serem alcançados ou mantidos pela instituição, são estabelecidos no contexto dos diversos Focos Estratégicos, e a cada um deles estão associados metas e indicadores de desempenho que permitem sua formulação e acompanhamento de forma concreta e mensurável. Esse conceito já foi apresentado no Capítulo 1.5 – Gestão Estratégica. Como exemplo, a Unidade Judicial deve estabelecer, anualmente, objetivos estratégicos devidamente mensuráveis, tendo suas metas traçadas, os respectivos planos de ação elaborados e os indicadores capazes de apontar o progresso na consecução das metas estabelecidas. Esses objetivos são propostos pela equipe e aprovados pelo gestor. Exemplo de objetivos estratégicos: OBJETIVO FINALIDADE PERÍODO META Redução do Tempo Médio de Julgamento Tornar a prestação jurisdicional mais célere, reduzindo o tempo decorrido entre a distribuição inicial e a sentença. Jan/09 a Dez/09 Redução de 5% Tempo médio de julgamento Redução do Acervo de Processos Judiciais Proporcionar a melhoria da gestão do acervo dos processos judiciais em andamento. Redução de 5% Total do acervo de processos judiciais Melhoria do Índice de Satisfação do Usuário Melhorar a qualidade do atendimento prestado ao usuário. Aumento de 1% Grau de satisfação do usuário com o atendimento recebido Jan/09 a Dez/09 Jan/09 a Dez/09 INDICADOR FGV DIREITO RIO 51 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.4. Elemento 4: Estrutura Organizacional A Estrutura Organizacional agrupa os processos de trabalho afins e define as unidades responsáveis por esses processos, definindo a sua vinculação hierárquica. O Organograma é a representação gráfica da Estrutura Organizacional. Esse conceito foi apresentado no Capítulo 2.2.1 - Breve Histórico sobre Estruturas Organizacionais. Como exemplo é apresentada a Estrutura Organizacional de uma Vara, bem como as principais atribuições de cada elemento: JUIZ DE DIREITO GABINETE DO JUIZ ESCRIVÃO EQUIPE DE PROCESSAMENTO EQUIPE DE APOIO ADMINISTRATIVO EQUIPE DE DIGITAÇÃO Figura 18 – Estrutura Organizacional de uma Vara FUNÇÃO RESPONSABILIDADE Juiz de Direito • Examinar e julgar os feitos de sua competência; • promover a melhoria contínua da gestão, mediante determinação e acompanhamento da gestão estratégica, políticas e objetivos estratégicos; • conduzir reuniões de sua respectiva unidade e assegurar os respectivos resultados. Escrivão ou Diretor de Secretaria • Gerenciar e acompanhar a realização das atividades operacionais do Cartório, relativas à prestação jurisdicional; • garantir a implementação e a execução da estratégia estabelecida pelo juiz, mediante o acompanhamento das estatísticas do cartório; • administrar os recursos humanos e a infraestrutura do cartório. Gabinete do Juiz (Secretário ou Assessor do Juiz) • Apoiar o juiz na elaboração e emissão dos pronunciamentos judiciais, na administração dos estagiários e materiais do gabinete do juiz, bem como no planejamento e na convocação das reuniões de análise crítica. Equipes • Realizar os processos de trabalho de sua responsabilidade; • informar aos superiores qualquer impossibilidade de atender à satisfação dos destinatários do próximo processo de trabalho. FGV DIREITO RIO 52 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.5. Elemento 5: Comunicação O processo de “comunicação” é imprescindível para a obtenção de resultados eficientes e eficazes na organização. A comunicação humana compreende vários processos, por meio dos quais os homens se relacionam, transmitem e recebem ideias, impressões e imagens de toda ordem (do latim “communicare”, pôr em comum). A capacidade dos homens para conviverem e coordenarem esforços, evitando conflitos ruinosos, é determinada, em grande parte, por suas aptidões para a comunicação correta. A comunicação humana exige: • o transmissor: quem transmite a mensagem; • o receptor: quem recebe a mensagem; • a mensagem: conteúdo a ser transmitido; • o meio/canal: processo utilizado; • código: linguagem comum; • feedback: recibo da percepção. As percepções diferenciadas de uma mensagem por parte dos transmissores e dos receptores são os grandes fatores perturbadores do processo de comunicação. Alguns tipos de percepções diferentes que ocorrem num processo de comunicação: • o que o transmissor quer dizer; • o que realmente diz; • o que o receptor ouve; • o que o receptor pensa que ouviu; • o que o receptor responde; • o que o transmissor pensa que o receptor respondeu. Algumas barreiras típicas observadas no processo de comunicação realizada pelo “transmissor”: • não esclarece seus objetivos; • utiliza um meio de comunicação que não alcança o receptor; • usa conceitos que o receptor não entende; • pressupõe que o receptor conheça o assunto em pauta; • não desperta o interesse por parte do receptor; • não procura saber se sua mensagem foi compreendida pelo receptor. Algumas barreiras típicas observadas no processo de comunicação realizada pelo “receptor”: • filtrar os conteúdos (preconceitos, estereótipos...); • reprimir a mensagem que contenha elementos que não lhe interessam; • reinterpretar a mensagem, distorcer, fazer alterações; • não pedir esclarecimentos das dúvidas implicadas na mensagem. FGV DIREITO RIO 53 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A comunicação em uma Unidade Judicial se dá da seguinte maneira: o Gestor promove a comunicação interna à equipe, informando pessoalmente os assuntos mais urgentes e utilizando-se, para tanto, dos seguintes canais: • reuniões sistemáticas ou quando se fizerem necessárias; • informações (cartazes) afixadas nos quadro de avisos com a missão, visão, política, informativos da Corregedoria, mapa de indicadores, resultados das pesquisas; • emprego das formas de mídia eletrônica disponíveis na Instituição, a exemplo de e-mail; • emprego das formas de correspondência escrita, a exemplo de ofícios, folhetos, folders, cartazes e outros. Alguns exemplos de instrumentos de comunicação usados pelos gestores das Unidades Judiciais: CLASSE/FORMA TIPO DE DOCUMENTO Normas Internas Atos Normativos, Instruções/Rotinas Administrativas, manuais técnicos etc. Atos Legislativos e Administrativas CF/88, leis diversas etc. Comunicação Interna Autos de processos judiciais, autos de processos administrativos, formulários, projetos, plantas etc, Memorandos, correspondências internas, email etc. Comunicação Externa Ofícios, cartas etc. Documentos gerenciais Planos, relatórios, direcionadores estratégicos etc. Documentos bibliográficos Livros, periódicos etc. Normas Externas Norma ISO, normas de fornecedores etc. Registros 3.1.6. Elemento 6: Gestão de Pessoas O processo de gestão de pessoas das Unidades Judiciais do Poder Judiciário está inserido em uma transformação conceitual importante. Está em curso a migração do foco da “função RH” de uma atuação baseada principalmente em tarefas processuais (sustentada pelo antigo modelo de Departamento de Pessoal, o “DP” das administrações tradicionais) para uma atuação sistêmica que privilegia o desenvolvimento pessoal e profissional das pessoas, ou seja, uma mudança de eixo de controle para desenvolvimento. Essa nova visão não FGV DIREITO RIO 54 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS considera as pessoas meros recursos (humanos) organizacionais, mas sim elementos impulsionadores da organização, capazes de dotá-la de inteligência. A ideia é criar as condições para a implementação de um Sistema de Gestão por Competências voltado para resultados. É importante, portanto, esclarecer o termo “competência”. Os dois principais dicionários da língua portuguesa utilizam definições semelhantes ao termo quando aplicado à esfera jurídica. Segundo o Dicionário Aurélio20, competência é: “faculdade concedida por lei a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou questões”. Já o Dicionário Houaiss21 aplica ao termo o seguinte significado: “qualidade legítima de jurisdição ou autoridade, conferidas a um juiz ou a um tribunal, para conhecer e julgar certo feito submetido à sua deliberação dentro de determinada circunscrição judiciária”. Na dimensão administrativa, no entanto, o termo competência usualmente recebe o significado de “conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes e comportamentos que permitem ao indivíduo desempenhar com eficácia determinadas tarefas”, a NBR ISO-9000:2000 o define como “capacidade demonstrada para aplicar conhecimentos e habilidades”. Para este trabalho, foi adotada a definição da NBR ISO-9000:2000. O Sistema de Gestão das Competências é composto dos quatro subsistemas descritos a seguir, inter-relacionados e estruturados em torno do foco unidades judiciais e do foco pessoas. a) Matrizes de Competências: a partir das macroatribuições das unidades organizacionais, é definida a Matriz de Competências Requeridas. Nesse instrumento, são definidas as competências acadêmicas, profissionais e pessoais requeridas para a gestão eficaz de cada unidade organizacional. Mostra a correlação entre cada cargo e o conjunto de competências necessário para exercê-lo, além de fornecer informações para a melhor lotação dos cargos e o aproveitamento das pessoas. A partir da análise das competências individuais da equipe, é definida a Matriz de Competências Evidenciadas. Nesse instrumento, são relacionadas as competências individuais (acadêmicas, profissionais e pessoais) evidenciadas de cada pessoa. A comparação entre essas duas matrizes identifica as “Lacunas de Competências”, ou seja, as competências requeridas pelo cargo analisado e não-possuídas por seu ocupante. A metodologia de implementação de Matriz de Competências é composta por cinco categorias de competências essenciais: • competências acadêmicas: são os requisitos de formação acadêmica de segundo e terceiro graus, pós-graduações e a conhecimentos de idiomas. 20 Dicionário Aurélio Eletrônico - Século XXI – versão 3.0 – 1999. 21 Dicionário Eletrônico Houaiss – 2000. FGV DIREITO RIO 55 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • experiência profissional: são os requisitos referentes ao tempo de experiência profissional. • áreas de conhecimento (treinamento e desenvolvimento): são os requisitos referentes a conhecimentos obtidos por meio de ações de capacitação e desenvolvimento ou da experiência profissional. • habilidades: são os requisitos referentes às práticas profissionais requeridas ao bom desempenho do ocupante de cada cargo ou função. Habilidade aqui é entendida como a capacidade de aplicação prática dos conhecimentos adquiridos nas atividades de treinamento e desenvolvimento, ou na experiência profissional. • comportamentais: são as tendências comportamentais requeridas ou evidenciadas. b) Banco de Competências: é consenso entre diversos autores que, na maioria das vezes, na busca de alguma informação, consultamos bibliotecas, acessamos a internet e interpelamos nossos colegas de trabalho em busca de conhecimentos que, na verdade, a organização já possui. O problema é que não sabemos onde eles se encontram. Alguns autores22 afirmam que cada um de nós chega a passar o equivalente a duas ou três semanas por ano procurando informações que os outros já têm. O Mapeamento das Competências acadêmicas, profissionais e pessoais gera um conjunto de Matrizes de Competências Evidenciadas denominado Banco de Talentos, onde estarão registrados todos os conhecimentos e habilidades individuais da equipe. Da mesma forma, o conjunto das Matrizes de Competências Requeridas dá origem ao Banco de Requisitos dos Cargos. Nesse banco de dados estarão registrados, além das competências requeridas, a definição, a descrição e o perfil funcional de cada cargo. O Banco de Competências representa, na verdade, um amplo projeto de construção de um data warehouse onde estarão registradas e acessíveis as competências individuais de toda a equipe e os requisitos funcionais de todos os cargos, com várias possibilidades de cruzamento e acesso às informações para suporte à decisão. Vale ressaltar que o forte investimento em tecnologia da informação é fator crítico de sucesso desse subsistema. c) Avaliação de Desempenho e de Potencial: a comparação entre o desempenho esperado e o aferido, com base em metodologia própria, tendo como pano de fundo as lacunas de competências, servirá de base para as ações de desenvolvimento profissional. 22 STEWART, Thomas A. Capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1999. FGV DIREITO RIO 56 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Dessa forma, ganha-se em efetividade, pois serão evidenciadas exatamente as necessidades e potencialidades que a pessoa apresenta, para se obterem os resultados requeridos pelo cargo ocupado. A avaliação do desempenho, aliada ao acompanhamento da evolução das competências individuais, mostrando as faltas e os excessos, deve ser a base para a elaboração do Plano de Desenvolvimento Profissional. d) Plano de Desenvolvimento Profissional: o gerenciamento dos subsistemas Banco de Competências e Avaliação de Desempenho e Potencial fornece inúmeras possibilidades. Uma delas é a elaboração de um Plano de Desenvolvimento Profissional mais dirigido, com o objetivo de oferecer a pessoa a chance de aperfeiçoamento e oportunidades de relotação. A Figura a seguir mostra uma representação esquemática do Sistema de Gestão das Competências. MAT RIZ DE COMPETÊN CIAS ESPE CIF ICAÇAO DAS COM P ETÊN CIAS ASSE SSOR CHE FE DE DEPA RTAMENTO DIRE TOR GER Itens a na lisados CHE FE DE GABINETE AL Ou tr os F o rm a ção cu rso s Áre a Te m po T rein am e nt os Id ioma s r eal izad o s Hab ili da de s P e sso ai s OBJETIVOS INSTITUCIONAIS Asp ect o s Pes so ais Des ejá vei s Projeta o que o cargo requer Cargo Mostra o que a pessoa tem NOME DA DIRETOR IA GERAL Exp eriên ci a Pr of iss io na l COMPETÊNCIAS REQUERIDAS CHE FE DE DIV ISÃO F UNÇÕES COMPETÊNCIAS EVIDENCIADAS 2 º Gr au Univ e rs it ár io Pós gra du açã o Pós g rad ua ção e m A dm n i i s tr a ç ão Ju d i ci ár i a Ingl ês O utr os id iom as ( esp ecifi car) Capa ci ta çã o G e rencia l B á sic a 1 a 2 an os 2 a 5 an os M ai s de 5 an os (e sp e ci fica r) G er enc ial Ope ra cion al Cria tivi dad e Espír ito d e n i i c ai ti va C ap a ci da d e de co m uni ca ção Capa cida de de tra balh ar em eq uip e C a p ac d i a de de l idar com o nov o - a d apt ar- se a n ova s situ açõ es Ra ciocí nio lógic o Cap aci da d e d e a b st ra çã o R el ac o i na me n to i nt er pe sso al Ne go ciaçã o L ider anç a Red a çã o Org an iza çã o e p al ne j am en to Capa cidad e d e a ná lise Capa cidad e d e sí nte se Expre ss ã o o ral e e scr ita Le gen da : Obr iga tór io Dese jáv el GESTÃO DO CONHECIMENTO BANCO DE TALENTOS BANCO DE REQUISITOS Avaliação de Desempenho e de Potencial REQUISI REQUISI TOS TOS DO DO CAR CAR GO GO Competências requeridas X Competências aferidas P LANO DE DE SE NV OPLVI ME NTO PROFI SS IONAL AN AL IS AR: SUP ERA PERFIL FUNCIONAL RELAÇÃO CO M C HEF IA O FE RECER RECER ATR ATR IB IB UIÇÕES UIÇÕES DESM OT IV AÇÃ O MAIS C OMPL E XA S PRO MO ÇÃO A CA CARG R GOS OS M MAIS A IS E XIG EX IGENTES E NT ES RE LOT AÇÃ O COM PORT AME NT O O FERECER OF ERE CER: A AD D EQ EQ UA UA ÇÃO ÇÃO A TENDE TREIN AM E NTO COM PORT AME NT A L A T UAL CAPA CAPA CIT CIT AÇÃO AÇÃO PA RA M AI OR ENQ UADRA MENT O RELOT AÇÃO N ÃO A TEND TE NDE NÃ OA E ANALIS AR VVA ANT NTAAGE GENS NS EE DES VANT AGENS DE O O FERECE FERECE R R DE CAPACIT AÇÃ AÇ ÃO O E/ OU RELOT AÇÃO NÃ O A TENDE O FERECER C APACIT AÇÃ O T ÉCNICA A TENDE Plano de desenvolvimento profissional PERFIL DO CARGO SUP SUP ERA ERA RE QUI SI TOS DE E FICÁC IA Desempenho requeri do X Desempenho af erido Adaptado de: Hipólito( 2002) A pessoa certa no lugar certo Melhor aproveitamento das habilidades pessoais Figura 19 – Representação esquemática do Sistema de Gestão das Competências FGV DIREITO RIO 57 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.7. Elemento 7: Infraestrutura Uma Unidade Judicial faz parte de um grande sistema onde existem unidades que a apoiam para que ela possa cumprir a sua missão. Como exemplo, existem as Unidades de Cumprimento de Mandados, para dar cumprimento às ordens judiciais, as Escolas da Magistratura e dos Servidores, para a formação continuada de magistrados e as demais unidades administrativas que prestam os seguintes serviços: • controle patrimonial de ingressos e saídas de materiais de consumo e permanente, onde o fornecimento ocorre de acordo com as necessidades reais de consumo; • manutenção dos sistemas e de equipamentos de informática, conforme as necessidades de serviço; • necessidades de limpeza, a organização e a conservação das instalações; • apoio de segurança que se mostrar suficiente e oportuno para o atendimento a situações de risco contra pessoas ou bens, no âmbito do juízo ou cartório; • gerenciamento da documentação; considerando os autos dos processos judiciais e os documentos administrativos recebidos e gerados pelo cartório, que devem são classificados e arquivados em pastas próprias, para posterior consulta e recuperação; os autos dos processos são mantidos nas estanterias e assim como os documentos administrativos devem ser analisados anualmente para verificação do prazo de guarda, com vistas à eliminação ou transferência ao Arquivo Central. Gerenciar a infraestrutura demanda tempo e organização. Essa atividade é realizada pelos gestores. Outra questão importante e que faz parte da gestão de infraestrutura é a organização do ambiente de trabalho. Para que a organização do ambiente de trabalho seja realizada, deve-se considerar: • a distribuição das equipes por processo de trabalho, considerando as áreas para o gabinete, para audiências e para atendimento do usuário; • se o mobiliário está padronizado e se atende às necessidades da equipe e de guarda de material; • se são observados, permanentemente, os princípios de organização, limpeza e cuidado da equipe. Os princípios abaixo auxiliam a organização do ambiente de trabalho no caso de uma Vara: • SELEÇÃO E UTILIDADE o instituir um dia em cada semestre, ou quando considerar necessário, para proceder a uma “faxina” na unidade; FGV DIREITO RIO 58 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS o mantenha próximo o que você usa com mais frequuência; o separe os materiais/mobiliários que servem daqueles que não servem; o verifique se os materiais/mobiliários que não servem têm utilidade para outra unidade ou libere-os para retirada; o separe os documentos com prazo de guarda vencido (observe os prazos estabelecidos na Tabela de Temporalidade de Documentos) e encaminhe ao Arquivo Central ou providencie a sua eliminação, se for o caso. CUIDADO: nas Instituções Jurídicas Públicas os documentos são considerados públicos e precisam de uma análise cautelosa antes de sua eliminação. • ORGANIZAÇÃO o verifique se o mobiliário está identificado (código patrimonial); o estabeleça locais para guarda dos processos, prevendo as seguintes situações: - urgência (p.ex.: idosos etc.); - conclusos ficam no Gabinete; - audiência; - conhecimento, caso a Unidade obedeça a esse critério; - execução, caso a Unidade obedeça a esse critério; - prazo, caso a Unidade obedeça a esse critério. o proceda à identificação do mobiliário, conforme cada caso: - Caso 1 - para organização por processos em fase de conhecimento e de execução - coloque as etiquetas nas estantes/armários e nas prateleiras (p.ex.: ESTANTE A – PILHA 1); - Caso 2 - para organização por prazo – coloque etiquetas nas prateleiras de 1 a 31, para cada dia do mês, e para cada prateleira coloque as letras A, B e C (p.ex.: PRATELEIRA 1A); o organize os processos judiciais: - Caso 1 - para organização por processos em fase de conhecimento e de execução - coloque os processos nas estantes/pilhas vagas; coloque na capa do processo o número de identificação da estante/pilhas (p.ex.: EA-P1); - Caso 2 - para organização por prazo – coloque os processos nas estantes/prateleiras correspondente ao dia (à data do início do prazo soma-se o prazo e a este mais 10 dias); o organize os expedientes em pastas; o mantenha os quadros de aviso com cartazes e folhetos atualizados (missão, visão, política, informativos da Corregedoria). FGV DIREITO RIO 59 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • LIMPEZA o “local limpo não é o que se varre, mas, sim, aquele que menos se suja”; o mantenha as mesas e gavetas limpas e em condições de uso; o solicite a limpeza da unidade permanentemente; o jogue no lixo copos e outros itens após o uso; o mantenha as cestas de lixo disponíveis. • ZELO o “seu ambiente de trabalho reflete a sua personalidade”; o mantenha com a equipe um ambiente de limpeza e organização. • AUTODISCIPLINA o desenvolva com a equipe uma disciplina pessoal e profissional; o mantenha o cumprimento dos procedimentos operacionais; o seja pontual; o busque o autodesenvolvimento, a inovação e novos desafios; o proporcione entrosamento permanente com a equipe. 3.1.8. Elemento 8: Processos de Trabalho O conceito de Processos de Trabalho foi apresentado no Capítulo 1.6 – Modelagem de Processos de Trabalho. Neste capítulo é apresentada a forma de funcionamento genérica de uma Unidade Judicial, considerando uma situação idealizada. O foco desta descrição é o processo de gestão, sem considerar o conteúdo e o trâmite do processo judicial. Uma Unidade Judicial tem como atribuições processar demandas que lhe sejam remetidas por distribuição aleatória ou prevenção legal, conforme a sua matéria. O produto final de uma unidade judicial está relacionado ao serviço de entrega da prestação jurisdicional que lhe é demandada. A unidade funciona como uma rede de processos de trabalho, ilustrada no Diagrama de Contexto, que mostra os principais processos, bem como suas interações. FGV DIREITO RIO 60 Processos desarquivados Mandados de avaliação - Vista / Devolução de autos / informações - Solicitações diversas - Petições c/ documentos Avaliador Advogado/ partes Mandados Documentos Processos com promoções / Laudo Arquivo Central de Mandados Órgãos Externos DP/MP/Procuradorias/ Perito Auto de Leilão Processo com Cálculos Contador Leiloeiro Provimentos / Correição Processos Originários da 2ª Instância / Processos julgados da 2ª Instância / Recursos / Pedidos de Informações Ofícios de Baixa / Declínio Ofícios de Retificação (Online) Petição Inicial / Contra-fé / Carta Precatória / Processos / Petições / Ofícios Entrada Corregedoria Geral da Justiça TJ (2ª Instância) Distribuidores Distribuição (Protocolo) ORIGEM Processo Complementar de Gestão Administrativa A/P/D Atender a Solicitações Solicitações especiais de Advogados (filtradas) Documentos Diversos / Juntada de petição / Processos A Receber Documentos Petição inicial / Carta Precatória Pré-atendimento realizado Documentos para serem digitados A – Equipe de Apoio D - Equipe de Digitação P - Equipe de Processamento C – Gerência Cartorária S – Secretário do Juiz P A C J Legenda: Estrutura Organizacional D Publicar Andamentos dos Processos Judiciais D Digitar Documentos J Gerir a Entrega da Prestação Jurisdicional PROCESSOS Atos ordinatórios G – Gabinete do Juiz J - Juiz C P Processar Tratamento de Produtos Nãoconformes A Autuar Processos Judiciais Autos conclusos Decisões / Sentenças / Despachos lançados no Sistema Autos conclusos pré-examinados Processos autuados para conclusão S Secretariar o Juiz Diagrama de Contexto de Vara Cível D G Comunicados aos Jurisdicionados / Publicidade Documentos Digitados Documentos para assinatura C A Encaminhar Documentos Documentos assinados Documentos para assinatura do Juiz Documentos diversos Gerir o Cartório Informações/ Determinações / Documentos assinados Decisões/ Sentenças/ Despachos a serem lançados no Sistema Autos do Processo para vistas / Informações / Certidões Pedido de Publicação online Autos de Processos com vistas Solicitação de arquivamento e desarquivamento de autos Mandados a cumprir Cartas Precatórias Autos de Processos com intimação Processos para Cálculos Processos para 2ª Instância / Informações Ofícios de Baixa Retificação (Online) Petições por dependência Solicitações especiais atendidas Saída Advogado/ Partes Diário Oficial DP/MP/Procuradorias/ Perito Arquivo Central de Mandados / Avaliador Outras Serventias Leiloeiro Contador TJ (2ª Instância) Distribuidor Distribuição (Protocolo) Advogados / Partes DESTINO GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Figura 20 – Diagrama de Contexto de Vara FGV DIREITO RIO 61 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.8.1 Processos de Trabalho das Unidades Nesse capítulo é descrita a forma de funcionamento de cada processo de trabalho de uma Vara, apresentado no Diagrama de Contexto: - GERIR A ENTREGA DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL DE PRIMEIRO GRAU O juiz de direito é responsável por realizar a gestão da prestação jurisdicional de primeiro grau, além de ser o responsável por despachar, decidir e sentenciar, em prazos razoáveis e compatíveis com o volume de serviço do cartório, os autos dos processos judiciais levados à sua conclusão. - SECRETARIAR O JUIZ O apoio de secretariado ao juiz é realizado pelo secretário, que é o responsável, entre outras, pelas seguintes atividades: coordenar a agenda do juiz; proceder à triagem, à análise e ao encaminhamento das correspondências dirigidas ao juiz; elaborar e encaminhar os expedientes gerados internamente no gabinete; gerenciar o material e serviços do gabinete; gerenciar os pedidos de manutenção e apoio de informática do gabinete; gerenciar a marcação e o cancelamento de audiências; minutar relatórios de sentença, quando autorizado pelo juiz; realizar o pré-atendimento aos advogados que desejam despachar com o juiz; acompanhar a emissão de relatórios de indicadores. - GERIR O CARTORÁRIO Os processos de trabalho realizados no Cartório são distribuídos entre três equipes: EQUIPES RESPONSABILIDADES Apoio • Receber, analisar, registrar e disponibilizar para processamento os documentos destinados à unidade; • autuar os documentos recebidos; • realizar o entranhamento de ofícios, correspondências, mandados e carta precatória nos autos de processos judiciais, quando determinado pelo Escrivão; • expedir documentos; • arquivar autos de processos judiciais; • realizar a baixa para conclusão e publicação de expedientes. Digitação • Confeccionar ofícios, mandados e documentos; • elaborar e arquivar os registros de remessa de documentos. FGV DIREITO RIO 62 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS EQUIPES RESPONSABILIDADES Processamento • Realizar o entranhamento dos documentos nos autos de processos judiciais; • proceder ao processamento de autos judiciais. Atendimento ao Balcão • Todos os servidores do cartório realizam, em sistema de rodízio, a atividade de atendimento aos usuários no balcão de atendimento. REALIZAR A GESTÃO DO CARTÓRIO O objetivo desse processo de trabalho é detalhar as atividades realizadas pelo escrivão para a gestão do cartório. RECEBER DOCUMENTOS O objetivo desse processo de trabalho é receber documentos destinados à unidade e dar-lhes o devido encaminhamento interno. AUTUAR PROCESSOS JUDICIAIS O objetivo desse processo de trabalho é transformar petições iniciais em processos judiciais. PROCESSAR O objetivo desse processo de trabalho é realizar atividades durante a tramitação do processo judicial, com o objetivo de viabilizar-lhe o julgamento. PUBLICAR ANDAMENTO DOS PROCESSOS JUDICIAIS O objetivo desse processo de trabalho é providenciar a publicação, no Diário Oficial, de todos os atos realizados na unidade que requeiram tal formalidade, conforme as disposições legais vigentes. DIGITAR DOCUMENTOS O objetivo desse processo de trabalho é detalhar as atividades de digitação de documentos. FGV DIREITO RIO 63 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS ENCAMINHAR DOCUMENTOS O objetivo desse processo de trabalho é controlar o envio de documentos da unidade para qualquer entidade externa. ATENDER A SOLICITAÇÕES O objetivo desse processo de trabalho é atender às providências demandadas à unidade, dentre as quais se destaca o atendimento ao público. FGV DIREITO RIO 64 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS FLUXOGRAMA BÁSICO DE FUNCIONAMENTO DE UMA VARA Inicio Divisão de Distribuição 2 Início P RO G E R Recebe petições docum entos G uia de rem essa O K? Recebe petição inicial /docum entos /guia de rem essa / G uia de rem essa O K ? Devolve petição/ docum ento para P RO G E R Não N ão Devolve petição / docum entos para Divisão de D istribuição S im Sim Devolve guia de rem essa assinada para D ivisão de D istribuição A rquiva guia de rem essa no livro tom bo S epara petições para juntada R ealiza autuação - C oloca capa - C ola etiqueta de identificação - N um era, carim ba e rubrica docum entos C onfere docum entos e G RE RJ Lança dados do processo no sistem a D CP - C adastro P arte - C adastro A dvogado E m ite certidão registro de custas Recebe processo com decisão/ despacho do Juiz E ncam inha processo ao Juiz Lança dados da conclusão do Juiz no sistem a D CP Sim Realiza o processam ento - N um era, carim ba e rubrica docum entos - A nalisa andam ento Lança dados do processo no sistem a D CP - A tualiza C adastro Advogado - D ados da juntada dos docum entos H á conclusão ao Juiz Não D á andam ento ao processo 1 Recebe processo do Juiz e lança no sistem a D CP dados de rem essa/ publicação Não D espacho, decisão ou sentença Lança dados de publicação no sistem a DCP 1 E m itir guia de rem essa e encam inhar p/ DO Há Digitação? S im Disponibiliza processo para digitação Lança dados de publicação no sistem a DCP Lança dados para digitação no sistem a D CP Confirm a a publicação Im prim e docum entos e insere no processo Im prim e certidão de publicação Encam inha processo para assinatura Insere certidão no processo A guarda iniciativa Decorrendo o prazo sem iniciativa, o processo tem im pulso oficial 1 2 Figura 21 – Fluxograma de Funcionamento de Vara FGV DIREITO RIO 65 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.9. Elemento 9: Normatização A normatização dos Processos de Trabalho que são realizados numa Unidade Judicial tem como finalidade: • permitir a comunicação objetiva da estratégia, dos objetivos; • atingir a conformidade com os requisitos do cliente e a melhoria da qualidade; • prover o treinamento apropriado; • assegurar a rastreabilidade e a repetição dos processos de trabalho; • prover evidências objetivas dos resultados alcançados; • avaliar a eficácia e a contínua adequação do sistema de gestão implementado. Uma proposta de documentos utilizados para normatizar processos de trabalho e políticas e diretrizes das unidades: MANUAL MANUAL DE DE GESTÃO GESTÃO DO ÁRIO JUDICI DO PODER PODER JUDICIÁ JUDICIÁRIO MANUAL MANUAL DE DE GESTÃO GESTÃO DAS DAS UNIDADES UNIDADES NORMAS NORMAS ADMINISTRATIVAS ADMINISTRATIVAS GERAIS GERAIS NORMAS NORMAS ADMINISTRATIVAS ADMINISTRATIVAS OPERACIONAIS OPERACIONAIS Figura 22 – Hierarquia de documentos normativos 3.1.10. Elemento 10: Registros Os “registros” têm como finalidade prover as evidências da conformidade dos processos de trabalho e dos serviços com os respectivos requisitos e as evidências da operação dos sistemas. Exemplos de registros: processos judiciais, ficha de assentamento funcional, registro de treinamento, contrato, ofício, relatórios, notas fiscais etc. Os “registros” devem: • ser legíveis (sem rasuras); • estar prontamente identificáveis (com etiquetas nas pastas etc.); • estar devidamente armazenados (em pastas, caixas, estantes); • estar protegidos em condições apropriadas; FGV DIREITO RIO 66 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • ter os prazos de guarda e de destinação definidos; • ser facilmente recuperáveis para pronta consulta. O controle de registros é importante, pois evita a guarda de papéis por tempo indefinido e dá segurança quando da eliminação. Para isso, deve-se observar Tabela de Temporalidade de Documentos (TTD) utilizada na Instituição. A Tabela estabelece o prazo de guarda e a destinação final para documentos (p.ex.: eliminação, guarda permanente etc.). Exemplo de controle de registro de documentos de uma Unidade Judicial: identificação responsável armazenamento recuperação prazo de guarda na Vara destinação Autos de processo judicial Escrivão Estante Número Trâmite Arquivo Central Livro de ponto Escrivão Estante Assunto/ data 1 ano Arquivo Central Cópia de correspondências expedidas Escrivão Pasta Data 2 anos Eliminação Pesquisa de satisfação do usuário Escrivão Assunto Pasta 2 anos Eliminação Pedido de Desarquivamento de Processos Escrivão Pasta Assunto 2 anos Eliminação Guia de remessa Escrivão Pasta Data 3 anos Eliminação 3.1.11. Elemento 11: Medição A gestão organizacional, devidamente apoiada pelas medidas objetivas de processos de trabalho, possui elementos complementares inseparáveis, tanto quanto instrumentos indispensáveis para os gestores que se propõem a gerenciar uma organização. As medidas dos processos são grandezas associadas aos indicadores de desempenho. Indicadores são dados objetivos que descrevem uma situação sob o ponto de vista quantitativo e que possibilitam acompanhar o desempenho de um processo de trabalho. A experiência mostra que o simples fato de medir processos de trabalho traz significativas melhorias à organização e que o acompanhamento da evolução dos indicadores consolida o processo de melhoria contínua. FGV DIREITO RIO 67 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Somente podemos gerenciar aquilo que é medido. Além de vários atributos, idealmente os indicadores de desempenho devem possuir duas características essenciais: • constituir uma relação entre as variáveis mensuráveis; • associar seu resultado a um objetivo de desempenho pré-estabelecido (meta a ser alcançada. Os indicadores de desempenho devem ser eficientes (ter baixo custo) e eficazes (fortemente relacionados ao objetivo da atividade-fim do processo). Para tanto, os indicadores de desempenho devem possuir, além das suas duas características essenciais, algumas características complementares ou propriedades, das quais são citadas algumas: CARACTERÍSTICA / ATRIBUTO FINALIDADE Eficácia ou seletividade Representar ou ser fortemente correlacionado com a característica-chave de satisfação do cliente do processo subsequuente ou cliente final. Eficiência Custo de implementação e de operação compatível com o benefício esperado. Oportunidade Obtenção dos resultados de apuração no tempo compatível com as decisões. Rastreabilidade Permitir registro e a recuperação das informações. Simplicidade Permitir interpretação clara e simples. Generalidade Permitir aplicação abrangente e genérica. Comparabilidade Permitir comparações com referências adequadas. Sistematização Permitir coleta de dados e processamento primário sistemático e, se possível, automatizado. Uma última observação sobre Indicadores refere-se à interpretação dos resultados, que requer uma análise crítica23 (que é intrinsecamente criteriosa), levando em conta pelo menos três aspectos: • Valor do resultado do Indicador: este valor indica a situação instantânea do que está ocorrendo, ou seja, um “retrato” da situação; • Tendência do resultado: este valor indica a evolução histórica ou temporal do que tem acontecido no período considerado e tem mais informações que apenas o valor instantâneo (poderia representar um “filme” do que tem acontecido); 23 Segundo a NBR ISO 9000:2000, uma análise crítica é feita para avaliar os seguintes aspectos: pertinência, adequação, eficácia e, também, eficiência do que está sendo examinado, para alcançar os objetivos estabelecidos. FGV DIREITO RIO 68 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • Comparação com alguma referência externa: essa análise permite estabelecer a posição relativa em relação ao ambiente externo, que constitui o cenário de competição, em geral representado pelo benchmark, pela concorrência ou por outra fonte suficientemente confiável de referência. O monitoramento dos indicadores de acompanhamento e desempenho de um cartório é realizado, mensalmente, mediante a emissão dos relatórios estatísticos do sistema informatizado que registra o trâmite dos processos judiciais. Os relatórios estatísticos do cartório são analisados pelos gestores, que comunicam à equipe os resultados. As necessidades de melhorias sugeridas, a partir da análise dos indicadores, são aprovadas pelo gestor e implementadas pela equipe do cartório. Exemplos de Indicadores de Unidade Judicial: INDICADOR DEFINIÇÃO Tempo médio da data de tombamento à Sentença Somatório do prazo decorrido entre a data do tombamento e a da sentença, dividido pelo total de processos sentenciados no período. Tempo médio da data de tombamento à Sentença - até 3 anos Somatório do prazo decorrido entre a data do tombamento e a da sentença, dividido pelo total de processos sentenciados no período, desde que a diferença entre a data da sentença e a data do tombamento não ultrapasse três anos. Total de Sentenças Serventia Somatório das sentenças prolatadas (cadastradas ), no período. Percentual de audiências realizadas/marcadas Percentual de audiências realizadas dentre as marcadas na serventia, no período. Audiências realizadas Total de audiências realizadas na serventia, no período. Acervo Geral Total de processos que compõem o Acervo Físico e os processos com andamento de Remessa para qualquer destinatário. Autos com prazo de carga vencido (advogados) Total de processos na serventia, com prazo de carga ao advogado vencido, na data considerada. Autos paralisados há mais de 90 dias Total de processos do acervo físico da serventia sem movimentação há mais de N dias, na data de referência, excluindo-se os processos que estão aguardando audiência. Obs.1: Incluir as conclusões sem data de devolução. Obs.2: considera-se N = 90 dias. FGV DIREITO RIO 69 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS INDICADOR DEFINIÇÃO Desarquivados provisórios Quantidade de processos desarquivados pela serventia no período, cujo andamento de arquivamento tenha sido provisório. Desarquivados definitivos Quantidade de processos desarquivados pela serventia no período, cujo andamento de arquivamento tenha sido definitivo. Retornados Total de processos que tiveram os autos devolvidos de órgãos internos (Tribunal de Justiça, Conselho Recursal, Contador, Avaliador, Depositário etc.) e órgãos externos (Defensoria Pública, Ministério Público, Leiloeiro, Perito, Advogados, Delegacia de Polícia etc..) à serventia, no período. Tombados gerais Total de processos distribuídos para a serventia, no período, incluindo-se Habilitações de Crédito (nas serventias com atribuição Empresarial), as cartas precatórias, notificações, interpelações, justificações, protestos, executivos fiscais e secundários, excluindo-se os processos redistribuídos. Redistribuídos Total de processos redistribuídos para a serventia no período, excluindo-se as Habilitações de Crédito (nas serventias com atribuição Empresarial ), as Cartas Precatórias, Notificações, Interpelações, Justificações, Executivos Fiscais e secundários. Conclusões Total de processos na serventia com fase de conclusão e/ou remessa ao juiz vinculado/tabelar, no período. Petições juntadas Quantidade de petições juntadas pela serventia, no período. Despachos ordinatórios Total de despachos ordinatórios efetuados pela serventia, no período. Arquivados provisórios Quantidade de feitos arquivados provisoriamente pela serventia no período. Arquivados definitivos Quantidade de feitos arquivados definitivamente pela serventia no período. Remetidos Total de processos cujos autos foram remetidos aos órgãos internos (Tribunal de Justiça, Conselho Recursal, Contador, Avaliador, Depositário etc.) e externos ( Defensoria Pública, Ministério Público, Leiloeiro, Perito, Advogados, Delegacia de Polícia etc. ) pela serventia, no período. FGV DIREITO RIO 70 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.11.1 Pesquisa de Satisfação e de Opinião A Pesquisa de Satisfação é gerenciada pelo gestor e é realizada periodicamente (semestralmente). Os resultados devem ser analisados pelos gestores. Para a Pesquisa de Satisfação do usuário é utilizado formulário próprio, onde é registrado o grau de satisfação com o atendimento, o tempo despendido, a clareza das informações prestadas, a cortesia no atendimento e a localização dos autos do processo etc. O formulário da pesquisa permanece disponível no balcão de atendimento durante tempo necessário para assegurar amostra representativa da população que é atendida na unidade. Uma vez preenchido, o formulário é depositado na urna pelo próprio usuário. Após o cumprimento do prazo, as respostas são consolidadas em relatório, que apresenta gráficos informativos sobre o grau de satisfação do usuário. A Pesquisa de Opinião é gerenciada pelo gestor e ocorre no intervalo entre as pesquisas de satisfação. As sugestões e reclamações dos usuários são registradas na caixa de sugestões, mediante o preenchimento de formulário próprio, disponibilizado no balcão de atendimento. Caso o usuário apresente sugestão/reclamação pessoalmente, o assunto será encaminhado ao gestor, que dará a solução adequada. Os formulários preenchidos são recolhidos, mensalmente, da caixa de sugestões e analisados pelo gestor, com o objetivo de solucionar reclamações e pendências ou implementar oportunidades de melhoria. Nos casos em que o gestor considerar relevantes, e se o usuário informar no formulário seus dados cadastrais, a resposta a sua sugestão/reclamação é fornecida pessoalmente pelo gestor ou funcionário indicado. As respostas das sugestões/reclamações de interesse geral são informadas mediante registro no quadro de avisos da Secretaria. Figura 23 – Modelo de formulário de pesquisa de satisfação FGV DIREITO RIO 71 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 3.1.12. Elemento 12: Tratamento de Falhas A equipe da Unidade Judicial tem a responsabilidade de identificar e informar aos seus superiores a ocorrência de não-conformidades ou de processos de trabalho-problema, identificáveis de acordo com o nível de informação técnica de suas respectivas funções. Definição de um “produto não-conforme”: processo judicial, o processo administrativo ou o resultado de processo de trabalho, cujo trâmite venha a ser obstado por não-conformidades e até que estas sejam sanadas. Quem pode detectar produtos não-conformes: Quem Como Própria equipe durante a realização de processos de trabalho Usuários pela análise do que lhes foi entregue Órgãos Externos decorrente de observação e análise dos registros Como deve ser realizado o controle dos “produtos não-conformes”: • Ação gerencial simples – solução imediata da não-conformidade, sem tratamento das causas que geraram o problema, porém assegurando os efeitos esperados; • Ação Corretiva/ Ação Preventiva – solução da não-conformidade com a análise das causas e o devido acompanhamento da implementação da solução. Exemplos de produtos não-conformes: FGV DIREITO RIO 72 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS TERMO OBJETO Audiência não realizada Audiência que não é realizada por falta de tempo hábil para cumprimento de diligência (p.ex.: não recolhimento de custas, falta de intimação de órgão público ou testemunhas, autos de processos não devolvidos por órgão público, falta de contrafé, rol de testemunhas apresentado próximo da data designada para a realização de audiência). Autos de processo judicial com carga/vista vencida Autos de processo judicial com carga/vista para agentes essenciais à justiça, com prazo de devolução vencido. Autos de processos judiciais não localizados no arquivo Autos de processos judiciais solicitados por usuário e não localizados no Arquivo Central. Autos de processo judicial não localizados em cartório Autos de processo judicial solicitados por usuário e não-localizados no Cartório do juízo competente. 3.1.13. Elemento 13: Avaliações Os gestores devem realizar, periodicamente, a avaliação das atividades que são realizadas pela equipe e dos serviços prestados. Nessa avaliação devem ser considerados os seguintes itens: • evolução dos Objetivos Estratégicos e Indicadores; • capacitação da equipe; • atualização das normas de trabalho; • avaliação dos registros (autos, livros etc.); • avaliação do sistema informatizado; • identificação das necessidades de recursos (materiais, instalações etc.); • registro das falhas (produtos não-conformes); • resultados das pesquisas de satisfação e de opinião; • avaliação do ambiente de trabalho (organização, quadros de aviso etc.); • etc. O resultado da avaliação deve ser lançado em formulário próprio (p.ex.: formulários de avaliação/inspeção). Outras avaliações são realizadas, tais como correições e inspeções da Corregedoria. 3.1.14. Elemento 14: Análise Crítica É muito importante que os gestores realizem reuniões periódicas com a equipe da Unidade Judicial. Nessas reuniões são avaliados os resultados da FGV DIREITO RIO 73 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS gestão e as deliberações (o que foi decidido) das reuniões anteriores. Avaliamse, ainda, questões como sugestões dos usuários, cumprimento dos objetivos estratégicos, sugestões de melhoria dos serviços identificadas pela equipe etc. As reuniões de avaliação do desempenho são realizadas periodicamente (p.ex.: trimestralmente) e devem ser registradas em atas. Quando necessário, os gestores decidem sobre a necessidade de realizar reunião extraordinária para avaliação de algum tema específico. As Reuniões de Análise Crítica têm como base as seguintes informações: • resultado de avaliações realizadas; • desempenho dos processos de trabalho (indicadores); • realimentação do usuário; • situação das ações preventivas e corretivas; • acompanhamento das ações oriundas de análises críticas anteriores; • mudanças que possam afetar o Sistema (tecnologia de informação, legislação etc.); • recomendações para melhoria. FGV DIREITO RIO 74 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 4. PAPÉIS DOS GESTORES DE UNIDADES JUDICIAIS 4.1 LIDERANÇA E TOMADA DE DECISÕES Gerenciar a mudança é gerenciar pessoas no processo de mudança e, para tanto, a figura do líder é fundamental nesse processo. O papel do líder como incentivador da criatividade e da inovação na equipe determina o sucesso da implementação da mudança organizacional. A Administração do Poder Judiciário, enquanto organização contemporânea estruturada como Poder de Estado, a exemplo das empresas da iniciativa privada, necessita formar dirigentes capazes de ter uma visão de futuro, receptivos à aprendizagem e capazes de assumir um papel ativo na mudança induzida pela revolução tecnológica e administrativa em curso. Para cumprir seu papel, nos seus diversos escalões, o Poder Judiciário tem funções gerenciais. Há o escrivão que administra seu Cartório; o secretário que gerencia a Secretaria da Câmara; o juiz que administra a Vara, o desembargador que cuida do seu Gabinete com a respectiva equipe; o diretor do Foro que zela pela Comarca; e o presidente do Tribunal de Justiça que administra o próprio Poder Judiciário. Tais gestores devem, portanto, estar atualizados nas funções de pensar, julgar e decidir, a fim de estabelecerem relações pessoais mais saudáveis e efetivas e obterem resultados mais eficazes. Alguns conceitos básicos serão transmitidos nesse capítulo com o intuito apenas de ressaltar o papel do líder como o principal condutor do processo de inovação na organização. O primeiro conceito diz respeito entre o entendimento do que é ser “chefe” e do que é ser “líder” e os demais conceitos tratam do conceito e dos estilos de liderança Chefe é a pessoa formalmente investida da função de mando na escala hierárquica. Líder é a pessoa investida ou não da função de mando na escala hierárquica. A maioria das organizações é supergerenciada e pouco liderada. Algumas características marcantes distinguem o chefe do líder: Chefe Compromisso com o passado Foco na manutenção Poder da posição Competência técnica Informação é poder Responsabilidade pela tarefa Líder Compromisso com o futuro Foco na inovação Habilidade de influenciar Competência interpessoal Informação compartilhada Responsabilidade pelo resultado FGV DIREITO RIO 75 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 4.2 CONCEITO DE LIDERANÇA Como definição para liderança, sugere-se a de Tannenbaum24: “liderança é a influência interpessoal, exercida na situação e dirigida, por meio do processo da comunicação, à consecução voluntária de um ou diversos objetivos específicos”. Este conceito é, moralmente, neutro. O líder pode influenciar para o bem ou para o mal, os objetivos, estes sim, podem ser questionados moralmente, dentro de uma circunstância. Características de um líder: • tornar-se agente de mudanças; • desenvolver a sua capacidade e a da equipe de serem criativos e promoverem inovações; • saber quais são os instrumentos disponíveis e utilizá-los no seu trabalho; • conhecer a organização; • conhecer a equipe. 4.3 ESTILOS DE LIDERANÇA Os primeiros estudos sobre estilos de liderança focavam nos aspectos inatos do líder, o que se denominava Teoria dos Traços. Dessa forma, só exerceria liderança quem tivesse os traços físico, intelectuais, sociais e direcionados para a tarefa, ou seja, um somatório de características pessoais. Uma vez que a Teoria dos Traços não conseguiu ser eficaz para explicar o fenômeno da liderança, as teorias comportamentais buscaram oferecer respostas mais conclusivas. Um dos principais estudos sobre o comportamento de liderança foi coordenado por Kurt Lewin, que identificou três estilos básicos: o autocrático, o democrático e o liberal (laissez-faire). 24 CAVALCANTI, Vera Lucia, LUND, Myrian, CARPILOVSKY, Marcelo, LAGO, Regina. Liderança e Motivação FGV DIREITO RIO 76 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Aspectos Autocrática Democrática Tomada de decisões Apenas o líder decide, sem nenhuma participação do grupo. O líder decide, após debater as idéias e as sugestões do grupo. Planejamento do trabalho Divisão do trabalho Aspectos Comportamento do líder Maturidade Técnica e Psicológica do grupo Liberal O grupo decide. O líder acompanha e interfere quando não concordar. O líder dá ordens O líder e determina aconselha e providências orienta. para a execução. Participação limitada do líder. O líder acompanha. O grupo decide a O líder determina div. de tarefas, o a divisão do líder supervisiotrabalho. na. O líder não participa. Autocrática Democrática Liberal É centralizador, pessoal nos elogios e nas críticas ao grupo. O líder dirige. Trabalha como educador, treinador da equipe, extrai idéias e sugestões. O líder consulta. Atua somente quando é solicitado ou conclui que os objetivos não serão alcançados O líder delega. Moderada Alta Baixa Outros fatores como as características do seguidor e os fatores relacionados ao contexto não foram abordados pelas teorias comportamentais, daí surgindo o estudo das teorias contingenciais, dentre elas será apresentado o conceito da liderança situacional. 4.4 LIDERANÇA SITUACIONAL Segundo Paul Hersey e Kenneth Blanchard25, para quem liderança é o processo de influenciar as atividades de um indivíduo ou de um grupo para a consecução de um objetivo numa dada situação, a posição dos liderados é de importância vital, a partir do que apresentam o seu modelo de liderança situacional. Explicam os autores que a liderança situacional se baseia numa inter-relação entre a quantidade de orientação e direção (comportamento de tarefa) 25 HERSEY, Paul; BLANCHARD, Keneth. Psicologia para administradores: a teoria e as técnicas de liderança situacional. São Paulo: EPU, 1986. FGV DIREITO RIO 77 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS que o líder oferece, a quantidade de apoio sócio-emocional (comportamento de relacionamento) dado pelo líder e o nível de prontidão (“maturidade”) dos subordinados no desempenho de uma tarefa, função ou objetivo específico. Acrescentam que liderança é uma tentativa de exercer influência sobre alguém. Portanto, é possível aprender a ser líder. Aliás, todos podem ser líderes, incluindo aí o pessoal operacional. A liderança situacional viabiliza a combinação de estilos de liderança aplicados aos níveis de maturidade dos subordinados, mas sempre considerando cada situação, cada tarefa específica. E concluem que a única maneira de influenciarmos alguém é pelo nosso comportamento. A utilização da liderança situacional está baseada em duas variáveis: comportamento com ênfase nas tarefas e comportamento com ênfase nos relacionamentos. No primeiro tipo, o líder fala e o seguidor ouve. O líder, aqui, fala como, quando, quem e onde a tarefa deve ser feita. Já na influência pelo comportamento, existe uma relação de compartilhamento entre líder e liderado. Existe uma comunicação ativa entre eles; o líder oferece total apoio emocional ao seu liderado. No conceito de liderança situacional, os líderes desenvolvem habilidades básicas e o conhecimento necessário para compreender, predizer e influenciar o comportamento dos outros. Sendo assim, segundo Paul Hersey e Kenneth Blanchard, a liderança está fundamentada em três pilares: diagnosticar, ou seja, identificar a tarefa específica que se desejam realizar; adaptar, isto é, avaliar o que é preciso para executar essa tarefa; e comunicar, no sentido de deixar claro o que se espera de cada um. Segundo eles, todos nós temos um padrão de comportamento que é percebido por nós mesmos e outro, percebido pelos nossos pares. O que determina meu estilo de liderança não é o que eu acho do meu comportamento, mas sim o que os outros acham. Por este motivo, recomendam que tenhamos um radar para percebermos o que se passa em nossa volta, pois a realidade é aquilo que o mundo enxerga. As situações e os grupos variam; os líderes, também. Por isso, é bastante comum que o sucesso do líder e dos seus seguidores esteja diretamente relacionado ao estilo de liderança empregado. Segundo Hersey e Blanchard, em meados da década de 40 acreditava-se que existiam dois estilos de liderança: o autocrático e o democrático. No primeiro, o líder determina ideias e o que será executado pelo grupo. Segue-se a lei da obediência. No segundo, o democrático, todo o grupo é considerado o centro das atenções, não apenas o líder. Entre esses dois extremos, temos vários estilos de liderança, mas os modelos só têm valor se forem simples e específicos. Na liderança situacional, a chave está em combinar o comportamento do líder às necessidades de desempenho dos liderados. Há uma reavaliação de desempenho constante, proporcionando um comportamento mais adequado. FGV DIREITO RIO 78 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Baix a Dimensão do Apoio Alta Segundo Paul Hersey e Kenneth Blanchard, o importante é diagnosticar o quanto a pessoa está pronta para assumir a tarefa que o líder pretende delegar a ela. E essa prontidão depende de duas coisas: capacidade e disposição. Isso significa que não existem pessoas 100% eficientes ou 100% ineficientes. Existe a pessoa certa, no momento certo, para certa tarefa. Isso sem falar na maneira como o líder conduzirá essa pessoa para que os resultados sejam os melhores. O conceito de liderança situacional baseia-se no princípio de que o estilo de liderança a ser utilizado deve depender mais da situação do que da personalidade do líder. Qualquer estilo, quando utilizado de forma correta, ajuda as pessoas. A liderança é uma característica a ser desenvolvida. O líder não nasce pronto; ele deve ter como premissa a vontade de ajudar as pessoas e manter o foco nos seus objetivos. Entendemos que a “liderança situacional” constitui um estilo adequado e vantajoso de liderança para uma equipe que atua no Poder Judiciário. Isso porque no caso do gabinete do Magistrado, por exemplo, os funcionários estão em diferentes estágios evolutivos do ponto de vista profissional e pessoal, podendo o líder obter os melhores resultados ao focar sua atuação a partir da condição individual de cada um deles. Liderança, nesse contexto contingencial, é a combinação equilibrada de três elementos vitais e dinâmicos: o indivíduo, o grupo e a situação. A liderança bem-sucedida só será alcançada por meio da seleção de um estilo de liderança adequado que depende da maturidade para o trabalho e da maturidade psicológica da equipe. O modelo combina o nível de maturidade dos liderados (M1, M2, M3 M4) e o estilo de liderança (várias combinações de comportamentos voltados para tarefa e para o relacionamento). Baixa Alta Maturidade dos Liderados M4 Alta Dimensão da Tarefa M3 M2 Baixa M1 Figura 24 – Liderança situacional FGV DIREITO RIO 79 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Os líderes adaptativos têm potencial para ser eficazes em várias situações. Os líderes rígidos tendem a ser eficazes somente nas situações em que seu estilo é compatível com o ambiente. O líder deve usar os quatro estilos (determinar, persuadir, compartilhar e delegar). Os liderados devem ser tratados de forma diferenciada. O mesmo subordinado também deve ser tratado de forma diferente, se a situação mudar. Assim, no âmbito do Poder Judiciário, podemos compreender a liderança do Magistrado como a sua capacidade de despertar e manter a motivação da sua equipe para atingir os objetivos de trabalho de seu gabinete, os quais, por certo, deverão estar alinhados com os da organização como um todo. Em que pese o Magistrado seja, de fato, o gerente ou administrador do seu gabinete, isso não implica que seja, necessariamente, também o seu líder. O gestor pode ser ao mesmo tempo administrador e líder, mas são papéis que não se confundem. O Magistrado pode ser um bom administrador, mas não ter liderança sobre sua equipe. Porém, é certo que o bom líder também é bom administrador. 4.5 OS GRUPOS E AS EQUIPES Como só há liderança se ela puder ser exercida, ou seja, é necessário contar com liderados. Portanto, é de grande relevância conhecer o comportamento dos liderados quando estes participam de equipes. A primeira distinção ocorre entre o que é um simples grupo e o que se considera como uma equipe de alto desempenho. A formação de um grupo é acompanhada dos seguintes fenômenos: • criação de expectativas (produz-se uma tensão coletiva quanto à necessidade de satisfazê-las); • “equalização” das pessoas (tendência ao esquecimento das diferenças individuais e “distâncias sociais”); • aproximação entre indivíduos (no limite, a “massa” se caracteriza por sua densidade compacta, como se formasse um só e mesmo corpo); Além disso, há uma tendência a: • redução do nível de reflexão e aumento da afetividade (onde a sugestibilidade das massas); • “contágio afetivo” (as emoções se propagam muito rapidamente com a “aproximação” das pessoas); • homogeneização de comportamento (chegando à imitação contagiosa); • sentimento de segurança, anonimato e impunidade (facilita os atos. Em grupo o indivíduo faz coisas que às vezes não faria sozinho); FGV DIREITO RIO 80 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • nascimento de valores coletivos (o grupo desenvolve uma identidade própria, que não é a soma das identidades dos indivíduos); • “submissão” a um líder (quem dará corpo as “ideias-força” e fará o papel catalisador de “guia”). Podemos conceituar equipe como a reunião de duas ou mais pessoas, psicologicamente conscientes umas das outras, que interagem em sinergia para atingir, harmonicamente, uma meta ou objetivo comum. Sintomas das equipes fracas: • desconhecimento da missão, objetivos e metas; • confusão sobre papéis e responsabilidades; • jogo preferido: apontar falhas nos outros e procurar culpados pelos erros; • “varrer” os problemas para debaixo do tapete; • decisões questionadas e/ou sabotadas; • baixo nível de criatividade e inovação; • individualismo; • formação de “panelinhas”; • divergências de opinião transformadas em questões pessoais; • falta de confiança, lealdade e respeito; • sonegação de informações; • reuniões longas, tediosas e improdutivas. Características das equipes de alto desempenho: • conhecimento perfeito da missão, objetivos e metas; • papéis bem definidos; • processos de trabalho eficazes; • relações interpessoais firmes; • comunicação eficaz; • aprendizado contínuo; • espírito inovador; • liderança forte. Um fator indispensável a uma equipe de alto desempenho é a comunicação. 4.6 RELACIONAMENTO INTERPESSOAL E NEGOCIAÇÃO Podemos definir conflito como uma oposição de interesses entre duas ou mais partes, cuja solução poderá surgir por meio de medidas de violência, negociações ou intermediação de uma terceira parte. FGV DIREITO RIO 81 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Não há nada mais inevitável do que o conflito nas equipes. Os conflitos talvez não sejam apenas inevitáveis, mas também necessários. A força de um conjunto nasce na afirmação dinâmica das diferenças e na aceitação dessas diferenças. Algumas origens dos conflitos: • agendas ocultas; • exposição/desqualificação de pontos fracos; • desconhecimento da situação atual; • visão inadequada da situação; • necessidade de fugir dos problemas. Desvantagens do conflito: • tende a destruir a unidade social do grupo; • desagrega grupos menores; • aumenta os ressentimentos; • destrói os canais normais de cooperação e de comunicação; • intensifica as tensões internas, podendo chegar à violência; • pode causar estresse. Vantagens do conflito: • obriga o grupo a rever posições, a se autocriticar; • melhora a criatividade e o espírito de inovação; • força a formulação de novas políticas e a revitalização dos valores autênticos, próprios daquele grupo; • previne a estagnação decorrente do equilíbrio constante da concordância; • estimula o interesse e a curiosidade pelo desafio da oposição. Algumas providências essenciais para solucionar os conflitos são definir objetivos positivos e perseguir com o outro; determinar ações possíveis para atingir objetivos positivos; e NEGOCIAR. Negociar é um processo em que duas ou mais partes, com interesses comuns e frequuentemente divergentes, se reúnem para confrontar e discutir propostas explícitas, com o objetivo de alcançarem um acordo que seja aceitável para todos. Negociar é também a arte de se chegar a um acordo por meio da solução criativa de diferenças. Quatro princípios básicos da negociação: • pessoas (separar as pessoas dos problemas); • interesses (focalizar interesses e não posições); • opções (inventar opções para ganhos mútuos); • critérios (insistir em critérios objetivos). FGV DIREITO RIO 82 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Fases de uma negociação: 1. Preparação: Levantamento de dados preliminares Planejamento 2. Execução: Estabelecimento do contato inicial Discussão (propostas e concessões) Conclusão/Acordo 3. Monitoramento O Papel do Líder na Equipe: • criar um ambiente adequado e estimulador do talento individual e da inovação, canalizando energia pessoal, construtivamente; • estar preparado para atender, apoiar e encorajar as pessoas; • saber administrar os resultados do trabalho de modo a permitir o desempenho do potencial e do crescimento individual; • saber ouvir e como ser ouvido. • escolher adequadamente os membros de sua equipe; • implementar e melhorar continuamente o sistema de gestão de sua unidade; • educar, educar, educar ..... Por oportuno é transcrito o texto “Os Dez Mandamentos do Juiz Administrador”, da autoria do desembargador federal Vladimir Passos de Freitas26, já aposentado, que foi inclusive presidente do TRF da 4ª Região. Cuida-se de orientações a fim de bem focar os aspectos relevantes que devem ser observados pelo magistrado na gestão, com especial destaque para os aspectos já citados a respeito da sua liderança: “Os dez mandamentos do juiz administrador” 1. O juiz nas funções de administrador, como Presidente de Tribunal, VicePresidente, Corregedor, Coordenador de Juizados Especiais, Diretor de Escola de Magistrados, Diretor do Foro ou Fórum, ou administrando a sua Vara, deve saber que a liderança moderna se exerce com base na habilidade de conquistar as pessoas e não mais em razão do cargo, perdendo a hierarquia seu caráter vertical para assumir uma posição mais de conquista do que de mando. 26 FREITAS, Vladimir Passos de. Os dez mandamentos do juiz administrador. Disponível em <http:// www.ibrajus.org.br/revista/artigo.asp?idArtigo=8>. Acesso em: 21.11.2008. FGV DIREITO RIO 83 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 2. Ao administrar, cumpre-lhe deixar a toga de lado devendo: a) obrigação à lei e não à jurisprudência; b) inteirar-se das técnicas modernas de administração pública e empresarial; c) adaptar-se aos recursos tecnológicos; d) decidir de maneira ágil e direta, sem a burocracia dos processos judiciais; d) manter o bom e corrigir o ruim; e) delegar, se tiver confiança; f ) atender a imprensa; g) lembrar que não existe unidade judiciária ruim, mas sim mal administrada. 3. No âmbito externo, deve prestigiar as atividades da comunidade jurídica e dos órgãos da administração dos três Poderes, participando de solenidades, estabelecendo parcerias em projetos culturais e alianças que possam diminuir os gastos públicos. No âmbito interno, deve visitar periodicamente os setores administrativos, ouvindo os funcionários, demonstrando o seu interesse em conhecer os serviços e atender as necessidades, quando possível. 4. Ter em mente que suas palavras e ações estão sendo observadas por todos e que elas transmitem mensagens explícitas ou implícitas que podem melhorar ou piorar a Justiça. Por isso, devem ser evitadas críticas públicas a outros magistrados de qualquer Justiça ou instância, ou a autoridades de outros Poderes, atitudes estas que nada constroem e que podem resultar em respostas públicas de igual ou maior intensidade. 5. Manter a vaidade encarcerada dentro dos limites do tolerável, evitando a busca de homenagens, medalhas, retratos em jornais institucionais, vinganças contra os que presumidamente não lhe deram tratamento adequado, longos discursos enaltecendo a si próprio ou o afago dos bajuladores, ciente de que estes desaparecerão no dia seguinte ao da posse de seu sucessor. 6. O Presidente - e os demais administradores, no que compatível - deve manter um ambiente de cordialidade com os colegas do Tribunal, ouvindo-os nas reivindicações, explicando-lhes quando negá-las e não estimulando os conflitos. Com os juízes de primeiro grau, lembrar que o respeito será conquistado pelo exemplo e não pelo cargo, que eles pertencem a gerações diferentes, que devem ser estimulados na criatividade, apoiados nos momentos difíceis e tratados sem favorecimento. Nas infrações administrativas praticadas por magistrados, cumprir o dever de apurar, com firmeza, coragem e lealdade. 7. No relacionamento com o Ministério Público e a OAB, deve atender as reivindicações que aprimorem a Justiça, não criar empecilhos burocráticos que dificultem as atividades desses profissionais (p. ex. na retirada de processos) e, quando não atender a um pedido, explicar os motivos de maneira profissional evitando torná-lo um caso pessoal. FGV DIREITO RIO 84 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 8. No relacionamento com os sindicatos, manter um diálogo respeitoso, baseado na transparência administrativa. Quanto aos servidores, motivá-los, promover cursos de capacitação, divulgar as suas boas iniciativas, promover concursos sobre exemplos de vida, envolvê-los na prática da responsabilidade social e da gestão ambiental. Com relação aos trabalhadores indiretos (terceirizados), promover, dentro do possível, sua inclusão social. 9. Nos requerimentos administrativos, quando negar uma pretensão, seja de magistrados ou de servidores, fazê-lo de forma clara e fundamentada, não cedendo à tentação de concedê-la para alcançar popularidade, pois sempre haverá reflexos em relação a terceiros e novos problemas. 10. Ter presente que administrar significa assumir uma escolha e um risco e que aquele que nada arrisca passará o tempo do seu mandato em atividades rotineiras, limitando-se ao fim por colocar um retrato na galeria de fotografias, passando à história sem ter dado qualquer contribuição à sociedade, ao Poder Judiciário, ao Brasil. FGV DIREITO RIO 85 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 5. INOVAÇÃO NAS PRÁTICAS DE GESTÃO NO JUDICIÁRIO “...a criatividade é uma poção feita de muitos ingredientes: conscientes e inconscientes, emocionais e racionais. É uma mistura de fantasia e concretude. Para obtêla, num grupo são necessários diversos fatores: um clima de entusiasmo, tanto uma motivação individual quanto a consciência de que se trata de uma missão coletiva e uma liderança apaixonante, carismática”. Domenico de Masi 4.1. CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO: CONCEITOS E CLASSIFICAÇÃO A criatividade sempre esteve associada a pessoas especiais, talentosas, artistas e gênios. Essa é uma afirmativa do senso comum. Ë incomum ligar-se criatividade a pessoas comuns, pois as pessoas, em geral não se sentem criativas ou capazes de produzir algo novo e tendem a considerar a criatividade como algo relacionado a um processo mental atípico. Antes se procurava, nas biografias dos gênios, conhecer suas experiências criadoras. Hoje, as ciências sociais buscam entender os mistérios da criatividade, e não apenas como as pessoas criativas produzem, mas, também, se as suas formas de agir são transmissíveis a outros. O senso comum tende a ver o ser humano como acomodado mentalmente e respondendo rotineiramente aos problemas da vida; a criatividade ocorre ao acaso e esporadicamente, em momentos brilhantes de poucas pessoas. Atualmente, acredita-se na criatividade como um recurso de todas as pessoas. O ato de criação se expressa de diversas formas e em diversos momentos; está presente nas pequenas originalidades, no cotidiano de cada um, e até nas criações mais sofisticadas. Dessa forma, se produzem novidades a todo instante, ainda que não registradas ou de grande impacto. Assim, todas as pessoas são criativas, mesmo sem o saber. O quadro a seguir apresenta perspectivas tradicionais do senso comum e as premissas da teoria moderna sobre criatividade: FGV DIREITO RIO 86 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS PERSPECTIVAS DO SENSO COMUM TEORIAS MODERNAS SOBRE CRIATIVIDADE O ser humano responde rotineiramente às crises da vida e possui uma tendência a imitar os outros O ser humano responde com uma diversidade imensa às provocações do mundo, possuindo um grande potencial de originalidade A criatividade ocorre ao acaso e é esporádica A criatividade é constante e se encontra no cotidiano das pessoas A criatividade é inata e característica de pessoas especiais A criatividade está em todas as pessoas e pode ser despertada e desenvolvida Quadro 1 – adaptado do Livro Transformação Organizacional, Paulo Roberto Motta, 1999. O conceito de criatividade sempre sugeriu ser algo original, que é desenvolvido para ir além do usual. Por isso, existem inúmeras definições para criatividade e a maioria está associada à novidade radical e rompedora, o que contrapõe a noção comum de criatividade pessoal. Os estudos iniciais sobre a criatividade se concentraram na psicologia, daí a grande influência dos estudos do indivíduo e dos seus traços. Aos poucos se passou a analisar o contexto social e, especificamente, o organizacional, considerando a criatividade como fruto das interações do indivíduo com o seu meio. Atualmente, as correntes de pensamento sobre a criatividade podem ser classificadas em três grupos: a) atributos individuais – existem características individuais cuja presença torna as pessoas mais propensas à criatividade; b) processo mental cognitivo – criatividade é um processamento ou habilidade mental cognitiva relacionada à estruturação cerebral de informações; c) contexto social – criatividade é uma competência, uma interação social. As duas primeiras correntes focalizam o indivíduo e suas forças interiores como base do processo criativo, e tendem a ressaltar a criatividade como uma característica da mente humana. Concentram-se nos traços individuais e no processo mental. A terceira concentra-se nas experiências de vida, ou seja, na interação indivíduo-ambiente; procura entender a criatividade por meio do contexto social propício à criação. Como conceito para criatividade, utilizamos, aqui, o que Domenico de Masi cita no seu livro “O Ócio Criativo”: a criatividade brota da síntese entre os níveis do consciente e inconsciente e da esfera racional e a emotiva, conforme representado no desenho abaixo: FGV DIREITO RIO 87 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS CONSCIENTE 1. Área das Emoções Dominadas EMOTIVIDADE 2. Área da Concretude RACIONALIDADE 3. Área da Fantasia 4. Área das Técnicas Introjetada INCONSCIENTE Figura 25 – Quadrantes da criatividade Pode-se observar que o eixo vertical une dois pontos extremos que representam o nível do inconsciente – onde, segundo Freud, os materiais mais primitivos da nossa existência se sedimentam – e o nível consciente, considerado secundário e lógico. São adicionados no eixo horizontal o polo racional com o conjunto dos nossos conhecimentos e habilidades e o polo emotivo com o conjunto de nossas opiniões, comportamentos, emoções e sentimentos. Além disso, criatividade, para de Masi, consiste em um processo mental e prático, ainda bastante misterioso, graças ao qual uma só pessoa ou um grupo depois de ter pensado algumas ideias novas e fantasiosas, consegue também realizá-las concretamente. Portanto, não se trata de simples fantasia nem de simples concretude: trata-se de uma síntese entre estas duas habilidades, ou seja, uma síntese entre as áreas 2 e 3. No caso de uma síntese entre uma fantasia medíocre e uma concretude medíocre, a criatividade é muito baixa. No entanto, uma síntese difícil de se obter é uma forte fantasia com uma forte concretude, e, neste caso, a criatividade alcançada é genial. O gênio Michelangelo se encaixa no segundo caso, pois não só foi capaz de inventar a cúpula da Basílica de São Pedro (quando tinha mais 70 anos), como também soube convencer o papa a privilegiar a sua proposta, conseguiu que sua empresa fosse financiada, e a conduziu por mais vinte anos com tenacidade e inteligência, coordenando o trabalho de centena de pedreiros, carpinteiros, escultores e fornecedores. Hoje as organizações necessitam de muita criatividade para satisfazer as demandas do mercado e não se pode contar com gênios a toda hora; por isso, precisa-se estimular a criação de grupos criativos. A criatividade é, portanto, a síntese entre a fantasia e a concretude. FGV DIREITO RIO 88 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Para que a organização consiga criar grupos criativos, deve-se incentivar a convivência de pessoas sonhadoras e pessoas concretas, capitaneados por uma liderança carismática, que saiba conduzir esse grupo, com metas estabelecidas e compartilhadas, e com a dose de incentivo necessária. 3.2 OS MITOS DA CRIATIVIDADE Criatividade ainda está associada a alguns mitos que, infelizmente, freiam o processo criativo de quem acredita neles. O primeiro é não acreditar na própria criatividade: “eu não sou criativo” gera os outros mitos, pois se eu não sou criativo, tenho toda a justificativa do mundo para não intervir na realidade quando não acho a solução de um problema, o que é uma atitude bastante comodista. Os quatro mitos da criatividade colocam a criatividade fora da pessoa ou impõem condições praticamente impossíveis de serem cumpridas. 1º. Mito: Criatividade é “coisa de artista” Uma das atividades humanas mais associadas à criatividade é a arte nas suas mais variadas formas, só que não é preciso que a pessoa seja artista para ser criativa. 2º. Mito: Criatividade é “coisa de gênio” Outro mito é associar a criatividade a personagens geniais. Einstein, por exemplo, foi muito criativo, mas era “um ponto fora da curva” – um gênio bem acima dos demais da espécie. A criatividade está nas coisas mais banais. 3º. Mito: Criatividade é “coisa de louco” Associar criatividade à loucura também é um mito muito comum. Criatividade pressupõe “estar consciente” para, deliberada e criativamente, “Intervir na Realidade”. A intervenção criativa na realidade requer que a modifiquemos, requer resultados enriquecedores, e as pessoas com problemas mentais têm dificuldades para isso. O que não significa que essas pessoas não possam ser criativas (o Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro prova isso), mas loucura não é um elemento essencial para o desenvolvimento da criatividade. FGV DIREITO RIO 89 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 4º. Mito: Criatividade precisa de “total liberdade” Algumas pessoas confundem liberdade com ausência de limites. Os limites não são áreas proibidas, restritivas do nosso potencial, são parâmetros indicativos para que possamos compreender os fenômenos e, uma vez compreendidos os fenômenos, ai sim podemos, se for necessário, expandir os limites. Criatividade não é um “dom divino”, nem privilégio de uma determinada categoria de pessoas. Se criatividade representa as potencialidades das pessoas, criar é a realização dessas potencialidades, é dar vida, existência a algo, é poder dar forma a algo novo, é sair da dimensão das ideias e partir para o terreno da ação. 3.3 COMO POTENCIALIZAR E INCENTIVAR A CRIATIVIDADE Muitas organizações mantêm as pessoas num baixo nível de ideias, utilizando apenas as suas capacidades executivas e fazendo com que se envolvam de tal maneira com a burocracia, que elas acabam perdendo a capacidade de criar. O impacto desse tipo de conduta se dá na eficiência organizacional, pois a organização perde sua capacidade de pensar e melhorar os seus processos de trabalho. Para exercer o potencial criativo (criar), não basta apenas elucubração mental como alguns podem pensar. Criar significa resultado prático e, para isso, é necessário que o indivíduo possua (ou exercite) os três componentes da criatividade: 1) Raciocínio criativo - É a flexibilidade mental e a imaginação necessárias para que as pessoas gerem ideias inovadoras, inéditas, que questionem o status quo. 2) Conhecimento - Não se cria a partir do nada, é preciso conhecer o assunto para o qual se está querendo criar ideias novas. Expertise é um misto de conhecimentos técnico, conceitual e processual (como fazer). 3) Motivação - Para criar, é necessário não só a possibilidade de atendimento a uma necessidade, mas também uma paixão interior. O container, o jornal e a apólice de seguro, ideias inovadoras que revolucionaram o comércio internacional, tinham em comum o fato de terem por trás os empreendedores (agentes da inovação) que as implementaram, buscando pensar a realidade conhecida de uma maneira diferente e simples. Para isso, eles usaram os dois impulsionadores da inovação: FGV DIREITO RIO 90 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Ousadia - Significa expandir, com responsabilidade, os limites. Se você se jogar do 10º andar de um prédio é óbvio que você vai morrer. Isto não é ousadia, é irresponsabilidade. Flexibilidade - É a capacidade de admitir outros pontos de vista diferentes, contraditórios até ao seu. Mas cuidado para não confundir flexibilidade com falta de personalidade ou até com improvisação. Algumas pessoas perguntam também se existem técnicas de criatividade, procurando, talvez, alguma fórmula mágica que os transforme em pessoas criativas do dia para a noite. Existem sim meios e técnicas para auxiliarem as pessoas a se conhecerem melhor e desenvolverem a coragem para “abrir as portas” interiores a fim de exercer deliberada e conscientemente todo o seu potencial criativo. Mas, as técnicas existem apenas para auxiliar, criar estímulos, para que cada um trilhe o seu próprio caminho. Em criatividade aplicase o velho ditado: a prática induz ao hábito. Por exemplo: ler toda a teoria sobre andar de bicicleta, não habilita ninguém a sair pedalando. Saber o que é criatividade não torna ninguém mais ou menos criativo. No entanto, vale a pena saber algumas técnicas para que cada um possa exercitar-se. Pode parece estranho o termo “técnicas” de criatividade, mas se até para a arte existem técnicas, por que não para o processo criativo? Por mais abstrata que seja uma pintura, por exemplo, o pintor usa técnicas, às vezes até muito sofisticadas. Na verdade as técnicas de criatividade poderiam ser encaradas como lembretes, de forma a estruturarmos o nosso raciocínio para que ele possa ser considerado criativo. Se considerarmos que criatividade é “olhar a mesma coisa e ver uma coisa diferente”, antes de analisarmos as técnicas de criatividade, devemos primeiro entender, mesmo que superficialmente, como funciona a nossa percepção. Todos nós somos bombardeados o tempo todo por uma série de estímulos (visuais, auditivos, táteis, olfativos e gustativos) que nos informam fatos do mundo exterior e são transportados até o nosso cérebro. Inicialmente o nosso cérebro procura pela experiência passada (são as imagens referenciais), se encontrar algo igual ou muito semelhante, este estímulo passa a ter sentido ou coerência. Por exemplo: a imagem de uma cadeira nos lembra imediatamente “algo” para sentar, já que essa é uma imagem conhecida (um sofá, uma cama ou até um caixote também podem lembrar “sentar”). Se não encontra nada nem remotamente parecido, o estímulo não faz sentido. Esse mecanismo pode ocorrer em nível consciente (percepções cognitivas) ou inconsciente (percepções intuitivas). Para exemplificar, vamos imaginar a seguinte situação: de repente, na rua, aparece um rato. Qual o primeiro pensamento a respeito deste animal? Depende se imaginarmos que na rua vem caminhando um médico sanitarista com o seu filho pequeno e seu gato de estimação. Qual o primeiro pensa- FGV DIREITO RIO 91 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS mento de cada um deles a respeito do rato? Bem, o gato vê comida, a criança um personagem de desenho animado ou até o Mickey, e o médico vê um problema de saúde pública. A realidade é uma questão de percepção. É claro que o mecanismo da percepção é infinitamente mais complexo do que essa rudimentar descrição, contudo o que dá para depreender é que, em verdade, a realidade é uma projeção da nossa ordem interior. Portanto, quanto mais uma pessoa adquirir conhecimento e experiência, mais possibilidades de ter ideias criativas. Mas, pelo Princípio do Paradoxo, isso pode ser perigoso: se ela ficar amarrada apenas à sua experiência passada e não se abrir para experiências futuras, não inovará. Para que a pessoa não fique amarrada às suas experiências passadas, recomenda-se pelo menos quatro técnicas de criatividade: Julgamento adiado: adiar o julgamento não significa não julgar, mas sim acolher a ideia, deixá-la maturar na mente, e, em seguida, processar algum tipo de julgamento. Quando alguém nos dá uma ideia, normalmente pensamos de imediato: é uma boa ideia ou é uma má ideia, talvez não exatamente com estas palavras, mas, na essência, fazemos algum pré-julgamento. Adiar o julgamento significa não descartar uma ideia, de imediato, só porque ela não está de acordo com o que pensamos a respeito do assunto, pois mesmo sendo uma má ideia, é possível que ela traga outras ideias, estas sim boas. Pensamentos convergente e divergente: a técnica aqui é alternar essas duas formas de pensamento: divergente e convergente. Adiar o julgamento significa ter muitas ideias, umas boas, outras ruins, este é o pensamento divergente. Mas não se pode trabalhar apenas com o pensamento divergente, é necessário avaliar as muitas ideias que surgiram, assinalar as ideias mais promissoras, inventar melhorias para essas ideias e estipular um prazo para implementá-las. Este é o pensamento convergente. Ou seja: alternar pensamento divergente (criativo, inovador, exploratório, impaciente) com o pensamento convergente (judicioso, metódico, conservador, cauteloso). O pensamento divergente abre possibilidades, mas introduz o risco, o pensamento convergente reduz possibilidades, mas privilegia a segurança. Associação de ideias: na verdade trata-se da associação livre de ideias. Acreditar que tudo pode ser associado a tudo e não reprimir qualquer associação de ideias, é uma tática para ter mais ideias. Na Antiguuidade, os gregos estabeleceram quatro leis para a associação de ideias: Lei da Contiguuidade: Proximidade de imagens – mar lembra navio, pena lembra pássaro; Lei da Semelhança: Superposição de imagens – gato lembra tigre; FGV DIREITO RIO 92 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Lei da Sucessão: Sequuenciamento de imagens – veneno lembra morte, trovão lembra tempestade; Lei do Contraste: Oposição de imagens – preto lembra branco, ódio lembra amor. Para se ter novas ideias, devemos brincar com estas quatro leis, perguntando: o que é próximo a ...? O que é semelhante a...? O que segue a...? O que é o oposto de...? 3.4 A TRANSIÇÃO DA CRIATIVIDADE PARA INOVAÇÃO A sociedade pós-industrial pode ser conhecida como uma sociedade criativa. Nenhuma outra época teve um número tão grande de pessoas com cargos criativos, seja nas indústrias, nos laboratórios, nas artes, na mídia, nos serviços etc. Outra característica dessa sociedade é a sua capacidade de projetar o futuro, logo é inovador quem consegue fazer isso. Não se pode, também, considerar a globalização como uma característica contundente da sociedade pós-industrial. São globalizados os meios de comunicação de massa, a ciência, o dinheiro, a cultura, a tecnologia etc. A vida é globalizada: as pessoas ouvem as mesmas músicas, assistem aos mesmos filmes, compram os mesmos iogurtes. O impacto da globalização no processo criativo é algo de extrema relevância e coloca o indivíduo sobre o seguinte dilema: deixa-se carregar pela homogeneização da globalização ou aproveita as oportunidades e desenvolve o seu processo criativo e inovador. Desta forma, a “criatividade” torna-se um valor central da sociedade pós-industrial. O processo de criatividade ou de geração de novas ideias é sempre agradável de se praticar, pois estimula a mente, desperta as pessoas e, quando praticado em grupo, estimula o humor, a parceria e o orgulho. Portanto, o processo pode se tornar mais atraente do que a própria ideia. Passado o desafio de se produzir algo novo surge uma nova empreitada, que é colocar a ideia em prática. Gerar novas ideias é uma prática tão interessante que pode se perder por falta de metodologia e de visão concreta da organização para sua operacionalização. Por conta disso, muitas organizações rejeitaram grandes ideias por falta de capacidade de implementação. Conforme muito bem abordado por Paulo Motta em seu livro Transformação Organizacional: “criatividade e inovação existem em ambientes de comunicações francas, autênticas e de livre circulação de ideias. Criatividade resulta de um clima de abertura, valorização da autonomia individual de pensar e de se expressar, além dos incentivos e mecanismos para gerar ideias novas. A inovação origina-se no compromisso da ação”. FGV DIREITO RIO 93 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Logo, existe uma grande distância entre criatividade e inovação. Criatividade é gerar ideia nova; inovação é torná-la útil. A criatividade só pode ser reconhecida se aplicada. Inovação é o resultado do empenho com a qualidade, com a satisfação do público externo e interno; é um compromisso de ação do gestor. A inovação é o resultado de uma predisposição da organização para facilitar as condições propícias a seus gestores e funcionários à conquista de novas oportunidades. Inovações dependem do reconhecimento e apoio da gerência às oportunidades de mudança: resultam da capacidade gerencial tanto de motivar e mobilizar recursos para novidades quanto de superar obstáculos e garantir a intenção pré-determinada. Trata-se de um processo – interativo, racional e intuitivo – como qualquer outro processo de decisão gerencial; possui dimensões previsíveis e controláveis e outras inseridas em um processo que descobre suas próprias regras. As organizações mais exitosas procuram a inovação porque aderem intimamente ao futuro. Desligam-se mais facilmente do passado: seus gestores e funcionários deixam-se vulneráveis a críticas e ao aprendizado. Buscam a inovação como forma de desenvolvimento e não como um mero aperfeiçoamento de suas práticas passadas. Mantêm-se em mudança permanente, praticando suas habilidades de produzir e incorporar a novidade. A inovação tornou-se a força básica da organização e o cotidiano de seus gerentes e funcionários. 3.5 EMPREENDEDORES: DEFINIÇÕES E CARACTERÍSTICAS Conforme já mencionado no texto, o mundo vem passando por um processo contínuo de inovações. Por trás dessas ideias inovadoras, existem pessoas ou equipes com características especiais: são visionárias, questionam, arriscam, querem algo diferente, fazem acontecer, empreendem. O momento atual pode ser chamado da era do empreendedorismo, pois são os empreendedores que estão eliminando as barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, globalizando e renovando os conceitos econômicos, criando novas relações de trabalho e novos empregos, quebrando paradigmas e gerando riqueza para a sociedade. A palavra empreendedor (entrepreneur) tem origem francesa e quer dizer aquele que assume riscos e começa algo novo. Para J. Schumpeter (1949) a definição para o termo é: “empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais”. De acordo com Schumpeter, o empreendedor é mais conhecido como aquele que cria novos negócios, mas pode também inovar dentro de negócios já existentes; ou seja, é possível ser empreendedor dentro de organizações que já existam. FGV DIREITO RIO 94 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O empreendedor de sucesso possui características extras, além dos atributos de gestor, como por exemplo: • são visionários e tem capacidade de implementar seus sonhos; • sabem tomar decisões corretas na hora certa e, principalmente, nos momentos de adversidade; • transformam algo abstrato em concreto; e agregam valor ao seu serviço; • sabem identificar e explorar ao máximo as oportunidades; • são determinados e dinâmicos (fazem acontecer); • são dedicados e comprometidos; • são otimistas e apaixonados pelo que fazem (sempre enxergam o sucesso); • são independentes e constroem seu próprio destino; • acreditam que o dinheiro é consequuência do sucesso do negócio; • são líderes e formadores de equipe; • são bem relacionados (rede de contatos); • são organizados (otimizam os recursos materiais, humanos, tecnológicos e financeiros); • planejam cada passo do negócio; • possuem conhecimento; • assumem riscos calculados e sabem gerenciar o risco, avaliando as chances de sucesso; • criam valor para a sociedade (geram empregos, dinamizam a economia, buscam soluções para melhorar a vida das pessoas) 3.6 IDENTIFICANDO OPORTUNIDADES Para as organizações, o importante não é a criatividade em geral, mas a criatividade aplicada à gestão; interessa não tanto a genialidade de poucos, mas a criatividade de muitos, ou as condições para as pessoas se realizarem por meio da utilização de seus talentos criativos. Em termos de gestão, a criatividade significa alcançar uma nova visão da organização e originalidade em seus produtos, serviços, processos de trabalho e tecnologias. Não se trata de construir algo extemporâneo e fora da realidade, mas uma imagem nova, realista, compreensível e comunicável. Há invenções que aconteceram, mas que não foram utilizadas: um exemplo é o moinho d’água, que foi inventado no século I a.C., mas não foi utilizado. Na época do imperador Vespasiano, o Capitólio pegou fogo, e um cidadão, ao apresentar ao imperador um projeto de roldanas e correias para transportar as pedras necessárias à reconstrução, obtém como resposta do imperador: “Compro, desde que você não o divulgue. Senão, o que farão as pessoas que ficarem sem trabalho?”. FGV DIREITO RIO 95 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS A seguir, algumas invenções e conquistas do Século XX, segundo José Carlos Assis Dornelas em seu livro “Empreendedorismo, transformando ideias em negócios”: 1903 – avião motorizado 1915 – teoria geral da relatividade de Einstein 1923 – aparelho televisor 1928 – penicilina 1937 – nylon 1943 – computador 1945 – bomba atômica 1947 – descoberta da estrutura do DNA 1957 – Sputnik, o primeiro satélite 1958 – laser 1962 – o homem vai ao espaço 1967 – transplante do coração 1969 – o homem chega à Lua; início da internet, Boeing 747 1970 – microprocessador 1989 – World Wide Web 1993 – clonagem dos embriões humanos 1997 – primeiro animal clonado: a ovelha Dolly 2000 – sequenciamento do genoma humano Um dos maiores mitos a respeito de novas ideias de negócios é que elas devam ser únicas. O fato de uma ideia ser ou não única não importa. O que importa é como o empreendedor utiliza sua ideia, inédita ou não, de forma a transformá-la em um produto ou serviço que faça sua empresa crescer. As oportunidades é que geralmente são únicas. É comum se ouvir: a minha ideia é revolucionária, meu produto é único e não possui concorrentes, mas não posso falar do que se trata....Esse é um grande equívoco, pois ideias revolucionárias são raras, produtos únicos não existem e concorrentes com certeza existirão. É importante que o empreendedor teste sua ideia com seus clientes/usuários em potencial, conheça a opinião de pessoas mais experientes, antes que a paixão pela ideia cegue a visão analítica do projeto. Uma ideia sozinha não vale nada. Em uma organização as ideias surgem a todo o momento e o que importa é saber desenvolvê-las e implementá-las. Em resumo: • é importante que o empreendedor teste sua ideia junto a clientes/ usuários em potencial ou empreendedores mais experientes, antes que a paixão pela ideia cegue sua visão do negócio. FGV DIREITO RIO 96 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • o que conta não é ser o primeiro a ter uma ideia revolucionária, mas sim o primeiro a identificar uma necessidade de mercado e saber como atendê-la, antes que outros o façam. • ideia certa no momento errado. • a experiência no ramo como diferencial. • informação é a base de novas ideias. • identificar uma nova oportunidade pode não ser fácil. FGV DIREITO RIO 97 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 6. FERRAMENTAS PARA PRIORIZAÇÃO DE IDEIAS E SOLUÇÃO DE PROBLEMAS 6.1 A LÓGICA DA ORGANIZAÇÃO DOS ASSUNTOS DESSE CAPÍTULO Será muito útil dispor de ferramentas gerenciais capazes de nos habilitar, facilitar e sustentar o aprimoramento contínuo dos processos de trabalho. O nosso objetivo limita-se a prover uma visão macro sobre as ferramentas que permitem a análise e melhoria da organização, ou seja, apresentar uma visão preliminar, porém tão abrangente quanto possível. A operacionalização de cada uma dessas ferramentas (e de qualquer outra, dentre as várias existentes!) deverá ser devidamente suportada pela bibliografia específica. Este tópico de Ferramentas está organizado da seguinte forma: a) apresentação da Metodologia fundamental da qualidade, o Ciclo P-D-C-A. Apesar da sua simplicidade de compreensão e de aplicação, optamos por inserir o Ciclo P-D-C-A nesta apostila, face à sua fundamental importância para o pensamento filosófico necessário aos processos de melhoria contínua, que é um dos nossos objetivos permanentes (“a qualidade é uma corrida sem linha de chegada”). b) apresentação de uma metodologia básica para a identificação, análise e solução de problemas. Em todas as situações de melhoria de processos, estaremos diante de um novo problema. Se ele tiver tratamento bem estruturado, aumentaremos a chance de obter eficiência e eficácia na sua solução. Para cumprir esse intento, nada melhor do que uma boa metodologia de suporte. c) apresentação sumária de algumas das ferramentas mais simples e conhecidas para a melhoria de processos. A maioria das ferramentas apresentadas teve origem na escola japonesa, potencializada ao final da década de 1940, com a participação dos especialistas americanos, que auxiliaram os japoneses no pós-guerra, no bojo do Plano Marshall. Estas ferramentas são aqui apresentadas com pequenas adaptações, que nos pareceram necessárias para facilitar a compreensão e ajustá-las à nossa realidade. 6.2 A NECESSIDADE DE UTILIZAR SOLUÇÕES ESTRUTURADAS PARA A ANÁLISE DE PROBLEMAS Tradicionalmente, tanto nas organizações industriais quanto naquelas de serviços, muito dos problemas complexos, quase sempre eram tarefas atribuídas aos Gerentes. As pessoas que não exerciam cargos gerenciais eram consideradas ape- FGV DIREITO RIO 98 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS nas “braços” (mão-de-obra) e não seres inteligentes, capazes de resolver problemas (“cabeça-de-obra”). Este paradigma vem sendo paulatinamente quebrado pelo desenvolvimento da tecnologia da informação. (Por que isto acontecia e continua acontecendo em muitas empresas, usualmente com gestões mais retrógradas?). Particularmente nas empresas de serviços, não mais os gerentes lidam com os clientes, mas sim os funcionários da base, que têm de estar preparados para solucionar as demandas dos clientes, que surgem ininterruptamente. Em consequuência, as empresas pró-ativas têm compreendido que precisam estimular os cérebros de todos os seus funcionários, como forma inteligente (e talvez única) de serem mais competitivas. Afinal de contas, é um insano desperdício manter tantos cérebros ociosos. É inevitável que as pessoas e as organizações tenham problemas (só na paz do cemitério uma pessoa deixa de ter problemas a solucionar). Neste texto, definiremos problema como qualquer situação diferente daquela desejável. Usualmente, a solução dos problemas é algo complexa e, por isto, exige mais do que as providências triviais da rotina estabelecida. São exemplos de problemas: um pneu furado, uma dor de cabeça, qualquer falha da qualidade de um produto ou de um serviço, clientes insatisfeitos, prejuízo nos negócios, “não ter problemas”, e outros. A criação de um ambiente organizacional favorável à solução racional de problemas recomenda promover três tipos de recursos: • recursos humanos treinados, sinceramente interessados e compromissados em dar a sua participação ao negócio; • metodologias de trabalho; • infraestrutura adequada, em termos de instalações, ferramentas e equipamentos. Nesse contexto, metodologia é entendida como uma sequuência de ações planejadas e lógicas, destinadas a facilitar uma solução aceitável para o problema apresentado. Observemos que a cultura brasileira é refratária à adoção de metodologias para a solução dos problemas. Usualmente as soluções propostas são do tipo “bate-pronto” ou “vapt-vupt”. Treinar o uso disciplinado de metodologias, além de ser uma necessidade óbvia, exige superar um mau hábito da nossa cultura. Além da metodologia, a solução de um problema requer o uso de infraestrutura apropriada. Deste último recurso, enfatizamos a importância de se dispor de ferramentas gerenciais adequadas, que poderão em muito facilitar a obtenção de resultados com eficiência e com eficácia. Nossa sugestão é de utilizar a habilidade para trilharmos um bom caminho de forma a alcançar o objetivo (solucionar o problema), combinando a metodologia e as ferramentas ou recursos. Isso permite otimizar o aproveitamento da equipe disponível. FGV DIREITO RIO 99 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 6.3 SÍNTESE DA APLICAÇÃO DAS FERRAMENTAS Focalizando o nosso trabalho de análise e melhoria, após coletar os dados sobre um processo, usualmente estaremos diante de um problema que precisa ter uma solução eficiente e eficaz. A sequuência de atividades para a análise e a solução do problema deve ter um método, capaz de organizar o planejamento e a solução desse problema. Qualquer que seja a situação, há pelo menos três ferramentas de uso indispensável à grande maioria das situações. São elas: • Brainstorming (Tempestade Cerebral), na medida em que facilita e estimula a troca de ideias e a formulação de sugestões para o problema identificado (democratiza a solução); • Diagrama de Causa e Efeito: para estabelecer as relações de causa e efeito; • Pareto: para priorizar as ações, na medida em que os recursos são usualmente escassos enquanto as demandas, por natureza, são ilimitadas. Quanto mais complicado ou complexo for o problema, maior será a demanda por alternativas de ferramentas mais completas, complexas e específicas para a situação. Quando o processo em questão permitir a obtenção de dados para as análises, em geral as respectivas soluções serão mais objetivas e mais consistentes, uma vez que estaremos eliminando a subjetividade que, de outra forma, sempre estará presente, induzindo a riscos intrínsecos de desvios. Embora não seja uma prática comum às pessoas que trabalham com gestão de processos, analisar e decidir sobre dados é uma necessidade inquestionável para análise e melhoria de processos. E, para tanto, é indispensável que os processos tenham as suas medidas, os seus indicadores de desempenho. 6.4 O CICLO P-D-C-A Logo após o advento da administração científica (Frederick Taylor e Henri Fayol, por volta de 1916), na busca de soluções mais estruturadas, alguns teóricos começaram a desenvolver ferramentas de natureza mais objetivas, percebendo a possibilidade de aplicação da estatística na administração organizacional. Na década de 30, o professor e estatístico americano Walter Shewhart postulou em seus estudos a necessidade de que os administradores utilizassem no seu trabalho o ciclo Specify-Product-Inspect, isto é, Especificar-FazerInspecionar27. Um dos alunos de Shewhart, W.E. Deming, que se tornou famoso por orientar o desenvolvimento da qualidade japonesa no pós-guerra, complementou o ciclo de Shewhart, agregando mais uma fase, assim postulando o ciclo P-D-C-A, iniciais das palavras inglesas Plan (planejar), Do (fazer), Control (controlar, verificar) e Action (Atuar corretivamente). O ciclo 27 Processo similar ao método de investigação científica: hipótese, experimento e teste da hipótese. FGV DIREITO RIO 100 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS P-D-C-A pode ser considerado como o método mais geral para trabalharmos com qualidade, podendo ser resumido como: P Planejar o trabalho a ser realizado D Fazer o trabalho planejado C Medir ou avaliar o que foi feito, assim identificando a diferença entre o que foi feito, em relação ao que foi planejado A Atuar corretivamente sobre a diferença identificada. A atuação corretiva pode ser feita sobre o que foi feito (retrabalho, reparo etc.) ou sobre o planejamento Com este detalhamento, o ciclo P-D-C-A é representado pela seguinte figura: etiv o Ciclo P-D-C-A Atuar corretivamente Def inir obj A Medir/ Avaliar/ Comparar e Ex m ir fin P ét o od cu s urso De r rec i n i f De Ed uc ar et rei na r r ta C D Figura 26 – Ciclo P-D-C-A Fazer qualidade é girar continuamente o ciclo P-D-C-A. É o caminho mais seguro, racional e barato para executar os processos da nossa vida prática. O que, provavelmente, motivou Shewart e Deming a desenvolverem o ciclo PDCA? Arriscamos uma resposta bastante simples: a busca da lógica para fazer certo desde a primeira vez. Senão, vejamos: • se vamos fazer alguma coisa, primeiro temos de planejá-la previamente - fase P. • quando a executamos, temos de fazê-lo de forma organizada, previsível, seguindo o que foi planejado - fase D; FGV DIREITO RIO 101 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • durante e após a execução, temos de medir, avaliar e comparar, para nos certificarmos de que o que estamos fazendo está conforme com o que foi planejado - fase C; • se percebermos qualquer diferença entre o que foi executado e o que foi planejado, devemos agir corretivamente, seja sobre o planejamento seja sobre o que foi realizado - fase A. Quando temos a cabeça organizada segundo o ciclo PDCA, as chances de erros ficam sensivelmente reduzidas. Todavia, seria um exagero esperar que, para cada processo, fôssemos elaborar cuidadosamente um ciclo PDCA. O essencial, entretanto, é termos a cabeça organizada para trabalhar com previsão, planejamento e eficácia. Para disciplinar-se no uso do P-D-C-A, é interessante refletir sobre duas questões: a) convencer-se de que é melhor trabalhar com planejamento; b) compreender que, mesmo as tarefas mais simples, requerem algum tipo de planejamento, ainda que não escrito ou documentado. Um outro ponto-chave sobre o PDCA é que não há limites ou regras de abrangência para sua aplicação. Assim, durante a elaboração da fase planejamento, temos a necessidade de girar o PDCA completo, correspondente a esta fase. É como se em cada atividade o PDCA fizesse parte dela e ao mesmo tempo coordena o todo desta atividade (é um P-D-C-A mais específico dentro do P-D-C-A mais geral). Na realidade, em todos os processos e subprocessos, teremos de ter a cabeça voltada para girar o PDCA. Girar o PDCA continuamente é a fórmula para obtenção dos melhores resultados. Observemos a figura para esclarecer este conceito: 6.5 BRAINSTORMING Brainstorming é uma palavra da língua inglesa que pode ser traduzida como “tempestade cerebral”. Face ao uso consagrado da palavra original, bem como pela imprecisão do significado da tradução, manteremos a expressão original. Brainstorming é uma técnica de criatividade em grupo, na qual se busca a geração de ideias que, isoladamente ou associadas, estimulem novas ideias e subsídios direcionados à solução parcial ou total de um problema. O Brainstorming requer uma condução competente para gerar bons resultados, uma vez que é, essencialmente, um processo de forte conteúdo introspectivo e emocional. Para organizar e registrar as ideias, o Brainstorming pode e deve ser documentado mediante alguma das ferramentas de relacionamento (Ishikawa) ou de priorização (Pareto). FGV DIREITO RIO 102 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Dentre as várias técnicas derivadas da ideia inicial de Alex F. Osborn - que formalizou o Braisntorming - duas são citadas: • Braisntorming aberto; • Brainwriting (Brainstorming escrito); • Brainstorming com recuperação. O Brainstorming aberto consiste na reunião de um grupo (2 a 8 pessoas, como sugestão), lideradas por um dos participantes (facilitador), que terá a tarefa de conectar positivamente os membros do grupo. No caso, conectar quer dizer obter a participação voluntária e ampla de todos os membros do grupo, e organizar as ideias, de forma que haja ao final do exercício um resultado positivo e sinérgico. Neste tipo de sessão aberta, apenas o líder documenta o processo, utilizando datashow, quadro negro, quadro magnético ou flipchart. Lançado o problema para discussão, cada participante, com igual oportunidade, apresenta uma ideia. As ideias, que podem ser isoladas ou serem derivadas de outras já apresentadas, vão sendo registradas e organizadas pelo facilitador. Ao final do exercício, o próprio grupo repassa as ideias apresentadas e faz uma filtragem, tentando montar uma estrutura lógica, mediante a conexão das ideias análogas e formando uma árvore de ideias para a solução pretendida. Para auxiliar a montagem da árvore de ideias, pode ser utilizada uma das seguintes ferramentas de apoio: o Diagrama de Ishikawa, ou o Diagrama de Afinidades. No Brainstorming aberto cabe ao facilitador: Condição Finalidade Manter clima favorável às sugestões: Para que os participantes sintam-se estimulados a dar sugestões. Eles devem estar à vontade e desafiados para o exercício Manter dinanismo e objetividade das sugestões O dinamismo é essencial para manter as pessoas estimuladas sobre o assunto apreciado. Se o exercício for arrastado, logo o grupo perde o interesse. Assegurar a mesma oportunidade para todos Os mais tímidos devem ser estimulados e os mais impulsivos contidos, sem ferir as pessoas. Assegurar respeito por todas as ideias (nunca criticar) Mesmo as ideias aparentemente desconexas inicialmente podem tornar-se muito úteis num outro nível de consideração. As críticas e brincadeiras de mau gosto devem ser abolidas. Só terminar o processo com a exaustão do Grupo O grupo não pode limitar-se às primeiras investidas do entusiasmo. É necessário aprofundar e, enquanto houver perspectivas de novas ideias, o processo deve continuar. FGV DIREITO RIO 103 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS O Brainwriting (criatividade reflexiva) consiste na reunião de grupos de pessoas, nos quais as ideias serão escritas em folhas de papel, sem qualquer comentário oral. Um dos tipos mais aplicados é o tipo 6-3-5, que tem o seguinte significado: • 6 → grupo formado por cerca de seis pessoas; • 3 → inicialmente cada participante coloca três ideias na sua folha, passando um traço abaixo; • 5 → as folhas são passadas em rodízio de cada participante para o vizinho (à esquerda ou à direita), sempre no mesmo sentido, por cinco vezes e no mesmo instante em cada rodízio, até que a folha original de cada um retorne à sua mão. Em cada um dos rodízios, cada participante lê as ideias escritas nas folhas que recebe, e tenta, mediante a interação de suas ideias com as dos outros, encontrar mais alternativas para a solução do problema proposto. Registra essas ideias abaixo do último traço, faz um novo traço abaixo da última ideia e passa a folha adiante. Após o término dos rodízios, o processo de filtragem e organização das ideias é similar ao descrito para o Brainstorming aberto. No Brainstorming com Recuperação, a sessão é interrompida quando o grupo manifestar cansaço. A sessão é retomada algum tempo depois, após o amadurecimento das ideias da primeira sessão. O Brainstorming aberto é mais rico em interações, mais rápido e mais animado, mas pode ser muito tumultuado, se não houver uma boa condução. Em contrapartida, o Brainwriting é mais cansativo, frio e lento. Tem, porém, mais facilidade de organização e profundidade de elaboração. O quadro a seguir resume as características das três variações apresentadas: Tipo de Brainstormig Vantagem Desvantagem Aberto riqueza de interações desorganização Brainwriting organização lento/fatigante Com Recuperação aprofundamento perda de “pegada” (punch) 6.6 DIAGRAMAS DE CAUSA E EFEITO Quando tratamos especificamente de processos, definimos produto como o resultado de um processo. O processo é causa, enquanto o produto é efeito ou consequuência. Neste momento, modificaremos ligeiramente tal conceito, para que ele também se enquadre no contexto mais geral que queremos abordar: separar FGV DIREITO RIO 104 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS o ambiente em que vivemos em apenas causas e efeitos. Esta interpretação é bastante útil quando estamos interessados em identificar e solucionar problemas. A separação em causas (antecedentes) e efeitos (consequuentes) nos permitirá um ótimo arranjo para a análise pretendida. Imaginemos, portanto que o nosso ambiente de análise esteja dividido entre essas duas regiões: • região das causas (os fatores e as condições originais da transformação ou processo, que antecedem o efeito); • região dos efeitos (a consequuência dos processos, isto é, os produtos das combinações e interação das causas). Região das causas Deste lado do ambiente estarão as causas originais, os motivadores (drivers), os insumos, as demais restrições e os controles reguladores da transformação que estamos observando. Região dos efeitos Deste lado do ambiente estará o resultado – produto – resultante da transformação obtida pela combinação do conjunto de causas originais. Figura 27 – Diagrama de causa e efeito Esse arranjo idealizado foi utilizado por Kaoru Ishikawa28 para estabelecer a ferramenta Diagrama de Causa e Efeito, assim supondo que existirá sempre uma relação de causa e de efeito direta em todas as transformações de nosso interesse direto. O conceito é bastante próximo da realidade, em relação aos assuntos de nosso interesse mais direto, isto é, a gestão das organizações e, mais especificamente, em relação aos problemas de análise e melhoria de processos. Por esta teoria, tudo o que ocorre como efeito, tem uma explicação causal. Para modificar o efeito, seja para melhorar ou piorá-lo, teremos de alterar o conjunto de causas. Os Diagramas de Causas e Efeito são também conhecidos pelos nomes de Diagramas de Espinhas de Peixe, Diagramas de Ishikawa ou apenas Ishikawa. Se tivermos problemas no resultado, é porque alguma das nossas causas originais, ou uma combinação delas, não estará sendo apropriada aos nossos intentos e precisa ser corrigida. Para solucionar os problemas, no entanto, é fundamental conhecer-lhes quais são as causas geradoras desses problemas. Enquanto elas estiverem presentes nos processos (como fatores intrínsecos), é meramente uma questão de probabilidade a ocorrência daquela natureza de problemas ou efeitos. O que se pode afiançar é que, em algum momento, eles irão ocorrer. 28 Kaouru Ishikawa, engenheiro japonês, reconhecido como um dos maiores pensadores da qualidade. FGV DIREITO RIO 105 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS Por exemplo, se em um ambiente de trabalho registrarmos a presença de condições inseguras ou de atos inseguros, é meramente uma questão de probabilidade (“coincidência”) ocorrer algum acidente de trabalho. Com base nesses argumentos racionais, são elaborados os parâmetros do cálculo atuarial (aposentaria, seguros, indenizações etc.). Dentre as inúmeras vantagens de utilizar os Diagramas de Causa e Efeito, evidencia-se as seguintes: • possibilidade de mostrar graficamente todos os fatores contribuintes e suas relações; • possibilidade de identificar as áreas problemas, onde os dados devem ser coletados e analisados. Kaoru Ishikawa propôs ainda algumas variações muito simples, úteis e práticas de Diagramas de Causa e Efeito, que são específicos para algumas finalidades mais comuns. Destaca-se, dos tipos mais conhecidos, três variações que são muito úteis para a identificação, análise e solução de problemas: • Diagrama de Causa e Efeito Convencional; • Diagrama de 4M. a) Diagrama de Causa e Efeito Convencional: Para demonstrar a construção deste diagrama, consideremos a análise de um problema que pode acontecer a todos nós: o motor do carro não pega. Observemos que as causas do exemplo foram organizadas nos seus subsistemas lógicos (ou módulos), específicos da engenharia de um motor de automóvel. CA U SAS D efeito no subsistema mecânico EFEITO Falha no subsistema humano M OT OR N ÃO P E G A Filtro entupido F alta de combustível Tubulaç ão amas sada Bomba def eituos a Bico injetor def eituos o Defeito no subsistem a de alimentação Defeito no subsistema elétrico Figura 28 – Diagrama de causa e efeito convencional FGV DIREITO RIO 106 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS No exemplo, detalhamos apenas o subsistema de alimentação (combustível). Evidentemente, todos os outros poderiam ser detalhados, até que permitissem a solução do problema, ou seja, o motor funcionar. Uma dica muito útil para tirar proveito desta ferramenta é procurar organizar as causas dos problemas nos seus subsistemas e sistemas lógicos de funcionamento. Assim, esta prática auxiliará a organização das causas, estruturando a análise para a solução desejada. b) Diagrama de Causa e Efeito de 4M29: Este diagrama é muito semelhante ao anterior e bastante aplicado ao estudo das causas de defeitos em sistemas complexos ou modulares. Considera-se que as causas dos defeitos podem ter quatro possíveis origens: mão de obra (man), método (method), máquina (machine) e material (material). Entre parênteses estão as quatro palavras inglesas que deram origem ao nome da ferramenta. Para demonstrar a construção deste diagrama, considere o seguinte exemplo de problema: “água engarrafada contaminada”. Como no exemplo anterior, apenas o subsistema “material” foi desdobrado. CAUSAS Manunseio incorreto Mão-de-obra EFEITO Equipamentos contaminados Máquina ÁGUA ENGARRAFADA CONTAMINADA Garrafa tampa água Material contaminado Material Processo provoca contaminação Método 29 Figura 29 – Diagrama de causa e efeito 4M Posteriormente à formulação original, foram propostos vários outros “M”: Manager (gerente), Meio Ambiente, Money (recursos) etc. Qualquer enriquecimento pode ser útil, desde que não se perca a simplicidade e a eficácia da ferramenta. FGV DIREITO RIO 107 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 6.7 PARETO Priorizar as ações e decisões para a aplicação de recursos é vital para a gestão eficiente e eficaz. Observando a natureza, a aguda sensibilidade matemática de Vilfredo Pareto30 estabeleceu o “princípio” ou Regra 80-20, também conhecida como trivial many / vital few (maiorias triviais / minorias essenciais) bastante aplicada na administração (por exemplo, curva ABC de estoques) e na economia. Em síntese, a Regra 80-20 agrupa as causas dos problemas e as suas respectivas consequuências em duas grandes famílias: • 80% de causas triviais respondem por cerca de apenas 20% dos resultados mais significativos; • 20% de causas essenciais respondem por 80% dos resultados mais importantes. Um outro fato, evidenciado pela experiência, é que quando se ataca com eficácia o problema prioritário, o Pareto da situação seguinte mostra claramente que há uma substancial redução nos níveis de problemas causados pelos demais fatores. Isso tem uma explicação racional, consequuência de se colocar “ordem na casa”. Todos passam a ter mais atenção com os seus afazeres, inclusive aqueles que já vinham trabalhando com bom desempenho; Solucionado o primeiro ciclo, coletamos os dados da nova situação e refazemos o novo Pareto. O resultado, em geral, é encorajador. O ciclo se repete, até que alcancemos os objetivos traçados. 6.8 GUT A priorização de ações é uma das necessidades básicas em qualquer atividade, independentemente de sua natureza (técnica, administrativa, social, política etc.). Como se diz, bem administrar é priorizar com inteligência. As ações consomem mais ou menos recursos, mas sempre os consomem. Por outro lado, recursos são sempre escassos ou limitados. Saber priorizar é uma das bases da gerência eficaz. Quando os dados são quantificáveis, o método de priorização mais indicado é o Método de Pareto. Todavia, nem sempre é possível coletar dados objetivamente quantificáveis; quando isso acontece, o Método de Pareto não pode ser aplicado diretamente. Neste caso – quando não temos dados quantificáveis - o método GUT pode ser uma boa ferramenta para auxiliar a priorização das ações. GUT é a abreviatura das palavras-chave do método, com o seguinte significado: 30 Vilfredo Pareto (1848-1923), economista e sociólogo italiano. FGV DIREITO RIO 108 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS • G (Gravidade) → refere-se ao custo, o quanto se perderia (em dinheiro ou outra base quantitativa), pelo fato de não se tomar uma ação para solucionar um problema; • U (Urgência) → refere-se ao prazo em que é necessário agir para evitar o dano; • T (Tendência) → refere-se à tendência ou à propensão que o problema poderá assumir no futuro breve, se a ação não for tomada. As grandes tendências possíveis podem ser: estabilidade, agravamento ou atenuação dos efeitos do problema, supondo que nada seja feito. Especificamente com relação à tendência, os problemas podem agravar-se (p.ex.: paciente com infecção), podem manter-se estáveis (p.ex.: demandas salariais “crônicas”) e podem atenuar-se (p.ex.: questões de natureza emocional, que tendem a se arrefecer com o tempo). A filosofia do GUT é atribuir valores numéricos (pesos) de 1 a 5 para as variáveis “G”, “U” e “T”, aplicadas a cada uma das ações listadas, e tomar o produto como a ponderação relativa da ação. O método GUT deve ser desenvolvido em grupo, sendo os pesos atribuídos por consenso. Consenso é a concordância obtida a partir de argumentação lógica. Uma vez obtidas as notas, as ações são organizadas em ordem decrescente do grau final resultante (produto G x U x T). Se duas ou mais ações receberem o mesmo grau, o desempate pode ser feito pela consideração relativa de um novo GUT, agora apenas com as ações empatadas. Exemplo: Priorização dos itens de manutenção de um automóvel: Descrição do Fator G U T G x U xT Priorização Pneu careca 5 5 4 100 1o Para-lama amassado 2 2 2 8 6o Luz de freio não acende (*) 3 5 2 30 4o Vazamento no freio 4 3 5 60 2o Estofamento rasgado 2 1 1 2 7o Luz do painel queimada (*) 3 4 1 12 5o Retomada do motor engasgada 4 3 4 48 3o (*) Observar que a luz do freio é um importante alerta para evitar colisão traseira e a luz do painel é importante para ler os instrumentos do painel (indicadores) durante a noite. FGV DIREITO RIO 109 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 6.9 A FERRAMENTA 5W-2H O conhecido escritor inglês Rudyard Kippling, em seu livro The Elephant’s Child (1902), formulou o primeiro texto31 sobre a ferramenta hoje conhecida como 5W-1H, excelente e simples para esquematizar o planejamento primário de ações. 5W-1H são as letras iniciais das palavras inglesas definidoras dos requisitos de planejamento para a realização de uma atividade ou ação qualquer, levando em conta os fatores essenciais de análise. Também neste caso, optamos por manter a simbologia original, face à grande aceitação como esta ferramenta foi inicialmente estabelecida. Com a popularização de uso do 5W-1H, a ferramenta foi ampliada para considerar um requisito de custo, tornando-se 5W-2H. O fator incluído – quanto custa – é indispensável para o planejamento de atividades que tenham implicações de custo ou orçamento. O quadro a seguir detalha o significado de 5W-2H: Inicial da palavra Finalidade Inglês Português What O que Especificar o que será feito Who Quem Especificar o responsável para executar ou coordenar a ação Where Onde Especificar o local onde será executada a ação ou a sua abrangência When Quando Especificar o prazo para executar a ação Why Porque Explicar a razão pela qual a ação deve ser feita How Como Especificar a forma pela qual (método) a ação deverá ser feita How much Quanto custa Prover informações sobre o custo (orçamento) necessário para executar a ação As ferramentas 5W-1H e 5W-2H são amplamente utilizadas em várias atividades cotidianas, como um check-list de verificação da completude de ações. Por exemplo, na atividade jornalística, o 5W-1H é intensamente usado como verificação da consistência de uma matéria, antes de publicá-la. Também na condução de reuniões, as ferramentas 5W-1H ou 5W-2H são poderosos auxiliares para proporcionar objetividade e rapidez na obtenção de solução de problemas e, em consequuência, de resultados. Essas ferramentas permitem estabelecer tarefas e responsabilidades específicas para os eventos planejados, evitando que as reuniões fiquem apenas no campo das ideias e das intenções, como é frequuente quando não há eficácia de condução. O uso dessas ferramentas na análise e melhoria de processos de trabalho, bem como na gestão em geral, é extremamente útil e recomendado 31 “I keep six honest serving men / (They taught me all I knew); / Their names are What and Why and When / And How and Where and Who.” FGV DIREITO RIO 110 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS 7. BIBLIOGRAFIA DAVENPORT, Thomas H. Reengenharia de processos, Rio de Janeiro, Campus, 1994. DORNELAS, José Carlos Assis. 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FGV DIREITO RIO 111 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS MARIA ELISA BASTOS MACIEIRA [email protected] Mestre em Administração pela EBAP/Fundação Getulio Vargas. Administradora pela EBAP/FGV. Coautora do Livro: “O Processo Nosso de Cada Dia: Modelagem de Processos de Trabalho”. Coautora do Livro “A Reforma do Poder Judiciário no Estado do Rio de Janeiro”. Autora do Curso “Gestão do Poder Judiciário” da FGV Online. Professora do MBA e Mestrado Profissionalizante da FGV-Direito; do MBA de Gestão Empresarial da FGV Management; do MBA em Administração Judiciária da FGV; UFF/Universidade da Força Aérea. Especialista em Modelagem de Processos, Certificação ISO 9000:2000, Sistemas de Documentação e Planejamento Estratégico. Já realizou trabalhos nas seguintes Instituições: Conselho de Contribuintes do Estado do Rio de Janeiro, MEK Engenharia e Consultoria SA, Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região, Ministério Público do Rio de Janeiro, Chocolates Garoto, FURNAS, ANVISA, Programa Delegacia Legal/Polícia Civil do RJ, SMTU, FLUMITRENS, DETRAN/RJ, IPLAN/RIO, DETRO/RJ, Ministério da Saúde, SNEA, Generali Seguros, Stolt Comex, FININVEST. Ministrou treinamento para as seguintes Instituições: TRF/4ª Região, TJMG, TJRO, TJMT, TJBA, TJRS, TRE/MT, TJMA, TRE/ES, TJRN , TRT/ GO, TRT/SC, ESAD, TRE/DF, TCU, Prefeitura de Joinville, Prefeitura do RJ, Vale do Rio Doce, SENAI/GO, SEBRAE/RO, entre outras. FGV DIREITO RIO 112 GESTÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA DAS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS PÚBLICAS FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR DA GRADUAÇÃO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO Luiz Roberto Ayoub PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Ronaldo Lemos COORDENADOR CENTRO DE TECNOLOGIA E SOCIEDADE Evandro Menezes de Carvalho COORDENADOR DA GRADUAÇÃO Rogério Barcelos Alves COORDENADOR DE METODOLOGIA E MATERIAL DIDÁTICO Paula Spieler COORDENADORA DE ATIVIDADES COMPLEMENTARES Daniela Silva Fontoura de Barcellos COORDENADORA DE TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral COORDENADORES DO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA Wania Torres COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO Diogo Pinheiro COORDENADOR DE FINANÇAS Milena Brant COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO FGV DIREITO RIO 113